ISSN 1415-2762 REME Revista Mineira de Enfermagem Nursing Journal of Minas Gerais Revista de Enfermería de Minas Gerais VOLUME 09, NÚMERO 2, ABR/JUN DE 2005 REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 97-102-, abr/jun, 2005 n 97 REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM Uma Publicação da Escola de Enfermagem da UFMG em Parceria com: Escola de Enfermagem Wenceslau Braz Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia da Fundação de Ensino Superior de Passos Fundação de Ensino Superior do Vale do Sapucaí Centro Universitário do Leste de Minas Gerais Conselho Deliberativo Francisco Carlos Félix Lana- Presidente (Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais), José Vitor da Silva (Escola de Enfermagem Wenceslau Braz) Rosa Maria Nascimento (Fundação de Ensino Superior do Vale do Sapucaí), Evânia Nascimento (Fundação de Ensino Superior de Passos), Sônia Maria Neves (Centro Universitário do Leste de Minas Gerais), Editor Geral Francisco Carlos Félix Lana Normalização Bibliográfica Maria Piedade Fernandes Ribeiro CRB/6-601 Diretora Executiva Aidê Ferreira Ferraz Revisão de texto: Marisa Andrade Carneiro Decker (Português), Mónica Ybarra / Ybarra Traduções (Espanhol), Charles Bacon / Tradusom (Inglês) Editores Associados Edna Maria Resende Jorge Gustavo Velásquez Melendez Tânia Couto Machado Chianca Conselho Editorial André Petitat (Université de Lausanne-Suíça), Andréa Gazzinelli C. Oliveira (UFMG), Anézia Moreira Faria Madeira (UFMG), Cristina Arreguy de Sena (UFJF), Cristina Maria Loyola Miranda (UFRJ), Daclê Vilma Carvalho (UFMG), Emilia Campos de Carvalho (USP-RP), Emiko Yoshikawa Egry (USP), Estelina Souto do Nascimento (PUC-MG), Flávia Regina Souza Ramos (UFSC), Goolan Hussein Rassool (Londres), Lélia Maria Madeira(UFMG), Lídia Aparecida Rossi (USP-RP), Maguida Costa Stefanelli (USP-SP), Marga Simon Coller (Connecticut-USA), Maria Consuelo Castrillón Agudelo (Universidad de Antioquia, Medelin, Colômbia), Maria Édila Abreu Freitas (UFMG), Maria Helena Larcher Caliri (USP-RP), Maria Itayra Coelho de Souza Padilha (UFSC), Marília Alves (UFMG), Maria Miriam Lima da Nóbrega (UFPB), Maria Imaculada de Fátima Freitas (UFMG), Marta Lenise do Prado (UFSC), Matilde Meire M. Cadete (UFMG), Silvana Martins Mishima (USP-RP), Sônia Maria Soares (UFMG), Sueli Maria dos Reis Santos (UFJF), Raquel Rapone Gaidzinski (USP-SP), Rosângela Maria Greco (UFJF), Roseni Rosângela de Sena (UFMG), Silvia Lúcia Ferreira (UFBA) Secretaria Geral Sheila Malaquias de Oliveira, Wallace Antônio Silva - Bolsistas da Fundação Universitária Mendes Pimentel (FUMP/UFMG) Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais Revista Mineira de Enfermagem - Av. Alfredo Balena, 190 sala 421 - Belo Horizonte - MG - Brasil CEP: 30130-100 Tel.: (31) 3248 9876 Fax.: (31) 3248 9830 E-mail: [email protected] Atendimento Externo: 14:00 às 18:00 h Projeto Gráfico, Produção e Editoração Eletrônica Brígida Campbell / Iara Veloso / Samuel Rosa Tou (DDC / UFMG) Assinatura Secretaria Geral - Tel.:(31) 3248 9876 Fax.:(31) 3248 9830 E-mail: [email protected] Indexada em: • LILACS – Centro Latino Americano e do Caribe de Informações em Ciências da Saúde • BDENF – Base de Dados em Enfermagem da SURENF – Sub-Rede Brasileira de Informação em Enfermagem/ BIREME-OPS. Texto disponível em www.bibliomed.com.br - www.enfermagem.ufmg.br www.periodicos.capes.ufmg.br ISSN: 1415-2762 Revista filiada à ABEC – Associação Brasileira de Editores Científicos Periodicidade: trimestral – Tiragem: 1.000 exemplares APOIO REME – Revista Mineira de Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. - v.1, n.1, jul./dez. 1997. Belo Horizonte: Coopmed, 1997. Semestral, v.1, n.1, jul./dez. 1997/ v.7, n.2, jul./dez. 2003. Trimestral, v.8, n.1, jan./mar. 2004 sob a responsabilidade Editorial da Escola de Enfermagem da UFMG. ISSN 1415-2762 UFMG EEUFMG 1. Enfermagem – Periódicos. 2. Ciências da Saúde – Periódicos. I. Universidade Federal de Minas Gerias. Escola de Enfermagem. NLM: WY 100 CDU: 616-83 98 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 97-102, abr/jun, 2005 ABEn-MG Sumário EDITORIAL .................................................................................................................................................. 101 PESQUISAS SAÚDE COLETIVA: IDENTIFICANDO INSTRUMENTOS NO PROCESSO DE TRABALHO DA ENFERMAGEM .............................................................................................................. 103 COLLECTIVE HEALTH: IDENTIFYING INSTRUMENTS IN THE PROCESS OF NURSING WORK SALUD COLECTIVA: IDENTIFICACIÓN DE INSTRUMENTOS EN EL PROCESO DE TRABAJO DE ENFERMERÍA Janaína Sena Sibele da Rocha Martins Lílian Teles Rubira Liane Rossales dos Santos Marta Regina Cezar Vaz A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA CONSULTA DE ENFERMAGEM: IMPORTÂNCIA, AMBIGUIDADES E DESAFIOS .................................................................................... 109 THE SOCIAL REPRESENTATION OF NURSING CONSULTATION: IMPORTANCE, AMBIGUITY AND CHALLENGES LA REPRESENTACIÓN SOCIAL DE LA CONSULTA DE ENFERMERÍA: IMPORTANCIA, AMBIGÜEDADES Y DESAFÍOS Antônio Marcos Tosoli Gomes Denize Cristina de Oliveira AVALIAÇÃO DO PROGRAMA "VIVA MULHER" NO CONTROLE DO CÂNCER CÉRVICO-UTERINO NO ESTADO DE MINAS GERAIS ...................................................... 116 EVALUATION OF THE "VIVA MULHER" PROGRAM FOR THE CONTROL OF CERVICAL CANCER IN THE STATE OF MINAS GERAIS, BRAZIL EVALUACIÓN DEL PROGRAMA "VIVA MUJER" PARA CONTROLAR EL CÁNCER CÉRVICO - UTERINO EN EL ESTADO DE MINAS GERAIS Yara Mendes Ferreira Francisco Carlos Felix Lana Débora Carvalho Malta AVALIAÇÃO DAS PRÁTICAS DE CUIDAR ENVOLVENDO ARTE NO ÂMBITO DO CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (CAPS) ........................................................ 121 EVALUATION OF HEALTH CARE PRACTICES USING ART IN PSYCHO-SOCIAL CARE CENTERS (CAPS) EVALUACIÓN DE LAS PRÁCTICAS DE CUIDADO INVOLUCRANDO ARTE EN EL ÁMBITO DE LOS CENTROS DE ASISTENCIA PSICOSOCIAL (CAPS) Claudia Mara de Melo Tavares Vera Regina Salles Sobral PRODUÇÃO DE MODELAGEM EM SESSÕES DE ARTETERAPIA NO CONTEXTO HOSPITALAR PEDIÁTRICO ............................................................................................. 126 MODELING IN ART THERAPY IN A PEDIATRIC HOSPITAL PRODUCCIÓN DE MODELADO EN SESIONES DE TERAPIA DE ARTE EN EL CONTEXTO HOSPITALARIO PEDIÁTRICO Ana Cláudia Afonso Valladares Ana Maria Pimenta Carvalho GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS DE SERVIÇOS DE SAÚDE: AVALIAÇÃO DE UM CENTRO DE TERAPIA INTENSIVA ................................................................... 133 HEALTH SERVICE WASTE MANAGEMENT: EVALUATION OF AN INTENSIVE THERAPY CENTER GESTIÓN DE RESIDUOS HOSPITALARIOS: EVALUACIÓN DE UN CENTRO DE TERAPIA INTENSIVA Maria Verônica Guilherme Ferrareze Denise de Andrade Magda Fabbri Isaac Silva Lucidio de Sousa Santos Viviane Ferreira PERCEPÇÃO DOS ALUNOS DE GRADUAÇÃO SOBRE A DISCIPLINA DE ADMINISTRAÇAO APLICADA À ENFERMAGEM ................................................................................. 140 NURSING STUDENTS PERCEPTION OF THE SUBJECT MANAGEMENT APPLIED TO NURSING SENSACIÓN DE LOS ALUMNOS DEL CURSO DE ENFERMERÍA DE LA MATERIA ADMINISTRACIÓN APLICADA A ENFERMERÍA Mariza Borges Brito de Souza Sílvia Helena Zem-Mascarenhas Elyrose Sousa Brito Rocha REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 97-102-, abr/jun, 2005 n 99 A REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM E A DIVULGAÇÃO DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA NA ENFERMAGEM ...................................................................................... 147 THE REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM AND THE DISSEMINATION OF SCIENTIFIC PRODUCTION IN NURSING REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM (REVISTA DE ENFERMERÍA DE MINAS GERAIS) Y DIVULGACIÓN DE PUBLICACIONES CIENTÍFICAS EN ENFERMERÍA Danielle Sandra da Silva de Jesus Tânia Couto Machado Chianca Aidê Ferreira Ferraz Maria Helena Larcher Caliri Allana dos Reis Corrêa REVISÃO TEÓRICA INFECÇÃO PERINATAL PELO ESTREPTOCOCO DO GRUPO B: COMO PREVENIR? ..................................................................................................................................... 153 PERINATAL GROUP B STREPTOCOCCAL DISEASE: HOW TO PREVENT IT? INFECCIÓN PERINATAL POR ESTREPTOCOCO DEL GRUPO B. ¿CÓMO PREVENIRLA? Guilherme Augusto Armond Adriana Jorge Barbosa Edna Maria Rezende A ABORDAGEM DA SEXUALIDADE HUMANA NA COLETA DE DADOS EM ENFERMAGEM: DESAFIO PARA ENFERMEIROS .............................................................................................................. 158 AN APPROACH TO HUMAN SEXUALITY IN NURSING DATA COLLECTION: A CHALLENGE TO NURSES ENFOQUE DE LA SEXUALIDAD HUMANA EN LA RECOLECCIÓN DE DATOS EN ENFERMERÍA: DESAFÍO PARA ENFERMEROS Alexandra de Souza Melo Emília Campos de Carvalho A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA FAMÍLIA BRASILEIRA ........................................................................ 163 THE EVOLUTION OF BRAZILIAN FAMILIES LA EVOLUCIÓN HISTÓRICA DE LA FAMILIA BRASILEÑA Paula Cambraia de Mendonça Vianna Sônia Barros RELATO DE EXPERIÊNCIA A OFICINA DE TRABALHO COMO ESTRATÉGIA EDUCATIVA COM ADOLESCENTES NA ÁREA DE SEXUALIDADE ................................................................................... 168 THE USE OF WORKSHOPS FOR ADOLESCENTS AS AN EDUCATIONAL STRATEGY ON THE ISSUE OF SEXUALITY EL TALLER DE TRABAJO PARA ADOLESCENTES COMO ESTRATEGIA EDUCATIVA EN EL ÁREA DE LA SEXUALIDAD Marta Araújo Amaral Rosa Maria Godoy Serpa da Fonseca ARTIGO REFLEXIVO ATENÇÃO BÁSICA À SAÚDE: UM OLHAR A PARTIR DAS PRÁTICAS DE INTEGRALIDADE EM SAÚDE .................................................................................................................. 174 BASIC HEALTH CARE: THE POINT OF VIEW OF HOLISTIC HEALTH CARE PRACTICES ATENCIÓN BÁSICA A LA SALUD: UNA MIRADA DESDE LAS PRÁCTICAS DE INTEGRALIDAD EN SALUD Roseni Pinheiro NORMAS DE PUBLICAÇÃO ..................................................................................................................... 179 PUBLICATIONS NORMS .......................................................................................................................... 181 NORMAS DE PUBLICACIÓN ................................................................................................................... 183 ASSINATURA ............................................................................................................................................. 185 100 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 97-102, abr/jun, 2005 Editorial PORTAL DE REVISTAS ELETRÔNICAS EM ENFERMAGEM: NOVO PARADIGMA PARA A DIFUSÃO DO CONHECIMENTO EM ENFERMAGEM A publicação eletrônica de artigos científicos na Internet tornou-se, nos últimos anos, uma prática consagrada nacional e internacionalmente, independentemente da oportunidade e/ou necessidade da publicação paralela em papel. Em muitos casos tem se mostrado como uma complementação à publicação impressa. Desse modo, a criação da Biblioteca Virtual em Saúde – BVS - Enfermagem, representa uma iniciativa fundamental para a organização e difusão das fontes de informação em enfermagem e, ainda hoje, se constitui em um desafio no campo cooperativo entre instituições da enfermagem brasileira. Direcionada pela busca da eqüidade no acesso à informação em saúde; pela promoção de parcerias e consórcios para maximizar o uso compartilhado de recursos humanos, de tecnologias de informação e de coleções de fontes de informação; pela promoção do trabalho cooperativo e do intercâmbio de experiências e pelo desenvolvimento e operação descentralizados em todos os níveis, a BVS inaugura um novo paradigma e propõe a comunicação intensiva e rápida entre pessoas e a formação das chamadas comunidades virtuais em torno de interesses específicos. Considera-se que o acesso à informação científico-técnica é essencial para a expansão do conhecimento em saúde, incluindo as atividades de planejamento, gestão, promoção, investigação, educação e atenção. Nesse sentido, a Organização Pan-Americana da Saúde, através do seu centro especializado BIREME, promove atividades de cooperação técnica para a construção da Biblioteca Virtual em Saúde como estratégia para mobilizar e articular os principais produtores e usuários de informação científico-técnica como também desenvolver cooperativamente uma rede de fontes de informação eletrônica na Internet com acesso universal. Neste sentido, as instituições de ensino, sob a coordenação da Escola de Enfermagem da UFMG e apoio da BIREME elabora projeto para desenvolvimento e operacionalização da BVS - Enfermagem. Como um dos subprojetos da BVS foi proposto o "Portal de Revistas Eletrônicas em Enfermagem", que ficou sob a responsabilidade da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP. A operacionalização deste subprojeto envolverá a participação de 17 instituições editoriais responsáveis pelas publicações periódicas da área de enfermagem – a qual a REME adere, os Programas de Pós-Graduação em Enfermagem e o apoio dos Centros Cooperantes da Rede BVS - Enfermagem ao qual estão vinculadas. Este sub-projeto tem como norte a ampliação, a melhoria e o fortalecimento da rede de coleções de textos completos em Enfermagem em formato eletrônico, integrada à BVS Enfermagem do Brasil e fundamenta-se nas metodologias SciELO para periódicos científicos eletrônicos-textos completos; SECS-Seriados em Ciência da Saúde - para registro das coleções dos Centros Cooperantes e outras metodologias e produtos desenvolvidos pela BIREME para construção da BVS. Trata-se da construção de um novo paradigma para a difusão do conhecimento em enfermagem. A publicação de documentos, com texto completo na BVS, sustenta possibilidades extraordinárias ao processo de comunicação científico-técnica em saúde, entre as quais destacamse a visibilidade e a acessibilidade universais e os relacionamentos com outras bases de dados e sites que contribuem para promover a eqüidade no acesso à informação em saúde e para maximizar a relação entre o custo de produção e o número provável de leituras. A publicação eletrônica facilita a obtenção de cópias independentemente da localização geográfica do publicador e do leitor, excluindo os elementos intermediários existentes nesse ciclo de transferência do conhecimento. A BVS Enfermagem, uma vez implantada, conferirá ao conhecimento produzido na Enfermagem o imprescindível caráter contemporâneo e o inserirá no contexto globalizado que é, atualmente, determinante do crescimento e da visibilidade necessários à expansão da enfermagem do País. Prof. Dr. Francisco Carlos Félix Lana Editor Geral Profa. Dra. Aidê Ferreira Ferraz Diretora Executiva REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 97-102-, abr/jun, 2005 n 101 102 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 97-102, abr/jun, 2005 Pesquisas SAÚDE COLETIVA: IDENTIFICANDO INSTRUMENTOS NO PROCESSO DE TRABALHO DA ENFERMAGEM1 COLLECTIVE HEALTH: IDENTIFYING INSTRUMENTS IN THE PROCESS OF NURSING WORK SALUD COLECTIVA: IDENTIFICACIÓN DE INSTRUMENTOS EN EL PROCESO DE TRABAJO DE ENFERMERÍA Janaína Sena2 Sibele da Rocha Martins3 Lílian Teles Rubira4 Liane Rossales dos Santos5 Marta Regina Cezar Vaz6 RESUMO Este trabalho apresenta um estudo com enfermeiros atuantes na Rede Básica de Serviços Públicos de Saúde do município do Rio Grande, enfocando o processo de trabalho para a atuação em Saúde Coletiva, pretendendo visualizar os instrumentos utilizados pelos profissionais para atuar no trabalho que desenvolvem. Verificou-se como instrumentos relevantes o conhecimento adquirido durante a formação e aqueles praticados no cotidiano de trabalho, sendo a educação em saúde um desses saberes. Assim, para execução das ações de educação em saúde, deve-se considerar o ambiente no qual o sujeito se encontra, necessitando pensar na inserção da questão ambiental, desde a formação do profissional. Palavras-chave: Enfermagem em Saúde Pública; Processos de Enfermagem; Serviços de Saúde; Educação em Saúde ABSTRACT This is a study of nurses working in the Basic Health Care Services of the Public Health Care System in the town of Rio Grande, in the State of Rio Grande do Sul, Brazil. It focuses on the work process in Collective Health, in order to visualize the instruments used by health workers in their work. We found that the relevant instruments were the knowledge acquired during training and that practiced in their daily work, which included health education. Therefore, in order to carry out the education actions, we must consider the environment in which the subject works, and think about insertion in the environment from the beginning of professional training. Key-words: Public Health Nursing; Nursing Process; Health Services; Health Education RESUMEN Este trabajo muestra un estudio con enfermeros que trabajan en la red básica de servicios públicos de salud del municipio de Río Grande. Enfocamos el proceso de trabajo en salud colectiva con miras a visualizar los instrumentos utilizados por dichos profesionales en la labor llevada a cabo. Como instrumentos relevantes mencionamos el conocimiento adquirido durante la formación y aquél adquirido en el día a día de trabajo; la educación en salud es uno de estos conocimientos. Luego, para efectuar acciones de educación en salud, hay que considerar el ambiente del sujeto y hay que pensar en la inserción del asunto ambiental, desde la formación del profesional. Palabras clave: enfermería en salud pública; procesos de enfermería; servicios de salud; educación en salud 1 2 3 4 5 6 Trabalho vinculado ao Projeto de Pesquisa "A Enfermagem em Saúde Coletiva: poder e autonomia na organização tecnológica do trabalho interdisciplinar da rede básica de serviços públicos de saúde", coordenado pela Prof.ª Dr.