Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 VARIAÇÃO LEXICAL PARA LIBÉLULA NO ATLAS LINGUÍSTICO DO AMAPÁ Romário Duarte Sanches (UNIFAP/UEPA) [email protected] Celeste Ribeiro (UNIFAP) [email protected] RESUMO: Este artigo contempla uma amostra da investigação lexical, partindo do enfoque sobre o estudo do léxico que atualmente tem sido um tema bastante difundido nas pesquisas de cunho variacionista. Este estudo foi realizado com base nos dados do Atlas linguístico do Amapá (ALAP), porém, contemplará apenas os municípios em que já foram feitas todas as coletas de dados, neste caso, destacam-se os seguintes municípios: Amapá, Calçoene, Tartarugalzinho, Laranjal do Jari, Mazagão, Oiapoque, Porto Grande, Pedra Branca do Amapari e Santana. A pesquisa tem por base os pressupostos teórico-metodológicos adotados pelo projeto ALAP. Portanto, analisamos o campo semântico fauna e flora do questionário semântico-lexical, a fim de verificar os usos feitos nessa região para o item lexical libélula. Ressalta-se que se observou a variação desse item considerando a dimensão espacial e social, conforme preconiza a geografia linguística em uma perspectiva multidimensional. Desta forma, constatou-se que as variantes encontradas no estado do Amapá foram: libélula, jacinta, jacinto, cigarra, cigana, cinza, caba e gafanhoto. No entanto, a variante mais frequente aqui no estado é jacinta, termo este já dicionarizado. A análise dos dados também informa que as pessoas que mais utilizam esse termo são do município de Amapá. Em relação ao fator sexo estão os homens da segunda faixa etária, de todos os pontos de inquérito, estes apresentam 100% de ocorrência do termo jacinta ao invés de libélula. PALAVRAS-CHAVE: Variantes lexicais. Libélula. Geolinguística. ABSTRACT: This article includes a sample of lexical research, leaving the focus on the study of the lexicon which currently has been a topic quite widespread in the variational-based studies. This study was based on data from the Linguistic Atlas of Amapa (ALAP), however, will address only those municipalities that have already been made all collections of data, in this case, we highlight the following municipalities: Amapa, Calçoene, Tartarugalzinho, Laranjal do Jari, Mazagão, Oiapoque Porto Grande, Pedra Branca do Amapari and Santana. The research is based on the theoretical and methodological assumptions adopted by the ALAP project. Therefore, we analyze the semantic field of fauna and flora of the lexical-semantic questionnaire in order to verify the uses made in this region for the lexical item dragonfly. It is noteworthy that the observed variation of this item considering the spatial and social, as recommended by the linguistic geography in a multidimensional perspective. Thus, it was found that the variants found in the state of Amapa were: libélula, jacinta, jacinto, cigarra, cigana, cinza, caba and gafanhoto. However, the most frequent variant is jacinta, since this term dictionaries. Data analysis also reports that the people who use this term are the municipality of Amapa. In relation to gender are the men of the second age group, from all points of inquiry, they have 100% occurrence of the term jacinta instead of dragonfly. KEYWORDS: lexical variants. Dragonfly. Geolinguistics. 435 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 1 INTRODUÇÃO A heterogeneidade e a mudança na língua não é nenhuma novidade para nós pesquisadores do ramo da linguagem. Até mesmo quem não participa desses estudos linguísticos compreende que uma determinada língua não é igual à outra e isso é impulsionado em diferentes contextos. Também observa que a língua vive em constante mudança e que determinados vocábulos vão se apresentando com outras formas lexicais e semânticas no decorrer do tempo. No que tange a variação lexical, serão apresentadas de forma concisa algumas variantes para o item lexical libélula. Este estudo faz parte de algumas das pesquisas realizadas com os dados coletados para elaboração do primeiro Altas Linguístico do Amapá – ALAP, que nos oferecerá uma ampla fotografia linguística do cenário amapaense. 