IDENTIFICAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO APL DE MADEIRA E MOBILIÁRIO NOS ESTADOS DO
PARÁ E AMAPÁ
[email protected]
Apresentação Oral-Desenvolvimento Rural, Territorial e regional
ANTÔNIO CORDEIRO DE SANTANA1; ANA KARLLA M. NOGUEIRA2; SÉRGIO CASTRO G3;
FERNANDO TEIXEIRA MENDES4; GISALDA CARVALHO FILGUEIRAS5.
1,4.UFRA, BELEM - PA - BRASIL; 2,3.UNAMA, BELÉM - PA - BRASIL; 5.UFPA, BELÉM - PA BRASIL.
Identificação e caracterização do APL de madeira e mobiliário nos Estados do Pará e
Amapá
Resumo
O objetivo deste trabalho foi o de identificar os locais de maior concentração de atividade
formal dos APL de madeira e mobiliário do Pará e Amapá, bem como caracterizá-los com
base nos principais fatores que podem ajudar a transformá-los em vantagens competitivas.
Para identificar e caracterizar o APL fez-se a agregação de diversas atividades
complementares e/ou correlatas ao invés de aplicar os métodos diretamente a um único
produto. O índice de concentração normalizado foi obtido a partir da aplicação da técnica
estatística multivariada de componentes principais aplicada a três índices iniciais. A
concentração de atividades e setores produtivos ligados ao APL de madeira e mobiliário é
recorrente em mais de 50% dos municípios do Estado do Pará e em apenas cinco municípios
do Amapá.
Palavras-chaves: índices de concentração, cadeias produtivas, componentes principais
Abstract
The objective of this work is to identify the places of greatest concentration of formal activity
of APL, wood and furniture of Pará and Amapá, and characterize them based on the main
factors that can help turn them into competitive advantages. To identify and characterize the
APL has been the aggregation of various complementary activities and /or related instead to
apply the methods directly to a single product. The index of normalized concentration was
obtained from the application of multivariate statistical principal component applied to three
initials index. The concentration of activities and productive sectors connected to APL of
wood and furniture applicant is in more than 50% of municipalities in the State of Pará in
only five municipalities in Amapá..
Key Word: Rates of concentration, supply change, principal components
1
Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009,
Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural
Introdução
A indústria madeireira do Estado do Pará tem importância relevante no conjunto de
atividades produtivas do estado. Emprega cerca de 6,4% da população. Participa com 28,0%
na formação da renda total da produção. Ocupa a terceira posição no rank das exportações e
concentra 75% da madeira extraída de floresta nativa do país (FIEPA, 2007). Do total de toras
de madeira nativa exploradas no Brasil, em 2005, o Estado do Pará respondeu por 57,2% do
volume total, representando cerca de 9,94 milhões de m3. Da madeira extraída na Amazônia
Legal, 68% destina-se ao mercado doméstico e 32% à exportação. No caso de elevação da
renda nos principais centros consumidores e no resto do mundo, tem-se o aumento da
demanda por toras e por outros produtos da biodiversidade amazônica (SANTANA, 2007).
Daí a necessidade da implementação de medidas mitigatórias por parte da união, estados e
municípios, como forma de orientar os agentes econômicos para o uso racional dos recursos
naturais disponíveis.
A inserção da indústria de móveis de madeira da Amazônia Legal no mercado
nacional é incipiente, comparado as Regiões Sul e Sudeste do país, com destaque para as
empresas localizadas em São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, que juntas
foram responsáveis por 91,5% das exportações realizadas pelo setor, em 2005. Enquanto os
estados do Pará e maranhão participaram com 0,8% e 0,4%, respectivamente (GOMES, 2004;
DECEX, 2006; SANTANA, 2005 e 2007), mostrando que a região com maior dotação de
matéria-prima contribuiu minimamente na composição do valor de móveis exportado.
Do total de US$ 4,21 bilhões de madeira e móveis, exportado pelo Brasil, em 2006,
25,9% foi de móveis, cerca de US$1,05 bilhão. A Região Norte exportou US$ 1,07 bilhão de
madeira (madeira serrada, barrotes, madeira fendida, compensado, laminado, cavaco, etc.),
móveis e artefatos (DECEX, 2007; GAMA et al., 2007). Em 2005, no Estado do Pará, 41,9%
do total exportado foi de madeira, enquanto, 58,9% foram móveis, artefatos, e produtos de
valor agregado diverso (DECEX, 2006).
A partir de meados dos anos de 1990, o governo federal tem estimulado a adoção de
políticas industriais e de desenvolvimento com ênfase na formação de sistemas produtivos
locais, em que haja agrupamentos ou aglomerações de empresas, realizando transações com
fornecedores e clientes, instituições públicas, instituições de pesquisa e desenvolvimento
(P&D), associações e cooperativas, de maneira a possibilitar a criação de economias externas
positivas que contribuem na formação de vantagens competitivas locais sustentáveis. No
presente artigo utiliza-se o conceito de Arranjo Produtivo Local (APL)1, seguindo a
conceituação elaborada pela Rede de Pesquisa em Sistemas Produtivos e Inovativos Locais
(RedeSist), coordenada pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de
Janeiro.
Independentemente da nomenclatura utilizada, os APL fazem parte do conjunto de
estratégias que buscam aproveitar os efeitos positivos das aglomerações como forma de criar
e/ou ampliar as vantagens competitivas de empresas e territórios. Como a economia regional
apresenta-se diversificada e difusa por diversos municípios ou microrregiões dentro dos
estados da Amazônia Legal, essa abordagem de APL permite que se compreenda e análise a
trajetória de crescimento desequilibrada que está em curso e não conseguiu dar conta da
1
Conjunto de agentes econômicos, políticos e sociais localizados em um mesmo território, que desenvolvem
atividades econômicas correlatas e que não apresentam vínculos expressivos de produção, interação, cooperação
e aprendizagem (LASTRES, H.;CASSIOLATO, J.; ARROIO, A., 2005).
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convergência dos níveis de renda per capita traçados no bojo dos modelos neoclássicos
implantados na Amazônia.
O objetivo deste trabalho foi identificar os locais de maior concentração de atividade
formal dos APL de madeira e mobiliário do Pará e Amapá, bem como caracterizá-los com
base nos principais fatores que contribuem para o desenvolvimento econômico e social da
região amazônica.
A presente abordagem utilizada para identificar e caracterizar os APL diferencia-se
dos demais textos que tratam do assunto, em função de agregar diversas atividades
complementares e/ou correlatas ao invés de aplicar os métodos diretamente a um único
produto.
O trabalho está distribuído da seguinte maneira, além desta introdução: na segunda
seção, será apresentado o referencial teórico utilizado; na terceira, a metodologia empregada e
os comentários complementares à construção dos indicadores; na quarta, são apresentados e
discutidos os resultados. Na parte final encontra-se a conclusão sobre os principais aspectos
presentes no APL de madeira e mobiliário nos estados do Pará e Amapá.
