A ESPIRITUALIDADE REDENTORISTA DAS ORIGENS
SANTE RAPONI, CSSR.
Separata do Spicilegium Historicum CSSR, ano XLIV, fasc. 2.
Tradução de Pe. Ivo Montanhese, CSsR. Revisão e texto final de Fl. Castro, CSsR.
Sumário:
Premissas:
1. O contexto religioso do século XVIII.
2. Documentos das origens: critérios para a leitura.
I. Elementos básicos:
1. Correlação entre espiritualidade e plano.
2. A Imitação. Método das doze virtudes.
3. A dimensão missionária no centro da espiritualidade redentorista.
II. Características da espiritualidade:
1. Temas maiores.
2. As grandes devoções.
III. Formação e fontes:
1. Os modelos vivos.
2. O processo formativo.
3. As fontes literárias.
Conclusão.
A espiritualidade redentorista, historicamente configurada, deriva do projeto
de fundação, dos modelos nos quais aquele projeto está como que encarnado,
dos símbolos, das devoções, dos tempos e métodos de oração comunitária, da
prática ascética, da própria imagem de Deus e de Cristo. Todos esses elementos
confluem num "estilo de vida" que podemos caracterizar como espiritualidade redentorista.
2
O falar de uma espiritualidade redentorista é particularmente importante e
delicado em se tratando do período das origens. Importante: porque então aquele
modo de viver o projeto, que será programático para as gerações futuras, vai tomando forma. Delicado: porque, como fenômeno inicial, não é fácil traçar um perfil
claro e preciso do novo que surge. Nas origens encontramos de fato um conjunto
de personagens e de fatores que, de diversos modos, contribuem para o nascimento do grupo. Contribuições diversas, vocabulário diferenciado, convidam a separar o essencial do secundário, e a colher o núcleo persistente representado pelo
postulado fundamental do grupo: o plano ou o projeto missionário. Em torno do
projeto, e como fluindo dele por exigência fundamental, distribuem-se os propósitos operacionais, ou dinamismos virtuosos, que o próprio projeto está na eminência de liberar.
Esta rápida introdução oferece já o esquema do tratado que iremos pouco a
pouco desenvolvendo. Depois de uma descrição essencial do contexto religioso do
século XVIII napolitano, depois de uma premissa sobre os critérios de leitura relativos ao linguajar e aos gêneros literários presentes nas fontes primitivas (Premissas), ilustraremos primeiramente a correlação de fundo entre a espiritualidade redentorista e a vocação missionária; correlação que de uma parte implica a prática
ascética da imitação através das doze virtudes, e doutra parte a dimensão missionária como centro unificador da espiritualidade redentorista (I. Elementos Básicos). Ofereceremos em seguida uma síntese das características da espiritualidade
redentorista, com as grandes devoções e os modelos vivos que encarnaram essa
espiritualidade (II. Características). Terminaremos com as exigências necessárias
na formação dos membros, e com a literatura espiritual que, de vários modos, alimentou a espiritualidade redentorista nas origens (III. Formação e Fontes).
PREMISSAS
1. O CONTEXTO RELIGIOSO DO SÉCULO XVIII
Nossa objetiva enfocará especificamente o século dezoito napolitano, panorama mais característico para o nosso tema. Falaremos primeiramente da espiritualidade apostólica e depois da espiritualidade mais em geral.1
1
Cfr. R. DE MAIO, Società e vita religiosa a Napoli nell'età moderna (1656-1799). especialmente 901-909.
Ver especialmente a Storia della Congregazione del Santissimo Redentore (a cura di FRANCESCO CHIOVARO
CSSR. Le Origini (1732- 1793) I, 1. Roma 1993, particularmente 96-117; 325-421. Citaremos Storia CSSR.
Para uma documentação mais ampla cfr. G. ORLANDI, Il Regno di Napoli nel Settecento. Il mondo di S. Affonso Maria de Ligorio, em SHCSR 44 (1996) 5-389.
3
As associações missionárias
Ao lado das ordens religiosas tradicionais, os séculos XVII e XVIII viram surgir em Nápoles congregações de sacerdotes que programaticamente se dedicam
à evangelização, tanto na capital como no Reino. Entre elas apontamos as mais
importantes: a da Assunta (fundada em 1611 pelo jesuíta Pe. Francisco Pavone);
a da Propaganda, ou das Missões Apostólicas (fundada em fins de 1646 na Catedral, por dom Sansão Carnevale); a de S. Maria della Purità (fundada pelo pio operário Antônio Torres em 1680). Tais instituições realizam, de modo diverso, o objetivo missionário por meio de missões, de exercícios espirituais, de catequeses.
Menção à parte merece a Congregação da Sagrada Família, chamada comumente dos Chineses, fundada em 1729 por Mateus Ripa, que reavivou o espírito
missionário entre os infiéis. Essas congregações têm estruturas comunitárias diferentes; algumas vivem estavelmente em comunidade (os Pios Operários, p. ex.);
outras trabalham juntas e participam, em tempos determinados, de conferências
teológico-pastorais ou de retiros em comum como, p. ex., os membros da Propaganda. Todos, geralmente, alguns mais outros menos intensamente, levam uma
"vida apostólica" na qual a evangelização polariza e tonifica os dinamismos virtuosos do operário evangélico. Uma espiritualidade fortemente missionária, pois.
Sto. Afonso e Sarnelli foram membros das Missões Apostólicas e moraram
com os Chineses. Através de Falcoia tiveram contato com os Pios Operários. Deles, de uma maneira ou de outra, aprenderam métodos e técnicas missionárias,
como também estruturas de vida religiosa. Falcoia foi, para o novel Instituto Redentorista, o mediador entre as "revelações" de Crostarosa e o "intento" afonsiano.
Grande missionário ele mesmo, o "Diretor" foi o perito em vida religiosa e comunitária, que ajudaria o nascente Instituto a se situar de modo original no contexto
apostólico do século XVIII. De fato, os redentoristas (como os passionistas no
centro da Itália) dedicar-se-ão à evangelização das populações rurais, estabelecendo suas moradias no meio delas, procurando assim recuperar para a prática
cristã aquelas regiões que, com a supressão dos "conventinhos" (15 de outubro de
1652), tinham ficado prejudicadas na assistência religiosa, especialmente no sul
da Itália.
O século XVIII na religiosidade napolitana
Nascida no quadro mais vasto da espiritualidade do século XVIII, a CSSR
devia necessariamente sentir repercutir em si mudanças, gostos, atitudes, seja no
que diz respeito à cultura teológico-pastoral, ou à prática ascética e às devoções.
4
O breve esboço que oferecemos será forçosamente sumário, mas suficiente
para perceber que a espiritualidade do grupo está enraizada, quanto ao positivo e
quanto ao negativo, num contexto bem caracterizado.
A modo de introdução podemos dizer em geral que a espiritualidade do século XVIII tem sua fonte no pós-tridentino, que se contradistingue pelo esforço ascético, fundamentalmente de característica individualista. Modelo predominante,
na literatura religiosa e na prática ascética, é a da Companhia de Jesus. Dezenas
e dezenas de autores espirituais, alguns de fama européia, provêm do tronco inaciano, e são lidos em grande escala, a ponto de se poder dizer que a ascese "vulgata", sobretudo junto às almas mais comprometidas, é de cunho jesuítico. Por ora
deixamos de citar nomes, pois irão aparecer no decorrer deste tratado, justamente
pelo influxo que exerceram diretamente sobre o grupo redentorista, a começar por
Sto. Afonso.
Atendo-nos ao assunto, voltemos nossa atenção ao século XVIII napolitano,
como falamos no início. Nele de fato "situa-se", como no seu Sitz im Leben, a nossa espiritualidade das origens.
A piedade do século XVIII em geral, napolitana em particular, é ritmada por
práticas diárias, semanais, mensais assinaladas nos "Diretórios" e "Relógios" espirituais largamente difundidos. A devoção expressa-se e ramifica-se em devoções
marcadas por forte afetividade que, sob o aparato exterior e prolixo, escondem
muitas vezes o vazio interior. Da devoção cai-se no devocionismo, que é muitas
vezes recitação mecânica de fórmulas, com pouco repercussão na prática. Novenas, coroazinhas, novas práticas (por ex. as l3 sextas-feiras de S. Francisco de
Paola) espalham-se por toda a parte. Exemplo típico da piedade napolitana é o
culto de São Januário. A dicotomia entre fé e praxis aparece nos "três monstros"
que o card. Spinelli apontava na vida do povo napolitano: a blasfêmia, o meretrício, a usura (uma testemunha excepcional a esse respeito é Sarnelli). É preciso
acrescentar, conforme De Maio, um quarto: a mentira, praticada em todos os níveis sociais, eclesiásticos e civis; típica é aquela do fórum, que levou muitos advogados honestos a abandoná-lo (entre os nossos: Sto. Afonso, Sarnelli, Sportelli,
Caione, De Robertis e outros).
Este quadro pintado com tintas fortes não deve fazer esquecer a outra face
da realidade, ou sejam, os traços luminosos e fascinantes da piedade napolitana.
Elencamos aqui, esquematicamente, as grandes devoções nas quais se alimentavam pequenos e grandes, e ao calor das quais amadureciam plêiades de santos.
O Natal: com a novena de preparação, os presépios, os cantos, as músicas.
Jesus Menino era como que um hóspede em todas as casas, das mais humildes
às mansões régias. O folclore e as exterioridades representavam muitas vezes o
transbordamento de um sentimento que aprofundava suas raízes nas profundezas
do coração.
5
A Eucaristia: grande esplendor na exposição das Quarenta Horas, delícia
dos jovens profissionais como Sto. Afonso, Sarnelli, Mazzini, Porpora, Panza (unidos por grande amizade), e de tantas almas apaixonadas pelo Deus sacramentado. O culto eucarístico não suscitava apenas a afetividade interior, mas a projetava na caridade social (sobretudo visitas aos enfermos). Certamente não faltavam
os abusos: a "esfregação" dos sepulcros nas sextas-feiras santas, as irreverências
de vários tipos, chegando mesmo aos sacrilégios; estes últimos podem ser considerados uma das manifestações mais claras daquela mentira coletiva já assinalada como o "quarto monstro". Sto. Afonso dedicará ao mistério eucarístico livros de
grande aceitação, como Visitas e "La Messa Strapazzata".
A Paixão: ainda hoje em dia no Sul da Itália é a devoção por excelência. As
imagens de Cristo sofredor, nos diversos episódios de sua Paixão, que dão vida
às igrejas e confrarias; as procissões da Sexta-Feira Santa; a encenação das aparições de Cristo ressuscitado à Mãe das Dores; a pregação das três horas da agonia, e outras manifestações corais, são marcas gravadas na carne do povo. Citemos, para recordar algum exemplo mais familiar, as estátuas que dom Giuseppe,
pai de Sto. Afonso, levava consigo na nave capitânia; o crucifixo pintado pelo próprio Sto. Afonso quando ainda jovem advogado; o Ecce Homo modelado por São
Geraldo em Deliceto. Lembremos, de passagem, a arte napolitana dos séculos
XVII e XVIII, como também o difundido exercício da Via Sacra e a devoção à Nossa Senhora das Dores. Pode-se acrescentar o modo como muitas cartas de direção espiritual associam os estados de alma, de desolação e angústia, dos penitentes aos mistérios da Paixão de Cristo; ver, entre os nossos Sto. Afonso, Sarnelli, Cáfaro, Fiocchi, Sportelli, sobretudo São Geraldo.
O Coração de Jesus: Trata-se de uma devoção recente, introduzida em Nápoles sobretudo com a vinda das visitandinas (1686). Promovido pelos jesuítas e
pelos "pios operários", o culto do Sagrado Coração era hostilizado pelos jansenistas, pelos rigoristas e pelo alto clero, como os cônegos da catedral de Nápoles.
Através de Monsenhor Falcoia e pela literatura religiosa da Companhia de Jesus,
a devoção foi acolhida entre os membros do nascente Instituto, e encontrou em
Afonso um defensor e propagador entusiasta.
A Imaculada Conceição de Maria: é provavelmente a devoção mais caracterizante do século XVIII napolitano. São testemunhas significativas as colunas, "guglie", levantadas nas praças de muitas cidades e vilas; a mais célebre e a mais
barroca é a que se ergue diante do "Gesù Nuovo" em Nápoles. Muito difundido era
o "voto de sangue", duramente criticado pelos cultores da "devoção moderada",
mas defendida por mariólogos como Sto. Afonso. Exageros não faltaram, quer na
doutrina, quer na prática devocional. Não era sempre fácil, por exemplo, manter
uma medida equilibrada no uso das "estampinhas da Imaculada", praticado e recomendado por Sto. Afonso.
6
Passando das devoções à literatura hagiográfica, pode-se afirmar que as "vidas dos santos", em Nápoles como em outros lugares, repetem o "modelo arcaico
convencional" (De Maio) do século precedente que, além de edificar, tendia sobretudo a maravilhar. Sto. Afonso será sóbrio e prático e, nos limites do possível,
segue as exigências históricas.
Diferentemente da hagiografia, a literatura mística registra em Nápoles êxitos
originais, com figuras de primeiro plano no campo da experiência direta (entre as
quais Crostarosa não ocupa o último lugar). O quietismo, já agonizante, deixou
marcas no linguajar do amor. O card. Petrucci é citado prazerosamente por Sto.
Afonso; e Falcoia, que o tinha conhecido pessoalmente, não deixou de ser influenciado de certo modo por ele. Além disso, o P. Antônio Torres, diretor espiritual do
mesmo Falcoia e grande servo de Deus, foi acusado de quietismo. Para evitar
equívocos, os autores espirituais (entre os quais Sto. Afonso, Sarnelli, Fiocchi)
insistem na "via ordinária", como aquela que não se presta a imaginações ou devaneios.
É normal topar com um pessimismo bastante difuso na literatura espiritual e
hagiográfica. Mundo, demônio, carne: esse o trinômio constante. Deriva disso
certa depreciação das obrigações terrenas, e saltam para um primeiro plano as
"verdades eternas". A vida é orientada para o fim que se aguarda, como sendo
uma "preparação para a morte". A "salvação da alma" é o único negócio que verdadeiramente importa.
A antropologia é muito falha e fundamentalmente dualista. Surge assim a
suspeita contra a mulher, contra o matrimônio, contra o sexo em geral. Atitude que
encontra seu contrapeso na corrupção e na liberdade dos costumes, seja nas altas esferas, seja nas esferas burguesas ("cicisbeismo") seja também entre as
massas. Surge assim a sobrevalorização da vida consagrada, mas também a sua
crise, visto que a lei da primogenitura levava homens e mulheres a encher as fileiras do clero diocesano ou religioso e os mosteiros. Estes últimos, embora apresentando um padrão espiritual e moral bastante elevado,2 tornavam-se às vezes,
conforme Sto. Afonso, "haréns de mulheres mundanas", de "mulheres encarceradas e inquietas", de "mulheres mundanas"; "depósitos de mulheres presas"; refúgio de "monjas desajustadas e desorientadas".3 Na pior das hipóteses, essas vo2
Storia CSSR, 102 (ORLANDI). De Orlandi cfr. também Il Regno di Napoli nel Settecento cit., 179.
LETTERE, I. 158; 531;617; 537, 606 (por ordem). Ver também Selva de matérias predicáveis, 421-422; e o
parágrafo relativo às monjas em Reflessioni utili ai vescovi, Napoli 1745. Cfr. a propósito U. DOVERE, Il buon
vescovo" secondo Sant'Alfonso M. de Liguori, em AUTIERO- O. CARENA (a cura di), Pastor Bonus in populo.
Figura, Ruolo e funzione del vescovo nella Chiesa (Miscellanea di studi in onore di S. E. Mons. Luigi Belloli), Roma 1990, 130-133 (115-149). Indicativos em tal sentido são também as correspondências de nossos
3
7
cações socialmente forçadas podiam ser levadas pelas frustrações e condicionamentos psicológicos que muitas vezes raiavam nas situações limites da patologia.
Certos estados de ânimo de aridez, de desolações, de quase desespero, que afloram nas cartas de direção, mais que autênticas experiências espirituais, escondem muitas vezes insatisfações reprimidas e, numa palavra, distúrbios `maníacos.4 Não obstante estas sombras, é preciso afirmar o surgimento de multidão de
almas generosas, entre as quais não poucas figuras de santos.
2. DOCUMENTOS DAS ORIGENS: CRITÉRIOS PARA A LEITURA
Vocabulário articulado
Os documentos primitivos colocam-nos em frente de uma terminologia diferenciada que é preciso brevemente analisar, com a finalidade de situar também
linguisticamente as várias contribuições. Três personalidades estão diretamente
envolvidas: Irmã Maria Celeste Crostarosa, Dom Tomás Falcoia e Sto. Afonso. Da
primeira consideramos aqui as Regole per le monache: o único escrito que exerceu um papel de primeira importância na formulação das Regras para os missionários; é também o único escrito, parece-me, conhecido por eles. Do segundo interessam-nos sobretudo Le Lettere, dirigidas seja para o mosteiro de Scala, seja
aos missionários. O vocabulário dos dois, de modos diferentes, terá clara reperprimeiros padres; refiro-me em particular ao Pe. Carmine Fiocchi, cfr. SABATINO MAJORANO, Il P. Carmine
Fiocchi diretore spirituale. Corrispondenza con Suor Maria Angela del Cielo, em SHCSSR 31 (1983) 33-8.
Somente algumas frases: " Esta volubilidade em relação aos diretores é freqüente nas monjas novatas e especialmente naquelas que crêem que os diretores, sem seu esforço, as farão santas (pg. 38). "Maria Celestina
não creia na sua fantasia, que a faz divagar [ ..]. O natural porém é louco" (pp. 40-43). "A sua santidade consiste em desobedecer sempre ao diretor" (pg. 61). "Falo daquelas que são fracas de cabeça, e não são poucas"
(pg. 62). "A célebre maluca Maria Diomira" (pg. 63). "Diretores atormentados pela enchente de cartas" (pg.
67). "Não deixem de advertir as doidas" (pg. 74). Sobre vocações "orientadas" em Nápoles e, mais geralmente, na Europa, cfr. REY-MERMET, Afonso de Ligório – uma opção pelos abandonados, Aparecida 1984,
37-38. Chistosas, mas, até certo ponto, caricaturais, são também os testemunhos de dois jesuítas, Caussin e
Cordier, sobre as vocações femininas forçadas na França em meados do século XVII, cfr. L. CHÂTELLLIER,
L'Europa dei devoti, Milão, 1988, 149-151.
4
Esta situação de aglomeração numérica e de psicologias perturbadas, verdadeira cruz dos confessores e dos
padres espirituais, deve estar entre os motivos que levaram Sto. Afonso a proibir para os congregados confissões e direções ordinárias das monjas, que tirariam tempo precioso para as pregações missionárias. Mas também aqui, como veremos, o seu bom senso permitia exceções, a começar por ele mesmo que endereçou dezenas de cartas às enclausuradas. Irônico quando escreve a esse respeito o Pe. Tannoia: "Assim também não
quis direção de monjas, sejam as de clausura, ou de conservatório, nem em comum, nem em particular. Uma
monja a seu ver é capaz de ocupar todo o tempo de um homem e ainda não ficar satisfeita. Proibiu além disso
dar-lhes fora do tempo de missão os santos exercícios. Somente nos últimos tempos, aparecendo algum razoável motivo, permitiu-os para algum Mosteiro. TANNOIA, II, 339.
8
cussão nas diversas formulações das Regras Primitivas (Regole grandi, Compendio, Testi di Bovino, di Conza) e encontrará definitiva sedimentação na Regola
pontifícia aprovada por Bento XIV. Sto. Afonso tem um linguajar próprio (textos do
Ristretto, Cossali e outros documentos) que, superado por aquele adotado nas
Regras Pontifícias, se verá recuperado e novamente proposto no capítulo especial
de l967/1969 nas novas Constituições.
Irmã Maria Celeste Crostarosa
Referimo-nos ao texto editado no Spicilegium Históricum.5 Estão presentes
duas constelações semânticas: a da "memória" e a da "imitação".
A primeira constelação, ou seja, o vocabulário complexo que a expressa,
aparece 50 vezes.6 A segunda, 55 vezes.7
Objeto da "memória" (e vocábulos afins), como também da "imitação" (e vocábulos afins) são fatos, atitudes etc. do Salvador na sua vida terrena. "Imitação" e
"memória" são entre si estritamente interdependentes.8 O termo "ir atrás" no sentido de "seguir" aparece 2 vezes, das quais uma em referência com a imitação: "ir
atrás com a imitação".9 Parece-nos que se pode dizer que na Regra a constelação
5
O. GREGORIO - A SAMPERS: Documenti intorno alla Regola della Congregazione del SS. Redentore, 17271749. Parte I: Preistoria (= Testi crostarosiani) em SHCSR 16 (1968) 17-235, primeira coluna. O texto ao qual
nos referimos é dos revisores da publicação (indicado sucessivamente com a abreviação Gregário - Sampers)
apresentado como autógrafo da Crostarosa; na realidade, ele foi escrito em Foggia por uma outra mão ai pelo
ano de 1750, chamado por isso Foggiano III cfr. SABATINO MAJORANO, L'Imitazionw per la Memoria, Roma,
19978, 119-12l
6
Damos a estatística detalhada: "viva memória" (1 vez); "fazer memória" (18 vezes); "em memória" (5 vezes); "pela memória" (4 vezes); "recordar-se" (6 vezes); "para comemorar" (1 vez); "memorável" (1 vez);
"para significar" (3 vez); "em sinal" (3 vezes); "para denotar" (3 vezes); "com pensamento" (1 vez); "para
honra/ para honrar" (2 vezes); "figura/representação" (2 vezes); "na pessoa do Senhor" (2 vezes); As referências estão sobretudo nas páginas 17-32; 158; 182; 189; 218; 222; 233. Advertimos que, tanto aqui como nas
páginas seguintes, os números adotados podem sofrer oscilações
7 Estatística detalhada: "imitar/imitadores (7 vezes); "imitação" (16 vezes); "assim como" (7 vezes); "seguindo minha divina vontade" (1 vez); "seguir-me pela imitação" (1 vez); "exemplo/exemplos" (6 vezes); "modelo" (1 vez); "exemplar" (3 vez); "conforme a idéia de Jesus Cristo Nosso Senhor" (1 vez); "norma" (1 vez);
"símbolo" (1 vez); "vivos retratos/vivos retratos originais" (3 vezes); "viva imagem de Jesus Cristo" (1 vez =
a irmã enferma) "assemelhar-se/assimilar-se"/ à semelhança de sua imitação" (2 vezes);
"copiar bem" (o livro da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo); "caminhar nas pegadas de Nosso S.J.C./ caminhar pelos passos de sua santíssima vida" (2 vezes); "todas semelhantes ao diviníssimo original" (1 vez). As
referências estão sobretudo às páginas 32-59; 85-107; 141-148; 189; 201; 203; 229; 231.
8
Cfr. MAJORANO, L'imitazione per la memoria cit.,.
9
A terminologia do “seguimento” é mais freqüente no Ms. incompleto de Scala (5 vezes); em estreita correlação com o "imitar": provável influxo falcoiano (GREGORIO - SAMPERS, 236-263). Detalhadamente: "`seguitare’ meus passos/ sombras, mais próximo" (5 vezes); "seguir-me, imitar-me" (1 vez); "recopiar em vós a
minha vida" (1 vez); "reforma-te à minha semelhança" (2 vezes); "assemelhar-se, semelhantes" (5 vezes);
9
da "memória" (também nas suas expressões mais fortes, como "viva memória",
"vivos retratos", retratos originais") se apoia numa prática espiritual destinada a
fazer reviver em si aspectos diferentes da vida do Salvador.10
Monsenhor Falcoia
Na estatística de todos os escritos (cartas a M. Rippa, às Irmãs de Scala, a
Sto. Afonso e companheiros)) predomina a constelação da "imitação" (40 vezes);
5 vezes se fala de "imagens vivas"; 1 vez de "bom retrato". Mas está bem representada também a constelação da "seqüela" ou do "seguimento" (15 vezes).
Acentua-se bastante o vocabulário da "conformidade" (“uniformar”-se, reformar-se,
radicar-se): 6 vezes. Está praticamente ausente a linguagem da "memória" (falase 2 vezes de "recordar-se do Salvador"). Imitação, seguimento, conformidade,
embora com termos diferentes, confundem-se pela afinidade semântica.11
"imitar-me/ ser imitado/ imitação" (7 vezes); "exemplo/exemplos" (3 vezes); "exemplar" (2 vezes); “representação de minha vida"[...] "recorda-te de mim" (1 vez).
Cremos fazer coisa útil para os leitores apresentando num bloco os textos crostarosianos nos quais o verbo
"seguitare" é usado fora de qualquer dúvida no sentido de "seguire". Sempre com referência a GREGORIO SAMPERS: "Seguindo vós a minha vontade (pg. 18). "Seguir-me com a imitação" (pg. 37); "Para animar
aqueles que querem segui-la" (pg. 18). "Resolvida a seguir e pôr em prática aquilo que o Senhor por boca
daquela (superiora) lhe dirá" (pg. 129). "Vós que pretendeis seguir meus passos [...] com desejo de recopiar
em vós a minha vida [...] segui-me mais de perto que possais em todas as virtudes” (pg. 236), já citado precedentemente. "Nega-te a ti mesmo, toma a tua cruz e segue-me". "Não há coração para abraçar a cruz, nem
espírito para seguir-me e imitar-me, que não queira negar suas acomodações" (pg. 243). "Para animar aqueles
que querem segui-lo" (pg. 253). Sobre o "seguir" entendido no sentido mesmo de seguir, poder-se-ia apresentar uma lista interminável de referências atinentes aos documentos próprios da Congregação.
10
O conceito de "memória" encontra correlação precisa na mensagem de São Paulo da Cruz, cuja Congregação, por ele fundada, tinha como fim promover a "grata memória" e o culto da Paixão de Jesus. Tal promoção
é exigida por um voto particular, que não é apenas um ponto de devoção, mas um indicativo de um precioso
empenho apostólico. O esforço para viver a memória da Paixão de Jesus na própria vida e na vida comunitária é através do voto suposto como algo preexistente. A memória-devoção, ou memória-culto da Paixão leva a
ter presentes os benefícios de Deus, vindos a nós com a Paixão, e retomar as atitudes de Jesus na própria vida.
"Fazer memória" significa ter presente de modo vivo, psicologicamente significante, uma pessoa, um acontecimento; significa criar no espírito das pessoas uma atitude interior de gratidão, proveniente da consciência
cheia de amor, de quanto Jesus realizou para o nosso bem. Para São Paulo da Cruz o fazer memória é algo
que prende toda a pessoa e a orienta para a pessoa divina de Jesus, com jubilosa gratidão, e a impulsiona a
"praticar os seus divinos costumes" e a "recopiar as virtudes do divino exemplar Jesus Cristo e viver o seu
santo espírito"; é um aceitar qualquer acontecimento da vida como "dom e tesouro que nos presenteia o Pai
celeste [...] e de tal forma festejar sempre e se alegrar que se realize em nós a sua santíssima, eterna vontade”.
Sintetizamos aqui um opúsculo do PE. F. GIORGINI, CP, Promuovere la grata memoria e il culto della Passione di Gesù. Ragione di essere della Congregazione passionista, Roma, 1980. "Ricerche di storia e spiritualità passionista", 15. Ver especialmente pgs. 26-33. Cfr. S RAPONI, Il Carisma dei Redentoristi nella Chiesa
1993, 121-124.
11
Estatística detalhada: Lettere a Ripa: "ser imagens vivas de Jesus Cristo" (1 vez); "copiar/recopiar Jesus
Crucificado" (4 vezes); "imitar a sua vida" (1 vez). A freqüência do termo "copiar", "recopiar", faz alusão a
10
Santo Afonso
Embora servindo-se do vocabulário da imitação, ele prefere todavia o do "seguimento" da "seqüela". “Não se encontrará o termo "imitação" nas numerosas
cartas dirigidas aos seus filhos".12 Isso não implica evidentemente recusa ou desestima pela doutrina da imitação, que é patrimônio inalienável da tradição cristã a
começar por São Paulo; além disso uma obra como a Imitação de Cristo é chamada "um livro todo de ouro", que ele lê diariamente. Só que a terminologia em
questão não goza suas simpatias, por motivos que podemos deixar de lado.
