Faculdade Boa Viagem – DeVry Brasil Centro de Pesquisa e Pós-Graduação em Administração – CPPA Mestrado Profissional em Gestão Empresarial – MPGE Alexandre Azevedo Magalhães Costa Turismo e Memória: Um estudo dos museus e igrejas da cidade do Recife como lugares de memória e seu aproveitamento como atrativo turístico Recife-PE 2012 FACULDADE BOA VIAGEM – DeVry Brasil CPPA – CENTRO DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO MPGE – MESTRADO PROFISSIONAL EM GESTÃO EMPRESARIAL CLASSIFICAÇÃO DE ACESSO A DISSERTAÇÕES Considerando a natureza das informações e compromissos assumidos com suas fontes, o acesso à dissertação do Mestrado Profissional em Gestão Empresarial – MPGE do Centro de Pesquisa em Administração – CPPA – da Faculdade Boa Viagem é definido em três graus: Grau 1: livre (sem prejuízo das referências ordinárias em citações diretas e indiretas); Grau 2: com vedação de cópias, no todo ou em parte, sendo, em consequência, restrita à consulta em ambientes de bibliotecas com saída controlada; Grau 3: apenas com autorização expressa doa autor, por escrito, devendo, por isso, o texto, se confiado a bibliotecas que assegurem a restrição, ser mantido em local sob chave ou custódia; A classificação desta dissertação se encontra, abaixo, definida por seu autor. Solicita-se aos depositários e usuários sua fiel observância, a fim de que se preservem as condições éticas e operacionais da pesquisa científica na área de administração. Título da Dissertação: “Turismo e Memória: um estudo dos museus e igrejas da cidade do Recife como lugares de memória e seu aproveitamento como atrativo turístico” Nome do(a) autor(a): Alexandre Azevedo Magalhães Costa Data da Aprovação: 06 de novembro de 2012 Classificação conforme especificação acima: Grau 1 Grau 2 X Grau 3 Recife, 27 de novembro de 2012 ______________________________________________________ Alexandre Azevedo Magalhães Costa Alexandre Azevedo Magalhães Costa Turismo e Memória: Um estudo dos museus e igrejas da cidade do Recife como lugares de memória e seu aproveitamento como atrativo turístico Dissertação apresentada como requisito complementar para obtenção do grau de Mestre em Gestão Empresarial do Centro de Pesquisa e Pós-Graduação em Administração – CPPA da Faculdade Boa Viagem – DeVry Brasil, sob orientação do Professor José Raimundo Oliveira Vergolino, Ph.D. Recife-PE 2012 “Guardar a memória. Viver a história.” Alexandre Herculano (1810-1877) Dedico este trabalho a meus pais, Vera e Guilherme, e à minha tia Vilma (in memorian) por terem sidofundamentais em minha formação como ser humano. AGRADECIMENTOS A Deus por iluminar e abençoar minha caminhada até aqui. A meus pais, Vera e Guilherme, por sempre contribuírem para meus estudos e por me apresentarem os melhores caminhos da vida. À Faculdade Frassinetti do Recife – FAFIRE por incentivar meu crescimento como professor e ser humano. Em especial, à Direção pela fundamental contribuição para a concretização do mestrado. À Companhia Hidro Elétrica do São Francisco – Chesf por apoiar esse processo construtivo de minha trajetória. A meu orientador, professor Dr. José Raimundo de Oliveira Vergolino, pela paciência e dedicação na construção da pesquisa e por acreditar nas possibilidades do objeto de estudo. Aos professores do Mestrado Profissional em Gestão Empresarial, da Faculdade Boa Viagem, por dividir conosco o conhecimento ao longo desse percurso. Em especial, aos professores: Olímpio Galvão por me apresentar a um tema tão amplo e fascinante e pelo apoio; Hajnalka Halász Gati por me fazer entender e amar ainda mais o ofício de professor; Maria Auxiliadora Diniz de Sá por me apresentar o infindável mundo da pesquisa qualitativa; Augusto Oliveira por desmistificar o uso das fórmulas estatísticas; James Falk por sua animação, presença e incentivos constantes; e, Lúcia Barbosa pelo apoio e ajuda frequentes. A todos meu muito obrigado. Às secretárias do MPGE, Albina e Rosana, pela disponibilidade de sempre. À professora Dra. Icléia Thiesen, minha tia, por me apresentar Le Goff, Halbwachs, Bosi, Nora, entre outros, e descortinar o maravilhoso mundo do estudo da memória. Uma ajuda fundamental nessa trajetória. Às amigas Valéria Mendonça, uma irmã de alma que a vida me deu, e Fátima Sousa, que chegou há pouco e ficou no coração, pela força, incentivo, amor, cobranças e presença permanentes nesse caminho evolutivo. À amiga Ceci Amorim, uma pessoa especial, pela contribuição essencial nesse projeto e pela presença e papos construtivos ao longo desse percurso. Aos amigos de longe: Adriana Mariani, a família dada pela vida; Roberta Silvério, a irmã postiça que chegou há muito tempo; Henriete Cabral, pelas conversas sobre o mestrado; e, Gilton Kennedy, pelo estímulo de sempre. Aos amigos de perto: Rosana Pedrosa, pela força e incentivo constantes; Ana Vila Nova, pelo apoio e colaboração na construção da pesquisa; Ana Rosal, a mãe recifense; Katia e Flávia Assad, a família recifense; e, Paulo Pereira e Alexandre Damião, os novos velhos amigos, pela presença e força. A todos os professores da Fafire pela contribuição nesse caminho. Em especial, ao ex- coordenador de Turismo, professor Eduardo Aguiar, pelo apoio inicial nesse processo; e, ao atual coordenador, professor Moisés Benigno, um amigo, pelo estímulo de sempre e por entender minhas ausências. Às professoras Stefania Souza, pela amizade, Roberta Gonçalves pela ajuda constante, e Márcia Modesto pela contribuição. A todos os colegas da Chesf pela colaboração nessa trajetória. Em especial, Eduardo Salazar, pelo apoio constante; Eya Miranda, pela colaboração fundamental na realização dessa caminhada; Carlos Monte e Mônica Benevides, pela força no trabalho; Germana Zaicaner, pelas conversas esclarecedoras; Oswaldo Nery, pelos diálogos produtivos; e, em especial, a Amélia Souto Maior, que chegou há pouco tempo e teve uma participação fundamental nesse processo. A todos os colegas da Turma 6 do Mestrado Profissional em Gestão Empresarial por essa bela caminhada conjunta, em especial aos amigos Marise Leal, Sophia Lapenda e Antônio Carlos Alves pela força na reta final. A todos os professores da Escola Superior de Relações Públicas – Esurp pelo apoio no processo construtivo de minha trajetória. A todos meus alunos nesses anos de ensino por me fortalecer e engrandecer como professor e ser humano. Todos deixaram suas marcas. E, por fim, a todos que acreditaram ou não, muito obrigado. RESUMO Esta pesquisa surgiu da percepção de que Turismo e Memória, em particular Lugar de Memória, são temas tão próximos e pouco explorados conjuntamente. Então, este trabalho foi desenvolvido com o objetivo de analisar os museus e igrejas do Recife como lugar de memória e o seu aproveitamento como atrativo turístico da cidade. Para melhor entender as características do Turismo atualmente é fundamental uma busca ao passado. O Turismo é uma importante atividade que aumenta sua representatividade na economia nacional. Hoje, Pernambuco e o Recife despontam como fortes polos receptivos do turismo nacional e se percebe uma preocupação com a preservação dos atrativos turísticos. Dentre esses atrativos, é possível ressaltar: as igrejas, principalmente as construídas entre os séculos XVII e XVIII na região central (Bairro do Recife, Santo Antônio, São José e Boa Vista); os museus, localizados na mesma região; e, outros três museus situados na zona norte da cidade. Para o desenvolvimento da pesquisa, fez-se a opção por dividi-la em dois momentos: descritiva e aplicada. A população da pesquisa compreende os museus e igrejas católicas estabelecidas na cidade do Recife. Por se tratar de uma pesquisa qualitativa, a amostra foi a não probabilística. Para a coleta dos dados, optou-se pela pesquisa bibliográfica e a pesquisa e análise documental. Paralelamente, foram realizadas visitas aos museus e igrejas selecionados a fim de verificar o uso dos espaços existentes. Após o processo analítico do corpus, concluiu-se que definir um atrativo turístico como um lugar de memória pode contribuir para seduzir o turista a visitar esse local e para fortalecer a noção de patrimônio. Palavras-Chave: Turismo. Lugar de Memória. Atrativo Turístico. Museu. Igreja. ABSTRACT This search emerged in the understanding that the Tourism and Memory , in particular place of Memory, are topics so closed and less explored together Thus, this paper was developed with the aim at analyzing the museums and churches from Recife as a place of memory and its improvement as a tourist attraction in the city. To better understand the characteristics of the tourism nowadays is essential an investigation in the past. The tourism is an important activity that increases its representativeness in the national financial system. Nowadays, Pernambuco and Recife merge as strong receptive polos of the national tourism and this brings a worry with the preservation of the tourist attractions. Among these attractions it is possible highlight: the churches ( mainly the ones which were built between the 17 th and 18th centuries in the central region (districts of Recife ,Santo Antonio, São José and Boa Vista); the museums, which are located in the same region; and even other three museums in the north area of the city. To have this search developed, it was thought to divide it into two moments: descriptive and applied. The population of the search involves the museums and catholic churches established in the city of Recife. By treating this study as a qualitative search, the sample was the one which is non-probabilistic. In the data collection ,it was selected the bibliographic search and the documental analysis. In parallel, the selected museums and churches were visited in order to examine the use of the existing places. After the analytical process of the corpus, it was concluded that when we define a tourist attraction as a place of memory it can contribute to attract the tourist to visit this place and to build up the idea of patrimony. Keywords: Tourism. Place of Memory. Tourist Attraction. Museum. Church. LISTA DE TABELAS E QUADROS Tabela 1 - Chegadas de Turistas Internacionais no Mundo...................................................... 24 Tabela 2 - Principais Destinos no Mundo ................................................................................ 25 Tabela 3 - Chegadas de Turistas Internacionais nas Américas ................................................ 29 Tabela 4 - Principais Mercados Emissores de Turistas para o Brasil ....................................... 30 Tabela 5 - Chegadas de Turistas Estrangeiros ao Brasil por Unidades da Federação .............. 31 Tabela 6 - Evolução do Fluxo Turístico em Pernambuco – 2000-2010 ................................... 32 Tabela 7 - Permanência Média dos Turistas em Pernambuco 2000-2010 ............................... 33 Tabela 8 - Movimento Anual de Passageiros (Embarcados e Desembarcados) do Aeroporto do Recife ...................................................................................................................... 35 Quadro 1 - A evolução histórica do conceito de patrimônio .................................................... 49 Quadro 2 - Cenário Geral dos Museus e Igrejas a partir das Categorias de Análise .............. 105 LISTA DE FIGURAS Foto 1 - Fachada da Sinagoga Kahal Zur Israel ....................................................................... 68 Foto 2 - Igreja da Madre Deus .................................................................................................. 70 Foto 3 - Museu da Cidade do Recife - Forte das Cinco Pontas ................................................ 73 Foto 4 - Conjunto do Pátio de São Pedro ................................................................................. 74 Foto 5 - Entrada da Casa do Carnaval ...................................................................................... 76 Foto 6 - Fachada do Museu de Arte Popular ............................................................................ 78 Foto 7 - Fachada do Memorial Chico Science ......................................................................... 79 Foto 8 - Fachada do Memorial Luiz Gonzaga .......................................................................... 81 Foto 9 - Concatedral de São Pedro dos Clérigos ...................................................................... 83 Foto 10 - Fachada da Basílica de Nossa Senhora do Carmo .................................................... 85 Foto 11 - Entrada da Igreja de Santa Tereza de Ávila .............................................................. 88 Foto 12 - Fachada do Museu Franciscano de Arte Sacra e Acesso à Capela Dourada ............ 90 Foto 13 - Placa no acesso ao Museu de Arte Sacra e Capela Dourada .................................... 91 Foto 14 - Fachada do MAMAM ............................................................................................... 93 Foto 15 - Fachada principal do Museu do Estado de Pernambuco .......................................... 96 Foto 16 - Acesso à Casa-museu Magdalena e Gilberto Freyre ................................................ 98 Foto 17 - Acesso ao Museu do Homem do Nordeste ............................................................. 100 LISTA DE SIGLAS CNTUR DPPC EMBRATUR EMPETUR FUNDARPE IBRAM ICOM ICOMOS IPHAN MAMAM MAP MEPE MTUR OMC OMT PIB PNT RPA SPHAN UNESCO Conselho Nacional de Turismo Diretoria de Preservação do patrimônio Cultural Instituto Brasileiro de Turismo Empresa de Turismo de Pernambuco Fundação do patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco Instituto Brasileiro de Museus Conselho Internacional de Museus Conselho Internacional de Monumentos e Sítios Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães Museu de Arte Popular Museu do Estado de Pernambuco Ministério do Turismo Organização Mundial do Comércio Organização Mundial do Turismo Produto Interno Bruto Política Nacional de Turismo Região Político-Administrativa Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 14 1.1 Contextualização do Tema ............................................................................................... 14 1.2 Objetivos ............................................................................................................................ 15 1.2.1 Geral ............................................................................................................................... 15 1.2.2 Específicos ...................................................................................................................... 15 1.3 Justificativa ....................................................................................................................... 16 2 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS .......................................................................................... 19 2.1 Cenários do Turismo ........................................................................................................ 19 2.1.1 Turismo no Mundo ........................................................................................................ 22 2.1.2 Turismo no Brasil .......................................................................................................... 26 2.1.3 Turismo em Pernambuco .............................................................................................. 30 2.1.4 Turismo no Recife .......................................................................................................... 33 2.2 Caminhos da Memória e do Lugar de Memória ........................................................... 37 2.2.1 Memória ......................................................................................................................... 37 2.2.2 Lugar de Memória ......................................................................................................... 44 2.3 Patrimônio Cultural: Museus e Igrejas .......................................................................... 47 2.3.1 Patrimônio Cultural ...................................................................................................... 47 2.3.2 Museus ............................................................................................................................ 54 2.3.3 Igrejas ............................................................................................................................. 57 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS...................................................................... 60 3.1 Delineamento da Pesquisa................................................................................................ 60 3.2 Locus da Investigação ....................................................................................................... 61 3.3 População e Amostra ........................................................................................................ 61 3.4 Coleta e Análise dos Dados .............................................................................................. 62 3.5 Limites e Limitações ......................................................................................................... 65 3.5.1 Limites ............................................................................................................................ 65 3.5.2 Limitações....................................................................................................................... 65 4 ANÁLISE E DISCUSSÕES – OS ATRATIVOS MUSEUS E IGREJAS COMO LUGAR DE MEMÓRIA .................................................................................................... 66 4.1 Bairro do Recife ................................................................................................................ 67 4.1.1 Sinagoga Kahal Zur Israel ............................................................................................ 67 4.1.2 Igreja da Madre de Deus............................................................................................... 69 4.2 Bairro de São José ............................................................................................................ 72 4.2.1 Museu da Cidade do Recife – Fortaleza de São Tiago das Cinco Pontas ................. 72 4.2.2 Pátio de São Pedro ......................................................................................................... 74 4.2.3 Casa do Carnaval – Centro de Formação, Pesquisa e Memória Cultural ............... 75 4.2.4 Museu de Arte Popular – MAP .................................................................................... 77 4.2.5 Memorial Chico Science ................................................................................................ 79 4.2.6 Memorial Luiz Gonzaga ............................................................................................... 80 4.2.7 Concatedral de São Pedro dos Clérigos ....................................................................... 82 4.2.8 Convento e Basílica de Nossa Senhora do Carmo ...................................................... 84 4.2.9 Igreja de Santa Tereza de Ávila da Ordem Terceira do Carmo ............................... 87 4.3 Bairros de Santo Antônio e da Boa Vista ....................................................................... 89 4.3.1 Capela Dourada e Museu Franciscano de Arte Sacra ............................................... 89 4.3.2 Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães – MAMAM .......................................... 92 4.4 Zona Norte......................................................................................................................... 94 4.4.1 Museu do Estado Pernambuco – MEPE ..................................................................... 94 4.4.2 Casa-museu Magdalena e Gilberto Freyre – Fundação Gilberto Freyre................. 97 4.4.3 Museu do Homem do Nordeste .................................................................................... 99 5 CONCLUSÃO .................................................................................................................... 102 5.1 Sugestões .......................................................................................................................... 107 REFERÊNCIAS.................................................................................................................... 110 APÊNDICE A – MAPA DE LOCALIZAÇÃO DOS MUSEUS ANALISADOS ........... 116 APÊNDICE B – MAPA DE LOCALIZAÇÃO DAS IGREJAS ANALISADAS............ 117 ANEXO A – SÍTIO INSTITUCIONAL DO MINISTÉRIO DO TURISMO ................. 118 ANEXO B – SÍTIO DA SECRETARIA DE TURISMO DO ESTADO DE PERNAMBUCO ........................................................................................... 119 ANEXO C – SÍTIO DA PREFEITURA DO RECIFE ...................................................... 120 ANEXO C – SÍTIO DA PREFEITURA DO RECIFE – LINK “CONHEÇA O RECIFE” ......................................................................................................................... 121 ANEXO C – SÍTIO DA PREFEITURA DO RECIFE – LINK “PASSEIOS TURÍSTICOS” .............................................................................................. 122 ANEXO D – SÍTIO DA SECRETARIA DE TURISMO DA CIDADE DO RECIFE ... 123 ANEXO E – GUIA TURÍSTICO DO RECIFE ................................................................. 124 ANEXO E – GUIA TURÍSTICO DO RECIFE – SUMÁRIO .......................................... 125 ANEXO F – SÍTIO DO INSTITUTO BRASILEIRO DE MUSEUS – IBRAM ............. 126 ANEXO G – SÍTIO DA ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE – RELAÇÃO DAS PARÓQUIAS DO RECIFE ......................................................................... 127 ANEXO H – FOLDER DO CIRCUITO DAS IGREJAS ................................................. 128 14 1 INTRODUÇÃO 1.1 Contextualização do Tema Esta pesquisa se principia no momento em que há a percepção de que, apesar de serem temas tão próximos, Turismo e Memória, em particular Lugar de Memória, são pouco explorados conjuntamente, tanto no campo teórico quanto no prático. O Turismo é uma importante atividade que, a cada ano, aumenta sua representatividade na economia nacional. O Brasil, por suas dimensões continentais, tem características muito particulares em relação à atividade turística, com uma variedade de atrativos e equipamentos. Há uma constante preocupação dos governos federal e estaduais com a interiorização do turismo no País, fortalecendo, assim, o movimento interno. Para que se possa melhor entender as características do Turismo na atualidade é fundamental uma busca ao passado. Isso pode ser feito de várias maneiras e, entre elas, pode-se destacar a memória e os chamados lugares de memória. Hoje, Pernambuco e, em especial, o Recife despontam como fortes polos receptivos do turismo nacional em virtude de um maior investimento dos governos estadual e municipal na divulgação das potencialidades e atração dos turistas. Percebe-se uma preocupação com a preservação de atrativos turísticos, entretanto, alguns locais estão sendo esquecidos. Os atrativos naturais, como a praia, são, ainda, os grandes responsáveis pela vinda dos turistas à cidade, porém muitos visitantes procuram conhecer os atrativos artificiais, principalmente aqueles inseridos no âmbito do patrimônio histórico, ou em uma visão mais ampla, do patrimônio cultural. Dentre esses atrativos, é possível ressaltar: as igrejas, principalmente as construídas entre os séculos XVII e XVIII na região central (Bairro do Recife, Santo Antônio, São José e Boa Vista), que contribuíram para a formação cultural e religiosa da cidade; os 15 museus, localizados na mesma região, que contribuem para a perpetuação da memória da sociedade; além dos museus da região central, destacam-se outros três situados na zona norte da cidade e que podem ser considerados de forte apelo turístico. Partindo desse contexto, a pesquisa pretende responder à seguinte pergunta: de que forma as igrejas e os museus da cidade do Recife podem ser classificados como lugar de memória e, assim, serem aproveitados na atividade turística da cidade? 