CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO CEARÁ
FACULDADE CEARENSE
CURSO DE SERVIÇO SOCIAL
KELLIANE JORGE PEREIRA BARROSO
FEMINIZAÇÃO DA AIDS E OS PRECONCEITOS VIVIDOS PELAS MULHERES
FORTALEZA - CE
2014
KELLIANE JORGE PEREIRA BARROSO
FEMINIZAÇÃO DA AIDS E OS PRECONCEITOS VIVIDOS PELAS MULHERES
Monografia submetida à aprovação da
coordenação do Curso de Serviço Social
do Centro de Ensino Superior do Ceará,
como requisito parcial para a obtenção do
grau de Bacharel em Serviço Social.
Orientador: Prof. Dr. Emanuel Bruno
Lopes de Sousa
FORTALEZA - CE
2014
KELLIANE JORGE PEREIRA BARROSO
FEMINIZAÇÃO DA AIDS E OS PRECONCEITOS VIVIDOS PELAS MULHERES
Monografia como pré- requisito para
obtenção do título de Bacharel em Serviço
Social,
outorgado
pela
Faculdade
Cearense – FAC, tendo sido aprovada
pela banca examinadora composta pelos
professores.
Data de Aprovação:____/____/______
BANCA EXAMINADORA
Prof. Dr. Emanuel Bruno Lopes de Sousa (Orientador)
Faculdades Cearenses – FAC
Profa. Ms.Ivna de Oliveira Nunes
Faculdades Cearenses – FAC
Esp. Maria de Fátima Monte de Almeida (UECE)
Dedico este trabalho ao meu Pai,
Giacomo Crisologo (in memorian), que
sempre me incentivou e acreditou no meu
potencial. À minha mãe, Jacqueline Jorge,
que sempre esteve ao meu lado e por ser
essa mãe maravilhosa.
Ao meu esposo, Bruno Barroso, pelo
companheirismo e dedicação durante
essa caminhada. Ao meu amado filho Yuri
Barroso, que foi uma dádiva de Deus em
minha vida.
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente a Deus, por ter me dado força e sabedoria nessa
árdua caminhada. Sem Ele não teria chegado onde cheguei.
Ao meu amado pai, Giacomo Crisologo (in memorian), dedico essa
conquista, pois foi um dos grandes incentivadores dos meus estudos, sempre ao
meu lado e me orientando pelo caminho dos estudos. O seu amor foi essencial para
a mulher que sou hoje. Essa vitória é nossa!
À minha mamãe Jacqueline Maria, pelo companheirismo e dedicação por
todos esses anos. Agradeço pela paciência e principalmente por ter me apoiado na
concretização do meu sonho em me formar. Não posso esquecer-me de agradecer
pelas noites que a senhora ficou com meu filho, para eu poder ir para faculdade,
sempre me dando forças. Amo-te muito.
À minha irmã, Kamilla Jorge, pelo apoio e carinho durante esses anos.
Você é a melhor irmã do mundo.
Ao meu amado marido, Bruno Barroso, pela paciência e companheirismo
nessa minha jornada, pois por muitas vezes fui ausente em meu papel de esposa,
devido aos meus estudos. Essa conquista também é sua.
Ao meu filho, Yuri Barroso, que tanto amo, você foi fundamental nessa
minha escolha em me formar, pois foi pensando em seu futuro que durante esses
quatro anos lutei, chorei e estudei e quando pensava em desistir você me dava
forças para seguir lutando. Te amo de maneira incondicional.
À minha tia, Tereza Jorge, por ter acreditado em mim e por não ter me
feito desistir dos meus ideais. Sempre me apoiando em todos os momentos. A
senhora é muito mais do que uma tia, é uma mãe. Obrigada!
Aos meus tios, Márcio Jorge e Giane Pessoa, pelo amor e carinho. Sou
feliz em tê-los ao meu lado.
Aos meus avôs Raimundo Mendes, Maria da Conceição e Maria Alice, por
estar sempre ao meu lado e pelo amor que tens por mim.
As minhas ex-supervisoras de estágio, Hedilene Eliziário e Maria de
Fátima, pela confiança e dedicação em me ensinar um pouco dos seus
conhecimentos.
Ao meu querido e estimado professor e orientador Bruno Lopes, por ter
aceitado prontamente o meu pedido em me orientar e também pela paciência que
teve comigo durante esse tempo.
Às minhas amigas da faculdade, Irlene Silva, Maria Marquilene, Suzane
Targino, Regina Márcia, Darlene Serra, Suyanne Pereira, Aline Silva, Thalita e
Odacilda, vocês são amigas muito especiais que durante esses quatro anos de
faculdade acabamos nos tornando amigas inseparáveis. Que nossa amizade vá
além da sala de aula e que sejamos excelentes profissionais.
Às minhas entrevistadas, que aceitaram prontamente o meu pedido.
Aos meus professores da faculdade, os quais foram fundamentais nessa
minha caminhada, pois sem os seus ensinamentos não teria chegado até aqui.
À banca de defesa, à Professora Ms. Ivna de Oliveira Nunes, à Esp. em
Saúde Pública Maria de Fátima Monte de Almeida e ao Professor Dr. Emanuel
Bruno Lopes, por tão gentilmente terem aceitado participar da banca de defesa da
minha monografia.
Enfim, a todos que contribuíram de forma direta e indireta nessa minha
conquista.
“Vida louca vida, vida breve! Já que eu
não posso te levar, quero que você me
leve. Vida louca vida, vida imensa,
ninguém vai nos perdoar, nosso crime
não compensa...”. Cazuza, morto de AIDS
em 1990.
RESUMO
O presente trabalho teve como objetivo principal analisar as principais formas de
preconceito identificadas pelas mulheres soropositivas e suas estratégias de
enfrentamento, tendo em vista o aumento de mulheres infectadas pelo vírus HIV no
Brasil nos últimos anos. Tem como objetivos específicos: Identificar atualmente quais
fatores contribuíram para o aumento do HIV/AIDS nas mulheres infectadas;
Investigar onde essas mulheres soropositivas sofrem mais preconceito e por último
identificar o perfil dessas mulheres soropositivas. Para a execução desse trabalho,
fez-se necessário tomar como base teórica as seguintes categorias: AIDS,
Feminização da AIDS, Preconceito e Estigma. O cerne desse trabalho foi analisar o
processo de feminização da AIDS, suas implicações e os motivos que levaram ao
aumento dos casos de HIV/AIDS nas mulheres, ressaltando as relações de gênero
presentes nesse processo e a forma como essas mulheres lidam com o preconceito.
Para a realização da pesquisa foi utilizada a abordagem qualitativa e para a
execução das entrevistas foi utilizado um roteiro semiestruturado. O processo de
feminização da AIDS é um fenômeno presente em nossa sociedade. As mulheres se
enquadram em uma categoria vulnerável à infecção devido ao poder de dominação
do homem sobre a mulher, por meio do qual eles se sentem detentores das decisões
dentro das relações. Algumas políticas públicas existentes para o enfrentamento da
AIDS são citadas no decorrer do trabalho de forma a compreender quais estratégias
estão sendo tomadas no processo de feminização da AIDS.
Palavras-chave: Preconceito. AIDS. Mulheres. Relações de Gênero.
ABSTRACT
This study aims to analyze the main forms of prejudice identified by HIV positive
women and their coping strategies, in view of the increase of women infected with
HIV in Brazil in recent years. Its specific objectives are: To identify factors which
currently contributed to the increase of HIV / AIDS in infected women; Investigate
where these seropositive women suffer more prejudice and finally identify the profile
of these seropositive women. To perform this work, it was necessary to take as a
theoretical basis the following categories: AIDS Feminization of AIDS, Stigma and
Prejudice. The core of this study was to analyze the feminization process of AIDS, its
implications and the reasons leading to increased cases of HIV / AIDS on women,
highlighting the gender relations present in this process and how these women deal
with prejudice. For the research we used a qualitative approach and the execution of
the interviews used a semi-structured script. The feminization of AIDS process is a
phenomenon present in our society. Women fall into a vulnerable category infection
due to man's domination of power over women, where they feel holders of decisions
within relationships. Some public policies existing to combat the AIDS are cited
throughout the form of study to understand what strategies are being taken in the
feminization of AIDS process.
Keyword: Prejudice. AIDS. Women. Gender Relations.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ABIA - Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS
AIDS - Síndrome da imunodeficiência adquirida
ARV - Medicamentos antirretrovirais
CDC - Center For Disease Control and Prevetion
CEMJA - Centro de Especialidades Médicas José de Alencar
DST - Doenças Sexualmente Transmissíveis
HIV - Vírus da Imunodeficiência Humana
ONGs - Organizações não governamentais
RSP - Rede Solidária Positiva
SESA - Secretária Estadual de Saúde
SICLOM - Sistema de Controle Logístico de Medicamentos
SIM - Sistema de Informações sobre Mortalidade
SINAN - Sistema de Informação de Agravos de Notificação
SISCEL - Sistema de Controle de Exames Laboratoriais
SMS - Secretaria Municipal de Saúde
UNAIDS - Programa das Nações Unidas sobre o HIV/AIDS
UNFPA - Fundo de População das Nações Unidas
UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 11
2 POLÍTICAS PÚBLICAS DE PREVENÇÃO E ENFRENTAMENTO DA
FEMINIZAÇÃO DA AIDS ...................................................................................... 17
2.1 AIDS no Mundo .................................................................................................. 17
2.2 AIDS no Brasil ................................................................................................... 22
2.3 Políticas Públicas para o Enfrentamento da AIDS no Brasil ......................... 24
3 GÊNERO E FEMINIZAÇÃO DA AIDS ................................................................... 27
3.1 Feminização da AIDS ........................................................................................ 30
3.2 O Perfil das Mulheres Pesquisadas Portadoras de HIV/AIDS ....................... 36
4 ESTIGMAS E PRECONCEITOS ENFRENTADOS PELAS MULHERES
PORTADORAS DE HIV/AIDS ............................................................................... 39
4.1 Tempo de Descoberta da Doença, Forma de Descoberta e de Transmissão
.................................................................................................................................. 39
4.2 O Resultado Positivo e a Reação dessas Mulheres ....................................... 45
4.3 Convívio Social e Estigma ................................................................................ 48
4.4 O Significado da Palavra Preconceito ............................................................. 51
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 53
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 56
ANEXOS ................................................................................................................... 61
11
1 INTRODUÇÃO
Relato inicialmente minha inserção e o modo como ocorreu a escolha do
meu objeto de pesquisa. Nos últimos dois anos, dediquei uma atenção especial por
meio de estudos e pesquisas às temáticas da feminização da AIDS. Essa inserção
teve início em agosto de 2012, quando fui estagiária do curso de Serviço Social do
Centro de Especialidades Médicas José de Alencar (CEMJA). Eu ficava no setor que
tratava pessoas com HIV/ AIDS, e durante esses anos fui percebendo que além dos
homens e homoafetivos existia um grande número de usuárias do sexo feminino
contaminadas com o vírus HIV. Esse fato me despertou interesse e ao conversar
com a minha então supervisora de campo, Hedilene, ela me fez perceber o quanto o
número de mulheres infectadas com HIV/AIDS nesses últimos anos havia
aumentado.
Então decidi realizar a minha monografia com base na temática A
feminização da AIDS, desde então comecei me aprofundar em pesquisas sobre
assuntos relacionados à infecção pelo vírus da imunodeficiência adquirida (HIV) e a
síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS), devido ao constante número de
mulheres infectadas pelo HIV no Brasil.
Ao concluir minha monografia sinto a necessidade em aprofundar mais
meus estudos sobre essa temática, visto que tenho muito a descobrir sobre esse
assunto.
Vale salientar que, durante meu período de estágio, tive contato constante
com mulheres infectadas pelo HIV, de modo que elas relatavam suas experiências
de vida após a descoberta da doença. Percebi que muitas foram contaminadas
pelos seus parceiros, e outro dado importante é que quase todas elas quando
descobriram que estavam infectadas foram abandonadas pelos parceiros que lhe
transmitiram o HIV.
Durante a minha aproximação com o objeto estudado passei algumas
dificuldades. Essas “dificuldades” ocorreram, por exemplo, em conseguir marcar
uma reunião com essas mulheres, pois quando uma podia outras não tinham
disponibilidade e dessa forma compareci a reunião por cerca de cinco vezes, sendo
que durante duas reuniões nenhuma mulher compareceu, somente os homens. Nas
outras três vezes, entrevistei uma única mulher, que se mostrou apta a me fornecer
todas as informações necessárias. Nas outras reuniões, entrevistei outras três
12
mulheres, das quais somente uma delas se mostrou receosa em colaborar comigo,
entretanto depois que expus o objetivo daquela entrevista ela acabou colaborando
da melhor forma possível.
A escolha do meu objeto de pesquisa não ocorreu aleatoriamente, mas a
partir de um aprofundamento que envolveu muitas leituras sobre o tema e uma
aproximação do campo de pesquisa. Segundo Goldenberg (2004), o olhar sobre o
objeto está condicionado historicamente pela posição social do cientista e pelas
correntes de pensamentos existentes.
A discussão que proponho neste trabalho é uma análise que parte de uma
realidade cada vez mais presente, sobre a feminização da AIDS, desde os fatores
que contribuíram para esse aumento até os problemas enfrentados por essas
mulheres soropositivas. O presente trabalho tem como objetivo geral: analisar as
principais formas de preconceito identificadas pelas mulheres soropositivas e suas
estratégias de enfrentamento. Busquei, partindo de uma base teórico-empírica,
responder aos seguintes objetivos:
1. Identificar atualmente quais fatores contribuiu para o aumento do
HIV/AIDS nas mulheres infectadas;
2. Investigar onde essas mulheres soropositivas sofrem mais preconceito;
3. Identificar o perfil dessas mulheres soropositivas.
Na sequência, serão discutidos os momentos de realização desta
pesquisa, desde as aproximações iniciais ao referencial teórico, inserção ao campo
empírico, suas dificuldades e cuidados metodológicos.
a)
Aproximações iniciais, o campo de pesquisa e a escrita.