Referencial Teórico
A discussão sobre as vantagens da aglomeração de atividades produtivas e o
desempenho competitivo surgiu com o trabalho pioneiro de Alfred Marshall (1982) – cuja
primeira edição inglesa foi em 1890 - ao analisar os distritos industriais ingleses, em que
constatou o efeito positivo da aglomeração de empresas de um mesmo ramo de atividade ou
similares, que apresentaram ganhos de escala externos às empresas, conhecido como
externalidades positivas.
Na abordagem desenvolvida por Marshall a localização das atividades fabris resultaria
do ponto de equilíbrio de três fatores: o custo de transporte, o custo de mão-de-obra e um
fator de localização diretamente influenciado pelas forças de aglomeração e desaglomeração.
Ou seja, segue o formulário traçado pela teoria econômica neoclássica. De forma que o
conjunto da indústria alcança rendimentos crescentes externos ou economias externas
localizadas, embora os rendimentos de cada uma das empresas sejam decrescentes
Marshall explica a localização industrial por meio do conceito de distrito industrial. A
concentração de empresas especializadas em atividades complementares permite a formação
de distritos industriais, uma vez que as empresas buscam maximizar seus fluxos de caixa,
criam um sistema social e produtivo que favorece toda indústria.
O trabalho desenvolvido por Weber (1909) ofereceu uma teoria geral da localização
das atividades econômicas. A teoria do custo mínimo, como mais tarde foi denominada ao
assumir que a empresa deve, ao escolher o local para se instalar, levar em conta o nível da
demanda e o preço que pode remunerar seus custos. Assim, a localização ótima é aquela que
minimiza os custos totais, incluindo a produção e a comercialização. Evidentemente, esta
teoria desconsiderava a existência das interações entre as empresas e que a localização sofre
influencias da pressão das demais empresas sobre a demanda.
Becattini (1979) expandiu a noção de economias externas incluindo aspectos
referentes ao custo dos insumos ou da difusão de tecnologia e as instituições sociais e
empresariais inseridas no território. Aspectos como a especialização de empresas em uma fase
de produção e a existência de externalidades associadas à formação e a presença de um
mercado de trabalho especializado, em que os trabalhadores estão preparados a adaptarem-se
as rápidas mudanças na demanda e no padrão tecnológico, são fatores que expressam a
vantagem de localização de uma empresa.
3
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Em um cenário econômico globalizado é importante levar em consideração as
reflexões sobre as possibilidades de desenvolvimento das economias locais e regionais. A
nova geografia economia sustenta que as vantagens competitivas das empresas podem ser, em
grande medida, devido à capacidade delas se apropriarem de ganhos oriundos da aglomeração
dos produtores (KRUGMAN, 1991). Para Krugman, a capacidade de competição em
determinado território é reforçada pela presença de economias externas locais e regionais, que
contribuem para desencadear um círculo virtuoso que amplia os retornos crescentes de escala.
É valido salientar que para Krugman a gestão pública pouco ou nada contribui para otimizar a
eficiência das aglomerações.
A importância da dimensão das relações de confiança e cooperação no ambiente dos
aglomerados foi apresentada por Putnam (2002), após avaliar as características de associação
e práticas cívicas nos distritos industriais italianos. Dessa forma, as relações estáveis de
confiança, reciprocidade e cooperação são vistas como instrumentos preponderantes para
lubrificar as relações entre agentes econômicos e melhorar a eficiência de arranjos
organizacionais intra e entre-firmas (MACIEL, 2003). O escopo analítico proposto por
Francis Fukuyama (2000) admite que as relações de confiança, estabelecidas entre os grupos
locais, tem influencia significativa sobre os custos de transação entre as empresas, e na
geração de vantagens competitivas locais e regionais.
O conceito de sistema e arranjo produtivo local (APL) é fundamentado na visão
evolucionista sobre inovações tecnológicas e de gestão, envolvendo tudo que deriva do
processo institucional de produção e difusão tecnológica e do movimento dinâmico que
ocorre no seu entorno por conta dos encadeamentos produtivos intra e interempresas, das
transações comerciais via mercado ou via rede hierárquica, da dinâmica do mercado de
trabalho e da ação coletiva e voluntária protagonizada pelos atores em busca da realização de
objetivos comuns, ou seja, de forma sistêmica combina as principais raízes teóricas do
desenvolvimento econômico.
Em tese, um APL pode ser caracterizado por concentrações geográficas de empresas
setorialmente especializadas (com ênfase nas micro e pequenas), onde a produção de um bem
ou serviço tende a ocorrer verticalmente desintegrada e em meio a sólidas relações
interempresas (mercantis e não-mercantis, competitivas e cooperativas) a montante e a jusante
na cadeia produtiva (SCOTT, 1988; SCHMITZ, 1999; PORTER, 1999; SANTANA, 2004).
Nesse ambiente geográfico, em geral, são encontrados: serviços especializados de apoio à
produção e comercialização; redes de instituições públicas e privadas que dão sustentabilidade
às ações dos agentes tanto de representação quanto de auto-ajuda; identidades socioculturais,
relacionadas ao histórico comum dos membros da sociedade local
A sua dinâmica de funcionalidade e evolução é atingida ao se atender a um conjunto
de condições necessárias e outro de suficiência. As condições necessárias ao desempenho
competitivo do APL são (SANTANA, 2005): a existência de uma concentração de empresas
(ênfase nas micro e pequenas), especializadas em dado bem ou serviço, ou setor da economia;
organizações sociais estruturadas e operando ativamente no local (contribui para a formação,
articulação e evolução do capital social para o APL); mercado de trabalho estruturado para
atender às especificidades das atividades que se desenvolvem no APL; estoque de ciência,
tecnologia e inovação (C, T & I), contemplando a produção e difusão de inovações
tecnológicas apropriadas para as atividades locais do APL; infra-estrutura produtiva e de
comercialização em operação no local. A condição de suficiência que envolve a ação conjunta
e voluntária protagonizada no âmbito do APL, com vistas ao alcance de objetivos em nível da
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coletividade de empresas e demais atores, ou seja, produzir eficiência coletiva em que o
resultado da diminuição nos custos, combinada com aumento de produtividade resulta da ação
de todos e galgar as economias de aglomeração2.
Assim, é útil adotar o conceito de APL proposto pela Rede de Pesquisa em Sistemas
Produtivos e Inovativos Locais (RedeSist), coordenada pelo Instituto de Economia da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, de que os sistemas locais de produção e inovação
“referem-se a conjuntos de agentes econômicos, políticos e sociais, localizados em um mesmo
território, que apresentam vínculos consistentes de articulação, interação, cooperação e
aprendizagem. Incluem não apenas mas também outras instituições públicas e privadas à
formação e treinamento de recursos humanos, pesquisa, desenvolvimento e engenharia,
promoção e financiamento”. Demais disso, para contemplar os arranjos locais ainda não
inteiramente constituídos e que certamente domina o cenário da Amazônia, a RedeSist adotou
o conceito operacional de arranjos produtivos locais (APL) para incluir as “aglomerações
produtivas cujas articulações entre os agentes locais não é suficientemente desenvolvida para
caracterizá-las como sistemas”3.