1.2 Objetivos 1.2.1 Geral Analisar as igrejas e os museus como lugar de memória e elemento formador do patrimônio e o seu aproveitamento como atrativo turístico da cidade. 1.2.2 Específicos Avaliar a possibilidade de se adotar o conceito de lugar de memória como item de definição de atrativo turístico; Investigar a memória e o lugar de memória como instrumentos para o desenvolvimento dos atrativos de cidades, especificamente da cidade do Recife; Analisar as igrejas e museus da cidade do Recife, apontando aqueles que podem ser caracterizados como lugar de memória. 16 1.3 Justificativa O Turismo no Brasil e no mundo se desenvolve, a cada ano, mesmo com as constantes crises socioeconômicas e as instabilidades políticas. O Brasil, em particular, tem características muito próprias em relação ao Turismo; o apelo mais forte é o turismo de sol e praia, mas, hoje, outros segmentos, como o turismo rural, de aventura, de negócios e eventos, entre outros, crescem e se fortalecem. O estado de Pernambuco e a cidade do Recife seguem essa tendência, investindo em políticas públicas e em campanhas de divulgação para a atração de turistas, principalmente para os segmentos sol e praia, negócios, eventos e saúde. Para que o turismo melhor se desenvolva, é fundamental a existência de atrativos na localidade denominada núcleo receptor. Esses atrativos podem ser: naturais; históricoculturais; manifestações e usos tradicionais e populares; realizações técnicas e científicas; e acontecimentos programados. No âmbito dos histórico-culturais, é possível destacar as igrejas e os museus. No Brasil, entende-se que os primeiros atrativos turísticos surgiram no período colonial e desenvolveram-se com maior impulso a partir do século XX. No Recife, esses atrativos datam do período de fundação e crescimento da cidade a partir do século XVI. As primeiras igrejas importantes, que podem ser consideradas lugares de memória e atrativos turísticos, surgem entre séculos XVII e XVIII. Já os museus, acompanhando uma tendência mundial, têm seu fortalecimento no século XX. O grande impulso para o crescimento e desenvolvimento do turismo local acontece na década de 1960 com o crescimento da cidade em direção à praia de Boa Viagem. Para que se possa melhor conhecer as características do Turismo nos dias de hoje, no País, no estado e na cidade, é fundamental uma busca ao passado e suas lembranças. Ou seja, como as igrejas e os museus habitam o imaginário da população e dos turistas. A memória funciona como um suporte para essa busca de lembranças dos lugares, uma vez que a 17 memória tem como função movimentar o tempo e organizar o passado. A preocupação fundamental não é estabelecer cronologicamente esses dados, mas apresentá-los de forma que remetam à época em que foram criados esses atrativos (igrejas e museus) e qual a representatividade para a sociedade local e para o turismo. E, também, procurar identificar aqueles que atravessaram o tempo e permanecem ainda hoje no imaginário das pessoas. A opção por “lugares de memória” se faz porque, como diz Gastal (2002, p.71), “no turismo tal categorização pode significar um instrumental enriquecedor [...] por incorporar uma concepção que remete diretamente à afetividade, integridade e identidade locais”. A cidade do Recife pode ser considerada um dos principais centros urbanos, no Nordeste, no século XXI. Entende-se que é primordial para uma cidade, que pretende se tornar o principal polo turístico da região, a busca por suas memórias e, assim, construir sua história. O estudo das igrejas e dos museus como lugar de memória e, consequentemente, como um atrativo turístico pode contribuir para a preservação e conservação desses estabelecimentos. E, também, pode concorrer para a diversificação dos segmentos turísticos da cidade, atraindo, sobretudo, turistas interessados em conhecer aspectos da vida cotidiana e, assim, fortalecer o chamado turismo cultural. Para atender essa perspectiva de pesquisa, o trabalho foi estruturado em cinco partes. A primeira é representada pela Introdução, em que são apresentados a Contextualização do Tema, a Pergunta de Pesquisa, os Objetivos e a Justificativa que permite uma compreensão da proposta de estudo. No segundo capítulo, são expostos os pressupostos teóricos referentes a Turismo, Memória, Lugar de Memória, Patrimônio, Museus e Igrejas. A fim de um melhor aproveitamento, o capítulo foi dividido em três subitens, levando-se em consideração a afinidade dos assuntos abordados. Assim sendo, o primeiro apresenta as considerações sobre as teorias do Turismo e os cenários do Turismo na atualidade do mundo, do Brasil, de 18 Pernambuco e do Recife. O segundo subitem discute Memória e Lugar de Memória. E, por fim, são indicadas as noções de Patrimônio Cultural no mundo e no Brasil e, mais especificamente, anotações sobre os conceitos de Museus e Igrejas. O capítulo três trata dos procedimentos metodológicos utilizados na pesquisa e no desenvolvimento do trabalho, indicando o locus da investigação, população e amostra, a metodologia para coleta e análise de dados, e os limites e limitações do estudo. No quarto capítulo, é a apresentada a análise do corpus a partir de categorias estabelecidas que permitem o entendimento do proposto – os museus e igrejas como lugares de memória e a atratividade turística – de maneira sistemática e sustentada pelos indícios da caracterização teórica defendida anteriormente. A fim de um melhor entendimento da análise, o capítulo foi dividido em subcapítulos conforme a localização – bairros – dos atrativos eleitos. A quinta e última parte expõe as Considerações Finais, em que a preocupação foi elaborar uma análise geral que respondesse à Pergunta de Pesquisa e, assim, apresentar algumas sugestões para proveito das avaliações, principalmente teóricas, a respeito do tema estudado. 19 2 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS 2.1 Cenários do Turismo Não há uma definição específica para o Turismo. Pode-se dizer que é uma atividade socioeconômica, uma vez que gera bens e serviços. Então, para melhor entendê-lo, é preciso conhecer alguns conceitos básicos. O primeiro: turista. O turista é aquele viajante que permanece no local visitado, por pelo menos 24 horas, com o objetivo de lazer, negócios, família; os viajantes que permanecem no local por menos de 24 horas são chamados de excursionistas. De acordo com a Organização Mundial de Turismo (s/d), o Turismo é descrito como as atividades que realizam as pessoas durante suas viagens e estadas em lugares distintos de seu entorno habitual, por um período de tempo consecutivo inferior a um ano, com a finalidade de lazer, por negócios e outros motivos, não relacionados com o exercício de uma atividade remunerada no lugar visitado (DIAS, 2005, p.18). Por sua vez, Gomes (2010) acredita que a atividade turística compreende o deslocamento de pessoas, de uma região a outra, por tempo determinado, com o objetivo de satisfazer necessidades e retornar, posteriormente, ao seu local de origem, diferindo-se de outros movimentos espaciais, como a migração ou os movimentos pendulares para trabalho ou estudo (GOMES, 2010, p.15). Avançando no entendimento dos conceitos básicos, o motivo da viagem para a Organização Mundial do Turismo – OMT (apud DIAS, 2005) pode ser classificado em seis divisões: i) lazer, recreação e férias; ii) visitas a parentes e amigos; iii) negócios e motivos profissionais; iv) tratamento de saúde; v) religião/peregrinações; e, vi) outros motivos. É possível, ainda, considerar três tipos de turismo, com base na origem e destino dos visitantes: i) turismo interno (ou doméstico); ii) turismo receptivo; e, iii) turismo emissor (ou emissivo). 20 E, a partir desses, definir outras categorias: o turismo interior, o turismo nacional e o turismo internacional. Muitas vezes, busca-se nas lembranças de um filme, de um livro, dos amigos ou da família a intenção de viajar ou de conhecer um novo lugar. O produto turístico é classificado, no mercado, como complementar, uma vez que é consumido juntamente com outros produtos. Além disso, possui um efeito multiplicador na economia. Ele é multidimensional, pois o consumidor não escolhe um único item e a oferta é feita de forma simultânea. O Turismo gera impactos sociais, ecológicos, entre outros, além dos econômicos. Por isso, Se o processo de decisão e escolha do consumidor do bem turístico é algo complexo e multidimensional, os determinantes da oferta de um bem turístico não é menos complexa [...] o bem turístico tende a ser visto não apenas como um corpo único, mas sim como um conjunto de itens que devem ser ofertados conjuntamente para atender uma ampla gama de interesses dos potenciais consumidores simultaneamente [...] o bem turístico não pode ser dissociado de fatores econômicos, sociais e ambientais exógenos [...]. (BRASIL, 2006b, p.18) Na Organização Mundial do Comércio – OMC, o turismo é classificado em quatro subitens: i) hotéis e restaurantes; ii) agências de viagens e operadoras; iii) serviços de guias turísticos; iv) outros; e, as negociações na área dizem respeito à expansão do fluxo de turistas, à expansão comercial das empresas nacionais no exterior e à abertura do mercado mundial à mão de obra estrangeira. (BRASIL, 2006a). Outros conceitos a serem abordados no estudo do turismo são os de oferta e demanda turística. A oferta turística é entendida como o conjunto de bens e serviços que as empresas e os locais disponibilizam para o visitante, por um determinado tempo. E, pode ser classificada em três grupos: o estoque de recursos naturais; a infraestrutura geral; e, a infraestrutura específica. A infraestrutura geral é a utilizada pelos habitantes e servem de suporte ao turista. A infraestrutura específica diz respeito aos hotéis, meios de transporte, aeroportos, etc. São características da oferta: rigidez, intangibilidade e imobilidade, e a substitutividade do produto em relação a outros bens e serviços. A demanda turística é o número de pessoas que viaja ou 21 deseja viajar para desfrutar dos serviços turísticos em lugares diferentes do habitual. A relação entre oferta e demanda e o desequilíbrio entre elas cria o fenômeno sazonalidade. Quando a demanda é maior que a oferta, temos a alta estação; quando a oferta é maior, temos a baixa estação. Além de oferta e demanda, ainda, é preciso conhecer os conceitos de atrativo e equipamento turísticos. Atrativo é entendido como o lugar, objeto ou acontecimento de interesse turístico que seja capaz de despertar o interesse das pessoas para conhecê-lo. Ou, como elementos de utilização turística que possuem estruturas receptivas. Os atrativos são classificados em: naturais; histórico-culturais; manifestações e usos tradicionais e populares; realizações técnicas e científicas; e acontecimentos programados. Para Cooper et al. (2001, p.326), “as atrações turísticas podem ser agrupadas como aquelas que são presentes da natureza e as artificiais. As primeiras incluem as paisagens, o clima, a vegetação [...] As outras são principalmente os produtos da história e da cultura [...]”. Muitas dessas atrações artificiais são resultantes da história e da cultura do local. Ainda, segundo Cooper et al. (2001, p. 347), “certas atrações são, em si, tão atrativas que oferecem uma motivação única para uma visita”. Equipamentos turísticos são o conjunto de edificações, instalações e serviços destinados ao turismo; são os meios de hospedagem, restaurantes, bares, casas de show, agências, postos de informações, etc. Com o desenvolvimento do turismo é possível inferir que Ao mesmo tempo em que cresce a demanda turística, afirma-se a preocupação com a preservação dos bens culturais e naturais ameaçados. Na década de 1980, vê-se todo um movimento em torno da memória dos povos, numa démarche de busca identitária que se intensifica nos anos 1990, quando se consolidam também as noções de desenvolvimento sustentável e descentralização. (VOISIN, 2006, p. 101) Após o conhecimento de alguns conceitos básicos do turismo, faz-se necessário entender como a atividade se processou historicamente no mundo e no Brasil, em especial em Pernambuco e no Recife, e qual a sua contribuição para a sociedade de hoje. 22 2.1.1 Turismo no Mundo O Turismo, como atividade econômica e social, remonta à Idade Antiga. Esse surgimento não é bem claro. Para alguns autores, os Jogos Olímpicos, na Grécia Antiga (século VIII a.C.), são considerados a primeira forma de turismo. Para outros, os fenícios são considerados os criadores do Turismo. Há ainda a corrente que defende o seu surgimento na Roma antiga. Independentemente do aparecimento, o turismo começa a se estruturar na Europa do século XIX e tem seu crescimento no século XX, a partir do desenvolvimento do automóvel, da aviação civil e do avanço tecnológico dos meios de comunicação. Para muitos, o inglês Thomas Cook é precursor do turismo organizado. Nesse contexto, Lage e Milone (2000) defendem que embora o turismo, significando um complexo de atividades que centralizam as viagens de pessoas para lugares distantes, tenha suas origens tão antigas como a própria história da humanidade, foi somente no século XX – mais precisamente a partir dos anos 70 – que se projetou como uma das mais importantes indústrias do mundo moderno. (LAGE; MILONE, 2000, p.17) Após a década de 1970, o Turismo tem um crescimento progressivo, com alguns momentos de regularidade ou declínio. A década de 1980 é marcada por grandes transformações econômicas, políticas, sociais, etc., no mundo. A atividade turística sofre influência dessas mudanças: novos mercados, novos lugares, novos turistas surgem para o mundo. E, o turismo passa a ser visto como uma alternativa econômica por muitos países. A partir da década de 1990, é factível dizer que a atividade cresce de maneira coordenada e madura. Assim Casimiro Filho e Guilhoto (2003) acreditam que o Turismo é um dos segmentos econômicos que mais têm crescido no mundo [...] Com base nesse fato, alguns países atribuem a esse importante segmento econômico parte da tarefa de equilibrar e até obter superávit em suas balanças de serviços apenas com receitas advindas do turismo. Outros países, principalmente aqueles em desenvolvimento, analisam o turismo como uma das alternativas capazes de induzir melhoria na qualidade de vida 23 de suas populações, ou seja, como uma atividade propulsora de desenvolvimento, gerando renda e emprego [...]. (CASIMIRO FILHO; GUILHOTO, 2003, p. 227-228) Já Ouriques (2008) defende que nos países e regiões periféricas, os esforços são muitos para desenvolver o Turismo e é inegável que isso gerou várias ilhas de prosperidade, criando um circuito de consumo e produção. Nesses países de periferia, o fator cambial tem sido um mecanismo de incremento turístico; quando o câmbio é desfavorável, o país tende a se tornar emissor. Esse é o cenário do Brasil nos últimos anos. O autor diz que o turismo está mudando a geografia do mundo e que ele é um poderoso agente de transformações sociais e espaciais. O Turismo ajuda a redesenhar as estruturas mundiais e influencia e é influenciado na/pela globalização. Os anos 2000 são marcados por uma evolução do turismo em todas as partes do globo, sendo mais forte nas chamadas economias emergentes, conforme é possível visualizar na Tabela 1 em seguida. Nesse período, a atividade turística sofre um declínio no ano de 2009, em virtude da crise econômica mundial ocorrida em 2008. Mas, mesmo com essa retração do fluxo de turistas, entre os anos 2000 e 2010, o turismo manteve um crescimento médio anual de 3,4%. Vê-se que os maiores índices de aumento estão nas regiões da Ásia e Pacífico e Oriente Médio. Vale ressaltar que a Organização Mundial do Turismo (OMT) utiliza como fator para cálculo desse crescimento o número de chegadas de turistas internacionais nos principais destinos turísticos. 24 Tabela 1 - Chegadas de Turistas Internacionais no Mundo Chegadas de Turistas Internacionais (milhão) Mundo Economias Avançadas ¹ Economias Emergentes ¹ Por Regiões OMT Europa Ásia e Pacífico Américas América do Sul África Oriente Médio 2000 675 2005 798 2008 917 2009 882 2010 940 417 453 495 474 257 345 421 385,6 110,1 128,2 15,3 26,5 24,1 439,4 153,6 133,3 18,3 35,4 36,3 485,2 184,1 147,8 21,8 44,4 55,2 Market Share (%) 2010 Mudança (%) Crescimen to Médio Anual (%) 00-10 3,4 100 09/08 -3,8 10/09 6,6 498 53,0 -4,3 5,1 1,8 408 442 47,0 -3,2 8,3 5,6 461,5 180,9 140,6 21,3 46,0 52,9 476,6 203,8 149,8 23,5 49,4 60,3 50,7 21,7 15,9 2,5 5,2 6,4 -4,9 -1,7 -4,9 -2,3 3,7 -4,3 3,3 12,7 6,4 9,7 7,3 14,1 2,1 6,3 1,6 4,4 6,4 9,6 Fonte: Organização Mundial do Turismo (2011) ¹ Baseada na classificação do Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo dados da OMT (2011), a receita de exportação gerada pelo turismo receptivo, em 2010, ultrapassou US$ 1 trilhão. As exportações de turismo responderam por 30% das exportações de serviços comerciais e por 6% das exportações globais de bens e serviços. Mundialmente, o turismo está em quarto lugar como item de exportação, após combustível, produtos químicos e produtos automotivos. Assim, a contribuição do turismo para o Produto Interno Bruto (PIB) mundial é estimada em 5%. Ainda conforme a OMT (2011), em 2010, lazer e férias representaram 51% dos motivos de viagem; as visitas a familiares e amigos, motivos de religião e de saúde, 27% das intenções de viagem; 15% viajaram por motivos profissionais e negócios; e 7% não especificaram o propósito de viagem. Entre os principais destinos turísticos do mundo, a França permaneceu como o país que mais recebeu turistas em 2010. Em 2009, o destino com maior aumento no movimento de turistas foi a Malásia que não manteve o mesmo ritmo no ano seguinte. O destaque em 2010, em termos de crescimento, foi a Alemanha, com uma taxa de 10,9%, seguida da China com 9,4% e dos Estados Unidos com 8,7%, conforme apresentado na Tabela 2. 25 Tabela 2 - Principais Destinos no Mundo Chegadas de Turistas Internacionais Milhões Mudança (%) Classificação 2009 2010 09/08 10/09 1 França 76,8 76,8 -3,0 0,0 2 Estados Unidos 55,0 59,7 -5,1 8,7 3 China 50,9 55,7 -4,1 9,4 4 Espanha 52,2 52,7 -8,8 1,0 5 Itália 43,2 43,6 1,2 0,9 6 Reino Unido 28,2 28,1 -6,4 -0,2 7 Turquia 25,5 27,0 2,0 5,9 8 Alemanha 24,2 26,9 -2,7 10,9 9 Malásia 23,6 24,6 7,2 3,9 10 México 21,5 22,4 -5,2 4,4 Fonte: Organização Mundial do Turismo (2011) Muitos turistas escolhem seus destinos de viagem por inúmeros motivos. Uns viajam por interesse econômico, outros por saúde ou simplesmente pelo fato de passear e conhecer um novo lugar ou culturas diferentes. Ao analisar os dados da Organização Mundial do Turismo e verificar que a maioria das viagens acontece em função do lazer, uma pergunta surge: qual, então, o motivo para escolha de um lugar em detrimento de outro? A escolha pode ser feita por conta da influência da opinião de familiares e amigos, das informações disponíveis nos infindáveis guias turísticos, dos inúmeros relatos contidos nos sítios, blogs, redes sociais existentes na internet. Um dos motivos que se pode elencar é o desejo de conhecer um local que foi cenário de filme ou de um livro. Segundo Zanatta (2010), “tem gente que vai ao cinema para viajar. E tem aqueles que viajam depois de sair do cinema, porque ficaram encantados com as imagens do lugar que serviu de cenário ao filme”. Um exemplo desse fenômeno é a França, cenário de inúmeras produções e que ocupa o primeiro lugar em número de turistas. Quantos viajantes vão a Paris e, além de visitar a Torre Eiffel, querem conhecer o “Café des Deux Moulins”, cenário do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”? E, quantos outros demonstram interesse em conhecer a Toscana, após assistir ao filme “Sob o Sol da Toscana”? Quantos mais ao visitar Nova Iorque não buscam aqueles recantos mostrados em alguns dos filmes de Woody Allen? Ou, optam por 26 qualquer cidade para conhecer alguma passagem descrita em um livro? Ao visitar esses lugares, é possível lembrar-se das cenas marcantes, das passagens interessantes, ou seja, a memória nos faz aproveitar a viagem de várias maneiras. A memória também estará presente na volta de uma viagem: as aventuras vividas, os bons momentos usufruídos, os museus e igrejas visitados, a gastronomia experimentada; e, hoje, com a maciça utilização da internet, é possível compartilhar essas experiências com outras pessoas, conhecidas ou não. Durante muito tempo, será possível relembrar os detalhes, os casos pitorescos, os lugares inesperados. 