SÍNTESE E CARACTERIZAÇÃO DE UMA MATRIZ ÓSSEA DE FOSFATO DE CÁLCIO NANOESTRUTURADO PARA APLICAÇÕES BIOMÉDICAS. De Oliveira, D.M.P., Camargo, N.H.A., Gemelli, E. Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Centro de Ciências Tecnológicas (CCT), Campus Universitário Prof. Avelino Marcante S/N - Bairro Bom Retiro - Joinville - SC – Brasil CEP: 89223 - 100 - CX. Postal 631 - Fone (0xx47) 431-7200 Fax (0xx47) 431-7240 e-mail: [email protected] , [email protected] Resumo. Os defeitos ósseos são resultados de uma variedade de causas que incluem traumas, infecções, tumores e deformações congênitas, estes são fenômenos comuns em clínicas ortopédicas e odontológicas. No decorrer dos últimos anos, observou-se que as cerâmicas nanoestruturadas vêm se destacando como matriz óssea na reconstituição e na regeneração de tecidos duros. As biocerâmicas nanoestruturadas e microporosas em fosfato de cálcio têm tomado um espaço importante em aplicações clínicas ortopédicas e odontológicas, em razão de suas boas características mineralógicas e de biocompatíbilidade. Este trabalho se concentrou na otimização do método de síntese de pós nanoestruturados de fosfato de cálcio e na caracterização morfológica, mineralógica e do comportamento térmico. Palavras-chave: Fosfato de Cálcio, Nanoestrutura, Síntese, Caracterização. 1. INTRODUÇÃO As investigações sobre a obtenção de pós nanoestruturados em fosfato de cálcio e hidroxiapatita vêm crescendo ultimamente. Isto se deve as novas características que estes vêm oferecendo, como, área superficial elevada, tamanho de partículas inferior a 200nm, morfologia com forma equi-axiais, além da boa absorção em meio biológico [DELIMA, 2007; CAMARGO, 2006; KUMTA, 2005, BELLINI, 2004; KARVAT, 2004, YEONG, 2000, YOSHICO, 1993]. As cerâmicas nanoestruturadas e microporosas à base de fosfato de cálcio apresentam característica mineralógica e cristalográfica semelhantes à do esqueleto humano, apresentam boa biocompatibilidade e vêm sendo estudadas com destaque, em aplicações biomédicas, na regeneração e constituição de tecidos duros [DACULSI, 1998; RAYNAUD, 2002; CAMARGO, 2003]. Diferentes métodos de sínteses vêm sendo utilizados na produção de pós nanoestruturados de fosfato de cálcio e hidroxiapatita, sempre na tentativa de obter nanopartículas com tamanhos inferiores a 200nm. Esta é a condição necessária para obtenção de pós nanoestruturados com valor de área superficial elevada, sendo este fator importante em aplicações biológicas, na regeneração e reconstituição do tecido ósseo. O método via úmida sólido/liquido, pelo processo de dissolução precipitação vem sendo um dos mais utilizados na síntese de pós nanoestruturados de fosfatos de cálcio, isto se deve, por este método permitir a obtenção de pós nanoestruturados com controle da morfologia [CUNHA, 2006]. Este trabalho teve como objetivo a otimização do processo de síntese e caracterização de pós nanoestruturados de fosfato de cálcio pelo método via úmida, através da reação de dissolução-precipitação do CaO pela adição da solução de ácido fosfórico a suspensão coloidal. Os resultados apresentados estão relacionados aos estudos de caracterização morfológica, mineralógica e do comportamento térmico. 2. MATERIAIS E MÉTODOS Utilizou-se o método via úmida para síntese dos pós nanoestruturados de fosfato de cálcio, pela reação de dissolução-precipitação, envolvendo fase sólida/líquida de CaO e ácido fosfórico, numa razão molar Ca/P = 1,67. Sendo as matérias primas utilizadas o pó de óxido de cálcio (CaO) obtido da calcinação a 900ºC por 2 horas do CaCO3, fornecido pelo laboratório CINÉTICA Reagentes e Soluções, com pureza de 98%, lote nº 12.732, e o óxido de fósforo (P2O5), fornecido pelo laboratório Sigma-Aldrich com pureza de 97%, lote nº 10206209. A síntese do pó nanoestruturado de fosfato de cálcio foi realizada utilizando água deionizada com pH = 7. A solução aquosa foi colocada sob agitação mecânica e posteriormente adicionou-se lentamente o óxido de cálcio (CaO), realizando-se medidas do valor do pH a cada 15 minutos. Ao final da incorporação do CaO na solução aquosa, verificou-se um aumento do valor do pH de 7 para 11,50. Esta suspensão permaneceu por 2 horas sob agitação mecânica. A seguir, acrescentou-se