UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO RAFAEL DOS SANTOS PEREIRA UM ESTUDO SOBRE A PEDAGOGIA ESPÍRITA E SEUS PRESSUPOSTOS FILOSÓFICOS. CAMPINAS/SP 2006 Universidade Estadual de Campinas Faculdade de Educação Rafael dos Santos Pereira Um estudo sobre a Pedagogia Espírita e seus pressupostos filosóficos. Monografia apresentada à Faculdade de Educação da Unicamp, sob a orientação do Prof. Dr. Sílvio Ancízar Sanches Gamboa (DEFHE), para obtenção do título de Licenciado em Pedagogia. Campinas/SP 2006 2 ! " # #$ ( . $ % ) * !+ , ! ! / 5! 5! ! , +0 1 / 23 ) 4 4 !1 / 3. ! , +- ! %& ' 4 !1 / ) * !+ 7 7 4 !1 / 64 ) 4 7 $ 7 7 7. # 8 6# 954 Dedicatória Dedico este trabalho aos meus dois filhos, o João Rio e o “Pacu”, esse gestado junto com o TCC, os quais merecem, como todas as crianças, um mundo mais fraterno... 3 Agradecimentos... À sociedade Paulista, à maioria trabalhadora como eu, principalmente como meus pais, que financiou meus estudos com o pagamento de caros impostos (ICMS), e não pode, apesar de dona, freqüentar a Universidade Pública. Vejo no horizonte, um mundo em que isso não mais acontecerá; Ao Prof. Dr. Silvio Ancizar Sanches Gamboa, pela orientação desse trabalho e pelo incentivo à diversidade intelectual na Universidade; À Profa. Dra Dora Incontri por participar da banca como segunda leitora, com preciosas contribuições, pelo ânimo e alegria com que me incentivou, nas nossas poucas, mas valiosas conversas; Ao Professor Alessandro Bigueto, pela amizade e pelas imprescindíveis, prazerosas e apaixonadas reflexões em meio a uma ou outra aula na Unicamp; À Profa. Dra. Sônia Giubilei, pelo seu exemplo, amizade e incentivo; Ao Will (William Chiuffa), pela leitura e correção dos erros de português; Aos meus pais, Maria Aparecida e José Ronaldo, por terem me apresentado a Doutrina Espírita ainda na infância, pelo apoio desinteressado e por terem me dado mais uma oportunidade de viver na Terra; Aos meus irmãos (Camila, Carina e Júnior), pelo companheirismo, amizade e convivência leve. Grandes parceiros de existência! Aos meus tios, Rozaura (Tia Zau) e Lúcio, sem os quais tudo seria mais difícil, algumas coisas até impossíveis; À toda minha família, os Rodrigues/Pereira (Pai) e os Santos (Mãe), que têm parte direta na minha formação, esse trabalho leva um pouco de cada um, eu levo um pouco de cada um; Aos meus companheiros (e adversários) de militância política, quantas coisas não aprendemos?! Que a chama de nossos sonhos e lutas, não se apague na dureza do cotidiano e permaneça acessa em nossos corações, mentes e mãos; Aos amigos do Centro espírita Allan Kardec de Itajubá, por despertaram em mim o interesse para o estudo da Pedagogia Espírita; À Adriana Silva, por aceitar essa parceria existencial chamada João Rio e pelo aprendizado que isso nos proporciona. Ao meu filho João Rio, por trazer felicidade e esperanças para a minha vida. E, por fim, à Kamille Vaz, companheira de todas as horas, raio de luz na minha vida. 4 “(...) nosso primeiro desejo é que todos os homens sejam educados plenamente em sua plena humanidade, não apenas um indivíduo, não alguns poucos, nem mesmo muitos, mas todos os homens, reunidos e individualmente, jovens e velhos, ricos e pobres, de nascimento elevado e humilde — numa palavra, qualquer um cujo destino é ter nascido ser humano: de forma que afinal toda a espécie humana seja educada, homens de todas as idades, todas as condições, de ambos os sexos e de todas as nações”. Comenius In: Pampaedia, 1965 5 RESUMO Esta monografia, que se constitui num trabalho de conclusão de curso da graduação em pedagogia na Unicamp, visa realizar um estudo sobre a pedagogia espírita e seus pressupostos filosóficos, dando voz à pedagogia espírita e seus autores, com o intuito de proporcionar uma reflexão mais profunda sobre as concepções filosóficas e educacionais que permeiam as pedagogias. Também é objetivo desse trabalho refletir sobre a superação do conflito secular entre as Pedagogias da Essência e as Pedagogias da Existência. Para tal utilizamos como método a pesquisa bibliográfica, analisando e refletindo sobre a bibliografia básica dessa pedagogia e sobre a obra do pedagogo polonês Bogdan Suchodolski (1903-1992), a Pedagogia e as grandes correntes filosóficas (Livros horizonte, 1992). Palavras Chave: 1. Pedagogia – Teoria 2. Educação e Espiritismo 3. Espiritismo 6 SUMÁRIO RESUMO _______________________________________________________________ 6 SUMÁRIO ______________________________________________________________ 7 APRESENTAÇÃO _______________________________________________________ 8 INTRODUÇÃO ________________________________________________________ 11 CAPÍTULO I – O CONTEXTO ___________________________________________ 14 CAPÍTULO II - DIÁLOGOS ENTRE FILOSOFIA, CIÊNCIA E RELIGIÃO ____ 26 CAPÍTULO III – A PEDAGOGIA ESPÍRITA _______________________________ 31 CONSIDERAÇÕES FINAIS______________________________________________ 58 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ______________________________________ 67 7 APRESENTAÇÃO Essa apresentação ganhou força em meio à escrita desse TCC. Com o intuito de contextualizar esse estudante que vos dirige a palavra, tanto no tema, como na própria natureza de um trabalho de conclusão de curso. Meu interesse em pesquisar a temática “Espiritismo e Educação” vem desde o início da faculdade. Aliás, cheguei à Universidade, e em meio ao deslumbramento com idéia de “fazer Unicamp”, uma possibilidade tão remota e “impossível” para um estudante mediano de uma escola pública do Sul de Minas, o que explica o deslumbre. Incentivado pela idéia de estudar a escola espírita. Porém o curso de pedagogia mostrou-me que essa era muito mais do que a escola, mostrou-me as várias facetas desta instituição, as várias faces da educação. E pude perceber ano-a-ano, no turbilhão da militância política estudantil, das leituras e discussões acadêmicas, das vivências diversas que fizeram explodir uma cachoeira de reflexões, no início políticas, depois acadêmicas e teóricas até explodir nas profundas e por vezes desconcertantes reflexões existenciais. O caminho foi longo, 6 anos de graduação. Nesse período, sonhos emergiram e sucumbiram, perguntas foram respondidas, mas mais do que isso, perguntas surgiram! Sucumbiu a idéia ingênua de um estudo de caso sobre uma escola, e emergiu a proposta de em vez de buscar respostas, buscar perguntas. E é com esse sentimento que propus, a mim mesmo, um exercício reflexivo, perguntador, sobre as idéias que me trouxeram ao maravilhoso, esperançoso e ao mesmo tempo, desalentador mundo da educação. Um estudo sobre as bases filosóficas da pedagogia espírita se tornou imperativo para me situar teoricamente, para fazer emergir da minha formação minha leitura sobre a educação e poder, daí, com bases mais fixas, caminhar na dura, mas gratificante, estrada da docência. O exercício proposto se justifica, pois a universidade me propôs refletir sobre diversos aspectos da realidade, porém sempre sob o ponto de vista materialista, com forte conotação histórico-social. Era preciso que eu pudesse 8 elaborar questões que fizessem aparecer, com certa maturidade, o conflito entre o materialismo e o espiritualismo, presente na minha formação. Para tal elegi a realização desse trabalho como parte dessa empreitada, mas destinado a contrabalançar a formação teórico-ideológica que a universidade me oportunizou. Durante o curso, durante a militância, priorizei, talvez por falta de opção, a formação teórica materialista. Neste momento, recuperando a função e a natureza de um trabalho de conclusão de curso, como um exercício acadêmico-reflexivo sobre a minha formação, ganhou força a reflexão que recuperasse a tradição filosófica espiritualista, que o século XIX relegou à marginalidade acadêmica, ao misticismo dogmático das religiões antigas, modernas e contemporâneas. Na verdade, o que pretendo fazer é reviver o conflito histórico entre as pedagogias da essência e as pedagogias da existência, mas para isso a necessidade de refletir sobre idéias pedagógicas que remontam à minha formação espiritual ganhou força e característica de problema de pesquisa, quando surgiu uma proposta pedagógica, defendida em tese de doutorado na USP (INCONTRI, 2001), que se reivindica, mesmo trabalhando com categorias das filosofias da essência, revolucionária, no sentido em que, segundo seus defensores, conjugava a fé e a razão, numa práxis pedagógica crítica (tanto para o lado materialista como para o lado espiritualista) e proponente de uma educação para a transformação do ser humano e do mundo.Veja-se que, diferente de outras propostas pedagógicas como a católica, por exemplo, essa se coloca no campo que admite a necessidade de mudar o mundo, resta-me no decorrer do estudo buscar a confirmação dessa hipótese na prática com que essa teoria dialoga. Por isso meu objetivo nesse trabalho não é o de ser apologista da Pedagogia Espírita, mas dar voz a ela, a partir de seus autores/pesquisadores de referência e procurar entender sua concepção de mundo, de educação, sua visão sobre os momentos históricos em que se encontram suas raízes filosóficas, com o intuito de contrapor à minha formação acadêmica, e poder melhor refletir 9 sobre minha prática. Acredito ainda que o presente estudo, incipiente, pode contribuir para que outros façam o mesmo: Tomem conhecimento, com maior amplitude possível, das diferentes teorias e concepções pedagógicas, para com mais clareza epistemológica poder, pronunciar, parafraseando Paulo Freire, a educação. É daqui que parte meu exercício reflexivo, que deve buscar, não respostas, mas elementos para uma reflexão mais completa. 10 INTRODUÇÃO Dora Incontri (2001) em sua tese de doutorado1 questiona os motivos que levaram o Espiritismo, “uma corrente do pensamento francês do século XIX, que provocou grande impacto social” (p. 16), à marginalidade dos estudos acadêmicos, sendo abordada, quando muito, do ponto de vista antropológico, como fenômeno social e raramente a partir de suas próprias idéias2. No mesmo estudo a pesquisadora apresenta diversas personalidades das ciências, das mais diversas áreas do conhecimento, que dispensaram atenção ao estudo do espiritismo, dentre eles estariam: Arthur Conan Doyle (1859-1930), célebre escritor inglês, pai de Sherlock Holmes, e autor da obra “História do Espiritismo”3; o astrônomo Camille Flammarion (1842-1925) fundador da Sociedade Astronômica da França; e o jovem biólogo Alfred Russel Wallace, que apresentou simultaneamente com Darwin a Teoria da Evolução na Sociedade Lineana de Londres em 1858, tendo divergido de Darwin ao admitir a possibilidade de interferências não identificáveis nas causas da evolução. Continua chamando a atenção para a omissão dessas informações nas biografias e estudos sobre as idéias desses pensadores ainda mais quando esses constituem referência em suas áreas. O que teria provocado isso que parece um implícito e estranho pacto de silêncio, em torno de uma filosofia, que teve sua projeção na Europa do século XIX e continua conquistando adeptos, 150 anos depois? Ainda que fosse para criticá-la, por que não comentá-la? (ibidem, p. 21). 1 COLOMBO, Dora Alice (Dora Incontri). Pedagogia Espírita: Um projeto brasileiro e suas raízes histórico-filosóficas. São Paulo, Feusp, 2001 (tese de doutorado). 2 Exemplos dessa abordagem: CAMARGO, Cândido Procópio Ferreira (org.). Católicos, protestantes, espíritas. Petrópolis, Ed. Vozes, 1973; CAMARGO, Cândido Procópio Ferreira. Kardecismo e umbanda. São Paulo, Pioneira, 1961; CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O mundo invisível. Rio de Janeiro, Zahar, 1983. (Apud INCONTRI, 2001, p. 11). 3 DOYLE, Arthur Conan. História do Espiritismo. São Paulo, O Pensamento, 1960. 11 Ferro (1989), ao analisar o modo de produção das obras históricas, demonstra que a história é produzida a partir de focos distintos de produção de conhecimento. Ele analisa o historiador como subserviente a grupos e instituições, tendo o Estado como a principal instituição, e de maior alcance. É nesse sentido que os teóricos da Pedagogia Espírita questionam o silenciamento das filosofias espiritualistas, sobretudo para com a doutrina espírita, e a notoriedade de outras teorias, em geral de fundo materialista, como o marxismo e o positivismo, ambos contemporâneos do Espiritismo. Os teóricos dessa pedagogia defendem a Doutrina Espírita como categoria de análise, como matriz teórico-metodológica para pesquisas acadêmicas, para leitura do mundo e a resolução dos seus problemas. Nesse sentido argumentam em favor do espiritismo, questionando o silêncio que “paira” em torno dele, como corrente de pensamento e o confrontando com as grandes correntes de pensamento do século XIX e XX. Esse é o debate que a Pedagogia Espírita trava, no esforço de se consolidar, enquanto teoria pedagógica, fundamentada na filosofia espírita da educação que, por sua vez, está assentada sobre os pilares da Doutrina Espírita. Tomamos como pauta para essa reflexão as seguintes questões: • O que vem a ser a pedagogia espírita? • Quais são suas origens? • Qual a sua concepção/visão de educação, de homem e de criança? • Quais perspectivas podemos esperar, se aplicadas as suas propostas? 12 Para o melhor entendimento do debate, faz-se necessário que organizemos a exposição de forma lógica na tentativa de responder às questões acima colocadas. É o que faremos nos seguintes capítulos. No primeiro capítulo nosso objetivo foi contextualizar o Espiritismo, que é a base fundamental da Pedagogia Espírita. Nele nos esforçamos para mostrar brevemente o entendimento dos teóricos dessa pedagogia sobre o século XIX e XX, destacando suas principais idéias, observando o que há de convergente ou divergente entre elas e o espiritismo. Ao final, apresentamos um resumo do espiritismo com o intuito de completar a tarefa proposta pelo capítulo. A pauta do segundo capítulo foi o diálogo entre filosofia, ciência e religião, proposto pela Doutrina Espírita, alertando para a especificidade de cada conceito, e apresentando o entendimento dos espíritas sobre o tema. No terceiro capítulo, o objetivo central foi caracterizar a pedagogia espírita, seu conceito, origens, principais idéias e seu movimento. Ao final do trabalho, nas considerações finais procuramos responder às questões colocadas no início desse trabalho. Também fizemos um esforço comparativo entre a pedagogia proposta pelo pedagogo polonês Bogdan Suchodolski (1903-1992) e a Pedagogia Espírita. Para isso apresentamos uma síntese da análise que o autor faz sobre o conflito histórico entre as Pedagogias da Essência e as Pedagogias da Existência e a superação desse. Procuramos, ainda, refletir sobre a perspectiva que a pedagogia Espírita teria de ser uma alternativa a superação dessa antinomia, propondo ao final novas questões que continuem esse debate. 13 CAPÍTULO I O CONTEXTO 1. O século XIX Bigueto (2006), em sua dissertação de mestrado sobre o educador espírita Eurípides Barsanulfo, defendida na Unicamp4, apresenta um “panorama conjuntural do final do século XIX” (p. 3), no qual aponta para um período caracterizado pelo otimismo originário dos ideais iluministas e da Revolução Francesa de 1789. Dora Incontri, ao analisar esse século, com o intuito de confrontar o espiritismo com seu contexto histórico-cultural, aponta no mesmo sentido: “Por 200 anos, a civilização européia viveu um frenesi entusiástico de idealismo progressista, (...), Tudo tem sabor de confiança, de uma vontade aceita como possível de atingir dias mais radiantes para a humanidade. (INCONTRI, 2004 p. 35)”. Entretanto, esses dois pesquisadores admitem que em tal período, nem tudo foi tão animador: “É verdade que, por outro lado, no século XIX, há ressaibos de sombra e amargor (ibidem, p.37)”. Alessandro Bigueto diz: “Havia pesadelos incômodos. Em meio à longa paz daquele período, havia um mal-estar, os críticos identificaram impulsos para a morte e para a guerra, na consciência individual e coletiva. É possível localizar o tédio romântico, a afirmação da identidade nacional à custa da destruição mútua e a sombra do ultramontanismo católico-romano. (BIGUETO, 2006 p.14)”. Regis de Morais (2002), ao falar dos “caminhos e descaminhos do século XIX”, em seu livro Educação e Espiritualidade, aborda a contradição do período: De um lado, formidáveis conquistas científicas e tecnológicas, bem como avanços artísticos, insuperáveis até hoje; 4 BIGUETO, Alessandro César. Euripedes Barsanulfo: um educador espírita na Primeira República. Campinas-SP, Faculdade de Educação da UNICAMP, 2006 (dissertação de mestrado). 14 surgimento de várias ciências vitais e consolidação das Ciências humanas. De outro lado, a lógica industrialista com seu empobrecimento de concepção de ser industrialista humano e de valor da vida do homem, o acendramento das competições e da agressividade da vida social. Século de grandes realizações e de grandes equívocos. (MORAIS, 2002, p.23). Poderíamos, segundo Alessandro Bigueto definir o esprit du temps desse século: “(...) resumindo-o em linhas gerais: 1) as idéias evolucionistas, 2) a crença no progresso, 3) a época do cientificismo, 4) as teses utilitaristas, 5) a renovação religiosa, 6) as transformações políticas, econômicas e sociais, 7) a filosofia democrática, 8) a filosofia liberal, 9) a filosofia positivista, 10) os movimentos sociais: socialistas, anarquistas e comunistas e 11) os arraigados nacionalismos (BIGUETO, 2006, p.13)”. A evolução era vista como uma lei natural e tinha um sentido, senão determinado ou previsível, pelo menos pensável, inteligível. O indivíduo transcendia em algo maior (sociedade, ciência). A ciência era capaz de determinar a verdade. O Espiritismo era original quando considerava o indivíduo devidamente, numa relação dialética com a sua metanarrativa, não o diluindo na espiritualidade e nem a desconsiderando. (INCONTRI, 2004) A equação “fé/razão” foi muito debatida no período em questão. A regra era romper com qualquer resquício da Idade Média, e se essa fora dominada pela Igreja, pela revelação divina e pela figura de Deus no centro de qualquer sofrimento ou melhora, o século que nascia deveria ser voltado para a razão, para as descobertas científicas, advindas da observação da natureza sem qualquer interferência sobrenatural, e como vimos anteriormente, o homem tomava de Deus as rédeas da humanidade e a galope seguia rumo à felicidade, sendo ele o agente de transformação. Vejamos o que Dora incontri diz sobre o cientificismo nascente: 15 “O método científico, constituído a partir do Renascimento, propõe-se desvendar a estrutura da realidade e este desvendamento produz ações. A tecnologia, cujos primórdios de desenvolvimento remontam à Revolução Industrial, é o resultado prático da ciência e portanto um indício evidente para a mentalidade da época de que o progresso não teria limites e poderia realizar os sonhos humanos. (INCONTRI, 2006, p.40). O espiritismo não fugia à crítica aos sistemas religiosos do passado, porém o fazia sem negar a essência espiritual do homem, como fizeram a maioria das correntes de pensamento do “século dos materialismos”. Sobre essa questão Dora Incontri nos alerta: “O contexto histórico ocidental, porém, tornava sinônimos religião e Cristianismo e este, num certo sentido, visto como Igreja Católica. Aliás, o próprio absolutismo desta determinara tal concepção. (INCONTRI, 2004, p.44)”. Kardec, na contramão, das teorias materialistas e da ortodoxia católica, propunha revitalizar a pureza inicial do Cristianismo, sem cultos exteriores, sacerdócio, liturgias ou organização institucional. Desse modo, o pedagogo se manifestou, ao mesmo tempo recusando e apontando o caráter religioso, cristão dessa doutrina: “Assim, pois, o Espiritismo se fundamenta em princípios gerais independentes de toda questão dogmática. É verdade que ele tem conseqüências morais, como todas as ciências filosóficas. Suas conseqüências são no sentido do Cristianismo. (...) O Espiritismo não é, pois uma religião. Do contrário, teria seu culto, seus templos, seus ministros. Sem dúvida cada um pode transformar suas opiniões numa religião, interpretar à vontade as religiões conhecidas; mas daí à constituição de uma nova Igreja há uma grande distância e penso seria imprudente seguir tal idéia. (KARDEC, Revista Espírita 1859, p. 149. Apud INCONTRI, 2004, p. 60)”. Entretanto, o espiritismo não tem exclusividade nesse movimento, voltado para um Cristianismo tradicional não ortodoxo. Ao longo dos tempos foram vários os movimentos e pensadores que tentaram reviver o cristianismo 16 original, opondo-se ao catolicismo e ao protestantismo tradicionais, como foi o caso do movimento franciscano. (INCONTRI, 2004). Entretanto, essa visão espiritualista crítica, que buscava suas raízes na religião natural de Rousseau e Pestalozzi, no Pietismo inicial, no hussismo5 dos Morávios e é claro no Cristianismo original não foi regra no chamado século das luzes. Na esteira da negação ao velho representado pela Igreja e pelo regime sócio-político-econômico da Idade Média, as correntes de pensamento assumiram uma postura antiespiritualista, admitindo para leituras legítimas do mundo exclusivamente pressupostos materialistas e ateus. Desde Comte, que defendia a superação dos estados fetichista e metafísico pelo estado positivo6, passando por Marx & Engels, defensores da idéia de que a religião era mais um instrumento de dominação, a ser extirpado na ditadura do proletariado, rumo ao comunismo; por Nietzsche que decretou a morte de Deus, até chegar em Freud, que pregou em “O futuro de uma ilusão” a religião como criação psicológica do homem diante do mundo, confirmando as influências no século XX da onda materialista do século XIX, percebemos o esforço em atrelar qualquer pensamento espiritualista ao conservadorismo, à alienação e até mesmo a um delírio coletivo. Sobre a querela entre espiritualismo e materialismo Bigueto tenta demonstrar que: “Apesar de, historicamente, o ateísmo ter se disseminado cultural e socialmente, deixando de ser uma convicção de poucos, as profecias do fim da religião e do espiritualismo não se concretizaram. As experiências religiosas cresceram, não houve uma dissolução da transcendência e a idéia de Deus não morreu. Ao contrário, paradoxalmente, o fenômeno 5 Refere-se aos descendentes de Jan Huss, antigo Reitor da Universidade de Praga queimado vivo pela inquisição em 1415, que fundaram um movimento inserido na Reforma, da qual Comenius era integrante. 6 É curioso e pertinente lembrar que Augusto Comte, pai do Positivismo criou uma espécie de religião da humanidade, onde encontramos hierarquia, ritos e sacerdotes. 17 espiritual e religioso continuou vivo e fecundo”. (BIGUETO, 2006, p. 16-17). Remonta aos ideias do líder socialista francês Jean Jaurès (1859-1914), para alertar que o espiritualismo ainda era vivo nas idéias sociais do século XIX e ao caráter essencialmente espiritualista da filosofia de Sócrates e Platão, fazendo coro com Herculano Pires7, ao defender que historicamente encontramos a tendência e tradição filosóficas no campo do espiritualismo. E continua afirmando: “(...) as previsões dos profetas materialistas foram contrariadas. Para muitos, isso pode comprovar o quanto o ser humano é religioso. A secularização, não conseguindo acabar com a religião, sem querer deu mostras da sua importância, da necessidade e da naturalidade da dimensão espiritual do homem. A grande maioria da humanidade continuou religiosa”.(ibidem, p. 18). Como vimos, os teóricos da Pedagogia Espírita buscam demonstrar a contemporaneidade do espiritismo com as grandes corrente de pensamento surgidas no século XIX, defendendo a tese de que na tradição filosófica espiritualista podem-se encontrar visões de mundo críticas, abrindo então o debate, antes considerado fechado pelos materialistas. 2. O século XX As correntes do século XX encontram suas raízes no século XIX, “como oposição ao evolucionismo otimista e o cientificismo racionalista”. (INCONTRI, 2004, p.63), segundo a pesquisadora Dora Incontri, esse século é caracterizado pela nadificação de tudo. Ela atribui essa tendência ao próprio contexto totalizante do século anterior: 7 PIRES, Herculano. O espírito e o tempo. São Paulo, Pensamento, 1964, p. 165-166. 18 “Se o inchaço do espírito e do coletivo social sugere a reação do singular e do individual de um Kierkegaard e de um Nietzsche, projetando-se para o século XX no domínio do subjetivismo, aquela absorção do ser individual no todo o havia esvaziado de essência e quando se reafirma o indivíduo, já ele não tem mais substância alguma. Primeiro se nadifica perante o todo, depois se nadifica na solidão e na angústia existencial, suspenso no vácuo da perda de todos os parâmetros que o sustentavam”. (ibidem, p.64). Adiante continua: “A dilatação da razão até o limite do irracional é que prepara o irracionalismo desenfreado de Nietzsche, envenenando a filosofia do século XX de uma desconfiança na racionalidade”. (ibidem, 65). Morais (2002) em seu intrigante ensaio “Das orgias materialistas do século XIX às orgias místicas do século XX” em que discorre sobre o movimento pendular das correntes de pensamento desse período, defende a idéia de que o século passado foi herdeiro “das conquistas e dos equívocos estagnantes do oitocentos” (p.24). Poderíamos caracterizar esse período, principalmente a segunda metade, como o da descrença em qualquer tipo de metarrelato, de qualquer verdade ou parâmetro. Tudo vira jogo de linguagem. Está estabelecido um vazio ético. “Fragmentação do sujeito, nadificação da verdade, ausência de sentido, ininteligibilidade das coisas, irracionalidade do discurso – esses são os traços predominantes do século XX, sem aparentes perspectivas de qualquer segurança ou conforto no limiar do século XXI. Tudo isso, evidentemente, gerou uma crise de valores, sem precedentes na história da humanidade”.(INCONTRI, 2004, p. 71). São nas teses pós-modernas que vamos encontrar a origem dessas idéias. Como bem nos demonstra Eagleton: “Pós-modernidade é um pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, a idéia de progresso ou emancipação universal, os sistemas 19 únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos da explicação”. (Eagleton, 1999, Apud Freitas, 2005, p. 13). Luiz Carlos de Freitas (2005) argumenta que o pós-modernismo serve à causa liberal-conservadora, tornando o entendimento do mundo uma questão local, individual. Alerta ainda, que “nem mesmo a crítica do moderno, já acumulada ao longo da própria modernidade, é levada em conta. É como se a história tivesse começado agora, (...), é como se ela não fosse relevante para o presente...” (p.14). Na esteira de seu pensamento, Freitas se preocupa com as conseqüências de tais teses: “A regra tem sido a insegurança, o consumismo, a competição, a virtualização das relações, a aceleração de todos os tempos, até a instantaneidade da extraterritorialização do celular. Parecera que não há futuro”.(ibidem, p. 91). Sobre os efeitos dos ventos pós-modernos Dora Incontri diz: “Em nossa democracia moderna, em que pese a aparente valorização da escolha individual o indivíduo na realidade não é. Não é, por que as filosofias contemporâneas vivem apregoando o ser e o nada, mas também porque ele se faz resultante de uma modelação ideológica, empreendida pela mídia, a serviço de uma economia capitalista”. (INCONTRI, 2004, p.65). Esses trechos demonstram que o interesse nas conseqüências filosóficas, que têm reverberações sociais e políticas, não é exclusividade dos espíritas. Embora partam de lugares diferentes e estejam em campos teóricos opostos aos dos espíritas, os próprios marxistas alertam para a dificuldade de se definir o que é justo ou injusto nos tempos atuais (NANDA, 1999, Apud Freitas, 2005). Para os espíritas o que está em jogo é a substituição do “homem-sujeito autônomo, livre, responsável, pelo homem-corpo, homen-animal, puro instinto 20 ou ainda homem desejo”. Incontri defende a tese de que a origem da ética universal, ”com todo seu cortejo de liberdade, consciência, igualdade”, está na assunção do espírito e de sua transcendência. Abolido o espírito ou quaisquer resquícios dele (que os havia, mesmo inconscientemente em doutrinas materialistas do século XIX), sobrou a corporeidade, a única instância existencial, a única realidade tangível. O que é o homem sem espírito? Um animal determinado pela genética, feito pelo meio, moldado pelas circunstâncias, porque a única possibilidade de ser de fato é de ser que transcende. (INCONTRI, 2004, p.73). Kardec (1993), já apontava, na segunda metade do século XIX as conseqüências da doutrina que propõe ao homem, nada existir, antes da vida e nada existir depois da morte: “O homem, não sendo senão matéria, não há de real e de invejável senão os gozos materiais; as afeições morais não tem futuro; os laços morais são quebrados sem retorno na morte; as misérias da vida são sem compensação; o suicídio torna-se o fim racional e lógico da existência, quando os sofrimentos são sem esperança de melhora; é inútil se impor um constrangimento para vencer seus maus pendores; viver para si o melhor possível, enquanto estiver aqui; (...) O bem e o mal são coisas de convenção; o freio social é reduzido ao poder material da lei civil”. (ibidem, p.190). De fato, se observarmos o noticiário televisivo, on-line ou impresso, perceberemos que a atualidade está imersa na violência e no total desrespeito à vida, sem qualquer tipo de parâmetro que possa frear esse estado de coisas. Desde a decisão dos Estados Unidos de invadir o Iraque e o Afeganistão, passando por cima das decisões da ONU, baseados em argumentos forjados e motivados por interesses puramente econômicos, passando pelos assassinatos em massa cometidos por adolescentes desequilibrados aqui e ali, pelo alto consumo de drogas (lícitas e ilícitas) praticado pela juventude, em boa medida, de alto padrão aquisitivo e cultural, até chegar à realidade mais cotidiana, na 21 escola, na família ou no trabalho, o que vemos é a confirmação das preocupações acima expostas. 3. O que é o Espiritismo? O Espiritismo é uma doutrina que surgiu na segunda metade do efervescente século XIX. Teve seu marco inicial em 18 de abril de 1857, quando o pedagogo francês Hippolyte Leon Denizard Rivail (1804-1869), sob o pseudônimo de Allan Kardec lançou “O Livro dos Espíritos”. Nesse livro, o autor colocava-se como organizador de idéias apresentadas por inteligências metafísicas, através de um processo psíquico chamado por ele de mediunidade. Tais inteligências, a observação veio demonstrar, eram espíritos de homens desencarnados, ou seja, sem corpo, ou ainda, para usar um termo de entendimento universal, mortos. Os espíritos comunicavam-se com o mundo dos vivos através da mediunidade, que consiste na mediação entre os mundos material e espiritual, em que o espírito utiliza-se do corpo físico de uma pessoa viva para comunicarse com as demais. A partir desse processo psíquico, respondiam perguntas elaboradas por Kardec e seu grupo. As respostas foram compiladas, estudadas e comparadas com outras, obtidas por processos semelhantes em diversas partes do mundo e enviadas a Kardec por carta. As que demonstravam o mesmo conteúdo em diversas partes do planeta, coerência e lógica com as demais repostas (afinal, uma afirmação não poderia contradizer a outra) e fundamentação eram tomadas como repostas corretas e constituintes dessa doutrina dos espíritos, designada Espiritismo pelo seu codificador, como queria ser chamado Allan Kardec. 22 “Agi, pois, com os espíritos, como o teria feito com os homens; foram para mim, desde o menor ao maior, meios de me informar, e não reveladores predestinados.Tais foram a disposições com as quais empreendi, e sempre persegui os meus estudos espíritas; observar, comparar e julgar, tal foi a regra constante que segui”. (KARDEC, 1993, p. 260). O processo, que culminou no surgimento do espiritismo teve início no final da década de 1840, quando fenômenos considerados paranormais foram descritos no interior dos Estados Unidos e na Europa. Mais tarde, tais fenômenos fizeram-se comuns, sendo atração nas rodas sociais parisienses, que se divertiam com as tais “mesas-girantes”8. Foi em uma dessas reuniões que o pedagogo Denizard Rivail, desconfiado, teve o primeiro contato com o Espiritismo. E diante do fato das mesas responderem questões inteligentes, terem vontade própria, humor e, à primeira vista não serem animadas por ninguém que pudesse manipular seu comportamento, Rivail pôs-se a estudar o fenômeno. “Esse movimento era lógico, eu concebia a possibilidade do movimento por uma força mecânica, mas, ignorado a coisa e a lei do fenômeno, parecia-me absurdo atribuir inteligência a uma coisa puramente material. Estava na posição dos incrédulos de nossos dias que negam porque não vêem senão um fato do qual não se dão conta Há 50 anos, se tivessem dito, pura e simplesmente, a alguém que se podia transmitir um despacho a 500 léguas, e receber-lhe a resposta em uma hora, se vos riria na cara, não teriam faltado excelentes razões científicas para provar que a coisa era materialmente impossível. Hoje, quando a lei da eletricidade é conhecida, isso não espanta ninguém, mesmo os camponeses. Ocorre o mesmo com os fenômenos espíritas; para quem não conhece as leis que o regem, parecem sobrenaturais, maravilhosos, e, por conseqüência, impossíveis e ridículos; uma vez conhecida a lei, o maravilhoso desaparece; a coisa nada mais tem que repugne à razão, porque se lhe compreende a possibilidade”. (KARDEC, 1993, p. 256-257). 8 O fenômeno das mesas girantes virou atração comum nas reuniões da sociedade parisiense no início dos anos de 1850. Basicamente tratava-se de reuniões em que as mesas se debatiam, se movimentavam em meio às pessoas, que se divertiam muito. Pelo fato das mesas movimentarem-se pelo salão, respondendo perguntas ou demonstrando seu humor esse fenômeno ficou assim conhecido. 23 Membro de várias sociedades científicas9, professor e autor de livros pedagógicos e didáticos, dentre eles: “Plano proposto para a melhoria da instituição pública (1928), Curso prático e teórico de aritmética, segundo o método Pestalozzi, para uso dos professores primários e das mães de família (1829), (...) Ditado normal dos exames da prefeitura e da Sorbonne (1849)”. (Revista Espírita, maio 1869), esse último muito utilizado na época de sua publicação, Rivail, foi rigoroso em seu estudo, aplicando um método investigativo minucioso. “Apliquei a essa nova ciência, como fizera até então, o método da experimentação; jamais ocasionei teorias preconcebidas: observava atentamente, comparava, deduzia as conseqüências; dos efeitos procurava remontar às causas, pela dedução e o encadeamento lógico dos fatos, não admitindo uma explicação como válida senão quando podia resolver todas as dificuldades da questão. Foi assim que sempre precedi em meus trabalhos anteriores, desde a idade de 15 a 16 anos. (...) seria preciso, pois, agir com circunspecção, e não levianamente; ser positivo não idealista, para não se deixar iludir”.(KARDEC, 1993, p. 259). Segundo Incontri (2004), essas palavras demonstram que Kardec pensava a Pedagogia como uma ciência, assim como seu mestre, Pestalozzi. A autora alerta, ainda, para a herança iluminista do educador francês, com a qual “partia para a pesquisa dos fenômenos em vista, já que é impossível, (...), interpretar qualquer fenômeno sem um referencial teórico” (p. 27). Contudo, mostra a honestidade de Kardec em se dedicar à pesquisa desses fenômenos sem pré-conceitos. Herculano Pires (1957) em texto escrito por conta das comemorações de 100 anos da publicação de “O livro dos Espíritos” analisa o conjunto dessa obra e sua importância para a doutrina espírita e para o mundo moderno. Nessa 9 Destaca-se sua presença na Academie Royale d’Arras, que em concurso realizado no ano de 1831 premiou a dissertação “Qual é o sistema de estudos mais em harmonia com as necessidade da época?” 24 análise, Pires demonstra que as demais obras básicas dessa doutrina partem do seu conteúdo, colocando-o não só como marco inicial do espiritismo ou sua pedra fundamental, mas como “(...) seu núcleo central, e ao mesmo tempo arcabouço geral da doutrina, (...) seu verdadeiro tratado filosófico” (idem). O livro dos Espíritos lançou as bases de uma doutrina complexa, multifacetada, porém simples, de fácil entendimento10, que responde grandes questões existenciais do ser humano11. Essas respostas têm como base de sustentação o processo do qual foram resultadas, que pode ser repetido por qualquer pessoa, e, tomadas às precauções inerentes a qualquer método experimental, tirar a contraprova. Como fez o químico e físico inglês, prêmio Nobel de química (1907) Sir William Crookes (1832-1919), quando contratado pela corte inglesa para desmistificar o espiritismo, e em uma série de experimentos, constatou a veracidade dos fenômenos espíritas. Os resultados de sua pesquisa foram publicados no livro Fatos Espíritas (FEB, 1991). Essas são faces de dois aspectos do Espiritismo, o filosófico e o científico, que conjugados têm conseqüências morais, constitui uma ética. Da conjugação desses dois aspectos com aquele que lhe é conseqüência, temos o tripé da doutrina dos espíritos: filosofia, ciência e religião. Para entender melhor essa questão, dedicaremos um capítulo do nosso trabalho ao proposto diálogo. É o que segue. escrita pelo educador Denizard Rivail. 10 O Livro dos Espíritos (OLE) foi publicado em Francês popular, sem preocupações técnicas da linguagem e exposição filosóficas, para o entendimento de todos. 11 Por exemplo, questões relativas à continuidade evolutiva da vida, à origem e destino do homem, do universo, imortalidade da alma, desigualdade de aptidões, riquezas. 25 CAPÍTULO II DIÁLOGOS ENTRE FILOSOFIA, CIÊNCIA E RELIGIÃO... Esse capítulo tem por objetivo, apresentar a proposta espírita de diálogo entre filosofia, ciência e religião. Reconhecemos a importância e pertinência de um debate mais demorado e meticuloso sobre o assunto, porém não teremos espaço nesse trabalho para essa tarefa, devido a sua própria natureza, de TCC, e ainda a necessidade de nos concentrarmos no recorte que optamos fazer. O debate é denso e requer, quem sabe, um trabalho específico. Para nós é importante, no contexto dessa reflexão, uma vez que tratamos, ora de maneira direta, ora como pano de fundo, de conceitos de ciência, filosofia e religião. Como apontamos no capítulo anterior, o Espiritismo propõe um diálogo entre a filosofia, a ciência e a religião. Pudemos perceber isso em “O Livro dos Espíritos” e mais tarde na demais obras consideradas básicas pelos adeptos dessa corrente de pensamento. Vejamos o que Chibeni diz sobre tal abordagem: “Se pensarmos no Espiritismo em termos de filosofia, será uma filosofia apoiada em bases científicas, e que tem como um dos objetivos centrais o estudo das questões morais. Se pensarmos em termos de ciência, não será uma pesquisa seca, que simplesmente constate e sistematize fatos, mas de uma investigação de longo alcance sobre um objeto de fundamental importância, o elemento espiritual. Essa ciência complementa, pois, as ciências acadêmicas, cujo objeto de estudo é o elemento material. E, pela própria natureza de seu objeto de estudo, a ciência espírita necessariamente diz respeito a tópicos genuinamente filosóficos, dentre os quais ressalta, por sua importância prática, aqueles referentes à moral” (CHIBENI, 2003). Kardec afirma: O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas 26 relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as conseqüências morais que decorrem dessas relações. (KARDEC, 1959).12 Os trechos transcritos explicitam a tese de indissociabilidade entre filosofia, ciência e religião proposta pelo Espiritismo. Entretanto, é preciso alertar para a especificidade desses conceitos. A doutrina dos espíritos é apresentada por Allan Kardec de forma a não se confundir nenhum deles com os até então utilizados. A ciência espírita possui objeto e método próprios, não podendo ser adaptada às metodologias das ciências materialistas como vimos em Chibeni. Sua contribuição capital é a conjugação entre fé e razão, na aplicação do método experimental às coisas metafísicas. A filosofia espírita, isenta de “prejuízos de sistema”, é uma filosofia racional, que tem seus fundamentos na imortalidade da alma, evidenciada pela mediunidade: “A metafísica torna-se pois um pressuposto dado pela ciência espírita e o desdobramento filosófico se dá pela discussão racional, construindo-se a coerência interna da doutrina. A filosofia espírita alimenta-se ao mesmo tempo dos fenômenos estudados pela ciência espírita e do ensinamento dado pelos espíritos desencarnados (...)” (INCONTRI, 2004, p.29). A religião espírita talvez seja o aspecto que mais tem suas diferenças fundamentais enfatizadas, em relação ao conceito a si atribuído. Kardec era defensor da religião natural, uma religião sem sacerdotes, sem igrejas, liturgias ou hierarquias, de caráter interior. Enorme foi a ênfase que ele deu, em seus escritos, à crítica dos sistemas religiosos tradicionais, protestantes ou católicos. Características como o controle universal do ensino dos espíritos distingue de forma capital o espiritismo das religiões tradicionais, baseadas na 12 KARDEC, Allan. O que é o espiritismo. 