POLUIÇÃO NA BACIA DO RIO SANTO ANASTÁCIO (PRESIDENTE PRUDENTE – SÃO PAULO) Encarnita Salas Martin – Universidade Estadual Paulista – UNESP – Câmpus de Presidente Prudente e-mail: [email protected] ABSTRACT In this study it has been done an approach of the principal economics schools which have been supported the environmental economics. It was done a survey of water pollution in the Rio Santo Anastácio basin and its economic value. Rio Santo Anastácio Basin is located in the western of São Paulo state and it is constituted by 12 municipalities. It was organized a historical serie of water analysis made by CETESB (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) in 6 sample points along the river in the period of 1986 to 1998. The parameters used are: DO (Disolved Oxygen, BOD (Biochemical Oxygen Demand), COD (Chemical Oxygen Demand) and Total and Fecal Coliforms. The informations showed a spatial and a temporal variation of pollution along the river. It was posible verify that the river doesn’t have enough capacity to dilute and to assimilate the great organic pollution charge which is throwed continuously in its waters. It was done a survey of the principal industrial pollution sources in Presidente Prudente which was used to calculate the economic value of water pollution. RESUMO Neste trabalho faz-se inicialmente uma abordagem das principais escolas econômicas responsáveis pela consolidação da economia ambiental e particularmente dos aspectos econômicos ligados à poluição dos recursos hídricos. Foi feito um levantamento da poluição da água na bacia do Rio Santo Anastácio (região Oeste do Estado de São Paulo) e aplica-se uma metodologia de valoração dessa poluição. INTRODUÇÃO A degradação generalizada dos cursos d’água que atravessam áreas mais urbanizadas, tem levado à falta de mananciais artificiais a serem utilizados para usos que exijam uma qualidade mínima da água. O Rio Santo Anastácio é responsável por cerca de 75% do abastecimento público urbano de Presidente Prudente e vem apresentando problemas severos de poluição e assoreamento, o que é agravado por suas baixas vazões médias. Outras alternativas de mananciais têm sido buscadas ao longo dos últimos anos, mas todas apresentaram algum tipo de problema, o que faz com que a recuperação do Rio Santo Anastácio se configure como a única maneira para se resolver o problema de uma forma definitiva. Por esses fatos, avaliar o nível de poluição e destacar suas principais fontes é importante para que possa pensar, concretamente, nas medidas a serem tomadas. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Foi organizada uma série histórica de análises de amostras de água coletadas pela CETESB (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental), em 6 pontos localizados no curso principal do rio, durante o período de 1986 a 1998. Os parâmetros utilizados são: OD (oxigênio Dissolvido), DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio), DQO (Demanda Química de Oxigênio) e Coliformes Totais e Fecais. Através da elaboração e análise de gráficos, foi feita a avaliação da variação temporal e espacial da poluição ao longo do rio. A partir dos dados de poluição obtidos, aplicou-se uma metodologia de cobrança que permite que se chegue a valores monetários da carga de poluição emitida por cada fonte industrial. A BACIA DO RIO SANTO ANASTÁCIO A bacia do Rio Santo Anastácio está localizada no oeste do Estado de São Paulo e sua área de drenagem é de 1.965 Km2 . O curso principal do Rio apresenta 155 Km de extensão e deságua na margem esquerda do Rio Paraná, no município de Presidente Epitácio (CETESB, 1991). A população que vive na área da Bacia do Rio Santo Anastácio é, atualmente, de aproximadamente 400 mil habitantes (população rural e urbana). A atividade predominante é a pecuária extensiva, o que faz com que cerca de 75% da área da bacia venha sendo utilizada para pastagens. Quanto à área cultivada - cerca de 10% - há predominância de cana de açúcar, cultivos anuais e fruticultura. Cerca de 2% é coberto por reservas florestais (CETESB,1991). Segundo a CETESB (1994) os usos da água na bacia são os seguintes os usos da água na bacia: abastecimento público do município de Presidente Prudente; recepção de efluentes domésticos de 3 municípios, sendo que apenas o município de Santo Anastácio trata seus efluentes com uma eficiência de 80%; abastecimento industrial; recepção de efluentes industriais e irrigação de culturas. Apenas o