Os gêneros literários
Outro critério para interpretar corretamente os documentos é o dos diversos
estilos usados de vez em quando. A todo gênero literário, de fato, corresponde
uma verdade própria. Em nosso caso é oportuno distinguir ao menos dois gêneros: os documentos de prevalente caráter apodítico ou jurídico, e aqueles de natureza prevalentemente paranética ou ascética. Um confronto entre os dois gêneros
ajudará a precisar os vários níveis, ou ângulos, a partir dos quais é considerado
determinado conteúdo.
Limitamo-nos a algumas sondagens partindo dos próprios escritos do Fundador.
Nos documentos oficiais, ou mais claramente de natureza jurídicoadministrativa (Ristretto delle Regole: Suppliche ao rei, ao Sumo Pontífice, aos
Ripa, pintor de imagens na China. Imitação, pois, através da cópia, para se tornar assim verdadeiras imagens
de Jesus Cristo (6 vezes). Lettere alle suore (Cartas às Irmãs); "imitar/imitação de Jesus Cristo, de sua vida,
de suas virtudes" (12 vezes); "copiar/recopiar" (1 vez); "seguimento" (1 vez);"seguir as pegadas do Salvador" (2 vezes); "seguir Jesus Cristo" (1 vez). Cfr. O. GREGORIO, Frammenti di Mons. Falcoia, em SHCSR 10
(1962) 339: "Se nos humilharmos, seguiremos Jesus Cristo, seremos semelhantes a ele: "seguidores (2 vezes);
"viva/ imagem" (2 vezes); "modelo" (1 vez); "semelhante a Cristo" (1 vez); "conformar-se" (1 vez). Cartas a
Sto. Afonso e companheiros: "imitar/ imitação" (5 vezes); "seguir Jesus Cristo, o Grande Mestre" (2 vezes);
"seguimento/ humilde seguimento" (4 vezes); "seguir as pegadas do Salvador ou de Sua Divina Majestade" (2
vezes); "seguidores" (1 vez); "vivas imagens de Jesus Cristo" (2 vezes);"um bom retrato de Nosso Senhor" (1
vez); "Discípulos de Jesus Cristo" (1 vez); "por nosso exemplar Jesus Cristo" (1 vez); "exemplar" (1 vez);
"semelhante/s" (4 vezes); "radicar-se nas virtudes de Jesus Cristo (1 vez); "a conformidade da vida de Nossa
Nosso Senhor " (1 vez); "como pedra angular" (2 vezes); "recordar-se do Salvador no Getsêmani, sobre a
cruz" (2 vezes).
12
REY-MERMET, Afonso cit., 463. Cfr. RAPONI, Il carisma cit. 76;, nota 11 e 77. A propósito do "seguitare"
afonsiano, apresentado pela "viva memória" cfr. ibid., 120-127 (Excursus).
11
ministros, aos bispos, por motivo da aprovação do Instituto) o estilo é conciso e
linear, porque tende a descrever de maneira pontual o fim desejado pelo grupo.
São assim apresentados, conforme certa ordem lógica, o intento, ou projeto
(evangelização dos mais abandonados das campanhas), o contexto jurídico eclesial (a jurisdição dos bispos), o caráter distintivo (no meio das dioceses), a vida
espiritual (prática comunitária e pessoal das virtudes mensais). Em tais documentos a dimensão ascética é muitas vezes de todo subentendida, como acontece,
por exemplo no Supplex libellus para Bento XIV.
Nos documentos menos empenhativos e menos formais, mas sempre no
quadro até aqui delineado, a atenção às vezes é restrita e focalizada sobre um
dos elementos descritos, identificando o fim do Instituto com as missões".13 Outro
exemplo de redução está no compêndio da vida do Sarnelli, onde o próprio Sto.
Afonso assegura que o fim da Congregação é "andar circulando pelas dioceses
ajudando a pobre gente da campanha" .14
O próprio Falcoia, que ordinariamente identifica o fim do Instituto com a imitação da vida e das virtudes de Jesus Cristo, escrevendo ao Cardeal Spinelli, embora num documento oficial, identifica a imitação diretamente com a evangelização.15
13
Desde 3 de julho de 1734, escrevendo para Dom Francisco Mezzacapo, o Fundador qualifica as missões
como "o nosso principal instituto". Cfr. O. GREGORIO, Una lettera inedita di S. Alfonso, em S. Alfonso 22
(1951)15. Muitos anos depois, numa circular aos congregados escreve: "Irmãos meus, sabeis que o único
escopo do nosso instituto é a obra das missões. Se se deixa essa obra, ou se não a faz bem, está destruído o
instituto. É melhor deixar as missões, que fazê-las com detrimento do nosso espírito e com má edificação do
povo". LETTERE II,246, (setembro de 1773?). Pouco tempo depois, a propósito da oferta feita aos nossos da
igreja do Gesù em Roma, assim escreve ao Padre Villani: "Que faríamos nós em Roma? A Congregação
estaria perdida porque, distanciados de nossas missões, perdido o fim do Instituto, acabaria a Congregação,
restaria uma ilusão, e para que serviria?". Cfr. TANNOIA, III, 269. Em fim: “Sobretudo, que jamais, jamais se
aceitem das “universtà” (conselhos das localidades, n. do trad.) o reembolso das despesas, presentes, ou dinheiro, para que as missões não se tornem odiosas, e assim se vá perdendo ou pelo menos esfriando seu exercício, sobre o qual se apoia totalmente o Instituto da Associação do Santíssimo Redentor." Circular de 10 de
julho de 1779, Ibid. II, 499. A propósito de uma casa em Roma, merece ser recordada a atitude do Fundador
no tempo do caso Muscari: "toda religião, disse-lhe, tem em Roma algum refúgio; por que não tentar também
nós fundar ali uma casa?" Comenta Rey-Mermet: "Fora decidido em conselho enviar a Roma o abade Muscari e o Pe. Tortora; fizera isso unicamente para afastar o ex-abade sob um pretexto honroso [...] e não se falou
mais da "procuradoria de Roma". Cfr. HCSSR., 242 2 247.
14
Compendio della vita del servo di Dio D. Gennaro Maria Sarnelli, como apêndice ao Il mondo santificato,
Napoli 1753, 326 e 340.
15
A pequena Congregação, empenhada nos Casali de Nápoles, corre o risco de perecer enquanto os súbditos,
tão poucos, se virem "deslocados de sua vocação, que unicamente consiste no humilde seguimento do Salvador: andando a pregar (grifo é nosso) o reino de Deus aos pobrezinhos que necessitam extremamente de
socorros espirituais para sua eterna salvação; e a ajudar os pobres bispos, que sofrem com a falta de operários,
nem sabem para onde se voltar, mesmo para as pequenas ajudas" (FALCOIA, 420: fevereiro de 1741). Uma
confirmação em SPORTELLI: cfr. Epistolae Ven. Servi Dei Caesaris Sportelli, CSSR, Roma 1937, 68-69. Repetimos: Falcoia, que nas cartas a Sto. Afonso e aos congregados insiste sobre a imitação da vida e das virtudes do Salvador, aqui vai direto ao coração do problema insistindo no "humilde seguimento" pela pregação
missionária.
12
Destaque diferente é possível encontrar nos documentos de natureza parenética, para o uso interno dos congregados. Aqui o intento missionário passa para
um segundo plano, ou se supõe conhecido; sobe para o primeiro plano o esforço
ascético. O fenômeno é notório nas circulares do Fundador e nos opúsculos dirigidos aos nossos jovens. Limitamo-nos a uma citação, que nos parece particularmente instrutiva para os fins do nosso tratado. Nos Avisi spettanti alla vocazione
religiosa apresenta assim o fim do Instituto:
O fim do Instituto do SS. Redentor é seguir o mais de perto possível
as pegadas e os exemplos da vida sacrossanta de Jesus Cristo, o qual viveu uma vida desapegada e mortificada, cheia de sofrimentos e desprezos.
Assim que, se alguém resolver entrar nesta Congregação, precisa
que ao mesmo tempo se resolva a entrar para sofrer e negar a si mesmo
em tudo, conforme aquilo que o próprio Jesus declarou àqueles que querem
se entregar perfeitamente ao seu seguimento: Se alguém quiser vir após
mim, abnegue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me (Mt 16, 24).16
Pouco mais adiante o discurso é sobre o desprendimento:
É preciso, pois, que quem quiser pertencer à Congregação do SS.
Redentor entre com espírito decidido a se vencer em tudo, e despojar-se de
todo apetite e desejo que não seja de Deus nem para Deus. É preciso também que se desprenda de tudo, principalmente de quatro coisas: das comodidades, dos parentes, da estima própria, da própria vontade.17
Como se vê, o tom geral do tratado não é a evangelização, mas antes a abnegação de si mesmo. No primeiro trecho não é difícil surpreender certo estilo
"falcoiano", ao qual o seguinte texto de Mateus dá claramente o suporte. Até parece se estar diante de uma proposta essencialmente ascética, sem projeção apos-
16
Avisi e considerazioni spetanti alla vocazione religiosa, ad uso dei novizi della Congregazione del SS.
Redentore in Opusculi relativi allo stato religioso, Roma 1868, 24. Os Avisi e as Considerazioni foram publicados em Nápoles em 1750. A propósito de "pegadas" e "exemplos", no plural, que, como dissemos no texto,
parecem repetir a linguagem falcoiana, recordamos também o início de um esboço de filiação dos benfeitores,
assinado por Sto. Afonso com data de 16 de novembro de 1758: "Nós que [...] fomos chamados para esta
Congregação para seguir mais de perto os exemplos de nosso Redentor Jesus Cristo, que nada fazia sem beneficiar os homens, seguindo suas pegadas [...]". AGHR, SAA/02, 00426, publicado em Analecta 21 (1949)
157. Não é supérfluo repetir que a diferença de estilo e de linguagem entre os documentos de inspiração falcoiana e os de inspiração afonsiana, mesmo existindo não deve todavia ser absolutizada e tematizada.
17
Avvisi cit. 27.
13
tólica. Mas trata-se de uma projeção enganosa, porque a evangelização fica subentendida:
Por graça do Senhor e nosso Salvador Jesus Cristo, este escândalo
em ver que alguns procuram qualquer função de aplauso, como o de presidir,
ou de pregar, ou de confessar e semelhantes, não existe em nossa pequena
Congregação, e esperamos que jamais exista.18
E com maior clareza:
Todavia, é preciso saber que nós somos sacerdotes operários, e
dedicados à salvação das almas.19
Ainda:
Queira Deus que jamais alguém na Congregação peça ou dê a
conhecer o desejo de pregar ou sair em missão [...]. Quem quisesse
entrar para a Congregação principalmente para ir às missões, para
pregar etc., não entre; porque não é este o espírito do Instituto. Somente tem o espírito do Instituto quem entra com o desejo de prestar
obediência, e de sofrer em paz ver-se posto a um canto, sem ser
ocupado em coisa alguma.20
O motivo apostólico aflora na breve oração conclusiva:
Senhor, completai a obra, e fazei-nos todos vossos, para vossa
glória; de modo que todos os membros desta Congregação, até o dia
do juízo, vos agradem perfeitamente e conquistem para vós um
imenso número de almas. Amém.21
18
Ib., 35 O grifo é nosso. Também nos textos seguintes.
Ib.
20
Ib., 42.
21
Ib., 49. Ver também o texto inédito anotado mais na frente, nota 70, sobre a estima própria. Entre outras
coisas ali se lê: "O fim de nossa Congregação é de nos fazermos semelhantes a Jesus Cristo, humilhado, pobre e desprezado. [...] este é o fim principal. Seria fácil multiplicar os exemplos a esse respeito. Permita-nos
apenas ao menos uma breve citação do Pe. Villani, vigário. Escrevendo em 1772 ao Pe. Ansalone, assim se
expressa: "Meu Padre, quanto me desagrada a sua repugnância por Deliceto; entretanto muito me consolou a
resolução de obedecer. Meu Padre, Deus não nos chamou para a Congregação nem para pregar nem para
19
14
A preocupação formativa constante leva a acentuar a dimensão interior, colocando em primeiro plano a obediência e o despojamento de si mesmo. Sem estas bases o ministério está votado à esterilidade
Que a leitura dos textos prevalentemente parenéticos não deva ser tomada
no sentido rígido torna-se evidente pelo próprios Opúsculos relativos ao estado
religioso, e pela "Consideração XIII: Sobre o zelo da salvação das almas", onde o
tom é decisivamente diferente e coloca o fim da Congregação na evangelização:
Quem é chamado para entrar na Congregação do Ss. Redentor não
será jamais um bom seguidor de Jesus Cristo se não se fizer santo, se não
realizar o fim de sua vocação, e não tiver o espírito do Instituto, que é de salvar as almas mais destituídas de auxílios espirituais, tais como as pobres
gentes da campanha. Este já foi o projeto ou plano da vinda do Salvador, o
qual falou de si mesmo: Spiritus Domini...unxit me, evangelizare pauperibus
(Lc 4, 18). E quando ele quis provar São Pedro para ver se ele o amava, não
lhe mandou outra coisa, senão que cuidasse da salvação das almas: Simon
Joannis, diligis me? Pasce agnos meos... pasce oves meas (Jo 21,16) [...].
Deve, portanto, todo súbdito da Congregação nutrir com todas as forças este zelo e este espírito de ajudar às almas. Para este fim deve cada um
dedicar todos os seus esforços; e quando, pelos Superiores, for destinado
para tal ofício deve colocar todo o seu pensamento e toda sua atenção. Não
se poderá chamar verdadeiro irmão desta Congregação, quem não aceitasse
com todo afeto este trabalho, quando lhe fosse imposto pela obediência, para
se dedicar somente a si mesmo, levando uma vida retirada e solitária.22
Diferentemente do texto apresentado mais acima, baseado em Mt 16, 24,
aqui a referência bíblica é um clássico da evangelização: Lc 4, 18 (que é também
o centro do "Intento” no texto Cossali) e a santidade dos congregados é diretamente ligada ao compromisso missionário.
Concluímos: a diversidade e a peculiaridade dos gêneros literários não deve
levar-nos a um engano, mas estimular para uma síntese, ou seja para uma leitura
confessar, mas para fazer a sua divina vontade". KUNTZ, Commentaria, VIII, 320. Come se vê, trata-se de
uma koiné cultural que traz consigo impresso o selo do Fundador.
22
Opusculi relativi allo stato religioso, Roma 1868,94-96, cfr. nota 16. Veja Raponi, Il carisma cit. 79-81.
15
contextual harmônica, feita para unir e não para dividir. Nesta convergência a exigência evangelizadora preside e suscita as atitudes virtuosas, sejam pessoais ou
comunitárias, num sinergismo de mútua fecundação.23
I. ELEMENTOS BÁSICOS
1. RELAÇÃO ENTRE ESPIRITUALIDADE REDENTORISTA E "INTENTO"
Recordemos que o termo "intento" nas fontes primitivas, especialmente no
Ristretto e no Cossali, está caracterizando o projeto missionário.
A espiritualidade redentorista desde suas origens, mesmo além das formulações às vezes dissonantes como já se falou, apresenta-se como um estilo de vida
de operários evangélicos, nos quais a tendência à perfeição está estreitamente em
correlação com o dinamismo missionário.
Relembremos as linhas básicas do "intento" ao longo das sucessivas elaborações. Grosso modo, podemos distinguir dois grupos de documentos. No primeiro
grupo prevalece o linguajar de Falcoia (e indiretamente da Crostarosa); no segundo, a mentalidade e o vocabulário do Fundador, Afonso. Vejamo-los mais de perto.
O grupo de inspiração falcoiano-crostarosiana, além de em algumas formulações primitivas de gênero diferente,24 está presente nas Regole grandi, no Compendio de Bovino, no Texto de Conza. Estes documentos, redigidos depois da
morte de Falcoia, insistem na imitação da vida e dos exemplos do Salvador; o
texto bíblico predominante: imitatores mei estote, sicut et ego Christi(1Cor 11,1). A
Regra pontifícia recalca substancialmente a mesma formulação:
23
Esta unidade entre evangelização e perfeição interior, realizada na comunidade, aparece expressa felizmente no compêndio da vida de Sarnelli; "Tendo sabido que o Instituto desta Congregação era de se dedicar à
cultura da gente abandonada da campanha com as missões, os exercícios espirituais e que nela os congregados viviam com muita observância regular [...] deu seu nome a esta Congregação". Compendio cit. 329. Voltemos um instante aos módulos literários diferentes, cuja leitura não deve ser disjuntiva mas harmônica.
Quando Sto. Afonso queria exortar e impulsionar para a observância, descrevia muitas vezes a situação de
uma maneira, digamos assim, quase catastrófica. Mas, em outras ocasiões, muitas vezes alegra-se em ver que
na Congregação há empenho em fazer Cristo conhecido.
24
Cfr. C. HOEGERL, Founding Texts of redemptorists. Early Rules and Allied Doocuments, Roma 1986, 61225. A linguagem da "memória" praticamente desapareceu dos documentos dos missionários. Sobrevive no
Complesso dell'Instituto e Regole a propósito dos "Exercícios diários" onde, seguindo o texto das Irmãs, a
fórmula "em memória" aparece 12 vezes. Ib. 80-83. Outro resíduo no Direttorio dos exercícios diários, mensais, anuais: o silêncio observado após o meio-dia "em memória” das três horas de Jesus sobre a Cruz. Ib.
100. Nas Regras das Irmãs todo exercício diário é referido a um episódio da vida de Nosso Senhor Jesus
Cristo. Cfr. nota 6
16
O fim do Instituto do SS. Redentor outro não é senão o de unir sacerdotes, que convivam e que procurem com empenho imitar as virtudes e
exemplos do Redentor nosso Jesus Cristo, especialmente empenhando-se
em pregar aos pobres a divina palavra.25
Em todos estes textos aparece, como em filigranas, a teoria do duplo fim,
amplamente difundida e assumida pela cúria romana no ato de aprovar os novos
Institutos. Conforme esta teoria, há um fim geral (a santificação dos membros) e
um fim particular, ou específico, consistente nas várias tarefas eclesiais ou serviços propostos; no que diz respeito aos institutos apostólicos, o fim específico é a
pregação.
Muitas vezes mencionada na Regra pontifícia, como também nos textos antes citados, a doutrina do duplo fim está claramente formulada nas Constituzioni
de 1764:
Todo instituto tem dois fins: o primeiro é a santificação de si mesmo; o
outro a santificação dos povos e o bem da Igreja. O primeiro é geral, o segundo é particular,[...].26
Quanto à formulação poder-se-ia apresentar como hipótese certo dualismo
entre os dois fins, que põe em perigo a relação entre ambos, a ponto de relegar
para um segundo plano o compromisso apostólico, tendo-o mesmo como concorrente e de algum modo atravancador do primeiro.
25
Codex regularum, p. 29, n. 1.
Ib., pg. 30, n.2. Sobre a teoria dos dois fins, no seu desenvolvimento histórico e na prática da jurisprudência curial romana, cfr. S. RAPONI, Interación apostolado y vida religiosa, na Revista Confer, n.103, JulhoSetembro de 1988, 471-483; Id. Integrazione tra apostolato e vita religiosa. Il punto di vista di sant’Alfonso,
in Vita consacrata, 26 (1990) 176-186. É preciso acrescentar ainda o trabalho fundamental de F. COUREL,
SJ., La fin unique de la Compagnie de Jésus, no Archivum Historicum SJ., 36 (1966) 186-211. Trata-se de
uma contribuição essencial ao nosso tema, do qual somente tardiamente, infelizmente, tomamos conhecimento; ignorado também por CARMINATI no verbete Fini della Religione, no Dizionario degli Instituti di
Perfezione, vol. IV, Roma 1977, 45. Devem, portanto, ser corrigidas as afirmações que, nos artigos citados,
fizemos sobre a origem jesuítica dos dois fins, levados pela autoridade de Carminati. É de extremo interesse
notar que a problemática levantada no artigo de Courel tem pontos de grande semelhança com a nossa, seja
no que diz respeito à variedade de formulações nas origens da Companhia, seja pelo que se refere à radical
impostação de um único fim apostólico, em torno do qual se articulam todas as outras exigências relativas aos
votos e à perfeição pessoal. Do artigo de Courel existe uma tradução resumida em inglês: The single aim of
the Apostolic Institute, in The Way, Supplement, 14 (Autumn 1971) 46-61. Posição fundamentalmente idêntica encontramos nos editoriais La spiritualità della Compagnia di Gesù, na Civiltà Cattolica, caderno 3368
(20 de outubro de 1990) 105-118, e caderno 3369 (3 de novembro 1990) 209-219. Crítico da interpretação de
Courel é seu confrade McGuckian, segundo o qual o fim da Companhia de Jesus é duplo: M. C. MCGUKIAN,
The one End of the Society of Jesus, no Archivum Historicum S. J., 60 (1991) 91-111. Cfr. RAPONI, Il carisma, cit., 89-90.
26
17
O grupo de documentos de inspiração afonsiana aparece no Ristretto, no
texto Cossali, no Supplex libellus e nos documentos afins, e já antes em algumas
tentativas de 1743, recentemente vindas à luz.27 O projeto do Instituto é “seguir o
exemplo do Salvador na pregação”. A linguagem torna-se simplificada e reduzida
ao essencial: evangelização. Também o texto bíblico é significativo: Evangelizare
pauperibus misit me. A prática ascética, ou o exercício das doze virtudes, é exercida em virtude do projeto, exigida por este e por este consolidada. A "vida apostólica" fica unificada. A espiritualidade redentorista é síntese harmônica de projeto
e de prática ascética. Numa palavra: a fórmula afonsiana vai diretamente ao coração do problema, e tudo dispõe em torno do evangelizar como centro unificador da
vida missionária no seu conjunto.
Falando nas páginas precedentes dos gêneros literários, especialmente dos
documentos de caráter prevalentemente paranético, dissemos que estes últimos
(cartas, opúsculos) não devem ser entendidos como que isolados do compromisso
missionário, mas como necessários para dar ao Instituto a sua plena consistência.
A evangelização de fato não é somente a pregação formal, mas um complexo de
atitudes que, tomadas globalmente, constituem um estilo de vida que encontra na
missão o seu centro.
Não será supérfluo afirmar que as duas formulações não são contraditórias,
nem exclusivas, mas somente de acentuação diversa. Também no grupo falcoiano
a evangelização, ou a dimensão missionária, é fortemente acentuada. Já insistimos como no mesmo Falcoia, grande missionário, a evangelização é apresentada
como fim único na carta ao Card. Spinelli. Que a pregação missionária seja como
o coração do Instituto se evidencia no Regulamento para as missões, um dos mais
antigos e venerandos documentos, no qual se reflete a Congregação no seu todo,
e no qual a mão do Fundador e do Diretor deixaram sua marca indelével.28 O parecer de Villani, segundo o qual afinal as mudanças introduzidas nas Regras pela
cúria romana não tocaram em nada de essencial, é amplamente aceitável. Aliás,
não houve apreciações contrárias entre os confrades, a começar por Sto. Afonso;
nem isso pode ser atribuído somente à discrição, ou a certa resignação, satisfeitos
por ter alcançado o escopo principal que era a aprovação do Instituto e das Regras. Os congregados, numa palavra, ao que consta, não notaram nenhuma mudança de perspectivas.
27
AGHR, o atual número do código é SAM17, n. 1022.
Temos três textos primitivos sobre missões: o primeiro, ainda em vida de Falcoia, (com anotações marginais
de Sto. Afonso); o segundo datável entre 1743 e 1747, in LETTERE III, 535-545; o terceiro é um manuscrito
incompleto de Sto. Afonso (SAM IX III 10b). Os três confluíram na Constituição de 1747 (sobre a qual se
fala no texto). Esta, por sua vez, foi incluída nas Constituições de 1764 que, salvos acréscimos, permaneceu
imutável até o Capítulo especial. Cfr. Codex regularum, pgs. 36-88, nn. 22-149. De particular importância é a
constituição primeira: "Idéias das missões e das disposições para as mesmas", nn. 24-30. O texto da Constituição de 1747 pode ser lida na Analecta 1 (1922) 172-178; 206-212; 255-263. Tradução inglesa e introdução
em HOEGERL, Funding Texts cit., 344-361.
28
18
Isso não impede que a formulação do Fundador, rápida e vigorosa, expressasse de modo original o projeto, ou o intento do Instituto. À distância de mais de
dois séculos, aquela formulação foi reassumida pelo Capítulo especial (1967/69),
como sendo a que hoje expressa mais adequadamente o ser da Congregação na
Igreja. Com as novas Constituições "a espiritualidade redentorista reencontra a
sua fonte pura e única: a afonsiana.29
2. A IMITAÇÃO. MÉTODO DAS 12 VIRTUDES
Como já acenamos, a linguagem da imitação prevaleceu sobre a do seguimento no texto pontifício das Regras. Além do Pe. Villani, para isso devem ter
contribuído o Pe. Sérgio Tomasso e o seu confrade, o Pe. Francisco Sanseverino,
ambos Pios Operários, que faziam da imitação da vida e exemplos de Jesus Cristo
uma prática ascética peculiar. Falcoia absorveu o método da imitação dos seus
mestres, os Padres Antônio de Torres e Ludovico Sabbatini, mas recebeu um impulso decisivo das revelações da Crostarosa. Escreve o Pe. Gregório; "Os germes
da imitação da vida de Jesus Cristo implantados em sua alma, tanto pelo Pe. Sabbatini quanto pelo Pe. Torres, floresceram plenamente depois da revelação da
Venerável Maria Celeste Crostarosa: a partir de 1725, superada alguma dúvida,
Falcoia tornou-se seu grande propagador, segundo uma forma peculiar e mais
29
T. REY-MERMET, Rédemptoristes, in Dict de spirit., Paris 1988, col. 276. Nas cartas mandadas de Roma ao
Fundador, o Pe. Villani, falando das mudanças que eram feitas nas regras, usa a seguinte expressão: "Cose di
rimarco non si sono mutate" (Coisas de importância não foram mudadas). DE MEULEMEESTER, Origines, II.
287; "Non sono cose sostanziali". Ibid. 288; "Certe altre coserelle che non sono di rimarco si sono aggiustate"; Ibid. 288; “Le Regole già si sono rivedute, tutto il sostanziale è rimasto salvo”. Ibid. 289. Por sua vez o
Pe. Landi fala de pequenas mudanças. Istoria, Parte II, cap. 3, pg. 18: Tanto Villani como Landi referem-se
aos conteúdos. Isso não nega que as Regras tivessem recebido nova ordem ou estrutura. Ouçamos ainda Villani: “O Senhor dispôs que se ajustassem aqui de outra forma as Regras, para nos livrar de muitas angústias
em que inevitavelmente nos colocariam as Regras feitas em Nápoles". DE MEULEMEESTER, Origines, II. 290
fala também de "Regras por nós (com o Pe. Sérgio e Sanseverino) organizadas". Ibid., 291; de “Regras bem
ajustadas". Ibid. 292 "[...] assim, a vida comum, os votos, só foi mudada a ordem, mas explicou-se mais claramente", Ibid. 294 "[ as Regras] agora estão bem ajeitadas". Ibid. 296. E o Pe. Landi, a propósito do Capítulo de Ciorani , diz que as Regras “foram aceitas com sumo respeito e reverência; viu-se que em poucas
páginas estava todo o essencial, não somente da lei evangélica, mas ainda dos conselhos do próprio Jesus
Cristo". Ibid., II, 320. Escreve o Pe. Hoegerl: "A radical mudança na estrutura da regra é imediatamente evidente. A matriz da antiga Regra, as 12 virtudes desapareceram[...] As referências bíblicas e as reflexões espirituais cedem lugar a uma apresentação mais legal e de tom concreto. Todavia, quem estudar os textos anteriores irá convencer-se imediatamente que muito do que estava neles está também na regra aprovada".
HOEGERL, Founding Texts cit. 289. Conforme DE MEULEMEESTER, o texto afonsiano (Ristreto e Cossali)
"pecava por excesso" ao colocar o apostolado em primeiro plano, com prejuízo da imitação, ao passo que o
texto pontifício “restabelecia o equilíbrio" entre os dois elementos (Origines, II. 205-206). De tudo quanto
viemos expondo, parece-nos que a posição DE MEULEMEESTER deva ser revista e matizada. Sobre o processo
de transformação por que passaram as Regras apresentadas para aprovação, cfr. Storia CSSR, 452-475
(FERRERO).