1959. 27 revelação de um só profeta. O espiritismo é ainda “uma revelação religiosa, por que pela mediunidade, os espíritos propõem teorias teológicas e morais e filosóficas e cosmológicas” (ibidem, p. 30). Embora seja consenso, no movimento espírita, que o Espiritismo propõe com sucesso o diálogo entre filosofia, ciência e religião, o mesmo não aconcetece quando o assunto é pesquisa acadêmica. Pesquisadores espíritas, reconhecidos no meio universitário em suas áreas de conhecimento, consideram que, embora seja uma ciência e uma filosofia, o espiritismo não deve servir de base para pesquisas acadêmicas. Essa tendência encontra fundamentos no entendimento de que a academia moderna é local privilegiado das ciências de fundo materialista, sobretudo o positivismo, que superou o pensamento teológico predominante nas universidades na Idade Média. Sobre isso, Chagas, no texto “Espiritismo na academia?” apresenta um “passeio histórico” remontando à origem da academia e das universidades, no qual analisa a situação destas em relação às correntes de pensamento: “Certas disputas de cátedras tornaram-se célebres. O positivismo conquistou maiores posições e no início do século (após a 1ª Guerra mundial), parece ter havido um armistício. Surgiu uma terceira força neste embate: o marxismo, que se instalou oficialmente na recém-criada União Soviética. A situação atual nos países ocidentais, onde nos incluímos, é nítida a predominância ideológica do positivismo, com alguns bolsões teologias (católicos ou protestantes), todos vivendo uma aparente coexistência pacífica. O marxismo, apesar de muito difundido, poucas vezes ameaçou o poder da academia” (CHAGAS, 1994, p. 21-22). Outra tendência, na qual a pedagogia espírita está inserida, vê no espiritismo uma matriz teórico-metodológica que deve servir de base para pesquisas acadêmicas, como já foi mencionado nesse trabalho. Para a defesa (http://www.espirito.org.br/portal/codificacao/oq/index.html) 28 de tal empreendimento, seus adeptos recorrem, assim como seus opositores, à história da universidade, considerando essa como espaço privilegiado, imprescindível para as transformações. “A universidade é uma das belas heranças que o final da Idade Média nos deixou. Os séculos XII e XIII, que viram seu início, foram palco das mudanças sociais, culturais e políticas, que desembocariam no Renascimento. Aliás, o século XII é considerado como a primeira etapa do movimento que tomaria mais tarde esse nome.” (INCONTRI, 2003). Também a universidade brasileira é objeto de análise do artigo. A autora alerta para o fato do Brasil somente fundar sua primeira universidade na década de 1930, quando praticamente em todos os países da América Latina já havia Universidades que contavam pelo menos 100 anos. Esse fato constitui, segundo Incontri, uma das causas para a falta de originalidade (Salvo Darcy Ribeiro e Sergio Buarque de Holanda) da academia brasileira e para o colonialismo intelectual predominante. Para Incontri o espiritismo entendido como “método de conhecer” , como um novo paradigma, constitui valiosa possibilidade de contribuição original brasileira para a filosofia e a ciência. “E essa originalidade pode ser uma contribuição espírita à cultura brasileira e, ao mesmo tempo, uma contribuição brasileira à cultura internacional. Mas ela precisa ser construída. Está implícita em Kardec, mas longe de estar aplicada (com todas as suas articulações) nas várias áreas do conhecimento. E essa construção só pode ser feita na universidade.” (idem) No fundo dessa divergência encontramos entendimentos opostos sobre a academia e sobre a universidade. O que constitui, de certa forma, divergências sobre o próprio conceito de ciência. Entretanto, é lugar comum entre essas duas visões que o Espiritismo constitui uma ciência, específica, com método e objeto próprios, e que dele emerge um novo paradigma. 29 Para superar essa querela, é importante que seja realizada uma pesquisa de fôlego, que debata as raízes epistemológicas espíritas, confrontando com o debate teórico mais geral sobre teoria do conhecimento e epistemologia, bem como reflita sobre a história e a natureza da universidade e da academia, continuando o trabalho iniciado por Dora Incontri (2001, 2003, 2004), já citada aqui, os estudos de Chibeni sobre a cientificidade do espiritismo (1988, 1990, 1994, 2003) e de Chagas (1987, 1994, 1995). 30 CAPÍTULO III A PEDAGOGIA ESPÍRITA Imperioso para o correto entendimento sobre a Pedagogia Espírita, sem os prejuízos de conceitos pré-estabelecidos, é o entendimento de que essa teoria pedagógica está inserida na tradição filosófica ocidental espiritualista e se afirma a partir da emersão de um novo paradigma, o paradigma do espírito, a partir do qual é possível uma releitura dessa tradição filosófica ocidental. O paradigma do espírito, segundo Incontri, tem se constituído há 2500 anos como projeto de emancipação humana, e remonta a Sócrates e Platão, passando por Cristo, Comenius, Rousseau e Pestalozzi, até chegar a Kardec, quando fica explícito, a partir de uma experimentação positiva fundamentada, conceitos como imortalidade da alma e reencarnação, até então intuitivos na obra e prática dos seus precursores (INCONTRI, 2001.) Assim Incontri (2001) resumiu os principais pontos desse paradigma: 1) Entendimento de Jesus fora dos padrões míticos que o têm cercado; 2) afirmação do sujeito autônomo e livre; 3) segura racionalidade, aliada a fé sem fanatismos; 4) proposição de uma educação humana, que faça brotar as potencialidades do homem e o conduza à felicidade individual e coletiva; 5) busca de um conhecimento verdadeiro e manifestação da crença na ação transformadora do homem.(p. 110). Outro ponto, não menos importante, é considerar que a proposta da pedagogia espírita se contextualiza numa dualidade do movimento espírita brasileiro. No qual encontramos duas tendências bem definidas uma que dá mais atenção ao aspecto religioso, assistencialista e institucional, da doutrina, imprimindo no espiritismo um caráter conservador; outra que entende esse 31 como um projeto pedagógico-cultural, progressista, com claras contribuições para a transformação da humanidade. Incontri caracteriza bem tais tendências, identificando na segunda a Pedagogia Espírita: “A primeira reduz a questão educacional espírita aos centros, com cursos internos para adultos sobre Espiritismo e a chamada ‘evangelização’ das crianças — cujo nome já indica o caráter predominantemente religioso e mesmo catequético. A segunda propugna pela criação de escolas, centros culturais, universidades espíritas, sem caráter sectário. Numericamente, a primeira tendência é maior, porque possivelmente arraigada na mentalidade brasileira, pouco afeita às questões culturais e pedagógicas. A segunda, porém, apresenta muito maior consistência teórica e já tem se manifestado em experiências práticas e ensaios teóricos”. (INCONTRI, 2001, p. 209).13 Não nos interessa aqui fazer um estudo detalhado sobre as experiências pedagógicas espíritas, interessa-nos captar o que vem a ser essa pedagogia, traçando seus princípios e conseqüências práticas, por isso vamos nos ater em apenas citar tais experiências a fim de situar o leitor, e poder melhor responder nossas questões norteadoras.14 3.1 - Os Precursores: A pedagogia espírita nasce, segundo Dora incontri, da prática pedagógica inovadora de educadores espíritas brasileiros que produziram, fundamentados no Espiritismo, uma práxis significativamente diferenciada da educação tradicional. “Pode uma escola não alcançar a prática integral de todos os princípios pedagógicos espíritas. Mas não basta uma escola autodemoninar-se espírita, para se inserir no quadro desta Pedagogia”.(ibidem, p. 211 – nota 375). São eles: A carioca de nascimento e paulista radicada 13 Grifos meus. 32 Anália Franco, os mineiros Eurípedes Barsanulfo e Tomás Novelino, o paulista interiorano Herculano Pires, Pedro Camargo e o paranaense Ney Lobo. Anália Franco (1853-1919) foi feminista, republicana, abolicionista e espírita, numa época que a regra era ser escravocrata, machista, monarquista e católico. A sociedade brasileira se organizava por esses quatros últimos pilares, sendo de extrema coragem a postura dessa professora paulista, que acolheu, numa casa alugada com recursos próprios, crianças negras, “filhos e filhas” da Lei do Ventre Livre, fazendo assim sua primeira Casa Maternal (INCONTRI, 2001). Com apoios da Maçonaria, de companheiros espíritas e de outras mulheres funda, em 1901, a Associação Feminina Beneficente e Instrutiva, que constitui creches e asilos por todo estado de São Paulo com os seguintes objetivos: “1º recolher as mulheres pobres, com ou sem filhos, que se acham ao desamparo; 2º meninas órfãs ou filhas de pais inválidos; 3º meninos com suas mães, até 8 anos; 4º os filhos de mães operárias de 2 anos para cima; 5º criar aulas de instrução primária, secundária e profissional, diurnas e noturnas, para as asiladas ou não; 6º criar secções especiais para enfermeiras (sic) e mulheres arrependidas (sic).”(FRANCO, 1903. p.5. Apud INCONTRI, 2001)15 Anália Franco é considerada uma representação fiel da mulher defendida e anunciada por Kardec, no Livro dos Espíritos:. “A lei humana, para ser justa, deve consagrar a igualdade de direitos entre o homem e a mulher; todo privilégio concedido a um ou a outro é contrário à justiça. A emancipação da mulher segue o processo de civilização, sua escravização marcha com a barbárie. Os sexos, aliás, só existem na organização 14 Para uma visão mais detalhada veja: COLOMBO, Dora Alice (Dora Incontri). Pedagogia Espírita: Um projeto brasileiro e suas raízes histórico-filosóficas. São Paulo, Feusp, 2001 (tese de doutorado). 15 FRANCO, Anália. Escholas maternaes. In: A Vóz Maternal, São Paulo, I (1), 1º/12/1903, p. 5. Apud INCONTRI, 2001. 33 física, pois os Espíritos podem tomar um e outro, não havendo diferenças entre eles a esse respeito. Por conseguinte, devem gozar dos mesmos direitos”.(KARDEC, DATA, p. XXX). Segundo Incontri, Anália Franco tinha uma prática educativa que se distanciava de qualquer proselitismo ou doutrinação. Mesmo sendo espírita confessa, Anália não ensinava espiritismo em suas creches e asilos. “Incentiva, porém, uma religiosidade ecumênica, despertando entre os alunos alguns conceitos comuns a todas as crenças: a oração, a imortalidade da alma, a veneração a Deus, a fraternidade humana”. (INCONTRI, 2001, p.229). O que estaria em pleno acordo com o Espiritismo e indo ao encontro de outras experiências educacionais espíritas. Assim Dora Incontri sintetiza a contribuição dessa educadora, mulher ativista da transformação social: “A obra abrangente de Anália Franco indica que faz parte dos postulados espíritas uma visão social transformadora, alavancada pela educação, com claras conotações igualitárias e democráticas. Liberdade de pensamento, valorização da mulher, respeito às diversidades religiosas e étnicas — todos esses são elementos espíritas encontrados na ação de Anália. Do ponto de vista de sua prática pedagógica, a presença desses elementos mais as heranças pestalozzianas, fröbelianas e francesas apontadas revelam avanço em relação ao tradicionalismo da época”.(Ibidem, p. 234-235) Eurípedes Barsanulfo (1880-1918), é considerado o primeiro a organizar uma escola espírita que atendesse ao critério citado. Em 1907, ele funda o Colégio Allan Kardec, na cidade mineira de Sacramento. Num período em que era comuns castigos físicos e recompensas, educação diferenciada e separada para meninos e meninas, Eurípedes aboliu os castigos, as recompensas e montou classes mistas, suscitando movimentos contrários ao seu colégio. Isso 34 para ficar somente em questões de clara percepção. Assim Bigueto descreve o Colégio Allan Kardec: “A escola era particular, gratuita e sem fins lucrativos. Iniciou suas atividades com umas 80 crianças de ambos os sexos e pretendia contribuir na valorização da infância, despertar o sentimento do bem e a vontade de conhecer. Desde o início, Eurípedes compreendia que o problema educacional ia além do mero aprender a ler, contar e escrever. Distanciava-se também das idéias coercitivas que vigoravam na educação e procurou substituir práticas pedagógicas tradicionais por um ensino cooperativo, adotando métodos que incentivavam a ação, a liberdade, a investigação. A experiência do colégio Allan Kardec tinha a intenção de negar a escola livresca, autoritária e distante da realidade. Ao contrário, pretendia criar uma nova forma de lidar com os alunos considerando seus interesses, necessidades, vivências, promovendo a educação intelectual, física e moral.” (BIGUETO, 2006, p.152). O autor demonstra em sua dissertação de mestrado, Eurípedes Barsanulfo, um educador espírita na primeira república (2006), a proximidade das propostas de Eurípedes com as defendidas e praticadas por Pestalozzi em Stans e Yverdon, de uma práxis espiritualizada, preocupada em formar o ser humano na sua integralidade, respeitando e criando condições para o desenvolvimento individual do educando. Tomás Novelino (1901-2000), motivado pela expulsão de um aluno, de uma pequena escola de Franca, dirigida por um ex-seminarista, pelo fato do menino ser espírita, tomou a decisão, de fundar uma escola que protegesse os estudantes espíritas e de quem quer que fosse, independente de credo. Sua proposta era de uma escola que não fizesse separações e sob a bandeira da tolerância religiosa aceitasse crianças de todos as crenças. Dizia ele, o saparativismo era o mal das religiões. Fundamentado nos ideias espíritas, e no aprendizado de Novelino com Barsanulfo e Anália Franco16, em 1° de Agosto 16 Órfão de pai e mãe, Novelino foi internado junto com os irmãos e irmãs no asilo Anália Franco em São Paulo (1908). Também foi aluno de Eurípedes, no Colégio Allan Kardec, em Sacramento. 35 de 1944, iniciava suas atividade o Educandário Pestalozzi, como a materialização dessa idéia. (INCONTRI, 2001). Assim estava escrito na pedra fundamental das obras de ampliação do projeto educacional, que já não cabia mais, nas instalações iniciais: “O Educandário primará por ser livre e fazer homens e mulheres livres, criaturas ciosas de sua liberdade, amantes do bem, do trabalho, da atividade, da evolução, e não seres modorrentos que muito embora consigam às vezes grande cultura, a traga simplesmente acumulada na memória. (…) O educandário porfiará por lapidar em seus alunos intelecto e coração, aprimorando-lhes razão e sentimento”. (Educandário Pestalozzi, 1943. Apud INCONTRI, 2001, p.238).17 A experiência de Novelino, para Incontri, encontra paralelos muito estreitos com as experiências e propostas de Pestalozzi, para uma educação integral do ser humano. A autora ainda relaciona a ligação entre a indústria de sapatos, financiadora do projeto, com as escolas, a fazenda e o observatório, com experiências socialistas como a de Robert Owen (1771-1858), fundador do cooperativismo. Embora tenha inovado pouco na questão pedagógica, se comparada à proposta de Barsanulfo, Tomás Novelino e sua esposa deram uma inestimável contribuição no que diz respeito à estabilidade financeira, a qualidade institucional e à preocupação estética e ambiental. (INCONTRI, 2001), apontando caminhos e mostrando ser possível o envolvimento dos espíritas em projetos educacionais e culturais. Herculano Pires (1914-1979) foi reconhecido pelo primeiro presidente, e fundador da Academia Brasileira de Filosofia, Jorge Jaime de Souza Mendes, 17 Educandário Pestalozzi (in: A Nova Era. Franca, XIX (734), 31/1/46, p 1.). Apud INCONTRI, 2001, p. 238. 36 na obra que constitui importante referência para a filosofia brasileira. Em “História da filosofia no Brasil18”, o acadêmico afirma que “a história da filosofia brasileira já possui o filósofo do Espiritismo, e esse foi, indiscutivelmente, José Herculano Pires” (Jaime, 2000, p. 144). Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1957), jornalista de profissão, foi também poeta, romancista19, sindicalista20 e professor universitário, tendo lecionado Filosofia da Educação na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Araraquara (1959-1962), uma das instituições de educação superior que deram origem à Faculdade de Ciências e Letras, campi da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) nessa cidade do interior do estado. Com uma atuação multifacetada, Herculano Pires teve participação singular na luta em defesa da escola pública, laica e gratuita durante os debates que foram travados no cenário educacional brasileiro na virada dos anos 50 para os anos 60, entre os que defendiam a escola pública e os que, sob a bandeira da liberdade de ensino, defendiam privilégios para as escolas particulares e confessionais (Incontri, 2001). Vejamos o que dizia o Manifesto em Defesa da Democratização Escolar, assinado pelo Clube do Jornalista Espírita, presidido por Pires, e enviado ao Senado Federal, a propósito da aprovação de um substitutivo de Carlos Lacerda a LDB, em discussão desde 1948: “Os princípios confusionistas do projeto aprovado, que mistificam o problema do ensino, misturando deveres do Estado, com interesses particulares, em evidente benefício de interesses confessionais — ainda mais nocivos do que aqueles, por 18 JAIME, Jorge. História da filosofia no Brasil. Petrópolis, São Paulo, Vozes e Faculdade Salesianas, 2000. 19 É considerado autor de um novo gênero literário, a “ficção científica paranormal”. 20 Foi Presidente do Sindicato dos Jornalistas de 1957 a 1959 37 implicarem coação de consciência — são simples resíduos do obscurantismo medieval”. (Apud INCONTRI 2001, p. 275) Esse movimento culminou na fundação, em 1960, também sob a liderança de Herculano, da Associação Espírita em Defesa da Escola Pública, que em 62 lança um novo manifesto, conclamando espíritas e não-espíritas à luta pela escola pública como espaço de liberdade de consciência. Eram esses, dentre outros, os princípios da associação: “(a) Luta incessante contra o ensino religioso nas escolas, por constituir instrumento de coação das maiorias religiosas contra as minorias, o elemento de condicionamento das consciências, conseqüentemente, de deformação do ensino e da educação; (b) luta incessante contra as discriminações raciais, de cor, ideológicas e religiosas, nos estabelecimentos de ensino públicos e particulares, com denúncia e ação judicial nos casos concretos”. (Associação Espírita em Defesa da Escola pública, 1962. Apud INCONTRI, 2001, p. 276) Ao contrário do que se poderia pensar, os espíritas estiveram, como acabamos de ver, do lado da escola pública, laica e gratuita, sendo coerentes com os princípios do espiritismo postulados por Kardec, que rompe com as instituições, liturgias e hierarquias religiosas, propondo, como Pestalozzi uma religião natural, interior. No que diz respeito à coerência com o espiritismo, Pires foi exemplar, se tornando inclusive, um dos mais, senão o mais contundente e engajado crítico de setores do movimento espírita brasileiro que consideram essa doutrina apenas como uma religião. Em seu livro “O Centro Espírita” (LAKE, 1992), disserta sobre diversos aspectos do movimento espírita, a partir de sua célula básica. São temas como: a falta de entendimento dos espíritas sobre as idéias codificadas por Kardec; a própria função e significado do centro; a assistência social prestada pela instituição; a relação com a comunidade; política, dentre 38 outros. É um verdadeiro compendio crítico à prática do movimento espírita “oficial” no Brasil. Dizia ele: “A expansão do Espiritismo em nossa terra é incessante e prossegue em ritmo acelerado. Mas o que fazemos em todo esse vasto continente espírita é um esforço imenso de igrejificar o Espiritismo, de emparelhá-lo com as religiões decadentes e ultrapassadas…” (PIRES, 1992, p. XXI). No campo da Pedagogia Espírita, o filósofo é considerado o seu grande teórico e incentivador, tendo produzido vasta bibliografia acerca do assunto. Liderou três congressos educacionais espíritas no estado de São Paulo21. Fundou o Instituto Espírita de Educação, resultante do primeiro congresso. Também foi criador e editor da revista “Educação Espírita”, publicada entre os anos de 1970 e 1974 (FUCHS, 1990)22. José Herculano Pires (1990) compreende o espiritismo como sendo uma “mundivivência” e como projeto cultural, por isso, deve influenciar significativamente todos os âmbitos da sociedade e do conhecimento. A sua legitimidade estaria fincada no fato do espiritismo ter surgido naturalmente, e não por vontade de uma autoridade, firmando-se como doutrina, “com concepção do mundo e do homem devidamente estruturada em princípios filosóficos” (p. 5), esses confirmados pela experimentação positiva, realizada por Kardec ao longo de seus estudos sobre o fenômeno das mesas girantes, e perfeitamente passíveis de reprodução23. Dessa mesma forma encontramos a legitimidade da Educação Espírita, que, nas palavras do jornalista “(...) não 21 I, II e III Congresso Educacional Espírita paulista, realizados em 1949, 1955 e 1970, respectivamente. Prefácio à primeira edição do livro Pedagogia Espírita, no qual estão reunidos os mais significativos textos de Herculano Pires na revista. 23 O segundo livro da chamada codificação espírita, O Livro dos Médiuns (1861), levava o subtítulo “Espiritismo Experimental” e pode ser considerado um manual para repetição dos experimentos de Kardec. 22 39 surge como uma elaboração artificial em nosso tempo, como mais uma novidade educacional” (idem). Herculano defendia a educação na sua realidade transcendente, como ser reencarnado e por isso a educação vista do prisma da Doutrina Espírita, “(...) nos apresenta dois aspectos fundamentais: é o processo de integração das novas gerações na sociedade e na cultura do tempo, mas é também o processo de desenvolvimento das potencialidades do ser na existência, com vistas ao seu destino transcendente. (ibidem, p. 113)” Isso significa uma mudança substancial na postura da escola, do educador e das práticas educativas. Pedro Camargo (1878-1966), conhecido pelo pseudônimo Vinícius, foi orador espírita e autor de obras que reforçavam o caráter evangélico do Espiritismo. Em seus livros estão presentes os princípios da educação nãoautoritária e da auto-educação que servirão de base para experiências como a do Professor Ney lobo, em Curitiba/PR. Comerciante de profissão cursou, mas não concluiu, o curso de Direito. No movimento espírita, além de palestras atuou nas áreas de assistência social e evangelização infantil. Era um defensor dos direitos humanos e como tal defendeu a recuperação por meio da educação de criminosos, fazendo coro com Eurípedes Barsanulfo e Ney Lobo, na defesa da não punição como ato pedagógico. Foi fundador do Instituto Espírita de Educação, sendo seu presidente durante 20 anos. (INCONTRI, 2001) Professor Ney Lobo foi diretor do Colégio Lins de Vasconcellos24, e lá deu intensa e importante contribuição para a constituição da Pedagogia 24 O Colégio Lins de Vasconcelos foi arrendado em 1998 para um grupo educacional privado, pela Federação Espírita do Paraná (mantenedora do colégio), que alegou dificuldades financeiras e que o Lins 40 Espírita. De sua experiência extraiu e sistematizou uma teoria da Pedagogia Espírita, que pode ser encontrada nos 5 volumes de Filosofia Espírita da Educação (FEB). À frente do colégio, o qual era mantido pela Federação Espírita Paranaense, o Professor criou a Cidade Mirim, onde os alunos elegiam o Prefeito, seus vereadores e gerenciavam a cidade, praticando o princípio da atividade como eixo fundamental de seu método educacional. Sobre a ousadia do diretor Dora Incontri nos informa que ao assumir a gestão da instituição: “Ney Lobo aboliu em todas as séries as aulas tradicionais e vendeu as carteiras escolares, assim que assumiu a direção do Instituto, mandando fazer módulos que se ajustavam aos trabalhos em equipe. Em vez de aulas, foram estabelecidas ‘sessões de trabalho’, nas quais havia sempre um trabalho individual (TI) e um trabalho coletivo (TC), apenas brevemente orientados pelo professor.” (INCONTRI, 2001, p. 247). Sobre a base de uma educação ativa, o Gestor implementou, na esteira de Rousseau, Pestalozzi, e Eurípedes, novidades também no campo da avaliação. “Desaparecem as provas periódicas e os exames finais. A avaliação era contínua, através dos trabalhos individual e coletivo” (Ibidem, 249). Qualquer tipo de punição ou recompensa é abolido. Para substituir essa prática e de fato contribuir para o crescimento dos estudantes Ney Lobo propõe o princípio da reparação: “Consiste (este princípio) em induzir o educando, por meios hábeis, a reparar, de alguma forma, as faltas cometidas; voluntariamente, isto é, sem imposição ou ameaças. Faltas essas de qualquer natureza: ofensas, agressões, danos ou prejuízos causados. A reparação é a correção educativa por excelência”. (LOBO, 2001 p 2. Apud INCONTRI, 2001, p. 250). não contribuía com a divulgação do espiritismo, missão primeira da entidade, acabando com o que foi uma das mais avançadas e inovadoras práticas educacionais do país. 41 Como pudemos perceber a prática de Ney Lobo, fundamentada pedagogia da cooperação, da ação e da caridade, é repleta de referências aos princípios do Espiritismo, bem como da herança pedagógica de Rousseau, Pestalozzi, Kardec e Eurípedes Barsanulfo. Ela constitui exemplo para a proposta pedagógica da Pedagogia Espírita, sendo considerada, pelos defensores dessa idéia, como sendo em si, uma prática bem sucedida dessa teoria pedagógica. 3.2 – As Idéias A Pedagogia Espírita está, segundo seus teóricos, inserida num continum, que tem Sócrates e Platão num extremo e as práticas de educadores espíritas brasileiros no outro. Como vemos em Incontri, seus princípios e desdobramentos “brotam da maiêutica de Sócrates, da mensagem do Cristo, das contribuições de Comenius, Rousseau e Pestalozzi, solidificam-se com Kardec e florescem no Brasil com Eurípedes e Anália, Ney Lobo e Herculano (INCONTRI, 2001, p.281)”. Todos esses estendidos a partir do paradigma do espírito, em que essa Pedagogia está fundada. Suas idéias emergem das obras básicas espíritas e das práticas educacionais que já vimos, assim como da própria releitura, a partir desse novo paradigma, da obra dos grandes pensadores da educação, já citados. Mas essencialmente dos fundamentos e princípios espíritas, encontrados ao longo das obras básicas da codificação Kardequiana e dos doze volumes da Revista Espírita, publicada mensalmente durante doze anos pela Sociedade de Estudos Espíritas de Paris, na qual Kardec falava de temas atuais da época, se 42 correspondia com correligionários e apresentava os resultados de suas pesquisas. Dora incontri em sua tese de doutorado sobre a Pedagogia Espírita extrai da obra Kardequiana os fundamentos e princípios dessa pedagogia, apresentando de forma sintética o conjunto da cosmovisão espírita, que segundo ela, tem na educação, a justificativa, o processo e o fim da vida humana. A seguir apresentaremos os principais fundamentos e princípios da Pedagogia Espírita, a fim de buscar as respostas das perguntas postas no início desse trabalho. Vejamos então primeiro os fundamentos e depois os princípios, mantendo a divisão que a autora fez. O primeiro e considerado o mais original de todos os fundamentos, que caracterizaria a Pedagogia Espírita como uma proposta revolucionária, segundo seus adeptos é o entendimento do ser humano como um ser interexistente. Esse termo foi cunhado por Herculano Pires, a fim de sintetizar a visão Espírita de homem. Dizia ele: “A concepção espírita de homem nos mostra o ser na existência com duas formas corporais e dois destinos interrelacionados. O corpo físico é o seu instrumento de vivência terrena, mas o corpo espiritual é o seu organismo etéreo de que deve servir-se na continuidade superexistencial dessa vivência (PIRES, 1990, p. 114)”. (...) A criatura humana, mesmo nesta existência, não está sujeita apenas ao plano existencial terreno. Ela existe no aqui e no agora, mas traz consigo a mente de profundidade que liga à existência espiritual de que provém. (...), Vivemos entre duas existências e não apenas numa, como supões a ilusão materialista. Não somos apenas o existente na concepção existencialista, como o interexistente da concepção espírita. (Ibidem, p. 117). Essa concepção de interexistência está, como pudemos perceber em nosso estudo, ligada fundamentalmente à idéia de Reencarnação. Isso significa entender o homem, não apenas como existente na dimensão espiritual e 43 material, no aqui e no agora, mas também considerar sua existência espiritual anterior a essa vida, e, sobretudo as sucessivas existências que teve no seu passado milenar. Incontri diz: “(...) o ser existe além das dimensões físicas e visíveis, porque se expande em espírito no tempo e no espaço. No tempo, porque em seu íntimo carrega um passado histórico denso a se manifestar em lembranças, intuições, tendências, impulsos, conhecimentos inatos, experiências já adquiridas. No espaço, porque está em permanente contato extrasensorial com outros seres, capta outras dimensões, através de sonhos, visões, mensagens telepáticas e comunicações explícitas e diretas.” (INCONTRI, 2001, p. 282) Segundo Incontri, como o devido entendimento da sua interexistência, o homem teria melhores condições de realizar as suas potencialidades. Porém alerta que, na visão espírita, essa compreensão, não é conseqüência de uma revelação divina, salvacionista, ou resultado de técnicas específicas para adquirir dons mediúnicos. Ela “passa pela racionalidade (...), é fruto maduro de reflexão racional, experimentação pessoal e esforço de evolução”. (ibidem, p.23). A visão espírita sobre o educando está intimamente ligada ao entendimento do homem como ser interexistente. A idéia de criança da Pedagogia Espírita, não é diferente, porém merece destaque por ser a ela atribuída destacada importância. A criança, “é um ser inteiro e livre, interexistente que se manifesta em corpo frágil, para retomar as experiências do mundo em moldes diversos dos que já experimentou no passado, e poder integrar essa nova personalidade em formação às múltiplas já vividas, que constituem o seu eu original”.(Ibidem, p. 284). Na sua Interexistência, ela é submetida às influências da hereditariedade, do meio sóciocultural e das limitações psíquicas e das que o corpo físico impõe ao espírito. Essas influências, segundo o espiritismo, foram aceitas e 44 escolhidas livremente pelo espírito antes da sua reencarnação, para contribuir no seu processo educativo na existência. A sua reencarnação, de acordo com a bibliografia espírita se justifica pela necessidade de o espírito auto-educar-se permanentemente, com vistas a atingir a perfeição. A Pedagogia Espírita faz, fazendo jus a sua origem Rousseauniana, considera a criança essencialmente boa, pois tem em si o germe da perfeição. Considera ainda a infância um “estado de permeabilidade psíquica e moral”, em que a criança é ávida por aprender e agir, por expandir-se em energia e afetividade. (INCONTRI, 2001). A terra, na concepção espírita é a morada temporária de espíritos que estão, para usar a terminologia espírita, encarnados. Ela é apenas um, dentre infinitos mundos no universo, que servem, como a Terra, de escola e laboratório, onde durante sucessivas vidas os Espíritos aprendem através de experiências, na existência material e se aperfeiçoam. O entendimento dos defensores da Pedagogia Espírita sobre a Educação é que essa conciste em “processo permanente de aperfeiçoamento do Espírito, é o despertar de suas potencialidades, a realização gradativa de sua divindade e não apenas numa dada existências, mas eternidade afora”. (Ibidem, p. 287). Ela é considerada o sentido mesmo da existência e deve: promover a vida interexistente; promover a responsabilidade do educando de auto-educar-se; conquistar a adesão do educando para sua própria educação; deve ainda, evitar a estagnação, a apatia, o adormecimento da vontade. (Idem) Na mesma linha de pensamento, o educador também é ressignificado. Ocupa uma centralidade no processo educativo proposto pela Pedagogia Espírita, no entanto divide essa centralidade com o educando que deve ter 45 papel ativo e protagonista em sua auto-educação e na educação coletiva. O papel do educador para essa pedagogia é de mobilização, motivação da vontade de evolução desse educando. “É o que observa atentamente, amando com intensidade, o ser-educando, e descobre como atingir o seu âmago, para tocar sua essência divina e deflagrar o processo de auto-educação”. (ibidem, p. 288). São funções do educador, segundo a Pedagogia Espírita: captar o educando em suas heranças passadas, suas promessas futuras e suas relações espirituais presentes; orientar e influenciar, sem jamais ferir a liberdade do educando; Deve, ele mesmo, estar imerso num intenso processo de auto-educação, para poder empolgar o educando com seu exemplo. (INCONTRI, 2001). Podemos perceber, nesse conjunto teórico, apresentado como fundamentos da Pedagogia Espírita, uma série de pilares de outras propostas educacionais. Como o amor Pedagógico de Pestalozzi ou a essência boa da criança e a educação natural de Rousseau, o que demonstra a assunção de uma ligação desses pensadores/educadores com a pedagogia tratada aqui, por parte dos seus teóricos. Os princípios da Pedagogia Espírita são o amor, a liberdade, igualdade na singularidade, a naturalidade, a ação e a educação integral. A seguir apresentaremos cada um sucintamente, para continuar nosso objetivo de caracterizar essa teoria. O amor é o primeiro e máximo princípio. Incontri, em sua exposição sobre o tema, alerta para o desvirtuamento do conceito. Define-o pela eleição do que ele não poderia ser. Segundo a jornalista e educadora, teórica da 46 Pedagogia Espírita o amor não possui, não domina o outro, não fere, não se acomoda com o poder e a injustiça, não é chantagista. O amor proposto aqui deve permear todas as relações educativas, entre educadores e educandos. Deve ser entendido como doação e empenho do primeiro em benefício do segundo, com o objetivo de mobilizar o educando na busca de sua autoeducação. Para isso, ele deve repudiar qualquer tipo de violência ou ato de punição, deve ser ativo e corajoso para conquistar o educando para o projeto proposto de auto-educação. A liberdade é a conseqüência do amor. Não pode ser apenas a assunção racional de um direito somente, deve ser fundado, para os teóricos dessa idéia, nos laços da fraternidade. “A obediência à autoridade constituída deve ser substituída pela anuência consciente e espontânea, que o educador deve aprender a conquistar amorosamente, quando, e apenas quando, se tratar do bem do próprio educando. Mas, em última instância, o ato pedagógico é sempre uma oferta, um convite, uma possibilidade que o educando tem a liberdade de aceitar ou recusar”. (INCONTRI, 2001, p. 290). O princípio da igualdade com singularidade vai nos dizer que todos os seres humanos são iguais, têm os mesmos direitos e deveres, têm a mesma natureza, espiritual, biológica e social. Contudo, são também essencialmente diferentes, pois cada um se encontra num estágio na escala da evolução espiritual, têm experiências diferenciadas nesta vida e ainda estão inseridos em contextos socioculturais diversos. Ao assumi-lo, a Pedagogia Espírita propõe, coerente com Kardec, a abolição de qualquer hierarquia e competição entre os indivíduos. Também afirma não aceitar gurus e mestres a serem reverenciados. “(...) a Pedagogia Espírita é igualitária no sentido de tratar todos os seres humanos no mesmo diapasão de respeito, 47 fraternidade e compreensão. Mas deve reconhecer e descobrir as riquezas de cada ser singular e incentivá-las, socializá-las, observando da mesma forma as imperfeições de cada um para trabalhá-las”. (Ibidem, p. 291). O princípio da naturalidade nos mostra que essa proposta pedagógica compreende que o universo se compõe, todo ele, de uma só natureza divina. Que o mundo espiritual é tão natural quanto o físico, “lados da mesma moeda”. Assume-se que há uma natureza humana que engloba o aspecto social, biológico e espiritual do homem. Há uma natureza da criança, que a Pedagogia Espírita propõe aos educadores compreendê-la para melhor auxiliá-los na sua auto-educação. O conhecimento dessa naturalidade do ser humano e do universo permite, segundo os espíritas, respeitar o fluxo harmônico das coisas, dos seres. “Assim como para se colher o fruto de uma árvore, é preciso semeá-la, adubá-la e conservá-la segundo a natureza, para se colher a luz humana, é preciso educar o ser interexistente, em obediência a todas as leis naturais — físicas e morais — que regem o seu desenvolvimento. Essas leis, porém, não são rígidas e lineares, mas flexíveis e orgânicas, porque a maior de todas elas é a lei do amor e onde há amor, há criatividade, expansão, espontaneidade”. (Ibidem, 292). É a partir da ação no mundo que o Espírito de desenvolve. Baseado nessa compreensão a Pedagogia Espírita se propõe eminentemente ativa, propõe o aprendizado através da ação livre. “A ação em si – traduzindo-se em atividades sociais, em produções estéticas, intelectuais e manuais – põe em uso as potencialidades humanas, que só podem ser trazidas à tona e aperfeiçoadas pelo exercício”. (ibidem, 293). O último princípio coroa todos os demais. A educação intergral, que somente é possível para os espíritas se balizada pelos demais princípios, 48 esses ancorados nos fundamentos da Pedagogia Espírita, que já apresentamos. A educação integral é entendida como a busca do equilíbrio entre a moralidade e a inteligência, num processo educativo que trabalhe simultaneamente diversas potencialidades e faculdades do ser humano. Nela, é preciso observar quais as vocações da criança e do jovem, para incentivar o uso ético de suas inteligências. Uma educação integral, para a Pedagogia Espírita deve desenvolver-se numa proposta global, que trabalhe a educação dos setores, afetivo, estético, intelectual, religioso, sexual, físico e mediúnico. Esse último, pudemos perceber, constitui uma originalidade destacável do arcabouço pedagógico espírita, uma vez que os demais setores podem ser encontrados nas propostas de Pestalozzi, Froebel, Comenius, Rousseau. Trata-se, segundo Incontri, do setor destinado à educação para a vivência consciente da interexistência, fundamento primeiro da Pedagogia Espírita que já apresentamos aqui. 3.3 – A Práxis A Educação Espírita, como pudemos ver, emerge do escopo teórico do Espiritismo, contudo, foi na aplicação prática desses princípios que surgiu, a Pedagogia Espírita, considerada pelos seus intelectuais como uma contribuição filosófica originalmente brasileira. Incontri, a partir da análise dessas práticas educativas, empreitadas por educadores espíritas, organiza em sua pesquisa de doutoramento, um conjunto de eixos práticos dessa teoria da educação. Todavia, é imperioso alertar que na bibliografia considerada de referência dessa pedagogia, na encontramos alusão a um método espírita de educação, 49 pelo contrário, a pedagogia espírita assume que cada escola espírita deve se constituir de acordo com sua comunidade (por isso diferentes entre si), respeitando o arcabouço teórico-filosófico do espiritismo. “A proposta é mesmo a de considerar as circunstâncias socioculturais locais onde a escola vá se instalar e ainda de se invocar a participação ativa e criativa dos membros da comunidade escolar, o que implicará necessariamente em modelos diferenciados.”