Tatiana Baierle
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O que você entende por compromisso social?
O compromisso social no meu entender é esta responsabilidade ética
e política que todos nós (independente de ser psicólogo) devemos ter
com a sociedade. Um compromisso no sentido de buscar contribuir
para melhores condições de vida de modo geral. Um compromisso por
buscar diminuir as desigualdades sociais, atuarna desconstrução de
preconceitos e estereótipos, agir para a promoção do respeito e da
produção de vida.
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Você acredita que sua prática, especialmente na área da
Psicologia do Trabalho, está relacionada a esse conceito? Se sim,
como se dá essa relação? Se não, por que acredita que muitas
vezes o Compromisso Social não faz parte ou não aparece no
exercício da Psicologia?
Com certeza. A Psicologia do Trabalho, em minha concepção, tem sua
ação orientada para a transformação das relações e processos de
trabalho. Opera na discussão, na problematização dos modos de
trabalhar na contemporaneidade, buscando a construção de caminhos
que possam ser produtores de saúde. Trata de fazer uma interlocução
entre o mundo do trabalho e a subjetividade humana de modo a
potencializar este espaço (o trabalho) como território de produção de
sentido, relações, vida. Contribuir para que as relações do e no
trabalho sejam melhores, entendo que implica neste compromisso
ético (de promoção do respeito a vida) e político (de necessidade de
implicação deste saber-fazer da psicologia com as diferentes questões
que produzem a subjetividade).
A Psicologia em sua história, se apresenta como uma ciência do
individuo e não do social. No Brasil, inclusive, o desenvolvimento desta
ciência como profissão vai ocorrer em meio ao contexto histórico da
ditadura militar. O Saber da psicologia muitas vezes foi utilizado como
base para a produção de exclusão, de rótulos, no sentido de balizar o
que é o normal e o que foge deste espectro. A psicologia pode se
apresentar com este caráter normatizador ainda hoje, dependendo do
modo como o profissional se coloca, como entende o seu trabalho.
Isso ocorre justamente quando não este entendimento sobre o caráter
politico de nossas práticas, quando o saber e a técnica são concebidos
descolados do contexto social.
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Em sua opinião, o que caracteriza a Psicologia neste momento
em que vivemos? Como a profissão é percebida pelos próprios
psicólogos e pela sociedade em geral?
A Psicologia está em processo de transformação. De modo geral a
visão da sociedade ainda é calcada sobre um modelo clínico
tradicional. O psicólogo ainda é visto de modo hegemônico como o
profissional da clínica privada individual (em uma visão estereotipada)
Esta visão sobre a profissão fica explícita no ingresso nos cursos de
graduação em psicologia. Onde a grande maioria dos alunos ainda
busca estaformação por um desejo de fazer clínica, de ter um
consultório, por ser o que conhecem da psicologia. Mas isso está
mudando, as alteraçõescurriculares, com a introdução/aumento de
disciplinas voltadas para o campo social, de saúde coletiva, de
políticas públicas, tem promovido mudanças nos modos de fazer e
conceber a psicologia. A atuação cada vez maior, dos psicólogos em
políticas públicasexige e força estas mudanças. É uma demanda da
sociedade e possibilita um outro olhar sobre as possibilidades de
atuação da psicologia. Vão se construindo outros campos de atuação
além dos tradicionais (Clínica, Escolar, POT) e mesmo nestes faz-se
presente a possibilidade e a necessidade de um fazer diferenciado
(como é o caso por exemplo da construção do campo das Clínicas do
Trabalho, na Psicologia do Trabalho)
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O CRPRS vem ao longo de seus 40 anos de história firmando seu
compromisso social na construção da Psicologia. De que forma
você vê essa trajetória? Como tem acompanhado esse
movimento?
O CRPRS apresenta uma trajetória de envolvimento direto na
construção do compromisso social da Psicologia. Vejo o CRPRS como
um dos regionais mais implicados, considerando o Sistema Conselhos,
com esta perspectiva de afirmação de uma psicologia plural.
Podemos acompanhar o esforço das gestões, pelo menos nos últimos
20 anos, em implantar ações que buscam uma aproximação com a
categoria e promovamo debate sobre a implicação política de nossas
práticas. O CRP é sempre pioneiro e parceiro nos debates sobre
temas emergentes da profissão (Por exemplo: Ato Médico, Atuação no
Sistema Prisional, Reforma Psiquiátrica, Medicalização da Vida,
Formação, etc.)
Tenho acompanhado de perto este movimento. Sempre procuro estar
ligada de alguma maneira ao CRP, acompanhando os movimentos,
participando de eventos, comissões ou GTs. Também tive a
oportunidade de participar de três gestões no CRPRS, o que me
proporcionou uma visão diferentes, mais abrangente sobre a profissão
no RS e no Brasil. Considero um compromisso e um privilégio
acompanhar e participar das discussões e direcionamentos da
psicologia no Brasil. Todo psicólogo deveria ter esta experiência, se
não de estar na gestão, no mínimo de participar de alguma comissão
ou GT.
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Como você percebe a relação entre categoria e CRPRS?
Com necessidades de avanços. Nossa categoria não apresenta um
histórico de participação e engajamento político. Por muito tempo a
perspectiva do psicólogo foi de se colocar como profissional liberal, em
um trabalho individual e solitário. Não existe um espirito de corpo, de
lutas coletivas. É possível perceber alguns avanços, mas ainda temos
muito por conquistar. A categoria, de modo geral, ainda vê o CRP
como um órgão burocrático e apenas fiscalizador. Desconhece muitas
vezes as discussões promovidas, as ações e mesmo os eventos que
são realizados. Existe um interesse muito particular, centrado na área
ou campo de atuação. Reflexo da cultura de fragmentação que temos
na Psicologia. A disputa entre áreas e correntes teóricas não fortalece
a profissão. Precisamos superar estas questões, compreendendo que
a riqueza desta Ciência e profissão encontra-se justamente na
multiplicidade.
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O que você espera e projeta para os próximos anos do CRPRS?
É preciso continuar buscando a aproximação com a categoria,
identificar temas de interesse para produzir discussões, capilarizar as
ações por diferentes regiões do estado.É importante promover
discussões nas/sobre áreas tradicionais da Psicologia, mesmo
considerando as dificuldades inerentes. Vejo um crescimento
continuado do CRP, que acompanha o desenvolvimento da Psicologia
e os desafios decorrentes de uma atuação profissional que deve ser
construir cada vez mais plural.
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Tatiana Baierle - O que você entende por compromisso social