Nesta pesquisa, adotou-se um conceito de aglomeração empresarial fundamentado
apenas no conjunto de empresas formais, com a clareza de que nessas aglomerações as forças
que geram as externalidades econômicas estão apenas latentes no local.
Metodologia
Fonte de dados e agrupamento das atividades econômicas
Muitos trabalhos dedicaram-se ao estudo da identificação, descrição e importância das
aglomerações empresariais como determinantes da localização industrial. Esses trabalhos
centram esforço sobre as possíveis implicações dessas aglomerações para o processo de
integração econômica regional e/ou nacional. Os métodos utilizados também são diversos,
combinando uma ou mais técnicas. Neste trabalho, procurou-se aprofundar o rigor dos
métodos estatísticos, adotando-se a metodologia utilizada por Santana (2004), para identificar
APL na Amazônia, com os ajustes e extensões necessários.
Para chegar ao APL de madeira e mobiliário foram agrupadas as seguintes atividades
econômicas por município, segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas
(CNAE): desdobramento de madeira, fabricação de produtos de madeira, celulose, artefatos,
papel e editoração, etc. Essa forma de agrupamento foi realizada levando-se em consideração
a possibilidade de operar ações complementares conjuntas a montante e a jusante na cadeia
produtiva, visando criar economias de aglomeração por meio das ações coletivas.
O nível de emprego formal captado pela RAIS foi a variável utilizada para definição
das aglomerações empresariais formais dos municípios investigados nos estados do Pará e
Amapá, por manter forte correlação com o capital humano, capital social, utilização e difusão
de inovações tecnológicas, escala de produção, aglomeração empresarial e crescimento
econômico.
Indicadores estatísticos
Três indicadores foram utilizados na determinação do índice de concentração
normalizado. O índice de especialização ou quociente locacional (QL), que leva em
2
Economia de aglomeração diz respeito à redução dos custos pelo fato de empresas similares estarem
localizadas na mesma área. Essas empresas ou unidades produtivas podem ser relacionadas como
competidores na mesma indústria, por utilizar os mesmos insumos e matérias-primas, ou produtoras para as
demais industriais.
3
RedeSist, http://www.ie.ufrj.br/redesist/. Cassiolato et al. (2001); Lastres et al. (1998).
5
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consideração a especificidade de uma atividade ou setor dentro de uma região (município) e
serve para determinar se um município em particular possui especialização em dada atividade
ou setor específico e é calculado com base na razão entre duas estruturas econômicas. A
fórmula matemática é a seguinte:
QL

= 


E /E
E /E
ij
iP



P 
j
em que: Eij é o emprego da atividade ou setor i no município em estudo j; Ej é o emprego
referente a todas as atividades que constam no município j; EiP é o emprego da atividade ou
setor i no Pará e Amapá; EP é o emprego de todas as atividades ou setores no Pará e Amapá.
A maioria dos trabalhos considera que existiria especialização na atividade ou setor i
no município j, caso o seu QL seja superior a um. Outros estudos mais rigorosos adotaram
como critério o QL igual a dois ou três. Tendo em vista que a escala econômica do local
depende de sua especialização produtiva ou base exportadora (FUGITA et al., 2002), o QL
serve para identificar os municípios de base exportadora ou de maior densidade econômica.
O indicador que mede o real peso da atividade ou setor em relação à estrutura
empresarial da economia do Estado, conhecido como índice modificado de concentração de
Hirschman-Herfindahl (IHH), é definido da seguinte forma:
IHH


= 

E 

E 
ij
iP
E  

−

E
  
j
P
O IHH permite comparar o peso da atividade ou setor i do município j no setor i do
Pará ou Amapá em relação ao peso da estrutura produtiva do município j na estrutura do Pará
e Amapá como um todo. Um valor positivo indica que a atividade ou setor i do município j
está, ali, de forma mais concentrada e, portanto, com maior poder de atração econômica, dada
sua especialização em tal atividade ou setor.
O terceiro indicador foi utilizado para captar a importância da atividade ou setor i do
município j diante do total de emprego na referida atividade para a economia dos estados, isto
é, a participação relativa da atividade ou setor no emprego total da respectiva atividade ou
setor no Pará ou no Amapá. A fórmula é dada por:
PR

= 


E
E
ij
iP




O indicador varia entre zero e um. Quanto mais próximo de um maior a importância
da atividade ou setor i do município j no Pará.
Índice de concentração normalizado
Os três indicadores descritos fornecem os insumos básicos para a construção de um
indicador mais geral e consistente de concentração empresarial ligado a uma atividade ou
setor econômico em um município, denominado de índice de concentração normalizado
(ICN). A constituição do ICN seguiu parte do procedimento de Crocco et al. (2003) e Santana
(2004; 2005b), mediante a combinação linear dos três indicadores especificados.
(1)
ICN ij = θ 1 QL + θ 2 IHH ij + θ 3 PRij
ij
em que:
6
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θ1, θ2 e θ3 = são os pesos de cada um dos indicadores para cada atividade ou setor produtivo
em análise.
Para o cálculo dos pesos θ de cada um dos índices especificados na equação 1,
empregou-se o método da análise de componentes principais. Este método produz alguns
resultados de interesse para esse trabalho. Assim, a partir da matriz de correlação dos
indicadores, a análise das componentes principais revela a proporção da variância da
dispersão total da nuvem de dados gerada, representativa dos atributos de aglomeração, que é
explicado por cada um desses três indicadores. Dessa forma, foram calculados os pesos
específicos para cada indicador, levando em consideração suas participações na explicação do
potencial para a formação de arranjos produtivos locais que os municípios apresentam
setorialmente no Pará e Amapá.
O índice de concentração normalizado (ICN) permitiu identificar os municípios do
Pará e Amapá, que apresentaram especialização em dado APL. Para isso, adotou-se como
especializado o município que concentrou APL com valor de ICN acima do ICN médio e
como epicentro do APL aqueles municípios com valor de ICN superior ao ICN médio mais
um desvio padrão (SANTANA, et al, 2008).
Resultados e Discussões
Localização do APL de madeira e mobiliário no Pará e Amapá
Os resultados sobre os índices QL, IHH e PR para os municípios dos Estados do Pará
e Amapá são analisados isoladamente com o objetivo de avaliar a o grau de especialização das
atividades, em relação ao resto da economia dos Estados, a importância real da atividade ou
setor da economia no Estado e a participação da atividade ou setor da economia em relação ao
estado, de acordo com o quantitativo de emprego formal da RAIS de 2005.