(INCONTRI, 2001, p. 295). Dando continuidade a tarefa proposta nesse estudo, apresentaremos os eixos que segundo Incontri, caracterizam, no seu conjunto, a práxis da Pedagogia Espírita. São eles: A escola livre e afetiva, atividades éticas, produções estéticas, produções intelectuais, abolição dos castigos e recompensas, cultivo da espiritualidade, autogestão administrativa, co-gestão pedagógica, compromisso social e escola universal. A escola livre e afetiva baseia-se nos fundamentos do amor e da liberdade, já expostos nesse trabalho, e é ao mesmo tempo, uma proposta e uma crítica ao modelo escolar dos nossos dias. A pedagogia espírita é contundente em sua crítica a mercantilização da educação, à burocracia, competição incentivada e conseqüente exclusão produzida pelo sistema escolar homogeneizante que o sistema capitalista se utiliza, dentre outras coisas, para produzir a sociedade neoliberal em que vivemos. Herculano Pires afirmou nos idos de 1970, em meio ao movimento pela educação espírita, que organizou três congressos e publicou uma revista: “A exploração comercial da educação é um mal cujas conseqüências sociais ainda não podemos avaliar”. (PIRES, 1990, p. 130). Dora Incontri defende que deverá ocorrer uma transformação radical da escola: 50 “A obrigatoriedade, o formalismo, a burocratização do ensino, as relações hierárquicas — tudo isso fica abolido e a escola deve renascer livre e amorosa. Os currículos fixos, as programações rígidas, os resultados homogeneizantes, a educação em massa, em que todos são coagidos às mesmas atividades, ao mesmo tempo, com idênticos resultados — tudo isso deverá desaparecer. O ambiente escolar deve ser transmudado.” (INCONTRI, 2001, p. 295). A autora propõe, dentre outras coisas, fortemente influenciada pelas experiências de Ney Lobo, no Lins de Vasconcelos e de Eurípedes Barsanulfo, no colégio Allan Kardec, que a rigidez dos currículos, as salas tradicionais, e as atividades impostas e sem sentido não têm espaço na escola livre e afetiva. A arquitetura deverá ser pensada para estimular o gosto estético e harmonizar a mente ao coração. (Idem). A comunidade escolar deve estar altamente envolvida, dentro e fora da escola, em ações éticas. Sempre orientadas e planejadas pelos educandos, sob os auspícios dos educadores. Tais ações pertencentes ao eixo atividades éticas, proposto por Incontri, deve despertar no educando a preocupação solidária com o outro, fazendo britar, na prática, não só o sentimento ou a racionalização da justiça e solidariedade, mas a ação pautada por esses valores. Uma das propostas práticas da Pedagogia Espírita é que sejam disponibilizadas aos educandos as mais belas produções estéticas que a humanidade já produziu. Essa proposição parte da idéia de que a arte “é uma forma de manifestação existencial do Espírito” (INCONTRI, 2003, p.175). Isso significa que, para os intelectuais espíritas adeptos da pedagogia que ora estudamos, a arte não é um dom inato de algum privilegiado, o artista, ou ainda somente pinturas, esculturas poesia e música, cinema, etc. Arte é a expressão cotidiana do homem e faz parte da integralidade do ser na interexistência. A 51 preocupação estética, da educação incentiva o educando na busca pela perfeição em todas as coisas, “Amor, Sabedoria e Beleza são aspectos inseparáveis da perfeição”. (Idem). Dessa forma contribui, a educação estética para o fim último da educação espírita. De modo geral a Pedagogia Espírita propõe que “elementos estéticos estejam presentes no meio ambiente e no conteúdo da educação”.(Ibidem, p.176), pois a arte tem uma função indutiva, podendo estimular ao aprendizado e à convivência elevada, ou ainda à melancolia e ao pessimismo depressivo. Para eleição de conteúdos estéticos que contribuam para o bom convite à autoeducação, Incontri sugere: “Nesta escolha do melhor, não adianta nos apegarmos aos rótulos. Não se trata, por exemplo, de oferecer apenas música erudita e jamais a música popular. Há muita boa música popular e muita música erudita sombria...” (p. 177). Não se trata de proibição de certas produções, mas de apelo ao espírito crítico dos educadores e dos educandos. Especificamente, essa pedagogia propõe que se deve estimular a criatividade, incentivar a produção artística, inclusive dotando o educando de certas técnicas específicas dessa ou daquela arte, de acordo com o interesse de tendências dos educandos, mas nunca valorizando a técnica em detrimento da criatividade, que “(...) trabalhada pela educação estética não servirá apenas para a execução de obras de Arte. Desenvolverá a capacidade criativa do indivíduo inteiro, que poderá estende-la a qualquer atividade intelectual, manual ou moral”. (Ibidem, p. 178). A educação estética é ainda defendida, por Dora Incontri, em seu livro A educação segundo o espiritismo (Comenius, 2003), como uma espécie de “luta e resistência cultural” ao processo de massificação mercantilizadora da arte, 52 que bombardeia nossos sentidos todos os dias, com os produtos do mercadão de sucessos musicais, de best seller da auto-ajuda (inclusive no promissor mercado editorial espírita) e de produções cinematográficas com violência e terror gratuitos. No que diz respeito às produções intelectuais a Pedagogia Espírita propõe que a escola seja uma universidade em miniatura, incentivando a reflexão crítica, o espírito científico e todo o tipo de produção intelectual. Nesse sentido, não há espaço para a rigidez das disciplinas e dos conteúdos predeterminados. O conteúdo a ser estudado deve partir do interesse dos alunos ou ainda de necessidades reais, para aplicação prática. “O que se deve evitar é a abstração ininteligível, a memorização vazia, o ensino mecanicista de conceitos inaplicáveis na vida comum” (INCONTRI, 2001, p. 298). A abolição de castigos e recompensas é um imperativo quando se fala de uma educação baseada na liberdade, na solidariedade e no amor. A autora propõe que a escola deve abolir, regimentalmente, qualquer subterfúgio punitivo premiações de toda sorte, inclusive as notas, a exemplo do que fez Barsanulfo em Sacramento. “As avaliações serão feitas na base das produções de cada um e nunca de forma numérica, quantitativa, mas de maneira descritiva, qualitativa, para melhorar o trabalho, encarando-se erros e problemas como naturais da aprendizagem. Em parceria com o educador, o aluno fará sua autoavaliação, apontando aquele os aspectos que devem ser aperfeiçoados e informando este as suas dúvidas e dificuldades”. (Ibidem, 299). A pedagogia espírita propõe ainda que todos os problemas da escola sejam resolvidos ou que as soluções sejam buscadas com base no diálogo. Conversas entre educadores e educandos devem ser constantes, assim como 53 assembléias gerais para discutir os comportamentos de grupos e as necessidades para melhor convivência, bem como para a gestão da escola. Como forma de superar essa educação de resultados condicionadora que temos atualmente a autora propõe o diálogo. Na esteira dessa proposta, de uma escola renovada, emerge a necessidade também de novas formas administrativas para a instituição escolar. A proposta apresentada pelos teóricos da pedagogia que destacamos como objeto desse estudo, é a da autogestão administrativa. Todavia, embora a proposta seja feita claramente, Incontri não passa nenhum receituário. Apenas defende a idéia de que as esferas administrativas e pedagógicas estejam atreladas e por isso a administração da escola espírita não deva ferir nenhum dos fundamentos que a caracteriza como tal. E em coerência ao princípio da escola livre e afetiva, deixa para as comunidades resolverem essa questão, da melhor forma que lhes couber, somente alertando que a relação patrão-empregado deve ser abolida e que uma escola espírita não deve ter o lucro como objetivo: “O importante é manter os princípios de liberdade e igualdade, onde todos os que participem da comunidade escolar possam ser ouvidos, tomem parte em decisões que os afetem diretamente e tenham acesso à visão geral da administração da escola”. (Ibidem, p. 303). Outra proposta, a co-gestão pedagógica, caracteriza-se pela disponibilização para toda a comunidade escolar, de todos os conhecimentos que cada um, partícipe dessa comunidade, possui. Isso significa que pais, alunos e funcionários, poderão sugerir grupos de estudos, laboratórios, projetos de pesquisas e praticar a liberdade de ensinar e aprender. 54 Por fim o compromisso social da comunidade escolar é a responsabilidade de a escola estar inserida na realidade que a cerca, devendo, manter diálogo com as instituições locais. A escola social deve ainda, segundo Incontri, incentivar seus membros (pais alunos, docentes e técnicoadministrativos) a militarem em causas que envolvam o bem coletivo, como campanhas fraternas e de defesa de direitos. “A escola social “(...) é aquela que o educando toma consciência na prática, dos problemas de seu meio e das suas possibilidade de atuação efetiva”(Ibidem, p. 305) para a transformação. A Pedagogia espírita propõe um novo olhar para o ser humano, de cidadão, radicado numa localidade e numa nação, passa o ser humano a ser encarado como um cidadão do universo. Esse conceito vai além de qualquer teoria internacionalista, pois segundo o espiritismo, há uma multiplicidade de mundos habitados por espíritos, em todo o universo. O eixo escola universal trata especificamente desses dois aspectos da escola espírita. O primeiro é que ela deve manter contato com outras culturas no planeta terra, vivenciando a proposta de tolerância étnica e religiosa dessa pedagogia espírita. O ensino de línguas ganharia o sentido de aproximar diferentes povos, e de aprender o que há de positivo em suas culturas, ao invés de ser exclusivamente utilizado como “valor agregado” ao curriculum do trabalhador especializado, entendimento que somente aprofunda a desigualdade social capitalista, pois a escola para o povo raramente proporciona um ensino satisfatório, tornando a aquisição de uma segunda língua privilégio de poucos. Também nessa perspectiva de cidadão do cosmos, o ensino de astronomia, proposto por Barsanulfo e por Novelino, influenciados por Camille Flamarion ganha força e materialidade, mostrando a responsabilidade em pacifica-lo, pois o ser 55 humano, no entendimento espírita, independente de qualquer contexto étnico, racial, sóciocultural e de gênero, faz parte de uma mesma família estelar. Como pudemos perceber, e tentamos demonstrar nesse trabalho a Pedagogia Espírita este inserida na tradição filosófica espiritualista, que remonta a Sócrates e Platão. Como tal não pode deixar de trabalhar com entendimentos e propostas que considerem uma realidade transcendente do ser humano. No caso da pedagogia espírita ela trabalha com o entendimento de que o homem é um espírito reencarnado, e isso, como já vimos anteriormente, reconfigura toda sua proposta pedagógica, fazendo parecer de certa forma anacrônica. Contudo, é bom lembrar, até por questão de honestidade intelectual, que a pedagogia espírita não trabalha com a idéia de que a tradição filosófica espiritualista esteja superada. Pelo contrário, trabalha com a idéia de que ela tem sido sistematicamente silenciada, como tentamos demonstrar na introdução ao nosso texto. Dessa forma o cultivo a espiritualidade, ganha lugar de destaque práxis pedagógica espírita, pois ela faz, segundo seu entendimento, parte da realidade interexistente do ser humano, e não pode ser negada, sob o prejuízo de realizar uma educação parcial, e não integral, que é sua intenção. Especificamente nesse eixo propõe que: “(...) toda prática pedagógica espírita deve estar impregnada de intensa espiritualidade, entendendo-se que não se trata aí de fanatismo religioso e nem de dogmatismo específico. Ao mesmo tempo em que se deve oferecer aos alunos, o conhecimento de todas as religiões, com suas práticas e filosofias, de forma imparcial e precisa (e para isso podem ser trazidos os representantes de cada uma ou os próprios alunosadeptos podem fazer suas intervenções, mostrando aos outros a sua fé), deve-se cultivar uma religiosidade genérica. Orações em conjunto; leituras de textos religiosos de diferentes correntes (que não ofendam as outras presentes), discussões sobre religiões comparadas e filosofia espiritualista — tudo isso deve lançar o aluno na dimensão do espiritual, fazendo-o 56 compreender que se trata de uma dimensão humana, natural e universal, necessária ao pleno desabrochar do homem”. (Ibidem, p. 300). 57 CONSIDERAÇÕES FINAIS Bogdan Suchodolski (1992), filósofo e pedagogo polonês propôs em seu livro A Pedagogia e as Grandes Correntes Filosóficas (Livros Horizonte, 1992) a divisão das correntes pedagógicas em dois grandes grupos, o das Pedagogias da Essência e o das Pedagogias da Existência. Essa divisão, entre essência e existência, entendida pelo polonês como conflito fundamental do pensamento pedagógico, é decorrente da oposição histórica na filosofia, entre as Filosofias da Essência e as Filosofias da Existência. A querele entre as Pedagogias da Essência e as Pedagogias da Existência, tem sua origem no renascimento, quando uma série de transformações sociais, políticas e intelectuais tornam-se fontes de novas concepções de homem e colocam em cheque o monopólio da cosmovisão religiosa tradicional e sua autoridade em ditar as normas da atividade humana. (SUCHOLDOLSKI, 1992). As Pedagogias da Essência, abstraindo-se aqui, a sua diversidade (que foi riquíssima) e o papel histórico desempenhado por cada uma delas, por não caber nesse espaço uma reflexão mais demorada sobre o assunto. Constituíam-se fundamentalmente por postularem que o ser humano possui uma essência, que vai além da experiência empírica, e que a educação tem como referência essa essência, devendo atuar para que o homem se aproprie na existência de sua essência verdadeira e também para destruir o que pode corrompê-lo, é em suma uma educação voltada para um homem idealizado. Elas encontram sua origem em Platão, passando por todas as pedagogias religiosas, protestantes e católicas, pela Educação Natural de Comenius e Locke e pela originalidade idealista de Kant, Fichte, Hegel, até chegar nas 58 tentativas de existencialização da Pedagogia da Essência no século XIX. (Idem) As Pedagogias da existência deu seus primeiros passos no século XVII, sob a predominância das diversas formas da concepção da pedagogia da essência. Conciste, fundamentalmente na negação da essência, defendendo que o homem e a vida humana estão limitados às experiências empíricas. Remonta aos estudos de fim da vida de Comenius, que proporcionaram o entendimento de considerar a criança viva e espontânea. Contudo foi, segundo Suchodolski, Rousseau o primeiro que se lançou radicalmente em oposição à pedagogia da essência e à criação de perspectivas para a construção de uma pedagogia da existência. Pestalozzi e Froebel (1782-1852) são considerados seguidores de seu pensamento, defendendo a máxima de que a educação deve realizar-se a partir da própria vida da criança. (Idem) Para o filósofo e pedagogo polonês as tendências opositoras da pedagogia da essência ainda estavam numa fase incipiente, “marcadas ainda por um cunho de generalidade e homogeneidade (Ibidem, p. 57)”. Foi somente no século XIX que teve início um processo de diferenciação da pedagogia da existência, dado pelo conjunto das obras, de Kierkegaard, Stiner e Nietzsche, cada qual com sua especificidade e diferenças. Também as teorias da evolução de Darwin, Spencer e Bérgson, mais uma vez guardada as especificidades, contribuíram para a constituição dessa grande corrente do pensamento pedagógico (Idem). Na perspectiva de solucionar o conflito entre essas duas grandes correntes do pensamento pedagógico, Suchodolski encontra os esforços da educação nova, das pedagogias do grupo social e da cultura e das pedagogias 59 metafísicas. A primeira, partindo da criança/indivíduo como sujeito da sua educação esbarra no conflito entre a utopia da pedagogia do desenvolvimento e do conformismo da pedagogia da adaptação. As segundas, igualmente, mas por caminhos diferentes, reeditam esse mesmo conflito. Suchodolski afirma ao final da análise que empreitou sobre essas pedagogias: “O problema do conflito entre o desenvolvimento do caráter humano universal da criança e o âmbito real de sua vida mantinha-se sem solução”. (Ibidem, p. 117). A terceira corrente, em oposição à educação nova e às pedagogias do grupo social e da cultura, por considera-las insuficientes, afirma que era preciso concentrar a educação no nível metafísico do homem ao invés de “tomar como ponto de partida o curso presente da vida do indivíduo” ou ainda as “exigências da história social ou da cultura”. (p. 119), configurando-se como uma moderna pedagogia da essência, enquanto as outras estariam no âmbito das pedagogias da existência. O conflito ainda era eminente. Para Bogdan Suchodolski, as tentativas de união entre as pedagogias da essência e da existência, na perspectiva de superar o moderno conflito entre essas – “Unir educação e vida de modo que não seja necessário um ideal, ou definir um ideal tal que a vida real não seja necessária”. (p. 123) – davam uma força perigosa às tais tendências, por terem atingido ganhado certa força com as correntes nacionalistas de vários países, inclusive o fascismo e o hitlerianismo. Considerando que essas duas correntes seculares do pensamento pedagógico, traíram seus princípios fundamentais – a pedagogia da existência: a defesa do desenvolvimento livre do homem; a pedagogia da Essência: uma educação baseada em valores universais e permanentes – porque acabaram 60 por reforçar a noção de que “as contradições que se manifestavam não provinham das más relações sociais” e sim de uma noção errada dos direitos do indivíduo e da sociedade, o que implicava em “(...) transformar, não as relações sociais, mas a maneira de conceber a existência individual e o ideal, causas dessas contradições”. (Ibidem, p. 126). Daí o filósofo afirma: “A pedagogia devia ser simultaneamente pedagogia da existência e da essência, mas esta síntese exige certas condições que a sociedade burguesa não preenche, exige também que se criem perspectivas determinadas de elevação da vida quotidiana acima do nível actual. O ideal não deve nem sancionar a vida actual, nem deve tomar uma forma totalmente alheia a essa vida”(Ibidem, p. 127) Suchodolski propõe a educação virada para o futuro como único caminho para a resolução da antinomia do pensamento pedagógico moderno. O autor caracteriza essa pedagogia, numa perspectiva de um sistema social à escala humana, como uma tendência pedagógica que não aceita o estado de coisas existentes e que atue para transforma esse estado de coisas. Deve ser crítica ao presente e acelerar a construção do novo. “Uma tal crítica pressupõe um ideal que ultrapasse o presente; neste sentido, a educação virada para o futuro integra-se na grande corrente pedagógica que designamos por pedagogia da essência. Trata-se contudo de uma simples afinidade pois tem profundas divergências, constituindo a diferença essencial no facto de este ideal se caracterizar por uma diretriz de acção no presente, ação que deve transformar a realidade social de acordo com as exigências humanas. Na medida em que o ideal que inspira a crítica da realidade deve representar uma directriz para a acção no presente tem de organizar as forças actuais e deve encorajar o homem a fazer uma opção no momento actual. A educação orientada para o futuro ligase neste sentido à segunda grande corrente do pensamento pedagógico, à pedagogia da existência. Todavia, também aqui não encontramos senão uma afinidade; a diferença essencial consiste em que, nesta concepção da educação, a vida é o aspecto presente da edificação do futuro”. (SUCHODOLSKI, 1992, p. 129)25. 25 Grifos meus. 61 Perceba que os trechos grifados encontram certa similaridade com as propostas da pedagogia espírita, como, por exemplo, o entendimento de que a educação tem como objetivo a transcendência do espírito, mas propões uma ação na existência, considerando a vida presente como pilares da edificação do futuro (PIRES, 1990). Sua origem deriva das tendências que não aceitam o princípio da adaptação ao presente como se fosse o ponto de partida fundamental da educação e a inda daqueles que entendiam a crítica do presente como um “apelo para melhora-lo” e não um convite para evadir-se dele. Propõe ainda que a educação tradicional deve ser abandonada, pois estariam completamente anacrônicas em relação à nova realidade social e econômica. A formação social, no sentido que cada cidadão se torna responsável pela democracia, tem posição de destaque nessa pedagogia proposta pelo polonês. A educação moral, como educação da vida cotidiana em situações sociais concretas, também ganha destaque. Não cabe aqui o alongamento na análise da pedagogia de Suchodolski, apenas nos interessa o alinhavamento desta, a fim de poder refletir sobre a questão da superação do conflito das pedagogias. Se fizermos um exercício de abstração dos princípios espiritualistas da pedagogia espírita e dos princípios marxianos da pedagogia do filósofo polonês vamos encontrar, como já apontamos, uma série de conjunções, tanto do ponto de vista da crítica aos sistemas educativos burgueses, da perspectiva de futuro e da crítica à sociedade presente, como do ponto de vista dos fundamentos práticos de uma e de outra. 62 A preocupação com a educação cotidiana, que busca ensinar ao homem compreender o próximo e prestar atenção ética a este, encontra similaridade com o princípio da educação ética da Pedagogia Espírita. Ambas buscam romper com a moral superficial e externa dos códigos de conduta e atuam na perspectiva de uma moral que brote do interior do ser humano. Vejamos o que Suchodolski diz: “(...) a educação moral deve fundamentar-se na educação sistemática do homem desde sua mais tenra infância, numa educação que desenvolva e crie ‘este impulso do coração’ imperceptível, de que fala a psicanálise com tanta parcialidade e erro, mas que é todavia um dos mais importantes fundamentos da dignidade humana que se opõe ao fascínio de uma má conduta”. (Ibidem, p. 133). Também a preocupação com a educação social do polonês pode ser encontrada na proposição da escola social da pedagogia espírita, ou ainda nas propostas de autogestão administrativa e co-gestão pedagógica. É claro que quando falamos de conceitos como esses na educação não podemos nos dar ao luxo, como fazem alguns teóricos materialistas, quando se apropriam de pedagogias surgidas no âmbito de uma visão espiritualista de mundo que trabalham com essas como se os tais fundamentos não fossem relevantes. Poderia eu, ou qualquer outro pesquisador, fazer isso com a pedagogia proposta por Suchodolski, desconsiderar seu contexto ideológico histórico e social? É claro que não. A nossa discussão e as comparações feitas entre as pedagogias espírita e “do futuro” têm aqui o intuito de problematizar o monopólio da segunda na busca bem sucedida pela superação do conflito secular exposto na obra de Bogdan Suchodolski. A Educação Espírita propõe o conceito de ser interexistente, e a partir dele estabelece a sua Pedagogia. Poderia ser esse novo entendimento, uma 63 superação do conflito entre as pedagogias? Como pudemos ver, se considerarmos as mesmas categorias que Suchodolski, de educação na existência com vistas no o futuro, de crítica ao presente e de perspectiva social, poderíamos dizer que a pedagogia espírita inaugura uma nova solução para o conflito secular entre as pedagogias da essência e da existência? Ao meu modo de ver essa hipótese não poderia, de maneira alguma, ser refutada de forma simplista pelos materialistas, muito menos ser afirmada rapidamente pelos adeptos da pedagogia espírita. Será preciso debruçar melhor tanto sobre a pedagogia espírita, que se reivindica herdeira do legado de Comenius, Rousseau e Pestalozzi, bem como sobre a pedagogia histórico-crítica, vertente que se fundamenta nas idéias de Suchodolski e tem se dedicado à superação do conflito sob perspectiva marxista. Esse trabalho teve por objetivo, dar voz à pedagogia espírita e seus autores, com o intuito de proporcionar uma reflexão mais profunda sobre as concepções filosóficas e educacionais que permeiam as pedagogias. No que diz respeito às perguntas norteadoras do nosso estudo, cremos ter respondido com satisfação, durante todo o trabalho, as três primeiras, que versavam sobre o conceito, as concepções de homem/criança e as origens da pedagogia espírita. A última “Quais perspectivas podemos esperar, se aplicadas as suas propostas?”, creio ser um tanto quanto precipitado reponde-la de forma definitiva. O que temos são as experiências do passado, que foram bem sucedidas e com certeza contribuíram para a construção de um mundo mais justo e igualitário, assim como diversas práticas pedagógicas progressistas que pipocaram no Brasil durante o século XX. A originalidade da Pedagogia Espírita está justamente em considerar a transcendência humana de forma não 64 alienada da existência, “do aqui e do agora”. É certo que suas propostas têm mais condição de ser desenvolvidas junto a instituições de educação infantil e, sobretudo no campo da educação não-formal (Ong’s), pois as suas teorias estão em campo mais avançado do que a escola fundamental e média, essa ainda muito arraigada ao ensino tradicional e à escola burguesa, enquanto a educação infantil e a educação não-formal assumem teoricamente suas práticas como transformadoras dessa realidade. Outra questão muito cara nessa discussão pé a laicidade da escola publica. Embora Herculano Pires defenda que esse princípio deva estar presente na pedagogia espírita, pois trata da religião, como parte do conhecimento humano e de forma interdisciplinar e não doutrinadora, esse é um terreno complexo que os teóricos da pedagogia espírita deverão enfrentar, sob pena de relegarem-se ao limbo das escolas confessionais. Por fim, ficam as questões, dentre outras: A pedagogia Espírita supera o conflito secular entre a pedagogia da essência e a pedagogia da existência? Que relação teria essa teoria pedagógica com a escola pública? É possível a laicidade numa pedagogia que se admite cristã? O que tem levado o movimento espírita institucional a fechar escolas e institutos espíritas de educação, aparentemente de forma arbitrária? 65 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. Lisboa, Editorial Presença, 1984. ANDERSON, P. As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro. 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Campinas/SP 2006 2 Dedicatória Dedico este trabalho aos meus dois filhos, o João Rio e o “Pacu”, esse gestado junto com o TCC, os quais merecem, como todas as crianças, um mundo mais fraterno... 3 Agradecimentos... À sociedade Paulista, à maioria trabalhadora como eu, principalmente como meus pais, que financiou meus estudos com o pagamento de caros impostos (ICMS), e não pode, apesar de dona, freqüentar a Universidade Pública. Vejo no horizonte, um mundo em que isso não mais acontecerá; Ao Prof. Dr. Silvio Ancizar Sanches Gamboa, pela orientação desse trabalho e pelo incentivo à diversidade intelectual na Universidade; À Profa. Dra Dora Incontri por participar da banca como segunda leitora, com preciosas contribuições, pelo ânimo e alegria com que me incentivou, nas nossas poucas, mas valiosas conversas; Ao Professor Alessandro Bigueto, pela amizade e pelas imprescindíveis, prazerosas e apaixonadas reflexões em meio a uma ou outra aula na Unicamp; À Profa. Dra. Sônia Giubilei, pelo seu exemplo, amizade e incentivo; Ao Will (William Chiuffa), pela leitura e correção dos erros de português; Aos meus pais, Maria Aparecida e José Ronaldo, por terem me apresentado a Doutrina Espírita ainda na infância, pelo apoio desinteressado e por terem me dado mais uma oportunidade de viver na Terra; Aos meus irmãos (Camila, Carina e Júnior), pelo companheirismo, amizade e convivência leve. Grandes parceiros de existência! Aos meus tios, Rozaura (Tia Zau) e Lúcio, sem os quais tudo seria mais difícil, algumas coisas até impossíveis; À toda minha família, os Rodrigues/Pereira (Pai) e os Santos (Mãe), que têm parte direta na minha formação, esse trabalho leva um pouco de cada um, eu levo um pouco de cada um; Aos meus companheiros (e adversários) de militância política, quantas coisas não aprendemos?! Que a chama de nossos sonhos e lutas, não se apague na dureza do cotidiano e permaneça acessa em nossos corações, mentes e mãos; Aos amigos do Centro espírita Allan Kardec de Itajubá, por despertaram em mim o interesse para o estudo da Pedagogia Espírita; À Adriana Silva, por aceitar essa parceria existencial chamada João Rio e pelo aprendizado que isso nos proporciona. Ao meu filho João Rio, por trazer felicidade e esperanças para a minha vida. E, por fim, à Kamille Vaz, companheira de todas as horas, raio de luz na minha vida. 4 “(...) nosso primeiro desejo é que todos os homens sejam educados plenamente em sua plena humanidade, não apenas um indivíduo, não alguns poucos, nem mesmo muitos, mas todos os homens, reunidos e individualmente, jovens e velhos, ricos e pobres, de nascimento elevado e humilde — numa palavra, qualquer um cujo destino é ter nascido ser humano: de forma que afinal toda a espécie humana seja educada, homens de todas as idades, todas as condições, de ambos os sexos e de todas as nações”. Comenius In: Pampaedia, 1965 5 RESUMO Esta monografia, que se constitui num trabalho de conclusão de curso da graduação em pedagogia na Unicamp, visa realizar um estudo sobre a pedagogia espírita e seus pressupostos filosóficos, dando voz à pedagogia espírita e seus autores, com o intuito de proporcionar uma reflexão mais profunda sobre as concepções filosóficas e educacionais que permeiam as pedagogias. Também é objetivo desse trabalho refletir sobre a superação do conflito secular entre as Pedagogias da Essência e as Pedagogias da Existência. Para tal utilizamos como método a pesquisa bibliográfica, analisando e refletindo sobre a bibliografia básica dessa pedagogia e sobre a obra do pedagogo polonês Bogdan Suchodolski (1903-1992), a Pedagogia e as grandes correntes filosóficas (Livros horizonte, 1992). Palavras Chave: 1. Pedagogia – Teoria 2. Educação e Espiritismo 3. Espiritismo 6 SUMÁRIO RESUMO _______________________________________________________________ 6 SUMÁRIO ______________________________________________________________ 7 APRESENTAÇÃO _______________________________________________________ 8 INTRODUÇÃO ________________________________________________________ 11 CAPÍTULO I – O CONTEXTO ___________________________________________ 14 CAPÍTULO II - DIÁLOGOS ENTRE FILOSOFIA, CIÊNCIA E RELIGIÃO ____ 26 CAPÍTULO III – A PEDAGOGIA ESPÍRITA _______________________________ 31 CONSIDERAÇÕES FINAIS______________________________________________ 58 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ______________________________________ 67 7 APRESENTAÇÃO Essa apresentação ganhou força em meio à escrita desse TCC. Com o intuito de contextualizar esse estudante que vos dirige a palavra, tanto no tema, como na própria natureza de um trabalho de conclusão de curso. Meu interesse em pesquisar a temática “Espiritismo e Educação” vem desde o início da faculdade. Aliás, cheguei à Universidade, e em meio ao deslumbramento com idéia de “fazer Unicamp”, uma possibilidade tão remota e “impossível” para um estudante mediano de uma escola pública do Sul de Minas, o que explica o deslumbre. Incentivado pela idéia de estudar a escola espírita. Porém o curso de pedagogia mostrou-me que essa era muito mais do que a escola, mostrou-me as várias facetas desta instituição, as várias faces da educação. E pude perceber ano-a-ano, no turbilhão da militância política estudantil, das leituras e discussões acadêmicas, das vivências diversas que fizeram explodir uma cachoeira de reflexões, no início políticas, depois acadêmicas e teóricas até explodir nas profundas e por vezes desconcertantes reflexões existenciais. O caminho foi longo, 6 anos de graduação. Nesse período, sonhos emergiram e sucumbiram, perguntas foram respondidas, mas mais do que isso, perguntas surgiram! Sucumbiu a idéia ingênua de um estudo de caso sobre uma escola, e emergiu a proposta de em vez de buscar respostas, buscar perguntas. E é com esse sentimento que propus, a mim mesmo, um exercício reflexivo, perguntador, sobre as idéias que me trouxeram ao maravilhoso, esperançoso e ao mesmo tempo, desalentador mundo da educação. Um estudo sobre as bases filosóficas da pedagogia espírita se tornou imperativo para me situar teoricamente, para fazer emergir da minha formação minha leitura sobre a educação e poder, daí, com bases mais fixas, caminhar na dura, mas gratificante, estrada da docência. O exercício proposto se justifica, pois a universidade me propôs refletir sobre diversos aspectos da realidade, porém sempre sob o ponto de vista materialista, com forte conotação histórico-social. Era preciso que eu pudesse 8 elaborar questões que fizessem aparecer, com certa maturidade, o conflito entre o materialismo e o espiritualismo, presente na minha formação. Para tal elegi a realização desse trabalho como parte dessa empreitada, mas destinado a contrabalançar a formação teórico-ideológica que a universidade me oportunizou. Durante o curso, durante a militância, priorizei, talvez por falta de opção, a formação teórica materialista. Neste momento, recuperando a função e a natureza de um trabalho de conclusão de curso, como um exercício acadêmico-reflexivo sobre a minha formação, ganhou força a reflexão que recuperasse a tradição filosófica espiritualista, que o século XIX relegou à marginalidade acadêmica, ao misticismo dogmático das religiões antigas, modernas e contemporâneas. Na verdade, o que pretendo fazer é reviver o conflito histórico entre as pedagogias da essência e as pedagogias da existência, mas para isso a necessidade de refletir sobre idéias pedagógicas que remontam à minha formação espiritual ganhou força e característica de problema de pesquisa, quando surgiu uma proposta pedagógica, defendida em tese de doutorado na USP (INCONTRI, 2001), que se reivindica, mesmo trabalhando com categorias das filosofias da essência, revolucionária, no sentido em que, segundo seus defensores, conjugava a fé e a razão, numa práxis pedagógica crítica (tanto para o lado materialista como para o lado espiritualista) e proponente de uma educação para a transformação do ser humano e do mundo.Veja-se que, diferente de outras propostas pedagógicas como a católica, por exemplo, essa se coloca no campo que admite a necessidade de mudar o mundo, resta-me no decorrer do estudo buscar a confirmação dessa hipótese na prática com que essa teoria dialoga. Por isso meu objetivo nesse trabalho não é o de ser apologista da Pedagogia Espírita, mas dar voz a ela, a partir de seus autores/pesquisadores de referência e procurar entender sua concepção de mundo, de educação, sua visão sobre os momentos históricos em que se encontram suas raízes filosóficas, com o intuito de contrapor à minha formação acadêmica, e poder melhor refletir 9 sobre minha prática. Acredito ainda que o presente estudo, incipiente, pode contribuir para que outros façam o mesmo: Tomem conhecimento, com maior amplitude possível, das diferentes teorias e concepções pedagógicas, para com mais clareza epistemológica poder, pronunciar, parafraseando Paulo Freire, a educação. É daqui que parte meu exercício reflexivo, que deve buscar, não respostas, mas elementos para uma reflexão mais completa. 10 INTRODUÇÃO Dora Incontri (2001) em sua tese de doutorado1 questiona os motivos que levaram o Espiritismo, “uma corrente do pensamento francês do século XIX, que provocou grande impacto social” (p. 16), à marginalidade dos estudos acadêmicos, sendo abordada, quando muito, do ponto de vista antropológico, como fenômeno social e raramente a partir de suas próprias idéias2. No mesmo estudo a pesquisadora apresenta diversas personalidades das ciências, das mais diversas áreas do conhecimento, que dispensaram atenção ao estudo do espiritismo, dentre eles estariam: Arthur Conan Doyle (1859-1930), célebre escritor inglês, pai de Sherlock Holmes, e autor da obra “História do Espiritismo”3; o astrônomo Camille Flammarion (1842-1925) fundador da Sociedade Astronômica da França; e o jovem biólogo Alfred Russel Wallace, que apresentou simultaneamente com Darwin a Teoria da Evolução na Sociedade Lineana de Londres em 1858, tendo divergido de Darwin ao admitir a possibilidade de interferências não identificáveis nas causas da evolução. Continua chamando a atenção para a omissão dessas informações nas biografias e estudos sobre as idéias desses pensadores ainda mais quando esses constituem referência em suas áreas. O que teria provocado isso que parece um implícito e estranho pacto de silêncio, em torno de uma filosofia, que teve sua projeção na Europa do século XIX e continua conquistando adeptos, 150 anos depois? Ainda que fosse para criticá-la, por que não comentá-la? (ibidem, p. 21). 1 COLOMBO, Dora Alice (Dora Incontri). Pedagogia Espírita: Um projeto brasileiro e suas raízes histórico-filosóficas. São Paulo, Feusp, 2001 (tese de doutorado). 2 Exemplos dessa abordagem: CAMARGO, Cândido Procópio Ferreira (org.). Católicos, protestantes, espíritas. Petrópolis, Ed. Vozes, 1973; CAMARGO, Cândido Procópio Ferreira. Kardecismo e umbanda. São Paulo, Pioneira, 1961; CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O mundo invisível. Rio de Janeiro, Zahar, 1983. (Apud INCONTRI, 2001, p. 11). 3 DOYLE, Arthur Conan. História do Espiritismo. São Paulo, O Pensamento, 1960. 11 Ferro (1989), ao analisar o modo de produção das obras históricas, demonstra que a história é produzida a partir de focos distintos de produção de conhecimento. Ele analisa o historiador como subserviente a grupos e instituições, tendo o Estado como a principal instituição, e de maior alcance. É nesse sentido que os teóricos da Pedagogia Espírita questionam o silenciamento das filosofias espiritualistas, sobretudo para com a doutrina espírita, e a notoriedade de outras teorias, em geral de fundo materialista, como o marxismo e o positivismo, ambos contemporâneos do Espiritismo. Os teóricos dessa pedagogia defendem a Doutrina Espírita como categoria de análise, como matriz teórico-metodológica para pesquisas acadêmicas, para leitura do mundo e a resolução dos seus problemas. Nesse sentido argumentam em favor do espiritismo, questionando o silêncio que “paira” em torno dele, como corrente de pensamento e o confrontando com as grandes correntes de pensamento do século XIX e XX. Esse é o debate que a Pedagogia Espírita trava, no esforço de se consolidar, enquanto teoria pedagógica, fundamentada na filosofia espírita da educação que, por sua vez, está assentada sobre os pilares da Doutrina Espírita. Tomamos como pauta para essa reflexão as seguintes questões: • O que vem a ser a pedagogia espírita? • Quais são suas origens? • Qual a sua concepção/visão de educação, de homem e de criança? • Quais perspectivas podemos esperar, se aplicadas as suas propostas? 