Projeto de organização e conservação da coleção de fotografia Foto Melo Mindelo, Cabo Verde Por Diogo Bento "A casa mais conhecida de Cabo Verde" foi fundada em 1890 e retratou durante mais de 100 anos as paisagens das ilhas do arquipélago e as vidas dos seus habitantes. Djindjon de Melo (João Henriques de Melo) terá sido um fotógrafo amador nascido em Santiago, filho de mãe cabo-verdiana e pai português, que encontrou uma oportunidade de negócio em fotografia, quando chegado ao Mindelo. O estúdio Foto Melo começa por fotografar os navios ao largo do Porto Grande (um dos mais movimentados da África Ocidental, à época), vendendo as fotografias aos marinheiros que entretanto desembarcavam. O estúdio acaba por se tornar numa referência incontornável para os mindelenses e não será exagerado afirmar que todas as famílias da cidade aí tenham feito os seus retratos. Foi a única casa fotográfica no Mindelo desde a sua fundação no séc. XIX e durante grande parte do século XX e retratou sistematicamente as chegadas de governadores, a elite intelectual local, almoços e jantares de gente ilustre, grupos de ingleses, eventos oficiais, sociais e religiosos, bailes carnavalescos, costumes populares, os navios no Porto Grande, vistas de cidades e paisagens de todas as ilhas de Cabo Verde. Após a morte do fundador é o filho Papim (Eduardo Ernesto Trigo de Melo) que passa a comandar os destinos da Foto Melo, embora todos os oito irmãos lá tivessem trabalhado (entre os quais se destaca o Djessa, José Augusto Lima de Melo, recordado por muitos como o mais "artístico" dos irmãos e que viria a estabelecer-se com loja própria na cidade da Praia). Foram ainda identificadas espécies fotográficas de José Henriques de Melo (irmão de Djindjon), referentes às campanhas de 1907-1908 na Guiné-Bissau. Foi já na última década do séc. XX que o estúdio fotográfico fechou portas, numa altura em que os trabalhos produzidos, ainda a preto-e-branco, mostravam o seu desfasamento em relação à evolução da fotografia. O que se seguiu foi um abandono quase total e consequente degradação da coleção de fotografia (apenas em 2009 viria a ser realizado um estudo preliminar por Isabel Victor e Bruno Ferro, mas que infelizmente não resultou em nenhuma ação de conservação específica), e a degradação das instalações onde funcionára o estúdio centenário, que ainda conserva alguns traços característicos do funcionamento da Foto Melo. O projeto de organização e conservação da coleção de fotografia Foto Melo (com o financiamento do programa INOV-Art) assentou numa premissa de compromisso entre o (pouco) tempo que tínhamos disponível (6 meses) e a mais valia que se podia trazer à coleção. Nesta perspetiva, um dos principais objetivos seria o reconhecimento o mais aprofundado possível da coleção (tanto do ponto de vista técnico e material e, portanto, da sua conservação, como do ponto de vista estético e temático, ou seja, da sua relevância cultural e histórica). Outra das etapas fundamentais do projeto passou pela organização da coleção. Numa primeira fase foram reunidas todas as fotografias nas instalações da Foto Melo para uma limpeza prévia, ao nível das caixas (constituídas unidades de instalação), e observação geral. Procedeu-se de seguida à organização propriamente dita, tendo em conta uma eventual organização original, e etiquetagem de todas as unidades de instalação. A coleção foi então depositada num compartimento dentro da Foto Melo onde se encontraram as condições mais aceitáveis de preservação. O estado de conservação global da coleção é muito difícil de sistematizar devido às condições diferenciadas a que as fotografias estiveram expostas, ao nível dos agentes biológicos (ratos, peixe de prata, baratas, térmitas ou traças) e condições climáticas (temperatura e humidade relativa elevadas). Foram encontradas espécies muito recentes completamente degradadas e, por outro lado, espécies antigas em estado de conservação muito razoável. Somam-se ainda os processos de degradação inerentes aos materiais constituintes dos diferentes tipos presentes. Também sabemos que uma grande parte deste espólio terá desaparecido ao longo dos anos de funcionamento da Foto Melo. Muitas espécies fotográficas terão sido destruídas, queimadas ou distribuídas. Uma grande parte dos negativos de vidro, por exemplo, terá sido cedida ao hospital local para o aproveitamento do vidro depois de retirada a emulsão e transformação em lâminas. Uma das frações que se mantém mais intacta e presente em maior número corresponde aos retratos de estúdio: fotografias para bilhete de identidade ou passaporte (as "carinhas", como são chamadas em São Vicente), retratos de grupo ou individuais, de corpo inteiro, com adereços e fundos diversos. Este conjunto é composto por centenas de milhar de negativos 6x9 cm e 35 mm em películas de nitrato e acetato de celulose, distribuídos por mais de 1 500 antigas caixas de papel fotográfico. Este projeto operou ainda, num terceiro eixo, enquanto alavanca para o arranque do que se espera ser a efetiva conservação da coleção, sua patrimonialização e valorização. Neste contexto, foi organizada uma exposição que pretendeu sensibilizar a população e as instituições competentes para a necessidade de se trabalhar e articular esforços em torno da coleção, que foi pela primeira vez apresentada ao público de uma forma global e estruturada. A par da exposição foi também realizado um documentário onde se tentaram resgatar as memórias de quem conheceu a Foto Melo, conviveu ou trabalhou entre portas, da família, entre outros. Torna-se agora fundamental terminar o inventário ao nível da unidade de instalação, que foi iniciado para uma amostra da coleção, e elaborar um plano para o seu processamento. Dadas as condicionantes técnicas e estruturais, as operações de restauro estão algo limitadas sendo, no entanto, aconselhável dar-se prioridade à estabilização dos negativos de vidro que se encontrem partidos e ao tratamento dos nitratos e acetatos mais degradados e que apresentem riscos de contaminação. É também fundamental proceder-se ao acondicionamento de todas as espécies em envelopes e caixas de conservação e encontrar um local definitivo para o depósito da coleção. Uma outra estratégia de preservação deverá passar pela digitalização dos negativos, ainda que não se deva encarar esta medida como uma solução definitiva. As particularidades deste tipo de operação são no mínimo contraditórias: a facilidade de reprodução e visualização sem recurso ao original são evidentes mas a volatilidade dos suportes de armazenamento obriga a cuidados redobrados. No fundo, deverão ser tomadas medidas que concorram para a valorização e sustentabilidade da coleção, tendo em conta os recursos disponíveis. Deverá apostar-se na disponibilização das fotografias ao público através de uma base de dados online, e no envolvimento da população na identificação das espécies individuais. Parece-nos que a edições de livros e postais, a organização de exposições e residências artísticas e a própria musealização da Foto Melo, entre outras medidas, poderão garantir o suporte necessário à manutenção desta coleção a longo prazo, havendo, no entanto, uma necessidade muito imediata de financiamento para o arranque das medidas prioritárias de conservação. Vista geral da coleção atualmente Exemplo de espécies e embalagens de acondicionamento originais