19
sistemática"30. Quanto esta doutrina penetrou em sua espiritualidade é demonstrado, entre outros fatos, pela fórmula com que inicia suas cartas: "Jesus Cristo
seja a nossa vida", que substituiu todos os motes usados até então.31
A doutrina da imitação, praticamente sem muito relevo em Sto. Afonso, está
porém presente em Sportelli, discípulo de Falcoia32, no Pe. Carmine Fiocchi,33
para citar apenas alguns. Aliás, o mote de Falcoia aparece no cabeçalho de muitas cartas dos congregados.34
30
O. GREGORIO, Mons. Tommaso Falcoia, 1663-1743, Roma 1955, 20. E mais: "Pelo menos depois de 1725,
mas certamente de 1730 em diante, Falcoia foi o apóstolo da imitação das virtudes de Jesus Cristo. Em seu
último decênio predominou a solicitude de conformar a conduta quotidiana das Irmãs de Scala e dos missionários à vida do Salvador divino: nisso insiste na correspondência epistolar, quase com o ardor de São Vicente de Paula nas suas conferências periódicas". Ibid., 317.
31
Ainda o Pe. Gregorio: "O Pe. de Torres, seu diretor de consciência, costumava apor no início de seus escritos: Jesus Cristo seja a nossa luz. Falcoia, ao que parece aí pelo ano de 1730, adotou como divisa pessoal a
fórmula: Jesus Cristo seja a nossa vida. A frase paulina: Mihi vivere Christus est tornava-se em substância a
sua espiritualidade [...] Não se trata de uma doutrina original ou peregrina. Note-se, porém, o tom irresistível
com que retorna sempre à idéia de não perder de vista, para copiá-lo, o exemplar de toda santidade". Ibid.
317. E acrescenta: "Provavelmente antes da revelação da Ven. Crostarosa devia usar algum outro mote: na
carta mais antiga que conhecemos, escrita por Falcoia em Roma no dia 15 de maio de 1700, lê-se: Nobiscum
Deus". Ibid., nota 18.
32
Epistolae Ven. Servi Dei Caesaris Sportelli, CSSR., Roma 1937. A imitação de Jesus Cristo (de sua vida e
de suas virtudes) é proposta a todos: aos seculares, às almas consagradas (entre as quais o mosteiro de Scala)
e aos sacerdotes (para estes últimos, cfr. DE MEULEMEESTER, Origines, II. 268). Nas cartas o tema volta pelo
menos 10 vezes. Mas no primeiro plano situa-se o tema do amor de Deus, de Jesus Cristo e da vontade de
Deus; os dois juntos aparecem ao menos 20 vezes. As três palavras estão estreitamente correlacionadas entre
si e atraem para sua órbita semântica temas afins, como: amor à cruz e obediência, 9 vezes; Trindade, ao
menos 8 vezes; Espirito Santo, 10 vezes; Sagrado Coração (ordinariamente mencionado no final das cartas);
Maria, 10 vezes; oração, 7 vezes; reta intenção, 5 vezes; etc. Estes números podem sofrer alguma oscilação.
O Pe. Sportelli espira serenidade de espírito, vivacidade e força comunicativa.
33
CARMINE FIOCCHI, Lettere di direzione a suor Maria di Gesù (16 cartas de 1753-1773), edição de S.
MAJORANO, em SHCSR 229 (1981) 257-281. Algumas amostras: "Imitar as virtudes de Jesus Cristo Crucificado" (pg. 205); "Amai bastante Jesus Cristo, imitando-o em tudo" (pg. 280); "tornar-se cópia viva de Jesus
Crucificado" (pg. 270); “Deus imprima no coração a sua viva imagem" (pg. 281). O tema está inserido num
quadro de referências no qual predomina o tema do amor a Deus (Trindade, Espírito Santo), à humanidade
santíssima de Jesus Cristo, e sobretudo o tema da vontade de Deus. Resumindo, trata-se de temáticas afins às
do Pe. Sportelli, mas com estilo ainda mais pessoal, teologicamente vibrante e aberto à mística ("noites da
alma", pg. 277). O tema da imitação do Redentor retorna sempre em São Geraldo em meio aos sofrimentos:
"afim de que seja imitador de meu divino Redentor. Ele é o meu Mestre, eu seu discípulo. Por isso mesmo
devo aprender dele e seguir suas divinas pegadas” (à Madre Maria de Jesus). Le lettere di s. Gerardo Maiella,
a cura di D. CAPONE E S. MAJORANO, Materdomini 1980, 287. Já em Falcoia a imitação orienta-se quase
sempre para a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, especialmente Crucificado e Menino. Isso cria uma linguagem ardente de amor, de confiança, de abertura do coração, de adesão amorosa à Vontade de Deus. Imitação pela identificação interior progressiva, com a graça de Deus e pela força do Espírito Santo; a marca Trinitária é muito clara. No contexto do amor situam-se as devoções ao Coração de Jesus e a Maria. Pululam nas
cartas expressões de alegria e de júbilo.
34
O mote é habitual em Sportelli; em Villani (que acrescenta o nome de Maria: "Jesus e Maria sejam a nossa
vida") e em Mazzini. cfr. KUNTZ Commentaria, II 434; III 305-375. DE MEULEMEESTER, Origines II, 274315. Está presente em TANNOIA (carta a Villani, KUNTZ, Commentaria, VII, 73; XI, 227); numa carta do
estudante Luigi Marolda sempre a Villani, KUNTZ, Commentaria XI, 36. Um eco do mote em C. Fiocchi que
inicia suas cartas assim: "Jesus Cristo seja a nossa vida e Maria Dolorosa a nossa paz" (outras vezes, simplesmente: “Vivam Jesus e Maria Dolorosa"). Geralmente cada um adota uma linguagem própria, segundo
20
A prática da imitação foi conectada por Falcoia ao método das 12 virtudes,
tanto para as irmãs como para os missionários. Para isso foi preciso fazer uma
inovação a respeito das revelações da Crostarosa: acrescentar as três virtudes
teologais às outras 9 (motivo, entre outros, da ruptura entre ambos) e enquadrar
todo o exercício num esquema mensal rígido. Também aqui Falcoia não foi um
iniciador absoluto, sendo o método já conhecido em ambientes jesuíticos; foi, porém, um seu convicto e decidido propagador35. Não foi, em todo o caso, um fanático do sistema, pois escrevendo para Sto. Afonso sobre o assunto deixa aos congregados margens para a liberdade e a iniciativa:
As meditações durante o mês não devem ficar necessariamente limitadas [apenas à virtude do mês (nota do tradutor)], limitando e coarctando o
espírito, de modo que não possa caminhar para outras partes (esta é doutrina de todos os mestres espirituais). Mas servem para que tenhamos o pão
cotidiano com o qual nos alimentar e nutrir, quando faltarem outros alimentos.36
al.
37
Assim fica mais matizado e suavizado seu pretenso "totalitarismo" espiritu-
sua devoção ou seu caráter. Além de Sto. Afonso ("J.M.J.T"), São Geraldo (“Jesus + Maria" e outras fórmulas originais), recordamos Sarnelli: "Viva a Santíssima Trindade e Maria Imaculada" (é o mais freqüente);
"Vivam Jesus e Maria Santíssima", 2 vezes; “Jesus Cristo seja a nossa luz", 4 vezes, cfr. DE MEULEMEESTER,
Origines, I 267-275 (5 cartas a Sto. Afonso). Lacônico como sempre, Pe. Cafaro: "V. Jesus e Maria”. Recordamos outro mote caro a Falcoia: "Sua Divina Majestade” (por extenso ou abreviadamente). Essa é todavia
uma característica de muita literatura do tempo. A fórmula é freqüente em Sportelli, ao menos 16 vezes; em
Sarnelli, mais de 20 vezes; usa-a Mazzini (carta ao Pe. Muscarelli, KUNTZ, Commentaria, V., 42: II 434-437);
está presente em São Geraldo. Para terminar, uma palavra sobre outro mote querido de Falcoia: "In corde
Jesu", habitual em Sportelli, freqüente em Cafaro. Aparece em latim ou em italiano. Quanto ao Pe. Villani,
cfr. DE MEULEMEESTER, Origines, II, 279, 283, 297.
35
Escreve O. Gregorio: "Estritamente não criava um método novo na Igreja; ela já existia nos textos ascéticos, embora não fosse muito comum. O método, psicologicamente bom, era seguido em alguns noviciados
religiosos setecentistas. Nem faltaram os teóricos, entre os quais se inscreve o Pe. Antônio le Gaudier, jesuíta,
morto em 1622, com 50 anos de idade, que em 1620 mandou imprimir em Paris o tratado De vera Jesu
Christi Dei et hominis imitatione. Saiu como obra póstuma, em 1643, sua obra específica a respeito das 12
virtudes mensais, intitulada De perfectione vitae spiiritualis, na qual propõe para cada mês o exercício de uma
especial virtude, estudada em Jesus Cristo e escolhida para matéria de exame de consciência". GREGORIO,
Mons. Tommaso Falcoia, cit. 318. Nas pgs. 318-319, estão algumas sugestões práticas de Falcoia para as
irmãs, Sportelli e Mazzini.
36
FALCOIA, 277. Cfr. B. PELLEGRINO, Pietà e direzione spirituale nell'epistolario di Tommaso Falcoia. Per
la storia religiosa del primo Settecento napoletano, in Rivista di storia della Chiesa in Italia, 30 (1976) 472.
37
Na correspondência com suor Mariangiola del Cielo, o Pe. Sarnelli, na única vez que se refere ao tema da
imitação, revindica espaços para a liberdade. Assim responde à irmã, ligada pela regra ao método das 12
virtudes: "Atenha-se seu espírito, quanto puder, à consideração da vida e dos exemplos de Jesus Cristo, para
imitá-lo; sem, porém, precisar expulsar e afastar do seu espírito outros traços do divino esposo, referentes à
imensa grandeza de seus adorados atributos". G. M. SARNELLI, Opere, tomo XIV, Napoli, 12851, 54.
21
Quanto a Sto. Afonso, ele não foi um apaixonado pelo método. Mas aqui é
necessário distinguir dois momentos. O Fundador acolhe o exercício comunitário
do método, fazendo sobre as virtudes do mês conferências, meditações, exames
de consciência. Para esse fim Falcoia oferecia-lhe alguns apontamentos ("Quinternetti") usados por ele mesmo nos anos juvenis, mas somente como exemplo,
uma vez que reconhecia em Sto. Afonso homem capaz de fazer muito melhor do
que ele próprio38. Não se pode, porém, duvidar que nas comunidades das origens
a prática estivesse em uso antes e depois da morte do Diretor, e que a seu modo
tivesse contribuído para plasmar, não somente e tão somente os adultos, mas
também os jovens que pediam para se juntar ao grupo. Lembremo-nos que no
Capítulo realizado em Ciorani em 1749, para a aceitação das Regras aprovadas
por Bento XIV, se diz entre outras coisas, o seguinte:
Determinou-se a virtude e o santo Protetor para cada mês, conforme
nosso antigo costume39.
Estabelecia-se assim um instrumento privilegiado de formação para as futuras gerações de redentoristas.
À pergunta se o método, enquanto tal, fosse adaptado à pessoa de Sto.
Afonso, pode-se responder com suficiente segurança que ele não se adaptava à
espiritualidade de um homem habituado a se mover num clima de liberdade interior, onde o amor a Jesus Cristo constituía o catalisador de qualquer atitude ascética. Isto explicaria como ele, em todos os opúsculos espirituais e nas próprias cartas aos congregados, não se mostre explícito promotor do método. Atem-se, ao
contrário, à substância, vai ao essencial, batendo com insistência nas virtudes necessárias à perfeição de um operário apostólico40. Esta liberdade de impostação
38
FALCOIA 261-262. Cfr. também 271-272. e 277.
Recordemos que na Regra pontifícia as 12 virtudes desaparecem: Cinco virtudes: fé, esperança, amor de
Deus, ao próximo, amor da Cruz, desaparecem completamente, enquanto que as remanescentes são recolocadas na segunda sessão" HOEGERL, Founding Texts cit., 289. Nas constituições de 1749 a prática confirmada
como "antigo costume", Acta Integra , pg. 16, n. 43. O DE MEULEMEESTER fala em mérito de "tímida tentativa" (Origines, II. 219), mas "aquela tímida" não é sufragada pela prova. Sobre o argumento das 12 virtudes
na história da espiritualidade redentorista , apontamos dois estudos, não de todo coincidente entre eles: M. DE
MEULEMEESTER, Les vertues du mois" em SHCSR 2 (1954) 107-124; O. Gregorio, L'esercizio della virtù
mensile tra i Redentoristi napolitani, Ibid. 367-388. Sobre a virtude mensal, cfr. TANNOIA, II, 344 e 352.
40
De maneira bastante drástica, o Pe. REY-MERMET escreve a propósito: "Ligório não tinha nenhuma simpatia por esta minúcia mensal; repugnava-lhe mesmo este culto da perfeição pessoal [...]. Uma vez desaparecido
Falcoia, Afonso respeita a tradição em uso; enquanto Superior, em obediência à Regra, ele dedica a sua conferência semanal à virtude do mês. O seu Diário contém, sobre cada uma, pontos práticos para recomendar;
mas jamais ele evoca aí as virtudes de Jesus nem aí fala da imitação, com somente uma exceção, para o mês
de novembro: "Nas orações se esforçar para conhecer e para amar a Deus; imitar Jesus: fazer a sua vontade".
Se, pois, Ligório atribui a paternidade destas Regras a Falcoia, não o faz por humildade. Antes toma distância diante de orientações que respeita, mas nas quais não se reconhece. No plano pessoal, não se encontra, na
sua vida, a mínima atenção ao método das virtudes do mês; como Fundador e Superior Geral, não as mencio39
22
manifesta-se, aliás, nos opúsculos hagiográficos sobre os nossos; neles, o esquema refere-se não tanto ao método formal das 12 virtudes, quanto ao livre entrelaçar-se dos dinamismos virtuosos minuciosamente evocados e descritos. Referimo-nos ao Compendio della vita del Sarnelli e às Notizie relativas a Vito Curzio e
ao Pe. Cáfaro41
3. A DIMENSÃO MISSIONÁRIA NO CENTRO DA ESPIRITUALIDADE
REDENTORISTA
Tendo-se em conta os matizes percebidos no tocante aos gêneros literários e
à doutrina da imitação, estruturada em torno do método das virtudes mensais, devemos reafirmar que o intento do Instituto visa essencialmente a evangelização. É
esta sua razão de ser no contexto eclesial do tempo. A preferência pelos pobres
abandonados da campanha e o ter suas moradias no meio das dioceses constituem o "distintivo" que caracteriza a Congregação entre todas as associações
apostólicas que mencionamos ao evocar o contexto religioso do século dezoito
napolitano.
Já falamos da importância capital do "Regulamento para as missões"; para
ele confluem, como por formação acumulativa, formulações e experiências que o
grupo veio acumulando desde a primeira hora. Também a esse respeito existe um
na em nenhuma de suas circulares aos confrades; como hagiógrafo de seus confrades mais santos - Sarnelli,
Curzio, Cafaro - não assinala nenhum traço deste método em suas vidas de perfeitos redentoristas. Silêncio
eloqüente!" REY-MERMET, Rédemptoristes cit., 277.
41
Parece útil relembrar o elenco das virtudes descritas. a) Sarnelli. Depois de um breve perfil biográfico,
expõe "rapidamente alguma coisa de especial de suas virtudes". Por ordem: amante da oração (lágrimas,
pranto, suspiros); devotíssimo da Trindade, especialmente devoto da Paixão; amor a Jesus Cristo; sumamente
devoto de Maria, especialmente da Imaculada, e do Nome de Maria; aridez, desolação, abandono; glória de
Deus e vontade de Deus; mortificações, desprezado, humilde, pobre; caridade para com o próximo; zelo pela
salvação das almas; doença final e morte santa. b) Cafaro. Também aqui, depois de um breve relato biográfico, detém-se sobre "algumas virtudes especiais que exercitou em sua vida". Por ordem: zelo pela salvação das
almas; orações; desolações, aridez cruzes; silêncio, solidão; obediência; humildade e vida oculta; mortificações; pobreza; desprendimento das coisas e dos parentes; caridade para com o próximo; pureza do corpo e da
alma; muito devoto da Paixão , da Sma. Virgem ; constância nas boas obras; gosto de Deus, vontade de Deus.
c) Vito Curzio. Oração, Nascimento e Paixão (os mistérios que mais o enterneciam); contemplação; mortificação; trabalhos corporais; participação nas missões ("onde as fadigas dos irmãos serventes são intensos");
caridade com o próximo; exemplar com os enfermos; virtude da obediências (dizia o Ir. Vito: “Um irmão da
Congregação deve ser como a sineta no pescoço duma vaca"); vontade de Deus, desejo da morte.
Como se pode ver, se o escopo dos opúsculos hagiográficos é mais edificante que histórico, todavia o autor
acentua aquilo que é especial em cada um. Embora se tratando de um leque mais ou menos aberto, tendo por
base o mesmo elenco, as figuras ficam bem caracterizadas. O sentido do concreto e do específico afasta o
autor do modelo hagiográfico do tempo "arcaico e convencional". (DE MAIO, Società cit., 908). Neste contexto recordamos também o epitáfio, ditado por Sto. Afonso para o Irmão Joaquim Gaudiello, porta-bandeira
para o céu: Gaudiello é descrito como exemplar em todas as virtudes, assemelhando-se plenamente à vida de
Cristo, especialmente na sua Paixão. Texto está em REY-MERMET, 361. Original latino em TANNOIA, Vite cit.,
101.
23
"distintivo" que caracteriza a missão redentorista das missões de seu tempo, o que
fará o Fundador dizer: "As missões, que são o nossa principal finalidade [...], nós
as fazemos de forma diferente da de outras Congregações"42.
A missão é o elemento catalisador da vida do grupo nas suas variadas manifestações: das estruturas comunitárias à atividade cultural.
Todos participam da missão: os padres com a pregação, os irmãos com a
parte material; de vez em quando os estudantes e os noviços com a catequese.
Crônicas e cartas são concordes em acentuar o árduo trabalho dos missionários
que, em número ainda muito exíguo, deslocam-se de região para região expondose às fadigas massacrantes, vítimas muitas vezes do trabalho. Por onde passam,
as missões "realizam prodígios"43, renovando as comunidades dos fiéis e suscitando vocações preciosas para o Instituto. Em torno de Sto. Afonso, chefe, movem-se figuras extraordinárias (mas não o seriam um pouco todos eles?) que devoradas pelo zelo, deixam marcas e saudade entre as populações, em todas as
camadas. A "vida devota" prolongará a presença dos missionários, assegurando a
perseverança. A passagem carismática dos novos apóstolos levará autoridades e
povo a pedir uma presença estável: todas as casas, no Reino e no Estado pontifício, nascem como frutos das missões.
Junto aos padres, os irmãos. Vale para todos eles tudo quanto Sto. Afonso
escreve a propósito de Vito Curzio: nas missões, "as fadigas dos irmãos serventes
são imensas"44. Figura emblemática do irmão missionário é São Geraldo; somente
42
Cfr. carta de Sto. Afonso, já citada na nota 13, de Vila degli Schiavi, a Dom Francisco Mezzacapo. Sob
este título REY-MERMET dedica um belo capítulo à missão afonsiana, Afonso cit., 419-430. Cfr. Também
Storia CSSR. 325-382 (ORLANDI). Que "a obra das missões" era o objetivo do grupo torna-se evidente também pelo novo posto que ela recebeu na estrutura do texto pontifício, passando da terceira para a primeira
parte.
Aqui parece-nos oportuno fazer um aceno à missão extraordinária desenvolvida pelo Pe. Sarnelli entre as
prostitutas de Nápoles: cfr. A. DE SPIRITO, La prostituzione femmnile nel XVIII secolo, in Ricerche di Storia
sociale e religiosa 13 (1978) 31-70; L. VALENZI, Prostitute, pentite, pericolanti, oblate a Napoli tra ‘700 e
'800, in Campania Sacra 22 (1991) 307-324; Storia CSSR, 66-68 (ORLANDI); sobretudo o número único que
Campania Sacra dedicou ao beato Sarnelli: Gennaro Maria Sarnelli, Protagonista della vita ecclesiale e
civile nella Napoli del Settecento, Nápoles 1996, especialmente 255-298.
43
LETTERE, I, 189 (nov. 1751); II, 162 (26 de fev. 1771); II, 234 (circular de 27 de junho 1773). Segundo Sto.
Afonso o fruto das missões depende de três fatores: porque se prega Jesus Cristo Crucificado; porque são
desinteressadas; porque cada um leva a sério as tarefas a ele confiadas.
44 Brevi notizie della vita e morte di Fr. Vito Curzio, cit. , 358, cfr. nota 41,c). “Não consta que tenha participado pessoalmente, como outros irmãos coadjutores, em alguma missão popular. Mas que tenha colaborado
para o desempenho e o bom êxito desse fim co-primário do Instituto, também perscrutando corações, mantendo colóquios e às vezes com estrondosas conversões de retirantes, isso sim. Temos disso exemplos claros
(se bem que até agora ainda não interpretados nesse sentido) em sua primeira biografia, como o grupo de
quinze rapagões de Castelgrande convencidos a fazer uma boa confissão.” (A. M. DE SPIRITO, La presenza
redentorista in Irpinia, in “Richerche di storia sociale e religiosa” 26 (1997) 191, e nota 53).
24
com sua presença e com o seu carisma inimitável operava mais que muitos missionários juntos.
Os noviços e os estuantes, nos limites do tempo disponível, eram iniciados
nos trabalhos missionários, ocupando-se em particular da catequese às crianças
ou edificando tão somente com sua presença: pense-se em Domingos Blasucci.
Percorrendo as circulares do Fundador, no período de mais ou menos 30
anos (de novembro de 1751 a abril de 1783), pode-se perceber com extrema evidência a centralidade do trabalho missionário, mesmo se o gênero literário, como
se disse mais vezes, acentuava as disposições espirituais, ou os pressupostos de
princípio.
Uma vista atenta às diversas palavras ou temas, freqüentes nas circulares,
permite entrever o nexo entre elas.45 A palavra "missão" é a mais ampla das referências. A essa podem ligar-se, por atração, palavras estreitamente conexas com
o ministério apostólico como: pregação, estilo, obediência, humildade, soberba,
amor aos desprezos, pobreza, crítica, parentes, perseverança, vocação, estudo,
especialmente da teologia moral. Um outro grupo de palavras refere-se prevalentemente à vida comunitária, sem todavia perder de vista o apostolado: meditação,
oração, preces, recolhimento, silêncio, retiro, vida comum, caridade mútua, zelo
indiscreto, observância, Regras, defeitos. Acima de todos os temas: o amor a
Jesus Cristo e a Maria Santíssima. Somente o elenco apresentado deixa entrever
a centralização da dimensão missionária com respeito à vida complexa dos missionários.
As estruturas da vida comunitária são funcionais em vista da vocação missionária. A fórmula "eremitas em casa, apóstolos fora", não estabelece uma ruptura
entre os dois elementos, mas sim uma correlação. Não é supérfluo recordar que
no tempo da missão continua, enquanto possível, o estilo de vida comunitário habitual (meditação, retiro, capítulo das culpas, leitura à mesa, ação de graças após
a missa etc.). De outra parte, oração, estudo, silêncio alimentam o zelo apostólico
do missionário no período em que está em casa. Deve-se acentuar ainda que a
"vida devota" em nossas igrejas, como também os exercícios espirituais a padres
e nobres, são considerados como uma "missão contínua".46
45
Confronte-se, a respeito, O "Índice das coisas mais notáveis” do pequeno volume Sempre teco editado por
A. DI COSTE, Roma 1922, mesmo se às vezes deixa a desejar. Para caracterizar a dimensão missionária da
espiritualidade redentorista contribuía evidentemente também a missão aos infiéis. Cfr. Storia CSS., 328-399
(ORLANDI).
46
Cfr. Storia CSSR, 400-421 (FERRERO). Sobre a fórmula "eremitas em casa, apóstolos fora", com relação à
unidade da vida redentorista, cfr. REY-MERMET, Rédemptoristes cit. col. 278; RAPONI, Il carisma cit., 63-68.
25
II. CARACTERÍSTICAS DA ESPIRITUALIDADE: UMA SÍNTESE
1. AS LINHAS MESTRAS
Os parágrafos precedentes levam-nos a descrever as linhas mestras da espiritualidade das origens considerada na sua complexidade.
A imitação do Redentor
É sempre a trama de fundo. Não será supérfluo reapresentar o código legislativo oficial, isto é, a Regra aprovada por Bento XIV.
A Const. I sobre o fim, reza assim:
Com respeito ao primeiro fim, a Regra manda que todos os congregados busquem seriamente e com todas as forças a santificação de si mesmos,
imitando diligentemente as virtudes sacrossantas e os exemplos de nosso
Redentor Jesus Cristo, de maneira que cada um possa dizer em verdade:
Vivo eu, não já eu, mas Cristo vive em mim.47
O texto da Regra especifica:
Interessante, no caso, uma carta do Pe. Cafaro ao Pe. Celestino de Robertis (do qual era diretor espiritual) na
qual, entre outras coisas, recomenda-lhe estudar com empenho a teologia e a moral, e preparar as pregações
das missões, etc., e conclui: "Quisera que V. R. fosse um santo operário, não um santo cartuxo. Mas pareceme que essa cantilena não lhe agrada muito. É preciso ser Marta e Madalena igualmente; antes, operário mais
Marta que Madalena." Epistolae cit. pgs. 48-49. A título de curiosidade acrescentamos que esse mesmo Pe.
de Robertis devia causar alguma preocupação uma vez que Sto. Afonso escreve assim ao Pe. Tannoia, reitor
de Iliceto: "Facilmente o Pe. de Robertis irá até aí para se tornar um verdadeiro cartuxo, enquanto o Pe. Villani e outros dizem que não convém de modo nenhum que esteja em Caposele, onde teve tantas penitentes por
muito tempo". LETTERE, I, 440. Pode ser útil referir quanto se diz sobre o Ir. Gaudiello: "Se tanto Joaquim se
afeiçoou a Madalena, nem por isso defraudava Marta. Amava a oração, mas não evitava o trabalho. Costumava dizer que a fadiga era a pedra de toque dos Irmãos". TANNOIA, Vite cit., 90.
47
Codex regularum, pg. 30, n. 2 (Constituições de 1764).
26
Estas meditações far-se-ão especialmente sobre as virtudes teologais,
sobre a vida e virtude de Jesus Cristo, que devem vivamente recopiar em si
mesmos.48
Dissemos que a prática da imitação chegou aos primeiros congregados através de Falcoia. É necessário precisar que o pensamento do Pai chegava muitas
vezes a eles através do filtro do Fundador. Por isso em concreto, a doutrina da
imitação foi vivida pelos congregados como que transformada pelo pensamento de
Sto. Afonso e pelo selo de sua espiritualidade, toda centralizada no amor a Jesus
Cristo. Escreve o Pe. De Meulemeesters: "O pensamento do Diretor o mais das
vezes chegou aos primeiros membros do Instituto através do pensamento de Sto.
Afonso, impregnado de sua mentalidade e de suas preferências pessoais [...]. Este
trabalho de transformação e de evolução do pensamento de Falcoia no espírito de
Sto. Afonso pode ser observado lendo atentamente o Diário (n. 70-72) [...]. A sua
piedade afetiva leva-o mais a contemplar o Salvador nos arrebatadores mistérios
da Encarnação, da Paixão e da Eucaristia, do que a pedir-lhe lições de virtudes.
Com isso ele não se sentirá menos obrigado a imitá-lo; mas não será tanto com
esforços calcados na imitação, mas como uma retribuição de amor (o grifo é do
texto). Ele quererá ser humilde, pobre, mortificado, amante sobretudo porque
contempla Cristo que se tornou tal por nosso amor. Acentuando mais o amor que
a imitação, ele por sua vez não se põe em contradição com Falcoia, o qual não
era intransigente sobre o método das doze virtudes; exigia somente que o princípio da imitação do Salvador fosse considerado um dos elementos essenciais da
vida regular do Instituto, e nisso Sto. Afonso e todos os confrades realizavam de
boa vontade os desejos do Pai. Basta folhear os escritos do Sto. para ver a que
ponto ele se sentia obrigado a imitar o Salvador contemplando-o amorosamente
no Presépio, na Cruz, no Tabernáculo".49
Quanto aos primeiros companheiros, basta um olhar a suas cartas, aos processos de canonização e às notícias biográficas transmitidas, para nos convencer
do quanto estavam preocupados com a imitação como expressão de amor a
Cristo. Tanto os padres como os irmãos. Os testemunhos que podem ser aduzidos
iriam alongar-nos muito. Bastam alguns referentes aos irmãos.