12 Para o melhor entendimento do debate, faz-se necessário que organizemos a exposição de forma lógica na tentativa de responder às questões acima colocadas. É o que faremos nos seguintes capítulos. No primeiro capítulo nosso objetivo foi contextualizar o Espiritismo, que é a base fundamental da Pedagogia Espírita. Nele nos esforçamos para mostrar brevemente o entendimento dos teóricos dessa pedagogia sobre o século XIX e XX, destacando suas principais idéias, observando o que há de convergente ou divergente entre elas e o espiritismo. Ao final, apresentamos um resumo do espiritismo com o intuito de completar a tarefa proposta pelo capítulo. A pauta do segundo capítulo foi o diálogo entre filosofia, ciência e religião, proposto pela Doutrina Espírita, alertando para a especificidade de cada conceito, e apresentando o entendimento dos espíritas sobre o tema. No terceiro capítulo, o objetivo central foi caracterizar a pedagogia espírita, seu conceito, origens, principais idéias e seu movimento. Ao final do trabalho, nas considerações finais procuramos responder às questões colocadas no início desse trabalho. Também fizemos um esforço comparativo entre a pedagogia proposta pelo pedagogo polonês Bogdan Suchodolski (1903-1992) e a Pedagogia Espírita. Para isso apresentamos uma síntese da análise que o autor faz sobre o conflito histórico entre as Pedagogias da Essência e as Pedagogias da Existência e a superação desse. Procuramos, ainda, refletir sobre a perspectiva que a pedagogia Espírita teria de ser uma alternativa a superação dessa antinomia, propondo ao final novas questões que continuem esse debate. 13 CAPÍTULO I O CONTEXTO 1. O século XIX Bigueto (2006), em sua dissertação de mestrado sobre o educador espírita Eurípides Barsanulfo, defendida na Unicamp4, apresenta um “panorama conjuntural do final do século XIX” (p. 3), no qual aponta para um período caracterizado pelo otimismo originário dos ideais iluministas e da Revolução Francesa de 1789. Dora Incontri, ao analisar esse século, com o intuito de confrontar o espiritismo com seu contexto histórico-cultural, aponta no mesmo sentido: “Por 200 anos, a civilização européia viveu um frenesi entusiástico de idealismo progressista, (...), Tudo tem sabor de confiança, de uma vontade aceita como possível de atingir dias mais radiantes para a humanidade. (INCONTRI, 2004 p. 35)”. Entretanto, esses dois pesquisadores admitem que em tal período, nem tudo foi tão animador: “É verdade que, por outro lado, no século XIX, há ressaibos de sombra e amargor (ibidem, p.37)”. Alessandro Bigueto diz: “Havia pesadelos incômodos. Em meio à longa paz daquele período, havia um mal-estar, os críticos identificaram impulsos para a morte e para a guerra, na consciência individual e coletiva. É possível localizar o tédio romântico, a afirmação da identidade nacional à custa da destruição mútua e a sombra do ultramontanismo católico-romano. (BIGUETO, 2006 p.14)”. Regis de Morais (2002), ao falar dos “caminhos e descaminhos do século XIX”, em seu livro Educação e Espiritualidade, aborda a contradição do período: De um lado, formidáveis conquistas científicas e tecnológicas, bem como avanços artísticos, insuperáveis até hoje; 4 BIGUETO, Alessandro César. Euripedes Barsanulfo: um educador espírita na Primeira República. Campinas-SP, Faculdade de Educação da UNICAMP, 2006 (dissertação de mestrado). 14 surgimento de várias ciências vitais e consolidação das Ciências humanas. De outro lado, a lógica industrialista com seu empobrecimento de concepção de ser industrialista humano e de valor da vida do homem, o acendramento das competições e da agressividade da vida social. Século de grandes realizações e de grandes equívocos. (MORAIS, 2002, p.23). Poderíamos, segundo Alessandro Bigueto definir o esprit du temps desse século: “(...) resumindo-o em linhas gerais: 1) as idéias evolucionistas, 2) a crença no progresso, 3) a época do cientificismo, 4) as teses utilitaristas, 5) a renovação religiosa, 6) as transformações políticas, econômicas e sociais, 7) a filosofia democrática, 8) a filosofia liberal, 9) a filosofia positivista, 10) os movimentos sociais: socialistas, anarquistas e comunistas e 11) os arraigados nacionalismos (BIGUETO, 2006, p.13)”. A evolução era vista como uma lei natural e tinha um sentido, senão determinado ou previsível, pelo menos pensável, inteligível. O indivíduo transcendia em algo maior (sociedade, ciência). A ciência era capaz de determinar a verdade. O Espiritismo era original quando considerava o indivíduo devidamente, numa relação dialética com a sua metanarrativa, não o diluindo na espiritualidade e nem a desconsiderando. (INCONTRI, 2004) A equação “fé/razão” foi muito debatida no período em questão. A regra era romper com qualquer resquício da Idade Média, e se essa fora dominada pela Igreja, pela revelação divina e pela figura de Deus no centro de qualquer sofrimento ou melhora, o século que nascia deveria ser voltado para a razão, para as descobertas científicas, advindas da observação da natureza sem qualquer interferência sobrenatural, e como vimos anteriormente, o homem tomava de Deus as rédeas da humanidade e a galope seguia rumo à felicidade, sendo ele o agente de transformação. Vejamos o que Dora incontri diz sobre o cientificismo nascente: 15 “O método científico, constituído a partir do Renascimento, propõe-se desvendar a estrutura da realidade e este desvendamento produz ações. A tecnologia, cujos primórdios de desenvolvimento remontam à Revolução Industrial, é o resultado prático da ciência e portanto um indício evidente para a mentalidade da época de que o progresso não teria limites e poderia realizar os sonhos humanos. (INCONTRI, 2006, p.40). O espiritismo não fugia à crítica aos sistemas religiosos do passado, porém o fazia sem negar a essência espiritual do homem, como fizeram a maioria das correntes de pensamento do “século dos materialismos”. Sobre essa questão Dora Incontri nos alerta: “O contexto histórico ocidental, porém, tornava sinônimos religião e Cristianismo e este, num certo sentido, visto como Igreja Católica. Aliás, o próprio absolutismo desta determinara tal concepção. (INCONTRI, 2004, p.44)”. Kardec, na contramão, das teorias materialistas e da ortodoxia católica, propunha revitalizar a pureza inicial do Cristianismo, sem cultos exteriores, sacerdócio, liturgias ou organização institucional. Desse modo, o pedagogo se manifestou, ao mesmo tempo recusando e apontando o caráter religioso, cristão dessa doutrina: “Assim, pois, o Espiritismo se fundamenta em princípios gerais independentes de toda questão dogmática. É verdade que ele tem conseqüências morais, como todas as ciências filosóficas. Suas conseqüências são no sentido do Cristianismo. (...) O Espiritismo não é, pois uma religião. Do contrário, teria seu culto, seus templos, seus ministros. Sem dúvida cada um pode transformar suas opiniões numa religião, interpretar à vontade as religiões conhecidas; mas daí à constituição de uma nova Igreja há uma grande distância e penso seria imprudente seguir tal idéia. (KARDEC, Revista Espírita 1859, p. 149. Apud INCONTRI, 2004, p. 60)”. Entretanto, o espiritismo não tem exclusividade nesse movimento, voltado para um Cristianismo tradicional não ortodoxo. Ao longo dos tempos foram vários os movimentos e pensadores que tentaram reviver o cristianismo 16 original, opondo-se ao catolicismo e ao protestantismo tradicionais, como foi o caso do movimento franciscano. (INCONTRI, 2004). Entretanto, essa visão espiritualista crítica, que buscava suas raízes na religião natural de Rousseau e Pestalozzi, no Pietismo inicial, no hussismo5 dos Morávios e é claro no Cristianismo original não foi regra no chamado século das luzes. Na esteira da negação ao velho representado pela Igreja e pelo regime sócio-político-econômico da Idade Média, as correntes de pensamento assumiram uma postura antiespiritualista, admitindo para leituras legítimas do mundo exclusivamente pressupostos materialistas e ateus. Desde Comte, que defendia a superação dos estados fetichista e metafísico pelo estado positivo6, passando por Marx & Engels, defensores da idéia de que a religião era mais um instrumento de dominação, a ser extirpado na ditadura do proletariado, rumo ao comunismo; por Nietzsche que decretou a morte de Deus, até chegar em Freud, que pregou em “O futuro de uma ilusão” a religião como criação psicológica do homem diante do mundo, confirmando as influências no século XX da onda materialista do século XIX, percebemos o esforço em atrelar qualquer pensamento espiritualista ao conservadorismo, à alienação e até mesmo a um delírio coletivo. Sobre a querela entre espiritualismo e materialismo Bigueto tenta demonstrar que: “Apesar de, historicamente, o ateísmo ter se disseminado cultural e socialmente, deixando de ser uma convicção de poucos, as profecias do fim da religião e do espiritualismo não se concretizaram. As experiências religiosas cresceram, não houve uma dissolução da transcendência e a idéia de Deus não morreu. Ao contrário, paradoxalmente, o fenômeno 5 Refere-se aos descendentes de Jan Huss, antigo Reitor da Universidade de Praga queimado vivo pela inquisição em 1415, que fundaram um movimento inserido na Reforma, da qual Comenius era integrante. 6 É curioso e pertinente lembrar que Augusto Comte, pai do Positivismo criou uma espécie de religião da humanidade, onde encontramos hierarquia, ritos e sacerdotes. 17 espiritual e religioso continuou vivo e fecundo”. (BIGUETO, 2006, p. 16-17). Remonta aos ideias do líder socialista francês Jean Jaurès (1859-1914), para alertar que o espiritualismo ainda era vivo nas idéias sociais do século XIX e ao caráter essencialmente espiritualista da filosofia de Sócrates e Platão, fazendo coro com Herculano Pires7, ao defender que historicamente encontramos a tendência e tradição filosóficas no campo do espiritualismo. E continua afirmando: “(...) as previsões dos profetas materialistas foram contrariadas. Para muitos, isso pode comprovar o quanto o ser humano é religioso. A secularização, não conseguindo acabar com a religião, sem querer deu mostras da sua importância, da necessidade e da naturalidade da dimensão espiritual do homem. A grande maioria da humanidade continuou religiosa”.(ibidem, p. 18). Como vimos, os teóricos da Pedagogia Espírita buscam demonstrar a contemporaneidade do espiritismo com as grandes corrente de pensamento surgidas no século XIX, defendendo a tese de que na tradição filosófica espiritualista podem-se encontrar visões de mundo críticas, abrindo então o debate, antes considerado fechado pelos materialistas. 2. O século XX As correntes do século XX encontram suas raízes no século XIX, “como oposição ao evolucionismo otimista e o cientificismo racionalista”. (INCONTRI, 2004, p.63), segundo a pesquisadora Dora Incontri, esse século é caracterizado pela nadificação de tudo. Ela atribui essa tendência ao próprio contexto totalizante do século anterior: 7 PIRES, Herculano. O espírito e o tempo. São Paulo, Pensamento, 1964, p. 165-166. 18 “Se o inchaço do espírito e do coletivo social sugere a reação do singular e do individual de um Kierkegaard e de um Nietzsche, projetando-se para o século XX no domínio do subjetivismo, aquela absorção do ser individual no todo o havia esvaziado de essência e quando se reafirma o indivíduo, já ele não tem mais substância alguma. Primeiro se nadifica perante o todo, depois se nadifica na solidão e na angústia existencial, suspenso no vácuo da perda de todos os parâmetros que o sustentavam”. (ibidem, p.64). Adiante continua: “A dilatação da razão até o limite do irracional é que prepara o irracionalismo desenfreado de Nietzsche, envenenando a filosofia do século XX de uma desconfiança na racionalidade”. (ibidem, 65). Morais (2002) em seu intrigante ensaio “Das orgias materialistas do século XIX às orgias místicas do século XX” em que discorre sobre o movimento pendular das correntes de pensamento desse período, defende a idéia de que o século passado foi herdeiro “das conquistas e dos equívocos estagnantes do oitocentos” (p.24). Poderíamos caracterizar esse período, principalmente a segunda metade, como o da descrença em qualquer tipo de metarrelato, de qualquer verdade ou parâmetro. Tudo vira jogo de linguagem. Está estabelecido um vazio ético. “Fragmentação do sujeito, nadificação da verdade, ausência de sentido, ininteligibilidade das coisas, irracionalidade do discurso – esses são os traços predominantes do século XX, sem aparentes perspectivas de qualquer segurança ou conforto no limiar do século XXI. Tudo isso, evidentemente, gerou uma crise de valores, sem precedentes na história da humanidade”.(INCONTRI, 2004, p. 71). São nas teses pós-modernas que vamos encontrar a origem dessas idéias. Como bem nos demonstra Eagleton: “Pós-modernidade é um pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, a idéia de progresso ou emancipação universal, os sistemas 19 únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos da explicação”. (Eagleton, 1999, Apud Freitas, 2005, p. 13). Luiz Carlos de Freitas (2005) argumenta que o pós-modernismo serve à causa liberal-conservadora, tornando o entendimento do mundo uma questão local, individual. Alerta ainda, que “nem mesmo a crítica do moderno, já acumulada ao longo da própria modernidade, é levada em conta. É como se a história tivesse começado agora, (...), é como se ela não fosse relevante para o presente...” (p.14). Na esteira de seu pensamento, Freitas se preocupa com as conseqüências de tais teses: “A regra tem sido a insegurança, o consumismo, a competição, a virtualização das relações, a aceleração de todos os tempos, até a instantaneidade da extraterritorialização do celular. Parecera que não há futuro”.(ibidem, p. 91). Sobre os efeitos dos ventos pós-modernos Dora Incontri diz: “Em nossa democracia moderna, em que pese a aparente valorização da escolha individual o indivíduo na realidade não é. Não é, por que as filosofias contemporâneas vivem apregoando o ser e o nada, mas também porque ele se faz resultante de uma modelação ideológica, empreendida pela mídia, a serviço de uma economia capitalista”. (INCONTRI, 2004, p.65). Esses trechos demonstram que o interesse nas conseqüências filosóficas, que têm reverberações sociais e políticas, não é exclusividade dos espíritas. Embora partam de lugares diferentes e estejam em campos teóricos opostos aos dos espíritas, os próprios marxistas alertam para a dificuldade de se definir o que é justo ou injusto nos tempos atuais (NANDA, 1999, Apud Freitas, 2005). Para os espíritas o que está em jogo é a substituição do “homem-sujeito autônomo, livre, responsável, pelo homem-corpo, homen-animal, puro instinto 20 ou ainda homem desejo”. Incontri defende a tese de que a origem da ética universal, ”com todo seu cortejo de liberdade, consciência, igualdade”, está na assunção do espírito e de sua transcendência. Abolido o espírito ou quaisquer resquícios dele (que os havia, mesmo inconscientemente em doutrinas materialistas do século XIX), sobrou a corporeidade, a única instância existencial, a única realidade tangível. O que é o homem sem espírito? Um animal determinado pela genética, feito pelo meio, moldado pelas circunstâncias, porque a única possibilidade de ser de fato é de ser que transcende. (INCONTRI, 2004, p.73). Kardec (1993), já apontava, na segunda metade do século XIX as conseqüências da doutrina que propõe ao homem, nada existir, antes da vida e nada existir depois da morte: “O homem, não sendo senão matéria, não há de real e de invejável senão os gozos materiais; as afeições morais não tem futuro; os laços morais são quebrados sem retorno na morte; as misérias da vida são sem compensação; o suicídio torna-se o fim racional e lógico da existência, quando os sofrimentos são sem esperança de melhora; é inútil se impor um constrangimento para vencer seus maus pendores; viver para si o melhor possível, enquanto estiver aqui; (...) O bem e o mal são coisas de convenção; o freio social é reduzido ao poder material da lei civil”. (ibidem, p.190). De fato, se observarmos o noticiário televisivo, on-line ou impresso, perceberemos que a atualidade está imersa na violência e no total desrespeito à vida, sem qualquer tipo de parâmetro que possa frear esse estado de coisas. Desde a decisão dos Estados Unidos de invadir o Iraque e o Afeganistão, passando por cima das decisões da ONU, baseados em argumentos forjados e motivados por interesses puramente econômicos, passando pelos assassinatos em massa cometidos por adolescentes desequilibrados aqui e ali, pelo alto consumo de drogas (lícitas e ilícitas) praticado pela juventude, em boa medida, de alto padrão aquisitivo e cultural, até chegar à realidade mais cotidiana, na 21 escola, na família ou no trabalho, o que vemos é a confirmação das preocupações acima expostas. 3. O que é o Espiritismo? O Espiritismo é uma doutrina que surgiu na segunda metade do efervescente século XIX. Teve seu marco inicial em 18 de abril de 1857, quando o pedagogo francês Hippolyte Leon Denizard Rivail (1804-1869), sob o pseudônimo de Allan Kardec lançou “O Livro dos Espíritos”. Nesse livro, o autor colocava-se como organizador de idéias apresentadas por inteligências metafísicas, através de um processo psíquico chamado por ele de mediunidade. Tais inteligências, a observação veio demonstrar, eram espíritos de homens desencarnados, ou seja, sem corpo, ou ainda, para usar um termo de entendimento universal, mortos. Os espíritos comunicavam-se com o mundo dos vivos através da mediunidade, que consiste na mediação entre os mundos material e espiritual, em que o espírito utiliza-se do corpo físico de uma pessoa viva para comunicarse com as demais. A partir desse processo psíquico, respondiam perguntas elaboradas por Kardec e seu grupo. As respostas foram compiladas, estudadas e comparadas com outras, obtidas por processos semelhantes em diversas partes do mundo e enviadas a Kardec por carta. As que demonstravam o mesmo conteúdo em diversas partes do planeta, coerência e lógica com as demais repostas (afinal, uma afirmação não poderia contradizer a outra) e fundamentação eram tomadas como repostas corretas e constituintes dessa doutrina dos espíritos, designada Espiritismo pelo seu codificador, como queria ser chamado Allan Kardec. 22 “Agi, pois, com os espíritos, como o teria feito com os homens; foram para mim, desde o menor ao maior, meios de me informar, e não reveladores predestinados.Tais foram a disposições com as quais empreendi, e sempre persegui os meus estudos espíritas; observar, comparar e julgar, tal foi a regra constante que segui”. (KARDEC, 1993, p. 260). O processo, que culminou no surgimento do espiritismo teve início no final da década de 1840, quando fenômenos considerados paranormais foram descritos no interior dos Estados Unidos e na Europa. Mais tarde, tais fenômenos fizeram-se comuns, sendo atração nas rodas sociais parisienses, que se divertiam com as tais “mesas-girantes”8. Foi em uma dessas reuniões que o pedagogo Denizard Rivail, desconfiado, teve o primeiro contato com o Espiritismo. E diante do fato das mesas responderem questões inteligentes, terem vontade própria, humor e, à primeira vista não serem animadas por ninguém que pudesse manipular seu comportamento, Rivail pôs-se a estudar o fenômeno. “Esse movimento era lógico, eu concebia a possibilidade do movimento por uma força mecânica, mas, ignorado a coisa e a lei do fenômeno, parecia-me absurdo atribuir inteligência a uma coisa puramente material. Estava na posição dos incrédulos de nossos dias que negam porque não vêem senão um fato do qual não se dão conta Há 50 anos, se tivessem dito, pura e simplesmente, a alguém que se podia transmitir um despacho a 500 léguas, e receber-lhe a resposta em uma hora, se vos riria na cara, não teriam faltado excelentes razões científicas para provar que a coisa era materialmente impossível. Hoje, quando a lei da eletricidade é conhecida, isso não espanta ninguém, mesmo os camponeses. Ocorre o mesmo com os fenômenos espíritas; para quem não conhece as leis que o regem, parecem sobrenaturais, maravilhosos, e, por conseqüência, impossíveis e ridículos; uma vez conhecida a lei, o maravilhoso desaparece; a coisa nada mais tem que repugne à razão, porque se lhe compreende a possibilidade”. (KARDEC, 1993, p. 256-257). 8 O fenômeno das mesas girantes virou atração comum nas reuniões da sociedade parisiense no início dos anos de 1850. Basicamente tratava-se de reuniões em que as mesas se debatiam, se movimentavam em meio às pessoas, que se divertiam muito. Pelo fato das mesas movimentarem-se pelo salão, respondendo perguntas ou demonstrando seu humor esse fenômeno ficou assim conhecido. 23 Membro de várias sociedades científicas9, professor e autor de livros pedagógicos e didáticos, dentre eles: “Plano proposto para a melhoria da instituição pública (1928), Curso prático e teórico de aritmética, segundo o método Pestalozzi, para uso dos professores primários e das mães de família (1829), (...) Ditado normal dos exames da prefeitura e da Sorbonne (1849)”. (Revista Espírita, maio 1869), esse último muito utilizado na época de sua publicação, Rivail, foi rigoroso em seu estudo, aplicando um método investigativo minucioso. “Apliquei a essa nova ciência, como fizera até então, o método da experimentação; jamais ocasionei teorias preconcebidas: observava atentamente, comparava, deduzia as conseqüências; dos efeitos procurava remontar às causas, pela dedução e o encadeamento lógico dos fatos, não admitindo uma explicação como válida senão quando podia resolver todas as dificuldades da questão. Foi assim que sempre precedi em meus trabalhos anteriores, desde a idade de 15 a 16 anos. (...) seria preciso, pois, agir com circunspecção, e não levianamente; ser positivo não idealista, para não se deixar iludir”.(KARDEC, 1993, p. 259). Segundo Incontri (2004), essas palavras demonstram que Kardec pensava a Pedagogia como uma ciência, assim como seu mestre, Pestalozzi. A autora alerta, ainda, para a herança iluminista do educador francês, com a qual “partia para a pesquisa dos fenômenos em vista, já que é impossível, (...), interpretar qualquer fenômeno sem um referencial teórico” (p. 27). Contudo, mostra a honestidade de Kardec em se dedicar à pesquisa desses fenômenos sem pré-conceitos. Herculano Pires (1957) em texto escrito por conta das comemorações de 100 anos da publicação de “O livro dos Espíritos” analisa o conjunto dessa obra e sua importância para a doutrina espírita e para o mundo moderno. Nessa 9 Destaca-se sua presença na Academie Royale d’Arras, que em concurso realizado no ano de 1831 premiou a dissertação “Qual é o sistema de estudos mais em harmonia com as necessidade da época?” 24 análise, Pires demonstra que as demais obras básicas dessa doutrina partem do seu conteúdo, colocando-o não só como marco inicial do espiritismo ou sua pedra fundamental, mas como “(...) seu núcleo central, e ao mesmo tempo arcabouço geral da doutrina, (...) seu verdadeiro tratado filosófico” (idem). O livro dos Espíritos lançou as bases de uma doutrina complexa, multifacetada, porém simples, de fácil entendimento10, que responde grandes questões existenciais do ser humano11. Essas respostas têm como base de sustentação o processo do qual foram resultadas, que pode ser repetido por qualquer pessoa, e, tomadas às precauções inerentes a qualquer método experimental, tirar a contraprova. Como fez o químico e físico inglês, prêmio Nobel de química (1907) Sir William Crookes (1832-1919), quando contratado pela corte inglesa para desmistificar o espiritismo, e em uma série de experimentos, constatou a veracidade dos fenômenos espíritas. Os resultados de sua pesquisa foram publicados no livro Fatos Espíritas (FEB, 1991). Essas são faces de dois aspectos do Espiritismo, o filosófico e o científico, que conjugados têm conseqüências morais, constitui uma ética. Da conjugação desses dois aspectos com aquele que lhe é conseqüência, temos o tripé da doutrina dos espíritos: filosofia, ciência e religião. Para entender melhor essa questão, dedicaremos um capítulo do nosso trabalho ao proposto diálogo. É o que segue. escrita pelo educador Denizard Rivail. 10 O Livro dos Espíritos (OLE) foi publicado em Francês popular, sem preocupações técnicas da linguagem e exposição filosóficas, para o entendimento de todos. 11 Por exemplo, questões relativas à continuidade evolutiva da vida, à origem e destino do homem, do universo, imortalidade da alma, desigualdade de aptidões, riquezas. 25 CAPÍTULO II DIÁLOGOS ENTRE FILOSOFIA, CIÊNCIA E RELIGIÃO... Esse capítulo tem por objetivo, apresentar a proposta espírita de diálogo entre filosofia, ciência e religião. Reconhecemos a importância e pertinência de um debate mais demorado e meticuloso sobre o assunto, porém não teremos espaço nesse trabalho para essa tarefa, devido a sua própria natureza, de TCC, e ainda a necessidade de nos concentrarmos no recorte que optamos fazer. O debate é denso e requer, quem sabe, um trabalho específico. Para nós é importante, no contexto dessa reflexão, uma vez que tratamos, ora de maneira direta, ora como pano de fundo, de conceitos de ciência, filosofia e religião. Como apontamos no capítulo anterior, o Espiritismo propõe um diálogo entre a filosofia, a ciência e a religião. Pudemos perceber isso em “O Livro dos Espíritos” e mais tarde na demais obras consideradas básicas pelos adeptos dessa corrente de pensamento. Vejamos o que Chibeni diz sobre tal abordagem: “Se pensarmos no Espiritismo em termos de filosofia, será uma filosofia apoiada em bases científicas, e que tem como um dos objetivos centrais o estudo das questões morais. Se pensarmos em termos de ciência, não será uma pesquisa seca, que simplesmente constate e sistematize fatos, mas de uma investigação de longo alcance sobre um objeto de fundamental importância, o elemento espiritual. Essa ciência complementa, pois, as ciências acadêmicas, cujo objeto de estudo é o elemento material. E, pela própria natureza de seu objeto de estudo, a ciência espírita necessariamente diz respeito a tópicos genuinamente filosóficos, dentre os quais ressalta, por sua importância prática, aqueles referentes à moral” (CHIBENI, 2003). Kardec afirma: O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas 26 relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as conseqüências morais que decorrem dessas relações. (KARDEC, 1959).12 Os trechos transcritos explicitam a tese de indissociabilidade entre filosofia, ciência e religião proposta pelo Espiritismo. Entretanto, é preciso alertar para a especificidade desses conceitos. A doutrina dos espíritos é apresentada por Allan Kardec de forma a não se confundir nenhum deles com os até então utilizados. A ciência espírita possui objeto e método próprios, não podendo ser adaptada às metodologias das ciências materialistas como vimos em Chibeni. Sua contribuição capital é a conjugação entre fé e razão, na aplicação do método experimental às coisas metafísicas. A filosofia espírita, isenta de “prejuízos de sistema”, é uma filosofia racional, que tem seus fundamentos na imortalidade da alma, evidenciada pela mediunidade: “A metafísica torna-se pois um pressuposto dado pela ciência espírita e o desdobramento filosófico se dá pela discussão racional, construindo-se a coerência interna da doutrina. A filosofia espírita alimenta-se ao mesmo tempo dos fenômenos estudados pela ciência espírita e do ensinamento dado pelos espíritos desencarnados (...)” (INCONTRI, 2004, p.29). A religião espírita talvez seja o aspecto que mais tem suas diferenças fundamentais enfatizadas, em relação ao conceito a si atribuído. Kardec era defensor da religião natural, uma religião sem sacerdotes, sem igrejas, liturgias ou hierarquias, de caráter interior. Enorme foi a ênfase que ele deu, em seus escritos, à crítica dos sistemas religiosos tradicionais, protestantes ou católicos. Características como o controle universal do ensino dos espíritos distingue de forma capital o espiritismo das religiões tradicionais, baseadas na 12 KARDEC, Allan. O que é o espiritismo. 1959. 27 revelação de um só profeta. O espiritismo é ainda “uma revelação religiosa, por que pela mediunidade, os espíritos propõem teorias teológicas e morais e filosóficas e cosmológicas” (ibidem, p. 30). Embora seja consenso, no movimento espírita, que o Espiritismo propõe com sucesso o diálogo entre filosofia, ciência e religião, o mesmo não aconcetece quando o assunto é pesquisa acadêmica. Pesquisadores espíritas, reconhecidos no meio universitário em suas áreas de conhecimento, consideram que, embora seja uma ciência e uma filosofia, o espiritismo não deve servir de base para pesquisas acadêmicas. Essa tendência encontra fundamentos no entendimento de que a academia moderna é local privilegiado das ciências de fundo materialista, sobretudo o positivismo, que superou o pensamento teológico predominante nas universidades na Idade Média. Sobre isso, Chagas, no texto “Espiritismo na academia?” apresenta um “passeio histórico” remontando à origem da academia e das universidades, no qual analisa a situação destas em relação às correntes de pensamento: “Certas disputas de cátedras tornaram-se célebres. O positivismo conquistou maiores posições e no início do século (após a 1ª Guerra mundial), parece ter havido um armistício. Surgiu uma terceira força neste embate: o marxismo, que se instalou oficialmente na recém-criada União Soviética. A situação atual nos países ocidentais, onde nos incluímos, é nítida a predominância ideológica do positivismo, com alguns bolsões teologias (católicos ou protestantes), todos vivendo uma aparente coexistência pacífica. O marxismo, apesar de muito difundido, poucas vezes ameaçou o poder da academia” (CHAGAS, 1994, p. 21-22). Outra tendência, na qual a pedagogia espírita está inserida, vê no espiritismo uma matriz teórico-metodológica que deve servir de base para pesquisas acadêmicas, como já foi mencionado nesse trabalho. Para a defesa (http://www.espirito.org.br/portal/codificacao/oq/index.html) 28 de tal empreendimento, seus adeptos recorrem, assim como seus opositores, à história da universidade, considerando essa como espaço privilegiado, imprescindível para as transformações. “A universidade é uma das belas heranças que o final da Idade Média nos deixou. Os séculos XII e XIII, que viram seu início, foram palco das mudanças sociais, culturais e políticas, que desembocariam no Renascimento. Aliás, o século XII é considerado como a primeira etapa do movimento que tomaria mais tarde esse nome.” (INCONTRI, 2003). Também a universidade brasileira é objeto de análise do artigo. A autora alerta para o fato do Brasil somente fundar sua primeira universidade na década de 1930, quando praticamente em todos os países da América Latina já havia Universidades que contavam pelo menos 100 anos. Esse fato constitui, segundo Incontri, uma das causas para a falta de originalidade (Salvo Darcy Ribeiro e Sergio Buarque de Holanda) da academia brasileira e para o colonialismo intelectual predominante. Para Incontri o espiritismo entendido como “método de conhecer” , como um novo paradigma, constitui valiosa possibilidade de contribuição original brasileira para a filosofia e a ciência. “E essa originalidade pode ser uma contribuição espírita à cultura brasileira e, ao mesmo tempo, uma contribuição brasileira à cultura internacional. Mas ela precisa ser construída. Está implícita em Kardec, mas longe de estar aplicada (com todas as suas articulações) nas várias áreas do conhecimento. E essa construção só pode ser feita na universidade.” (idem) No fundo dessa divergência encontramos entendimentos opostos sobre a academia e sobre a universidade. O que constitui, de certa forma, divergências sobre o próprio conceito de ciência. Entretanto, é lugar comum entre essas duas visões que o Espiritismo constitui uma ciência, específica, com método e objeto próprios, e que dele emerge um novo paradigma. 29 Para superar essa querela, é importante que seja realizada uma pesquisa de fôlego, que debata as raízes epistemológicas espíritas, confrontando com o debate teórico mais geral sobre teoria do conhecimento e epistemologia, bem como reflita sobre a história e a natureza da universidade e da academia, continuando o trabalho iniciado por Dora Incontri (2001, 2003, 2004), já citada aqui, os estudos de Chibeni sobre a cientificidade do espiritismo (1988, 1990, 1994, 2003) e de Chagas (1987, 1994, 1995). 30 CAPÍTULO III A PEDAGOGIA ESPÍRITA Imperioso para o correto entendimento sobre a Pedagogia Espírita, sem os prejuízos de conceitos pré-estabelecidos, é o entendimento de que essa teoria pedagógica está inserida na tradição filosófica ocidental espiritualista e se afirma a partir da emersão de um novo paradigma, o paradigma do espírito, a partir do qual é possível uma releitura dessa tradição filosófica ocidental. O paradigma do espírito, segundo Incontri, tem se constituído há 2500 anos como projeto de emancipação humana, e remonta a Sócrates e Platão, passando por Cristo, Comenius, Rousseau e Pestalozzi, até chegar a Kardec, quando fica explícito, a partir de uma experimentação positiva fundamentada, conceitos como imortalidade da alma e reencarnação, até então intuitivos na obra e prática dos seus precursores (INCONTRI, 2001.) Assim Incontri (2001) resumiu os principais pontos desse paradigma: 1) Entendimento de Jesus fora dos padrões míticos que o têm cercado; 2) afirmação do sujeito autônomo e livre; 3) segura racionalidade, aliada a fé sem fanatismos; 4) proposição de uma educação humana, que faça brotar as potencialidades do homem e o conduza à felicidade individual e coletiva; 5) busca de um conhecimento verdadeiro e manifestação da crença na ação transformadora do homem.(p. 110). Outro ponto, não menos importante, é considerar que a proposta da pedagogia espírita se contextualiza numa dualidade do movimento espírita brasileiro. No qual encontramos duas tendências bem definidas uma que dá mais atenção ao aspecto religioso, assistencialista e institucional, da doutrina, imprimindo no espiritismo um caráter conservador; outra que entende esse 31 como um projeto pedagógico-cultural, progressista, com claras contribuições para a transformação da humanidade. Incontri caracteriza bem tais tendências, identificando na segunda a Pedagogia Espírita: “A primeira reduz a questão educacional espírita aos centros, com cursos internos para adultos sobre Espiritismo e a chamada ‘evangelização’ das crianças — cujo nome já indica o caráter predominantemente religioso e mesmo catequético. A segunda propugna pela criação de escolas, centros culturais, universidades espíritas, sem caráter sectário. Numericamente, a primeira tendência é maior, porque possivelmente arraigada na mentalidade brasileira, pouco afeita às questões culturais e pedagógicas. A segunda, porém, apresenta muito maior consistência teórica e já tem se manifestado em experiências práticas e ensaios teóricos”. (INCONTRI, 2001, p. 209).13 Não nos interessa aqui fazer um estudo detalhado sobre as experiências pedagógicas espíritas, interessa-nos captar o que vem a ser essa pedagogia, traçando seus princípios e conseqüências práticas, por isso vamos nos ater em apenas citar tais experiências a fim de situar o leitor, e poder melhor responder nossas questões norteadoras.14 3.1 - Os Precursores: A pedagogia espírita nasce, segundo Dora incontri, da prática pedagógica inovadora de educadores espíritas brasileiros que produziram, fundamentados no Espiritismo, uma práxis significativamente diferenciada da educação tradicional. “Pode uma escola não alcançar a prática integral de todos os princípios pedagógicos espíritas. Mas não basta uma escola autodemoninar-se espírita, para se inserir no quadro desta Pedagogia”.(ibidem, p. 211 – nota 375). São eles: A carioca de nascimento e paulista radicada 13 Grifos meus. 32 Anália Franco, os mineiros Eurípedes Barsanulfo e Tomás Novelino, o paulista interiorano Herculano Pires, Pedro Camargo e o paranaense Ney Lobo. Anália Franco (1853-1919) foi feminista, republicana, abolicionista e espírita, numa época que a regra era ser escravocrata, machista, monarquista e católico. A sociedade brasileira se organizava por esses quatros últimos pilares, sendo de extrema coragem a postura dessa professora paulista, que acolheu, numa casa alugada com recursos próprios, crianças negras, “filhos e filhas” da Lei do Ventre Livre, fazendo assim sua primeira Casa Maternal (INCONTRI, 2001). Com apoios da Maçonaria, de companheiros espíritas e de outras mulheres funda, em 1901, a Associação Feminina Beneficente e Instrutiva, que constitui creches e asilos por todo estado de São Paulo com os seguintes objetivos: “1º recolher as mulheres pobres, com ou sem filhos, que se acham ao desamparo; 2º meninas órfãs ou filhas de pais inválidos; 3º meninos com suas mães, até 8 anos; 4º os filhos de mães operárias de 2 anos para cima; 5º criar aulas de instrução primária, secundária e profissional, diurnas e noturnas, para as asiladas ou não; 6º criar secções especiais para enfermeiras (sic) e mulheres arrependidas (sic).”(FRANCO, 1903. p.5. Apud INCONTRI, 2001)15 Anália Franco é considerada uma representação fiel da mulher defendida e anunciada por Kardec, no Livro dos Espíritos:. “A lei humana, para ser justa, deve consagrar a igualdade de direitos entre o homem e a mulher; todo privilégio concedido a um ou a outro é contrário à justiça. A emancipação da mulher segue o processo de civilização, sua escravização marcha com a barbárie. Os sexos, aliás, só existem na organização 14 Para uma visão mais detalhada veja: COLOMBO, Dora Alice (Dora Incontri). Pedagogia Espírita: Um projeto brasileiro e suas raízes histórico-filosóficas. São Paulo, Feusp, 2001 (tese de doutorado). 15 FRANCO, Anália. Escholas maternaes. In: A Vóz Maternal, São Paulo, I (1), 1º/12/1903, p. 5. Apud INCONTRI, 2001. 33 física, pois os Espíritos podem tomar um e outro, não havendo diferenças entre eles a esse respeito. Por conseguinte, devem gozar dos mesmos direitos”.(KARDEC, DATA, p. XXX). Segundo Incontri, Anália Franco tinha uma prática educativa que se distanciava de qualquer proselitismo ou doutrinação. Mesmo sendo espírita confessa, Anália não ensinava espiritismo em suas creches e asilos. “Incentiva, porém, uma religiosidade ecumênica, despertando entre os alunos alguns conceitos comuns a todas as crenças: a oração, a imortalidade da alma, a veneração a Deus, a fraternidade humana”. (INCONTRI, 2001, p.229). O que estaria em pleno acordo com o Espiritismo e indo ao encontro de outras experiências educacionais espíritas. Assim Dora Incontri sintetiza a contribuição dessa educadora, mulher ativista da transformação social: “A obra abrangente de Anália Franco indica que faz parte dos postulados espíritas uma visão social transformadora, alavancada pela educação, com claras conotações igualitárias e democráticas. Liberdade de pensamento, valorização da mulher, respeito às diversidades religiosas e étnicas — todos esses são elementos espíritas encontrados na ação de Anália. Do ponto de vista de sua prática pedagógica, a presença desses elementos mais as heranças pestalozzianas, fröbelianas e francesas apontadas revelam avanço em relação ao tradicionalismo da época”.