ª Marta Regina Cezar Vaz, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Saúde – NEPES, do Departamento de Enfermagem da Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG. Enfermeira. Mestre em Enfermagem pela FURG; Professora do Departamento de Enfermagem da FURG.. Enfermeira. Mestre em Enfermagem pela FURG; Professora do Departamento de Enfermagem da FURG. Enfermeira Programa de Saúde da Família – Secretaria Municipal de Saúde Canoas/RS. Enfermeira Hospital Mãe de Deus Center – Porto Alegre/RS. Enfermeira. Doutora em Filosofia da Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC; Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da FURG. Endereço para correspondência: Rua Alberto Borges Soveral, 229. Bairro Três Vendas. Cep: 96020-120 Pelotas/RS REME – Rev. Min. Enf; 9(2):103-108, abr/jun, 2005 n 103 Saúde coletiva: identificando... INTRODUÇÃO Este trabalho apresenta os resultados de um estudo com enfermeiros da Rede Básica de Serviços Públicos de Saúde do Município do Rio Grande, o qual apresentava uma população de 193.789 habitantes(1), em 2004, distribuídos em uma área de 2.814 km2, tendo como foco do trabalho da enfermagem o Processo de Trabalho para a atuação em Saúde Coletiva. Para a realização desta pesquisa, transitou-se no subprojeto "Saberes e práticas no trabalho da enfermagem na rede básica de serviços públicos de saúde, considerando as questões ecossistêmicas da região", com o objetivo visualizar o processo de trabalho da enfermagem. Através desse subprojeto buscou-se focalizar diretamente o trabalho da enfermagem na Rede Básica do município, para perceber como se dava a utilização dos conhecimentos, saberes, adquiridos na formação acadêmica para a organização do trabalho em Saúde Coletiva. Adotou-se como conceito de Enfermagem em Saúde Coletiva a enfermagem institucionalizada que, na sua organização assume como característica primeira do seu objeto de trabalho a dimensão socioambiental. Para isso se utiliza-se de instrumentos capazes de apreender esta dimensão para o alcance da finalidade alocada no produto coletivo do trabalho. Esta organização do trabalho da enfermagem insere-se no trabalho em saúde, constituindo-se de um fenômeno histórico, portanto, um objeto estruturante da sociedade como um todo e no setor saúde em particular.(2) A prática em saúde coletiva vem sendo transformada em decorrência da incorporação de novos conhecimentos que se propõem intervir no processo saúde-doença. A assistência em saúde coletiva em um contexto histórico é compreendida como uma "interferência consciente (sistematizada, planejada e dinâmica) no processo saúde/ doença de uma dada coletividade, consideradas as distinções dos grupos sociais realizadas pelo conjunto dos trabalhadores de saúde com a coletividade, objetivando a transformação do perfil saúde/doença".(3) Esta pesquisa resultou do interesse em refletir e aprofundar os conhecimentos em relação ao tema proposto, uma vez que a saúde coletiva caracteriza-se como um amplo campo para atuação da Enfermagem. Teve-se como objetivo identificar os instrumentos utilizados no trabalho da enfermagem, de modo a participar da construção de uma lógica para sua organização, que privilegie a adequação dos sujeitos às relações que produzem, buscando potencializar, através do trabalho, a ação e a autonomia na interdisciplinaridade em saúde coletiva.(2) METODOLOGIA A proposta desta pesquisa se caracterizou por uma abordagem teórico-metodológica qualitativa, que "é aquela capaz de incorporar a questão do significado e da intencionalidade como inerentes aos atos, as relações e as estruturas sociais".(4) Procedeu-se a uma pesquisa exploratória descritiva e analítica, com a perspectiva de visualizar o trabalho da enfermagem, focalizado na Rede Básica de Serviços Pú- 104 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2):103-108, abr/jun, 2005 blicos de Saúde do município do Rio Grande. O cenário da pesquisa, inserido no município do Rio Grande, no extremo sul do estado do Rio Grande do Sul, é constituído por uma região costeira, com a economia baseada em atividades ligadas à pesca, a indústrias de fertilizantes, à agropecuária e ao porto localizado em sua sede, a cidade do Rio Grande. Nos últimos anos, cada vez mais, as condições socioeconômicas nesta região e seus arredores vêm se agravando: a distribuição desigual da renda per capita e a determinação social do processo saúde-doença, num complexo de causalidades, colocam as instituições de assistência no processo saúde-doença e assistência geral em situação de impotência para resolver grande parte das necessidades da população.(2) Os sujeitos desta pesquisa foram 28 enfermeiros do total de 36 inseridos na Rede Básica de Serviços Públicos de Saúde do município do Rio Grande, por ser este um espaço institucional que tem como finalidade a ação coletiva. Os enfermeiros foram identificados como E1 a E28. Entende-se esses sujeitos como a ponte de compreensão do trabalho da enfermagem na Saúde Coletiva através de seu conteúdo teórico-prático, que apresenta estratégias de ação para se situar no conjunto do trabalho em saúde. Após obter o consentimento livre e esclarecido dos participantes, conforme Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, foram realizadas entrevistas as quais apresentaram-se através de perguntas abertas, gravadas em fita cassete e transcritas para uma maior compreensão acerca do objeto, de modo a permitir uma relação mais aproximada com os sujeitos envolvidos na pesquisa através das falas,sem interferências pré-fixadas do pesquisador. As perguntas selecionadas para análise buscaram identificar o entendimento do profissional acerca do significado de instrumento de trabalho; do entendimento quanto aos saberes utilizados para sua atuação; identificar os instrumentos utilizados no desenvolvimento do trabalho; o entendimento com relação ao significado da palavra ambiente; a utilização do significado de ambiente como conteúdo desenvolvido na formação acadêmica. A prática da enfermagem na Rede Básica de Serviços Públicos de Saúde possibilita visualizar os conteúdos apreendidos na formação acadêmica para o trabalho em Saúde Coletiva, já que esta se caracteriza, atualmente, como sendo um importante campo para atuação dos graduados, e por sua contribuição na aplicação e produção de conhecimentos na assistência à saúde a indivíduos e grupos sociais. A análise do material coletado foi feita com base no referencial teórico que estabelece três passos básicos para a investigação: ordenação dos dados, classificação dos dados e análise final.(4) A revisão bibliográfica buscou satisfazer a necessidade de sedimentar os conhecimentos na compreensão dos objetivos propostos. PROCESSO DE TRABALHO EM SAÚDE Através das transformações ocorridas na sociedade, aconteceram várias mudanças no trabalho, em sua forma de organização e evolução tecnológica. Assim, os sujei- tos trabalhadores adaptaram-se a essas transformações, agindo e reagindo com as novas formas de organização do trabalho, buscando métodos eficazes para interação entre o trabalhador e o objeto. Nesse sentido, a organização do trabalho no que se refere à atuação em saúde coletiva tem variado "desde o cuidar de enfermagem, seja do indivíduo, família e grupos da comunidade, passando pelas ações educativas, administrativas, até a participação no planejamento em saúde".(5) Assim, o trabalho em saúde é definido como essencial para a vida humana e é parte dos serviços de saúde. É um trabalho que transita no campo do abstrato, pois se encontra na esfera de produção não-material, ou seja, não tem como resultado um produto material/concreto, mas se realiza na própria atividade, que é a assistência em saúde, incorporada nas ações preventivas, individuais ou coletivas, nas ações de cuidado e/ou conforto, nas orientações nutricionais, etc.(6) Neste sentido, o trabalho pode ser visualizado como ação própria do homem, através da qual ele transforma e melhora a natureza para satisfazer as suas necessidades. Este homem/ator social concretiza sua imagem no mundo através de seu trabalho, e se inclui no contexto pelo significado coletivo da expressão viva do trabalho. Ainda, o trabalho, então, por seu movimento e significação, compõe o significado da cultura do mundo humano e nele a linguagem que permeia e permite a produção e reprodução de relações entre indivíduos, seus modos de viver e pensar, suas criações, recriações e descobertas. Ao mesmo tempo em que se movimenta pelo trabalho, o ser humano passa a se guiar por seus produtos para compor e sobreviver em seu mundo real diferente, em sua cultura construída sobre e por significações.(7:60) O processo de trabalho tendo como finalidade a ação terapêutica; como seu objeto o indivíduo ou grupos doentes, sadios ou expostos a riscos; necessitando curar, preservar a saúde ou prevenir doenças; como instrumental de trabalho o nível técnico do conhecimento que é o saber de saúde, e o produto final a própria prestação da assistência de saúde, que é produzida no mesmo momento em que é consumida.(7) O trabalho é considerado um processo que se constitui de momentos que se encontram entrelaçados, e o saber da enfermagem pode ser visto como um desses momentos, na medida em que se tem esse saber como instrumento que poderá permitir a aproximação e a transformação daquilo que se considera como objetos de trabalho da enfermagem, permitindo assim alcançar a sua finalidade.(8) INSTRUMENTOS DE TRABALHO EM WSAÚDE COLETIVA Com base nos objetivos traçados nesta pesquisa, conduz-se a linha de pensamento para uma análise reflexiva acerca dos instrumentos de trabalho, que "constituem importantes suportes para realização de ações que requerem habilidades as quais não seriam possíveis sem o concurso de meios materiais que funcionam como extensões do corpo humano ou da mente".(9) Os meios materiais incutidos nas reflexões científicas, tornam-se instrumentos desde o momento em que surge a idéia de sua criação até a definição do fim ao qual se propõem, sofrendo as transformações que irão condicionar novos processos ao trabalho produtivo. A percepção dos sujeitos da pesquisa acerca de instrumento de trabalho, é importante tanto no que se refere ao seu significado como no que os atores sociais caracterizam como sendo o instrumento articulado no processo de trabalho desenvolvido. São os meios que a gente utiliza para desenvolver o nosso próprio trabalho, desde os nossos conhecimentos prévios sobre determinado objetivo, nossos próprios instrumentos materiais, nosso saber de passar conhecimento, são os meios que a gente vai utilizar para desenvolver este trabalho (...), a educação em saúde é um instrumento de trabalho,(...) então são todos os meios que a gente vai utilizar para desenvolver nosso próprio trabalho. (E3) Instrumento de trabalho para mim é tudo que facilita o meu fazer, os instrumentos são coisas que eu posso trabalhar, que vão me facilitar, por exemplo, as mulheres, eu tenho os meus instrumentos de trabalho, eu tenho alguma coisa que vai me facilitar entender e que eu quero passar para elas da prevenção, então os meus instrumentos de trabalho podem ser várias coisas,(...) alguma coisa que facilite e faça acontecer a educação em saúde. Instrumentos são artifícios que a gente tem que usar para melhorar a saúde,(...). Instrumentos são tudo que facilite nosso trajeto no conhecimento. (E9) Mediante a análise dos discursos destes trabalhadores em saúde, percebe-se algumas concepções voltaramse para aspectos que se consideram fundamentais para que ocorra a adequação aos processos utilizados para o desenvolvimento do trabalho. Neste sentido, o instrumento foi evidenciado como sendo aquilo que irá auxiliálos, aquilo que será utilizado para o próprio desenvolvimento de suas ações, são os artifícios, os meios que podem tanto repercutir de forma positiva, como também de forma negativa, sendo que esta dualidade irá influenciar de forma direta na obtenção de um produto final que se pretende produzir, na medida em que este pode não alcançar os objetivos almejados. Assim, escolher um instrumento de trabalho, que será utilizado para um determinado fim, é uma etapa que exige atenção especial, pois tal escolha deverá estar interrelacionada ao processo em toda a sua abrangência, ou seja, os indicadores das necessidades de trabalho, o objeto sobre o qual se vai atuar, a habilidade do profissional e o fim que se deseja alcançar.(9) Quando os entrevistados foram indagados quanto ao seu entendimento sobre os saberes que os mesmos utilizam na sua atuação como enfermeiros da Rede Básica de Serviços Públicos de Saúde, pôde-se observar a importância dada a todo conhecimento adquirido durante a sua constituição profissional, compreendendo tanto os saberes adquiridos através de sua formação, como aqueles exercitados no seu cotidiano de trabalho, na comunida- REME – Rev. Min. Enf; 9(2):103-108, abr/jun, 2005 n 105 Saúde coletiva: identificando... de onde encontra-se inserido. Percebe-se tal reflexão através dos comentários que seguem acerca da importância dada aos saberes/conhecimento. Acho que saberes são os conhecimentos, é toda uma construção tanto teórica quanto prática e que na formação acadêmica e depois na vida profissional a gente vai adquirindo. Vejo que esses saberes são tanto científicos quanto empíricos, saberes que a gente vai agregando com o passar do tempo. (E4) É experiências da tua vida, formações, experiência, vivência, são bagagens. (E26) Seria todo o conhecimento tanto científico como empírico como da comunidade, conhecimento cultural, colocar em prática. (E28) Os sujeitos utilizam os saberes/conhecimento para elaboração de idéias/pensamentos com fundamentação lógica e para que consiga pôr em prática as informações apreendidas a fim de conseguir executar as atividades que planejou. Este saber, visto como algo subjetivo, instiga o sujeito a buscar uma maneira de consolidá-lo, de tornálo concreto/objetivo, "em suas formas de aparecer como, por exemplo, num determinado modo para fazer algo, enquanto estratégia do trabalho, ou numa técnica, como sua operacionalização, ou ainda nas formas tecnológicas materiais, todos eles instrumentos que se inserem como elementos fundamentais da práxis".(9:73) Os conhecimentos apreendidos pelos profissionais entrevistados necessitam estar relacionados aos objetivos que se pretende alcançar. Tal conhecimento pode ser adquirido através do processo educativo(3), que é aquele entendido como um compartilhar de experiências entre o profissional e o cliente, vivenciando, na prática, a busca conjunta de soluções para as questões a serem enfrentadas, sendo necessário levar em conta as experiências anteriores que cada cliente possui. Este processo se dá na relação essencial que se estabelece entre os envolvidos, com a característica primordial de lidar com as ansiedades diante das situações inusitadas. Como um instrumento de trabalho (educação em saúde), o processo ensino-aprendizagem tem como ponto de partida a relação concreta da prática, e, numa relação dialética entre a teoria e a prática, tenta estabelecer a devida relação entre o existente e o possível, entre o conhecimento construído e aquele a ser construído, entre a competência técnico-científica e a política.(3) A atuação na enfermagem não se faz somente com saberes e práticas técnicas, mesmo que o enfermeiro necessite desses para caracterizar um trabalho social em dada sociedade, sendo reconhecido por ela e nela intervindo. A enfermagem apresenta-se como uma prática de relações inserida dentro de uma equipe multiprofissional e deve, dentro desta, assumir sua especificidade, ou seja, o cuidado, o qual deve ser voltado não para a doença, e sim para o sujeito, exigindo para tanto saberes adquiridos nas diferentes etapas da formação. Ainda, o enfermeiro, deve ser capaz de identificar, analisar e conduzir as relações de trabalho sem que estas interfiram de forma negativa na assistência prestada aos clientes.(10) Desta forma, o profissional enfermeiro e o 106 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2):103-108, abr/jun, 2005 seu cliente passam por um processo de transformação das informações proporcionadas, pois tanto os trabalhadores em saúde quanto os clientes são produtores de mudanças implícitas ou explícitas no processo educativo, ou seja, cada enfermeira ao expressar sua mensagem educativa possui traços característicos, assim como cada cliente que a recebe.