município de Presidente Prudente se utiliza do Rio Santo Anastácio como manancial de abastecimento público. As fontes de abastecimento de água para a maior parte das cidades da bacia são poços. O município de Presidente Prudente está localizado no espigão divisor das bacias do Rio do Peixe e Rio Paranapanema e possui uma população de cerca de 200 mil habitantes (177.236 habitantes segundo o IBGE-Censo 1996). É cortado pelo paralelo 22o 07’57” e pelo meridiano de 51 o 22’57” Wgr. É o maior município da bacia em termos de população e, portanto, capta o maior volume de água. O município utiliza-se de mananciais superficiais e subterrâneos. Além de 25 poços com profundidade média de 200 metros, utiliza-se do Rio Santo Anastácio (que responde por cerca de 75% do abastecimento urbano), do Balneário da Amizade e do Rio do Peixe (a partir de uma adutora de 45 Km de extensão). Segundo a SABESP (Companhia de Saneamento Básico), Presidente Prudente capta 54.453 m3 /dia (dados de 1998), dos diferentes mananciais. O Rio Santo Anastácio vem sendo poluído pelos esgotos de origem doméstica das cidades de Presidente Prudente, Presidente Bernardes, Presidente Venceslau e Álvares Machado. Recebe também águas residuárias (carga orgânica remanescente) de atividades industriais de abate de bovinos e de laticínios e curtumes, que vêm degradando cada vez mais a qualidade da água do rio. Segundo a CETESB, a quantidade de esgotos que é lançada sem qualquer tipo de tratamento no Rio Santo Anastácio, corresponde a uma carga de 6,9 ton DBO 5 /dia e é a chamada “Carga Poluidora Potencial”, que é carga esperada considerando-se a produção diária e a eficiência do sistema de tratamento de efluentes. A maior cidade da região, Presidente Prudente com aproximadamente 200 mil habitantes, contribui com a maior carga: 5,4 ton DBO5 /dia. O Rio Santo Anastácio recebe esgotos domésticos de 3 cidades. Apenas Santo Anastácio possui sistemas de tratamento que atingem 80% de eficiência. A carga orgânica que resta apesar do tratamento, é a “Carga Poluidora Remanescente” e na bacia constituem os seguintes valores: 72,9% de origem doméstica e 27,1% de origem industrial. O uso do solo agrícola no município de Presidente Prudente também evidencia a priorização da atividade pecuária, uma vez que 92% da área rural é dedicado a pastagens e reproduz o tipo de uso predominante em toda a bacia. Também são cultivados os seguintes produtos: amendoim, café, cana industrial, eucalipto, frutas de cultivo permanente (laranja, limão e manga), mandioca industrial, pastagem natural e seringueira. A agricultura voltada ao cultivo de produtos com ciclos anuais, tal como se dá no município, tem o inconveniente da utilização intensa de agrotóxicos e outros produtos químicos, como uma forma de se garantir a colheita. Na pecuária os problemas se devem à utilização de herbicidas e de produtos destinados à eliminação de parasitas externos. Tais práticas levam à poluição dos vegetais, do solo, da água e do ar. Os cursos d’água são corpos receptores finais dos resíduos presentes em todos esses locais. O predomínio marcante da pecuária em Presidente Prudente e região, determinam/estimulam o desenvolvimento de atividades como: curtumes, frigoríficos e laticínios. Quadro 1 - Coeficiente Estimado de Poluição por Tipo de Fonte Industrial em Presidente Prudente Empresa Laticínio Produção Diária 100.000 litros Kg DBO/dia (com tratamento 80% eficiente) 80 Kg DBO/unidade de produto segundo VON SPERLING 40 p/ 1000 l Curtume de Pequeno Porte Curtume de Médio Porte Curtume de Grande Porte Frigorífico TOTAL 50 peles 1.000 peles 2.000 peles 600 cabeças 3 180 120 1.200 1.583 150 p/ ton pele 150 p/ton pele 150 p/ton pele 10 p/ cabeça Fonte: Estimativas feitas a partir do porte das empresas locais * 500 peles = 1 tonelada Este quadro demonstra que apenas as 5 indústrias consideradas neste trabalho poluem como cerca de 17% da população total. O município encontra-se situado em uma região em que, embora a rede hidrográfica seja relativamente densa, os cursos d'água disponíveis para abastecimento, além de não apresentarem grandes vazões, vêm sendo sistematicamente assoreados e poluídos. Essa poluição tem sido causada tanto por esgotos industriais como por esgotos domésticos despejados "in natura" nos rios e córregos, ou seja, sem qualquer tipo de tratamento, o que vem comprometendo, e muito, os usos a serem dados a essas águas. Analisando-se a variação temporal da poluição, nos 6 pontos de