(Ibidem, p. 234-235) Eurípedes Barsanulfo (1880-1918), é considerado o primeiro a organizar uma escola espírita que atendesse ao critério citado. Em 1907, ele funda o Colégio Allan Kardec, na cidade mineira de Sacramento. Num período em que era comuns castigos físicos e recompensas, educação diferenciada e separada para meninos e meninas, Eurípedes aboliu os castigos, as recompensas e montou classes mistas, suscitando movimentos contrários ao seu colégio. Isso 34 para ficar somente em questões de clara percepção. Assim Bigueto descreve o Colégio Allan Kardec: “A escola era particular, gratuita e sem fins lucrativos. Iniciou suas atividades com umas 80 crianças de ambos os sexos e pretendia contribuir na valorização da infância, despertar o sentimento do bem e a vontade de conhecer. Desde o início, Eurípedes compreendia que o problema educacional ia além do mero aprender a ler, contar e escrever. Distanciava-se também das idéias coercitivas que vigoravam na educação e procurou substituir práticas pedagógicas tradicionais por um ensino cooperativo, adotando métodos que incentivavam a ação, a liberdade, a investigação. A experiência do colégio Allan Kardec tinha a intenção de negar a escola livresca, autoritária e distante da realidade. Ao contrário, pretendia criar uma nova forma de lidar com os alunos considerando seus interesses, necessidades, vivências, promovendo a educação intelectual, física e moral.” (BIGUETO, 2006, p.152). O autor demonstra em sua dissertação de mestrado, Eurípedes Barsanulfo, um educador espírita na primeira república (2006), a proximidade das propostas de Eurípedes com as defendidas e praticadas por Pestalozzi em Stans e Yverdon, de uma práxis espiritualizada, preocupada em formar o ser humano na sua integralidade, respeitando e criando condições para o desenvolvimento individual do educando. Tomás Novelino (1901-2000), motivado pela expulsão de um aluno, de uma pequena escola de Franca, dirigida por um ex-seminarista, pelo fato do menino ser espírita, tomou a decisão, de fundar uma escola que protegesse os estudantes espíritas e de quem quer que fosse, independente de credo. Sua proposta era de uma escola que não fizesse separações e sob a bandeira da tolerância religiosa aceitasse crianças de todos as crenças. Dizia ele, o saparativismo era o mal das religiões. Fundamentado nos ideias espíritas, e no aprendizado de Novelino com Barsanulfo e Anália Franco16, em 1° de Agosto 16 Órfão de pai e mãe, Novelino foi internado junto com os irmãos e irmãs no asilo Anália Franco em São Paulo (1908). Também foi aluno de Eurípedes, no Colégio Allan Kardec, em Sacramento. 35 de 1944, iniciava suas atividade o Educandário Pestalozzi, como a materialização dessa idéia. (INCONTRI, 2001). Assim estava escrito na pedra fundamental das obras de ampliação do projeto educacional, que já não cabia mais, nas instalações iniciais: “O Educandário primará por ser livre e fazer homens e mulheres livres, criaturas ciosas de sua liberdade, amantes do bem, do trabalho, da atividade, da evolução, e não seres modorrentos que muito embora consigam às vezes grande cultura, a traga simplesmente acumulada na memória. (…) O educandário porfiará por lapidar em seus alunos intelecto e coração, aprimorando-lhes razão e sentimento”. (Educandário Pestalozzi, 1943. Apud INCONTRI, 2001, p.238).17 A experiência de Novelino, para Incontri, encontra paralelos muito estreitos com as experiências e propostas de Pestalozzi, para uma educação integral do ser humano. A autora ainda relaciona a ligação entre a indústria de sapatos, financiadora do projeto, com as escolas, a fazenda e o observatório, com experiências socialistas como a de Robert Owen (1771-1858), fundador do cooperativismo. Embora tenha inovado pouco na questão pedagógica, se comparada à proposta de Barsanulfo, Tomás Novelino e sua esposa deram uma inestimável contribuição no que diz respeito à estabilidade financeira, a qualidade institucional e à preocupação estética e ambiental. (INCONTRI, 2001), apontando caminhos e mostrando ser possível o envolvimento dos espíritas em projetos educacionais e culturais. Herculano Pires (1914-1979) foi reconhecido pelo primeiro presidente, e fundador da Academia Brasileira de Filosofia, Jorge Jaime de Souza Mendes, 17 Educandário Pestalozzi (in: A Nova Era. Franca, XIX (734), 31/1/46, p 1.). Apud INCONTRI, 2001, p. 238. 36 na obra que constitui importante referência para a filosofia brasileira. Em “História da filosofia no Brasil18”, o acadêmico afirma que “a história da filosofia brasileira já possui o filósofo do Espiritismo, e esse foi, indiscutivelmente, José Herculano Pires” (Jaime, 2000, p. 144). Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1957), jornalista de profissão, foi também poeta, romancista19, sindicalista20 e professor universitário, tendo lecionado Filosofia da Educação na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Araraquara (1959-1962), uma das instituições de educação superior que deram origem à Faculdade de Ciências e Letras, campi da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) nessa cidade do interior do estado. Com uma atuação multifacetada, Herculano Pires teve participação singular na luta em defesa da escola pública, laica e gratuita durante os debates que foram travados no cenário educacional brasileiro na virada dos anos 50 para os anos 60, entre os que defendiam a escola pública e os que, sob a bandeira da liberdade de ensino, defendiam privilégios para as escolas particulares e confessionais (Incontri, 2001). Vejamos o que dizia o Manifesto em Defesa da Democratização Escolar, assinado pelo Clube do Jornalista Espírita, presidido por Pires, e enviado ao Senado Federal, a propósito da aprovação de um substitutivo de Carlos Lacerda a LDB, em discussão desde 1948: “Os princípios confusionistas do projeto aprovado, que mistificam o problema do ensino, misturando deveres do Estado, com interesses particulares, em evidente benefício de interesses confessionais — ainda mais nocivos do que aqueles, por 18 JAIME, Jorge. História da filosofia no Brasil. Petrópolis, São Paulo, Vozes e Faculdade Salesianas, 2000. 19 É considerado autor de um novo gênero literário, a “ficção científica paranormal”. 20 Foi Presidente do Sindicato dos Jornalistas de 1957 a 1959 37 implicarem coação de consciência — são simples resíduos do obscurantismo medieval”. (Apud INCONTRI 2001, p. 275) Esse movimento culminou na fundação, em 1960, também sob a liderança de Herculano, da Associação Espírita em Defesa da Escola Pública, que em 62 lança um novo manifesto, conclamando espíritas e não-espíritas à luta pela escola pública como espaço de liberdade de consciência. Eram esses, dentre outros, os princípios da associação: “(a) Luta incessante contra o ensino religioso nas escolas, por constituir instrumento de coação das maiorias religiosas contra as minorias, o elemento de condicionamento das consciências, conseqüentemente, de deformação do ensino e da educação; (b) luta incessante contra as discriminações raciais, de cor, ideológicas e religiosas, nos estabelecimentos de ensino públicos e particulares, com denúncia e ação judicial nos casos concretos”. (Associação Espírita em Defesa da Escola pública, 1962. Apud INCONTRI, 2001, p. 276) Ao contrário do que se poderia pensar, os espíritas estiveram, como acabamos de ver, do lado da escola pública, laica e gratuita, sendo coerentes com os princípios do espiritismo postulados por Kardec, que rompe com as instituições, liturgias e hierarquias religiosas, propondo, como Pestalozzi uma religião natural, interior. No que diz respeito à coerência com o espiritismo, Pires foi exemplar, se tornando inclusive, um dos mais, senão o mais contundente e engajado crítico de setores do movimento espírita brasileiro que consideram essa doutrina apenas como uma religião. Em seu livro “O Centro Espírita” (LAKE, 1992), disserta sobre diversos aspectos do movimento espírita, a partir de sua célula básica. São temas como: a falta de entendimento dos espíritas sobre as idéias codificadas por Kardec; a própria função e significado do centro; a assistência social prestada pela instituição; a relação com a comunidade; política, dentre 38 outros. É um verdadeiro compendio crítico à prática do movimento espírita “oficial” no Brasil. Dizia ele: “A expansão do Espiritismo em nossa terra é incessante e prossegue em ritmo acelerado. Mas o que fazemos em todo esse vasto continente espírita é um esforço imenso de igrejificar o Espiritismo, de emparelhá-lo com as religiões decadentes e ultrapassadas…” (PIRES, 1992, p. XXI). No campo da Pedagogia Espírita, o filósofo é considerado o seu grande teórico e incentivador, tendo produzido vasta bibliografia acerca do assunto. Liderou três congressos educacionais espíritas no estado de São Paulo21. Fundou o Instituto Espírita de Educação, resultante do primeiro congresso. Também foi criador e editor da revista “Educação Espírita”, publicada entre os anos de 1970 e 1974 (FUCHS, 1990)22. José Herculano Pires (1990) compreende o espiritismo como sendo uma “mundivivência” e como projeto cultural, por isso, deve influenciar significativamente todos os âmbitos da sociedade e do conhecimento. A sua legitimidade estaria fincada no fato do espiritismo ter surgido naturalmente, e não por vontade de uma autoridade, firmando-se como doutrina, “com concepção do mundo e do homem devidamente estruturada em princípios filosóficos” (p. 5), esses confirmados pela experimentação positiva, realizada por Kardec ao longo de seus estudos sobre o fenômeno das mesas girantes, e perfeitamente passíveis de reprodução23. Dessa mesma forma encontramos a legitimidade da Educação Espírita, que, nas palavras do jornalista “(...) não 21 I, II e III Congresso Educacional Espírita paulista, realizados em 1949, 1955 e 1970, respectivamente. Prefácio à primeira edição do livro Pedagogia Espírita, no qual estão reunidos os mais significativos textos de Herculano Pires na revista. 23 O segundo livro da chamada codificação espírita, O Livro dos Médiuns (1861), levava o subtítulo “Espiritismo Experimental” e pode ser considerado um manual para repetição dos experimentos de Kardec. 22 39 surge como uma elaboração artificial em nosso tempo, como mais uma novidade educacional” (idem). Herculano defendia a educação na sua realidade transcendente, como ser reencarnado e por isso a educação vista do prisma da Doutrina Espírita, “(...) nos apresenta dois aspectos fundamentais: é o processo de integração das novas gerações na sociedade e na cultura do tempo, mas é também o processo de desenvolvimento das potencialidades do ser na existência, com vistas ao seu destino transcendente. (ibidem, p. 113)” Isso significa uma mudança substancial na postura da escola, do educador e das práticas educativas. Pedro Camargo (1878-1966), conhecido pelo pseudônimo Vinícius, foi orador espírita e autor de obras que reforçavam o caráter evangélico do Espiritismo. Em seus livros estão presentes os princípios da educação nãoautoritária e da auto-educação que servirão de base para experiências como a do Professor Ney lobo, em Curitiba/PR. Comerciante de profissão cursou, mas não concluiu, o curso de Direito. No movimento espírita, além de palestras atuou nas áreas de assistência social e evangelização infantil. Era um defensor dos direitos humanos e como tal defendeu a recuperação por meio da educação de criminosos, fazendo coro com Eurípedes Barsanulfo e Ney Lobo, na defesa da não punição como ato pedagógico. Foi fundador do Instituto Espírita de Educação, sendo seu presidente durante 20 anos. (INCONTRI, 2001) Professor Ney Lobo foi diretor do Colégio Lins de Vasconcellos24, e lá deu intensa e importante contribuição para a constituição da Pedagogia 24 O Colégio Lins de Vasconcelos foi arrendado em 1998 para um grupo educacional privado, pela Federação Espírita do Paraná (mantenedora do colégio), que alegou dificuldades financeiras e que o Lins 40 Espírita. De sua experiência extraiu e sistematizou uma teoria da Pedagogia Espírita, que pode ser encontrada nos 5 volumes de Filosofia Espírita da Educação (FEB). À frente do colégio, o qual era mantido pela Federação Espírita Paranaense, o Professor criou a Cidade Mirim, onde os alunos elegiam o Prefeito, seus vereadores e gerenciavam a cidade, praticando o princípio da atividade como eixo fundamental de seu método educacional. Sobre a ousadia do diretor Dora Incontri nos informa que ao assumir a gestão da instituição: “Ney Lobo aboliu em todas as séries as aulas tradicionais e vendeu as carteiras escolares, assim que assumiu a direção do Instituto, mandando fazer módulos que se ajustavam aos trabalhos em equipe. Em vez de aulas, foram estabelecidas ‘sessões de trabalho’, nas quais havia sempre um trabalho individual (TI) e um trabalho coletivo (TC), apenas brevemente orientados pelo professor.” (INCONTRI, 2001, p. 247). Sobre a base de uma educação ativa, o Gestor implementou, na esteira de Rousseau, Pestalozzi, e Eurípedes, novidades também no campo da avaliação. “Desaparecem as provas periódicas e os exames finais. A avaliação era contínua, através dos trabalhos individual e coletivo” (Ibidem, 249). Qualquer tipo de punição ou recompensa é abolido. Para substituir essa prática e de fato contribuir para o crescimento dos estudantes Ney Lobo propõe o princípio da reparação: “Consiste (este princípio) em induzir o educando, por meios hábeis, a reparar, de alguma forma, as faltas cometidas; voluntariamente, isto é, sem imposição ou ameaças. Faltas essas de qualquer natureza: ofensas, agressões, danos ou prejuízos causados. A reparação é a correção educativa por excelência”. (LOBO, 2001 p 2. Apud INCONTRI, 2001, p. 250). não contribuía com a divulgação do espiritismo, missão primeira da entidade, acabando com o que foi uma das mais avançadas e inovadoras práticas educacionais do país. 41 Como pudemos perceber a prática de Ney Lobo, fundamentada pedagogia da cooperação, da ação e da caridade, é repleta de referências aos princípios do Espiritismo, bem como da herança pedagógica de Rousseau, Pestalozzi, Kardec e Eurípedes Barsanulfo. Ela constitui exemplo para a proposta pedagógica da Pedagogia Espírita, sendo considerada, pelos defensores dessa idéia, como sendo em si, uma prática bem sucedida dessa teoria pedagógica. 3.2 – As Idéias A Pedagogia Espírita está, segundo seus teóricos, inserida num continum, que tem Sócrates e Platão num extremo e as práticas de educadores espíritas brasileiros no outro. Como vemos em Incontri, seus princípios e desdobramentos “brotam da maiêutica de Sócrates, da mensagem do Cristo, das contribuições de Comenius, Rousseau e Pestalozzi, solidificam-se com Kardec e florescem no Brasil com Eurípedes e Anália, Ney Lobo e Herculano (INCONTRI, 2001, p.281)”. Todos esses estendidos a partir do paradigma do espírito, em que essa Pedagogia está fundada. Suas idéias emergem das obras básicas espíritas e das práticas educacionais que já vimos, assim como da própria releitura, a partir desse novo paradigma, da obra dos grandes pensadores da educação, já citados. Mas essencialmente dos fundamentos e princípios espíritas, encontrados ao longo das obras básicas da codificação Kardequiana e dos doze volumes da Revista Espírita, publicada mensalmente durante doze anos pela Sociedade de Estudos Espíritas de Paris, na qual Kardec falava de temas atuais da época, se 42 correspondia com correligionários e apresentava os resultados de suas pesquisas. Dora incontri em sua tese de doutorado sobre a Pedagogia Espírita extrai da obra Kardequiana os fundamentos e princípios dessa pedagogia, apresentando de forma sintética o conjunto da cosmovisão espírita, que segundo ela, tem na educação, a justificativa, o processo e o fim da vida humana. A seguir apresentaremos os principais fundamentos e princípios da Pedagogia Espírita, a fim de buscar as respostas das perguntas postas no início desse trabalho. Vejamos então primeiro os fundamentos e depois os princípios, mantendo a divisão que a autora fez. O primeiro e considerado o mais original de todos os fundamentos, que caracterizaria a Pedagogia Espírita como uma proposta revolucionária, segundo seus adeptos é o entendimento do ser humano como um ser interexistente. Esse termo foi cunhado por Herculano Pires, a fim de sintetizar a visão Espírita de homem. Dizia ele: “A concepção espírita de homem nos mostra o ser na existência com duas formas corporais e dois destinos interrelacionados. O corpo físico é o seu instrumento de vivência terrena, mas o corpo espiritual é o seu organismo etéreo de que deve servir-se na continuidade superexistencial dessa vivência (PIRES, 1990, p. 114)”. (...) A criatura humana, mesmo nesta existência, não está sujeita apenas ao plano existencial terreno. Ela existe no aqui e no agora, mas traz consigo a mente de profundidade que liga à existência espiritual de que provém. (...), Vivemos entre duas existências e não apenas numa, como supões a ilusão materialista. Não somos apenas o existente na concepção existencialista, como o interexistente da concepção espírita. (Ibidem, p. 117). Essa concepção de interexistência está, como pudemos perceber em nosso estudo, ligada fundamentalmente à idéia de Reencarnação. Isso significa entender o homem, não apenas como existente na dimensão espiritual e 43 material, no aqui e no agora, mas também considerar sua existência espiritual anterior a essa vida, e, sobretudo as sucessivas existências que teve no seu passado milenar. Incontri diz: “(...) o ser existe além das dimensões físicas e visíveis, porque se expande em espírito no tempo e no espaço. No tempo, porque em seu íntimo carrega um passado histórico denso a se manifestar em lembranças, intuições, tendências, impulsos, conhecimentos inatos, experiências já adquiridas. No espaço, porque está em permanente contato extrasensorial com outros seres, capta outras dimensões, através de sonhos, visões, mensagens telepáticas e comunicações explícitas e diretas.” (INCONTRI, 2001, p. 282) Segundo Incontri, como o devido entendimento da sua interexistência, o homem teria melhores condições de realizar as suas potencialidades. Porém alerta que, na visão espírita, essa compreensão, não é conseqüência de uma revelação divina, salvacionista, ou resultado de técnicas específicas para adquirir dons mediúnicos. Ela “passa pela racionalidade (...), é fruto maduro de reflexão racional, experimentação pessoal e esforço de evolução”. (ibidem, p.23). A visão espírita sobre o educando está intimamente ligada ao entendimento do homem como ser interexistente. A idéia de criança da Pedagogia Espírita, não é diferente, porém merece destaque por ser a ela atribuída destacada importância. A criança, “é um ser inteiro e livre, interexistente que se manifesta em corpo frágil, para retomar as experiências do mundo em moldes diversos dos que já experimentou no passado, e poder integrar essa nova personalidade em formação às múltiplas já vividas, que constituem o seu eu original”.(Ibidem, p. 284). Na sua Interexistência, ela é submetida às influências da hereditariedade, do meio sóciocultural e das limitações psíquicas e das que o corpo físico impõe ao espírito. Essas influências, segundo o espiritismo, foram aceitas e 44 escolhidas livremente pelo espírito antes da sua reencarnação, para contribuir no seu processo educativo na existência. A sua reencarnação, de acordo com a bibliografia espírita se justifica pela necessidade de o espírito auto-educar-se permanentemente, com vistas a atingir a perfeição. A Pedagogia Espírita faz, fazendo jus a sua origem Rousseauniana, considera a criança essencialmente boa, pois tem em si o germe da perfeição. Considera ainda a infância um “estado de permeabilidade psíquica e moral”, em que a criança é ávida por aprender e agir, por expandir-se em energia e afetividade. (INCONTRI, 2001). A terra, na concepção espírita é a morada temporária de espíritos que estão, para usar a terminologia espírita, encarnados. Ela é apenas um, dentre infinitos mundos no universo, que servem, como a Terra, de escola e laboratório, onde durante sucessivas vidas os Espíritos aprendem através de experiências, na existência material e se aperfeiçoam. O entendimento dos defensores da Pedagogia Espírita sobre a Educação é que essa conciste em “processo permanente de aperfeiçoamento do Espírito, é o despertar de suas potencialidades, a realização gradativa de sua divindade e não apenas numa dada existências, mas eternidade afora”. (Ibidem, p. 287). Ela é considerada o sentido mesmo da existência e deve: promover a vida interexistente; promover a responsabilidade do educando de auto-educar-se; conquistar a adesão do educando para sua própria educação; deve ainda, evitar a estagnação, a apatia, o adormecimento da vontade. (Idem) Na mesma linha de pensamento, o educador também é ressignificado. Ocupa uma centralidade no processo educativo proposto pela Pedagogia Espírita, no entanto divide essa centralidade com o educando que deve ter 45 papel ativo e protagonista em sua auto-educação e na educação coletiva. O papel do educador para essa pedagogia é de mobilização, motivação da vontade de evolução desse educando. “É o que observa atentamente, amando com intensidade, o ser-educando, e descobre como atingir o seu âmago, para tocar sua essência divina e deflagrar o processo de auto-educação”. (ibidem, p. 288). São funções do educador, segundo a Pedagogia Espírita: captar o educando em suas heranças passadas, suas promessas futuras e suas relações espirituais presentes; orientar e influenciar, sem jamais ferir a liberdade do educando; Deve, ele mesmo, estar imerso num intenso processo de auto-educação, para poder empolgar o educando com seu exemplo. (INCONTRI, 2001). Podemos perceber, nesse conjunto teórico, apresentado como fundamentos da Pedagogia Espírita, uma série de pilares de outras propostas educacionais. Como o amor Pedagógico de Pestalozzi ou a essência boa da criança e a educação natural de Rousseau, o que demonstra a assunção de uma ligação desses pensadores/educadores com a pedagogia tratada aqui, por parte dos seus teóricos. Os princípios da Pedagogia Espírita são o amor, a liberdade, igualdade na singularidade, a naturalidade, a ação e a educação integral. A seguir apresentaremos cada um sucintamente, para continuar nosso objetivo de caracterizar essa teoria. O amor é o primeiro e máximo princípio. Incontri, em sua exposição sobre o tema, alerta para o desvirtuamento do conceito. Define-o pela eleição do que ele não poderia ser. Segundo a jornalista e educadora, teórica da 46 Pedagogia Espírita o amor não possui, não domina o outro, não fere, não se acomoda com o poder e a injustiça, não é chantagista. O amor proposto aqui deve permear todas as relações educativas, entre educadores e educandos. Deve ser entendido como doação e empenho do primeiro em benefício do segundo, com o objetivo de mobilizar o educando na busca de sua autoeducação. Para isso, ele deve repudiar qualquer tipo de violência ou ato de punição, deve ser ativo e corajoso para conquistar o educando para o projeto proposto de auto-educação. A liberdade é a conseqüência do amor. Não pode ser apenas a assunção racional de um direito somente, deve ser fundado, para os teóricos dessa idéia, nos laços da fraternidade. “A obediência à autoridade constituída deve ser substituída pela anuência consciente e espontânea, que o educador deve aprender a conquistar amorosamente, quando, e apenas quando, se tratar do bem do próprio educando. Mas, em última instância, o ato pedagógico é sempre uma oferta, um convite, uma possibilidade que o educando tem a liberdade de aceitar ou recusar”. (INCONTRI, 2001, p. 290). O princípio da igualdade com singularidade vai nos dizer que todos os seres humanos são iguais, têm os mesmos direitos e deveres, têm a mesma natureza, espiritual, biológica e social. Contudo, são também essencialmente diferentes, pois cada um se encontra num estágio na escala da evolução espiritual, têm experiências diferenciadas nesta vida e ainda estão inseridos em contextos socioculturais diversos. Ao assumi-lo, a Pedagogia Espírita propõe, coerente com Kardec, a abolição de qualquer hierarquia e competição entre os indivíduos. Também afirma não aceitar gurus e mestres a serem reverenciados. “(...) a Pedagogia Espírita é igualitária no sentido de tratar todos os seres humanos no mesmo diapasão de respeito, 47 fraternidade e compreensão. Mas deve reconhecer e descobrir as riquezas de cada ser singular e incentivá-las, socializá-las, observando da mesma forma as imperfeições de cada um para trabalhá-las”. (Ibidem, p. 291). O princípio da naturalidade nos mostra que essa proposta pedagógica compreende que o universo se compõe, todo ele, de uma só natureza divina. Que o mundo espiritual é tão natural quanto o físico, “lados da mesma moeda”. Assume-se que há uma natureza humana que engloba o aspecto social, biológico e espiritual do homem. Há uma natureza da criança, que a Pedagogia Espírita propõe aos educadores compreendê-la para melhor auxiliá-los na sua auto-educação. O conhecimento dessa naturalidade do ser humano e do universo permite, segundo os espíritas, respeitar o fluxo harmônico das coisas, dos seres. “Assim como para se colher o fruto de uma árvore, é preciso semeá-la, adubá-la e conservá-la segundo a natureza, para se colher a luz humana, é preciso educar o ser interexistente, em obediência a todas as leis naturais — físicas e morais — que regem o seu desenvolvimento. Essas leis, porém, não são rígidas e lineares, mas flexíveis e orgânicas, porque a maior de todas elas é a lei do amor e onde há amor, há criatividade, expansão, espontaneidade”. (Ibidem, 292). É a partir da ação no mundo que o Espírito de desenvolve. Baseado nessa compreensão a Pedagogia Espírita se propõe eminentemente ativa, propõe o aprendizado através da ação livre. “A ação em si – traduzindo-se em atividades sociais, em produções estéticas, intelectuais e manuais – põe em uso as potencialidades humanas, que só podem ser trazidas à tona e aperfeiçoadas pelo exercício”. (ibidem, 293). O último princípio coroa todos os demais. A educação intergral, que somente é possível para os espíritas se balizada pelos demais princípios, 48 esses ancorados nos fundamentos da Pedagogia Espírita, que já apresentamos. A educação integral é entendida como a busca do equilíbrio entre a moralidade e a inteligência, num processo educativo que trabalhe simultaneamente diversas potencialidades e faculdades do ser humano. Nela, é preciso observar quais as vocações da criança e do jovem, para incentivar o uso ético de suas inteligências. Uma educação integral, para a Pedagogia Espírita deve desenvolver-se numa proposta global, que trabalhe a educação dos setores, afetivo, estético, intelectual, religioso, sexual, físico e mediúnico. Esse último, pudemos perceber, constitui uma originalidade destacável do arcabouço pedagógico espírita, uma vez que os demais setores podem ser encontrados nas propostas de Pestalozzi, Froebel, Comenius, Rousseau. Trata-se, segundo Incontri, do setor destinado à educação para a vivência consciente da interexistência, fundamento primeiro da Pedagogia Espírita que já apresentamos aqui. 3.3 – A Práxis A Educação Espírita, como pudemos ver, emerge do escopo teórico do Espiritismo, contudo, foi na aplicação prática desses princípios que surgiu, a Pedagogia Espírita, considerada pelos seus intelectuais como uma contribuição filosófica originalmente brasileira. Incontri, a partir da análise dessas práticas educativas, empreitadas por educadores espíritas, organiza em sua pesquisa de doutoramento, um conjunto de eixos práticos dessa teoria da educação. Todavia, é imperioso alertar que na bibliografia considerada de referência dessa pedagogia, na encontramos alusão a um método espírita de educação, 49 pelo contrário, a pedagogia espírita assume que cada escola espírita deve se constituir de acordo com sua comunidade (por isso diferentes entre si), respeitando o arcabouço teórico-filosófico do espiritismo. “A proposta é mesmo a de considerar as circunstâncias socioculturais locais onde a escola vá se instalar e ainda de se invocar a participação ativa e criativa dos membros da comunidade escolar, o que implicará necessariamente em modelos diferenciados.”(INCONTRI, 2001, p. 295). Dando continuidade a tarefa proposta nesse estudo, apresentaremos os eixos que segundo Incontri, caracterizam, no seu conjunto, a práxis da Pedagogia Espírita. São eles: A escola livre e afetiva, atividades éticas, produções estéticas, produções intelectuais, abolição dos castigos e recompensas, cultivo da espiritualidade, autogestão administrativa, co-gestão pedagógica, compromisso social e escola universal. A escola livre e afetiva baseia-se nos fundamentos do amor e da liberdade, já expostos nesse trabalho, e é ao mesmo tempo, uma proposta e uma crítica ao modelo escolar dos nossos dias. A pedagogia espírita é contundente em sua crítica a mercantilização da educação, à burocracia, competição incentivada e conseqüente exclusão produzida pelo sistema escolar homogeneizante que o sistema capitalista se utiliza, dentre outras coisas, para produzir a sociedade neoliberal em que vivemos. Herculano Pires afirmou nos idos de 1970, em meio ao movimento pela educação espírita, que organizou três congressos e publicou uma revista: “A exploração comercial da educação é um mal cujas conseqüências sociais ainda não podemos avaliar”. (PIRES, 1990, p. 130). Dora Incontri defende que deverá ocorrer uma transformação radical da escola: 50 “A obrigatoriedade, o formalismo, a burocratização do ensino, as relações hierárquicas — tudo isso fica abolido e a escola deve renascer livre e amorosa. Os currículos fixos, as programações rígidas, os resultados homogeneizantes, a educação em massa, em que todos são coagidos às mesmas atividades, ao mesmo tempo, com idênticos resultados — tudo isso deverá desaparecer. O ambiente escolar deve ser transmudado.” (INCONTRI, 2001, p. 295). A autora propõe, dentre outras coisas, fortemente influenciada pelas experiências de Ney Lobo, no Lins de Vasconcelos e de Eurípedes Barsanulfo, no colégio Allan Kardec, que a rigidez dos currículos, as salas tradicionais, e as atividades impostas e sem sentido não têm espaço na escola livre e afetiva. A arquitetura deverá ser pensada para estimular o gosto estético e harmonizar a mente ao coração. (Idem). A comunidade escolar deve estar altamente envolvida, dentro e fora da escola, em ações éticas. Sempre orientadas e planejadas pelos educandos, sob os auspícios dos educadores. Tais ações pertencentes ao eixo atividades éticas, proposto por Incontri, deve despertar no educando a preocupação solidária com o outro, fazendo britar, na prática, não só o sentimento ou a racionalização da justiça e solidariedade, mas a ação pautada por esses valores. Uma das propostas práticas da Pedagogia Espírita é que sejam disponibilizadas aos educandos as mais belas produções estéticas que a humanidade já produziu. Essa proposição parte da idéia de que a arte “é uma forma de manifestação existencial do Espírito” (INCONTRI, 2003, p.175). Isso significa que, para os intelectuais espíritas adeptos da pedagogia que ora estudamos, a arte não é um dom inato de algum privilegiado, o artista, ou ainda somente pinturas, esculturas poesia e música, cinema, etc. Arte é a expressão cotidiana do homem e faz parte da integralidade do ser na interexistência. A 51 preocupação estética, da educação incentiva o educando na busca pela perfeição em todas as coisas, “Amor, Sabedoria e Beleza são aspectos inseparáveis da perfeição”. (Idem). Dessa forma contribui, a educação estética para o fim último da educação espírita. De modo geral a Pedagogia Espírita propõe que “elementos estéticos estejam presentes no meio ambiente e no conteúdo da educação”.(Ibidem, p.176), pois a arte tem uma função indutiva, podendo estimular ao aprendizado e à convivência elevada, ou ainda à melancolia e ao pessimismo depressivo. Para eleição de conteúdos estéticos que contribuam para o bom convite à autoeducação, Incontri sugere: “Nesta escolha do melhor, não adianta nos apegarmos aos rótulos. Não se trata, por exemplo, de oferecer apenas música erudita e jamais a música popular. Há muita boa música popular e muita música erudita sombria...” (p. 177). Não se trata de proibição de certas produções, mas de apelo ao espírito crítico dos educadores e dos educandos. Especificamente, essa pedagogia propõe que se deve estimular a criatividade, incentivar a produção artística, inclusive dotando o educando de certas técnicas específicas dessa ou daquela arte, de acordo com o interesse de tendências dos educandos, mas nunca valorizando a técnica em detrimento da criatividade, que “(...) trabalhada pela educação estética não servirá apenas para a execução de obras de Arte. Desenvolverá a capacidade criativa do indivíduo inteiro, que poderá estende-la a qualquer atividade intelectual, manual ou moral”. (Ibidem, p. 178). A educação estética é ainda defendida, por Dora Incontri, em seu livro A educação segundo o espiritismo (Comenius, 2003), como uma espécie de “luta e resistência cultural” ao processo de massificação mercantilizadora da arte, 52 que bombardeia nossos sentidos todos os dias, com os produtos do mercadão de sucessos musicais, de best seller da auto-ajuda (inclusive no promissor mercado editorial espírita) e de produções cinematográficas com violência e terror gratuitos. No que diz respeito às produções intelectuais a Pedagogia Espírita propõe que a escola seja uma universidade em miniatura, incentivando a reflexão crítica, o espírito científico e todo o tipo de produção intelectual. Nesse sentido, não há espaço para a rigidez das disciplinas e dos conteúdos predeterminados. O conteúdo a ser estudado deve partir do interesse dos alunos ou ainda de necessidades reais, para aplicação prática. “O que se deve evitar é a abstração ininteligível, a memorização vazia, o ensino mecanicista de conceitos inaplicáveis na vida comum” (INCONTRI, 2001, p. 298). A abolição de castigos e recompensas é um imperativo quando se fala de uma educação baseada na liberdade, na solidariedade e no amor. A autora propõe que a escola deve abolir, regimentalmente, qualquer subterfúgio punitivo premiações de toda sorte, inclusive as notas, a exemplo do que fez Barsanulfo em Sacramento. “As avaliações serão feitas na base das produções de cada um e nunca de forma numérica, quantitativa, mas de maneira descritiva, qualitativa, para melhorar o trabalho, encarando-se erros e problemas como naturais da aprendizagem. Em parceria com o educador, o aluno fará sua autoavaliação, apontando aquele os aspectos que devem ser aperfeiçoados e informando este as suas dúvidas e dificuldades”. (Ibidem, 299). A pedagogia espírita propõe ainda que todos os problemas da escola sejam resolvidos ou que as soluções sejam buscadas com base no diálogo. Conversas entre educadores e educandos devem ser constantes, assim como 53 assembléias gerais para discutir os comportamentos de grupos e as necessidades para melhor convivência, bem como para a gestão da escola. Como forma de superar essa educação de resultados condicionadora que temos atualmente a autora propõe o diálogo. Na esteira dessa proposta, de uma escola renovada, emerge a necessidade também de novas formas administrativas para a instituição escolar. A proposta apresentada pelos teóricos da pedagogia que destacamos como objeto desse estudo, é a da autogestão administrativa. Todavia, embora a proposta seja feita claramente, Incontri não passa nenhum receituário. Apenas defende a idéia de que as esferas administrativas e pedagógicas estejam atreladas e por isso a administração da escola espírita não deva ferir nenhum dos fundamentos que a caracteriza como tal. E em coerência ao princípio da escola livre e afetiva, deixa para as comunidades resolverem essa questão, da melhor forma que lhes couber, somente alertando que a relação patrão-empregado deve ser abolida e que uma escola espírita não deve ter o lucro como objetivo: “O importante é manter os princípios de liberdade e igualdade, onde todos os que participem da comunidade escolar possam ser ouvidos, tomem parte em decisões que os afetem diretamente e tenham acesso à visão geral da administração da escola”. (Ibidem, p. 303). Outra proposta, a co-gestão pedagógica, caracteriza-se pela disponibilização para toda a comunidade escolar, de todos os conhecimentos que cada um, partícipe dessa comunidade, possui. Isso significa que pais, alunos e funcionários, poderão sugerir grupos de estudos, laboratórios, projetos de pesquisas e praticar a liberdade de ensinar e aprender. 54 Por fim o compromisso social da comunidade escolar é a responsabilidade de a escola estar inserida na realidade que a cerca, devendo, manter diálogo com as instituições locais. A escola social deve ainda, segundo Incontri, incentivar seus membros (pais alunos, docentes e técnicoadministrativos) a militarem em causas que envolvam o bem coletivo, como campanhas fraternas e de defesa de direitos. “A escola social “(...) é aquela que o educando toma consciência na prática, dos problemas de seu meio e das suas possibilidade de atuação efetiva”(Ibidem, p. 305) para a transformação. A Pedagogia espírita propõe um novo olhar para o ser humano, de cidadão, radicado numa localidade e numa nação, passa o ser humano a ser encarado como um cidadão do universo. Esse conceito vai além de qualquer teoria internacionalista, pois segundo o espiritismo, há uma multiplicidade de mundos habitados por espíritos, em todo o universo. O eixo escola universal trata especificamente desses dois aspectos da escola espírita. O primeiro é que ela deve manter contato com outras culturas no planeta terra, vivenciando a proposta de tolerância étnica e religiosa dessa pedagogia espírita. O ensino de línguas ganharia o sentido de aproximar diferentes povos, e de aprender o que há de positivo em suas culturas, ao invés de ser exclusivamente utilizado como “valor agregado” ao curriculum do trabalhador especializado, entendimento que somente aprofunda a desigualdade social capitalista, pois a escola para o povo raramente proporciona um ensino satisfatório, tornando a aquisição de uma segunda língua privilégio de poucos. Também nessa perspectiva de cidadão do cosmos, o ensino de astronomia, proposto por Barsanulfo e por Novelino, influenciados por Camille Flamarion ganha força e materialidade, mostrando a responsabilidade em pacifica-lo, pois o ser 55 humano, no entendimento espírita, independente de qualquer contexto étnico, racial, sóciocultural e de gênero, faz parte de uma mesma família estelar. Como pudemos perceber, e tentamos demonstrar nesse trabalho a Pedagogia Espírita este inserida na tradição filosófica espiritualista, que remonta a Sócrates e Platão. Como tal não pode deixar de trabalhar com entendimentos e propostas que considerem uma realidade transcendente do ser humano. No caso da pedagogia espírita ela trabalha com o entendimento de que o homem é um espírito reencarnado, e isso, como já vimos anteriormente, reconfigura toda sua proposta pedagógica, fazendo parecer de certa forma anacrônica. Contudo, é bom lembrar, até por questão de honestidade intelectual, que a pedagogia espírita não trabalha com a idéia de que a tradição filosófica espiritualista esteja superada. Pelo contrário, trabalha com a idéia de que ela tem sido sistematicamente silenciada, como tentamos demonstrar na introdução ao nosso texto. Dessa forma o cultivo a espiritualidade, ganha lugar de destaque práxis pedagógica espírita, pois ela faz, segundo seu entendimento, parte da realidade interexistente do ser humano, e não pode ser negada, sob o prejuízo de realizar uma educação parcial, e não integral, que é sua intenção. Especificamente nesse eixo propõe que: “(...) toda prática pedagógica espírita deve estar impregnada de intensa espiritualidade, entendendo-se que não se trata aí de fanatismo religioso e nem de dogmatismo específico. Ao mesmo tempo em que se deve oferecer aos alunos, o conhecimento de todas as religiões, com suas práticas e filosofias, de forma imparcial e precisa (e para isso podem ser trazidos os representantes de cada uma ou os próprios alunosadeptos podem fazer suas intervenções, mostrando aos outros a sua fé), deve-se cultivar uma religiosidade genérica. Orações em conjunto; leituras de textos religiosos de diferentes correntes (que não ofendam as outras presentes), discussões sobre religiões comparadas e filosofia espiritualista — tudo isso deve lançar o aluno na dimensão do espiritual, fazendo-o 56 compreender que se trata de uma dimensão humana, natural e universal, necessária ao pleno desabrochar do homem”. (Ibidem, p. 300). 