A Tabela 4 mostra que a grande maior dos municípios do Estado do Pará apresentaram
índice de localização menor ou igual a um, indicando que, cerca de 97 municípios (67,83%)
não apresentam nenhum grau de especialização em atividades ligadas ao beneficiamento de
madeira. Outros 22 municípios (15,38%) têm QL <3, neste caso, para alguns autores menos
rigorosos, há evidências da especialização de atividades dentro do APL de madeira e
mobiliário. Com QL ≥ 3, caso em que o nível de especialização é elevado, encontra-se 24
municípios paraenses, sendo que sete estão com QL ≥ 6, são eles, em ordem decrescente do
índice: Placas, Portel, Jacundá, Breves, Abel Figueiredo, Novo Repartimento e Santa Bárbara
do Pará. Cabe destacar que nos quatro primeiros municípios estão localizadas grandes
empresas nacionais e multinacionais que realizam exportações utilizando suas próprias
estruturas portuárias.
Tabela 4 Número de municípios por estrato do índice QL, Estados do Pará e Amapá,
2005
Pará
Amapá
Classe
Num.
Num.
%
%
Municípios
Municípios
QL < 1
97
67,83
13
81,25
1≤ QL < 3
22
15,38
0,00
3 ≤ QL < 6
17
11,89
1
6,25
4
2,80
0,00
6 ≤ QL < 10
QL ≥ 10
3
2,10
2
12,50
TOTAL
143
100,00
16
100,00
Fonte: Resultados da pesquisa
7
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Segundo Crocco et al. (2003), o QL >1 pode estar indicando apenas uma diferenciação
produtiva, em função da disparidade dos municípios existentes em dada região ao invés de
significar especialização. Dessa forma é provável que para alguns municípios o QL bastante
elevado decorra da baixa densidade da estrutura empresarial do local, ou seja, apenas uma
empresa responde pela maior parte dos empregos gerados em dada atividade.
No Estado do Amapá, 13 (81,25%) dos 16 municípios não apresentaram
especialização em atividades ligadas ao setor de beneficiamento de madeira, em 2005. O
restante dos municípios registrou QL ≥ 3, evidenciando a especialização de atividades e
setores, são eles: Tartarugalzinho, Porto Grande e Santana.
A distribuição do número de municípios segundo os estratos do índice IHH, no Estado
do Pará, mostra que em 97 municípios (67,83%) apresentaram índice negativo (Ver Tabela 5),
indicando que nesses municípios as atividades do APL de madeira e mobiliário estão menos
concentradas, ou seja, com menor poder de atração econômica e, por conseguinte, não
justifica a adoção de políticas públicas que visem o desenvolvimento do setor de
beneficiamento de madeira. O restante dos municípios registrou índice acima de zero,
evidenciando a concentração de atividades ligadas ao APL de madeira e mobiliário, com
destaque para os municípios de Placas, Portel, Jacundá e Breves, em que o índice fica acima
de 0,4.
Tabela 5 Número de municípios por estrato do índice IHH, Estados do Pará e Amapá,
2005
Pará
Amapá
Num.
Num.
Classe
Municípios
%
Municípios
%
IHH≤ 0
97
67,83
13
81,25
0 < IHH ≤ 0,2
31
21,68
1
6,25
0,2 < IHH ≤ 0,4
11
7,69
2
12,50
0,4 < IHH ≤ 0,
6
2
1,40
0,00
IHH > 0,6
2
1,40
0,00
TOTAL
143
100,00
16
100,00
Fonte: Resultados da pesquisa
O índice IHH para o Estado do Amapá, índica o baixo nível de especialização de 13
(81,25%) dos 16 municípios do estado, em relação as atividades desenvolvidas pelo APL de
madeira e mobiliário. Os municípios de Tartarugalzinho, Porto Grande e Santana destacam-se
com índice acima de zero.
A Tabela 6 apresenta a distribuição dos municípios por classe de estrato do índice PR,
que mostra a importância das atividades ligadas ao APL de madeira e mobiliário no município
em relação ao Estado do Pará. Como os resultados estão mais próximos da extremidade zero,
isso mostra que a participação relativa das atividades desse APL é pequena. É importante
observar que este índice foi gerado a partir do quantitativo de empregos formal, de maneira
que essa estimativa não reflete a realidade das relações de trabalho no setor de beneficiamento
de madeira. No Estado do Amapá, a distribuição das classes do índice PR, mostra que 68,75%
dos municípios têm PR=0. Com índice acima de 0,06 encontram-se os municípios de
Tartarugalzinho, Porto Grande, Santana e Macapá.
Tabela 6 Número de municípios por estrato do índice PR, Estados do Pará e Amapá,
2005
8
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Classe
Pará
Amapá
Num.
Num.
Municípios
%
Municípios
%
PR≤ 0
58
40,56
11
68,75
0 < PR ≤ 0,02
71
49,65
1
6,25
0,02 < PR ≤ 0,04
8
5,59
0,00
0,04 < PR ≤0,06
2
1,40
0,00
PR > 0,6
4
2,80
4
25,00
TOTAL
143
100,00
16
100,00
Fonte: Resultados da pesquisa
Os resultados da Tabela 7 indicam que os índices QL e IHH resultam em uma mesma
distribuição dos municípios no rank desses índices, o que pode ser explicado pela
complementaridade entre os indicadores, em que a especialização ou concentração das
atividades do APL de madeira e mobiliário é resultante das relações utilizadas na composição
dos indicadores.
Tabela 7 – Rank dos municípios segundo índice estatístico QL, IHH e PR, Estado do Pará,
2005
Ran
k Municipios
QL
Rank Municipios
IHH Rank Municipios PR
15,924
Parágomin 0,118
1º Placas
1º Placas
1º
0
0,7752
as
8
14,473
0,110
2º Portel
2º Portel
2º Belém
1
0,6999
5
11,486
Ananindeu 0,092
3º Jacundá
3º Jacundá
3º
3
0,5447
a
7
0,066
4º Breves
4º Breves
4º Breves
9,3778
0,4352
3
Abel
Abel
0,048
5º
5º
5º Jacundá
Figueiredo
7,8331
Figueiredo
0,3549
7
Novo
Novo
6º Repartiment
6º
6º Santarém
0,044
Repartimento
o
7,2883
0,3266
8
Santa
Santa Bárbara
Dom
7º Bárbara do
7º
7º
0,039
do Pará
Elizeu
Pará
6,7479
0,2986
0
Rondon do 0,039
8º Parágominas
8º Parágominas
8º
5,8025
0,2495
Pará
0
0,032
9º Ulianópolis
9º Ulianópolis
9º Tailândia
5,4710
0,2322
8
0,031
10º Uruará
10º Uruará
10º Ulianópolis
5,3048
0,2236
8
Fonte: Resultados da pesquisa
Em relação ao índice PR, em que a participação relativa da atividade ou setor
apresenta maior densidade de empregos formais, observa-se novo conjunto de municípios
com destaque para aqueles em que as atividades do setor madeireiro são mais fiscalizadas
pela delegacia regional do trabalho, dado que já houveram registros de trabalho escravo,
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mutilações de trabalhadores e da participação de crianças e adolescentes, o que forçou as
empresas a adotarem práticas alinhadas com a legislação trabalhista e com o estatuto da
criança e do adolescente. O boicote de empresas internacionais para produtos que utilizem
mão-de-obra escrava e crianças foi marcante na mudança de conduta das empreasas.
