PAULO EMANUEL LEOTE ESTANISLAU GOESES NAS RUAS DE LISBOA Orientador: Professor Doutor Teotónio R. de Souza Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias Departamento de História Lisboa 2014 PAULO EMANUEL LEOTE ESTANISLAU GOESES NAS RUAS DE LISBOA Monografia apresentada para obtenção do Grau de Licenciatura em História, conferido pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Orientador: Professor Doutor Teotónio R. de Souza Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias Departamento de História Lisboa 2014 Goeses nas Ruas de Lisboa EPIGRAFE Ler as respectivas placas toponímicas é folhear um passado presente. As ruas, as praças calcorreadas pelas mulheres, crianças e homens europeus são cem vezes mais designadas segundo estadistas, figuras militares, poetas, artistas, compositores, cientistas e filósofos. George Steiner Goeses nas Ruas de Lisboa AGRADECIMENTOS Ao meu orientador, o Professor Teotónio R. de Souza, pela dedicação e inspiração para a busca permanente do conhecimento e da compreensão da História. Através da História fazemos uma leitura mais clara da complexidade do mundo em que vivemos, e compreendemos os sinais que regem a imparável marcha do Homem, e isso, ajudou-me a fazer uma análise mais próxima do real, das grandes questões que orientam a humanidade. O estímulo recebido do Professor Teotónio R. de Souza foi decisivo para esse disfrutar do saber, e levantar o véu diáfano do desconhecimento que cobre a realidade. Goeses nas Ruas de Lisboa RESUMO Esta tese de licenciatura, Goeses nas ruas de Lisboa, visa dar a conhecer aquelas personalidades com origem em Goa que estão perpetuadas nos arruamentos da capital portuguesa. Além disso, é também uma busca das causas para a sua inscrição no espaço público de Lisboa. Recordar alguém numa rua, praça, edifício ou jardim é um acto de preservação da memória e ao mesmo tempo a indicação de um rumo político implícito incorporado nesse gesto. A toponímia pode ser uma arma política de forte impacto junto dos cidadãos, ainda que estes não o sintam de forma consciente. Goeses nas ruas de Lisboa parte da inventariação dos Goeses na cidade de Lisboa para depois reflectir sobre questões relacionadas com a história e como ela é condicionante na atribuição de nomes nas placas que servem de referência geográfica dentro das cidades. Palavras-chave: Goa, Goeses, Lisboa, Ruas, Toponímia. ABSTRACT This academic thesis, Goeses nas ruas de Lisboa, intends to get to know the Goans whose names are perpetuated in the streets of the Portuguese capital. Furthermore, it is also a search for the reasons why they are inscribed in the public space of Lisbon. Reminding someone in the name of a street, square, building or garden is an act of memory preservation and at the same time an indication of implicit political intention embedded in that gesture. Toponymy can be a political weapon of strong impact on citizens, even if they do not consciously know it. Goeses nas ruas de Lisboa began with the inventory of the Goans who are in the toponymy of Lisbon, to then reflect about issues related to history and how history conditions the naming of street signs that serve as geographic reference in cities. Key words: Goa, Goans, Lisbon, Streets, Toponymy Goeses nas Ruas de Lisboa ÍNDICE INTRODUÇÃO .............................................................................................................................. 1 Capítulo I: Mecanismos e vicissitudes da atribuição toponímica ........................................ 6 I.1. Breve introdução à Toponímia de Lisboa......................................................................... 6 I.2 - Os Goeses da toponímia lisboeta, entre a política e a exaltação ................................... 12 I.3 - As razões pelas quais os Goeses constam na toponímia lisboeta .................................. 17 I.4 - Uma imagética em extinção, traços de uma memória cada vez mais difusa ................ 20 Capítulo II: Lisboa e Goa, duas realidades distintas ligadas pela história ....................... 22 II.1 – A história de Lisboa .................................................................................................... 22 II.2 – A história de Goa ........................................................................................................ 40 II.3 - Conhecer a História para decifrar e ler a toponímia .................................................... 53 Capítulo III: Goeses nas ruas de lisboa ................................................................................ 55 III.1 - Maternidade Alfredo da Costa.................................................................................... 55 III. 2 - Rua Dr. Silva Teles.................................................................................................... 58 III.3 - Praça Goa.................................................................................................................... 60 III.4 - Rua Fernão Álvares do Oriente .................................................................................. 62 III.5 - Largo Cristóvão Aires ................................................................................................ 64 III.6 - Rua Agostinho Lourenço ............................................................................................ 65 III.7 - Rua Abade Faria ......................................................................................................... 67 III.8 - Praça Sócrates da Costa .............................................................................................. 69 III.9 - Avenida Professor Gama Pinto .................................................................................. 71 III.10 - Avenida Dr. Francisco Luís Gomes ......................................................................... 73 III.11 - Rua Álvaro de Santa Rita Vaz .................................................................................. 75 III.12 - Rua Cidade de Margão ............................................................................................. 76 III.13 - Largo Primeiro Tenente João Rodrigues de Moura.................................................. 78 III.14 - Rua Nina Marques Pereira ........................................................................................ 80 Goeses nas Ruas de Lisboa III.15 - Rua Prof. Aires de Sousa .......................................................................................... 81 III.16 - Rua Prof. Luís da Cunha Gonçalves ......................................................................... 83 III.17 - Rua Blasco Hugo Fernandes .................................................................................... 85 III.18 - Rua Maluda (Maria de Lurdes Ribeiro) ................................................................... 86 CONCLUSÃO ............................................................................................................................. 89 BIBLIOGRAFIA .......................................................................................................................... 93 ÍNDICE REMISSIVO ................................................................................................................... 96 Apêndices................................................................................................................................... I Goeses nas Ruas de Lisboa INTRODUÇÃO A história da humanidade é pautada por relações pacíficas e conflituosas. Como na relação interpessoal, há momentos de paz e harmonia como de conflito e guerra. Também assim são os povos nas ligações que estabelecem entre si. O contacto com o outro nem sempre é propício à criação de uma relação em pé de igualdade. O desenvolvimento tecnológico e os interesses políticos, económicos e religiosos, provocaram ao longo da história a supremacia e domínio de nações sobre outras. Apesar dessa convivência desigual, houve sempre quem oriundo da parte subjugada se eleve e sobressai, ao ponto de ser considerado e reconhecido pela cultura dominante. Assim, apesar das circunstâncias desfavoráveis dos povos dominados, estes sempre tiveram alguns dos seus filhos que conseguiram furar a «malha» histórica que tolhia as poucas hipóteses que tinham de se impor culturalmente, politicamente, socialmente e religiosamente. O colonialismo impôs-se como forma de dominação que pouco espaço abria aos povos colonizados de exprimirem a sua imagética. O paradigma era a metrópole e, a cultura autóctone era desprezada quando não proibida. Isto permitiu para além da aculturação, o atrofiamento das hipóteses de culturas, povos e nações durante muito tempo, se emanciparem e trilharem o seu próprio caminho. Mas o sistema colonial imposto aos povos, em nenhuma época foi totalmente eficaz ao ponto de anular por completo a matriz original. Por isso alguns, como atrás ficou dito, conseguiram libertar-se e, em muitos casos dentro do próprio sistema colonial triunfar. É verdade que também houve autóctones aliados do poder que foram elevados a patamares mais altos porque eram colaboracionistas, estes tinham o caminho do reconhecimento social mais facilitado. No entanto podemos referir que houve quem fosse recompensado pelo sistema colonial pelo seu valor intrínseco, sendo ou não colaborador com o poder, mas com certeza pelas suas qualidades pessoais e profissionais de grande valor. No seio da Europa existe varias nações que ao longo da sua história foram potências coloniais e portanto, a experiência europeia neste aspecto é muito grande. O velho continente está pejado de heróis, nos panteões, cemitérios e toponímia. O escol dos descobrimentos, iniciados no séc. XV, heróis das travessias dos mares e dos continentes, heróis missionários que levaram o esforço de conversão e a palavra de Deus ao extremo e da insigne classe militar, conquistaram povos e os subjugaram. A história da Europa é rica em Homens de grandes feitos militares, religiosos, políticos e culturais e isso reflecte-se nos monumentos, 1 Goeses nas Ruas de Lisboa edifícios e nos arruamentos. Passear por qualquer cidade europeia, e estar atento à toponímia é viajar pela história por entre homens e mulheres que foram capazes de proezas inolvidáveis e que são enaltecidos e perpetuados pelas suas nações. As cidades europeias transbordam história por todas as praças, avenidas, ruas, estatuas, jardins e edifícios. O peso da história é muito grande, ao ponto dos muitos nomes evocados serem para a maioria, ilustres desconhecidos, tal é o infindável número de personagens históricas que fizeram o devir europeu e o definiram. Passear pelas ruas das cidades do velho continente é como abrir um livro de história. A malha urbana europeia é um verdadeiro labirinto, onde confluem aqueles que para as suas nações deixaram uma marca indelével. “Os homens e mulheres urbanos da Europa habitam verdadeiras camaras de ressonância de feitos históricos, intelectuais, artísticos e científicos”.1 É assim natural encontrar alguns nomes de personalidades que vieram de outras culturas e geografias, mas que pelas suas proezas se destacaram e foram perpetuados na toponímia das cidades europeias e em especial nas capitais. As capitais dos impérios foram sempre uma sala de estar onde eram mostrados os grandes feitos nacionais. Como centros por excelência de concentração das autoridades políticas e das suas instituições, são um belo mostruário de manifestações culturais, como exposições e museus de temáticas coloniais e, as suas toponímias também palco daqueles que se destacaram no império. E claro, entre os nomes que ressoam nos arruamentos está as tais personalidades oriundas das nações colonizadas. Lisboa, como capital de um país outrora imperial, não foge a esta circunstância histórica, e é um bom exemplo desse facto. A cidade de Lisboa foi o centro político de um país que no início do séc. XV começou a construir um vasto império colonial espalhado pelos quatro cantos do mundo. Com a ocupação progressiva dos territórios conquistados além-mar, foram-se constituindo entidades políticas e religiosas nessas diversas partes do mundo, que a princípio eram constituídas por elementos oriundos de Portugal. Gradualmente, com a aculturação e miscigenação, elementos autóctones começaram a entrar no aparelho colonial. Essas instituições tornavam-se um pouco mestiças com a incorporação de elementos locais e isso possibilitava-os destacarem-se e ascenderem politicamente, economicamente, socialmente e culturalmente. É assim que surgem as primeiras elites locais dentro do contexto colonial, e é assim que surgem as primeiras personalidades que são reconhecidas pelo poder. É evidente que esses primeiros Homens que se destacam estão dentro do colonialismo, e o 1 George Steiner, no seu livro, A Ideia de Europa, explica que o continente europeu está pejado de história e que isso se reflecte na toponímia e nos monumentos, onde abundam e são evocados uma miríade de heróis nacionais. 2 Goeses nas Ruas de Lisboa aceitam, são dignos de aceitação dentro do sistema colonial, e são sempre figuras de grande relevo. Portugal foi o último império colonial a ser desmantelado. Devido à conjuntura politica do país no séc. XX, uma ditadura longa de quase 50 anos, que vivia orgulhosamente só e isolada dos ventos da história, que a partir dos anos 50 e 60 haveria de assistir à libertação dos povos colonizados, de outras potencias. Portugal «agarrava-se» a todo o custo às suas colónias de forma determinada, ao ponto de enfrentar em simultâneo três frentes de guerra, em África nos anos 60 e início de 70. Oliveira Salazar, o ditador que a qualquer preço tentava manter o vasto espaço colonial português, rumava contra o processo histórico de libertação dos povos sob tutela portuguesa, fazendo uma guerra contra os movimentos independentistas e libertadores que custou aos dois lados da barricada milhares de mortos e estropiados. O primeiro território que encetou essa guerra de libertação contra Portugal foi a província ultramarina de Goa. Goa, enquanto colónia, era um pequeno território português encravado na grande União Indiana. A Índia tinha-se emancipado do poder colonial Britânico em Agosto de 1947, e tinha a intenção de incorporar na sua república esta província ultramarina portuguesa. Culturalmente os Goeses eram maioritariamente Hindus, com comunidades católicas e muçulmanas a perfazerem as restantes práticas religiosas. Portugueses com origem na metrópole eram uma minoria, ocupando a administração pública e as forças armadas. Era portanto muito natural que a maioria dos Goeses sentisse uma maior proximidade afectiva e cultural com a Índia do que com Portugal, esse país distante, lá longe na Europa. A recente nação Indiana independente tenta negociar com Portugal o futuro do território. Oliveira Salazar, na sua política de não discutir a presença portuguesa nas colonias, num registro anacrónico e ultrapassado em relação ao que se passava no resto do mundo, recusa discutir com os responsáveis políticos indianos, o futuro do território. A Índia não conseguindo dialogar com o ditador Português, decide invadir Goa de 18 para 19 de Dezembro de 1961, pondo fim á presença portuguesa na região. Portugal perdera Goa e era o fim de uma relação política com este território de mais de 400 anos, iniciada em 1510. O que pretendo com este trabalho é perceber como Portugal, através da sua capital, reconheceu personalidades oriundas de Goa. Aqui Goa, exemplo de como as entidades políticas portuguesas foram capazes de recompensar através do reconhecimento, homens e mulheres Goeses que sobressaíram no contexto colonial ou pós colonial. Como uma nação colonial reconhece aqueles que não fazem parte da metrópole mas mesmo assim conseguiram-se destacar-se nas suas áreas de actividade. Analisar que critérios estiveram nessa distinção. Entender de que modo Portugal relacionou-se com aqueles que eram oriundos 3 Goeses nas Ruas de Lisboa deste território e estabeleceu na memória da cidade de Lisboa (capital de um ex-império) uma relação perene. Interpretar e fazer uma leitura do significado da incorporação nos arruamentos da capital portuguesa de nomes de Goeses ou com Goa relacionados. Restrinjo esta minha busca aos naturais do actual Estado de Goa, integrado na União Indiana, portanto não incluo os naturais de Damão e Dio. Esta seria outra questão interessante de aflorar, quem é Goês? A identidade de um cidadão resume-se ao seu local de nascimento, ou a língua, etnia e a cultura, também pesam nos factores a ter em conta na definição da nacionalidade ou do local ao qual se pertence? É uma questão difícil de definir, o local a que se pertence, num mundo cada vez mais globalizado e miscigenado. Por isso defino desde já, que para este trabalho tenho em conta o nascimento em Goa, como ponto de partida para a elaboração deste trabalho. Considero todos aqueles nascidos no actual Estado de Goa e que foram evocados na toponímia lisboeta como matéria para esta tese. A toponímia é uma bela fonte de como um país grava na memória das gerações vindouras, os nomes daqueles que se destacaram na história. Uma placa toponímica é uma pequena referência histórica, como que um lembrete a chamar a atenção de quem passa, para aqueles que é preciso conhecer. A toponímia não só como forma referenciadora da geografia das cidades, para não nos perdermos no emaranhado urbano, mas também como forma de referenciação histórica, para não perdermos a memória dos que nos antecederam. A presente tese de licenciatura intitula-se Goeses nas ruas de Lisboa, e tem como ponto de partida decifrar os mecanismos e vicissitudes da atribuição toponímica, para depois narrar a história de Lisboa e Goa, para entender a importância histórica destes dois territórios no conjunto colonial. Segue-se um levantamento dos Goeses inscritos na toponímia da capital portuguesa e ainda os relacionados com este território agora Indiano. Para tal, o estudo debruçou-se em leituras da biografia das personalidades analisadas e compressão do seu contributo para a sociedade portuguesa ou colonial. Foram ainda consultados jornais da época das personalidades e dos factos narrados e examinados documentos no Arquivo Nacional Torre do Tombo e actas da Camara Municipal de Lisboa. Nos apêndices foram inseridas fotografias dos arruamentos e placas toponímicas da minha autoria. Para além da evocação destas personalidades, este trabalho empreende uma reflexão sobre o que os Goeses perpetuados nas ruas da cidade de Lisboa representam quanto ao fluir histórico. Afinal como é explicado na tese, a toponímia é uma bela metáfora da sucessão dos tempos, e dos seus significados que cada época apresenta do ponto de vista político, social e cultural. Os Goeses nos arruamentos 4 Goeses nas Ruas de Lisboa de Lisboa têm um significado histórico, e é esse também o objectivo do trabalho, levantar esse véu diáfano que cobre uma realidade pouco conhecida. 5 Goeses nas Ruas de Lisboa CAPÍTULO I: Mecanismos e vicissitudes da atribuição toponímica I.1. Breve introdução à Toponímia de Lisboa Ao longo da história, inscrever numa placa ou lembrar numa qualquer inscrição, seja qual for o suporte, um nome para perpetua-lo publicamente para a posterioridade, considerando esse acto algo eterno, é uma das características do Homem. Nomear os filhos pródigos de uma cultura ou civilização é uma característica humana. Se esse acto inscreve-se numa conjuntura histórica frágil e anacrónica e os nomes assinalados pertencem a um determinado período, bem concreto e antagónico aos que precedem, o mais natural é que o acto de descerrar uma placa seja de uma precariedade muito grande. As épocas históricas sucedem-se e com elas há nomes que caem que nem baralhos de cartas sem sustentação nenhuma, nem há quem os ampare nessa queda, outros permanecem incólumes. O fluir histórico trata de peneirar realmente quem permanece e quem é votado ao ostracismo ou ao esquecimento. Os regimes, os governos, as civilizações sucedem-se e com elas desaparecem alguns dos heróis que pontuavam a imagética no seu tempo. Novos senhores, novos heróis. A história de Portugal teve ao longo dos séculos vários protagonistas que de modo bastante variável e diverso conduziram o país até ao presente. Monarquia absolutista, monarquia constitucional, república democrática e multipartidária, ditadura militar e ditadura com um só partido foram formas de governar que existiram em diferentes épocas.2 Este evoluir de diferentes modos políticos de dirigir o país, provocou que nomes numa circunstância fossem louvados, mas no regime seguinte fossem apupados e ou renegados. É especialmente revelador disto, a transição da ditadura do Estado Novo para a democracia que se impôs a seguir ao 25 de Abril 1974. Houve nomes que desapareceram, foram renegados e excluídos, e outros que estavam na penumbra e de repente viram a luz do dia. Lembro só um facto. A Ponte sobre o Tejo, quando inaugurada em Agosto de 1966, era conhecida como Ponte Salazar (o governante da altura), com a democracia, passou a designar-se Ponte 25 de Abril, o dia da revolução que acabou com o status quo vigente anteriormente, a ditadura do 2 Portugal experimentou diferentes formas de governação ao longo da sua história, com a monarquia desde a sua fundação até 1910, seguindo-se a 1ª Republica, em regime democrático, sucedendo-lhe a ditadura militar de 28 de Maio de 1926 a 1933, que é substituída pelo Regime do Estado Novo, e por fim, o segundo período democrático, implantado em 1974. Estes diferentes períodos fizeram realçar ou renegar alguns nomes conforme sucediam-se as diferentes formas de poder. 6 Goeses nas Ruas de Lisboa Estado Novo. Mudam-se os tempos mudam-se as vontades. Como este exemplo poderia dar mais alguns reveladores de que, o que hoje é valido, amanhã já poderá não ser, pois os regimes de natureza diferente e contraditória tratam de anular as marcas e simbologias do anterior.3 A cidade de Lisboa, sendo capital, sede do poder político, concede a si mesma ser uma sala de visitas do país, é como um mostruário da história nacional. Em Lisboa encontram-se museus nacionais, centros culturais, o parlamento, a residência oficial do Presidente da Republica. É o espaço por excelência da realização de mega eventos culturais, como a Expo 98 ou Lisboa Capital Europeia da Cultura, em 1994. 4 É também o centro onde as grandes empresas nacionais e estrangeiras escolhem fixar as suas sedes. No fundo, Lisboa capitaliza o facto de ser uma centralidade política e cultural dentro do país. E como centralidade que é, também na toponímia se reflecte essa característica de nos seus arruamentos serem inscritos os grandes nomes da política, cultura, ciência, educação e das forças armadas de Portugal. A atribuição de topónimos na cidade de Lisboa é da responsabilidade da camara municipal desde o final do séc. XIX. Em 1943 é criada a primeira comissão toponímica de Lisboa (Comissão Municipal de Toponímia), como órgão consultivo para as questões de atribuição de nomes aos arruamentos e sua categorização ou seja dar pareceres sobre se uma via publica deve ser designado de rua, avenida, largo, praça, azinhaga, etc. É um órgão consultivo, constituído por figuras de reputado mérito e de entidades ligadas à cidade, bem como à Camara Municipal de Lisboa. Está dependente do Departamento de Património Cultural, da Direcção Municipal de Cultura e é presidida pelo vereador do pelouro da Cultura. Alguns dos topónimos de Lisboa são reveladores das características da história da cidade. O termo azinhaga é um bom exemplo que remete para um passado rural. Ainda persistem as azinhagas, que reflectem um passado de à poucas décadas, de uma vida rural, de vida do campo onde pontuavam quintas. Onde existem azinhagas existe ainda um recente urbanismo ou pré-urbanismo. Outros topónimos, como moinho ou poço também são sinonimo de um passado não distante de campo. Estar atento ao topónimo é possível descortinar o que seria o local à umas décadas atrás não muito distantes. Há ainda o nome de figuras na toponímia que ninguém consegue descobrir a sua origem, ou por terem ficado esquecidos na 3 A este propósito, dos Presidentes da Republica que exerceram este cargo no período do Estado Novo, só o nome do Marechal Craveiro Lopes ainda consta na toponímia presentemente em Lisboa, na 2ª Circular. 4 A realização da Expo 98 possibilitou a reabilitação de uma zona da cidade degradada e poluída. Nasceram novos arruamentos, a que foram dados nomes maioritariamente relacionados com o tema da exposição, ou seja, os oceanos e os descobrimentos Portugueses. 7 Goeses nas Ruas de Lisboa história ou por serem figuras populares noutros tempos que na actualidade já não há referência ao seu passado. Os mistérios que algumas placas toponímicas encerram, são já verdadeiros quebra-cabeças para historiadores. A toponímia da cidade de Lisboa encerra em si mesmo tanta história por contar e difundir. Até ao séc. XVIII os topónimos de Lisboa eram praticamente quase todos de origem popular.5 Esta situação iria ter uma mudança, primeiramente com a reconstrução da cidade de Lisboa após o terramoto de 1755, quando o Marquês de Pombal manda erguer um novo traçado denominado mais tarde de «baixa pombalina». Esta nova cidade tinha que ter uma toponímia adequada, às actividades comercias que agora iriam ter lugar nos novos arruamento, e é desta necessidade que nasce um documento régio, em 5 de Novembro de 1760, a regular que nomes deviam constar nas placas que identificam as ruas do novo traçado urbanístico de Lisboa.6 Novas necessidades surgem com o passar dos anos. O serviço postal para funcionar precisava de referências urbanas. Nada melhor que atribuir nomes aos arruamentos. Em 1800, foram fixados os nomes populares com que eram conhecidas as ruas em Lisboa. Há de novo uma alteração em 1836 com o código administrativo, que atribuiu competência ao governo civil a capacidade para nomear arruamentos. Uma nova modificação surge em 1878, quando é delegada na Camara Municipal de Lisboa através de um novo código administrativo, o direito de ser responsável pela toponímia da cidade. O final do séc. XIX vê surgir alterações substanciais nos nomes dos arruamentos. Se até a esse momento, as ruas, praças e largos eram designados com nomes de figuras do povo, alcunhas, profissões, nomes de aristocratas ou altos cargos na hierarquia do estado, agora há uma mudança. Começam a surgir nomes de personalidades que se destacaram na sua actividade profissional e, portanto a sociedade reconhece-as nomeando-as na toponímia. Os arruamentos passam a servir para exaltar, homenagear e perpetuar personalidades importantes para a cidade e para o país. A nomeação dos arruamentos passa da esfera popular para a esfera institucional e com isso ganha relevância social e política. As ruas, praças, avenidas e largos passam a ser um mostruário da história, da afirmação nacional, da afirmação política do regime que está no 5 As populações designavam os seus arruamentos com nomes de figuras populares e conhecidas, com características geográficas que iam do tipo de vegetação à morfologia do local ou edificações existentes que marcavam o sítio. 6 Na baixa pombalina existem nomes na toponímia relacionados com as actividades exercidas nesse espaço urbano. Arruamentos como a Rua do Ouro, Rua da Prata, Rua dos Fanqueiros, Rua dos Sapateiros, Rua dos Correeiros, Rua do Comercio e Praça do Comercio. A informação quanto ao surgimento do documento régio que regula a toponímia da “Baixa Pombalina” foi obtida numa Comunicação apresentada na Academia de Marinha pela Dra. Ana Homem de Melo, em 22 de Fevereiro de 2011, que se encontra na internet no seguinte endereço electrónico: http://academia.marinha.pt/PT/edicoes/Documents/A_marinha_na_toponimia.pdf 8 Goeses nas Ruas de Lisboa poder. A toponímia até como arma e modus operandi de inculcar na memória dos cidadãos determinadas posições políticas. Os arruamentos são verdadeiras passerelles de personalidades insignes. A cidade de Lisboa nos últimos cem anos sofreu alterações na sua configuração importantes, que a tornaram mais densamente urbanizada. De uma cidade quase provinciana, mas que ambicionava igualar-se às grandes urbes da Europa, como Paris ou Londres, e que alguns a quiseram transformar dando um aspecto mais cosmopolita, grandioso e monumental, como Ressano Garcia, que final do séc. XIX, implementou uma serie de obras em Lisboa, tentando uma revolução que a transforma-se, como por exemplo com a construção de grandes avenidas (Av. Da Republica, Av. da Liberdade) e outros projectos urbanísticos, passando por Duarte Pacheco, que projecta o Parque Florestal de Monsanto, a Av. Roma entre outras obras, até à grande manifestação cultural e festiva, que foi a Expo 98, que ajudou a revolucionar uma área degradada, abandonada e poluída, da parte oriental da cidade, dando-lhe um aspecto moderno. 