(11) Ao questionar os profissionais que atuam nos serviços de atenção básica sobre quais os saberes que são utilizados no seu trabalho diário, a educação em saúde foi considerada como uma ferramenta essencial com o propósito para conciliar novos processos ao trabalho, sendo evidenciadas nas afirmações que seguem. (...) educação em saúde, educação popular, e dentro destas as que mais utilizo são: educação em saúde, eu uso oficinas de trabalho, teatro, mobilização popular. Mas assim instrumentos na verdade que facilitam o acesso à população, outro é a consulta de enfermagem, que dá oportunidade para o processo educativo, que pode ser na sala de aula, a gente utiliza uma técnica de sensibilização, motivação, integração entre as pessoas, mostra que as pessoas que nunca se viram não se conhecem, mas têm as mesmas ansiedades e objetivos. (E4) (...) A própria educação popular, que na saúde coletiva a gente utiliza bastante, que aproxima um pouco da educação em saúde, mas aquela educação em saúde não só informativa. O interessante é a educação popular é isso, não ficas só na informação, tu ficas na interação, na troca com os coletivos, eu acho que os prioritários são estes: a visão sistêmica, a compreensão do ambiente fazendo parte dos indivíduos e a educação popular, eu acho que eu mais utilizo e que é pouco visto na graduação. (E3) Refletindo acerca das falas dos atores sociais envolvidos na pesquisa, reafirma-se a importância do diálogo entre e o saber científico ao saber popular, visto que esses, quando agregados, possibilitam ao educador e ao educando a maior integração e, conseqüentemente, a apreensão dos conhecimentos que estarão envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. Assim, para melhor atuação na Educação em Saúde, o profissional deve ter conhecimento da área de atuação, considerando também a situação econômica, social e cultural da população que o seu trabalho abrange, para que consiga interagir e buscar soluções para os possíveis problemas dessa população em conjunto, pois havendo participação, estarão compartilhando do processo educativo. A participação do profissional e da população no processo educativo faz com que ocorra o diálogo entre o saber científico e o saber popular, e, desta maneira, encontrese a melhor forma para atuar em determinada situação. Em se tratando do processo de trabalho da enfermagem voltado para as ações educativas, é de primordial importância que os sujeitos participantes dessas ações reflitam sobre esse processo desde o início de sua formação profissional, ou seja, devem pensar no processo de trabalho como sendo o norteador de suas ações, já que este possibilita a elaboração, o planejamento e a exe- cução adequada da idéia que se propõem. Assim, o ser humano poderá aparecer como agente transformador para romper a tendência fragmentadora e desarticulada do conhecimento. O ser humano é considerado um sujeito biológico e social, encontrando-se inserido em uma sociedade historicamente determinada, pertencente a diferentes classes sociais, diferentes condições de vida, de saúde e de assistência, possuindo uma visão própria do lugar onde está inserido(3). Assim, para efetivar as ações de educação em saúde, torna-se necessário visualizar, dentro deste contexto, o ambiente no qual o sujeito se encontra, indo desde o ambiente social até o ambiente natural. Partindo-se da idéia de que o ser humano está inserido em um contexto social, onde age e reage de forma a contribuir direta ou indiretamente para seu crescimento, através de ações influenciadas pelo ambiente, a questão ambiental foi incutida no instrumento norteador da pesquisa para que fosse possível analisar as considerações dos sujeitos envolvidos no trabalho em Saúde Coletiva acerca deste significante. O ambiente é para mim o todo, meio onde os seres se inter-relacionam, sejam seres humanos, seres animais, seres que habitam nesse meio, que pode ser o ambiente de trabalho, o ambiente familiar, da própria comunidade, ecossistema é todo o meio em que os seres se inter-relacionam, na minha noção, porque na minha compreensão de meio ambiente, de ambiente, é isso; as coisas não são separadas, elas existem, têm a sua particularidade, mas elas se inter-relacionam, para mim ambiente é isso. (E3) (...) o ambiente de trabalho ele tem que te satisfazer até como pessoa, porque tu passa a maior parte dos teus dias no ambiente de trabalho, então tu tens pelo menos que fazer com que ele te propicie satisfação de participar deste ambiente, fora do trabalho tu tens outros ambientes, o familiar, o social, enfim a convivência com outros seres humanos (...). (E16) Percebe-se que os sujeitos envolvidos neste trabalho concebem o ambiente sob diferentes ângulos, que se interrelacionam, ou seja, o ambiente biosocial, econômico e cultural que envolve os sujeitos em suas relações de trabalho, família, comunidade e o próprio ecossistema, apresentando cada um suas especificidades. Eles se agregam tornando-se um ambiente fundamentado com as relações e inter-relações que cada indivíduo, como ser único, estabelece com a comunidade na qual se encontra inserido. Portanto, considerar a educação em saúde como disciplina de ação significa dizer que o trabalho será dirigido para atuar sobre o conhecimento das pessoas, para que elas desenvolvam juízo crítico e capacidade de intervenção sobre suas vidas e sobre o ambiente com o qual interagem e, assim, criem condições para se apropriarem de sua própria existência. Para um maior esclarecimento sobre a importância da questão ambiental no que se refere ao envolvimento do profissional enfermeiro no trabalho em saúde coletiva, enfatizando a educação em saúde, buscou-se, através da análise das falas dos atores sociais, observar se estes uti- lizavam a questão ambiental no desenvolvimento de seu processo de trabalho. Eu acho que realmente não somos nós que o usamos, e sim ele que nos usa, porque tu tens que te adaptar ao que ele exige. Tu não vais conseguir fazer um ambiente responder àquilo que tu queres. (E17) (...) tu acaba utilizando porque o próprio clima em si é o ambiente e então assim, se eu tenho que me preocupar com a conservação de algumas vacinas, vou te dar um exemplo bem elementar: tenho que me preocupar com a preservação das vacinas na geladeira, eu também tenho que pensar na temperatura ambiente, não só dentro da geladeira, porque só isso pode alterar, então o ambiente na verdade é tudo que está a tua volta. (E16) Nas inter-relações que envolvem o sujeito/ambiente, percebe-se que esta questão projeta-se para o ambiente de trabalho na medida em que o indivíduo consegue visualizar-se como parte integrante e funcional desse, que pode ser modificado para adaptar-se ao homem, mas que também pode fazer com que este homem busque meios de adaptação para atuar de forma harmônica no ambiente que o cerca. Assim, pensando esse ambiente integrado em nossas vivências, a educação deve resultar em aprendizagem para a experiência individual e a convivência do ser humano com o meio ambiente. Nesse processo, o indivíduo aprende formas de enfrentar os desafios que se impõem em sua busca de realização. Aprende a criar e a transformar elementos da natureza e do meio social que possam contribuir em sua satisfação ou na solução de problemas percebidos por ele como de solução necessária.(12) CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao realizar esta pesquisa pretendeu-se visualizar a percepção dos sujeitos acerca dos instrumentos trabalhados pelos enfermeiros atuantes na Rede Básica dos Serviços Públicos de Saúde no município de Rio Grande. Após o término da análise, verificou-se que os instrumentos utilizados pelos enfermeiros são todos os meios que facilitam a realização do trabalho, buscando atingir o produto final, concebido como ações de promoção da saúde, ou seja, tanto os materiais que auxiliam na realização das atividades, como o conhecimento necessário para realizá-lo são saberes utilizados pela enfermagem, podendo repercutir de forma positiva ou negativa no trabalho. Os instrumentos utilizados pelos enfermeiros são diversos, tendo como propósito auxiliar na prestação de uma assistência de qualidade, apoiados em pressupostos teóricos necessários no desenvolvimento das atividades. O conhecimento apontado pelos entrevistados é o que caracteriza o trabalho da enfermagem como um saber científico. Este mesmo conhecimento pode ser visualizado no entendimento dos sujeitos da pesquisa com relação aos saberes utilizados para atuar na Rede Básica de Serviços Públicos de Saúde, sendo referido como toda experiência que o profissional adquire durante a formação pessoal e profissional. REME – Rev. Min. Enf; 9(2):103-108, abr/jun, 2005 n 107 Saúde coletiva: identificando... A educação em saúde surge como um saber utilizado no trabalho diário. É um processo no qual ocorre a capacitação dos indivíduos ou grupos para que possam resolver seus problemas de saúde; processo que inclui o crescimento dos profissionais, através da observação conjunta sobre o trabalho que desenvolvem e suas relações para a melhoria das condições de vida da comunidade. Tem como finalidade a formação do conhecimento que se dá pela transformação da realidade, a qual é conseguida através do pensamento crítico e se torna imprescindível para a construção da cidadania, influenciando diretamente tanto no comportamento individual quanto da coletividade. Para que se efetivem as ações de educação em saúde, tornou-se necessário considerar, dentro deste contexto, o ambiente no qual o sujeito se encontra. Para tanto, quando perguntado aos entrevistados sobre o significado de ambiente, foram destacados os ambientes biológico, social e de trabalho. O ambiente é visualizado nas interrelações que envolvem o sujeito, na medida em que o mesmo consegue visualizar-se como parte integrante e funcional desse ambiente, o qual pode ser modificado para adaptar-se ao homem, mas também pode fazer com que este sujeito busque meios de adaptação para nele atuar de forma harmônica. Olhar o trabalho da enfermagem na Rede Básica de Serviços Públicos de Saúde possibilitou considerar a adequação dos trabalhadores ao processo de trabalho, já que conseguem identificar os instrumentos utilizados para a efetivação das atividades diárias. Os instrumentos utilizados no trabalho educativo são diversos, pois, todos são necessários no processo, ocorrendo a utilização mais freqüente do conhecimento, caracterizando o saber científico da enfermagem. Os profissionais, para atuarem em Saúde Coletiva, necessitam tanto dos conhecimentos técnicos, como também de visualizar o ambiente, no qual se encontram inseridos, como um campo de atuação no qual a enfermagem pode exercer as suas ações, determinando o fazer da enfermagem. Então, ao final desta pesquisa, deixa-se como sugestão, a inserção da questão ambiental, desde a formação do profissional, atrelada ao contexto no qual o sujeito está inserido para que o mesmo, ao atuar em Saúde Coletiva, perceba a importância da adequação do ambiente às suas ações, e, com isso, alcance êxito nas propostas lançadas à coletividade. 108 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2):103-108, abr/jun, 2005 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Brasil. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2004. Citado em: jan.2005. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/ 2. Cezar-Vaz MR et al. A Enfermagem em Saúde Coletiva: poder e autonomia na organização tecnológica do trabalho interdisciplinar da rede básica de serviços públicos de saúde. Rio Grande: Departamento de Enfermagem-FURG; 2001. (Projeto de pesquisa/CNPq). 3. Egry EY. Saúde Coletiva: construindo um novo método em Enfermagem. São Paulo: Ícone; 1996. 4. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 2a ed. São Paulo: Hucitec-ABRASCO; 1993. 5. Almeida MCP, Rocha SMM. O trabalho de Enfermagem. São Paulo: Cortez; 1997. 6. Pires PP. A estrutura objetiva do trabalho em Saúde. In: Leopardi MT. O processo de trabalho em saúde: organização e subjetividade. Florianópolis: Programa de Pós Graduação em Enfermagem/UFSC, PapaLivros; 1999. p.25-48. 7. Cezar-Vaz MR. O trabalho em Saúde: expressão viva da vida social. In: Leopardi MT et al. O processo de trabalho em saúde: organização e subjetividade. Florianópolis: Programa de Pós Graduação em Enfermagem/UFSC, Papa-Livros; 1999. p.57-70. 8. Almeida MCP, Rocha JSY. O saber de enfermagem e sua dimensão prática. São Paulo: Cortez; 1986. 9. Leopardi, MT et al. O processo de trabalho em saúde: organização e subjetividade. Florianópolis: Programa de Pós Graduação em Enfermagem/UFSC, Papa-Livros; 1999. 10. Spagnol CA. (Re)pensando a gerência em enfermagem a partir de conceitos utilizados no campo da Saúde Coletiva. Ciên & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 2005 jan./mar.; 10 (1): 119-27. 11. Cezar-Vaz MR et al. Educação e Produção de Saúde: um estudo da enfermagem de saúde coletiva no extremo sul do Brasil. Texto & Contexto Enf., Florianópolis, 2003 jan./mar; 12 (1): 59-67. 12. Silva MEK. Educação em saúde na assistência de enfermagem: um estudo de caso em Unidade Básica de Saúde [dissertação]. Florianópolis: Departamento de Enfermagem, UFSC;1992. Recebido em: 06/04/2005 Aprovado em: 08/06/2005 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA CONSULTA DE ENFERMAGEM: IMPORTÂNCIA, AMBIGUIDADES E DESAFIOS THE SOCIAL REPRESENTATION OF NURSING CONSULTATION: IMPORTANCE, AMBIGUITY AND CHALLENGES LA REPRESENTACIÓN SOCIAL DE LA CONSULTA DE ENFERMERÍA: IMPORTANCIA, AMBIGÜEDADES Y DESAFÍOS Antônio Marcos Tosoli Gomes1 Denize Cristina de Oliveira2 RESUMO Este trabalho tem como objetivo analisar a representação social da consulta de enfermagem construída por enfermeiros da rede básica de saúde. O referencial teórico-metodológico foi a Teoria das Representações Sociais. Realizou-se entrevista em profundidade com 30 enfermeiros de um município do Rio de Janeiro. Os dados foram analisados pelo software Alceste. Os resultados demonstraram cinco significados para consulta: novo relacionamento enfermeiro-equipe, enfermeiro-clientela, atividade exclusiva, atividade própria ou mercantilização da assistência e a educação em saúde como base da consulta. Conclui-se que a consulta tornou-se uma importante tecnologia ao desenvolvimento profissional e ao enfrentamento dos desafios atuais dos enfermeiros no conjunto das práticas sanitárias. Palavras-chave: Enfermagem em Saúde Pública; Psicologia Social; Saúde Pública ABSTRACT This work has as objectives: to analyze the social representation of the nursing consultation built by public health nurses. The methodological reference was the Theory of Social Representations. Thirty nurses from the public health care system were chosen as subjects, and in depth interviews were held. The data was analyzed by ALCESTE software. The results showed five different meanings to consultations: the new relationships nurse-team, nurse-clientele, exclusive activity, consultation itself and health education as the basis of consultation. It was found that nursing consultation is an important piece of technology in professional development and helps to face up the current challenges in the set of professional work. Key-words: Public Health Nursing; Social Psychology; Public Health RESUMEN El objeto del presente trabajo es describir y analizar la representación social de la consulta de enfermería elaborada por enfermeros de la red básica de salud. El referente teórico-metodológico fue la Teoría de las Representaciones Sociales. Se escogieron 30 enfermeros de la red básica con quienes se realizaron entrevistas con profundidad. Los datos fueron analizados con ayuda del software Alceste. Los resultados demostraron que la consulta está asociada a cinco significados: la nueva relación enfermero-equipo, enfermero-clientela, actividad exclusiva, como actividad propia o “comercialización” de la asistencia y la educación en salud como base de la consulta. Como conclusión, realzamos que la consulta se ha transformado en una tecnología importante para el desarrollo profesional y para enfrentar los desafíos actuales de la profesión. Palabras clave: enfermería en salud pública; psicología social; salud pública 1 2 Enfermeiro. Mestre em Enfermagem pela Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professor Assistente do Departamento de Enfermagem da Universidade Gama Filho. Professora Titular de Pesquisa do Departamento de Fundamentos de Enfermagem da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Doutora em Saúde Pública/USP. Endereço para correspondência: Rua dos Artistas, 225/301, Tijuca – RJ/RJ. CEP: 20511-130. E-mail: [email protected]. REME – Rev. Min. Enf; 9(2):109-115, abr/jun, 2005 n 109 A representação social da... INTRODUÇÃO Os enfermeiros têm convivido com os dilemas da modernidade e da globalização, entre os quais pode-se citar a tenuidade cada vez maior das idiossincrasias e particularidades das profissões de saúde. Nesse sentido, percebe-se o trabalho multidisciplinar, importante para o cliente e necessário ao desempenho de um trabalho integral por parte da equipe de saúde, ao lado de sobreposições de funções e papéis que, normalmente, não apresentam nem melhoria da qualidade do atendimento à clientela, nem um ambiente de trabalho mais humano, solidário ou saudável. A especialização constante das profissões, ao lado do excesso de trabalho e escassos recursos humanos, entre outros fatores, possibilitou o surgimento de novas profissões, novas especializações, bem como diferentes atribuições e novos comportamentos dos profissionais ante as necessidades sociais estabelecidas, as demandas da clientela e as exigências das instituições e/ ou governos(1-2) . A enfermagem, nesse contexto, sente-se desafiada a responder aos novos imperativos mercadológicos, institucionais e sociais, acrescentando à sua prática tradicional, tanto a execução de atividades realizadas de forma independente, quanto a especialização como forma de demonstração de sua evolução técnico-científica e de sua necessidade técnico-social ante as necessidades concretas dos usuários. Este aspecto, contudo, torna-se nevrálgico para a enfermagem, devido à necessidade de construção de uma evolução científica e tecnológica do campo de conhecimento de enfermagem, que se paute na humanização do cuidado e no exercício de um saber/fazer solidário, pautado na empatia, em um comportamento integral em seus aspectos profissional e humano, capaz de proporcionar tanto o conforto físico e espiritual, quanto a segurança de que o processo de evolução do adoecer-sarar está sendo assistido com toda a competência tecnológica e todo o conhecimento científico(3-4). Ao mesmo tempo, o saber/fazer da enfermagem e, mais especificamente, do(a) enfermeiro(a), tem que ser analisado a partir do núcleo essencial da profissão, qual seja, o cuidar. Isso significa dizer que o cuidar é a lente através da qual deve-se olhar a prática profissional, atribuir escala de valores aos saberes/fazeres específicos e estabelecer relações com a clientela e com as demais profissões da equipe de saúde. Em função disso se estabelecem, então, as atividades operacionais e instrumentais da prática profissional, conferindo especificidade à ação profissional e, ao mesmo tempo, possibilitando o trabalho multidisciplinar(5). Assim, a saúde coletiva e a programação em saúde têm se apresentado como espaços importantes para a atuação independente do enfermeiro, especialmente através da consulta de enfermagem. Cabe ressaltar, ainda, que estes espaços convivem com a dialética constante entre o trabalho individual e independente que se corporifica nas consultas dos distintos profissionais e o trabalho multidisciplinar, pela concretização dos pressupostos da programação em saúde(6). 