A Tabela 8 apresenta a concentração de municípios segundo o índice de concentração
normalizado (ICN). Foram identificados 41 municípios, com o ICN variando de próximo de
zero a pouco menos que seis, no Estado do Pará. No Amapá esse número foi de três
municípios, em que um apresenta ICN no intervalo de um a três, e os outros dois possuem
empresas altamente especializadas no setor madeireiro e imobiliário.
No Estado do Pará 16 (39,0%) municípios registraram índice abaixo da unidade,
indicando que neles o nível de especialização das atividades do setor madeireiro e mobiliário
é baixo. A maior concentração dos municípios está no ICN compreendido entre um e três com
cerca de 21 (51,2%) municípios. Com ICN maior ou igual a 4 (9,8%) tem-se apenas quatro
municípios em que o nível de especialização no APL é elevado.
Tabela 8. Número de municípios segundo Estratificação do ICN, Estados do Pará e Amapá,
2005
Pará
Amapá
ICN
Nº Munic
%
Nº Munic
%
ICN < 1,0
16
39,0
1,0 ≤ ICN < 3,0
21
51,2
1
33,3
4,0 ≤ ICN < 6,0
4
9,8
ICN ≥ 6,0
2
66,7
Total
41
100,0
3
100,0
Fonte: Resultados da pesquisa
Adotando-se como especializado o município que concentrou APL com valor de ICN
acima do ICN médio e como epicentro do APL aqueles municípios com valor de ICN
superior ao ICN médio mais um desvio padrão, o resultado mostra que no Estado do Pará 41
municípios, cerca de 28,7%, foram identificados com base no ICN médio, são eles: Abel
Figueiredo, Afuá, Almeirim, Altamira, Ananindeua, Anapu, Aveiro, Bagre, Baião,
Benevides, Breu Branco, Breves, Bujaru, Cachoeira do Arari, Dom Eliseu, Goianésia do
Pará, Inhangapi, Ipixuna do Pará, Itupiranga, Jacundá, Marituba, Medicilândia, Moju, Nova
Ipixuna, Novo Progresso, Novo Repartimento, Pacajá, Paragominas, Placas, Portel,
Prainha, Rondon do Pará, Rurópolis, Santa Bárbara do Pará, São Miguel do Guamá, Senador
José Porfírio, Tailândia, Tomé-Açu, Trairão, Ulianópolis e Uruará.
Quando se encontra o intervalo formado pelo ICN médio mais um desvio padrão do
índice, ou seja, aqueles municípios com potencial para desenvolver o APL, o número para 18
(12,5% do total de municípios), permanecendo os seguintes municípios: Abel Figueiredo,
Bagre, Breu Branco, Breves, Dom Eliseu, Goianésia do Pará, Jacundá, Novo Progresso,
Novo Repartimento, Paragominas, Placas, Portel, Rondon do Pará, Santa Bárbara do Pará,
Tomé-Açu, Trairão, Ulianópolis e Uruará.
Os municípios em negrito apresentaram elevado incremento no desmatamento de áreas
de floresta densa para extração de madeira em tora e implantação da atividade de pecuária
e/ou agricultura de grãos, em 2008. Os municípios de Aveiro, Dom Eliseu, Novo
Repartimento e Rondon do Pará iniciaram a construção e implantação da Agenda 21 Local,
que se refere à recuperação de áreas degradadas e a proteção do meio ambiente. Observa-se,
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entretanto, que um de seus princípios, talvez o de maior peso na sua criação, não está sendo
efetivamente controlado.
No Estado do Amapá os três municípios identificados pelo índice médio foram: Porto
Grande, Santana e Tartarugalzinho. Após a construção do intervalo do ICN médio mais um
desvio padrão apenas os municípios de Porto Grande e Tartarugalzinho apresentam maior
potencial de empresas para se transformar em APL.
Traços gerais
Conforme Santana (2002), Santana (2005) e ADA (2003), o APL de madeira e
mobiliário é recorrente em todos os estados da Amazônia Legal, respondendo por
significativos impactos nas exportações, geração de renda e ocupação de mão-de-obra. É
grande a diversidade de produtos, que varia em qualidade de acordo com a orientação do
mercado, conforme identificado nos estudos de Santana (2001; 2002), Santos e Santana
(2003) e Gomes et al. (2005). Assim, o padrão de qualidade dos produtos em ordem
decrescente varia com o destino para o mercado internacional, nacional, regional, estadual e
local. Com respeito ao impacto produzido no desenvolvimento local, sobretudo das empresas
que realizam o desdobramento da madeira (serrarias), este não é perceptível nos indicadores
de desenvolvimento humano, assim como no PIB e na dinâmica do desenvolvimento local
sustentável.
O APL de madeira e mobiliário nos Estados do Pará e Amapá é constituído, na sua
maioria, por micro, pequenas e médias que apresentam baixo nível tecnológico, pouca
diferenciação de produtos, modelos de móveis com design distante dos padrões exigidos pelo
mercado nacional e internacional. A inserção no mercado internacional é privilégio de poucas
empresas que atendem aos padrões de certificação e conseguem furar o bloqueio das
restrições não tarifárias impostas pelos países importadores.
Por que não se percebe uma dinâmica diferenciada de desenvolvimento local dos
municípios concentradores de aglomerações de empresas madeireiras, que se possa atribuir
como traço da indústria madeireira em termos de emprego, distribuição de renda e melhoria
da qualidade de vida das populações do entorno? Como resposta, argumenta-se que a
indústria madeireira vincula-se diretamente à formação dos núcleos urbanos, em função da
capacidade de ocupar mão-de-obra, gerar divisas com as exportações, viabilizar a formação
de pastagens, de campos agrícolas e do comércio, mediante a sinergia que estabelece com
essas atividades, além de no processo de extração da madeira criar uma infra-estrutura de
estradas que conectam locais às redes de estradas que interligam os mercados. Uma
constatação recente desse processo pode ser encontrada em Michelotti (2007) na mesorregião
Sudeste Paraense. Isso significa que o grau de desenvolvimento dos mercados e da economia
nos locais em que concentram as aglomerações das empresas de madeira e mobiliário se deve
ao desempenho desse segmento empresarial.