2.1.2 Turismo no Brasil No Brasil, a história do turismo se confunde com a própria história do País. Com a criação das capitanias hereditárias, pode-se afirmar que surge o turismo de negócios entre a colônia e Portugal. Um marco importante a ser considerado é a expedição Von Humboldt que empreendeu a primeira grande viagem por nosso País. Outro acontecimento que interfere na história do turismo brasileiro é a chegada da Família Real, em 1808, ao país que cria uma demanda por hospedagem. A cidade de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, fundada em 1843, é considerada o berço do turismo no país e a primeira estância climática do país. Já em 1885, o Corcovado, na cidade do Rio de Janeiro, é o primeiro atrativo turístico a receber infraestrutura para receber os visitantes: um trem para levar as pessoas até o alto da montanha. Pode-se afirmar que o turismo no Brasil se desenvolveu a partir da evolução dos meios de transporte. Para Perrotta (2009, p. 2), “na passagem do século 19 para o 20 [...] as viagens eram majoritariamente por interesses comerciais e exploratórios”. Em 1907, o Rio de Janeiro recebe o primeiro grupo de turistas trazidos pela Cook and Son. E, a partir de 1910, a cidade se fortalece como destino oficial de turismo no País. No Brasil, o Turismo passa a ser visto 27 como segmento produtivo e alternativa de desenvolvimento a partir da década de 1960, uma vez que no Brasil, duas políticas nacionais de turismo foram instituídas pelo Decretolei 55, de 18 de novembro de 1966, que define a Política Nacional de Turismo – PNT, cria o Conselho Nacional de Turismo – CNTUR e a Empresa Brasileira de Turismo – EMBRATUR, que vinculada ao Ministério da Indústria e Comércio, estabeleceu os primeiros incentivos fiscais e financeiros. A segunda foi instituída em 1966 e decorre da Lei 8.181/91 e do Decreto 448/92. (LISBÔA FILHO, 2005, p. 4) Segundo Lisbôa Filho (2005), no Brasil, o Turismo emissivo, isto é, o país exportando turista, é mais forte que o receptivo. E, o crescimento, hoje, é acentuado do turismo interno. Assim, há uma busca para além do turismo tradicional – sol e praia – buscando um turismo alternativo, uma (re)aproximação com a natureza. O Turismo mobiliza mais de 50 setores de produção de bens e serviços e de inúmeras categorias técnicas e profissionais. Observa-se que, nos últimos anos, esse cenário tem sofrido variações. O fluxo turístico assume um caráter emissivo ou receptivo conforme as variações do cenário econômico mundial e nacional. A tendência será exportar turistas quando esse cenário no país for estável ou em momentos de desvalorização de moedas estrangeiras. O quadro receptivo será mais forte quando a situação for inversa: desvalorização do real e fortalecimento da moeda de outras raízes. Vale ressaltar que o número de turistas estrangeiros tem aumentado, como se verá abaixo, e também que o gasto destes turistas no país tem crescido. Nos últimos anos, as atividades de turismo se desenvolveram no mundo, mesmo com as crises socioeconômicas e com as instabilidades políticas. Para Oliveira (2008, p. 177), “no Brasil, esta tendência não foi diferente e os impactos do crescimento foram sentidos em diversas capitais do país”. Hoje, busca-se um turismo que diminua custos, aumente os benefícios, diminua a saída de divisas, crie empregos, aumente a arrecadação de impostos e, assim, propicie o desenvolvimento de uma cidade, estado, região ou país. Nesse sentido, Fratucci (2009, p. 394) afirma que “como outras atividades econômicas contemporâneas, o 28 Turismo concretiza-se pela ação, pela articulação e pela interconexão de seus diversos agentes produtores no tempo e no espaço”. A própria criação do Ministério do Turismo (ver Anexo A), em 2003, revela a importância que o Governo Federal destacou em termos de políticas públicas para o desenvolvimento do setor. As intenções de viagem das famílias brasileiras também foram altas no mês de julho de 2010. E a opção pelos aviões como meio de transporte nas viagens turísticas também cresceu. Conforme resultados apresentados pela Pesquisa de Hábitos de Consumo do Turismo Brasileiro, realizada pelo Ministério do Turismo em 2009 (BRASIL, 2009), os viajantes associam, em sua maioria, turismo com descanso/tranquilidade e diversão/entretenimento. Eles costumam viajar nas férias e realizam suas viagens por conta própria em detrimento dos pacotes turísticos. No tocante ao transporte utilizado, há um equilíbrio entre as opções automóvel, ônibus e avião, havendo uma leve vantagem do primeiro. É exequível deduzir que esse equilíbrio ocorre em função das viagens de curta distância, em que os viajantes, muitas vezes, optam pelo automóvel, deixando o avião para as viagens para locais mais distantes de sua cidade. A pesquisa reforça a ideia de que o turismo no Brasil é muito ligado ao binômio sol e mar, uma vez que a maioria dos entrevistados prefere os roteiros ligados às praias. Isso nos mostra que deve haver um investimento maior nos demais segmentos. Em relação ao resto do mundo, o Brasil ainda não possui resultados expressivos no tocante ao turismo. O País, em 2010, aparece apenas em quinto lugar nas Américas em número de chegadas de turistas internacionais, atrás de Estados Unidos, Canadá, México e Argentina, o que representou uma queda de posição, pois, nos anos 2008 e 2009, ocupava a quarta posição como destino no continente. Comparando os números brasileiros com os da Argentina (país vizinho e concorrente em termos de atrativos), vê-se que o Brasil cresceu bem menos em número de chegadas. No período 2008/2009, houve um decréscimo no número de chegadas de turistas internacionais aos dois países; no Brasil, a taxa foi de -4,9% e, na 29 Argentina, de -8,4% (OMT, 2011). Em compensação, no período 2009/2010, o país vizinho cresceu 22,8% em número de chegadas, enquanto o Brasil aumentou apenas 7,5%, o que o deixou em oitavo lugar em relação à taxa de crescimento, como é possível observar na Tabela 3. Esses números podem ser entendidos como um reflexo da crise econômica mundial iniciada em 2008 e o barateamento de alguns destinos. Tabela 3 - Chegadas de Turistas Internacionais nas Américas Principais Destinos nas Américas Destinos (1000) 2008 2009 1 Estados Unidos 57.937 54.962 2 México 22.637 21.454 3 Canadá 17.142 15.737 4 Argentina 4.700 4.308 5 Brasil 5.050 4.802 6 República Dominicana 3.980 3.992 7 Porto Rico 3.716 3.551 8 Chile 2.699 2.750 9 Cuba 2.316 2.405 10 Colômbia 2.318 2.303 Fonte: Organização Mundial do Turismo (2011) 2010 59.745 22.395 16.095 5.288 5.161 4.125 3.679 2.766 2.507 2.385 Destinos 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Argentina Uruguai Panamá Costa Rica Estados Unidos Nicarágua Equador Brasil Peru Paraguai Mudança (%) 10/09 22,8 15,9 9,7 9,2 8,7 8,5 8,1 7,5 7,4 5,9 Em 2010, segundo dados do Ministério do Turismo (2011), foram cerca de 5,1 milhões de turistas internacionais que chegaram ao Brasil. Desse total, aproximadamente 46% são provenientes da América do Sul, 32% da Europa, 15% da América do Norte e 7% oriundos das outras regiões do mundo. Em relação aos principais países emissores, a Argentina está em primeiro lugar (desde 2006), seguida de Estados Unidos e Itália, como apresentado na Tabela 4, a seguir. E, o Uruguai foi o país com o maior crescimento na participação nas chegadas de turistas ao país. O grande número de turistas argentinos e uruguaios pode ser explicado pelos fatores proximidade e facilidade de acesso. 30 Tabela 4 - Principais Mercados Emissores de Turistas para o Brasil Principais mercados emissores de turistas para o Brasil País1 2006 2007 2008 2009 1 Argentina 933.061 921.679 1.017.675 1.211.159 2 Estados Unidos 721.633 695.749 625.506 603.674 3 Itália 287.898 268.685 265.724 253.546 4 Uruguai 255.349 226.111 199.403 189.412 5 Alemanha 277.182 257.740 254.264 215.595 Fonte: Departamento de Polícia Federal e Instituto Brasileiro de Turismo (2011) 2010 1.399.592 641.377 245.491 228.545 226.630 Vale ressaltar que nos últimos anos, o turismo doméstico aumentou sua participação na economia brasileira. Para cada dez brasileiros que viajam dentro do país, apenas um viaja ao exterior. Cerca de 30% do custo total das viagens internacionais beneficiam principalmente as companhias aéreas, operadoras e agências de viagem brasileiras. O mercado consumidor de turismo no Brasil aumentou 16%. O número de viajantes brasileiros passou de 43 para 50 milhões no período de 2007 a 2010. Esse crescimento é explicado pelo incremento da classe média e também entendido como um reflexo da crise econômica mundial de 2008 (MINISTÉRIO DO TURISMO, 2011). Da mesma forma que turistas escolhem locais no mundo por conta das lembranças que eles podem trazer sobre um filme ou um livro, no Brasil muitos viajantes também procuram um destino que, além de diversão, cultura, compras, aventura, gastronomia, etc., possa evocar memórias importantes de suas vidas e de seus antepassados. Essas passagens são oriundas de uma cena de filme ou livro marcante, uma lembrança de família ou mesmo uma dica de amigo. A memória é capaz de produzir um interesse por determinado local. 2.1.3 Turismo em Pernambuco Assim como no Brasil, o Turismo em Pernambuco se desenvolveu com a expansão econômica do estado. Ao longo dos anos, o estado vem consolidando sua participação no 1 A ordem refere-se à posição ocupada pelos países emissores em 2010. 31 cenário nacional. Um dos acontecimentos importantes no turismo estadual é a criação, em 1967, da Empresa de Turismo de Pernambuco – Empetur que marca o início da profissionalização da atividade no estado. Durante o governo de Mendonça Filho, em 2006, é criada a Secretaria de Turismo (ver Anexo B) a fim de aglutinar as atividades do turismo no estado em um único órgão. A partir de 2007, no governo de Eduardo Campos, o Turismo no estado busca outros rumos, em conformidade com os preceitos estabelecidos pelo Governo Federal. De acordo com dados do Ministério do Turismo (2011), o estado de Pernambuco, em 2010, ocupou a oitava posição em número de chegadas de turistas internacionais (ver Tabela 5). Esses turistas chegam ao estado, principalmente, por vias aérea e marítima. Tabela 5 - Chegadas de Turistas Estrangeiros ao Brasil por Unidades da Federação Total Unidades da Federação 2009 2010 Brasil 4.802.217 5.161.379 São Paulo 1.842.796 2.016.267 Rio de Janeiro 908.667 982.538 Paraná 663.237 725.077 Rio Grande do Sul 613.274 653.622 Bahia 143.509 165.966 Santa Catarina 127.826 128.421 Ceará 98.882 95.786 Pernambuco 88.818 85.336 Mato Grosso do Sul 58.395 68.140 Minas Gerais 49.079 56.230 Rio Grande do Norte 54.211 46.578 Distrito Federal 28.983 37.911 Amazonas 37.135 26.423 Pará 20.791 19.458 Outras 66.614 53.626 Fonte: Departamento de Polícia Federal e Ministério do Turismo (2011) Em 2010, dos 85.336 turistas estrangeiros que chegaram ao Brasil por Pernambuco, aproximadamente 80% eram provenientes da Europa (MINISTÉRIO DO TURISMO, 2011). Esse fator pode ser explicado por conta dos voos regulares e não regulares que há ligando diretamente a cidade do Recife ao continente europeu. 32 De acordo com dados da Empresa de Turismo de Pernambuco (EMPETUR, 2011), em 2010, o fluxo de turistas em Pernambuco teve um crescimento aproximado de 60% em relação ao ano de 2000 (ver Tabela 6). Vale ressaltar que, nos últimos dez anos, a maior taxa de aumento foi entre os anos de 2009 e 2010, com uma variação de 7,93%. A Secretaria de Turismo de Pernambuco, por meio da Empetur, analisa os fluxos de turistas a partir dos destinos indutores do turismo. Destinos indutores são aqueles capazes de atrair os turistas e também distribuírem o fluxo turístico no seu entorno. Em Pernambuco, são definidos, pelo Ministério do Turismo, os seguintes destinos indutores: Fernando de Noronha, Ipojuca e Recife. Nesse caso, serão apresentados os dados (Tabela 6) referentes à capital que é o principal destino do estado e que acompanhou o crescimento de Pernambuco. Tabela 6 - Evolução do Fluxo Turístico em Pernambuco – 2000-2010 Fluxo Global de Turistas2 (em MIL) Anos Recife Pernambuco 2000 1.591.148 2.654.165 2001 1.930.061 3.216.748 2002 1.966.485 3.277.475 2003 1.984.355 3.312.780 2004 2.009.342 3.351.550 2005 2.094.620 3.498.219 2006 2.082.727 3.530.046 2007 2.128.211 3.643.038 2008 2.213.819 3.775.588 2009 2.296.652 3.944.895 2010 2.478.527 4.257.810 Fonte: Empetur / Secretaria de Turismo de Pernambuco (2011) A permanência média desse turista em Pernambuco, no mesmo período, não sofreu grandes alterações, como é possível constatar na Tabela 7. Há aumento da permanência de turistas estrangeiros e diminuição do tempo de estada dos residentes no País. Segundo dados da Empetur (2011), os brasileiros aumentaram sua permanência no destino indutor Ipojuca e diminuíram sua permanência na cidade do Recife. Esse fato pode ser explicado em virtude de 2 Além dos turistas hospedados na rede hoteleira, inclui os hospedados em casa de parente/amigos e outros estabelecimentos extra-hoteleiros. 33 Ipojuca crescer muito em função de Porto de Galinhas e seu poder de atratividade, uma vez que foi escolhida, por dez anos consecutivos, a melhor praia do País em votação da Revista Viagem e Turismo. E, também, pela proximidade com o Complexo de Suape. Tabela 7 - Permanência Média dos Turistas em Pernambuco 2000-2010 Permanência Média (dias) Anos Turistas em Geral Residentes no Brasil Residentes no Exterior 2000 10,64 10,83 9,74 2001 9,85 9,63 12,07 2002 8,20 8,20 8,81 2003 8,46 8,21 9,48 2004 9,37 9,17 9,71 2005 10,33 7,76 12,91 2006 9,97 8,81 13,64 2007 8,40 7,84 11,81 2008 8,63 8,45 10,23 2009 8,76 8,32 9,65 2010 8,19 7,91 12,02 Fonte: Empetur / Secretaria de Turismo de Pernambuco (2011) Pernambuco ainda é associado ao segmento “turismo de sol e praia”, mas as possibilidades no estado são muito variadas. Hoje, há um incremento dos segmentos negócios, rural, aventura, cultural, entre outros. Essa diversificação acontece em função das políticas de interiorização do turismo, assim como o aumento do número de empresas no estado. Pernambuco, também, atrai turistas que, além de conhecer os atrativos turísticos tradicionais, procuram locais onde as lembranças e memórias podem ser recuperadas. 2.1.4 Turismo no Recife A origem do Recife data do século XVI quando o porto é instalado na estreita faixa de areia, protegida pelos arrecifes naturais, existente entre a foz dos rios Beberibe e Capibaribe e o mar. No entorno desse porto, surge um povoado no que, hoje, corresponde ao Bairro do Recife. Com o desenvolvimento comercial, o povoado cresce e, em 1537, é criada a Vila do 34 Recife. A partir de 1630, com a ocupação holandesa, a vila se desenvolve, principalmente sob o governo de Maurício de Nassau, e se transforma em um importante entreposto comercial. Nesse período, ruas foram planejadas e traçadas, várias pontes foram construídas, dando um ar de cidade ao Recife. Em 1823, é elevada e categoria de Cidade e, após quatro anos, é definida como capital da província. Ainda baseada na cultura de cana de açúcar e na atividade do porto, durante os séculos XVIII e XIX, Recife continua se desenvolvendo economicamente e culturalmente. A urbanização da cidade se deu a partir do Bairro do Recife, sendo o crescimento acelerado no Século XIX. Neste período, a cidade já apontava para a sua atual estrutura urbana, radiocêntrica, em forma de estrela e em cinco direções (norte, sul, sudeste, oeste e noroeste), resultante da ligação entre seu núcleo primitivo e os antigos engenhos. (RECIFE, 2011b) A cidade está localizada na posição central do litoral do Nordeste, estando equidistante das cidades de Fortaleza e Salvador, importantes polos receptivos do turismo nacional. Hoje, o Recife é formado por 94 bairros agrupados em seis Regiões Político-Administrativas (RPAs) e se fortalece como o maior polo de serviços modernos da região Nordeste. Segundo dados do censo demográfico de 2010 (RECIFE, 2011a), “o município concentra 41,67% da população da Região Metropolitana do Recife”, sendo considerada o principal condutor do desenvolvimento econômico e social da região, pois hoje, o município já se sobressai no cenário pernambucano com um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 22,4 bilhões, representando aproximadamente um terço do PIB estadual (31,9%) e quase a metade do PIB metropolitano (49,1%). Do total de riquezas produzidas, o setor de serviços tem a maior participação (83%) [...]. (RECIFE, 2011d) A cidade do Recife pode ser considerada um dos principais centros urbanos, no Nordeste, desde a sua fundação. O turismo acompanha essa evolução e se torna mais forte a partir da década de 1950, com o desenvolvimento de seus bairros e, sobretudo, com a expansão à Boa Viagem; até então, uma praia distante e sem infraestrutura para atendimento aos turistas. Um marco, nessa época, é a construção do Hotel Boa Viagem, na década de 35 1960. Em 1968, é criado o primeiro órgão para coordenar as políticas públicas de turismo do Recife. E, em 1989, a atividade na cidade é elevada à categoria de Secretaria, ainda associada a outras atividades; e, finalmente, em 2005, é criada a Secretaria de Turismo do Recife. A partir desse momento, o Turismo na cidade se profissionaliza e se desenvolve. Como já comentado anteriormente, o Recife é o principal polo receptivo e porta de entrada de turistas no estado. Em 2011, o Aeroporto Internacional dos Guararapes – Gilberto Freyre teve um movimento de mais de 6,3 milhões de passageiros embarcados e desembarcados (Infraero, 2012), ocupando a 11ª posição dentre os aeroportos brasileiros e a segunda no Nordeste. Apesar do aumento do número de passageiros, o aeroporto do Recife, nos últimos cinco anos, diminuiu sua taxa de participação na rede de aeroportos da Infraero, conforme apresentado na Tabela 8 a seguir. Tabela 8 - Movimento Anual de Passageiros (Embarcados e Desembarcados) do Aeroporto do Recife Part. Regular Var. % na 3 Ano Não Regular Total Anual Rede4 Doméstico Internacional % 2007 3.851.582 131.880 204.619 4.188.081 3,79 2008 4.328.014 190.853 160.590 4.679.457 11,73 4,14 2009 4.920.308 192.525 137.732 5.250.565 12,20 4,10 2010 5.640.351 199.437 119.194 5.958.982 13,49 3,84 2011 6.029.736 230.096 11.537 6.383.369 7,12 3,55 Fonte: Infraero (2012) Esse crescimento do número de passageiros, não necessariamente turistas, nos últimos cinco anos, pode ser explicado por vários fatores: o fortalecimento do Complexo de Suape como polo do desenvolvimento econômico do estado; os investimentos nas regiões da Zona 3 No item “não regular”, estão incluídas as categorias: doméstico, internacional e executiva/geral. Não regulares são os voos comerciais sem a existência de Horário de Transporte – HOTRAN definido pela Agência Nacional de Aviação Civil – ANAC. O HOTRAN é o documento emitido pela ANAC para formalizar as concessões de exploração de linhas aéreas regulares internacionais e domésticas de passageiros e/ou carga, com os respectivos horários, números de voos, frequências, tipos de aeronaves e oferta de assentos. 4 Participação na Rede Infraero de aeroportos. 36 da Mata e Litoral norte; a inserção da cidade no roteiro de eventos culturais e técnicos internacionais; o incremento do polo de saúde; o desenvolvimento da área de ciência e tecnologia, tornando a cidade referência mundial; entre outros. E, muitas dessas pessoas aproveitam o tempo na cidade para conhecê-la, ou seja, fazer turismo. O Recife é uma cidade repleta de atrativos turísticos naturais e artificiais, sendo os principais a praia e o Carnaval. Sem dúvida, a cidade ainda está relacionada, como o Estado, ao turismo de sol e praia, mas, nos dias atuais, já há uma forte presença dos segmentos turismo cultural, turismo de negócios e eventos e turismo de saúde. Esses segmentos são responsáveis pelo equilíbrio da sazonalidade do fluxo de turistas ao longo do ano. A Prefeitura do Recife (Recife, 2011c), em seu sítio oficial (ver Anexo C), no item “Conheça o Recife”, elenca os seguintes atrativos: Igreja da Madre de Deus, Capela Dourada, Parque da Jaqueira, Teatro de Santa Isabel, Teatro Luiz Mendonça e Parque Dona Lindu, Museu do Estado, Oficina Brennand, Instituto Ricardo Brennand, Mercados de São José e da Boa Vista, Casa da Cultura, Carnaval, praia de Boa Viagem, passeio de catamarã, a gastronomia da cidade, Circuito da Poesia, os festivais culturais e o futuro Paço do Frevo. Não há menção de outros museus, igrejas, mercados ou espaços culturais, nem de formas de hospedagem ou acessos à cidade. Infelizmente, na página da Secretaria de Turismo do Recife (ver Anexo D), também não há indicações de atrativos ou passeios a serem conhecidos na cidade. Caso o turista queira fazer um levantamento das atrações antes de sua viagem, deverá fazê-lo em guias, sítios e blogs que apresentam dicas e informações de viagem; nas páginas oficiais, não é possível informação mais detalhada. Ao chegar ao Recife e se dirigir a algum dos postos de informações turísticas existentes, o turista poderá ter acesso a informações mais completas sobre a cidade. Nestes locais, há a disponibilidade de alguns guias turísticos impressos. Entre eles, pode-se citar o 37 “Guia Turístico do Recife” (FOLHA DE PERNAMBUCO, 2012), que traz um roteiro mais completo sobre os atrativos da cidade (ver Anexo E). Ele divide as atrações em: pontes, praças, parques, praias, igrejas, feiras, shoppings, mercados, museus, teatros, centros culturais e circuito da poesia. Vários desses locais (atrativos) podem ser caracterizados como lugares de memória, como se apresentará mais adiante. 2.2 Caminhos da Memória e do Lugar de Memória 2.2.1 Memória A Memória funciona como um suporte para a busca de lembranças dos lugares, uma vez que tem como função movimentar o tempo e organizar o passado. A preocupação fundamental não é estabelecer cronologicamente esses dados, mas apresentá-los de forma que remetam à época em que existiam. A memória é um artefato cultural que registra a relação do homem com o mundo. A palavra lembrar tem origem no francês se souvenir/sous-venir, significando vir à tona, o vir de baixo. O afloramento do passado (BOSI, 1994, p.46) viria combinar com o processo de percepção atual. Memória, por sua vez, derivaria de Mnemosine, a mãe das musas, na mitologia grega, vista como protetora das Artes e da História (KURY, 2009). Kessel (s/d) afirma que, entre os gregos, os registros escritos seriam mal vistos, pois, ao transferir para fora do corpo um saber, o sujeito enfraqueceria a sua memória. (GASTAL; POSSAMAI; NEGRINE, 2010, p. 90) Falar de Memória é falar de um gênero cuja característica é o registro dos fatos e acontecimentos organizados segundo ordem cronológica flexível. Quando se discute Memória, está se referindo a um material que seria impossível de ser lembrado. Pode-se dizer que a Memória é um fenômeno infinitamente atual, um objeto que nos prende ao eterno presente. “O que chamamos memória é na verdade o gigantesco e espantoso depósito do 38 material que seria impossível para nos lembrar, um repertório ilimitado do que poderá ser necessário ser recordado.” (NORA, 1993, p. 9) A Memória é constituída de fatos ou acontecimentos que, quando transmitidos, geralmente não obedecem a uma cronologia, é sim a um conjunto de registros fragmentados e selecionados consciente ou inconscientemente pela mente humana para armazenamento de acordo com percepções individuais, através de vivências ou experiências adquiridas. A memória está intimamente relacionada a estímulos externos provocados por pessoas próximas ou fatos ocorridos no presente, ambos interferem na qualidade da memória e remetem aos acontecimentos do passado. Porém, a força do momento presente é algo capaz de trazer o indivíduo de volta à realidade passada, tornando-o sensível às lembranças apenas mediante novo estímulo. Por isso, enfatiza-se que a memória é sempre atual, pois a qualquer momento podemos evocá-la. É vivida no eterno presente: aberta à dialética da lembrança e do esquecimento; alimenta-se de lembranças vagas, telescópicas, globais e flutuantes; e cria sentimento de pertencimento e identidade, etc. (BATISTA, 2005, p. 29) Para melhor iniciar o estudo, apresentam-se alguns tipos de Memória: Memória Prótese – não é o saldo da memória vivida, mas o resultado voluntário e organizado de uma memória perdida que recupera o vivido e se desenvolve em função de seus registros. Memória Hábito – é a produção de rotinas a serem repetidas; são os dados apreendidos mecanicamente e reproduzidos de maneira automática, portanto, a memória-hábito adquire-se pelo esforço da atenção e pela repetição de gestos ou palavras. Ela é um processo que se dá pelas exigências da socialização. Trata-se de um exercício que retomado até a fixação, transforma-se em um hábito, em um serviço para a vida cotidiana [...] A memória-hábito faz parte de todo o nosso processo de adestramento cultural [...] A imagem-lembrança tem data certa [...] a memória-hábito já se incorporou às práticas do dia a dia. (BOSI, 2001, p.49). 