2 ABORDAGEM HISTÓRICA DO ESTADO DO AMAPÁ O Amapá sendo um dos 26 estados brasileiros foi um dos que teve sua incorporação legal tardia. De acordo com Drummond (2007) e Pereira (2007) essa incorporação começa em 1901, com o Laudo de Suíça, em que foi decidido que o Brasil teria soberania do território amapaense contestado que se “localizavam ao norte do rio Araguari e a leste do rio Oiapoque, em que se fazia metade do atual estado do Amapá” (DRUMMOND; PEREIRA, 2007, p. 65). Para Nunes Filho (2009) essas invasões e disputas pelo território são características comuns das raízes da formação amazônica encontradas nas regiões do nordeste e sudeste do Brasil há séculos atrás. Devido o interesse por esses produtos silvestres coletados ou cultivados em terras amapaenses, as disputas se tornam mais acirradas, quando se descobre ouro na região, fator que ocasiona grande fluxo migratório que por sua vez resulta na criação de novas vilas e crescimento da atividade extrativista. E é em decorrência dessas invasões e disputas que “Portugal inicia no século 436 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 XVIII a construção de fortins, fortes, fortaleza, aldeamentos, povoados e vilas em vários pontos do que é o Amapá hoje” (NUNES FILHO, 2009, p. 218). Porém para que se possa começar esse processo de povoação e fortificações em terras amapaenses, havia a necessidade de se contratar homens para mão-de-obra. Assim, inicia-se a ocupação do território que de acordo com o então Governador Mendonça Furtado que trouxe para cá algumas famílias (colonos) vindos das ilhas de Açores, com o objetivo de iniciar uma pequena povoação e construir barracos para servirem de alojamento aos soldados que aqui serviriam. Muitos desses colonos eram degradados de Portugal bem como: prostitutas, políticos corruptos, negros africanos ou oriundos da Bahia e do Rio de Janeiro, além dos índios que habitavam o local. Vale ressaltar que no caso dos negros africanos, Mendonça Furtado foi levado a criar, devido a importância de garantir a segurança e efetivação de posse das terras, a vila do Mazagão e vila vistoso Madre de Deus. Também existiram outros motivos que não o de povoamento ou demarcação de terras para a criação de Mazagão, como afirma Nunes Filho (2009), em que foi dada por meio de ordens da Coroa Portuguesa para abrigar 163 famílias de colonos portugueses cristãos, oriundos do Castelo de Mazagran (hoje El Djadidá), no Marrocos, que se desentendiam historicamente com os mouros (mazaganenses convertidos ao islamismo). Assim, chegaram os marroquinos a Mazagão, por volta de 1771, fixando-se na vila que passou também a se denominar Mazagão, em homenagem à terra africana. Passado o período colonial, outro fator que impulsionara o reconhecimento do Amapá é quando ele passa a ser território Federal em 1943. Drummond e Pereira (2007) afirmam que com o Decreto Federal 5. 812, de 13 de setembro observaram-se mudanças significativas no cenário político-administrativo, como o desmembramento do Amapá do Estado Pará. Agora, esse novo território compreendia todas as terras adquiridas pelo Brasil (como consequência da arbitragem de 1901) mais uma porção quase tão grande de terras situadas a sul do rio Araguari, a leste do rio Jarí e ao norte do rio Amazonas. Após 45 anos de ser admitido como território, o Amapá passa por outra transformação em 1988 quando por meio da Constituição brasileira promulgada naquela época foi elevado à condição de Estado. Porém, em relação aos “investimentos” 437 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 realizados no Amapá se deram bem antes promulgação. Isso aconteceu enquanto o estado era Território Federal na década de 60-80, pois, nessa época começam as preocupações com a Amazônia no sentido de integrá-la e combater o contrabando e exploração de recursos naturais ilegais. Desta forma, o cenário dessa política no Amapá não foi diferente, houve vários projetos responsáveis pela expansão e ocupação da região. Segundo Andrade (2005) essa transformação do então território em