Quando iniciei o meu estágio no CEMJA (Centro de Especialidades
Médicas José de Alencar), não tinha muito conhecimento sobre o assunto, cai como
se fala popularmente “de paraquedas” nessa temática. Com o passar do tempo,
senti uma enorme necessidade de leituras sobre o assunto que pudessem me
orientar e auxiliar nas dúvidas que iriam surgir durante o período de estágio.
Comecei a fazer leituras e pesquisas, como também a me aproximar mais
dos usuários que eram atendidos na Instituição, como uma forma de me familiarizar
com o tema e definir o objeto de pesquisa da minha monografia.
Passei, então, a pensar sobre os cuidados que teria que ter, pois se
tratava de um assunto delicado, sobre o qual muitos usuários não gostavam de falar
com pessoas “estranhas” (no caso, eu era vista como uma pessoa estranha). Pensei
13
também como seria minha inserção no campo de pesquisa, já que tencionava uma
aproximação maior com esses usuários.
Inicialmente, fiz um levantamento bibliográfico de livros, artigos, revistas,
leis e textos científicos que abordassem a minha temática. Esse momento foi de
suma importância, já que me permitiu, com base em referencial teórico,
compreender melhor o objeto pesquisado.
Na prática de pesquisa estão presentes também as apropriações, pelo
pesquisador, de bibliografia de ampla circulação mobilizada para a
compreensão de um determinado tema, que por sua vez, impõe significados
e direcionamentos (VALDEMARIN, 2010, p. 49).
Com esses levantamentos, construí um acervo bibliográfico, contendo
informações, textos e assuntos que me serviriam como um norte durante toda a
minha pesquisa.
Com o objeto de pesquisa definido, fui pensar onde seria feita a minha
pesquisa de campo, já que o local no qual fiz estágio encontrava-se interditado por
causa de um incêndio. Porém, isso não foi problema, pois durante o meu estágio
conheci um grupo voluntário que dava reuniões semanais no CEMJA. Então, fiz
contato com o Presidente desse grupo - o qual se chama Rede Solidária Positiva - e
ele prontamente me deixou participar das reuniões.
A Rede Solidária Positiva (RSP) é uma organização de pessoas vivendo
com HIV/AIDS
que existe
para promover o fortalecimento
das pessoas
sorologicamente positivas para o vírus HIV, em qualquer estágio, independente de
orientação sexual, gênero, credo, raça e cor, em nível municipal e estadual.
O Grupo Rede de Solidariedade Positiva – RSP, fundado em 2000, tem
como objetivo dar apoio aos portadores do vírus HIV, no Estado do Ceará, com sede
em Fortaleza, com extensão ao município de Sobral. Um dos principais objetivos é
dar assistência psicológica às pessoas que contraíram o vírus HIV, e todos os
componentes do grupo são portadores.
Em suas reuniões, são discutidos temas diversos, porém a maioria deles
reside em estabelecer estratégias para a recuperação da autoestima dos
acometidos bem como o reforço da importância de continuar lutando pela vida,
sempre pensando que o amanhã poderá ser melhor, não descartando nunca a
possibilidade da descoberta da cura para a enfermidade. Vale ressaltar que as
14
reuniões acontecem geralmente no segundo sábado do mês, em um prédio
localizado no centro de Fortaleza.
Dessa maneira comecei as minhas entrevistas, baseado em uma
pesquisa qualitativa.
Na pesquisa qualitativa a preocupação do pesquisador não é com a
representatividade numérica do grupo pesquisado, mas com o
aprofundamento da compreensão de um grupo social, de uma organização,
de uma instituição, de uma trajetória etc. (GOLDENBERG, 2004, p. 14).
Todas as minhas conversas com as mulheres entrevistadas foram
gravadas, com o devido consentimento delas, e também fiz uso do diário de campo,
para que dessa maneira eu pudesse considerar minhas impressões durante as
entrevistas. Vale ressaltar que fiz uso de um roteiro de entrevista (vide anexo 1),
para que pudesse me orientar durante as perguntas, como salienta Goldenberg: “[...]
o pesquisador deve elaborar um roteiro de questões claras, simples e diretas, para
não se perder em temas que não interessam ao seu objetivo (2004, p. 56)..
Em campo, registrava as observações, conversas e o comportamento
dessas mulheres com relação as minhas perguntas. Quando chegava em casa, fazia
a transcrição das falas em forma de texto, para assim facilitar a compreensão do que
fora dito. Tive que ouvir as gravações várias vezes, para fazer uma transcrição fiel
das entrevistas.
Enfim, durante as transcrições não senti muita dificuldade, pois todas as
entrevistadas foram muito objetivas em suas respostas, facilitando assim a
compreensão do assunto. O exercício da transcrição era revisado sempre que
achava necessário, procurando abstrair as palavras tão como foram ditas,
observando as pausas, sentimentos expressos e o modo particular como elas
falavam.
b) A estruturação dos capítulos
O trabalho está dividido em três capítulos, porém eles se complementam
em suas reflexões. Ressaltamos que este trabalho tem como ponto de partida quatro
categorias analíticas, sendo elas: AIDS, Feminização da AIDS, Preconceito e
Estigma. Segundo Goldenberg (2004), as categorias são os conceitos mais
importantes dentro de uma teoria.
15
No primeiro capítulo nos deteremos em abordar sobre o vírus HIV e a
doença AIDS, fazendo uma reflexão sobre o surgimento da AIDS no mundo e no
Brasil, apontando o surgimento da epidemia e a sua repercussão em todo o mundo.
Também abordaremos as políticas públicas governamentais para o enfrentamento
da AIDS no Brasil, bem como as políticas de defesa e enfrentamento ao processo da
feminização da AIDS.
Em seguida, no capítulo dois, pretendemos esclarecer as bases teóricas
acerca das considerações de alguns autores sobre gênero, explanando as relações
de gênero e as desigualdades que vêm atreladas a este conceito.
Ainda neste mesmo capítulo, abordaremos o perfil das mulheres
portadoras de HIV/AIDS, no qual discutiremos a faixa etária, escolaridade, profissão,
renda e sua orientação sexual.
No terceiro capítulo, faço uma abordagem dos preconceitos e estigmas
enfrentados por essas mulheres soropositivas, é neste capítulo que trago elementos
das minhas entrevistas realizadas na pesquisa de campo.
Ainda neste capítulo, abordaremos o tempo e a forma de descoberta da
doença e como ocorreu à transmissão da doença e qual foi a reação dessas
mulheres após a descoberta da doença.
Enfim, abordaremos a relação das mulheres entrevistadas com as
pessoas de seu convívio e também o significado da palavra preconceito para elas.
A discussão feita nestes capítulos é uma forma de conhecer e
problematizar
a
realidade
pesquisada,
buscando
compreender
elementos
necessários dentro dessa conjuntura, com a finalidade de subsidiar as reflexões do
objeto pesquisado.
Ressaltamos que apesar de a AIDS ter sido descoberta há mais de trinta
anos, ainda não foi possível controlar a epidemia, tendo em vista que ela é instável e
sem cura. Mesmo com todos os avanços na medicina, ainda não foi possível
encontrar a cura da AIDS. Destacamos que com a criação dos medicamentos
antirretrovirais no Brasil, as pessoas que possuem AIDS podem viver por muitos
anos e levam uma vida melhor se comparada com o contexto do início da doença.
No Brasil, há de se registrar que é cada vez mais frequente o aumento do
número de mulheres contaminadas pelo vírus HIV/AIDS. Com base nos dados do
Departamento de DSTs, AIDS e Hepatites Virais, acumulados de 1980 a junho de
2012, no Brasil foram notificados um total de 656.701 casos de AIDS, dos quais
16
426.459 (64,9%) eram do sexo masculino e 250.161 (35,1%) do sexo feminino. No
entanto, essa diferença vem diminuindo com o passar dos anos e, de acordo com as
últimas pesquisas realizadas em 2011, esses números passaram para 1,7 casos em
homens para cada um em mulheres1.
Salientamos que muitas mulheres não possuem o conhecimento
necessário sobre a AIDS, e esse fator contribui para o aumento da feminização da
AIDS. Segundo Parcker (2000), mesmo com todos os avanços no âmbito da saúde
no que diz respeito à AIDS, ainda é comum encontrarmos mulheres que não usam
camisinha e que não se previnem da AIDS.
Algumas mulheres não sentem a necessidade de se prevenir durante as
relações sexuais com seus parceiros estáveis, como no casamento, por confiarem
em seus parceiros e acabam achando que a confiança e a fidelidade estão acima de
tudo.
Tal fator nos faz pensar nas relações de gênero, pois o modelo de
masculinidade ainda é presente dentro da sociedade, ou seja, o homem é detentor
de posse das mulheres, dominando-as em tudo, inclusive nas relações sexuais.
Diante dessa realidade, percebemos que as mulheres estão cada vez
mais suscetíveis a contrair o vírus HIV, no entanto esse aumento envolve fatores
diversos, desde a falta de informação até a dominação masculina sobre a mulher.
1
Disponível em: <http://www.aids.gov.br>. Acesso em: 05 out. 2013.
17
2 POLÍTICAS PÚBLICAS
FEMINIZAÇÃO DA AIDS
DE
PREVENÇÃO
E
ENFRENTAMENTO
DA
Para dar início à discussão sobre a feminização da AIDS, é indispensável
abordar elementos significativos da história em relação a essa categoria.
Sendo assim, será discutido minuciosamente o resgate histórico da AIDS
no mundo e no Brasil, para que possa ser compreendido o surgimento desta, como
a doença era vista pela sociedade, bem como as estatísticas da AIDS no Brasil e no
mundo. Atualmente a doença atinge públicos diferentes, independente da classe
social, idade, cor e sexo, ou seja, qualquer pessoa com um comportamento de risco
encontra-se suscetível a ser contaminada pela AIDS.
A epidemia da infecção pelo HIV/AIDS no Brasil vem nos últimos anos
apresentando importantes mudanças de perfil epidemiológico em nível
nacional e, principalmente, revelando padrões distintos nos diversos níveis
de agregação geográfica (CASTILHO; CHEQUER, 1997, p. 18).
Diante desse contexto da epidemia, percebeu-se a necessidade da
inserção de políticas públicas de enfrentamento ao HIV/AIDS, através de uma
resposta do Estado a esse novo fenômeno que atingia de forma rápida à população
do mundo e do Brasil.
Outro fator importante nesse contexto é o gênero, pois ele é uma
categoria muito relacionada ao poder e a dominação entre os sexos. Sendo esse
conceito, pouco usual atualmente. Falar de gênero é falar sobre a relação social
entre homens e mulheres, compreendendo como se constroem enquanto sujeitos
sociais. Segundo Scott (1990), o gênero é constituído de relações sociais baseadas
sobre as diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é o primeiro passo para
dar significado às relações de poder.
2.1 AIDS no Mundo
A síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) foi reconhecida pela
primeira vez em 1981, nos Estados Unidos, e durante todos esses anos ela ainda é
considerada um dos grandes desafios para o mundo científico e para a sociedade.
Segundo Galvão (2000), a AIDS acarretou desafios para a área científica, trouxe
novos atores para os movimentos sociais, e, sobretudo, conferiu maior visibilidade a
18
questões relacionadas à sexualidade. Dessa maneira, a AIDS representa um
fenômeno de ordem mundial, com características peculiares e relacionadas
principalmente ao preconceito e aos valores morais impostos pela sociedade.
O HIV2 é a sigla em inglês da imunodeficiência humana que é o causador
da AIDS. Esse vírus ataca o sistema imunológico, responsável por defender o
organismo de doenças. As células mais atingidas são os linfócitos T CD4+, e é
alterando o DNA dessa célula que o HIV faz cópias de si mesmo. Após se
multiplicar, rompe os linfócitos à procura de outros para continuar a infecção3.
Após a infecção do vírus HIV, o sistema imunológico começa a ser
atacado. A partir daí, ocorre a infecção aguda ou primeira fase, essa fase é marcada
pela incubação do HIV - tempo da exposição do vírus até o aparecimento dos
primeiros sintomas da doença. Esse período varia de 3 a 6 semanas. O organismo
levará de 30 a 60 dias após a infecção para produzir anticorpos anti-HIV (BRASIL,
2014).
Um grande número de pessoas vive anos sem apresentar sintomas e
também sem desenvolver a AIDS (nome da doença). Nesta fase em que o vírus
permanece incubado, seu portador é chamado um soropositivo para HIV. A fase
entre a infecção pelo vírus e o surgimento dos primeiros sintomas da AIDS irá
depender do estado de saúde do indivíduo (BRASIL, 2014).
A
transmissão
do
vírus
ocorre
através
das
relações
sexuais
desprotegidas, por transfusão de sangue infectado ou ainda da mãe infectada, que
não está em tratamento, para o bebê durante a gravidez, no parto, e no caso da
AIDS, também durante a amamentação (SMS, 2014). Pode-se dizer que o portador
de HIV possui AIDS , quando o vírus atinge os linfócitos TCD4, diminuindo a
capacidade de defesa do sistema imunológico do portador. Essa baixa imunidade
favorece o surgimento das chamadas doenças oportunistas4. A partir desse estágio
faz-se necessário o uso de medicamentos antirretrovirais (ARV).
Vale salientar que apesar do avanço na descoberta do HIV/AIDS, dados
do relatório divulgado pelo Programa das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS)
2
O HIV é um retrovírus, classificado na subfamília dos Lentiviridae. Informações disponíveis em:
<www.aids.gov.br/pagina/o-que-e-hiv>. Acesso em: 10 set. 2014.
3
Informações disponíveis em: Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais:
<www.aids.gov.br/pagina/o-que-e-hiv>. Acesso em: 10 set. 2014.
4
Doenças oportunistas ou infecções oportunistas são doenças que se aproveitam da fraqueza do
sistema imunológico, que cuida da defesa do organismo. São exemplos dessas doenças: pneumonia,
tuberculose, neurotoxoplasmose, etc. Disponível em: <www.aids.gov.br>. Acesso em: 1º ago. 2014.