39 Memória Coletiva – é a memória que retém do passado aquilo que ainda está vivo ou capaz de viver na consciência do grupo que mantém. Na memória coletiva, os limites são regulares e inscritos e ela se estende a todo o grupo em que está inserida. É formada por uma rede de significados e por construções simbólicas. É a memória do grupo que se sobrepõe à memória individual. Memória Histórica – é a memória da história vivida e não a memória aprendida. São as noções que, representando um papel secundário, supõem a existência anterior de uma memória pessoal. Além dessas categorias, é possível distinguir a memória arquivo, porque a memória não é apenas a recuperação que se dá no presente de informações que tiveram existência no passado [...] A memória que assim funciona é a memória-arquivo [...] Para dar conta da memória-arquivo foram criadas as instituições-memória – arquivos, bibliotecas, museus. (COSTA, 1997, p.35) Na verdade, a Memória pode ser entendida como o movimento do tempo e sua função é conhecer o passado que se organiza. E, se Memória é tempo, pode-se afirmar que a Memória é base do conhecimento. Para adquirir a consciência do tempo é preciso entender a oposição passado/presente. Para Nora (1993, p. 2-3), a memória pode ser entendida como a vida vivenciada por sociedades vivas e que permanece em constante evolução, aberta à dialética do lembrar e do esquecer, inconsciente a suas sucessivas deformações, vulneráveis a manipulações e sensíveis a longos repousos e periódicos renascimentos. E, para ampliar este conceito, assegura-se que “a memória faz parte do jogo do poder, autoriza manipulações conscientes ou inconscientes e obedece aos interesses individuais e coletivos” (LE GOFF, 2003, p. 32). A opção de estudar a Memória acontece porque, diferentemente da história que se vincula a eventos, a memória diz respeito a lugares. A história é uma reconstrução, nem sempre completa, de algo que não existe mais. E, como diz Pomian (2000, p.57) “toda a 40 memória é em primeiro lugar uma faculdade de conservar os vestígios do que pertence já em si a uma época passada”. E, um dos objetivos da memória é fazer lembrar, refazer, reconstruir as experiências do passado a partir das ideias e imagens de hoje. Para Le Goff (2003), a matéria fundamental da história é o tempo, portanto a cronologia tem um papel essencial como fio condutor da história. Para Santos (2003), a Memória não é só pensamento, imaginação e construção social; ela é também uma determinada experiência de vida capaz de transformar outras experiências, a partir de resíduos deixados anteriormente. A memória, portanto, excede o escopo da mente humana, do corpo, do aparelho sensitivo e motor e do tempo físico, pois ela também é o resultado de si mesma; ela é objetivada em representações, rituais, textos e comemorações. (SANTOS, 2003, p. 25-26) Estruturas coletivas e processos interativos são características inerentes ao que se conhece como sociedade, e esta, por si só, produz uma construção simbólica do que representa os indivíduos que a constituem ou a constituíram. Memória e história se confundem e se completam através das imagens armazenadas que, mediante estímulos externos, são expostas e remontam a acontecimentos advindos do processo de interação social. Santos (2003) declara que a obra de Maurice Halbwachs é inegavelmente uma das que mais contribuíram para a compreensão do significado da memória coletiva numa época em que a memória era compreendida primordialmente enquanto fenômeno individual e subjetivo. (SANTOS, 2003, p. 35) Halbwachs (2004) identificou a formação do indivíduo como fator determinante na consideração dos grupos sociais e a dinâmica que exerce sobre a memória coletiva. A lembrança individual é a reconstrução de uma vivência ou experiência coletiva do passado, vinculada à cultura e a ideologias de cada grupo. Bosi (2001, p. 55) diz que “Halbwachs amarra a memória da pessoa à memória do grupo; e esta última à esfera maior da tradição, que é a memória coletiva de cada sociedade”. Para Bartlett (1961), “a memória era um 41 atributo do indivíduo que se encontra em um grupo social [...]” (SANTOS, 2003, p. 54). Halbwachs (2004) ainda defende que a impressão de cada um não pode ser apoiada apenas na lembrança individual, mas também sobre a dos outros. Assim, o passado compreende dois tipos de elementos: aqueles que nos é possível lembrar quando queremos e aqueles que não respondem ao nosso chamado. Para Halbwachs (2004, p. 53), “os fatos e as noções que temos mais facilidade em lembrar são do domínio comum, pelo menos para um ou alguns meios”. Ou seja, o indivíduo não recorda sozinho, precisa da memória dos outros para confirmar suas recordações. E esse acontecimento só tomará lugar nas lembranças depois de algum tempo que se produziu. Em seu trabalho sobre memória coletiva, Halbwachs faz uma comparação entre o tema e a história. Para ele, a memória se apoia na história vivida e não na história aprendida. Assim sendo, a história não é todo o passado, mas também não é tudo aquilo que resta do passado. Ou, se o quisermos, ao lado de uma história escrita, há uma história viva que se perpetua ou se renova através do tempo e onde é possível encontrar um grande número dessas correntes antigas que haviam desaparecido somente na aparência. (HALBWACHS, 2004, p. 71) A história vivida tem todos os elementos para a construção de um quadro em que um pensamento pode se apoiar, conservar e reencontrar a imagem do passado. Para reconstruir o passado, a lembrança utiliza dados existentes no presente, ou seja, o passado é na verdade um reflexo das imagens e conceitos que há no presente. Por isso, não é possível duas pessoas contarem o mesmo fato, algum tempo depois, de maneiras idênticas. Como destaca Halbwachs (2004), [...] memória coletiva se distingue da história pelo menos sob dois aspectos. É uma corrente de pensamento contínuo, de uma continuidade que nada tem de artificial, já que retém do passado somente aquilo que ainda está vivo ou capaz de viver na consciência do grupo que a mantém. Por definição, ela não ultrapassa os limites desse grupo [...] A história divide a sequência dos séculos em períodos [...]. (HALBWACHS, 2004, p. 86) 42 Assim, a memória de uma sociedade tem a duração da memória dos grupos que a compõem. Enquanto houver lembranças, haverá memória; quando essas lembranças vão se apagando, é o momento de transportar a memória para o escrito. o aparecimento da escrita está ligado a uma profunda transformação da memória coletiva [...] A escrita permite à memória coletiva um duplo progresso, o desenvolvimento de duas formas de memória. A primeira é a comemoração [...] A outra forma de memória ligada à escrita é o documento escrito num suporte especialmente destinado à escrita [...]. (LE GOFF, 2003, p. 427-428) Monastirsky (2009) acredita que História e Memória possuem significados diferentes. Enquanto a História permite sistematizar o passado, a Memória permite uma compreensão ora complementar ora diferenciada à história. Defende ainda que a memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto [...] A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente [...] A memória instala a lembrança no sagrado [...] A memória é um absoluto [...] A memória perdura-se em lugares, e a história, em acontecimentos. (MONASTIRSKY, 2009, p. 326) Por sua vez Durkheim e Halbwachs (apud SANTOS, 2003, p. 42) assinalam que “preços, valores econômicos, práticas de consumo, rituais religiosos, crenças políticas e construções de consumo sobre o passado seriam aspectos a serem estudados enquanto fatos sociais imbuídos de significados”. Já Bergson (apud SANTOS, 2003) considerou os limites da memória enquanto atributo exclusivamente da consciência humana. Em contrapartida, para Bartlett (SANTOS, 2003, p. 54), a memória nem era uma função que pudesse ser atribuída apenas a aparatos biológicos do indivíduo, nem era uma condição estreitamente mental, como queira Bergson, nem social, como Halbwachs. E sim um atributo do indivíduo que se encontrava em um grupo social e associava-se à percepção, à imaginação e ao pensamento construtivo. A história do passado que fora contada no presente certamente será bem diferente da história do presente que será contada no futuro. O passado não sobrevive tal e qual como foi; o tempo transforma as pessoas em suas percepções e ideias. 43 Acredita-se que a memória é constituída por duas partes: objetiva e subjetiva. A primeira acumula fatos vividos e pode estar tanto em nós quanto fora de nós. E, a segunda, envolve as práticas de recordação e se observa nos indivíduos e suas relações quando inseridos no mesmo contexto. “A parte objetiva da memória apenas reteria a informação, ela seria passiva, enquanto a subjetiva seria ativa, ela construiria ou re-construiria experiências anteriormente vivenciadas.” (SANTOS, 2003, p. 72) Bergson descreveu dois tipos de memória: a presente nas ações e atividades do dia a dia; e a que recupera as imagens à semelhança do passado. O primeiro diz respeito à habilidade de reproduzir o que foi aprendido ao longo da vida e o segundo, à recordação de um evento do passado que, colocado no tempo-espaço, não se repete. A memória está presente nas construções do passado e não recordamos de forma igual a como aconteceu, pois construímos o passado ao mesmo tempo em que ele nos constrói. (SANTOS, 2003) Ainda, é possível identificar outras duas formas de memória: voluntária e involuntária. A memória voluntária é a que se coloca a serviço do intelecto e é responsável pela reconstrução do passado em um momento pontual do presente de forma intencional. A involuntária é responsável pelo surgimento das experiências vivenciadas no passado de forma não intencional e pela transmissão dessas experiências através das gerações. (SANTOS, 2003) Na configuração e delimitação da memória, há o problema da escolha: entre tantos estímulos que chegam, alguns se tornarão traços da memória, outros serão descartados e esquecidos (GONDAR, 2000). E, mesmo o discurso da memória parecendo global, ele ainda permanece ligado à história local. A memória é sempre transitória e passível de esquecimento: é humana e social (HUYSSEN, 2004). Bosi (2001) defende que hoje a função da memória é o conhecimento do passado que se organiza, ordena o tempo, localiza cronologicamente. Na aurora da civilização grega, ela era vidência e êxtase. O passado revelado desse modo não é o antecedente do presente, é a sua fonte. (BOSI, 2001, p. 89) 44 Tradicionalmente, a memória era um processo interno do ser humano, mas hoje a tecnologia permite que ela possa ser reunida em suportes externos. O livro, a fotografia, o cinema e a internet contribuem de forma fundamental para a desconstrução da ordem lógica do tempo, ou seja, passado, presente e futuro. As mídias tornaram o tempo homogêneo. Essa relação temporal fez com que as pessoas buscassem as materializações concretas de memória. Memória e turismo estão intrinsecamente relacionados de várias formas. Gastal et al. (2010, p.93) afirma que “[...] os produtos memorialísticos são muito relevantes para o turismo” e defende que essa relação muitas vezes está na contramão dos novos segmentos de consumidores de viagens por conta da “[...] certa obviedade nos elementos de memória utilizados [...] levando a repetições e mesmices” (GASTAL et al., 2010, p. 93). A atividade turística pode contribuir para fazer durar a memória da população junto aos locais de interesse turístico (atrativos). Após conhecer alguns conceitos-chave sobre memória, faz-se necessária uma explanação sobre Lugar de Memória para que seja possível, em outro momento do estudo, estabelecer a ligação entre esses assuntos e os atrativos turísticos, em especial as igrejas e os museus. 2.2.2 Lugar de Memória Lugar de Memória é entendido como o lugar onde a memória se cristaliza e se esconde. O tema foi criado pelo historiador francês Pierre Nora em sua obra “Les Lieux de Mémoire”, publicada pela primeira vez em 1984. Nosso interesse nos lieux de mémoire [...] ocorreu num momento histórico determinado, um momento de mudança onde a consciência de uma ruptura com o passado está ligada ao sentimento de que a memória sofreu uma torção, de modo a expor o problema da corporificação da memória em certos locais onde um sentido de continuidade histórica permanece. Há lieux de mémoire, lugares de memória, porque não há mais milieux de mémoire, contextos reais da memória. (NORA, 1993, p.1, grifo do autor) 45 Segundo Nora (1993), não haveria a necessidade de lugares de memória se o indivíduo fosse capaz de viver na memória, porque com o surgimento do vestígio, da mediação e da distância esse indivíduo está no curso da história e não mais na verdadeira memória. Esta é a vida, vivenciada pelas sociedades vivas e está sempre em evolução, vulnerável a manipulações. Ainda segundo Nora (1993, p. 3), “a história é a reconstrução, sempre problemática e incompleta, daquilo que não existe mais”. Os lugares de memória são vestígios do passado que aparecem em consequência da desritualização do mundo. “Eles se originam da ideia de que não há mais memória espontânea [...] as atividades não ocorrem mais naturalmente” (NORA, 1993, p.7). O que produz os lugares de memória são os momentos da história retirados do movimento da história. A memória, hoje, é principalmente arquivística, pois se encontra nos vestígios, na rapidez do registro, na imagem visível. Portanto, mesmo que a memória tradicional tenha desaparecido, nos sentimos obrigados a assiduamente coletar lembranças, testemunhos, documentos, imagens, discursos, quaisquer sinais visíveis do que aconteceu [...] Torna-se impossível prever o que deverá ser lembrado – e, portanto a tendência a evitar destruir qualquer coisa leva ao esforço correspondente de todas as instituições de memória. (NORA, 1993, p. 9) Em alguns momentos, surgem as pessoas que tomam para si a responsabilidade de recapturar a memória, por meios individuais, quando ela não estiver mais presente em todo lugar. São os chamados indivíduos-memória. Os lieux de mémoire são simples e ambíguos, naturais e artificiais, de uma só vez imediatamente disponíveis à experiência sensual concreta e suscetíveis a mais abstrata elaboração. Sem dúvida, eles são lieux nos três sentidos da palavra – material, simbólica e funcional [...] Os lieux de mémoire são criados por um jogo de memória e história, uma interação de dois fatores que resulta em sua recíproca sobredeterminação. Para começar, tem que haver uma vontade de lembrar. Se abandonamos este critério, rapidamente seríamos levados a admitir que virtualmente tudo vale a pena de ser lembrado. (NORA, 1993, p.15-16) Os lugares são híbridos, mistos, unidos à morte, à vida, ao tempo e à eternidade. Os lugares de memória existem por conta da capacidade de metamorfose, de uma mudança do 46 significado e uma proliferação das ramificações. Para Santos (2003, p.91), “podemos compreender que lugares de memória, como monumentos e construções arquitetônicas, são representações coletivas que influem e determinam ações coletivas”. Os quarteirões e as casas, nas cidades, têm um lugar fixo e o grupo urbano não percebe mudanças enquanto o aspecto de ruas e edifícios continua igual. As obras públicas e os novos traçados das ruas transformam a paisagem e acarretam um deslocamento do centro urbano, do centro de vivência do indivíduo. Dessa forma, se explica que, de prédios demolidos e de antigos traçados, restam alguns vestígios materiais, nem que seja uma tabuleta, o nome da rua ou lugar (HALBWACHS, 2004). Segundo Gastal (2002, p.75), “o lugar é dinâmico, receptáculo de construção/destruição na tensão entre o regional e o globalizado, mas, principalmente, surge na ação humana e na acumulação de memórias”. Para a autora, há quatro referenciais para os lugares de memória: valores cognitivos, valores formais, valores afetivos e valores pragmáticos. O valor cognitivo diz respeito ao acúmulo concreto de informação sobre os saberes da comunidade e esse acúmulo pode não possuir registros formais. O valor formal são as propriedades materiais que colaboram na construção do valor estético. Os valores afetivos favorecem a consolidação do sentimento de pertencimento; é o gostar de ver, estar, conviver. O valor pragmático, também chamado valor de uso, é o lugar de memória sendo utilizado (GASTAL, 2002). Monastirsky (2009) entende que para determinação de um lugar de memória, Nora (1993) aponta para a necessidade de se manter a intenção de que o lugar seja um lugar de memória. A razão fundamental de ser de um lugar de memória é poder parar o tempo, bloquear o trabalho do esquecimento, fixar um estado de coisas, imortalizar a morte, materializar o material, prender o máximo de sentido num mínimo de sinais [...] O lugar de memória possui uma representatividade própria, identidade única. É fechado em si mesmo, mas aberto às descobertas de suas significações. (MONASTIRSKY, 2009, p.329) 47 O Lugar de Memória, por possuir características próprias, pode ser um bom argumento para a definição de alguns atrativos e contribuir para o desenvolvimento do turismo de uma localidade. Levando-se em consideração os quatro valores (cognitivos, formais, afetivos e pragmáticos) e o fato de o Lugar de Memória estar presente em vestígios do passado, podemse pensar os museus e igrejas, enquanto edificações e espaços de convivência, como um local onde a memória estará presente. Para um melhor entendimento dessas relações adiante, faz-se necessária uma explanação sobre patrimônio, conceito intrínseco ao estudo do turismo e também da memória, e também uma breve apresentação sobre museus e igrejas, corpus da pesquisa desse trabalho. 2.3 Patrimônio Cultural: Museus e Igrejas 2.3.1 Patrimônio Cultural Patrimônio e Memória são dois conceitos que se relacionam, ou seja, ao se falar de patrimônio há uma ligação imediata com a memória que aquele monumento, igreja ou museu representa para a localidade. Dias (2006, p. 100) afirma que “o patrimônio é uma das partes mais visíveis da memória coletiva de uma sociedade, história materializada em objetos e em ações carregadas de significados [...]”. Para Fonseca (2005, p.51), “a questão do patrimônio se situa numa encruzilhada que envolve tanto o papel da memória e da tradição na construção de identidades coletivas, quanto os recursos a quem têm recorrido os Estados modernos na legitimação da ideia de nação”. Há duas categorias de patrimônio: o natural e o cultural. O primeiro é constituído pelas riquezas que estão no solo e subsolo, como florestas e jazidas. Já o conceito de patrimônio cultural admite uma variedade de subtipos, como o patrimônio histórico, arqueológico, industrial e outros que foram surgindo à medida que o conceito de cultura foi se ampliando. (BARRETTO, 2007, p.110) 48 Nesse estudo, tratar-se-á apenas do conceito de patrimônio cultural. O patrimônio cultural é representado pelo conjunto de manifestações e representações de uma sociedade e está presente em todos os lugares, como ruas, casas, artes, museus, igrejas, entre outros. É formado por elementos tangíveis e intangíveis. Pode ser entendido como o conjunto de bens culturais com valor histórico, artístico, arquitetônico, arqueológico ou ambiental para uma determinada comunidade e que esta entende que deve ser preservado para as gerações seguintes. Patrimônio cultural é uma noção muito ampla, pode-se dizer que é tudo o que se relaciona com a cultura, com a história, a memória, a identidade das pessoas ou grupo de pessoas [...]: são os lugares, as obras de arte, as edificações, as paisagens, as festas, as tradições, os modos de fazer, os sítios arqueológicos. (CONSELHO INTERNACIONAL DE MONUMENTOS E SÍTIOS, 2012, p. 1) A ideia de patrimônio surge com a noção de monumento na Europa, no final do século XVIII a partir do fortalecimento dos estados nacionais. Sua disseminação maior acontece no século XX, principalmente com a descaracterização das cidades europeias após a segunda guerra. Hoje, este conceito está presente no mundo inteiro, transpondo os limites dos estados nacionais e se destinando à sociedade em geral. Segundo Martins (2006, p.40), “o conceito de patrimônio histórico e artístico usado desde o século XIX foi paulatinamente sendo substituído pelo conceito mais amplo de patrimônio cultural [...]”. Dessa forma, o conceito de patrimônio evoluiu ao longo dos séculos, como é possível ver no Quadro 1. 49 Quadro 1 - A evolução histórica do conceito de patrimônio Concepção Ideias relacionadas Patrimônio = coleção de riquezas, raridades e Butins de guerra. Troféus. antiguidades de caráter extraordinário ou de Tesouros. Oferendas religiosas. Idade Antiga grande valor material, indicadores de poder, de Propriedade privada. Desfrute luxo e de prestígio. individual. Inacessibilidade. Escavações arqueológicas. Colecionismo seletivo. Tráfico Patrimônio = vestígios de uma civilização de obras de arte. Cópias de Grécia, Roma considerada superior, que, por isso, é imitada. modelos originais. Museus e e Idade Média Valorização estética e herança cultural de câmaras de maravilhas. interesse pedagógico. Relíquias. Exposição pública de alguns elementos com intenção de propaganda. Cultura elitista de intenção Patrimônio = objetos artísticos especialmente pedagógica. Academicismo. Renascimento belos ou meritórios, também valorizados por Colecionismo artístico e e séculos XVI- sua dimensão histórica e rememorativa. A obra científico. Primeiros estudos XVIII de arte pode ser um documento para conhecer o rigorosos de história da arte. passado. Desfrute por grupos eruditos. Certo grau de acessibilidade. Nacionalismo. Investigações históricas, artísticas, Patrimônio = conjunto de expressões materiais arqueológicas e etnológicas. Século XIX e ou não materiais que explicam, historicamente, Importância do folclore. início do a identidade sociocultural de uma nação e, por Educação popular. Legislação século XX sua condição de símbolos, devem ser protetora. Conservação seletiva. conservadas e restauradas. Restauração monumental. Museus, arquivos e bibliotecas estatais a serviço público. Reconstrução do patrimônio Patrimônio = elemento essencial para a destruído. Políticas de gestão emancipação intelectual, para o educativa. Exposições e ciclos desenvolvimento cultural e para a melhoria da de atos culturais para que toda a 1945 – 1980 qualidade de vida das pessoas. Começa-se a população conheça o considerar seu potencial socioeducativo e patrimônio. Difusão dos bens econômico, além de seu valor cultural. culturais. Consumo superficial. Turismo de massa. Legislação. Restauração. Plena acessibilidade e novos usos. Patrimônio = riqueza coletiva de importância Participação. Envolvimento da crucial para a democracia cultural. Exige-se o sociedade civil. Turismo Atualidade compromisso ético e a cooperação de toda a sustentável. Cultura popular população para garantir tanto sua conservação significativa. Criatividade. como sua exploração adequada Descentralização. Didática do patrimônio. Fonte: LLULL, José. Evolución del concepto u de la significación social del patrimonio cultural. Arte, Individuo y Sociedad, Madrid, v. 17, p.175-204, 2005, p.203. In: DIAS, 2006, 74-75. Época A preocupação com a preservação do patrimônio evolui juntamente com a evolução do seu conceito, tendo como principais marcos: a Carta de Atenas (1931), cujo objetivo era 50 proteger bens de interesse histórico e artístico; a Carta de Veneza (1964), que introduz um novo conceito de monumento; e, a Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural, promulgada pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura – UNESCO, em 1972. A convenção da UNESCO, em seu artigo 1º, considera patrimônio cultural: Os monumentos – obras arquitetônicas, de escultura ou de pintura monumentais, elementos de estruturas de caráter arqueológico, inscrições, grutas e grupos de elementos [...] Os conjuntos – grupos de construções isoladas ou reunidos que, em virtude de sua arquitetura, unidade ou integração na paisagem [...] Os locais de interesse – obras do homem, ou obras conjugadas do homem e da natureza, e as zonas, incluindo os locais de interesse arqueológico [...]. (UNESCO, 1972, p.2) A partir da segunda metade do século XX, as políticas de patrimônio passam a se preocupar com um novo aspecto: adequação e utilização dos espaços por um consumo cultural de massa. Para Dias (2006), a partir da evolução histórica do conceito e das políticas de preservação, podem-se identificar cinco dimensões para o patrimônio: Dimensão científico-cultural – compreende a função educativa e tem como objetivo estudar o passado, as origens da sociedade; confunde-se com a dimensão artística e histórica do Renascimento; Dimensão simbólica – relaciona-se à idealização promovida por atores e por grupos sociais, que transforma o patrimônio em símbolo de construção e de consolidação da identidade de comunidades reais ou imaginadas; Dimensão política – compreende o papel do patrimônio na consolidação dos Estados nacionais, o que tende a crescer no estabelecimento e na consolidação de estruturas de poder locais; Dimensão social – incorpora a noção de patrimônio como propriedade comum, em que está implícita a ideia de democratização daquele [...]; Dimensão econômica – particularmente relacionada a sua exploração econômica, concebe o patrimônio como um bem com valor econômico, que pode ser ofertado em um determinado mercado [...]. (DIAS, 2006, p.76) Dias (2006) afirma, ainda, que a UNESCO contribuiu fortemente para a difusão de quatro noções sobre o patrimônio cultural: 51 é um recurso de toda a humanidade, não um bem nacional, concepção que predominava anteriormente [...]; é um recurso não renovável – a ideia de sustentabilidade foi incorporada definitivamente como um componente essencial da preservação e conservação dos bens tanto materiais quanto imateriais; é um bem intocável [...]; envolve o ambiente natural [...]