Com efeito, o APL de madeira e mobiliário apresenta forte encadeamento para trás na
economia oriental da Amazônia (Amapá, Pará e Maranhão), conforme Santana (2007). No
Estado do Pará esta conexão produtiva, evidenciada pelo efeito de encadeamento para trás é
mais robusta conforme Santos e Santana (2006) e Filgueiras (2007). Especificamente para o
Estado do Amapá, Santana et al. (2005), para o ano de 1999, evidenciou que madeira e
mobiliário apresentou forte encadeamento para frente e para trás.
Com relação à ocupação de mão-de-obra, as empresas de madeira e mobiliário pagam
baixos salários e não recolhem os encargos sociais, em períodos sazonais, sendo
predominantemente trabalho informal, independentemente do porte da empresa, com
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raríssimas exceções para as que estão sujeitas a fiscalizações de rotina do Ministério do
Trabalho.
Estratégia de mercado
Com relação ao destino da produção, Santana (2002) apurou que 30% da madeira
destinam-se ao mercado internacional e 70% ao mercado nacional, sendo 44% para o mercado
nacional e 26% para o mercado local. Pelo que se observa, os mercados internacionais e
nacionais são o foco das empresas de madeira beneficiada e artefatos, em função do tamanho
e do nível de renda dos consumidores desses mercados. Como esses mercados definem a
qualidade do produto e fazem exigências quanto à exploração racional e aproveitamento
integral da madeira, assim como respeito à legislação trabalhista e aos direitos de propriedade,
respondem pelas mudanças positivas no âmbito da regulação da cadeia produtiva, no processo
produtivo dentro das empresas e na qualidade total dos produtos, configurando novos
aspectos à cadeia de valor aos produtos da madeira.
As estratégias atuais das empresas para manterem suas parcelas de mercado estão
focadas na utilização de inovações tecnológicas e de gestão, em busca da certificação
ambiental e social dos produtos. Em horizonte de médio e longo prazo, o desafio será
enquadrar as empresas para implantarem reflorestamento e adotarem mecanismos de
desenvolvimento limpo, como a participação no mercado de crédito de carbono. No âmbito
das empresas, utilizarem os resíduos para produzir energia limpa e reduzir a poluição
ambiental.
No Amapá, assim como no Pará e na Amazônia como um todo, a concessão do direito
de exploração de florestas nacionais para extração de madeira e de produtos não-madeireiro
tende a se consolidar como política afirmativa de inclusão social das comunidades rurais
pobres, sem alternativas sustentáveis de sobreviverem da floresta.
Capital humano e social
A disponibilidade e qualidade da mão-de-obra nos municípios de maior concentração
das empresas de madeira e mobiliária forma o estoque de capital humano e apresenta uma
relação direta como o crescimento da renda per capita e, por sua vez, com o desenvolvimento
econômico local (LUCAS, 1988; ALTINOK, 2007; VERMULM; PAULA, 2007). De acordo
com Santana (2007), o nível de instrução formal (educação básica e superior) constitui um
ponto frágil, pois a superação é uma tarefa difícil.
No contexto dos Estados da Amazônia Legal, a média dos anos de escolaridade teve
um crescimento de 22,6%, saindo de 4,69 anos, em 1990, para 5,75 anos, em 2004,
registrando um crescimento absoluto de 1,06 anos. Em termos absolutos, o crescimento dos
anos de escolaridade da região amazônica ficou 0,54 anos abaixo do registrado no Brasil (1,60
anos), para o período compreendido entre 1990 (4,8 anos) e 2004 (6,4 anos) (GOMES, 2007).
Comparando a média dos anos de estudos da região amazônica com a média observada na
região Sudeste e no Brasil, em 2004, tem-se que no Sudeste a média alcançou 6,94 anos,
enquanto na região amazônica foi de 5,75 anos de estudo. Essa diferença indica o nível de
dificuldade.
A educação joga papel central no desenvolvimento de habilidades da população, pois
ela é um dos canais de transformação do entorno onde as empresas do APL desenvolvem suas
atividades produtivas e elevam a produtividade de sua mão-de-obra. Para que ocorra a difusão
de novas tecnologias, principalmente, aquelas importadas, é necessário a formação de
profissionais que possam absorvê-las e replicá-las em atividades correlatas ou utilizá-las para
o desenvolvimento de novas técnicas, ou seja, inovação.
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Sem educação, compromete-se ou torna-se difícil a obtenção de resultados positivos
de qualquer política de desenvolvimento local, pois desde a implantação de boas práticas de
fabricação até as estratégias de inovação (processo, produto e gestão) e diferenciação de
produtos passam a exigir tratamento especial e demorado. Este aspecto de deficiência do
capital humano foi constatado por Gomes (2007) como um dos fatores limitantes para o
crescimento econômico da Amazônia Legal e por Santana (2002, 2005 e 2007) em diversos
APL da Amazônia.
Os empresários do APL de madeira e mobiliário reconhecem que a qualidade da mãode-obra, medido pelo nível educacional formal e de treinamento e capacitação, são baixos.
Porém, continua a formação profissional realizado na própria empresa de forma artesanal, em
que o aprendizado ocorre de acordo com a observação e prática do aprender fazer fazendo. A
empresa ainda considera o treinamento da mão-de-obra como um custo e não como um
investimento em capital humano. Assim, tanto o estoque de capital humano é insuficiente
como a qualidade é também deficiente.
O capital social, por sua vez, se refere a atitudes de confiança que se estabelece em
combinação com condutas de reciprocidade e cooperação. A confiança entre as pessoas de
uma empresa ou entre empresas permite a criação e participação ativa de grupos horizontais,
formada por pares que são importantes para o funcionamento eficiente das instituições. A
reciprocidade é o princípio fundamental que rege as relações institucionais formais e
informais. Um favor deve ser retribuído com outro. A cooperação emerge da evolução
interativa, ou da co-evolução das estratégias traçadas. Teoricamente, essa interação
cooperativa vinculada ao tecido social, corresponde ao capital social, que é considerado o
elemento invisível que mantém a coesão das sociedades e está baseado na confiança entre as
pessoas e na rede de relacionamentos entre elas e os grupos sociais que formam as
comunidades (COLEMAN, 1990; PUTNAM, 2002; SANTANA, 2008).
O capital social, captado no eixo da cooperação empresarial, é um facilitador ou
estimulador de transações nos mercados e para formar estoque depende de pesados
investimentos. Todavia, esse investimento apresenta elevado retorno, pois quando a
cooperação empresarial ganha dinâmica e abrangência, no processo de integração horizontal e
vertical, quando associada às instituições que permeiam o tecido social em que os APL
operam, acabam por influir no estímulo à participação e o trabalho conjunto dos empresários.