lentamente a solução ácida por gotejamento ao colóide, em uma concentração necessária para formação da composição Ca/P = 1,67 molar. Após a incorporação da solução ácida, iniciou-se a formação de precipitados de fosfato de cálcio hidratados, constando-se uma diminuição do valor do pH. O colóide permaneceu sob agitação mecânica durante 24 horas, a fim de se obter uma melhor homogeneização dos precipitados de fosfato de cálcio. Logo após, a suspensão coloidal foi introduzida dentro de um balão tipo pêra e acoplado a um evaporador rotativo, para eliminação do solvente. O pó nanoestruturado recuperado do evaporador rotativo passou pelo processo de moagem e peneiramento na malha # 140μm ABNT. O pó nanoestruturado obtido do peneiramento foi calcinado a temperatura de 900°C/2h. E com interesse de observar a cinética de coalescência dos cristalitos elementares do fosfato de cálcio, realizou-se tratamento térmico as temperaturas de 1000°C/1h, 1100°C/1h, 1200°C/1h e 1300°C/30 min. Os estudos de caracterização foram realizados pela técnica de microscopia eletrônica de varredura, através do sistema de elétrons secundários (SE), para identificação morfológica dos pós nanoestruturados submetidos as diferentes condições de tratamentos térmicos. As amostras foram preparadas cuidadosamente, utilizou-se um porta amostra na forma de disco em liga de alumínio com superfície lisa, uma fita de carbono dupla face foi fixada na superfície lisa do disco, onde foi realizada a deposição da amostra em forma de pó, sendo esta quantidade de pó depositada muito pequena, com o intuito de evitar os efeitos de carga gerados pelo feixe eletrônico durante as observações. E para evitar os efeitos de carga dentro da câmara do microscópio, todas as amostras forma submetidas ao processo de metalização por sputering, com deposição de um filme de ouro sobre a superfície do pó cerâmico. Para realização desta deposição utilizou-se um metalizador marca Bal-Tec modelo SCD 050 Sputter Coater, sendo os parâmetros de deposição iônica estabelecidos da seguinte forma, temperatura na câmara de metalização de 23°C, corrente de 40mA, tensão de 2KV e tempo de deposição de 120segundos, fornecendo um filme de ouro na superfície das partículas da ordem de 32nm. A difratometria de raios X serviu de apoio para caracterização mineralógica, sendo o equipamento SHIMADZU modelo XRD_6000, com anticatodo tudo de cobre, o utilizado para obtenção dos difratogramas. Utilizou-se uma tensão de 40 kv, intensidade de corrente de 30mA e intervalo angular de varredura de 5° a 80°, com velocidade do goniômetro de 2º/min em função de 2θ para todas as amostras recolhidas durante o processo. O método de calorimetria exploratória diferencial (DSC) e termogravimétrica (TG) foram utilizados para o estudo do comportamento térmico. Foram realizados em um equipamento da marca NETZSCH modelo Júpiter STA 449 C, com sensibilidade de 1,00000 μV/mW. Os ensaios foram realizados utilizando-se aproximadamente 23mg de pó para cada ensaio. As condições de ensaio para estes métodos de DSC e TG foram as seguintes: velocidade de aquecimento das amostras de 10ºC/min até a temperatura de 1400ºC, e atmosfera inerte de gás nitrogênio com fluxo de 70ml/min. 3. RESULTADOS E DISCUSSÕES Os resultados obtidos do monitoramento do pH evidenciaram inicialmente uma elevação do valor do pH pela dissolução do CaO na solução aquosa, chegando a um valor próximo de 11,50 como mostra a “Fig. 1”. Monitoramento do PH da solução coloidal de Ca/P 12 11,5 PH 11 10,5 10 9,5 0: 0 1: 0 00 2: 0 3: 0 00 4: 0 4: 0 45 5: 1 5: 5 45 6: 1 7: 5 15 8: 1 9: 5 1 10 5 : 11 15 : 12 15 : 13 15 :1 14 5 : 15 15 : 16 15 :1 17 5 : 18 15 : 19 15 : 20 15 :1 21 5 : 22 15 : 22 15 :4 23 5 :1 5 9 Horas Figura 1: Ilustrando valores das medidas do pH em função do tempo. Outra observação foi à diminuição lenta deste valor durante a incorporação da solução de ácido fosfórico ao colóide de fosfato de cálcio. Observando a curva da “Fig.1”, constata-se que durante as primeiras quatro horas não ocorreram mudanças significativas no valor do pH. Contudo ao final do gotejamento da solução de pentóxido de fósforo, ocorreu uma queda brusca deste valor na ordem de 9,30 e estabilizando aproximadamente após oito horas