O Irmão Francisco Tartaglione, privado do hábito religioso por causa de um
gesto violento contra um confrade, assim comentava o castigo: "Mais vezes eu
disse: oh! feliz culpa. Em todas as minhas coisas encontrei em que imitar Jesus
Cristo. Ele foi humilhado e desprezado: foi despojado e foi vestido como louco.
Que grande coisa eu me ver com uma veste de secular. A primeira vez que sai,
48
49
Ibid., pg. 12: Constituzioni e Regole, Parte Segunda, cap. II, §2.
DE MEULEMEESTER, Origines, I, 219-220, em vários lugares.
27
digo-o com sinceridade, estava tão entretido na consideração de Jesus Cristo vestido como louco, que nem dei conta que estava vestido com este hábito secular.50
Os fatos anedóticos sobre o Irmão Joaquim Gaudiello são abundantes. Ao
entrar para a Congregação ele dizia: "Quero tornar-me santo e, a despeito do
mundo, quero seguir Cristo vilipendiado e desprezado.51 Perguntado como passava o dia, sozinho sobre o leito de sofrimento, apontando o Crucifixo, respondia:
"Contemplando-me no meu espelho".52 Ao Padre Villani dizia: "Meu Padre, esta é
uma vida que pode agradar a Deus? E poderia eu com tal moleza fazer-me semelhante a Jesus Cristo?"53
Na morte de Vito Curzio, o Padre Mazzini dirá no elogio fúnebre que ele foi o
tipo do perfeito irmão numa Congregação que tem por fim transformar seus membros em vivas imagens de Jesus Cristo.54
Estes poucos traços mostram suficientemente que a imitação de Cristo constituía a profunda espiritualidade primitiva do Instituto, na qual se via impressa a
marca do Fundador. Aqui se encontra, sem esforço, a maior parte das linhas mestras de sua doutrina ascética: o amor de Deus e o amor de Jesus Cristo, essência
da perfeição; desprendimento e mortificação; conformidade à vontade de Deus;
oração e súplicas.55
Conformidade com a vontade de Deus
50
TANNOIA, Vite cit. 109.
Ibid. 87.
52
Ibid. 95.
53
Ibid., 97; cfr. também p. 99: Sinto Jesus Cristo no coração"
54
Cfr. KUNTZ, Commentaria, II,434. a propósito do Capítulo Geral de 1749, no qual foram aceitas as regras
aprovadas por Bento XIV, o Pe. Landi (Istoria, cc. 8-10) escreve: "[...] que se elegessem superiores capazes
de manter a regra de Bento XIV, e também o espírito do primitivo Instituto, que era de se aperfeiçoar cada
um na santidade com o exercício das santas virtudes, para imitar Jesus Cristo Redentor, como também de
ajudar as almas mais abandonadas dispersas pela campanha, fins principais da Congregação do SS. Redentor", citado por DE MEULEMEESTER, Origines, II, 316-317. Finalidade do Noviciado: "para que se educassem
os noviços e se formassem conforme o espírito da regra e imitassem mais de perto as virtudes de Jesus Cristo
Redentor". Ibid., 2320. Sintomático o juízo do Pe. Mazzini sobre Vito Curzio. "Dá uma idéia do perfeito
Irmão duma Congregação que tem por fim tornar seus súbditos cópias vivas de Jesus Cristo [...]. Exímio
observante das regras, dadas por Deus para recopiar em nós a imagem de seu bendito Unigênito", anotado por
KUNTZ, Commmentaria, II, 434.
55
DE MEULEMEESTER, Origines, I, 223.
51
28
O tema é usual na espiritualidade pós-tridentina, jesuítica em particular (um
entre muitos: o Pe. Rodrigues), mas em Sto. Afonso e nos primeiros redentoristas
é um leitmotiv vivido intensamente, seja pessoalmente seja no campo da direção
espiritual. O próprio Diretor insistia nisso com ardor.
Vamos deixar de lado Sto. Afonso, de quem todos conhecem a familiaridade, ou melhor, a identificação com o tema, na prática e nos escritos, para colher
alguns testemunhos de seus companheiros. Sportelli volta sempre ao tema, insistindo talvez mais do que Sto. Afonso e forjando novos vocábulos: "Todo o nosso
bem consiste em nos conformar, uniformizar, deiformar com a vontade divina".56
"Assim quer Deus, assim quero eu" (era como um refrão).57
Ao Padre Mazzini que lhe perguntava quando gostaria de ir-se para o Paraíso, Irmão Gaudiello respondeu todo alegre: "Quero quando quiser meu Jesus
Cristo".58 O tema é constante nas cartas de direção de Sarnelli. Como recorda Sto.
Afonso no prefácio de sua vida, seu lema era: "Glória de Deus e Vontade de
Deus". Na hora da morte rezava assim: "Senhor, se for de vosso agrado, desejo ir
ver-vos face à face. Mas não quero nem morrer, nem viver; quero o que vós quereis. Vós sabeis que tudo quanto fiz, tudo quanto pensei, tudo foi para vossa Glória".59
Sobre o Padre Cáfaro, Sto. Afonso escreve: "Estava sempre com o rosto sereno em qualquer situação favorável ou adversa que lhe acontecesse, pois que
seu amor era a vontade de Deus: palavra que continuamente tinha na boca e também escrita num cartão, sempre diante dos olhos sobre sua mesa: Vontade de
Deus. A sua pregação preferida, que costumava fazer, e que afervorava todos
quantos o ouviam, era a pregação sobre a vontade de Deus.60 Costumava repetir:
"É preciso morrer para agradar a Deus". Por ocasião de sua morte, Sto. Afonso
compôs o famoso cântico "Il tuo gusto e non il mio". Ao ouvir um cego tocar e
cantar esse cântico, São Geraldo, o grande apaixonado pela vontade de Deus,
caiu em êxtase.
O tema percorrer verticalmente a espiritualidade de todos os primeiros redentoristas. Supérfluo seria multiplicar as referências.61 De qualquer maneira sejanos permitido não esquecer o testemunho que o Padre Cáfaro tece a propósito
56
Epistolae cit., 82.
Ibid., 58. Ver "Index alphabeticus": Voluntas Dei.
58
TANNOIA, Vite, cit. 95.
59
Compêndio cit., 350.
60
STO. AFONSO: Brevi notizie della vita del Rev. Padre Don Paulo Cafaro, sacerdote della Congregazione
del S. Redentore, in Miscellanea o Raccolta d'operette del Beato Alfonso Maria de Liguori, vol. II, Monza
1832, 458.
61
Cfr. DE MEULEMEESTER, Origines, 226-227. O motivo retorna nas cartas de direção espirituais, por exemplo do Pe. Fiocchi a soror Maria de Jesus de Ripacandida: "A vontade de Deus é o remédio universal, é o
alimento também dos bem-aventurados; se não vos podeis saciar com Jesus, saciai-vos com a divina vontade,
onde repousais e viveis alegre". SHCSR (1981) 275.
57
29
falando do clérigo Blasucci, e que mostra a centralidde do tema na estruturação da
santidade das origens.
De onde estava pregando missão, respondendo a Sto. Afonso que pedia seu
parecer sobre o jovem pouco antes desaparecido, assim escrevia entre outras coisas: "De nosso Frater Blasucci, de feliz memória, digo em geral que era um santo,
que poderia ser canonizado vivo [...]. Mas tudo provinha da heróica conformidade
com a vontade de Deus, a qual operava nele aquela indiferença em todas as coisas, no sofrer e no gozar, no morrer ou no viver [...]. As suas virtudes todos conhecem, especialmente aqueles que puderam apreciá-las; mas eu disse e digo
que a uniformidade com a vontade de Deus foi superlativamente heróica em Frater
Blasucci. E essa é a característica dele, isto é, a uniformidade à vontade de Deus,
e o ajustamento total de todos os seus movimentos internos e externos [...]. Eu,
que sou tido por crítico, tenho-o por santo e peguei uns pedacinhos de suas vestes como relíquia, e isto já basta para canonizar Blasucci. 62
Abnegação de si mesmo e amor da cruz
O código legislativo diz:
Os membros deste Instituto procurarão principalmente mortificar o seu
interior, vencer as suas paixões, renunciando em tudo sua vontade própria,
procurando à semelhança do Apóstolo de se comprazer nas dores, nos desprezos e nas humilhações de Jesus Cristo.63
E é preciso recordar que a temática é freqüente nas cartas circulares do
Fundador, além de estar presente na sua vasta produção espiritual. A mesma
mensagem pode-se colher nas cartas de Sportelli, de Cáfaro, de Fiocchi, e também na correspondência de Falcoia; e com acentuação particular, nos escritos de
São Geraldo. Trata-se de uma atitude irrenunciável para o operário apostólico.
Limitamo-nos a transcrever alguns trechos que o Pe. Cáfaro dirigia ao Pe. de
Robertis: "As cruzes são boas, tendo-as Jesus Cristo santificado ao morrer crucifi-
62
Epistolae cit., 62-63.
Codex Regularum, pg. 14: Constituzioni e Regole, Parte II, cap. III, § II, n. 1.
6363
30
cado, e devem mesmo desejar-se sempre mais dolorosas, até que também nós
cheguemos a morrer pregados em companhia de nosso Redentor.64
Sempre ao mesmo: "V. R. acostumou-se a estar no paraíso; por isso não me
maravilho se agora se lhe tornaram sensíveis os espinhos e as picadas do baixo
mundo. Gostaria até de lhe fazer uma carrada de reprimendas, sempre lhe dizendo: "Dom Celestino Meloso, Dom Celestino Meloso, Dom Celestino que procura o
Mel" [...] Cruzes, cruzes (grifos no texto) se quisermos seguir atrás de Jesus Cristo. É preciso arrebentar-se para dar gosto a Deus [...] Vamos, levante-se, tome e
abrace as cruzes que Jesus Cristo carregou sobre os ombros [...] Tenhamos um
espírito forte, forte, e não um espírito fraco. Fortaleza e não moleza Jesus Cristo
quer de nós.65
Leia-se também a carta enviada ao estudante Pascoal Amendolara.66 Em Pe.
Cáfaro aparece muitas vezes a frase: "a via régia da santa cruz".
Ao mesmo tema pode-se juntar as "privações" e as "mortificações", muitas
das quais impostas ou sugeridas pela Regra, outras voluntárias ou procuradas.
Parece quase incrível este desejo de se macerar. Seríamos quase tentados a vislumbrar algo de patológico, se não soubéssemos que manifestações desse gênero
estavam de acordo com a espiritualidade do tempo e tinham por escopo antes de
tudo o assemelhar-se a Cristo Crucificado.67
A humildade
À abnegação de si mesmo está unido o tema da humildade. Aqui também a
casuística é abundante, sendo tal virtude considerada, nas regras primitivas, o
"segundo fundamento do Instituto".68 Para uma quantidade de frases e fatos indi-
64
Epistolae cit., 48.
Ibid., 35-36; a brincadeira soa no original: “D. Celestino Zuccarone, D. Celestino di Zuccaro, D. Celestino
che va appresso al Zuccaro”.
66
Ibid., 38. Na pg. 71 escreve ao mesmo: "Especulativamente agradam-nos as cruzes, mas depois quando elas
chegam então as sentimos, e quereríamos outras cruzes e não aquelas que Deus nos manda".
67
Neste contexto parece-nos oportuno trazer o que se dizia sobre os "espíritos críticos” nas comunidades. Ao
Pe. Cajone, que se lamentava disso, o Fundador escreve: "No mais, (falando em geral) esses espíritos críticos,
sempre que não passem dos limitem nem assumam uma autoridade que não têm, são muitos úteis às comunidades, porque servem para que cada um aja como deve; como é o caso do Pe. Ferrara, o qual, sempre censurarando, pouco se faz amar pelos outros mas, para dizer a verdade, a mim muito me ajuda a manter a observância, Que fazer? Na comunidade temos de tolerar esses bocados amargos [...]. No mais, meu Padre Gaspar,
estas contradições nas comunidades cada um tem de as ter, mesmo que fosse um São Francisco. Quantas
tenho eu! Quantas cartas sem visão, com censuras e injúrias". LETTERE, I, 407-408 (22 de novembro 1758).
68
GREGORIO - SAMPERS, 338.
65
31
camos Meulemeester.69 Realmente, o ensinamento constante do Fundador e de
todos os diretores espirituais das origens era o de preferir, às mortificações externas e às vezes inoportunas, as mortificações internas, sendo a primeira de todas a
humildade e o amor dos desprezos. Nas suas circulares o Fundador reprova "a
vaidade de querer aparecer": a soberba impede o fruto das fadigas apostólicas e
expulsa da Congregação.70
Aduzimos a propósito uma sentença do Pe. Cáfaro, diretor espiritual do estudante Amendolara: "Quisera, porém, que todo desejo de mortificações externas
viesse a terminar nas mortificações internas, as quais verdadeiramente tornam a
pessoa santa".71
Obediência e pobreza
69
DE MEULEMEESTER, Origines, I, 232-234.
Como se sabe, Sto. Afonso inculcava sempre o desprendimento da própria estima. É bom reler a circular de
27 de julho de 1752 , escrita depois da saída do Pe. Bernardo Tortora (depois de ter recebido uma correção
feita pelo superior da casa): LETTERE, I, 202-203. Ver também a circular de 8 de agosto de 1754, Ibid., 255256, sobretudo pg. 263 (estima própria). Interessante, pelo tom amargurado e corajoso, uma conferência do
Santo sobre a estima própria, feita no dia 22 de setembro de 1753 (quase com certeza no clima que tinha
provocado a circular de 27 de julho de 1752): a conferência, encontrada entre os papeis de Tannoia, é inédita.
O texto é uma cópia apógrafa, que nos foi indicada pelo Pe. Arboleda, arquivista geral da CSSR., tendo a
sigla: SAA/ 02, 00263. Aqui vai o texto quase inteiro: "Estima própria: a perfeição consiste na união com
Jesus Cristo, e tanto alguém esta unido com J. Cristo quanto estiver mais desprendido de si mesmo. Ora,
quem estiver apegado a alguma coisa, certamente que não chegará jamais à perfeição. Os defeitos não impedem a perfeição, mas os apegos sim: quando alguém está apegado a qualquer coisa, e sobretudo à estima
própria, será que se fará santo? chegará à perfeição? Não se fará santo, nem chegará à perfeição. O fim de
nossa Congregação é de nos tornarmos semelhantes a Jesus Cristo humilhado, pobre e desprezado; a isto
levam-nos todas as regras; e este é o fim principal de nossa Congregação. Quem não se sujeita a ser humilhado e desprezado, não somente não progredirá, mas andará sempre para trás, nem poderá perseverar na Congregação. Estima própria! Essa maldita palavra "Estima Própria" arruina tantos seculares, tantos padres, tantas casas religiosas, e manda tantos para o Purgatório e também para o Inferno. Estima própria! A nossa estima consiste em ser humilhados e desprezados. Esta é a glória do cristão, e mais ainda, de nós que somos
missionários, seguidores de J. Cristo. Estima própria! Ó palavra maldita, ó linguagem infernal: assim fala
Lúcifer! Estima própria [...]. Deus queira que não se introduzisse na Congregação esse espírito da própria
estima; melhor seria que fosse destruída; e eu todos os dias peço a Deus que a destrua antes que se instalem
esses sentimentos do inferno. A nossa estima consiste em nos tornarmos pó, sermos postos sob os pés de
todos, sermos envergonhados por Jesus Cristo. Este é o exemplo que ele nos deixou: maledictus non maledicebat [...] Torno a dizer: peço todos os dias que destrua a Congregação antes que se instalem tais sentimentos.
É preciso que eu peça e me recomende a Deus, que não me faça fazer atos de ódio contra um desses (súbditos). Por mim não sei como estes tais possam rezar e como possam encontrar paz nas orações. Vão à oração, e
Deus os rejeita; vão à comunhão, e Deus os expulsa. A nossa glória é ser desprezados e humilhados por Jesus
Cristo.”
71
Epistolae cit., 39. O processo canônico consagra oito páginas in folio à heroicidade da humildade do Sportelli: Positio super introductione causae, Summarium super dubio, 210-218. Logo após sua morte, em 1750,
foi solicitado junto ao Card. Orsini o início do processo de canonização. Cfr. DE MEULEMEESTER, Origines, I,
248.n
70
32
Trata-se de um binômio quase inseparável para caracterizar a espiritualidade
missionária das origens. Em torno dele se exercita sobretudo o desapego ("distacco") afonsiano e o espírito do genuíno redentorista.
Vida comum e pobreza. A vida comum e a pobreza constam constantemente
nas circulares, como uma questão de vida ou de morte para o incipiente Instituto.
Trata-se de uma característica original recomendada e defendida por Sto. Afonso,
como uma condição para o êxodo em direção aos pobres e aos mais abandonados. Neste espírito eram afrontadas todas as situações de extrema pobreza e as
dificuldades de todo o gênero que acompanhavam as primeiras fundações (fome,
frio, umidade, doenças, mortes precoces). As fontes antigas, impressas ou inéditas (entre estas últimas pode-se pensar na História da Congregação do Pe. Landi),
estão de acordo em acentuar as asperezas da vida no tempo das origens. Muitos
deixavam a Congregação como que apavorados diante de tanto rigor; mas aqueles que ficavam eram como o grão de trigo que, caído na terra, dá muitos frutos.72
A obediência. A obediência é irmã gêmea da pobreza. Nas grandes Regras
e no Compêndio ela é chamada "virtude radical" . O Fundador nas circulares coloca-a em primeiro plano nas missões e em casa. A obediência conserva a Congregação. Trata-se de uma obediência incondicional, sem interpretações acomodatícias ou de subterfúgios. Uma obediência de execução, fundamentalmente passiva.
A Regra fala de obedecer ao superior "mesmo que fosse um poste". Mesmo que a
experiência vivida e o relacionamento fraterno mitigassem o rigor da formulação,
não se deve todavia negar que esse tipo de obediência estava muito distante daquele que virá a ser proposto pelo Vaticano II.
Sto. Afonso gosta de se referir ao Pe. Cáfaro como a um modelo: "Assim
também era o Pe. Paulo (Cáfaro) pronto em obedecer a qualquer sinal do superior
[...] Era tanto o respeito e o amor que ele tinha pela obediência que, recebendo
cartas do Reitor mor, lia-as de joelhos e assim também permanecia enquanto as
respondia. Levava consigo as cartas circulares que o Reitor mor costuma todo ano
mandar os conventos [...] e relia essas cartas, afim de observar pontualmente o
que ali se ordenava73. E ainda, citando o testemunho do Pe. Sportelli: "O nosso
padre César Sportelli, atualmente já tendo passado para outra vida, que foi igualmente muito exato na observância das regras, falando um dia do Pe. Paulo (Cáfaro), disse: "Eu cria que o Pe. Paulo era um grande praticante de penitências,
72
Sobre a pobreza das origens, cfr. Ibid., I, 230-232. As misérias assolavam todas as casas, especialmente a
de Deliceto. Cfr. TANNOIA, I, 161-162; II, 250, 340-346. LANDI, Istoria della Congregazione, I, 223. REYMERMET, Afonso, 426-427, 430-431. O Fundador volta muitas vezes ao assunto nas suas cartas: poder-se-ia
fazer um florilégio de tons coloridos e ao mesmo tempo dramáticos. Ele tinha, porém, a lealdade de advertir
os jovens que pediam para entrar, sobre as reais angústias que iriam encontrar, sobretudo nos primeiros tempos. Cfr. A vocação religiosa, Porto 1958, 40-41; ver também pg. 145. Sobre a "vida comum", como caráter
peculiar do grupo missionário redentorista, cfr. Storia CSSR, 504-505 (FERRERO).
73
Brevi notizie cit., 438-439.
33
mas agora me dou conta que é também um grande observante das Regras". E
como ele amava tanto as Regras, assim queria as amassem todos os nossos [...]
e por isso na casa onde estivesse como superior florescia sempre mais a observância das Regras".74
Oração e recolhimento
Texto da Regra:
A vida dos congregados deverá ser um contínuo recolhimento: para se
conseguir isto terão a peito primeiramente o exercício da presença de Deus,
exercitando-nos muitas vezes a breves mas fervorosas jaculatórias.75
A presença de Deus: um traço continuamente importante na vida dos congregados mais observantes e em suas cartas de direção espiritual.
Nas Regras primitivas a oração é chamada de "a regra substancial do Instituto".76 Orações e súplicas são os dois momentos que marcam o ensinamento do
Fundador. Atrás dele alinha-se um exército de rezadores, sinal de intensa vida
interior. Faltando a oração, falta tudo.
A ordem do dia é cheia de atos prescritos: três meditações, dois exames de
consciência, além das obrigações inerentes à vida sacerdotal (missa, com preparação e ação de graças, e breviário). A oração haure da fonte da leitura espiritual
diária obrigatória e das conferências semanais sobre a virtude do mês ou sobre
assuntos da vida do Senhor. Nas missões não podem faltar jamais a pregação
sobre a oração; se não houver tempo, sejam deixados outros assuntos, mas não
este.77 Escrevia o Fundador: "Recomendo, pois, que a pregação sobre a oração
74
Ibid., 438. A propósito da observância, no dia 25 de setembro, provavelmente de 1745, Sto. Afonso escreve
ao Pe. Mazzini, novo reitor de Pagani: "Peço a V. R., agora que toma posse do governo dessa casa, a pôr em
pé a observância [...] Agora precisa pôr alguma ordem, do contrário se fará uso das inobservâncias a tal ponto
que, para os súbditos, será difícil depois voltar à perfeita observância das Regras". LETTERE, I, 107-108.
Muitos anos depois, no dia 18 de dezembro de 1779, adverte o Pe. Criscuoli, reitor de Ciorani: "Quisera que
cada um tivesse fixa a mente sobre a estrela [ a obediência]; porque afastando os olhos da obediência, acabou-se a Congregação, e resta apenas um mundo de desencontros". LETTERE II, 518. Cfr. também a carta ao
Padre Pedro Paulo Blasucci, no dia 4 de novembro de 1776, Ibid., 397.
75
Codex regularum, pg. 13; Constituzioni e Regole, Texto, Parte II, cap. III, § 1.
76
Cfr. Ristretto, in GREGORIO - SAMPERS, 398: Cossali, Ibid., 408.
77
Codex regularum, pg. 56, n. 67.
34
nas missões não se deixe; e quando não se puder fazer, pelo menos se fale bastante dela na última pregação da Bênção".78
Também aqui as referências aos primeiros congregados não acabariam
mais. Do mesmo modo que muitos pedem para fazer mais penitências, assim
também muitos pedem permissão para alongar as horas de oração.
Entre os grande "rezadores", está o Pe. Cáfaro. Sobre ele, escreve Sto.
Afonso: "A oração, pode-se dizer, foi a mais forte paixão ou a delícia do Pe. Paulo
Cáfaro [...]. Quando, pois, estava em nossa Congregação, além da oração de uma
hora e meia como prescreve a Regra, fazia outras duas horas na igreja, na presença do Santíssimo, e outra meia hora no seu quarto antes de ir dormir; queria
prolongar essa oração da noite, mas não lhe foi permitido pelos superiores. No
mais, de dia muitas vezes era encontrado pelos nossos no seu quarto em atitude
de oração, ajoelhado no meio da cela. Saindo às vezes a passear no bosque,
como foi observado, escondia-se sob uma árvore, e ali ajoelhado punha-se em
oração.79
Mas ouçamos o próprio Pe. Cáfaro. Damos a ele certa preferência, porque
suas cartas são dirigidas quase todas a congregados, enquanto que as de Sarnelli, Sportelli, Fiocchi e outros são geralmente dirigidas a almas consagradas ou a
seculares. Escrevendo ao Pe. Ápice, da missão de Sarno, insiste sobre o binômio:
humildade e oração: "peço sempre a Deus que o confirme na boa resolução. Mas
sua oração dar-lhe-à força. Sem oração e sem humildade o homem não pode
manter-se em pé no estado de graça e de fervor. Humildade, humildade: Oração,
oração incessante (grifo no texto). Quem pede, obtém. É preciso pedir sempre.
Peço a V. R. que reze, e faça sempre o papel de mendigo à porta da divina misericórdia. Isto somente exijo de V. R., uma vez que sou seu diretor espiritual; e lhe
78
Circular de 30 de novembro de 1758, in LETTERE, I, 405. Das próprias circulares cremos ser oportuno apresentar alguns trechos sobre a oração (ou meditação), a leitura espiritual e o silêncio (estreitamente ligado ao
recolhimento): "recomendo os exercícios diários e as três orações mentais. Quem pouco ama a oração, pouco
ama a Deus: quando falta a oração, falta o espírito, faltam os bons desejos e falta a força para caminhar
avante". Circular de 29 de julho de 1774 , in LETTERE, II, 228. "Recomendo a leitura espiritual, que é a companheira inseparável da oração". Ibid., "Recomendo o silêncio; onde não há silêncio, aí não há recolhimento:
e onde não há recolhimento, não há senão distúrbios e pecados. Um dos maiores bens que temos na Congregação é o benefício do silêncio; e quem quebra o silêncio causa dano a si mesmo e aos outros". Ibid., 289.
"Os superiores não dispensem jamais (na missão) a meia hora de oração mental, pois que o operário evangélico para iluminar precisa ser iluminado, e para acender no coração dos outros o fogo do amor de Deus, antes
deve estar por ele inflamado. Tudo isso se consegue na meditação. Circular de 10 de julho de 1779, Ibid.,
499. Que a oração do redentorista deva estar sempre ancorada na dimensão missionária pode-se deduzir das
indicações relativas à recitação coral do Ofício divino. O texto que apresentamos está no Ristretto e no Cossali (que apresentam uma redação praticamente idêntica): "O ofício se dirá em comunidade, com espirito
interior, e por isso se fará pausa no asterisco, mas em reto tono, para que não se gaste muito tempo e se dê
lugar a outros trabalhos em favor das almas". GREGORIO - SAMPERS 398.
79
Brevi notizie cit. , 428-429.
35
imponho que empregue ao menos uma hora durante o dia em oração de petição.
No mais impo-lhe também a humildade".80
Sempre ao mesmo: " É preciso oração (grifo no texto). Sem oração nada
conseguiremos; chegaremos certamente à meta com a oração. Peço que não
cesse de rezar. Este é o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o centésimo, e o
último meio para vencer".81
Ao Pe. Amendolara: "Portanto, Humildade e Oração são os meios mais eficazes para sair da tibieza".82 "A oração duma alma desolada deve ser Paciência,
Conformidade e Oração.83
Dedicação ao estudo
Parece necessário acenar, também aqui, ao empenho no estudo que caracterizava a vida de nossos missionários, como elemento essencial para se tornarem idôneos para o ministério84. Nós o recordamos aqui para acentuar o aspecto
"ascético" de um estudo intenso e contínuo. Nos textos fala-se de missionários
"doutos e santos", "doutos e sábios”, para reforçar a unidade entre compromisso
espiritual e compromisso cultural como centrais para a missão: "doutos e santos
para o ministério apostólico ".85
Simplicidade na palavra e no trato
80
Epistolae cit., 33.
Ibid., 35.
82
Ibid. , 41.
83
Ibid., 55. Sobre a vida de oração e sobre a prece de petição na Congregação das origens, cfr. DE
MEULEMEESTER, Origines, I, 237-244. A oração vocal era praticada mais pelos Irmãos leigos. Pode-se ter
uma idéia vendo o elenco de devoções do Irmão Curzio, que ele fazia questão de rezar todo dia (de manhã,
depois do meio dia e à tarde) depois de ter tido a permissão de Falcoia. Trata-se de uma quantidade impressionante, a ser acrescentada às muitas outras orações previstas no Diretório. A lista é apresentada Ibid., Appendice, 310-311.
84
Para o assunto a Storia CSSR reserva um longo espaço, da página 563-592 (estudantado), de 592-598 (formação permanente).
85
Reenviamos aos textos normativos apresentados na Storia CSSR, 591-595.
81
36
Pelas circulares do Fundador, e não só pela Regra, conhecemos o rigor com
o qual os congregados estavam obrigados ao estilo familiar e apostólico na pregação. Enviados aos abandonados das campanhas, deviam pôr-se à disposição
também dos analfabetos. Sobre este aspecto não é necessário insistir. Mais importante é acentuar o modo de se comportar sobretudo nas missões. Missionário
do povo, o redentorista aproxima-se da gente humilde, coloca-se à sua disposição,
mas não desce a seu nível. Também sob as vestes remendadas, o redentorista
das origens (proveniente em geral da classe média remediada) conserva uma sua
nobreza e distinção, a começar pelo Fundador. Garbo e cortesia com todos, mas
nenhuma vulgaridade nas palavras ou no comportamento.