7Além disso, a transformação não é só ao nível do betão é também na vivência da própria cidade. Com a descolonização dos territórios em África na posse de Portugal, uma vaga dos chamados «retornados» e africanos entram em Lisboa e dão um novo colorido e vida à capital portuguesa. Lisboa abre-se ao mundo torna-se cosmopolita, ajudada também pelos inúmeros turistas que a visitam. A abertura política, possível com a revolução do 25 de Abril, trouxera uma nova «respiração» à cidade de Lisboa. Novos cheiros, ambiências e novas gentes, chegadas de muitas partes, davam um novo colorido a Lisboa. O progresso da cidade manifesta-se na expansão urbanística, na alteração dos comportamentos culturais e socias da sua população, mas também na toponímia, os nomes que constam nas placas que nomeiam os arruamentos são mais expansivos a novas realidades. Até na toponímia, Lisboa sofreu uma revolução, que acompanha as alterações físicas e culturais da cidade. Pelo estudo da evolução dos nomes introduzidos na toponímia, podemos também perceber como a sociedade mudou. Surgem nos arruamentos de Lisboa nomes de figuras das ex-colónias, que foram líderes e lutadores dos movimentos independentistas, contra o colonialismo português. Surgem nomes de geografias pouco relacionadas com a história de Portugal. É um sinal de uma cidade em mutação, no sentido de uma maior abertura ao mundo em contraste com o período anterior. Os nomes de Goeses ou relacionados com Goa nas ruas de Lisboa contam-se por pouco mais de dezena e meia e começam a surgir só no séc. XX. O primeiro registro e que se 7 Ressano Garcia exerceu as funções de ministro, deputado e engenheiro da camara Municipal de Lisboa. Duarte Pacheco foi ministro das Obras Publicas do regime do Estado Novo e presidente da Camara Municipal de Lisboa 9 Goeses nas Ruas de Lisboa mantem é o da Rua Dr. Silva Teles, nas Avenidas Novas, dos anos trinta. É só nos anos cinquenta que começam a aparecer com alguma substancia vários nomes na toponímia da cidade de Lisboa. Isto quer dizer, que a maioria dos nomes de Goeses inscritos nos arruamentos da cidade de Lisboa, só é consumada no período do Estado Novo, o que é revelador. Com a independência da Índia, em 1947, colocou-se na agenda portuguesa e internacional a questão de Goa. A Índia, progressivamente durante o final dos anos quarenta, toda a década de cinquenta e até à invasão em Dezembro de 1961, pressiona Portugal no sentido de recuperar a colónia portuguesa de Goa. Portugal acusado de colonialista e representando um regime ditatorial, tenta defender-se mostrando supostamente o humanismo e a missão civilizacional que exerce nas colónias e, que essa tarefa é essencial para esses territórios por si administrados. Sucessivamente Portugal sofre pressões para abandonar as suas colonias em África e na Ásia, mas o regime agarra-se convictamente a ideia que as províncias ultramarinas são parte inalienável do país e que é um todo formado desde o Minho a Timor. As independências do jugo Europeu registradas nos anos cinquenta e sessenta, em África e na Ásia dificultam ainda mais a árdua tarefa do regime do Estado Novo em conservar as províncias ultramarinas na posse de Portugal. A falta de democracia não possibilitava aos autóctones das colónias portuguesas se expressarem quanto ao seu futuro político e, Portugal é também acusado de não dar voz as populações a fim de manifestarem-se. Perante este enquadramento político e internacional, pouco favorável a Portugal, o regime tenta varias formas de manter as colónias. Desde organizar a Exposição do Mundo Português, em 1940, a pressionar os seus aliados tradicionais para o facto de o ultramar português ser seu por direito, a até militarmente entrar em confronto com os movimentos independentistas das colónias portuguesas. Fosse qual fosse o custo a pagar, Portugal não cede. O Estado Novo precisa de um organismo que difunda as grandes linhas políticas e «domestique» a população portuguesa ao ideal cultural e político do regime - o nacionalismo. Para isso, cria sob proposta de António Ferro, o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), que em 1945, muda de nome, fruto dos ventos da história, que com o fim da 2ª Guerra Mundial atirará para o lixo da história regimes fascistas e ditaduras de direita na Europa Ocidental, em que organismos desses sistemas ostentavam orgulhosamente e sem pudor nomenclaturas bem elucidativas da sua missão. Assim, em 1945 é criado o Secretariado Nacional de Informação (SNI), com a mesma missão de domar e educar o espirito dos Portugueses. Até 1950, estes organismos são liderados por António Ferro e são elaboradas uma serie de manifestações culturais para promover a política 10 Goeses nas Ruas de Lisboa do Estado Novo.8 Do cinema, arte popular, exposições, musica ao teatro e à literatura, todas as expressões culturais são alvo. É com naturalidade que a ditadura portuguesa se apropria-se de todos os meios para amestrar a opinião portuguesa e até tenta-se influenciar a opinião internacional. A cada vez maior pressão que vai sofrendo até à agonia do 25 de Abril de 1974 faz com que quase todos os meios sejam lícitos para levar avante as suas linhas programáticas de direcção do país. As representações do estado, independentemente do seu cariz, mais ou menos democrático, republicano ou monárquico, são normalmente loas às próprias políticas. A história é escrita pelos vencedores. Uma das formas supostamente mais surpreendente de incutir na população, e até internacionalmente, perante os olhares de estrangeiros, a ideia de uma cultura tolerante e amistosa entre todos os Portugueses, do regime do Estado Novo, independentemente da sua origem, europeia, africana ou asiática é a de evocar os nomes de personalidades que se destacaram no Império, os acidentes geográficos e localidades das colónias. É assim que a partir dos anos cinquenta surgem vários nomes de Goeses na toponímia de Lisboa. Era uma forma de afirmar que, quaisquer que fossem as origens, todos podiam ser lembrados, porque todos eram Portugueses, independentemente da sua origem geográfica, étnica, ou credo religioso. Com a incorporação de Goa na União Indiana ainda foram registrados alguns nomes na toponímia de Lisboa. Isto não quer dizer que os agraciados não fossem meritórios dessa acção. A última placa a ser descerrada com o nome de um Goês é da pintora Maluda, no ano 2007. Provavelmente este foi um dos últimos actos toponímicos em que um Goês é lembrado nas ruas de Lisboa, pois as gerações de Goeses que nasceram sob bandeira portuguesa, pela lei natural da vida, vão desaparecer rapidamente. Deste «morrer goês» na imagética nacional portuguesa, muito provavelmente não apareceram novos nomes de Goeses na toponímia. É um sinal da história que se revela nas inscrições das placas toponímicas. A toponímia também pode ser uma arma do jogo político, pode ser uma forma de enaltecer figuras ligadas ao regime no poder, ou fazer passar uma mensagem específica grada ao governo vigente para proveito próprio, de modo a ganhar a anuência da população ou mesmo ter uma visibilidade internacional. Conhecendo as personalidades que povoam as nossas cidades, e quando e como foram nomeadas para constarem no espaço público, é possível fazer um retracto das intenções que estiveram na génese do acto de as tentar perpetuar na memória dos transeuntes que passam numa qualquer avenida, rua ou praça. 8 António Ferro foi o «ideólogo» da propaganda do regime do Estado Novo. 11 Goeses nas Ruas de Lisboa Mesmo num banal ou aparente despretensioso acto de descerrar uma placa toponímica, está um exercício politico pouco ou nada inocente, carregado de intenções subliminares ou explicitas para fazer passar uma mensagem. O descerrar de uma placa toponímica é sempre um acto político, para o compreender é necessário contextualiza-lo na sua época e compreender a história da personalidade agraciada com tal gesto. Lisboa é capital de uma nação com uma história longa, em que variadas formas de poder político exerceram a sua acção, onde muitas personalidades contrastantes e contraditórias existiram no mesmo tempo, uma nação rica em acontecimentos históricos diversos e, tudo isso se reflectiu na toponímia no curto espaço da sua existência. Lembro o que atrás ficou dito, só a partir do final do séc. XIX é que a toponímia é encarada de forma mais pensada e elaborada, com um maior reflexão. Descortinar essas camadas históricas através da toponímia é também um exercido de compreensão da história. O estudo dos nomes de Goeses nos arruamentos de Lisboa é um bom princípio para compreender a sociedade portuguesa. Nem que seja para perceber que num passado não muito distante fomos pluricontinentais, pluriétnicos e pluriculturais, quiséssemos ou não. A realidade transforma-se, a sociedade muda, os comportamentos culturais alteram-se, os regimes políticos sucedem-se e, a minha tese é de que a toponímia é um bom espelho de tudo isto. A toponímia reflecte o ambiente socio-politico-cultural e evoluiu no sentido em que a comunidade caminha. I.2 - Os Goeses da toponímia lisboeta, entre a política e a exaltação Um escol de insignes personalidades Goesas povoa os arruamentos de Lisboa.9 O seu número não é grandioso, mas a sua importância não é diminuída pela escassez, mas pelo contrário é relevada pelas qualidades intrínsecas que as caracteriza. O padrão profissional das personalidades Goesas que são evocadas na capital portuguesa é variado, indo de médicos, investigadores, militares a artistas e alguns deles com actividades paralelas, deambulando entre a ciência, política e cultura. Como é que tais individualidades sobressaíram num contexto colonial preconceituoso, intolerante para aquele que é diferente, e que para mais tem origem num território geográfico ultramarino? Como foi possível a sua inscrição numa placa toponímica, na capital de um país colonial que foi Portugal até 1974? A primeira menção de um Goês na toponímia de Lisboa data de 1934, e o comtemplado é Silva Teles. Se considerarmos a menção de um Goês nas ruas de Lisboa, então temos que considerar o nome 9 Na minha pesquisa identifiquei dezasseis antropónimos e dois topónimos relacionados com Goa. 12 Goeses nas Ruas de Lisboa do Dr. Alfredo da Costa, com a inauguração da primeira maternidade construída e pensada de raiz para a capital, a MAC, em 1932.10 Em 1933, Portugal via o regime ditatorial de um único partido triunfar. O 28 de Maio de 1926 terminou com a 1ª Republica, que se caracterizava por uma instabilidade política e social, onde governos precários se sucediam sem resultados palpáveis. A confusão era muita, atentados, derrube de governos, revoltas e manifestações regulares eram situações habituais. Forças ligadas a uma ala conotada com o espectro político de direita, vai ganhando força e adeptos no sentido de impor ordem no país galgam posições de modo a tomar o poder. É neste cenário que surge um movimento militar que impõe um regime ditatorial militar. Começa a emergir uma figura, Oliveira Salazar, que sobre a áurea de distinto e competente economista vai apoderar-se do poder. Em 19 de Março de 1933 é consumada a tomada do poder por Oliveira Salazar, com uma nova constituição aprovada. É instaurado um regime nacionalista, de direita e ditatorial. Portugal seguia o rumo que muitos países Europeus, neste período também iriam trilhar. É já sob esta nova fase política do país, que surge o nome de Silva Teles, o primeiro Goês a constar na toponímia de Lisboa, um médico militar. O regime vai progressivamente confrontar-se com a oposição interna e externa. Se internamente lutava-se pela instauração da democracia, e este movimento vai em crescendo, externamente Portugal sofre pressões essencialmente no sentido de descolonizar. As potências colonias Europeias encetam uma fase de dar independências aos territórios que tinham em África e Ásia, nos anos 50 e 60. Portugal resiste a este caminhar da história. A independência da Índia em 1947 haveria de colocar muitos problemas a Portugal. Numa pressão em crescendo a União Indiana reclama Goa. Salazar sentindo-se apertado, trata de responder com operações de marketing para consumo interno e externo, no sentido de fazer passar a ideia de uma nação unida e que, Portugal era necessário nas suas possessões ultramarinas para civilizar os povos autóctones.11 Neste sentido são programadas e realizadas diversas acções. A Exposição do Mundo Português de 1940 é o primeiro grande sinal desta política. Mas uma inusitada operação será realizada para domar consciências. A toponímia será usada como arma politica. Com a urbanização da encosta do Restelo e da Ajuda, nos anos 40, 50 e 10 MAC acrónimo para Maternidade Alfredo da Costa. Seria Alfredo da Costa o primeiro goês a ter o seu nome gravado numa instituição em Lisboa. 11 Quanto a este assunto é explícito o Acto Colonial que regia juridicamente as colonias portuguesas, “É da essência orgânica da Nação Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações que neles se compreendam, exercendo também a influência moral que lhe é adstrita pelo Padroado do Oriente” (Acto Colonial, Artigo 2, 1930). 13 Goeses nas Ruas de Lisboa 60, o regime tratou de na toponímia desta zona da cidade atribuir nomes de figuras dos descobrimentos ligados ao oriente e em especial a Goa. Deste modo, o poder evocava navegadores e governadores numa parte da cidade de onde haviam partido as naus rumo ao Oriente. Esta política não só servia o propósito nacionalista do regime, como era uma mensagem clara para o exterior, afirmando o caracter de revindicação de Portugal para a sua presença eterna nas colónias. Os nomes na toponímia do Restelo e Ajuda são inequívocos. Os antropónimos: Vasco da Gama (1469-1524), D. Cristóvão da Gama (c. 1514-1542), Tristão da Cunha (1460-1539) capitão-mor da Armada da Índia, D. Francisco de Almeida (1450-1510), 1º vice-rei da Índia, D. Lourenço de Almeida (1480-1508), capitão-mor da armada da Índia, Fernão Mendes Pinto, aventureiro, tal como os topónimos Goa, Damão, Diu e Índia ou ainda Soldados da Índia, são exemplos quanto à clareza da intenção.12 O agudizar de posições entre Portugal e a Índia quanto à questão Goesa faz o regime salazarista usar todos os meios para conservar intacto o império colonial. Com a formalização da União Indiana, Portugal sente cada vez mais ameaçada a integridade das colónias. Perante este quadro, o regime busca soluções em vários campos, o político, a diplomacia e também na toponímia. É assim que desde o início da década de 30 até aos anos de 60, até à invasão indiana de Goa, são inscritos nos arruamentos da cidade de Lisboa sete antropónimos e um topónimo de Goeses. É revelador de como a toponímia é usada para a exaltação do império e dos valores pátrios. Maternidade Alfredo da Costa (1932) Rua Dr. Silva Teles (1934), Praça de Goa (1948), Rua Fernão Álvares do Oriente (1952), Largo Cristóvão Aires (1955), Rua Agostinho Lourenço (1956), Rua Abade Faria (1957) e Praça Sócrates da Costa (1960) são os arruamentos com nomes de Goeses, que neste período são inscritos em Lisboa. É verdade que no período entre 1947, com a independência da Índia, e 1961 com a tomada de Goa, os nomes de Goeses inseridos no espaço público urbano de Lisboa têm um peso maior na estratégia política do regime do Estado Novo. Foi no período de regência do Salazarismo que os primeiros nomes de Goeses foram nomeados para arruamentos de lisboa e alguns deles como Sócrates da Costa, uma figura grada do regime. O Estado Novo viu na toponímia uma forma de propaganda para difundir as suas ideias políticas. Alguns destes nomes eram de personalidades que tinham falecido à dezenas de anos sem que alguém se tivesse lembrado de os evocar. Realço que todos estes nomes são de personalidades de grande valor nas suas áreas profissionais e que de qualquer modo em principio seriam lembradas noutros contextos 12 Existem muitos outros nomes nos arruamentos de Belém e da Ajuda relacionados com o oriente que seria fastidioso nomear. Penso que os nomes apresentados são uma boa amostra do que pretendo demonstrar. 14 Goeses nas Ruas de Lisboa políticos e, prova disso é que permanecem na toponímia, mas de facto o regime apodera-se destes e de outros nomes para fazer uma política, como atrás ficou dito, de louvor à missão civilizadora de Portugal e tentando gerar um efeito apaziguador sobre os críticos da sua actuação. O que não quer dizer que na totalidade das personalidades evocadas na toponímia, durante a vigência do Estado Novo tivessem um claro aproveitamento político, mas que alguns deles foram lembrados nas ruas de Lisboa para fazer passar a mensagem nacionalista e propagandista dos valores então em vigor parece inequívoco, até porque como lembro neste trabalho, o descerrar de uma placa toponímica é um acto de memoria e só se lembra aqueles que são partidários e que de alguma forma servem os intuitos do poder que está em exercício. O ano de 1961 é terrível para o Estado Novo. A 4 de Fevereiro, em Angola, um ataque dos partidários do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) á Casa de Reclusão Militar, em Luanda, à Cadeia da 7ª Esquadra da polícia, à sede dos CTT e à Emissora Nacional de Angola inicia o processo de lutas de libertação nas colónias portuguesas. Nehru, Primeiro-ministro da Índia aproveita este acontecimento nefasto para o Estado Novo e ordena a ocupação de Goa, nesse mesmo ano, a 18 de Dezembro.13 Era um duro golpe para Oliveira Salazar e o seu regime. Os esforços de transmitir uma imagem idílica de Portugal, dos Portugueses, da metrópole e das províncias ultramarinas estava agora seriamente abalada. A política de intervenção em várias áreas para acalmar as vozes que reclamavam democracia e descolonização tinha sofrido um rude golpe. Esta política passava até por alterações de cosmética, como por exemplo aquando da alteração da denominação de Colónias por Províncias Ultramarinas, em 1951, ou o fim do Estatuto do Indigenato, em 1961.14 Estas alterações previam supostamente o fim da descriminação dos indígenas, mas estava em marcha os ventos da história que levariam ao fim o império colonial português. O regime havia-se socorrido de tudo para levar avante a sua política. Desde exposições, a manobras diplomáticas, alterações de designações anacrónicas, guerra, à toponímia, tudo servia para objectivamente conservar o status quo político e territorial de um país colonial. 13 Os esforços de Nehru em dialogar com Portugal para resolver a questão goesa não havia produzido resultados. Com o início da luta armada em Angola contra o poder colonial português, a Índia viu que só com a invasão poderia solucionar o caso de Goa. 14 O Estado Novo com as independências que surgiram na década de 50 sentiu-se na necessidade de alterar a designação oficial dos territórios do ultramar que Portugal governava. O termo “Colonia” era demasiado anacrónico com o rumo que a história seguia. O estatuto do indigenato era também ofensivo e intolerante para os autóctones e não ajudava as pretensões portuguesas de continuar incólume aos desenvolvimentos que decorriam das independências africanas e asiáticas, por isso o Ministro do Ultramar, Adriano Moreira o revoga. 15 Goeses nas Ruas de Lisboa Após a perda de Goa, nomes de Goeses nos arruamentos de Lisboa não deixaram de surgir. Ainda na vigência do Estado Novo, foram evocados mais cinco antropónimos e um topónimo. Avenida Professor Gama Pinto (1967), Avenida Dr. Francisco Luís Gomes (1970), Rua Cidade de Margão (1970), Rua Álvaro de Santa Rita Vaz (1970), Largo Primeiro Tenente João Rodrigues de Moura (1971) e Rua Nina Marques Pereira (1971) foram os escolhidos para constarem nas vias públicas de Lisboa. De realçar que algumas destas figuras eram apologistas do regime, Álvaro de Santa Rita Vaz e Nina Marques Pereira estão claramente neste registro. Curiosa a inclusão do topónimo Cidade Margão, localidade do Estado de Goa, que é incorporado em 1970 (depois da invasão de 1961) na freguesia dos Olivais que na época estava em grande expansão urbanística, e que na minha opinião é ainda um ultimo folego do regime para reclamar o direito de conservar as colonias. Nesta zona oriental da Lisboa foram vários os nomes de cidades das colónias portuguesas incorporadas na toponímia de Lisboa.15 No período de vigência do Estado Novo foram exaltados na toponímia Lisboeta, treze nomes relacionados com Goa (sem contar com Diu e Damão). O regime haveria, através da toponímia, travar uma luta de propagação de valores nacionalistas e imperiais. Com o fim do regime salazarista, em 25 de Abril de 1974, já em regime democrático, continuaram a surgir nomes de Goeses nos arruamentos da capital portuguesa. É natural, que com a incorporação do Estado de Goa na União Indiana, em 1961, fizesse com que os Goeses deixassem de fazer parte da nação portuguesa e com isso, o leque de personalidades oriundas deste antigo território português, com possibilidade de figurarem na toponímia diminuísse consideravelmente. Excepção feita àqueles que enveredaram por rumar para a antiga potência colonial, e são algumas dessas pessoas que iram ser recordadas nos arruamentos de Lisboa. Rua Blasco Hugo Fernandes (2004) e Rua Maluda (2007) homenageiam duas personalidades que se destacaram e fizeram parte da sua vida em Portugal depois de 1974, e que grande actividade meritória, nas suas áreas de intervenção tiveram na vida pública nacional. Foram ainda introduzidos na toponímia as figuras do Prof. Aires de Sousa (1984) e Prof. Luís da Cunha Gonçalves (1999) que são distintas figuras que não viveram no novo regime democrático, mas mesmo assim foram recordados. Temos assim, personalidades apologistas do Estado Novo e os históricos que são aproveitadas do ponto político para reforçar a mensagem do regime, e temos personalidades de inegável valor profissional nas suas áreas de 15 Na freguesia dos Olivais constam nomes de várias cidades das antigas colonias portuguesas. Nomes de arruamentos como: Cidade da Praia, Cidade de Bolama, Cidade de Luanda e a Cidade Margão (Goa), são alguns exemplos que exemplificam bem a intenção da política do Estado Novo. Alguns arruamentos apresentam ainda denominações das cidades do tempo colonial como por exemplo: Cidade de Lourenço Marques ou Nova Lisboa. 16 Goeses nas Ruas de Lisboa actuação que são reconhecidas em contexto democrático. Aspecto curioso é permanecerem ainda na toponímia, alguns nomes que na ditadura tiveram um papel empenhado e reconhecido nesse período. O seu valor é inegável fazendo com que a democracia não sinta necessidade de os deixar cair, pois a biografia das suas vidas não foi primada pela simples subserviência ao regime salazarista, mas pelas suas qualidades profissionais que tanto deram ao país, conseguindo deste modo ultrapassar as etapas históricas que sucederam-se em Portugal. Nesta situação estão os casos de Sócrates da Costa, Nina Marques Pereira e Álvaro de Santa Rita Vaz que permanecem nas ruas de Lisboa. Com raízes Indianas ou Europeias, alguns Goeses conseguiram ultrapassar os preconceitos, as barreiras mentais e geográficas e serem reconhecidos na capital portuguesa. Goa, em 1961, deixou de fazer parte de Portugal e com isso a sua população em termos de nacionalidade deixou de ser portuguesa para passar a ser Indiana. Esse facto diminui consideravelmente as hipóteses de mais Goeses no futuro virem a ser nomeados para a toponímia lisboeta. As gerações de Goeses que nasceram sob a bandeira portuguesa, pelo natural decurso da vida, vão desaparecer e com eles desaparece a possibilidade de surgirem novos nomes na toponímia nacional, e isso, é um claro retracto da história. Essa evolução, da não existência de mais personalidades Goesas nos arruamentos de Lisboa é um bom exemplo de como a toponímia é um grande espelho da história, nela reflectem-se os diferentes períodos que se sucedem uns aos outros, como camadas estratigráficas que nos vão dando os sinais dos tempos. Os Goeses da toponímia lisboeta, entre a política e a exaltação foi sempre uma realidade. Estas personalidades foram perpetuadas devido ao xadrez político, o tempo histórico e o seu rico currículo de vida e profissional.16 Por tudo isto, entre a necessidade imperiosa do jogo da política e as suas qualidades intrínsecas houve o surgimento dos seus nomes no espaço publico, nos arruamentos de Lisboa. I.3 - As razões pelas quais os Goeses constam na toponímia lisboeta Goa, em 1510, não era um território atrasado culturalmente. O seu desenvolvimento sociocultural era bem real. Inserida no contexto Indiano, Goa era um porto de partidas e chegadas de comerciantes e que comunicava com varias partes do indico, sendo por isso uma sociedade cosmopolita, aberta e em que viviam em comunhão varias comunidades. Ao contrário da soberba europeia, que via no outro, no não-europeu, alguém atrasado 16 A minha tese vai no sentido que a toponímia é sempre um reflexo do contexto histórico. 17 Goeses nas Ruas de Lisboa civilizacionalmente, o Goês vivia numa realidade de grande riqueza cultural. A este propósito, lembro um grande pensador do séc. XX, Claude Lévi-Strauss, que nos deu uma grande lição de história, ao afirmar que todas as culturas têm os seus grandes contributos para a civilização Humana e que devemos extrair o melhor que cada uma delas tem, pois em todos os povos há aspectos relevantes e meritórios a seguir independentemente do seu grau de desenvolvimento cultural.17 O europeu do séc. XVI era arrogante, construindo uma serie de preconceitos em relação ao outro. A imaginação do homem branco dos Descobrimentos, das viagens marítimas e terrestes era pródiga. Efabulando de tal maneira que construiu uma narrativa mental de monstros, seres demoníacos e bestas humanas. Goa, não era um território isolado, era um porto comercial que por via terreste e marítima comunicava com as diferentes realidades. A sociedade Goesa era assim, um depositário de diferentes imagéticas. Isso a enriquecia e potenciava o seu desenvolvimento cultural. Quando os Portugueses chegam a Goa, encontraram uma sociedade rica culturalmente, portanto não viram seres monstruosos e logo deparam-se com questões de como ocidentalizar os Goeses de forma a preservar a cultura Europeia e a sua influência, sempre ameaçada pela escassez de população branca e pela difícil conversão de parte da população muito arreigada ao seus valores civilizacionais e, renegando as características religiosas e de vivências ocidentais. Ao contrário, de outras colónias portuguesas que viviam numa letargia sonolenta, Goa ia ganhando importância dentro do sistema colonial. Em África, até ao fim do séc. XIX, havia apenas pequenos núcleos urbanos pouco expressivos, com pouca população Europeia, não sendo portanto grandes empórios comerciais e culturais, vivendo do tráfico escravo. Com naturalidade, desta geografia Africana não sobressaem grandes personalidades no contexto colonial. O declínio do poderio naval Português no Índico e a entrada de novas potências nesse espaço geográfico, Portugal vira-se para o Atlântico, no final do séc. XVI. Goa entra em regressão económica e política. Uma nova realidade colonial surge, o Brasil. Mas esta nova «invenção» portuguesa, rapidamente se constitui como uma realidade cultural forte, autónoma e de difícil permanência sob o jugo da 17 Na obra Raça e História, de Claude Lévi-Strauss é-nos dada uma lição de tolerância e explicação dos diferentes graus de desenvolvimentos das civilizações do Homem. Como a história e a geografia tecem o progredir das culturas. Para Claude Lévi-Strauss por mais diferentes que sejam os graus de desenvolvimento tecnológico dos diferentes povos da Terra, todos eles têm algo a ensinar. Essa diferença cultural é fruto muitas vezes das experiencias do maior ou menor isolamento geográfico e dos contactos que se estabelecem ou não. Os povos progridem não isolando-se mas através da troca de conhecimentos com o outro. É o contacto que permite o desenvolvimento. Ora os chamados “Primitivos atuais” são em grande parte fruto do isolamento geográfico em que vivem, o que no entanto não invalida que não tenham nos seus sistemas culturais, em alguns aspectos da vida, propostas de grande valor. 18 Goeses nas Ruas de Lisboa metrópole. Com uma classe burguesa com grande importância, constituída já no início do séc. XVIII é com naturalidade que surgem aspirações independentistas. Em 1822, o Brasil desligase politicamente de Portugal e torna-se independente. Ora nesta época, a toponímia não era uma realidade ainda de bem desenvolvida, não tendo os brasileiros oportunidade de constarem nos arruamentos da cidade cabeça da coroa e do império colonial - Lisboa. No ano da independência do Brasil, a toponímia vivia ainda em Portugal, uma fase imberbe. A sociedade portuguesa no período vigente da Ditadura Militar (1926-1933) e do Estado Novo (1933-1974) caracterizava-se por ser fechada, enredada em valores nacionalistas, pouco instruída, com grande grau de analfabetismo e preconceituosa em relação aos naturais das colónias. Apesar deste cenário, surgem os Goeses na toponímia. O facto de Goa permanecer em contexto colonial português até 1961, o seu grau de desenvolvimento social ser grande, o que possibilitava a criação de uma elite cultural, e a determinada fase da vida política de Portuguesa, o Estado ter necessidade de recorrer à toponímia como forma de afirmação dos valores que defendia (a questão já abordada da política do Estado Novo), tudo isto contribuiu para que fossem surgindo no espaço publico urbano os nomes de Goeses. A toponímia deste modo reflecte um facto histórico curioso, é que Goa era das províncias ultramarinas portuguesas a mais desenvolvida, logo, só ela poderia gerar uma elite cultural que mais tarde ou cedo haveria de sobressair no contexto colonial Português. É assim que se explica a razão de surgirem Goeses na toponímia lisboeta. Isto explica-se pela enorme importância que Goa representou para Portugal e por isso foi dotada desde muito cedo com instituições religiosas, educacionais e políticas que possibilitaram a criação de uma parte da população instruída. Aliado a este facto, o próprio grau de intrínseco de desenvolvimento cultural que o território já vivia a quando da chega dos Portugueses. A conjugação destes dois factores, a necessidade portuguesa de impor os seus valores, e os existentes a priori na própria sociedade Goesa fizeram um caldo cultural que propícia ao despontar de elites desde muito cedo, ao contrário do que sucedeu nas outras colónias, excepção feita ao Brasil, mas pelo que atrás ficou dito, a sua rápida emancipação política, tornou as possibilidades de contribuir com topónimos para Lisboa reduzidas. É assim natural e compreensível, que seja de Goa, que surjam alguns dos nomes evocados na toponímia lisboeta com origem nas colónias portuguesas. Os Goeses recordados no espaço público da capital portuguesa são assim, um retracto do desenvolvimento que Goa teve ao longo dos tempos e da sua importância para Portugal nos diferentes períodos históricos. 19 Goeses nas Ruas de Lisboa I.4 - Uma imagética em extinção, traços de uma memória cada vez mais difusa Uma das questões já neste trabalho abordada é o provável desvanecer na imagética portuguesa do Goês e de Goa. Volto agora neste capítulo, a reflectir sobre esta problemática porque penso que espelha bem, de como a toponímia é uma bela metáfora do fluir do tempo histórico. A transição não pacifica de Goa, do espaço colonial Português para a nova nação emergida do início das vagas independentistas, a Índia, a que o mundo viria a assistir nas décadas seguintes, de forma traumática para Portugal, vem a reflectir-se na toponímia. Repetindo o que já foi dito, há como que um lento «morrer Goês» para Portugal. Se nos anos seguintes a 1961 houve uma rejeição nacional a esta realidade, do desaparecimento de Goa e da sua história de quase quinhentos anos de ligação a Portugal, com o 25 de Abril de 1974, o novo regime democrático tinha como programa fundamental Democratizar, Descolonizar e Desenvolver. A descolonização implicava não só reconhecer aos povos colonizados, o direito à autodeterminação, mas esse facto implica também uma mudança de mentalidades. Aceita-se essas novas realidades políticas como legitimas e há uma mudança mental dos Portugueses que gradualmente reconhecem nos autóctones das colónias capacidades para dirigirem o seu futuro, o seu destino. É com este espirito, que com naturalidade, logo em 15 de Outubro de 1974, o Presidente da Republica Portuguesa, Costa Gomes promulga a lei constitucional nº 9/74, que reconhece o direito da Índia aos territórios da antiga província ultramarina portuguesa e há abertura do diálogo com esta nação Asiática para o restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois estados.18 Finalmente Portugal reconhecia a nova realidade mundial. Goa estava definitivamente, no âmbito psicológico do espirito Português e legalmente, desligada de Portugal. A memória deste território vai agora desvanecendo-se. As pessoas com ligações naturais e afectivas a Goa vão progressivamente desaparecer do contexto Português. O Goês já não é Português, e Portugal não é um país de atracção para os imigrantes oriundos deste Estado da União Indiana, ou seja, desaparece esta realidade e com ela torna-se remota a possibilidade de novos actores surgiram com protagonismo a ponto de serem considerados nomeáveis para a memória nacional. Os Portugueses não conhecem a Goa contemporânea e têm vagas referências históricas deste território. Além de que são fracas as relações económicas e culturais entre Portugal e Goa. As recordações desvanecem-se ficando apenas breves notas na historiografia escolar. A toponímia é uma marca de água dos tempos que traduz a evolução histórica. Os nomes dos que desaparecem, os que surgem e os que 18 Informação recolhida em: http://app.parlamento.pt/LivrosOnLine/Vozes_Constituinte/med01020181i.html 20 Goeses nas Ruas de Lisboa permanecem são uma porta de entrada possível para a compreensão da história. Fazendo esta análise das permutas que se dão com as mudanças políticas temos um melhor entendimento dos processos, das tensões e forças em jogo. Os Goeses nos arruamentos de Lisboa retractam esse facto bem. São uma bela metáfora de uma imagética em extinção. Apesar de existirem alguns nomes serão eles os últimos a figurar na toponímia lisboeta? Goa e os seus traços na memória e lembrança na vida portuguesa não estarão num percurso rumo ao esquecimento? Não será cada vez mais difusa a sua história para os Portugueses e vago o conhecimento da contemporaneidade Goesa? A toponímia aparece-nos assim como um dos últimos refúgios da memória, de pequenas lembranças da história, de homens e mulheres que ajudaram a traçar os caminhos de Portugal. Só num novo processo de redescoberta mútua, de Portugueses e Goeses se ultrapassarão estas questões do desvanecer da memória da história em comum. A amnésia parece-me ser grande, e só com o estabelecimento de relações primeiramente culturais, e depois virá o resto, haverá de novo um processo de restabelecimento de laços afectivos. Na minha opinião, a porta de entrada para abrir o caminho para essa redescoberta está na cultura, mas depois podem-se seguir outras actividades como a económica, o turismo e maiores relações políticas. Se isto acontecer as placas toponímicas não serão meros indicativos de referências espaciais das cidades, por onde apenas nos orientamos sem nos apercebermos do seu real significado, mas mais do que isso, serão verdadeiras portas para a descoberta da história. Só uma população minimamente esclarecida pode decifrar a toponímia das localidades e fazer uma leitura histórica. É portanto, sempre possível reanimar a memória pois existem as referências que tornam isso fazível, e a toponímia é um desses factores que ajudam a trazer à superfície estas questões prementes para as sociedades. A toponímia permite manter viva uma pequena chama na memória, de personalidades e factos históricos que estão em vias de esquecimento. 