19
apontam uma estatística preocupante. De acordo, com este relatório, cerca de 19
milhões das 35 milhões de pessoas vivendo com HIV não sabem que têm o vírus e
irão morrer por não o saberem (UNAIDS, 2014, p. 03).
A infecção pelo HIV continua sendo de grande relevância para a saúde
pública mundial. Apesar da emergência da terapia antirretroviral, dados do relatório
divulgado também pela UNAIDS apontam os níveis de infecções por HIV.
Segundo este relatório, existe em todo o mundo 34,2 milhões de pessoas
vivendo com HIV; sendo 30,7 milhões de adultos, 16,7 milhões de mulheres e 3,4
milhões de menores de 15 anos. A África Subsaariana registra o maior número de
pessoas infectadas, com 23,5 milhões, seguidos pela Ásia Meridional e Sul-Oriental,
com 4,2 milhões. A Oceania tem a menor estimativa, com 53 mil infectados. Na
América Latina, são 1,4 milhões (UNAIDS, 2012).
Apesar de haver atualmente muitos casos de AIDS registrados no mundo,
a UNAIDS aponta que existe esperança que a doença diminua com o passar dos
anos. Este relatório relata os menores níveis de novas infecções por HIV nesse
século: 2,1 milhões [1.9-2.4 milhões]. Nos últimos três anos, as novas infecções
caíram 13% (UNAIDS, 2014).
É necessário rever as políticas públicas existentes e também as ações de
enfrentamento ao HIV, para que haja uma redução dessa epidemia cada vez mais,
antes que mais pessoas sejam contaminadas com o vírus.
Se acelerarmos todas as ações de enfrentamento ao HIV até 2020,
estaremos no caminho certo para acabar com a epidemia até 2030. Se não
o fizermos, corremos o risco de aumentar significativamente o tempo que
levaríamos para atingir essa meta - adicionando a ele ao menos mais uma
década (SIDIBÉ, UNAIDS, 2014, p. 4).
No início dos anos 80, nos Estados Unidos da América, foram
reconhecidos os primeiros casos da doença a partir da identificação de inúmeros
casos de pacientes adultos do sexo masculino, homossexuais e moradores de São
Francisco, Los Angeles e Nova Yorque, que apresentavam sintomas de doenças
oportunistas - sarcoma de Kaposi e pneumonia por Pneumocystis carinii (AFFONSO, 2009).
Em 1981, o aumento destes sintomas chamou a atenção do órgão de
vigilância epidemiológica americano (Center For Disease Control and Prevetion-
20
CDC), que passou a estudar a doença. No começo, a doença era mais frequente
entre os homossexuais e os usuários de drogas injetáveis (AFFONSO, 2009).
Diante desse contexto, a AIDS por ainda ser uma doença desconhecida e
agressiva, traz consigo uma concepção de ameaça à vida dos indivíduos.
No início, a doença desconhecida, que fazia vítimas nos Estados Unidos,
Haiti e África Central, ganhou uma denominação temporária: a Doença dos
5H-H de homossexuais, hemofílicos, haitianos, usuários de heroína injetável
e hookers, que em inglês significa profissionais do sexo (CARTILHA, 2009,
p. 3).
Com base no exposto, observa-se que a AIDS era uma doença
desconhecida dentro da sociedade, marcada principalmente pelo aumento de morte
entre jovens da época e muitos integrantes gay norte-americanas, tão logo a doença
ficou conhecida de “câncer gay”.
Góis (2002), em um dos seus artigos, examina os ideários e práticas de
um dos atores mais significativos do processo da AIDS, o Aids Coalition to Unleash
Power (ACT UP/NY), neste artigo ele discorre sobre os processos culturais
relevantes, ou seja, o forjar de identidades coletivas e a circularidade de saberes. O
referido autor faz uma análise da agenda do movimento gay em relação à AIDS.
As características culturais da comunidade gay dos grandes centros
urbanos eram apresentadas no discurso do ACT UP/NY como impeditivas
do seu próprio empowerment e de uma luta mais efetiva contra a Aids. O
grupo sugeria que a falta de coesão interna a impedia de obter direitos mais
amplos e de consolidar aqueles já obtidos. (GÓIS, 2002, p. 519).
De acordo com Góis (2002), o grupo buscou também salientar as
contradições internas da comunidade gay: as hipocrisias, os preconceitos e a
mesma dominação branco-masculina que caracteriza a sociedade norte-americana
como um todo.
No começo da AIDS, as pessoas acometidas com essa doença eram
rotuladas pela expressão “grupo de risco”, pelo fato de essa doença atingir
principalmente
homoafetivos,
usuários
de
drogas
injetáveis
e
hemofílicos,
relacionando a AIDS à perversão, à promiscuidade e às drogas.
Entretanto, com o passar do tempo, a AIDS deixou de ser uma doença
exclusiva dos homoafetivos e dos usuários de drogas e passou a atingir outros
grupos da sociedade, como: mulheres, idosos, crianças heterossexuais, etc.
21
Em 2012, a taxa de detecção de casos de Aids em homens foi de
26,1/100.000 habitantes e de 14,5 em mulheres, com uma razão de sexos de 1,7
casos em homens para cada caso em mulheres (BRASIL, 2013). Em 2012, nove das
27 UF apresentaram taxas de detecção de AIDS em menores de cinco anos de
idade maiores que a média nacional (3,4/100.000) (BRASIL, 2013).
Atualmente, fala-se em comportamento de risco e não mais em grupo de
risco, pois o vírus passou a se espalhar de forma geral, não mais se concentrando
apenas nesses grupos específicos. O número de heterossexuais infectados pelo HIV
tem aumentado proporcionalmente com a epidemia dos últimos anos, principalmente
entre as mulheres5.
Essa dominação de “grupo de risco” criado pela sociedade passou a ser
amplamente divulgada e passam a ser importantes nas ações de prevenção que
implicavam padrões morais de conduta mostrando-se insuficiente para o controle da
doença.
Este estereótipo, no entanto, passa a ser percebido como um processo de
estigmatização e preconceito, no qual essas pessoas que já sofriam preconceito
pela sua conduta de vida e orientação sexual, agora acabam sendo estigmatizadas
pelo conceito de grupo de risco em relação à AIDS. Segundo Goffman (2013), o
termo estigma será usado em referência a um atributo profundamente depreciativo,
mas o que é preciso, na realidade, é uma linguagem de relações e não de atributos.
De acordo com Basta (2005), a AIDS é vista perante a sociedade como
um desvio de conduta do indivíduo, no qual só quem possui a doença são aquelas
pessoas do “mundo” e os gays. Dessa forma a sociedade acaba responsabilizando o
indivíduo pelo fato de ele possuir AIDS. A AIDS vem para reforçar a discriminação
contra essas pessoas e torná-las ainda mais estigmatizadas e com medo de revelar
a doença.
Por definição, é claro, acreditamos que alguém com um estigma não seja
completamente humano. Com base nisso, fazemos vários tipos de
discriminações, através das quais efetivamente, e muitas vezes sem
pensar, reduzimos suas chances de vida (GOFFMAN, 2013, p. 15).
Com o passar dos anos, a AIDS foi ganhando novos atores e assim se
tornou cada vez mais conhecida em todo o mundo. A AIDS, segundo algumas
5
Disponíveis em: <www.aids.gov.br/pagina/2010>. Acesso em: 4 ago. 2014.
22
pesquisas, teve sua primeira confirmação no Brasil por volta de 1982, na cidade de
São Paulo.
2.2 AIDS no Brasil
No Brasil, assim como em todo o mundo, os portadores de HIV sofreram
muita discriminação e preconceito. Segundo Galvão (2000), no ano de 1981, as
primeiras matérias sobre o que era então denominado “câncer gay” surgem na mídia
brasileira.
Para esse momento da AIDS no Brasil, a mídia se coloca como principal, e
quase único, meio de informação, sobretudo dada à abrangência nacional
de alguns veículos de comunicação, sobre o que era então denominado
‘câncer ’ e ‘praga gay’, entre outros nomes (GALVÃO, 2000, p. 49).
Diante das notícias veiculadas na imprensa de “câncer gay”, a AIDS
começa a ser vista pela sociedade de uma maneira distorcida. Isso reforçou o
estigma de uma doença voltada somente para o público gay. Desde então essas
matérias divulgadas na mídia brasileira sobre a AIDS só contribuíram para uma
construção histórica preconceituosa e errônea em torno da doença.
Percebendo-se o aumento da doença, em meados dos anos 1980
surgiram muitos programas de enfrentamento a esta epidemia, além de políticas
públicas voltadas ao combate do HIV/AIDS. Como exemplo dessas políticas existem
o Programa Nacional de AIDS do Ministério da Saúde, as Organizações não
governamentais e a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA)
(DIAS,2010). Vale ressaltar, que mais a frente discutiremos sobre as políticas
públicas.
Apesar do elevado índice de pessoas infectadas com o vírus, o
tratamento para a doença só foi descoberto algum tempo depois.
Em 1991, inicia-se o processo para a aquisição e distribuição gratuita de
antirretrovirais. Em 1993, o Brasil passa a produzir o AZT (coquetel que
trata a AIDS). E em 1996, uma lei fixa o direito ao recebimento de
medicação gratuita para o tratamento da AIDS (BRASIL, 2014, p. 1).
A AIDS tornou-se um marco histórico da humanidade. Junto com o
surgimento da AIDS vieram os questionamentos, medos e preconceitos de uma
23
doença ainda tão pouco conhecida na população. Um dos fatores para tal
agravamento da doença são as questões sociais que envolvem esse processo, que
teve início nos Estados Unidos e foi se estendendo por outros países.
Segundo estimativas realizadas pelo Departamento de DST, AIDS e
Hepatites Virais aproximadamente 718 mil pessoas vivem com HIV/AIDS no Brasil,
de acordo com dados do Ministério da Saúde (BRASIL, 2013). Desde o começo da
epidemia, em 1980, até junho de 2013, no Brasil, foram notificados um total de
686.478 casos de AIDS, dos quais 445.197 (64,9%) são do sexo masculino e
241.223 (35,1%) são do sexo feminino (BRASIL, 2013).
Em 2012, foram notificados no SINAN (Sistema de Informação de
Agravos de Notificação), declarados no SIM (Sistema de Informações sobre
Mortalidade) e registrados no SISCEL/SICLOM (Sistema de Controle de Exames
Laboratoriais/ Sistema de Controle Logístico de Medicamentos), 39.185 casos de
AIDS, em relação aos quais a Região Nordeste aparece em terceira colocada, com
7.971(20,3%) dos casos (BRASIL, 2013).
No Ceará, até novembro de 2013, foram registrados 13.208 casos de
AIDS no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), desde o
primeiro caso conhecido da doença em 1983 (SESA, 2013)
Observa-se o aumento de municípios no Estado do Ceará que registram
casos de AIDS. Outro fator importante é que destes casos 70% são do sexo
masculino e 30% do sexo feminino. No ano de 2012, foram confirmados 1.072 casos
de AIDS, sendo 621(58%) residentes em Fortaleza (SESA, 2013).
Outro dado importante é a faixa etária em que a AIDS é mais frequente. O
maior número de casos no Ceará tem sido notificado em adultos jovens de ambos
os sexos na faixa etária de 20 a 40 anos de idade, no entanto, entre as pessoas com
mais de 50 anos de idade, também de ambos os sexos, a doença apresenta taxas
de incidência crescentes (SESA, 2013).
Com base nos dados, percebemos um aumento nos casos de AIDS no
sexo feminino, não somente no estado do Ceará, mas em todo o Brasil. Diante
desse aumento, percebemos a importância em realizar uma pesquisa no campo da
Feminização da AIDS. Vale salientar que ainda é grande o número da doença nos
homens, mas com o passar dos anos esta diferença vem diminuindo e cada vez
mais as mulheres estão sendo infectadas.
24
2.3 Políticas Públicas para o Enfrentamento da AIDS no Brasil
Diante desse aumento nos casos de HIV/AIDS na população, fez-se
necessário a utilização de novas estratégias para o enfrentamento dessa epidemia,
ou seja, foram implementadas políticas públicas.
As políticas públicas podem ser definidas como respostas do Estado a
problemas que emergem na sociedade. São consolidadas em conjuntos de
diretrizes, medidas e procedimentos que explicitam o posicionamento político do
Estado frente a problemas que são considerados de interesse público (TEIXEIRA,
1997; SAMPAIO & ARAÚJO, 2006).
Como citado anteriormente, a AIDS surge no Brasil em 1980, e vem
associada com uma carga de preconceito e estigma, sendo vinculada à
homossexualidade, e chamada popularmente de “câncer gay” ou “peste gay”. A
doença aparece em um período no qual o Brasil estava atravessando importantes
mudanças. A década de 1980 é marcada pelo começo do processo de
redemocratização do país.
Diante do aumento da doença e da proporção que ela tomou, vão
surgindo aos poucos grupos organizados na grande maioria de homossexuais que
protestam contra o terror e os estigmas difundidos dentro da sociedade de uma
doença exclusiva dos gays.
Nos anos de 1985 a 1989, diversas iniciativas da sociedade civil estavam
voltadas exclusivamente às questões da AIDS, nesse período acontece um grande
aumento das ONGs (Organizações não governamentais). Vale destacar quatro
principais ONGs que apresentam importante inserção política na luta nacional contra
a AIDS: o Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS (GAPA), Associação Brasileira
Interdisciplinar de AIDS (ABIA), o Grupo pela Valorização, Integração e Dignidade
do Doente de AIDS (Pela Vidda) e o Apoio Religioso Contra Aids/Instituto de
Estudos da Religião (ARCA/ISER) (PEREIRA; NICHIATA, 2009)
É importante destacar que o contexto da AIDS no Brasil foi marcado por
vários aspectos, desde a dimensão política até a cultural. Com base nesse contexto,
é possível definir um conjunto de fases ou períodos divididos à resposta da AIDS no
Brasil.