Escreve a esse respeito o Pe. Tannoia: "Não queria entre os seus grosseria
e rusticidade no trato. Jesus Cristo, dizia Afonso, foi agradável e afável; tratava
afavelmente a todos, não se vê em sua vida trato rude e desagradável".86
De maneira mais ampla Sto. Afonso escreve: "Recomendo também que, nas
missões, não tenham familiaridades com os habitantes dos povoados. Toda a
cortesia, mas também toda a gravidade é preciso usar com eles, para que aprendam e conservem a veneração para conosco, como homens santos sem defeitos,
o que é necessário para seu proveito. Do contrário, tendo familiaridades com eles
e tratando com eles de coisas não importantes para a alma, descobrirão mil defeitos em nós e não terão proveito. Isso já aconteceu mais vezes; mas desagradame que sempre se falte nisso. Se um ou outro não se emendar a esse respeito,
obrigar-me-á a não mais o mandar às missões. E peço que ninguém na missão se
envolva com coisas que não pertencem à consciência das pessoas; e certas coisas que possam trazer algum distúrbio ou inconveniência, não sejam feitas sem
conselho e obediência. Non omnia expediunt".87
86
TANNOIA, I, 321. Interessante quanto Mons. Lucchesi, bispo de Girgenti, escrevia, no dia 16 de dezembro
de 1761, a Sto. Afonso sobre os missionários redentoristas havia pouco chegados a sua cidade: caracteriza-os
como "homens de compostura e de prudência", isto é, de nobreza e fino trato; cfr. S. GIAMMUSSO, Il " Libro
di Famiglia" del Seminario di Agrigento, fonte per la storia dei Redentoristi, in SHCSR 43 (1995) 487.
87
Circular de 30 de setembro de 1758, LETTERE, I, 404-405. Confira carta ao Pe. Caione, de 6 de julho de
1767, Ibid., II, 24. Sobre os deveres dos missionários e sobre as virtudes neles requeridas por Sto. Afonso,
cfr. TANNOIA, I, 317-339. O próprio Sto. Afonso, no seu livro "Selva", dedica um breve capítulo às Virtudes
particulares que devem observar os missionários no tempo da missão (Selva di materie predicabili, Opere
Ascetiche, III, Turim 1847, 286-288). Notemos quanto ele escreve a propósito da mortificação, da modéstia e
da cortesia com todos. São anotações divertidas, colhidas da vida real, com tons de fino humorismo. Um traço
característico da simplicidade é saber contentar-se. Interessante a carta de Sparano al beato Antônio Lucci,
bispo de bovino, na qual aconselha que acolha os redentoristas porque “estão contentes com qualquer coisa”.
Quanto a isso lembramos também a carta de Sto. Afonso, quando bispo, ao arcipreste di Frasso. LETTERE, II,
97-98 (27 de novembro de 1768).
37
Austeridade e equilíbrio
A austeridade é característica da espiritualidade redentorista: é como que o
resultante de tudo quanto dissemos até aqui, em particular da observância regular,
que no código legislativo tinha indicações precisas, detalhadas, minuciosas. A observância é vista como a salvaguarda da Congregação; sobre ela devem vigiar
sobretudo os superiores, nos diversos níveis. O redentorista está enquadrado,
numa palavra, na organização do dia, da semana, do mês, que parece deixar pouco espaço para as iniciativas pessoais e à criatividade, para habituá-lo a um rigoroso controle de si mesmo.88
A prudência inata de Sto. Afonso, fino psicólogo que não esquece a benignidade pastoral dentro da própria Congregação, apresenta uma nota de humanidade e de flexibilidade neste quadro muito severo. De fato, recomenda aos superiores não somente firmeza mas, também e sobretudo, doçura; apresenta-se freqüentemente como árbitro de certas situações nas quais os súbditos se sentem
vítimas da lei e os superiores aparecem como controladores da mesma. Isso verifica-se especialmente no tempo de seu episcopado e no vicariato do Pe. Villani,
que a muitos parecia super intransigente. Escreve, pois, ao Pe. Villani: "Precisa
ser zeloso em manter a observância das constituições, mas não a ponto de cair no
extremo oposto. As constituições não são mais importantes que os preceitos do
Decálogo. Podem dar-se casos nos quais será necessário dispensar-nos; nestes
casos, se se fizer o contrário, se faz mal e não bem: entendo certos casos nos
quais a prudência exige outra coisa".89
Continua escrevendo ao Pe. Villani que, conforme a Regra, havia proibido ao
Pe. Criscuoli corresponder-se com sóror Maria Iluminata Garzillo: "É verdade que
aos nossos congregados e especialmente aos jovens não é permitido ter direção
de monjas; mas não é vedado dar-lhes algum conselho de quando em vez, especialmente quando se está longe. Sobretudo quando nosso ofício é ajudar as almas, e tanto mais de uma religiosa em dificuldade, e ainda mais estando longe. E
todas as regras em casos de necessidade têm suas exceções. Do contrário, todas
as leis se tornariam injustas.90 O Pe. Criscuoli, que já tinha obtido de Sto. Afonso a
permissão para a correspondência, mais tarde recebeu este bilhete do Fundador:
"Leia esta carta (de sóror Iluminata), não lhe resta outra coisa: é preciso ir aquietála [...] Peço-lhe que vá logo consolá-la, porque é um caso urgente".91
88
Sobre a vida regular primitiva, cfr. DE MEULEMEESTER, Origines, I, 193-215. Com os Apêndices, 304-308.
Ver também HOEGERL, Founding Texts, 61-105.
89
LETTERE, III, 692 (ano incerto).
90
Ibid., II, 11-12 (21 de abril de 1767). Nessa mesma data, Sto. Afonso tinha respondido em sentido positivo
a Soror Maria Iluminada (Ibid., II, 8-9), e enviado um primeiro bilhete de consentimento ao Pe. Criscuoli
(Ibid. II, 10-11).
91
Ibid., II, 75 (8 de junho 1678).
38
Ainda ao Pe. Villani, a propósito do Pe. Pedro Paulo Blasucci: "Blasucci pediu-me a dispensa para ir pregar a Quaresma em Girgenti, onde os cônegos fizeram o pedido, e eu julguei bem dar-lhe a licença na presente circunstância".92
A mesma flexibilidade percebe-se para com outros confrades que recorriam a
ele em busca de maior compreensão. Em tais casos o Fundador, que nas circulares usa um tom forte e que às vezes acusa seu vigário de ser muito fraco, mostra
um tato extremamente paterno; assume os problemas, encoraja, e se faz de mediador junto ao vigário ou a outros superiores, dizendo que ele "dará um jeito",
sem dar contudo a impressão de considerar o vigário um "boneco vestido". Esta
sensibilidade, que chega às vezes à ternura, é inata à sua índole. O rigor, que às
vezes ameaça nas circulares, encontra em sua inata doçura um seguro corretivo.
Um dos termos freqüentes nas suas cartas é "compadecer-se" . Quanto a isso é
significativo o que se poderia chamar de dossiê-Melchionna: cartas ao próprio Pe.
G. Melchionna, ao Pe. F. Cimino, reitor em Pagani, ao Pe. G. Ferrara, consultor
geral, e em parte ao Pe. Villani, vigário93.
Apesar de tudo, perfeita alegria
De tudo quanto dissemos nos parágrafos precedentes pode talvez surgir a
impressão que o clima das comunidades das origens fosse muito pesado. Pelo
contrário! Também as mais duras privações e mortificações eram vividas num ambiente de plenitude interior, de calorosa fraternidade, de sincera participação. A
própria morte estava envolta em alegria serena e luminosa. Mesmo em meio às
perseguições respiravam-se ares novos, e a partilha era animada pela lúcida certeza de fazer parte de um "mínimo mas santo Instituto", no qual não havia lugar
para as tristezas ou saudades. As provações, as tentações eram como que imersas na consciência do grupo, e por este assumidas para salvação recíproca. As
grandes figuras arrastavam e davam o tom, compondo uma sinfonia na qual as
eventuais dissonâncias eram como que anuladas. Entre tais figuras emerge a do
Fundador. Com um homem como ele, era quase impossível deixar-se prender
92
Ibid., II, 99 (8 de dezembro de 1768).
Ibid., 518-526; 528-529, 534, 553, 563 (escritas de Santa Ágata nos anos de 1764-1765. Cfr. REYMERMET, Afonso cit., 626-627. Lembre-se que Falcoia o prevenia contra a demasiada condescendência para
com os jovens confrades: "Proteja seu coração de certas condescendências, com ares de apego, embora espiritualíssimo". FALCOIA, 265 (18 de março de 1735. A grande riqueza afetiva do santo aflorava também nas
cartas de direções às monjas, que mereceriam um estudo especial. Desta flexibilidade condescendente de Sto.
Afonso poder-se-ia apresentar muitos outros exemplos. Acenamos ao seguinte: Pe. A. Di Meo, absorvido em
suas pesquisas históricas, esqueceu-se um dia de ir ao exame particular e ao refeitório ao meio dia; ao começar o segundo turno de refeição, Afonso foi avisado a respeito e, chamando um Irmão, disse- lhe: Por favor
leve uma xícara de chocolate ao Pe. Alexandre, que está na biblioteca com os mortos. Cfr. REY-MERMET,
Afonso cit., 599.
93
39
pelo desconforto e pela melancolia. Sobre ele como bispo, o Pe. Gregório escreveu um livro, Monsignore si diverte, no qual coleta anedotas, ditos, piadas que revelam o napolitano autêntico capaz de desdramatizar os casos mais complicados.
Um outro livro, igualmente rico, se poderia escrever sobre ele antes da eleição
para bispo. O Fundador, que também atravessava períodos de provações e de
trevas, sabia desatar os nós dos outros e infundir jovialidade contagiosa. O clavicêmbalo, é como um símbolo!94
Outro grande redentorista foi São Geraldo. Com sua inspiração arrastava e
mantinha alegre a turma, dissimulando assim os sofrimentos, muitas vezes indizíveis, que o pregavam "sobre esta amarga cruz".95
As cartas do próprio Pe. Cáfaro, que era tido como um homem austero e virga ferrea, exalam humanidade, compreensão, muitas vezes humorismo surpreendente. São citadas particularmente as dirigidas ao Pe. Margotta, espírito atormentado até ao paroxismo: O Pe. Cáfaro cura-lhe as feridas psíquicas infundindo-lhe
confiança sem limites.
Neste contexto de calorosa fraternidade e de serena alegria, ainda que sempre no quadro de forçosas privações e de pobreza às vezes extrema, merece particular relevo o cuidado pela saúde.
As cartas do Fundador, de Sportelli e de outros falam com muita freqüência
das curas pelas águas, da mudança de ares, das novas descobertas da medicina.
Nesta matéria Falcoia é provavelmente o mais rico em indicações: está sempre
aconselhando os meios mais eficazes para determinadas doenças, meios que,
nos limites do possível, procura para si próprio. O cuidado com a saúde tinha em
conta particularmente o mal-de-peito: os primeiros sinais de hemoptises punham
em movimento todo um dispositivo de consultas e de remédios, que hoje em dia
talvez nos maravilhem, habituados provavelmente a considerar esses personagens de todo dedicados ao mundo interior e quase desencarnados.96
94
A respeito do clavicêmbalo, que Sto. Afonso costumava tocar durante a recreação comum, conta-se que um
dia ele se pôs a tocar música clássica; mas vários de seus ouvintes começaram a cochilar. Em vista do que
estava acontecendo, Afonso mudou de registros para um "allegretto", dizendo: "Querem, por acaso, uma
tarantella?" Cfr. TELLERIA, I, 809.
95
Cfr., Le Lettere di S. Gerardo Maiella, cit., 298. A inspiração de São Geraldo unia-se muitas vezes ao canto, mas também sabia tocar: Cfr. A. DE SPIRITO, Gerardo Maiella e la religiosità popolare del suo tempo, em
San Gerardo trà spiritualità e storia, Materdomini, 1993, 81.
96
Entre os remédios empregados lembramos o famoso "bálsamo" de Mons. Falcoia: a unção com o nosso
bálsamo", "como age o nosso bálsamo". LETTTERE cit., 441. Sto. Afonso nas Cose di conscienza pg. 14, dá
também a fórmula da composição: "Receita do Bálsamo simpático (que conservamos no texto italiano):
“Mummia, oncie 2 e mezza; Litergiglio d’oro, oncie 2 e mezza; Boria Orientale, oncie 2 e mezza; Vitriolo
Romano robificato, oncie 2 e mezza; Sema-Bitromo di Levante seu Radica di S. Appiretro. Si mettono dentro
30 oncie di oglio vecchio e cotto nell’aqua, e ci si rivoltano per 2 giorni. Poi si fa bollire il tutto a fuoco lento
40
A Congregação como mãe providenciava tudo, até ao impossível, disposta a
vender cálices e livros preciosos. Para os rigores invernais procurava-se acumular
lenha para a "sala da lareira"97. Não havia, portanto, a procura do sofrimento por si
mesmo, numa atitude quase masoquista, mas eram usados todos os cuidados
para uma boa saúde, capaz de afrontar a árdua tarefa dos estudos e dos trabalhos
apostólicos. Não era permitido ir tratar-se na família; como se disse, a Congregação devia prover tudo, em primeiro lugar a salvaguarda da vocação que, com a ida
à família, corria perigo.
Alguns trechos das cartas do Fundador.
Ao Padre Tannoia (reitor da casa de Iliceto): "Fique atento com o Frater N.
por causa do catarro; não o deixe apanhar frio. Mando-lhe mais duas libras de
chocolate, para aqueles que têm tosse ou catarro. Mando dez ducados para um
pouco de alívio às suas tantas misérias. Abençôo a todos e especialmente os noviços.98
di carbonella, voltandosi com cocchiara per 24 ore continue. Si applica attorno in giro ungendo alla parte
offesa, e serve per ferite, fistole, ecc.”
97
Cfr. Acta integra, 16, n. 41. Que a Congregação fosse uma mãe é sentimento comum. Limitamo-nos aqui às
cartas enviadas pelo Pe. Villani de Roma: tudo aquilo que se está fazendo "é pouco para esta mãe à qual tanto
devo". DE MEULEMEESTER, Origines, II, 300): "a qual amo quanto à própria vida". Ibid. 302.
98
LETTERE, I, 330 (fevereiro 1756) Sempre a Tannoia: "Sinto-me morrer de compaixão por esses pobres jovens". Ibid. 347. Lê-se também numa carta ao mestre de Noviços de (1753): Ibid. 222. Merece ser recordado
o que Pe. Villani recomenda de Roma ao Fundador: "Peço-lhe que alivie os jovens e os faça sair, senão vamos ter é um hospital [...] Diga ao Pe. Margotta que não abra muito a mão ao conceder aos jovens mortificações externas". DE MEULEMEESTER, Origines, II, 288. "Meu Padre, de novo recomendo os jovens, faça-os
aliviar-se no Senhor, afim de que não percam a saúde, mande-os passear, e peço-lhe que dêem mais vezes o
catecismo, o que lhe asseguro ajuda muito a alma e o corpo". Ibid. 292-293. Quanto à preocupação pela saúde
dos estudantes, cfr. Storia CSSR, 590-592 (FERRERO). A um superior, preocupado mais com construir do que
com tratar bem a comunidade, escreve: "E isto lhe recomendo, por caridade, não faça sofrer os padres e irmãos com aquele pouco que a comunidade lhes dá. De que serve edificar fora e destruir dentro?": cfr. Analecta 19 (1947) 263.
98
LETTERE, I, 330, (fevereiro 1756). Ainda a Tannoia: “Morro de compaixão por esses jovens”. Ibid., 347.
Leia-se também a carta ao mestre de noviços (de 1753): Ibid., 222. Merece ser lembrado o que Villani, de
Roma, recomenda aos Fundador: “Peço-vos que mandeis dar descanso aos jovens, fazendo-os sair a passeio,
pois do contrário teremos um hospital [...]. Dizei ao Pe. Margotta que não abra muito a mão ao permitir mortificações externas aos jovens”. DE MEULEMEESTER, Origines, II, 288. “Meu Padre, novamente vos recomendo
os jovens; fazei-os recrear-se no Senhor para que não percam a saúde, fazei que saiam, e peço que os mandeis
freqüentemente a fazer a catequese, garanto que isso é muito bom para eles, para a alma e para o corpo”.
Ibid., 292-293. Quanto à preocupação com a saúde dos estudantes, cfr. Storia CSSR, 590-592 (FERRERO). A
um superior, mais preocupado com construir do que com tratar bem a comunidade, escreve: “E é isso que vos
recomendo: por caridade não façais serem prejudicados os padres e os irmãos no pouco que lhes dá a comunidade. Que adianta construir fora e destruir dentro?” (cfr. Analecta 19 (1947) 253.
41
Ao Pe. Villani, vigário: "É bom advertir (os reitores) que não gastem muito na
compra de mais livros de valor alto; é melhor que cuidem mais da alimentação dos
súbditos, e assim não se queixem nem critiquem.99
Vimos a importância primordial que Sto. Afonso dava para as missões. Mas
elas não podiam pôr em risco, de modo temerário, a saúde dos congregados. Sobretudo nos primeiros tempos, quando os padres estavam com excesso de missões,100 assim escrevia a um superior: "Ó Deus! ontem, com aquele tempo, era dia
para viajar? [...] Se me dissesse que chovia, eu não os deixaria partir. Essas pressas desordenadas de missões não me agradam. Quando um congregado cai doente, isso é pior do que deixar dez missões[...]. Quero que nenhum corista parta
com chuva, mesmo que se tivesse de pregar a missão em Paris. Guarde bem isso
na memória"101. Dois anos depois escreve ao Pe. Margotta, reitor de Caposele:
"Oh! que trapalhada! [...] Nossa Senhora nos ajude! [...]. Os padres estão extenuados".102 Alguns dias mais tarde, ao mesmo Pe. Margotta: "Oh! Deus! Essa missão de Auletta, tanta despesa e tanto incômodo dos Padres, com esse tempo e
por tão belos caminhos! Por que? para uma missão"103.
Alguns anos mais tarde repreende o Pe. Caione, reitor de Caposele, por causa de seu zelo indiscreto: "Eu não sei fingir. Digo a verdade: isso que o senhor fez,
mandar o Pe. Apice (e Deus queira que não tenha mandado algum outro) a São
Gregório, feriu-me a alma.[...]. Meu Deus! mandar um congregado (e cada congregado nos custa sangue) morrer num lugar de maus ares na canícula, e no tempo que costumeiramente há epidemia! [...] É preciso obedecer ao arcebispo, mas
cum grano salis, naquelas coisas nas quais estamos obrigados obedecer. Hoje
parto para Nápoles, Deus sabe com que dor, por causa do que me escreveu. Que
Deus proteja a todos! [...]. Se por acaso algum padre estiver em São Gregório,
mande chamá-lo imediatamente".104
99
LETTERE, II, 18 (20 de junho 1767). A um padre enfermiço, que tinha pedido dispensa dos votos, escreve:
"Concordo com pena em lhe conceder a dispensa pedida dos votos; mas lhe devo dizer que na Congregação
há diversas casas, de modo que se para um súbdito os ares não são bons, ele é mandado para outra. Na Congregação, aliás, se tem grande caridade para com os enfermos, os quais não estão obrigados às observâncias
às quais estão obrigados os sãos. Finalmente, se com todos os cuidados, remédios e caridade Deus quisesse
chamar-nos para outra vida... para isso deixamos o mundo e viemos à Congregação, para morrer na casa de
Deus, e não já em meio ao mundo e entre s parentes". Ibid., 1889 (13 de outubro de 1771).
100
Ibid., I, 59 (26 de outubro de 1736).
101
Ibid., I, 159, (26 de dezembro de `748).
102
Ibid., I, 169 (fim de janeiro de 1750).
103
Ibid., I, 171 (23 de janeiro de 1750). Referindo-se provavelmente às missões, o Pe. Fiocchi escreve, em 24
de janeiro de 1760, a soror Maria Angela del Cielo: "Filha, é um milagre como Deus dá alento no fadiga.
Estamos estafados e sempre estamos ótimos": SHCSR 31 (1983) 14. "Estou bem, com todos os companheiros,
e os sofrimentos nos povoados onde pregamos a missão não foram tão duros quanto os daqui” (julho de
1764), Ibid., 26. "Os padres estão esgotados porque há mais de quatro meses estão trabalhando" (20 de fevereiro de 1767), Ibid., 51.
104
LETTERE, I, 348 (princípio de julho 1756?).
42
Muito tempo depois escrevia ao Pe. De Paola, reitor de Scifelli: "[...] Penso
que já se retiraram; porque agora já não é mais tempo de missão, por causa do
forte calor que já começou. Afadigar-se com o calor nas missões traz o perigo de
fazer perder a cabeça a mais de um congregado; e perdida a cabeça, não servirá
para mais nada. Por isso, para o futuro mando terminar as missões no mês de
junho, ou pouco depois dos princípios de junho105.
É interessante ver como, em algumas cartas, o trabalho missionário era considerado um tônico para a saúde física e psíquica daqueles confrades afetados
por atitudes esquizofrênicas ou fechados em si mesmos. Ao noviço Luís Capuano,
tentado de deixar a Congregação por causa da vida reclusa, assim escrevia:
"Quanto aos parentes, além de Jesus Cristo, Maria Santíssima e os santos, que
lhe são mais do que pai ou mãe e irmãos, nós não lhe somos irmãos? Aqueles (os
parentes) o amam, mas como inimigos, porque pretendem o mal da sua alma;
mas nós o amamos como verdadeiros amigos, que procuramos vê-lo feliz aqui e
lá. Digo: feliz ainda aqui neste lugar; enquanto que os divertimentos do mundo não
satisfazem a alma, mas a vida santa com os inocentes divertimentos que a Congregação concede, saciam o coração, porque aqui se encontra Deus [...]. Não é
verdade, pois, como já pode ver, que entre nós se esteja sempre fechado. Quando
for sacerdote, irá como missionário a maior parte do ano, passando pelos povoados com as santas missões, salvando almas. Morre-se logo: nem isso é verdade;
muitos dos nossos, na Congregação, estamos com melhor saúde agora, do que
quando estávamos no mundo. E além disso, que coisa mais bonita do que morrer
(se se tivesse de morrer) por amor de Jesus Cristo? Para que nos serve a vida,
senão para gastá-la por Deus?"106.
A propósito do Pe. Bartolomeu Corrado, que ia mal de saúde, escreve ao
reitor Pe. Caione: "Vai para aí o Pe. Corrado, que está mal com o estômago. Façao girar por todas as missões feitas por ai, pregando os fervorinhos, a doutrina etc.
As viagens e a movimentação podem fazer que recupere a saúde; do contrário é
caso perdido"107.
105
Ibid., II, 280 (22 de julho, 1774). Algumas semanas mais tarde insiste: "A saúde de nossos irmãos deve ser
preferida a todas as outras vantagens [...]. Enquanto isso agora estejam recolhidos em Jesus Cristo, porque na
campanha passada se afadigaram muito, e talvez até demais". Ibid., II, 282 (27 de junho de 1774). Voltando
ao cuidado com a saúde, lemos com gosto a receita (ordenada pelo médico) que o Pe. Blasucci mandava de
Girgenti, com carta de 17 de fevereiro de 1764, ao Pe. André Morza, residente em Licata. Cfr. S.
GIAMMUSSO, Lettere dalla Sicilia a Santo Alfonso, BH XIV, Roma 1991, 122. Ainda mais interessante, pela
novidade, é a permissão que o próprio Blasucci, em 8 de julho de 1767, concede aos confrades de Girgenti
para umas férias, conforme "o uso da Sicília", numa vila próxima ao mar, para se defender do calor e do cansaço. Ibid., 153-154.
106
Ibid., I, 305-306 (agosto de 1755).
107
Ibid., I, 443 (novembro de 1760).
43
A respeito da nomeação do Pe. Antônio Francisco de Paola como mestre dos
noviços, assim responde ao vigário Pe. Villani: "Sim senhor, o Pe. de Paola julgo-o
bom para mestre de noviços; mas encontro uma dificuldade: que como mestre não
poderá sair para as missões, e quando de Paola não sai, logo enfraquece, perde o
apetite e a cor. Resumindo: quando V. R. vir que começa a enfraquecer, coloque
um outro"108. Ao mesmo Pe. Villani aconselha levar consigo para a missão o jovem
padre Giovanni Laura, para fazer com que esqueça seus parentes.109 Enfim ao Pe.
Caione, reitor de Benevento, recomenda: "V. R. procure fazer que saiam para as
missões esses padres ou parte deles, revesadamente; porque não é bom que esses jovens estejam aí parados mofando em Benevento, não se exercitando nas
missões".110
O zelo apostólico
Reservar um parágrafo a esse item não seria necessário depois de tudo
quanto dissemos anteriormente sobre a dimensão missionária, particularmente
sobre a importância fundamental da Constituição sobre as missões e sobre a
“Consideração XIII” do opúsculo A Vocação Religiosa, dedicada justamente ao
"zelo". Vamos tratar rapidamente do tema porque aqui, ao término da síntese sobre as características da espiritualidade, serve como coroa e ápice da vida redentorista.
Vimos como no Compêndio da vida do Pe. Sarnelli, nas Breves notícias relativas ao Pe. Cáfaro e ao próprio Irmão Vito Curzio, para nos limitar a estes opúsculos, Sto. Afonso exalta o zelo missionário desses apóstolos, vendo nele o centro
de irradiação de todo o dinamismo espiritual.
Nas mais antigas origens, o ardor apostólico mostrou-se até excessivo,
quando a procura por missões punha em perigo a vida comunitária com suas exi108
Ibid., I, 569 (26 de julho de 1765). Para se perceber bem a sensibilidade humana de Sto. Afonso deve-se
ler a carta por ele escrita ao Pe. Maione em Nápoles (22 de agosto de 1771), na qual dá precisos conselhos
práticos ao Irmão Tartaglione sobre como remediar os distúrbios provenientes da "ruptura" (hérnia); as indicações são dadas a partir de sua própria experiência. Ibid., III. 701.
109
Ibid., II, 301-303 (8 de outubro de 1774).
Ibid., II, 523 (25 de janeiro 17780). Que as missões fossem um tônico psicológico é afirmado, com expressões vibrantes, pelo Padre Blasucci numa carta de 10 de outubro de 1766 ao Pe. Villani, referindo-se ao Pe.
José de Cunctis: "O Pe. de Cunctis esteve doente nesta verão, mas como cavalo de guerra rejuvenesce ao som
dos tambores da missão". GIAMMUSSO, Lettere cit., 145. Três anos depois, no dia 1 de novembro de 1769, o
Pe. Fiocchi escrevendo a soror Maria Angela del Cielo, fala do tambor como sinal de mobilização missionária: "Sábado dia 10, começamos as nossas missões. Espero poder ir[ ..] Agora soou o tambor e os padres estão
fora de casa". SHCSR 31, (1983) 81=82.
110
44
gência de orações, reuniões e repouso. São significativas neste sentido algumas
cartas de Sportelli, nas quais, entre outras coisas, confessa que para cumprir os
compromissos não foi possível, nem para ele nem para o Pe. Mazzini, fazer os
retiros anuais previstos pela Regra, e que isso o levava a refletir sobre o sentido
de sua vocação111. Mas é o próprio Fundador, depois do fechamento de Villa degli
Schiavi, que pede ao Diretor que os conserve unidos, para salvar a um só tempo o
apostolado e a vida comunitária: "Meu Pai, a respeito daquilo (eventuais novas
fundações) permita-me apresentar-lhe duas idéias minhas. Em primeiro lugar, meu
Pai, é preciso de hoje em diante pensar bem ao aceitar tais fundações tão miseráveis [...]. Em segundo lugar, meu Pai, peço-lhe que, agora que somos poucos,
cuide de nos conservar unidos [...]. Porque quando os congregados são tão poucos [...] se enfraquece a observância, o fervor, e se põe em perigo também a perseverança: numa palavra enfraquece-se tudo, porque se um falta ao coro, por algum afazer, o que sempre acontece, principalmente onde são poucos, ou para
pregar, ou para confessar, ou por outra coisa, então já há não mais coro, e isto
acontece freqüentemente; além disso, quando o coro é composto por tão poucos,
não se sabe o que dizer, porque o mesmo faz o ofício de hebdomadário, o mesmo
diz a antífona, o mesmo entoa os salmos [...]. Os retiros e os exercícios espirituais
pouco podem ser observados. Eu, por mim, desde que estou assim tão sozinho,
não me recordo de haver podido fazer uma vez sequer, perfeitamente retirado, os
exercícios, porque éramos tão poucos e era necessário ocupar-me em alguma
coisa. Quanto ainda às pequenas palestras domésticas, que tanto ajudam entre
nós, dá desânimo e não se sabe o que dizer quando se fala a tão poucos, além do
que pouco se pode moralizar, para não perturbar aqueles poucos que estão ouvindo. As culpas, falando daqueles que se acusam no refeitório, pouco ou quase
nunca se praticam por serem tão poucos, e assim também, às sextas-feiras, o zelador deixa de apontar os defeitos observados. As próprias recreações, entre tão
poucos, especialmente se algum está de mau humor, acabam servindo muitas
vezes mais para o tédio do que para o descanso. E de tudo isso nasce depois a
pouca observância e o esfriamento dos congregados [...] e o Pe. Savério (Rossi) e
o Pe. Júlio (Marocco), meu Pai, digamos a verdade, já não são o que eram, e eu
serei o primeiro a tornar-me pior e mais frio que os outros"112.