21 Goeses nas Ruas de Lisboa CAPÍTULO II: Lisboa e Goa, duas realidades distintas ligadas pela história II.1 – A história de Lisboa É da natureza dos povos engendrarem para si lendas, mitos e histórias fabulosas sobre as suas origens. A falta de conhecimento sobre o passado de uma comunidade não pode criar um espaço de vazio mental, isso provoca também a efabulação, a imaginação e criação de factos extraordinários do alvorecer das comunidades. É necessário uma construção simbólica do nascimento, é necessário um passado, numa palavra só, é necessário história, ainda que seja imaginada e não corresponda à verdade. A aurora de um povo, mesmo que desconhecida tem que ser criada, como se o Homem tivesse horror ao vazio, como que a inexistência de um passado deixasse-o órfão. Todos os povos do mundo têm elaborado para si um conjunto de acontecimentos mais ou menos complexos e extraordinários, ficcionando as suas origens, criando factos que extrapolam a realidade. A cidade de Lisboa não foge a esta regra. O seu povoamento é pré-histórico, perdendo-se na memória dos tempos, mas como cidade muito antiga, também as suas gentes e outros elaboraram para si, uma fantástica narrativa ficcional das suas pretensas origens. Na Odisseia de Homero é narrado o regresso atribulado do herói da guerra de Tróia a casa. Ulisses nas suas viagens em busca da sua ilha de Ítaca, e da sua amada Penélope, vive muitas aventuras. Em determinado momento da sua peregrinação nos mares, terá ultrapassado as colunas de Hercules, mítico ponto dos confins do mediterrâneo e iniciou do Atlântico, chegando a uma terra que caracteriza-se pelo bom clima e fertilidade dos campos. Ai funda a Olisipo. Nascia assim o mito da fundação de Lisboa. Esta tese do nascimento da cidade de Lisboa foi sendo ao longo dos tempos alimentada por vários eruditos de várias culturas. Primeiramente gregos e latinos impuseram essa ideia fundadora da cidade.19 Esse mito é reforçado no séc. XVI com Damião de Gois e Luís Vaz de Camões.20 Estavam lançadas as bases para durante muito tempo ser esta a imagética a perdurar nas mentes de muitos lisboetas como a verdadeira história da fundação de Lisboa. 19 Cf. Almeida, J. M. De Olisipo a Lisboa. 1992, p.13. Damião de Gois, humanista e homem do renascimento português. Luís Vaz de Camões, um dos grandes poetas português e do mundo ocidental. 20 22 Goeses nas Ruas de Lisboa Fig. 1 e 2 - Vrbis Olisiponis Descriptio, de Damião de Góis, 1554 e Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões 1572.21 Damião de Góis, na sua obra Vrbis Olisiponis Descriptio faz alusão às supostas origens da cidade nas deambulações de Ulisses em busca da sua ilha de Ítaca, o grande poeta português, Luís Vaz de Camões, na sua obra épica Os Lusíadas, faz também referencia a Lisboa, como seu fundador o herói grego da Odisseia.22 No canto VIII há uma clara alusão ao episódio, de Ulisses ser o responsável pela criação de Lisboa. Vejamos o que se diz na epopeia Os Lusíadas. Ulisses é, o que faz a santa casa À Deusa que lhe dá língua facunda; Que se lá na Ásia Tróia insigne abrasa, Cá na Europa Lisboa ingente funda.23 Como se percebe, ao longo dos séculos foi sendo construído um quadro mental e histórico que fundava a origem de Lisboa na viagem de Ulisses, e que a prova dessa suposta realidade era confirmada pela Odisseia de Homero. Poderia referir outros nomes de autores que fizeram menção de igual modo à origem de Lisboa, mas fico-me por estes dois casos porque são paradigmáticos do que atrás ficou dito, as origens de um povo ou comunidade é muitas das vezes reinventada ou construída e imaginada de forma extraordinária, como que a engrandecer as origens. No fundo é melhor ter uma paternidade ilustre, nobre e grandiosa do que ter uma origem mais humilde e sem grande história. Assim, muitas vezes os povos 21 Fonte sítio da internet da Biblioteca Nacional: http://www.bnportugal.pt/ Cf. Almeida, J. M. De Olisipo a Lisboa. 1992, p. 14 23 Canto VIII, 5 - Luís Vaz de Camões em Os Lusíadas. 22 23 Goeses nas Ruas de Lisboa douram as suas origens, e isso aliado ao desconhecimento do passado é terreno fértil para uma efabulação fantástica. No texto da Odisseia não é dito que Ulisses navegou para além do Mediterrâneo. É sabido que a realidade da formação de Lisboa é outra. As investigações históricas e arqueologias têm devolvido à memória a realidade dos factos, a verdade que pode não ser tão original ou surpreendente mas é de igual modo interessante. No período compreendido entre os séculos XVI a.C. e IV d. C. uma civilização desponta no Mediterrâneo oriental. Os fenícios oriundos do que é o actual território do Líbano, norte de Israel e parte costeira da Síria empreendem vastas navegações ao longo do mar Mediterrâneo, estabelecendo rotas comerciais em busca de matérias-primas. É nessas deambulações que terão ultrapassado o estreito de Gibraltar, porta para o Atlântico, e terão atingido a costa ocidental da península Ibérica e chegado à foz do rio Tejo e, fundado a cidade de Allis Ubbo, que poderá significar “Porto Seguro”. Estará aqui a origem de Lisboa? Há poucos testemunhos arqueológicos que o atestem. Também os gregos por aqui terão passado e se estabelecido, mas a curta presença desta civilização não permitiu criar um aglomerado urbano com importância e relevo histórico. O próprio nome “Olisipo” é uma incógnita, havendo no entanto uma teoria que diz que a palavra contém um prefixo “Oli” e o sufixo “ipo” que poderá indicar uma origem tartéssia.24 Os tartéssios eram um povo do sul da península Ibérica já referenciados pelos gregos que tinham um alfabeto e existiam já no séc. X a.C. Arqueologicamente podemos afirmar que de facto a primeira civilização a ocupar a região da foz do Tejo que deixou registros e que de forma organizada estabeleceu um casco urbano com alguma consistência foram os romanos. Na sua expansão chegaram ao ocidente da península Ibérica e é no ano 138 a.C. que Decimo Júnio Bruto conquista a região da foz do Tejo e incorpora-a no império romano, na província da Hispânia Ulterior.25 Com a reforma administrativa da península Ibérica, encetada pelo imperador Augusto, entre 17 e 13 a.C. Lisboa ficou integrada na província romana da Lusitânia. Progressivamente a cidade vai ganhando importância e estatuto, dentro da província e no contexto peninsular e é assim que com o crescimento comercial, industrial e populacional que adquire o título de município, atribuído por Júlio césar ou Octávio Augusto. Nascera a Felicitas Iulia Olisipo. Com o passar dos séculos, no império de romano entram gradualmente povos vindos do norte que vão ocupar alguns lugares na hierarquia do império. Progressivamente esta civilização entra em 24 Esta informação foi recolhida no sítio da internet do Ciberdúvidas: http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=19409 25 Cf. Pinheiro, M. Biografia de Lisboa, 2011, p. 24 24 Goeses nas Ruas de Lisboa declínio, e em 476 d.C. a capital, Roma, cai nas mãos do rei germânico Odoacro e o imperador Rómulo Augusto é destituído do seu poder. É a queda do Império Romano do Ocidente. Neste contexto outros povos vão conquistar a Lusitânia e a cidade de Lisboa. Em 456 terão entrado em Lisboa os visigodos vindos do norte da Europa. É próprio deste novo período histórico, a Idade Média, um certo atrofiamento e decadência urbana e Lisboa não escapa a essa fase menos próspera. A península Ibérica no iniciou do séc. VIII era politicamente administrada e controlada quase na totalidade pelos visigodos. A liderança dos visigodos era exercida por reis que chegavam ao poder de forma electiva. Em 710, morre o rei Vitiza e no reino havia vários pretendentes que tinham a intenção de ser monarcas. Criam-se facções para defender e legitimar o poder dos pretendentes à coroa. As cortes reuniram-se e definiram que deveria ser Rodrigo, um chefe e cavaleiro, o novo rei. As lutas e traições no reino, pelo poder, levariam a que solicitassem a intervenção dos muçulmanos do norte de África. Ágila, filho do rei Vitiza, outro pretendente ao trono é o responsável por pedir o apoio ao líder dos muçulmanos do Magreb, Muça Ibne Nasser, que encarrega o comandante militar Tarique Ibne Zeyed em 711 de fazer a invasão da península Ibérica. Inaugura-se assim um novo período na vida da cidade de Lisboa, agora designada de AL-Ushbuna e administrada por uma nova civilização que é marcada na sua matriz pelo Islão. A ocupação de Lisboa pelos muçulmanos é pacífica devido aos tratados que estes estabeleceram com os partidários de Vitiza para a sua incorporação no mundo islâmico. Se a cidade no período romano estava inserido na Lusitânia, sendo a capital da província Mérida, na ocupação muçulmana, Lisboa continua a ser um núcleo populacional secundário inserida numa região vasta que abrangia Coimbra e Santarém. São várias as convulsões que ocorrem durante a presença muçulmana na península Ibérica, como as confrontações com o poder central desta civilização sediada na cidade de Damasco, no Médio Oriente. Após a morte do 3º califa, Ali primo de Maomé, casado com Fátima (filha do profeta), foi o escolhido para liderar o Islão. A sua liderança durou pouco, pois as guerras pela sucessão levariam ao seu assassinato. O califa que se segue é Muawiyah que contestara Ali. Muawiyah funda o califado Omíada e a liderança do islão passará a ser hereditária. O novo centro político-religioso fica situado em Damasco. Esta luta pelo governo da religião iria dar origem a dois ramos do islão. xiitas, seguidores de Ali e sunitas, seguidores dos califas. O califado Omíada terá um período de actuação de 661 a 750. Durante a sua governação estenderam a influência geográfica do islão por todo o norte de África e entraram na Europa. Em 750 um novo califado ira tomar conta do islão, serão os abássidas. Os abássidas chegaram ao poder por haver de novo facções 25 Goeses nas Ruas de Lisboa que pretendiam que o islão fosse dirigido pelos descendentes do profeta Maomé. Este novo califado tentou estabelecer a paz com outra facção, mas assassinaram a cúpula Omíada, escapando apenas Abderramão que foge para a península Ibérica em 756, onde funda o Emirado de Córdova.26 Em 912 é Abderramão II quem sucede no poder, inaugurando o califado de Córdova. O seu objectivo era restituir o poder central em Córdova em sua pessoa, já que, o regionalismo era muito forte e o poder estava disseminado por todo o Al-Andaluz. Por isso fortaleze o exercito e desaloja alguns senhores que controlavam algumas cidades como Sevilha, Badajoz e Ossónoba (Faro). Devido aos regionalismos, lutas, invejas, golpes palacianos, guerras civis e étnicas o poder central de Córdova torna-se irrelevante. Termina assim o califado Omíada em 1031. Inicia-se o primeiro período das Taifas. Pequenos reinos formam-se. Nesta nova configuração político-administrativa a cidade de Lisboa continua a ocupar uma posição secundária, inserida na Taifa de Badajoz. É preciso realçar que os cristãos ganham terreno na luta fratricida com os muçulmanos e isso preocupa os irmãos muçulmanos do norte de África, que em 1086 entram na península Ibérica para repor o poderio islâmico, unir politicamente a península e elevar o nível religioso que tinha perdido fervor no Al Andaluz. É o período Almorávida, que durará até ao fim do séc. XI. Segue-se um segundo período das Taifas, em que de novo o poder é espartilhado por pequenos reinos e mais uma vez Lisboa continua numa posição secundária. Mais uma vez no norte de África surge um movimento que pretende revitalizar a religião islâmica no Al Andaluz e impor uma nova unidade política. Este novo movimento, Almóada, é religiosamente radical e no séc. XII entram na península Ibérica também com o intuito de suster o avanço dos cristãos. Lisboa pouco vai conhecer desta nova realidade vinda do mundo muçulmano. Em 1147, Lisboa é conquistada definitivamente por D. Afonso Henriques com a ajuda de cruzados que viajavam para a Terra Santa, ficando assim na orla da cristandade. Lisboa, do ponto vista geográfico, no contexto da presença muçulmana, esteve inserida no Al Garbe. A região ocidental da península Ibérica não possuía os grandes centros urbanos do resto do Al Andaluz, cidades como Córdova, Toledo, Sevilha e Granada. No Al Garbe sobressaiam os centros urbanos de Silves, Mértola, Mérida e Badajoz de média dimensão. Por isso a Al-Ushbuna foi sempre uma cidade de segundo plano dentro do contexto Al Andaluz, longe dos grandes centros políticos e culturais do islão ibérico. A cidade de Lisboa, agora na cristandade, não teve reconhecimento imediato como urbe pacificada. A mescla de população de diferentes idiomas, e estando na fronteira em 26 Cf. Kennedy, H. Os muçulmanos na Península Ibérica – História política do al-Andalus , 1999, p.50. 26 Goeses nas Ruas de Lisboa guerra entre cristãos e muçulmanos, fez com que só em 1179 recebesse foral, de D. Afonso, que regulava a justiça, tributações e obrigações dos vizinhos para com o rei, sendo confirmado por D, Sancho, sua mulher e filhas, dona Dulce, dona Sancha e dona Teresa 27. Com a conquista definitiva do território português, em 1249, a cidade já livre do perigo muçulmano cristianizou-se de forma rápida. Surgiram diversas paróquias e os mártires da conquista de Lisboa eram venerados. Igrejas e mosteiros eram levantados. Lisboa havia mudado radicalmente o seu quadro religioso. A muçulmana Al-Ushbuna desaparecera e agora Lisboa tornara-se uma cidade da cristandade com um intenso fervor religioso novo. A cidade desenvolve-se e sinonimo disso mesmo é a criação da universidade em 1290, com o pedido a ser feito a partir do poder eclesial e com o parecer favorável do Papa que em 1288 autoriza a sua constituição. D. Dinis promulga a carta Scientiae thesaurus mirabili, que confere os privilégios dos estudantes. O Estudo Geral, como era conhecida a universidade, formava os estudantes em artes, cânones, leis e medicina.28 No entanto, não permanecerá por muito tempo na cidade. Conflito entre os estudantes e a população levará ao seu encerramento em Lisboa e, é transferida para Coimbra em 1308. Em 1328 volta a Lisboa. Em 1354 regressa a Coimbra. Em 1377 é de novo instituída em Lisboa. Finalmente, em 1537, volta a Coimbra. Neste movimento intermitente, que permitiu aos Estudos Gerais a sua presença durante alguns anos na cidade fez com que uma cultura de escrita fosse criada. Lisboa, a par de outras cidades do reino português era uma das localidades da vida cortesã, não tendo assim a exclusividade da centralidade dos poderes do país. Devido à sua posição geográfica e sendo cidade portuária, Lisboa desenvolve actividades comerciais com outros pontos do Mediterrâneo e do norte da Europa. Confluem à cidade variadas gentes para fazer comércio. Genoveses, milaneses, catalães, biscainhos, maiorquinos aqui encontram um porto onde fazer negócios. Em 1352, Lisboa é escolhida para acolher as primeiras cortes onde estão representadas cidades e vilas do reino. Apesar da errância da corte, a cidade vai constituir-se gradualmente como centro comercial e político do país e isso reflecte-se na cada vez maior solicitação da cidade para receber as cortes e para as celebrações régias de casamentos, baptizados e cerimónias fúnebres. O porto, que possibilitava os contactos comerciais, a sua posição geográfica, no centro do reino e o desenvolvimento populacional que depois de um período de redução devido à peste negra, surgida em Portugal em meados do séc. XIV vê ressurgir o crescimento urbano e o aumento do número de habitantes na segunda metade do séc. XV, torna-se uma 27 28 Cf. Pinheiro, M. Biografia de Lisboa, 2011, p. 45 Cf. Pinheiro, M. Biografia de Lisboa,2011, p. 57. 27 Goeses nas Ruas de Lisboa cidade central dentro do reino português. Durante a Idade Média, Lisboa e o seu porto crescem. A cidade urbaniza-se e expande-se. Um novo período na história de Portugal está prestes a iniciar-se, e isso vai repercutir-se no desenvolvimento de Lisboa e influencia a sua importância dentro do contexto Europeu. Com a conquista de territórios aos muçulmanos pelos reis Portugueses, Portugal adquiria a sua configuração geográfica definitiva no séc. XIII e via-se encurralado entre a Espanha e o oceano Atlântico.29 Com escassos recursos e matérias-primas e com um fervor religioso cristão grande, o país via na conquista de territórios no norte de África uma saída da sua pobreza. Assim a necessidade económica, a expansão da fé católica foram o impulso necessário para uma nação aventurar-se no mar, num progressivo desbravar de oceanos e terras até ai desconhecidas pelos europeus. Após a reconquista cristã da península Ibérica aos islâmicos, rapidamente o país consolidou a sua identidade e define geograficamente o seu território continental. Com uma longa costa voltada para o Atlântico a oeste, situado na parte ocidental da península Ibérica, e a fronteira com Espanha a este, com portos naturais na foz dos rios em especial o porto de Lisboa, e com a impossibilidade de se expandir mais territorialmente devido à pressão de Castela, a elite governativa do país via a exploração marítima e conquista de novos territórios fora da Europa, como factor essencial para a expansão da fé e desenvolvimento económico. Com recursos económicos escassos, a exploração de novas geografias possibilitava a fuga a uma realidade pouco promissora. Assim, a gesta dos descobrimentos Portugueses, surgiu como uma empreitada nacional, onde todas as classes participariam. O todo nacional estava unido nesta empresa para lucrar economicamente. A saída para o mundo era a solução. É neste contexto, que em 1415, com intuito de espalhar a fé, D João I ordena a conquista de Ceuta aos mouros. Estava iniciada a grande gesta dos descobrimentos, expansão e dominou dos mares.30 Lisboa haveria de tornarse o centro económico e político de um vasto império colonial, que teria implicações na cidade capital do reino português. A conquista de Ceuta fora muito discutida no reino, pois uns eram a favor outros contra. O rei D. João I era um cristão fervoroso e tencionava aplicar a guerra ao «infiel» mouro. Os seus filhos homens queriam armar-se cavaleiros, através de feitos heróicos. Ceuta aparecia assim como um encontro de varias vontades, a luta contra o 29 A este prepósito, Bernardo Vasconcelos e Sousa usa as expressões finisterra e impasse ibérico do reino para descrever a situação em que Portugal se encontrava após a reconquista cristã, sendo o mar a única saída, in RAMOS, R., VASCONCELOS e SOUSA, B. MONTEIRO, N. G. História de Portugal, 2010, p. 172. 30 A conquista de Ceuta em 1415 é considerada a data do início dos descobrimentos e conquistas portuguesas, inaugura-se um novo período na história do país e da cidade de Lisboa. 28 Goeses nas Ruas de Lisboa «infiel», o desejo de conquista. A partir daqui estava lançada no seio dos governantes a semente mental que ia desenvolver-se, de que era possível constituir-se um estado voltado para a conquista e dominou de territórios e mares ultramarinos. O infante D. Henrique, filho de D. João I, fora nomeado em 25 de Maio de 1420, dirigente da Ordem de Cristo. Como pertencente a esta ordem, uma das suas funções era combater os mouros. O seu interesse pela conquista de territórios para a corte e o seu interesse em dirigir acções de conquista e exploração marítimas, levaram a que muito naturalmente torna-se no ideólogo da expansão marítima portuguesa. Sob sua orientação, o reino português empreende as primeiras explorações no Atlântico. Deste modo ainda o reinado de D. João I atinge-se os arquipélagos da Madeira e Açores. É já com o rei D. Duarte I, em 1434, que se dobra o cabo Bojador, até então o limite conhecidos dos navegadores europeus, com Gil Eanes. No reinado seguinte, de D. Afonso V, atinge-se o hemisfério sul. Descobre-se o cabo Verde em 1444, em 1455 Cadamosto explora o rio Gambia (actual Gambia) e o rio Geba (Guiné). Entre 1456 e 1460 descobrem-se as lhas de Boavista, Santiago, Maio e Sal do arquipélago de Cabo Verde. A 13 de Novembro de 1460, morre o infante D. Henrique. À sua morte tinha-se chegado à Serra Leoa. Em 1471, João de Santarém e Pêro Escobar, descobrem o delta do rio Níger. Entre 1472 e 1473, Fernão Pó, explora a costa africana até aos Camarões. D. Afonso V ficará para a História com o cognome de O africano, por no seu reinado se ter descoberto vasta linha de costa do continente africano e pelas conquistas de praças em Marrocos. Segue-se o rei de D. João II (1481-1495) e neste reinado, Bartolomeu Dias, em 1488 dobra o Cabo das tormentas (futuro cabo da Boa Esperança), no extremo sul do continente africano, abrindo as «portas» do Indico. Em 1495 sucede o rei D. Manuel I, que herda um reino com vastos conhecimentos de navegação e geografia, e deste modo vai possibilitar a viagem de Vasco da Gama para oriente, até à India, o que se tinha entretanto criado como objectivo principal. Neste contexto, Lisboa era uma cidade cosmopolita, em que mercadores aqui vinham comprar bens, que aportavam ao porto e gentes de várias origens começavam a confluir à cidade.31 Alem disso, aqui chegavam produtos de grande valor comercial como: especiarias, ouro, marfim e açúcar. Também escravos africanos começavam a fazer parte da paisagem da cidade. Lisboa, que no contexto do Al andaluz nunca teve importância de maior, sendo sempre uma cidade secundária estava agora a ganhar um importante papel económico e politico ao nível nacional, como dentro do continente europeu. Estabelecem-se rotas comerciais entre a África, Asia e 31 Com as descobertas, Lisboa transforma-se. Afluem mercadores, negociantes e gentes de vários pontos da Europa e África. A paisagem populacional de Lisboa apresenta um colorido devido a essa mistura de povos. 29 Goeses nas Ruas de Lisboa Américas com a Europa e nestes laços económicos, Lisboa é uma importante placa giratória de distribuição e logística para o comercio mundial a partir do séc. XVI. Neste novo cenário geoestratégico surgido da expansão marítima portuguesa é com naturalidade que a cidade de Lisboa cresça e adquira relevância, que vinha já desde a Baixa Idade Média afirmando-se.32 Com D. Manuel I, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia (o seu titulo já diz muito do que o definia como rei e o poder que tinha) o reino tem algum fulgor económico e, o fruto disso vai traduzir-se em grandes obras que Lisboa vai beneficiar. O Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém começam a ser construídos no seu reinado, e são aplicados na sua construção, elementos artísticos muito próprios que reflectem os descobrimentos. Nasce o estilo Manuelino. A cidade cresce, novos bairros nascem, como o do Loreto e de Santa Catarina, a ocidente, que eram habitados por pilotos e mestres da carreira das Índias.33 A Ribeira das Naus era o centro da actividade portuária, com estaleiros e oficinas de trabalhos ligados à arte de marear e construção naval. Com a descoberta do caminho marítimo para a Índia em 1498 por Vasco da Gama, o oriente constituía-se como grande vector da política da expansão da coroa portuguesa. Portugal apostava nas rotas comerciais com o oriente, pois dessas geografias vinham produtos de grande valor comercial. Essa política de empenho e esforço em conquistar o oriente com o máximo de meios possíveis duraria quase todo o séc. XVI. A entrada em cena de outras potencias marítimas e comercias tiravam a Portugal o monopólio económico com o oriente. Alem disso, o Brasil era uma alternativa. As experiencias com a plantação de açúcar resultariam numa grande exploração agrícola deste território. Seria o primeiro ciclo económico a desenvolver-se no Brasil. Lisboa continuava, deste modo a ser uma cidade importante, era um, centro político e comercial de um vasto império que entretanto se formara. Mas esta condição de cidade cabeça de um império vasto, de uma nação independente iria ser interrompida com a chegada ao poder do rei D. Sebastião. Este rei cheio de fervor religioso e militar, enceta uma expedição com o intuito de combater os infiéis de Marrocos, não só para alargar a influência do reino de Portugal, mas também para espalhar a fé católica e para interromper os constantes ataques que a costa do Algarve era alvo dos corsários e piratas muçulmanos. Em agosto de 1578, o rei D. Sebastião entra em combate, em Alcácer Quibir. Morre em combate. Portugal fica órfão de rei e o reino passa 32 33 Cf. Pinheiro, M. Biografia de Lisboa, 2011, p. 88. Cf. Pinheiro, M. Biografia de Lisboa, 2011, p. 86. 30 Goeses nas Ruas de Lisboa agora a ser governado a partir de Espanha. É o início da dinastia filipina, que governará Portugal até 1640. A Lisboa, agora filipina, não deixou de ser uma cidade importante, ao ponto de ser aventada a hipótese de se constituir a sede do poder político da união dos dois reinos ibéricos. A cidade chegou a ser visitada pelo rei D. filipe I em 1581, e em 1619 é a vez de D. Filipe II estar em Lisboa. Em 1606, Madrid é escolhida para ser a sede da corte espanhola, ficando definitivamente Lisboa desposada desse título, de centro político da península Ibérica. A cidade durante o período de governação dos filipes continuou a ser a sede do poder em Portugal. Em 1 de Dezembro de 1640, a regente Duquesa de Mântua e o secretário de Estado Miguel de Vasconcelos, que governavam o país em nome dos reis espanhóis, são destituídos do poder através de um golpe palaciano, que parte da nobreza portuguesa, descontente com a governação espanhola, conjurou e apoiou colocando de novo à frente do reino um rei português. D. João IV subira ao poder e era agora o rei de Portugal. Lisboa recupera a categoria de sede de um reino agora de novo independente, e o país recupera as suas colonias, na América do Sul e África, que a propósito da ocupação espanhola, os holandeses em guerra com Espanha tinham ocupado. A cidade era o centro político de um grande império, que se estendia da América do Sul, passando por África, até ao sudoeste asiático.34 Para além disso, era uma cidade da cristandade, de onde embarcavam religiosos para diversas partes das colonias portuguesas. Portugal era assim um importante actor para a difusão da cristandade. Os reis Portugueses eram responsáveis pelo padroado do oriente. Os Papas delegavam nos reis Portugueses a responsabilidade de difundir, criar novas igrejas e nomear padres e bispos nas paróquias e bispados do oriente, desde o séc. XV. É neste quadro político, que em 1716, o rei D. João obteve autorização de Roma para dividir Lisboa em dois bispados. Um bispado, Lisboa Ocidental e outro, Lisboa Oriental. Lisboa era dos centros irradiadores da fé cristã dos mais importantes ao nível mundial e, a Santa Sé reconhecia isso atribuindo um estatuto que poucas cidades tinham, o de sede patriarcal. A cidade era um dos portos mais importantes da Europa, mas perdeu algum fulgor com a transferência de grande parte do comércio do Indico para o Atlântico. Com a entrada dos holandeses, ingleses e franceses na exploração marítima e comercial no espaço anteriormente de exclusividade portuguesa, Portugal virou-se para o Atlântico, dando primazia ao Brasil. A perda de influencia a oriente e uma maior abertura a 34 O império português atinge a sua máxima extensão no séc. XVII e Lisboa é a capital desse vasto império. 31 Goeses nas Ruas de Lisboa comerciantes privados, tinha tirado a exclusividade do comercio ao porto de Lisboa. Com a entrada em cena de varias nações que procuravam no colonialismo, tal como Portugal, garantir um maior protagonismo comercial e político, Lisboa vê a partir do séc. XVII novas rivalidades com outras cidades. Um acontecimento nefasto iria afectar ainda mais a cidade de Lisboa que gradualmente perdia importância em relação a outras capitais imperiais da Europa – o terremoto de 1755. A 1 de Novembro de 1755, Lisboa sofre um terramoto devastador que desfigura a cidade. No poder estava o rei D. José e o seu Secretário de Estado era Sebastião José de Carvalho e Melo. É este homem quem perante a desgraça que o terramoto provocou, destruição e morte, vai levantar uma nova cidade. Com o terramoto perdera-se quase por completo a cidade renascentista e barroca. A cidade era uma enorme ruina, o caos reinava e os escombros pautavam na paisagem. Foram tomadas medidas para atenuar a desgraça a que a cidade foi votada. Enterraram-se os mortos o mais rápido possível, recrutaram-se todos os forneiros e padeiros para fazerem pão e arrecadaram-se alimentos para deste modo combater a fome, foram fixados os preços de produtos como o pescado.35 A medida mais imediata para fazer face aos sem casa foi a construção de abarracamentos para habitação provisória e isto incluía o próprio rei e a alta nobreza. Mas era necessário reconstruir a cidade. Manuel da Maia, engenheiro-mor do reino propõe várias hipóteses para a reconstrução de Lisboa, desde a situar a reconstrução em Belém, ao alargamentos das ruas, diminuir a altura dos prédios ou reconstruir a cidade nos moldes anteriores ao terramoto. A solução escolhida foi a construir uma nova cidade sobre os escombros, de autoria de Eugénio dos Santos, um dos colaboradores da reconstrução e que viria a supervisiona-la até à sua morte em 1760, sendo substituído por Carlos Mardel. Nasce uma cidade nova, rectilínea, contraria à medieval, com uma enorme praça, a do Comercio onde é construído o monumento, a estátua de D. José I de autoria de Machado de Castro. A reconstrução duraria até praticamente ao início do séc. XIX – nascera a baixa pombalina.36 Lisboa recupera o seu esplendor de capital de Portugal, mas novos acontecimentos irão impor novos senhores na cidade. Após a Revolução Francesa de 1789, a França entra em guerra com varias nações, onde o poder das monarquias absolutistas vigorava. A França tinha derrubado a monarquia absolutista e esse facto assustava os poderes ancorados nos velhos regimes um pouco por toda 35 36 Cf. Pinheiro, M. Biografia de Lisboa, 2011, p. 165 É com a construção da baixa pombalina que surge uma toponímia lisboeta institucional. 32 Goeses nas Ruas de Lisboa a Europa. Portugal vê-se envolvido nesta guerra europeia, pelo facto de ter participado na Campanha do Rossilhão (1793 – 1795), quando tropas portuguesas reforçam as da Espanha, integrando a primeira aliança liderada pela Inglaterra contra a França revolucionária. Em 1799 a Espanha alia-se à França de Napoleão Bonaparte, e preparam um plano de invasão e partilha de Portugal, que mantinha a aliança com a Grã-Bretanha. Em 1801 é dado o primeiro aviso de que a precária estabilidade peninsular estava por um fio, em escaramuças fronteiriças as tropas espanholas em confronto com portuguesas conseguem tomar a vila de Olivença. A Guerra das Laranjas era o primeiro sinal de uma situação instável politica e diplomática. 37 Em 1807, Portugal é pressionado a aderir ao bloqueio continental contra a Grã-Bretanha, para estrangular economicamente este país. Portugal não adere. Perante este facto, a 30 de Novembro, o general francês Junot entra em Portugal, e o Príncipe regente D. João VI enceta a fuga para o Brasil junto com a sua corte. Portugal recupera a independência com a ajuda interesseira dos ingleses e por três vezes os franceses tentam controlar Portugal. As invasões francesas ocorreram em 1807, a primeira invasão, comandada por Junot. Em 1809,a segunda comandada por Soult e por último em 1810, é o general Massena que tenta subjugar Portugal pela terceira vez. Neste período com a corte no Brasil, Lisboa deixou de ser o centro politico. Era do Rio de Janeiro que o rei D. João V coordenava a política colonial. Com a recuperação definitiva da independência face ao poder francês e o regresso da corte a Lisboa um novo facto ocorreria. O Brasil, um enorme colosso na América do Sul, ambicionava o corte político com Portugal, e é com D. Pedro, que dá o grito de Ipiranga em Setembro de 1822, que esta colónia se torna um estado independente. Lisboa gradualmente perdia o estatuto de cidade central no contexto europeu. Se nos séculos XVI e XVII era palco de grandes negócios, a ela afluíam comerciantes de muitas partes da Europa para comprar produtos de luxo, afluíam espiões para obter informações dos novos mundos, agora a cidade ia perdendo o fulgor de outros tempos. Com a perda do Brasil, Portugal perdia o exclusivo do comércio com esse enorme território e isso afectava a cidade capital do reino português. Era mais uma machadada para progressiva secundarização de Lisboa. Outrora cidade de um país com um imenso poder colonial estava agora reduzida a uma capital de um pequeno estado europeu já com pouca influência na diplomacia internacional. As invasões francesas, com a entrada também de exércitos ingleses teve o condão de introduzir as ideias liberais em Portugal. O período histórico que se segue vai assistir às lutas entre partidários do velho regime, que apoiavam a monarquia absolutista e os partidários das 37 Na Guerra da Laranjas Portugal perde definitivamente a vila de Olivença. 