O primeiro período (1982-1985), quando os primeiros casos de AIDS
foram oficialmente notificados e uma mobilização muito gradual começou a ter lugar
25
na maioria das áreas mais afetadas, como a cidade de São Paulo (PARKER, 1997).
Esse período também foi marcado pela omissão do governo, principalmente no
âmbito federal.
O segundo período (1986-1990), quando a dimensão da epidemia
começou a expandir-se rapidamente, um Programa Nacional de AIDS foi iniciado e
um número crescente de organizações não governamentais de serviço e pressão
política voltadas para a AIDS começaram a se estender em todo país (PARKER,
1997). Vale destacar que o aumento da cooperação internacional e uma forte
tendência à crescente centralização em Brasília acabam por gerar um aumento
gradual das tensões entre os programas, nos mais diversos níveis de governo
(DIAS, 2010).
O terceiro período (1990-1992), quando uma grave crise institucional no
governo federal praticamente paralisou os programas de AIDS. O cenário político
encontrava-se tenso e conturbado, era a época do governo Collor. Segundo Teixeira
(1997), nesse período ocorreram transformações prejudiciais nas políticas brasileiras
com o afastamento da articulação do governo com a sociedade civil organizada e
com as instituições internacionais que realizavam apoio ao Brasil.
O quarto período (1992-1993), quando o Programa Nacional de AIDS foi
reorganizado e uma nova parceria foi estabelecida entre o Estado e os ativistas nãogovernamentais (PARKER, 1997). Esse período é marcado pelo impeachment de
Collor e surge a expectativa de melhoras em todos os setores, especificamente da
saúde e economia.
Por último, o quinto período que vai de 1994 até os dias atuais, quando o
acordo para o primeiro empréstimo do Banco Mundial forneceu um influxo maciço de
recursos para programas de prevenção em todos os níveis, e um compromisso
crescente por parte do governo federal em garantir acesso à assistência e
tratamento vem se solidificando e sendo posto em prática, em grande parte como
resposta à pressão contínua de populações e comunidades afetadas (PARKER,
1997).
Dentro dessa conjuntura, foi implementada a elaboração de três projetos,
destinados às ações de controle da AIDS: AIDS I, II, III. Esses projetos foram
financiados pelo Banco Mundial.
Os projetos AIDS I e AIDS II desenvolveram, sobretudo, ações de
prevenção em HIV/AIDS, em que quase metade dos recursos estava diretamente
26
relacionado à prevenção, sendo cerca de 34% dedicados a serviços de tratamento e
o restante voltado para o desenvolvimento institucional, a vigilância, a pesquisa e a
avaliação. Nessa direção, as principais metas do projeto AIDS III foram: melhoria da
cobertura e da qualidade das intervenções de prevenção e assistência;
fortalecimento dos gastos do PN-DST/AIDS com o monitoramento e avaliação das
ações, e introdução de novas tecnologias no campo de vacinas e tratamento
(PEREIRA; NICHIATA, 2009).
Durante os 30 anos da existência da AIDS, o Brasil melhorou muito no
que diz respeito às políticas públicas de enfrentamento à AIDS.
Enfim, percebemos um grande esforço por parte do Governo nas
implantações de políticas públicas voltadas para o enfrentamento da feminização da
AIDS, contudo muito falta ainda ser feito para diminuir o preconceito em torno da
AIDS. Atualmente, temos diversos órgãos de atendimento às pessoas com
HIV/AIDS, por exemplo, a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV, que está
presente em todo Brasil; temos as coordenadorias municipais de enfrentamento à
DST/AIDS; existem as legislações específicas para os portadores de HIV, como é o
caso da Política Nacional de Pessoas Vivendo com HIV, entre outros mecanismos
de defesa às pessoas vivendo com AIDS (SILVA, 2013). No próximo tópico, iremos
nos detalhar melhor sobre a categoria gênero e suas implicações no processo de
feminização da AIDS.
27
3 GÊNERO E FEMINIZAÇÃO DA AIDS
Neste estudo, gênero é entendido como uma categoria de análise das
relações sociais entre homem e mulher. A categoria gênero é muito abrangente e
peculiar, que envolve fatores históricos e sociais. Essa categoria, por muito tempo,
foi utilizada unicamente para expressar as diferenças de sexo, ou seja, o masculino
e o feminino, e hoje ela é utilizada com o objetivo de expressar a organização social
das relações entre os sexos.
Sobre esse pensamento:
Foi, portanto, para rejeitar o determinismo biológico implícito no uso das
dicções sexo ou diferença sexual, e para enfatizar o aspecto relacional das
definições normativas da feminidade, ou seja, para destacar o caráter,
fundamentalmente, social das diferenças fundadas sobre o sexo que
apareceu a palavra gênero (OSTERNE, 2008, p. 131).
Segundo Scott o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais
fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é um primeiro
modo de dar significado às relações de poder.
O gênero se torna, aliás, uma maneira de indicar as “construções sociais”- a
criação inteiramente social das ideias sobre os papéis próprios aos homens
e as mulheres. É uma maneira de se referir às origens exclusivamente
sociais das identidades subjetivas dos homens e das mulheres (1989, p. 7).
Ainda conforme Scott (1989) a definição de gênero possui duas partes e
várias subpartes sendo ligadas entre si. A primeira parte fala que o “gênero é um
elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre
os sexos; a segunda parte é que o gênero é a primeira forma de significar as
relações de poder”.
Com relação às subpartes, Scott (1989) elenca quatro elementos: os
símbolos culturais que evocam as representações simbólicas (exemplo: Eva e
Maria); O segundo se refere aos conceitos normativos expressos nas doutrinas
religiosas, educativas, científicas e políticas ou jurídicas, afirmando sem erros o
sentido do masculino e do feminino; o terceiro elemento se refere a uma visão ampla
não incluindo somente o parentesco, mas também o mercado de trabalho e por
último o quarto elemento às identidades subjetivas.
28
É importante salientar que estes aspectos encontram-se presentes nas
análises da referida autora como uma primeira definição de gênero. A segunda parte
da definição de gênero remete-se ao conceito dessa categoria, onde gênero
significa:
[...] um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações
complexas entre diversas formas de interação humana. Quando os (as)
historiadores (as) procuram encontrar as maneiras como o conceito de
gênero legitima e constrói as relações sociais, eles/elas começam a
compreender a natureza recíproca do gênero e da sociedade e das formas
particulares, situadas em contextos específicos, como a política constrói o
gênero e o gênero constrói a política (SCOTT, 1989, p. 23).
É importante destacar que a expressão gênero muitas vezes é utilizada
como referência a qualquer construção social que tenha a ver com a diferença entre
masculino e feminino. Vale ressaltar que o conceito de gênero está ligado ao
conceito de sexo. Segundo Nicholson (1999), se o próprio corpo é sempre visto
através de uma interpretação social então o “sexo” não pode ser independente do
“gênero”.
Segundo Osterne (2011), gênero refere-se a uma concepção bem mais
geral, uma vez que absorve não só dimensões de relação homem-mulher como
também as relações homem-homem e mulher-mulher.
Osterne (2011) também traz a discussão sobre violência de gênero:
[...] a violência de gênero poderá ser perpetrada por um homem contra
outro, por uma mulher contra outra mulher, por uma mulher contra num
homem. O vetor mais usual e amplamente difundido no contexto da
violência de gênero, entretanto, aponta no sentido homem contra mulher,
fazendo aparecer o viés da falocracia como caldo de cultura (OSTERNE,
2011, p. 134).
Vale salientar que também existe outra forma de violência com relação ao
gênero, em que a dominação do homem sobre a mulher é exercida por meio de uma
violência simbólica.
A violência simbólica se institui por intermédio da adesão que o dominado
não pode deixar de conceder ao dominante (e, portanto, à denominação)
quando ele não dispõe, para pensá-la e para se pensar, ou melhor, para
pensar sua relação com ele, de mais que instrumentos de conhecimento
que ambos têm em comum e que, não sendo mais que a forma incorporada
da relação de dominação, fazem esta relação ser vista como natural
(BOURDIEU, 2014, p. 56).
29
A violência simbólica ocorre através da relação de poder, podendo ser
caracterizada pela agressão verbal. Segundo Bourdieu (2014), a força simbólica é
uma forma de poder que se exerce sobre os corpos, diretamente, e como por magia,
sem qualquer coação física.
A desigualdade entre os gêneros deriva de fatores sociais, culturais e
históricos, em que essas desigualdades conduzem as ações e os comportamentos
ao ser feminino e masculino.
Segundo Saffioti (2004), a questão gênero não é um conceito neutro, pois
traz consigo uma dose apreciável de ideologia.
Se gênero é um conceito útil, rico e vasto, sua ambiguidade deveria ser
entendida como uma ferramenta para maquiar exatamente aquilo que interessa ao
feminismo [...] (SAFFIOTI, 2004).
Para Saffioti (2004)6, a construção dos gêneros ocorre através das
relações sociais, nas quais não se percebe apenas corpos que entram em relação
com outros. É a totalidade construída pelo corpo, pelo intelecto, pela emoção, pelo
caráter do Eu, entrando em contato com o outro. Cada indivíduo é a história de suas
relações sociais, simbolizadas pelas contradições de gênero, classe, raça/etnia.
Entendemos por relações de gênero, aquelas internalizadas por homens
e mulheres, onde o homem se acha superior à mulher devido à força física e
também por se achar o “chefe” dentro da família.
Eis porque o machismo não constitui privilégio de homens, sendo a maioria
das mulheres também suas portadoras. Não basta que um dos gêneros
conheça e pratique atribuições que lhe são conferidas pela sociedade, é
imprescindível que cada gênero conheça as responsabilidades do outro
gênero (SAFFIOTI, 1992, p. 10).
Devemos lembrar que embora o conceito de gênero tenha tido destaque
enquanto método de análise das condições das mulheres ele não pode ser usado
como sinônimo de mulher. Sendo utilizado para diferenciar e descrever as categorias
homem e mulher, como para observar as relações entre essas duas categorias.
Enfim, esses estudos servem para romper com a visão binária e
biologista: dois sexos e dois gêneros. São problematizadas as classificações sociais
6
SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado, violência. 1ª ed. São Paulo: Fundação Perseu
Abramo, 2004.
30
que rotulam combinações entre gênero, sexualidade e corpo, compreendendo que
existem identidades não enquadradas aos padrões tradicionais e dominantes.
3.1 Feminização da AIDS
No Brasil, a epidemia do HIV/AIDS, durante seus 30 anos de descoberta,
vem sendo tratada não só como um problema de saúde pública. No que se refere à
feminização da AIDS, é importante salientar que a vulnerabilidade feminina se
agrava por diversos fatores, entre eles: econômicos, sociais e culturais. É importante
destacar, as reflexões de alguns autores sobre o processo de feminização da AIDS:
Como entram as mulheres nesta epidemia que se caracterizava como
quase inteiramente masculina, de homossexuais e hemofílicos? Eis mais
um dos pontos onde é nitidamente visível a relação entre o ideológico e o
biológico, em que se vê como as categorias sociais e representações
moldam e influenciam não apenas a nossa percepção da epidemia, mas
também, pelo impacto das nossas atitudes, o seu próprio percurso
(PARKER et al. 1994, p. 35).
Não deveria ser esperado pelo corpo médico especializado o aumento de
casos de AIDS entre as mulheres, pois, desde o primeiro caso identificado
nos EUA, até meados de 1990, a OMS (1990) estimou que entre oito a dez
milhões de pessoas estariam infectadas pelo vírus no mundo, e dessas três
a quatro milhões seriam mulheres entre 15 e 45 anos de idade
(GUIMARÃES, 1994, p. 222).
Segundo Maria de Bruyn (1992), existem quatro razões primordiais para o
processo de feminização da AIDS.
1 - Os estereótipos e preconceitos relacionados ao HIV/AIDS deixam
entrever que a mulher ora é culpada pela sua disseminação, ora não é
reconhecida como possível portadora de HIV;
2 - Os encargos físicos, sociais e psicológicos são maiores para as
mulheres HIV-positivas ou com AIDS do que para homens em condição
similar;
3 - Dado o seu papel social de cuidar e assistir ao doente e diante da
carência de serviços públicos de saúde, a mulher, leiga ou profissional, é
cada vez mais solicitada a atender a demanda imposta pela epidemia;
4 - O baixo status social da maioria das mulheres em relação aos homens
dificulta a adoção por elas de medidas de prevenção adequadas.
De acordo com Taquette (2009), ao longo dos anos a epidemia da AIDS
vem se feminizando, pauperizando e heterossexualizando. Atualmente existe uma
tendência sobre o aumento de infecção de mulheres por via heterossexual de
parceiros únicos. Dentro desse contexto, percebe-se que essas mulheres não fazem
31
parte do “grupo de risco”, o que se percebe é que elas estão inseridas em contextos
sociais que fortalecem suas vulnerabilidades com relação às DSTs (Doenças
Sexualmente Transmissíveis). Como exemplos, citamos a violência de gênero, ou
seja, a mulher não tem a posse do seu próprio corpo; o racismo; a pobreza; a baixa
escolaridade e a não garantia dos direitos sexuais e também reprodutivos.
Dentro desse contexto, achamos importante em realizar esta pesquisa
tendo em vista o grande aumento de infecções de mulheres pelo vírus HIV,
principalmente em decorrência das relações de gênero. A referida pesquisa possui
como objetivo principal identificar até que ponto a relação de poder existente dentro
das relações de gênero pode aumentar o número de mulheres infectadas pelo HIV,
com o objetivo de disseminar informações acerca do processo de feminização da
AIDS.
Segundo Barbosa; Moraes (2009), a feminização da AIDS possui uma
relação direta com a questão de gênero, considerando-se o perfil das mulheres que
vêm sendo acometidas pela doença, quais seja: mulheres monogâmicas, não
usuárias de drogas injetáveis e dependentes economicamente e emocionalmente de
seus companheiros e com nenhum ou pouco poder de decisão na relação, inclusive
no que se refere ao comportamento sexual.