. (DIAS, 2006, p.107-108) No Brasil, a evolução do conceito de patrimônio cultural confunde-se com vários acontecimentos políticos e culturais da história do país. Três fatos são fundamentais no entendimento das mudanças desse conceito: a Semana de Arte Moderna (1922), o Estado Novo e a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). Em 1937, é promulgado o Decreto-Lei nº 25 que apresenta a visão da época sobre patrimônio cultural, formado principalmente por bens móveis e imóveis. Essa fase inicial, chamada de heroica, foi marcada pelo tombamento de bens em virtude muito mais do valor estético que do valor histórico. A fase seguinte é marcada pelo fim do Estado Novo e pela politização da cultura, a partir do governo de Juscelino Kubitscheck; esse período se confunde com o próprio SPHAN. O profissionalismo se faz presente na condução das políticas de patrimônio a partir do final da década de 1930. A instalação da Assembleia Constituinte e promulgação da nova Constituição Federal, em 1988, é um marco na construção do conceito de patrimônio cultural no país. A expressão patrimônio cultural brasileiro consagra o sentido de universalidade de patrimônio. (RODRIGUES, 2006, p.2-12). Assim, no Brasil, o patrimônio cultural está definido no artigo 216 da Constituição Federal de 1998. Art.216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I – as formas de expressão; II – os modos de criar, fazer e viver; III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico [...] (BRASIL, 2012, p.43-44) 52 Durante muito tempo, as políticas governamentais de preservação focaram o patrimônio material ou tangível, principalmente o edificado. Esse patrimônio material é composto por construções antigas, ferramentas, objetos pessoais, museus, cidades históricas, edifícios militares e religiosos, monumentos, documentos, entre outros. Tudo aquilo que demonstra a capacidade de o ser humano se adaptar a seu ambiente ou a forma de organização da vida social, política e cultural da localidade. O Brasil é um país que apresenta uma gama completa de patrimônio, da pré-história a Brasília. De acordo com dados da UNESCO (2004), o país possuía, entre os anos de 1980 e 2001, 18 sítios, naturais e culturais, inscritos na lista do Patrimônio Mundial; entre eles podese destacar os seguintes bens culturais: Cidade Histórica de Ouro Preto (MG); Cidade Histórica de Olinda (PE); Missões Jesuíticas dos Guaranis: Ruínas de São Miguel das Missões (RS); Centro Histórico de Salvador (BA); Santuário de Bom Jesus de Matosinhos (MG); Brasília (DF); Centro Histórico de São Luís (MA); Centro Histórico de Diamantina (MG); e, Centro Histórico da Cidade de Goiás (GO). E, em 2012, o Rio de Janeiro (RJ) é a primeira cidade no mundo a receber o título de Patrimônio Mundial como Paisagem Cultural Urbana. Em 1973, é criada em Pernambuco a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – FUNDARPE, destinada à preservação e manutenção dos bens tombados na esfera estadual. Hoje, a fundação está vinculada à Secretaria Estadual de Cultura. No âmbito federal, de acordo com dados do IPHAN, o estado tem 80 bens tombados. Para Silva (2010, p.70), “o acervo histórico, religioso e cultural de Pernambuco é rico por sua diversidade, que atrai turistas de toda a parte do mundo para conhecer a dança, a culinária, os ritmos, a crença – os costumes de modo geral”. Na cidade do Recife, as políticas sobre patrimônio são coordenadas pela Diretoria de Preservação do Patrimônio Cultural – DPPC, vinculada à Secretaria de Cultura do município. 53 Segundo Silva (2002), a cidade do Recife possui 38 bens tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), entre eles: Bairro do Recife, Igreja da Madre de Deus, Concatedral de São Pedro dos Clérigos, Convento e Basílica de Nossa Senhora do Carmo, Igreja de Santa Tereza da Ordem Terceira do Carmo, Convento Franciscano de Santo Antônio, Capela Dourada da Ordem Terceira de São Francisco do Recife, Casa de Gilberto Freyre, Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares, Fortaleza de São Tiago das Cinco Pontas, Sinagoga Kahal Kadosh Zur Israel, Acervo do Museu do Estado de Pernambuco, Fortaleza do Brum, Marco Divisório da Capitania de Itamaracá e Coleções do Instituto Arqueológico, Mercado de São José, Palácio da Soledade, Academia Pernambucana de Letras, Sobrado Grande da Madalena (Museu da Abolição), Teatro de Santa Isabel e Faculdade de Direito do Recife. Além da relação intrínseca com a memória, o patrimônio possui uma ligação essencial com o turismo. Para Dias (2006, p. 36), “o patrimônio cultural, como recurso turístico, atende a um interesse crescente pela cultura que se traduz em um aumento significativo de viajantes que praticam o turismo cultural”. O mesmo autor, citando Prats (1997), classifica o patrimônio como recurso turístico da seguinte forma: como um produto turístico capaz de integrar, junto com a oferta hoteleira, um motivo de compra autônomo; como um produto turístico integrado, em que se combina com outros atrativos; como um valor agregado aos destinos turísticos que não têm o patrimônio como motivo de compra básico. (DIAS, 2006, p.101) No Brasil, essa relação, patrimônio e turismo, existe desde a década de 1930, com o início das políticas de proteção e preservação do primeiro. Para Murta e Goodey (2005, p.13), “nas últimas décadas, o aumento do número de visitantes a sítios históricos tem levado governos, empresários e comunidades a gerenciar e promover seu patrimônio como recursos educacional e de desenvolvimento turístico”. Complementando essa ideia, Cardoso (2006, p.69) afirma que “[...] o turismo como atividade econômica incorporou os patrimônios 54 históricos e culturais às suas necessidades de reprodução”. Vale ressaltar que os bens patrimoniais não têm o mesmo grau de atração. Camargo (2005) os segmenta em alta, média e baixa atratividade. Para um melhor entendimento, consideram-se de alta atratividade aqueles bens que sozinhos são capazes de atrair o interesse do visitante para uma localidade; os de média fazem parte de um conjunto mais amplo de atrações; e, os de baixa atratividade são aqueles que, muitas vezes, orbitam em torno de outros bens. Em função desse grau de atratividade, Camargo (2005) aponta a possibilidade de agrupamento desses conjuntos em função da proximidade para facilitar o fluxo de visitantes. Entre os vários bens patrimoniais existentes, destacam-se os museus e as igrejas. Os primeiros são considerados locais de disseminação do conhecimento e de guarda da história e memória da localidade onde está inserido. As igrejas são os principais exemplares dos bens tombados, uma vez que a arquitetura religiosa, principalmente a Católica, está presente no Brasil desde o seu descobrimento. 2.3.2 Museus Os museus, de uma forma geral, junto com os sítios arquitetônicos tombados podem ser considerados os principais atrativos para o chamado turismo cultural. Segundo Amaral (2006, p. 51), “isso é evidente onde existe uma cultura sedimentada de visita aos museus”. Eles são responsáveis por grande parte da atratividade que uma localidade possui. É possível afirmar que o museu nasce do hábito do ser humano colecionar objetos de valor cultural, afetivo ou material. A origem do termo museu remonta à palavra grega mouseion, ou casa das musas, que na Antiguidade clássica era o local dedicado, sobretudo ao saber e ao deleite da filosofia. [...] Vemos, então, que na própria origem do termo, o museu já trazia implícita uma forte relação entre as questões inerentes ao poder e à memória [...]. (VASCONCELLOS, 2006, p.13-14, grifo do autor) 55 Os museus modernos surgem a partir do século XVII na Europa. Os museus de belas artes são oriundos das galerias de arte existentes nas residências dos monarcas e papas. Dos gabinetes de curiosidades, surgiram os museus de história natural e os museus arqueológicos se originam dos chamados gabinetes de antiguidades. Após a Revolução Francesa (1789), é permitido definitivamente o acesso às grandes coleções, agora tornadas públicas, e é incorporado o conceito de patrimônio ao universo museal. O primeiro museu público com coleções acessíveis a todos foi o Museu do Louvre, inaugurado em 1793. Vasconcellos (2006, p.21) afirma que “[...] nos Estados Unidos, os primeiros museus foram constituídos de maneira diferenciada dos europeus, pois já nasceram como instituições voltadas para o público [...]”. No Brasil, os primeiros foram o Museu da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, fundado em 1815, e o Museu Nacional do Rio de Janeiro, em 1818. E, aqui se percebe a grande influência dos europeus. Em Pernambuco, o primeiro estabelecimento museológico foi o Museu do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, inaugurado em 1862. Apesar de alguns museus surgidos no século XIX, é importante frisar que os museus brasileiros aumentam sua presença no cenário nacional no século XX, principalmente a partir da década de 1930. O Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) (2012) define museus como casas que guardam e apresentam sonhos, sentimentos, pensamentos e intuições que ganham corpo através de imagens, cores, sons e formas. Os museus são pontes, portas e janelas que ligam e desligam mundos, tempos, culturas e pessoas diferentes. Os museus são conceitos e práticas em metamorfose. (IBRAM, 2012, p.1) O Departamento de Museus e Centros Culturais do IPHAN, em 2005, definiu museu como 56 uma instituição com personalidade jurídica própria ou vinculada a outra instituição com personalidade jurídica, aberta ao público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento e que apresenta as seguintes características: I – o trabalho permanente com o patrimônio cultural, em suas diversas manifestações; II – a presença de acervos e exposições colocados a serviço da sociedade com o objetivo de propiciar a ampliação do campo de possibilidades de construção identitária, a percepção crítica da realidade, a produção de conhecimentos e oportunidades de lazer; III – a utilização do patrimônio cultural como recurso educacional, turístico e de inclusão social; IV – a vocação para a comunicação, a exposição, a documentação, a investigação, a interpretação e a preservação de bens culturais em suas diversas manifestações; V – a democratização do acesso, uso e produção de bens culturais para a promoção da dignidade da pessoa humana; VI – a constituição de espaços democráticos e diversificados de relação e mediação cultural, sejam eles físicos ou virtuais. Sendo assim, são considerados museus, independentemente de sua denominação, as instituições ou processos museológicos que apresentem as características acima indicadas e cumpram as funções museológicas. (IBRAM, 2012, p.2) Para o Conselho Internacional de Museus – ICOM (2001), o museu é “uma instituição permanente sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e de seu envolvimento e de seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquiriu, conserva, pesquisa, comunica e expõe testemunhos materiais do homem e de seu meio, para fins de estudo, educação e lazer”. (VASCONCELLOS, 2006, p. 34-35). Museus tradicionais são os que desenvolvem seu trabalho a partir de um acervo constituído historicamente e a maioria dos museus contemporâneos se classifica dessa maneira. Ele teria três funções: guardar documentos, pesquisar para construir conhecimento e divulgar acervo e as pesquisas realizadas. Para esse tipo de museu, uma escultura ou pintura é considerada documento. Os museus mais visitados dispõem de exposições renovadas frequentemente e mão de obra especializada, ocupam espaços destacados e inseridos nas paisagens urbanas, oferecem bibliotecas, livrarias, lojas, restaurantes, entre outros, que contribuem para o aumento de visitantes. Para Amaral (2006, p.56), “ser o espaço das 57 diversas experiências temporais, contrapondo visões de mundo e da sociedade, e incentivar a reflexão no tempo e sobre o tempo são algumas das vocações dos museus”. Amaral (2006, p.61) também defende a construção de uma visão estratégica na gestão de museus para valorizá-lo como equipamento urbano e assim revitalizar o fluxo de interesse turístico. É preciso que o museu adote uma postura consistente a fim de manter o fluxo de visitas e fortalecer a instituição como parte integrante dos roteiros culturais da cidade. Para isso, o museu deve se tornar um elemento de diálogo com a sociedade e formar visitantes. Segundo Gastal (2010, p. 87), “o museu e seu papel social estariam intrinsecamente associados, em primeiro lugar, à percepção em relação ao tempo e, em segundo e como decorrência, à percepção e ao papel social da memória em diferentes momentos”. A partir da década de 1980, o museu se afasta de seu caráter depositário de memória coletiva associada a um território e se torna um espaço cultural com loja, cafés e souvenirs. Menos um espaço de acervo de memória coletiva, espaço de pesquisa e conhecimento, e mais um local de distração, entretenimento e espetáculo. E, como afirma Cury (2005, p.42), “o museu monólogo cederá lugar ao museu diálogo [...]”. Além dos museus, as igrejas também são atrações do chamado turismo cultural e são as maiores representantes dos bens patrimoniais tombados pelos órgãos de regulação, preservação e conservação dos patrimônios culturais. 2.3.3 Igrejas A Igreja Católica está presente no Brasil desde a chegada dos portugueses em 1500, quando, em 26 de abril, é celebrada a primeira missa pelo frade franciscano Henrique Soares de Coimbra. Os primeiros religiosos a desembarcarem em terras brasileiras foram os frades franciscanos e capuchinhos. Após 40 anos, em 1549, chegam os padres jesuítas da Companhia de Jesus e iniciam as missões indígenas. Depois várias outras ordens e congregações se 58 instalaram no país, entre elas: carmelitas descalças, beneditinos, oratorianos. Mas, a grande força da Igreja Católica é representada pelos leigos em Irmandades, Confrarias e Ordens Menores. Até a metade do século XVIII, a Coroa Portuguesa controlou a atividade eclesiástica na colônia por meio do padroado 5. Arcava com o sustento da Igreja e impedia a entrada no Brasil de outros cultos, em troca de reconhecimento e obediência. O Estado nomeava e remunerava párocos e bispos, concedendo licença para construir igrejas. (ORNELAS, 2012) A partir do século XIX, com a chegada de diversas ordens e congregações, o cenário começa a mudar, a Igreja começa a se estruturar em dioceses e paróquias e a participar em relevantes discussões nacionais. Em todo o Brasil, surgem universidades, colégios, editoras e periódicos mantidos por essas ordens e congregações. Conforme Debald (2007, p.53), “com o advento da República (1889), o governo provisório decretou a separação entre a Igreja Católica e o Estado. O rompimento marcou o começo de um novo relacionamento entre o poder civil e religioso”. Esse fato marca o fim do padroado e reconhece o caráter laico do Estado; a liberdade religiosa passa a ser garantida. Em 1934, com a promulgação da Constituição, são implantadas as aulas de religião nas escolas públicas, a presença de capelães nas Forças Armadas e a inclusão do nome de Deus na carta magna. Em Pernambuco, assim como no país, a Igreja Católica se faz presente desde a criação da Capitania. Em 1614, foi instituída a Prelazia6 de Pernambuco pelo Papa Paulo V que, mais de 60 anos depois, se tornaria a Diocese de Olinda. Em 1910, é elevada a categoria de Arquidiocese e, oito anos após, é renomeada para Arquidiocese de Olinda e Recife. O primeiro exemplar da arquitetura religiosa no estado foi uma ermida construída em 1535; essa ermida, mais tarde, se transformaria na matriz dos Santos Cosme e Damião, no município de 5 Padroado é o direito de protetor de quem fundou uma igreja ou direito de conceder benefícios eclesiásticos. Fonte: Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Disponível em: <http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm?verbete=padroado&stype=k> 6 Prelazia é a dignidade ou jurisdição de prelado; pode ser entendido como sinônimo de diocese ou bispado. Fonte: Dicionário Online de Português. Disponível em: <http://www.dicio.com.br/prelazia/>. 59 Igarassu. No Recife, uma das primeiras edificações católicas que se tem registro é o Convento Franciscano de Santo Antonio, cuja fundação data do início do século XVII. O convento foi tombado pelo IPHAN em 1938 e contém a maior coleção de azulejos holandeses das Américas. Hoje, do conjunto fazem parte o convento, a igreja, a Capela Dourada e o Museu de Franciscano de Arte Sacra. Da mesma forma que em outras localidades, as igrejas do Recife são grandes exemplares da arte barroca. O Barroco pernambucano pode ser dividido em duas fases. A primeira, até o século XVII, com características mais simples, e a segunda, do século XVIII ao século XIX, mais exuberante e rebuscada. Moura (2011, p.6) afirma que as igrejas construídas em períodos e estilos distintos, foram palco de acontecimentos importantes na história do povo pernambucano, em especial do povo recifense. Aquelas edificadas do século XVII ao XIX constituem esplêndido acervo de arte e arquitetura [...]. Assim, as edificações religiosas, em geral católicas, são bons exemplos de lugares de memória, pois elas guardam vestígios dos vários acontecimentos de uma localidade. 60 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 3.1 Delineamento da Pesquisa Para o desenvolvimento do trabalho, fez-se a opção por dividi-lo em momentos, de acordo com as necessidades essenciais para o cumprimento dos objetivos propostos. A pesquisa teve como característica ser, em um primeiro momento, descritiva sobre as teorias a serem abordadas com o Turismo, a Memória, o Lugar de Memória, o Patrimônio, os Museus e as Igrejas; uma vez que é necessário para o trabalho “descrever, analisar e classificar os fatos, sem que o pesquisador neles interfira” (SANTAELLA, 2001, p. 147), com ênfase na revisão bibliográfica e pesquisa documental (direta e indireta) a fim de possibilitar maior aproveitamento dos conteúdos teóricos a serem expostos na redação final da dissertação. E, num segundo momento, ser aplicada, pois ela pretende promover “a ampliação da compreensão de um problema” (SANTAELLA, 2001, p. 140), isto é, os conteúdos descritos anteriormente serão aplicados durante a análise de um corpus definido. Durante o estudo, utilizou-se de uma abordagem dedutiva, em virtude de, conforme diz Bastos (1999, p.73-83 apud SANTAELLA, 2001, p. 137), “o dedutivo parte de premissas gerais, teorias e leis, para predizer a ocorrência dos fenômenos particulares”. Com base nessas ponderações iniciais, a pesquisa foi delineada de forma qualitativa, uma vez que a ideia é aprofundar o conhecimento das teorias e analisar suas aplicabilidades ao conjunto de práticas diárias. Conforme defende Minayo (2004, p.12), a pesquisa qualitativa “[...] não é uma alternativa ideológica às abordagens quantitativas” e sim nos induz “a aprofundar o caráter do social e as dificuldades de construção do conhecimento [...]”. 61 3.2 Locus da Investigação A pesquisa foi realizada junto aos museus e igrejas – atrativos turísticos artificiais de caráter histórico-cultural – localizados na cidade do Recife. Para um melhor direcionamento, considerou-se o museu, na pesquisa, como o estabelecimento que se enquadra nas definições apresentadas pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) (ver Anexo F) e pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM). Por sua vez, por igreja, entendeu-se a edificação destinada a celebração de ritos da religião católica. 3.3 População e Amostra A população da pesquisa compreende os museus e igrejas católicas estabelecidas na cidade do Recife. Por se tratar de uma pesquisa qualitativa, a amostra foi a não probabilística, pois, como defende Minayo (2004, p.102), “podemos considerar que amostra ideal é aquela capaz de refletir a totalidade nas suas múltiplas dimensões”. Já Duarte (2005, p. 69) acredita que “existem dois tipos básicos de amostra não probabilística [...]: por conveniência ou intencional”. Assim, a amostra da pesquisa foi selecionada das duas formas, ou seja, por conveniência, pois “o pesquisador seleciona os elementos a que tem acesso, admitindo que esses possam, de alguma forma, representar o universo” (GIL, 2008, p. 94), sendo as fontes selecionadas pela proximidade com o assunto; e também de maneira intencional que “consiste em selecionar um subgrupo da população que, com base nas informações disponíveis, possa ser considerado representativo de toda a população” (GIL, 2008, p. 94), isto é, por simbolizar o objeto de estudo. Para a definição da amostra foram levados em conta os seguintes fatores: representatividade para a memória da cidade, o apelo turístico e a localização. Em relação 62 aos museus, considerou-se a população de 41 instituições indicadas no Guia dos Museus Brasileiros 2011, seção Nordeste (IBRAM, 2011, p. 135-142). A partir desta relação, constituiu-se, de modo aleatório, como amostra, os estabelecimentos museológicos encontrados nos bairros centrais (Bairro do Recife, São José e Santo Antônio), perfazendo um total de sete espaços. Além destes, foram selecionados três outros museus estabelecidos em bairros da Zona Norte da cidade (ver Apêndice A). No tocante às igrejas, a população encontrada foi de 52 paróquias, conforme elenco disposto no sítio da Arquidiocese de Olinda e Recife (ver Anexo G), e, para amostra, elegeu-se as edificações ligadas à religião católica participantes do “Circuito das Igrejas” (ver Anexo H), que é um roteiro histórico-cultural promovido pelo Governo do Estado e Fundação Gilberto Freyre, com o apoio do IPHAN e Ministério da Cultura; nesta fase analisaram-se cinco igrejas localizadas também nos bairros centrais do Recife (ver Apêndice B). 3.4 Coleta e Análise dos Dados Para a coleta dos dados, inicialmente, visando um melhor subsídio para o estudo, optou-se pela pesquisa bibliográfica, uma vez que esse tipo de pesquisa tem o objetivo de “identificar informações bibliográficas, selecionar os documentos pertinentes ao tema estudado [...]” (STUMPF, 2005, p.51). Nessa etapa, se estudou os pressupostos teóricos referentes a Turismo, Memória, Lugar de Memória, Patrimônio Cultural, Museus e Igrejas. Buscando um aprofundamento do tema e na intenção de responder a pergunta de pesquisa, utilizou-se a pesquisa e análise documental. Lüdke e André (1986, p.38) apontam que “segundo Caulley (1981), a análise documental busca identificar informações factuais nos documentos a partir de questões ou hipóteses de interesse”. E, sua finalidade é contextualizar os fatos, as situações e os momentos. A pesquisa documental aproxima-se da pesquisa 63 bibliográfica, mas se diferenciam por conta da natureza das fontes. A primeira se utiliza de materiais sem tratamento analítico, enquanto a segunda, contribuições de diversos autores. Santos (2007) deixa claro essa distinção ao afirmar que: Documento é o nome genérico dado às fontes bibliográficas que ainda não receberam organização, tratamento analítico [...]. São fontes documentais informativos arquivados em repartições públicas, associações, igrejas [...]; fotografias; epitáfios; obras originais de qualquer natureza [...]. (SANTOS, 2007, p. 32) Nessa etapa, o primeiro passo foi definir o tipo de documento a ser selecionado para estudo e análise. Escolheu-se como fontes, então, mapas e guias turísticos da cidade do Recife, folders dos atrativos, publicações disponíveis nos locais analisados, sítios de internet (guias, revistas de turismo, páginas dos atrativos, fotografias, entre outros), em que a preocupação foi avaliar as informações disponibilizadas para o turista e que pudessem caracterizar o atrativo como lugar de memória. A opção por essa forma de pesquisa (bibliográfica e documental) aconteceu em virtude da intenção de discutir o assunto de maneira teórica e assim contribuir para análise do turismo e dos atrativos turísticos como um todo. E, também, por conta das seguintes vantagens apontadas por Gil (2008, p.153-154): “i) possibilita o conhecimento passado; ii) possibilita a investigação dos processos de mudança social e cultural; iii) permite a obtenção de dados com menos custo; iv) favorece a obtenção de dados sem o constrangimento dos sujeitos”. Paralelamente a essas etapas, foram realizadas visitas aos museus e igrejas selecionados a fim de verificar o uso dos espaços existentes. Também, ocorreram conversas informais com responsáveis e/ou funcionários para levantamento de algumas informações e curiosidades. Após a coleta de dados, procedeu-se a uma análise dos resultados com a finalidade de apresentar algumas observações pertinentes a serem discutidas e aprofundadas para, assim, se 64 atingir os objetivos propostos. Nessa etapa, priorizou-se a análise de conteúdo que, segundo Gil (2009), se desenvolve em três fases: A primeira é a pré-análise, onde se procede a escolha dos documentos, a formulação de hipóteses e a preparação do material para análise. A segunda é a exploração do material que envolve a escolha das unidades, a enumeração e a classificação. A terceira etapa, por fim, é constituída pelo tratamento, inferência e interpretação dos dados (BARDIN, s.d). (GIL, 2009, p.89) Após a escolha do procedimento a ser seguido e para uma melhor compreensão dos dados, foram estabelecidas quatro categorias de análise. A primeira versa sobre o tipo de atrativo, em que o objeto analisado será classificado em natural ou artificial e em suas subclassificações, entre elas: histórico-cultural, manifestações populares e acontecimentos programados. A segunda categoria de análise definida trata da inserção do atrativo estudado na memória da cidade, a partir dos seguintes critérios: memória objetiva ou subjetiva e memória voluntária ou involuntária. A análise seguinte foi realizada, considerando-se o conceito de lugar de memória e os valores (cognitivo, formal, afetivo e pragmático) associados a essa edificação. Por fim, a quarta categoria analisa o objeto em função de seu grau de atratividade (alta, média ou baixa) e de sua caracterização como patrimônio material e cultural e suas particularidades. Durante o processo de análise dos dados, houve a preocupação em organizar as informações de maneira que o conteúdo expresso nos documentos consiga refletir o propósito da Pesquisa e o viés seja o menor possível. 