33 Goeses nas Ruas de Lisboa ideias liberais que pretendiam uma monarquia constitucional. Os acontecimentos que se desenrolavam por toda a Europa, com o derrube de antigos regimes absolutistas, influenciaram também as elites portuguesas e o desejo de transformar o sistema político português. Aproveitando a ajuda que prestaram à libertação portuguesa, os ingleses interferiam na política nacional. Com o pretexto de livrarem-se também destes novos colonizadores, surgem vozes a contestar a sua presença e pela implantação de uma constituição. Começam os primeiros levantamentos contra a presença dos britânicos. Gomes Freire de Andrade conspira contra os britânicos e no Porto em 1818 é criado o “Sinédrio”, com o objectivo de fazer uma réplica no sucedido em Cádis.38 Uma serie de pronunciamentos militares, no Porto e Lisboa, em 1820, instalam finalmente em Portugal um regime monárquico constitucional, com eleições. Era o período vintista. A primeira experiencia liberal duraria pouco. Entre os defensores do antigo status quo político, está D. Miguel, que em 1823 com a Vila-Francada, uma revolta que dissolve as cortes, e a constituição é revogada. Morre D. João VI, em 1826, e sobe ao trono D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil. É outorgada a Carta constitucional, que é um compromisso entre o absolutismo e o vintismo. D. Pedro abdica do trono de Portugal a favor de sua filha, D. Maria II, que é prometida em casamento a D. Miguel. Em 1828, D. Miguel é aclamado como rei absoluto. É dissolvida a camara dos deputados, e o absolutismo triunfa de novo. Inicia-se o período Miguelista. Em 1832, forças leais aos liberais, desembarcam no Mindelo e entram no Porto e avançam até Lisboa em 1833. D, Miguel é derrotado e parte para o exilio. Em 1834, entra de novo a vigorar a Carta Constitucional. É o fim do Miguelismo (1828.-1834). Politicamente o país é compostos por partidários do Cartismo, Vintistas e Miguelistas. São estas forças que irão ainda durante algum tempo se defrontar. A instabilidade ainda duraria algum tempo com uma serie de convulsões políticas e até insurgências populares como as ocorridas no norte de Portugal, a revolta de Maria da Fonte. Em 1851, Saldanha encabeça um movimento militar e forma um governo, que inicia o período da regeneração, entra para o governo um engenheiro militar, Fontes Pereira de Melo, que empreenderá várias obras públicas e a industrialização, que marcará algum progresso de Portugal e estabilidade. Esse período ficará para a história conhecido como «Fontismo». Durante meio século o país envolveu-se em lutas fratricidas que o atrasaram mais em relação ao resto da Europa desenvolvida. Lisboa era aos poucos relegada para uma posição inferior na escala das cidades com protagonismo político, cultural, 38 Na cidade de Cádis, em 1812, foi formulada a primeira constituição espanhola, pondo fim ao poder absolutista dos reis, instaurando uma monarquia constitucional. 34 Goeses nas Ruas de Lisboa económico e diplomático. No entanto a cidade sofreu algumas transformações urbanísticas de relevo no séc. XIX. O triunfo do liberalismo implicava para os seus seguidores fazer de Lisboa uma capital à imagem das grandes urbes europeias. Uma cidade que apresenta-se os predicados próprios de grande centro cultural, que fosse o espelho de um país novo assente nos novos ideais políticos, que reflectisse Portugal, estávamos na época dos nacionalismos, e que fosse a sala com brilho de uma nação com um passado glorioso. Dentro deste espirito tentaram-se realizar alguns edifícios e monumentos que projectassem a cidade para um nível igual ao das grandes capitais europeias. A reconstrução de Lisboa arrasta-se por décadas a fio, e esse lento desenrolar do ressurgimento arquitectónico da cidade leva a que o neoclassicismo entre pelo século XIX a dentro com projectos assentes neste estilo. Exemplo disso é o Teatro Nacional D. Maria II. Com os nacionalismos na ordem do dia na Europa, a urgência de resgatar valores e tradições seculares e históricas à memória colectiva, o romantismo em Portugal, o setembrismo e a tentativa de Passos Manuel e Almeida Garrett de renovação cultural do país, leva-os à criação de um teatro nacional.39 É assim que, em 1846, é inaugurado o TNDM II, num projecto do arquitecto italiano, Fortunato Lodi. A Camara de Lisboa construída em 1880 apresenta as linhas neoclássicas de forma inequívoca é da autoria de Luís Parente da Silva (1836 – 1901). O Observatório da Ajuda, concluído em 1867, arquitectado pelo francês Jean Colson é mais uma peça construída sob o signo do neoclássico. De 1869, o Teatro da Trindade é um projecto de Miguel Evaristo de Lima Pinto. Em 1870 é inaugurada na praça homónima a coluna com a estátua de D. Pedro IV, no Rossio. O chiado surgia como um lugar de elites e de diletantes. Com os seus teatros, o São Carlos, Trindade e Ginásio e ainda cafés e lugares de jogos como o bilhar, o Chiado era o centro da vida mundana lisboeta. Obras de higiene, como a criação de esgotos e dotar a cidade de meios para trazer água até si também fizeram parte das políticas publicas de modernização. Em 1848 eram inaugurados os primeiros candeeiros a gás no chiado. A indústria no séc. XIX, em Lisboa desenvolveu-se, em particular na zona de Alcântara e Xabregas. O caminho-de-ferro havia chegado a Lisboa em 1865, com a inauguração da Estação de Santa Apolónia, e no ano seguinte já havia ligação a 39 Almeida Garrett (1799-1854) foi um dos grandes responsáveis pela criação de obras assentes no romantismo, nomeadamente teatrais e poesia. Foi também o grande impulsionador da construção de um teatro nacional, o Teatro Nacional Dona Maria II (TNDN II). 35 Goeses nas Ruas de Lisboa Madrid. Em 1891 é inaugurada a Estação do Rossio. Lisboa tentava recuperar o atraso em relação a outras grandes cidades.40 No final do séc. XIX, o país vivia tempos de agitação política. Eram cada vez maiores os clamores contra monarquia. Republicanos contestavam, de modo aberto e sem pejo, a monarquia. Coma inauguração da estátua de Luís Vaz de Camões, em 1880, muitos protestavam contra uma monarquia acomodada e clamavam por glórias passadas simbolizadas no poeta d`Os Lusíadas. O 3º centenário da morte de Camões serviria para a exaltação patriótica.41 Em 1890, ultimato inglês, ao Mapa Cor-de-rosa português, foi mais um pretexto para um coro de vozes reclamar uma firme reacção ao ultraje feito á nação portuguesa. Adensavam-se os protestos contra a monarquia. Em 1908 o rei D. Carlos é assassinado na Praça do Comercio. O rotativismo partidário, a humilhação perpetrada pelos ingleses, o anti clericalismo, a instabilidade política e social, culminam em 1910 com a proclamação da república na varanda da Camara Municipal de Lisboa. Uma nova fase do país e da sua capital nasce. Se com os novos protagonistas, os republicanos, havia uma intenção clara de fazer de Portugal uma nação assente no progresso para todos, isso constituía um desejo que se alcançava com acções promotoras da igualdade de oportunidades fosse qual fosse a origem social. Para tal acontecer era necessário criar infra-estruturas que respondessem a esse desejo. Lisboa tinha que modernizar-se para se tornar uma cidade de todos. É verdade que pouco tempo antes da implantação da república já se pensava a cidade como um espaço colectivo, usufruível por todos. Ressano Garcia enquanto engenheiro e governante implementou uma serie de projectos com o fim de transformar a cidade. A Avenida de Liberdade, a Rotunda do Marquês de Pombal, Avenida da Republica e o Bairro de Campo de Ourique são ideias levadas à prática por Ressano Garcia. Com a república há a intenção de melhorar significativamente a cidade. A 1ª Republica caracterizou-se pela instabilidade cronica, com governos que se sucediam uns atrás dos outros a grande velocidade. Essa permanente inconstância não possibilitou a realização de grandes planos para Lisboa, que mesmo assim em termos populacionais crescia, atingindo em 1930 os 529.524 habitantes. Esse era um dos problemas da cidade a falta de habitação com as mínimas condições. Perante isto, surgem pela primeira 40 Este ímpeto reformista cultural e urbanístico iria ter influência no traçado da cidade e na toponímia. É neste final de século que a toponímia começa a ganhar importância na cidade de Lisboa. Novas praças, ruas e jardins surgem e é necessário nomeá-los. 41 Cf. Pinheiro, M. Biografia de Lisboa, 2011, p. 244. 36 Goeses nas Ruas de Lisboa vez no espaço da cidade as habitações económicas. Surge também a ideia de criar bairros socias que integrassem dentro de si, varias valências como: biblioteca, creches, escola e ginásios. A república, em contraste com a monarquia tentava acudir a todos criando infraestruturas que permitissem o desenvolvimento cultural e o mínimo de condições de vida aceitáveis, e isso, reflectia-se no urbanismo da cidade. Bairros como o da Ajuda e Boa Hora ou o do Arco do Cego nasceram destas politicas integradoras. 42 Mas a cronica instabilidade não permitiu grandes transformações monumentais urbanísticas na cidade. Lisboa ainda assim, mesmo que tenha perdido o brilho e a azáfama de cidade importante dentro do contexto europeu, que outrora tivera, nomeadamente no séc. XVI, era ainda assim palco de uma vida cultural e recreativa com algum fulgor. Teatros, cinemas, salas com concertos de música surgem na cidade, em especial na Avenida da Liberdade, Baixa e Chiado. O Parque Mayer de 1922 e o Tivoli de 1924 são bons exemplos da vida da cultural que nascia em Lisboa na década de vinte. Mas novos protagonistas iriam surgir na cena política nacional e com isso novo rumo no país e Lisboa vai sofrer mudanças urbanísticas e sociais. A Primeira Republica caracterizava-se por uma instabilidade política e social constante, com governos precários e instáveis que se sucediam uns aos outros. A sociedade portuguesa estava saturada de tanta confusão social e institucional, golpes, atentados, conspirações, intrigas e violência nas ruas. Com o intuito de por fim a este caos, em 28 de Maio de 1926, um golpe militar acaba com a Primeira Republica.43 Esse golpe fatal é dado pelo General Gomes da Costa, que sai com as suas tropas de Braga e marcha até Lisboa. Começa entretanto a emergir politicamente a figura de Oliveira Salazar, que num primeiro andamento recua, mas que depois ganha ascensão sobre os outros protagonistas e surge como figura impoluta e dotada de capacidades para por ordem no país. Em 1933 com a nova constituição, Oliveira Salazar assume-se como o senhor, que iria impor a ordem e estabilidade. Lisboa, com o novo regime fecha-se sobre si tal qual o regime. Torna-se uma cidade provinciana. A excepção é o período da 2ª Guerra Mundial, Lisboa era porto de abrigo aos ditames da Alemanha nazi e a cidade foi invadida por inúmeros refugiados e espiões dos dois lados da barricada, só nesse período viveu algum cosmopolitismo. O regime salazarista preconizava uma política de orgulhosamente sós e não era faustoso em grandes gastos públicos, deixando assim o país numa pobreza cronica. Apesar disso é próprio destes regimes 42 Novas zonas urbanas, novos arruamentos, e isso possibilitam criar novas nomeações toponímicas. Era o início de 48 anos de ditadura, em que a cidade de Lisboa iria sofrer de um fechamento cultural e político ao mundo, e isso reflecte-se até na toponímia. Neste período são exaltados nomes caros ao regime nos arruamentos lisboetas, servindo a sua política. 43 37 Goeses nas Ruas de Lisboa auto glorificarem-se para ganhar apoio nas massas anónimas, pouco esclarecidas. A Exposição do Mundo Português, que realizou-se entre 23 de Junho e 2 de Dezembro de 1940, foi a forma encontrada para reafirmar a história, a suposta missão civilizacional nos quatro cantos do mundo e a glorificação de Portugal, tentando deste modo um reconhecimento interno e externo da política do Estado Novo.44 Esta exposição teve o condão de alterar a fisionomia da zona ocidental ribeirinha de Lisboa. Nela se construíram: a Praça do Império, Museu de Arte Popular e o Monumento aos Descobrimentos. Urbanisticamente, a cidade ganhava um novo espaço e novas atracções e, havia a intenção clara de afirmação imperial do país e da cidade enquanto capital da nação pluricontinental, ou seja, de um país que se espraiava não só na metrópole, mas também em África e Ásia, nas suas colonias. O regime do Estado Novo pautava-se por pôr em prática, uma ordem nas contas públicas, mas isso não impediu de fazer algumas obras de vulto em Lisboa. Um dos grandes responsáveis das políticas de transformação urbanística de Lisboa foi o engenheiro Duarte Pacheco (1900 – 1943) enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ministro das Obras Públicas e Comunicações. Na sua liderança foram projectados e construídos: a Universidade Técnica de Lisboa, o florestamento da Serra de Monsanto, os Bairros Sociais de Alvalade, Encarnação, Madredeus, Caselas e a Fonte Luminosa. Já depois do consulado de Duarte Pacheco, outras infra-estruturas foram criadas, como o metropolitano, inaugurado em Dezembro de 1959, os Bairros dos Olivais e Chelas nos anos 60, em Agosto de 1966 é a vez de a Ponte Sobre o Tejo estar ao serviço do trafego automóvel. A cidade de Lisboa apesar destas infra-estruturas criadas era uma urbe menos desenvolvida que as suas congéneres da Europa. O atraso urbanístico e económico, a ditadura que atrofiava as mentes tornando Lisboa uma cidade provinciana, atirava-a para uma situação de atraso cultural que nem as tentativas vãs do Estado Novo como a Exposição do Mundo Novo a conseguiam a redimir. A Guerra Colonial, o atraso económico e social e a falta de liberdade iriam desembocar na Revolução do 25 de Abril de 1974 e um novo período de Lisboa inicia-se. Se no Estado Novo, Lisboa era o centro político de um império anacrónico e desfasado dos ventos da história que sopravam por todo o mundo, em que povos subjugados durante séculos se libertavam, com o 25 de Abril, a capital portuguesa retornara à condição de 44 A Exposição do Mundo Português foi um importante acontecimento cultural de afirmação nacionalista e serviu os propósitos do regime para glorificar a história portuguesa. O Estado Novo empreendia com esta exposição uma política de inculcar nas mentes dos Portugueses valores de orgulho pátrio. Pouco tempo depois, na mesma zona da cidade, com a urbanização da encosta da Ajuda e Belém, o regime vai servir-se da toponímia para transmitir os mesmos valores. 38 Goeses nas Ruas de Lisboa urbe de um pequeno país europeu já sem a glória e vastidão territorial que as colonias conferiam. Agora, Portugal, pequeno país da Europa ocidental, procurava um novo rumo para si. Se antes buscava no espaço colonial o conforto económico para si, neste novo período virase para norte à procura de soluções para a sua nova condição política. Em 1986, Portugal entra para a CEE. O tratado de adesão é assinado em Lisboa, no Mosteiro dos Jerónimos. Com a democracia, Lisboa tenta aproximar-se da Europa culta e desenvolvida e mostrar-se ao mundo. Em 1992 é inaugurado o CCB, em 1994 Lisboa é Capital Europeia da Cultura. Mas o culminar desta ambição de cidade dinâmica culturalmente falando dá-se com a Exposição Mundial em 1998.45 Sob o lema “ Os Oceanos, Um Património Para o Futuro” num esforço de evocação da história e glorificação nacional perante o mundo, a cidade de Lisboa presenciou uma revolução urbanística na sua parte oriental degradada. Do velho e poluente território à beira Tejo nasceu uma nova cidade. Mas se a alteração urbanística é bem evidente, a Expo 98 tinha como função também afirmar ao mundo o orgulho de um país, da sua história de muitos séculos e em particular o seu contributo para os descobrimentos e expansão marítima a partir do séc. XV. Lisboa tentava mais uma vez afirmar-se ao mundo. Como noutros períodos tentava mostrar-se e ser cortejada, procura protagonismo e entrar no palco do mundo para ser amada. Lisboa, ao longo dos tempos teve os seus momentos de glória, teve os seus momentos menos prósperos. Nesse alternar de estados de euforia e desencanto se foi fazendo a sua história. Neste breve olhar sobre a sua história é claro o seu contributo para o desenvolvimento político, cultural e económico de Portugal, mas não só. A sua influência transbordou as fronteiras do pequeno estado da qual é capital. Se no contexto peninsular da ocupação islâmica, a sua importância era pouco relevante, já no séc. XVI com o auge da expansão marítima portuguesa, Lisboa era o centro por excelência do comércio e do conhecimento geográfico do mundo. Pela cidade circulavam mercadores de vários pontos da Europa. Os seus habitantes tinham diversas origens étnicas. Era frequente encontrar africanos entre a população, portanto uma cidade mestiça e cosmopolita. Espiões circulavam pela cidade em busca de informações sobre a geografia do mundo, o comércio e os tesouros de outros continentes. Lisboa era então um dos centros do mundo. Essa condição veio gradualmente a desvanecer, com a perca do exclusivo de domínio do conhecimento do 45 A Expo 98 permitiu a renovação urbanística da cidade na zona oriental. Uma nova cidade nasceu com uma arquitectura moderna e com isso novos arruamentos surgiram. A temática da Expo 98 era os oceanos e aproveitou-se mais uma vez para glorificar a gesta dos descobrimentos Portugueses e esses dois temas reflectiram-se na toponímia dos novos arruamentos construídos durante e após a exposição. 39 Goeses nas Ruas de Lisboa mundo, com a entrada de outras potências marítimas em cena. Progressivamente Lisboa vai perdendo importância no contexto mundial. A perda do Brasil, em 1822 foi mais um golpe duro nessa queda do pedestal relativo à grande notoriedade que a cidade tinha. Por fim com a revolução de 25 de Abril de 1974 e o desmantelamento definitivo do império português, Lisboa ficou reduzida a capital de um pequeno país da Europa Ocidental, que veio a ser englobado nos anos 80 na CEE. É assim compreensível a transformação de Lisboa ao longo dos tempos, na sua condição de cidade imperial para a fase de média urbe europeia, diluída num espaço geoestratégico diferente dos séculos anteriores. O mundo mudara, e com isso alterara-se os equilíbrios geoestratégicos. Mas que legado é deixado à cidade, na sua longa história? Será que esse passado glorioso não permaneceu na memória? São enaltecidos os heróis que fizeram o devir dos tempos? Sem dúvida, que uma forma de preservar os grandes nomes da história portuguesa é perpetuá-los no espaço público da cidade. E que melhor forma de o fazer, se não os inscrever na toponímia. No próximo capítulo abordarei de forma também sintética a história de Goa para compreender a sua importância no contexto colonial português e desse modo entender qual foi o seu contributo para a formação de elites e como essas personalidades que se destacaram ao ponto de serem «absorvidas» para o aparelho de estado ou para a vida económica, social e cultural de Portugal. Compreendendo a história de Lisboa e Goa é possível contextualizar as personagens importantes que deste território colonial emergiram e enquadra-las na situação nacional portuguesa. II.2 – A história de Goa Goa situa-se na costa ocidental do subcontinente indiano.46 É um porto natural de grande valor para a navegação. Por isso foi desde há muito um local procurado por diversos povos e senhores para o controlo do comércio e de rotas marítimas. Situada geograficamente numa posição que permite o intercâmbio comercial entre a Índia e o Mar Vermelho, Golfo Pérsico, a costa oriental africana e a restante Ásia, o controlo por Goa foi cobiçado por muitos. Foi assim sempre um entreposto comercial muito importante e desejado. Foi local dos Máurias, dos Kadambas, dos Hindus pouco antes da chegada dos Portugueses.47 Em 1471, com a entrada dos Muçulmanos, Goa passou a ser um importante porto para o comércio, mas também para as viagens de peregrinação a Meca dos crentes de Alá. Apesar do domínio 46 Goa situa-se na costa ocidental da Índia, no Mar da Arábia. É um porto estrategicamente colocado, o que facilitou o seu desenvolvimento e convergência de muitos comerciantes e povos. 47 Cf. Avelar, P. História de Goa, de Afonso de Albuquerque a Vassalo e Silva, 2012, p. 13 40 Goeses nas Ruas de Lisboa muçulmano, a maioria da população era Hindu, Neste período, Goa pertencia ao Sultanato de Bijapur, liderado por Sabaio. É esta terra que os Portugueses vão conquistar, um lugar onde convivem diversos cultos, um lugar civilizado e próspero de ricos comerciantes. A Europa tinha acesso aos produtos da Ásia através de rotas comerciais terrestes e marítimas, que entravam no Mediterrâneo oriental. Este processo de comércio com o Oriente era muito dispendioso, encarecendo os bens transaccionados, que chegavam à Europa a um preço muito elevado. Isto devia-se aos inúmeros intermediários que estavam envolvidos no comércio. Com a expansão marítima portuguesa, procurou-se um caminho alternativo, que reduzisse os intermediários. Portugal buscava na empreitada dos descobrimentos, conquistar o comércio dos produtos orientais, aos muçulmanos, já que eram eles que detinham quase todo o processo de colocar os bens no Mediterrâneo que depois mercadores da península Itálica, nomeadamente venezianos, tratavam da parte final do transporte e comercialização. Esta ambição portuguesa foi conseguida com a viagem de Vasco da Gama em Maio de 1498, quando aportou à Calecute. A partir deste momento estava descoberta a rota marítima para Portugal retirar o comércio aos muçulmanos e tomar para si quase em exclusivo o negócio das especiarias com a Europa. Com a descoberta do caminho marítimo para a Índia era agora necessário criar bases para assentar a presença portuguesa na região e controlar o comércio. Em 1503, Afonso de Albuquerque demanda ao Índico para começar a impor a presença portuguesa na região. A primeira fortaleza seria construída em Cochim. Entretanto em 1505, D. Manuel I indigita D. Francisco de Almeida para vice-rei da Índia. Afonso de Albuquerque é recebido em Lisboa com grande euforia pelo seu sucesso de implantação da primeira fortaleza na Índia. Os seus conselhos e sugestões são ouvidos pelo rei. A estratégia passava pela constituição de uma frota naval permanente no Índico ocidental. É com esta política que Afonso de Albuquerque é investido de vice-governador e ruma à Índia para tomar o lugar de Francisco de Almeida. Chegado à India coloca-se o problema de facto assumir o lugar, já que Francisco de Almeida não desejava cede-lo, evocando que o seu mandato só terminaria em Janeiro de 1509 (estávamos em Dezembro de 1508) e a necessidade de vingar a morte do seu filho, D. Lourenço de Almeida, morto na batalha de Chaul pelos árabes. Albuquerque que tinha já conquistado Socotorá e Ormuz, retira-se para Cochim não enfrentado abertamente Francisco de Almeida. Este por sua vez envia Afonso de Albuquerque para Cananor, isolando-o. Chega a Cananor D. Fernando Coutinho, da alta nobreza, enviado pelo rei, com a intenção de fazer valer a sua decisão de colocar de vice-governador Afonso de Albuquerque. A política do novo vice-governador era constituir uma rede de praças e fortes no Índico de 41 Goeses nas Ruas de Lisboa modo a controlar os mares e as rotas comerciais, impedindo os muçulmanos de fazer negócio. É com esse intuito que tenta recuperar Ormuz (que entretanto havia sido tomada pelos muçulmanos), mas na barra de Onor recebe informações de um Hindu, que uma frota, em Goa, se preparava para atacar os Portugueses e expulsa-los do Índico. Em Fevereiro de 1510, Afonso de Albuquerque dirige-se a Goa para a conquistar. Com o sultão ausente, em guerra no Decão, e com uma investida de D. António Noronha, à qual não tem grande resistência, Goa torna-se sem grande dificuldade mais uma praça portuguesa no oriente. Outras localidades próximas de Goa caem nas mãos dos Portugueses como Bardez e Salsete. Rapidamente Afonso de Albuquerque percebe a situação geoestratégica de Goa para Portugal para controlar o Índico.48 Era o local ideal para lançar as bases de uma futura sede do vicereino de Portugal no oriente. Mas os muçulmanos não desarmariam facilmente. No mesmo ano, em Maio, o sultão Yusuf Adil Khan cercou a cidade e conquista-a. Os Portugueses refugiam-se nos barcos, onde permaneceram até 15 de Agosto, quando se dirigem para a ilha de Angediva. Recebem reforços de Portugal e de aliados da região, Onor e Garsopa. A 24 de Novembro reconquistam Goa, destronando o filho de Yusuf Adil Khan, o xá Ismail Adil que estava pouco organizado devido a lutas internas para a sucessão ao trono, uma vez que seu pai entretanto havia morrido. Afonso de Albuquerque tratou logo de lançar as bases de um aparelho de estado em Goa e no Índico ocidental. Tratou de edificar fortalezas, igrejas, feitorias, palácio dos governadores e tribunais. Dotou assim Goa de instituições religiosas, administrativas, militares e judiciais. Goa era agora sede do poder português no oriente. O objectivo era controlar o comércio na região de ouro, marfim, madeiras, perolas, pimenta, tapetes persas, índigo, açúcar, opio, metais, alume, canela, noz-moscada, cravinho, e cardamomo. Com a constituição de uma rede de fortes e feitorias, na região, os Portugueses conseguiram quase o monopólio da transacção de bens entre a Índia e o Golfo Pérsico, o Mar Vermelho e a península Arábica, para além que conseguir também quase a totalidade do comércio Índia-Europa. Goa era um entreposto comercial e logístico fundamental. Ali estava o poder político e militar português e a sua situação geográfica e o bom porto faziam da cidade, cada vez mais, um ponto fulcral na estratégia de domínio dos mares e dos negócios no 48 Afonso de Albuquerque é uma figura de grande relevo para a história portuguesa. As suas façanhas em Goa, com a instalação dos Portugueses na Índia, o lançamento de um aparelho institucional de estado e a sua política para controlar os mares e o comércio no Indico, deixaram na memória a ideia de um grande homem da história portuguesa e isso é reflectido na evocação que é feita na toponímia portuguesa, com varias ruas com o seu nome e as estatuas erguidas em Lisboa e Goa. 42 Goeses nas Ruas de Lisboa oriente. A importância da cidade era tal, não só devido ser sede do poder português no oriente, mas também aos territórios que a partir dela eram governados. O vice-rei denominava-se de Capitão-mor de Ormuz, e do reino e senhorio de Goa, e do reino e senhorio de Malaca, por el-rei nosso senhor. 49 Afonso de Albuquerque, na sua política de controlar e dominar o mar Índico, para controlar as rotas comerciais da região, em 1515 viaja até Ormuz, com o intuito de conquistar esta praça. O que conseguiu. No seu regresso a Goa adoeceu vindo a morrer à entrada do porto da cidade. A sua memória seria perpetuada pelos relevantes serviços que prestou na definição da política para fixação de Portugueses no oriente, e controlo do comércio entre a Índia e Portugal. Com a sua morte foi-lhe atribuído o título de vice-rei perpétuo da Índia. É sem dúvida a homenagem que reflecte o seu papel fundamental no estabelecimento de uma administração e liderança, para que Portugal tivesse sucesso na empreitada de encetar um contacto com esta parte do mundo no sentido de recolher dividendos económicos e alastrar a sua influência. Seguiu-se no cargo Lopo Soares de Albergaria. No processo de conquista de vastas regiões no oriente, os vice-reis, adoptaram uma política de guerra aberta com quem lhe pudesse interferir de domínio e na criação de alianças com diversos reinos ou ainda na criação de reinos vassalos que estavam controlados e não representavam perigo para a presença portuguesa. A par disso, em Goa, a estratégia seguida era a de não confronto aberto com a comunidade hindu. Tolerava-se as práticas religiosas hindus, apenas restringindo o sati, prática em que a viúva era queimada viva com o marido defunto. Era necessário população portuguesa e europeia em Goa para a administração, para a instalação da religião cristã e para o serviço militar. Mas como é óbvio, a vastidão da Ásia e da numerosa população indiana que vivia nos reinos vizinhos de Goa e de outras praças, tornava impossível aos vice-reis contarem só com a escassa população branca para tantos trabalhos. Desde logo a política foi a de converter população para o credo cristão, e desta forma atrair homens e mulheres para a causa portuguesa e, não renegar e repudiar os casamentos de europeus com asiáticos, criando uma população mestiça, apesar de algumas reservas. Assim se combatia a falta de braços e até de mentes para a manutenção ou mesmo alargamento da influência portuguesa na Ásia. É de realçar, que a emigração de Portugal para Goa era essencialmente de homens, que iam para o serviço militar, administrativo e religioso. Esta circunstância permitiu criar uma população de luso-descendentes e mestiços que 49 O vice-rei estava instalado em Goa e, era a partir deste ponto que governava vastas regiões que abrangia territórios tão diversos como a costa oriental africana, Malaca e Timor. 43 Goeses nas Ruas de Lisboa culturalmente fez com que Goa fosse um caso especial de representação do encontro entre europeus e asiáticos. Aqui encontravam-se pessoas de imagéticas muito diferentes, mas com o convívio e relacionando-se criaram uma idiossincrasia muito própria e original. A sociedade goesa gradualmente transforma-se num cadinho de culturas onde confluem e dialogam hindus, muçulmanos e cristãos. Esta política de mestiçagem foi desde logo promovida por Afonso de Albuquerque. Era necessário para a política portuguesa a ocidentalização em maior número possível, e isso conseguia-se com a conversão, mestiçagem, conquista e atribuindo igualdade de direitos de cidadania aqueles que eram descendentes de casais mistos, fruto de Portugueses com autóctones. Progressivamente descendentes mestiços entram no aparelho de estado e religioso em Goa. Com a entrada em cena no Índico de ingleses e holandeses, e a sua forte concorrência aos interesses Portugueses, as autoridades da metrópole e de Goa incentivaram os casamentos mistos para aumentar a população ocidentalizada e cristianizada. A sociedade goesa trona-se ainda mais complexa do que já era antes da entrada dos Portugueses. Se a sociedade indiana caracteriza-se por ser composta por castas, se em Goa confluem também muçulmanos, com a entrada de cristãos o padrão social complexifica-se. Culturalmente existem religiões monoteístas, como o cristianismo e o islamismo que coexistem com o Hinduísmo, com a sua plêiade de deuses e deusas. As imagéticas multiplicam-se com os crioulos filhos de pais com origens e sistemas religiosos diferentes. Socialmente, a estratificação faz-se com os Portugueses nascidos em Portugal (reinóis) no topo, seguido dos nascidos em Goa, depois os mestiços, seguindo-se os convertidos. Goa é um arco-íris de experiencias humanas, que com a inquisição implantada no séc. XVI, viu esse impulso de mistura e troca de experiencias um pouco travado. Goa, pela importância que adquire, torna-se alvo da política de expansão da fé cristã das diferentes ordens religiosas. Confluem nesta praça portuguesa no oriente, os Franciscanos, os primeiros a chegarem logo em 1517, seguido dos Dominicanos, Agostinhos e os Jesuítas só em 1542. São estes, os jesuítas, que maior influência vai ter em termos religiosos na região. Para isso, muito contribuiu a figura de Francisco Xavier. A política de D. João III passava por uma maior implementação do Cristianismo na Ásia para melhor controlar e alargar estrategicamente o poder que tinha nesse continente. Ao saber da constituição dos jesuítas pouco tempo antes e os seus métodos de converter, que era inovador, o rei convidou os jesuítas a pregarem no oriente para trazer para a causa cristã mais devotos. É assim que surge a ordem religiosa dos jesuítas em Goa, liderados por Francisco Xavier, em 1542. 50 Devido ao seu espirito 50 Francisco Xavier desembarca em Goa a 6 de Maio de 1542. 