amostragem distribuídos ao longo do curso principal do Rio Santo Anastácio e tomando-se como referência as concentrações de OD e DBO, que podem ser considerados os parâmetros mais significativos em termos de qualidade da água, obteve-se o seguinte quadro: Quadro 2 – Porcentagem de Amostras em Desacordo com a Legislação Ponto de Coleta Amostras com OD em Amostras com DBO em desacordo com a legislação desacordo com a legislação (%) (%) Ponto 1 14,5 10,4 Ponto 2 43,1 15,9 Ponto 3 70,0 100,0 Ponto 4 6,8 54,5 Ponto 5 7,1 76,1 Ponto 6 16,2 74,4 Fonte: CETESB Para obter-se tais percentuais, levou-se em consideração a classificação das águas do Rio segundo sua qualidade. A Resolução CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) n. 20/86 determina 4 classes em que a qualidade da água vai piorando da Classe 1 para a Classe 4, que é a pior e que, portanto, só pode ser usada para abastecimento público se submetida a tratamentos avançados. Os resultados verificados no Ponto 3, já eram esperados, pois trata-se do ponto mais crítico de poluição, pois é o ponto em que o Rio Santo Anastácio recebe o Córrego Limoeiro que é o corpo receptor final de toda a carga poluente originada na área urbana de Presidente Prudente. Neste Ponto, o Rio passa de Classe 2 para Classe 4. Quanto à Variação Espacial da Poluição, foram elaborados gráficos utilizando-se os parâmetros DBO, DQO e OD, para se verificar como a poluição da água do rio varia ao longo do dia nos diferentes pontos de coleta. Analisar este aspecto é muito importante, pois pode fornecer dados sobre a capacidade de autodepuração do rio. Para se verificar a variação espacial da poluição foram escolhidas datas em que todos os parâmetros tivessem sido analisados e que abrangessem diferentes estações do ano, principalmente quanto à variação da precipitação. O objetivo foi o de se trabalhar com a variação da vazão, podendo-se assim, analisar as melhores e as piores situações, em termos de diluição e assimilação da carga orgânica, ou seja, as maiores e as menores vazões. A análise de tais dados demonstrou que a cidade de Presidente Prudente é a maior fonte de poluição do rio, tanto no que diz respeito à poluição de origem doméstica como quanto à poluição de origem industrial. Embora, como foi possível observar nos gráficos, os valores atingidos em vários momentos, estejam totalmente em desacordo com os limites estabelecidos, o rio acaba diluindo e assimilando a carga poluidora que recebe quase que permanentemente e chega à desembocadura enquadrado na mesma classe de suas nascentes: Classe 2. É importante destacar, entretanto, que no trecho Classe 4 (aproximadamente 30 Km), que vai do Córrego Limoeiro até o Ribeirão Vai-e-Vem, a utilização da água encontra-se inviabilizada para praticamente qualquer tipo de uso, o que pode significar um fator limitante à implantação/desenvolvimento de um sem número de atividades nos municípios cortados/banhados pelo rio nesse trecho e mesmo, à jusante dele. Essa situação é um exemplo de externalidade negativa na medida em que os municípios que não poluem o rio (ou poluem pouco), são os que têm que arcar com os prejuízos representados pela poluição da água do rio. A COBRANÇA DE RECURSOS HIDRICOS A cobrança a ser tratada aqui refere-se aos usuários de grandes quantidades de água e geradores de altas concentrações de poluentes. De acordo com CÁNEPA (1998:1) até hoje, um consumidor urbano típico tem que pagar apenas dois preços pela água que usa em sua casa: 1) de um lado, o preço da potabilização e distribuição a domicílio – a ‘tarifa água’, em virtude do chamado abastecimento de água; 2) de outro lado, o preço da retirada da água servida, para ser levada de volta ao rio – a ‘tarifa de esgoto’ em virtude do chamado esgotamento sanitário. Análise semelhante pode ser estendida a outros usuários. No contexto do rio como um bem livre (desempenha suas funções típicas de um bem ambiental gratuitamente), esses dois preços dão conta perfeitamente do que poderia ser chamado de ‘economia da água’: cobra-se pelos serviços e pelos valores agregados à água que, como tal constitui-se numa matéria-prima gratuita”. Esse tipo de cobrança sempre fez com que a água fosse percebida como um recurso abundante e barato, tanto por parte da população em geral, como por parte das indústrias e dos usuários de grandes quantidades do recurso e geradores de altas concentrações de poluentes. A necessidade de uma medida mais efetiva só surge mais recentemente quando