110 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2):109-115, abr/jun, 2005 Existem, no entanto, formas diferenciadas de abordagem à consulta de enfermagem. Alguns autores(7), por exemplo, consideram a consulta de enfermagem como uma das atividades exclusivas dos(as) enfermeiros(as), ao passo que outros(8) se referem à consulta como uma atividade de baixa cobertura, baixa eficácia e impacto questionável. Esse fato parece ser decorrente da realização da consulta a partir dos mesmos princípios tecnológicos da consulta médica, ou seja, um atendimento individual destituído do olhar epidemiológico(8). Entende-se como consulta de enfermagem “a atenção prestada ao indivíduo, à família e à comunidade de modo sistemático e contínuo, realizada pelo profissional enfermeiro com a finalidade de promover a saúde mediante o diagnóstico e tratamento precoces”(9:51). Outros autores(10), por sua vez, destacam a consulta de enfermagem como uma estratégia de resgate dos componentes da prática assistencial do(a) enfermeiro(a) em unidades de saúde e ambulatórios, visando a avaliação do estado de saúde do indivíduo durante o ciclo vital. Por isso, definiu-se como objeto deste estudo a consulta de enfermagem realizada no contexto da programação em saúde na rede básica de saúde, com o objetivo de analisar a representação social da consulta de enfermagem construída por enfermeiros da rede básica de saúde. METODOLOGIA Definiu-se como referencial teórico-metodológico deste trabalho a Teoria das Representações Sociais, desenvolvida no contexto da Psicologia Social(11-14). As representações sociais estão presentes na cultura, nos processos de comunicação e nas práticas sociais, sendo, portanto, difusos, multifacetados e em constante movimento e interação social(14). As representações possuem como materiais fundamentais de estudo, as opiniões verbalizadas, as atitudes e os julgamentos individuais e coletivos, fazendo parte de um olhar consensual sobre a realidade(15). Cabe destacar, também, que as representações sociais podem ser consideradas como “ciências coletivas sui generis, destinadas à interpretação e elaboração do real”(11:50) ou como “uma forma de conhecimento socialmente elaborada e partilhada, tendo uma orientação prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”(12:22). Tornam-se importantes, não apenas as considerações teóricas acerca das representações sociais, mas sua importância na concepção do real e na forma como influencia a relação do sujeito com as suas experiências reais. Em função disso, determinados autores(16) elaboram o conceito de representação social, como sendo o produto e o processo de uma atividade mental, através da qual um indivíduo ou um grupo reconstitui a realidade com que se confronta e à qual ele atribui um significado específico. Como sujeitos, foram incluídos no estudo 30 enfermeiros, inseridos na rede básica de saúde de um município do interior do Estado do Rio de Janeiro, que desenvolvem a consulta de enfermagem dentro da programação em saúde implantada no sistema local de saúde. Os critérios de inclusão estabelecidos foram: lotação profissional nos quadros de saúde pública do município e desempenho de atenção direta à população através da consulta de enfermagem no contexto da programação em saúde. Os dados foram coletados através de entrevista em profundidade, que durou, em média, 60 minutos, considerando que os métodos interrogativos, como a entrevista, objetivam recolher uma expressão (icônica ou verbal) dos indivíduos sobre o objeto de representação(16). A entrevista foi realizada com o auxílio de um roteiro estruturado a partir de entrevistas exploratórias, anteriormente realizadas com profissionais distintos dos envolvidos no desenvolvimento do estudo. A análise de dados foi realizada com o software Alceste 4.5 através da análise lexical, que recorre a co-ocorrências das palavras nos enunciados que constituem o texto, de forma a organizar e sumariar informações consideradas mais relevantes, e possui como referência em sua base metodológica, a abordagem conceitual lógica e dos mundos lexicais(17). Este software foi criado na França, em 1979, por Max Reinert para ser utilizado no sistema operacional windows. Ele apresenta uma organização possível dos dados através de análises estatísticas e matemáticas, fornecendo o número de classe, as relações existentes entre as mesmas, as divisões realizadas no material analisado até a formação das classes, as formas radicais e palavras associadas com seus respectivos valores de qui-quadrado, além do contexto semântico de cada classe(18). O teste de qui-quadrado reveste-se de importância no Alceste à medida que demonstra o grau de associação da palavra à classe. Esse tipo de teste é um dos mais antigos da estatística e um dos mais usados em pesquisa social, possibilitando testar a significância da associação entre duas variáveis quantitativas(19). Para esse tipo de teste o p valeu < 0,05. Cabe destacar, ainda, que o Alceste segmenta o material a ser analisado em grandes unidades denominadas Unidades de Contextos Iniciais (UCI), que podem ser entrevistas de diferentes sujeitos reunidas em um mesmo corpus, respostas a perguntas específicas, normalmente abertas, de questionários e textos de jornais e revistas. O texto completo é, então, reformatado e dividido em segmentos de algumas linhas respeitando, se possível, os cortes propostos pela pontuação. Esses segmentos são denominados Unidades de Contextos Elementares (UCE) e correspondem ao material discursivo ou escrito relevante para a formação das classes. O software possibilita a realização de uma análise standart, não orientada, do conjunto do material; e um segundo tipo de tratamento orientado para a busca dos termos indicados pelo pesquisador nas unidades de contexto do material analisado – análise tri-croisé. O tratamento dos dados deste trabalho foram realizados através da análise tri-croisé para a expressão consulta de enfermagem. Isso significa dizer que o software separou o conteúdo das entrevistas em dois blocos: um ligado à expressão consulta de enfermagem e o outro não ligado à essa expressão. RESULTADOS O resultado da análise tri-croisé pode ser observado na figura 1. Observa-se a divisão do material discursivo analisado em duas classes lexicais. A primeira – classe 1 – contém as unidades de contexto com a expressão consulta de enfermagem e a segunda – classe 2 – não contém a expressão, ou seja, comporta todo o conjunto restante do texto analisado. Introdução do Corpus de Análise no software Alceste Classe 1 Apresentação dos Conteúdos ligados à Expressão “Consulta de Enfermagem” Classe 2 Apresentação dos Conteúdos que não contêm a Expressão “Consulta de Enfermagem” Figura 1 – Dendograma de Divisão do Material da Análise Tri-croisé A classe 1, referente à consulta de enfermagem representa 6.02% do total do texto analisado, o que significa ser constituída por 189 unidades de contexto elementar (UCE). As palavras estatisticamente mais associadas à classe são: consulta de enfermagem (qui-quadrado = 141.00), consulta médica (qui-quadrado = 64.60), exclusivo (qui-quadrado = 60.93), consulta (qui-quadrado = 56.06) e educação em saúde (qui-quadrado = 47.29). As variáveis associadas à classe foram o sexo feminino e o tempo de trabalho na rede básica de assistência à saúde acima de dez anos. Foi constituída fundamentalmente pelos sujeitos1, 6, 9, 10, 14, 15, 17, 19, 25 e 29. Essa classe pode, ainda, ser mais bem especificada através das UCE expostas na discussão dos dados. A análise das UCE características da classe aponta para a presença de duas dimensões das representações sociais dos sujeitos, quais sejam, o conhecimento e a prática. No que tange à dimensão da prática, destacam-se os seguintes REME – Rev. Min. Enf; 9(2):109-115, abr/jun, 2005 n 111 A representação social da... significados atribuídos à consulta pelos profissionais:(1) a consulta, como nova forma de relacionamento da enfermagem com a equipe de saúde;(2) a consulta, como nova forma de relacionamento da enfermagem com a clientela;(3) a consulta como atividade exclusiva do enfermeiro; e(4) a consulta com um aspecto dúbio, entre o papel próprio do enfermeiro e a medicalização da consulta de enfermagem. Com relação à dimensão da representação do conhecimento, percebe-se, transversalmente às falas dos sujeitos, a educação em saúde como base da consulta de enfermagem. Nesse sentido, os indivíduos tendem a desenvolver o conceito de consulta de enfermagem associado ao processo de educação em saúde. DISCUSSÃO Para os sujeitos, a consulta de enfermagem caracteriza uma nova relação enfermeiro-equipe de saúde na medida em que ela se torna atividade exclusiva do(a) enfermeiro(a). Portanto, essa atividade é considerada como organizadora do modelo de assistência prestada, ao menos na rede básica de serviços de saúde. Nesse sentido, a consulta de enfermagem, para os entrevistados, representa uma forma mais igualitária de distribuição de status e de poder, na divisão técnica e social do trabalho na área da saúde, como pode ser percebido na fala transcrita a seguir: “Porque até então [implantação da consulta de enfermagem], eles [os médicos] eram onipotentes”. (SUJ. 29) O poder não se estabelece apenas na rigidez do instituído ou do historicamente legitimado, mas apresenta-se de forma sutil na capilaridade das relações diárias(19). Nesse caso, o espaço privilegiado – o consultório – e uma tecnologia adequada – a consulta – estabelecem uma relação de poder do enfermeiro com a equipe de saúde de forma igualitária, uma vez que as decisões terapêuticas do enfermeiro são estabelecidas no interior da independência e da solidão de um espaço/momento que é a consulta de enfermagem, tecnologia esta que também é utilizada por todos os demais integrantes de nível superior da equipe de saúde. Da mesma forma, a relação com a clientela é redimensionada à medida que esta se defronta com um espaço/momento de encontro com o(a) enfermeiro(a), profissional este que possui o conhecimento ou o poder necessário à satisfação das necessidades e demandas da clientela. A UCE a seguir traduz essa idéia: “Com essa história do atendimento do enfermeiro, da atenção que o enfermeiro dava na consulta de enfermagem, que é mais orientação, educação em saúde, a população chegou em uma época que não queria mais nem ser consultada por outro profissional”. (SUJ. 19) A consulta de enfermagem pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população, por reunir, em si, diversas outras atividades que eram realizadas separadamente, inclusive o processo de enfermagem(21). Desse modo, o enfermeiro na consulta procura compre112 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2):109-115, abr/jun, 2005 ender o usuário para além das dimensões fisiológicas ou patológicas, levando em consideração sua subjetividade, seu meio socioeconômico e cultural, a família e a equipe multidisciplinar. Outro autor(22), concordando com o exposto, refere que a enfermagem apresenta duas dimensões do cuidar que não são excludentes, mas complementares no exercício diário da profissão, quais sejam, a dimensão afetiva/expressiva e a dimensão técnica/instrumental. Assim, a capacidade afetiva, emocional e empática encontra também uma forma de expressão nos cuidados necessários no cotidiano das instituições de saúde e que são importantes à promoção da saúde, à prevenção das doenças ou, ainda, ao restabelecimento da saúde dos indivíduos. Torna-se importante, então, a abordagem crítica na utilização de uma tecnologia, como a consulta de enfermagem, de forma que a assistência do profissional à clientela ultrapasse a centralização da ação profissional na queixa anatomofisiológica, no distúrbio patológico ou no modelo biomédico de atendimento(21). Com essa compreensão, devem-se evitar comparações da consulta com a ação de outros profissionais ou o estabelecimento de padrões comparativos quanto à eficácia das ações dos diferentes profissionais. Ao mesmo tempo, a consideração da visão holística ou integral do indivíduo por parte dos(as) enfermeiros(as) deve ser vista como própria da profissão e que a epidemiologia é um saber importante para a ação do enfermeiro e perfeitamente adequado à consulta de enfermagem. Esses aspectos tornam-se importantes na discussão da próxima categoria de análise, qual seja, a consulta de enfermagem representada de forma dúbia, comportando um saber/fazer próprio da enfermagem, bem como a medicalização da assistência de enfermagem. Os sujeitos apresentam essa tensão nas seguintes falas: “Dentro da consulta de enfermagem, o que considero mais importante é a educação em saúde. Dentro da consulta de enfermagem, o enfermeiro educa o cliente para conseguir um padrão de saúde”. (SUJ. 17) “Mas o grupo dentro da consulta de enfermagem, onde nem sempre a intervenção é medicamentosa, mas sim em nível de educação em saúde, a prática é mais fácil e igualitária”. (SUJ. 17) “Ver a qualidade da consulta de enfermagem. O enfermeiro se vinculou tanto à prescrição de programa, que não se faz uma prescrição de enfermagem.” (SUJ. 15) Historicamente, a consulta é uma tecnologia de trabalho da equipe médica sendo confundida com o seu próprio processo de trabalho. Esse modelo de consulta se refere, especificamente, ao atendimento individualizado das necessidades do cliente e sua pronta resolução, não tendo impacto na epidemiologia local nem na capacidade de organizar a assistência à saúde a partir de uma abordagem epidemiológica(23). Assim, a representação de consulta de enfermagem como medicalização da assistência de enfermagem por parte de alguns sujeitos, indica uma apropriação inadequada de ações delegadas definindo-as como próprias, ou seja, uma inversão de valores e uma sobreposição, ao essencial, daquilo que é instrumental à prática profissional. A prescrição medicamentosa é uma característica da ação médica e sua realização na prática do enfermeiro se torna possível se definida como ação delegada. Portanto, o uso de medicamentos na assistência de enfermagem não a descaracteriza, desde que se tenha clareza de considerá-lo como ação delegada e instrumental à prática profissional, e não constituinte da essência da profissão ou sinônimo de espaço autônomo de atuação(5). Na construção do que é próprio do enfermeiro de forma a consubstanciar uma prática específica expressa pela consulta de enfermagem, diversos aspectos devem ser incluídos além daqueles ligados aos profissionais. Isso inclui os sentimentos humanos, a solidariedade, a empatia, a competência política e ética, a postura crítica, reflexiva e transformadora e o exercício da cidadania e da autonomia(5; 23). Dessa maneira, destaca-se que a realização de condutas específicas executadas na consulta de enfermagem baseia-se, fundamentalmente, no relacionamento empático e solidário profissional-clientela, especialmente concretizado na educação em saúde, por uma pedagogia problematizadora e dialógica(25-26). Essa direcionalidade de atuação manifesta-se como fio condutor das ações de enfermagem, ao pesar e medir as crianças, na coleta dos dados relacionados às ações preventivas, na orientação às mães e aos clientes e até mesmo no uso do arsenal farmacêutico, esse agora dimensionado a seu aspecto instrumental em relação à assistência de enfermagem entre outras atividades. A outra classe analítica refere-se à educação em saúde, como base da consulta de enfermagem. As UCE abaixo demonstram a importância da educação no cotidiano profissional da enfermagem. “Dentro da consulta, o que considero mais importante é a educação em saúde”. (SUJ. 17) “Dentro da consulta de enfermagem e que é exclusivo do enfermeiro, o enfermeiro faz exame físico, prescrições e pedidos de exames, quando é necessário, orientação, educação em saúde, já que isso não é comum o médico fazer e é exclusivo do enfermeiro”. (SUJ. 29) Alguns sujeitos caracterizam a consulta de enfermagem a partir da relação pedagógica e dialógica enfermeiro-cliente, centrando-se, conseqüentemente, na educação em saúde, na compreensão dos indivíduos para além dos conceitos biomédicos, na família e na comunidade como bases para a ação profissional. Nesse sentido, a educação em saúde se apresenta como um dos aspectos centrais da atuação do enfermeiro dentro da consulta de enfermagem, tornando-se necessário um aprofundamento nas implicações que essa prática tem para o exercício profissional. Dessa forma, os entrevistados destacam a educação em saúde não somente como um repasse de informações acerca de conceitos e aspectos de saúde, doença ou qualidade de vida. Na fala dos(as) enfermeiros(as) entrevistados(as), a educação em saúde adquire uma conotação de relação pedagógica com a população assistida, no sentido de torná-la autônoma através do processo ensino-aprendizagem. Contudo, os dados revelam a existência de um poder explícito oriundo do saber profissional que determina e discrimina o que é apropriado ou adequado para o cliente e sua família. O enfermeiro apresenta-se como um profissional educador na área de promoção da saúde e prevenção das doenças, desenvolvendo, como característica própria, uma relação dialógica até mesmo nos mínimos detalhes da inter-relação pessoal(22-26). Contudo, questiona-se em que medida o imaginário profissional de empatia, afetividade e cumplicidade se concretiza nos estresses da prática profissional, nos conflitos profissionais-clientela e nas dificuldades tanto relacionais quanto institucionais da profissão, uma vez que os(as) enfermeiros(as) também possuem sentimentos e motivações humanas, bem como se insere em quadros mais complexos de poder, subordinação e limitação hierárquica(5). Cabe destacar que a afetividade no processo de educação não é incompatível com a competência técnicocientífica ou o rigor necessário ao processo de construção do outro(26). Desta maneira, o(a), enfermeiro(a) ao exercer a educação em saúde e considerá-la como um fator constituinte de seu núcleo essencial, necessita perceber as relações existentes entre os sentimentos humanos que tornam eficazes o processo dialógico (amor, empatia, cumplicidade, compreensão e generosidade, entre outros) com o conhecimento científico apropriado, o rigor de um posicionamento profissional e a compreensão do direito e da autonomia do usuário em decidir sobre sua vida, sem que isso gere um processo de culpabilização no profissional por escolhas que não sejam adequadas com o parâmetro científico estabelecido. A educação em saúde necessita ser um diálogo e não um monólogo tecnocrático(28). Esse último se concretiza como um processo em que o poder é exercido abertamente através da obscuridade da linguagem científica para o senso comum, a postura profissional distante, especialmente se os profissionais pertencem a classes sociais diferentes, e a normalidade institucional como determinantes da necessidade da clientela. No processo de educação em saúde torna-se necessário informar e conhecer, falar e ouvir e, principalmente, expor-se mutuamente. Alguns aspectos acerca de um processo educativo dialógico, que possui referência na educação em saúde caracterizada pelos entrevistados, devem ser ressaltados. Ou seja, o processo ensino-aprendizagem é uma experiência total, política, ideológica, gnosiológica, pedagógica, estética e ética, em que beleza e seriedade andam de mãos dadas(26). Ao mesmo tempo, a educação em saúde, como processo ensino-aprendizagem crítico e construtivo, necessita centrar-se não somente no repasse de conteúdos programáticos, oferecendo informações para que a população possa construir seu aprendizado. Outro aspecto importante é considerar o respeito ao outro, no caso desprovido dos conhecimentos científicos necessários à REME – Rev. Min. Enf; 9(2):109-115, abr/jun, 2005 n 113 A representação social da... sua sobrevivência ou sua qualidade de vida, e à sua autonomia de decisão sobre seu corpo e sua vida, um imperativo ético e não um favor realizado através de um comportamento profissional