Segundo Bastos et al., (1995), a epidemia brasileira, nos seus primeiros
anos, afetou de maneira desproporcional maior os homens. Porém, de acordo com
dados do Ministério da Saúde (1999), o tempo se encarregou de desmentir essa
avaliação, evidenciando o papel das desigualdades sociais e de gênero na contínua
transformação da epidemia brasileira no sentido de uma participação proporcional
cada vez maior das mulheres entre os novos casos de AIDS.
Segundo dados do Ministério da Saúde (2014), o primeiro caso de AIDS
no sexo feminino foi diagnosticado no Brasil em 1983. Desde o seu surgimento, vem
se observando o aumento cada vez maior nas mulheres, nos anos 2000 a proporção
nacional de casos de AIDS notificados é de uma mulher para cada dois homens.
Com base em dados do Boletim Epidemiológico (2011), foram
notificados, de 1980 até junho de 2011, 210.538 (34,6%) de AIDS no sexo feminino.
Esses dados revelam um aumento significativo da doença nas mulheres,
principalmente na segunda metade dos anos 80, sendo uma das principais causas
da mortalidade de mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo (BERER, 2001).
32
Ao falar de violência contra a mulher, pensamos logo em casos de
estupro, porém esse conceito é muito mais amplo. Desse modo, a feminização da
AIDS não é consequência somente dessa violência, e sim de outros fatores que
acometem grande parte dessas mulheres.
Segundo Taquette (2009), por ser praticada principalmente no âmbito
privado, e, em geral, por parceiro íntimo, a violência contra a mulher é pouco visível,
subestimada e encarada como um problema particular do casal.
A presença cada vez mais marcante da mulher no quadro da epidemia de
AIDS traz a necessidade de melhor explorar a temática, pois se trata de um
segmento com especificidades distintas da população masculina e que
apresenta desvantagens no que se refere à prevenção, ao controle e
tratamento da infecção (TAKAHASHI, 1998, p. 60).
Segundo Silva; Costa; Paiva (2011), a feminização da AIDS é um
fenômeno que tem aumentado bastante tanto no contexto mundial quanto no
nacional. A vulnerabilidade feminina advém do fato de que uma vez que, tendo
apenas um parceiro (relação estável), elas não sentem a necessidade de utilizar o
preservativo. Portanto, as mulheres são vulneráveis não só pelo aspecto biológico
como também pelo aspecto sociocultural. A AIDS continua sendo percebida como
uma doença do outro, para a qual a confiança no parceiro viabiliza a possibilidade
de contaminação, e o aumento da vulnerabilidade em contrair o vírus HIV/AIDS.
Com base no exposto, percebemos que as mulheres são vulneráveis não
só pelo aspecto biológico como pelo sociocultural. Para entendermos melhor o
significado de vulnerabilidade:
A vulnerabilidade social é um conceito que tem sua origem na área dos
Direitos Humanos. Refere-se a grupos ou indivíduos fragilizados, jurídica ou
politicamente, na promoção, proteção ou garantia de seu direito à cidadania.
[...] apresenta um caráter multifacetado, abarcando inúmeras dimensões, a
partir das quais se podem identificar situações de vulnerabilidade dos
indivíduos, famílias e comunidades. Essas dimensões estão ligadas tanto às
características próprias dos indivíduos ou grupos quanto àquelas relativas
ao meio social no qual estão inseridos (PADOIN; VIRGOLIN, 2010, p. 1).
De acordo com Paiva (2000), o conceito de vulnerabilidade é definido
como:
O conceito de vulnerabilidade ajuda a entender melhor a relação crítica
entre discriminação social e risco para o HIV, discriminação que é a
33
resultante de condições socioeconômicas e culturais, pelo menos da classe
e raça, da idade e do sexo (PAIVA, 2000, p. 41).
Dessa forma, analisamos que a questão de gênero é forte, sendo
determinante quando nos referirmos à vulnerabilidade feminina ao HIV/AIDS, onde a
mulher inserida na história incorpora um papel de submissão e a ideia de
passividade dentro da relação heterossexual. No próximo capitulo irei trazer
elementos da minha pesquisa que comprovam esses dados, através dos
depoimentos das mulheres entrevistadas.
Diante do aumento do número de casos de AIDS nas mulheres, foi criado
em março de 2007 o Plano Integrado de Enfrentamento da Feminização da
Epidemia de AIDS e outras DSTs. O Plano Integrado representa a consolidação de
uma política intersetorial para o enfrentamento da epidemia de AIDS e a prevenção
de doenças sexualmente transmissíveis entre as mulheres7.
O Plano é uma construção do Ministério da Saúde, articulado à Secretaria
Especial de Políticas para as Mulheres, Fundo de População das Nações Unidas
(UNFPA) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) que define uma
política intersetorial para o enfrentamento da epidemia de Aids e a prevenção de
DST entre as mulheres8.
Esse plano traz o contexto da feminização da epidemia no que tange
primordialmente às desigualdades de gênero, mas também classifica outros fatores
que contribuem para a vulnerabilidade, tais como: racismo, pobreza, violência,
estigma e discriminação e o uso de drogas.
Vale salientar que o enfrentamento da feminização da epidemia da AIDS
tem que incluir a análise e o tratamento correto das variáveis e dos fatores a ela
associados. Essa epidemia se constitui em uma realidade para as mulheres, desde
o início da doença.
O Plano norteia a implantação e implementação de ações de promoção à
saúde sexual e reprodutiva nas esferas federal, estadual e municipal de saúde de
acordo com essas diretrizes (FERRAZ, KRAICZK, 2010, p. 74-75):
7
BRASIL. Ministério da Saúde. Plano Integrado de Enfrentamento da Feminização da Epidemia de
AIDS e outras DSTs, 2007.
8
FERRAZ, Dulce e KRAICZYK, Juny. Gênero e Políticas Públicas de Saúde: construindo respostas
para o enfrentamento das desigualdades no âmbito do SUS, 2010.
34
- Promover a defesa dos direitos humanos, sexuais e reprodutivos das
mulheres;
- Reduzir o estigma ao HIV/AIDS e a discriminação em relação às mulheres
em situação de vulnerabilidade;
- Reduzir as iniquidades regionais, territoriais e de contexto de pobreza;
- Promover a equidade racial, étnica, de gênero e de orientação sexual das
mulheres no acesso a informação, diagnóstico e tratamento;
- Fortalecer, implementar e ampliar as ações de prevenção, promoção e
assistência as DST ,HIV e aids de forma integral e equânime
Em 2009, o Plano foi reapresentado à população através de uma consulta
pública online. Nessa nova versão, além de conter a revisão dos objetivos e metas
em nível nacional, o plano trouxe quatro agendas afirmativas destinadas à
população feminina: mulheres profissionais do sexo, mulheres transexuais, mulheres
vivendo com AIDS e mulheres lésbicas.
Segundo Ferraz e Kraiczyk (2010), o cumprimento desse plano está
relacionado a uma agenda destinada a ampliar o diálogo e a estruturação de ações
que levem em consideração a interação sinérgica entre várias dimensões de
desigualdade que concorrem para a maior ou menor vulnerabilidade à infecção pelo
HIV e outras DST.
De acordo com o exposto, a feminização da AIDS é algo muito complexo
no qual envolve diversos fatores, desde o econômico até o principal de todos a
questão de gênero, pois existe uma relação de poder que foi construída
historicamente, onde a mulher tem a concepção de não ser detentora do poder e se
deixa ser submissa pelo seu parceiro, onde ocasiona a falta de autonomia da mulher
na hora das relações sexuais, aumentando assim as chances de contrair o vírus do
HIV.
Outro fator relevante no processo de feminização da AIDS é a falta de
informação e a questão da pobreza, de modo que a maioria das mulheres
contaminadas se encontra nesse perfil. Percebemos que a maioria dessas mulheres
contaminadas são negras, com pouco tempo de estudo, pobres e sem informação
quanto á prevenção da AIDS e das outras DSTs (SILVA, 2013, p. 41).
Ao analisarmos os casos de AIDS entre as mulheres com relação à
escolaridade, constatamos que em 2011 a proporção dos casos de AIDS no sexo
feminino em analfabetas e entre as que têm o ensino fundamental completo ou
incompleto, é maior do que no sexo masculino (BRASIL, 2012).
Atualmente, os casos da doença ainda prevalecem no sexo masculino do
que no feminino, mas essa diferença vem diminuindo com o passar dos anos. Em
35
1989, a razão de sexos9 era cerca de seis casos de AIDS no sexo masculino para
cada 1 caso no sexo feminino. Em 2011, último dado disponível, chegou a 1,7 caso
em homens para cada 1 em mulheres (BRASIL, 2013).
Com relação à faixa etária, a AIDS é mais incidente entre 25 a 49 anos de
idade, em ambos os sexos. Porém, entre os jovens de 13 a 19 anos, o número de
casos de AIDS é maior entre as mulheres. Estes dados são alarmantes, pois
demonstram que é cada vez mais crescente o número de mulheres jovens
contaminadas com o vírus, mostrando assim a despreocupação com a prevenção,
seja pela falta de conhecimento, seja até mesmo por descuido (BRASIL, 2013).
Quanto à forma de transmissão entre os maiores de 13 anos, prevalece a
sexual. Com relação às mulheres, 86,8% dos casos registrados em 2012
decorreram de relações heterossexuais com pessoas infectadas pelo vírus. De
acordo com essa triste realidade, o governo brasileiro tem desenvolvido e fortalecido
ações para que a prevenção se torne um hábito na vida dos jovens. A distribuição de
preservativos no Brasil cresceu mais de 45% entre 2010 para 2011 (BRASIL, 2013).
Vale salientar que, durante a minha pesquisa, percebemos que mulheres
que vivem com HIV/AIDS sofrem muito com a discriminação e preconceito, sendo
que, na maioria das vezes, elas são discriminadas não só por terem AIDS, mas
como também por outros fatores, como, por exemplo: por serem mulheres, depois
por serem portadoras do HIV e por último por serem mulheres pobres. Isso nos leva
a refletir o quanto elas devem sofrer com essa situação, pois elas são vistas pela
sociedade como uma pessoa doente, sendo excluídas das relações sociais e
incapazes de ter uma vida social. Por isso que, muitas mulheres preferem esconder
da família e amigos que possuem AIDS, pelo medo e receio de como serão tratadas
e vistas dentro do convívio social.
Enfim, conforme a minha pesquisa, percebe-se um grande aumento de
mulheres infectadas pelo HIV/AIDS em que esse aumento é percebido pela questão
de gênero, fazendo das mulheres vitimas constantes de contrair o vírus. Faz-se
necessário a criação de medidas preventivas, como uma educação mais voltada
para a informação da doença, onde se possa tirar as dúvidas e os mitos sobre a
doença. Em seguida, abordarei o perfil das mulheres entrevistadas na minha
9
Número de casos em homens dividido pelo número de casos em mulheres.
36
pesquisa, abordando a metodologia utilizada nas entrevistas e outras informações
fundamentais para a elaboração desse tópico.
3.2 O perfil das mulheres pesquisadas portadoras de HIV/AIDS
Diante do aumento do processo de feminização da AIDS e do aumento
assustador no número de mulheres infectadas pelo HIV/AIDS nos últimos anos,
percebeu-se a necessidade de compreender este universo, relacionando até onde a
categoria gênero é responsável por desencadear o processo da feminização da
epidemia.
Os sujeitos da pesquisa foram mulheres vivendo com HIV/AIDS, que
participam mensalmente de reuniões em uma ONG (Rede de Solidariedade Positiva)
e que aceitaram prontamente responder às perguntas da minha entrevista,
relacionadas ao preconceito e as implicações de gênero da feminização da AIDS.
As entrevistas semiestruturadas foram realizadas com quatro mulheres,
de maneira que todas se mostraram solicitas em colaborar comigo, não
demonstrando rejeição e recusa ao meu pedido. Salientamos que julgamos
suficiente essa quantidade de mulheres entrevistadas, tendo em vista que a partir
dessa análise foi possível alcançar o objetivo proposto pela pesquisa.
O perfil das
mulheres entrevistadas seguiram alguns critérios definidos por mim no começo da
pesquisa, são eles: ser mulher portadora do HIV, aceitar falar sobre a doença e sua
forma de transmissão e que ter idade igual ou superior a 18 anos. A abordagem no
campo de pesquisa foi feita de forma individual e isolada para garantir a privacidade
e sigilo das entrevistadas. As entrevistas seguem um roteiro semiestruturado, com
perguntas abertas para que elas pudessem ter uma melhor compreensão das
perguntas, para assim responder às questões colocadas com clareza. Após
realizarmos essas quatro entrevistas, pudemos obter um perfil dessas mulheres
entrevistadas.
As quatro mulheres entrevistadas são10·:
a. Luma, 67 anos, parda, divorciada, possui dois filhos, mora no Joaquim
Távora.
10
Vale destacar que os nomes utilizados aqui são fictícios.
37
Ensino Médio completo, trabalhou como atendente de médico e
atualmente está aposentada, sua renda mensal é de R$ 724,00.
Descobriu ser portadora do vírus há 13 anos. Declarou-se heterossexual,
sua religião é católica e já consumiu bebida alcoólica. Quem sabe da sua doença
são seus dois filhos e uma irmã.
b. Lia, 36 anos, negra, divorciada, possui um filho, mora na Barra do
Ceará.
Ensino Médio completo, trabalha como confeiteira, sua renda mensal é de
aproximadamente R$ 1.100,00
Descobriu ser portadora do vírus há 11 anos. Declarou-se heterossexual,
sua religião é católica e nunca fez uso de drogas. Quem sabe da sua doença é uma
irmã, irmão, um cunhado e uma amiga.
c. Luana, 34 anos, negra, união estável, possui um filho, mora no
Tabapuazinho.
Ensino fundamental incompleto, dona de casa, mas recebe um auxíliodoença, sua renda mensal é de R$ 724,00.
Descobriu ser portadora do vírus há 14 anos. Declarou-se heterossexual,
sua religião é católica, faz uso de bebida alcoólica.