estado, efetivado a partir de 1988, possibilitou que novas oportunidades de trabalho fossem ofertadas, principalmente na construção civil, o que influenciou numa intensa movimentação populacional para o estado. Esse aumento das taxas de crescimento populacional deu-se devido “à abertura de novos garimpos de ouro, à instalação de várias empresas mineradoras de ouro e à criação de novos municípios” (DRUMMOND; PEREIRA, 2007, p. 71). Andrade (2005) observa que em 1990 a dinâmica migratória veio se consolidando de forma expressiva, pois, o estado recebeu cerca de 40 mil pessoas de outras unidades da federação, sendo que 72,58% (31.009) vieram do estado do Pará e 13,98% (5.973) do Maranhão. E ressalta ainda que no mesmo período, devido ao incentivo do governo amapaense aos agricultores já instalados, centenas de famílias oriundas do Maranhão, Rio Grande do Norte e de outros estados, aumentando o fluxo migratório e populacional. Esse grande fluxo migratório ocorre, segundo Andrade (2005), por meio diversos fatores, bem como instalação da ICOME (Indústria e Comércio de Minérios S/A), projeto Jarí, à exploração de ouro nos municípios de Calçoene, Tartarugalzinho, Amapá e Oiapoque, à criação da ALCMS (Área de Livre Comércio Macapá e Santana) e às ações do governo federal, que impulsionaram obras de infraestrutura social e econômica. Assim, percebemos como se iniciou a constituição da sociedade amapaense como afirma Nunes Filho (2009) com migrações de vários tipos étnicos, classificadas como: “ameríndios, ingleses, holandeses, franceses, portugueses, africanos, brasileiros nordestinos” (2009, p. 226). O que resultou em uma mistura de hábitos, costumes, 438 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 tradições, formas de organização, diferentes formas de interação com o meio ambiente e com a população nativa, ou seja, nasce a pluralidade cultural do povo amapaense, sendo reflexo de seu passado. 3 VARIAÇÃO LEXICAL Atualmente, os estudos acerca do léxico são inúmeros. Ainda se discute em diversos trabalhos a definição de Léxico. Para Carvalho (2009) o léxico, palavra de origem grega léxicon, em sentido lato, é sinônimo de vocabulário. É entendido com o inventário completo dos vocabulários que constam sempre em dicionários de uma língua. Também, considerado como sendo a menos sistemática das estruturas linguísticas, pois, o léxico depende, em alguns casos, da realidade exterior, não linguística. Carvalho (2009) ainda define como um conjunto virtual, onde se pode identificar como unidade básica o morfema, ou unidade significativa mínima. Por meio dessas discussões acerca do que é o léxico da língua, Carvalho (2009), assevera que o acervo lexical de uma língua é constituído, por um conjunto de lexemas. E são nesse conjunto que se observam as mudanças na língua, as suas influências e modificações. Basílio (2007) corrobora dizendo que as palavras, ou itens lexicais, são os elementos básicos que utilizamos para formar enunciados. Afirma também que a palavra é uma unidade linguística básica, facilmente reconhecida por falantes em sua língua nativa. Basílio (2007) destaca alguns pontos importantes acerca dos estudos lexicais, pois, observa que durante muito tempo a análise gramatical considerou a palavra como unidade mínima de análise linguística. E que no passado a gramática clássica considerava as palavras como elementos indivisíveis, embora pudessem apresentar variações de forma, tais como as flexões nominais e verbais. Desta forma, Basílio (2007), afirma que as palavras não são formadas apenas por uma sequência de elementos constitutivos e sim que elas podem ser estruturadas e atingir diferentes níveis. Trata-se das formações regulares e formações cristalizadas no léxico. Ou seja, 439 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 “há uma enorme variação de situações de não previsibilidade de forma e significado nas construções lexicais, desde pequenas sub-regularidades, desvios e extensões de sentido até a irregularidade total”. (BASÍLIO, 2007, p. 22). Essa diversidade de situações de regularidade das formações derivadas