44 Goeses nas Ruas de Lisboa empreendedor e frenético de envangelização, rapidamente a sua fama se espalhou por quase todo o Oriente. Mas encontrou dificuldades para levar avante a sua missão de converter o máximo de almas. A falta de religiosos para a conversão de uma população numerosa, a dificuldade em propagar a palavra do Deus cristão em comunidades muito arreigadas às suas tradições e o laxismo dos próprios cristãos levou a que Francisco Xavier pedisse a instalação da inquisição em Goa. O Apostolo das Índias, Defensor do Oriente, Francisco Xavier, morreria em 1552. A inquisição refreou as relações pacíficas entre comunidades e estabeleceu o ódio daqueles que não podiam livremente praticar a sua fé, nomeadamente hindus e muçulmanos, quebrando-se elos entre pessoas diferentes origens e praticas religiosas. Em 1540 foram destruídos pagodes e templos não-cristãos, com o intuito de fazer mais conversões. No ano de 1556 é introduzida a tipografia. É a partir desta data que são editados dezenas de livros de propagação do cristianismo. O ano de 1560 é o iniciou da inquisição em Goa. A inquisição teve o condão de eriçar os não-cristãos. Goa, já com o seu terceiro vice-rei, Diogo Lopes de Sequeira, em 1519, adquire um estatuto igual a Lisboa, ou seja é uma cidade real, os seus habitantes estão isentos de alguns impostos. A cobiça, a corrupção e a má gestão dos vice-reis tinha feito o rei D. João III, chamar Vasco da Gama a assumir o cargo entre 1524 e 1529 e por fim a este desgoverno e, colocar a ordem e prestígio da administração portuguesa. Com a morte de Vasco da Gama punha-se de novo a questão da nomeação de um vice-rei e a forma de combater guerras internas entre Portugueses no apetecível exercício do cargo.51 Foi então instituída as vias de sucessão, que mais não eram que três cartas, onde constavam nomes de três capitães em cada uma, que eram abertas por ordem numerária sequencial sempre que necessário, por morte ou indisponibilidade de um vice-rei governar. Era assim indicado o sucessor. Este sistema tentava acabar com as guerras de sucessão. Mas logo na primeira vez que este sistema entrou em prática houve problemas. Com a morte de Vasco da Gama, em Cochim, perante as autoridades de Goa foi aberta a primeira carta que indicava o nome de D. Henrique de Menezes, que exerceu o cargo por alguns escassos meses devido a morte prematura. A segunda carta indicava o nome de Pêro Mascarenhas, este encontrava-se em Malaca lutando contra os muçulmanos. Foi então defendida a abertura da terceira carta, e esta nomeava Lopo Vaz de Sampaio, que assumiu o cargo com a condição de o entregar logo que Pêro Mascarenhas regressasse a Goa. Depois de varias incitamentos à cólera de varias personalidades de Goa, por parte de Lopo Vaz de Sampaio para afastar Pêro Mascarenhas do 51 Vasco da Gama morre a 24 de Dezembro de 1524. 45 Goeses nas Ruas de Lisboa lugar de vice-rei, este é preso e enviado para Cananor onde o capitão local, D. Simão de Menezes o reconhece como legitimo sucessor no cargo. Finalmente depois de disputas legais Lopo Vaz manteve-se no poder até 1529. Seguiu-se Nuno da Cunha, que transferiu a sede de Cochim para Goa e alargou o território, incorporando Bardez e Salsete. Neste período, os Portugueses lutavam contra os mercadores guzarates, por isso a conquista de Diu era uma prioridade. Depois de varias tentativas, esta praça só foi conquistada quando o poder local guzarate permitiu aos Portugueses se instalarem na região em troca do apoio de Portugal na sua luta contra os mongóis. Em 1535 iniciou-se a construção da fortaleza de Diu. Em 1559 é tomado Damão. Com estas duas praças mais Goa, o comércio português na região floresceu significativamente no final do séc. XVI. Neste período áureo, Goa desenvolveu-se economicamente, comercialmente mas também do ponto de vista urbanístico e patrimonial. Cunhava-se moeda própria na Real Casa da Moeda de Goa, o “São Tomé”. A cidade inundase de gentes de várias partes da Ásia. Majestosos edifícios pontuam a cidade. Igrejas, edifícios da administração, praças e fortalezas fazem de Goa um território cobiçado por vários senhores vizinhos indianos. Por várias vezes é tentada a sua conquista mas os Portugueses resistem. Goa era a mais rica possessão de todo o império colonial português. Devido à sua cada vez maior importância, Goa em 1534 torna-se diocese, é nomeado um bispo. Em 1557 passa a diocese metropolitana, recebendo um arcebispo. E por fim é designada sede do padroado ultramarino português. A Catedral de Goa era a igreja metropolitana de uma área que ia desde o cabo da Boa Esperança até à China52. É com esta relevância também religiosa, que Goa começa a ser denominada e encarada como a “a Roma do oriente”. Goa constitui-se como um importante porto para espalhar a fé cristã em terras asiáticas. A época dourada de Goa atingira o auge no final do séc. XVI, mas novos protagonistas aparecem em cena, e com eles o protagonismo da Roma do Oriente também será afectada. Em Portugal, no ano 1560, a coroa portuguesa era tomada pelo rei espanhol Filipe II (primeiro de Portugal), efectivando a união da península Ibérica, velho sonho de alguns fidalgos. Com a morte de D. Sebastião na batalha no norte de África, em Alcácer Quibir, o reino português via-se sem sucessor. É neste impasse que o poder espanhol, através do rei Filipe II, apropria-se da coroa portuguesa. Portugal deixava de ser um país independente. Mas a conjuntura política da época era mais complexa. Portugal agora incorporado na união Ibérica tinha contra si a subjugação ao poder espanhol como acabara de adquirir novos inimigos. Os espanhóis dominavam regiões no norte da Europa. Com as 52 Cf. Avelar, P. História de Goa, de Afonso de Albuquerque a Vassalo e Silva, 2012, p. 61. 46 Goeses nas Ruas de Lisboa sublevações dos protestantes contra o catolicismo de Roma, e o desejo de independência dos territórios controlados por Espanha, emerge uma nova potência saída no norte Europa – a Holanda. Os holandeses rebelam-se contra o seu inimigo, o poder espanhol, tornam-se independentes e deste modo são também adversários de Portugal. No final do séc. XVI começam a entrar em contacto com os senhores e reinos na Ásia. Estabelecem relações comerciais e criam em 1602, a Companhia holandês das Índias Orientais (VOC). 53 Ora sendo Portugal neste período, território controlado por Espanha, os holandeses tratam de aproveitar esta circunstância para atacar os interesses Portugueses um pouco por todo o mundo, desde o Brasil, Angola, São Tomé até às regiões e praças controladas na Ásia. A par da entrada dos holandeses na corrida pelo domínio dos mares e territórios nas América, África e Ásia, surge uma nova potencia por esta altura, os ingleses. Estes criam, tal como os holandeses, uma companhia para fazer comércio – a Companhia das Índias Orientais (EIC).54 Assim Portugal, para além de perder a independência, via ameaçada as suas colonias e o comércio que fazia com estas. O Tratado de Tordesilhas, que dividia o mundo em duas partes, entre Portugal e Espanha estava agora ameaçado e posto em causa pelas novas potências dos mares.55 A rivalidade das potências europeias, a perda de influência na Ásia, tratou de operar o declínio do comércio português nesse continente e em Goa. O epicentro do poder político e centro de negócios viu-se afectado com esta nova realidade. Portugal no início do séc. XVII vai perdendo praças importantes na Ásia. Ormuz, costa ocidental da Índia, Ceilão, Mombaça, Malaca, Mascate e outras praças espalhadas pelo sudoeste asiático foram caindo que nem baralhos de cartas. Portugal perdera de vez a sua grande influência monopolista no continente asiático. Goa chegou mesmo a ser ameaçada pelo poderio naval holandês. Com a revolta portuguesa contra Espanha, em 1640, e a recuperação da independência, Portugal na Ásia estava reduzido a pequenas possessões sem grande expressão territorial e importância comercial e geoestratégica. Praticamente a presença portuguesa estava limitada a Goa, Timor Leste e Macau e com estes territórios em permanente ameaça por parte de holandeses e ingleses e, no caso dos territórios da Índia Portuguesa ameaçados também pelos reinos vizinhos dos Maratas. Com a reduzida presença na Ásia, Portugal vira-se para a exploração e ocupação territorial do espaço Atlântico. A primazia é dada agora ao Brasil. 53 O acrónimo VOC significa, Vereenigde Oost-Indische Compagnie. O acrónimo EIC significa, East India Company. 55 Estas novas potências que surgiram no Indico e Atlântico são: os Países Baixos e a Inglaterra. 54 47 Goeses nas Ruas de Lisboa A consequência imediata desta perda na Ásia de possessões e a viragem para o Atlântico na política colonial portuguesa foi a diminuição do comércio entre Goa e Lisboa, mas também a conversão dos negócios. Se até aqui a rota comercial do cabo, ou seja, LisboaGoa era fundamental para colocar as especiarias na Europa, agora os negociantes Portugueses encontram alternativa no comércio interno da Ásia. É neste contexto que Macau adquire uma importância mais relevante, porque os Portugueses exploram os negócios com a China. A ruptura nas relações sino-japonesas favoreceu o aparecimento dos Portugueses como intermediários. Surgem rotas comercias, dentro do enquadramento asiático como: a rota da India-Moçambique, dedicada ao comércio de escravos, ouro e marfim; a rota de MascateOrmuz-Baçorá, dedicada ao tráfego de moedas de prata, cavalos tâmaras e sal; o comércio indiano; e por fim a rede comercial com o extremo oriente, onde se incluía Macau, Malaca, Japão, Filipinas e Timor.56 Com o progresso e desenvolvimento do Brasil, em Goa registavase um certo declínio populacional. Goa vinha perdendo população portuguesa. A prioridade agora era o movimento migratório para a América do Sul em detrimento da Ásia portuguesa. Houve tentativas para recuperar o negócio das especiarias, mas falharam. Os mercados e as rotas marítimas eram dominados pelas emergentes potências europeias, holandeses e ingleses. Esta nova realidade, no entanto possibilitou a realização de um triângulo comercial entre Lisboa, Bahia e Goa. O tabaco produzido no Brasil seguia para Lisboa e depois era exportado para Goa e outras partes do oriente. Os escassos recursos de um país pequeno como Portugal concentravam-se agora na sua colonia mais lucrativa – o Brasil. A dispersão e fragmentação territorial, a escassez de recursos humanos, as intrigas políticas, má administração, a anexação espanhola de Portugal e a entrada em cena de novas potências eram os factores responsáveis pelo declínio do poder português no oriente. Se o séc. XVII é caracterizado pelo declínio do império português no Oriente, esse factor contribuiu no entanto para Portugal tentar reforçar as suas poucas praças na Ásia. A guerra com os Maratas possibilitou na década de 60 e 70 do séc. XVIII, a ampliação do território de Goa. Com campanhas militares contra a ameaça Marata foram conquistadas novas terras. Goa passava a incluir localidades como: Bicholim, Conaconá, Pondá, Perném, Satari, Quepém e Sanguém.57 O território de Goa passava a contar com cerca de três mil quilómetros quadrados. Essas guerras no séc. XVIII com os Maratas, não foram todas ganhas, perdeu-se Baçaim e Chaul. O estado português da Índia era a partir deste século constituído 56 57 Cf. Avelar, P. História de Goa, de Afonso de Albuquerque a Vassalo e Silva, 2012, p. 129. A estes novos territórios acrescentados a Goa, convencionou-se chamar de Novas Conquistas. 48 Goeses nas Ruas de Lisboa por Goa, Damão e Diu. Com o secretário de Estado de Portugal durante o reinado de D. José I (1750-1777), Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal), foram tomadas medidas económicas, reorganização militar, de índole religiosa e administrativas de modo a revitalizar o estado da Índia portuguesa. Marquês de Pombal aboliu o cargo de vice-rei, nomeando um governador e, incentivou o comércio privado de mercadores e companhias, expulsou os jesuítas e integrou no aparelho militar português autóctones. As carreiras com a Índia aumentaram substancialmente durante a governação de Pombal e a actividade comercial também. Marquês de Pombal, na sua política de subordinar a Igreja ao estado, iria ainda extinguir o Tribunal do Santo Oficio de Goa em 1773, fazendo o fim da distinção entre cristãos novos e cristãos-velhos. A inquisição voltaria em 1778, com a morte de D. José e a saída do governo do Marquês de Pombal. Só em 1821, é suprimido o Tribunal do Santo Oficio.58 Em 1799, os ingleses entram em Goa com um exército de 1100 homens, para supostamente proteger a possessão portuguesa dos franceses. Na Europa, com a Revolução Francesa de 1789, os velhos regimes viam-se ameaçados. É este enquadramento histórico que leva à guerra no velho continente da França com monarquias absolutistas. Esta guerra alastrase a todo o mundo onde há colonias. Assim os franceses atacam os ingleses, seus inimigos e rivais, em todo o mundo. As tropas inglesas entram em Goa com o pretexto de a proteger do inimigo francês, que também era de Portugal. A velha aliança Luso-Inglesa era posta em prática, com o intuito dos britânicos protegerem Bombaim. Retiram-se em 1802, para voltarem a entrar em 1804. Sairiam definitivamente em 1813. A guerra na Europa condicionava a situação em Goa. O séc. XIX trouxe consigo a disseminação dos ideais liberais. Em Goa reaparecem as tipografias depois da revolução vintista em Portugal. É este conjunto de factores que vai favorecer o aparecimento de ideias políticas de uma maior autonomização de Goa face à metrópole. Uma maior difusão de ideias liberais, e a abertura de espaço na imprensa de discussão novos argumentos políticos, vai contribuir para a intelectualidade goesa debater a sua condição e do território. A imprensa e os livros circulam em Goa, e com eles a formação política das elites mais esclarecidas. Começa então na sociedade goesa a discussão do significado do território dentro do espaço colonial português. A representatividade dos naturais no aparelho do estado é discutida. As elites locais reivindicam maior expressão no poder. Estava a nascer uma consciência local que pensava Goa, o seu futuro e a sua identidade. Defrontam-se nesses debates, elites católicas nativas e hindus brâmanes. O acesso 58 A inquisição só é formalmente extinta em 1821. 49 Goeses nas Ruas de Lisboa ao poder era o tema central da discussão, sendo que os autóctones, independentemente da sua filiação religiosa, lamentavam a sua descriminação em relação aos oriundos da metrópole, em particular os hindus. Em 1834, com o triunfo do liberalismo em Portugal, é nomeado Bernardo Peres da Silva, um canarim para o governo de Goa e o seu nome ficará para a história por se tratar do único em toda a presença portuguesa no território.59 Dois anos antes tinham realizado eleições em Goa, e tinham sido eleitos para as Cortes Gerais da Nação, em Lisboa, três deputados de Goa. Não chegaram a exercer o cargo de deputados devido à reviravolta entretanto operada com o contra golpe da Vila-Francada, antiliberal. Em 1827, novas eleições e de novo um contra golpe impede o assumir do cargo dos eleitos por Goa. Entre os deputados eleitos por Goa encontrava-se Bernardo Peres da Silva, um liberal, que foi reconhecido pela sua acção em prol de Goa e deste modo D. Pedro IV o nomeia Perfeito das Índias, o novo título do cargo político máximo na administração goesa. Bernardo Peres da Silva tratou de reformular e racionalizar a administração de Goa. As populações autóctones regozijaram-se com o novo senhor do poder político, já que era um local a tomar as rédeas da governação. As suas políticas atentavam contra interesses instalados da elite branca com origem em Portugal. Perante este quadro, em 1835, estes revoltam-se e tomam o poder enviado Bernardo Peres da Silva para Bombaim. No mesmo ano revoltam-se os prósBernardo Peres da Silva, e este tenta formar um exército para tomar Goa. Só conseguem dominar Damão por pouco tempo com o auxilio de liberais. Com a implantação da República em 1910, um novo folego era proposto para a governação das colónias, e a valorização desses territórios. É criado o Ministério das colónias e a intenção era a descentralização. Com o golpe de 28 de Maio de 1926, novos actores políticos entram em acção. A dificuldade em encontrar compromissos políticos, económicos e de governação na 1ª Republica, levará à sua queda, sendo substituída por uma ditadura militar. Em 1933, Oliveira Salazar toma conta do país e uma novo período inicia-se.60 Já em 1930, o Acto Colonial, promulgava e instituía a nação portuguesa como força necessária para civilizar os povos das suas colonias. Portugal atribuía-se a si mesmo como uma potência moral e colonial capaz de educar, formar e governar povos indígenas, numa atitude cada vez mais anacrónica face ao desenrolar da história. As elites goesas, nomeadamente os brâmanes 59 Em 451 anos de presença portuguesa, Bernardo Peres da Silva será o único goês a dirigir o governo da colonia. Bernardo Peres da Silva era católico e foi também eleito como deputado às cortes. O triunfo do liberalismo possibilitou aos goeses serem eleitos para as cortes e assim defenderem os interesses do território. 60 Com a Constituição de 1933, que entrou em vigor em 11 de Abril, estava formalmente constituído o Estado Novo, liderado por António Oliveira Salazar. A Constituição de 1933 é o acto fundador do novo regime. Em http://dre.pt/pdf1sdip/1933/02/04301/02270236.pdf pode-se encontrar a constituição na sua totalidade. 50 Goeses nas Ruas de Lisboa devem ter sentido algum desconforto com esta atitude. Os ventos da história sopravam para o lado da emancipação de povos colonizados pelas potências europeias. Apesar do discurso moralista do Estado Novo, o que o novo regime pretendia era a exploração económica das colónias. Na década de 40, e em especial na de 50, a indústria de extracção de ferro em Goa expandiu as suas actividades. As colonias durante a vigência do Estado Novo sofreram algum desenvolvimento. O estado português viu o potencial económico e tratou de explorá-lo e isso criou algum progresso económico, no entanto, é preciso dizer, que o grau de atraso nas colonias era tão grande que um pequeno conjunto de políticas económicas que fosse implantado teria como consequência o desenvolvimento nesses territórios, e foi o que aconteceu. O fim da 2ª Guerra Mundial trouxe consigo as primeiras contestações ao colonialismo europeu um pouco por todo o mundo. A discussão quanto ao futuro de Goa começou a ser equacionada. Na Índia como em Goa, muitos eram partidários da incorporação da colónia portuguesa no novo país que acabara de nascer, fruto da emancipação dos ingleses. Também os Goeses queriam essa emancipação de Portugal. Tanto católicos como hindus desejavam romper laços políticos com Portugal e juntarem-se à União Indiana. Um primeiro sinal é dado pelo lado indiano. Em 1946, invasões pacíficas de Goa, promovidas pelo político socialista indiano, Ram Manhor Lohia, indicavam já a pretensão de discutir o futuro do território. Levantam-se vozes anticoloniais e antisalazaristas e são presos alguns desses contestatários políticos, entre os quais Ram Manhor Lohia. Sendo, que parte desses opositores políticos são enviados para Peniche. Entretanto Lohia é libertado e continua os protestos. Gandhi afirma que Goa era histórica e culturalmente pertença da Índia e que portanto devia voltar para o seio da nova nação agora libertada do colonialismo britânico. Adensam-se as iniciativas diplomáticas para resolver o caso Goa. Na ONU, a União Indiana acusa Portugal de ser uma ditadura fascista, de em Goa não haver representatividade e de se viver num clima opressivo. A oposição goesa reúne-se em Junho de 1947 em Bombaim, manifestando que a libertação está eminente. Pouco depois de formalizada a independência e constituída União Indiana (Agosto de 1947), o PrimeiroMinistro indiano apoiou a recuperação de Goa. Em Setembro, Salazar tenta estabelecer relações diplomáticas amigáveis com a Índia, tentando fazer ver a Nehru, que Portugal não descriminava povos, independentemente da sua etnia ou credo religioso. A União Indina não oficializa as relações diplomáticas com Portugal. Em Novembro, Salazar, num discurso, afirma que em Goa apesar da diversidade étnica e religiosa todos são Portugueses. No iniciou de Dezembro de 1947, o embaixador português, Duque de Palmela, encontra-se com o alto- 51 Goeses nas Ruas de Lisboa comissário indiano, V.K. Krishna Menon sem que cheguem a algum compromisso.61 Para Portugal, Goa era sua, para a Índia, Goa era indiana. O encontro tinha dado em nada. Para adensar mais o clima de desconfiança entre os dois países, correm notícias que Portugal apoia o Paquistão militarmente. Desde o iniciou, as relações indiana-paquistanesas foram pouco pacíficas chegando mesmo ao confronto militar. Para a Índia, Goa estava a tornar-se um refúgio de defensores políticos e militares do Paquistão. Um grande revés para as pretensões portuguesas acontece em Julho de 1948, com um plebiscito nas possessões francesas na India onde a população é convidada a escolher o seu futuro. Em Agosto, finalmente Portugal e Índia, numa declaração, aceitam estabelecer relações diplomáticas oficiais. Este acordo não impediu que a Índia baixa-se a pressão sobre Portugal. A potência colonizadora estava cada vez mais isolada. Regime ditatorial e colonialista, o Estado Novo, com o avançar da década de 50, via-se progressivamente a lutar contra uma realidade incapaz de controlar e condicionado pelos acontecimentos históricos que ocorriam, como as independências de vários países um pouco por todo o mundo. Salazar revoga o Acto Colonial e cria um novo ordenamento jurídico para as colonias, substituindo o termo colonias por províncias ultramarinas. Era apenas uma mudança de nomenclatura, ou seja, de fachada. A estratégia portuguesa encontrou um aliado acidental brasileiro. Gilberto Freyre, sociólogo brasileiro, criou o termo luso-tropicalismo, para referir a mestiçagem e conduta amistosa, dos Portugueses com outros povos. O regime português aproveitou a sua obra para evocar a capacidade civilizadora nas colonias e a sua imprescindível acção em prol das populações autóctones. O próprio Gilberto Freyre foi convidado a visitar as províncias ultramarinas e Portugal, para com o seu olhar de académico constatar a força portuguesa civilizacional, o que aconteceu. A obra de Freyre foi aproveitada pelo nacionalismo do regime português para defender as colonias e propagar os seus ideais.62 Durante toda a década de 50, Portugal e Índia esgrimiram factos e ideias a favor das suas convicções e políticas. Nehru continua a pressionar Portugal e os enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli são anexados pela Índia. A 4 de Fevereiro de 1961 dá-se o iniciou da guerra em Angola. Este facto impressionou Nehru, que sentiu que só com uma invasão é que Goa era restituída à Índia. Em Janeiro de 1961, entrava para a Casa Branca, em Washington o Presidente dos E.U.A., John Kennedy. Ainda neste ano 61 Cf. Avelar, P. História de Goa, de Afonso de Albuquerque a Vassalo e Silva, 2012, p. 232 Aventura e rotina e Um brasileiro em terras portuguesas, editadas em 1953, e Integração portuguesa nos trópicos e O luso e o trópico, editadas por instituições do regime português, em 1958 e 1961, respectivamente, são obras que o regime do Estado Novo aproveitou para veicular a missão civilizacional e presença imprescindível nas colonias de Portugal. Outras obras de Gilberto Freyre foram também aproveitadas pelo regime português, como é o caso de Casa Grande e Sanzala. De realçar que Gilberto Freyre visitou Goa, a convite do regime português. 62 52 Goeses nas Ruas de Lisboa em Março os E.U.A. comunicam a Lisboa, a sua posição contra a política colonial portuguesa. Na ONU é votada uma resolução contra Portugal, relativo aos acontecimentos que se desenrolam em Angola. Os E.U.A. votam contra Portugal. Na primeira metade de 1961, perante a eminencia da invasão de Goa pelas forças indianas, Portugal procura o apoio dos E.U.A. Estes recusam pronunciar-se. Nehru intensifica o seu discurso anticolonial e a favor de Goa na União Indiana. Sob pressão portuguesa, para que os norte-americanos fizessem uma declaração contra a invasão, o embaixador dos E.U.A. na Índia, a 13 de Outubro, confirma que havia uma forte campanha psicológica no sentido da libertação de Goa. A 11 de Dezembro, os norte-americanos tentam dissuadir os indianos de uma invasão. Dois dias antes da invasão, George Ball, secretário de Estado em exercício, encontrou-se com o embaixador indiano em Washington e disse-lhe que um ataque indiano teria “consequências adversas” no relacionamento bilateral entre os E.U.A. e a União Indiana63. O embaixador indiano perguntou o que fazer depois de catorze anos de esforços. Os E.U.A. ainda retorquiram pedindo seis meses a Nehru, e nesse período de tempo tentariam mudar a posição portuguesa. Nada feito. A 18 de Dezembro de 1961, 30.000 militares indianos invadem Goa e a tomam para a União Indiana. Era o fim da presença portuguesa nesta colonia. A 14 de Março de 1962, por decisão do parlamento da União Indiana, o território de Goa era formalmente incorporado neste país.64 II.3 - Conhecer a História para decifrar e ler a toponímia Como vimos neste capítulo, a história de Lisboa e Goa está entrelaçada. Lisboa cabeça da coroa e Goa como ponte e berço do poder de Portugal no oriente. É esta ligação quase umbilical que através dos tempos se desenvolve, permite que estabeleçam-se relações entre Portugueses e Goeses. Nascem assim em Goa, filhos de cultura europeia, filhos da cultura hindu ou muçulmana e os mestiços. Tecem-se laços interculturais, famílias mestiças com elementos familiares com diferentes origens culturais, sociais e geográficas. É desta amálgama, que a história produz, que sobressaem figuras ilustres em Goa. A história de Portugal possibilitou o contacto com outros povos, e Lisboa sendo a sede política do país capitalizou essas relações estabelecidas e tornou-se num centro por excelência, dos povos colonizados, como referência de cidade a adular ou a abjurar. Tornou-se na cidade a atingir como objectivo final para alguns que no contexto colonial a desejavam e, para outros fonte do 63 64 Cf. Avelar, P. História de Goa, de Afonso de Albuquerque a Vassalo e Silva, 2012, p. 273. Cf. Avelar, P. História de Goa, de Afonso de Albuquerque a Vassalo e Silva, 2012, p. 279. 53 Goeses nas Ruas de Lisboa poder político colonial a abater. É por isso uma cidade onde confluíam os grandes nomes da história do país e das colonias. Ora a toponímia é reflexo disso. Através do estudo da história de Lisboa e Goa, entendendo as grandes linhas que as orientaram, percebe-se a grandeza que atingira. Uma como capital de um império, e outra como grande centro político e comercial no oriente. Por isso é importante conhecer o contexto histórico da capital portuguesa e de Goa para perceber como se relacionaram durantes os tempos, e como isso foi um factor decisivo para nas ruas de Lisboa, alguns Goeses serem perpetuados perante os desígnios e poderes políticos em jogo. A história é uma ferramenta para entender as forças sociais em jogo em diferentes épocas e, desse modo, decifrar as grandes linhas programáticas que contam nas políticas de evocação de personalidades nos arruamentos. A compreensão do que no passado aconteceu é assim relevante para saber o porquê de alguns Goeses constarem na toponímia de Lisboa. Conhecer a história de Lisboa e Goa é essencial para entender o caldo cultural em que surgiram as figuras evocadas e, em que contextos foram lembrados. Revela-se assim, as verdadeiras razões das evocações e, deslindam-se os aspectos que contribuíram para o fluir da história, e como ela foi decisiva para a emergência de algumas personalidades. Entende-se as condicionantes e os jogos políticos que tiveram em cena e os seus protagonistas. Conhecendo o enquadramento histórico, e as figuras insignes, descortina-se as razões pelas quais foram alvo das maiores loas, a tal ponto de serem evocadas na toponímia de Lisboa. A história é uma ferramenta fundamental, que ajuda a deslindar e a fazer uma leitura das razões da nomeação toponímica por parte dos diferentes poderes políticos que exercem o seu poder nos diferentes períodos históricos. 54 Goeses nas Ruas de Lisboa CAPÍTULO III: Goeses nas ruas de lisboa III.1 - Maternidade Alfredo da Costa A assistência médica em Portugal era essencialmente realizada pelas instituições religiosas, em especial pelas misericórdias. Com o progresso da sociedade essas instituições tornaram-se obsoletas e não respondiam as necessidades da população. A política de Pombal no reinado de D. José I era contrária á existência da Companhia dos Jesuítas. De acordo com as suas convicções, o Marquês de Pombal expulsa e confisca os bens dos jesuítas. Entre o património desta ordem religiosa estava o Colégio de Santo Antão, que foi convertido então, em Hospital de S. José. Neste edifício foram criadas enfermarias próprias para parturientes. Começava assim, timidamente, a assistência especializada para mulheres gravidas, com a criação de uma ala própria denominada de Santa Barbara. 65 É neste Hospital que o Dr. Alfredo da Costa e os seus colegas desempenhavam a sua actividade médica.66 Vendo-se «encurralado» em instalações pouco adequadas e sem meios para desempenhar a função de maternidade com eficácia, Alfredo da Costa elabora um relatório onde descarrega toda a sua cólera perante a triste situação de trabalho para os médicos e para as mulheres assistidas na Maternidade de Santa Barbara. Durante vários anos apelou para que fosse construído um hospital de raiz que atendesse aos interesses da população parturiente. Entre as instituições a quem dirigiu um grito de alerta está o Conselho da Escola Médico-cirúrgica de Lisboa, para a qual enviou um relatório onde diz, “ Lisboa não tem a bem dizer uma Maternidade. Dentro de um Hospital imenso, defeituoso, como todos os que tem o vício de origem da adaptação de um convento vetusto, aninha-se, é certo, um serviço clinico de obstetrícia, arrumado à força…”. Em 1898, enquanto regente da cadeira de obstetrícia da Escola Médico-cirúrgica de lisboa, já Alfredo Costa defendia a construção de uma maternidade para Lisboa. Os seus esforços iniciais, pelo menos tiveram o condão de por as autoridades a reflectir e a providenciar as primeiras tentativas de construção de um hospital maternidade. Em Diário do Governo nº 267, de 26 de Novembro de 1904, é publicada a lei que estipula a realização de um empréstimo com a caixa Geral de Depósitos, até 300 contos de 65 Cf. Almeida, C. B. Subsídio para a história da Maternidade Dr. Alfredo da Costa, 1983, p. 23. Em 1906, Alfredo da Costa, já despenhava a função de Director da Maternidade de Santa Barbara, com condições exíguas para o normal funcionamento da medicina. 