Quem sabe da sua doença é sua mãe, sua irmã e seu irmão.
d. Lara, 40 anos, parda, união estável, possui um filho, mora no Genibaú.
Ensino médio incompleto, já trabalhou como locutora, porém devido a
problemas de saúde não pode mais trabalhar. Atualmente está aposentada e recebe
um benefício do seu pai, sua renda mensal é de R$ 1.448,00.
Descobriu ser portadora do vírus há 13 anos. Declarou-se heterossexual,
sua religião é Deus, faz uso de cigarros e bebida alcoólica. Toda sua família sabe da
sua doença.
Durante as entrevistas realizadas para a elaboração da minha
Monografia, procurei não interromper as entrevistadas, deixei-as bem livres para
responder às perguntas. Tendo em vista que assim poderia colher mais informações
que fossem fundamentais para a minha pesquisa.
Ao
analisar
as
entrevistas,
percebi
que
três
dessas
mulheres
entrevistadas foram contaminadas por volta de 20 anos de idade, somente uma
delas foi infectada por volta dos 50 anos. Observamos também que duas mulheres
38
entrevistadas possuem o ensino médio completo, outra o ensino médio incompleto e
apenas uma entrevistada possui o ensino fundamental incompleto.
Com relação à vida profissional de cada entrevistada, observamos que
apenas uma das quatro entrevistadas nunca trabalhou. Outra entrevistada
trabalhava antes de descobrir a doença e outra entrevistada trabalha até hoje.
Finalmente, a última mulher entrevistada já possuiu vários empregos e atualmente
está aposentada.
Outro ponto importante analisado com base nas entrevistas é que todas
as mulheres possuem filhos e que nenhum deles foi contaminado com o HIV/AIDS.
Todas as entrevistadas sentem receio em contar sobre sua doença para
familiares e amigos mais próximos, seja por medo, seja pela discriminação, então
decidem guardar sigilo.
Com base nas entrevistas, e com todas as informações necessárias, irei
apontar os resultados e discussão sobre essas mulheres portadoras do vírus HIV,
procurando fazer uma análise em suas falas.
39
4 ESTIGMAS E PRECONCEITOS
PORTADORAS DE HIV/AIDS
ENFRENTADOS
PELAS
MULHERES
Nesse capítulo abordaremos os resultados e discussões levantados com
base nas entrevistas realizadas com as mulheres portadoras de HIV/AIDS.
Discutiremos o tempo de descoberta da doença, como elas descobriram como foram
contaminadas, entre outros assuntos importantes na construção desse trabalho e
apresentados no campo de pesquisa.
Vale ressaltar que também analisaremos os preconceitos e estigmas
sofridos por essas mulheres soropositivas em suas relações sociais. Tendo em vista
que a AIDS ainda hoje é carregada de rótulos e discriminação, e dessa maneira,
acaba distanciando as pessoas portadoras do HIV/AIDS do convívio social e familiar
por causa do medo de serem excluídas e mal vistas dentro da sociedade.
Segundo Goffman (2013), a sociedade estabelece os meios de
categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais
para os membros de cada uma dessas categorias.
No próximo tópico, abordaremos de forma sucinta há quanto tempo às
mulheres pesquisadas possuem o vírus HIV, como elas contraíram a doença e como
descobriram ter HIV/AIDS. Também fazemos uso das falas das entrevistadas em
todo corpo do texto, fazendo um diálogo com autores que falem sobre determinadas
temáticas abordadas nas entrevistas.
4.1 Tempo de Descoberta da Doença, Forma de Descoberta e de Transmissão
O tempo de descoberta da doença varia, entre as mulheres entrevistadas,
de 11 a 14 anos, ou seja, por volta dos anos 2000 essas mulheres descobriram
possuir o vírus HIV/AIDS.
Segundo dados do Ministério da Saúde (2014), nos anos 2000, aumenta
à incidência dos casos de AIDS em mulheres no Brasil. A proporção nacional dos
casos de AIDS notificados é de uma mulher para cada dois homens. Em duas
décadas (1980-2001), o total de casos de AIDS acumulados é de 220.000.
De acordo com Villarinho et al. (2013), no início do ano de 2000, a ênfase
nacional passou a ser a incorporação do teste anti-HIV na rede pública de saúde,
com especial atenção para os serviços da Atenção Básica.
40
Quando elas falavam sobre o tempo de descoberta da doença, algumas
afirmavam ter a certeza de quando contraíram a doença, enquanto outras hesitavam
em não saber com precisão há quanto tempo foram infectadas. Em cada fala,
percebia-se que elas ao relatarem sobre o tempo da doença era como se voltassem
no tempo e estivessem passando por aquele episódio novamente, conforme
declaram algumas das entrevistadas: “[...] Eu descobri o vírus mesmo em 2001
minha “fia”, então faz 13 anos que estou com essa doença” (Luma, 67)11. “[...] Eu
tenho o vírus há onze anos... é (hesitação) onze anos que eu sei né” (Lia, 36).12.
“Descobri em 2000, há 14 anos eu descobri né, fora os anos que eu não sabia”
(Luana, 34)13. “Eu descobri há 13 anos, eu tive a certeza em fevereiro de 2001, mas
a doença começou a se manifestar em novembro de 2000” (Lara, 40).14
Outra questão abordada nesta entrevista diz respeito à forma de
descoberta da doença. Três das entrevistadas descobriram a doença através de
exames de sangue, pois estavam ficando constantemente doentes (perda de peso,
vômitos, emagrecimento e gripe). Apesar dos sintomas aparentes da AIDS, elas não
tinham a mínima noção de que estavam contaminadas. Apenas uma entrevistada
descobriu a doença através de uma endoscopia, pois vinha ficando constantemente
doente e sua filha percebendo a situação de sua mãe pediu várias vezes que ela
procurasse um médico, como esclarece a seguinte fala: “Há um ano eu vinha
sentindo várias coisas, gripando constantemente e vomitando. E minha filha sempre
mandando ir ao médico. Aí fui ao médico e descobri que tinha AIDS através de uma
endoscopia” (Luma, 67).
Outras
duas
entrevistadas
possuíam
os
mesmos
sintomas
da
entrevistada Luma (perda de peso, vômitos, gripe constante, entre outros), e a partir
daí foi que procuraram ajuda médica e após a realização dos exames foi que
constataram a doença.
A entrevistada Lia foi a única que nunca teve sintomas, só descobriu a
doença quando estava grávida. “Descobri na gravidez, nos exames de rotina que
precisam ser feitos. Nunca tinha sentido nada, nada que pudesse desconfiar. O
médico mandou eu repetir os exames três vezes, até ter a certeza da doença” (Lia,
36).
11
Entrevista realizada dia 30.05.2014. Fortaleza- CE.
Entrevista realizada dia 26.06.2014. Fortaleza- CE.
13
Entrevista realizada dia 12.07.2014. Fortaleza- CE.
14
Entrevista realizada dia 12.07.2014. Fortaleza- CE.
12
41
Percebemos que em alguns casos a maior preocupação depois de
descobrir que estão com AIDS é como vão contar para a família, ou seja, como os
pais vão reagir após saber da notícia, os tios (as), avós, enfim os parentes mais
próximos e amigos. Vivemos em uma sociedade em que o preconceito se manifesta
de diferentes formas em diferentes espaços e relações sociais. Portanto, após a
descoberta da doença algumas mulheres entrevistadas têm receio em contar de à
família sobre a sua doença, pois temem como será a reação dessas pessoas.
A família surge como uma unidade de cuidado e é também uma fonte de
ajuda para o indivíduo com AIDS, contribuindo para o equilíbrio físico e
mental do mesmo. Entretanto, os significados que a cultura atribui à doença
podem afetar os comportamentos da família, com relação ao indivíduo com
AIDS, passando a discriminá-lo e a excluí-lo do grupo familiar (SOUSA;
KANTORSKI; BIELEMANN, 2004, p. 1).
A sociedade, geralmente, enxerga os portadores de HIV/AIDS como
pessoas frágeis, incapazes de trabalhar e de ter uma vida normal, nota-se que
muitas pessoas têm até receio de se aproximar, apertar a mão e de beber água no
mesmo copo que um portador de HIV, com medo de pegar o vírus. Essa visão
distorcida da doença torna a descoberta ainda mais difícil, mais complicada.
No decorrer das entrevistas, percebemos nas falas das entrevistadas que
muitas tinham mais medo da reação dos familiares e das pessoas quando souberam
da doença do que mesmo da própria enfermidade. Em alguns casos, a família pode
ser reconhecida como uma unidade de saúde e surge como uma fonte de ajuda para
o ser humano com AIDS, contribuindo para o seu equilíbrio físico e mental15.
Elas relatam não terem mais medo da morte (no início da doença
algumas tinham) e muito menos das deficiências que a doença pode acarretar, o
principal medo delas é com relação aos julgamentos que sofreriam dentro do âmbito
familiar e com os amigos. Elas destacam ainda que temem pelos seus filhos (as),
que eles (as) sofram preconceito e discriminação por causa da doença delas. Essa
preocupação com relação à descoberta da AIDS revela o preconceito existente nas
representações sociais.
A representação social é um conjunto organizado de informações, atitudes,
crenças que um indivíduo ou grupo elabora a propósito de um objeto, de
15
SOUSA, A. S.; KANTORSKI, L. P.; BIELEMANN, V. L. M. A AIDS no interior da família - percepção,
silêncio e segredo na convivência social. Acta Scientiarum. Health Sciences, v. 26, n. 1, p. 1-9,
2004.
42
uma situação, de um conceito, de outros indivíduos ou grupos,
apresentando-se, portanto, como uma visão subjetiva e social da realidade
(ABRIC, 2000, p. 28).
Nos casos da AIDS, nem sempre a família consegue apoiar e sustentar o
portador em todos os momentos, pois a sua necessidade de autoproteção às vezes
prevalece em detrimento das necessidades do portador 16.
Minha primeira reação foi (pausa), o meu maior medo foi com a reação da
minha mãe e do meu filho. Porque se minha mãe dissesse pau é pau, pedra
é pedra lá em casa tinha que aceitar, então pronto: eu pensei, se minha
mãe me aceitasse ótimo porque o vier depois eu aguento. Agradeço a Deus
por minha família ter me aceitado (Lara, 40).
Outro ponto analisado foi a forma de transmissão, todas as entrevistadas
contraíram AIDS através de relação sexual. Ressaltamos que todas as mulheres
entrevistadas nunca imaginaram um dia pegar AIDS, por que achavam que isso
nunca ia acontecer com elas, era uma realidade distante. Afinal, quem pode
imaginar que um dia vai ser infectada pelo vírus da AIDS? Os outros podem pegar,
mas eu não! Temos essa visão porque percebemos a AIDS como uma doença do
outro, alheia a nossa vida, porém estamos erradas pensando assim, pois todos (as)
estão vulneráveis ao vírus do HIV.
Duas entrevistadas, Luama e Luana, contraíram o vírus em um
relacionamento passageiro. Em momento algum elas pensaram em se prevenir, isso
não passou pela cabeça delas, apesar de elas saberem dos riscos que estavam
correndo.
Eu gostava muito de beber, de festas, aí em uma dessas festas eu conheci
um rapaz mais novo do que eu, e por aí assim nós transamos (hesitação),
aí penso que foi dele. Mas depois dessa vez ele sumiu. Eu imagino que foi
dele mesmo, por que só me envolvi com ele (Luma, 67).
Segundo Luana, ao se referir à palavra premiada, acaba como algo negativo, que
trouxe consequências a sua vida: “
Eu peguei de um amigo, eu gostava de ficar
com ele, aí eu bebia e gostava de ficar num barzinho, então nós transamos e tudo
uma só noite e desde esse tempo eu fui “premiada” (Luana, 34). De acordo com os
16
GOMES, A. M. T. Silêncio, silenciamento e ocultamento na terapia antirretroviral: desvelando
o discurso de cuidadores de crianças. 2005. 200 f. Tese (Doutorado em Enfermagem). Rio de
Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2005.
43
dados coletados nas entrevistas, percebemos que apenas uma das mulheres
entrevistadas já havia tido relação sexual contra a sua vontade, ou seja, foi forçada
através da violência física ou psicológica a manter relação sexual sem o próprio
consentimento.
Lara afirma que seu ex-companheiro batia muito nela e a forçava todos os
dias a ter relação com ela; “Eu nunca queria, era muito ruim, quando eu dizia não
era pior, ele me batia muito, aí eu tinha que fazer mesmo sem vontade, ele me
forçava a fazer sexo com ele e até sexo anal ele me forçava era muito ruim, eu fiquei
com trauma muito grande” (Lara, 40).
A fala da entrevistada Lara revela a violência sexual sofrida dentro das
relações amorosas, nas quais muitas vezes essas mulheres são vítimas de estupros
pelo próprio companheiro.
Segundo Verardo (2000), o estupro é outra forma de violência na qual se
evidência desequilíbrio entre os papéis feminino e masculino.
As outras entrevistadas afirmam nunca terem mantido relação sexual sem
o seu consentimento, tudo era feito em comum acordo. De acordo com Luma, seu
ex-companheiro era muito carinhoso com ela, tratava-a muito bem “naquelas horas”,
e ela adorava ficar com ele.
Ao analisarmos essas falas, percebemos a vulnerabilidade a que essas
mulheres estão expostas, em que um momento de diversão e prazer elas se deixam
levar pelos sentimentos sem pensar nas consequências que podem vir. Acabam
confiando em pessoas que pouco conhecem e mantêm relação sexual sem nenhum
tipo de proteção, pois acham que eles são pessoas saudáveis, porém, não está
escrito na testa quem tem AIDS. Vale destacar, que em ambos os casos, nem elas e
nem eles pensaram em fazer uso do preservativo. Dizer que o sexo não é reprimido,
ou melhor, dizer que entre o sexo e o poder a relação não é de repressão, corre o
risco de ser apenas um paradoxo estéril (FOUCALT, 1988, 1999, p.13-14).