Esta carta é uma página preciosa para a espiritualidade redentorista. Se
permite centrar o intento do Instituto no ministério apostólico, lembra ao mesmo
tempo que a dimensão comunitária, na qual o intento deve desenvolver-se, é o
humus sem o qual o próprio apostolado permaneceria estéril. A unidade desse
dois aspectos distintos, então como hoje, é uma tarefa sempre a ser retomada e
reequilibrada. Um decênio mais tarde, com o fluxo de vocações, as casas estarão
cheias e assim o apostolado e a vida comunitária caminharão paralelamente, fecundando-se mutuamente. Nesse ponto será realístico invocar urgentemente, nas
circulares, zelo e observância, amor das almas e exercício das virtudes fundamentalmente missionárias. Será também o momento no qual o Fundador, ainda
abalado pelos fracassos de Scala e de Villa, dirá que os nossos não aceitarão
111
112
Epistolae cit., 60 (18 de dezembro de 1741).
LETTERE, I, 63-64 (12 de julho 1737). Cfr. REY-MERMET, Afonso cit. 352.
45
mais "conventinhos"113. A Congregação podia de fato caminhar bem sobre seus
próprios pés e dilatar-se pouco a pouco corajosa e coerentemente.
Linhas de pessimismo antropológico
Esboçando por alto o quadro da espiritualidade dos séculos XVII e XVIII dissemos que quase toda a literatura religiosa pós-tridentina se ressente de certo
dualismo antropológico, gerador por sua vez de um pessimismo bastante difuso.
Trata-se de um dualismo de cunho platônico, que se insinuou na mentalidade
cristã desde os primeiros séculos e que chegou até nossos dias. Só recentemente
a visão cristã da vida manifestou uma atitude positiva diante do homem e de suas
realidades. A espiritualidade redentorista não se afasta da visão geral do homem
predominante no século XVIII. Também ela paga tributo ao dualismo antropológico
e, como conseqüência, à visão negativa do corpo, da mulher, do matrimônio, do
amor em geral; muna palavra: do mundo, conjugado muitas vezes com o demônio
e com a carne. Respigando na grande obra de Tannoia, sobretudo no referente
aos últimos anos de vida do Fundador, nas cartas dos nossos, como também nas
obras ascética do próprio Fundador e de Sarnelli, defrontamo-nos com apreciações negativas por demais freqüentes. Não se trata de uma concessão à moda
literária, embora essa também esteja presente, mas sim de uma concepção global
que seria ingenuidade minimizar, devendo mais simplesmente ser registrada como
sinal de um dado momento histórico114.
113
LETTERE, I, 417 (25 de maio de 1759).
Na Constituição sobre a modéstia, aliás muito realista, as antigas Regras usam expressões que, com o
tempo, poderiam ter efeito negativo sobre o sentido dos valores. Citamos como exemplo, o seguinte trecho (o
grifo é nosso):"Por amor da santa pureza, guardarão com extremos cuidado os sentidos, através dos quais
podem entrar aquelas nojentas sujeiras, pelas quais é deturpado o candor da mente, e a pureza do coração”.
Codex Regularum, n. 288. Sobre a atitude de fobia para com as mulheres pode-se ler uma página, patética e
divertida ao mesmo tempo, na vida do Pe. Rizzo, cfr. M. BIANCO, Il P. Giovanni Rizzo della Congregazione
del SS. Redentore (1713-1771), no SHCSR.14, (1966) 119. Para se fazer uma idéia da mulher na cultura ocidental entre os séculos XIV e XVIII, desequilibrada negativamente até ao ponto de a demonizar, pode-se ler
com interesse J. DELUMEAU, La paura in Occidente, Turim 1987, 473-534. A respeito de certa “misoginia”
notem-se diferenças evidentes entre o próprio Sto. Afonso e Domingos Blasucci de uma parte e São Geraldo
de outra: ver por isso, DE SPIRITO, Gerardo Maiella e la religiosità populare cit., 91-92.
De algum modo pode também ser significativo o que Sto. Afonso escreve, de Pagani, para o Pe. Caione,
reitor de Caposele, onde a casa ainda estava sendo construída: “Dizem-me que aí é muito comum ver mulheres trabalhando na construção, vestidas com saias curtas. Esteja atento e avise-me, porque se necessário tiraremos daí os jovens (estudantes)” (LETTERE, I, p. 273: 12 de dezembro de 1754?).
114
46
2. AS GRANDES DEVOÇÕES
Depois de ter tratado de leve o assunto no decurso da exposição, queremos
aqui tratar dele de maneira mais detalhada, porque nos coloca no próprio coração
da espiritualidade redentorista. Mas, antes de entrar nos detalhes, parece-nos útil
antepor um parágrafo sobre a própria concepção de Deus e da salvação, comum
aos nossos missionários das origens a começar pelo Fundador.
A idéia de Deus e da salvação
A Congregação nasce num período no qual as teses teológicas do jansenismo exercem um influxo negativo sobre a esperança cristã. O rigorismo leva a
acentuar a salvação certa de poucos ("os eleitos"), e a salvação incerta da maioria
("os chamados"). Deus mostra-se como um ser distante, exigente e, numa palavra, inexorável e frio. Sua severidade resvala quase na injustiça. O Cristo somente
na teoria morreu por todos; na realidade é o Salvador de um grupo restrito e predestinado. Os braços do Crucifixo fecham-se no alto. A graça eficaz, a única verdadeiramente necessária, é dada a poucos. A graça suficiente não é efetivamente
tal. As almas são assim atiradas como presas ao pânico e ao desespero. Junta-se
ao quadro, já sombrio, o rigorismo moral, que fecha para muitos cristãos o acesso
aos sacramentos, em particular ao sacramento da penitência. Isto nos confirmará
na sensação que a salvação é verdadeiramente um problema difícil, quase de elite.
De imenso alcance pastoral foi a polêmica de Sto. Afonso sobre o jansenismo, alterando a prática sacramentária e a própria concepção da divindade, da redenção, da salvação e da Igreja.
Sto. Afonso e seus companheiros apresentam um Deus próximo, o Deus da
salvação universal, que quer todos salvos; e que a todos dá a possibilidade real de
se salvarem por meio duma graça verdadeiramente suficiente, com a qual se podem fazer as coisas mais fáceis, sobretudo rezar; e, com a oração, pedir e obter
as graças eficazes: "Quem reza se salva, quem não reza se condena". Não se
trata certamente de uma salvação a baixo custo. O Deus da bondade é também o
Deus da justiça. O pecador deve, portanto, responder generosamente ao amor de
Deus, que oferece misericórdia e perdão, com o santo temor de Deus, que se alimenta pela meditação dos "novíssimos". Amor e temor entrelaçam-se como dois
pólos de uma única estratégia, na qual o temor torna-se amoroso e o amor temeroso.
47
O lema da Congregação — Copiosa apud eum redemptio — (a redenção é
abundante junto dele) é programático. Confere ao apostolado missionário redentorista (transmitido pela pregação e por escrito) aquele caráter de otimismo e de
confiança, que libertará as almas do torniquete do medo e do desespero, para
conduzi-las pela estrada de uma conversão que impele para a meta da santidade.
Os redentoristas pregam, numa palavra, o temor de Deus, mas para chegar ao
amor, àquele amor que Deus Pai demonstrou ao homem nos mistérios da carne
de seu Filho. Amor de Deus pelo homem, amor do homem para com Deus, no
Cristo Redentor morto por todos e cada um.
O Redentor
É o titular da Congregação, o centro de gravitação de toda a espiritualidade
redentorista. O culto para com sua pessoa leva a uma soterologia "sobreabundante"; alimenta uma vida de fé aberta para a esperança e para o otimismo; educa
para uma piedade fortemente afetiva. O Redentor, na espiritualidade redentorista,
faz-se presente nos seus mistérios: Natal, Paixão, Eucaristia. São exatamente
estas as grandes devoções da Congregação. Vamos recordá-las rapidamente.
O mistério da Encarnação
Trata-se de um patrimônio de família. Sto. Afonso: poeta, músico, pintor, escritor, deixou-se atrair por ele com extraordinária ternura. No tempo de Natal seus
filhos renovavam publicamente seus votos; no dia 25 de cada mês os renovavam
privadamente durante a meditação matutina; na sexta-feira de cada semana, durante o tempo que vai do Advento até a Purificação (2 de fevereiro), depois da
meditação da manhã recitavam-se os "Degraus da Infância". As cartas de Falcoia
estão cheias de expressões ardentes para com o mistério da Encarnação.115 A
115
Durante o século XVII, nas casas do Oratório na França, já era comemorado o dia 25 de todo mês em
honra da Infância do Salvador. O Pe. João Avrillon, mínimo (1652-1729) , imprimiu Réflexions, sentiments e
pratiques sur la divine enfance de Jésus Christ, Nancy 1709, para divulgar entre os fiéis a devoção do dia 25
de cada mês; cfr. GREGORIO - SAMPERS, 32, nota 15. Quanto a Falcoia é preciso recordar que manifestou ao
Pe. Sportelli, que o assistia na última doença, o desejo que os padres pedissem por ele especialmente no dia
25 do mês, quando fizessem os exercícios em honra da Santa Infância, cuja iniciativa lhe era devida. Mostrou
a importância que dava a tal recomendação renovado-a no dia seguinte perante o Irmão Tartaglione. O Pe.
Sportelli escrevia aos congregados no dia 24 de março de 1743: "Monsenhor ainda se mantém. Ontem à tarde, falou a mim e nesta manhã falou ao Irmão Tartaglione, que na Congregação o dia 25 de cada mês deve ser
sempre celebrado por causa dos Mistérios da Encarnação, Nascimento e Morte de Nosso Senhor, e também
em memória dele. Portanto, comecem a partir de manhã". Epistolae cit. 85. Cfr. DE MEULEMEESTER, Origines, II, 18.
48
devoção a Jesus Menino é particularmente cultivada durante o noviciado. Pe.
Tannoia, exímio cultor da devoção, por muitos anos foi mestre de noviços.116
A Paixão
É o mistério que marcou fortemente a piedade cristológica da Congregação,
como também marcou todo o Sul da Itália. Os símbolos da Paixão, com a cruz,
fazem-se presentes no escudo da Congregação.117 Fora do tempo que vai do Advento até a Purificação, em todas as sextas-feiras recitavam-se os "Degraus da
Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo". A Semana Santa era vivida com intenso
recolhimento. O exercício da Via Sacra é previsto por ocasião do retiro mensal, e é
repetido com freqüência na vida normal (podem-se ver em Pagani os quadros visitados todos os dias por Sto. Afonso). Na pregação missionária a Paixão devia
ser a demonstração mais convincente do amor de Deus para com os pecadores,
visualizada na tela do Crucificado (cópia aumentada da pintura feita pelo Fundador), e esculpida nos calvários (cruzeiros) erigidos como recordação da missão.
Sinal inequívoco da devoção à Paixão na espiritualidade redentorista são os livros
do Fundador, por ele mesmo recomendados a seus filhos para a meditação. O
"livro do Crucifixo" é freqüentemente invocado nas circulares, como também nas
cartas de direção espiritual dos padres mais eminentes: pensemos sobretudo em
Sarnelli, Sportelli, Cáfaro, Fiocchi. Mas já em Falcoia a piedade cristocêntrica
aponta decisivamente para a Paixão, pela qual ele tem expressões de ardor e ternura; de mais a mais o fundador dos Pios Operários, Carlo Carafa (1561-1633),
tinha infundido neles uma espiritualidade calcada sobre o culto da Paixão, da Eucaristia e da Virgem Santíssima.118
A Eucaristia
Com a Paixão, e como seu prolongamento, a Eucaristia é a manifestação
suma do amor de Deus pelos homens. Na espiritualidade redentorista, Jesus Sacramentado é como a "sala da lareira". Para dar um só exemplo, pense-se em São
Geraldo. A "visita", embora não seja exclusiva invenção de Sto. Afonso, é certamente um traço inconfundível na piedade eucarística dele e de seus filhos. Reco-
116
São atribuídos ao Pe. Tannoia o Sacro Baciamano, ovvero Esercizi di pietà (para o dia 25 do mês) e a Via
Betlemmitica (12 estações sobre a infância de Jesus). Sobre ele mestre de noviços, cfr. KUNTZ, Commentaria,
XII, 57 (ano 1788).
117
Cfr. FERRERO, Elementos simbólicos del escudo de armas y del sello oficial de la Congregación del Santísimo Redentor, in SHCSR, 39 (1991) 299-341, especialmente 328-330.
118
Cfr. D. VIZZARI, Pii Operai em Dictionaire de spiritualité, XII,2 (Paris, 1986), 11759.
49
mendava-lhes que se servissem de seu "livrinho" composto inicialmente para os
nossos jovens de Ciorani.119
O Sagrado Coração
Acenamos a essa devoção ao esboçar o contexto religioso do século XVIII
em Nápoles. Aos nossos ela chegou através de Falcoia e das visitantinas de Scala, depois redentoristinas. Falcoia encerra suas cartas ou nelas insere fórmulas
como: "In corde Jesu"; "no coração divino"; "no coração amabilíssimo de Jesus". A
mesma coisa faz Sportelli, assim como Cáfaro, Villani e outros, embora não seja
com tanta freqüência. Do mesmo modo Celeste Crostarosa.120 Sto. Afonso publicou em 1758 a Novena ao Sagrado Coração. Mas já antes, nas Visitas, tinha recolhido subsídios da inspiração de Paray-le-Monial: tratam-se das visitas 24-31,
onde utiliza autores jesuítas.121 Para Sto. Afonso a devoção ao Sagrado Coração
constituía uma mensagem em sintonia com a Copiosa redemptio, um antídoto eficaz contra a doutrina jansenista e contra qualquer sistema rigorista.
O Espírito Santo
No contexto das grandes devoções não se pode esquecer aquela ao Espirito
Santo. Na verdade, as pesquisas sobre a literatura das origens, no que diz respeito a essa devoção, são poucas; todavia o tema está bem presente no Fundador. Entre os Opúsculos do amor divino os editores da Obras Ascéticas colocam a
Novena ao Espírito Santo.122 Trata-se de dez belíssimas meditações que atestam
119
Ao escrever as Visitas, Sto. Afonso usou fontes de inspiração diversa. No segundo grupo (Visitas 24-31),
percebe-se a influência da devoção ao Sagrado Coração de Jesus: "a visita do dia 24 é um ato de reparação; a
do 25, uma verdadeira ladainha do Sagrado Coração". REY-MERMET, Afonso, cit. 412. Para um estudo analítico e aprofundado sobre as fontes das Visitas cfr. F. BOURDEAU, Essai sur la composition par étapes du
"Livres des Visites au saint Sacrement", à la lumière de ses sources, em SHCSR 35 (1987) 233-303, especialmente 290-300, 305-307. Ver também REY-MERMET, Afonso, cit. 411-412. Sobre a Eucaristia nas origens
do Instituto, belos testemunhos em DE MEULEMEESTER, Origines, I, 223-224. Basta um só exemplo: Joaquim.
Gaudiello certo dia, num arroubo de espírito: "Pegue uma faca, disse ao Pe. Mazzini, abra-me o peito, e leve
para o conservar na custódia este meu coração com o SS. Sacramento", TANNOIA, Vite, cit., 95.
120
Escreve a Sto. Afonso: "Escondamo-nos todos os dois no Coração de Jesus" REY-MERMET, Afonso, 249;
"Despeço-me no Coração de Jesus" Ibid., 289. Por sua vez Sto. Afonso, escrevendo à Madre Angiola del
Cielo (mosteiro de Scala), diz entre outras coisas: "Ame Jesus, e sobretudo ame seu belo Coração, a sua bela
vontade". LETTERE, I, 4
121
Cfr. nota 119. Entre os autores jesuítas, traduzidos para o italiano, podem ser citados: de Gallifet (16631749) e João Croiset (1665-1738). Cfr. REY-MERMET, Afonso, cit. 412.
122
Opere Ascetiche, 247-265. Perto de Pentecostes e de Corpus Christi, Sto. Afonso assim escreve à madre
Brianna Carafa: "Agora aproximam-se duas belas festas de fogo, do Espírito Santo e do SS. Sacramento.
Procure por isso fogo, mas fogo não de consolações, mas de santo amor". LETTERE, II, 170 (30 de abril de
1771).
50
aquela que hoje em dia chamamos de "dimensão pneumática" da vida cristã. Os
títulos são inspirados em dois hinos litúrgicos: Veni, creator Spiritus e Veni, sancte
Spiritus. Sto. Afonso presenteou-nos também com uma bela cançãozinha ao Espirito Santo: Andate, o speranza, o affeti terreni, onde as invocações se fazem através das imagens mais sugestivas que a liturgia aplica ao Espírito Santo.
A Imaculada
A principal Padroeira da nossa Congregação será Maria Santíssima,
sob o título de Imaculada Conceição. Por isso sua festa será solenizada pelos nossos com a maior devoção e maior pompa possível.123
Depois de Jesus Cristo é a principal patrona de nosso santo Instituto,
que de modo especial nasceu sob o seu patrocínio.124
Depois do curso de Teologia cada súbdito devia fazer voto de defender
a doutrina da Imaculada Conceição de Maria.125
Estas três proposições indicam qual o lugar que Maria ocupa na piedade redentorista. N. Senhora é invocada pelos congregados como Mediadora, Coredentora, Mãe de Misericórdia, Advogada dos pecadores: todos títulos referentes
estreitamente ao privilégio da Imaculada Conceição.
Nas missões não se deverá jamais omitir a pregação sobre o patrocínio de
Nossa Senhora.126
Concretamente, aqui estão os traços marianos da piedade redentorista: imagem da Virgem nos quartos; leitura de seus louvores ao jantar; jejum aos sábados
e nas vigílias de suas festas; recitação diária do terço; rosário pendente do cinto;
visita diária (preferivelmente unida à visita ao Santíssimo Sacramento); uma Ave
Maria antes de qualquer ação ou ao soar do relógio; sobretudo invocá-la nas tentações contra a pureza e a perseverança.127
123
Códex regularum, pg. 32, n. 8.
Ibid., n. 129.
125
Acta integra, n. 18
126
Codex regularum, pg. 56, n. 67.
127
Ainda Irmão J. Gaudiello: "Mais vezes repetia durante o dia o seu terço. O demônio não me deixa, dizia ao
Pe. Mazzini, mas ele perde seu tempo. Tudo posso e tudo espero de minha mãezinha Maria, e debaixo de seu
manto espero morrer". TANNOIA, Vite cit., 95. Apraz-nos também citar um trecho da carta do Pe. Cafaro ao
Pe. De Robertis, que se deleitava com minúcias e perdia assim a tranqüilidade. O Pe. Cafaro, indo ao cerne,
escreve: "Pe. Celestino, é preciso arrebentar-se e achatar-se para se tornar santo. Assim se fazem os santos,
não com orações e devoçõezinhas[...]. A Imaculada [...] certamente não quer essas falsas devoções, mas quer
devoções sólidas e verdadeiras, e totalmente espirituais. Que coisa bonita uma alma desapegada!" Epistolae
cit. 60-61, passim.
124
51
Os Apóstolos
Os redentoristas prolongam a "vida apostólica", ou a apostolica vivendi forma. Por isso encontram nos Apóstolos seus modelos e os protetores mais autorizados. Cada virtude do mês faz referência a um Apóstolo.128 Ricas referências nas
Regras:
Assim missionou Jesus Cristo; assim fizeram os Apóstolos, verdadeiros
discípulos e perfeitos imitadores dum tal Mestre. A esses devem imitar e propor-se como modelos, se de fato e com fruto querem cumprir o principalíssimo fim de sua vocação.129
Interpõem os méritos e a intercessão poderosíssima de Maria, advogada dos pecadores, e dos Apóstolos que, com a própria Virgem, são os principais protetores de todos os missionário, e especialmente do nosso santo,
embora mínimo Instituto.130
Por isso, sob gravíssimas penas, proíbe-se aos súbditos de nosso Instituto, como dedicados especialmente à imitação de Jesus Cristo e de seus
santos Apóstolos, e à instrução do povo rural, pregar com tom oratório, com
vaidade de conceitos e transposições de palavras [...].131
A principal padroeira da Congregação seja Maria Santíssima sob o título
de Imaculada Conceição, e em segundo lugar São José, e depois São Miguel
Arcanjo, os apóstolos Pedro e Paulo, São João Evangelista, São Felipe Neri,
Santa Maria Madalena e Santa Teresa.132
III. A FORMAÇÃO E AS FONTES
1. OS MODELOS VIVOS.
128
Algumas decisões do Capítulo de 1749: "Assinalou-se a virtude e o santo Protetor de cada mês, conforme
nosso antigo costume" (segue o elenco). Acta integra, n. 43. "Confirmou-se o antigo costume que no princípio de cada ano se tire a sorte do santo padroeiro e da virtude e da nação infiel que tocará a cada um naquele
ano para rezar por ela". Ibid. n. 73.
129
Codex regularum, pg. 38, n. 26.
130
Ibid., pg. 39, n.28.
131
Ibid., pg. 41, n. 31
132
Acta integra, 10 (Capítulo de 1749) A mesma lista se encontra no Codex regularum pg. 32, n. 8.
52
O período das origens foi uma época extraordinária pelo número e pela qualidade de congregados exemplares. A documentação, embora parcial, coloca-nos
diante de homens ardentes, nos quais os defeitos certamente existem e crescem
na medida em que o número de congregados aumenta, mas são como que absorvidos pela média geral. Não nos esqueçamos que o Fundador está ainda vivo, e
que as figuras mais eminentes conservam ainda a sua força arrastadora. Tudo
somado, o heroísmo das origens está ainda operante. Como se disse, não faltavam certamente os defeitos, que nas circulares do Fundador são colocados em
primeiro plano para o fim que ele persegue.133
133
Cfr. DE MEULEMEESTER, Origines, I, 245-246. Traços anedóticos colhidos ao vivo: No decorrer do ano de
1756, Sto. Afonso escreve ao Pe. Tannoia e ao Pe. Caione a respeito dum padre (O pe. De Robertis) a quem
ele tinha proibido confessar mulheres, mesmo que estivessem moribundas, sob preceito formal, por causa de
suas extravagâncias. LETTERE, I, 338-345. Sempre no decurso desse ano de 1756 recordamos as cartas muito
fortes dirigidas pelo Fundador aos irmãos que haviam reclamado direitos iguais aos padres e estudantes. Cfr.
Ibid., I, 317-328. Cfr. S. RAPONI, Il fratello religioso redentorista, em "Il fratello religioso nella comunità
ecclesiale oggi", Roma 1983, 229-242. Em 1763 o Pe. Mazzini procura acalmar, mas inutilmente, o Pe. Tannoia, aborrecido pelas censuras dos confrades. KUNTZ, Commentaria VIII, 301. Em 1765, o Pe. Villani, vigário geral, numa circular lamenta a decadência da disciplina regular. Ibid., VIII, 261 ss. Em 1772, numa outra
circular, afirma que o fervor dos confrades diminuiu não pouco. Ibid., 301. Em maio de 1781, escrevendo ao
reitor Pe. Diodato Criscuoli, Sto. Afonso afirma que se não mandava embora o Pe. Pascoal Caprioli, era somente por misericórdia. Fala a propósito de "atuais faltas" e de "costumeira dureza de cabeça", e continua:
"Creio que isso nasça da demasiada divagação [...] porque girando sempre e jamais lendo coisas sobre moral,
terá desaprendido o pouco que sabia, e tenho escrúpulo de mandá-lo embora". Ibid., X,,275. Em 1784 o vigário Pe. Villani é repreendido pelo Pe. Tannoia a respeito da vida verdadeiramente comum (ele tinha uma
tabaqueira especial!) e por suas freqüentes visitas às monjas. O Pe. Villani responde humildemente, mas adverte o Pe. Tannoia (seria uma vingancinha?) que não usasse noviços ou estudantes como secretários, para
não lhes tirar o tempo do estudo, e por discrição. Ibid., 18. Dois anos mais tarde, em 1786, o Pe. Tannoia
acusa o Pe. Villani de despotismo, e o admoesta: "Meu Pai, peço que mude de sistema, se ama a Congregação
e sua alma". Ibid., XI,227-229. Indicativas do clima que acompanhou e seguiu o Regulamento são as cartas
do Pe. Blasucci ao Pe. Villani. No relatório da visita feita, em outubro de 1766, na comunidade de Girgenti,
em nome do próprio Pe. Villani, o Pe. Blasucci anota com estilo vivo e agudo as qualidades e defeitos de cada
confrade. A leitura é obrigatória. (GIAMMUSSO, Lettere dalla Sicilia, cit. 142-150). Notam-se lamentações,
dissabores, suspeitas recíprocas, acusações etc., particularmente entre o Pe. Giovanni Lauria e seu superior
Pe. Blasucci: poder-se-ia até falar de um "dossier Lauria". Nas cartas dirigidas pelos dois ao Pe. Villani, o Pe.
Lauria acusa o Pe. Blasucci de despotismo, de loquacidade, de cinismo; por sua vez o Pe. Blasucci fala de
Lauria como de um “cabeça desarranjada", "sujeito turbulento", "inveja ambulante". E, depois de haver desmontada uma por uma as acusações, termina: "Meu Padre, estamos aqui num paraíso, vive-se com tanta harmonia e paz. O peste do Lauria se foi, a alegria retornou. Esta é a verdade. Não quer acreditar? O senhor
manda! Aflige-se inutilmente por males imaginários. Nada mais!" (Ibid., 286) As cartas escritas entre os anos
1784-1785 são um índice do desconcerto provocado na Sicília pelo Regulamento. Interessante a propósito o
vocabulário com o qual o De Cunctis tacha Blasucci e outros membros de relevo: o Blasucci é chamado "o
Generalíssimo dos Sicilianos"; (Ibid., 284); o Pe. Leggio é chamado de "trapaceiro", (Ibid., 296); o Pe. Francisco de Paola, "o Reverendíssimo padre cismático"; e ainda o Pe. Blasucci: "outro Reverendíssimo padre
cismático, participando do sangue de seu primo irmão de Paola" (Ibid., 299). Sempre no clima do Regulamento, no dia 24 de julho de 1782, o Pe. Blasucci escrevia ao Pe. Villani: "Aqui, pela graça de Deus, gozamos de perfeita paz e união, as tempestades sofridas aí não passaram pelo mar da Sicília. A observância, a
perfeita obediência, a comunidade perfeita reinam aqui presentemente, como há vinte anos reinavam nessas
casas do Reino. Não tenho de que nem de quem lamentar-me.[...] Não nos preocupamos senão de nossas
obrigações, não andamos vagando pelas casas dos amigos, durante sete meses pregamos as missões e cinco
meses ficamos retirados em nossas casas, aplicados aos estudos, aos atos comuns e à solidão" (Ibid., 258) .
Indicativos de certos desvios de algumas comunidades depois do Regulamento, é a visita feita pelo novo
Geral Blasucci a Ciorani, logo após o encerramento do Capítulo geral de 1793: ver KUNTZ, Commentaria,
XIII, 313-320.