66 55 Goeses nas Ruas de Lisboa reis, para entre outras obras em hospitais, proceder-se a adaptação do antigo edifício da Escola Médico-cirúrgica de Lisboa em maternidade. Esta lei foi assinada pela rainha D. Maria Pia e por vários ministros do governo. Logo Alfredo da Costa com entusiamo traçou as linhas mestres que deveriam constituir a actuação médica nessa nova maternidade. As promessas políticas dos governos não chegaram de facto a consubstanciar-se em algo de palpável, em vida do Dr. Alfredo da Costa. Em 2 de Abril de 1910, falecia o professor, sem ter visto a sua luta ser materializada. O seu trabalho e entusiasmo que colocou na realização da construção de uma maternidade em Lisboa, não foi esquecido. Constitui-se uma comissão que queria levar avante, o sonho de anos do Prof. Dr. Alfredo Costa. Não ficava assim, esquecida a sua memória e insistente trabalho em prol de um serviço de obstetrícia em Lisboa de qualidade. A 15 de Maio de 1910, reuniu a comissão sob a presidência do Professor Silva Amado, com o intuito de formar uma equipa executiva, composta de três elementos, Prof. Costa-Sacadura, Sr. Moreira de Almeida e o presidente, Prof. Carlos Tavares. Pela iniciativa desta comissão, surgiu um grande interesse da imprensa, de instituições médicas, a Sociedade de geografia e muitos amigos de Alfredo da costa. Formada a comissão, e em reunião de 4 de Fevereiro de 1911, foi levantada a questão da necessidade de criar uma maternidade. A 30 de Novembro do mesmo ano, a comissão reitera que Lisboa precisa de uma maternidade e que a ela se deva dar o nome do Dr. Alfredo da Costa, insistindo-se perante os poderes políticos desta necessidade para a cidade e o país. O governo e a Camara Municipal de Lisboa entram no debate pela construção da maternidade, e existem troca de opiniões com a comissão. Várias hipóteses são consideradas para a instalação da maternidade desde os terrenos entre o Hospital de Santa Marta e o Manicómio Miguel Bombarda que pertencera a Camara Municipal de Lisboa, até ao Asilo de Mendicidade (Hospital dos Capuchos). Tudo hipóteses que lograram em fracasso. Em Agosto de 1914, novo folego pela construção da maternidade. O ministro do Interior, Bernardino Machado, publica uma portaria nomeando uma comissão, composta por um Presidente, Dr. Augusto Monjardino, e pelo Dr. Sebastião Cabral de Costa-Sacadura e o Arq. Miguel Ventura Terra, com a incumbência de gerir o processo para a construção da maternidade, atribuindo um terreno anteriormente pertencido à extinta Associação de Nossa Senhora da Conceição e uma dotação financeira de 250 contos. Um acontecimento, ao nível mundial iria mais uma vez atrasar o sonho de construção da maternidade. A 1ª Guerra Mundial, de 1914-1918, desvalorizou a moeda portuguesa e novos créditos foram realizados mas sem efeito pratico. A construção da Maternidade Alfredo da Costa (MAC) só vai ser possível devido a um benemérito chamado Rovisco Pais, que conservou-se a seu pedido no 56 Goeses nas Ruas de Lisboa anonimato até à sua morte. Rovisco Pais doa mil e quinhentos contos. Este contributo é essencial para a construção mas não suficiente. A 1ª Guerra Mundial possibilitou a Portugal receber compensações por ter nele participado ao lado dos vencedores. É o ministro dos negócios estrangeiros, Bettencourt Rodrigues que procede, pelas reparações de guerra, destinar equipamento para a MAC. É já com Oliveira Salazar, ministro das finanças, que a construção da MAC é concluída. Oliveira Salazar visitara a maternidade e comprometeu-se depois a conceder mil e quatrocentos contos para a finalização das obras. Em 5 de Dezembro de 1932 é finalmente concretizado o sonho de Alfredo da Costa.67 A MAC é inaugurada com o nome daquele que durante a sua vida de médico pugnou pela construção de uma maternidade na cidade de Lisboa. No entanto era um sonho realizado para Lisboa, que o Dr. Alfredo da Costa não conseguiu ver em vida. Esta unidade hospital foi sempre uma importante referência na saúde em Lisboa. Na MAC nasceram até ao presente centenas de milhares de bebés. Faz parte do imaginário de muitos lisboetas. O nome de Alfredo da Costa na maternidade evoca a figura daquele que não desistiu de melhorar a assistência médica das parturientes de Lisboa. Manuel Vicente Alfredo da Costa nasceu na cidade de Margão (Goa Sul), em 28 de Fevereiro de 1859. Com apenas nove anos estabeleceu-se em Portugal, estuda medicina na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, concluindo o curso em 1884. No ano seguinte, exerce medicina como cirurgião no Hospital de São José. Torna-se professor em 1887, na especialidade de cirurgia.68 Em 1897, exerce a sua especialidade de eleição, a obstetrícia, para a qual dá um contributo muito importante nos tratamentos e técnicas utilizadas em Portugal. A sua dedicada vida em benefício de uma maternidade das mulheres e filhos assente em boas condições, granjearam-lhe muitos amigos e admiradores e foi isso que possibilitou que o complexo hospitalar inaugurado em 1932 tenha o seu nome.69 O seu nome é perpetuado nesta instituição pela sua luta incansável por uma assistência de qualidade às parturientes. 70 67 Cf. Almeida, C. B. Subsídio para a história da Maternidade Dr. Alfredo da Costa, 1983, p. 39 Cf. Vaz, J. C. Profiles of Eminent Goans Past and Present, 1997, p.223. 69 A Maternidade Doutor Alfredo da Costa encontra-se sediada na freguesia Avenidas Novas. 70 A sua actuação em prol do desenvolvimento da medicina não se restringiu à docência e pratica médica. Foi também sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa, fundador juntamente com outros companheiros da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, na qual foi presidente entre 1905 e 1906. Colaborou com os jornais da Sociedade das Ciências Médicas e da Revista de Medicina e Cirurgia, da qual foi também fundador. 68 57 Goeses nas Ruas de Lisboa III. 2 - Rua Dr. Silva Teles Francisco Xavier da Silva Teles era filho de António Xavier da Silva Teles e Clara Unhão. Era natural do concelho de Pondá.71 Nasceu em 2 de Setembro de 1860. Começou por fazer os estudos primários em Goa, seguindo depois para o Liceu de Nova Goa onde completou o secundário. Vem para Lisboa, onde em 1880 se forma em medicina na Escola Médico-Cirúrgica. Terminado o curso e envereda pela carreira militar naval, em 1881. Progride rapidamente na carreira militar. É promovido, em 1885, a Médico Naval de 2ª Classe e em 1889 a Médico Naval de 1ª Classe. A sua ascensão dentro do aparelho militar é rápida, e é assim, que em Agosto de 1913, foi promovido a capitão-tenente, em Julho de 1915 a capitão-de-fragata, e em Março de 1918 a capitão-de-mar-e-guerra. Em 37 anos de carreira militar chega ao posto de capitão-de-mar-e-guerra. Durante a sua carreira militar esteve ao serviço da marinha em vários canhoeiras, corvetas e o cruzador Vasco da Gama da Armada Portuguesa, tanto em Portugal como em África. A sua curiosidade e intelectualidade levaram ao estudo de outras ciências que para si despertavam interesse. Estuda na École d’Anthropologie de Paris sob a direcção do professor Léonce Manouvrier, em especial o seu interesse é dirigido para as medições antropométricas. Publica trabalhos nesta área científica e ensina na Academia de Estudos Livres de Lisboa num curso de antropologia. A Sociedade de Geografia de Lisboa aproveita os conhecimentos adquiridos por Silva Teles para um trabalho de campo na região da Serra de Estrela. Em 1900, fixa-se em Lisboa e aproveitando os conhecimentos em antropologia desenvolve trabalhos e estudos científicos relacionados com os territórios coloniais Portugueses. Como referencial no conhecimento antropológico dentro do enquadramento colonial Português, organiza em 1901, o primeiro congresso colonial português sob os auspícios da Sociedade de Geografia de Lisboa. Em 1902, volta-se para a sua formação de base, a medicina. Dedica-se ao estudo e à docência na área da Higiene e Climatologia do curso de Medicina Tropical. Estuda as condições climatéricas nas colónias portuguesas e como tem influência na saúde. Publica as suas reflexões resultantes dos seus estudos. Interessa-se pela educação e pelo ensino e isso levará a ser um dos fundadores da Liga de Educação Nacional, em 1908. A sua actividade é grande a tal ponto de ser recrutado para secretário-geral da Sociedade de Geografia de Lisboa, onde exerce também a função de bibliotecário. Em 1912 é eleito para a Academia Real das Ciências de Lisboa como socio. Dado o seu grande acumular de saberes e a intensa actividade de investigação é nomeado 71 Pondá situa-se no distrito de Goa Norte. 58 Goeses nas Ruas de Lisboa professor do Curso Superior de Letras, para a área cientifica de geografia. É responsável pela reorganização do curso de letras, o que possibilita a inserção da disciplina de geografia. É neste campo do saber, que ensina varias disciplinas relacionadas com geografia económica, de Portugal, colónias e o do Brasil. A sua carreira militar naval terminaria no ano de 1921. O grande interesse que mantinha pelas questões coloniais nas suas diferentes âmbitos e campos faz com que seja nomeado professor de Administração Colonial e do Instituto Superior do Comercio de Lisboa. É ainda recrutado para director da Escola de Medicina Tropical de Lisboa. É nomeado reitor da Universidade de Lisboa.72 A sua intensa actividade virada para as questões da educação e das colónias chamam a atenção dos poderes políticos. É então proposto e escolhido para o cargo ministerial da Instrução Pública, em 1929. Estávamos no período da ditadura militar em Portugal que tinha chegado ao poder em 28 de Maio de 1926. Silva Teles, desgostoso e desagradado com o rumo político que o país atravessava, depois de alguns meses no cargo, renuncia em continuar no governo. O seu imenso acumular de saberes em áreas diversas e a sua experiencia de vida enquanto militar na marinha levaram-no a participar em encontros e congressos científicos em cidades como Paris, Bruxelas, Genebra, Washington, Roma, Londres, Cambridge e Nápoles. Deixou uma vasta obra publicada em várias revistas. O seu contributo para a ciência e ensino em Portugal é reconhecido pelas condecorações de que foi alvo, graus de cavaleiro, oficial e comendador da Ordem de Aviz, grau de oficial da Ordem de Santiago, medalhas militares de prata e ouro da classe de comportamento exemplar e a medalha de cobre de Filantropia e Caridade. Falece em Lisboa a 21 de Maio de 1930. Poucos anos após a sua morte e reconhecendo os seus méritos, em deliberação camararia de 12/04/1934, a Camara Municipal de Lisboa perpetua o nome de Silva Teles na toponímia da cidade. Estamos no período ainda antecedente à criação da primeira comissão toponímica, que só em 1943 entra em função. É então da responsabilidade da Comissão Administrativa da Camara Municipal de Lisboa, sem ainda delegar em entidades ou personalidades representativas da cidade. É ainda de salientar que este é o primeiro nome de um Goês a constar na toponímia da cidade de Lisboa e que se mantem. O edital da camara a confirmar é de 17/04/1934 e está assinado pelo Presidente da CML, Henriques Linhares de Lima. Já em pleno Estado Novo é reconhecida esta personalidade impar da ciência e ensino em Portugal. A rua Silva Teles situa-se na freguesia das Avenidas Novas, um local nobre da cidade de Lisboa. 72 A sua nomeação para reitor tem a data de 24 de Fevereiro de 1928. 59 Goeses nas Ruas de Lisboa III.3 - Praça Goa A zona de Belém, na parte ocidental de Lisboa sofreu um grande desenvolvimento nos meados dos anos quarenta do séc. XX. O mote foi dado com Exposição do Mundo Português, realizada em 1940. A partir dessa data, Belém adquiriu um caracter monumental ainda maior. Com o conjunto monumental formado pelo Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, e a Praça do Império, o Museu de Arte Popular e o padrão dos Descobrimentos a marcarem a paisagem a partir deste momento, esta zona da cidade tornava-se uma nova centralidade de Lisboa. Este polo seria também responsável por uma maior afluência de turistas à freguesia de Belém. A cidade expandia-se para a parte ocidental e havia mais planos para transformar o local. Em 1938 surge a primeira proposta de urbanização da encosta da Ajuda. Os planos de urbanização do Restelo seriam concretizados na década seguinte. A «cidade nova» surgia na esteira da Exposição do Mundo Português e propunha transformar um meio ainda de características rurais em território urbano. O plano inicial consistia na construção de moradias para uma classe social sem dificuldades financeiras, mas o plano inicial sofreu alterações com a morte de Duarte Pacheco. O plano de urbanização da encosta da Ajuda passou a incluir casas de renda económica destinadas a funcionários do estado. A característica fundamental das casas assentava no modelo unifamiliar. É assim que é urbanizado o Restelo, partindo da Exposição do Mundo Português e alargando-se à habitação. O novo bairro apresenta uma formação em leque constituído ainda por ruas axiais e com algumas praças a rematarem a sua configuração. O Restelo é um lugar com um certo misticismo para Lisboa e mesmo para Portugal. Era desta antiga praia que partiam as caravelas e naus rumo a novos mundos. Mas não é só por ser zona de partidas e chegadas de aventureiros em busca de fortuna. Na célebre obra Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões, no Canto IV, surge uma figura, o Velho do Restelo, que critica os descobrimentos. A que novos desastres determina De levar estes reinos e esta gente? Que perigos, que mortes lhe destinas Debaixo dalgum nome preminente? Que promessas de reinos, e de minas D'ouro, que lhe farás tão facilmente? Que famas lhe prometerás? que histórias? Que triunfos, que palmas, que vitórias?73 73 Voz do Velho do Restelo em Os Lusíadas, Canto IV, 97. Luís Vaz de Camões. 60 Goeses nas Ruas de Lisboa O Velho do Restelo representa o pessimismo, o conservadorismo e a voz que é contrária ao empreendedorismo dos Portugueses que partem para o mundo. O Estado Novo, na sua estratégia de exaltação dos valores nacionais, de prestar culto às grandes figuras da história portuguesa, com o fito de engradecer e aplicar os valores em que assenta a sua política para o país, toma uma serie de medidas para levar avante o seu programa ideológico. É neste contexto, que na aplicação da toponímia da urbanização do Restelo, que surgem nomes de figuras históricas ligadas aos Descobrimentos e em particular à Índia. Ruas e praças com nomes como: Avenida Dom Vasco da Gama, Avenida da Índia, Praça de Damão, Praça de Dio, Rua Soldados da Índia, Rua São Francisco Xavier, Rua Dom Lourenço de Almeida e Rua Dom Cristóvão da Gama. O Estado Novo, deste modo, contraria a voz do Velho do Restelo e enaltece a gesta dos Descobrimentos, e a sua política de louvar figuras que são gradas ao regime para a sua ideologia de manutenção da presença portuguesa nas colónias em África e na Ásia.74 A 8 de Abril de 1948, reuniu a Comissão Municipal de Toponímia com o intuito de proceder à aplicação de topónimos na encosta da Ajuda entretanto urbanizada. É apreciado que nome atribuir à praça designada de cinco C, também conhecida por praceta II. Decide-se chamar Praça Goa. A comissão era presidida pelo vereador, Pedro Correia Marques e composta pelo Eng. Augusto Vieira da Silva, Dr. Durval Pires de Lima e o Dr. Jaime Lopes Dias. A decisão ficou lavrada na acta nº 14. A 12 de Abril de 1948 é aprovada e confirmada definitivamente na acta nº 15, o nome Praça Goa à praceta II do Restelo, com as assinaturas do presidente e vereador da Comissão Municipal de Toponímia, Pedro Correia Marques e pelos, Dr. Durval Pires de Lima e Dr. Jaime Lopes Dias. O edital assinado pelo vicepresidente da Camara municipal de Lisboa, Luís Pastor Macedo, da data de 29/04/1948, fixa os primeiros nomes de personalidades e lugares da expansão marítima portuguesa relacionados com a Índia. A Praça Goa está situada na freguesia de Belém e é um bom exemplo da política do Estado Novo no intuito de também através da toponímia afirmar os seus valores e desígnios para Portugal. 74 A zona de Belém seria um espaço onde o regime do Estado Novo iria desenvolver actividades politicoculturais. A Exposição do Mundo Português e a referência a figuras históricas relacionadas com os descobrimentos na Ásia na toponímia seria o expoente máximo da demonstração da matriz política do regime, tornando-se assim a zona de Belém num lugar de evocação dos valores nacionalistas. 61 Goeses nas Ruas de Lisboa III.4 - Rua Fernão Álvares do Oriente Fernão Álvares do Oriente nasceu provavelmente em Goa, por volta do ano de 1530.75 Os poucos dados biográficos dificultam traçar uma narrativa mais rigorosa da sua vida, e logo o ano do seu nascimento, a incerteza é grande, não sendo possível dizer taxativamente qual a data exacta e se de facto nasceu em Goa. Torna-se criado de D. Pedro de Meneses, em 1550, que serve devotadamente na guerra e na paz. D. Pedro de Menezes era capitão de Ceuta, e por isso, Fernão Álvares do Oriente, deve ter guerreado no norte de África contra os muçulmanos. Em 1522, o rei D. João III atribui direitos e privilégios de cavaleiro reconhecendo os seus préstimos em prol do reino. Já no reinado de D. Sebastião, ao serviço do vice-rei D. António de Noronha, em finais de 1572 princípio de 1573, comanda uma fusta na Índia. O rei D. Sebastião nomeia-o cavaleiro fidalgo de sua casa, e concede-lhe a privilégio de viajar até à China e ao arquipélago de Sunda (indonésia). D. Sebastião no seu projecto de lutar contra os «infiéis» muçulmanos, empreende uma empreitada pouco reflectida ao norte de África para travar combates, alagar a influência portuguesa e expandir a fé cristã. O seu fervor religioso «cegou-o» ao ponto de não se aperceber as implicações que adviriam se algo acontece-se a si e as ostes que o acompanhava. Em 4 de Agosto de 1578, na batalha de Alcácer Quibir o rei Português morre arrastando consigo parte da elite portuguesa e a perda de independência do reino. Nessa batalha para além das mortes e feridos havia ainda os prisioneiros Portugueses e entre eles estava Fernão Álvares do Oriente, que acompanhara o rei na investida africana. No entanto, os seus serviços à coroa portuguesa são maioritariamente prestados no Índico. Já sob o reinado do rei Castelhano de Filipe I de Portugal, Fernão Álvares do Oriente, pelos seus serviços prestados no Oriente, na metrópole e em África, é-lhe concedida a tarefa de fazer duas viagens a Coromandel (Índia), em 1587. Ainda nesse ano, bate-se na defesa da fortaleza de Columbo na ilha de Ceilão. Quatro anos depois encontra-se a desempenhar a função de vedor da fazenda em Ormuz, ilha à entrada do Golfe Pérsico. Fernão Álvares do Oriente, ao longo da sua vida, pela serventia desempenhada ao reino Português, tornou-se uma figura provavelmente muito importante, e os seus comentários pouco favoráveis ao rei espanhol Filipe I de Portugal, desencadearam neste um repúdio, ordenando ao vice-rei na Índia, Matias de Albuquerque, que o enviasse a Lisboa. Já com a 75 Não há a certeza do local de nascimento de Fernão Álvares do Oriente. Das várias fontes que consultei há informações que dão como local de nascimento Goa e outras referem-se desconhecer o seu local de nascimento. No entanto decidi incorporar este nome, independentemente da certeza da sua origem, porque esta figura inserese na minha opinião na estratégia de valorizar personalidades oriundas de Goa. 62 Goeses nas Ruas de Lisboa governação de Filipe II de Portugal, Fernão Álvares do Oriente é incumbido de no cargo de escrivão do galeão da carreira das Molucas (Indonésia) por duas viagens, tendo em conta dos doze anos prestados ao serviço da coroa Portuguesa no Oriente, em actos de guerra, expedições militares e defesa de fortalezas. Na sua vida militar chegou mesmo a ser ferido. Mas nem só de feitos guerreiros é feita a sua vida. Fernão Álvares do Oriente ficará para a história também pela sua escrita. Esta figura é também um notável escritor, que no entanto, vê-se ofuscado por viver numa época em que um outro nome das letras escreveu a grandiosa obra Os Lusíadas. De facto, Luís Vaz de Camões, que morrera em 10 de Junho de 1580, deixara um legado precioso em termos literários, que fez com que ainda hoje os autores coevos sejam ignorados ou inferiorizados. Fernão Álvares do Oriente escreveu a Lusitânia Transformada, uma obra poética, que centra a sua temática na natureza, nos cenários bucólicos e pastoris, em especial do império Português e é uma reacção ao mercantilismo. A Lusitânia Transformada é uma novela que abarca a prosa e a poesia, de cariz critico ao seu tempo. O Homem desliga-se da natureza e envolve-se num certo estilo de vida ligado ao mercantilismo. É portanto uma obra literária que analisa o seu tempo sem se coibir de apontar as falhas humanas e afirmar a natureza como lugar ideal de redenção para o Homem. O plano de urbanização de Alvalade levada a cabo no período correspondido entre o final da década de 40 e o início dos anos 70 criou um novo bairro em Lisboa. Era necessário atribuir designações à nova malha urbana. Primeiramente nomearam-se os arruamentos por números. Em 26 de Novembro de 1951 os moradores da célula 7 pedem à Comissão Toponímica Municipal, para atribuir nomes às ruas do bairro de Alvalade. Em reunião, a comissão propôs nomear os arruamentos da zona com nomes de escritores do séc. XVI preferencialmente.76 Por sugestão do vice-presidente. Luís Pastor de Macedo, da Camara Municipal de Lisboa foi designado uma rua com o nome de Fernão Álvares do Oriente. O que leva a crer que para esta decisão foi tido em conta mais o lado literário de Fernão Álvares do Oriente, que o seu passado guerreiro. O presidente da comissão e vereador, Pedro Correia Marques, juntamente com os vogais Gustavo de Matos Sequeira, Jaime Lopes Dias e João da Silva assinaram na acta nº 33 a decisão de atribuir o nome deste homem das armas e das letras um arruamento na freguesia de Alvalade. Em 6 de Março de 1952, em edital da camara é finalmente formalizada a proposta. A nomeação de Fernão Álvares do Oriente para um arruamento de Lisboa é fruto da política de Salazarista, de afirmar a posição portuguesa no 76 É neste contexto que surge o nome de Fernão Álvares do Oriente. É assim realçado o seu lado literário e não tanto o de guerreiro, mas como é dito neste trabalho há outras motivações. 63 Goeses nas Ruas de Lisboa oriente. A evocação de figuras históricas portuguesas ligadas aos grandes feitos dos descobrimentos e militares era apanágio do regime. Em 1952, já a pressão anticolonialista se fazia sentir no mundo. III.5 - Largo Cristóvão Aires Cristóvão Ayres de Magalhães Sepúlveda nasceu em 1853. Era filho de Rafael Aires de Magalhães e de D. Amália de Sousa Sepúlveda. Foi um militar que despenhou diversos cargos e missões no exército Português. Para além da sua condição de militar desempenhou outras actividades e funções diversas. Como militar pertenceu à arma de cavalaria, onde atingiu o posto de coronel e tenente-coronel. Foi lente na Escola do Exercito. A sua condição militar possibilitou de defender a instituição a que pertencia e, por isso, promoveu as questões relacionadas com os militares e a sua corporação. Homenageou os militares expedicionários em África em sessão solene na Escola do Exercito. E essa sua luta não se resumiu aos quarteis, enquanto jornalista defendeu os interesses e direitos dos militares. Trabalhou no jornal do Commercio e Colonias, que veio a dirigir de 1885 a 1892 e, neste órgão de comunicação chegou a ocupar o lugar de director, dirigiu ainda o Noticias de Lisboa e A Tarde.77 A sua intensa actividade não se resume a questões militares e jornalísticas, também na política activa teve um papel preponderante. Aderiu ao Partido Regenerador, pelo qual foi eleito por três vezes deputado pelos círculos de Goa.78 Foi nomeado governador civil dos distritos de Bragança e de Coimbra. Foi socio de diferentes instituições como: Academia das Ciências; Academia de Historia de Madrid e do Instituto de Coimbra. Não se preocupou só com assuntos do foro militar e político. Foi escritor e poeta, deixando varias obras. Enquanto escritor deixo-nos livros dedicados a temáticas militares como a História do Exército Português em 17 volumes ou a Teoria da história da civilização militar. Na sua condição de deputado deixou alguns discursos e trabalhos editados como: A venda da Índia; discurso proferido na câmara dos deputados, nas sessões de 22 de Junho e 3 de Julho de 1891, ou a Equidade nos novos impostos, os serviços e as despezas do exército; discursos efectuados na câmara dos Deputados nas sessões de 12 e 13 de Fevereiro de 1892. Cristóvão Ayres de Magalhães Sepúlveda dedicou-se também à literatura, destacando-se como poeta e escritor de ficção. Realço as obras Longinquas: phantasias orientaes, Indianas e portuguezas, Anoitecer 77 Cf. Pinto, A. C., Cruz. M. B. Dicionário Biográfico Parlamentar (1935-1974). (Vol. III), 2004, p.624. Eleito deputado pelo círculo de Mapuçá, na legislatura de 1890-1892 e eleito pelo círculo de Nova Goa em 1894, pelo qual seria reeleito em 1901. 78 64 Goeses nas Ruas de Lisboa e Intimas. A sua produção prolífera é ainda caracterizada pelo estudo da história, e dentro deste campo deixou-nos algumas obras. Fernão Mendes Pinto: subsídios para a sua biografia e para o estudo da sua obra e Fernão Mendes Pinto e o Japão: pontos controversosdiscussão-informações novos. Chegou ainda a fazer tradução. O livro do escritor francês de ficção fantástica, Júlio Verne, O bilhete de lotaria nº 9.672, foi por si traduzido para português. Cristóvão Ayres de Magalhães Sepúlveda foi uma personalidade multifacetada, com actuação profissional e cívica em diversas áreas, da carreira militar, passando pela política, a história, a tradução até à poesia e ficção. Faleceu em Lisboa em 1930. A Comissão Toponímica Municipal decidiu atribuir ao arruamento, Praceta I da Rua 59 à Rua 59, o nome de Cristóvão Aires, na freguesia de Alvalade. O edital nº 16/55 de 20 de Outubro de 1955 fica confirmada a decisão da comissão toponímica. O edital está assinado pelo vice presidente da Camara Municipal de Lisboa, Luís Pastor de Macedo. A municipalidade lisboeta em 1955 homenageia um filho de Goa.79 A minha tese vai no sentido de que esta e outras nomeações para arruamentos da cidade, em especial no período compreendido entre a independência da Índia, em 1947 e Dezembro de 1961, a invasão de Goa, têm um cunho político. Visam demonstrar sobre a opinião nacional e internacional a capacidade de Portugal em civilizar as colónias e que todos dentro do império são iguais e tem oportunidades idênticas, por isso os que se destacam-se são recordados independentemente da sua origem. É uma forma de aliviar a pressão a que Portugal já estava submetido neste período tentando valorizar os seus argumentos políticos para a manutenção das colónias. III.6 - Rua Agostinho Lourenço Agostinho Vicente Lourenço nasceu na cidade de Margão em 24 de Janeiro de 1862.80 Foi um bom aluno nos estudos preparatório e na Escola Médica em Pangim, onde se licenciou e encaminhou-se para ser professor. Contudo não estava destinado a ser professor ou medico, o seu gosto e carreira iriam seguir a via da disciplina da química como forma de apoiar a medicina. Viaja até Portugal e depois para Paris onde visitou centros médicos de excelência. É em França que desenvolve os seus estudos, chamando a atenção do Dr. Grandrin, autoridade da medicina francesa. Agostinho Lourenço, mais interessado na 79 80 Em 1955 a pressão da União Indiana já se fazia sentir. Margão, sede do concelho de Salsete, distrito de Goa sul. 65 Goeses nas Ruas de Lisboa investigação da química orgânica, prefere trabalhar com o laboratório de Wurtz. Dr. Grandrin nota bem essa aptidão de Agostinho Lourenço para o trabalho em laboratório. Agostinho Lourenço e outros colegas desenvolvem trabalho de investigação que rapidamente chama atenção da Academia de Ciências de Paris. Viaja para a Alemanha para estudar com outros colegas e faz o mesmo em Inglaterra onde se casa. Regressa a Paris para concluir o doutoramento em ciências naturais e complementar o curso de engenheiro civil. A sua já grande reputação permite que seja convidado para dirigir na Faculdade de Medicina de Leon, a cadeira de química orgânica e toxicologia, que no entanto recusa, regressando a Portugal, em 1862, abandonando a hipótese de ter uma carreira brilhante em França.81 Em Portugal é convidado pelo Duque de Loulé, então presidente do Conselho de Ministros, chefiar o departamento de química orgânica no Politécnico de Lisboa. Nesta mesma instituição, dois anos mais tarde torna-se professor, reformulando o ensino da química. Agostinho Lourenço foi ainda membro da Real Academia de Ciências de Lisboa. O seu conhecimento na disciplina que abraçou e as investigações que fez permitiu-lhe apresentar-se em Paris, num congresso mundial, o seu estudo sobre as águas minerais de Lisboa, Chaves, Vizela, Vidago e outras localidades de Portugal. Este trabalho mereceu uma honrosa distinção ao receber a medalha de ouro do certame. Apresentou ainda outros trabalhos de investigação na sua área de eleição, a química, no Jornal de Física, Química e Ciências Matemáticas da Real academia das ciências de Lisboa. Foi enviado a Londres, pelo governo Português para avaliar o progresso industrial na Exposição Mundial das Industrias na capital Britânica. Participou em inúmeros encontros científicos em Portugal e no estrangeiro. Foi uma figura relevante nas ciências, no contexto Português e o seu contributo para química, o seu ensino e desenvolvimento em Portugal foram importantes. Reconhecendo a excelência de Agostinho Lourenço, a Academia da Ciências de Lisboa tem nas suas instalações um busto deste notável cientista. Existe também um busto em sua honra no jardim municipal da cidade de Margão no Estado de Goa, recordando um filho da terra. Morreu em Lisboa a 13 de Fevereiro de 1893. Como já foi referido neste trabalho, antes da criação da Comissão Toponímica Municipal, eram os elementos camarários que nomeavam os arruamentos em lisboa. O nome de Agostinho Lourenço começou a ser aventado, logo no início do séc. XX para designar uma rua da cidade. Em reunião extraordinária da Comissão Administrativa do Município de Lisboa, em 4 de Junho de 1903, foi proposto pelo seu presidente, Sr. Conde d`Avila, dar o nome de Agostinho Lourenço a um arruamento entre a Av. António Augusto Aguiar e a Rua 81 Cf. Vaz, J. C. Profiles of Eminent Goans Past and Present, 1997, p.229. 66 Goeses nas Ruas de Lisboa de S. Sebastião da Pedreira. Em edital de 8 de Junho de 1903 ficou expressa essa vontade. Já com a Comissão Toponímica Municipal a funcionar, em 18 de Junho de 1946, esta visita o local da Rua Agostinho Lourenço, que estava em obras, e que seria integrada no arruamento de Filipe Folque. Deixando portanto de existir a rua Agostinho Lourenço. Era necessário atribuir uma outra rua. A Comissão Municipal Toponímica, reunida em 11 de Novembro de 1955, decide atribuir a um troço a norte da Av. Aeroporto. Ficava assim decidido a nova localização do topónimo Agostinho Lourenço na freguesia do Areeiro. No edital de 15 de Março de 1956, carimbava-se de vez a decisão da comissão.82 Esta nomeação para um arruamento é aplicada no fim da década de 50, e é um dos vários nomes, relacionados com Goa, que são lembrados neste período. III.7 - Rua Abade Faria José Custodio de Faria (Abade Faria) é uma figura lendária e percursora na ciência. Nasceu em Candolim, concelho de Bardez, a 30 de maio de 1756. Seu pai, Caetano Vitorino de Faria e sua mãe Rosa Maria de Sousa viveram conjugalmente até pouco depois do nascimento de José Custodio de Faria. O casal separar-se-ia para abraçar a vida religiosa, como sacerdote, o pai, e a mãe ingressou no convento de Santa Mónica de Goa. Com quinze anos, em 1771, José Custodio de Faria e seu pai viajam para Portugal, de onde por recomendação das autoridades civis e eclesiásticas foram para Roma. O José Custodio de Faria completaria em Itália o doutoramento do curso de teologia e filosofia em 1780, na Universidade de Roma, e regressa a Portugal para ser pregador da Capela Real.83 Manteve-se em Portugal durante oito anos, de onde subitamente juntamente com o seu pai sai para França. Esta saída repentina deve-se provavelmente à descoberta ou suspeita de envolvimento do seu pai na “Revolta dos Pintos” em 1787, em Goa, contra o poder colonial Português. Uma revolta que saiu frustrada. Em França, Abade Faria participa activamente na Revolução Francesa. Em 1795 lidera um batalhão revolucionário, e este seu contacto com a revolução permite-lhe a convivência com personalidades políticas. Ingressa no ensino e dá aulas em liceus em Marselha, Nimes e outras localidades. Regressa a Paris como professor de filosofia e principia o estudo da hipnose. Começa a ser conhecido pelas suas investigações nesta área da hipnose e desafia a teoria do hipnotizador e os fenómenos que ocorrem dentro de si. A 82 A freguesia do Areeiro sofre um grande impulso urbanístico durante a regência do Estado Novo, e é dessa transformação, que surge a Rua Agostinho Lourenço. 83 Cf. Vaz, J. C. Profiles of Eminent Goans Past and Present, 1997, p.297. 