205 “PROFESSOR, PODERIA CORRIGIR ESSE TEXTO?” OUTRAS ATRIBUIÇÕES DO PROFESSOR DE LÍNGUA PORTUGUESA Elisabeth Ramos da Silva Universidade de Taubaté - UNITAU RESUMO. Este texto apresenta algumas reflexões sobre a importância do domínio dos conteúdos gramaticais para o exercício de correção de textos. A discussão sobre a necessidade, ou não, do ensino de gramática na escola fez com que muitos professores optassem por não ensiná-la aos alunos, daí ser frequente encontrarmos alunos do Curso de Letras que pouco conhecem sobre as relações morfossintáticas que subjazem às regras gramaticais. Partindo-se do pressuposto que graduar-se em Letras significa tornar-se apto não apenas para o exercício da docência, mas também para a revisão de textos mediante o adequado manejo das regras gramaticais, sobretudo quando se trata de textos formais, pareceu-nos útil expor alguns pressupostos teóricos que, por um lado, esclarecem a utilidade do ensino da gramática e, por outro, oferecem orientação sobre os conteúdos gramaticais necessários à tarefa de verificar a adequação do texto ao gênero discursivo em questão. Palavras-chave: formação de professores; ensino de gramática; senso crítico 1. Introdução Para esclarecermos a utilidade da gramática no exercício docente, é necessário recorrer a uma abordagem interdisciplinar, a fim de buscar subsídios na Filosofia, na Psicologia, na Linguística e na Gramática. Tal abordagem se justifica porque a aprendizagem da gramática exercita o desenvolvimento do senso crítico, uma vez que o aluno aprende a utilizar critérios para julgar a adequação de textos. Além disso, mediante a aprendizagem da gramática, é possível favorecer a tomada de consciência quanto aos aspectos gramaticais da língua, aprendidos até então de forma espontânea. Isso porque a chamada “correção” de textos pressupõe a deliberação quanto ao uso das formas adequadas ao gênero em questão. Assim, inicialmente definimos no que consiste o “senso crítico”, segundo Lipman (1995); a seguir exporemos as idéias de Vygotsky (1987) sobre o papel da escola nesse processo e a utilidade da gramática para o desenvolvimento cognitivo da criança. E, por fim, ofereceremos alguns critérios que poderão orientar a correção de textos. ____________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 206 2. O pensamento crítico e o ensino de gramática Saber pensar de forma crítica significa recorrer a critérios para efetuar julgamentos. Por sua vez, “julgar”, em termos amplos, significa formar opiniões sobre os diversos aspectos da realidade. Lipman (1995, p.172) define o pensar crítico como “o pensamento que facilita o julgamento pois se fundamenta em critérios, é autocorretivo e sensível ao contexto”. Sendo assim, as três características essenciais do pensar crítico são a utilização de critérios, a autocorreção e a sensibilidade ao contexto. No entanto, é preciso saber discernir quais critérios são adequados e pertinentes para orientar os julgamentos. O critério deve apresentar pertinência, confiabilidade e adequação. A autocorreção é outra característica fundamental do pensamento crítico. A autocorreção implica investigar a coerência das razões apresentadas, bem como os pressupostos, além de buscar uma fundamentação e de considerar outros pontos de vista, julgando os argumentos que os fundamentam. Esses procedimentos podem levar à mudança do ponto de vista quando as razões deste não são adequadas. Por fim, a sensibilidade ao contexto demanda a percepção das características peculiares de cada situação, a fim de que sejam escolhidos os critérios adequados que orientarão os julgamentos. Em relação ao ensino da gramática, devemos considerar que a gramática normativa diz respeito especificamente às regras da norma-padrão. Desobedecer ao que impõem os manuais de gramática não implica erro, como alguns ainda consideram, apenas significa que o texto não está em conformidade com a língua “culta”. No entanto, conhecer as características desse dialeto de prestígio é essencial para poder utilizá-lo quando a situação assim o exigir. (BECHARA, 2000) A gramática nos oferece as regras que caracterizam a linguagem formal, e elas devem ser os