57 CONSIDERAÇÕES FINAIS Bogdan Suchodolski (1992), filósofo e pedagogo polonês propôs em seu livro A Pedagogia e as Grandes Correntes Filosóficas (Livros Horizonte, 1992) a divisão das correntes pedagógicas em dois grandes grupos, o das Pedagogias da Essência e o das Pedagogias da Existência. Essa divisão, entre essência e existência, entendida pelo polonês como conflito fundamental do pensamento pedagógico, é decorrente da oposição histórica na filosofia, entre as Filosofias da Essência e as Filosofias da Existência. A querele entre as Pedagogias da Essência e as Pedagogias da Existência, tem sua origem no renascimento, quando uma série de transformações sociais, políticas e intelectuais tornam-se fontes de novas concepções de homem e colocam em cheque o monopólio da cosmovisão religiosa tradicional e sua autoridade em ditar as normas da atividade humana. (SUCHOLDOLSKI, 1992). As Pedagogias da Essência, abstraindo-se aqui, a sua diversidade (que foi riquíssima) e o papel histórico desempenhado por cada uma delas, por não caber nesse espaço uma reflexão mais demorada sobre o assunto. Constituíam-se fundamentalmente por postularem que o ser humano possui uma essência, que vai além da experiência empírica, e que a educação tem como referência essa essência, devendo atuar para que o homem se aproprie na existência de sua essência verdadeira e também para destruir o que pode corrompê-lo, é em suma uma educação voltada para um homem idealizado. Elas encontram sua origem em Platão, passando por todas as pedagogias religiosas, protestantes e católicas, pela Educação Natural de Comenius e Locke e pela originalidade idealista de Kant, Fichte, Hegel, até chegar nas 58 tentativas de existencialização da Pedagogia da Essência no século XIX. (Idem) As Pedagogias da existência deu seus primeiros passos no século XVII, sob a predominância das diversas formas da concepção da pedagogia da essência. Conciste, fundamentalmente na negação da essência, defendendo que o homem e a vida humana estão limitados às experiências empíricas. Remonta aos estudos de fim da vida de Comenius, que proporcionaram o entendimento de considerar a criança viva e espontânea. Contudo foi, segundo Suchodolski, Rousseau o primeiro que se lançou radicalmente em oposição à pedagogia da essência e à criação de perspectivas para a construção de uma pedagogia da existência. Pestalozzi e Froebel (1782-1852) são considerados seguidores de seu pensamento, defendendo a máxima de que a educação deve realizar-se a partir da própria vida da criança. (Idem) Para o filósofo e pedagogo polonês as tendências opositoras da pedagogia da essência ainda estavam numa fase incipiente, “marcadas ainda por um cunho de generalidade e homogeneidade (Ibidem, p. 57)”. Foi somente no século XIX que teve início um processo de diferenciação da pedagogia da existência, dado pelo conjunto das obras, de Kierkegaard, Stiner e Nietzsche, cada qual com sua especificidade e diferenças. Também as teorias da evolução de Darwin, Spencer e Bérgson, mais uma vez guardada as especificidades, contribuíram para a constituição dessa grande corrente do pensamento pedagógico (Idem). Na perspectiva de solucionar o conflito entre essas duas grandes correntes do pensamento pedagógico, Suchodolski encontra os esforços da educação nova, das pedagogias do grupo social e da cultura e das pedagogias 59 metafísicas. A primeira, partindo da criança/indivíduo como sujeito da sua educação esbarra no conflito entre a utopia da pedagogia do desenvolvimento e do conformismo da pedagogia da adaptação. As segundas, igualmente, mas por caminhos diferentes, reeditam esse mesmo conflito. Suchodolski afirma ao final da análise que empreitou sobre essas pedagogias: “O problema do conflito entre o desenvolvimento do caráter humano universal da criança e o âmbito real de sua vida mantinha-se sem solução”. (Ibidem, p. 117). A terceira corrente, em oposição à educação nova e às pedagogias do grupo social e da cultura, por considera-las insuficientes, afirma que era preciso concentrar a educação no nível metafísico do homem ao invés de “tomar como ponto de partida o curso presente da vida do indivíduo” ou ainda as “exigências da história social ou da cultura”. (p. 119), configurando-se como uma moderna pedagogia da essência, enquanto as outras estariam no âmbito das pedagogias da existência. O conflito ainda era eminente. Para Bogdan Suchodolski, as tentativas de união entre as pedagogias da essência e da existência, na perspectiva de superar o moderno conflito entre essas – “Unir educação e vida de modo que não seja necessário um ideal, ou definir um ideal tal que a vida real não seja necessária”. (p. 123) – davam uma força perigosa às tais tendências, por terem atingido ganhado certa força com as correntes nacionalistas de vários países, inclusive o fascismo e o hitlerianismo. Considerando que essas duas correntes seculares do pensamento pedagógico, traíram seus princípios fundamentais – a pedagogia da existência: a defesa do desenvolvimento livre do homem; a pedagogia da Essência: uma educação baseada em valores universais e permanentes – porque acabaram 60 por reforçar a noção de que “as contradições que se manifestavam não provinham das más relações sociais” e sim de uma noção errada dos direitos do indivíduo e da sociedade, o que implicava em “(...) transformar, não as relações sociais, mas a maneira de conceber a existência individual e o ideal, causas dessas contradições”. (Ibidem, p. 126). Daí o filósofo afirma: “A pedagogia devia ser simultaneamente pedagogia da existência e da essência, mas esta síntese exige certas condições que a sociedade burguesa não preenche, exige também que se criem perspectivas determinadas de elevação da vida quotidiana acima do nível actual. O ideal não deve nem sancionar a vida actual, nem deve tomar uma forma totalmente alheia a essa vida”(Ibidem, p. 127) Suchodolski propõe a educação virada para o futuro como único caminho para a resolução da antinomia do pensamento pedagógico moderno. O autor caracteriza essa pedagogia, numa perspectiva de um sistema social à escala humana, como uma tendência pedagógica que não aceita o estado de coisas existentes e que atue para transforma esse estado de coisas. Deve ser crítica ao presente e acelerar a construção do novo. “Uma tal crítica pressupõe um ideal que ultrapasse o presente; neste sentido, a educação virada para o futuro integra-se na grande corrente pedagógica que designamos por pedagogia da essência. Trata-se contudo de uma simples afinidade pois tem profundas divergências, constituindo a diferença essencial no facto de este ideal se caracterizar por uma diretriz de acção no presente, ação que deve transformar a realidade social de acordo com as exigências humanas. Na medida em que o ideal que inspira a crítica da realidade deve representar uma directriz para a acção no presente tem de organizar as forças actuais e deve encorajar o homem a fazer uma opção no momento actual. A educação orientada para o futuro ligase neste sentido à segunda grande corrente do pensamento pedagógico, à pedagogia da existência. Todavia, também aqui não encontramos senão uma afinidade; a diferença essencial consiste em que, nesta concepção da educação, a vida é o aspecto presente da edificação do futuro”. (SUCHODOLSKI, 1992, p. 129)25. 25 Grifos meus. 61 Perceba que os trechos grifados encontram certa similaridade com as propostas da pedagogia espírita, como, por exemplo, o entendimento de que a educação tem como objetivo a transcendência do espírito, mas propões uma ação na existência, considerando a vida presente como pilares da edificação do futuro (PIRES, 1990). Sua origem deriva das tendências que não aceitam o princípio da adaptação ao presente como se fosse o ponto de partida fundamental da educação e a inda daqueles que entendiam a crítica do presente como um “apelo para melhora-lo” e não um convite para evadir-se dele. Propõe ainda que a educação tradicional deve ser abandonada, pois estariam completamente anacrônicas em relação à nova realidade social e econômica. A formação social, no sentido que cada cidadão se torna responsável pela democracia, tem posição de destaque nessa pedagogia proposta pelo polonês. A educação moral, como educação da vida cotidiana em situações sociais concretas, também ganha destaque. Não cabe aqui o alongamento na análise da pedagogia de Suchodolski, apenas nos interessa o alinhavamento desta, a fim de poder refletir sobre a questão da superação do conflito das pedagogias. Se fizermos um exercício de abstração dos princípios espiritualistas da pedagogia espírita e dos princípios marxianos da pedagogia do filósofo polonês vamos encontrar, como já apontamos, uma série de conjunções, tanto do ponto de vista da crítica aos sistemas educativos burgueses, da perspectiva de futuro e da crítica à sociedade presente, como do ponto de vista dos fundamentos práticos de uma e de outra. 62 A preocupação com a educação cotidiana, que busca ensinar ao homem compreender o próximo e prestar atenção ética a este, encontra similaridade com o princípio da educação ética da Pedagogia Espírita. Ambas buscam romper com a moral superficial e externa dos códigos de conduta e atuam na perspectiva de uma moral que brote do interior do ser humano. Vejamos o que Suchodolski diz: “(...) a educação moral deve fundamentar-se na educação sistemática do homem desde sua mais tenra infância, numa educação que desenvolva e crie ‘este impulso do coração’ imperceptível, de que fala a psicanálise com tanta parcialidade e erro, mas que é todavia um dos mais importantes fundamentos da dignidade humana que se opõe ao fascínio de uma má conduta”. (Ibidem, p. 133). Também a preocupação com a educação social do polonês pode ser encontrada na proposição da escola social da pedagogia espírita, ou ainda nas propostas de autogestão administrativa e co-gestão pedagógica. É claro que quando falamos de conceitos como esses na educação não podemos nos dar ao luxo, como fazem alguns teóricos materialistas, quando se apropriam de pedagogias surgidas no âmbito de uma visão espiritualista de mundo que trabalham com essas como se os tais fundamentos não fossem relevantes. Poderia eu, ou qualquer outro pesquisador, fazer isso com a pedagogia proposta por Suchodolski, desconsiderar seu contexto ideológico histórico e social? É claro que não. A nossa discussão e as comparações feitas entre as pedagogias espírita e “do futuro” têm aqui o intuito de problematizar o monopólio da segunda na busca bem sucedida pela superação do conflito secular exposto na obra de Bogdan Suchodolski. A Educação Espírita propõe o conceito de ser interexistente, e a partir dele estabelece a sua Pedagogia. Poderia ser esse novo entendimento, uma 63 superação do conflito entre as pedagogias? Como pudemos ver, se considerarmos as mesmas categorias que Suchodolski, de educação na existência com vistas no o futuro, de crítica ao presente e de perspectiva social, poderíamos dizer que a pedagogia espírita inaugura uma nova solução para o conflito secular entre as pedagogias da essência e da existência? Ao meu modo de ver essa hipótese não poderia, de maneira alguma, ser refutada de forma simplista pelos materialistas, muito menos ser afirmada rapidamente pelos adeptos da pedagogia espírita. Será preciso debruçar melhor tanto sobre a pedagogia espírita, que se reivindica herdeira do legado de Comenius, Rousseau e Pestalozzi, bem como sobre a pedagogia histórico-crítica, vertente que se fundamenta nas idéias de Suchodolski e tem se dedicado à superação do conflito sob perspectiva marxista. Esse trabalho teve por objetivo, dar voz à pedagogia espírita e seus autores, com o intuito de proporcionar uma reflexão mais profunda sobre as concepções filosóficas e educacionais que permeiam as pedagogias. No que diz respeito às perguntas norteadoras do nosso estudo, cremos ter respondido com satisfação, durante todo o trabalho, as três primeiras, que versavam sobre o conceito, as concepções de homem/criança e as origens da pedagogia espírita. A última “Quais perspectivas podemos esperar, se aplicadas as suas propostas?”, creio ser um tanto quanto precipitado reponde-la de forma definitiva. O que temos são as experiências do passado, que foram bem sucedidas e com certeza contribuíram para a construção de um mundo mais justo e igualitário, assim como diversas práticas pedagógicas progressistas que pipocaram no Brasil durante o século XX. A originalidade da Pedagogia Espírita está justamente em considerar a transcendência humana de forma não 64 alienada da existência, “do aqui e do agora”. É certo que suas propostas têm mais condição de ser desenvolvidas junto a instituições de educação infantil e, sobretudo no campo da educação não-formal (Ong’s), pois as suas teorias estão em campo mais avançado do que a escola fundamental e média, essa ainda muito arraigada ao ensino tradicional e à escola burguesa, enquanto a educação infantil e a educação não-formal assumem teoricamente suas práticas como transformadoras dessa realidade. Outra questão muito cara nessa discussão pé a laicidade da escola publica. Embora Herculano Pires defenda que esse princípio deva estar presente na pedagogia espírita, pois trata da religião, como parte do conhecimento humano e de forma interdisciplinar e não doutrinadora, esse é um terreno complexo que os teóricos da pedagogia espírita deverão enfrentar, sob pena de relegarem-se ao limbo das escolas confessionais. Por fim, ficam as questões, dentre outras: A pedagogia Espírita supera o conflito secular entre a pedagogia da essência e a pedagogia da existência? Que relação teria essa teoria pedagógica com a escola pública? É possível a laicidade numa pedagogia que se admite cristã? O que tem levado o movimento espírita institucional a fechar escolas e institutos espíritas de educação, aparentemente de forma arbitrária? 65 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. Lisboa, Editorial Presença, 1984. ANDERSON, P. As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro. 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Campinas/SP 2006 2 Dedicatória Dedico este trabalho aos meus dois filhos, o João Rio e o “Pacu”, esse gestado junto com o TCC, os quais merecem, como todas as crianças, um mundo mais fraterno... 3 Agradecimentos... À sociedade Paulista, à maioria trabalhadora como eu, principalmente como meus pais, que financiou meus estudos com o pagamento de caros impostos (ICMS), e não pode, apesar de dona, freqüentar a Universidade Pública. Vejo no horizonte, um mundo em que isso não mais acontecerá; Ao Prof. Dr. Silvio Ancizar Sanches Gamboa, pela orientação desse trabalho e pelo incentivo à diversidade intelectual na Universidade; À Profa. Dra Dora Incontri por participar da banca como segunda leitora, com preciosas contribuições, pelo ânimo e alegria com que me incentivou, nas nossas poucas, mas valiosas conversas; Ao Professor Alessandro Bigueto, pela amizade e pelas imprescindíveis, prazerosas e apaixonadas reflexões em meio a uma ou outra aula na Unicamp; À Profa. Dra. Sônia Giubilei, pelo seu exemplo, amizade e incentivo; Ao Will (William Chiuffa), pela leitura e correção dos erros de português; Aos meus pais, Maria Aparecida e José Ronaldo, por terem me apresentado a Doutrina Espírita ainda na infância, pelo apoio desinteressado e por terem me dado mais uma oportunidade de viver na Terra; Aos meus irmãos (Camila, Carina e Júnior), pelo companheirismo, amizade e convivência leve. Grandes parceiros de existência! Aos meus tios, Rozaura (Tia Zau) e Lúcio, sem os quais tudo seria mais difícil, algumas coisas até impossíveis; À toda minha família, os Rodrigues/Pereira (Pai) e os Santos (Mãe), que têm parte direta na minha formação, esse trabalho leva um pouco de cada um, eu levo um pouco de cada um; Aos meus companheiros (e adversários) de militância política, quantas coisas não aprendemos?! Que a chama de nossos sonhos e lutas, não se apague na dureza do cotidiano e permaneça acessa em nossos corações, mentes e mãos; Aos amigos do Centro espírita Allan Kardec de Itajubá, por despertaram em mim o interesse para o estudo da Pedagogia Espírita; À Adriana Silva, por aceitar essa parceria existencial chamada João Rio e pelo aprendizado que isso nos proporciona. Ao meu filho João Rio, por trazer felicidade e esperanças para a minha vida. E, por fim, à Kamille Vaz, companheira de todas as horas, raio de luz na minha vida. 4 “(...) nosso primeiro desejo é que todos os homens sejam educados plenamente em sua plena humanidade, não apenas um indivíduo, não alguns poucos, nem mesmo muitos, mas todos os homens, reunidos e individualmente, jovens e velhos, ricos e pobres, de nascimento elevado e humilde — numa palavra, qualquer um cujo destino é ter nascido ser humano: de forma que afinal toda a espécie humana seja educada, homens de todas as idades, todas as condições, de ambos os sexos e de todas as nações”. Comenius In: Pampaedia, 1965 5 RESUMO Esta monografia, que se constitui num trabalho de conclusão de curso da graduação em pedagogia na Unicamp, visa realizar um estudo sobre a pedagogia espírita e seus pressupostos filosóficos, dando voz à pedagogia espírita e seus autores, com o intuito de proporcionar uma reflexão mais profunda sobre as concepções filosóficas e educacionais que permeiam as pedagogias. Também é objetivo desse trabalho refletir sobre a superação do conflito secular entre as Pedagogias da Essência e as Pedagogias da Existência. Para tal utilizamos como método a pesquisa bibliográfica, analisando e refletindo sobre a bibliografia básica dessa pedagogia e sobre a obra do pedagogo polonês Bogdan Suchodolski (1903-1992), a Pedagogia e as grandes correntes filosóficas (Livros horizonte, 1992). Palavras Chave: 1. Pedagogia – Teoria 2. Educação e Espiritismo 3. Espiritismo 6 SUMÁRIO RESUMO _______________________________________________________________ 6 SUMÁRIO ______________________________________________________________ 7 APRESENTAÇÃO _______________________________________________________ 8 INTRODUÇÃO ________________________________________________________ 11 CAPÍTULO I – O CONTEXTO ___________________________________________ 14 CAPÍTULO II - DIÁLOGOS ENTRE FILOSOFIA, CIÊNCIA E RELIGIÃO ____ 26 CAPÍTULO III – A PEDAGOGIA ESPÍRITA _______________________________ 31 CONSIDERAÇÕES FINAIS______________________________________________ 58 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ______________________________________ 67 7 APRESENTAÇÃO Essa apresentação ganhou força em meio à escrita desse TCC. Com o intuito de contextualizar esse estudante que vos dirige a palavra, tanto no tema, como na própria natureza de um trabalho de conclusão de curso. Meu interesse em pesquisar a temática “Espiritismo e Educação” vem desde o início da faculdade. Aliás, cheguei à Universidade, e em meio ao deslumbramento com idéia de “fazer Unicamp”, uma possibilidade tão remota e “impossível” para um estudante mediano de uma escola pública do Sul de Minas, o que explica o deslumbre. Incentivado pela idéia de estudar a escola espírita. Porém o curso de pedagogia mostrou-me que essa era muito mais do que a escola, mostrou-me as várias facetas desta instituição, as várias faces da educação. E pude perceber ano-a-ano, no turbilhão da militância política estudantil, das leituras e discussões acadêmicas, das vivências diversas que fizeram explodir uma cachoeira de reflexões, no início políticas, depois acadêmicas e teóricas até explodir nas profundas e por vezes desconcertantes reflexões existenciais. O caminho foi longo, 6 anos de graduação. Nesse período, sonhos emergiram e sucumbiram, perguntas foram respondidas, mas mais do que isso, perguntas surgiram! Sucumbiu a idéia ingênua de um estudo de caso sobre uma escola, e emergiu a proposta de em vez de buscar respostas, buscar perguntas. E é com esse sentimento que propus, a mim mesmo, um exercício reflexivo, perguntador, sobre as idéias que me trouxeram ao maravilhoso, esperançoso e ao mesmo tempo, desalentador mundo da educação. Um estudo sobre as bases filosóficas da pedagogia espírita se tornou imperativo para me situar teoricamente, para fazer emergir da minha formação minha leitura sobre a educação e poder, daí, com bases mais fixas, caminhar na dura, mas gratificante, estrada da docência. O exercício proposto se justifica, pois a universidade me propôs refletir sobre diversos aspectos da realidade, porém sempre sob o ponto de vista materialista, com forte conotação histórico-social. Era preciso que eu pudesse 8 elaborar questões que fizessem aparecer, com certa maturidade, o conflito entre o materialismo e o espiritualismo, presente na minha formação. Para tal elegi a realização desse trabalho como parte dessa empreitada, mas destinado a contrabalançar a formação teórico-ideológica que a universidade me oportunizou. Durante o curso, durante a militância, priorizei, talvez por falta de opção, a formação teórica materialista. Neste momento, recuperando a função e a natureza de um trabalho de conclusão de curso, como um exercício acadêmico-reflexivo sobre a minha formação, ganhou força a reflexão que recuperasse a tradição filosófica espiritualista, que o século XIX relegou à marginalidade acadêmica, ao misticismo dogmático das religiões antigas, modernas e contemporâneas. Na verdade, o que pretendo fazer é reviver o conflito histórico entre as pedagogias da essência e as pedagogias da existência, mas para isso a necessidade de refletir sobre idéias pedagógicas que remontam à minha formação espiritual ganhou força e característica de problema de pesquisa, quando surgiu uma proposta pedagógica, defendida em tese de doutorado na USP (INCONTRI, 2001), que se reivindica, mesmo trabalhando com categorias das filosofias da essência, revolucionária, no sentido em que, segundo seus defensores, conjugava a fé e a razão, numa práxis pedagógica crítica (tanto para o lado materialista como para o lado espiritualista) e proponente de uma educação para a transformação do ser humano e do mundo.Veja-se que, diferente de outras propostas pedagógicas como a católica, por exemplo, essa se coloca no campo que admite a necessidade de mudar o mundo, resta-me no decorrer do estudo buscar a confirmação dessa hipótese na prática com que essa teoria dialoga. Por isso meu objetivo nesse trabalho não é o de ser apologista da Pedagogia Espírita, mas dar voz a ela, a partir de seus autores/pesquisadores de referência e procurar entender sua concepção de mundo, de educação, sua visão sobre os momentos históricos em que se encontram suas raízes filosóficas, com o intuito de contrapor à minha formação acadêmica, e poder melhor refletir 9 sobre minha prática. Acredito ainda que o presente estudo, incipiente, pode contribuir para que outros façam o mesmo: Tomem conhecimento, com maior amplitude possível, das diferentes teorias e concepções pedagógicas, para com mais clareza epistemológica poder, pronunciar, parafraseando Paulo Freire, a educação. É daqui que parte meu exercício reflexivo, que deve buscar, não respostas, mas elementos para uma reflexão mais completa. 10 INTRODUÇÃO Dora Incontri (2001) em sua tese de doutorado1 questiona os motivos que levaram o Espiritismo, “uma corrente do pensamento francês do século XIX, que provocou grande impacto social” (p. 16), à marginalidade dos estudos acadêmicos, sendo abordada, quando muito, do ponto de vista antropológico, como fenômeno social e raramente a partir de suas próprias idéias2. No mesmo estudo a pesquisadora apresenta diversas personalidades das ciências, das mais diversas áreas do conhecimento, que dispensaram atenção ao estudo do espiritismo, dentre eles estariam: Arthur Conan Doyle (1859-1930), célebre escritor inglês, pai de Sherlock Holmes, e autor da obra “História do Espiritismo”3; o astrônomo Camille Flammarion (1842-1925) fundador da Sociedade Astronômica da França; e o jovem biólogo Alfred Russel Wallace, que apresentou simultaneamente com Darwin a Teoria da Evolução na Sociedade Lineana de Londres em 1858, tendo divergido de Darwin ao admitir a possibilidade de interferências não identificáveis nas causas da evolução. Continua chamando a atenção para a omissão dessas informações nas biografias e estudos sobre as idéias desses pensadores ainda mais quando esses constituem referência em suas áreas. O que teria provocado isso que parece um implícito e estranho pacto de silêncio, em torno de uma filosofia, que teve sua projeção na Europa do século XIX e continua conquistando adeptos, 150 anos depois? Ainda que fosse para criticá-la, por que não comentá-la? (ibidem, p. 21). 1 COLOMBO, Dora Alice (Dora Incontri). Pedagogia Espírita: Um projeto brasileiro e suas raízes histórico-filosóficas. São Paulo, Feusp, 2001 (tese de doutorado). 2 Exemplos dessa abordagem: CAMARGO, Cândido Procópio Ferreira (org.). Católicos, protestantes, espíritas. Petrópolis, Ed. Vozes, 1973; CAMARGO, Cândido Procópio Ferreira. Kardecismo e umbanda. São Paulo, Pioneira, 1961; CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O mundo invisível. Rio de Janeiro, Zahar, 1983. (Apud INCONTRI, 2001, p. 11). 3 DOYLE, Arthur Conan. História do Espiritismo. São Paulo, O Pensamento, 1960. 11 Ferro (1989), ao analisar o modo de produção das obras históricas, demonstra que a história é produzida a partir de focos distintos de produção de conhecimento. Ele analisa o historiador como subserviente a grupos e instituições, tendo o Estado como a principal instituição, e de maior alcance. É nesse sentido que os teóricos da Pedagogia Espírita questionam o silenciamento das filosofias espiritualistas, sobretudo para com a doutrina espírita, e a notoriedade de outras teorias, em geral de fundo materialista, como o marxismo e o positivismo, ambos contemporâneos do Espiritismo. Os teóricos dessa pedagogia defendem a Doutrina Espírita como categoria de análise, como matriz teórico-metodológica para pesquisas acadêmicas, para leitura do mundo e a resolução dos seus problemas. Nesse sentido argumentam em favor do espiritismo, questionando o silêncio que “paira” em torno dele, como corrente de pensamento e o confrontando com as grandes correntes de pensamento do século XIX e XX. Esse é o debate que a Pedagogia Espírita trava, no esforço de se consolidar, enquanto teoria pedagógica, fundamentada na filosofia espírita da educação que, por sua vez, está assentada sobre os pilares da Doutrina Espírita. Tomamos como pauta para essa reflexão as seguintes questões: • O que vem a ser a pedagogia espírita? • Quais são suas origens? • Qual a sua concepção/visão de educação, de homem e de criança? • Quais perspectivas podemos esperar, se aplicadas as suas propostas? 12 Para o melhor entendimento do debate, faz-se necessário que organizemos a exposição de forma lógica na tentativa de responder às questões acima colocadas. É o que faremos nos seguintes capítulos. No primeiro capítulo nosso objetivo foi contextualizar o Espiritismo, que é a base fundamental da Pedagogia Espírita. Nele nos esforçamos para mostrar brevemente o entendimento dos teóricos dessa pedagogia sobre o século XIX e XX, destacando suas principais idéias, observando o que há de convergente ou divergente entre elas e o espiritismo. Ao final, apresentamos um resumo do espiritismo com o intuito de completar a tarefa proposta pelo capítulo. A pauta do segundo capítulo foi o diálogo entre filosofia, ciência e religião, proposto pela Doutrina Espírita, alertando para a especificidade de cada conceito, e apresentando o entendimento dos espíritas sobre o tema. No terceiro capítulo, o objetivo central foi caracterizar a pedagogia espírita, seu conceito, origens, principais idéias e seu movimento. Ao final do trabalho, nas considerações finais procuramos responder às questões colocadas no início desse trabalho. Também fizemos um esforço comparativo entre a pedagogia proposta pelo pedagogo polonês Bogdan Suchodolski (1903-1992) e a Pedagogia Espírita. Para isso apresentamos uma síntese da análise que o autor faz sobre o conflito histórico entre as Pedagogias da Essência e as Pedagogias da Existência e a superação desse. Procuramos, ainda, refletir sobre a perspectiva que a pedagogia Espírita teria de ser uma alternativa a superação dessa antinomia, propondo ao final novas questões que continuem esse debate. 13 CAPÍTULO I O CONTEXTO 1. O século XIX Bigueto (2006), em sua dissertação de mestrado sobre o educador espírita Eurípides Barsanulfo, defendida na Unicamp4, apresenta um “panorama conjuntural do final do século XIX” (p. 3), no qual aponta para um período caracterizado pelo otimismo originário dos ideais iluministas e da Revolução Francesa de 1789. Dora Incontri, ao analisar esse século, com o intuito de confrontar o espiritismo com seu contexto histórico-cultural, aponta no mesmo sentido: “Por 200 anos, a civilização européia viveu um frenesi entusiástico de idealismo progressista, (...), Tudo tem sabor de confiança, de uma vontade aceita como possível de atingir dias mais radiantes para a humanidade. (INCONTRI, 2004 p. 35)”. Entretanto, esses dois pesquisadores admitem que em tal período, nem tudo foi tão animador: “É verdade que, por outro lado, no século XIX, há ressaibos de sombra e amargor (ibidem, p.37)”. Alessandro Bigueto diz: “Havia pesadelos incômodos. Em meio à longa paz daquele período, havia um mal-estar, os críticos identificaram impulsos para a morte e para a guerra, na consciência individual e coletiva. É possível localizar o tédio romântico, a afirmação da identidade nacional à custa da destruição mútua e a sombra do ultramontanismo católico-romano. (BIGUETO, 2006 p.14)”. Regis de Morais (2002), ao falar dos “caminhos e descaminhos do século XIX”, em seu livro Educação e Espiritualidade, aborda a contradição do período: De um lado, formidáveis conquistas científicas e tecnológicas, bem como avanços artísticos, insuperáveis até hoje; 4 BIGUETO, Alessandro César. Euripedes Barsanulfo: um educador espírita na Primeira República. Campinas-SP, Faculdade de Educação da UNICAMP, 2006 (dissertação de mestrado). 14 surgimento de várias ciências vitais e consolidação das Ciências humanas. De outro lado, a lógica industrialista com seu empobrecimento de concepção de ser industrialista humano e de valor da vida do homem, o acendramento das competições e da agressividade da vida social. Século de grandes realizações e de grandes equívocos. (MORAIS, 2002, p.23). Poderíamos, segundo Alessandro Bigueto definir o esprit du temps desse século: “(...) resumindo-o em linhas gerais: 1) as idéias evolucionistas, 2) a crença no progresso, 3) a época do cientificismo, 4) as teses utilitaristas, 5) a renovação religiosa, 6) as transformações políticas, econômicas e sociais, 7) a filosofia democrática, 8) a filosofia liberal, 9) a filosofia positivista, 10) os movimentos sociais: socialistas, anarquistas e comunistas e 11) os arraigados nacionalismos (BIGUETO, 2006, p.13)”. A evolução era vista como uma lei natural e tinha um sentido, senão determinado ou previsível, pelo menos pensável, inteligível. O indivíduo transcendia em algo maior (sociedade, ciência). A ciência era capaz de determinar a verdade. O Espiritismo era original quando considerava o indivíduo devidamente, numa relação dialética com a sua metanarrativa, não o diluindo na espiritualidade e nem a desconsiderando. (INCONTRI, 2004) A equação “fé/razão” foi muito debatida no período em questão. A regra era romper com qualquer resquício da Idade Média, e se essa fora dominada pela Igreja, pela revelação divina e pela figura de Deus no centro de qualquer sofrimento ou melhora, o século que nascia deveria ser voltado para a razão, para as descobertas científicas, advindas da observação da natureza sem qualquer interferência sobrenatural, e como vimos anteriormente, o homem tomava de Deus as rédeas da humanidade e a galope seguia rumo à felicidade, sendo ele o agente de transformação. Vejamos o que Dora incontri diz sobre o cientificismo nascente: 15 “O método científico, constituído a partir do Renascimento, propõe-se desvendar a estrutura da realidade e este desvendamento produz ações. A tecnologia, cujos primórdios de desenvolvimento remontam à Revolução Industrial, é o resultado prático da ciência e portanto um indício evidente para a mentalidade da época de que o progresso não teria limites e poderia realizar os sonhos humanos. (INCONTRI, 2006, p.40). O espiritismo não fugia à crítica aos sistemas religiosos do passado, porém o fazia sem negar a essência espiritual do homem, como fizeram a maioria das correntes de pensamento do “século dos materialismos”. Sobre essa questão Dora Incontri nos alerta: “O contexto histórico ocidental, porém, tornava sinônimos religião e Cristianismo e este, num certo sentido, visto como Igreja Católica. Aliás, o próprio absolutismo desta determinara tal concepção. (INCONTRI, 2004, p.44)”. Kardec, na contramão, das teorias materialistas e da ortodoxia católica, propunha revitalizar a pureza inicial do Cristianismo, sem cultos exteriores, sacerdócio, liturgias ou organização institucional. Desse modo, o pedagogo se manifestou, ao mesmo tempo recusando e apontando o caráter religioso, cristão dessa doutrina: “Assim, pois, o Espiritismo se fundamenta em princípios gerais independentes de toda questão dogmática. É verdade que ele tem conseqüências morais, como todas as ciências filosóficas. Suas conseqüências são no sentido do Cristianismo. (...) O Espiritismo não é, pois uma religião. Do contrário, teria seu culto, seus templos, seus ministros. Sem dúvida cada um pode transformar suas opiniões numa religião, interpretar à vontade as religiões conhecidas; mas daí à constituição de uma nova Igreja há uma grande distância e penso seria imprudente seguir tal idéia. (KARDEC, Revista Espírita 1859, p. 149. Apud INCONTRI, 2004, p. 60)”. Entretanto, o espiritismo não tem exclusividade nesse movimento, voltado para um Cristianismo tradicional não ortodoxo. Ao longo dos tempos foram vários os movimentos e pensadores que tentaram reviver o cristianismo 16 original, opondo-se ao catolicismo e ao protestantismo tradicionais, como foi o caso do movimento franciscano. (INCONTRI, 2004). Entretanto, essa visão espiritualista crítica, que buscava suas raízes na religião natural de Rousseau e Pestalozzi, no Pietismo inicial, no hussismo5 dos Morávios e é claro no Cristianismo original não foi regra no chamado século das luzes. Na esteira da negação ao velho representado pela Igreja e pelo regime sócio-político-econômico da Idade Média, as correntes de pensamento assumiram uma postura antiespiritualista, admitindo para leituras legítimas do mundo exclusivamente pressupostos materialistas e ateus. Desde Comte, que defendia a superação dos estados fetichista e metafísico pelo estado positivo6, passando por Marx & Engels, defensores da idéia de que a religião era mais um instrumento de dominação, a ser extirpado na ditadura do proletariado, rumo ao comunismo; por Nietzsche que decretou a morte de Deus, até chegar em Freud, que pregou em “O futuro de uma ilusão” a religião como criação psicológica do homem diante do mundo, confirmando as influências no século XX da onda materialista do século XIX, percebemos o esforço em atrelar qualquer pensamento espiritualista ao conservadorismo, à alienação e até mesmo a um delírio coletivo. Sobre a querela entre espiritualismo e materialismo Bigueto tenta demonstrar que: “Apesar de, historicamente, o ateísmo ter se disseminado cultural e socialmente, deixando de ser uma convicção de poucos, as profecias do fim da religião e do espiritualismo não se concretizaram. As experiências religiosas cresceram, não houve uma dissolução da transcendência e a idéia de Deus não morreu. Ao contrário, paradoxalmente, o fenômeno 5 Refere-se aos descendentes de Jan Huss, antigo Reitor da Universidade de Praga queimado vivo pela inquisição em 1415, que fundaram um movimento inserido na Reforma, da qual Comenius era integrante. 6 É curioso e pertinente lembrar que Augusto Comte, pai do Positivismo criou uma espécie de religião da humanidade, onde encontramos hierarquia, ritos e sacerdotes. 17 espiritual e religioso continuou vivo e fecundo”. (BIGUETO, 2006, p. 16-17). Remonta aos ideias do líder socialista francês Jean Jaurès (1859-1914), para alertar que o espiritualismo ainda era vivo nas idéias sociais do século XIX e ao caráter essencialmente espiritualista da filosofia de Sócrates e Platão, fazendo coro com Herculano Pires7, ao defender que historicamente encontramos a tendência e tradição filosóficas no campo do espiritualismo. E continua afirmando: “(...) as previsões dos profetas materialistas foram contrariadas. Para muitos, isso pode comprovar o quanto o ser humano é religioso. A secularização, não conseguindo acabar com a religião, sem querer deu mostras da sua importância, da necessidade e da naturalidade da dimensão espiritual do homem. A grande maioria da humanidade continuou religiosa”.(ibidem, p. 18). Como vimos, os teóricos da Pedagogia Espírita buscam demonstrar a contemporaneidade do espiritismo com as grandes corrente de pensamento surgidas no século XIX, defendendo a tese de que na tradição filosófica espiritualista podem-se encontrar visões de mundo críticas, abrindo então o debate, antes considerado fechado pelos materialistas. 2. O século XX As correntes do século XX encontram suas raízes no século XIX, “como oposição ao evolucionismo otimista e o cientificismo racionalista”. (INCONTRI, 2004, p.63), segundo a pesquisadora Dora Incontri, esse século é caracterizado pela nadificação de tudo. Ela atribui essa tendência ao próprio contexto totalizante do século anterior: 7 PIRES, Herculano. O espírito e o tempo. São Paulo, Pensamento, 1964, p. 165-166. 18 “Se o inchaço do espírito e do coletivo social sugere a reação do singular e do individual de um Kierkegaard e de um Nietzsche, projetando-se para o século XX no domínio do subjetivismo, aquela absorção do ser individual no todo o havia esvaziado de essência e quando se reafirma o indivíduo, já ele não tem mais substância alguma. Primeiro se nadifica perante o todo, depois se nadifica na solidão e na angústia existencial, suspenso no vácuo da perda de todos os parâmetros que o sustentavam”. (ibidem, p.64). Adiante continua: “A dilatação da razão até o limite do irracional é que prepara o irracionalismo desenfreado de Nietzsche, envenenando a filosofia do século XX de uma desconfiança na racionalidade”. (ibidem, 65). Morais (2002) em seu intrigante ensaio “Das orgias materialistas do século XIX às orgias místicas do século XX” em que discorre sobre o movimento pendular das correntes de pensamento desse período, defende a idéia de que o século passado foi herdeiro “das conquistas e dos equívocos estagnantes do oitocentos” (p.24). Poderíamos caracterizar esse período, principalmente a segunda metade, como o da descrença em qualquer tipo de metarrelato, de qualquer verdade ou parâmetro. Tudo vira jogo de linguagem. Está estabelecido um vazio ético. “Fragmentação do sujeito, nadificação da verdade, ausência de sentido, ininteligibilidade das coisas, irracionalidade do discurso – esses são os traços predominantes do século XX, sem aparentes perspectivas de qualquer segurança ou conforto no limiar do século XXI. Tudo isso, evidentemente, gerou uma crise de valores, sem precedentes na história da humanidade”.(INCONTRI, 2004, p. 71). São nas teses pós-modernas que vamos encontrar a origem dessas idéias. Como bem nos demonstra Eagleton: “Pós-modernidade é um pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, a idéia de progresso ou emancipação universal, os sistemas 19 únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos da explicação”. (Eagleton, 1999, Apud Freitas, 2005, p. 13). Luiz Carlos de Freitas (2005) argumenta que o pós-modernismo serve à causa liberal-conservadora, tornando o entendimento do mundo uma questão local, individual. Alerta ainda, que “nem mesmo a crítica do moderno, já acumulada ao longo da própria modernidade, é levada em conta. É como se a história tivesse começado agora, (...), é como se ela não fosse relevante para o presente...” (p.14). Na esteira de seu pensamento, Freitas se preocupa com as conseqüências de tais teses: “A regra tem sido a insegurança, o consumismo, a competição, a virtualização das relações, a aceleração de todos os tempos, até a instantaneidade da extraterritorialização do celular. Parecera que não há futuro”.