generoso. Neste sentido, a educação em saúde constitui-se em uma forma de poder que pode contribuir para elevar o nível de saúde da população e fornecer à enfermagem uma identidade específica junto à população. A educação em saúde é um dos itens de atividade que possibilita projeção social à profissão e necessita ser utilizada não somente de forma pontual acerca de um fármaco, mas como complemento à ação de outros profissionais ou como atividade realizada nas salas de esperas dos centros e postos de saúde. Mas sim, ser dimensionada como um dos axiomas que constituem a identidade profissional do enfermeiro na sua relação com a equipe de saúde, com a clientela e com as instituições(29). A educação em saúde possibilita a demonstração concreta de que o enfermeiro compreende o ser humano além dos parâmetros e dimensões biológicas, estabelecendo uma relação dialógica de educação, que inclui os aspectos social, cultural, espiritual, levando em consideração as especificidades do ser humano durante todo o processo ensino-aprendizagem, de forma a subsidiar mudanças de comportamentos e eficácia na prática pedagógica. Em alguns momentos, contudo, as estratégias educacionais dos profissionais de saúde podem se tornar, na prática, como ações prescritoras de condutas e comportamentos, sem considerar aspectos importantes da realidade dos indivíduos para a eficácia do processo pedagógico na educação em saúde(15). CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho, percebe-se que os enfermeiros possuem uma forma de conhecimento construída em comum e compartilhada no cotidiano profissional acerca da consulta de enfermagem. Percebe-se também que esse conhecimento possui um objetivo prático, contribuindo para a construção de uma realidade específica de um determinado conjunto social. Correlaciona-se, então, o conceito de representações sociais(12) já trabalhado neste artigo e as representações dos profissionais desdobradas em duas de suas dimensões, quais sejam, a dimensão da prática e a dimensão do conhecimento. Diversos autores(30-32) destacam a relação existente entre representações sociais e práticas e as influências mútuas existentes entre ambas. Assim, as representações “estão manifestamente ligadas às comunicações, à pragmática e, portanto, à ação”(30:39). Nesse contexto, as práticas exercidas pelos profissionais (prescrição de medicação, educação em saúde, solicitação de exames laboratoriais, atendimento direto à clientela, entre outras) influenciam na representação que possuem da consulta, ao mesmo tempo em que a forma como a consulta impregna o imaginário desses profissionais (tecnologia/espaço médicos, momento dialógico com a clientela, poder institucional e relacional, além de outros aspectos) delimita e conforma ações e práticas específicas. 114 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2):109-115, abr/jun, 2005 Nas representações dos sujeitos, a consulta de enfermagem é permeada e perpassada pelo processo educativo, sendo este o elemento aglutinador e comum na fala de todos os profissionais. Dessa maneira, percebe-se que o conceito e o conhecimento que possuem acerca dessa tecnologia de trabalho estão baseados no processo de educação em saúde. Percebe-se, também, a influência da formação acadêmica nesse aspecto representacional, uma vez que esse fato é repetidamente colocado pelos docentes e pela academia(9). Como consideram alguns autores(12-13), as representações sociais são conteúdos mentais estruturados (consulta de enfermagem, processo educativo, relação enfermeiro-cliente, prática profissional e outros), o que abarca as dimensões cognitiva, avaliativa, afetiva e simbólica, consubstanciadas, dentre outras coisas, em conhecimentos e conceitos (a educação em saúde como base da consulta de enfermagem e sua consideração, ou pelo menos aproximação, como sinônimo ou conceito de consulta). Ainda, cabe destacar que, na atualidade, a consulta de enfermagem se apresenta e representa um espaço e uma tecnologia constituída e imbuída dos desafios enfrentados pela profissão. Também sofre influência das relações de poder que permeiam a equipe de saúde e das políticas e programas governamentais da área, bem como das exigências atuais com relação ao aumento de qualidade na prestação dos serviços de saúde à população. Ao mesmo tempo, a consulta de enfermagem possibilita uma atuação independente do enfermeiro junto à clientela, explicitando seu saber/fazer específico e a demanda técnico-social pelo seu exercício profissional. Contudo, a consulta inserida no contexto da programação em saúde, favorece o trabalho multidisciplinar, de forma que o trabalho independente se estabeleça em uma tensão equilibrada e sóbria com o trabalho em conjunto, propiciando autonomia às diferentes profissões e uma abordagem ampla do cliente. O processo de conquista da autonomia profissional em enfermagem não se encerra na execução e na concretização da consulta, mas importa considerar que essa tecnologia colabora com a evolução da profissão, contribuindo para um contato mais íntimo e independente com a clientela e com uma socialização maior, entre a equipe de saúde, das decisões terapêuticas acerca dos clientes em comum. Alguns desafios ainda são enfrentados, como o preconceito de outros profissionais, a insuficiência numérica de enfermeiros, enfermeiros não preparados pelas universidades para a execução da consulta e as instituições que ainda não reconhecem os benefícios e vantagens dessa modalidade de atendimento. Contudo, os desafios serão superados pela demonstração, por parte dos enfermeiros, da importância de seu papel específico na equipe de saúde e da necessidade social de seu saber/fazer próprio. AGRADECIMENTOS À CAPES pelo fornecimento de bolsa para a realização da pesquisa. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. 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AVALIAÇÃO DO PROGRAMA "VIVA MULHER" NO CONTROLE DO CÂNCER CÉRVICO-UTERINO NO ESTADO DE MINAS GERAIS1 EVALUATION OF THE "VIVA MULHER" PROGRAM FOR THE CONTROL OF CERVICAL CANCER IN THE STATE OF MINAS GERAIS, BRAZIL EVALUACIÓN DEL PROGRAMA "VIVA MUJER" PARA CONTROLAR EL CÁNCER CÉRVICO - UTERINO EN EL ESTADO DE MINAS GERAIS Yara Mendes Ferreira2 Francisco Carlos Felix Lana3 Débora Carvalho Malta4 RESUMO O presente trabalho é resultado de uma avaliação do programa de prevenção do câncer do colo do útero (Programa Viva Mulher) nas Diretorias de Atenção Descentralizada de Saúde de Minas Gerais, no período de 1998 a 2002. Como eixo de análise, adotou-se a avaliação da intervenção proposta por Contandriopoulos. Concluiu-se que houve um aumento na oferta de serviços, mas, nota-se ainda a concentração dos mesmos, como também a falta de seguimento das pacientes diagnosticadas com câncer do colo do útero. Palavras Chave: Saúde da Mulher; Programas Nacionais de Saúde; Neoplasias do Colo Uterino ABSTRACT This paper is the result of an evaluation of the cervical cancer program ("Viva Mulher" Program) in the decentralized health offices in the state of Minas Gerais, Brazil, from 1998 to 2002. The analysis chosen was that proposed by Contandriopoulos. We conclude that there was an increase in the in services offered, but that they remain concentrated in few places and there is a lack of continuity for patients diagnosed as having cervical cancer. Key Words: Women’s Health; National Health Programs; Cervical Neoplasm. RESUMEN El presente trabajo es resultado de la evaluación del programa de prevención de cáncer de cuello uterino (Programa Viva Mujer) en los Directorios de Atención Descentralizada de la Salud de Minas Gerais, Brasil, entre los años 1998 y 2002. Como eje de análisis se adopta la evaluación de la intervención propuesta por Contandriopoulos. Se puede concluir que la oferta de servicios aumentó pero que aún se observa que éstos continúan concentrados; también falta seguimiento de las pacientes diagnosticadas con cáncer de cuello uterino. Palabras clave: Salud de la Mujer; Programas Nacionales de Salud; Neoplasmas del Cuello Uterino. 1 2 3 4 Este Artigo é o resumo da Dissertação de Mestrado de Yara Mendes Ferreira Enfermeira. Mestre em Enfermagem pela UFMG e Enfermeira da PUC MINAS ARCOS. Enfermeiro. Doutor em Enfermagem. Professor Adjunto do Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da UFMG. Médica. Doutora em Saúde Coletiva (Administração e Planejamento) Professora Adjunta da Escola de Enfermagem da UFMG. Endereço para correspondência: Rua: Padre Pedro Lambert, 131 – Brasília Arcos Minas Gerais CEP 35.588-000 – E-mail: [email protected] 116 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 116-120, abr/jun, 2005 INTRODUÇÃO A morbi-mortalidade por câncer do colo do útero é alta nas mulheres brasileiras, e a forma mais eficaz de controle desse tipo de tumor é diagnosticar e tratar as lesões precursoras (neoplasias intra-epiteliais) e as lesões tumorais invasoras em seus estágios inicais, quando a cura é possível em praticamente 100 % dos casos.(1) Em 1979 a taxa de mortalidade era de 3,4/100.000 mulheres e em 2000 a taxa foi de 4,59/100.000, o que corresponde a uma variação percentual relativa de 33,1%. Esta variação pode estar relacionada ao aumento do número de óbitos ou a melhoria da qualidade de informação.(2) Em 2003, o Instituto Nacional de Câncer, do Ministério da Saúde, estimava que 16.480 mulheres apresentariam câncer cérvico-uterino, com 4.110 óbitos em todo o país. Em Minas Gerais a estimativa de novos casos foi de 1410/100.000 mulheres com 320 óbitos /100.000.(2) Em 2001, segundo o Instituto Nacional de Câncer, o câncer do colo do útero ocupava a primeira posição na região Norte, ficando com a segunda posição na região Nordeste e ocupando a terceira posição nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, com taxa de incidência de 18,86/100.000 e mortalidade de 4,31/100.000.(3) A situação em 2005, não mudou muito. Segundo o Instituto Nacional de Câncer, excluindo o câncer de pele não melanoma, o câncer do colo do útero é o mais incidente na região Norte. Nas regiões Sul, Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste é a segunda causa de morte.(4) O exame de prevenção do câncer do colo do útero é gratuito e está disponível na rede de saúde do SUS, nos 26 estados e no Distrito Federal, tendo 7.000 postos de coleta, 700 laboratórios de citologia, 200 laboratórios de histopatologia, 300 pólos de cirurgia de alta freqüência e 150 centros de alta complexidade em oncologia.(5) O governo brasileiro, incentivado pela Conferência Mundial de Mulheres realizada na China em 1995,e em função da falta de um programa organizado de combate ao câncer do colo do útero e do número significativo de mortes de mulheres acometidas por essa neoplasia no Brasil, lançou em 1998 o Programa Nacional de Controle do Câncer de Colo Uterino e de Mama chamado de Programa Viva Mulher, por intermédio do Instituto Nacional do Câncer (INCA). O programa visa realizar o diagnóstico precoce, feito através de screening, e o tratamento da doença ou de lesões precursoras. A prevenção do câncer cervical é relativamente fácil, pois a lesão ocorre em um órgão de fácil acesso ao exame, o qual possui fatores de risco e história natural conhecidos. O câncer cervical é precedido por lesões passíveis de tratamentos eficazes, que podem ser diagnosticadas com o teste de rastreamento.(6) A condição fundamental para a prevenção do câncer do colo do útero é a existência de um sistema de saúde organizado para realizar e integrar as diversas etapas do programa, de forma a garantir que uma alta porcentagem da população alvo seja rastreada.(7) Este estudo tem como objetivos avaliar o acesso das mulheres às ações do Programa de Controle do Câncer do Colo do Útero no Estado de Minas Gerais; descrever a estruturação do Programa Viva, Mulher em Minas Ge- rais, e avaliar as ações de intervenção do Programa de Controle do Câncer do Colo do Útero em Minas Gerais, de acordo com as ações nas diferentes Diretorias de Atenção Descentralizada de Saúde – DADS. METODOLOGIA Avaliar consiste em fazer um julgamento de valor a respeito de uma intervenção ou sobre qualquer um de seus componentes. Esse julgamento pode ser resultado da aplicação de critérios e de normas – avaliação normativa – ou ser elaborado a partir de um procedimento científico – pesquisa avaliativa.(8) Com a finalidade de alcançar os objetivos propostos optou-se por realizar uma pesquisa avaliativa, orientada para a análise da intervenção um vez que "a análise da intervenção estuda a relação existente entre os objetivos da intervenção e os meios empregados". Trata-se de interrogar sobre a capacidade dos recursos que foram mobilizados e dos serviços que foram produzidos para atingir os objetivos definidos.(8) Foram analisadas as ações de controle e prevenção do câncer do colo do útero no âmbito do Programa Viva Mulher, no estado de Minas Gerais, tendo como referência as Diretorias de Atenção Descentralizada de Saúde – DADS. Foram usados os dados do Programa "Viva Mulher" do estado de Minas Gerais, obtidos junto à Coordenação Estadual do Programa do Controle do Câncer do Colo do Útero, por meio do Sistema de informação do Câncer do Colo do Útero (SISCOLO-MG), no período de julho de 2001 a dezembro de 2002, de Relatórios Técnicos da Coordenação Estadual do Programa e do Instituto Nacional de Câncer. Também foram obtidos dados do Sistema de Informação Ambulatorial (SIA/SUS) quanto ao período de 1998 a 2002 e do Sistema de Informação de Mortalidade em relação aos anos de 1990 a 2000. É importante ressaltar que os períodos das informações variam de acordo com a disponibilidade do banco de dados consultado. A pesquisa se constituiu de dados dos resultados dos exames de material coletado em mulheres de 15 a 49 anos que procuraram o Programa no período de 1998 a 2002, perfazendo um total de 1.388.081 mulheres. Para processar as informações, utilizou-se o Statistical Package for the Social Sciences (SSPS) e o Programa EPIINFO – versão 6.0. Foram selecionadas as seguintes variáveis: código do município da unidade de saúde; exame citopatológico; ano da realização do exame; mês da realização do exame; adequabilidade da amostra; alterações benignas; alterações microbiológicas; alterações escamosas.Os dados foram agregados segundo as Diretorias de Atenção Descentralizada de Saúde – DADS e os cruzamentos foram realizados correlacionando a variável DADS e as variáveis selecionadas. RESULTADOS 1. Rede de Assistência A atual rede de serviços oncológicos é capaz de oferecer 62% de boa/aceitável cobertura para a população brasileira.(9) Em 2002 a rede de serviços oncológicos em REME – Rev. Min. Enf; 9(2):116-120, abr/jun, 2005 n 117 Avaliação do Programa... Minas Gerais era composta por 12 Centros de Alta Complexidade em Oncologia - CACON, 8 Serviços Isolados de Radioterapia ou Quimioterapia, 56 aparelhos para cirurgia de alta freqüência - CAF, 116 laboratórios para exames cérvico-vaginal/microflora e 33 laboratórios para exames anatomopatológico. Além de insuficientes para uma boa cobertura assistencial, os equipamentos encontram-se concentrados nas regionais mais ricas (Triângulo Mineiro, Belo Horizonte, Juiz de Fora). Nessas três regiões, temos 9 dos 12 CACON. Essa concentração geográfica piora o acesso e, conseqüentemente, a qualidade da assistência prestada às mulheres com neoplasia uterina. É importante ressaltar que houve um aumento da rede de assistência em oncologia no Estado de Minas Gerais, desde o período da pesquisa, mas persiste, segundo o INCA, uma inadequada distribuição geográfica dos serviços.(9) O mapa a seguir apresenta a distribuição dos centros de alta complexidade e dos serviços isolados de quimioterapia do Estado de Minas Gerais. Observa-se a necessidade urgente de ampliação da cobertura assistencial e, sobretudo, a desconcentração dos equipamentos no estado, facilitando assim o acesso a eles. Essas medidas contribuiriam para que as ações do Programa Viva Mulher fossem efetivadas na sua integralidade. FIGURA 1 – Distribuição da rede de assistência em oncologia 2. Exames citopatológicos realizados Identificamos um aumento significativo no número de exames em todas as diretorias. Pode-se destacar a DADS de Manhumirim que em 1998 realizou 687 exames e em 2002 - 20.038 exames, um aumento de mais de 2.500%. A DADS de Varginha obteve aumento de 1.209% na realização de exames. A DADS de São João Del Rei aumentou 810%. As DADS que tiveram aumento menor foram as de Juiz de Fora, com 144 %, seguida pelas DADS de Uberlândia e Belo Horizonte com 157%. O aumento observado em Minas Gerais, na realização dos exames, reflete que houve a ampliação da rede de coleta, mas não a adequação da rede de assistência, pois as unidades de tratamento das neoplasias estão concentradas no Sul e Sudeste do estado, conforme descrito anteriormente. As diretorias com melhor desempenho na cobertura são: Barbacena, que apresenta uma cobertura de 56,62%; Ituiutaba, com uma cobertura de 31,13%; Uberlândia, com 31,47%; Uberaba, com 30,83%. Entre as que apresentam um desempenho fraco estão: Diamantina, com 3,11% e a DADS de Teófilo Otoni com 6,62%. A DADS de Pedra 118 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 116-120, abr/jun, 2005 Azul não apresenta informação de coletas para o ano de 2002. Em relação ao estado, tem-se uma cobertura de 24,76%, ou seja, há um abismo entre esta e a cobertura de 85% da população feminina, preconizada pela Organização Mundial de Saúde. O aumento observado demonstra o esforço no sentido de estruturação do primeiro programa nacional de prevenção do câncer do colo do útero, mas que há muito que se fazer. 3. Adequabilidade das lâminas Com relação à adequabilidade das lâminas no período do estudo, 987.732 (71,16%) lâminas foram classificadas como satisfatórias, 388.970 (28,02%) lâminas como satisfatórias mas limitadas, 10.167 lâminas (0,73%) foram classificadas como insatisfatórias. Esse dado mostra uma melhora no desempenho comparado aos resultados de anos anteriores. Essa melhora no desempenho ocorre, principalmente, em conseqüência da capacitação realizada, em 2001 para profissionais que atuam no Programa Viva Mulher. 4. Alterações Benignas Do total de lâminas examinadas, 41,77% apresentaram metaplasia, 33,60% foram diagnosticadas com inflamação, 0,86% apresentaram alteração em células epiteliais e em 23,75% não foram encontradas alterações na análise laboratorial. Em estudo realizado por Reis, Costa e Almeida com 2.905 laudos citológicos, na cidade de Passos – Minas Gerais, o percentual encontrado foi de 41,58% com inflamação, 10,50% com metaplasia escamosa e 1,20% com atrofia e inflamação.