sempre criou problemas para o desenvolvimento de estudos lexicais nas diferentes abordagens teóricas. Os problemas criados com esses diferentes níveis e tipos de regularidade, para Basílio (2007), é uma situação característica do léxico. Os elementos que constituem os itens lexicais evoluem semanticamente como um todo, porém, suas partes continuam morfologicamente inalteradas. E como consequência disso têm-se formas cuja significação pouco tem a ver com o que se poderia esperar pelas características morfológicas da palavra. A respeito da variação lexical, pode-se dizer que as mudanças políticas e culturais não causaram, nem causam transformações imediatas no sistema lexical, pois, todas as mudanças no léxico resultam da fala, ou seja, do uso da língua – através da fala se produzem as mudanças no sistema lexical, mudando as normas e, consequentemente, criando novas normas. (BASÍLIO, 2007, p. 21) Conforme Fernández (1998), para explicação da criação dessas novas formas, caberá à variação lexical a explicar o uso alternante de certas formas léxicas em determinadas condições linguísticas e extralinguísticas, bem como as diferentes unidades de origem geolinguística presentes em uma dada comunidade. Além de tentar identificar o léxico característico dos diferentes grupos sociais: léxico de faixa etária, de profissão, escolaridade, entre outros fatores. Daí, dizer, de acordo com Aragão (1999), que as variações lexicais podem ser e geralmente são consideradas, ora como puramente geográficas, dialetais ou diatópicas, como sociais ou diastráticas, ou ainda dependentes do estilo, estilísticas ou diafásicas. Fishman (1968), também reforça esta ideia ao mencionar que existem diferentes falares dentro de uma mesma comunidade linguística e que estas diferenças acontecem devido a diversos fatores, tanto internos quanto externos à língua. Para ele as variações internas estão relacionadas a fatores linguísticos nos campos da fonologia, morfossintaxe e semântica, o que caracterizará estas informações nos itens lexicais. Já 440 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 as externas são aquelas intrínsecas aos usuários da língua, como a faixa etária, o gênero feminino ou masculino, etnia, além dos fatores sócio-geográficos e contextuais aos falantes. Para descobrir que tipo de léxico caracteriza os grupos sociais que formam uma comunidade, existem vários itinerários metodológicos, segundo Paim (2011). Um deles é o estudo de corte etnográfico - mediante a convivência continuada dentro de um grupo social ou a observação direta dos discursos. Paim (2011) assegura-se que este procedimento é um dos mais importantes, especialmente se a intenção é fazer uma análise qualitativa, isto é, determinar quais são os itens lexicais que aparecem de forma característica em cada grupo social. Outra possibilidade metodológica, para o estudo da variação do léxico, é a entrevista, que pode servir para o pesquisador induzir ou provocar amostras da variação léxica em estudo. Este tipo de coleta de dados garante o surgimento de certas unidades léxicas em uma quantidade determinada e, portanto, revela-se o mais satisfatório para os estudos quantitativos. Assim, os possíveis objetos de estudo do léxico são ilimitados: pode-se analisar a preferência de um ou mais grupos de uma comunidade por certas formas léxicas segundo o tipo do interlocutor, segundo a situação (estilo formalinformal); pode-se analisar a maior ou menor presença em certos grupos sociais de formas antigas ou modernas, padrão ou não padrão. (PAIM, 2011, p. 2) Assim, para Santos (2011), o léxico de uma língua natural constitui uma das partes principais que integram os sujeitos, enquanto falantes/ouvintes, para expressar o mundo/espaço dito real. A autora ainda afirma que por essa razão, o léxico tem sido objeto de estudo de várias áreas da Linguística. Dado pelo seu caráter complexo e pela dificuldade de encontrar um referencial teórico-metodológico adequado para tratamento dos dados semântico-lexicais, principalmente no que se refere aos pesquisadores da Geolinguística. 