65 3.5 Limites e Limitações 3.5.1 Limites Ao considerar a proposta do trabalho, uma pesquisa sobre a caracterização de museus e igrejas como Lugar de Memória e o aproveitamento no Turismo local, há dificuldades em estabelecer parâmetros estatísticos que fundamentem a utilização da referida teoria, contudo é possível elaborar uma análise qualitativa dessa aplicabilidade. 3.5.2 Limitações É possível estabelecer os seguintes pontos que contribuíram para que a coleta de dados sofresse alguns entraves: (a) a limitação territorial à cidade do Recife; (b) a dificuldade em adquirir informações a respeito de alguns locais do estudo; (c) a pulverização e desatualização da informação referente aos estabelecimentos museológicos e às igrejas da cidade do Recife e, também, a escassez de informações mais detalhadas sobre alguns locais analisados. 66 4 ANÁLISE E DISCUSSÕES – OS ATRATIVOS MUSEUS E IGREJAS COMO LUGAR DE MEMÓRIA A fim de instrumentalizar a análise dos museus e igrejas eleitos, as discussões à luz das teorias apresentadas, o procedimento ocorreu em blocos, levando-se em consideração a localização de cada atrativo. Portanto, a divisão estabeleceu-se nos termos a seguir: 1) Bairro do Recife (Igreja da Madre de Deus e Sinagoga Kahal Zur Israel); 2) Bairro de São José (Museu da Cidade do Recife – Fortaleza de São Tiago das Cinco Pontas, Concatedral de São Pedro dos Clérigos, Basílica de Nossa Senhora do Carmo, Igreja de Santa Tereza de Ávila da Ordem Terceira do Carm, Museu de Arte Popular, Memorial Chico Science, Memorial Luiz Gonzaga e Casa do Carnaval); 3) Bairros de Santo Antônio e da Boa Vista (Capela Dourada, Museu Franciscano de Arte Sacra e Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães); e, 4) Zona Norte (Museu do Estado de Pernambuco, Museu do Homem do Nordeste e Casa-museu Magdalena e Gilberto Freyre). Assim, definiram-se quatro categorias de análise: i) tipo de atrativo; ii) inserção na memória da cidade; iii) caracterização de lugar de memória e valores (cognitivo, formal, afetivo e pragmático) do lugar de memória; e, iv) grau de atratividade (alta, média ou baixa) do patrimônio estudado. 67 4.1 Bairro do Recife 4.1.1 Sinagoga Kahal Zur Israel7 A ideia de transformar a antiga edificação localizada na Rua do Bom Jesus, 197, Bairro do Recife – a primeira sinagoga do Brasil – em patrimônio histórico surgiu em 1998. No ano seguinte, após a negociação entre a Prefeitura do Recife e a Santa Casa de Misericórdia, é constituído o Conselho Gestor, formado pelo Ministério da Cultura, Prefeitura do Recife, Fundação Safra, Confederação Israelita do Brasil e Federação Israelita de Pernambuco. A intervenção fundamentou-se em um manuscrito de 1657, publicado em 1839, que mostrava o inventário das casas do Recife construídas durante a fase do Brasil Holandês (1630-1654). No documento, a Sinagoga do Recife está localizada na antiga Rua dos Judeus (hoje Rua do Bom Jesus). Nas escavações arqueológicas, foi descoberto o “Bor”, o poço que alimenta o “Miqvê”, espécie de piscina para os banhos de purificação espiritual e de renovação dos judeus, o que mostra a importância do local para os cultos judaicos. Foram descobertos também a muralha que delimitava a antiga margem esquerda do Rio Beberibe, a evolução dos sucessivos aterros do rio, aspectos topográficos sobre o nivelamento da antiga vila, entre outros artefatos de origem holandesa e portuguesa. Em 2000, a antiga edificação é aberta como um lugar de memória atraindo pessoas interessadas na cultura judaica. No piso térreo da edificação, está exposta a prospecção arqueológica feita no local e também painéis que contam os principais acontecimentos da presença judaica em Pernambuco. No primeiro piso, foi recriado o espaço sagrado, seguindo 7 Fontes: a) Meio eletrônico; b) ARQUIVO JUDAICO. A Sinagoga. Disponível em: <http://www.arquivo judaicope.org.br/a_sinagoga.php>. Acesso em 02/mai/2012. 68 os preceitos de uma sinagoga de origem sefardita8. Foto 1 - Fachada da Sinagoga Kahal Zur Israel Fonte: Autor, 2012 Em relação às categorias de análise I e II definidas, pode-se estabelecer que a Sinagoga é um atrativo turístico artificial histórico-cultural, em virtude de ter sido construída pelo homem a fim de preservar a cultura e a história da presença judaica no Recife. Está inserida na memória da cidade de maneiras subjetiva, por envolver práticas de reconstrução do passado, e voluntária, pois reconstrói o passado de forma intencional. Respondendo à categoria III, infere-se que a Sinagoga é um local onde a memória se cristaliza e possui os valores bem definidos. No tocante ao valor cognitivo, a Sinagoga representa o acúmulo de informações sobre os judeus em Pernambuco e toda a sua influência no desenvolvimento da cidade do Recife. Os valores afetivos, ali presentes, consolidam o sentimento de pertencer à memória local e favorecem a ideia de conviver com as informações dispostas no espaço. O valor pragmático, também chamado valor de uso, é o mais presente na 8 Termo usado para designar os judeus originários da Península Ibérica. 69 caracterização do lugar de memória, porque a Sinagoga é utilizada como espaço de memória e de “museificação” da presença judaica. O valor formal é menos visível, em função de a Sinagoga não ser um marco de valor estético. Para a categoria IV, identificou-se que o local é um espaço museológico tradicional que pode ser considerado um patrimônio material e cultural. Seu grau de atratividade é médio por não ser capaz de atrair sozinho o interesse do turista, ou seja, ela está inserida num conjunto maior de atrações (Bairro do Recife ou Recife Antigo) que fortalecem a presença do visitante e o leva a conhecer a Sinagoga. Vale ressaltar que o movimento de turistas no local aumenta na alta estação, principalmente durante a temporada de cruzeiros, em virtude da proximidade com o Porto do Recife. 4.1.2 Igreja da Madre de Deus9 Situada na Rua da Madre de Deus, s/n, Bairro do Recife, a Igreja de Nossa Senhora da Madre de Deus da Congregação de São Felipe Néri também é um típico exemplar do barroco brasileiro. A construção iniciou em 1679 e foi concluída 40 anos depois. Nesse período, vale ressaltar que, em 1661, uma provisão régia concedia a licença para a fundação de um convento para oito religiosos da Congregação, e, em 1688, o mesmo é elevado à categoria de casa principal da ordem. No convento, funcionou um curso secundário e um curso superior, disponibilizando uma biblioteca com quatro mil volumes. Em 1755, o governo metropolitano autorizou a aprovação de seus alunos na Universidade de Coimbra (Portugal) sem a necessidade de exames. 9 Fontes: a) Textos diversos; b) SILVA, Leonardo Dantas. Pernambuco Preservado: histórico dos bens tombados no Estado de Pernambuco. Recife: L. Dantas Silva, 2002; c) MOURA, Rildo. Igrejas barrocas do Recife. Recife: Rildo Moura, 2011; d) QUEIROZ, Alexandre. Nossas Igrejas: beleza, arte e fé. Recife: autor, 2010 (CD-Rom). 70 Com a extinção da Ordem em 1830, a Madre de Deus foi entregue a um administrador eclesiástico que distribuiu todos os móveis e alfaias entre as igrejas pobres do bispado. O prédio do convento foi confiscado pelo governo Imperial e passou a sediar a Alfândega do Recife; o acervo da biblioteca do convento é transferido para a recém-criada Faculdade de Direito. O grande destaque da Igreja são as talhas do altar-mor, as pinturas e as imagens sacras. Com o incêndio de 1971, a igreja teve seu altar-mor destruído e anos depois a capela foi restaurada de forma a recompor completamente a sua talha. Contudo, para compor o atual altar-mor, houve a necessidade de reunir outras imagens. A partir de 2003, a Igreja da Madre de Deus passa por uma grande restauração e, após cinco anos, é reaberta ao público. Foto 2 - Igreja da Madre Deus Fonte: SILVA, Elisane Pereira de, 2012. Por estas questões classifica-se como um atrativo artificial do tipo histórico-cultural, conforme a categoria I de análise. Foi construída pelos religiosos para ser um templo dedicado a São Felipe de Néri e à Virgem Maria. Caracteriza-se, no tocante à categoria II, como 71 memória objetiva, por acumular os fatos vividos, e subjetiva, por, também, envolver práticas de recordação. Acontece de maneira voluntária, pois o passado no espaço se reconstrói intencionalmente. A partir da categoria III, é possível identificar o valor cognitivo, pois a Igreja da Madre de Deus acumula informações referentes a uma ordem eminentemente pernambucana que teve um papel importante nos campos religioso, político e educacional. Seu valor formal é representado pelas propriedades materiais de sua construção refletidas em um valor estético inestimável para a memória do barroco brasileiro. Os valores afetivos estão presentes na intenção de ver e estar no espaço o que reflete no sentimento de pertencimento, isto é, a sociedade reconhece que a Igreja da Madre de Deus pertence à cidade do Recife e é uma depositária de memórias da vida recifense. O valor pragmático é notado no uso constante de suas dependências para cerimônias religiosas (missas, casamentos, entre outras) e como espaço para concertos de música. Em referência à categoria IV da análise, caracteriza-se por ser um patrimônio material – construída pelo homem – e cultural de cunhos religiosos e históricos. Tem um grau de atratividade médio para alto, ou seja, não atrai de forma única o turista, mas faz parte de um conjunto patrimonial importante que está em uso e recuperação – Paço Alfândega e Edifício Chanteclair. Aqui o movimento de turistas, também, aumenta na alta estação, principalmente na temporada de cruzeiros. 72 4.2 Bairro de São José 4.2.1 Museu da Cidade do Recife – Fortaleza de São Tiago das Cinco Pontas10 O Forte das Cinco Pontas, estabelecido na Praça das Cinco Pontas, s/n, São José, foi construído pelos holandeses, em 1630, seguindo projeto do engenheiro Tobias Commersteinj. Sua finalidade era defender a água potável existente na localidade, bem como impedir a entrada de barcos inimigos no Rio Capibaribe e, ainda, evitar o desvio de açúcar. Os holandeses lhe deram o nome de Frederik Hendrik e os portugueses o chamavam de Forte das Cacimbas. O nome Cinco Pontas é devido a sua forma original de pentágono, com cinco baluartes. Após a expulsão dos holandeses, em 1654, os portugueses o reconstroem, porém mudam sua forma para a de um quadrado, ou seja, com apenas quatro baluartes. Nessa época, a fortificação recebe o nome de Fortaleza de São Tiago. Durante a Guerra dos Mascates, em 1711, e no Império, o forte serviu de prisão. Já no século XX, a fortaleza serviu de prisão no período da Ditadura Militar e, até 1973, de quartel do 7º Esquadrão de Cavalaria. Tombado pelo governo federal, foi restaurado e, em 1982, no governo do prefeito Gustavo Krause, é inaugurado o Museu da Cidade do Recife, com o objetivo de preservar a memória local e nacional. No espaço, é possível encontrar maquetes das distintas formas da fortaleza, pinturas de Frans Post, fotografias, portas entalhadas da Igreja dos Martírios, uma chave simbólica, em ouro e prata, entregue a Dom Pedro II em sua visita ao Recife, em 1859, 10 Fontes: a) MELLO NETO, Ulisses Pernambucano de. O Forte das Cinco Pontas: um trabalho de arqueologia histórica aplicado à restauração do monumento. Recife: Fundação de Cultura do Recife, 1983; b) SILVA, Leonardo Dantas. Pernambuco Preservado: histórico dos bens tombados no Estado de Pernambuco. Recife: L. Dantas Silva, 2002; c) Textos diversos. 73 entre outras peças importantes da história da cidade. Sua biblioteca dispõe de livros, mapas e outras publicações especializadas na cidade do Recife. Depois de dois anos fechado para reformas e restauro, o forte e o museu foram parcialmente reabertos em janeiro de 2012. Foto 3 - Museu da Cidade do Recife - Forte das Cinco Pontas Fonte: SILVA, Elisane Pereira da, 2012. O Forte das Cinco Pontas caracteriza-se por ser um atrativo artificial e históricocultural ligado às origens do Recife, de acordo com a primeira categoria de análise. Está inserido na memória da cidade de maneira subjetiva e voluntária. Tanto o forte, enquanto construção, como o museu são considerados lugar de memória por fixar as memórias referentes à presença holandesa e a retomada da cidade pelos portugueses, respondendo à segunda categoria de análise. Sobre a terceira categoria, o valor cognitivo está presente nas diversas informações reunidas sobre as mais diversas configurações espaciais do Recife e da presença do ser humano nela. As propriedades materiais, que representam o valor formal e estético, são muito visíveis por se tratar de uma construção que passou por transformações ao longo dos séculos, tanto no aspecto arquitetônico como na forma de ocupação. Os valores afetivos são 74 representados pelo grau de relação da sociedade com o museu. O valor pragmático é mais forte quando se analisa o Forte das Cinco Pontas como uma edificação (fortaleza) que teve seu uso modificado ao longo do tempo e, hoje, serve para a instalação de um museu nos moldes tradicionais. Patrimônio material e cultural de viés histórico, o Museu da Cidade – Forte das Cinco Pontas possui médio grau de atratividade (conforme definido na categoria IV), uma vez que depende de outros conjuntos nas imediações para ser visitado; ainda não é capaz de atrair turistas de forma isolada. 4.2.2 Pátio de São Pedro Localizado no centro histórico do Recife, o Pátio de São Pedro surge, no início do século XVIII, durante a reconstrução da nova maurícia, na confluência das Ruas das Águas Verdes e Felipe Camarão. Anteriormente à construção da igreja, havia no local uma horta e seis casas de morada e a configuração do pátio o deixava isolado do restante do conjunto urbanístico da cidade. O agrupamento é formado pela Concatedral, pelo pátio e por 63 casas. É um espaço típico de arquitetura colonial, tombado pelo governo federal em 1938 e definido, em 1983, pela Prefeitura do Recife como Zona Especial de Preservação de Patrimônio Histórico e Cultural (ZEPH). A área conta com uma igreja no centro e 31 imóveis em seu entorno. Foto 4 - Conjunto do Pátio de São Pedro Fonte: Autor, 2012 75 De acordo com as quatro categorias de análise firmadas, compreende-se o Pátio como um atrativo histórico-cultural incluído na memória da cidade, mormente, em virtude de seu principal equipamento: a Concatedral de São Pedro dos Clérigos. Na órbita da igreja, encontram-se alguns espaços museológicos que representam frações da memória do Recife. Todos os valores (cognitivo, formal, afetivo, pragmático) de lugar de memória estão presentes no Pátio, o que o transforma em um patrimônio cultural de alto grau de atratividade. 4.2.3 Casa do Carnaval – Centro de Formação, Pesquisa e Memória Cultural11 A Casa do Carnaval está localizada na casa número 52 do Pátio de São Pedro. A ideia de criar um espaço para salvaguardar a memória do Carnaval do Recife tem início nos anos 1980. Inicialmente denominada Casa do Frevo, foi idealizada pelo cantor Claudionor Germano, em 1984, como um local destinado aos aficionados no ritmo pernambucano. Seis anos depois, por força do jornalista e pesquisador Marcelo Varella, o espaço é ampliado e recebe o nome de Casa do Carnaval, com o objetivo de preservar a cultura carnavalesca. A partir de 2001, a Casa do Carnaval tem suas atividades expandidas e passa a organizar exposições sobre os homenageados dos ciclos festivos da cidade (Carnaval, São João e Natal). Desenvolve também ações de formação cultural, como cursos, palestras, seminários, entre outras. Devido a esse crescimento, em 2005, ela recebe o título de Centro de Formação, Pesquisa e Memória Cultural. Hoje, a Casa constitui-se num centro de referência e pesquisa da história das manifestações da cultura popular a partir do século XX. Uma das singularidades da Casa é a presença constante daqueles que fazem e participam das manifestações culturais. São 11 Fontes: a) CASA DO CARNAVAL. Institucional. Disponível em: <http://casadocarnaval.blogspot.com.br/p/institucional.html>. Acesso em 02/mai/2012; b) Folders diversos. 76 carnavalescos, compositores, maestros, quadrilheiros, entre outros, que sempre aparecem para trocar experiências com os pesquisadores presentes. Com isso, busca manter vivo o sentimento sobre as manifestações e ampliar o número de grupos da cultura popular. Foto 5 - Entrada da Casa do Carnaval Fonte: SILVA, Elisane Pereira da, 2012. Em resposta à categoria I, julga-se o espaço como um atrativo turístico artificial voltado para a preservação e perpetuação das manifestações culturais populares do Recife e Pernambuco. Responde pela memória da cidade (categoria II da análise) no tocante às principais manifestações culturais populares realizadas nos ciclos festivos (Carnaval, São João e Natal). De acordo com a terceira categoria de análise, é um lugar de memória, principalmente, por não se preocupar apenas com a memória arquivística, mas também com a preservação das memórias através da história oral; um local onde é possível conversar com os grandes mestres dos festejos populares. Ainda na categoria III, podem-se identificar todos os valores que formam um lugar de memória. O cognitivo é representado por todas as informações, materiais e orais, disponíveis para visitantes e pesquisadores sobre as manifestações culturais populares. O formal está mais presente nas exposições existentes no espaço em virtude de o prédio não possuir valor estético inerente. Os valores afetivos são os mais aparentes, pois o sentimento de pertencimento é 77 grande e influencia as pessoas a estarem por ali e conviver com os seus pares. O valor de uso (pragmático) é representado pela importância da Casa como um espaço de pesquisa fundamental na área das festividades populares. A partir da categoria IV, define-se a Casa do Carnaval como um espaço museológico tradicional, já que seu acervo é formado ao longo do tempo de forma histórica. Um patrimônio material e cultural, a Casa do Carnaval tem uma atratividade de grau médio. Vale ressaltar que a Casa está inserida no contexto do atrativo Pátio de São Pedro, mas tem uma capacidade de atração maior que os outros espaços museológicos do local. 4.2.4 Museu de Arte Popular – MAP12 Também situado no Pátio de São Pedro (casa 49), o Museu de Arte Popular, inaugurado em 2008, possui um acervo representativo de todos os estados do Nordeste brasileiro, composto por obras em madeira, gesso e barro (cerâmica). Originalmente, as obras pertenciam à Galeria Nega-fulô, da pesquisadora Silvia Coimbra, que escreveu o livro “O Reinado da Lua”, no qual retrata a grande maioria das obras do MAP. O museu é vinculado à Fundação de Cultura da Cidade do Recife. Por conta do espaço exíguo, não há exposição permanente; sempre é realizado um rodízio do acervo para ser exposto no museu. 12 Fontes: a) Local; b) MUSEU DE ARTE <http://museudeartepopular.wordpress.com/about/>. POPULAR. O MAP. Disponível em: 78 Foto 6 - Fachada do Museu de Arte Popular Fonte: SILVA, Elisane Pereira da, 2012. Um espaço cultural destinado à divulgação das artes populares do Nordeste (categoria I). De todos os locais analisados, ele tem a menor inserção na memória da cidade (categoria II), por não se relacionar a fatos ou acontecimentos da história do Recife. É, ainda, um embrionário lugar de memória (categoria III), pois as mesmas não estão cristalizadas em seu ambiente. Essa situação pode ser melhorada a partir do momento que o acervo for apresentado de maneira relacionada com a formação do povo nordestino. Assim sendo, inicialmente há certa dificuldade em estabelecer todos os valores formadores do lugar de memória. Aqui, é possível identificar o valor cognitivo em função das informações que as “peças” do acervo representam, e o valor pragmático em virtude da utilização do espaço museológico – originalmente uma “casa” que foi adaptada para funcionar como museu. Os outros valores – formal e afetivo – não são visíveis na avaliação do local. Enquanto museu tradicional e patrimônio cultural, o MAP tem um baixo grau de atratividade (categoria IV), uma vez que não apresenta condições de seduzir o turista de forma isolada. De todos os equipamentos museológicos localizados no Pátio de São Pedro, é o único que, atualmente, depende dos outros atrativos do entorno para ser visitado. 79 4.2.5 Memorial Chico Science13 Mais um espaço museológico no Pátio de São Pedro (casa 21), o Memorial Chico Science foi inaugurado em 2009 pela Prefeitura do Recife, com o objetivo de resgatar o passado do artista, mas também de levar a sua filosofia de reinvenção cultural adiante, como uma célula de incentivo à difusão de conhecimentos musicais, literários, cinematográficos, artísticos, entre outros. O espaço está dividido em três módulos: informativo, imersivo e educativo. No primeiro, encontram-se painéis de exposição permanente dedicado ao artista, o Chico Imaginário. O imersivo é uma espécie de câmara escura, no qual são feitas projeções de imagens com instalações sonoras. Já o educativo possui sala para palestras, vídeo e terminais de computadores com discoteca virtual, na qual podem ser acessadas todas as músicas do cantor. Também possui biblioteca e acervo iconográfico contando a trajetória do artista. Foto 7 - Fachada do Memorial Chico Science Fonte: SILVA, Elisane Pereira da, 2012. 13 Fontes: a) Local; b) BELÉM, Maria Eduarda. O Memorial. Memorial Chico Science. Disponível em: <http://www.memorialchicoscience.com/?page_id=22>. Acesso em 10/mai/2012. 80 Analisando o espaço conforme as categorias I e II, é um atrativo histórico cultural com o objetivo de preservar as ideias defendidas pelo multiartista Chico Science que tem um papel importante na memória do Recife e do país: divulgar e eternizar os conceitos do “Movimento Mangue Beat”. Aqui a memória acontece de forma voluntária, pois a reconstrução do passado acontece de maneira intencional, e objetiva, por acumular fatos vividos. Mas também, aqui ela surge de forma subjetiva, por envolver as práticas de recordação. Sobre a categoria III de análise, entende-se que, em sua própria definição conceitual, se apresenta como um lugar de memória por torná-la sedimentada no espaço. Os valores mais identificados são o cognitivo, o afetivo e o pragmático. As informações no Memorial estão reunidas e à disposição da sociedade; o sentimento de pertencimento é forte por retratar algo que as pessoas vivenciaram de alguma forma em suas vidas e por despertar o interesse de ver os documentos, obras, fotos, entre outros itens, disponíveis sobre o artista e o movimento; o valor pragmático é representado pela adequação sofrida pela casa para receber o espaço. O valor formal tem uma menor intensidade, mas está presente nas imagens expostas no memorial. Considerado um museu tradicional por acumular o acervo de maneira histórica, é um patrimônio cultural de média atratividade, em conformidade com a categoria IV, mas com necessidades de desenvolvê-la. A atratividade pode ser medida pela importância de Chico Science para as artes, principalmente a música, pernambucanas e brasileiras. Hoje, o espaço tem pouca divulgação e a principal referência é o Pátio de São Pedro. 