A entrevistada Lia diz não saber como pegou a AIDS, pois seu ex-marido
não tinha o vírus e ela nunca teve relacionamento com outra pessoa. Ela disse ser
muito estranho, mas realmente não sabe como contraiu: “Como eu peguei não sei,
pois descobri na gravidez. Eu não peguei do meu marido. Na época estávamos
casados, ele fez os exames e deu negativo. Aí nós nos separamos, ele continuou
fazendo os exames e sempre dando negativo” (Lia, 36).
44
Ao ser perguntada se ela alguma vez usou preservativos nas relações
sexuais com o seu marido, Lia respondeu que não, pois estava casada e não
precisava se preocupar.
Percebemos que mulheres que possuem uma relação estável, tendem a
se incluir em um patamar de pessoas imunes ao HIV, ou seja, mulheres casadas não
sentem a necessidade de se prevenir, por acharem que estão imunes de pegar
AIDS. Dessa maneira, acabam sendo alvo fácil de contaminação. Esse fator está
relacionado à confiança da mulher no homem dentro do casamento, acreditando ela
está inteiramente segura dentro da relação. A confiança pressupõe consciência das
circunstâncias de risco, o que não ocorre com a crença. Tanto a confiança como a
crença se referem a expectativas que podem ser frustradas ou desencorajadas
(GIDDENS, 1991, p. 33).
Durante as falas das entrevistadas percebemos o quanto elas
depositavam confiança em seus companheiros e nunca imaginaram que eles
podiam lhe transmitir HIV/AIDS.
A confiança está basicamente vinculada, não ao risco, mas à contingência.
A confiança sempre leva à conotação de credibilidade em face de
resultados contingentes, digam estes respeito a ações de indivíduos ou à
operação de sistemas. No caso de confiança em agentes humanos, a
suposição de credibilidade envolve a atribuição de "probidade" (honra) ou
amor. É por isto que a confiança em pessoas é psicologicamente
consequente para o indivíduo que confia: é dado um refém moral à fortuna
(GIDDENS, 1991, p. 35).
Outra entrevistada contraiu o vírus de seu ex-noivo, que era estrangeiro,
ela relatou que sempre observava ele tomando muitos remédios, mas ela não sabia
o motivo, depois que a doença foi descoberta ela se lembrou dos medicamentos que
ele tomava. Segundo ela, no começo eles usavam preservativos, mas passado
algum tempo ele se recusou a usar. “A partir de hoje mulher minha não usa mais
camisinha, eu cega de paixão estava deixei rolar” (Lara, 40).
A fala dessa entrevistada deixa bem clara a relação de poder existente
entre homem e mulher, na qual a mulher não detém a posse do seu corpo e também
acaba cedendo as pressões do homem por amor, ou seja, “se eu não fizer isso ele
vai me abandonar” e agindo com a emoção acaba fazendo os desejos do parceiro.
Segundo a análise de poder que Foucault (1988,1999) faz, o poder não é
algo que se adquira, arrebate ou compartilha, algo que se guarde ou deixe escapar;
45
o poder se exerce a partir de inúmeros pontos e em meio a relações desiguais e
móveis.
Deste modo, o autor supracitado aponta outra proposição da relação de
poder. As relações de poder não se encontram em posição de exterioridade com
respeito a outros tipos de relações (processos econômicos, relações de
conhecimentos, relações sexuais), mas lhe são imanentes (FOUCAULT, 1991, p.
90).
Enfim, o que identificamos na descoberta da doença é que era um
momento muito difícil na vida dessas mulheres, visto que elas estão lhe dando com
uma situação delicada e preconceituosa. Vale destacar que nenhuma delas culpou
somente o parceiro por elas terem contraído AIDS, a culpa é de ambas as partes.
Outro ponto importante é que atualmente elas aceitaram a doença e procuram levar
a vida da melhor maneira possível.
4.2 O Resultado Positivo e a Reação dessas Mulheres
Nesse tópico, faço uma análise das reações das mulheres entrevistadas
após elas descobrirem possuir o vírus HIV, bem como os sentimentos (angústia,
negação, desespero e medo) que elas tiveram com o resultado, como revela a fala a
seguir: “Minha reação foi de desespero, eu não tinha informação né, pra mim eu ia
morrer um dia depois, um mês depois. Fiquei muito triste, chorava todos os dias.”
(Luana, 34).
Ao analisarmos as falas das entrevistadas percebemos que todas foram
bem enfáticas ao relatar sobre suas reações. As quatro mulheres reagiram com
desespero e medo, ou seja, algumas tinham medo da morte e outras do preconceito
que sofreriam quando seus familiares e amigos próximos soubessem que elas
tinham AIDS. Umas se desesperaram logo, outras depois (quando a “ficha caiu”). No
caso da Luana, ela não tinha informação da AIDS, não sabia nada sobre a doença e
o seu principal medo era da morte. Como atesta uma das entrevistadas: “Minha
reação foi de desespero, eu não tinha informação né, pra mim eu ia morrer um dia
depois, um mês depois. Fiquei muito triste, chorava todos os dias.” (Luana, 34).
Segundo Bauman (2005), o medo do desconhecido - no qual, mesmo que
subliminarmente, estamos envolvidos - busca desesperadamente algum tipo de
alívio.
46
De acordo com o autor supracitado:
Os medos tiveram início com a redução do controle estatal (a chamada
desregulamentação) e suas consequências individualistas, no momento em
que o parentesco entre homem e homem- aparentemente eterno, ou pelo
menos presente desde tempos imemoriais-, assim como vínculos amigáveis
estabelecidos dentro de uma comunidade ou de uma corporação, foi
fragilizado ou até rompido (BAUMAN, 2009, p. 4).
Com relação ao medo da morte, Knauth (1998) traz uma reflexão: “A
associação entre AIDS e morte entre as mulheres infectadas pelo HIV: esta
associação se manifesta, em especial, no momento inicial do diagnóstico, quando
pensam que irão morrer imediatamente” (KNAUTH, 1998, p. 147-148).
A reação ao saber que tem o vírus HIV varia entre desespero e negação,
mas o impacto é sempre muito forte. As pessoas acabam reagindo com choro,
silêncio e riso como reação de ansiedade e angústia. É um momento de muita
tensão para essas pessoas, no qual surgem as preocupações com a enfermidade,
como vão contar para a família, as reações dos medicamentos, entre outros. “A
minha primeira reação foi assim (pausa) parece que o mundo caiu em cima de mim.
Eu disse assim: - Doutor, pelo amor de Deus” (Luma, 67).
A outra entrevistada Lia, relatou que ao saber do resultado positivo no
primeiro momento reagiu normal e a princípio encarou tudo normal, mas ao sair da
sala do médico a “ficha caiu” e ela começou a chorar, chorou muito. Ao sair da sala,
conversei muito com uma atendente e a primeira coisa que eu disse a ela era que eu
não queria parar de trabalhar (ela disse que chorava muito) (Lia, 36).
Ao analisarmos esse depoimento, percebemos o quanto ela queria se
sentir útil, queria que as pessoas vissem o quanto ela estava bem (apesar de
ninguém saber da sua doença). Para Lia, a sua vida profissional significou uma
maneira de enfrentar a doença, tentando esquecer um pouco aquele diagnóstico e
procurando levar uma vida normal. Ela relatou que durante a gravidez fez todos os
tratamentos recomendados para o seu filho não nascer com vírus.
A entrevistada Lara reagiu ao resultado com muito espanto, primeiro por
que ela recebeu a notícia sem nenhum preparo emocional, pois soube através de
uma residente do Hospital São José, que deu a notícia para Lara da maneira mais
normal.
47
Eu estava sentada no banco, com a boca cheia de sapinho, febre alta e
muita tosse, quando uma residente chegou e disse: você está com AIDS,
viu! Minha primeira reação foi um choque; como assim eu me prevenia tanto
(eu acho que essa é a reação de toda mulher). Eu não! Impossível, isso
comigo não, por que eu me cuido tanto (Lara, 40).
Segundo Lara, após o impacto da notícia ela lembrou-se do ex-noivo, e
do quanto eles passaram determinado período tendo relação sexual sem o uso da
camisinha. Lara também destacou que quando soube da doença o médico lhe deu
pouco tempo de vida, pois o seu caso estava muito agravado, ou seja, ela estava
com várias doenças oportunistas17.
Quando descobri já foi um pouco tarde porque eu já estava com
18
toxoplasmose , sem visão do lado esquerdo e fiquei em coma. Sofri muito,
até hoje sofro de convulsões, minha dicção ficou comprometida e não
enxergo nada com meu olho esquerdo (Lara, 40).
Percebemos, nas falas das entrevistadas, que depois de passado o
impacto do resultado positivo, todas procuraram conforto em algum familiar, grupo
de pessoas com AIDS e até mesmo no próprio trabalho. O forte impacto vivenciado
pelas mulheres entrevistadas ao descobrirem a soropositividade é experimentado
pela maioria das pessoas que recebem o diagnóstico, como bem representa a fala
de uma delas: “Conheci o Centro de Convivência Madre Regina19 através de uma
amiga de internamento, foi lá que eu me recuperei. Quando cheguei lá estava muito
magra e depois de anos estava bem forte” (Luana, 34).
Os grupos de pessoas com AIDS possuem um significado importante na
vida dessas mulheres, pois lá encontram pessoas com a mesma situação que elas,
sentem liberdade para tirar suas dúvidas e também compartilhar suas experiências e
vivências, como corrobora o seguinte depoimento; “Depois que comecei a participar
17
Como explicado anteriormente no capítulo 1.
A toxoplasmose é uma doença transmitida aos seres humanos e a outros animais através das
fezes do gato contaminadas pelo agente transmissor (um tipo de protozoário). A toxoplasmose é um
grave problema à saúde humana. Para pessoas com defesas imunológicas diminuídas, como
transplantados, portadores de AIDS e doenças crônicas, a doença pode ser fatal. Informações
disponíveis em: <bvsms.saude.gov.br/bvs/dicas/199_toxoplasmose.html>. Acesso em: 15 out. 2014.
18
19
Fundado em 1993, o Centro de Convivência Madre Regina é uma das obras sociais da Associação
Congregação de Santa Catarina, situada na região norte da cidade de Fortaleza – Ceará. A
instituição acolhe atualmente 40 pessoas vivendo com HIV/AIDS. Além disso, recebe pessoas
provenientes de todo o Estado do Ceará, bem como de outros Estados, oferecendo serviços de
Assistência Social, Terapia Ocupacional, Pedagógica, Nutricional e Espiritual. Informações
disponíveis em: <www.acsc.org.br/casa/centro-de-convivencia-madre-regina>. Acesso em: 15 out.
2014.
48
dos grupos minha vida mudou assim... a motivação, incentivo, amizade com as
pessoas, o carinho que a gente tem no grupo, o fortalecimento e a solidariedade”
(Luma,67).
Em suma, concluímos que o resultado positivo da doença no início afeta
emocionalmente e psicologicamente a vida dessas mulheres, elas acabam perdida
nessa nova fase de suas vidas. Com o passar do tempo, elas acabam se
acostumando com a ideia e conseguem conviver com a doença, encarando as
dificuldades que se apresentam.
4.3 Convívio Social e Estigma
Nesta fase da entrevista, procurei identificar quem eram as pessoas do
convívio das entrevistadas com quem elas dividem a situação da soropositividade,
ou seja, quem são as pessoas que sabem que elas possuem o vírus HIV. Como
também as situações em que mais sofrem preconceito e como elas se sentem ao
sofrer preconceito.
Percebemos que as entrevistadas escolhem as pessoas mais próximas
para compartilharem sua situação. Algumas decidiram contar somente para a família
e não contar para os amigos. Como atestam a fala de uma das entrevistadas: “Da
minha família só quem sabe é minha filha e meu filho somente. Eu infelizmente não
conto pra toda minha família por causa da discriminação. (...) Não conto para meus
amigos e nem pro pessoal da minha rua” (Luma, 67). Bem como a de outra das
entrevistadas: “Algumas pessoas da minha família sabem. Só a minha mãe, a minha
irmã gêmea, meu irmão mais velho e meu esposo. Se alguém mais sabe, não sei
(...) acho que só suspeitam” (Luana, 34).
Uma delas optou por contar para algumas pessoas da família e para
amigos em quem confiava mais. Nesse caso, a confiança está relacionada à
impressão de que a outra pessoa não lhe tratará com preconceito e discriminação:
“Minha família toda não sabe só uma irmã minha e meu irmão que trabalha inclusive
no São José. Também tenho um cunhado que sabe e uma grande amiga que sabe”
(Lia, 36).
E por fim, tem aquela que decidiu contar para toda a família e para outras
pessoas.
49
Toda minha família sabe e me dão muito apoio, me tratam muito bem. As
outras pessoas sabem por que a ex-companheira da minha irmã abriu o
envelope com o resultado do exame e “espalhou” pra todo mundo e isso me
deixou chateada (Lara, 40).
Tratando-se do ambiente de trabalho, perguntei como era a relação delas
com os colegas de trabalho. Todas relataram que não tem problemas com isso, pois
três das entrevistadas são aposentadas e uma trabalha por conta própria.
Vale ressaltar que duas mulheres entrevistadas trabalhavam antes de
possuir HIV/AIDS, e o motivo de elas abandonarem o emprego foi o fato da
descoberta da doença, segundo declaram duas das entrevistadas: “Eu já trabalhei
como locutora, mas devido a problemas de saúde, ou seja, consequência da AIDS
fiquei com problemas na dicção o que me impediu de voltar a trabalhar” (Lara, 40).
“Eu já trabalhei em vários lugares, a minha última profissão foi atendente de médico.
Mas já tive várias profissões: vendedora e doméstica. Eu já fiz de tudo!” (Luma, 67).
Outro ponto abordado foi com relação ao preconceito, se algumas delas
já haviam sofrido e como foi à reação.