com valor do pH = 9,49. Os resultados encontrados pela difratometria de Raios X sob o pó retirado do evaporador, evidenciaram a presença da fase de fosfato de cálcio hidratado semi-amorfo na composição Ca3(PO4)2.H2O (Ficha nº 18-0303), ver “Fig. 2”. Figura 2: Difratogramas de Raios X obtidos sobre o pó da matriz óssea de fosfato de cálcio após secagem no evaporador rotativo. Para o pó nanoestruturado obtido da calcinação encontrou-se em seu difratograma os picos das fases hidroxiapatita na composição Ca10(PO4)6(OH)2 (Ficha nº 74-0565) e trifofosfato de cálcio-ß na composição Ca3(PO4)2 - ß (Ficha nº 9-0169), ver “Fig. 3”. Figura 3: Difratogramas de Raios X obtidos sobre o pó da matriz óssea de fosfato de cálcio, após calcinação a 900°C/2h. Já para o pó obtido do tratamento térmico a 1000°C/1h, observou-se em seu difratograma de raios X as mesmas fases já encontradas para o pó calcinado a 900°C, ou seja, hidroxiapatita e trifosafato cálcio-β, ver “Fig.4”. Figura 4: Difratogramas de Raios X obtido do pó da matriz óssea de fosfato de cálcio, após tratamento térmico a 1000°C/1h. E para o pó obtido do tratamento as temperaturas de 1100°C/1h, 1200°C/1h e 1300°C/30min, observou-se em seus difratogramas de raios X somente a fase trifosfato cálcio-ß, ver “Fig.5”. Figura 5: Difratogramas de Raios X obtido do pó da matriz óssea de fosfato de cálcio, após tratamento a 1100°C/1h, 1200°C/1h e 1300°C/30min (b). Os resultados obtidos do estudo do comportamento térmico pelas técnicas de análise por calorimetria exploratória diferencial (DSC) e termogravimetria (TG), para o pó nanoestruturado recuperado do evaporador, revelaram na curva da TG (Curva a) uma perda de massa continua de 25ºC até aproximadamente 780°C, ver “Fig. 6”. Curva a Curva b Figura 6: Ilustrando as Curvas da termogravimetria (TG)/(Curva a), e da análise por calorimetria exploratória diferencial (DSC)/(Curva b), obtidas dos pós retirados do evaporador rotativo. Analisando a curva DSC (Curva b), ver “Fig. 6”, observou-se a aproximadamente 80°C um pico endotérmico, indicando a perda de água sem modificação da estrutura do pó nanoestruturado. Constatou-se também em torno de 461°C uma leve elevação da curva DSC revelando a ocorrência de da modificação da estrutura do pó nanoestruturado. Verificou-se próximo a temperatura de 833°C um pequeno pico exotérmico indicando a transformação da fase de hidroxiapatita. Outro pico exotérmico também foi observado em torno 1131°C indicando formação da fase do TCP-ß, conforme já observado nos difratogramas de raios X. Os resultados do estudo de dilatometria vieram complementar os resultados de análise já obtidos por TG, DSC e Raio-X. A curva representada pela “Fig. 7” mostra o comportamento térmico do pó obtido do evaporador. Constatou-se sobre a curva, aproximadamente a temperatura de 160°C, uma pequena perda de massa, indicando a liberação de água sem modificação da estrutura do pó nanoestruturado, caso já observado na curva de DSC. A partir de aproximadamente 780°C até a temperatura até 1100°C observou-se a máxima de retração linear do pó nanoestruturado ocorrida pela transformação de fase, a partir da temperatura de 1100ºC, observa-se claramente o inicio da sinterabilidade do pó nanoestruturado. A curva de dilatometria obtida sobre todos os pós calcinados representada pela “Fig. 8”, demonstrou haver uma maior retração linear entre as temperaturas 820°C até próximo de 1120°C, indicando a transformação de fase do trifosfato de cálcio-β, caso já observado nos difratogramas de raios X. Figura 7: Curva de dilatometria dos pós obtidos da secagem do evaporador rotativo. Figura 8: Curva de dilatometria dos pós obtidos da calcinação a 900°C/2h. Para o caso dos pós obtidos do tratamento térmico a 1000ºC/1h, observou nas curvas de dilatometria, “Fig. 9”, certa semelhança se comparado com a curva do pó obtido da calcinação a temperatura de 900ºC/2h, constatando-se a máxima retração linear entre 840°C e 1160°C, o que indica a transformação de fase. Para o pó tratado a 1100°C/1h, “Fig. 10”, observou-se a maior retração linear entre as temperaturas de 1100°C até 1230°C, mostrando a transformação de fase do TCP-β. Já para os pós tratados a 1200/1h e 1300/30min, “Fig. 11” e “Fig. 12”, observou-se