Nos APL bem-sucedidos, conforme Schmitz (1999) essas instituições podem ser as
associações de empresas locais ou sindicatos, que atuam para assegurar o fluido
desenvolvimento das relações entre as empresas integrantes do APL e destas com seus
fornecedores e clientes. Com o avanço destas ações interinstitucionais, constroem-se redes de
relacionamentos entre as empresas e a sociedade. Esse é o passo inicial a ser dado na direção
de viabilizar as trocas de informações tão essenciais à formação de APL. No passo seguinte,
fruto do desdobramento dessa ação, constrói-se o eixo dinâmico do desenvolvimento local de
APL, por meio do fortalecimento da cultura associativa, validando a integração das empresas,
tanto para produzir como para comprar ou vender juntos.
Há evidências de que o papel do capital social no processo de crescimento e
desenvolvimento humano tem crescido bastante, nos últimos anos, para tal, assume-se que
normas cooperativas, confiança interpessoal e conecções sociais melhoram a qualidade das
interações sociais na sociedade, contribuem para a produtividade do trabalhador, ajudam a
reduzir os custos de transação e tudo mais que possa influenciar no processo de crescimento e
desenvolvimento econômico.
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Ademais, se forem adicionados aos instrumentos do capital social os pressupostos
básicos da nova teoria institucional, tais como, o direito de propriedade, liberdade civil e os
direitos constitucionais, espera-se que haja redução nos custos de informação, elevação no
estoque de capital fixo, ampliação do capital financeiro por conta da redução dos riscos e, por
conseguinte, melhorias no processo de crescimento econômico. Existe a idéia comum entre os
economistas de que com melhores instituições, condições sociais e garantia dos direitos de
propriedade, maiores serão as possibilidades de investimento em capital físico e humano, com
reflexos positivos sobre o nível de renda das localidades.
Nos APL de madeira e mobiliário dos estados do Pará e Amapá não há evidências
concretas de cooperação entre as empresas para produção em conjunto ou compra de
máquinas, equipamento e insumos. Há inclusive ações corporativas para não fornecimento de
matéria-prima de qualidade para as empresas de móveis e artefatos. Tais empresas, inclusive,
podem ser um aliado importante no aproveitamento de resíduos e na formação das conexões
para frente, mediante a formação de rede de parceria horizontal (SANTANA, 2007a). Por
outro lado, as representações do segmento madeireiro têm agido cooperativamente com
relação à regulação da atividade de manejo e legalização da madeira extraída e
comercializada.
De modo geral, a construção do capital social no APL de madeira e mobiliário tem a
frente uma barreira histórica, formada por um ambiente de ilegalidade e de forte desconfiança
entre os agentes empresariais, assim como entre estes e as instituições como o IBAMA em
toda Amazônia e, atualmente, com a Secretaria de Meio Ambiente (SEMA), no Estado do
Pará (SANTANA, 2002; MICHELOTTI, 2007).
Tecnologia
Conforme Nelson e Winter (2002), Freeman e Perez (1988) e Nelson (2006), em tese,
novos métodos de produção e distribuição dos produtos tendem a aumentar os lucros,
reduzindo os custos ou neutralizando fatores de produção que aumentam os custos. Novos e
melhores produtos contribuem para aumentar os lucros por gerarem mudanças favoráveis na
demanda e/ou nos preços dos produtos. Igualmente, novas práticas gerenciais, financeiras,
contábeis, propaganda e marketing impulsionam os lucros por aumentar a eficiência no
processo produtivo da empresa. Esse conjunto de formas de inovação tomadas em conjunto
pode se constituir em uma poderosa ferramenta para as empresas obter e sustentar os níveis de
lucros.
Em ambiente tecnologicamente dinâmico, a busca de lucros de inovação cria “uma
forma perene de destruição criadora”, por meio da qual, produtos novos, melhores e
diferenciados passam a ser constantemente introduzidos para substituir os produtos e
processos antigos, dando nova dimensão ao ciclo do produto. Esse processo ainda não está em
operação sistêmica em empresas dos APL de madeira e mobiliário nos estados do Pará e
Amapá.
Galvão (2004) ressalta a importância da inovação no contexto regional e o papel do
processo de aprendizagem para a geração de novos conhecimentos, que possam ser
apropriáveis pela sociedade local na forma de bens intangíveis, cuja maior parcela de valor é
devida à capacidade de inovar e aprender, ou seja, da apropriação e utilização desses
conhecimentos.
Santana (2005) afirma ser incontestável o problema do déficit de investimento em
desenvolvimento tecnológico na Amazônia e a necessidade de desenvolver tecnologia
apropriada aos sistemas agropecuários e florestais da região, que ainda se encontra por ser
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pesquisada e/ou adaptada. Os principais problemas que as empresas estão enfrentando são:
falta de informação e de orientação técnica, baixo nível de qualificação de pessoal, falta de
recursos financeiros e deficiente geração de C&T na região.
Na atividade de extração da madeira foi estabelecida a obrigatoriedade da implantação
dos planos de manejo sustentável, que é um avanço quanto à regulação da extração legal de
madeira. Além disso, iniciou-se o plantio de árvores em sistemas agroflorestais e silvipastoris
por parte de algumas madeireiras e empresas de artefatos de madeira. Projetos de certificação
da cadeia de madeira também ganharam adesão de diversas empresas no Estado do Pará
(FILGUEIRAS, 2007; GAMA et al., 2007). No Estado do Amapá, áreas de florestas estão
sendo legalizadas para a exploração sustentável de madeira.
Cabe ressaltar que o interesse pela certificação dos produtos madeireiros ainda é
insignificante, bem como o empenho na diferenciação de produtos, sobretudo no âmbito das
micro e pequenas empresas de desdobramento da madeira (serrarias). Isto significa que o
IBAMA não deve relaxar as normas e instrumentos de regulação da atividade madeireira, para
atender a interesses imediatos, sob alegações diversas (não comprovadas técnica e
cientificamente), inclusive do impacto sobre o mercado de trabalho.
No âmbito das empresas, houve avanço no que concerne ao aproveitamento da
madeira para a produção de móveis e artefatos, bem como na agregação de valor à madeira
beneficiada. Avançou-se também na pesquisa sobre tecnologia de madeira para introduzir
novas espécies de madeira no mercado e novos produtos de madeira para o mercado
internacional.
Infra-estrutura
A infra-estrutura de transporte e comercialização se apresentou como a de maior
deficiência para as empresas de madeira e mobiliário. Este é um segmento em que é precária a
base de informação do setor, tanto em nível local quanto nacional.
A logística de transporte ainda é um fator decisivo para a viabilidade econômica das
empresas de madeira, pois em raios superiores a 200 km as empresas de micro e pequeno
porte, que atuam apenas no desdobramento da madeira, têm dificuldades para competir no
mercado. Esta é uma razão concreta que explica o elevado nível de informalidade e de
ilegalidade na exploração do estoque dos recursos naturais. Nos locais onde a fiscalização
atua, o destino destas empresas é o fechamento ou a migração para junto da fonte de matériaprima.