(ibidem, p. 91). Sobre os efeitos dos ventos pós-modernos Dora Incontri diz: “Em nossa democracia moderna, em que pese a aparente valorização da escolha individual o indivíduo na realidade não é. Não é, por que as filosofias contemporâneas vivem apregoando o ser e o nada, mas também porque ele se faz resultante de uma modelação ideológica, empreendida pela mídia, a serviço de uma economia capitalista”. (INCONTRI, 2004, p.65). Esses trechos demonstram que o interesse nas conseqüências filosóficas, que têm reverberações sociais e políticas, não é exclusividade dos espíritas. Embora partam de lugares diferentes e estejam em campos teóricos opostos aos dos espíritas, os próprios marxistas alertam para a dificuldade de se definir o que é justo ou injusto nos tempos atuais (NANDA, 1999, Apud Freitas, 2005). Para os espíritas o que está em jogo é a substituição do “homem-sujeito autônomo, livre, responsável, pelo homem-corpo, homen-animal, puro instinto 20 ou ainda homem desejo”. Incontri defende a tese de que a origem da ética universal, ”com todo seu cortejo de liberdade, consciência, igualdade”, está na assunção do espírito e de sua transcendência. Abolido o espírito ou quaisquer resquícios dele (que os havia, mesmo inconscientemente em doutrinas materialistas do século XIX), sobrou a corporeidade, a única instância existencial, a única realidade tangível. O que é o homem sem espírito? Um animal determinado pela genética, feito pelo meio, moldado pelas circunstâncias, porque a única possibilidade de ser de fato é de ser que transcende. (INCONTRI, 2004, p.73). Kardec (1993), já apontava, na segunda metade do século XIX as conseqüências da doutrina que propõe ao homem, nada existir, antes da vida e nada existir depois da morte: “O homem, não sendo senão matéria, não há de real e de invejável senão os gozos materiais; as afeições morais não tem futuro; os laços morais são quebrados sem retorno na morte; as misérias da vida são sem compensação; o suicídio torna-se o fim racional e lógico da existência, quando os sofrimentos são sem esperança de melhora; é inútil se impor um constrangimento para vencer seus maus pendores; viver para si o melhor possível, enquanto estiver aqui; (...) O bem e o mal são coisas de convenção; o freio social é reduzido ao poder material da lei civil”. (ibidem, p.190). De fato, se observarmos o noticiário televisivo, on-line ou impresso, perceberemos que a atualidade está imersa na violência e no total desrespeito à vida, sem qualquer tipo de parâmetro que possa frear esse estado de coisas. Desde a decisão dos Estados Unidos de invadir o Iraque e o Afeganistão, passando por cima das decisões da ONU, baseados em argumentos forjados e motivados por interesses puramente econômicos, passando pelos assassinatos em massa cometidos por adolescentes desequilibrados aqui e ali, pelo alto consumo de drogas (lícitas e ilícitas) praticado pela juventude, em boa medida, de alto padrão aquisitivo e cultural, até chegar à realidade mais cotidiana, na 21 escola, na família ou no trabalho, o que vemos é a confirmação das preocupações acima expostas. 3. O que é o Espiritismo? O Espiritismo é uma doutrina que surgiu na segunda metade do efervescente século XIX. Teve seu marco inicial em 18 de abril de 1857, quando o pedagogo francês Hippolyte Leon Denizard Rivail (1804-1869), sob o pseudônimo de Allan Kardec lançou “O Livro dos Espíritos”. Nesse livro, o autor colocava-se como organizador de idéias apresentadas por inteligências metafísicas, através de um processo psíquico chamado por ele de mediunidade. Tais inteligências, a observação veio demonstrar, eram espíritos de homens desencarnados, ou seja, sem corpo, ou ainda, para usar um termo de entendimento universal, mortos. Os espíritos comunicavam-se com o mundo dos vivos através da mediunidade, que consiste na mediação entre os mundos material e espiritual, em que o espírito utiliza-se do corpo físico de uma pessoa viva para comunicarse com as demais. A partir desse processo psíquico, respondiam perguntas elaboradas por Kardec e seu grupo. As respostas foram compiladas, estudadas e comparadas com outras, obtidas por processos semelhantes em diversas partes do mundo e enviadas a Kardec por carta. As que demonstravam o mesmo conteúdo em diversas partes do planeta, coerência e lógica com as demais repostas (afinal, uma afirmação não poderia contradizer a outra) e fundamentação eram tomadas como repostas corretas e constituintes dessa doutrina dos espíritos, designada Espiritismo pelo seu codificador, como queria ser chamado Allan Kardec. 22 “Agi, pois, com os espíritos, como o teria feito com os homens; foram para mim, desde o menor ao maior, meios de me informar, e não reveladores predestinados.Tais foram a disposições com as quais empreendi, e sempre persegui os meus estudos espíritas; observar, comparar e julgar, tal foi a regra constante que segui”. (KARDEC, 1993, p. 260). O processo, que culminou no surgimento do espiritismo teve início no final da década de 1840, quando fenômenos considerados paranormais foram descritos no interior dos Estados Unidos e na Europa. Mais tarde, tais fenômenos fizeram-se comuns, sendo atração nas rodas sociais parisienses, que se divertiam com as tais “mesas-girantes”8. Foi em uma dessas reuniões que o pedagogo Denizard Rivail, desconfiado, teve o primeiro contato com o Espiritismo. E diante do fato das mesas responderem questões inteligentes, terem vontade própria, humor e, à primeira vista não serem animadas por ninguém que pudesse manipular seu comportamento, Rivail pôs-se a estudar o fenômeno. “Esse movimento era lógico, eu concebia a possibilidade do movimento por uma força mecânica, mas, ignorado a coisa e a lei do fenômeno, parecia-me absurdo atribuir inteligência a uma coisa puramente material. Estava na posição dos incrédulos de nossos dias que negam porque não vêem senão um fato do qual não se dão conta Há 50 anos, se tivessem dito, pura e simplesmente, a alguém que se podia transmitir um despacho a 500 léguas, e receber-lhe a resposta em uma hora, se vos riria na cara, não teriam faltado excelentes razões científicas para provar que a coisa era materialmente impossível. Hoje, quando a lei da eletricidade é conhecida, isso não espanta ninguém, mesmo os camponeses. Ocorre o mesmo com os fenômenos espíritas; para quem não conhece as leis que o regem, parecem sobrenaturais, maravilhosos, e, por conseqüência, impossíveis e ridículos; uma vez conhecida a lei, o maravilhoso desaparece; a coisa nada mais tem que repugne à razão, porque se lhe compreende a possibilidade”. (KARDEC, 1993, p. 256-257). 8 O fenômeno das mesas girantes virou atração comum nas reuniões da sociedade parisiense no início dos anos de 1850. Basicamente tratava-se de reuniões em que as mesas se debatiam, se movimentavam em meio às pessoas, que se divertiam muito. Pelo fato das mesas movimentarem-se pelo salão, respondendo perguntas ou demonstrando seu humor esse fenômeno ficou assim conhecido. 23 Membro de várias sociedades científicas9, professor e autor de livros pedagógicos e didáticos, dentre eles: “Plano proposto para a melhoria da instituição pública (1928), Curso prático e teórico de aritmética, segundo o método Pestalozzi, para uso dos professores primários e das mães de família (1829), (...) Ditado normal dos exames da prefeitura e da Sorbonne (1849)”. (Revista Espírita, maio 1869), esse último muito utilizado na época de sua publicação, Rivail, foi rigoroso em seu estudo, aplicando um método investigativo minucioso. “Apliquei a essa nova ciência, como fizera até então, o método da experimentação; jamais ocasionei teorias preconcebidas: observava atentamente, comparava, deduzia as conseqüências; dos efeitos procurava remontar às causas, pela dedução e o encadeamento lógico dos fatos, não admitindo uma explicação como válida senão quando podia resolver todas as dificuldades da questão. Foi assim que sempre precedi em meus trabalhos anteriores, desde a idade de 15 a 16 anos. (...) seria preciso, pois, agir com circunspecção, e não levianamente; ser positivo não idealista, para não se deixar iludir”.(KARDEC, 1993, p. 259). Segundo Incontri (2004), essas palavras demonstram que Kardec pensava a Pedagogia como uma ciência, assim como seu mestre, Pestalozzi. A autora alerta, ainda, para a herança iluminista do educador francês, com a qual “partia para a pesquisa dos fenômenos em vista, já que é impossível, (...), interpretar qualquer fenômeno sem um referencial teórico” (p. 27). Contudo, mostra a honestidade de Kardec em se dedicar à pesquisa desses fenômenos sem pré-conceitos. Herculano Pires (1957) em texto escrito por conta das comemorações de 100 anos da publicação de “O livro dos Espíritos” analisa o conjunto dessa obra e sua importância para a doutrina espírita e para o mundo moderno. Nessa 9 Destaca-se sua presença na Academie Royale d’Arras, que em concurso realizado no ano de 1831 premiou a dissertação “Qual é o sistema de estudos mais em harmonia com as necessidade da época?” 24 análise, Pires demonstra que as demais obras básicas dessa doutrina partem do seu conteúdo, colocando-o não só como marco inicial do espiritismo ou sua pedra fundamental, mas como “(...) seu núcleo central, e ao mesmo tempo arcabouço geral da doutrina, (...) seu verdadeiro tratado filosófico” (idem). O livro dos Espíritos lançou as bases de uma doutrina complexa, multifacetada, porém simples, de fácil entendimento10, que responde grandes questões existenciais do ser humano11. Essas respostas têm como base de sustentação o processo do qual foram resultadas, que pode ser repetido por qualquer pessoa, e, tomadas às precauções inerentes a qualquer método experimental, tirar a contraprova. Como fez o químico e físico inglês, prêmio Nobel de química (1907) Sir William Crookes (1832-1919), quando contratado pela corte inglesa para desmistificar o espiritismo, e em uma série de experimentos, constatou a veracidade dos fenômenos espíritas. Os resultados de sua pesquisa foram publicados no livro Fatos Espíritas (FEB, 1991). Essas são faces de dois aspectos do Espiritismo, o filosófico e o científico, que conjugados têm conseqüências morais, constitui uma ética. Da conjugação desses dois aspectos com aquele que lhe é conseqüência, temos o tripé da doutrina dos espíritos: filosofia, ciência e religião. Para entender melhor essa questão, dedicaremos um capítulo do nosso trabalho ao proposto diálogo. É o que segue. escrita pelo educador Denizard Rivail. 10 O Livro dos Espíritos (OLE) foi publicado em Francês popular, sem preocupações técnicas da linguagem e exposição filosóficas, para o entendimento de todos. 11 Por exemplo, questões relativas à continuidade evolutiva da vida, à origem e destino do homem, do universo, imortalidade da alma, desigualdade de aptidões, riquezas. 25 CAPÍTULO II DIÁLOGOS ENTRE FILOSOFIA, CIÊNCIA E RELIGIÃO... Esse capítulo tem por objetivo, apresentar a proposta espírita de diálogo entre filosofia, ciência e religião. Reconhecemos a importância e pertinência de um debate mais demorado e meticuloso sobre o assunto, porém não teremos espaço nesse trabalho para essa tarefa, devido a sua própria natureza, de TCC, e ainda a necessidade de nos concentrarmos no recorte que optamos fazer. O debate é denso e requer, quem sabe, um trabalho específico. Para nós é importante, no contexto dessa reflexão, uma vez que tratamos, ora de maneira direta, ora como pano de fundo, de conceitos de ciência, filosofia e religião. Como apontamos no capítulo anterior, o Espiritismo propõe um diálogo entre a filosofia, a ciência e a religião. Pudemos perceber isso em “O Livro dos Espíritos” e mais tarde na demais obras consideradas básicas pelos adeptos dessa corrente de pensamento. Vejamos o que Chibeni diz sobre tal abordagem: “Se pensarmos no Espiritismo em termos de filosofia, será uma filosofia apoiada em bases científicas, e que tem como um dos objetivos centrais o estudo das questões morais. Se pensarmos em termos de ciência, não será uma pesquisa seca, que simplesmente constate e sistematize fatos, mas de uma investigação de longo alcance sobre um objeto de fundamental importância, o elemento espiritual. Essa ciência complementa, pois, as ciências acadêmicas, cujo objeto de estudo é o elemento material. E, pela própria natureza de seu objeto de estudo, a ciência espírita necessariamente diz respeito a tópicos genuinamente filosóficos, dentre os quais ressalta, por sua importância prática, aqueles referentes à moral” (CHIBENI, 2003). Kardec afirma: O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas 26 relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as conseqüências morais que decorrem dessas relações. (KARDEC, 1959).12 Os trechos transcritos explicitam a tese de indissociabilidade entre filosofia, ciência e religião proposta pelo Espiritismo. Entretanto, é preciso alertar para a especificidade desses conceitos. A doutrina dos espíritos é apresentada por Allan Kardec de forma a não se confundir nenhum deles com os até então utilizados. A ciência espírita possui objeto e método próprios, não podendo ser adaptada às metodologias das ciências materialistas como vimos em Chibeni. Sua contribuição capital é a conjugação entre fé e razão, na aplicação do método experimental às coisas metafísicas. A filosofia espírita, isenta de “prejuízos de sistema”, é uma filosofia racional, que tem seus fundamentos na imortalidade da alma, evidenciada pela mediunidade: “A metafísica torna-se pois um pressuposto dado pela ciência espírita e o desdobramento filosófico se dá pela discussão racional, construindo-se a coerência interna da doutrina. A filosofia espírita alimenta-se ao mesmo tempo dos fenômenos estudados pela ciência espírita e do ensinamento dado pelos espíritos desencarnados (...)” (INCONTRI, 2004, p.29). A religião espírita talvez seja o aspecto que mais tem suas diferenças fundamentais enfatizadas, em relação ao conceito a si atribuído. Kardec era defensor da religião natural, uma religião sem sacerdotes, sem igrejas, liturgias ou hierarquias, de caráter interior. Enorme foi a ênfase que ele deu, em seus escritos, à crítica dos sistemas religiosos tradicionais, protestantes ou católicos. Características como o controle universal do ensino dos espíritos distingue de forma capital o espiritismo das religiões tradicionais, baseadas na 12 KARDEC, Allan. O que é o espiritismo. 1959. 27 revelação de um só profeta. O espiritismo é ainda “uma revelação religiosa, por que pela mediunidade, os espíritos propõem teorias teológicas e morais e filosóficas e cosmológicas” (ibidem, p. 30). Embora seja consenso, no movimento espírita, que o Espiritismo propõe com sucesso o diálogo entre filosofia, ciência e religião, o mesmo não aconcetece quando o assunto é pesquisa acadêmica. Pesquisadores espíritas, reconhecidos no meio universitário em suas áreas de conhecimento, consideram que, embora seja uma ciência e uma filosofia, o espiritismo não deve servir de base para pesquisas acadêmicas. Essa tendência encontra fundamentos no entendimento de que a academia moderna é local privilegiado das ciências de fundo materialista, sobretudo o positivismo, que superou o pensamento teológico predominante nas universidades na Idade Média. Sobre isso, Chagas, no texto “Espiritismo na academia?” apresenta um “passeio histórico” remontando à origem da academia e das universidades, no qual analisa a situação destas em relação às correntes de pensamento: “Certas disputas de cátedras tornaram-se célebres. O positivismo conquistou maiores posições e no início do século (após a 1ª Guerra mundial), parece ter havido um armistício. Surgiu uma terceira força neste embate: o marxismo, que se instalou oficialmente na recém-criada União Soviética. A situação atual nos países ocidentais, onde nos incluímos, é nítida a predominância ideológica do positivismo, com alguns bolsões teologias (católicos ou protestantes), todos vivendo uma aparente coexistência pacífica. O marxismo, apesar de muito difundido, poucas vezes ameaçou o poder da academia” (CHAGAS, 1994, p. 21-22). Outra tendência, na qual a pedagogia espírita está inserida, vê no espiritismo uma matriz teórico-metodológica que deve servir de base para pesquisas acadêmicas, como já foi mencionado nesse trabalho. Para a defesa (http://www.espirito.org.br/portal/codificacao/oq/index.html) 28 de tal empreendimento, seus adeptos recorrem, assim como seus opositores, à história da universidade, considerando essa como espaço privilegiado, imprescindível para as transformações. “A universidade é uma das belas heranças que o final da Idade Média nos deixou. Os séculos XII e XIII, que viram seu início, foram palco das mudanças sociais, culturais e políticas, que desembocariam no Renascimento. Aliás, o século XII é considerado como a primeira etapa do movimento que tomaria mais tarde esse nome.” (INCONTRI, 2003). Também a universidade brasileira é objeto de análise do artigo. A autora alerta para o fato do Brasil somente fundar sua primeira universidade na década de 1930, quando praticamente em todos os países da América Latina já havia Universidades que contavam pelo menos 100 anos. Esse fato constitui, segundo Incontri, uma das causas para a falta de originalidade (Salvo Darcy Ribeiro e Sergio Buarque de Holanda) da academia brasileira e para o colonialismo intelectual predominante. Para Incontri o espiritismo entendido como “método de conhecer” , como um novo paradigma, constitui valiosa possibilidade de contribuição original brasileira para a filosofia e a ciência. “E essa originalidade pode ser uma contribuição espírita à cultura brasileira e, ao mesmo tempo, uma contribuição brasileira à cultura internacional. Mas ela precisa ser construída. Está implícita em Kardec, mas longe de estar aplicada (com todas as suas articulações) nas várias áreas do conhecimento. E essa construção só pode ser feita na universidade.” (idem) No fundo dessa divergência encontramos entendimentos opostos sobre a academia e sobre a universidade. O que constitui, de certa forma, divergências sobre o próprio conceito de ciência. Entretanto, é lugar comum entre essas duas visões que o Espiritismo constitui uma ciência, específica, com método e objeto próprios, e que dele emerge um novo paradigma. 29 Para superar essa querela, é importante que seja realizada uma pesquisa de fôlego, que debata as raízes epistemológicas espíritas, confrontando com o debate teórico mais geral sobre teoria do conhecimento e epistemologia, bem como reflita sobre a história e a natureza da universidade e da academia, continuando o trabalho iniciado por Dora Incontri (2001, 2003, 2004), já citada aqui, os estudos de Chibeni sobre a cientificidade do espiritismo (1988, 1990, 1994, 2003) e de Chagas (1987, 1994, 1995). 30 CAPÍTULO III A PEDAGOGIA ESPÍRITA Imperioso para o correto entendimento sobre a Pedagogia Espírita, sem os prejuízos de conceitos pré-estabelecidos, é o entendimento de que essa teoria pedagógica está inserida na tradição filosófica ocidental espiritualista e se afirma a partir da emersão de um novo paradigma, o paradigma do espírito, a partir do qual é possível uma releitura dessa tradição filosófica ocidental. O paradigma do espírito, segundo Incontri, tem se constituído há 2500 anos como projeto de emancipação humana, e remonta a Sócrates e Platão, passando por Cristo, Comenius, Rousseau e Pestalozzi, até chegar a Kardec, quando fica explícito, a partir de uma experimentação positiva fundamentada, conceitos como imortalidade da alma e reencarnação, até então intuitivos na obra e prática dos seus precursores (INCONTRI, 2001.) Assim Incontri (2001) resumiu os principais pontos desse paradigma: 1) Entendimento de Jesus fora dos padrões míticos que o têm cercado; 2) afirmação do sujeito autônomo e livre; 3) segura racionalidade, aliada a fé sem fanatismos; 4) proposição de uma educação humana, que faça brotar as potencialidades do homem e o conduza à felicidade individual e coletiva; 5) busca de um conhecimento verdadeiro e manifestação da crença na ação transformadora do homem.(p. 110). Outro ponto, não menos importante, é considerar que a proposta da pedagogia espírita se contextualiza numa dualidade do movimento espírita brasileiro. No qual encontramos duas tendências bem definidas uma que dá mais atenção ao aspecto religioso, assistencialista e institucional, da doutrina, imprimindo no espiritismo um caráter conservador; outra que entende esse 31 como um projeto pedagógico-cultural, progressista, com claras contribuições para a transformação da humanidade. Incontri caracteriza bem tais tendências, identificando na segunda a Pedagogia Espírita: “A primeira reduz a questão educacional espírita aos centros, com cursos internos para adultos sobre Espiritismo e a chamada ‘evangelização’ das crianças — cujo nome já indica o caráter predominantemente religioso e mesmo catequético. A segunda propugna pela criação de escolas, centros culturais, universidades espíritas, sem caráter sectário. Numericamente, a primeira tendência é maior, porque possivelmente arraigada na mentalidade brasileira, pouco afeita às questões culturais e pedagógicas. A segunda, porém, apresenta muito maior consistência teórica e já tem se manifestado em experiências práticas e ensaios teóricos”. (INCONTRI, 2001, p. 209).13 Não nos interessa aqui fazer um estudo detalhado sobre as experiências pedagógicas espíritas, interessa-nos captar o que vem a ser essa pedagogia, traçando seus princípios e conseqüências práticas, por isso vamos nos ater em apenas citar tais experiências a fim de situar o leitor, e poder melhor responder nossas questões norteadoras.14 3.1 - Os Precursores: A pedagogia espírita nasce, segundo Dora incontri, da prática pedagógica inovadora de educadores espíritas brasileiros que produziram, fundamentados no Espiritismo, uma práxis significativamente diferenciada da educação tradicional. “Pode uma escola não alcançar a prática integral de todos os princípios pedagógicos espíritas. Mas não basta uma escola autodemoninar-se espírita, para se inserir no quadro desta Pedagogia”.(ibidem, p. 211 – nota 375). São eles: A carioca de nascimento e paulista radicada 13 Grifos meus. 32 Anália Franco, os mineiros Eurípedes Barsanulfo e Tomás Novelino, o paulista interiorano Herculano Pires, Pedro Camargo e o paranaense Ney Lobo. Anália Franco (1853-1919) foi feminista, republicana, abolicionista e espírita, numa época que a regra era ser escravocrata, machista, monarquista e católico. A sociedade brasileira se organizava por esses quatros últimos pilares, sendo de extrema coragem a postura dessa professora paulista, que acolheu, numa casa alugada com recursos próprios, crianças negras, “filhos e filhas” da Lei do Ventre Livre, fazendo assim sua primeira Casa Maternal (INCONTRI, 2001). Com apoios da Maçonaria, de companheiros espíritas e de outras mulheres funda, em 1901, a Associação Feminina Beneficente e Instrutiva, que constitui creches e asilos por todo estado de São Paulo com os seguintes objetivos: “1º recolher as mulheres pobres, com ou sem filhos, que se acham ao desamparo; 2º meninas órfãs ou filhas de pais inválidos; 3º meninos com suas mães, até 8 anos; 4º os filhos de mães operárias de 2 anos para cima; 5º criar aulas de instrução primária, secundária e profissional, diurnas e noturnas, para as asiladas ou não; 6º criar secções especiais para enfermeiras (sic) e mulheres arrependidas (sic).”(FRANCO, 1903. p.5. Apud INCONTRI, 2001)15 Anália Franco é considerada uma representação fiel da mulher defendida e anunciada por Kardec, no Livro dos Espíritos:. “A lei humana, para ser justa, deve consagrar a igualdade de direitos entre o homem e a mulher; todo privilégio concedido a um ou a outro é contrário à justiça. A emancipação da mulher segue o processo de civilização, sua escravização marcha com a barbárie. Os sexos, aliás, só existem na organização 14 Para uma visão mais detalhada veja: COLOMBO, Dora Alice (Dora Incontri). Pedagogia Espírita: Um projeto brasileiro e suas raízes histórico-filosóficas. São Paulo, Feusp, 2001 (tese de doutorado). 15 FRANCO, Anália. Escholas maternaes. In: A Vóz Maternal, São Paulo, I (1), 1º/12/1903, p. 5. Apud INCONTRI, 2001. 33 física, pois os Espíritos podem tomar um e outro, não havendo diferenças entre eles a esse respeito. Por conseguinte, devem gozar dos mesmos direitos”.(KARDEC, DATA, p. XXX). Segundo Incontri, Anália Franco tinha uma prática educativa que se distanciava de qualquer proselitismo ou doutrinação. Mesmo sendo espírita confessa, Anália não ensinava espiritismo em suas creches e asilos. “Incentiva, porém, uma religiosidade ecumênica, despertando entre os alunos alguns conceitos comuns a todas as crenças: a oração, a imortalidade da alma, a veneração a Deus, a fraternidade humana”. (INCONTRI, 2001, p.229). O que estaria em pleno acordo com o Espiritismo e indo ao encontro de outras experiências educacionais espíritas. Assim Dora Incontri sintetiza a contribuição dessa educadora, mulher ativista da transformação social: “A obra abrangente de Anália Franco indica que faz parte dos postulados espíritas uma visão social transformadora, alavancada pela educação, com claras conotações igualitárias e democráticas. Liberdade de pensamento, valorização da mulher, respeito às diversidades religiosas e étnicas — todos esses são elementos espíritas encontrados na ação de Anália. Do ponto de vista de sua prática pedagógica, a presença desses elementos mais as heranças pestalozzianas, fröbelianas e francesas apontadas revelam avanço em relação ao tradicionalismo da época”.(Ibidem, p. 234-235) Eurípedes Barsanulfo (1880-1918), é considerado o primeiro a organizar uma escola espírita que atendesse ao critério citado. Em 1907, ele funda o Colégio Allan Kardec, na cidade mineira de Sacramento. Num período em que era comuns castigos físicos e recompensas, educação diferenciada e separada para meninos e meninas, Eurípedes aboliu os castigos, as recompensas e montou classes mistas, suscitando movimentos contrários ao seu colégio. Isso 34 para ficar somente em questões de clara percepção. Assim Bigueto descreve o Colégio Allan Kardec: “A escola era particular, gratuita e sem fins lucrativos. Iniciou suas atividades com umas 80 crianças de ambos os sexos e pretendia contribuir na valorização da infância, despertar o sentimento do bem e a vontade de conhecer. Desde o início, Eurípedes compreendia que o problema educacional ia além do mero aprender a ler, contar e escrever. Distanciava-se também das idéias coercitivas que vigoravam na educação e procurou substituir práticas pedagógicas tradicionais por um ensino cooperativo, adotando métodos que incentivavam a ação, a liberdade, a investigação. A experiência do colégio Allan Kardec tinha a intenção de negar a escola livresca, autoritária e distante da realidade. Ao contrário, pretendia criar uma nova forma de lidar com os alunos considerando seus interesses, necessidades, vivências, promovendo a educação intelectual, física e moral.” (BIGUETO, 2006, p.152). O autor demonstra em sua dissertação de mestrado, Eurípedes Barsanulfo, um educador espírita na primeira república (2006), a proximidade das propostas de Eurípedes com as defendidas e praticadas por Pestalozzi em Stans e Yverdon, de uma práxis espiritualizada, preocupada em formar o ser humano na sua integralidade, respeitando e criando condições para o desenvolvimento individual do educando. Tomás Novelino (1901-2000), motivado pela expulsão de um aluno, de uma pequena escola de Franca, dirigida por um ex-seminarista, pelo fato do menino ser espírita, tomou a decisão, de fundar uma escola que protegesse os estudantes espíritas e de quem quer que fosse, independente de credo. Sua proposta era de uma escola que não fizesse separações e sob a bandeira da tolerância religiosa aceitasse crianças de todos as crenças. Dizia ele, o saparativismo era o mal das religiões. Fundamentado nos ideias espíritas, e no aprendizado de Novelino com Barsanulfo e Anália Franco16, em 1° de Agosto 16 Órfão de pai e mãe, Novelino foi internado junto com os irmãos e irmãs no asilo Anália Franco em São Paulo (1908). Também foi aluno de Eurípedes, no Colégio Allan Kardec, em Sacramento. 35 de 1944, iniciava suas atividade o Educandário Pestalozzi, como a materialização dessa idéia. (INCONTRI, 2001). Assim estava escrito na pedra fundamental das obras de ampliação do projeto educacional, que já não cabia mais, nas instalações iniciais: “O Educandário primará por ser livre e fazer homens e mulheres livres, criaturas ciosas de sua liberdade, amantes do bem, do trabalho, da atividade, da evolução, e não seres modorrentos que muito embora consigam às vezes grande cultura, a traga simplesmente acumulada na memória. (…) O educandário porfiará por lapidar em seus alunos intelecto e coração, aprimorando-lhes razão e sentimento”. (Educandário Pestalozzi, 1943. Apud INCONTRI, 2001, p.238).17 A experiência de Novelino, para Incontri, encontra paralelos muito estreitos com as experiências e propostas de Pestalozzi, para uma educação integral do ser humano. A autora ainda relaciona a ligação entre a indústria de sapatos, financiadora do projeto, com as escolas, a fazenda e o observatório, com experiências socialistas como a de Robert Owen (1771-1858), fundador do cooperativismo. Embora tenha inovado pouco na questão pedagógica, se comparada à proposta de Barsanulfo, Tomás Novelino e sua esposa deram uma inestimável contribuição no que diz respeito à estabilidade financeira, a qualidade institucional e à preocupação estética e ambiental. (INCONTRI, 2001), apontando caminhos e mostrando ser possível o envolvimento dos espíritas em projetos educacionais e culturais. Herculano Pires (1914-1979) foi reconhecido pelo primeiro presidente, e fundador da Academia Brasileira de Filosofia, Jorge Jaime de Souza Mendes, 17 Educandário Pestalozzi (in: A Nova Era. Franca, XIX (734), 31/1/46, p 1.). Apud INCONTRI, 2001, p. 238. 36 na obra que constitui importante referência para a filosofia brasileira. Em “História da filosofia no Brasil18”, o acadêmico afirma que “a história da filosofia brasileira já possui o filósofo do Espiritismo, e esse foi, indiscutivelmente, José Herculano Pires” (Jaime, 2000, p. 144). Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1957), jornalista de profissão, foi também poeta, romancista19, sindicalista20 e professor universitário, tendo lecionado Filosofia da Educação na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Araraquara (1959-1962), uma das instituições de educação superior que deram origem à Faculdade de Ciências e Letras, campi da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) nessa cidade do interior do estado. Com uma atuação multifacetada, Herculano Pires teve participação singular na luta em defesa da escola pública, laica e gratuita durante os debates que foram travados no cenário educacional brasileiro na virada dos anos 50 para os anos 60, entre os que defendiam a escola pública e os que, sob a bandeira da liberdade de ensino, defendiam privilégios para as escolas particulares e confessionais (Incontri, 2001). Vejamos o que dizia o Manifesto em Defesa da Democratização Escolar, assinado pelo Clube do Jornalista Espírita, presidido por Pires, e enviado ao Senado Federal, a propósito da aprovação de um substitutivo de Carlos Lacerda a LDB, em discussão desde 1948: “Os princípios confusionistas do projeto aprovado, que mistificam o problema do ensino, misturando deveres do Estado, com interesses particulares, em evidente benefício de interesses confessionais — ainda mais nocivos do que aqueles, por 18 JAIME, Jorge. História da filosofia no Brasil. Petrópolis, São Paulo, Vozes e Faculdade Salesianas, 2000. 19 É considerado autor de um novo gênero literário, a “ficção científica paranormal”. 20 Foi Presidente do Sindicato dos Jornalistas de 1957 a 1959 37 implicarem coação de consciência — são simples resíduos do obscurantismo medieval”. (Apud INCONTRI 2001, p. 275) Esse movimento culminou na fundação, em 1960, também sob a liderança de Herculano, da Associação Espírita em Defesa da Escola Pública, que em 62 lança um novo manifesto, conclamando espíritas e não-espíritas à luta pela escola pública como espaço de liberdade de consciência. Eram esses, dentre outros, os princípios da associação: “(a) Luta incessante contra o ensino religioso nas escolas, por constituir instrumento de coação das maiorias religiosas contra as minorias, o elemento de condicionamento das consciências, conseqüentemente, de deformação do ensino e da educação; (b) luta incessante contra as discriminações raciais, de cor, ideológicas e religiosas, nos estabelecimentos de ensino públicos e particulares, com denúncia e ação judicial nos casos concretos”. (Associação Espírita em Defesa da Escola pública, 1962. Apud INCONTRI, 2001, p. 276) Ao contrário do que se poderia pensar, os espíritas estiveram, como acabamos de ver, do lado da escola pública, laica e gratuita, sendo coerentes com os princípios do espiritismo postulados por Kardec, que rompe com as instituições, liturgias e hierarquias religiosas, propondo, como Pestalozzi uma religião natural, interior. No que diz respeito à coerência com o espiritismo, Pires foi exemplar, se tornando inclusive, um dos mais, senão o mais contundente e engajado crítico de setores do movimento espírita brasileiro que consideram essa doutrina apenas como uma religião. Em seu livro “O Centro Espírita” (LAKE, 1992), disserta sobre diversos aspectos do movimento espírita, a partir de sua célula básica. São temas como: a falta de entendimento dos espíritas sobre as idéias codificadas por Kardec; a própria função e significado do centro; a assistência social prestada pela instituição; a relação com a comunidade; política, dentre 38 outros. É um verdadeiro compendio crítico à prática do movimento espírita “oficial” no Brasil. Dizia ele: “A expansão do Espiritismo em nossa terra é incessante e prossegue em ritmo acelerado. Mas o que fazemos em todo esse vasto continente espírita é um esforço imenso de igrejificar o Espiritismo, de emparelhá-lo com as religiões decadentes e ultrapassadas…” (PIRES, 1992, p. XXI). No campo da Pedagogia Espírita, o filósofo é considerado o seu grande teórico e incentivador, tendo produzido vasta bibliografia acerca do assunto. Liderou três congressos educacionais espíritas no estado de São Paulo21. Fundou o Instituto Espírita de Educação, resultante do primeiro congresso. Também foi criador e editor da revista “Educação Espírita”, publicada entre os anos de 1970 e 1974 (FUCHS, 1990)22. José Herculano Pires (1990) compreende o espiritismo como sendo uma “mundivivência” e como projeto cultural, por isso, deve influenciar significativamente todos os âmbitos da sociedade e do conhecimento. A sua legitimidade estaria fincada no fato do espiritismo ter surgido naturalmente, e não por vontade de uma autoridade, firmando-se como doutrina, “com concepção do mundo e do homem devidamente estruturada em princípios filosóficos” (p. 5), esses confirmados pela experimentação positiva, realizada por Kardec ao longo de seus estudos sobre o fenômeno das mesas girantes, e perfeitamente passíveis de reprodução23. Dessa mesma forma encontramos a legitimidade da Educação Espírita, que, nas palavras do jornalista “(...) não 21 I, II e III Congresso Educacional Espírita paulista, realizados em 1949, 1955 e 1970, respectivamente. Prefácio à primeira edição do livro Pedagogia Espírita, no qual estão reunidos os mais significativos textos de Herculano Pires na revista. 23 O segundo livro da chamada codificação espírita, O Livro dos Médiuns (1861), levava o subtítulo “Espiritismo Experimental” e pode ser considerado um manual para repetição dos experimentos de Kardec. 22 39 surge como uma elaboração artificial em nosso tempo, como mais uma novidade educacional” (idem). Herculano defendia a educação na sua realidade transcendente, como ser reencarnado e por isso a educação vista do prisma da Doutrina Espírita, “(...) nos apresenta dois aspectos fundamentais: é o processo de integração das novas gerações na sociedade e na cultura do tempo, mas é também o processo de desenvolvimento das potencialidades do ser na existência, com vistas ao seu destino transcendente. (ibidem, p. 113)” Isso significa uma mudança substancial na postura da escola, do educador e das práticas educativas. Pedro Camargo (1878-1966), conhecido pelo pseudônimo Vinícius, foi orador espírita e autor de obras que reforçavam o caráter evangélico do Espiritismo. Em seus livros estão presentes os princípios da educação nãoautoritária e da auto-educação que servirão de base para experiências como a do Professor Ney lobo, em Curitiba/PR. Comerciante de profissão cursou, mas não concluiu, o curso de Direito. No movimento espírita, além de palestras atuou nas áreas de assistência social e evangelização infantil. Era um defensor dos direitos humanos e como tal defendeu a recuperação por meio da educação de criminosos, fazendo coro com Eurípedes Barsanulfo e Ney Lobo, na defesa da não punição como ato pedagógico. Foi fundador do Instituto Espírita de Educação, sendo seu presidente durante 20 anos. (INCONTRI, 2001) Professor Ney Lobo foi diretor do Colégio Lins de Vasconcellos24, e lá deu intensa e importante contribuição para a constituição da Pedagogia 24 O Colégio Lins de Vasconcelos foi arrendado em 1998 para um grupo educacional privado, pela Federação Espírita do Paraná (mantenedora do colégio), que alegou dificuldades financeiras e que o Lins 40 Espírita. De sua experiência extraiu e sistematizou uma teoria da Pedagogia Espírita, que pode ser encontrada nos 5 volumes de Filosofia Espírita da Educação (FEB). À frente do colégio, o qual era mantido pela Federação Espírita Paranaense, o Professor criou a Cidade Mirim, onde os alunos elegiam o Prefeito, seus vereadores e gerenciavam a cidade, praticando o princípio da atividade como eixo fundamental de seu método educacional. Sobre a ousadia do diretor Dora Incontri nos informa que ao assumir a gestão da instituição: “Ney Lobo aboliu em todas as séries as aulas tradicionais e vendeu as carteiras escolares, assim que assumiu a direção do Instituto, mandando fazer módulos que se ajustavam aos trabalhos em equipe. Em vez de aulas, foram estabelecidas ‘sessões de trabalho’, nas quais havia sempre um trabalho individual (TI) e um trabalho coletivo (TC), apenas brevemente orientados pelo professor.” (INCONTRI, 2001, p. 247). Sobre a base de uma educação ativa, o Gestor implementou, na esteira de Rousseau, Pestalozzi, e Eurípedes, novidades também no campo da avaliação. “Desaparecem as provas periódicas e os exames finais. A avaliação era contínua, através dos trabalhos individual e coletivo” (Ibidem, 249). Qualquer tipo de punição ou recompensa é abolido. Para substituir essa prática e de fato contribuir para o crescimento dos estudantes Ney Lobo propõe o princípio da reparação: “Consiste (este princípio) em induzir o educando, por meios hábeis, a reparar, de alguma forma, as faltas cometidas; voluntariamente, isto é, sem imposição ou ameaças. Faltas essas de qualquer natureza: ofensas, agressões, danos ou prejuízos causados. A reparação é a correção educativa por excelência”. (LOBO, 2001 p 2. Apud INCONTRI, 2001, p. 250). não contribuía com a divulgação do espiritismo, missão primeira da entidade, acabando com o que foi uma das mais avançadas e inovadoras práticas educacionais do país. 41 Como pudemos perceber a prática de Ney Lobo, fundamentada pedagogia da cooperação, da ação e da caridade, é repleta de referências aos princípios do Espiritismo, bem como da herança pedagógica de Rousseau, Pestalozzi, Kardec e Eurípedes Barsanulfo. Ela constitui exemplo para a proposta pedagógica da Pedagogia Espírita, sendo considerada, pelos defensores dessa idéia, como sendo em si, uma prática bem sucedida dessa teoria pedagógica. 