4.2.6 Memorial Luiz Gonzaga14 O Memorial Luiz Gonzaga, inaugurado em 2008 pela Prefeitura do Recife, na casa 35 14 Fontes: a) Local; b) RECIFE. Memorial Luiz Gonzaga. <http://www.recife.pe.gov.br/mlg/gui/Memorial.php>. Acesso em 10/mai/2012. Disponível em: 81 do Pátio de São Pedro, tem a finalidade de preservar e divulgar o legado de Luiz Gonzaga, principalmente sua obra musical. É um centro de memória e pesquisa que oferece em seu acervo, formado a partir da coleção de Mávio Holanda, discos raros de 78 rpm, long-plays, CDs, fotos, impressos, álbuns de recortes, vídeos e arquivos MP3, além dos documentos cedidos para replicação pelo Parque Aza Branca. O Memorial oferece cursos, palestras e atividades educativas a fim de perpetuar as tradições culturais junto à sociedade em geral. Foto 8 - Fachada do Memorial Luiz Gonzaga Fonte: SILVA, Elisane Pereira da, 2012. Após a Igreja de São Pedro e a Casa do Carnaval, certamente é o atrativo turístico localizado no Pátio de São Pedro com boa legitimidade nas memórias da sociedade. Não está ligado à origem do Recife, mas representa o sentimento do povo nordestino expresso nas músicas de Luiz Gonzaga (categorias I e II). É um lugar de memória, indicado no próprio nome, onde as informações acumuladas ao longo do tempo demonstram o seu valor cognitivo; as imagens e os sons apresentam as propriedades matérias e, assim, explicitam o valor formal 82 do local. No Memorial, é possível ver, estar e conviver com a ideia de pertencer ao Nordeste como representam o valor afetivo. Analogamente aos outros atrativos museológicos do Pátio de São Pedro, o valor pragmático está explicitado pela adaptação da “casa” para um novo destino de uso (categoria III). Mais um patrimônio cultural da cidade, o Memorial Luiz Gonzaga é identificado como um museu tradicional de média atratividade (categoria IV). Os turistas o visitam em função da vontade de conhecer a obra e a vida do artista, mas o fazem por conta, também, de sua interação com os outros atrativos do conjunto. 4.2.7 Concatedral de São Pedro dos Clérigos15 Localizada no Pátio de São Pedro, a igreja é um expressivo exemplar do barroco setecentista brasileiro. A origem do templo está ligada à compra pela Irmandade de São Pedro dos Clérigos, em 1719, de seis casas e uma horta que ali existiam. A construção da igreja começou em 1728 e se prolongou até 1782, ano de sua sagração solene. Trata-se um dos mais belos monumentos barrocos do país. Em 1802, a igreja de São Pedro inaugura seu cemitério, se tornando a primeira irmandade local a possuir um cemitério próprio. A edificação é reconhecida de longe por conta de suas duas torres, encimadas por cúpulas. Na decoração interior, trabalham importantes artistas do barroco brasileiro: João de Deus e Sepúlveda, Manuel de Jesus Pinto, Francisco Bezerra e José Gomes Figueiredo. O forro da nave pintado em perspectiva é considerado uma das mais importantes obras de arte sacra brasileira. Em 1860, a Irmandade realiza uma grande reforma no interior do templo que sacrifica todos os painéis da capela-mor, restando apenas os do coro e da nave. Em 1918, quando Recife e Olinda são reunidas em uma única Arquidiocese, a Igreja 15 Fontes: a) SILVA, Leonardo Dantas. Pernambuco Preservado: histórico dos bens tombados no Estado de Pernambuco. Recife: L. Dantas Silva, 2002; b) MOURA, Rildo. Igrejas barrocas do Recife. Recife: Rildo Moura, 2011; c) QUEIROZ, Alexandre. Nossas Igrejas: beleza, arte e fé. Recife: autor, 2010 (CD-Rom). 83 de São Pedro dos Clérigos é elevada à honra de Concatedral. A igreja, tombada pelo Governo Federal e um dos monumentos mais expressivos do barroco, estava sem atividades religiosas há alguns anos, e, agora, será fechada para reformas estruturais. Foto 9 - Concatedral de São Pedro dos Clérigos Fonte: SILVA, Elisane Pereira da, 2012. Na categoria I, é um atrativo turístico histórico e cultural construído por religiosos e marco do barroco brasileiro em Pernambuco. A memória nela representada é objetiva por reunir fatos vividos, e involuntária, por ter sido constituída de maneira não intencional; esse fator responde à categoria II da análise. É um lugar de memória, sem dúvida, por sedimentar lembrança referentes ao passado da cidade, conforme a terceira categoria de análise. Seu valor cognitivo está presente nas informações acumuladas referentes à expansão do Recife para aquela região, após a retomada da cidade pelos portugueses e pela presença de grandes artistas no processo de sua construção. 84 O valor formal é representado pelas propriedades materiais de sua construção refletidas em um valor estético inestimável para a memória do barroco brasileiro, sendo esta considerada uma das mais importantes igrejas barrocas do país. Da mesma forma que na Igreja da Madre de Deus, os valores afetivos estão visíveis na intenção de ver e estar no espaço o que reflete o sentimento de pertencimento, isto é, a sociedade reconhece que a Concatedral de São Pedro dos Clérigos pertence à cidade do Recife e é uma depositária de memórias da vida citadina. Além de simbolizar o momento de evolução da Arquidiocese local. Hoje, o valor pragmático é observado no uso de suas dependências como espaço educativo, de visitação e local para concertos de música. A igreja é um patrimônio material de caráter histórico e cultural com alto grau de atratividade (categoria IV). Ela é o principal foco de interesse no conjunto do Pátio de São Pedro, em virtude de sua representatividade para as artes sacras nacionais. 4.2.8 Convento e Basílica de Nossa Senhora do Carmo 16 Estão situados no local onde existiu o Palácio da Boa Vista, do Conde Maurício de Nassau, na Praça do Carmo, s/n. Com a expulsão dos holandeses, em 1654, a Casa da Boa Vista foi doada à Ordem Carmelita para que ali fosse instalado o hospício do Recife. Em 1679, os carmelitas receberam uma parte das terras que circundavam o antigo hospício, onde os frades já haviam construído seu primeiro convento, com uma capela dedicada à Nossa Senhora do Desterro. A igreja foi construída entre os anos de 1687 e 1767. Nesse período, o capitão Diogo Cavalcanti Vasconcelos assumiu o encargo da construção da capela-mor da igreja dedicada a Nossa Senhora do Monte Carmelo, em troca de ser sepultado no local. Em 1696, a capela-mor 16 Fontes: a) SILVA, Leonardo Dantas. Pernambuco Preservado: histórico dos bens tombados no Estado de Pernambuco. Recife: L. Dantas Silva, 2002; b) MOURA, Rildo. Igrejas barrocas do Recife. Recife: Rildo Moura, 2011; c) QUEIROZ, Alexandre. Nossas Igrejas: beleza, arte e fé. Recife: autor, 2010 (CD-Rom). 85 e parte da Capela do Santíssimo Sacramento são entregues. Esta última capela é, então, doada aos irmãos da recém-criada Ordem Terceira do Carmo. O templo, ao ser finalizado, possuía três capelas e seis altares, cada um com uma arquitetura particular e distinta. Nos salões do Convento do Carmo funcionaram várias instituições ligadas à vida histórico-cultural da cidade, como o primeiro Hospital Militar, o Liceu Provincial, a Sociedade de Medicina de Pernambuco, a Biblioteca Provincial e o Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. Nas dependências do convento, em local indefinido, está sepultado Frei Caneca. E, na igreja, há vários jazigos pertencentes a famílias locais e religiosos carmelitas. Em 1919, Nossa Senhora do Carmo foi coroada padroeira do Recife e, no ano seguinte, por determinação do Papa Bento XV, a igreja recebe o título de Basílica Menor. A sagração solene desse fato só acontece em 1922, durante as festividades da padroeira. Foto 10 - Fachada da Basílica de Nossa Senhora do Carmo Fonte: Autor, 2012. 86 O Convento e Basílica de Nossa Senhora do Carmo é um atrativo histórico-cultural ligado às origens do Recife, o que atende à categoria I. Inicialmente, uma casa de descanso do Conde Maurício de Nassau; depois, uma edificação ocupada por religiosos com a intenção de atender a doentes. Na categoria II, sua memória é, ao mesmo tempo, objetiva e subjetiva, pois junta acontecimentos experimentados a práticas de recordação; é, também, voluntária e involuntária, porque reconstrói o passado de ambas as formas: intencional e não intencional. Assim sendo, se constitui um lugar de memória com valores bem definidos (categoria III). O valor cognitivo é aparente nas informações sobre a expansão da cidade para uma nova direção e por ser um local de origem de importantes instituições do estado. O valor formal está presente em suas representações materiais de um rico período da arte religiosa. O conjunto, principalmente a igreja, está incorporado a vida da comunidade local de uma maneira ímpar, pois as ideias de ver, estar e conviver são visíveis na relação das pessoas com a igreja e a força de sua padroeira; isso demonstra o valor afetivo. Igualmente à Igreja da Madre de Deus, o valor pragmático é constatado no uso constante de suas dependências para cerimônias religiosas (missas, casamentos, entre outras) e como espaço para concertos de música. Caracteriza-se, na categoria IV, por ser um patrimônio material – construída pelo homem – e cultural de cunhos religiosos e históricos. Tem um grau de atratividade alto por ser capaz de atrair o visitante de maneira única. Forma com a igreja da Ordem Terceira um dos principais conjuntos religiosos do Recife. 87 4.2.9 Igreja de Santa Tereza de Ávila da Ordem Terceira do Carmo17 Também localizada na Praça do Carmo, s/n, forma com o Convento e a Basílica de Nossa Senhora do Carmo o conjunto Carmelita do Recife. Tudo começa em 1695, com a criação da Ordem Terceira do Carmo. No ano seguinte, os irmãos Terceiros recebem em doação a Capela do Santíssimo Sacramento, ainda em construção, para realizar suas atividades religiosas. Em 1700, decidem construir sua própria igreja. Em 1710, a nova capela, dedicada a Santa Tereza de Jesus, começa a ser utilizada pelos irmãos da Ordem. Somente em 1837, o templo foi concluído e sagrado, sendo proclamada sua padroeira Santa Tereza de Ávila. Em seu interior, trabalharam importantes nomes da arte sacra pernambucana, como João de Deus e Sepúlveda, Manuel de Jesus Pinto e Felipe Alexandre da Silva. Entre os anos 1854 e 1858, a igreja passa por reformas o que acontece novamente em 1929. Hoje, é considerada uma das mais belas igrejas construídas entre os séculos XVII e XVIII no Recife. Ela fica afastada do leito da rua e seu acesso é feito por um caminho ladeado por palmeiras, o que torna o local aprazível para visitação. 17 Fontes: a) SILVA, Leonardo Dantas. Pernambuco Preservado: histórico dos bens tombados no Estado de Pernambuco. Recife: L. Dantas Silva, 2002; b) MOURA, Rildo. Igrejas barrocas do Recife. Recife: Rildo Moura, 2011; c) QUEIROZ, Alexandre. Nossas Igrejas: beleza, arte e fé. Recife: autor, 2010 (CD-Rom). 88 Foto 11 - Entrada da Igreja de Santa Tereza de Ávila Fonte: Autor, 2012. A partir da categoria I de análise, pode-se afirmar que é mais um atrativo turístico de natureza histórico-cultural inserido na história da Recife. Surgida a partir da Capela do Santíssimo Sacramento, marca o início do crescimento da Ordem Terceira na cidade. Na análise efetuada na categoria II, percebe-se que a memória aqui é objetiva e involuntária. Para os critérios avaliados na categoria III, vê-se que o valor cognitivo está presente nas informações acumuladas sobre a origem da Ordem Terceira do Carmo e sobre as congregações religiosas no estado. O valor estético, ou valor formal, é visível nas representações da arte barroca em seu interior e em sua construção. O valor afetivo diz respeito, também, às relações da Ordem Terceira com a sociedade recifense em geral. Da mesma maneira que as igrejas da Madre de Deus e Basílica de Nossa Senhora do Carmo, o valor pragmático da igreja de Santa Tereza de Ávila é observado no uso constante de suas dependências para cerimônias religiosas (missas, casamentos, entre outras) e como espaço para apresentações musicais. 89 É um patrimônio material de valor inestimável para a cidade, contudo seu grau de atratividade é considerado médio (categoria IV) por depender da atração principal – a Basílica – para receber visitantes. 4.3 Bairros de Santo Antônio e da Boa Vista 4.3.1 Capela Dourada e Museu Franciscano de Arte Sacra18 Edificada na Rua do Imperador D. Pedro II, s/n, Santo Antônio, foi construída entre 1696 e 1724. A Capela Dourada, também chamada de Capela dos Noviços, junto com o Museu Franciscano de Arte Sacra, o Convento e Igreja de Santo Antônio e a igreja de São Francisco das Chagas da Ordem Terceira, integra o Conjunto Franciscano do Recife, marco inicial da ocupação regular da Ilha de Antônio Vaz, no século XVII. Durante a ocupação holandesa, em torno do convento, foi construído o Forte Ernesto. Em 1695, a Ordem Terceira de São Francisco é fundada em terras doadas pelo Convento de Santo Antônio. No local ocupado pelo altar dos Santos Cosme e Damião, no lado sul do convento, os irmãos abrem um grande arco e, em 1696, lançam a pedra fundamental da capela que abre suas portas no ano seguinte. Porém, somente em 1724, as obras são concluídas. No início, apenas nove famílias ricas do comércio local têm acesso a seu interior. A Capela Dourada é exemplo de um Pernambuco setecentista, devoto e próspero, no auge do comércio de açúcar com a Europa. Riquíssima em ouro, ali se encontra um grande modelo do barroco brasileiro, principalmente em função da decoração interior. O jardim interno é uma representação de um claustro franciscano. Em 1964, foi realizado o último 18 Fontes: a) SILVA, Leonardo Dantas. Pernambuco Preservado: histórico dos bens tombados no Estado de Pernambuco. Recife: L. Dantas Silva, 2002; b) MOURA, Rildo. Igrejas barrocas do Recife. Recife: Rildo Moura, 2011; c) QUEIROZ, Alexandre. Nossas Igrejas: beleza, arte e fé. Recife: autor, 2010 (CD-Rom); d) Textos diversos; e) Local. 90 casamento em suas dependências e, dez anos após, ela reabre como um museu. O acesso à capela é realizado pelo Museu Franciscano de Arte Sacra. O Museu Franciscano de Arte Sacra foi inaugurado em 1974, junto com a reabertura da Capela, e possui um acervo representativo de sua riqueza histórica, artística e religiosa. São imagens sacras, tocheiros, candelabros, ostensórios, mobiliário, uma via sacra completa de azulejos portugueses, entre outras peças. Contudo, a grande atração é a Capela Dourada. Foto 12 - Fachada do Museu Franciscano de Arte Sacra e Acesso à Capela Dourada Fonte: SILVA, Elisane Pereira da, 2012. Apesar de comporem um espaço comum, a análise é realizada separadamente em virtude da diferente representatividade de cada um. Ambos são atrativos histórico e cultural (categoria I) de chancela religiosa, mas se diferenciam no tocante à inserção na memória e história da cidade (categoria II). A Capela Dourada, um símbolo da riqueza da sociedade comercial da época, tem uma relação intrínseca com o crescimento do Recife. Por estar associada ao Convento de Santo Antônio, representante do início da ocupação da área, sua memória é objetiva, por reunir fatos ali vivenciados, e involuntária, pois a reconstrução do passado acontece de maneira não 91 intencional. Atualmente, o caráter voluntário da memória também é percebido por conta das práticas de recordação implantadas no local (categoria III). Esses fatores demonstram que a Capela Dourada é um lugar de memória. Na Capela, é possível identificar o valor cognitivo a partir das informações referentes à construção, ao barroco e à pujança daqueles que a construíram (comerciantes ricos do século XVII). A arte barroca é a principal representação do valor formal ou estético da edificação; seu interior é um bom exemplar da riqueza das ordens religiosas, principalmente as leigas, nas obras de seus templos. Também, em função de sua exuberância, pode-se explicar o valor afetivo existente no espaço. Ali as pessoas convivem e sentem o pertencer a um período de opulência econômica. Hoje, a Capela Dourada funciona como um local de visitação e de concertos de música clássica, demonstrando seu valor de uso ou pragmático. Patrimônio material com grau de atratividade alto, a Capela Dourada é a principal responsável pelo fluxo de visitantes no Conjunto Franciscano do Recife (categoria IV). A igreja de Santo Antônio atrai, fundamentalmente, a população recifense, mesmo com sua grande importância para a memória da cidade. Foto 13 - Placa no acesso ao Museu de Arte Sacra e Capela Dourada Fonte: SILVA, Elisane Pereira da, 2012. 92 De acordo com as categorias I, II, III e IV da análise, o Museu Franciscano de Arte Sacra é um atrativo atrelado à Capela Dourada. Isto é, sua visitação ocorre em função da capela por ser a porta de entrada da mesma. Aqui a memória acontece de maneira subjetiva e voluntária; as informações existem por conta das práticas de recordação implantadas no espaço. É um lugar de memória em que os valores mais evidentes são o cognitivo e o pragmático. Reúne informações sobre a Ordem Terceira de São Francisco em um espaço museológico tradicional. Sua atratividade é baixa, pois, como dito anteriormente, depende exclusivamente dos visitantes da Capela Dourada. Vale ressaltar que, em virtude da importância do Conjunto Franciscano para a cidade do Recife, a atratividade do local é pouco explorada pelos órgãos e componentes do trade turístico da cidade. 4.3.2 Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães – MAMAM19 O Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães funciona em um edifício situado na Rua da Aurora, 265, Boa Vista, e construído no final do século XIX que foi, inicialmente, a sede do Clube Internacional do Recife e também, por muito tempo, sede da Prefeitura do Recife. Em 1981, o local foi transformado em Galeria Metropolitana de Arte do Recife, e, no ano seguinte, renomeado como Galeria Metropolitana de Arte Aloisio Magalhães. Em 1997, após uma reforma no prédio, foi transformado em museu e recebeu o nome atual. Ele conta com três pavimentos e sete salas de exposição. Desde sua criação, o museu despertou expectativas no público e nos artistas em relação ao seu papel, uma vez que possuía, na época, o maior e melhor equipamento museológico da cidade. Porém, ao longo dos anos, o museu assumiu outras demandas, indo 19 Fontes: a) ANJOS, Moacir dos. Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães. In: MOURA, Rodrigo (org.). Seminário Políticas Institucionais, Práticas Curatorais. Belo Horizonte: Museu de Arte da Pampulha, 2005; b) Textos diversos. 93 além do arco estético-histórico que envolve arte moderna e arte contemporânea. A partir de 2001, o MAMAM retoma seu objetivo inicial e define sua programação voltada à difusão da arte contemporânea. As exposições no museu dependem, quase sempre, do empréstimo de acervos de outras coleções. Diferentemente dos outros museus pesquisados, o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães não apresenta exposição permanente de acervo. Foto 14 - Fachada do MAMAM Fonte: Autor, 2012 Na categoria I, pode ser definido como um atrativo artificial – construído pelo ser humano – de caráter cultural. Sua trajetória está ligada ao curso das artes plásticas na cidade do Recife e no estado de Pernambuco e essa trajetória representa, na categoria II, uma memória objetiva e involuntária. Não é um lugar de memória (categoria III) na sua essência, portanto os valores cognitivo, formal, afetivo e pragmático não são identificáveis. Palco de importantes exposições, o MAMAM é, conforme a categoria IV, um patrimônio material e cultural de baixo grau de atratividade, principalmente pelo fato de não apresentar exposição 94 de longa duração em seus espaços. Um acervo sobre as artes modernas e contemporâneas constituído e exposto permanentemente pode contribuir para torná-lo um museu de grande atração na cidade. Podem-se tomar como exemplo vários museus do mesmo estilo pelo Brasil e mundo. 4.4 Zona Norte 4.4.1 Museu do Estado Pernambuco – MEPE20 O Museu do Estado de Pernambuco foi criado em 1929, pela Lei Estadual nº 1918. Essa é considerada uma lei pioneira no Brasil, pois autorizava o Governo a criar uma Inspetoria Estadual de Monumentos Nacionais e um Museu Histórico e de Arte Antiga. Pernambuco antecipa-se ao Governo Federal na preservação de seu patrimônio artístico, histórico e cultural. Atualmente, o museu funciona na Avenida rui Barbosa, 960, Graças. Em 1930, o museu é instalado na cúpula do Palácio da Justiça, na Praça da República, contando em seu acervo, entre outras obras, com a coleção de quadros do pintor pernambucano Telles Júnior. Três anos depois, o museu é extinto e, até 1940, ano em que o Museu do Estado é recriado, seu acervo ficou sob a guarda da Biblioteca Pública do Estado. Assim, ocupa um novo espaço: o casarão do século XIX no bairro das Graças, onde viveu um descendente do Barão de Beberibe, o Dr. Augusto Frederico de Oliveira. O palacete é um exemplar típico da arquitetura das residências da aristocracia pernambucana da época. O MEPE ocupa uma área de 9.043 m², com estacionamento e jardins ornamentados com esculturas e vasos de cerâmica portuguesa. Ao longo desses mais de 80 anos de existência, o museu constituiu um acervo de peças que são referenciais na história do estado. 20 Fontes: a) Folders; b) PERNAMBUCO. Museu do Estado de Pernambuco – MEPE. Recife: Fundarpe. Disponível em: <http://www.cultura.pe.gov.br/museu.html>. Acesso em: 20/mai/2012; c) PERNAMBUCO. Museu do Estado de Pernambuco. Recife: Fundarpe. Disponível em: <http://www.fundarpe.pe.gov.br/mepe/comp/>. Acesso em: 20/mai/2012. 95 Possui mais de 14 mil itens nas categorias: Arqueologia, Cultura Indígena, Presença Holandesa em Pernambuco, Arte Sacra, Cultura Afro-Brasileira, Ex-votos, Iconografia, Mobiliário, Porcelana, Cristais, além de uma pinacoteca com pinturas dos séculos XVII ao XX, de artistas como Telles Júnior, Antônio Parreiras, Enest Papf, Virgílio Moreira, Vicente do Rego Monteiro, Lula Cardoso Ayres, Cícero Dias, Francisco Brennand e Burle Max. Em 2003, é inaugurado o Espaço Cícero Dias que abriga, em seu pavimento térreo, uma exposição de longa duração intitulada “Um acervo revisitado”, contendo um panorama das coleções do museu. Nessa parte, o visitante pode ver as paisagens pernambucanas de Frans Post; gravuras iconográficas da cidade do Recife; painéis votivos com cenas das Batalhas dos Guararapes e das Tabocas; as coleções de Arte Sacra e de Lívio Xavier; as coleções Braz Ribeiro e de Roque de Brito Alves de porcelanas orientais e europeias; a coleção Carlos Estevão de Arte Indígena; e, a coleção Afro-brasileira. O Espaço Cícero Dias conta, ainda, com o auditório Joaquim Cardoso e um pavimento superior com área para exposições temporárias e que abriga o Centro de Documentação Cícero Dias – uma biblioteca especializada em arte e história. Pode-se dizer que o MEPE é testemunho vivo da história do estado e permite ao visitante fazer uma viagem por diferentes épocas e conhecer os feitos artísticos por meio de seu acervo. Vale ressaltar que, uma vez por mês, em seus jardins, acontece a Feira de Antiguidades. 