critérios que possibilitam julgamentos. Acreditamos que utilizar as regras gramaticais como critérios de análise para a adequação do ____________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 207 texto é a grande finalidade do ensino da gramática. A partir da utilização de critérios, o aluno poderá perceber as diferenças entre o que o uso consagra e o que é imposto pela norma-padrão, a fim de poder escolher os aspectos formais mais adequados a determinado gênero. É, portanto, o conhecimento das regras que permite recorrer a critérios confiáveis quando for preciso efetuar julgamentos de sintaxe, de estilo e de adequação da linguagem (SILVA, 2005; 2006). Nesse sentido, o conhecimento espontâneo, intuitivo, que adquirimos da língua não é suficiente para que possamos efetuar julgamentos orientados por critérios. Além desses fatores, é ainda o ensino de gramática que permite ao falante a tomada de consciência das regras que ele já conhece espontaneamente. Para esclarecer o que isso significa, é preciso aludir a Vygotsky (1987) quanto à formação dos conceitos científicos. 3. Por que Vygotsky defendia o ensino da gramática Vigotski (2001) acreditava que escola é muito importante para o desenvolvimento do homem, pois ela oferece a instrução formal, sistemática, cumprindo um papel decisivo para que o aluno adquira a conscientização de seus próprios processos mentais. É o aprendizado escolar que promove o desenvolvimento dos conceitos científicos, e estes se diferenciam dos conceitos espontâneos por apresentarem uma relação inteiramente distinta com o objeto. Os conceitos científicos desenvolvem-se mediados por outros conceitos e apresentam um sistema hierárquico, lógico e coerente, por isso permitem que ocorra a tomada de consciência. Os conceitos científicos desenvolvidos mediante a instrução formal diferenciam-se dos conceitos espontâneos desenvolvidos no dia a dia dos indivíduos. O desenvolvimento destes últimos ocorre de forma espontânea, assistemática, segundo as experiências cotidianas e as interações sociais do sujeito. Porém, os conceitos científicos não dependem diretamente da experiência e se organizam em sistemas consistentes de inter-relações hierarquicamente dispostas. De acordo com Oliveira (1992, p.32), por ____________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 208 formarem sistemas e por envolverem uma atitude mediada desde o início de sua construção, “os conceitos científicos implicam uma atitude metacognitiva, isto é, de consciência e controle deliberado por parte do indivíduo, que domina o seu conteúdo no nível de sua definição e de sua relação com outros conceitos”. Assim considerando, pode-se dizer que é sobretudo mediante o aprendizado escolar que ocorre o desenvolvimento dos conceitos científicos, e estes últimos, por apresentarem um sistema hierárquico de inter-relações, constituem o meio pelo qual o domínio e a consciência se desenvolvem. No entanto, para se desenvolver, o conceito científico precisa estar relacionado a conceitos espontâneos correlatos, caso contrário será incompreensível e constituirá apenas em definições vazias de conteúdo. É por isso que ambos os processos (o desenvolvimento dos conceitos espontâneos e o desenvolvimento dos conceitos científicos) se inter-relacionam, formando um único processo. Podemos dizer que a aprendizagem da língua materna também pode ocorrer de forma espontânea ou de forma deliberada e sistemática. A partir dos dois anos de idade, a criança começa a aprender sua língua ao interagir com os demais, mas esse aprendizado é espontâneo, pois a criança ainda não tem consciência das operações linguísticas que realiza. Aprende intuitivamente as regras, mas não consegue verbalizá-las para pensar sobre elas. Ao entrar na escola, a língua materna lhe é apresentada como um sistema hierárquico de regras. A criança aprende então que a língua-padrão se diferencia por vezes da sua língua espontânea, pois obedece a determinadas regras pré-estabelecidas. Ao ensinar a gramática, o professor permite que a criança compreenda de forma consciente a estrutura de sua língua para que, a partir desse conhecimento, seja capaz de fazer as escolhas