4 VARIANTES LEXICAIS PARA LIBÉLULA NO ESTADO DO AMAPÁ De acordo com Santos (2011) a análise dos atlas linguísticos bem como dos 441 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 estudos geolinguísticos produzidos no Brasil nas últimas décadas evidencia o interesse crescente pelo enfoque do componente semântico-lexical por parte de todos quantos se dedicam à Geolinguística. Desta forma, este trabalho se mostra como um desses estudos que crescem no Brasil, na região Norte e principalmente no estado do Amapá. Para o desenvolvimento da pesquisa foram utilizados os dados do projeto ALAP que seguem os pressupostos teórico-metodológicos da geolinguística. O projeto está sendo realizado a partir de três etapas. A primeira, já concluída, realizou a formação e treinamento do grupo de pesquisadores. A segunda, em andamento, está concentrada na realização da pesquisa in loco, com a localização dos informantes em 10 municípios do estado, sendo que só resta fazer coleta no município de Macapá. Os informantes selecionados possuem o seguinte perfil: 02 mulheres e 02 homens com idade entre 18 a 30 anos e 50 a 75, com nível de escolaridade fundamental incompleto, já na capital, acrescentam-se mais 04 com o mesmo perfil, mas com escolaridade superior completa. Para a terceira etapa, estão sendo feitas as transcrições das gravações, revisão das transcrições e análise dos dados coletados, tendo em vista a sistematização, organização e publicação dos resultados, cujo prazo está previsto para novembro de 2014. Ressalta-se, agora, algumas análises dos dados coletados acerca do item lexical libélula que compõem o questionário semântico-lexical (QSL) do projeto ALiB, que serviu de base para a elaboração do Atlas Linguístico do Amapá – ALAP. Por meio do método geolinguístico pode-se recolher variantes lexicais para libélula nos seguintes pontos de inquéritos: Amapá, Calçoene, Tartarugalzinho, Laranjal do Jari, Mazagão, Porto Grande, Oiapoque, Pedra Branca do Amapari e Santana. Algumas variantes serão analisadas com base nas definições expostas em quatro Dicionários de Língua Portuguesa: Houaiss (2001), Rocha (2001), Aulete (2008) e Ferreira (2009). Outras, não constam em nenhum dos dicionários mencionados levando a analisar os itens lexicais a partir do contexto social e espacial. Desta forma, o item analisado se apresenta da seguinte forma no questionário semântico-lexical: 85. LIBÉLULA ... o inseto de corpo comprido e fino, com quatro asas bem transparentes, que voa e bate a parte traseira na água? 442 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 Dos nove municípios (pontos de inquéritos), onde se realizou a pesquisa, totalizam 36 informantes, estes sendo dois homens e duas mulheres com a idade de 1830 e 50-75, sendo que nem todos conseguiram responder ao questionário, fazendo com que alguns municípios como Calçoene, Mazagão e Pedra Branca do Amaparí ficassem sem a denominação do item libélula. No entanto com os demais dados dos outros pontos de inquéritos, observaram-se as seguintes respostas: libélula, jacinta, jacinto, cigarra, cigana, cinza, caba e gafanhoto. Durante o estudo do termo libélula e suas variantes nos dicionários de Língua Portuguesa, os únicos que designam, de fato, são os dicionários Aurélio e Houaiss. Os outros itens constam também nos dicionários, porém, com outros sentidos que não o do léxico em questão. Na tabela a seguir mostremos o significado dado à libélula, bem com a existência das variantes encontradas para o inseto. Sinalizaremos com (+) a entrada dos outros itens lexicais e com (–) a ausência dos termos nos dicionários, sendo que estes constam em dicionários, porém, estão com significados distantes do que foi designado pelos informantes nos municípios pesquisados. Quadro 1 – Significado das variantes para libélula em dicionários 443 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 4. 1 ANÁLISE DOS DADOS Apresentaremos a seguir a análise dos dados em duas dimensões: a espacial e a social. A dimensão espacial corresponde as variantes encontradas nos noves municípios estudados e a social se dá em uma análise das variantes referentes à faixa etária e sexo. 4. 