96 Foto 15 - Fachada principal do Museu do Estado de Pernambuco Fonte: Autor, 2012. Também um atrativo histórico-cultural, segundo a categoria I, do Recife inserido na construção da cidade e do estado. A memória, analisada na categoria II, aqui é subjetiva, pois envolve práticas de recordação, e voluntária, por acontecer de forma intencional. Para a categoria III, define-se o MEPE como um lugar de memória característico, com os valores bem definidos. O valor cognitivo está relacionado com as informações reunidas sobre a história do estado e também sobre as artes plásticas locais. O valor formal é representado pela imponência estética de seu prédio, um exemplar da robustez aristocrática do período. O valor afetivo é visível na memória do local como uma residência e no sentimento de representação da formação do estado. O valor pragmático está identificado no uso de uma antiga residência do século XIX como equipamento museológico e também na utilização de suas dependências como espaço educacional. Hoje, o MEPE tem um papel importante na divulgação da cultura estadual. Patrimônio material e cultural do estado, o Museu do Estado de Pernambuco é um museu tradicional, pois seu acervo foi acumulado historicamente, e tem um grau de 97 atratividade médio, conforme estudado na categoria IV, mesmo sem fazer parte de um conjunto maior de atrações e de estar fora dos roteiros turísticos tradicionais. 4.4.2 Casa-museu Magdalena e Gilberto Freyre – Fundação Gilberto Freyre21 A casa-museu, localizada na Rua Dois Irmãos, 320, Apipucos, foi aberta à visitação pública em 1988, um ano após a morte de Gilberto Freyre. O escritor comprou a propriedade em 1936, uma original casa grande do século XIX que abrigou a segunda residência (utilizada pelo proprietário para seus negócios) do engenho Dois Irmãos, mas só fixou residência na casa em 1941. Após a compra, Gilberto Freyre a denominou de Vivenda Santo Antônio de Apipucos, em homenagem a seu santo de devoção. O acervo testemunha a vida de Pernambuco, do país e do mundo, e é formado por objetos de estilos variados com imagens sacras católicas, peças de origem africana, porcelanas orientais e cerâmicas regionais, prataria inglesa e portuguesa. Nas paredes, azulejos portugueses, pinturas de Cícero Dias, Lula Cardoso Ayres, Di Cavalcanti, Francisco Brennand e do próprio Gilberto Freyre. Sem dúvida, a parte do acervo que mais chama a atenção é a biblioteca. Hoje, são 12 mil volumes espalhados pelos diversos ambientes da casa, como sala de estar, gabinete de trabalho, entre outros. Dentre os volumes disponíveis, encontram-se exemplares de várias traduções para as obras do escritor e um raro exemplar, uma edição histórica, de “Os Lusíadas”; no Brasil, são apenas dois desses. Vale ressaltar que a biblioteca já possui 40 mil volumes, mas a grande maioria foi doada à Fundação Joaquim Nabuco, entidade que Gilberto 21 Fontes: a) SILVA, Leonardo Dantas. Pernambuco Preservado: histórico dos bens tombados no Estado de Pernambuco. Recife: L. Dantas Silva, 2002; b) FUNDAÇÃO GILBERTO FREYRE. Casa-Museu. Recife: FGF. Disponível em: <http://www.fgf.org.br/casamuseu/casamuseu.html#topo>. Acesso em 20/mai/2012; c) Folder. 98 Freyre ajudou a fundar. A Fundação Gilberto Freyre é composta pela Casa-museu, por um sítio ecológico e por um museu vivo. Funciona de segunda a sexta, das 9h às 17h; nos finais de semana só recebe grupos agendados previamente. Foto 16 - Acesso à Casa-museu Magdalena e Gilberto Freyre Fonte: SILVA, Elisane Pereira da, 2012. A Casa-museu, dentro da categoria I de análise, é um atrativo histórico-cultural que reflete importantes momentos da vida nacional e local. A memória, análise realizada na categoria II, existe de maneira tanto objetiva, ela acumula fatos vividos, quanto subjetiva, por envolver práticas de recordação, e também é voluntária e involuntária, acontecendo de forma intencional e não intencional. No estudo da categoria III, o espaço é um característico lugar de memória, porque, na casa-museu, essa memória se cristaliza. Os valores referentes a lugar de memória estão explicitados em vários aspectos. As informações reunidas sobre a vida e a obra de Gilberto Freyre e família e sobre o legado do sociólogo representam o valor cognitivo. O valor formal mostra-se nas obras de arte, azulejos, livros, entre outros itens disponíveis no local; o velo estético é aparente nos aspectos arquitetônicos de uma casa do século XIX. O valor afetivo é o mais aparente no espaço, uma vez que os sentimentos de pertencer àquele local são notados durante todo o processo de visitação. As pessoas querem ver, estar, conviver com as 99 memórias de Gilberto Freyre. E, finalmente, uma residência transformada em espaço museológico e educacional é o exemplo claro do valor pragmático da casa-museu. Representante do patrimônio cultural pernambucano e entendido como um museu tradicional, a Casa-museu Magdalena e Gilberto Freyre tem um médio grau de atratividade, conforme apurado na categoria IV. Assim como o Museu do Estado, o espaço não está incluído nos roteiros turísticos tradicionais da cidade e nem pertence a um conjunto maior de atrações. 4.4.3 Museu do Homem do Nordeste22 O Museu do Homem do Nordeste, situado na Avenida Dezessete de Agosto, 2187, Casa Forte, foi fundado em 1979, por Gilberto Freyre, a partir da junção de três museus (coleções) existentes: do Açúcar, de Antropologia e de Cultura Popular. É ligado à Diretoria de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco e tem a missão de pesquisar, documentar, preservar e difundir o patrimônio cultural, material e imaterial, do Nordeste, constituindo-se um dos mais importantes espaços histórico-antropológicos do país. O acervo representa a formação histórica, étnica e social da atual região Nordeste, com cerca de 15 mil peças de origens indígena, europeia e africana. Podem-se encontrar as mais variadas obras: materiais de construção dos séculos XVIII e XIX, ex-votos; objetos de cultos afro-negros; bonecas de pano; brinquedos populares; cerâmicas de Vitalino, Nhô Caboclo e outros; tecnologias do trabalho no açúcar, entre outras. O visitante pode conhecer um mural da vida cotidiana nacional na exposição de longa duração “Nordeste: territórios plurais, culturais e direitos coletivos”. Hoje, o museu se tornou uma referência na museologia contemporânea em virtude de 22 Fontes: a) FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO. O Museu. Recife: Fundaj. Disponível em: <http:www.fundaj.gov.br/índex.php?option=com_conten&view=article&id=250&Itemid=238>. Acesso em 20/mai/2012; b) Folders. 100 sua atuação na área educativo-cultural, o que consolida sua integração com a sociedade. É uma oportunidade, ao visitá-lo, para descobrir e conhecer a formação do Homem nordestino. O espaço funciona de terça a sexta, das 9h às 17h, e aos sábados e domingos, das 13h às 17h. Foto 17 - Acesso ao Museu do Homem do Nordeste Fonte: SILVA, Elisane Pereira de, 2012. Na primeira categoria, é identificado como outro exemplar de atrativo históricocultural da cidade, ligado às informações da formação do povo nordestino. A memória (categoria II) é formada de maneira subjetiva e voluntária, uma vez que o passado é exposto por meio de práticas de recordação e de forma intencional. A partir da análise elaborada na categoria III, também pode ser considerado um lugar de memória típico, por conta das memórias ali expostas e fixadas. Os valores cognitivo, afetivos e pragmáticos são os mais visíveis; o valor formal tem uma menor força. As informações ali apresentadas foram reunidas ao longo dos anos e representam o sentimento de propriedade sobre a origem do Nordeste brasileiro. O valor de uso aparece tanto no contexto da exposição como nas ações educativas realizadas em suas dependências. O valor formal está representado pelo acervo exibido com obras de grande importância artística e histórica. 101 O Museu do Homem do Nordeste é caracterizado como tradicional e mais um equipamento do patrimônio material e cultural da cidade. Da mesma maneira que os outros dois museus da Zona Norte analisados, este espaço possui um médio grau de atratividade (categoria IV), mesmo não aparecendo nos roteiros turísticos tradicionais do Recife. Dentre os três, o Museu do Homem do Nordeste goza de melhor desempenho nas visitações e pode alcançar maior grau de atratividade. 102 5 CONCLUSÃO O entendimento dos lugares de memória como atrativos turísticos foi a principal motivação para o desenvolvimento deste estudo. De que forma os museus e as igrejas da cidade do Recife podem ser entendidos como “lugar de memória”? Qual o aproveitamento dessas edificações como um atrativo capaz de atrair turistas durante a estada na cidade? Partindo desses primeiros questionamentos, iniciou-se o caminho da pesquisa a fim de compreender a relação entre lugar de memória, atrativo turístico e patrimônio e, consequentemente, a adoção do conceito de lugar de memória na valorização de atrativos na cidade do Recife. Após o processo analítico do corpus ampliado e do corpus restrito, em especial, consolidado pela construção da estrutura teórica referente aos pressupostos necessários para a compreensão do problema e resposta à pergunta de pesquisa enunciada, chegou-se a conclusão que definir um atrativo turístico como um lugar de memória pode contribuir para seduzir o turista a visitar esse local e também para perpetuar a noção de patrimônio nos museus e igrejas de uma cidade, em particular no Recife. Entretanto, para essa percepção final, foi necessário a priori ordenar um percurso a fim de perceber a importância do turismo para o desenvolvimento das cidades. Essa apreensão foi possível estabelecer nos pressupostos teóricos, em particular, nos números relativos aos movimentos turísticos no mundo, no Brasil e no Recife. Como apresentado, o turismo é, hoje, uma atividade com importante presença na economia mundial, contudo, no tocante à cidade, ainda não goza do devido destaque econômico. O Recife possui inúmeros atrativos, sejam eles naturais ou artificiais, mas não os dispõe de maneira a aumentar a circulação e a permanência dos turistas na cidade. Em continuidade à trajetória estabelecida para encontrar as respostas necessárias, era essencial analisar os conceitos de memória e lugar de memória como 103 elemento formador de um atrativo turístico. Essa análise foi construída nos referenciais teóricos apontados ao longo do trabalho, contribuindo, assim, para depreender que lugar de memória, enquanto local onde a memória se cristaliza e os vestígios do passado aparecem em virtude da desritualização do mundo, é um conceito capaz de fomentar um atrativo turístico. Essa constatação comprova o proposto nos objetivos específicos em virtude de ser possível adotar o conceito de lugar de memória para os atrativos turísticos, bem como servir para o desenvolvimento e fortalecimento da atividade. Ainda no curso para a averiguação dos objetivos específicos, era pertinente o entendimento das igrejas e museus da cidade do Recife como lugar de memória e, para essa finalidade, foi efetuado um levantamento das principais edificações existentes na cidade a fim de estabelecer quais seriam arquétipos do estudo proposto. Ao estabelecer uma relação entre os objetos de investigação e a atratividade turística, foi verificado que as igrejas e os museus nacionais são exemplos da interação entre os conceitos de lugar de memória, atrativo turístico e patrimônio. As primeiras, principalmente as erguidas nos séculos XVII e XVIII, são detentoras de importantes passagens e lembranças da estruturação da sociedade e do povo brasileiros; é um modelo da memória histórica. Os museus, também uma amostra da memória histórica, são depositários de elementos formadores da história e da cultura do país. No Recife, esse fator fica evidente nas cinco igrejas analisadas e que estão localizadas nos sítios primários do surgimento da cidade, ou seja, nos bairros do Recife, Santo Antônio e São José. Esses espaços apontam a direção do crescimento da cidade, da região do primeiro porto para o centro, e as igrejas erigidas nessas localidades representam o fortalecimento da sociedade e a marcante presença da Igreja Católica na época. Percebe-se que ao se afastar da área original da cidade – a região do porto (hoje, Bairro do Recife) – as igrejas ostentam uma riqueza maior de detalhes e obras, isto é, demonstram uma pujança econômica maior da sociedade. Foi possível verificar que as igrejas do Recife, em particular as constantes no 104 projeto Circuito das Igrejas, incorporam a noção de patrimônio e, dessa forma, estão inseridas em alguns roteiros turísticos realizados na cidade. Porém, ainda não entendidas como lugar de memória pelos gestores responsáveis pelo turismo na cidade e nas igrejas estudadas. Em relação aos museus analisados, foi possível identificar as seguintes situações: i) as instituições diretamente ligadas à história da formação da cidade, do estado e da região. São elas: Museu da Cidade do Recife, Museu do Estado de Pernambuco e Museu do Homem do Nordeste; ii) as organizações que inicialmente eram construções de caráter religioso e foram requalificadas para funcionar como espaços museológicos. Nesse caso, tem-se a Sinagoga Kahal Zur Israel e a Capela Dourada e Museu Franciscano de Arte Sacra; iii) e, os museus ligados às artes, às pessoas e aos movimentos culturais. Nessa categoria, incluem-se a Casa do Carnaval, o Museu de Arte Popular, os Memoriais Chico Science e Luiz Gonzaga, o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães e a Casa-Museu Magdalena e Gilberto Freyre. Nos documentos examinados, não há menção dos museus investigados como atrativos turísticos, no entanto alguns exploram a condição de lugar de memória, ou seja, são detentores das recordações e lembranças de um grupo específico, como a Sinagoga Kahal Zur Israel, ou das histórias de uma pessoa, situação explorada pela Casa-Museu Magdalena e Gilberto Freyre. Vale destacar que os espaços museológicos localizados no Pátio de São Pedro – Casa do Carnaval, Museu de Arte Popular, Memoriais Chico Science e Luiz Gonzaga –, apesar do apelo cultural, ainda não dispõem da capacidade de atrair isoladamente o turista para visitálos. A atratividade está relacionada essencialmente ao conjunto histórico do Pátio e à Igreja de São Pedro dos Clérigos. Outra situação a ressaltar é o caso do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (MAMAM) que, embora tenha uma importante representatividade para as artes plásticas pernambucanas e nacionais, não desenvolve um volume de visitação e nem de atração aos turistas; isso é explicado, em parte, pela ausência de uma exposição permanente de seu acervo. Os outros espaços museológicos analisados cumprem sua missão de apresentar 105 as lembranças e as recordações, isto é, as memórias a que se propõem. De todos os museus avaliados e visitados, a Sinagoga Kahal Zur Israel e a Capela Dourada, no sítio histórico do Recife, e Museu do Homem do Nordeste, na Zona Norte, são os que possuem maior dimensão no número de turistas visitantes, em virtude da localização ou da representatividade. Os museus estudados, embora incorporem a noção de patrimônio, ainda funcionam como meros depósitos de informações do passado, pois, conforme Dib (2012, p. E1), “o formato clássico do museu como dispositivo estático e desconectado do aqui/agora ainda prevalece na capital”. Em duas circunstâncias, há uma preocupação em expor de maneira mais atual os acervos permanentes, permitindo, assim, uma interação entre o visitante e as memórias ali relatadas e mostradas. Este fato foi identificado no Museu do Homem do Nordeste e no Museu do Estado de Pernambuco, em menor escala. A partir das categorias de análise estabelecidas, foi possível estabelecer o cenário representado pelo Quadro 2 abaixo. Quadro 2 - Cenário Geral dos Museus e Igrejas a partir das Categorias de Análise Espaço Categorias de Análise I II III IV Médio Bairro do Recife Sinagoga Kahal Zur Israel Históricocultural Subjetiva Voluntária Valores: cognitivo, afetivo e pragmático Igreja da Madre de Deus Históricocultural Objetiva Subjetiva Voluntária Valores: cognitivo, formal, afetivo e pragmático Médio para Alto Bairro de São José Museu da Cidade do Recife – Fortaleza de São Tiago das Cinco Pontas Históricocultural Subjetiva Voluntária Valores: cognitivo, formal, afetivo e pragmático Médio Casa do Carnaval Cultural Subjetiva Involuntária Valores: cognitivo, formal, afetivo e pragmático Médio Museu de Arte Popular Cultural Não identificada Valores: cognitivo pragmático Baixo e 106 Categorias de Análise Espaço I II III IV Memorial Chico Science Cultural Objetiva Subjetiva Voluntária Valores: cognitivo, afetivo e pragmático Médio Memorial Luiz Gonzaga Cultural Objetiva Subjetiva Voluntária Valores: cognitivo, formal e afetivo Médio Concatedral de São Pedro dos Clérigos Históricocultural Objetiva Involuntária Valores: cognitivo, formal, afetivo e pragmático Alto Convento e Basílica de Nossa Senhora do Carmo Históricocultural Objetiva Subjetiva Voluntária Involuntária Valores: cognitivo, formal, afetivo e pragmático Alto Igreja de Santa Tereza de Ávila da Ordem Terceira do Carmo Históricocultural Objetiva Involuntária Valores: cognitivo, formal, afetivo e pragmático Médio Bairro de Santo Antônio e da Boa Vista Capela Dourada e Museu Franciscano de Arte Sacra Cultural Objetiva Involuntária Valores: cognitivo, formal, afetivo e pragmático Alto Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães – MAMAM Cultural Objetiva Voluntária Não Identificada Baixo Zona Norte de Históricocultural Subjetiva Voluntária Valores: cognitivo, formal, afetivo e pragmático Médio Casa-museu Magdalena e Gilberto Freyre Históricocultural Objetiva Subjetiva Voluntária Involuntária Valores: cognitivo, formal, afetivo e pragmático Médio Históricocultural Subjetiva Voluntária Valores: cognitivo, afetivo e pragmático Médio Museu do Estado Pernambuco Museu do Homem Nordeste Fonte: O autor, 2012 do Após esse percurso, foi possível verificar que os objetivos específicos definidos para essa pesquisa foram alcançados uma vez que os conceitos de memória e lugar de memória podem ser associados à definição de atrativo turístico, em particular na cidade do Recife. E, assim sendo, o objetivo geral proposto – analisar as igrejas e museus como lugar de memória 107 e formador do patrimônio e aproveitamento como atrativo turístico – foi alcançado. É factível que as igrejas e museus da cidade do Recife estudados são ou podem ser lugares de memória e, dessa forma, serem mais aproveitados como atrativos turísticos. Vale ressaltar que a trajetória do estudo foi pautada pela ideia de fortalecer a importância da pesquisa bibliográfica e documental como fonte aglutinadora de valores para a inquietude científica, aquietada a partir dos resultados encontrados, e para fomentação de políticas de gestão de atrativos turísticos. 5.1 Sugestões Finalizada a sequência de análise do objeto de estudo, foi possível perceber uma maior participação das igrejas em relação aos museus no tocante à atratividade turística. Para um melhor aproveitamento desses espaços – igrejas e museus – como atrativos turísticos com o propósito de seduzir o turista para visitá-lo e entendê-lo como um lugar de memória, algumas ações e/ou intervenções podem ser realizadas. O Circuito das Igrejas, formado por 12 igrejas, sendo quatro em Olinda, duas em Igarassu e uma em Jaboatão dos Guararapes, além das cinco localizadas no Recife, é um roteiro sazonal que ocorre, principalmente, na alta estação com o objetivo de promover uma maior visitação às igrejas participantes. Esse roteiro pode ser ampliado tanto em relação ao tempo, uma vez que a cidade possui um fluxo constante de turistas ao longo do ano, como ao número de espaços participantes, pois há outras igrejas no Recife com a mesma relevância histórica. Outro ponto a ser observado é o incremento da atratividade ao unir as igrejas a seus conjuntos arquitetônicos e religiosos no momento da divulgação e utilização turística. Esse é o caso da Capela Dourada e da Igreja da Ordem Terceira do Carmo. A primeira faz parte do importante Conjunto Franciscano do Recife, marco da ocupação regular daquela região, e, atualmente, é “vendida” unicamente por sua riqueza interior e por sua representatividade para 108 o desenvolvimento econômico da época em que foi construída. Os demais espaços do Conjunto não são explorados turisticamente, fato visível, principalmente, pela falta de estrutura receptiva e pelos horários de funcionamento. A segunda integra o Conjunto Carmelita do Recife, mas é vista como uma edificação à parte da Basílica do Carmo, unidade principal do conjunto. Aqui é essencial, também, explorar a relação das igrejas quanto a suas construções e histórias. As demais igrejas estudadas estão inseridas de maneira integrada nos sítios urbanos em que estão localizadas, sendo precípua apenas a apresentação de suas memórias de forma mais explícita. Os museus da cidade ainda são incipientes na ligação com os moradores e turistas, pois, de acordo com o defendido por Dib (2012, p. E1), “o conceito contemporâneo de museu ultrapassa a função de expor objetos. Eles convidam a uma relação própria com cada instituição, o que inclui transmissão de ideias, experiências sensoriais e produção de conteúdo”. A partir de exemplos já existentes em diversos museus do mundo e do Brasil, essa relação entre os museus recifenses e a sociedade pode ser fortalecida de diversos modos, dentre eles: instalar cafés, restaurantes ou outros empreendimentos gastronômicos; ofertar produtos com a marca do museu em lojas; explorar comercialmente os vários espaços existentes nas edificações; proporcionar uma programação diversificada ao longo do horário de funcionamento ou além dele. Em ambos os casos, igrejas e museus, algo essencial é realizar a interpretação do patrimônio a fim de destacar lugares de memória e revelar a identidade do espaço e colaborar para que o visitante capte a essência da igreja e/ou do museu. De acordo com Murta e Albano (2005, p.10), “para o produto turístico a interpretação é um componente essencial [...]”, e defendem ainda que “investir em interpretação significa agregar valor ao produto turístico”. A interpretação busca traduzir o sentido dos bens culturais para quem os visita e convencer esses visitantes sobre os valores desse patrimônio e, assim, facilitar a sua conservação. Mas, o que é 109 interpretação do patrimônio? Murta e Goodey (2005, p.13) afirmam que interpretar o patrimônio é “o processo de acrescentar valor à experiência do visitante por meio do fornecimento de informações e representações que realcem a história e as características culturais e ambientais de um lugar”. Há várias formas de interpretar o patrimônio, sendo a mais comum a utilização de uma placa ou de um painel com informações e ilustrações sobre o local visitado ou sobre o objeto exposto. Dos museus analisados, no Museu do Homem do Nordeste e no Museu do Estado de Pernambuco, são observados trabalhos de interpretação do acervo em exposição permanente, sendo que, no primeiro, há um desenvolvimento maior do processo, uma vez que, além das placas informativas, são utilizados outros recursos, como filmes e áudios. Ao utilizar o modelo de interpretação do patrimônio ou oferecer serviços e produtos além de seus acervos e aspectos construtivos, os museus e igrejas da cidade do Recife poderão exercer uma atratividade maior junto aos turistas. E, contribuir, assim para permanência dos visitantes na cidade. Finalmente, apresentar essas igrejas e museus nos materiais de divulgação da cidade do Recife e nos sítios da Prefeitura do Recife e das Secretarias de Turismo do Estado e da Cidade. Assim, a divulgação aumenta e contribui para o fomento das visitas e do conhecimento sobre a memória da cidade. 110 REFERÊNCIAS AMARAL, Eduardo Lúcio G. Museu, Memória e Turismo: por uma relação de liberdade. In: MARTINS, Clerton (org.) Patrimônio cultural: da memória ao sentido do lugar. São Paulo: Roca, 2006, p.51-63. BARRETTO, Margarita. Cultura e turismo: discussões contemporâneas. Campinas: Papirus, 2007. BATISTA, Cláudio Magalhães. Memória e Identidade: aspectos relevantes para o desenvolvimento do turismo cultural. Caderno Virtual de Turismo, vol. 5, nº 3, 2005. Disponível em: <http://www.ivt.coppe.ufrj.br/caderno/index.php/caderno/article/view/93/88>. Acesso em: 20/jul/2011. BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembrança de velhos. 9.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Texto consolidado até a Emenda Constitucional nº 78, de 29/03/2012. Brasília: Senado Federal, 2012. 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