(10) Segundo os dados do INCA, no ano de 2000, em Minas Gerais, 2,8% dos exames apresentaram algum tipo de alteração.(11) É importante ressaltar que os processos inflamatórios podem impedir o diagnóstico das displasias, sendo necessária a garantia de tratamento dessas inflamações ginecológicas e o seguimento dessas mulheres. 5. Alterações Microbiológicas A análise das alterações microbiológicas revelou que em 59,47% das lâminas, o diagnóstico encontrado foi de flora normal; em 37,10% foi detectada flora alterada e, em 3,41% não foi registrado nenhum resultado. O maior percentual de diagnósticos de flora alterada foi encontrado na DADS de Montes Claros, com 53,64%, seguido de Pedra Azul, com 46,50%. Os menores percentuais encontrados foram na DADS de Ubá 25,60%, seguido de Divinopólis com 26,51% e Varginha com 26,12%. 6. Dados Diagnósticos da presença do Papilomavírus Humano – HPV Foi analisada a presença de HPV em relação à população e em relação ao número total de exames para o ano de 2002 em mulheres de 15 a 49 anos. Dessa população, 0,19% apresentou alterações celulares sugestivas da presença do HPV. Os maiores percentuais de alterações sugestivas de HPV, em relação à população do estudo, foram encontrados nas DADS de Ituiutuba, com 0,76% de casos, seguido de Uberaba, com 0,63% e Juiz de Fora, com percentual de 0,55% dos casos. A DADS de Leopoldina registrou o menor percentual de casos. Em relação ao número total de exames, as DADS de Ituiutaba e Uberaba apresentaram 2,45% e 1,78% de casos sugestivos da presença de HPV respectivamente. As DADS com o menor percentual foram Uberlândia com 0,16% e Ponte Nova com 0,22% de positividade. Quanto à adequabilidade das lâminas, todas as DADS apresentam adequabilidade superior a 50%, exceto a DADS de Pedra Azul, que apresentou 36,22%. Esse dado leva a considerar a possibilidade da ocorrência de erro no diagnóstico sugestivo de HPV na DADS daquele município e a necessidade de uma nova capacitação para os seus citopatologistas. 7. Alterações escamosas Quanto à distribuição das alterações escamosas por Diretoria de Atenção Descentralizada de Saúde, do total de lâminas examinadas, 97,79% não apresentaram alteração; 0,34% foram relacionadas a atipias; 0,19% estão relacionadas a Neoplasia Intra-epitelial Cervical Grau I – NIC I; 0,04% foram diagnosticadas como NIC II; 0,03% foram de NIC III e 0,003% foram diagnosticadas como Carcinoma de Células Escamosas. Com relação a esses dados, a DADS de Governador Valadares chama a atenção, pois o número total de atipias é 20 vezes maior que o número total de Neoplasias Intraepiteliais Cervicais, sendo importante ressaltar que a freqüência de Células Escamosas Atípicas de Significado Indeterminado – ASCUS – não deve exceder de duas a três vezes o número de casos de NIC.(12) Deve-se enfatizar, no entanto, que as atipias encontradas (0,34%) representam tanto Células Escamosas Atípicas de Significado Indeterminado –ASCUS, quanto Células Glandulares Atípicas de Significado Indeterminado – AGUS. Mesmo não podendo indicar o percentual exato de ASCUS no período estudado, os dados referentes à DADS de Governador Valadares requerem uma verificação urgente do percentual real de ASCUS, diante do indicativo da ocorrência de uma falha grave na leitura das lâminas e no diagnóstico dos casos. 8. Confirmação do diagnóstico e tratamento Pode-se observar um aumento crescente na realização da colposcopia entre 1999 e 2002. Passou-se de 9.693 em 1999 para 56.543 em 2002, o que se justifica pelo incremento do Programa, tanto no aumento do número de exames coletados, quanto no aumento do encaminhamento para colposcopias. Esse aumento demonstra, ainda, o crescimento do Programa no que se refere à oferta de serviços. As lesões de alto grau totalizaram 4.007 (0,28%) casos. Segundo protocolo do Programa, esses casos devem ser encaminhados imediatamente para colposcopia. Mesmo tendo sido registradas, no período da pesquisa, mais de 50.000 colposcopias realizadas, não podemos afirmar o percentual de mulheres encaminhadas para esse procedimento e nem afirmar se essas colposcopias foram realizadas nos casos diagnosticados dentro do universo da pesquisa, pois o módulo de seguimento, referente aos anos de 2001 e 2002, não estava atualizado. Esse fato dificulta muito o acompanhamento das usuárias, a avaliação da resposta clínica e a eficácia do Programa. Constitui, portanto, uma grande debilidade do "Viva Mulher", que deve ser avaliado para buscar melhores resultados assistenciais. O estado possui 56 aparelhos para Cirurgia de Alta Freqüência - CAF, distribuídos em 51 municípios, ou seja, apenas 5,97% do total dos 853 municípios possuem a aparelhagem necessária para a realização do procedimento. Mesmo com poucos aparelhos, houve um aumento no número de Cirurgias de Alta Freqüência, passando de 572, em 1999 para 3.995, em 2002. Paralelamente, houve um aumento dos diagnósticos de neoplasias intra-epiteliais cervicais de alto grau e um aumento no número de profissionais qualificados para a realização do procedimento. Os resultados da análise da relação entre as lesões de alto grau e o tratamento realizado através da cirurgia de alta freqüência (CAF) mostram uma distorção entre o número total de NIC e as cirurgias realizadas.Podem-se destacar as DADS de Alfenas, Passos e Ubá que apresentaram 68, 45 e 169 casos de NIC, respectivamente e nenhuma cirurgia de REME – Rev. Min. Enf; 9(2):116-120, abr/jun, 2005 n 119 Avaliação do Programa... CAF realizada. As DADS de Belo Horizonte, Montes Claros e Sete Lagoas com 774 casos, 401 e 89 casos de NIC, respectivamente, apresentam um total de cirurgias de alta freqüência de 2.179, 1.643 e 883 procedimentos realizados. Parece ter havido um erro no número de NIC registrados no SISCOLO ou muitas dessas cirurgias referem-se a pacientes que tiveram seu diagnóstico de lesão intra-epitelial cervical (NIC) pela rede suplementar de saúde. 9. Mortalidade por neoplasia uterina em Minas Gerais A mortalidade por câncer do colo do útero em Minas Gerais, segundo Diretorias de Saúde apresentou uma redução de 50% entre os anos de 1.990 (taxa de 6,36/ 100.000) e 2.000 (taxa de 3,31/100.000). Não se pode atribuir a queda da mortalidade por câncer do colo do útero à implantação do Programa Viva Mulher, pois seria necessário ter os dados do Sistema de Informação de Mortalidade atualizados ou a atualização do módulo de seguimento de casos do Programa Viva Mulher. Todavia, a iniciativa real de buscar a estruturação de um programa nacional de detecção precoce do câncer do colo do útero, em que se busca atingir uma maior cobertura populacional e o tratamento das lesões precursoras diagnosticadas, poderá resultar em redução da mortalidade das mulheres por câncer do colo do útero. CONSIDERAÇÕES FINAIS Observou-se um aumento significativo no número de exames em todas as Diretorias; porém, a cobertura do Programa no estado ficou em 24,76 % quando considerada a população feminina de 15 a 49 anos. Esse índice fica muito aquém do preconizado pela Organização Mundial de Saúde que é de 85% da população feminina. Ocorreu uma diminuição no percentual dos esfregaços cervicais classificados como insatisfatórios; todavia, constatou-se um percentual significativo de esfregaços cervicais classificados como satisfatórios, mas limitados por ausência de células endocervicais. Esse fato compromete a leitura do material e o diagnóstico citopatológico. Com relação à distribuição da rede de assistência, além de serem insuficientes para uma boa cobertura, os equipamentos encontram-se concentrados nas regionais mais ricas. Não foi possível identificar o percentual de mulheres em tratamento, nem das que já foram tratadas, nem mesmo o número de óbitos, embora tenha sido registrado, nesse período, um significativo aumento dos procedimentos de colposcopias e de cirurgias de alta freqüência indicadas para a confirmação diagnóstica e tratamento da neoplasia intra-epitelial cervical. O desfecho dos casos diagnosticados, por falta de atualização do módulo de seguimento do Programa, não é passível de identificação. Pode-se concluir que há necessidade de: a) atualizar o módulo de seguimento dos casos, b) descentralizar e aumentar o número de equipamentos de diagnóstico e tratamento em todo o estado, com vistas a favorecer o acesso das mulheres ao diagnóstico e ao tratamento precoce das lesões e c) incentivar as mulheres a fazerem o exame de prevenção do câncer do colo do útero, através de estratégias que facilitem o acesso aos locais de exame. 120 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 116-120, abr/jun, 2005 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Brasil. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Neoplasia intra-epitelial cervical (NIC). Rev Bras Cancerol 2000; 46(4):355-57. [Citado em: jan. 2003]. Disponível em: http:// www.inca.gov.br. 2. Brasil. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativas de incidência e mortalidade por câncer. Rio de Janeiro: INCA; 2003. 3. Relatório da 2º Fase de Intensificação do Programa Nacional de Controle do Câncer do Colo do Útero e de Mama – Viva Mulher. [Citado em: set. 2002]. Disponível em: http:// www.inca.gov.br. 4. Brasil. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativas de incidência e mortalidade por câncer. Rio de Janeiro: INCA; 2005. 5. Brasil.Instituto Nacional de Câncer (INCA). Campanha contra o câncer do colo do útero deverá atender 2,5 milhoes de mulheres em 30 dias. [Citado em: jul. 2003]. Disponível em: http:// www.inca.gov.br/ releases/2002. 6. Silva RS et al. Condutas em ginecologia: aspectos preventivos. 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Sistema Bethesda para o relato de diagnostico citológico cervico-vaginal. Rio de Janeiro: Revinter; 1997. Recebido em: 12/04/2005 Aprovado em: 18/08/2005 AVALIAÇÃO DAS PRÁTICAS DE CUIDAR ENVOLVENDO ARTE NO ÂMBITO DO CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (CAPS) EVALUATION OF HEALTH CARE PRACTICES USING ART IN PSYCHO-SOCIAL CARE CENTERS (CAPS) EVALUACIÓN DE LAS PRÁCTICAS DE CUIDADO INVOLUCRANDO ARTE EN EL ÁMBITO DE LOS CENTROS DE ASISTENCIA PSICOSOCIAL (CAPS) Claudia Mara de Melo Tavares1 Vera Regina Salles Sobral2 RESUMO A avaliação em saúde apresenta-se como um dos processos capazes de fornecer subsídios à tomada de decisão no setor com maior responsabilidade, eficácia e adequação. Este artigo tem por objetivo discutir como se dá a avaliação das práticas de cuidar envolvendo arte no âmbito do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Os dados foram obtidos por meio de entrevista com 14 profissionais dos CAPS. Os resultados demonstram que não há uma uniformidade de critérios ou de bases teóricas na avaliação das atividades implementadas no CAPS. Palavras-chave: Saúde Pública; Avaliação dos Serviços; Serviços de Saúde; Saúde Mental; Terapias Sensórias através das Artes ABSTRACT Health evaluation is one of the processes that can provide input for decision-making in this sector, with great responsibility, effectiveness and more adequately. This article intends to discuss how health care is evaluated bringing art to the Psychosocial Care Center. Data was collected by interviews with 14 health workers in the Centers. The results show there is no uniformity in criteria or theoretical framework in the activities in the Psycho-social Care Centers. Key words: Public Health; Service Evaluation; Mental Health; Health Services; Sensory Art Therapy RESUMEN La evaluación en salud es uno de los procesos capaces de proveer subsidios a la toma de decisión con más responsabilidad, eficacia y propiedad. Este artículo busca discutir las maneras de evaluar las prácticas de cuidado involucrando arte en el ámbito de los CAPS (centros de atención psicosocial). Los datos se obtuvieron entrevistando 14 profesionales de los CAPS. Los resultados indican que no hay uniformidad de criterios ni de bases teóricas en la evaluación de las actividades llevadas a cabo en los CAPS. Palabras clave: salud pública; evaluación de los servicios; servicios de salud; salud mental; terapias de arte sensorial 1 2 Enfermeira.Doutora em Enfermagem. Vice-Coordenadora do Mestrado Profissional em Enfermagem EEAAC/UFF. Profª. Titular em Enfermagem Psiquiátrica EEAAC/UFF. Enfermeira.Doutora em Enfermagem. Profª. do Mestrado Profissional em Enfermagem EEAAC/UFF. Endereço para correspondência: Rua Tavares de Macedo, 20, bloco A, apt.1104. Icaraí, Niterói, RJ. E-mail: [email protected] REME – Rev. Min. Enf; 9(2):121-125, abr/jun, 2005 n 121 Avaliação das práticas de... INTRODUÇÃO No Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) a arte é utilizada como terapia, como meio de expressão e de ressocialização da pessoa que se encontra em processo de sofrimento psíquico. Através de atividades terapêuticas expressivas e oficinas, os profissionais do CAPS expandem quotidianamente o uso da arte no processo de cuidar, engendrando novas possibilidades existenciais para o sujeito.(1) Contudo, observamos na literatura consultada uma ausência de parâmetros para a avaliação da eficácia de tais atividades. Neste artigo nos preocupamos em discutir como se dá a avaliação das práticas de cuidar envolvendo arte no âmbito do CAPS. Questionamos até que ponto a equipe multiprofissional desse serviço se apropria de critérios para julgar, justificar e ajustar as atividades de cuidar com arte. A avaliação das práticas de cuidar com arte é necessária para compreendermos se essas práticas oferecem respostas eficazes às demandas dos usuários dos novos dispositivos de atenção em saúde mental, levando-se em consideração a maneira como contribuem para a promoção de bem-estar, saúde e cidadania. A avaliação em saúde visa articular produção de conhecimentos e sua utilização. É um processo vivo, dinâmico, de tentativa de entendimento de parte de uma dada realidade humana. Inclui diagnóstico, monitoramento e medida de impacto, e tem como força o julgamento. Seu papel é o de atribuir valor e sentido. Avaliar é resignificar. Portanto, para avaliar é preciso considerar o contexto e a história, escutar todos os atores sociais envolvidos no processo.(2, 3, 4) Recomenda-se que a avaliação no contexto da saúde seja uma ação permanente. Para isso, precisa ser descentralizada, ascendente, sendo suas indagações originadas no espaço da própria intervenção, em seu contexto. Ou seja, de dentro para fora do serviço, de modo que contribua para a democratização institucional, o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem política e de enfrentamento criativo dos problemas que fazem parte da vida – a maior expressão da promoção da saúde.(5,6) A arte é hoje compreendida, no campo da saúde mental, como um recurso para a humanização dos cuidados em saúde. No CAPS, ela é utilizada nas atividades, como produtora de subjetividade, catalisadora de afetos, engendradora de territórios e meio de produção e inserção social das pessoas portadoras de sofrimento psíquico(1). O uso adequando da arte como recurso terapêutico pelos profissionais de saúde mental impõe a necessidade de desenvolver processos avaliativos, recolocando o debate sobre a necessidade de se construirem instrumentos de avaliação, uma vez que parâmetros clássicos como número de altas, remissão de sintomas e diagnósticos não são capazes de traduzir uma realidade que tenta superar tais indicadores como reflexo da qualidade da assistência.(7) Conhecer os critérios de avaliação estabelecidos pelos profissionais dos CAPS permite analisar as experi- 122 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2):121-125, abr/jun, 2005 ências de atenção psicossocial, ajuda na criação e validação de novas modalidades terapêuticas e possibilita a construção contínua de conhecimentos a partir do cotidiano do cuidar. Até o momento, os parâmetros avaliativos de que dispomos no campo da atenção psicossocial em saúde mental são insuficientes, principalmente em relação a indicadores produzidos no interior dos serviços que reflitam seu cotidiano. Para realizar qualquer tipo de avaliação é preciso que estejam disponíveis indicadores capazes de quantificar e/ou qualificar fatos, processos e situações de forma o mais próximo possível do real. Assim, a construção ou seleção de critérios é uma etapa que faz parte da estratégia de definição metodológica de um processo de avaliação.(2) Como um campo de saber nascente e em formação, a avaliação em saúde mental ainda necessita construir metodologias apropriadas ao funcionamento psicossocial de usuários de serviços de saúde mental.(8) Mais que em outras áreas, precisa-se considerar que os aspectos objetivos e materiais da avaliação estão atravessados pela intersubjetividade das relações entre usuários, trabalhadores e instituições de saúde, tornando as avaliações uma tarefa complexa e um desafio para análise qualitativa em serviços de saúde.(9) Além disso, as dificuldades teóricas em definir o que é bem-estar, os limites entre "normalidade" e a doença/ desvio e as formas de inserção social da diferença geram divergências que se refletem na escolha de metodologias e nos indicadores pertinentes para a avaliação. A complexidade do objeto avaliação em saúde mental pode gerar tantas concepções quantas forem as compreensões e práticas envolvidas. Assim, todos os critérios considerados importantes para a construção de um outro espaço para a loucura, devem ser revitalizados em função da singularidade de cada caso.(7) A construção de novos parâmetros de avaliação deve considerar como fonte principal as relações exercidas na instituição, no que elas podem construir enquanto ética de inclusão e produção de vida, tais como o conceito de cidadania.(10) Hoje o parâmetro utilizado com maior freqüência pelos pesquisadores de processos avaliativos em saúde mental é o grau de satisfação do familiar e do usuário com o serviço(7,11) e do técnico.(12) A avaliação sistematizada das ações não está efetivamente incorporada pelos profissionais dos CAPS. Entre as razões apresentadas constam: 1) a formação do profissional de saúde, que não abrange a dimensão do como avaliar suas práticas e de como participar de forma ativa da avaliação; 2) a tradição na formação de modelos verticalizados de avaliação e com fim em si mesmos, os quais geralmente não se prestam a reorientar as práticas; 3) a falta de incorporação da função avaliação como etapa da implantação de políticas e programas.