67 Goeses nas Ruas de Lisboa igreja condena a sua teoria e designa de diabólica. Defendia a teoria que o hipnotismo era meramente um processo de auto-sugestão. A sua obra Da Causa do Sono Lúcido no Estudo da Natureza do Homem, publicada em Paris em 1819, causa inúmeras discussões e abre o caminho para sua fama. Abade Faria desperta a curiosidade de grandes nomes, mas é após a sua morte que é valorizada a suas descobertas e obras. O Professor Egas Moniz (investigador de medicina), Albert Pitres (fisiologista francês), François-René de Chateaubriand (escritor) e Alexandre Dumas (escritor) foram algumas das personalidades que nas suas áreas de actuação fizeram algum tipo de referência ao Abade Faria.84 Foi ainda membro da Academia de Medicina de Marselha. Morreu a 20 de Setembro de 1819 em Paris. O seu campo de estudo, a hipnose foi valorizado e contribuiu para o nascimento desta ciência, que muitos anos mais tarde seria valorizada já sem os preconceitos religiosos, que a ligavam a manifestações do diabo. Abade Faria foi um percursor da hipnose e o seu reconhecimento veio só depois da sua morte. Logo em 1945, a 16 de Novembro, numa das primeiras reuniões da Comissão Toponímica Municipal, a camara de Lisboa debruça-se sobre a hipótese de atribuir o nome de Abade Faria a um arruamento da cidade.85 A sugestão parte do vereador da municipalidade de Lisboa, Dr. Viegas da Costa. Na acta nº 17 da referida comissão, presidida pelo vereador João Couto e constituída pelos vogais, Augusto Vieira da Silva, Luís Pastor de Macedo, Jaime Lopes Dias e Armindo Augusto de Oliveira Henriques fica decidido atribuir o nome de Abade Faria a uma rua de Lisboa sem no entanto definir qual o arruamento. A Comissão Toponímica Municipal em reunião de 10 de Março de 1950 sugere que o troço urbano entre a Alameda D. Afonso Henriques e a rua Alves Torgo seja dado o nome de Abade Faria. Uma comissão de homenagem à memória do cientista encabeçada pelo Prof. Egas Moniz, Dr. Luís Cunha Gonçalves e Marquês de Faria tinha proposto à camara de Lisboa o nome de Abade Faria. É este pedido que desencadeia a decisão da camara, que na acta nº 26, o vereador Pedro Correia Marques e os vogais Augusto Vieira da Silva, Durval Pires de Lima, Jaime Lopes Dias e João Silva fica registrado o pedido e a resolução da comissão toponímica. Na acta nº 54 de 13 de Julho de 1956 a pedido do vice presidente da Camara Municipal de Lisboa a Comissão Toponímica de Lisboa volta-se a confirmar o nome 84 O escritor francês, Alexandre Dumas escreveu a obra literária O Conde de Monte Cristo, onde uma das personagens é o Abade Faria. Em Goa, ergueu-se uma estátua em sua memória. 85 1945, é o ano em que é aventada pela primeira vez a hipótese de o nome de Abade Faria constar na toponímia é no entanto só em 1950, com a proposta de uma comissão de homenagem ao ilustre cientista, que a proposta é tida em conta, já com a União Indiana formalizada. 68 Goeses nas Ruas de Lisboa da rua Abade Faria. A 5 de Junho de 1957 a comissão reúne para decidir que nomenclaturas devem apresentar os escritos em algumas placas toponímicas. Entre as quais está a de Abade faria. Fica decidido em acta nº 58 que a rua apresenta-se da seguinte forma: Rua Abade Faria cientista – 1756-1819. Esta resolução teve as assinaturas do presidente vereador, Augusto dos Santos e dos vogais, Gustavo de Matos Sequeira, Jaime Lopes Dias e João da silva. Lisboa recordava assim este ilustre cientista do séc. XVIII e XIX na freguesia do Areeiro. Desde 1945, a primeira vez que é aventada a hipótese do nome de Abade Faria constar num arruamento de Lisboa, até 1957, com a definitiva decisão da nomenclatura da placa toponímica, a Comissão Toponímica Municipal, debruça-se sobre este nome para o comtemplar no espaço público da capital. Decorre o período em que progressivamente a Índia pressiona Portugal para discutir o futuro de Goa. Abade Faria é um dos nomes de Goeses que neste período são inseridos em arruamentos lisboetas, na minha perspectiva com a intenção de valorizar as pretensões portuguesas de permanecer nas colónias, apesar do impulso Prof. Egas Moniz ter sido importante e que o regime aproveita, apesar da incontestável importância da personalidade, o Abade Faria. III.8 - Praça Sócrates da Costa Jerónimo Salvador Constantino Sócrates da Costa nasceu na cidade de Margão86, na Índia portuguesa, a 28 de Março de 1898. É em Portugal que frequenta os estudos superiores na Universidade de Coimbra em que frequenta o curso de Direito, tendo-se formado em 1925. Já com o diploma de formatura envereda pelo ensino exercendo a actividade de professor no ensino secundário, no Liceu Rodrigues de Freitas e na Escola Oliveira Martins, na cidade do Porto. Sócrates da Costa prosseguiu a sua carreira profissional na sua área de formação. Foi notário e Subdelegado do Procurador da República da Comarca de Caminha. Na Comarca do Concelho de Goa no fim da sua vida entre 1935 e 1957 exerceu também a função de notário. A sua vida foi pautada pela intervenção política, tendo feito parte de várias instituições. Foi deputado em três legislaturas na Assembleia Nacional eleito pelo círculo de Goa. Entre 19491953 na V legislatura, de 1953 a 1957, na VI legislatura e, finalmente na VII Legislatura de 1957 a 1959. Outra instituição na qual colaborou, e que era uma marca do regime do Estado Novo foi a Mocidade Portuguesa. Nesta instituição foi Comissário Provincial Adjunto da Mocidade Portuguesa da Índia e Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa para o 86 Cidade de Margão situa-se no distrito de Goa Sul. 69 Goeses nas Ruas de Lisboa Ultramar. É aliás em Goa que desenvolve parte da sua vida política, onde chega a exercer o cargo de Presidente da Camara Municipal de Goa. Sendo uma figura grada ao regime, as funções abrangeram também o partido político que suportava o Estado Novo. Pertenceu à Comissão Distrital da União Nacional de Viana do Castelo foi Presidente da Comissão Provincial da União Nacional da Índia. Pelos serviços prestados à nação portuguesa, foi designado Comendador da Ordem da Instrução Publica, em 15 de Abril de 1952, e da Ordem do Império, esta última condecoração foi atribuída a título póstumo em 10 de Dezembro de 1959.87 Foi socio do Instituto Vasco da Gama. Sócrates da Costa deixou-nos ainda alguns escritos onde expõe as suas ideias políticas nas publicações, O estado novo e a constituição política da república portuguesa de 1940 e Goa na história da civilização, de 1947. Foi casado com Maria Adozinda Guimarães Mendes, natural de Barcelos, com a qual teve quatro filhos. Jerónimo Salvador Constantino Sócrates da Costa faleceu em 10 de Novembro de 1959, nos E.U.A., ao serviço de Portugal, integrado na delegação portuguesa da Organização das Nações Unidas.88 Esta personalidade Goesa, pelos serviços prestados a Portugal, no apoio que desenvolveu nas intuições políticas do regime, nomeadamente na Mocidade Portuguesa, como deputado e também como professor, torno-o numa figura grada ao regime e de expectável exaltação. A sua morte ocorreu no final da década de 50, quando o problema de Goa se colocava, com a Índia disputar o território com Portugal. É neste contexto político, sob pressão Indiana, que no edital de 2 de Janeiro de 1960, a Camara Municipal de Lisboa atribui a uma praça da freguesia do Beato o nome de Sócrates da Costa. A 3 de Março de 1960 a Comissão Toponímica Municipal volta a reunir para discutir a apresentação dos letreiros de alguns arruamentos entre os quais está a Praça Sócrates da Costa. Esta reunião realizou-se, com o intuito de analisar as propostas da Repartição de Acção Cultural e Turismo e do despacho da presidência da Camara Municipal de Lisboa para rever algumas nomenclaturas toponímicas. Na acta nº 69/1960 da reunião fica decidido que esta praça da freguesia do Beato se apresenta da seguinte forma: Praça Sócrates da Costa, Figura de relevo da Índia Portuguesa, 1898-1959. Este seria o último Goês a ser nomeado para um arruamento lisboeta antes da invasão da União Indiana do então território Português. A nomeação de Sócrates da Costa seria assim um marco, pois, depois de si, todos os outros Goeses agraciados com o seu 87 Certifiquei-me das datas das condecorações de Sócrates da Costa na página da internet da Presidência da Republica Portuguesa: http://www.ordens.presidencia.pt/ 88 Para a realização desta pequena biografia de Sócrates da costa tive a colaboração preciosa de um seu parente, o engenheiro Pedro Costa, que forneceu informações preciosas. 70 Goeses nas Ruas de Lisboa nome na toponímia de Lisboa inserem-se num contexto diferente, mas a política do Estado Novo continua a mesma – a afirmação da missão civilizacional portuguesa nas colónias. III.9 - Avenida Professor Gama Pinto Caetano António Cláudio Júlio Raimundo da Gama Pinto nasceu na localidade de Saligão, a 30 de Abril de 1853.89 Começou por estudar em Goa, onde frequentou o Liceu Nacional Afonso de Albuquerque em Pangim. Com perto de vinte anos rumou a Portugal para continuar os estudos, em 1872. Inscreveu-se nas escolas preparatórias do Porto e Coimbra, onde concluiu a formação básica. Chega a matricular-se no Politécnico do Porto mas envereda pela medicina. Em 1873 inicia a frequência na Escola-Médico Cirúrgica do Porto. A sua vocação era a medicina e o seu gosto por esta área leva-o a ter boas classificações nos estudos. A área de especialização pela qual tem maior afeição é a oftalmologia. Para completar a sua formação escolhe os grandes centros europeus. Viaja até Munique, Leipzig e Berlim, Paris e Viena onde faz estágios nas respectivas universidades destas cidades. A sua especialização em oftalmologia é concluída em Viena com os doutores Arit e Jacger e em Heidelberga com os doutores Kuchno e Arnold. Devido à sua boa formação em medicina, é logo em 1889, nomeado para Director dos Serviços de Saúde e Professor da Escola MédicoCirúrgica de Goa. Recusa porque entretanto recebeu um convite do Professor Otto Becker, Director da Universidade Heidelberga, onde estudara pouco tempo antes. O convite era para trabalhar na clinica de oftalmologia de Otto Becker, mas de imediato é também solicitado pela Universidade Heidelberga de ministrar o curso prático de Oftalmologia e de Cirurgia Óptica, que exerce dando aulas a grande número de alunos. Caetano Gama Pinto faz o seu doutoramento nesta universidade apresentando a tese Patologia dos Tumores Intra-Oculares. Devido à qualidade do trabalho apresentado recebe o grau de Privat Docent. Este agraciamento e o seu trabalho desenvolvido permitem-lhe progressivamente subir na carreira médica e académica. Publica vários estudos no seu campo médico de eleição como: Um estudo histórico-patológico na ocorrência de kariokynesis inflamada do homem, e em colaboração com o Professor Becker e o Doutor herkman Shafer escreve; Contribuição para o estudo da lente normal e patológica. Torna-se membro da Sociedade Internacional de Oftalmologia. Com um currículo rico de experiencias, com o grau académico de doutor e devido ao estatuto que adquiriu na Europa, é incentivado a regressar a Portugal, e é convidado 89 Saligão situa-se no concelho de Bardez, no distrito de Goa Norte. 71 Goeses nas Ruas de Lisboa por José Luciano de Castro, então Presidente do Conselho de Ministros, para professor na Faculdade de Medicina de Lisboa e a criar o Instituto Oftalmológico de Lisboa.90 Este instituto é fundado em 1892. Gama Pinto esteve indeciso em voltar a Portugal porque no centro da Europa tinha excelentes condições para exercer a sua actividade como médico e investigador, mas regressa. O seu contributo em Portugal foi enorme pois ajudou a medicina oftalmológica no país e, o instituto formado por si é fundamental para a saúde ocular. Aliás os seus préstimos foram valiosos ao ponto de o instituto fundado por si ter o seu nome, Instituto Oftalmológico Gama Pinto. Apesar do seu contributo para a medicina em Portugal, invejas e calúnias vieram – lhe incomodar. Agastado e desiludido ruma ao Brasil, onde é-lhe oferecido oportunidades de trabalho. Entretanto, o bom senso prevaleceu em Portugal, e Gama Pinto é de novo convidado a regressar. Desenvolve intensa actividade médica e reorganiza os serviços de oftalmologia e o seu estudo. Devido ao seu pioneirismo no exercício, estudo e ensino da oftalmologia em Portugal, foi rapidamente reconhecido como personalidade importante para a medicina no país. Participou em diversas conferenciais, escreveu em revistas da especialidade e investigou. Criou a técnica de operação oftalmológica “ Keroplastia Dr. Gama Pinto”. É um percursor e pioneiro da oftalmologia em Portugal. Morreu em Lisboa a 26 de Julho de 1945. O Doutor Gama Pinto foi uma personalidade de enorme importância para a introdução em Portugal da especialidade médica de oftalmologia. Reconhecendo esse facto e poucos anos após a sua morte, o Circulo dos Amigos da Índia fazem um pedido, em 15 de Junho de 1953, ao presidente da Camara Municipal de Lisboa, Álvaro Salvação Barreto, solicitando a atribuição do nome do Dr. Gama Pinto a um arruamento da cidade de Lisboa, de preferência na Rua das Taipas, onde viveu aquele grande cientista e professor durante quarenta anos. Analisando o pedido feito pelo Circulo dos Amigos da Índia, a Comissão Toponímica de Lisboa decidiu atribuir o seu nome a um dos novos arruamentos junto do Hospital Escola. A Comissão Toponímica analisou e aprovou o caso em 12 de Outubro de 1953. Na acta nº 40 constavam os nomes dos elementos constituintes da Comissão Toponímica de Lisboa: Presidente, Vereador Pedro Correia Marques e os vogais; Gustavo de Matos Sequeira, Durval Pires de Lima, Jaime Lopes Dias e João da Silva. A questão não ficou resolvida e de novo em 23 de Abril de 1954, a Comissão Toponímica de Lisboa volta a emitir um parecer para que seja atribuído um dos arruamentos junto à cidade Universitária o nome de Gama Pinto. Na acta nº 41 constam os nomes dos membros da comissão: Presidente e vereador Pedro Correia Marques e os vogais; Gustavo de Matos Sequeira, Jaime Lopes Dias e 90 Cf. Vaz, J. C. Profiles of Eminent Goans Past and Present, 1997, p.216. 72 Goeses nas Ruas de Lisboa João da Silva. Em 5 de Junho de 1967, a Comissão volta a reunir para analisar e emitir parecer para que o nome do Dr. Gama Pinto denomine a avenida “F” da Cidade Universitária de acordo com o respectivo letreiro indicando “ Avenida Professor Gama Pinto 1853 -1945”. Esta ultima reunião que resolveu definitivamente a questão quanto ao arruamento a designar para o nome de Gama Pinto esteve como presidente e vereador António Morais de Carvalho e os vogais Alberto Gomes e Henrique Martins Gomes. Estava definitivamente perpetuado o nome de Gama Pinto num arruamento da cidade de Lisboa.91 O seu nome havia sido equacionado antes da invasão de Goa, em 1961. É no entanto depois desse facto histórico que é perpetuado no espaço público da cidade. III.10 - Avenida Dr. Francisco Luís Gomes Francisco Luís Gomes nasceu em Navelim, em 31 de Maio de 1829. 92 Formou-se na Escola Médica de Goa com distinção. Foi desde logo nomeado professor e cirurgião chefe na mesma instituição. Desde cedo revelou aptidão para falar diversas línguas, era um poliglota dominando para além do português e concani, o francês, inglês, italiano, castelhano, latim e marati. Esse gosto e facilidade em dominar vários idiomas leva-o a rever a gramática em inglês de concani de Thomas Stevens.93 As lutas liberais em Portugal, em que digladiam-se partidários do regime absolutismo e liberais, haviam de implantar durante períodos inconstantes a possibilidade de criar a forma política de governação assente numa Monarquia constitucional. Isso permite que nas colónias sejam eleitas figuras desses territórios e ter, representação e voz no regime liberal. É neste contexto que é eleito pelo Partido Regenerador, pelo círculo de Salsete, em 1861 e 1864, onde os seus dotes de orador sobressaem e as suas causas em prol da justiça, liberdade e verdade e, em 1867 é eleito por Bardez.94 A actuação política valeu-lhe convites para ser ministro do reino, a que Francisco Luís Gomes recusa evocando incompatibilidade em relação à sua visão independente em diversos pontos de vista. Mas as suas actividades não se restringiam à política e à medicina, também a economia era um assunto no qual se debruçou, criando uma serie de estudos do qual realço: A questão do algodão em Inglaterra e as possessões portuguesas da África Ocidental, que lhe valeu um reconhecimento ao nível europeu como economista, ou o estudo da agricultura e as reformas a 91 Avenida Professor Gama Pinto situa-se na freguesia de Alvalade. É o primeiro nome evocado após a invasão de Goa, mas ainda na regência do Estado Novo. 92 Navelim é uma localidade do concelho de Salsete. 93 Cf. Vaz, J. C. Profiles of Eminent Goans Past and Present,1997, p.250. 94 Cf. Mónica, M. F. Dicionário Biográfico Parlamentar (1935-1974). (Vol. II), 2005, p.333. 73 Goeses nas Ruas de Lisboa empreender no sector, em Goa. Ingressa como membro na Sociedade de Economistas de Paris. Francisco Luís Gomes visita a exposição mundial de Paris em 1867, e é nessa circunstância que é publicamente distinguindo pela elite de economistas Franceses, pelo seu contributo para a ciência política e economia. Sendo recebido pelo rei Napoleão III. Francisco Luís Gomes era um intelectual multifacetado, as suas áreas de intervenção são diversas. Um dos campos em que trabalhou foi na literatura. Do seu labor realço o título, a novela Os Bramanes, onde é caracterizada as castas indianas e as barreiras sociais na Índia. Escreveu em Português e Francês. Francisco Luís Gomes foi um intelectual reconhecido em Portugal, Europa e na Ásia, nomeadamente pelas instituições como: Royal Asiatic Society of Bombay; foi membro da Sociedade de Ciências Medicas de Lisboa; da Sociedade de Economistas de Paris; da Sociedade de Economia Politica de cádis; da Real Academia de Ciências de Lisboa; doutorado em ciências sociais e políticas da Universidade de Louvain, na Bélgica. Francisco Luís Gomes teve um extenso currículo académico, tornando-o num intelectual de referência do seu tempo. O seu desejo era passar o resto da vida na sua terra natal. Morre na viagem de regresso à Índia Portuguesa em 1869, sem ter conseguido chegar a Goa. Nos anos 60 e 70, Portugal via-se em guerra com os movimentos independentistas nas colónias Africanas.95 O regime do Estado Novo tentava a todo o custo preservar esses territórios. Portugal havia já perdido Goa para a União Indiana, em 1961. O bairro dos Olivais era uma recente construção para albergar a crescente população da cidade de Lisboa. Era necessário atribuir nomes aos novos arruamentos. É neste cenário que aparece o nome do Dr. Francisco Luís Gomes. Havia que perante a população portuguesa e se possível até para o exterior, fazer passar a mensagens que todos, no império Português, independentemente da sua origem social étnica ou geográfica, eram iguais em direitos e por isso se alguém destacase, o seu nome era considerado pelo regime. Foi o que aconteceu com o Dr. Francisco Luís Gomes, que apesar do extenso currículo que apresenta, o seu nome é aventado para constar na toponímia de Lisboa também devido às circunstâncias históricas da altura. O presidente da Camara Municipal de lisboa, António Vitorino Borges França, em 14 de Fevereiro de 1970, assina o edital nº 39/1970, aprovando a atribuição do nome do Dr. Francisco Luís Gomes, a uma avenida na freguesia dos Olivais. Cem anos após a sua morte, Francisco Luís Gomes é lembrado em Lisboa, muito possivelmente devido aos ventos da história que sopravam, pouco favoráveis a Portugal e à sua política colonial, logo é necessário evocar os Goeses de forma a manter a revindicação política deste território. 95 Guerra em três frentes africanas: Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. 74 Goeses nas Ruas de Lisboa III.11 - Rua Álvaro de Santa Rita Vaz Álvaro de Santa Rita Vaz nasceu em Loutulim, concelho de Salsete no distrito sul do Estado de Goa, em 1 de Abril de 1904. Esta personalidade era um defensor da presença portuguesa na Ásia. A sua vida foi pautada por defender o Estado Português da Índia. Com o 5º ano de escolaridade do liceu, em 1931 inicia-se na actividade jornalística no Jornal Heraldo. Primeiramente como redactor, posteriormente passa a redactor principal, chegando a proprietário do jornal. O Heraldo era publicado em Goa. Álvaro de Santa Rita Vaz era um grande defensor da política colonial para a Índia portuguesa, tal posição valeu-lhe ofensas e críticas ferozes. Com a invasão de Goa, em 1961, Álvaro de Santa Rita Vaz optou por residir em Portugal. Na metrópole envereda pela carreira política exercendo a função de deputado na IX legislatura (1965-1969). Na Assembleia Nacional realizou varias intervenções nas diversas sessões, desde a passagem de mais um aniversário da anexação do Estado Português da Índia pela União Indiana, a medidas de protecção tomadas pelo Governo em relação aos naturais do Estado Português da Índia, tudo isto na primeira sessão. Na segunda sessão não realizou intervenções. Na terceira sessão debruça-se de novo sobre as questões de Goa e a sua invasão, discorre sobre a atitude da Comissão de Curadorias da O.N.U. perante a ocupação do Estado Português da Índia por tropas da União Indiana. Refere-se à reacção do Governo da União Indiana, às declarações do Ministro dos Negócios Estrangeiros numa recente conferência de imprensa, a propósito da invasão e reclama atenção para a situação das colónias de Goeses existentes no Quénia. Na quarta sessão não houve de sua parte intervenções. Sendo um defensor do status quo vigente do poder colonial Português em Goa é com naturalidade que fosse comtemplado com honrarias de estado. É neste contexto que é agraciado como comendador da ordem do Infante Dom Henrique, em 13 de Março de 1963.96 Foi presidente da Comissão do dia de Goa desde 1964.97 As suas actividades passaram ainda por editar algum do seu pensamento relativo a Goa e à Índia. Foram publicados as suas obras: No Rescaldo do Esbulho do Estado Português da Índia, Quem com Ferro Mata, com Ferro há-de Morrer e A questão de Caxemira. Álvaro de Santa Rita Vaz veio a falecer a 8 de Outubro de 1969, em Lisboa. 96 Informação recolhida na pagina da internet da Presidência da Republica http://www.ordens.presidencia.pt/?idc=153&list=1 97 Cf. Pinto, A. C., Cruz. M. B. Dicionário Biográfico Parlamentar (1935-1974). (Vol. II), 2004, p.738. 75 Goeses nas Ruas de Lisboa A 15 de Maio de 1970, por meio de um despacho do antigo presidente da Camara Municipal de Lisboa, General França Borges, solicitando parecer da Comissão Toponímica Municipal sobre a atribuição do nome de Álvaro de Santa Rita Vaz a um arruamento. A comissão deu parecer favorável indicando a rua B à rua Coronel Ferreira do Amaral se denomine: Rua Álvaro de Santa Rita Vaz, 1905-1969. Este arruamento situa-se na freguesia de Penha de França. Na acta nº95/1970 figuram as assinaturas do Presidente e vereador, José Arraiano Tavares, Henrique Martins Gomes e Carlos Morato Carvalho confirmando a decisão tomada. No edital nº 85/70 de 20 de Maio de 1970, o presidente da Camara Municipal de Lisboa, Fernando Augusto Santos e Castro confirma a decisão da Comissão Toponímica Municipal. Devido às suas posições de apoio à política portuguesa de manter Goa, ao facto de ter sido deputado à Assembleia Nacional, o regime condecorou esta figura e perpetuou-a na toponímia, numa política de reconhecimento dos partidários e apoiantes do regime. Este é um dos nomes de figuras que apoiavam a política colonial e que no sistema do regime desempenharam funções importante. Neste contexto o Estado Novo reconheceu esta personalidade num arruamento. III.12 - Rua Cidade de Margão No iniciou dos anos sessenta do séc. XX, o Gabinete Técnico de Habitação da Camara Municipal de Lisboa, elabora o Plano de Urbanização dos Olivais Sul e sua concretização. A cidade alargava a sua malha urbana na zona oriental, um novo bairro nascia para Lisboa. A capital do país sofria de uma pressão migratória do campo para a cidade. Debatia-se com constrangimentos de falta de habitações de renda económica para a população de rendimentos parcos que procuravam casa. Outro factor a ter em conta era o problema da industrialização crescente. O aumento da população e os desafios que a cidade tinha que enfrentar em termos da organização urbanística era um problema. O aumento da população urbana não era só um problema Português, a questão tinha já sido abordada décadas antes, em 1933 no IV Congresso Internacional de Arquitectura Moderna na capital Grega, Atenas. Neste congresso é abordado o problema de acomodar a cada vez maior massa humana em meio urbano. Que cidade construir nesta situação? Resulta um manifesto urbanístico conhecido como a Carta de Atenas, que preconizava uma nova organização citadina. Defendia-se que as cidades deveriam ter espaços verdes e que a densidade populacional fosse baixa, que o 76 Goeses nas Ruas de Lisboa Homem deveria ter acesso, na cidade, a espaços para habitar, trabalhar e recriar-se. É sob este conceito urbanístico que é projectado e construído, a partir de 1960 o bairro dos Olivais – Sul. A cidade de Margão é a sede do concelho de Salsete.98 É portanto uma cidade situada nos territórios das velhas conquistas, ou seja, anteriores ao séc. XVIII. Neste território de presença portuguesa desde o séc. XVI, a pressão da religião católica teve como consequência a destruição de muitos templos hindus e também uma maior conversão, forçada ou consentida, de grande parte da população autóctone. Existe assim uma clara diferença cultural entre as velhas conquistas e as novas conquistas. A presença portuguesa mais intensa e duradoura na região das velhas conquistas possibilitou uma maior ocidentalização da população do que na região das novas conquistas, onde a população manteve, de uma forma geral, as suas práticas culturais e religiosas quase intactas. Na cidade de Margão encontra-se a Igreja de Espirito Santo monumento de interesse histórico. A cidade é também conhecida pelas varias casas e vilas senhoriais de traça indo-portuguesa e possuiu caminho-de-ferro que a liga ao porto de Mormugão, Goa, e ao resto da Índia. Este caminho-de-ferro foi construído ainda no período Português, no final do séc. XIX, pela companhia inglesa The West of India Portuguese Guaranteed Railway Company Limited. É ainda de salientar o Mercado Vasco da Gama e o Mercado Afonso de Albuquerque. Em 1733 foi construído um forte. Esta cidade era um centro difusor da cultura religiosa católica, mas não só, para além de local de intensa actividade religiosa era um ponto de troca comercial entre as diferentes comunidades que constituíram a população goesa. A Cidade de Margão é uma das localidades com maior expressão populacional do estado de Goa, tanto actualmente como no período da presença da administração colonial portuguesa. É esta importância histórica da cidade dentro do contexto goês que leva à sua designação na toponímia de Lisboa. Com a construção dos Olivais-Sul99 foi necessário atribuir nomes às ruas. Estávamos no final da década de sessenta principia da de setenta. Ora decorria nessa época um facto histórico muito importante para a vida dos Portugueses, a guerra colonial de África. Num último esforço de controlar e manter o império, o regime do Estado Novo, embarca numa guerra em três frentes, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Mais uma vez a toponímia da cidade é usada como forma de perpetuar nos arruamentos da cidade antropónimos, como nomes de localidades do sistema colonial português, mas também para na mente dos cidadãos, 98 A Cidade de Margão fica situada no interior do concelho de Salsete, no Distrito do Sul, Goa. Olivais-Sul fica situada na freguesia de Santa Maria dos Olivais, na parte oriental de Lisboa, zona urbanizada nos anos 60 e 70 do séc. XX. 99 77 Goeses nas Ruas de Lisboa criar a percepção de que Portugal tinha direito a esses territórios além-mar. É assim que são atribuídos nomes de cidades africanas, como: Cidade da Praia, Cidade de Bissau, Cidade de Bolama, Cidade de Bafatá, Cidade de Quelimane, Cidade Vila Cabral, Cidade de Tete, Cidade Nova Lisboa, Cidade Salazar e Cidade de Benguela.100 Cidades asiáticas das colónias portuguesas também são comtempladas como: Díli (Timor-Leste) e Margão (Goa). Em reunião da Comissão Municipal de Toponímia, a 8 de Julho de 1970, é decidido atribuir a arruamentos dos Olivais-Sul, nomes de cidades das colónias portuguesas. A decisão foi lavrada na acta nº 96 pelo presidente e vereador da comissão, José Tavares e por, Durval Pires de Lima, Henrique Martins Gomes e Carlos Morato Carvalho. A data do edital é de 11 de Junho de 1970 e tem a assinatura do então Presidente da Camara Municipal de Lisboa, Fernando Augusto Santos e Castro. III.13 - Largo Primeiro Tenente João Rodrigues de Moura João Herculano Rodrigues de Moura era filho de João herculano de Moura, que formou-se em farmácia na Escola Médico-cirúrgica de Lisboa em 1856 e Dona Gertrudes Magna Rodrigues. Seu pai depois de formado requereu o posto de farmacêutico no quadro de saúde do Estado Português da Índia, para onde embarcou em 23 de Dezembro de 1856. João Rodrigues de Moura nasceu na cidade de Margão em 25 de Janeiro de 1871. Envereda pela carreira militar na Marinha de guerra. Assentou praça em 16 de Outubro de 1887. A sua progressão na hierarquia militar é rápida. Chega a aspirante de 2ª classe, em 27 de Novembro de 1887, e a aspirante de 1ª classe, a 27 de Outubro de 1890. Em 17 de Maio de 1891 ocupa o posto de guarda-marinha, em 27 de Dezembro de 1892 é 2º tenente e em 30 de Março de 1898, atinge finalmente o posto de 1º tenente da Marinha Portuguesa.101 Como tenente foi comandante do vapor “Dilly” e dos contratorpedeiros nº2 e nº3. Neste fim de século registam-se em algumas colónias portuguesas revoltas. Em Moçambique, na Guiné, na Índia portuguesa, em Macau, em Timor-Leste e em Angola. Forças expedicionárias ou locais dominam revoltas das populações autóctones contra o poder colonial. É neste contexto que o primeiro-tenente João Rodrigues de Moura participa como imediato da canhoeira “Diu” nas campanhas de Timor (1895-1896), onde é ferido em combate. Esta sua participação valeu-lhe a condecoração com o grau de cavaleiro da ordem de 100 Estas e outras cidades, das antigas colonias portuguesas, estão ainda presentes na toponímia lisboeta, e algumas delas manteiem ainda o antigo nome colonial, como por exemplo Rua Cidade Nova de Lisboa, actual Huambo (Angola) e Praça Cidade Salazar, actual Matola (Moçambique). 101 Forjaz, J., Noronha, J. M., Os luso-descendentes da Índia portuguesa,2003, p. 814. 78 Goeses nas Ruas de Lisboa Torre e Espada e louvado pelo ministro da Marinha e pelo rei D. Carlos I. Foi adjunto do capitão do porto de Macau. Atinge o posto de governador de Diu e governa este pequeno território incorporado na Índia portuguesa de 1900 a 1906. Como governador promove a organização do Museu Arqueológico de Diu inaugurado em 6 de Abril de 1904, na Igreja de São Tomé.102 João Herculano Rodrigues de Moura foi socio da Real Academia de Ciências de Lisboa, da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Real Sociedade Asiática (Ramo Bombaim). Pelos seus préstimos ao serviço de Portugal recebeu varias condecorações, como a de Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição, medalha de prata da rainha Dona Amélia e a medalha comemorativa da expedição a Timor. Publicou obras de investigação histórica como é o caso de Inscrições indianas em Cintra, de 1906. Casou em Macau, a 30 de Maio de 1892 com Dona Pamela Francisca Maria Gonzaga de Melo, com quem teve três filhos. Falece em Macau, em 31 de Outubro de 1907. Em reunião da Comissão Toponímica de Lisboa, em 23 de Dezembro de 1970, a pedido por carta de António Quintino sugere-se a atribuição de um arruamento na capital, com o nome do Primeiro-Tenente João Rodrigues de Moura. A comissão dá um parecer favorável ao pedido, e decide por um largo na freguesia dos Olivais. Esta freguesia era um novo polo habitacional na cidade de Lisboa, onde foram nomeados os arruamentos com nomes de localidades das então ainda possessões coloniais portuguesas.103 Os Olivais foram sendo construídos ao longo das décadas de 50, 60 e 70, em pleno Estado Novo. O Presidente vereador, José Arraiano Tavares e Julieta Fernão, Henrique Martins Gomes e Carlos Morato Carvalho, assinam a acta nº 98/1970, em que fica decido a nomenclatura da placa com a seguinte forma: Largo Tenente João Rodrigues de moura, Governador de Diu, 1871-1907. No edital nº 10/1971, o Presidente da Camara Municipal de Lisboa, Fernando Augusto Santos e Castro estabelece definitivamente o nome do arruamento com a sua assinatura. A evocação deste militar é grata aos desígnios do regime, já que foi uma figura que lutou pela manutenção das colónias sob administração portuguesa contra os revoltosos autóctones. 102 Forjaz, J., Noronha, J. M., Os luso-descendentes da Índia portuguesa,2003, p. 815. O Primeiro-Tenente João Rodrigues de Moura, sendo natural de Goa, inseria-se no contexto para a toponímia da freguesia dos Olivais, que em grande parte refere-se às colonias portuguesas e que está no espirito do regime evocar esses territórios. 