3.2 – As Idéias A Pedagogia Espírita está, segundo seus teóricos, inserida num continum, que tem Sócrates e Platão num extremo e as práticas de educadores espíritas brasileiros no outro. Como vemos em Incontri, seus princípios e desdobramentos “brotam da maiêutica de Sócrates, da mensagem do Cristo, das contribuições de Comenius, Rousseau e Pestalozzi, solidificam-se com Kardec e florescem no Brasil com Eurípedes e Anália, Ney Lobo e Herculano (INCONTRI, 2001, p.281)”. Todos esses estendidos a partir do paradigma do espírito, em que essa Pedagogia está fundada. Suas idéias emergem das obras básicas espíritas e das práticas educacionais que já vimos, assim como da própria releitura, a partir desse novo paradigma, da obra dos grandes pensadores da educação, já citados. Mas essencialmente dos fundamentos e princípios espíritas, encontrados ao longo das obras básicas da codificação Kardequiana e dos doze volumes da Revista Espírita, publicada mensalmente durante doze anos pela Sociedade de Estudos Espíritas de Paris, na qual Kardec falava de temas atuais da época, se 42 correspondia com correligionários e apresentava os resultados de suas pesquisas. Dora incontri em sua tese de doutorado sobre a Pedagogia Espírita extrai da obra Kardequiana os fundamentos e princípios dessa pedagogia, apresentando de forma sintética o conjunto da cosmovisão espírita, que segundo ela, tem na educação, a justificativa, o processo e o fim da vida humana. A seguir apresentaremos os principais fundamentos e princípios da Pedagogia Espírita, a fim de buscar as respostas das perguntas postas no início desse trabalho. Vejamos então primeiro os fundamentos e depois os princípios, mantendo a divisão que a autora fez. O primeiro e considerado o mais original de todos os fundamentos, que caracterizaria a Pedagogia Espírita como uma proposta revolucionária, segundo seus adeptos é o entendimento do ser humano como um ser interexistente. Esse termo foi cunhado por Herculano Pires, a fim de sintetizar a visão Espírita de homem. Dizia ele: “A concepção espírita de homem nos mostra o ser na existência com duas formas corporais e dois destinos interrelacionados. O corpo físico é o seu instrumento de vivência terrena, mas o corpo espiritual é o seu organismo etéreo de que deve servir-se na continuidade superexistencial dessa vivência (PIRES, 1990, p. 114)”. (...) A criatura humana, mesmo nesta existência, não está sujeita apenas ao plano existencial terreno. Ela existe no aqui e no agora, mas traz consigo a mente de profundidade que liga à existência espiritual de que provém. (...), Vivemos entre duas existências e não apenas numa, como supões a ilusão materialista. Não somos apenas o existente na concepção existencialista, como o interexistente da concepção espírita. (Ibidem, p. 117). Essa concepção de interexistência está, como pudemos perceber em nosso estudo, ligada fundamentalmente à idéia de Reencarnação. Isso significa entender o homem, não apenas como existente na dimensão espiritual e 43 material, no aqui e no agora, mas também considerar sua existência espiritual anterior a essa vida, e, sobretudo as sucessivas existências que teve no seu passado milenar. Incontri diz: “(...) o ser existe além das dimensões físicas e visíveis, porque se expande em espírito no tempo e no espaço. No tempo, porque em seu íntimo carrega um passado histórico denso a se manifestar em lembranças, intuições, tendências, impulsos, conhecimentos inatos, experiências já adquiridas. No espaço, porque está em permanente contato extrasensorial com outros seres, capta outras dimensões, através de sonhos, visões, mensagens telepáticas e comunicações explícitas e diretas.” (INCONTRI, 2001, p. 282) Segundo Incontri, como o devido entendimento da sua interexistência, o homem teria melhores condições de realizar as suas potencialidades. Porém alerta que, na visão espírita, essa compreensão, não é conseqüência de uma revelação divina, salvacionista, ou resultado de técnicas específicas para adquirir dons mediúnicos. Ela “passa pela racionalidade (...), é fruto maduro de reflexão racional, experimentação pessoal e esforço de evolução”. (ibidem, p.23). A visão espírita sobre o educando está intimamente ligada ao entendimento do homem como ser interexistente. A idéia de criança da Pedagogia Espírita, não é diferente, porém merece destaque por ser a ela atribuída destacada importância. A criança, “é um ser inteiro e livre, interexistente que se manifesta em corpo frágil, para retomar as experiências do mundo em moldes diversos dos que já experimentou no passado, e poder integrar essa nova personalidade em formação às múltiplas já vividas, que constituem o seu eu original”.(Ibidem, p. 284). Na sua Interexistência, ela é submetida às influências da hereditariedade, do meio sóciocultural e das limitações psíquicas e das que o corpo físico impõe ao espírito. Essas influências, segundo o espiritismo, foram aceitas e 44 escolhidas livremente pelo espírito antes da sua reencarnação, para contribuir no seu processo educativo na existência. A sua reencarnação, de acordo com a bibliografia espírita se justifica pela necessidade de o espírito auto-educar-se permanentemente, com vistas a atingir a perfeição. A Pedagogia Espírita faz, fazendo jus a sua origem Rousseauniana, considera a criança essencialmente boa, pois tem em si o germe da perfeição. Considera ainda a infância um “estado de permeabilidade psíquica e moral”, em que a criança é ávida por aprender e agir, por expandir-se em energia e afetividade. (INCONTRI, 2001). A terra, na concepção espírita é a morada temporária de espíritos que estão, para usar a terminologia espírita, encarnados. Ela é apenas um, dentre infinitos mundos no universo, que servem, como a Terra, de escola e laboratório, onde durante sucessivas vidas os Espíritos aprendem através de experiências, na existência material e se aperfeiçoam. O entendimento dos defensores da Pedagogia Espírita sobre a Educação é que essa conciste em “processo permanente de aperfeiçoamento do Espírito, é o despertar de suas potencialidades, a realização gradativa de sua divindade e não apenas numa dada existências, mas eternidade afora”. (Ibidem, p. 287). Ela é considerada o sentido mesmo da existência e deve: promover a vida interexistente; promover a responsabilidade do educando de auto-educar-se; conquistar a adesão do educando para sua própria educação; deve ainda, evitar a estagnação, a apatia, o adormecimento da vontade. (Idem) Na mesma linha de pensamento, o educador também é ressignificado. Ocupa uma centralidade no processo educativo proposto pela Pedagogia Espírita, no entanto divide essa centralidade com o educando que deve ter 45 papel ativo e protagonista em sua auto-educação e na educação coletiva. O papel do educador para essa pedagogia é de mobilização, motivação da vontade de evolução desse educando. “É o que observa atentamente, amando com intensidade, o ser-educando, e descobre como atingir o seu âmago, para tocar sua essência divina e deflagrar o processo de auto-educação”. (ibidem, p. 288). São funções do educador, segundo a Pedagogia Espírita: captar o educando em suas heranças passadas, suas promessas futuras e suas relações espirituais presentes; orientar e influenciar, sem jamais ferir a liberdade do educando; Deve, ele mesmo, estar imerso num intenso processo de auto-educação, para poder empolgar o educando com seu exemplo. (INCONTRI, 2001). Podemos perceber, nesse conjunto teórico, apresentado como fundamentos da Pedagogia Espírita, uma série de pilares de outras propostas educacionais. Como o amor Pedagógico de Pestalozzi ou a essência boa da criança e a educação natural de Rousseau, o que demonstra a assunção de uma ligação desses pensadores/educadores com a pedagogia tratada aqui, por parte dos seus teóricos. Os princípios da Pedagogia Espírita são o amor, a liberdade, igualdade na singularidade, a naturalidade, a ação e a educação integral. A seguir apresentaremos cada um sucintamente, para continuar nosso objetivo de caracterizar essa teoria. O amor é o primeiro e máximo princípio. Incontri, em sua exposição sobre o tema, alerta para o desvirtuamento do conceito. Define-o pela eleição do que ele não poderia ser. Segundo a jornalista e educadora, teórica da 46 Pedagogia Espírita o amor não possui, não domina o outro, não fere, não se acomoda com o poder e a injustiça, não é chantagista. O amor proposto aqui deve permear todas as relações educativas, entre educadores e educandos. Deve ser entendido como doação e empenho do primeiro em benefício do segundo, com o objetivo de mobilizar o educando na busca de sua autoeducação. Para isso, ele deve repudiar qualquer tipo de violência ou ato de punição, deve ser ativo e corajoso para conquistar o educando para o projeto proposto de auto-educação. A liberdade é a conseqüência do amor. Não pode ser apenas a assunção racional de um direito somente, deve ser fundado, para os teóricos dessa idéia, nos laços da fraternidade. “A obediência à autoridade constituída deve ser substituída pela anuência consciente e espontânea, que o educador deve aprender a conquistar amorosamente, quando, e apenas quando, se tratar do bem do próprio educando. Mas, em última instância, o ato pedagógico é sempre uma oferta, um convite, uma possibilidade que o educando tem a liberdade de aceitar ou recusar”. (INCONTRI, 2001, p. 290). O princípio da igualdade com singularidade vai nos dizer que todos os seres humanos são iguais, têm os mesmos direitos e deveres, têm a mesma natureza, espiritual, biológica e social. Contudo, são também essencialmente diferentes, pois cada um se encontra num estágio na escala da evolução espiritual, têm experiências diferenciadas nesta vida e ainda estão inseridos em contextos socioculturais diversos. Ao assumi-lo, a Pedagogia Espírita propõe, coerente com Kardec, a abolição de qualquer hierarquia e competição entre os indivíduos. Também afirma não aceitar gurus e mestres a serem reverenciados. “(...) a Pedagogia Espírita é igualitária no sentido de tratar todos os seres humanos no mesmo diapasão de respeito, 47 fraternidade e compreensão. Mas deve reconhecer e descobrir as riquezas de cada ser singular e incentivá-las, socializá-las, observando da mesma forma as imperfeições de cada um para trabalhá-las”. (Ibidem, p. 291). O princípio da naturalidade nos mostra que essa proposta pedagógica compreende que o universo se compõe, todo ele, de uma só natureza divina. Que o mundo espiritual é tão natural quanto o físico, “lados da mesma moeda”. Assume-se que há uma natureza humana que engloba o aspecto social, biológico e espiritual do homem. Há uma natureza da criança, que a Pedagogia Espírita propõe aos educadores compreendê-la para melhor auxiliá-los na sua auto-educação. O conhecimento dessa naturalidade do ser humano e do universo permite, segundo os espíritas, respeitar o fluxo harmônico das coisas, dos seres. “Assim como para se colher o fruto de uma árvore, é preciso semeá-la, adubá-la e conservá-la segundo a natureza, para se colher a luz humana, é preciso educar o ser interexistente, em obediência a todas as leis naturais — físicas e morais — que regem o seu desenvolvimento. Essas leis, porém, não são rígidas e lineares, mas flexíveis e orgânicas, porque a maior de todas elas é a lei do amor e onde há amor, há criatividade, expansão, espontaneidade”. (Ibidem, 292). É a partir da ação no mundo que o Espírito de desenvolve. Baseado nessa compreensão a Pedagogia Espírita se propõe eminentemente ativa, propõe o aprendizado através da ação livre. “A ação em si – traduzindo-se em atividades sociais, em produções estéticas, intelectuais e manuais – põe em uso as potencialidades humanas, que só podem ser trazidas à tona e aperfeiçoadas pelo exercício”. (ibidem, 293). O último princípio coroa todos os demais. A educação intergral, que somente é possível para os espíritas se balizada pelos demais princípios, 48 esses ancorados nos fundamentos da Pedagogia Espírita, que já apresentamos. A educação integral é entendida como a busca do equilíbrio entre a moralidade e a inteligência, num processo educativo que trabalhe simultaneamente diversas potencialidades e faculdades do ser humano. Nela, é preciso observar quais as vocações da criança e do jovem, para incentivar o uso ético de suas inteligências. Uma educação integral, para a Pedagogia Espírita deve desenvolver-se numa proposta global, que trabalhe a educação dos setores, afetivo, estético, intelectual, religioso, sexual, físico e mediúnico. Esse último, pudemos perceber, constitui uma originalidade destacável do arcabouço pedagógico espírita, uma vez que os demais setores podem ser encontrados nas propostas de Pestalozzi, Froebel, Comenius, Rousseau. Trata-se, segundo Incontri, do setor destinado à educação para a vivência consciente da interexistência, fundamento primeiro da Pedagogia Espírita que já apresentamos aqui. 3.3 – A Práxis A Educação Espírita, como pudemos ver, emerge do escopo teórico do Espiritismo, contudo, foi na aplicação prática desses princípios que surgiu, a Pedagogia Espírita, considerada pelos seus intelectuais como uma contribuição filosófica originalmente brasileira. Incontri, a partir da análise dessas práticas educativas, empreitadas por educadores espíritas, organiza em sua pesquisa de doutoramento, um conjunto de eixos práticos dessa teoria da educação. Todavia, é imperioso alertar que na bibliografia considerada de referência dessa pedagogia, na encontramos alusão a um método espírita de educação, 49 pelo contrário, a pedagogia espírita assume que cada escola espírita deve se constituir de acordo com sua comunidade (por isso diferentes entre si), respeitando o arcabouço teórico-filosófico do espiritismo. “A proposta é mesmo a de considerar as circunstâncias socioculturais locais onde a escola vá se instalar e ainda de se invocar a participação ativa e criativa dos membros da comunidade escolar, o que implicará necessariamente em modelos diferenciados.”(INCONTRI, 2001, p. 295). Dando continuidade a tarefa proposta nesse estudo, apresentaremos os eixos que segundo Incontri, caracterizam, no seu conjunto, a práxis da Pedagogia Espírita. São eles: A escola livre e afetiva, atividades éticas, produções estéticas, produções intelectuais, abolição dos castigos e recompensas, cultivo da espiritualidade, autogestão administrativa, co-gestão pedagógica, compromisso social e escola universal. A escola livre e afetiva baseia-se nos fundamentos do amor e da liberdade, já expostos nesse trabalho, e é ao mesmo tempo, uma proposta e uma crítica ao modelo escolar dos nossos dias. A pedagogia espírita é contundente em sua crítica a mercantilização da educação, à burocracia, competição incentivada e conseqüente exclusão produzida pelo sistema escolar homogeneizante que o sistema capitalista se utiliza, dentre outras coisas, para produzir a sociedade neoliberal em que vivemos. Herculano Pires afirmou nos idos de 1970, em meio ao movimento pela educação espírita, que organizou três congressos e publicou uma revista: “A exploração comercial da educação é um mal cujas conseqüências sociais ainda não podemos avaliar”. (PIRES, 1990, p. 130). Dora Incontri defende que deverá ocorrer uma transformação radical da escola: 50 “A obrigatoriedade, o formalismo, a burocratização do ensino, as relações hierárquicas — tudo isso fica abolido e a escola deve renascer livre e amorosa. Os currículos fixos, as programações rígidas, os resultados homogeneizantes, a educação em massa, em que todos são coagidos às mesmas atividades, ao mesmo tempo, com idênticos resultados — tudo isso deverá desaparecer. O ambiente escolar deve ser transmudado.” (INCONTRI, 2001, p. 295). A autora propõe, dentre outras coisas, fortemente influenciada pelas experiências de Ney Lobo, no Lins de Vasconcelos e de Eurípedes Barsanulfo, no colégio Allan Kardec, que a rigidez dos currículos, as salas tradicionais, e as atividades impostas e sem sentido não têm espaço na escola livre e afetiva. A arquitetura deverá ser pensada para estimular o gosto estético e harmonizar a mente ao coração. (Idem). A comunidade escolar deve estar altamente envolvida, dentro e fora da escola, em ações éticas. Sempre orientadas e planejadas pelos educandos, sob os auspícios dos educadores. Tais ações pertencentes ao eixo atividades éticas, proposto por Incontri, deve despertar no educando a preocupação solidária com o outro, fazendo britar, na prática, não só o sentimento ou a racionalização da justiça e solidariedade, mas a ação pautada por esses valores. Uma das propostas práticas da Pedagogia Espírita é que sejam disponibilizadas aos educandos as mais belas produções estéticas que a humanidade já produziu. Essa proposição parte da idéia de que a arte “é uma forma de manifestação existencial do Espírito” (INCONTRI, 2003, p.175). Isso significa que, para os intelectuais espíritas adeptos da pedagogia que ora estudamos, a arte não é um dom inato de algum privilegiado, o artista, ou ainda somente pinturas, esculturas poesia e música, cinema, etc. Arte é a expressão cotidiana do homem e faz parte da integralidade do ser na interexistência. A 51 preocupação estética, da educação incentiva o educando na busca pela perfeição em todas as coisas, “Amor, Sabedoria e Beleza são aspectos inseparáveis da perfeição”. (Idem). Dessa forma contribui, a educação estética para o fim último da educação espírita. De modo geral a Pedagogia Espírita propõe que “elementos estéticos estejam presentes no meio ambiente e no conteúdo da educação”.(Ibidem, p.176), pois a arte tem uma função indutiva, podendo estimular ao aprendizado e à convivência elevada, ou ainda à melancolia e ao pessimismo depressivo. Para eleição de conteúdos estéticos que contribuam para o bom convite à autoeducação, Incontri sugere: “Nesta escolha do melhor, não adianta nos apegarmos aos rótulos. Não se trata, por exemplo, de oferecer apenas música erudita e jamais a música popular. Há muita boa música popular e muita música erudita sombria...” (p. 177). Não se trata de proibição de certas produções, mas de apelo ao espírito crítico dos educadores e dos educandos. Especificamente, essa pedagogia propõe que se deve estimular a criatividade, incentivar a produção artística, inclusive dotando o educando de certas técnicas específicas dessa ou daquela arte, de acordo com o interesse de tendências dos educandos, mas nunca valorizando a técnica em detrimento da criatividade, que “(...) trabalhada pela educação estética não servirá apenas para a execução de obras de Arte. Desenvolverá a capacidade criativa do indivíduo inteiro, que poderá estende-la a qualquer atividade intelectual, manual ou moral”. (Ibidem, p. 178). A educação estética é ainda defendida, por Dora Incontri, em seu livro A educação segundo o espiritismo (Comenius, 2003), como uma espécie de “luta e resistência cultural” ao processo de massificação mercantilizadora da arte, 52 que bombardeia nossos sentidos todos os dias, com os produtos do mercadão de sucessos musicais, de best seller da auto-ajuda (inclusive no promissor mercado editorial espírita) e de produções cinematográficas com violência e terror gratuitos. No que diz respeito às produções intelectuais a Pedagogia Espírita propõe que a escola seja uma universidade em miniatura, incentivando a reflexão crítica, o espírito científico e todo o tipo de produção intelectual. Nesse sentido, não há espaço para a rigidez das disciplinas e dos conteúdos predeterminados. O conteúdo a ser estudado deve partir do interesse dos alunos ou ainda de necessidades reais, para aplicação prática. “O que se deve evitar é a abstração ininteligível, a memorização vazia, o ensino mecanicista de conceitos inaplicáveis na vida comum” (INCONTRI, 2001, p. 298). A abolição de castigos e recompensas é um imperativo quando se fala de uma educação baseada na liberdade, na solidariedade e no amor. A autora propõe que a escola deve abolir, regimentalmente, qualquer subterfúgio punitivo premiações de toda sorte, inclusive as notas, a exemplo do que fez Barsanulfo em Sacramento. “As avaliações serão feitas na base das produções de cada um e nunca de forma numérica, quantitativa, mas de maneira descritiva, qualitativa, para melhorar o trabalho, encarando-se erros e problemas como naturais da aprendizagem. Em parceria com o educador, o aluno fará sua autoavaliação, apontando aquele os aspectos que devem ser aperfeiçoados e informando este as suas dúvidas e dificuldades”. (Ibidem, 299). A pedagogia espírita propõe ainda que todos os problemas da escola sejam resolvidos ou que as soluções sejam buscadas com base no diálogo. Conversas entre educadores e educandos devem ser constantes, assim como 53 assembléias gerais para discutir os comportamentos de grupos e as necessidades para melhor convivência, bem como para a gestão da escola. Como forma de superar essa educação de resultados condicionadora que temos atualmente a autora propõe o diálogo. Na esteira dessa proposta, de uma escola renovada, emerge a necessidade também de novas formas administrativas para a instituição escolar. A proposta apresentada pelos teóricos da pedagogia que destacamos como objeto desse estudo, é a da autogestão administrativa. Todavia, embora a proposta seja feita claramente, Incontri não passa nenhum receituário. Apenas defende a idéia de que as esferas administrativas e pedagógicas estejam atreladas e por isso a administração da escola espírita não deva ferir nenhum dos fundamentos que a caracteriza como tal. E em coerência ao princípio da escola livre e afetiva, deixa para as comunidades resolverem essa questão, da melhor forma que lhes couber, somente alertando que a relação patrão-empregado deve ser abolida e que uma escola espírita não deve ter o lucro como objetivo: “O importante é manter os princípios de liberdade e igualdade, onde todos os que participem da comunidade escolar possam ser ouvidos, tomem parte em decisões que os afetem diretamente e tenham acesso à visão geral da administração da escola”. (Ibidem, p. 303). Outra proposta, a co-gestão pedagógica, caracteriza-se pela disponibilização para toda a comunidade escolar, de todos os conhecimentos que cada um, partícipe dessa comunidade, possui. Isso significa que pais, alunos e funcionários, poderão sugerir grupos de estudos, laboratórios, projetos de pesquisas e praticar a liberdade de ensinar e aprender. 54 Por fim o compromisso social da comunidade escolar é a responsabilidade de a escola estar inserida na realidade que a cerca, devendo, manter diálogo com as instituições locais. A escola social deve ainda, segundo Incontri, incentivar seus membros (pais alunos, docentes e técnicoadministrativos) a militarem em causas que envolvam o bem coletivo, como campanhas fraternas e de defesa de direitos. “A escola social “(...) é aquela que o educando toma consciência na prática, dos problemas de seu meio e das suas possibilidade de atuação efetiva”(Ibidem, p. 305) para a transformação. A Pedagogia espírita propõe um novo olhar para o ser humano, de cidadão, radicado numa localidade e numa nação, passa o ser humano a ser encarado como um cidadão do universo. Esse conceito vai além de qualquer teoria internacionalista, pois segundo o espiritismo, há uma multiplicidade de mundos habitados por espíritos, em todo o universo. O eixo escola universal trata especificamente desses dois aspectos da escola espírita. O primeiro é que ela deve manter contato com outras culturas no planeta terra, vivenciando a proposta de tolerância étnica e religiosa dessa pedagogia espírita. O ensino de línguas ganharia o sentido de aproximar diferentes povos, e de aprender o que há de positivo em suas culturas, ao invés de ser exclusivamente utilizado como “valor agregado” ao curriculum do trabalhador especializado, entendimento que somente aprofunda a desigualdade social capitalista, pois a escola para o povo raramente proporciona um ensino satisfatório, tornando a aquisição de uma segunda língua privilégio de poucos. Também nessa perspectiva de cidadão do cosmos, o ensino de astronomia, proposto por Barsanulfo e por Novelino, influenciados por Camille Flamarion ganha força e materialidade, mostrando a responsabilidade em pacifica-lo, pois o ser 55 humano, no entendimento espírita, independente de qualquer contexto étnico, racial, sóciocultural e de gênero, faz parte de uma mesma família estelar. Como pudemos perceber, e tentamos demonstrar nesse trabalho a Pedagogia Espírita este inserida na tradição filosófica espiritualista, que remonta a Sócrates e Platão. Como tal não pode deixar de trabalhar com entendimentos e propostas que considerem uma realidade transcendente do ser humano. No caso da pedagogia espírita ela trabalha com o entendimento de que o homem é um espírito reencarnado, e isso, como já vimos anteriormente, reconfigura toda sua proposta pedagógica, fazendo parecer de certa forma anacrônica. Contudo, é bom lembrar, até por questão de honestidade intelectual, que a pedagogia espírita não trabalha com a idéia de que a tradição filosófica espiritualista esteja superada. Pelo contrário, trabalha com a idéia de que ela tem sido sistematicamente silenciada, como tentamos demonstrar na introdução ao nosso texto. Dessa forma o cultivo a espiritualidade, ganha lugar de destaque práxis pedagógica espírita, pois ela faz, segundo seu entendimento, parte da realidade interexistente do ser humano, e não pode ser negada, sob o prejuízo de realizar uma educação parcial, e não integral, que é sua intenção. Especificamente nesse eixo propõe que: “(...) toda prática pedagógica espírita deve estar impregnada de intensa espiritualidade, entendendo-se que não se trata aí de fanatismo religioso e nem de dogmatismo específico. Ao mesmo tempo em que se deve oferecer aos alunos, o conhecimento de todas as religiões, com suas práticas e filosofias, de forma imparcial e precisa (e para isso podem ser trazidos os representantes de cada uma ou os próprios alunosadeptos podem fazer suas intervenções, mostrando aos outros a sua fé), deve-se cultivar uma religiosidade genérica. Orações em conjunto; leituras de textos religiosos de diferentes correntes (que não ofendam as outras presentes), discussões sobre religiões comparadas e filosofia espiritualista — tudo isso deve lançar o aluno na dimensão do espiritual, fazendo-o 56 compreender que se trata de uma dimensão humana, natural e universal, necessária ao pleno desabrochar do homem”. (Ibidem, p. 300). 57 CONSIDERAÇÕES FINAIS Bogdan Suchodolski (1992), filósofo e pedagogo polonês propôs em seu livro A Pedagogia e as Grandes Correntes Filosóficas (Livros Horizonte, 1992) a divisão das correntes pedagógicas em dois grandes grupos, o das Pedagogias da Essência e o das Pedagogias da Existência. Essa divisão, entre essência e existência, entendida pelo polonês como conflito fundamental do pensamento pedagógico, é decorrente da oposição histórica na filosofia, entre as Filosofias da Essência e as Filosofias da Existência. A querele entre as Pedagogias da Essência e as Pedagogias da Existência, tem sua origem no renascimento, quando uma série de transformações sociais, políticas e intelectuais tornam-se fontes de novas concepções de homem e colocam em cheque o monopólio da cosmovisão religiosa tradicional e sua autoridade em ditar as normas da atividade humana. (SUCHOLDOLSKI, 1992). As Pedagogias da Essência, abstraindo-se aqui, a sua diversidade (que foi riquíssima) e o papel histórico desempenhado por cada uma delas, por não caber nesse espaço uma reflexão mais demorada sobre o assunto. Constituíam-se fundamentalmente por postularem que o ser humano possui uma essência, que vai além da experiência empírica, e que a educação tem como referência essa essência, devendo atuar para que o homem se aproprie na existência de sua essência verdadeira e também para destruir o que pode corrompê-lo, é em suma uma educação voltada para um homem idealizado. Elas encontram sua origem em Platão, passando por todas as pedagogias religiosas, protestantes e católicas, pela Educação Natural de Comenius e Locke e pela originalidade idealista de Kant, Fichte, Hegel, até chegar nas 58 tentativas de existencialização da Pedagogia da Essência no século XIX. (Idem) As Pedagogias da existência deu seus primeiros passos no século XVII, sob a predominância das diversas formas da concepção da pedagogia da essência. Conciste, fundamentalmente na negação da essência, defendendo que o homem e a vida humana estão limitados às experiências empíricas. Remonta aos estudos de fim da vida de Comenius, que proporcionaram o entendimento de considerar a criança viva e espontânea. Contudo foi, segundo Suchodolski, Rousseau o primeiro que se lançou radicalmente em oposição à pedagogia da essência e à criação de perspectivas para a construção de uma pedagogia da existência. Pestalozzi e Froebel (1782-1852) são considerados seguidores de seu pensamento, defendendo a máxima de que a educação deve realizar-se a partir da própria vida da criança. (Idem) Para o filósofo e pedagogo polonês as tendências opositoras da pedagogia da essência ainda estavam numa fase incipiente, “marcadas ainda por um cunho de generalidade e homogeneidade (Ibidem, p. 57)”. Foi somente no século XIX que teve início um processo de diferenciação da pedagogia da existência, dado pelo conjunto das obras, de Kierkegaard, Stiner e Nietzsche, cada qual com sua especificidade e diferenças. Também as teorias da evolução de Darwin, Spencer e Bérgson, mais uma vez guardada as especificidades, contribuíram para a constituição dessa grande corrente do pensamento pedagógico (Idem). Na perspectiva de solucionar o conflito entre essas duas grandes correntes do pensamento pedagógico, Suchodolski encontra os esforços da educação nova, das pedagogias do grupo social e da cultura e das pedagogias 59 metafísicas. A primeira, partindo da criança/indivíduo como sujeito da sua educação esbarra no conflito entre a utopia da pedagogia do desenvolvimento e do conformismo da pedagogia da adaptação. As segundas, igualmente, mas por caminhos diferentes, reeditam esse mesmo conflito. Suchodolski afirma ao final da análise que empreitou sobre essas pedagogias: “O problema do conflito entre o desenvolvimento do caráter humano universal da criança e o âmbito real de sua vida mantinha-se sem solução”. (Ibidem, p. 117). A terceira corrente, em oposição à educação nova e às pedagogias do grupo social e da cultura, por considera-las insuficientes, afirma que era preciso concentrar a educação no nível metafísico do homem ao invés de “tomar como ponto de partida o curso presente da vida do indivíduo” ou ainda as “exigências da história social ou da cultura”. (p. 119), configurando-se como uma moderna pedagogia da essência, enquanto as outras estariam no âmbito das pedagogias da existência. O conflito ainda era eminente. Para Bogdan Suchodolski, as tentativas de união entre as pedagogias da essência e da existência, na perspectiva de superar o moderno conflito entre essas – “Unir educação e vida de modo que não seja necessário um ideal, ou definir um ideal tal que a vida real não seja necessária”. (p. 123) – davam uma força perigosa às tais tendências, por terem atingido ganhado certa força com as correntes nacionalistas de vários países, inclusive o fascismo e o hitlerianismo. Considerando que essas duas correntes seculares do pensamento pedagógico, traíram seus princípios fundamentais – a pedagogia da existência: a defesa do desenvolvimento livre do homem; a pedagogia da Essência: uma educação baseada em valores universais e permanentes – porque acabaram 60 por reforçar a noção de que “as contradições que se manifestavam não provinham das más relações sociais” e sim de uma noção errada dos direitos do indivíduo e da sociedade, o que implicava em “(...) transformar, não as relações sociais, mas a maneira de conceber a existência individual e o ideal, causas dessas contradições”. (Ibidem, p. 126). Daí o filósofo afirma: “A pedagogia devia ser simultaneamente pedagogia da existência e da essência, mas esta síntese exige certas condições que a sociedade burguesa não preenche, exige também que se criem perspectivas determinadas de elevação da vida quotidiana acima do nível actual. O ideal não deve nem sancionar a vida actual, nem deve tomar uma forma totalmente alheia a essa vida”(Ibidem, p. 127) Suchodolski propõe a educação virada para o futuro como único caminho para a resolução da antinomia do pensamento pedagógico moderno. O autor caracteriza essa pedagogia, numa perspectiva de um sistema social à escala humana, como uma tendência pedagógica que não aceita o estado de coisas existentes e que atue para transforma esse estado de coisas. Deve ser crítica ao presente e acelerar a construção do novo. “Uma tal crítica pressupõe um ideal que ultrapasse o presente; neste sentido, a educação virada para o futuro integra-se na grande corrente pedagógica que designamos por pedagogia da essência. Trata-se contudo de uma simples afinidade pois tem profundas divergências, constituindo a diferença essencial no facto de este ideal se caracterizar por uma diretriz de acção no presente, ação que deve transformar a realidade social de acordo com as exigências humanas. Na medida em que o ideal que inspira a crítica da realidade deve representar uma directriz para a acção no presente tem de organizar as forças actuais e deve encorajar o homem a fazer uma opção no momento actual. A educação orientada para o futuro ligase neste sentido à segunda grande corrente do pensamento pedagógico, à pedagogia da existência. Todavia, também aqui não encontramos senão uma afinidade; a diferença essencial consiste em que, nesta concepção da educação, a vida é o aspecto presente da edificação do futuro”. (SUCHODOLSKI, 1992, p. 129)25. 25 Grifos meus. 61 Perceba que os trechos grifados encontram certa similaridade com as propostas da pedagogia espírita, como, por exemplo, o entendimento de que a educação tem como objetivo a transcendência do espírito, mas propões uma ação na existência, considerando a vida presente como pilares da edificação do futuro (PIRES, 1990). Sua origem deriva das tendências que não aceitam o princípio da adaptação ao presente como se fosse o ponto de partida fundamental da educação e a inda daqueles que entendiam a crítica do presente como um “apelo para melhora-lo” e não um convite para evadir-se dele. Propõe ainda que a educação tradicional deve ser abandonada, pois estariam completamente anacrônicas em relação à nova realidade social e econômica. A formação social, no sentido que cada cidadão se torna responsável pela democracia, tem posição de destaque nessa pedagogia proposta pelo polonês. A educação moral, como educação da vida cotidiana em situações sociais concretas, também ganha destaque. Não cabe aqui o alongamento na análise da pedagogia de Suchodolski, apenas nos interessa o alinhavamento desta, a fim de poder refletir sobre a questão da superação do conflito das pedagogias. Se fizermos um exercício de abstração dos princípios espiritualistas da pedagogia espírita e dos princípios marxianos da pedagogia do filósofo polonês vamos encontrar, como já apontamos, uma série de conjunções, tanto do ponto de vista da crítica aos sistemas educativos burgueses, da perspectiva de futuro e da crítica à sociedade presente, como do ponto de vista dos fundamentos práticos de uma e de outra. 62 A preocupação com a educação cotidiana, que busca ensinar ao homem compreender o próximo e prestar atenção ética a este, encontra similaridade com o princípio da educação ética da Pedagogia Espírita. Ambas buscam romper com a moral superficial e externa dos códigos de conduta e atuam na perspectiva de uma moral que brote do interior do ser humano. Vejamos o que Suchodolski diz: “(...) a educação moral deve fundamentar-se na educação sistemática do homem desde sua mais tenra infância, numa educação que desenvolva e crie ‘este impulso do coração’ imperceptível, de que fala a psicanálise com tanta parcialidade e erro, mas que é todavia um dos mais importantes fundamentos da dignidade humana que se opõe ao fascínio de uma má conduta”. (Ibidem, p. 133). Também a preocupação com a educação social do polonês pode ser encontrada na proposição da escola social da pedagogia espírita, ou ainda nas propostas de autogestão administrativa e co-gestão pedagógica. É claro que quando falamos de conceitos como esses na educação não podemos nos dar ao luxo, como fazem alguns teóricos materialistas, quando se apropriam de pedagogias surgidas no âmbito de uma visão espiritualista de mundo que trabalham com essas como se os tais fundamentos não fossem relevantes. Poderia eu, ou qualquer outro pesquisador, fazer isso com a pedagogia proposta por Suchodolski, desconsiderar seu contexto ideológico histórico e social? É claro que não. A nossa discussão e as comparações feitas entre as pedagogias espírita e “do futuro” têm aqui o intuito de problematizar o monopólio da segunda na busca bem sucedida pela superação do conflito secular exposto na obra de Bogdan Suchodolski. A Educação Espírita propõe o conceito de ser interexistente, e a partir dele estabelece a sua Pedagogia. Poderia ser esse novo entendimento, uma 63 superação do conflito entre as pedagogias? Como pudemos ver, se considerarmos as mesmas categorias que Suchodolski, de educação na existência com vistas no o futuro, de crítica ao presente e de perspectiva social, poderíamos dizer que a pedagogia espírita inaugura uma nova solução para o conflito secular entre as pedagogias da essência e da existência? Ao meu modo de ver essa hipótese não poderia, de maneira alguma, ser refutada de forma simplista pelos materialistas, muito menos ser afirmada rapidamente pelos adeptos da pedagogia espírita. Será preciso debruçar melhor tanto sobre a pedagogia espírita, que se reivindica herdeira do legado de Comenius, Rousseau e Pestalozzi, bem como sobre a pedagogia histórico-crítica, vertente que se fundamenta nas idéias de Suchodolski e tem se dedicado à superação do conflito sob perspectiva marxista. Esse trabalho teve por objetivo, dar voz à pedagogia espírita e seus autores, com o intuito de proporcionar uma reflexão mais profunda sobre as concepções filosóficas e educacionais que permeiam as pedagogias. No que diz respeito às perguntas norteadoras do nosso estudo, cremos ter respondido com satisfação, durante todo o trabalho, as três primeiras, que versavam sobre o conceito, as concepções de homem/criança e as origens da pedagogia espírita. A última “Quais perspectivas podemos esperar, se aplicadas as suas propostas?”, creio ser um tanto quanto precipitado reponde-la de forma definitiva. O que temos são as experiências do passado, que foram bem sucedidas e com certeza contribuíram para a construção de um mundo mais justo e igualitário, assim como diversas práticas pedagógicas progressistas que pipocaram no Brasil durante o século XX. A originalidade da Pedagogia Espírita está justamente em considerar a transcendência humana de forma não 64 alienada da existência, “do aqui e do agora”. É certo que suas propostas têm mais condição de ser desenvolvidas junto a instituições de educação infantil e, sobretudo no campo da educação não-formal (Ong’s), pois as suas teorias estão em campo mais avançado do que a escola fundamental e média, essa ainda muito arraigada ao ensino tradicional e à escola burguesa, enquanto a educação infantil e a educação não-formal assumem teoricamente suas práticas como transformadoras dessa realidade. Outra questão muito cara nessa discussão pé a laicidade da escola publica. Embora Herculano Pires defenda que esse princípio deva estar presente na pedagogia espírita, pois trata da religião, como parte do conhecimento humano e de forma interdisciplinar e não doutrinadora, esse é um terreno complexo que os teóricos da pedagogia espírita deverão enfrentar, sob pena de relegarem-se ao limbo das escolas confessionais. Por fim, ficam as questões, dentre outras: A pedagogia Espírita supera o conflito secular entre a pedagogia da essência e a pedagogia da existência? Que relação teria essa teoria pedagógica com a escola pública? É possível a laicidade numa pedagogia que se admite cristã? O que tem levado o movimento espírita institucional a fechar escolas e institutos espíritas de educação, aparentemente de forma arbitrária? 65 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. Lisboa, Editorial Presença, 1984. ANDERSON, P. As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro. 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