53
Mas as luzes foram intensas até se condensar em figuras de profunda vida
interior. Verdadeiramente a Congregação acolhia santos vivos, de virtudes heróicas: verdadeiras "pedras angulares". Ao lado do Fundador alinhavam-se, para
apontar os nomes mais prestigiosos, os padres Sarnelli, Sportellli, Cáfaro, Mazzini,
Villani, Fiocchi, Ferrara, Rossi, Latessa, Rizzo. Entre os irmãos Joaquim Gaudiello,
Vito Curzio, Francisco Tartaglione, Januário Rendina, Antônio Lauro, Antônio Oliva, Francescoantônio Romito, e sobretudo Geraldo Majella que, por si só, bastaria
para caracterizar uma época. Entre os estudantes, limitamo-nos a apontar Domingos Blasucci, Pietroangelo Picone e André Zabati. Todos esses arrastavam também os outros.134 "Naqueles tempos heróicos, viviam e morriam como santos estudantes e missionários, jovens e velhos.135 O novo estilo de vida provocava
enorme impressão, e conquistava estima geral.136
O grupo tinha consciência desse novo Pentecostes, ou explosão de santidade. Vemo-lo entre outras coisas no cuidado meticuloso com o qual o Fundador
solicitava aos superiores e confrades que recolhessem logo testemunhos e deposições sobre aqueles que passavam para a eternidade. Notícias, orações fúnebres, elogios, escritos, relíquias de vária espécie abarrotam assim os arquivos (o
central, do noviciado e do estudantado). Dos membros mais eminentes era em
seguida solicitado também o retrato, também esse guardado cuidadosamente e
eventualmente multiplicado.
O Fundador era o primeiro a pôr em evidência os confrades mais destacados: recordemos o Compendio sobre Sarnelli, Brevi Notizie sobre o Pe. Cáfaro e
Vito Curzio, e as numerosas cartas nas quais incitava todos a olhar para esses
modelos e guardar a herança deles. Neste cuidado pelas memórias da família não
era descuidado o Pai, isto é, Falcoia.
Sobre São Geraldo são preciosas as Notizie do Pe. Caione, porque sem mediações de tipo elogioso gratuito. Elas foram retomadas pelo Pe. Landi e, a seu
modo, pelo Pe. Tannoia.137 Encarregados de escrever as memórias dos confrades
defuntos, foram sobretudo Pe. G. Landi e A. Tannoia: as suas obras, inéditas ou
publicadas, são merecedoras de toda atenção, e constituem no mais das vezes a
única fonte de informações, mesmo que o método se ressinta evidentemente do
estilo hagiográfico do século XVIII. Mas existem outros nomes, por exemplo: Pe.
134
Cfr. REY-MERMET , Afonso, 321-341.
A. BERTHE, Sant' Alfonso Maria de'Liguori, 1696-1787, Tomo I, Firenze 1903, pg. 527. Trata-se do cap.
VII, intitulado: "Os tempos heróicos: 1750-1754". São apresentados Domingos Blasucci, Nicola Muscarelli,
André Zabbati, Paulo Cafaro, Ângelo Latessa, Pietrangelo Picone, pg. 500-527.
136
Cfr. DE MEULEEMESTER, Origines, I, 246-249.
137
O manuscrito foi publicado pela primeira vez no SHCSR 8 (1969), 181-300, por N. FERRANTE, A.
SAMPERS, J. LOEW, Tria manuscripta circa vitam S. Gerardi Maiella, a coaevis auctoribus compositis
primum eduntur. Impresso em parte in G. CAIONE, Gerardo Maiella. Appunti biografici di un contemporaneo, editado por S. MAJORANO, Materdomini, 1988. No dia 11 de janeiro de 1756 escrevia Sto. Afonso a
Caione: "Mando-lhe estas notícias do Padre Juvenal a respeito do Ir. Geraldo. Conserve-as e registre-as como
melhor puder, conforme lhe pedi e conforme o tempo que tiver [...]. Mando-lhe também o seu escrito; pode
servir para lhe recordar as coisas". LETTERE, I, 318.
135
54
Giovanni Rizzo, encarregado de escrever as crônicas da Congregação, a vida do
Pe. Cáfaro e do Irmão Geraldo (mas, por motivo de saúde, houve dificuldades na
execução).138 O Pe. Kuntz ajuntou muitos desses elogios e notícias. Podemos assim ler sobre Vito Curzio o elogio do Pe. Mazzini e as notícias de Sportelli;139 sobre Blasucci, o elogio de Villani, Cáfaro, Apice, Di Meo, Tannoia e, sobretudo, do
próprio Sto. Afonso;140 as notícias sobre Antônio Oliva,141 sobre Gennaro Rendina,142 sobre Antônio Lauro;143 o longo testemunho sobre o Pe. Fiocchi.144 Poderse-ia prolongar as indicações, mas não é necessário. O que apresentamos é suficiente para constatar a "consciência histórica" do grupo, a qual está sendo hoje
em dia de qualquer modo redescoberta e de novo proposta aos congregados (com
edições revisadas), para aquela volta às fontes que constitui um dos critérios do
"aggiornamento".
Sobre este pano de fundo adquirem relevo as recomendações do Fundador
nas suas circulares: "Padres e Irmãos meus, recomendo a todos de novo a observância das Regras, e especialmente da obediência, sobre as quais ouvi dizer que
tem acontecido muita falta. Procuremos ter sempre diante dos olhos o fim feliz,
que tiveram tantos dos nossos irmãos falecidos, jovens e Padres.145
Nas cartas particulares ele chegava a canonizar também os vivos. Escrevendo, por exemplo, ao Pe. Francisco Margotta, reitor de Caposele, depois de havê-lo
exortado a não se entregar a tarefas demasiadas e a abdicar a própria vontade,
propõe-lhe exemplos de confrades santos ainda em vida: "Eu lhe falo com todo
afeto, porque o estimo, e estimo muito; e tenho um grande conceito de V. R.; es138
Cfr. KUNTZ Commentaria, VII (1776), 313-316; N. FERRANTE, Le fonti storiche della vita di S. Gerardi
Maiella, em SHCSR 2 (1954) 127-128. No arquivo geral da CSSR, XXXVI D 44, existe um grosso fascículo
relativo ao Pe. Rizzo, compreendendo sua biografia escrita pelo Pe. Tannoia, em dois livros (mas o segundo,
sobre as virtudes do mesmo, limita-se somente a uma página); um compêndio da obra de Tannoia, escrito
pelo Pe. A. De Risio; cartas do Pe. De Rizzo; documentos pessoais do mesmo e materiais diversos. O compêndio de Risio foi publicado pelo PE. M. BIANCO com uma interessante introdução bio-bibliográfica, no
SHCSR 14 (1966) 93- 123.
139
KUNTZ, Commentaria, II, 434-438. O Pe. Villani voltará mais vezes a impor ao Pe. Tannoia a ordem de
escrever as vidas dos congregados mortos e a crônica da Congregação: cfr. Ibid., VIII 429-430; IX, 239,
Como se sabe, o Pe. Tannoia estava empenhado também em trabalhos pessoais, entre os quais o escrito sobre
abelhas.
140
Cfr. Ibid., V, 7-19. O elogio do Fundador está às p. 10-11, conforme o seguinte esquema: Recolhimento;
Eucaristia; Mortificações; Desejo da morte; Pureza ("Não sabia o que fossem pensamentos impuros"); Silêncio contínuo; Obediência (sem jamais replicar); Humildade.
141
Cfr. Ibid., 59-63. Ir. Antônio Maria Oliva morreu em Scifelli no dia 23 de junho de 1775, porta-bandeira
fora do Reino. Foi logo feito um seu retrato.
142
Cfr. Ibid., XII, 115-116 ("o santo!")
143
A Antônio Lauro KUNTZ dedica 27 páginas: Commentaria, VI, 463-490.
144
Cfr. Ibid., 125-225 (100 páginas!). Por ocasião da morte de Sto. Afonso, KUNTZ registra todos os confrades mortos antes do Fundador: ao todo 74. Em segundo lugar, Falcoia: ibid., XI, 451-485.
144
Cfr. Ibid., 125-225 (100 páginas!). Por ocasião da morte de Sto. Afonso, o KUNTZ registra todos os congregados mortos antes do Fundador: total de 74. O segundo lugar para Falcoia: Ibid., XI, 451-485.
145
LETTERE, I, 393 (13 de agosto de 1758). Apresentamos um trecho de Sto. Afonso sobre o Pe. Sportelli:
"Há poucos anos, isto é em 1749, morreu (César Sportelli) em grande conceito de santidade [...] A vida deste
bom sacerdote em tempo oportuno será editada", Brevi notizie sulla vita e morte di Fr. Vito Curzio, no apêndice ao livro Il mondo santificato di Dom Gennaro Sarnelli, Nápoles 1753, 353.
55
pero que V. R. seja um daqueles que na Congregação se tornam santos, como
Pe. Paulo (Cáfaro), Villani, Mazzini, Fiocchi, Ferrara e outros que morreram para a
vontade própria, e não como certos uns que é preciso tratar com delicadeza e que
assim serão tratados por mim. Mas vejo que não se tornarão santos, como aqueles outros dos quais os Superiores (como costumo dizer) podem fazer trapos”.146
Esse juízo, expresso de forma confidencial e destinado a provocar uma mudança no destinatário, pode talvez parecer exagerado, mas é sempre um testemunho de excepcional valor vindo de alguém que não somente exortava, mas encarnava em sua própria pessoa o modelo de santidade que via agindo nos outros.
O faro dos santos não se engana. A impressão que se tira da convivência com as
figuras das origens é, no geral, nitidamente positiva; a sua consistência espiritual
está solidamente comprovada. Pode-se falar deles como de "pais fundadores" ao
lado do Fundador; a Congregação olha para eles como para pontos de referência
essenciais e emblemáticos.147
146
LETTERE, I, 173 (17 de fevereiro de 1750) Neste contexto pode ser instrutivo o que o Fundador afirma nas
suas circulares, apelando para as origens ainda frescas para incitar os congregados ao esforço: "Padres e Irmãos meus, não se passaram ainda 22 anos que a Congregação se iniciou, e faz cinco anos que foi aprovada
pela Santa Igreja, por isso deveria nesta hora, não somente ter mantido o primitivo fervor, mas ter crescido
ainda mais. É verdade que muitos se comportam bem; mas em outros, em vez de avançarem, falta o espírito.
Estes, eu não sei onde irão parar; porque Deus nos chamou para esta Congregação (principalmente nestes
princípios) para que nos façamos santos e nos salvemos como santos [...]. Se esta falta de espírito se espalha,
pobre Congregação! Que será dela dentro de cinqüenta anos? Circular de 8 de agosto de 1754. LETTERE, 256.
"Particularmente recomendo que ninguém diga que agora na Congregação não se vive com tanta exatidão,
faltando a primeira observância; embora tenham aumentado os defeitos, porque cresceu o número de congregados, apesar disso cada qual deve procurar emendar-se e viver com observância, compreendendo que os
inobservantes, que não querem corrigir-se, não podem ser tolerados na Congregação." Ibid., 262 "Não quer o
Senhor que as primeiras pedras deste edifício sejam tão fracas que, não somente não consigam sustentar e dar
bom exemplo aos outros que virão depois, mas que dêem pouca edificação aos que nele vivem presentemente. Cada um compreenda bem”. Ibid., 263. "Eu temo algum grande castigo de Deus. E não faz ainda 24 anos
que a Congregação foi fundada! Que será dela daqui a 100 anos?” Circular de 3 de outubro de 1757, Ibid., I,
381. "Sinto, com muita dor, que o espírito decaiu muito [...] Não posso permitir que durante minha vida se
relaxe a observância [...] A obediência aos Superiores, então, está por terra. Acabada a obediência, acabou-se
a Congregação. Perdendo-se a obediência, que serão nossas casas senão redutos de inquietações, de contrastes e de pecados?” Circular de 27 de agosto de 1765. Ibid., I, 577. "Desagrada-me muito quando ouço que
algum jovem dos nossos não vive segundo a perfeição evangélica, própria dos operários do Evangelho. Mas
minha amargura de coração é mais viva e sentida quando algum dos Padres e Irmãos mais velhos e mais antigos da nossa Congregação, que deveriam ser para os mais jovens e novatos espelho de edificação e virtudes,
pouco estima a obediência devida aos superiores". Circular de 27 de junho de 1773. Ibid., II, 233. No dia 4 de
novembro de 1776, dirigindo-se ao Pe. Blasucci, responsável pela casa de Frosinone, assim escrevia: "Consolo-me que ai, no tugúrio de sua casinha, são observados todos os atos comuns da Regra. Bom sinal! Ao
contrário, aqui no Reino, dá-me pena que não se viva na observância primitiva, mas espero vê-la renovada
antes que me venha a morte". LETTERE, II, 398. Sobre este tema recordamos o que Sto. Afonso, já em 1740 ,
escrevia à Fundadora de um mosteiro: "Não importa que fique sozinha[...] Veja que agora é preciso alicerçar
o espírito, que depois durará para sempre no futuro [...] E o que não se fizer agora, não tenha esperança de
fazer depois, porque depois o fogo irá sempre mais diminuindo que aumentando [...] E digo que as primeiras
de qualquer fundação, se procuram dar gosto a Jesus Cristo, na maioria se tornam todas santas”. LETTERE, I,
76.
147
O Pe. Cláudio Benedetti, Postulador Geral de muitas causas de santos, afirma categoricamente que todos
os primeiros companheiros de Sto. Afonso poderiam ser canonizados de olhos fechados, tão grande era a
estima que ele tinha dessas pedras fundamentais do Instituto. Apontava em particular (além dos grandes servos de Deus Sportelli, Cafaro e outros) , dez padres e irmãos: os padres Rossi, Mazzini, Villani, Fiocchi,
56
2. O PROCESSO FORMATIVO
A formação propriamente dita abrangia dois estágios: o noviciado e o estudantado, com o apêndice do assim chamado "segundo noviciado". Falaremos brevemente deles, partindo prevalentemente das Constituições de 1764, as quais,
salvo ajustamentos marginais, ficaram em vigor até o Capítulo Especial
(1967/1969). As referências aos números de tais Constituições serão indicadas
diretamente no texto para não multiplicar excessivamente as notas.148
NOVICIADO
Discernimento na admissão
Conforme o próprio texto da Regra, o reitor mor, ou outro por ele delegado:
tomará exata informação sobre o talento e os costumes daqueles que
procuram ser admitidos, especialmente sobre o motivo de sua vocação: se
têm irmãs ou parentes pobres; se têm dívidas, ou cometido algum delito; se
são filhos legítimos; não se devendo nunca admitir pessoas que viessem a
causar pecha ou mancha ao próprio ministério (n. 888).
A constituição correspondente explicita que "o exame consiste em três coisas
distintas, isto é, no exame do corpo, do talento e do espírito (n.889). A casuística
posta em ação é muito interessante, rica de notas psicológicas. De particular interesse o exame dobre o "motivo da vocação, e a referência ao "ministério" que aparece como o critério de discernimento essencial.149
Ferrara, Margotta; os irmãos Vito Curzio, Gaudiello, Rendina e Romito. Cfr. DE MEULEMEESTER, Origines, I,
249, nota 128. A propósito de "padres fundadores”, recordamos que o Pe. Caione, no processo de beatificação de Sto. Afonso, falando dos primeiríssimos padres, chama-os duas vezes de "Padres co-fundadores", no
Summarium super virtutibus, Romae, 1796, 102. Também os padres Pier Paolo Blasucci e Nicásio Sarno
falam de "padres co-fundadores", em Positio super fama sanctitatis in genere, 30-31.
148
Citamos do Codex regularum. Evidentemente nos ocupamos da formação sob o ângulo da espiritualidade
redentorista, remetendo no que se refere a estruturas e organização, à Storia da CSSR, 522-598 (FERRERO).
149
Com respeito aos postulantes o Pe. Villani, de Roma, assim escrevia ao Fundador: "Tenha a bondade de
examina-los bem antes de os admitir, porque admitidos causarão muitas dores de cabeça quando forem dispensados [...]. Não nos deixemos levar pela necessidade, porque Deus bendito providenciará". DE
MEULEMEESTER, Origines, II, 308, 310.
57
Evolução e estrutura
Nos primeiros anos do Instituto, por causa da penúria de pessoal, os sacerdotes que entravam no noviciado não eram submetidos ao rigor formal que prevalecerá depois, e assim eram mais facilmente inseridos no apostolado direto. A
formação se baseava na imitação da vida e exemplo do Salvador; o clima era sereno, compreensivo, humano. No dia 13 de março de 1736, o Diretor assim escrevia ao Pe. Mazzini, mestre dos noviços em Villa degli Schiavi: "Fez muito bem em
mandar cozinhar no sábado: eu não quero que os súbditos padeçam; para que não adoeçam e
não façam jejum à força; antes lhe peço que seja parco em dar ou conceder mortificações e penitências que possam trazer dano à saúde. Bastam as que são fixadas pela Comunidade e aquelas
outras mortificações que podem subjugar as paixões, a natureza e os sentidos, e aquelas que
mortificam o próprio juízo e a vontade própria. No mais, alivie os súbditos; faça que se movimentem sirvam ao Senhor com alegria. Daqueles, pois, que se encontram indispostos, tenha cuidado
especial, e não lhes deixe faltar aquilo de que têm necessidade. Não quero que cresçam muito
delicados e amigos tranqüilos da moleza e de particularidades não necessárias. Não quisera que
lhes faltasse nada de necessário. O Superior é pai, e mãe; não direi mais nada sobre isso [...]. O
Senhor não deve queixar-se se S.D.M o colocou numa situação (de superior e mestre) em que
poderá ganhar todos os méritos, e crescer muito nas santas virtudes de Nosso Senhor Jesus
Cristo. Ele deve ser seu exemplar, e quisera que bem, bem, bem pusesse na mente e no coração
destes benditos Filhos o seguimento e a imitação das virtudes e da vida de nosso Salvador. Aqui
está todo o espírito do Instituto: só isto gostaria ardentemente que se procurasse; nesse espírito
gostaria que se enraizassem; disto quereria que se falasse e cogitasse, e somente esse espírito se
cultivasse, de modo que aquilo que se vê na vida sacrossanta de S.D.M. e aquilo que por ele foi
ensinado, isto se amasse e se imitasse, e tudo o mais se deixasse de lado. Estude, meu querido,
neste livro de vida, escrito em letras claras, e é mais doce que o mel, e faça que todos o estudem:
e serão doutos da sabedoria Divina, e capazes de iluminar todo um mundo".150
A carta, que está entre as mais vibrantes da espiritualidade de Falcoia, levanos de volta ao que se disse sobre a doutrina e a prática da imitação no Instituto, e
faz ver como esta imitação não perde jamais de vista a dimensão apostólica.
Depois da morte de Falcoia, crescido o número de jovens, o noviciado tornase mais formal e mais estruturado. Eis sua idéia, assim exposta nas Constituições
de 1764, const. I:
Nosso noviciado não consistirá em nua e seca exterioridade de coisas;
mas consistirá propriamente na total reforma do homem interior, e no revestir-se o súbdito das virtudes de Jesus Cristo, Redentor e Mestre; e por isso
não haverá rigores exteriores e violentos, mas com suavidade serão guiados
os jovens pelo caminho das virtudes [...]. Certas aparências de virtudes, macilentas à força de rigores, por si mesmas não têm nem podem ter duração, e
acabam logo com o fim do noviciado, com sumo dano do súbdito e com não
menor detrimento do Instituto. (n.901)
O estilo é um tanto pesado, mas a substância é clara e, a seu modo, recalca
a mencionada carta de Falcoia. Depois se desce ao concreto das atitudes fundamentais a conquistar:
150
FALCOIA, 301-302.
58
Evite-se e odeie-se, como a peste do nosso noviciado, a delicadeza e o
amor da própria comodidade [...] e, com empenho, procure-se embeber os
jovens do espírito de mortificação, e do ódio santo de si mesmo, do apreço
da vida comum e da estrita pobreza, do espírito de subordinação e de obediência cega, de amor da observância e de ódio por qualquer dispensa. E
abominar não somente as faltas graves e leves, mas também fugir e de ter
horror a todo defeito, ou falta por menor que seja; e, de acordo com essa
idéia, o que é propriamente o espírito de nosso Instituto, serão nossos jovens
guiados e dirigidos no espirito durante seu noviciado, e não se omitirá meios
e modos para fazer que cheguem a ser santos e perfeitos, se com empenho
se quiser ver sempre em vigor a Congregação, longe de qualquer decadência e ruína. (n. 903)
A linguagem é muito próxima daquela das circulares do Fundador. O mestre
deve exercitar os noviços na humildade e no desprezo de si mesmos. As mortificações não tenham nada de excepcional, mas sejam ordinárias e comuns. Ao
ocupá-los em exercício humilde e baixo, o mestre:
Não tenha em vista as necessidades domésticas, mas o exercício da
humilhação e da abnegação própria de cada um, isso com tal discrição e
prudência que os jovens fiquem cada vez mais fortificados, e não já enfraquecidos no espirito. (n. 911)
Não falta a referência ao apostolado:
Tenha-se todo o empenho para instruir os jovens nas virtudes cristãs
(discreta alusão às 12 virtudes), nos deveres do próprio Instituto, em tudo
aquilo que interna e externamente é necessário para formar um operário
perfeito e de toda edificação. (n. 923)
Em consonância com o que dissemos a propósito dos "modelos vivos" (coleta de notícias, cuidado com os arquivos, etc.), no noviciado vigora uma tradição
muito antiga: fazer um relato da própria vocação:
Todo noviço deverá escrever com todo cuidado a sua vocação e os
meios usados por Deus para chamá-lo ao Instituto. (n. 933).
Ainda mais:
Haverá também um livro, onde o mestre anotará se por acaso acontecer a morte de alguém no noviciado, fazendo nele um pleno elogio das virtudes mais essenciais exercidas pelo falecido noviço.., afim de que sirvam mais
59
para a instrução dos outros do que para sua perpétua memória, uma vez que
in memoria aeterna erit justus. (n. 957)
Quanto a isso se prevê um pequeno arquivo, no qual:
se conservarão com toda a cautela não somente estes livros, mas também todas as vocações dos noviços, e qualquer outro escrito que diga respeito a eles. (n.958)
Os critérios para as demissões são referidos aqui por extenso: ("Das causas
razoáveis para se dispensar do noviciado"):
Quem mostrasse um pequeno mau odor de impureza, em atos ou em
palavras. ( n. 962)
Quem se descobrisse ter parentes pobres, que pudessem depois ter
necessidade do súbdito. (n. 966)
Quem, por ter perdido pai, ou da mãe, ou irmão mais velho, tivesse irmãs na idade de casamento, e, muito mais, irmãos ou irmãs menores, aos
quais fosse necessária sua ajuda. (n. 967)
Quem se descobrisse ter dívidas, ou outros compromissos, aos quais
devesse por consciência reparar. (n. 968).
Finalmente se dispensarão sempre os jovens de mau humor, obstinados nas suas opiniões, mornos e descabeçados, que não tivessem a peito
seu proveito e a abnegação de si mesmos, não somente como inúteis, mas
ainda como danosos e de sumo prejuízo para o Instituto. (n.970).
Em fim uma nota de humanidade e de higiene (muito presente em Falcoia,
como no Fundador e em todas as cartas dos nossos, como se viu):
Para mais favorecer a saúde dos jovens, no noviciado haverá sempre
uma hora de manhã, e uma outra durante o dia, de exercícios manuais, que
não sejam de modo nenhum distrativos mas um tanto cansativos, para dar
movimento à máquina do corpo e promover nela uma ótima digestão.
(n.927)151
151
Será que nessa "máquina do corpo" não haveria alguma influência de Descartes?
60
A Constituição sobre o Mestre dos noviços aprofunda as linhas pedagógicas
até aqui delineadas:
A única e principal obrigação do mestre dos noviços será instruir os
nossos jovens no santo amor e temor de Deus, e sobretudo embebê-los totalmente do espírito de nosso santo Instituto, conforme nossas Regras e
Constituições. (n. 1079)
Insinue de modo especial e faça que nossos jovens tenham sumamente a peito a perfeita imitação de Jesus Cristo, o exercício da santa humildade e do desprezo de si mesmos, o obedecer cegamente e o sujeitar-se a
todos, o desprendimento dos parentes e das coisas do mundo, e sobretudo o
verdadeiro espírito de mortificação própria, não só interior mas também exterior; ao conceder-lhes, porém, licença para as mortificações corporais, esteja
atento para não ser tão liberal a ponto de perderem a saúde, tornando-se
inúteis para o Instituto, nem tão parco e contrário que venham os jovens a
esfriar no espírito, tornando-se amantes de si mesmos, inimigos do sofrer e
da mortificação cristã. (n.1080).
Faça-lhes toda semana, conforme as Constituições, conferências espirituais, ensinando como fazer oração mental e exercitar-se com proveito na
oração vocal, e também como examinar e julgar a si mesmos, vencer e superar as próprias paixões, confessar-se e comungar dignamente, e fazer com
fruto a leitura dos livros espirituais. Do mesmo modo ensine-lhes qual o verdadeiro e qual o falso recolhimento, a utilidade e a necessidade da pureza de
intenções, da presença de Deus, do exercício das orações jaculatórias. Em
suma, explique-lhes o modo de adquirir todas as virtudes, e quanto é necessário despojar-se do homem velho e revestir-se do homem novo, isto é, de
Jesus Cristo, nosso comum Redentor e Mestre. (n.1081)
Inculcará aos jovens, de modo especial, a virtude da modéstia e da
edificação exterior, virtude tão recomendada pelo Apóstolo e tão necessária
a quem deverá tratar e conviver com o próximo. (n.1082)
Sendo o noviciado um ano de provação e de experiência, o mestre não
deve simplesmente instruir e esclarecer os jovens nas coisas do espírito,
mas é também seu dever prová-los e experimentá-los de vez em quando nas
virtudes cristãs e no espirito de nosso Instituto [...] com tal discrição e prudência, que se animem e não desanimem de adquirir as virtudes e de se tornarem semelhantes a Jesus Cristo. ( n.1084).
Interrogue-os e examine todos os seus pensamentos [...] principalmente
a que ponto tenham a peito a perfeita imitação de Jesus Cristo [...]. (n. 1087)
61
Finalmente saiba o mestre que [...] lhe está confiada e colocada em
suas mãos a única coisa de grande importância e de suma conseqüência
para a Congregação, pois que todas boas esperanças do Instituto estão fundadas apenas no bom êxito dos jovens [...]. (1089).
Concluamos com um tópico simpático: O Fundador ia muitas vezes ao noviciado para se entreter com os noviços nas recreações, para celebrar a Missa, e
para repartir com eles os regalos que generosamente ele mesmo oferecia.152
ESTUDANTADO
Apresentamos algumas disposições, sempre tiradas das Constituições de
1764, com respeito ao progresso espiritual e ao equilíbrio psico-físico. Notar o interesse pelo apostolado.
[Além do retiro comum mensal], os estudantes para compensar a distração dos estudos, farão também retiro e se entreterão somente com Deus
todos os domingos desde o despertar da manhã até ao primeiro sinal. (n.974)
Todo ano, desde a segunda-feira santa até a sexta-feira inclusive, farão cinco dias de exercícios espirituais. (n.975)
No tempo de canícula diminuir-se-ão os estudos ao arbítrio do Reitor e
do professor. (n. 976)
Todos os domingos participarão da Academia das missões e, não havendo padres suficientes, eles a farão com aqueles poucos que estiverem
em casa, exercitando-se nos gestos e tons das missões, fazendo de improviso alguma coisa a esse respeito. (n. 977)
Não se dedicarão à outra coisa senão ao estudo e a si mesmos. (n.
978)
152
Cfr. KUNTZ, Commentaria, V, 475-476 (testemunho do Pe. Nicola Mansione). Sobre a solicitude de Sto.
Afonso para com os estudantes e noviços (e irmãos) veja TANNOIA, II, 360-366.
62
Sairão a passeio fora de casa, além da quinta-feira pela manhã ou durante o dia, ainda em todas as festas, nas quais são proibidos os trabalhos
servis. Aos domingos, porém, se comodamente se puder, serão mandados
pelo reitor dois ou três a dar a doutrina cristã pelas paróquias. (n. 983)
Também aqui uma nota alegre e divertida: Sto. Afonso gostava de estar no
meio dos jovens estudantes, e também jogar bola com eles no jardim.153 Mas em
1761 proibiu (ou foi como que constrangido a proibir) "o jogo de bola", porque era
motivo de distração para os estudantes e de pouca edificação para as visitas, especialmente para os que faziam os exercícios espirituais.154
QUASE UM SEGUNDO NOVICIADO
Terminado o curso completo de estudos, inclusive também a teologia
moral, afim de que possam nossos jovens revigorar o espírito, talvez descuidado ou decaído de qualquer modo no curso deles, deve-se dar-lhes seis
meses de recolhimento [...] e nesse tempo [...] se prepararão para as pregações e os outros exercícios missionários. (n.991)
3. AS FONTES LITERÁRIAS
O ambiente vital, do qual os redentoristas hauriam convicções e comportamentos, era esse que tentamos descrever. A este ponto é oportuno, todavia, matizar a afirmação, distinguindo entre a primeira geração e aquelas que se seguiram.