103 79 Goeses nas Ruas de Lisboa III.14 - Rua Nina Marques Pereira De seu nome completo, Constança Carlota Prazeres Marques Pereira, nasceu em Goa a 21 de Fevereiro de 1911 e faleceu em 25 de Agosto de 1968. Foi uma pianista com participações em concertos ao nível nacional e internacional. Interpretou composições para piano dos grandes compositores da música mundial e portuguesa. Orientou grande parte da sua energia para a difusão de composições dos músicos Portugueses, tanto no país como no estrangeiro. A sua vida profissional não restringiu-se à apresentação musical, também organizou festivais. Na sua biografia, constam os festivais que ajudou a realizar no Funchal (1964), Lisboa (1966) e Porto (1967).104 Com a deslocação da família para Lourenço Marques, Moçambique, Nina Marques Pereira, participa nos estudos musicais. É já em Lisboa, em 1929, que complementa a sua formação pianística, com a obtenção do curso complementar de piano. Em 1931, estuda no Conservatório Nacional, concluindo o curso superior com a classificação excelente de 20 valores. A sua formação é complementada com estudos no estrangeiro, com Alfredo Cordot, no Instituto de Alta Cultura de Paris, e com Reine Gianoli e Jeanne Blaucard. Teve ainda lições de violino. A sua solida formação iria dar frutos quanto ao reconhecimento das suas performances musicais. Ganha os prémios, do conservatório, o de Beethoven e o premio Viana da Mota, de quem foi discípula e admiradora. No seu reportório constavam as composições musicais como: Beethoven, Mozart, Brahms, Schubert, Schumann, entre outros. A sua actividade pianística deu-lhe oportunidade de tocar em Portugal como no estrangeiro, nomeadamente em França, Espanha, Suíça, Bélgica, Holanda e Grã-Bretanha. Em Portugal tocou em salas emblemáticas como o São Carlos, Teatro Trindade, nos Conservatórios de Lisboa e Porto e na Sociedade de Música de Câmara. Apresentou-se ainda na em África. Executou para a Emissora Nacional, as 32 sonatas de Beethoven e transcrições para piano, de obras de cravistas Portugueses. Além de actuações individuais tocou com a Orquestra Sinfónica Nacional, sob a regência de reputados maestros nacionais como, Pedro de Freitas branco, Pedro Blanch ou Jaime Silva. Nas suas apresentações privilegiava os compositores nacionais. A sua veia portuguesa vinha ao de cima quando tocava João Domingos Bomtempo, Francisco António de Almeida, António Ferreira e Viana da Mota. Era uma intérprete que dava prioridade aos compositores Portugueses que para além da sua técnica pianística, augurou-lhe o reconhecimento por parte do regime. Recebeu o oficialato da Ordem de Santiago da Espada do Governo Português. Esta 104 Para a realização desta pequena biografia da pianista Nina Marques Pereira, socorri-me de um artigo editado no jornal O Século, de 26 de Agosto de 1968. 80 Goeses nas Ruas de Lisboa condecoração honorífica é atribuída por mérito literário, científico ou artístico. Virtuosa intérprete da música, é com a apresentação de obras de compositores nacionais, que Nina Marques Pereira atinge um grau superior pianístico e isso não passa despercebido dos responsáveis governamentais, que na sua política nacionalista apercebem-se de era preciso valorizar a pianista pois ela correspondia ao ideal político protagonizado pelo Estado Novo. Nina Marques Pereira, era tida de um fervoroso nacionalismo e isso agradava aos responsáveis políticos. Constança Carlota Prazeres Marques Pereira, ou Nina Marques Pereira como gostava de ser conhecida e tratada, morre em Lisboa com apenas 57 anos de idade. A sua inclusão na toponímia de Lisboa nasce da proposta do jornal O Século. Este jornal propõe o nome Nina Marques Pereira para ser incluído num arruamento.105 O nacionalismo de Nina Marques Pereira talvez tenha influenciado a decisão do jornal. A sua proposta é aceite. Em reunião de 20 de Outubro de 1971, a comissão toponímica é de parecer que a rua projectada à avenida Gomes Pereira se denomine: Rua Nina Marques Pereira – Pianista- 1911-1968. Situa-se na freguesia de Benfica. Ficou registrado na acta nº 104, as assinaturas do presidente e vereador, José Tavares e os vogais, Durval Pires de Lima, Henrique Martins Gomes e Carlos Morato Carvalho. O edital nº 251 consuma o acto de atribuição do nome de Nina Marques Pereira ao arruamento e é da data 25 de Outubro de 1971, assinado pelo presidente da Camara Municipal de Lisboa, Fernando Augusto Santos e Castro. III.15 - Rua Prof. Aires de Sousa Aires Francisco Nicéforo de Sousa nasceu a 21 de Outubro de 1905, na então Índia portuguesa, em Goa. Era filho de Francisco Xavier de Sousa e Maria Júlia Gertrudes Menezes de Sousa. Ruma a Portugal para estudar na Faculdade de medicina do Porto e na Faculdade de Medicina de Lisboa onde concluía a sua licenciatura, em 1929. No ano seguinte entra para o internato de radiologia. Neste mesmo ano estuda as especialidades de Rontgen, ou seja, raio X e Curieterapia, que basicamente é o tratamento pelos raios radioactivos do rádio, do tório, ou de outros elementos radioactivos artificiais, com o professor Benard Guedes. Estagia no Instituto de Oncologia de Lisboa, na especialidade de anatomia patológica com o professor Wohlwill. Em 1932, exerce a função radiologista no Hospital Civil de Lisboa - São José. Para 105 Este jornal, na sua edição do dia seguinte à morte de Nina Marques Pereira faz um enorme elogio a esta figura, realçando o seu caracter de pianista ligada a obras de música portuguesa, dando destaque ao seu empenho em valorizar compositores nacionais. Há um sublinhar do seu lado patriótico. 81 Goeses nas Ruas de Lisboa fortalecer os seus conhecimentos na sua área de especialização, estagia na Europa, nomeadamente em França, Inglaterra e Itália. De regresso a Portugal, é nomeado Director do Serviço de Radiologia do Hospital do Desterro. Devido à sua solida formação académica é recrutado para diferentes cargos em instituições científicas e profissionais no país. No ano de 1945, preside à Sociedade Portuguesa de Radiologia e Medicina Nuclear. No ano seguinte é nomeado Vice-Presidente da Sociedade Médica dos Hospitais civis de Lisboa. Entre 1957 e 1959 é presidente da Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa. Em 1965 chega a presidente da Sociedade Portuguesa de Radiologia e Medicina Nuclear. O seu rico currículo académico é valorizado com as suas diversas contribuições para jornais, tanto como redactor de artigos como dirigente. No Jornal do Médico, pertence ao conselho de redacção e no Jornal do Médico e da Revista Radiológica – Cancerológica, faz parte do grupo de redactores. No Boletim da Sociedade Portuguesa de Radiologia Médica é Aires de Sousa quem dirige esta publicação especializada na sua área de formação. Progride na carreira médica, e em 1952 é professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, onde mais tarde chegará a professor catedrático. No Hospital Escolar de Santa Maria chega a subdirector e a director. A sua carreira é também marcada por trabalhos académicos de relevo para o avanço da ciência radiológica no país e para a história da medicina portuguesa.106 Os seus estudos são publicados em jornais, boletins e revistas da especialidade médica ou em organismos institucionais, como: o Boletim Clínico e Estatístico Hospital do Ultramar, Gazeta Médica Portuguesa e na Junta Nacional de Investigação do Ultramar. O seu estudo na ciência médica radiológica é percursora em Portugal. Aires de Sousa e mais um punhado de homens se devem o desenvolvimento desta ciência em Portugal.107 Se termos em conta que esta ciência nasceu no início do séc. XX, em Portugal, é com alguns médicos, entre eles Aires de Sousa, que a radiologia atinge um desenvolvimento importante para sua utilização em prol da comunidade. Com a Constituição de 1933, que resultou na implantação do Estado Novo, ficou inscrito um ordenamento jurídico-político que instituía a Camara Corporativa, que mais não era um órgão que representava os diferentes organismos corporativos da sociedade portuguesa. Esses organismos eram de índole económica, cultural, social e sindical. É neste 106 Aliás esses trabalhos são publicados e um dos mais relevantes, pelo menos para a sua progressão médica, e a sua tese de doutoralmente denominada, Angioquimografia: ensaio da sua aplicação ao estudo da hemodinâmica, do ano 1952. 107 Se termos em conta que esta ciência nasceu no início do séc. XX, em Portugal, é com alguns médicos, entre eles Aires de Sousa, que a radiologia atinge um desenvolvimento importante para sua utilização em prol da comunidade. 82 Goeses nas Ruas de Lisboa contexto que Aires de Sousa como presidente da Ordem dos Médicos é integrado na Camara Corporativa. Tendo subscrevido varias pareceres na área da assistência médica em diferentes legislaturas. O professor Aires de Sousa morre em Lisboa em 1980. A Comissão Municipal de Toponímia recebe uma missiva da Universidade Nova de Lisboa, a pedir que ponderassem a possibilidade de a cidade de Lisboa através da atribuição de vários nomes de professores (entre os quais, Aires de Sousa) a arruamentos, homenageassem e perpetuassem personalidades fundamentais no ensino em Portugal. É neste sentido que em reunião efectuada a 22 de Fevereiro de 1984, é aprovado o nome de Aires de Sousa para nome de um arruamento em Telheiras (freguesia do Lumiar), a rua 16. Em acta nº 2/84 fica decidido que o arruamento terá a seguinte nomenclatura: Rua Prof. Aires de Sousa – Médico -!905-1980. A vereadora, Maria Clotilde Guedes da Silva assina o edital camarário nº13/84, em 28 de Fevereiro de 1984. Este é um dos Goeses que é perpetuado na memória da cidade de Lisboa no período posterior ao 25 de Abril de 1974, apesar de grande parte da sua actividade profissional se ter desenvolvido durante a vigência do Estado Novo.108 III.16 - Rua Prof. Luís da Cunha Gonçalves Luís da Cunha Gonçalves nasceu em Nova Goa (Pangim), em 24 de Agosto de 1875. Filho de uma família de intelectuais que tiveram funções na área militar, judicial e profissões liberais. Luís da Cunha Gonçalves estudou direito na universidade de Coimbra, onde foi distinguido varias vezes. Como licenciado em direito, trabalhou em muitos casos, alguns deles processos conhecidos. A sua actividade desenvolveu-se em Lisboa e outras partes do país. Fez parte de alguns organismos, como o Conselho Colonial e a Comissão Permanente Internacional do Direito Marítimo, que representou na conferência internacional em Paris, em 1934. O seu percurso de vida passou também pela política em Portugal. Foi eleito para a Assembleia Nacional pela primeira vez, para o período de 1934 a 1938 (I legislatura) e reeleito para a II legislatura de 1938 a 1942 e, em 1942 é eleito para a III legislatura (19421945).109 Legislaturas desempenhadas já em pleno Estado Novo. Foi professor universitário e escreveu diversos artigos sobre leis e direito em jornais da especialidade de Portugal, Brasil, Espanha, Alemanha e México, onde foi membro honorário de associações nestes países. Em 108 A democracia reconhece esta personalidade, pelos seus contributos para a ciência, independentemente de parte da sua actuação profissional estar ligada à Camara Corporativa, um órgão do aparelho de estado do regime salazarista. 109 Cf. Pinto, A. C., Cruz. M. B. Dicionário Biográfico Parlamentar (1935-1974). (Vol. I), 2004, p.727. 83 Goeses nas Ruas de Lisboa 1942, foi nomeado professor para a disciplina de direito, no Instituto de Economia e Finanças da Universidade Técnica de Lisboa.110 O professor Luís da Cunha Gonçalves foi um homem com interesses na vida múltiplos e diversos. A sua vida intelectual espraiou-se por áreas tão dispersas como, a história, arqueologia, etnografia, literatura, agricultura, arte, filosofia, religião e poesia, onde o seu contributo foi valioso pelos seus estudos. Dentro da sua competência de jurista e professor de direito destaca-se na sua produção o Tratado de Direito Civil em Comentário ao Código Civil Português, uma extensa obra em 15 volumes. O seu trabalho no direito foi também conhecido no estrangeiro pelas suas contribuições para a jurisprudência, tornando o seu nome reconhecido fora de Portugal. Foi condecorado com a Grande-oficial da ordem de Santiago da Espada e da Ordem, em Portugal. Do Brasil recebeu o Cruzeiro do Sul. Foi ainda agraciado com o grau de mérito literário, científico e artístico. A sua ligação afectiva a Goa e à história levou a desenvolver estudos, em 1898, das esculturas da sua terra natal. Em 1901, estudou a Catedral de Goa, na Cidade Velha. O professor Luís da Cunha Gonçalves morreu em 24 de Março de 1956. Mário da Cunha Gonçalves, filho de Luís da Cunha Gonçalves, pede à Comissão Toponímica de Lisboa para atribuir o nome de seu pai a uma rua de lisboa. A comissão já havia designado uma rua em Chelas com este nome, nos anos 80, que a família do homenageado havia demonstrado desagrado pela escolha. A Comissão toponímica de Lisboa reconhece o desagrado e volta a considerar o caso, e atende ao pedido do filho de Luís da Cunha Gonçalves, tendo em conta a personalidade de seu pai. É assim proposta uma rua nas freguesias de Carnide e Lumiar mais consentânea com a importância da figura em questão. Fica assim decidido em reunião da comissão, em 24 de Novembro de 1999, atribuir uma nova rua a este nome relevante para a cultura e direito português. Na acta nº3/99 é lavrada a decisão. Em 7 de Dezembro de 1999 é assinado o edital municipal nº 103/99 no Paço do Concelho de Lisboa pela vereadora Rita Magrinho. A placa toponímica aparece com a seguinte inscrição: Rua Professor Luís da Cunha Gonçalves – Jurisconsulto – 1875-1956. Ficava decidido pela Camara Municipal de Lisboa e pela Comissão Toponímica Municipal a alteração da rua em que consta o nome de Luís da Cunha Gonçalves, dando razão ao filho do professor. Esta personalidade é assim reconhecida pelas autoridades camararias de Lisboa 110 Cf. Vaz, J. C. Profiles of Eminent Goans Past and Present, 1997, p.188. 84 Goeses nas Ruas de Lisboa como relevante ao ponto de merecer um maior destaque na cidade e outra dignidade, por isso alteraram o arruamento onde constava o seu nome.111 III.17 - Rua Blasco Hugo Fernandes Blasco Hugo Fernandes, nasceu, em Goa, a 27 de Dezembro de 1930 e faleceu em Lisboa a, 21 de Setembro de 2002. Forma-se em engenharia agraria. Entra na oposição ao regime do Estado Novo. No final dos anos cinquenta exerce já actividade política, participando na Comissão Promotora do Voto na Candidatura Presidencial do General Humberto Delgado. O General Humberto Delgado candidata-se à Presidência da Republica, com o apoio de grande parte da oposição, contra ao regime ditatorial de Salazar e do seu opositor eleitoral Américo Tomás, em 1958. Com o 25 de Abril de 1974, e a queda do Estado Novo, Blasco Hugo Fernandes desempenha as funções de Vogal da Comissão Nacional da FAO (1974-1979), tendo sido também Director do Departamento das Relações de Trabalho Rural do Ministério do Trabalho (1974-1978). Com a democracia, desenvolve intensa actividade política. Torna-se membro da Intervenção Democrática (ID), na qual chega a Presidente da Comissão Directiva. Esta organização política tem relações próximas do Partido Comunista Português (PCP) e devido a essa ligação era representante na Coordenadora da CDU (Coligação Democrática Unitária). A intervenção e desempenho político, de Blasco Hugo Fernandes, é notável também como Membro da Assembleia Municipal de Lisboa, da Assembleia Metropolitana de Lisboa e do Secretariado Mundial da Paz. Foi membro de várias organizações como a Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC), no qual chegou a Vice-Presidente da Direcção. Foi membro do secretariado do Conselho Mundial da Paz. A sua intervenção na sociedade em diferentes sectores, como em revistas e jornais, levou-o ainda a ser vice-director e membro do conselho redactorial da revista Seara Nova e director da Razão Activa, boletim da Fundação Internacional Racionalista (FIR). Foi membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE), do Conselho Fiscal do jornal Le Monde Diplomatique - Edição Portuguesa e do Cercle Condorcet (Paris). A Cercle Condorcet é uma organização francesa que tem como principais objectivos: promover o pensamento crítico; combater a desinformação; afirmar posições com base no exercício da razão crítica e os valores da República; dar aos cidadãos a oportunidade de se reunir para refinar o seu pensamento e desempenhar o seu papel pleno no debate público para uma democracia 111 O nome de Luís da Cunha Gonçalves passou de um arruamento de Chelas, para uma zona da cidade com mais prestígio, na freguesia de Carnide e Lumiar. 85 Goeses nas Ruas de Lisboa enriquecida e renovada. Foi ainda membro da organização e Vice-Presidente, do Comité Internacional de Ligação para a Reunificação da Coreia. Devido à sua formação de engenheiro agrónomo, escreveu livros relacionados com a questão agrarias que logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 era um tema candente. Dá ao prelo os livros: Portugal através de alguns números, 1970; O que é a reforma agrária: U.R.S.S., Polónia, Vietname, Chile, México, Portugal - para uma reforma gradual da estrutura agrária. 1971; Reforma agrária: contributo para a sua história. 1978; A política agrícola comum (CEE) e a agricultura portuguesa. 1983. Escreveu ainda vários artigos, para a revista Vida Rural. Foi ainda agraciado com a medalha de Cidadão Honorário de Sofia, do município da capital búlgara, em 1976, e com a medalha de Amizade do Comité Popular Supremo da República Popular da Coreia, em 1992. Trabalhou em prol do MDP/CDE, da Intervenção Democrática (ID) e da CDU. Faleceu com 71 anos.112 A Camara Municipal de Lisboa, deliberou em 23 de Junho de 2004, a atribuição do nome de Blasco Hugo Fernandes ao arruamento 5 B da Malha 21.1 do Alto do Lumiar, numa zona nobre e nova da cidade, e em desenvolvimento urbanístico. O trabalho efectuado como deputado Assembleia Municipal de Lisboa e na Assembleia Metropolitana de Lisboa foi tido em conta para a CML inscrever o nome de Blasco Hugo Fernandes na toponímia da cidade. O edital nº 46 de 14 de Julho de 2004, assinado pela vereadora Ana Sofia Bettencourt, confirma a decisão camararia de nomear um arruamento na freguesia de Santa clara. Na placa toponímica está escrito: Rua Blasco Hugo Fernandes – político – 1930-2002. Este nome só é possível figurar numa rua de Lisboa graças à democracia. As suas posições políticas de esquerda inviabilizavam a sua inscrição no regime anterior. Em democracia, o espectro político é mais abrangente e tolerante, por isso o leque de políticos que podem ser eleitos para figurar na toponímia é maior. III.18 - Rua Maluda (Maria de Lurdes Ribeiro) Maria de Lourdes Ribeiro nasceu a 15 de Novembro de 1934, em Pangim.113 Carlos Ribeiro, militar, ruma à Índia para cumprir os seus deveres profissionais onde conhece Palmira Lobato Faria Lopes Pereira, oriunda de uma família portuguesa radicada em Goa à 112 Para a elaboração desta pequena biografia de Blasco Hugo Fernandes, socorri-me do Jornal “Avante”, do Partido Comunista Português, na sua edição nº 1504 de 26 de Setembro de 2002 e do sítio da internet da Radio TSF: http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Interior.aspx?content_id=762503&page=-1. Consult. 5 de Abril de2013. 113 Pangim situa-se no distrito de Goa norte e outrora chamava-se Nova Goa. 86 Goeses nas Ruas de Lisboa 200 anos. Desta união nascem três filhos, dois rapazes e uma rapariga (Maluda). Maria de Lourdes Ribeiro muda-se para Lourenço Marques em 1948 onde dá os primeiros passos na arte da pintura. É em Moçambique que conhece Italianos que haviam-se expatriado fugindo a Mussolini. Esses contactos permitem-lhe aprender o italiano e ter contacto com outras realidades e isso a fascina para conhecer a Europa. Ainda em Moçambique forma o primeiro grupo de pintores intitulados Os Independentes. Em 1963 recebe uma bolsa de estudos da Fundação Calouste Gulbenkian e viaja até lisboa para estudar com Roberto Araújo. Regressa a Moçambique mas volta a partir e, desta vez para estudar em Paris, como bolseira de novo da Fundação Calouste Gulbenkian, na Académie de la Grande Chaumière. 114 Em 1967, instala-se definitivamente em Lisboa. Na capital portuguesa vai criar uma serie de laços de amizade que vão marcar a vida social de Lisboa, que incluía também o núcleo de amigos de Moçambique. Conhece Amália Rodrigues com quem terá uma relação de amizade. As tertúlias tornam-se frequentes no seu atelier, onde confluem artistas para discutir arte, literatura e poesia, e é um centro de encontros sociais. O bar O Botequim era outro ponto de encontro da pintora com os seus amigos. O seu nome como pintora cresce gradualmente e torna-se conhecida e requisitada para trabalhos. Já em 1968, iniciara a pintura em óleo de paisagens urbanas, nomeadamente da cidade de Lisboa, com elementos geometrizados e uma luz muito própria que a vai caracterizar. Em 1969 apresentou-se numa exposição individual na galeria do Diário de Noticias, mas é na exposição na Fundação Gulbenkian, em 1973, que finalmente triunfa em lisboa. Em 1979 recebe o premio de pintura da Academia Nacional de Belas Artes. Sucedem-se as exposições e em 1985 recebe uma encomenda para a criação de quatro selos para os CTT. Ganha o premio do World Government Stamp Printers Conference, em Washington, para o melhor selo. Lisboa, em 1994, é Capital Europeia da Cultura, e é o mote para grandes realizações culturais. O Centro Cultural de Belém acolhe uma grande exposição para homenagear a cidade de Lisboa. Maluda é uma das convidadas, e é mais um dos marcos da sua carreira. Ainda neste ano recebe o premio de artes plásticos Bordalo Pinheiro. Maluda já é uma referência cultural para Portugal, e em 1998, o Presidente da Republica, Jorge Sampaio condecora-a com o Grande Oficialato da Ordem do Infante.115 Maluda falece em 10 de Fevereiro de 1999 com 64 anos. A cidade de Lisboa e o seu município decidiram atribuir o seu nome a um arruamento. No edital nº 45/2007, de 11 de Abril de 2007, a Camara Municipal de Lisboa 114 115 Cf. Ribeiro, C.H., Cabrita, A. Maluda. 2008, p.24. Cf. Ribeiro, C.H., Cabrita, A. Maluda. 2008, p. 46. 87 Goeses nas Ruas de Lisboa deliberou por unanimidade a atribuição de uma rua no bairro das Galinheiras com o nome de Maluda. Este edital tem a assinatura do vereador José Amaral Lopes, vereador da cultura. A rua Maluda encontra-se na freguesia de Santa Clara. A pintora Maluda é uma figura que consta na toponímia lisboeta pela sua qualidade de artista e já não há aqui uma conotação política tão grande como seria nos casos anteriores a 1974, no regime do Estado Novo. 88 Goeses nas Ruas de Lisboa CONCLUSÃO Com este trabalho tentei descortinar e conhecer os mecanismos que estão por detrás da nomeação toponímica e como personalidades oriundas de uma ex-colónia, Goa, foram agraciados com o seu nome em arruamentos na cidade de Lisboa. Como a capital de um estado até 1974, cabeça de um país pluricontinental e colonial é repositório dessa massa de personalidades extra metrópole, que destacaram-se em diversas áreas. Foi este o meu propósito. Como base de trabalho restringi a busca às figuras com origem no actual estado da União Indiana, Goa. Revelar esta realidade desconhecida foi um desafio, pois estava a trilhar terreno virgem, não tenho conhecimento de que alguém tenha feito este levantamento na toponímia de Lisboa de arruamentos com nomes de Goeses e de que forma a capital do país perpetuou nos seus jardins, ruas, avenidas e edifícios públicos figuras, que de alguma forma se destacaram na vida publica, artística, cientifica, militar e na educação no contexto nacional. Como Portugal, através de Lisboa, reconheceu essas ilustres personalidades. Que percursos de vida, esses Goeses perpetuados na toponímia, trilharam de forma a serem evocados na capital de um país, que até meado dos anos 70 do séc. XX, ainda era um império colonial. No fundo como Portugal reconheceu aqueles, que oriundos de um território que era uma colonia, Goa, sobressaíram nas suas actividades e foram lembrados. Goa, antes da chegada e conquista dos Portugueses já era uma região civilizada. Nela habitavam Hindus e Muçulmanos que convivam e faziam comércio. Dentro da comunidade Hindu, estratificada socialmente em castas, existem os brâmanes. Casta superior e sacerdotal, dentro da comunidade Hindu Goesa, os brâmanes são sacerdotes versados e cultos. Quando os Portugueses aportaram a Goa, no iniciou do séc. XVI, não encontraram um povo arcaico ou primitivo, pelo contrario, uma civilização complexa com muitos códigos estranhos aos novos senhores. Com uma cultura baseada no Islão e no Hinduísmo, os Goeses no séc. XVI tinham uma serie de estruturas religiosas e politicas muito desenvolvidas. Com capacidades e recursos culturais avançados, os Portugueses intrometeram-se numa sociedade que apenas tinha em relação aos europeus uma capacidade militar menos desenvolvida. É essa pecha que é aproveitada e que torna possível a presença portuguesa no Oriente. O poderio naval Português era superior e é isso que permite o dominou dos mares e a conquista de varias praças no Índico. É claro que a sociedade Goesa era culturalmente evoluída, e portanto com a presença portuguesa durante vários séculos, e apesar das tentativas de a ocidentalizar, era 89 Goeses nas Ruas de Lisboa natural, que quando houvesse uma pequena abertura as suas elites sobressaiam. Se durante vários séculos foi regra geral na administração portuguesa não tolerar a cultura autóctone, impondo valores ocidentais, com o evoluir das mentalidades, e já à entrada da contemporaneidade, começassem a surgir Goeses no aparelho de estado e na hierarquia social, e nas estruturas religiosas com maior destaque. O mundo transforma-se e a intolerância radical dá lugar a uma gradual e melhor aceitação do outro. Os preconceitos vão-se desvanecendo. Assim uma sociedade por natureza evoluída mas agrilhoada pelo colonialismo vai-se afirmando aos poucos. Também o colonialismo evoluiu de uma forma barbara para uma condição mais suave, dando espaço a que os nativos das colonias fossem subindo na escala social, ainda que muito timidamente. Perante este quadro de uma sociedade milenar em contacto com a cultura ocidental, vão destacar-se Goeses, filhos da cultura europeia ou autóctone. O abrandamento progressivo da intolerância com o outro que é diferente e, a necessidade do colonialismo Português em demonstrar a sua igualdade de tratamento independente da origem étnica, social e geográfica decorrente de pressões que surgem com o surto independentista registrado nos anos 50 e 60 do séc. XX, em todo o mundo, permite que Goeses se evidenciem dentro do contexto da metrópole. É neste sentido que emergem vários nomes de Goeses na ciência, cultura e educação no panorama nacional. As mudanças históricas, com o aliviamento da repressão perante aquele que é diferente, tinham permitido que agora surgissem dentro do enquadramento colonial, algumas personalidades de Goa. A sociedade colonial, apesar de preconceituosa, vinha alterando a imagética do autóctone como inferior e incapaz para gradualmente o tolerar e finalmente o aceitar como igual. A visão dos primeiros descobridores Europeus que temiam ver homens disformes, com formas aberrantes e monstruosas, nas partes que então exploravam, e que a literatura de viagens tanto propagou nos séculos XV e XVI, desvaneceu-se. As narrativas fabulosas, com o passar do tempo, deram origem a relatos um pouco mais realistas. O mundo evoluíra e as mentes também. O pensamento europeu colonialista, apesar de continuar a acreditar soberbamente na sua superioridade civilizacional e a sua premente necessidade de continuar nas colónias, por razões essencialmente de domínio económico, vinha abrindo brechas, que resultou na emancipação de algumas personalidades das colonias. Este processo evolutivo político, cultural e mental deu origem ao surgimento de, no caso de Goa, o aparecimento de grandes figuras na cultura, ciência e educação. Este trabalho tentou demonstrar isso mesmo, não foi só uma listagem de arruamentos com nomes de Goeses. É antes de mais uma reflecção destas questões, do outro e o olhar que temos deles. E esta conclusão é isso mesmo, uma reflecção 90 Goeses nas Ruas de Lisboa sobre como aquele que oriundo de um outro continente, destaca-se e é reconhecido, apesar de muitas vezes as suas circunstâncias serem adversas. Goeses nas ruas de Lisboa, é uma reflexão dos que na toponímia de Lisboa foram perpetuados apesar de a sua origem não estar no centro político que era a metrópole e em particular a cidade de Lisboa, mas que nela foram assinalados. No fundo o reconhecimento do outro é já uma vitória daqueles que abriram brechas numa sociedade portuguesa preconceituosa, e demonstra como progressivamente as mentes se iam abrindo ao olhar do outro, ainda que com interesse político em alguns casos. A toponímia de Lisboa, e a sua evolução, pode demonstrar de forma inequívoca uma clara abertura do país ao mundo e a novas ideias, ainda que inicialmente o propósito fosse mais de cariz político, muito aferrado aos interesses do regime salazarista. Com a democracia o país abre-se ao mundo, e isso também se reflecte nos topónimos dos arruamentos de Lisboa. De um país fechado, onde eram valorizadas figuras nacionais, há agora um novo tempo, em que a abertura à democracia a partir de 1974, e a própria evolução da sociedade portuguesa, permite o aceitar de outras realidades socioculturais diferentes, e isso reflecte-se na própria toponímia. Hoje em Lisboa, nas ruas da cidade, encontramos nomes de personalidades de diversas origens geográficas que nada ou pouco tem de ligação a Portugal, ou foram mesmo oposicionista politicamente. Issan Sartawi (líder político palestiniano da OLP), Amílcar Cabral (líder político e presidente do PAIGC), Eduardo Mondlane (líder político e presidente da FRELIMO), Agostinho Neto (líder político do MPLA e primeiro presidente de Angola) são exemplos de algumas personalidades que constam nos arruamentos de Lisboa. Há ainda referências geográficas às quais a história de Portugal nenhuma ligação tem, exemplos: Rua Polo Norte, Rua Polo Sul, Rua do Nilo, etc. A toponímia também como mostruário da evolução das mentalidades, das evoluções políticas e culturais. A democracia reconhece outras realidades e outros actores políticos. Goeses nas ruas de lisboa, é um trabalho centrado no levantamento, biografia e explicação das causas da evocação de Goeses na toponímia de Lisboa, mas também serviu o propósito de pensar questões de como os poderes políticos têm necessidade de difundir as suas ideias, como as alterações de regime destroem e enaltecem nomes consoante ao lado do poder e da história em que se encontram. Tudo isto centrado na toponímia. A história é escrita pelos vencedores. Como conclusão devo registrar, que esta minha investigação foi pautada pela descoberta de uma realidade pouco conhecida, logo as reflexões que faço são fruto de um trabalho trilhado num contexto «sem rede». Não tenho conhecimento de algum trabalho feito com esta temática ou de uma abordagem próxima feita que a minha tese tratou. Por isso, 91 Goeses nas Ruas de Lisboa Goeses nas ruas de Lisboa pode ser alvo de acertos ou críticas, já que é inovador. Precavendo-me a priori, o meu trabalho foi pautado por uma serie de leituras da história de Lisboa e Goa, relacionando a capital portuguesa com a Índia Portuguesa, de modo a encontrar os laços que a ligaram. Fiz também uma análise dos diferentes formas de poderes que sucederam-se em Portugal e, relacionando-as com a sua propensão para evocar as personalidades que conviesse ao regime em vigor. Penso que desta forma defendo de modo razoável a minha tese. Procedi com este método, para atingir o principal objectivo a que me propus, identificar, entender de que forma e qual os mecanismos estiveram na génese para estes Goeses serem evocados. Como reflexão final que faço, a nomeação e descerrar de uma placa toponímica, em qualquer cidade, mas principalmente na capital de um país, é um acto politico-cultural de uma enorme carga simbólica. É a grande conclusão a que chego com este meu trabalho. 92 Goeses nas Ruas de Lisboa BIBLIOGRAFIA A – Fontes Primarias Camara Municipal de Lisboa. Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa. (2000). Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, 1943-1974. (1ª ed). (vol. 1). Lisboa: Camara Municipal de Lisboa - Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa. Camara Municipal de Lisboa. Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa. (2000). Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, 1974-1989. (1ª ed). (vol. 2). Lisboa: Camara Municipal de Lisboa - Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa. Camara Municipal de Lisboa. Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa. (2000). Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, 1989-2000. (1ª ed). (vol. 3). 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