linguísticas adequadas. É por isso que Vigotski defendia veementemente a aprendizagem da gramática, pois esta permite a tomada de consciência dos aspectos formais da língua aprendida de forma espontânea, bem como a compreensão de que a língua constitui um sistema. ____________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 209 Mas na escola a criança aprende, particularmente graças à escrita e à gramática, a tomar consciência do que faz e a operar voluntariamente com as suas próprias habilidades. Suas próprias habilidades se transferem do plano inconsciente e automático para o plano arbitrário, intencional e consciente. (VYGOTSKY, 2001, p.321) É ainda por tais motivos que Vigotski (2001, p. 320) afirma que sem a gramática, o aluno permanecerá “limitado para aplicar suas habilidades”. Podemos concluir, então, que a gramática permite a tomada de consciência dos aspectos formais da língua. Segundo Silva (2009, p. 196), Esse olhar ‘sobre’ a língua, permitindo percebê-la como sistema, é de suma importância para a tomada de consciência. [...]De fato, pensar “sobre” a língua, verbalizar os fatos linguísticos, sendo capaz de generalizar as regras, de discriminá-las e reconhecê-las, são operações que assinalam a tomada de consciência, a qual permitirá ao aluno operar suas habilidades linguísticas conscientemente. Tais pressupostos já esclarecem a necessidade de conhecermos as regras gramaticais para o exercício de correção de textos. Não se trata aqui da memorização dos conteúdos gramaticais, mas da tomada de consciência dos aspectos formais da língua, a fim de ser capaz de discernir as marcas linguísticas que assinalam a formalidade ou a informalidade de um texto, as divergências entre uso e norma e as formas adequadas ao gênero textual em questão. Essas regras serão os critérios que darão segurança às análises e eventuais correções. 4. Alguns critérios gramaticais para a correção de textos. Para ser bem sucedido na tarefa de correção de textos, é preciso primeiramente respeitar as características do gênero textual em questão. Corrigir um poema, por exemplo, exige que se leve em conta a chamada “licença poética”. Quando se trata de um texto poético de aluno (o qual muitas vezes desconhece a regra, por isso não escolhe conscientemente desobedecêla), é preciso esclarecer qual seria a forma gramaticalmente mais adequada, a fim de verificar se a infração àquela regra torna-se efetivamente um recurso de expressão ou simplesmente uma inadequação gramatical. Isso é necessário porque muitos alunos confundem a “licença poética” como um “vale tudo” ____________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 210 gramatical. Cabe ao professor orientar os alunos sobre a intencionalidade consciente do poeta ao desrespeitar as normas gramaticais em nome da expressividade. O segundo critério a ser observado diz respeito à ortografia. Este quesito demanda apenas cuidado na conferência da escrita do vocábulo. Trata-se de um exercício de memorização do sistema da escrita, já que a grafia das palavras é convencional. No entanto, as flexões de nomes e verbos estão sujeitas a regras que devem ser observadas. A seguir, é preciso atentar nas relações morfossintáticas dos temos que compõem os enunciados. A primeira delas é a relação entre o sujeito e o verbo (concordância verbal). O núcleo do sujeito é, em geral, o termo com o qual o verbo concorda; mas há casos em que, como recurso expressivo, o verbo concordará com outras palavras que determinam o núcleo do sujeito. Assim, é preciso observar atentamente as outras possibilidades de concordância, cujos critérios são de natureza estilística. Outro quesito importante diz respeito à regência de verbos e nomes. Neste quesito está o emprego dos pronomes pessoais, uma vez que a escolha do pronome adequado deve obedecer a critérios sintáticos. Há que se observar a natureza de certas classes gramaticais invariáveis, as quais são identificadas mediante a relação que mantêm com outras palavras na frase. O advérbio, por exemplo, pode ser diferenciado de outra classe de palavras quando observamos se mantém, ou não, relações com um verbo, um adjetivo ou com outro advérbio. Além