No primeiro período (mais ou menos de 1732 a 1755) encontramo-nos geralmente
de frente com pessoas adultas, já possuidoras de uma espiritualidade própria. Essas diferentes espiritualidades são, porém, restruturadas e amalgamadas pelo
"projeto" comum, ou seja por um espírito próprio missionário vivido em comunidade. Um tanto diversa é a situação dos redentoristas no período seguinte (mais ou
menos de 1755-1793). Aprovada a Regra e restauradas as estruturas, a formação
tinha uma sua caminhada precisa e própria. Tinha-se afinal um quadro de referências capaz de plasmar a espiritualidade de cada um, de uma koiné espiritual que
encontrava no Cristo Redentor, Primeiro Missionário, sua chave de leitura.
153
Cfr. KUNTZ, Commentaria, v. Apêndice I, 237; VI, 117.
LETTERE, I, 461: “Aos fratres estudantes da Casa de Ciorani”. Os acontecimentos em torno do Regulamento, o clima de revolução iminente e outros fatores tiveram repercussão no estudantado. Dai noticiais pouco edificantes e até turbulências. Cfr. KUNTZ: Commentaria, XII, 244-249. A divisão do Instituto foi acontecimento traumatizante que levou alguns a deixarem, ou a porem em risco a vocação. Por ex., o Pe. Gaudino,
reitor da casa de Stilo, escrevia entre outras coisas ao Pe. Tannoia: "Eu estou tentado a me aconselhar [...]
para ver se é vontade de Deus que eu saia da Congregação, havendo tanta desunião". KUNTZ, Commentaria,
XII, 269. Cfr. nota 133.
154
63
Consolidado, pois, que a vida comunitária é para o grupo fonte primária de
inspiração, queremos saber quais instrumentos de suporte alimentaram o crescimento e a qualidade do processo. Saber, isto é, que literatura ascética os congregados tinham como ponto de referências para sua leitura espiritual em particular,
para suas meditações, para os exames de consciência, para estruturar seus retiros mensais e anuais, etc. A resposta não é fácil, e os resultados serão sempre
aproximativos. Temos contudo dois critérios para identificar os centros de interesse literário: os testemunhos dos próprios congregados, a começar pelo Fundador,
e as bibliotecas de nossas primeiras casas (de formação ou não). O primeiro critério, que seria para nós o mais importante, oferece infelizmente somente retalhos
de informações, úteis, porém, para se fazer uma idéia do problema. O segundo é
certamente indicativo de gostos e de orientações, mas tem seus limites: antes de
tudo pelo fato que a data de publicações de um livro não implica necessariamente
sua colocação sincrônica nas estantes; sua aquisição, de fato, pode ser posterior
de decênios, o que, para um período como aquele que estamos considerando, é
para nós elemento que não deve ser desprezado.
Os testemunhos dos congregados
Uma das mais antigas cartas de Sto. Afonso, dirigida a uma comunidade de
monjas (1731), fala de muitos livros por ele enviados para a meditação, ou para
leitura nas celas e no refeitório; respectivamente 8, 11, e 6 livros: realmente "uma
boa provisão" como ele mesmo disse. Entre os autores citados: Sanvitale (de maneira implícita), Da Ponte e Spinola, jesuítas; Marchese, do Oratório.155 Para a
Irmã Brianna Carafa recomenda a Imitação de Cristo ("um livro de ouro, eu o leio
todo dia"), mas também os seus livros: Setas de Fogo (no Caminho da Salvação),
Prática de amar Jesus Cristo (recém saído da editora), etc.156 Nas Brevi notizie
informa-nos que sobre a mesa desnuda do Pe. Cáfaro estavam somente o Novo
Testamento, o livro de Tomás de Kempis e as Visitas.157 Escrevendo aos congregados, aconselha-lhes seus livros sobretudo para a meditação, porque ricos de
afetos e orações: "Recomendo fazer a meditação as mais das vezes usando meus
livros". Entre outros: Preparação para a morte; Reflexões sobre a Paixão, Setas de
fogo (no Caminho da salvação), Novena de Natal.158
155
LETTERE, I, 8-9.
Ibid., II, 51, 54, 58-59, 76-77, 82; cfr. também 467 e 477. A seu próprio pai, dom Giuseppe de Liguori,
(28 de março de 1743) recomenda "comprar alguma Vida de Santos": a vida de São Luiz Gonzaga, há pouco
saída do prelo, a de São Filipe Nery, de São Pascoal ou de São Pedro de Alcântara, as Verdades eternas de
Rosignolli e as Máximas eternas de Caetaneo. LETTERE, I, 86.
157
Ibid., Brevi notizie cit., 451.
158
LETTERE, II,81-82 (circular de 26 de fevereiro de 1771). Em fevereiro de 1775 o Fundador envia ao Pe. De
Paola, reitor de Scifelli, Le vite dei santi de Croiset "para uso dessa casa". LETTERE, II, 325.
156
64
Sportelli escrevendo a sóror Maria Ana Josefa de Jesus (do mosteiro de
Scala), a propósito da virtude do mês (à qual volta três vezes), declara ótimo o
Sangiurè (citado pela irmã) e acrescenta: "mas para a senhora julgo melhor o Rodrigues".159 Ambos os autores são jesuítas. Tannoia, no elogio que fez de Domingos Blasucci, recorda que no noviciado "tinha as cartas de São Paulo, pediu as
meditações de Sto. Agostinho, tinha sempre Tomás de Kempis nas mãos".160
Uma indicação interessante, embora modesta, é a que encontramos na
Constituição de 1764 a propósito do sócio dos noviços:
Entrando algum postulante para o noviciado, compete a ele pregar-lhe
privadamente no quarto os Exercícios espirituais, fazendo-lhe as meditações
segundo o método de Sto. Inácio, de manhã, ao meio dia, e à tarde, na hora
isso se estiver fazendo na comunidade. (n.1097)
As antigas bibliotecas161
Diante da impossibilidade prática de consultar as bibliotecas de Deliceto, de
Ciorani, de Sant'Angelo a Cupolo, por causa dos reveses naturais e das mudanças
acontecidas, fizemos uma sondagem na biblioteca de Pagani, que ficou quase intata e que está provida de um fichário bastante bom, embora não completo. Consultamos também a biblioteca de Scifelli, que confirmou os resultados de Pagani.
Queremos fazer notar logo que as fontes identificadas para as obras ascéticas de
Sto. Afonso,162 situam-se em grande parte no mesmo território ascético-espiritual
freqüentado pelos nossos congregados no século XVIII. Fica confirmado quanto
se disse na introdução a respeito do contexto religioso daquele século: a literatura
espiritual da Companhia de Jesus ocupa os espaços maiores na formação das
almas, também dos redentoristas. Falamos de uma literatura religiosa global que
abarca vários gêneros religiosos: prontuários, meditações, virtudes, máximas eternas, mistérios da vida de Jesus, devoções à Nossa Senhora e aos santos, importância da oração, exercícios de piedade, hagiografia e semelhantes.163
159
Sportelli, Epistolae cit., 46-47.
Cfr. KUNTZ, Commentaria, V (1752), 13-15. Um dos companheiros do estudante, Zabbati, herdou dele o
livro da Imitação de Cristo e escreveu na capa: "Ó santo, ó santíssimo jovem, a tua memória será eternamente
bendita". Cfr. A. BERTHE, Sant'Alfonso M. de'Liguori cit., I, 519.
161
Sobre este assunto, cfr. Storia CSSR, 597-598 (FERRERO).
162
Cfr. G. CACCIATORE, Le fonti e i modi di documentazione, in Opere Ascetiche, Introduzione generale,
Roma 1960, 119-237.
163
Quanto a uma eventual influência de Sto. Inácio de Loyola sobre Sto. Afonso, cfr. T. REY-MERMET, La
doctrine spirituelle de saint Alphonse, in Alphonse de Liguori Pasteur et Docteur, Paris 1987, 285-287, onde
se redimensiona bastante a influência de Sto. Inácio, enfatizada pelo redentorista GERMAIN LIÉVIN, em La
route vers Dieu. Jalons d’une spiritualité alphonsienne, Fribourg Suisse – Paris 1963, 5-36: Exercices spirituels de saint Ignace et spiritualité alphonsienne.
160
65
Os redentoristas e os outros
Para os redentoristas do século XVIII vale, pois, com muita probabilidade, o
que se afirma de Sto. Afonso, isto é, que entre as fontes gerais predominam Santa
Teresa d'Avila, São Francisco de Sales e, num plano inferior, São João da Cruz,
seguidos de Rodrigues, de Saint-Jure e de Scaramelli. Rodrigues, em particular,
representa um pouco a summa da ascética pós-tridentina, um ponto de referência
obrigatório não só para o século XVIII, mas até para nosso século.164
Tentando um confronto entre Rodrigues, Scaramelli e autores de impostação
análoga, pode-se constatar que as mesmas temáticas, com maior ou menor amplitude, aparecem na espiritualidade redentorista. Veja-se em particular o espaço
reservado por Rodrigues a títulos como oração (36 cc.), conformidade com a vontade de Deus (34 cc.), humildade (40 cc.) e a freqüência dos mesmos termos na
espiritualidade redentorista. Deve-se, porém, assinalar uma diferença importante
no tocante à figura de Jesus Cristo. Na sua obra muito vasta, Rodrigues dedica
um tratado a Cristo e aos mistérios da Paixão (Parte II. Trat. 7o) e um outro à Eucaristia como comunhão e como sacrifício (Ibidem, Trat. 8o). Parece-nos, na verdade, um espaço modesto, além do fato que o tratado, de acordo com o título da
obra, é apresentado como "meio" para a perfeição, mais do que como catalisador
de todo o processo espiritual.
164
Afonso Rodrigues (1537-1622), João Batista Saint-Jure (1588-1637) e João Batista Scaramelli (16871752), o primeiro especialmente, são a vanguarda de uma maciça presença de autores da Companhia de Jesus
na ascética afonsiana e redentorista das origens. Vamos dar apenas a lista desses autores, em ordem cronológica; mencionar também suas obras ocuparia muito espaço.
Baltazar Alvarez (1553-1580); Achille Gagliardi (1537-1607); Luca Pinelli (1542-1607); Gregorio Mastrilli
(1550-1633); Luís da Ponte (1554-1624); Francesco Pavone (1569-1637); Stefano Binet (1569-1639); Nicola
Lancizio (1574-1653); Fabio Ambrosio Spinola (1593-1671); João Eusébio Nieremberg (1595-1658); Tiago
Nouet (1605-1680); Giovanbattista Manni (1606-1682); Daniello Bartoli (1608-1685); Tommaso Auriemma
(1614-1671); João Crasset (1618-1692); Giuseppe Agnelli (1621-1706); Paolo Segneri (1624-1694); Francisco Nepveu (1639-1708); Carlo Gregorio Rossignoli (1631-1707); Cláudio de la Colombière (1641-1682);
Carlo Ambrogio Cattaneo (1645-1705); Benedetto Rogacci (1646-1719); Antonio Natale (1648-1706); Alessandro Diotallevi (1648-1721); João Croiset (1656-1738); Giuseppe Antonio Patrignani (1659-1733); José de
Gallifet (1663-1749); Giacomo Sanvitale (1668-1753); Paolo Segneri Juniore (1673-1713); Liborio Siniscalchi (1674-1742); Francesco Pepe (1684-1759); Sertorio de Matthaeis (1688-1768). Quanto a esses autores e
as olbras que lhes são atribuídas, cfr. C. SOMMERVOGEL, Bibliothèque de la Compagnie de Jésus, ParisBruxelles, 1885-1960, 12 voll. Sobre o tema veja-se F. JAPPELLI, A. M. De Liguori e i Gesuiti, in Alfonso M.
De Liguori e la Società civile del suo tempo, Firense 1990, 77-98, especialmente as páginas 85-86: “espiritualidade afonsiana e jesuítica”. Mas as "fontes literárias" da espiritualidade redentorista não se restinge aos
jesuítas. Devem-se citar representantes de outras escolas de espiritualidade; em primeiro lugar o autor (Tomás
de Kempis ?) da Imitação de Cristo. Depois o beato João d’Avila (1500-1559); Luís de Granada (15051559); s. Teresa d’Avila (1515-1582); s. João da Cruz (1542-1591); Lorenzo Scupoli (1530-1610); s. Francisco di Sales (1567-1622); Luís Abelly (1603-1691); o cardeal Pietro Petrucci (1636-1701); Antonio de
Torres (1637-1713); Ludovico Sabbatini (1650-1724); N. De Ruggiero (não temos as datas exatas; sabemos
que fez o noviciado em 1667-68): estes três últimos eram Pios Operários; s. Leonardo de Porto Maurizio
(1676-1751); Annibale Marchese (1687-1753), oratoriano. A influência do Oratório foi bem mais vasta do
que se poderia supor, cf. T. REY-MERMET, La doctrine spirituelle de saint Alphonse, em Alphonse de Liguori
pasteur et docteur, Paris 1987, 275-299, especialmente 280-282. Mais notícias sobre esses autores em Enciclopedia Cattolica, Città del Vaticano, 1948-1954, 12 voll.; Dizionario degli Istituti di Perfezione, Roma,
1973 ss.; Dictionnaire de Théologie Catholique, troisième tirage, Paris 1923-1950, 15 voll.; Dictionnaire de
Spiritualité, Paris 1934-1994, 16 voll.
66
Na espiritualidade redentorista, a começar pelo Fundador,165 os mistérios da
vida de Jesus, que correspondem às grandes devoções sobre as quais já falamos,
estão no centro, colocando em movimento o exercício de todas as virtudes. É verdade que esta acentuação não é estranha a autores jesuítas, entre os quais sobretudo Nepveu: "trata divinamente do amor de Jesus Cristo",166 Saint'-Jure, Segneri Junior e outros; mas prevalecem as fontes gerais: Santa Teresa, São João da
Cruz, São Francisco de Sales.
O amor a Jesus Cristo, na espiritualidade redentorista, não pode porém reduzir-se às fontes, nas quais de fato se inspira. Ele representa algo de original, de
totalizante. Não nasce de altas considerações teológicas, como na escola berulliana, mas jorra como "retribuição de amor", como resposta afetiva imediatamente
operativa. Esse traço mostra-se como específico da espiritualidade do Fundador e
daquela, a seu modo originalíssima, de São Geraldo. Mas nós a temos notado
também em outras figuras representativas: Sarnelli, Sportelli, Fiocchi, Cáfaro, Vito
Curzio.167
O dinamismo virtuoso, que procuramos esboçar nas suas manifestações
mais expressivas ao tratar das características da espiritualidade redentorista é,
pois, de novo reconduzido para este centro focal: o amor de Jesus Cristo em seus
mistérios (Encarnação, Paixão e Eucaristia). Podemos afirmar, concluindo, que a
espiritualidade redentorista consiste no amor a Cristo Redentor, modelo e fonte da
vida missionária. É ele que tudo unifica e move. É ele o centro propulsor e a razão
165
Pode-se afirmar que de todas as obras ascéticas de Sto. Afonso, a que parece mais se aproximar da impostação de Rodrigues e de autores afins é A Verdadeira Esposa. O próprio título convida à comparação: A verdadeira esposa de Jesus Cristo , isto é, a monja santa por meio das virtudes próprias duma religiosa. Os 124
capítulos (em dois volumes) propõem exatamente um elenco de várias virtudes nas quais uma religiosa deve
exercitar-se. No resto da produção afonsiana prevalece a centralidade temática da pessoa de Cristo. Vejam-se
em particular os livros sobre a Paixão, sobre a Eucaristia etc. A Prática de amar Jesus Cristo , que também
insiste no exercício de algumas virtudes, sugeridas pelo hino da caridade de 1Cor 13, estruturalmente reconduz tudo ao amor de Jesus Cristo como ao ponto focal de todo itinerário espiritual.
166
LETTERE, I, 246 (19 de dezembro [17553]).
167
Cfr. notas 32, 33, 41. Permitimo-nos aqui uma referência às cartas de direção espiritual do Pe. Fiocchi a
sóror Maria Angela del Cielo, onde o tema do amor é continuamente evocado com acentos de rara intensidade. "Ame e passe adiante. Passe adiante e ame. O amor é o fim dos Bem-aventurados, e deve ser enquanto
possível o fim dos viandantes. Leve sempre em conta o Amor, more no Amor, revista-se do Amor, respire no
Amor, aja por Amor, seja insaciável no Amor; e seu tudo seja o Amor" (setembro de 1765). em SHCSR 31
(1983), 34. A Irmã Maria de Jesus de Ripacandida escreve assim: "A Regra que lhe dou é plantar-se no coração Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Contemple a humanidade sacrossanta, as virtudes, a
Paixão de Jesus Cristo, e contemple a divindade, as divinas perfeições, e quando o Senhor a levar ao Amor,
todos seus ossos gritam: Amo, amo, amo", em SHCSR 29 (1981) 278. “Filha, tíbia ou fervorosa, exata ou
imperfeita, não se inquiete, basta que procure sempre ir a Deus, voando ao seu centro, ao seu tudo, abandonando-se nele”, ibid., 280-281. “Filha, ame muito Jesus Cristo [...]. Filha, ame muito seu Esposo Jesus Sacramentado [...]. Filha, ame muito o seu Deus, una-se a ele familiarmente [...]. Quero que se consagre de
maneira particular ao Espírito Santo. Seja ele o Senhor de você toda, toda, toda”. Ibid. ,280-281. Quanto a
isso é precioso um testemunho de Sto. Afonso sobre Sarnelli: “Dizia um grande servo de Deus e grande operário evangélico, o Padre Gennaro Sarnelli: “Gostaria de nada mais fazer senão andar pregando por toda a
parte ‘amem Jesus Cristo, amem Jesus Cristo porque o merece’”: Lettera a un religioso amico, Opere Ascetiche, III, Turim 1874, 325.
67
de ser da Congregação. De toda a obra afonsiana, centrada na "prática de amar
Jesus Cristo" queremos trazer este trecho de uma carta circular: "Caros irmãos, a
coisa principal que lhes recomendo é o amor a Jesus Cristo. Somos muito obrigados a amá-lo. Ele desde toda a eternidade nos escolheu e chamou à esta Congregação, para amá-lo e fazê-lo amado pelos outros. E que maior honra e fineza podia Jesus Cristo usar para conosco, do que tirar-nos do meio do mundo, para
atrair-nos ao seu amor e não procurar outra coisa nesse peregrinar de nossa vida,
pelo qual devemos passar para a eternidade, que dar-lhe gosto e fazê-lo amar por
tanta gente, que continuamente cada ano por nosso intermédio deixa o pecado e
se coloca na graça de Deus? [...]. Ora se Deus nos honra assim, escolhendo-nos
para meios da sua glória e para fazê-lo amar pelos outros [...] quanto devemos
agradecer-lhe e amá-lo mais que os outros [...]. Procuremos avançar sempre, dia
a dia, no amor para com Jesus Cristo [...]. E se quisermos afeiçoar-nos sempre
mais ao afeto de Jesus Cristo, coloquemo-nos sempre no último lugar [...]. Quem
mais se esconde entre os homens, mais se une a Jesus Cristo [...]. Quem não se
importa com as Regras, também não se importa com o amor de Jesus Cristo; vêse pela experiência que quem de olhos abertos comete um defeito contra Regra,
mais ainda se o defeito é cometido repetidas vezes, logo se sente árido e frio no
amor divino.
Já sabeis que o meio mais eficaz para sofrer as coisas contrárias é amar
bastante Jesus Cristo, e para amar bastante Jesus Cristo precisa pedir bastante.
Amar Jesus Cristo é a maior obra que podemos fazer nesta terra; e é uma obra,
um dom que não podemos ter por nós mesmos: dele deve nos vir, e ele está
pronto a dá-lo a quem lho pede; por isso, se falta, é por nossa causa que falta,
pelo nosso desleixo [...]. Abençôo a todos e a cada um em particular, em nome de
toda a Santíssima Trindade, e peço a Jesus Cristo que, pelos seus méritos, aumente em cada um que agora vive e viverá na Congregação, aumente, digo, sempre mais o seu divino amor [...]. Termino, mas quisera nunca terminar, pelo desejo
que tenho de ver todos enamorados de Jesus Cristo e operários de sua glória".168
Esta circular representa um pouco a summa da espiritualidade afonsiana e,
para os redentoristas de todos os tempos, um testamento.
COMO CONCLUSÃO
No encerramento do tratado uma pergunta: No período das origens (17321793 aproximadamente), pode-se falar de evolução na espiritualidade redentorista? As duas gerações que cobrem esse período apresentam diferenças tais que
168
Circular de 29 de julho de 1774, em LETTERE, II, 284-288, passim.
68
façam pensar em saltos de qualidade? Em outras palavras: o aspecto dinâmico da
espiritualidade redentorista, inseparável dos processos culturais do momento histórico, implicou mudanças significativas de tal importância que se possa supor
uma "evolução" da espiritualidade redentorista? Tentamos formular uma resposta
mediante aproximações sucessivas.
1. Se se olhar para o desenvolvimento interno do grupo, é inegável que, em
matéria legislativa, encontramo-nos com elaborações sucessivas, que dos inícios
chegam até a Regra Pontifícia e às Constituições de 1764. Embora devendo registrar diferenças de tons e de impostações entre diversos documentos "regulares", é ainda necessário reconhecer que nada de substancial interveio para mudar
a inspiração originária, aglomerada em redor do Projeto Apostólico e das exigências operativas que dele promanam. Através de várias formulações, a espiritualidade redentorista encontrou sempre seu ponto forte na dimensão missionária, como
coração da imitação. Sob esse aspecto seria pelo menos impróprio falar de "evoluções" no sentido estrito.
2. Se se olhar para a gradual formação do grupo, precisa logo constatar,
como já se acenou, um caminho diferente entre a primeira geração e a que a sucedeu. Enquanto de fato no primeiríssimo período (mais ou menos de 1732 a
1755) Sto. Afonso e seus companheiros já possuem uma espiritualidade mais ou
menos consolidada, que encontrará seu ponto de encontro e de ligação no Intento
proposto pelo Fundador, a segunda geração será plasmada conforme as grandes
linhas diretivas do novo Instituto. Os jovens, de fato, (aos quais Sto. Afonso, diferentemente de Falcoia, quis abrir desde os inícios as portas) mostram-se mais receptivos e maleáveis diante das exigências da vocação missionária vivida em comum.169 Para a finalidade providenciam-se estruturas idôneas de apoio (curso de
humanidades, noviciado, estudantado) que, mesmo correndo o risco da repetição
automática e da repressão da criatividade, têm a vantagem de dar maior solidez e
agilidade ao grupo que cresce. Há, pois, neste primeiro período uma passagem do
momento inspiracional ou carismático, no qual emergem as figuras típicas, para
outro mais estritamente institucional, no qual predomina um enquadramento formativo mais estruturado. É difícil estabelecer a interação entre os dois momentos.
É comum e normal que entre eles existam tensões; não tais, porém, que façam
pensar numa "evolução". Parece suficiente dizer que houve passagem de geração.
3. Se se olhar para o quadro cronológico geral, parece-nos oportuno relembrar alguns eventos que, de algum modo, contribuíram para promover o crescimento do grupo. Lembremos rapidamente: o voto de perseverança (1740); a
emissão, depois da morte de Falcoia, dos votos simples junto com o voto de ir
evangelizar os infiéis (1743); a aprovação pontifícia das regras (1749); o Capítulo
de 1755; a primeira tentativa de redigir um corpus de Constituições; a redação de169
Escreve o Pe. Tannoia: "Fora determinado desde o ano antecedente (1746) admitir jovens também de dezoito anos, porque menos embebidos do século e mais aptos a receber as impressões da graça". TANNOIA, II,
183.
69
finitiva das Constituições (1764); o Regulamento, com a sucessiva divisão do Instituto em dois ramos (1780).
Todos estes acontecimentos deixaram sua marca sobre a fisionomia do grupo. Particularmente a Regra pontifícia e as Constituições de 1764 darão configuração definitiva ao quadro de referência ideal, ou programático, da espiritualidade
redentorista. Falamos da configuração objetiva e comunitária, que ficará estável
durante dois séculos, salvos alguns ajustamentos marginais. O Capítulo de 1783
elenca um resumo de faltas mais ou menos graves contra a observância, reagindo
contra elas com vigor, mas o quadro de referências fica o mesmo: entre outras
coisas insiste-se na exata observância dos "antigos costumes, tanto em casa
como nas missões".170 Por sua vez, o Capítulo da reunificação (1793) detêm-se
sobre os abusos contra a disciplina regular, tanto em casa como nas missões,
provocados pela tempestade do Regulamento e pela sucessiva divisão, recordando com força o primitivo fervor.171 Como se pode ver, o quadro de referências,
para o qual se apela, já está fixado há tempo, seja do ponto de vista estritamente
legislativo ou dos costumes. Falar, pois, de "evolução" seria realmente impróprio.
4. Se da configuração objetiva se passa para a subjetiva e pessoal, devemse registrar as "distâncias", isto é, precisa reconhecer carências na prática efetiva,
ou seja, na atualização do modelo proposto. Na realidade, a conformidade do
comportamento individual com o quadro de referências de algum modo se torna
difícil na medida que o grupo cresce em número. Mas trata-se de um fenômeno
mais ou menos fisiológico, que não deve portanto causar maravilhas. Quanto a
isso apontamos vários aspectos negativos;172 lembrando, porém, ao mesmo tempo que defeitos e atrasos, quando não se autoeliminam por abandonos e defecções, são facilmente absorvidos pelo grupo que, complessivamente, goza de boa,
e até de ótima saúde. No grupo de fato destacam-se figuras de alta tensão interior,
que arrastam os outros. No centro está a figura do Fundador: suas cartas circulares e sua simples presença levam ao esforço generoso. Do ponto de vista subjetivo, falar de "evolução" não nos parece portanto ter muito sentido. De mais a mais,
tratam-se de variações e de fenômenos de ajustamento interno de uma espiritualidade fundamentalmente homogênea. E de resto é bom não esquecer que, sempre
ficando num quadro comum de referências, é a liberdade do Espírito que plasma
cada um de maneira original e irrepetível. Veja-se o que escrevemos sobre os
"modelos vivos".
5. Voltemos um momento ao Capítulo de 1764, ao Regulamento e ao Capítulo de 1793. Deve-se dizer que, embora com diferente intensidade, foram acontecimentos traumáticos para a coesão e a manutenção do grupo. Já no Capítulo de
1764, mas ainda mais a propósito do Regulamento, pressiona de uma parte a mudança de gerações que impulsiona à mudança, e, de outra, estão as estruturas de
governo mais ou menos tentadas de se fechar em si mesmas. A presença do
170
Cfr. LETTERE, II, 644-651 (30 de agosto de 1783).
Cfr. Acta integra, pg. 111-125, passim. A circular de Blasucci está em Documenta miscellanea, 181-189.
172
Cfr. nota 133 e, em parte, nota 146.
171
70
Fundador, agora bispo, embora respeitada, é sentida como muito distante; e o retorno a Pagani, embora recebido com gratidão, não consegue refrear impaciências, pressões e até excessos por parte dos "coronéis", segundo cuja opinião,
certa ou errada, a autoridade do Fundador parece de certo modo instrumentalizada pelos conselheiros. Por sua vez, o Capítulo de 1793 recomporá a unidade institucional, mas as feridas e os traumas continuarão a se fazer sentir, seja nas pessoas, seja nas comunidades. Tudo isso reflete-se evidentemente no clima espiritual. Mas a propósito destes três acontecimentos maiores, não nos parece apropriado falar de "evolução" ou mudança de espiritualidade. Trata-se apenas de uma
experiência, às vezes dramática, que nos seus desdobramentos existenciais nem
sempre se acomoda ao ideal. Em particular, o Regulamento, que por suas conseqüências representa o acontecimento mais traumático, não significa ruptura com o
passado quanto às linhas de fundo da espiritualidade. Essa continuava a mesma,
claramente definida nas regras e Constituições, bem como nos exemplos dos modelos emergentes; e a partir dela eram avaliados eventuais desvios e infidelidades..
Concluamos: No período das origens (1732-1793) a espiritualidade redentorista, embora sofrendo os contragolpes dos processos históricos, tanto internos
como externos, é atestada, desde a primeiríssima fase do seu desenvolvimento,
por posições sempre definidas e plasmadoras. Seria impróprio falar de "evolução"
no sentido formal.
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A Espiritualidade Redentorista das Origens