(1,7) As avaliações de serviços em saúde mental podem ter designs e estratégias muito variadas, podendo assumir uma ou mais das seguintes características: caráter teórico ou acadêmico, caráter político/administrativo, caráter institucional e caráter clínico.(8) No presente estudo, a estratégia examinada diz respeito ao caráter clínico, uma vez que a preocupação central são os meios utilizados pelos próprios profissionais para avaliar suas práticas de cuidar com arte. METODOLOGIA O objeto de estudo foi abordado por meio de pesquisa exploratória de campo, através de entrevista com profissionais dos seguintes CAPS do município do Rio de Janeiro: Rubens Corrêa, Pedro Pelegrino, Simão Bacamarte, Bispo do Rosário e Lima Barreto. Para conhecer a dinâmica do processo avaliativo das práticas de cuidar da equipe multiprofissional dos CAPS, utilizou-se o método de auto-relato, mediante entrevista estruturada. A metodologia desta pesquisa inclui como concepção teórica de abordagem a multirreferencialidade teórica(13) com ênfase nos pressupostos da Reforma Psiquiátrica. Os sujeitos do estudo foram os profissionais de diferentes CAPS do município do Rio de Janeiro. Foi utilizado como fator de inclusão na amostra, o fato de o profissional utilizar a arte na sua prática de cuidar no CAPS. Assim, a amostra foi constituída por cinco psicólogos, três médicos, duas enfermeiras, um terapeuta ocupacional, um nutricionista, um pedagogo e um musicoterapeuta num total de 14 profissionais. Durante a apresentação dos resultados utilizaremos para efeito de identificação das falas desses profissionais a letra P seguida dos números 1a 14. Em respeito aos aspectos éticos da pesquisa, o projeto foi submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa, que emitiu parecer favorável. Todos os sujeitos integrantes da amostra foram informados sobre os objetivos da pesquisa e concordaram em participar dela, atendendose à Resolução CNS no 196/96 sobre pesquisa envolvendo seres humanos. O material coletado foi submetido às seguintes etapas de desenvolvimento da análise temática(14): pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados obtidos e interpretação. RESULTADOS E DISCUSSÕES A arte influencia muitas das atividades desenvolvidas no CAPS, tendo como finalidade favorecer a expressão das emoções e servir de ferramenta integradora do usuário à sua comunidade. A singularização das atividades propostas pelos CAPS é, em muito, determinada pela territorialidade dos serviços. As características da população e da comunidade à qual pertence o CAPS interferem de forma significativa nas proposições feitas pela equipe. De modo que, quando a arte não constitui interesse da comunidade local, também não se manifesta no CAPS(P8). As práticas/atividades de cuidar envolvendo arte desenvolvidas nos CAPS são as seguintes: grupo de dança, oficina de teatro, oficina do corpo, oficina de jornal, oficina de serigrafia, oficina de arte, oficina de vídeo, oficina de música, oficina de beleza, oficina de sucata, oficina de bijuteria, oficina de fuxico, oficina do corpo, oficina lite- rária, oficina culinária, oficina de rádio, oficina de pintura, oficina de artesanato, coral, oficina de cerâmica e atividade expressiva. Considerando que a avaliação apresenta-se como um dos processos capazes de subsidiar à tomada de decisão em serviços de saúde, constatou-se, ante os resultados encontrados, que o uso deste recurso ainda é insuficiente. Dos 14 profissionais entrevistados, 8 informaram realizar, de forma periódica, avaliação das práticas de cuidar com arte, enquanto 6 disseram não realizála com periodicidade. Os fatores apontados pelos profissionais dos CAPS como impeditivos da avaliação são: a falta de formação relacionada à arte, o desconhecimento do valor da avaliação na qualificação da prática clínica e a falta de conhecimento de parâmetros para avaliação das práticas de cuidar com arte. Além disso, o fato de que muitas atividades ocorrem no CAPS de maneira espontânea, dificulta o estabelecimento de parâmetros para a avaliação, pois só muito tempo depois de sua realização, ela passa a ser aceita pelo conjunto de profissionais do serviço. Realizo atividades com arte, mas não possuo formação para isso (P2). Não tive em minha formação nenhum momento de contato com as possibilidades terapêuticas da arte (P5). A utilização da arte surge como uma necessidade terapêutica, uma demanda do próprio usuário (P14). Nem sempre as atividades que fazemos no CAPS são planejadas (P3). A não realização da avaliação por uma parte significativa dos profissionais dos CAPS, está relacionada ao desconhecimento da importância da avaliação na qualificação da prática clínica ou à própria falta de indicadores definidos para a avaliação em saúde mental. As falas a seguir demonstram, a necessidade de construção e divulgação de parâmetros para avaliação entre os profissionais de saúde mental: Desconheço os indicadores para avaliar oficinas terapêuticas (P9, P13). Realizo atividades usando arte, mas não desenvolvo avaliação (P10). Não utilizo critérios para avaliar as atividades que envolvem arte no CAPS, mas vejo que a arte facilita a comunicação do profissional com o paciente (P11). Não sei como fazer a avaliação formalmente (P12). Estamos conversando com a equipe sobre alguns critérios para realização das atividades envolvendo arte, mas ainda não foi possível proceder à avaliação(P14) . De fato, há uma carência de indicadores na saúde mental devido à pouca utilização da epidemiologia e pela dificuldade de transposição dos seus instrumentos para essa área. Os parâmetros utilizados na assistência médica não se adaptam à realidade dos serviços de saúde mental, pela dificuldade de definir e precisar vários aspectos das doenças mentais - os diagnósticos de baixa confiabilidade, a diversificação das atividades terapêuticas, a medicalização excessiva da população, entre outras.(15) No que se refere às formas de avaliação dos cuidados fornecidos por meio das atividades de base artísti- REME – Rev. Min. Enf; 9(2):121-125, abr/jun, 2005 n 123 Avaliação das práticas de... ca, foram descritos os seguintes parâmetros: interesse do paciente ou freqüência dos pacientes nas atividades propostas; relação do paciente com o produto criado/ criação; conversas avaliativas com o próprio usuário; relação entre os participantes da atividade; autoavaliação quanto ao estado de ansiedade da equipe técnica. A avaliação ocorre com periodicidade semanal e as vezes, mensal. Alguns momentos de avaliação interdisciplinar ocorrem em reuniões de equipe, discussão em grupo do projeto terapêutico dos usuários do serviço e nos encontros de supervisão técnica. Contudo, não há uma uniformidade na escolha de parâmetros ou modos de avaliação das atividades que utilizam arte. Predominam os modos de avaliação singularizados e com base nas possibilidades individuais de cada técnico. A avaliação é feita em alguns momentos das supervisões ou particularmente quando algo se coloca, mas sem periodicidade definida (P4). Todas as oficinas são avaliadas nas reuniões de equipe (P7). Assim, quando ocorre, a avaliação emerge como uma prática de investigação do processo de cuidar, um meio de reflexão sobre e para a ação, contribuindo para que o avaliador se torne cada vez mais capaz de recolher indícios, de atingir níveis de complexidade na interpretação de seus significados e de incorporá-los como eventos relevantes para a dinâmica de trabalho.(16) Entre os aspectos mais relevantes da prática da avaliação pelos profissionais destaca-se a avaliação realizada pelo próprio paciente: Estas avaliações são feitas sempre em conversa com os usuários, eles é que são a referência para se fazer mudança ou não (P8). A avaliação diz respeito à relação do paciente com sua própria criação (P6, P5). Em alguns casos, embora o cliente não seja fonte de consulta direta para a avaliação, seu interesse é levado em grande consideração no processo de avaliação, constituindo fator fundamental no processo de planejamento de atividades e tomada de decisão por parte dos técnicos. A avaliação se dá pela resposta dos pacientes à atividade proposta (P1). A avaliação se dá pela freqüência dos clientes na atividade, pelo interesse demonstrado, pelos textos preparados pelos clientes (P3). A avaliação se dá pelas relações entre os participantes da oficina (P2). No CAPS, procura-se compreender o que os pacientes podem vir a saber/fazer, com vista a desenhar uma ação de cuidar que atenda aos interesses e desejos do paciente. Procuram-se meios de se aproximar do contexto no qual o paciente se insere e dialogar com esse entorno, considerando-o parte significativa da dinâmica de cuidar. Apropria-se dos conhecimentos já produzidos, articula-os com sua observação/ação e, em conjunto, os profissionais, pacientes e familiares, produzem novos conhecimentos. Esta perspectiva indica um avanço no processo de avaliação, encontrando correspondência com o que diz Chianca.(4) Entendemos assim que, apropriando-se da avaliação investigativa, o profissional refina seus sentidos e desenvolva diversos conhecimentos, passando a agir conforme as necessidades reais dos usuários do CAPS, construindo uma avaliação capaz de dialogar com a complexidade 124 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2):121-125, abr/jun, 2005 dos pacientes, com a multiplicidade de conhecimentos, com particularidades dos sujeitos e a promoção de sua autonomia. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste estudo, constatou-se que a prática da avaliação do cuidar com arte nos CAPS ainda encontra-se numa fase inicial. A equipe multiprofissional desse serviço não se apropria de critérios suficientes para julgar, justificar e ajustar as atividades de cuidar com arte, portanto, ainda não há uma uniformidade dos modos de avaliação das atividades que envolvem arte no âmbito do CAPS. Entendemos que a cultura avaliativa não ocorre espontaneamente, ela deve ser construída e estimulada como parte da dinâmica de funcionamento do serviço. A avaliação deve servir como um mecanismo de qualificação da ação. Nesse sentido, é fundamental a participação de todos os atores envolvidos no desenvolvimento das atividades propostas no âmbito do CAPS. A avaliação não é guiada por conceitos ou indicadores pré-estabelecidos, até porque no campo da atenção psicossocial eles ainda são escassos. A maneira espontânea com que as atividades, às vezes, ocorrem, dificulta o estabelecimento de parâmetros para a avaliação. Os diferentes aspectos de avaliação apresentados pelos profissionais do CAPS indicam o uso da avaliação como prática democrática de investigação, tendo o sentido de romper as barreiras entre os participantes do processo de cuidar e os conhecimentos presentes no contexto do CAPS. Dessa forma, os mecanismos de percepção e leitura da realidade são ampliados, facilitando a identificação dos sinais de que algum usuário esteja sendo posto à margem do processo, e daí surgem indícios não só para viabilizar a reconstrução de seus trajetos, como também validar as propostas de atividade de base artística no processo de cuidar na perspectiva da reabilitação psicossocial. Vale reafirmar que a avaliação das práticas de cuidar envolvendo arte nos ajudará a transformar nossa leitura dos resultados alcançados e processos instaurados na prática de cuidar em saúde mental, possibilitando perceber os limites do que foi implementado e a sua repercussão no contexto de produção e socialização, confirmando o valor de experiências terapêuticas e socializadoras até então desconhecidas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1- Tavares CMM. Arte no CAPS: estratégia de cuidar para a promoção da vida [tese, titular]. Niterói: EEAAC/UFF; 2002. 2- Cotta T. Metodologias de avaliação de programas e projetos sociais: análises de resultado e de impacto. Rev Serv Público 1998; 49 (2): 10526. 3- Hartz Z, Organizador. Avaliação em saúde: dos modelos conceituais à prática na análise da implantação de programas. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 1997. 4- Chianca T, Marino E, Schiesari L. Desenvolvendo a cultura de avaliação em organizações da sociedade civil. São Paulo: Global; 2001. 5- Pedrosa JIS. 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Rio de Janeiro: DP &A; 2001. Recebido em: 24/01/2005 Aprovado em: 14/04/2005 REME – Rev. Min. Enf; 9(2):121-125, abr/jun, 2005 n 125 Produção de modelagem em... PRODUÇÃO DE MODELAGEM EM SESSÕES DE ARTETERAPIA NO CONTEXTO HOSPITALAR PEDIÁTRICO1 MODELING IN ART THERAPY IN A PEDIATRIC HOSPITAL PRODUCCIÓN DE MODELADO EN SESIONES DE TERAPIA DE ARTE EN EL CONTEXTO HOSPITALARIO PEDIÁTRICO Ana Cláudia Afonso Valladares2 Ana Maria Pimenta Carvalho3 RESUMO A arteterapia é um processo que favorece a expressão da criatividade e pode influenciar no desenvolvimento cognitivo, afetivo, psicomotor e social. O objetivo deste trabalho foi comparar a produção de modelagem de crianças internadas, antes e após uma intervenção em arteterapia. Foram avaliados dois grupos de crianças, um submetido à intervenção e o outro não, num esquema quasi-experimental (n=10 em cada grupo). Os resultados mostraram que as produções após a intervenção foram qualitativamente melhores. Concluiu-se que a arteterapia pode ser uma intervenção útil em promover habilidades em crianças hospitalizadas. Palavras-chave: Terapias Sensoriais através das Artes; Saúde Mental; Criança Hospitalizada; Enfermagem Pediátrica ABSTRACT Art therapy is a process that allows creativity and self-expression and it affects cognitive, affective and social development. The aim of this work was to compare the modeling outcomes of hospitalized children, before and after an art therapy intervention. Two groups were assessed (10 children in each group) in a quasi experimental design. Results showed that the works produced by children after the intervention were qualitatively better. The conclusion is that art therapy may be useful for promoting abilities in hospitalized children. Key words: Sensory Art Therapy; Mental Health; Hospitalized Child; Pediatric Nursing RESUMEN La terapia de arte o arte-terapia es un proceso que favorece la expresión de la creatividad y puede influir en el desarrollo cognitivo, afectivo, psicomotor y social. La finalidad de este trabajo fue comparar la producción de modelado de niños internados, antes y después de ser tratados con sesiones de terapia de arte. Evaluamos dos grupos de niños, uno de los cuales fue sometido a sesiones de terapia y el otro no, en un esquema casi experimental (n=10 en cada grupo) Los resultados mostraron que las producciones tras la intervención fueron cualitativamente mejores. Concluimos que la terapia de arte puede ser un procedimiento útil para promover habilidades en niños hospitalizados. Palabras clave: Terapias de arte sensorial, salud mental, niño hospitalizado; enfermería pediátrica 1 2 3 Pesquisa inserida no Núcleo de Estudos e Pesquisa em Saúde Integral da Faculdade de Enfermagem/ Universidade Federal de Goiás (FEN/UFG). Este estudo é parte da dissertação da autora principal, intitulada: "Arteterapia com crianças hospitalizadas" Enfermeira Pediátrica, Artista Plástica e Arteterapeuta. Professora Assistente da FEN/UFG. Doutoranda pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP/USP). Psicóloga. Professora Doutora da EERP/USP Endereço para correspondência: Universidade Federal de Goiás – Faculdade de Enfermagem – Rua 227 Qd. 68 s/ nº Setor Leste Universitário – CEP: 74.605-080 – Goiânia – GO – Brasil - E-mail: [email protected] 126 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2):126-132, abr/jun, 2005 INTRODUÇÃO Arteterapia é uma prática terapêutica que trabalha com a transdisciplinaridade de vários saberes, entre os quais estão: a educação, a saúde e a arte, buscando resgatar a dimensão integral do homem, os processos de autoconhecimento e os de transformação pessoal. Ademais, almeja a produção de imagens, a autonomia criativa, o desenvolvimento da comunicação, a valorização da subjetividade, a liberdade de expressão, o reconciliar de problemas emocionais, bem como a função catártica.(1) A arteterapia trabalha várias modalidades expressivas com propriedades terapêuticas inerentes e específicas, e enfatiza que cabe ao arteterapeuta criar um repertório de informações relativo a cada uma delas, com o intuito de adequar essas modalidades expressivas e materiais às necessidades do cliente a ser atendido. A modelagem é uma atividade que exercita a função sensorial e trabalha com a organização tridimensional. A pessoa ao tocar a argila estabelece um contato de forma inédita com o material e assim evoca sua criatividade, o que lhe permite criar novas formas e ampliar o mundo imaginário restrito ao seu usuário.(2) Os materiais utilizados para desenvolver esta modalidade expressiva podem ser argila, papel-machê, gesso, plastilina, massinha de modelagem colorida, massa artesanal e estecas (ferramentas especiais para modelagem).(3) Nas expressões artísticas, como também na modelagem, as crianças expõem a si mesmas, isto é, todo seu contexto social, suas percepções sobre o mundo, sua identidade e sua imaginação. As produções de arte podem contribuir sobremaneira para esclarecer o desenvolvimento e a avaliação emocional das crianças.(4) Mas seria a arteterapia uma técnica apropriada no tratamento dessa clientela? Poderia dar continuidade ao processo de desenvolvimento cognitivo, afetivo, psicomotor e social das crianças hospitalizadas? Os enfermos seriam capazes de transformar as imagens criadas por meio das produções da modelagem, após a intervenção da arteterapia? Percebe-se que essas preocupações refletem não só os desafios da atuação dos profissionais de enfermagem, mas também o contexto das transformações da própria sociedade, nos dias atuais, que está em constante mudança, de onde emergem terapias baseadas na arte, música, dança e outras, como práticas complementares. A saúde mental e a enfermagem, em particular, vêm ampliando seus conhecimentos e utilizando essas práticas na assistência a seus enfermos, com aproveitamento de experiências alternativas e criativas, ou melhor, de práticas não-convencionais disponíveis não apenas para uso, mas para investigações sistematizadas, que agora estão mais presentes em hospitais, por exemplo. No caso das crianças, o adoecimento e a hospitalização alteram suas vidas como um todo, podendo, muitas vezes, desequilibrar seu organismo interna e externamente e, em conseqüência disso bloquear o processo de desenvolvimento global saudável, especialmente se a doença for longa.