a escassez quantitativa e/ou qualitativa torna-se uma realidade concreta para a população e para alguns setores produtivos que, até então, não tinham qualquer preocupação com as quantidades utilizadas e menos ainda, com a qualidade com que essa água era devolvida para o sistema. A cobrança dos recursos hídricos se configura então, como um instrumento para se tentar reverter o quadro de poluição e degradação que atinge os cursos d’água de uma maneira generalizada. A degradação progressiva e desenfreada dos cursos d’água é que levou à necessidade de uma adequação e aprimoramento dos instrumentos e mecanismos de controle que, considerando-se o grau de poluição atingido pela maioria dos mananciais superficiais principalmente, não têm tido a eficácia necessária. As dificuldades relativas à cobrança pelo uso da água têm sido inúmeras: 1) órgãos fiscalizadores com poucos recursos financeiros e humanos e, geralmente mal informados, pois não conseguem fiscalizar com a freqüência necessária suas áreas de abrangência que, inclusive, são muito grandes dificultando a detecção e o acompanhamento de, por exemplo, um episódio de poluição mais severo, 2) apelo da geração de empregos, por parte das indústrias, tem feito com que esses órgãos sejam permissivos estendendo prazos e aceitando todo tipo de justificativa para os permanentes atrasos no cumprimento das medidas a serem tomadas, 3) existem algumas variáveis que incorporam um alto grau de subjetividade, o que as torna difíceis de quantificar e mais ainda, de incorporar ao cálculo das externalidades a serem internalizadas, como por exemplo: custo do recurso natural afetado, demanda pelas gerações futuras, qualidade de vida da população atingida/afetada pela poluição, poder de pressão/representação dos indivíduos, etc. Apesar das deficiências e dificuldades já constatadas, o quadro atual aponta para a cobrança como a melhor forma de se controlar a poluição. Fazer com que os agentes econômicos, particularmente aqueles acostumados a lidarem com altas margens de lucro proporcionadas pelo total descaso com as variáveis ambientais, passem a internalizar as externalidades, ou seja, os danos causados, é bastante complexo, pois irá interferir até sobre os direitos de propriedade. A evolução dos instrumentos econômicos teve como ponto principal a variação no grau de intervenção do estado. Existem hoje várias metodologias de cobrança dos recursos hídricos propostas por diferentes autores e instituições. Neste trabalho utiliza-se um modelo para simulações de cobrança pelo uso da água no Estado de São Paulo desenvolvido pelo Consórcio CNEC -FIPE (Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores S.A - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) por encomenda do DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica), para se valorar a poluição do Rio Santo Anastácio causada pelas principais fontes industriais do município de Presidente Prudente. Segundo relatório de trabalho elaborado pelo consórcio 1 “os valores a serem cobrados deverão ser propostos pelos Comitês de Bacia Hidrográfica em função dos programas quadrienais a serem efetivamente realizados e das parcelas dos investimentos a serem cobertos com o produto da cobrança. A fixação dos mesmos deverá ter por base os volumes de água captado e consumido e a carga poluidora dos efluentes lançados nos corpos d’água. Os volumes de água e a carga poluidora dos efluentes serão multiplicados por preços unitários básicos e por coeficientes estabelecidos pelos Comitês de Bacia e que levarão em conta as peculiaridades locais e do usuário” (CNEC-FIPE, 1999). Ainda segundo o relatório “o valor total de cobrança para um determinado usuário deverá ser a soma de cada um dos usos, captação, consumo e lançamento, sendo limitado por parâmetros fixados pelo CRH (Conselho Estadual de Recursos Hídricos) para evitar que a cobrança venha a inviabilizar o empreendimento”. Trata-se de um aspecto bastante importante e que, seguramente, será objeto de discussão e polêmica, pois existe uma corrente de pesquisadores que considera que acima de um determinado grau de poluição, em que deverão ser consideradas as peculiaridades locais e/ou regionais, não justifica-se a existência de um empreendimento que seja responsável ou que contribua para aquele nível de poluição. Se o empreendedor não atualizou seus processos produtivos, não investiu em equipamentos que levem a menos desperdício, não investiu em equipamentos de controle