1. 1 Análise das variantes para libélula: dimensão espacial Diante dos dados coletados, encontramos a variante jacinta com maior frequência entre todos estes pontos de inquéritos, como será mostrado na tabela abaixo, podendo-se afirma que a população amapaense em sua maioria denomina aquele “inseto de corpo comprido e fino, com quatro asas bem transparentes...” de jacinta ao invés de libélula. Contudo, a maior ocorrência do termo se deu no município de Amapá com 90%, já nos demais, foram 50% em Tartarugalzinho, 25% Laranjal do Jari, 25% Mazagão, 50% em Oiapoque, 50% em Pedra Branca do Amaparí e 50% em Santana. Outra variante a se destacar é a designação de cigarra para libélula, onde constatamos que nos municípios de Amapá, Laranjal do Jari, Oiapoque e Pedra Branca do Amaparí há também a ocorrência de cigarra. Como em Amapá com 10%, Laranjal do Jari 50%, Oiapoque 25% e Pedra Branca do Amaparí 25%. Destacamos ainda a ocorrência de outras três variantes como: cigana, cinza, caba, gafanhoto e jacinto: 25% designam cigana no município de Laranjal do Jari, 25% cinza em Mazagão, 25% caba em Porto Grande, 25% gafanhoto em Oiapoque e 25% jacinto em Tartarugalzinho. Ressalta-se aqui, que essas variantes precisam ser estudadas minuciosamente, tentando entendem quais a implicações ou motivações para tais denominações, já que suas incidências são menores, porém, não podem ser descartadas como variantes de libélula encontradas no estado do Amapá. Em última análise, temos o termo em questão: libélula. Foi encontrada tal designação nos municípios de Tartarugalzinho com 25%, Porto Grande com 25% e em 444 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 Santana com 25%. A tabela abaixo mostrará os dados coletados em forma de porcentagens e também quais os municípios em que não houve respostas, no qual os informantes não conseguiram designar ou lembrar. Daí destaca-se o município de Calçoene onde não houve nenhuma ocorrência, já Mazagão e Porto Grande constatamse duas ocorrências, Pedra Branca do Amaparí e Santana com três. Quadro 2 – Variação diatópica do item libélula no Amapá Mapa 1 – Pontos de Inquérito 445 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 4. 1. 1 Análise das variantes para libélula: dimensão social Em relação à análise da dimensão social das variantes em questão, fazem-se algumas considerações, lembrando que este estudo como qualquer outro da geossociolinguística tende a ser multidimensional. Assim, serão analisados os fatores: escolaridade, faixa etária e sexo. O fator escolaridade nos permite identificar que pessoas com o ensino fundamental completo tendem a designar tal inseto de libélula, como os informantes dos municípios de Tartarugalzinho, Porto Grande e Santana. Porém, há ainda a necessidade de se estudar melhor a variação diastrática do termo, pois também se percebeu que há informantes com escolaridade até a 7ª ou 8ª série e que não conhecem o inseto por libélula e sim por jacinta, cigarra, cigana, e outros, como em Laranjal do Jari, Pedra Branca do Amaparí, Amapá e Oiapoque. Daí afirmarmos que qualquer conclusão a cerca da variação lexical para libélula, no que tange a dimensão social, nos gerará alguns desconfortos e dúvidas em relação a pesquisa, se esta análise for sucinta e sem nenhum aprofundamento e apoio em teorias como análise da conversação, análise do discurso e outras. No que tange a variável faixa etária, observou-se que mulheres da primeira faixa etária (18-30 anos) utilizam o termo cigarra 25% e jacinta 25% com maior frequência, já em menor ocorrência temos libélula 20%, cigana 15% e cinza 15%. Já as mulheres da segunda faixa etária (50-75 anos) também fazem uso das variantes, porém jacinta aparece com maior ocorrência, cerca de 40%, enquanto em menor ocorrência estão as variantes: jacinto, cigarra, caba e gafanhoto com 15% todas. Já os homens da primeira faixa etária (18-30 anos) fazem uso mais recorrente dos termos jacinta com 50%, cigarra 40% e libélula apenas 10%. No entanto, é interessante salientar que todos