Segundo Gomes (2007), em 2004, a malha rodoviária existente na região amazônica
atingiu algo próximo de 22 mil km de rodovias pavimentadas e em condições de uso. A
abertura e manutenção de estradas vicinais pode ser atribuído, em grande medida, as empresas
do setor madeireiro, em especial as extratoras. Estima-se que, em 2004, havia 268 mil km de
estradas municipais, estaduais e federais na Amazônia Legal, representando 16,3% do total de
estradas do país. Desse total, 22,3 mil km são pavimentados (8,3%) e 246,6 mil km são nãopavimentados (91,7%), grande parte das estradas não-pavimentadas é resultante do processo
de extração ilegal de madeira e de outros recursos minerais (ADA, 2006).
Com relação ao conjunto de máquinas e equipamento dentro das empresas, apenas
poucas conseguem se modernizar (aquisição de máquinas para serrar, laminar, beneficiar e
tratar a madeira, bem como máquinas para extrair e carregar toras de madeira), geralmente, as
médias e grandes empresas, que destinam a produção para os mercados internacional e
nacional, fazem esse tipo de investimento em capital físico..
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No âmbito da organização do APL, necessitam-se empreendimentos em capital coletivo como
estufas, centro de treinamento e capacitação tecnológica, etc.
Parcerias
As parcerias nos APL devem ser formadas pelos agentes que representam as
organizações produtivas dos elos da cadeia produtiva, em operação no local, juntamente com
os representantes das demais instituições afins. Este é um passo importante para se construir
os comitês gestores ou câmaras técnicas que irão formar a governança dos APL de madeira e
mobiliário nos estados do Pará e Amapá. O papel fundamental das câmaras técnicas é
justamente contribuir para a construção de capital social, visando desenvolver ações
cooperativas para reduzir a assimetria de informações entre os agentes, reduzir ações
oportunistas dos agentes, regular as operações produtivas e comercias em toda cadeia
produtiva e diminuir a informalidade e/ou ilegalidade da atividade madeireira.
No caso, as principais organizações que se vinculam ao APL de madeira e mobiliário
são: associações sindicatos, cooperativas de empresários de madeira e mobiliário, demais
órgãos afins tais como: INCRA, IBAMA, Ada, SFA, ITERPA, SEMA, Ideflor, Sefa, bancos,
SEBRAE, EMBRAPA, Universidades e ONG.
Conclusão
A concentração de atividades e setores produtivos ligados ao APL de madeira e
mobiliário é recorrente em mais de 50% dos municípios do Estado do Pará e em apenas cinco
municípios do Amapá. Entretanto, no Pará, apenas sete municípios apresentam potencial para
atuarem como pólos ou núcleos irradiadores do desenvolvimento das atividades e setores
pertencentes ao APL de madeira e mobiliário, a partir dos efeitos de encadeamento para trás e
para frente, além do adensamento de organizações governamentais e não-governamentais,
pólos universitários, associações de empresários e produtores, o que contribui para a
construção de um ambiente sinérgico que atua de forma sistêmica sobre diversos setores da
econômica dos municípios pólos com transbordamento aos demais municípios vizinhos.
No Estado Amapá, a dinâmica das atividades econômicas ligadas a este APL ocorre de
forma similar ao observado no Pará, porém, com níveis de intensidade e efeitos que reflete as
condutas adotadas pelas empresas frente aos limites de uso dos recursos naturais estabelecido
pelo governo local que decidiu manter intacta quase que 100% das áreas de floresta existentes
naquele estado e passou a exigir o cumprimento de planos de majeno e de recomposição das
áreas desmatadas a partir da prática de reflorestamento.
No percurso de amadurecimento desse APL, a tendência natural é aumentar o grau de
interação sinérgica entre si e com os demais APL, para configurar a verticalização dessas
cadeias produtivas, cujo desfecho pode se traduzir em desenvolvimento local sustentável.
Contudo, os encadeamentos produtivos para frente e para trás das empresas com seus
fornecedores e clientes enfrentam barreiras de difícil transposição em curto prazo, no que se
refere à disponibilidade e formação de capital humano e social, informação e conhecimento,
tecnologia apropriada, infra-estrutura e ação institucional integrada.
O estudo, ao identificar os municípios especializados no APL de madeira e mobiliário
apresentou as características fundamentais de cada um deles no que tange às estratégias de
mercado, formação de capital humano e social, tecnologia, infra-estrutura e as parcerias
estabelecidas direta ou indiretamente. Uma característica presente em todos os locais com
adensamento empresarial é a vocação exportadora dos APL mesmo que materializada em
fluxos descontínuos e em volumes pequenos de produtos regionais com baixa agregação de
valor, como é o caso do APL de madeira e mobiliário (madeira beneficiada, móveis,
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artefatos). Isto significa que existem empresas conectadas ao mercado internacional, com
potencial para abrir canais condutores de enraizamento de empreendimentos sustentáveis nos
municípios e o território de entorno dos estados do Pará e Amapá.
Os resultados mostraram que há lacunas a serem preenchidas no APL de madeira e
mobiliário, no que tange a a tecnologia, qualidade e disponibilidade de mão-de-obra e de
empreendedores, formação e ação do capital social, infra-estrutura de estradas, transportes,
comunicação, energia, informação e comunicação, disponibilidade de crédito e inserção no
mercado nacional e internacional. O arranjo institucional presente no Pará e Amapá opera de
forma desarticulada, discricionária e pontual, portando não é capaz de produzir sinergia à
dinâmica de sistemas produtivos integrados. As parcerias não operam em função de diversos
fatores, entre eles o comportamento oportunista dos agentes. Essa evidência postula que para
atender às exigências dos mercados de produto e de fatores em qualidade, legalidade das
atividades, preservação ambiental e eqüidade social, a implantação de sistemas de governança
para coordenar as ações dos agentes nos APL e nas cadeias produtivas é uma condição de
suficiência ao processo endógeno de desenvolvimento da Amazônia.
Nesse contexto, deve-se viabilizar a formação da aliança tríplice entre as universidades
(para identificar, transformar e combinar o conhecimento tácito com o conhecimento
explícito, disponibilizar informação técnica e científica, promover a formação e organização
de capital social e de capital humano, atuar na prestação de serviços de consultoria e na
realização de estudos técnicos), as empresas e suas representações (desenvolver e difundir o
sistema de inovação tecnológica e de gestão, tornar o produto tangível e produzir
externalidades positivas) e articular as três esferas de governo (para regular atividade, dotar de
infra-estrutura e apoio a projetos de alto risco e fazer operar os instrumentos de política
pública para desenvolvimento local sustentável e construção de Agenda 21 Local).
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