da poluição ele deve ter suas atividades encerradas. É evidente que com o eterno apelo da “geração de empregos” uma medida mais radical seria de difícil implantação. O quadro 3 abaixo traz uma proposta para os Preços Unitários Básicos (PUB) que seriam válidos para todo o Estado de São Paulo e que seriam adequados às características das diferentes bacias a partir de coeficientes multiplicadores que seriam definidos de acordo com os interesses regionais devidamente respaldados pela decisão dos Comitês de Bacia. Quadro 3 – Proposta de “Preços Unitários Básicos” ITEM UNIDADE SÍMBOLO Captação m3 Consumo m3 Lançamentos de DBO Kg DBO de DQO Kg DQO de RS* Litro de CI** Kg Fonte: CNEC-FIPE, 1999 * Resíduos Sólidos Sedimentáveis PUB cap PUBcons PUB (Preço Unitário Básico) R$ 0,01 0,02 PUB DBO PUBDQO PUBRS PUBCI 0,10 0,05 0,01 1,00 ** Carga Inorgânica Aplica-se aqui o modelo proposto considerando-se 3 tipos de atividades industriais predominantes no município de Presidente Prudente (curtumes, frigoríficos e laticínios) e serão utilizados valores sugeridos por VON SPERLING (1996). Para efeito de cálculo, o relatório sugere que sejam usados os seguintes valores: DQO igual a 2 x DBO; Resíduos Sedimentáveis igual a 6 mililitros por litro de esgoto doméstico e igual a 1 mililitro por litro de efluente industrial (nos cálculos apresentados como exemplo no relatório já citado, é utilizado o valor de 1ml/ m3 de efluente). Foi considerado ainda que: consumo doméstico é igual a 30% do captado, consumo industrial igual a 20% e consumo de irrigação igual a 100% do captado. No caso da indústrias localizadas em Presidente Prudente, ter-se-ia os seguintes resultados: Quadro 4 - Valores a serem pagos por cada indústria Tipo de Indústria Valor Total Frigorífico ** Valor com Redução de 80% na Carga Orgânica R$ 36.432,00 = US$ 14573* R$ 7.524,00 = US$ 3.009 Curtume de Grande Porte R$ 3.772,80 = US$ 1509 R$ 820,80 = US$ 328 Curtume de Médio Porte R$ 1.854 = US$ 742 R$ 410,40 = US$ 164 Curtume de Pequeno Porte R$ 94,32 = US$ 38 R$ 20,52 = US$ 8 Laticínio R$ 24.072,00 = US$ 9629 R$ 522,00 = US$ 209 * Valor de US$ 1 = R$ 2,50 em 30/7/2.001 ** Apesar da metodologia indicar a quantidade de água lançada como 20% do total captado, sabe-se que neste caso o lançamento é igual a 100% do volume captado. Pode-se observar a partir dos cálculos, que um sistema de tratamento com 80% de eficiência proporcionaria uma significativa redução dos montantes a serem pagos. Seria necessário incorporar, de alguma maneira, o fato das cargas remanescentes ainda serem altas para os corpos receptores. Uma maneira de fazer isso seria diminuir-se o coeficiente multiplicador proporcionalmente ao aumento da eficiência para além dos 80%. Além disso, as indústrias existentes em Presidente Prudente se utilizam, em sua maioria, de águas subterrâneas em seus processos produtivos. Esse é um aspecto importante no momento da cobrança, pois além de estarem explorando mananciais que poderão ser esgotáveis, transformam essa água em efluentes que poluem e degradam severamente os mananciais superficiais. Com o aprimoramento da metodologia e com a consolidação dos comitês na gestão da bacia, o coeficiente multiplicador existente na fórmula da cobrança, poderia ser aumentado em tais situações. O relatório sugere que por um período de 10 anos, em que todo o processo seria aperfeiçoado, a cobrança se dê com um número reduzido de coeficientes multiplicadores, que seus valores não sejam arbitrários e que o valor final obtido não ultrapasse os ‘Preços Unitários Máximos’. Os comitês e as agencias de bacias terão um papel fundamental nesse processo. A gestão dos recursos hídricos de forma que seu uso seja otimizado, a atribuição e definição dos coeficientes multiplicadores nos diferentes casos, são algumas das medidas necessárias a serem tomadas para se garantir a eficiência do instrumento. CONCLUSÕES O propósito deste trabalho foi o de valorar a poluição da água. Para tanto foi necessário percorrer as diferentes etapas que levaram a que se considerasse a água como um recurso limitado e escasso e que precisa ser tratado como tal. As escolas econômicas Clássica e Neoclássica forneceram todo o arcabouço teórico necessário para que se pudesse chegar a uma economia ambiental e mais do que isso, para que se passasse a considerar a água como uma mercadoria, apesar de tratar-se de um recurso com características bastante específicas: abundante em quantidade, reutilizável e bem de uso