os informantes da segunda faixa etária (50-75 anos) denominam libélula como jacinta chegando aos 100% de ocorrência. Quadro 3 – Variação diageracional do item libélula no Amapá 446 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 MULHERES 18-30 MULHERES 50-75 HOMENS 18-30 HOMENS 50-75 Cigarra – 25% Jacinta – 40% Jacinta – 50% Jacinta – 100% Jacinta – 25% Jacinto – 15% Cigarra – 40% Libélula – 20% Cigarra – 15% Libélula – 10% Cigarra – 15% Caba – 15% Cinza – 15% Gafanhoto – 15% Em relação ao fator sexo, notou-se que os homens tendem a designar tal inseto como jacinta com 75%, já cigarra aparece com 20% e libélula 5%. Não muito diferente dos homens, as mulheres também aparecem com um uso mais recorrente de jacinta, cerca de 40%, enquanto cigarra 30%, libélula 15% e cinza, cigana, jacinto e gafanhoto com 3,75% de ocorrência cada. Mapa 02 – Variantes lexicais O mapa acima mostra de forma concisa a distribuição lexical para libélula nos diferentes municípios do estado, além de delinear o perfil do informante que se utiliza 447 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 de tais variantes lexicais. Os códigos FA, FB, MA e MB corresponde aos seguintes informantes: FA = Mulher de 18-30 anos com ensino fundamental incompleto, FB = Mulher de 50-75 anos com ensino fundamental incompleto, MA = Homem de 18-30 anos com ensino fundamental incompleto, MB = Homem de 50-75 anos com ensino fundamental incompleto. O símbolo em forma de cruz (+) corresponde à posição dos informantes especificada do lado esquerdo da figura. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante das discussões, exposições e análises dos dados coletados é possível inferir que a denominação que mais persiste no estado do Amapá, para o item lexical libélula, é o termo jacinta, que já se encontra em dicionários como Houaiss e Aurélio. Também se pode afirma que no município de Amapá é onde ocorre com mais frequência a utilização da variante jacinta e que os homens da segunda faixa etária, de todos os municípios pesquisados, tendem a fazer mais uso dessa variante do que cigarra, libélula e outras encontradas. No entanto, ainda se precisa ter cautela com os dados e aprimoramento com as análises, já que também foram constatadas outras variantes que necessitam de uma explicação linguística e extralinguística, procurando entender quais foram suas implicações ou motivações para tal designação, como as variantes: cigana, cinza, cigarra, gafanhoto e jacinto. Cabe agora levantarmos alguns questionamentos acerca dessas variantes, pois, será que se trata de um desvio semântico-lexical? Será que a forma de como foi conduzida a pergunta do item lexical favoreceu a associação com outros insetos, como a aparição do termo gafanhoto? Será que cigana é uma variante de cigarra? E cinza de jacinta? Enfim, estes são estudos que deverão ser feitos consequentemente, e que não devem ter apenas como o suporte teóricometodológico a dialetologia e a geografia linguística, mas como também a análise da conversação, análise discursiva, bases sociológicas, antropológicas, históricas e tantas outras ciências que poderão auxiliar nessas explicações. Tudo isso, para então afirmamos que novas designações para libélula são encontradas no estado do Amapá e poderão ser inseridas futuramente em dicionários de Língua Portuguesa. 448 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.b r Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 4 • Número 11 • Novembro 2013 REFERÊNCIAS ANDRADE, Rosemary Ferreira de. Malária e migração no Amapá: projeção espacial num contexto de crescimento populacional. Belém: NAEA, 2005. ARAGÃO, Maria do Socorro Silva de. Variação Fonético-lexical em Atlas Linguísticos do Nordeste. Revista do GELNE, Ano 1. n. 1, 1999. AULETE, Caldas. Dicionário Caldas Aulete da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Lexikon Editora Digital, 2008. BASÍLIO, Margarida. Teoria Lexical. 8. ed. São Paulo: Ática, 2007 CARVALHO, Nelly. Empréstimos linguísticos na língua portuguesa. São Paulo: Cortez, 2009. 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