disso, insere-se neste item o emprego da crase, uma vez que, para utilizar o sinal indicativo de crase, é preciso observar a regência do termo anterior e o necessário emprego do artigo definido feminino no termo subsequente. A colocação dos termos na frase também é um fator importante. Para tanto se torna necessário obedecer a critérios sintáticos, sem desprezar o sentido e as intenções estilísticas do autor. ____________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 211 Por fim, a pontuação é outro quesito fundamental que igualmente demanda conhecimento gramatical e atenção aos aspectos semânticos do texto. Como afirma Luft (1996, p.7), “A nossa pontuação – a pontuação em língua portuguesa– obedece a critérios sintáticos, e não prosódicos. Sempre é importante lembrar isso a todos aqueles que escrevem, para que se previnam contra bisonhas vírgulas de ouvido.” Como podemos notar, também Luft critica aqueles que se orientam pelo ouvido, ou seja, aqueles que se orientam apenas pelo conhecimento espontâneo da língua, sem recorrer a critérios confiáveis, os quais, nesse caso, são os sintáticos. É preciso ainda verificar se os períodos apresentam a oração principal. Muitas vezes, as frases “sem sentido” são aquelas que contêm apenas orações subordinadas. Por exemplo: “Andando pela rua que se situa na cidade onde passei a minha infância.” Notamos que não há oração principal nesse período, apenas subordinadas: uma adverbial reduzida e duas adjetivas. Considerações finais O curso de Letras deve preparar o aluno não só para o trabalho docente, mas também para todas as tarefas que demandem conhecimentos lingüísticos. Daí insistirmos na necessidade de levar aos futuros professores os conhecimentos gramaticais necessários que lhe sirvam de critérios para a avaliação dos aspectos formais de um texto. Cremos que o abandono do ensino de gramática acarretou sérias lacunas, deixando o aluno “limitado” (VIGOTSKI, 2001, p. 320) em suas habilidades lingüísticas. Travaglia (2003, p.81) confere ao professor a decisão de ensinar ou não a teoria gramatical, mas deixa claro que “mesmo que o professor decida não ensinar teoria a seus alunos é necessário que ele tenha um conhecimento teórico o mais amplo possível”. (grifo do autor). De fato, de acordo com pesquisa realizada por Silva (2008), não basta o conhecimento espontâneo para poder ensinar a língua materna. É preciso que o professor domine os conteúdos da disciplina que ministra. Afinal, a credibilidade na competência de ____________________________________________________________________________________ o Anais do 6 Seminário de Pesquisas em Lingüística Aplicada (SePLA), Taubaté, 2010. ISSN: 1982-8071, CD-Rom. 212 um professor de línguas é assegurada ou posta em dúvida quando este profissional é solicitado para corrigir um texto. De fato, o professor de língua portuguesa, mesmo que decida não ensinar gramática, vez por outra ouvirá sempre esta demanda: “Professor, poderia corrigir esse texto?” Nesse momento, espera-se que ele faça julgamentos de análise confiáveis, pautados em critérios adequados. Espera-se ainda que ele tenha proficiência na língua que ensina e que saiba esclarecer as “razões” (os critérios) que o levam a corrigir ou a aceitar determinado enunciado. Em outros termos, todos esperam que o professor exponha, de forma clara e compreensível, as regras (os critérios) que orientam os aspectos formais do texto. Referências BECHARA, Evanildo. a correção idiomática e o conceito de exemplaridade. In: AZEREDO, José Carlos de (org.). Língua portuguesa em debate. 3ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000, p.11-18. LIPMAN, Mattew. O pensar na educação. Petrópolis: Vozes, 1995. LUFT, Celso Pedro. A vírgula: considerações sobre o seu ensino e o seu emprego. São Paulo: Editora Ática, 1996. OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky e o processo de formação de conceitos. In: LA TAILLE, Yves et al. Piaget, Vygotsky e Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992. p. 23-34. SILVA, Elisabeth Ramos. A utilidade da teoria gramatical na produção de textos formais escritos. 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