o mesmo comportamento das curvas de dilatometria, constatando um retração mínima se comparado com as curvas dos pós tratados as temperaturas de 1000°C, 1100°C, isto pode ser explicado pelo tamanho das partículas elementares do pó de trifosfato de cálcioβ (TCP-β) e por não haver transformação de fase. 9) 10) 11) 12) Figuras 9, 10, 11 e 12: Curva de dilatometria dos pós obtidos dos diferenciados tratamentos térmicos. Pós tratados a 1000°C por 1hora(Fig.9) – a 1100°C por 1 hora(Fig.10) – a 1200°C por 1 hora(Fig.11) e a 1300°C por 30 minutos(Fig.12). A técnica de microscopia eletrônica de varredura (MEV) serviu de apoio nos estudos de caracterização da morfologia dos pós nanoestruturados obtidos da secagem do evaporador, dos calcinados a 900°C/2h e dos pós resultantes dos tratamentos térmicos 1000°C/1h, 1100°C/1h, 1200°C/1h e 1300°C/30min. 13) 14) Figuras 13 e 14: Ilustrando a morfologia da matriz óssea obtida da secagem (Fig.13), e morfologia da matriz óssea calcinada a 900°C/2h (Fig. 14). O resultado do estudo para o pó obtido da secagem em evaporador rotativo revelou uma morfologia formada por finas partículas nanométricas aglomeradas com d < 150nm, “Fig.13”. Para o pó obtido da calcinação a 900°C/2h, observou a coalescência dos cristalitos elementares do fosfato de cálcio, ilustrado na “Fig. 14”. Para o pó obtido do tratamento térmico nas diferentes temperaturas “Fig.15, Fig.16, Fig.17 e Fig.18”, observou-se claramente que o aumento da temperatura favorece a coalescência dos cristais elementares do fosfato de cálcio. No entanto, para o caso do pó tratado a 1300°C/30min, observou-se uma morfologia dos cristais elementares levemente inferior aos do pó tratado a 1200°C/1h, isto quer dizer que o tempo de tratamento térmico é uma variável relevante em estudos termodinâmicos, onde envolve germinação e cristalização de fases. 15) 16) 17) 18) Figuras 15, 16, 17 e 18: Ilustrando a morfologia dos pós obtidos dos diferenciados tratamentos térmicos. Tratado a 1000°C por 1 hora (Fig.15); tratado a 1100°C por 1 hora (Fig.16); tratado a 1200°C por 1 hora (Fig.17); e tratado a 1300°C por 30 minutos (Fig.18). 4. CONCLUSÃO Os resultados obtidos indicaram que o método de síntese utilizado permitiu a obtenção de pós formados por finas partículas nanométricas aglomeradas. Os pós biocerâmicos obtidos da calcinação a 900°C/2h, apresentaram morfologia formada por finas partículas nanométricas aglomeradas. Para o caso dos pós tratados termicamente observou-se a coalescência dos cristais elementares. Os resultados obtidos da difração de raios-X, evidenciaram em seus difratogramas a presença das fases trifosfato cálcio-β, e hidroxiapatita, com a fase trifosfato cálcio-β predominante. A análise térmica evidenciou as temperaturas de formação de fase e máxima retração linear dos pós nanoestruturados. AGRADECIMENTOS A FINEP, pelo apoio através dos equipamentos obtidos pelo projeto referente ao edital CT-INFRA/Institucional FINEP/01/2001. Ao CCT/UDESC-Joinville, pela infra-estrutura laboratorial. REFERÊNCIAS Bellini, O.J., Camargo, N.H.A., Tomiyama, M., Folgueras, M.V., Kavart, F., Soares, C., Pontes, L.V., Silva, R.F., Gemelli, E.; “Síntese e Caracterização de vidros bioativos nanocompósitos com matriz de fosfato de cálcio” – SULMAT 2004, Setembro 2004. 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Postal 631 - Fone (0xx47) 431-7200 Fax (0xx47) 431-7240 e-mail:[email protected], [email protected] Abstract. The bones defects are a result of large causes including breakdowns, infections, tumors and congenital degenerations known as currently pheromones in orthopedic clinics. In the recent years the nanostructured ceramics are pointed out as an outstanding material in reconstruction and regeneration to thoughtless tissue. The nanostructured and microporous bioceramics obtained from calcium phosphate have taken an important place in orthopedic clinic applications due to its good mineralogical and biocompatibility characteristics. This work concentrated on the optimization the method of synthesis the powders phosphate of calcium nanostructured and characterization morphologic, mineralogical, of the thermal behavior. Palavras-chave: Phosphate Calcium,, Nanostructured, Synthesi, Characterization.