comum, o que tornava difícil considerá-lo uma mercadoria, ou seja, um bem com valor de mercado. Apesar das deficiências já apontadas, as 2 escolas tiveram um papel fundamental nesse processo. A Escola Neoclássica é a primeira a considerar a Terra como um sistema fechado e com uma capacidade limitada para absorver os resíduos produzidos pelas atividades econômicas. Além disso, cria o conceito de externalidade que, como já foi dito, é o suporte para conceitos mais recentes como: poluição, contaminação e impactos ambientais. Pode-se dizer que a cobrança pelo uso dos recursos hídricos comparece, atualmente, como o melhor instrumento para se tentar reverter o quadro de poluição da água na bacia do Rio Santo Anastácio. Pelo fato da região ter suas atividades econômicas ligadas à pecuária, as indústrias existentes na bacia e particularmente no município de Presidente Prudente, são frigoríficos e curtumes que contribuem com uma carga de poluição, permanente, incompatível com as vazões médias e, portanto, com a capacidade de diluição e assimilação dos poluentes, dos corpos receptores. Como a legislação considera 80% uma eficiência suficiente em termos de redução de carga poluidora, acaba desconsiderando os problemas relativos às cargas remanescentes, que são superiores à capacidade de autodepuração dos córregos e rios da região, o que é agravado nos períodos de vazão crítica. Outro aspecto de grande importância é o fato das indústrias utilizarem águas subterrâneas em seus processos produtivos. As quantidades usadas são excessivas, o que sugere que tais processos são defasados e desperdiçadores. A conseqüência disso, além da exploração inconseqüente dos mananciais subterrâneos, é a poluição dos mananciais superficiais, a partir dos efluentes gerados. Com base nesses aspectos, acredita-se que a cobrança é a forma mais eficiente e rápida para se sensibilizar os agentes econômicos, representados aqui, pelos empresários e industriais. Cabe esclarecer, que a idéia defendida aqui é a da cobrança pela poluição gerada, ou seja quem polui mais, paga mais. Quanto à metodologia proposta pelo CNEC-FIPE (1999), é preciso apontar alguns problemas: • • • • a metodologia desconsidera as peculiaridades da bacia, como por exemplo, a vazão do corpo receptor; a utilização de parâmetros indicadores da qualidade da água tal como a DBO, a tornam vulnerável, pois dependendo do tipo de poluição os valores de DBO apresentar-se-ão baixos, o que poderá estar mascarando a real situação de poluição do corpo d’água. Exemplificando: um lançamento tóxico eliminará os organismos vivos responsáveis pela decomposição da matéria orgânica. Dessa forma a DBO será baixa e, entretanto, além de estar havendo poluição, o fato de estar atingindo organismos vivos indicará que poderá ser mais grave do que a poluição orgânica em si. A condutividade poderia ser um parâmetro menos frágil; a Carga Inorgânica (CI) é considerada desprezível em atividades como curtumes, o que não se justifica, pois no processo de curtimento são usados produtos inorgânicos (metais pesados) extremamente agressivos, para o corpo d’água e, além disso, em grandes quantidades; os chamados “Preços Unitários Máximos” têm como finalidade não inviabilizar o empreendimento. Se não é para inviabilizar, supõe-se que a penalização econômica tenha como objetivo sensibilizar o empreendedor para que medidas de controle e redução da cargas poluidoras sejam tomadas. Não é fácil, entretanto, saber-se qual seria o valor cobrado para que tal objetivo possa ser atingido. Apesar das dificuldades apontadas e dos possíveis pontos falhos das metodologias propostas, a valoração econômica da poluição dos recursos hídricos e a conseqüente penalização econômica dos agentes causadores dessa poluição configura-se, neste momento, como o melhor instrumento para se tentar reverter e controlar o quadro de poluição e degradação que se instalou na maioria dos cursos d’água do país. BIBLIOGRAFIA AZQUETA OYARZUN, Diego, FERREIRO, A. (eds.) Análisis económico y gestión de los recursos naturales. Madrid: Alianza Editorial, 1993. 373 p. BRANCO, S. M. (et al.), PORTO, R.L.L. (org.) Hidrobiologia ambiental. São Paulo: ABRH, 1991. 414 p. CÁNEPA, Eugênio Miguel et al. Perspectivas de utilização de instrumentos econômicos na política e gestão ambiental: o caso dos recursos hídricos. In: Anais do Simpósio Internacional Sobre Gestão de Recursos Hídricos . Gramado (RS), 1998. 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