Três
das
entrevistadas
relataram,
respectivamente,
não
sofrer
preconceito, uma vez que só quem sabe da sua soropositividade é sua família: “Eu
não conto pra ninguém por causa do preconceito e discriminação (...). Então é
melhor sigilo, não falar principalmente pro povo da “minha rua”, porque senão
algumas amigas minhas vão me olhar diferente” (Luma, 67). “Se sofri preconceito
não percebi, até porque mesmo poucas pessoas sabem” (Lia,36). “Eu acho que
nunca sofri preconceito, porque eu nunca fui de chegar e falar” (Luana, 34).
Nas falas anteriores das entrevistadas, percebemos o medo que elas têm
em revelar sua soropositividade para outras pessoas, isso se relaciona ao
preconceito. De acordo com elas, é melhor guardar sigilo e contar somente para as
pessoas que lhe transmitem confiança. O preconceito ainda é muito presente na
sociedade atualmente, seja pela falta de informação ou pelo simples fato da não
aceitação da doença do outro, isto é, por pensar que a pessoa é promiscua e que
tem “vida fácil”, etc.
Segundo Bandeira (2002) e Batista (2002), o preconceito, usualmente
incorporado e acreditado, é a mola central e o reprodutor mais eficaz da
discriminação e de exclusão, portanto da violência.
50
De acordo com as autoras supracitadas: “O preconceito de qualquer coisa
ou preconceito de alguma coisa significa “fazer um julgamento prematuro,
inadequado sobre a coisa em questão” (BANDEIRA; BATISTA, 2002, p. 126).
A entrevistada Lara, relatou ter sofrido preconceito há alguns anos, essa
atitude a deixou bastante chateada e confusa, além disso ela relata ter sofrido
preconceito quando seus antigos amigos se afastaram dela.
Eu acho que sofri discriminação por uma pessoa bem “vista” na cidade em
que eu morava. Pedi pra ver a rescisão do contrato do aluguel da minha
casa e ela não deixou ver. Ela sabia que eu tinha AIDS e se aproveitou da
situação e jogou a doença na minha cara (Lara, 40).
O preconceito e a discriminação contra as pessoas vivendo com
HIV/AIDS são as maiores barreiras no combate à epidemia. Vale destacar que os
estigmas são desencadeados por motivos que incluem a falta de informação, mitos e
medos. Eliminar o preconceito deve ser um hábito diário em nossas vidas.
De acordo com Bandeira (2002) e Batista (2002), alguns estudos
mencionam o fenômeno da categoria preconceito, vinculando-o à discriminação e à
exclusão, e contribuíram para trazer à luz uma realidade relativamente oculta que se
torna cada vez mais consciente e concreta para um maior número de pessoas.
A categoria estigma também é uma forma de discriminação.
O estigma da AIDS se superpõe a estigmas pré-existentes associados a
diferentes grupos sociais como homossexuais, trabalhadoras do sexo e
usuários de drogas, evocando múltiplos significados. Esses conceitos e
imagens pré-concebidas fazem parte da matriz cultural e social que constrói
diferenças, cria hierarquias e legitima estruturas de desigualdades sociais
(GARCIA; KOYAMA, 2008, p. 1).
Goffman (2013), ao tratar do estigma como uma forma de discriminação,
menciona três tipos de estigma nitidamente diferente.
1. As abominações do corpo - as várias deformidades físicas.
2. As culpas de caráter individual, percebidas como vontade fraca, paixões
tirânicas ou não naturais, crenças falsas e rígidas, desonestidades.
3. Os estigmas tribais de raça, nação e religião, que podem ser transmitidos
através de linhagem e contaminar por igual todos os membros de uma
família (GOFFMAN, 2013, p. 14).
Percebemos que, na fala da entrevistada Lara, ela deixou bem explícito
que quando seus “amigos” (o sinal de aspas ela mesma fez) descobriram que ela
51
tinha AIDS, muitos se afastaram dela e outros se aproximaram mais ainda. Ela
informa que perdeu muitos amigos, colegas, mas acabou ganhando outros que
considera amigos verdadeiros.
Enfim, analisamos que apesar de o indivíduo ter AIDS, ele ainda enfrenta
outras dificuldades, uma delas bastante delicada e séria é o preconceito, essa
palavra remete à mulher portadora do vírus HIV uma situação desagradável e que,
muitas vezes, acaba prejudicando a sua vida pessoal e o tratamento.
4.4 O Significado da Palavra Preconceito
Nesta última etapa da entrevista, abordamos o significado da palavra
preconceito para essas mulheres, em que elas irão expor seus pensamentos sobre
essa categoria. Inicialmente, uma das entrevistadas declara: “Eu vejo o preconceito
como algo normal, por que as pessoas em si são preconceituosas e também pela
falta de informação” (Luma, 67).
Luma, ao falar que acha normal o preconceito, acaba naturalizando essa
palavra, pois para ela a sociedade acaba sendo preconceituosa de um modo
generalizado.
Ressaltamos que em nossa sociedade culturalmente existem diversos
relatos de discriminação contra as pessoas que vivem com HIV/AIDS, bem como
também a discriminação e a desvalorização do sexo feminino Nesse sentido,
entendemos, então, que na feminização da AIDS a mulher é duplamente
discriminada.
Segundo Silva (2007), a discriminação contra portadores do HIV/AIDS no
Brasil está relacionada ao medo e ao desconhecimento das formas de transmissão.
O Brasil associa ações de prevenção e assistência, é um dos poucos países
que disponibiliza medicamentos antirretrovirais gratuitamente e de forma
universal, para toda a população. Mas, infelizmente, a discriminação ainda é
um desafio e faz com que as pessoas se isolem e até se autodiscriminem
20
(SILVA, 2007, p. 77) .
A entrevistada Lia, ao falar do significado de preconceito, demonstrou
muita raiva e irritação, pois isso interfere na vida das pessoas que têm HIV/AIDS.
20
Informações disponíveis na Revista de divulgação científica, no artigo O conhecimento das
mulheres sobre o uso do preservativo feminino. Disponível em: <www.periodicos.unc.br>. Acesso em:
3 set. 2014.
52
A princípio eu tenho muita raiva dessa palavra preconceito, por que pra mim
é uma falta de informação das pessoas. As pessoas ainda hoje veem o
portador como uma pessoa doente (...) que vai morrer no outro dia. Aí eu
entendi que não posso ter raiva assim das pessoas, por que é uma falta de
conhecimento (Lia, 36).
Destacamos novamente que o preconceito está relacionado com a falta
de informação e de um conhecimento da doença por parte da sociedade, em que
elas percebem as pessoas que vivem com HIV/AIDS como um doente que vai
morrer logo por possuir uma doença altamente contagiosa. “Eu acho que o
preconceito tem em todo lugar né, às vezes até a gente mesmo tem preconceito
consigo mesmo” (Luana, 34).
Percebemos em sua fala que ela destaca um ponto importante, o de que
alguns portadores de HIV/AIDS passam adquirir preconceito contra si próprios(as),
isso interfere em sua vida profissional e pessoal, como também no tratamento. Esse
período está ligado com a não aceitação da doença, geralmente ocorre no início da
doença, ou seja, quando a pessoa descobre ter AIDS. A negação e o isolamento, a
raiva, a barganha, a depressão e por fim a aceitação são fases comuns a todos os
pacientes de doenças terminais, seja do câncer, seja da AIDS ou de qualquer
outra21.
De acordo com a entrevistada Lara, o significado do preconceito é muito
forte, pois envolve fatores cultural, familiar e profissional: “A palavra preconceito
pesa. Eu não tenho preconceito comigo, mas eu temo pelas pessoas que me
rodeiam: o meu marido, meu filho e minha mãe. Tenho medo das consequências. Eu
não tenho medo do preconceito!” (Lara, 40).
Enfim, percebemos que cada entrevistada possui um significado diferente
para a categoria preconceito, de modo que cada uma faz uma análise a partir de
suas vivências e que acabam tendo que esconder a sua soropositivade por causa do
medo e da discriminação por parte da sociedade. Um ponto importante é que elas
não naturalizam o preconceito, ou seja, para essas mulheres o preconceito não é
algo normal, e sim uma falta de informação por parte das pessoas.
21
Disponível em: <www.boasaude.com.br/artigos-de-saude/3650/-1/tratamento-psicoterapico-deportadores-de-hiv-aids.htlm>. Acesso em: 3 set. 2014.
53
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na
construção da história da epidemia da AIDS, observam-se
transformações importantes na forma de compreender a doença. Quando a AIDS
surgiu, estava associada ao tipo de comportamento sexual, ou seja, eram
determinantes na infecção pelo HIV/AIDS, mas aos poucos essa ideia foi sendo
desconstruída. Vale ressaltar que o conhecimento distorcido da doença (medo,
preconceito e discriminação) ainda é presente no contexto da epidemia no Brasil.
Passado mais de 30 anos da descoberta da AIDS, ela ainda carrega um
estigma que impõe limites para socialização das pessoas dentro do contexto social.
Ela traz consigo problemas que atingem de forma direta e indireta os portadores da
doença, afetando o convívio social e o ambiente familiar dessas pessoas
relacionado à rejeição e à discriminação. As ações de prevenção existentes não
serão eficazes para combater a AIDS se a população não se conscientizar dos
riscos da doença e esse alto índice de contaminação pelo HIV está presente
principalmente nas populações mais vulneráveis. Dessa maneira, a AIDS, ainda, se
constitui como uma doença do outro, em que as pessoas nunca imaginam que
possam contrair o vírus. Sendo assim, o controle da epidemia está longe de ser
controlado, esse é um grande desafio devido à complexidade social que envolve a
epidemia e pela falta de políticas públicas voltadas para a sensibilização da
população quanto aos riscos da doença.
Nos anos iniciais após o surgimento da AIDS, era comum falar-se em
grupo de risco, pois a doença só atingia uma pequena parte da população (gays,
hemofílicos e profissionais do sexo), porém atualmente a epidemia ganhou uma
nova denominação passou a se chamar comportamento de risco, pois não atinge
somente essa população. Atualmente identificamos que as mulheres estão sendo
uma das maiores vítimas do HIV/AIDS, o que nos faz refletir que estamos
vivenciando o processo de feminização da AIDS.
Isso nos faz pensar quais os motivos que levaram a esse aumento nos
casos de mulheres infectadas, pois elas estão sendo alvos constantes da
proliferação da AIDS.
O presente estudo realizado com mulheres soropositivas mostra um fator
preocupante, levando em consideração que essas mulheres não tinham a
preocupação em se prevenir durante as relações sexuais, pois achavam que nunca
54
iam contrair a doença. Algumas não usavam o preservativo devido à confiança no
parceiro, pois achavam estar imunes à doença por terem parceiros fixos, outras não
usavam por que os parceiros não queriam e para satisfazer a vontade deles abriam
mão da proteção. Isso demonstra que essas mulheres não sabiam a importância do
uso da camisinha dentro das relações sexuais e acabavam não dando a devida
atenção para este meio de proteção, até serem infectadas pelo HIV. Vale ressaltar,
que hoje em dia as mulheres entrevistadas fazem uso frequente da camisinha dentro
de suas relações.
Percebemos também as implicações da desigualdade de gênero dentro
do processo de feminização da AIDS. Desse modo, concluímos que as
desigualdades de gênero ainda se fazem presentes na sociedade entre homens e
mulheres, ou seja, os homens ainda exercem um forte poder de manipulação dentro
das relações. Durante as entrevistas, as mulheres relataram que não usavam o
preservativo por causa de seus parceiros, porque segundo eles causava certo
desconforto, e elas por não quererem contrariar os parceiros acabavam cedendo ao
seu pedido.
Esse estudo revela a falta de autonomia das mulheres dentro das
relações sexuais, fazendo dessas mulheres alvos fáceis da contaminação do
HIV/AIDS. Nesse sentido, considera-se a importância do diálogo dentro das
relações, fazendo com que o parceiro compreenda a importância do uso do
preservativo.
Ressaltamos ainda outro fator importante dentro desse estudo: o
preconceito. O preconceito está muito presente no dia-a-dia dessas mulheres
soropositivas, em decorrência disso cada uma já sofreu certo tipo de preconceito,
seja dentro do ambiente familiar, seja na vida social.
O preconceito é um dos maiores desafios das pessoas que vivem com
HIV/AIDS, pois ele interfere na vida dessas pessoas, fazendo com que elas
escondam da família e dos amigos a sua doença. Infelizmente o preconceito sempre
vai existir, pois isso já se manifesta desde o surgimento da doença.
Durante as entrevistas, as mulheres deram significados à palavra
preconceito, algumas falaram ter raiva dessa palavra e a associou a falta de
informação das pessoas, outras relataram que o preconceito está em todo lugar e
que, às vezes, as pessoas que possuem AIDS têm preconceito consigo mesmas.
Enfim, cada uma deu significados diferentes a essa palavra, mas todas em um ponto
55
concordaram, ou seja, o de que preconceito machuca e faz com que elas escondam
a doença das pessoas mais próximas.
O estudo possibilitou compreender os significados, percepções e
dificuldades das mulheres que possuem HIV/AIDS dentro da sociedade brasileira, na
qual elas são vitimas constantes dessa epidemia. A pesquisa contribuirá no acervo
literário sobre o assunto, enfatizando a necessidade de compreender os sentidos da
AIDS dentro do processo de feminização.
56
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ANEXOS
ANEXO A - Roteiro de entrevista
Dados Gerais:
Idade:
1. Cor: ( ) Amarela ( ) Branca ( ) Parda ( ) Negra ( ) Indígena
2. Bairro:
3. Grau de Escolaridade:
4. Você tem religião? Se sim, qual?
5. Estado civil:
6. Têm filhos, se sim quantos?
7. Já fez uso de drogas?
8. Qual a sua profissão?
9. Qual a sua renda familiar?
Perguntas gerais:
1. Relate há quanto tempo descobriu ser portadora do vírus HIV e como contraiu
o vírus?
2. Relate como foi descobrir o resultado positivo e qual foi a sua reação?
3. Relate como foi contar para a família e pessoas próximas sobre a doença.
4. Em que situações você identifica sofrer preconceito e como você as enfrenta?
5. Como você percebe a palavra preconceito?
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