(5) Como se sabe, o desenvolvimento infantil é um processo complexo, que envolve as diferenças individuais e as específicas de cada período, responsáveis por mudanças nas características, nos comportamentos, nas possibilidades e nas limitações de cada fase da vida, indistintamente. Assim, a singularidade das crianças lhes é conferida por influências do seu ritmo próprio de desenvolvimento e por características pessoais que as diferenciam das demais.(5) Quanto ao desenvolvimento artístico da criança, este segue paralelo à sua evolução global. Diante da preocupação com a saúde mental da criança hospitalizada e com a busca do atendimento ao desenvolvimento global da criança, as autoras deste trabalho, centrando seu interesse nas práticas alternativas, vêem a possibilidade de a arteterapia ser amplamente utilizada no ambiente hospitalar pediátrico. Assim, o objetivo deste trabalho foi comparar o desempenho de crianças hospitalizadas, no que tange ao fazer tridimensional e à construção com sucata hospitalar, antes e após intervenção da arteterapia. METODOLOGIA a) Tipologia: trabalhou-se a abordagem quantitativa, com delineamento quasi-experimental. Este estudo propõe testar hipóteses sobre relações entre variáveis; envolve três pressupostos básicos, que são: o controle, a randomização e a manipulação de variáveis. O controle refere-se a algumas semelhanças, como o mesmo hospital, as mesmas características da amostra e período idêntico para pesquisa e internação das crianças. A randomização significa a distribuição aleatória da natureza dos sujeitos do estudo em grupos, não eliminando os sujeitos potenciais participantes do mesmo. E a manipulação de variável é a instituição de um tratamento que, no referido estudo, são as intervenções de arteterapia. A distribuição das crianças nos grupos ocorreu por escolhas causais simples e alternadas, de acordo com seu ingresso na Instituição, isto é, uma para o GA (grupo experimental – crianças que passaram por intervenções de arteterapia) e outra para o GB (grupo controle – crianças que não passaram por intervenções de arteterapia), levando-se em consideração as variáveis de controle entre os que aquiesceram participar da pesquisa. b) Local: o estudo desenvolveu-se na ala C-Pediátrica do Hospital de Doenças Tropicais (HDT), de Goiânia – Goiás, instituição pública e de ensino especializada em doenças infecto-contagiosas e parasitárias. c) Amostra: constituiu-se de vinte crianças, dez no GA e dez no GB, na faixa etária de 7 a 10 anos de idade, selecionadas segundo a caracterização da população internada no HDT. Definiu-se o número de sujeitos com base em estudos que focalizaram variáveis mensuradas ao nível ordinal e para as quais se aplicaram análises da estatística não-paramétrica. Quanto às variáveis de controle, estas incluíram crianças de ambos os sexos, com tempo de internação maior do que cinco dias até um mês. As variáveis dependentes abrangeram a seqüência de fases da modelagem e a avaliação da produção da mesma; já a variável independente constou de intervenção arteterapêutica para o GA. Adotou-se como critério de inclusão: crianças e acompanhantes que aceitaram participar da pesquisa; como critérios de exclusão: crianças que apresentassem distúrbio de comportamento severo, algum tipo de deficiência ou que recebessem atendimento de outras técnicas dirigidas, como psicoterapia, terapia ocupacional ou classe hospitalar. Cabe ressaltar que as crianças de am- REME – Rev. Min. Enf; 9(2):126-132, abr/jun, 2005 n 127 Produção de modelagem em... bos os grupos (GA e GB) não foram privadas do acesso à sala lúdica de psicologia ou ao parquinho do hospital, ou ainda de participarem das atividades lúdicas assistemáticas. d) Procedimentos: esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa Médica Humana e Animal do HDT. A pesquisadora principal consultou as crianças e seus responsáveis quanto ao desejo de participarem do estudo, solicitando aos responsáveis a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme as normas de pesquisa com seres humanos – Resolução nº196/96 do Conselho Nacional de Saúde.(6) Analisaram-se as modelagens das crianças quanto à seqüência das fases e à qualidade de sua produção, antes (avaliação inicial - AI) e após as intervenções de arteterapia (avaliação final - AF). A técnica seguiu uma conduta padronizada com relação às avaliações (AI e AF), isto é, propôsse uma modelagem com temática livre e espontânea, quando as crianças utilizaram massinha de modelagem colorida, argila, estecas, jornal, placas suporte, papel sulfite branco e lápis grafite 6B. Estimulou-se, ainda, a criança a dar um título para a obra produzida e, caso quisesse, poderia falar sobre a mesma. Para coleta dos dados, a autora principal utilizou os seguintes instrumentos: 1) Ficha de Avaliação da Seqüência de Fases da Modelagem, modelo de Reily(7) – que avaliou o desenvolvimento da modelagem (ANEXO A); 2) Roteiro para Avaliação da Produção da Modelagem, modelo de Dondis adaptado por Valladares(2) – que avaliou a qualidade da modelagem, seguindo-se um modelo com parâmetros preestabelecidos. Este instrumento permitiu observar os seguintes elementos: variedade de elementos, cor, configuração das imagens, criatividade, simetria, regularidade, complexidade, unidade, equilíbrio, atividade, exatidão e profundidade (ANEXO B). Após a elaboração do Roteiro para Avaliação da Produção da Modelagem, a pesquisadora principal a arteterapeuta o submeteu ao julgamento de cinco juízes, que emitiram pareceres sobre o mesmo. Após acatar as sugestões convenientes e fazer as devidas correções, foi aplicado o teste-piloto de ambos os instrumentos com vistas a verificar a operacionalidade dos mesmos, os quais foram utilizados concomitantemente durante às avaliações AI e AFi pela arteterapeuta (pesquisadora principal) e por auxiliares de pesquisa tendo estas últimas passado por um treinamento prévio. As intervenções de arteterapia consistiram de acompanhamento individual realizado em sete sessões, durante três dias e meio consecutivos, com duração variada de uma a três horas e meia. A duração total da pesquisa foi de seis meses e, no decorrer das intervenções, a pesquisadora principal trabalhou várias modalidades de arte apoiadas às necessidades da criança, tendo as intervenções de arteterapia favorecido a conduta focal e imediata, reforçando, assim, o vínculo entre arteterapeuta e criança. Foram utilizadas de técnicas lúdicas e de atividades artísticas, com condução espontânea das dinâmicas, o que favoreceu a exteriorização da subjetividade das crianças. Durante as intervenções, elas puderam utilizar materiais de desenho, pintura, colagem e recorte, modelagem, construção, gravura, origami, teatro, brinquedos, jogos, livros de histórias e escrita criativa. e) Análise dos dados: para análise comparativa aplicou-se o teste T de Wilcoxon(8) nas duas amostras dependentes dos dois instrumentos. Nos protocolos de avaliação utilizados, estão contidas escalas de classificação referentes à ordem de qualidade do desempenho, à qual atribuíram-se níveis de gradação de pontos na ordem crescente, isto é, do nível inferior para o superior de qualidade. RESULTADOS E DISCUSSÃO O Quadro 1 ilustra a caracterização da amostra dos dois grupos, separadamente. QUADRO 1 – Distribuição da amostra conforme o grupo (GA e GB), segundo sexo, escolaridade, diagnóstico clínico, isolamento, local de atendimento, residência e idade. Goiânia – 2003. Sexo Grupo Experimental M F 5 5 Controle 5 5 Escolaridade (série) 1 2 3 2 - 2 1 2 1 4 4 3 Diagnóstico Clínico 5 6` Meningite 1 1 5 2 1 4 Isolamento Outra 5 6 S 3 5 Local de Atendimento N 7 5 L 3 2 P 7 8 Residência G 2 3 IG 6 6 Idade (anos) OE 2 1 7 1 1 8 2 1 9 2 3 10 5 5 Média de Idade (anos) 9,7 9,9 Legenda: M – masculino F – feminino S – sim N – não L – leito SP – sala de psicologia IG – interior de Goiás G – Goiânia OE – outro estado Já o Quadro 2 exibe os resultados obtidos nas AIs e AFs na comparação dos GA e GB, quanto às avaliações da seqüência das fases e da produção da modelagem. QUADRO 2 – Comparação* intragrupo dos escores obtidos nas avaliações (AI e AF), com relação à avaliação do desenvolvimento e da produção da modelagem, Goiânia – 2003. Modalidades de Avaliação GA GB Seqüência de Fases da Modelagem AI < AF1 AI = AF Produção da Modelagem AI < AF2 AI = AF *Teste T de Wilcoxon(8) 128 n 1 p < 0,02 REME – Rev. Min. Enf; 9(2):126-132, abr/jun, 2005 2 p < 0,01 A avaliação da seqüência de fases da modelagem mostrou que as crianças do GA atingiram níveis mais altos na AF do que na AI, apresentando, conseqüentemente, progresso, enquanto as do GB obtiveram escores semelhantes na AI e AF. O GA mostrou progresso porque seus integrantes, na AF, melhoraram em relação à AI, sobretudo ao oscilarem do nível de amassar, apertar, jogar e mexer com a massa (abaixo do esperado para a idade) para o nível de formar figuras e objetos reconhecíveis. Além disso, a maioria das crianças do GA, na AF, deu atenção ao acabamento. Quanto ao GB, este não expressou diferenças nos dois momentos de AI e AF, especialmente porque os sujeitos apresentaram estabilidade nos níveis de desenvolvimento, permanecendo grande parte na etapa de formação de figuras e objetos reconhecíveis. Corroborando os dados da pesquisa de Francisquetti(9), observou-se que a arteterapia possui condições de resgatar, através das atividades artísticas, o desenvolvimento cognitivo interrompido por uma doença. A desenvolve a capacidade motora e os gestos, além de ajudar a ativar a capacidade cognitiva da criança, proporcionando-lhe uma nova forma de aprendizagem. Sabe-se que a confusão ou déficit cognitivo da criança, decorrente do processo de doença e hospitalização, pode ser debelado quando sua atenção se volta para materiais empolgantes, repletos de magia, como: cores, formas, texturas etc. Materiais, estes, estimulantes que favorecem seu desenvolvimento psicomotor, afetivo, cognitivo e social. A criança ao usar usa imaginação, deduz, generaliza situações, raciocina, cria e modifica, possibilitando transformações no seu processo de desenvolvimento. A arteterapia possibilita um processo de desenvolvimento contínuo, sempre influenciado pelas ocorrências do meio, além de ser um estímulo do meio que oferece oportunidades para o desenvolvimento. Caso não sejam estimulados pelo meio, algumas crianças podem apresentar bloqueio em uma ou mais áreas do desenvolvimento e, muitas vezes, estas dificuldades acabam gerando prejuízos ao seu desenvolvimento global. As crianças sempre buscam novas formas para descobrir o mundo e para se relacionarem consigo mesmas e com os outros, processo que favorece o contato com novas potencialidades e recursos, além de criar novas estruturas. Assim, o desenvolvimento é um processo de aprendizagem, no qual a criatividade (trabalhada na arteterapia) é muito importante, pois possibilita uma melhor integração da criança com seu meio, em todos os seus aspectos. Na fase da modelagem verificaram-se mudanças nos desempenhos que podem ser explicadas, em parte, tendo em vista a qualidade da experiência do desenvolvimento da modelagem, que é mais concreta, reforçando o trabalho sensorial e motor. No que se refere à avaliação da modelagem, o GA apresentou progresso, uma vez que sua AF foi superior à AI, sobretudo nos aspectos relacionados a variedade da produção, policromia, criatividade e complexidade dos trabalhos. Já o GB não mostrou modificação significativa nas duas avaliações (AI e AF), especialmente pela estabilidade apresentada nos aspectos de configuração das imagens, simetria, atividade, exatidão das imagens e profundidade. A argila é um recurso que vem sendo utilizado há anos, especialmente pela sua flexibilidade e maleabilidade, podendo ser empregada pelos arteterapeutas com o objetivo de romper a armadura protetora que impede as pessoas de expressarem seus sentimentos, facilitando que atinjam a solução almejada.(10) Para a autora, o trabalho com argila possibilita a projeção do inconsciente do cliente, ou seja, seus sonhos, fantasias, devaneios, medos e conflitos. A argila ainda auxilia a criança a enfrentar a sua problemática e se relacionar com as pessoas que a rodeiam, pois a imagem representa a comunicação do seu sintoma. A argila (modelagem) evidencia, então, a reorganização da percepção interior e a reconstrução da realidade exterior. As propriedades inerentes à modelagem são a flexibilidade e o contato sensorial, os quais facilitam transformações da matéria e promovem mudanças internas (relaxamento, equilíbrio) na criança, e assim o seu exterior (comportamento) automaticamente se modifica. O arteterapeuta é um dos profissionais que encorajam as expressões do imaginário da criança, uma vez que seu objetivo primordial, no contexto da doença pediátrica e dos cuidados à saúde, é direcionar esta necessidade no sentido de estimular e preservar a imaginação da criança fisicamente doente. Assim, justifica-se, em parte, a variedade expressiva demonstrada pelo GA na sua produção. Após as intervenções de arteterapia, observou-se que os trabalhos das crianças deste grupo apresentavam uma diversidade cromática mais intensa, relacionada, possivelmente, aos sinais de alegria expressos por elas na AF. Nesse sentido, Pain e Jarreau(11) mencionam que a cor está ligada aos elementos da sensação; ela evoca a sensibilidade e a intuição, traduz a emoção e a qualidade do objeto. Os trabalhos mais criativos realizados pelo GA, demonstraram uma produção mais independente. Isso ocorreu porque seus componentes tiveram facilidade para elaborar um trabalho mais expressivo, o que lhes permitiu manifestar mais originalidade, flexibilidade, fluência, elaboração e avaliação nas suas produções. Pesquisas sobre a arteterapia têm demonstrado que a autonomia criativa é uma das grandes possibilidades desse processo.(2,3) A complexidade, isto é, a riqueza de detalhes, está vinculada à variedade expressiva e à criatividade e isso as crianças do GA demonstraram, pois à medida que ampliaram seu mundo imaginativo, favorecido pela intervenção arteterapêutica, também introduziram modificações em suas imagens. Tanto a AI quanto à AF das produções plásticas foram abrangentes e importantes, pois permitiram acompanhar com bastante clareza o desdobramento de processos intrapsíquicos e dos trabalhos artísticos, além de favorecer a identificação de mudanças (de desenvolvimento e das produções plásticas) significativas dos sujeitos do GA, após as intervenções de arteterapia. Assim, a arteterapia pode estar sempre relacionada às características sadias da personalidade e resgata a criação de novos projetos de vida. Portanto, alivia os sentimentos negativos e minimiza os comportamentos problemáticos. REME – Rev. Min. Enf; 9(2):126-132, abr/jun, 2005 n 129 Produção de modelagem em... CONSIDERAÇÕES FINAIS Constatou-se com este estudo que as crianças do GA tiveram suas modelagens modificadas e melhoradas, após as intervenções de arteterapia, o que não ocorreu com as crianças do outro grupo. Embora o processo de elaboração pela modelagem seja pouco mediado por verbalizações, entende-se que, quando as imagens se transformam, o mesmo ocorre com o processo psíquico da criança, o que foi confirmado pelas novas imagens configuradas pelo GA, na AF. Assim, ao se analisarem os conteúdos das produções simbólicas (cores, profundidade, criatividade etc), percebeu-se que afloraram os momentos afetivos das crianças, as quais, ao produzirem as imagens estariam reproduzindo a si mesmas, como também seu mundo físico (sensório-motor), mental (cognitivo) e emocional, sua imaginação e ainda o mundo das idéias, dos sonhos e da memória contidos em si mesmas. A arteterapia mostrou-se eficaz na avaliação das variáveis referentes à seqüência das fases e à qualidade de produção da modelagem da criança hospitalizada, pois o poder da ludicidade é um nutriente importante contra o estresse, seja para auxiliar na integração dos dois lados do cérebro da criança, na manutenção do seu eixo criativo no seu bem-estar e equilíbrio, além de estimular sua alegria, proporcionando-lhe conforto e mudança no comportamento.(12) A arteterapia também contribui significativamente para a humanização de cuidados à saúde, gerando maior bem-estar aos usuários devido à liberdade de expressão/comunicação, alívio de tensão, de ansiedade e de dor.(13) A criança, durante o seu processo de desenvolvimento afetivo, psicomotor, cognitivo e social, explora e interage com seu meio de forma contínua, quando lhe são oferecidas oportunidades em ambientes favoráveis, pois sabe-se que cuidar de quem se encontra fragilizado e internamente desorganizado em função de uma doença grave não é tarefa fácil. Neste caso, cabe ao arteterapeuta, profissional importante no meio hospitalar, tornar o ambiente estimulante e não ameaçador, e auxiliar a criança a restabelecer seu diálogo com o mundo, para que enfrente a doença e a hospitalização de forma construtiva, dinâmica e saudável. Após a realização deste trabalho, as autoras acreditam que a criação de espaços onde se desenvolva a arteterapia poderá facilitar a expressão de crianças hospitalizadas de uma forma mais produtiva, pois esses locais estimulam o desenvolvimento de suas potencialidades expressivas, agindo preventivamente no sentido de se evitar a instalação de algumas disfunções que venham atrapalhar seu crescimento normal. O profissional habilitado para atuar como arteterapeuta pode originar de várias áreas, tais como: da saúde, da educação, das artes, e em especial da enfermagem; mas é legitimado exercer a profissão somente o graduado que receber a formação específica em arteterapia. Este campo de atuação tem crescido muito na área de enfermagem, nos últimos anos, tanto em nível nacional como internacional, sendo profícua sua utilização no contexto da hospitalização pediátrica, isso porque nas situações em que as crianças não conseguem facilmente comunicar verbalmente seus desejos e 130 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2):126-132, abr/jun, 2005 necessidades, a arteterapia representaria a defesa do direito de qualquer criança hospitalizada. Ademais, as autoras esperam que este estudo contribua para o avanço do conhecimento na área da arteterapia dentro da enfermagem pediátrica, e que esta técnica seja disponibilizada às crianças hospitalizadas a fim de auxiliar no seu desenvolvimento global. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Valladares ACA. A arteterapia e a reabilitação psicossocial das pessoas em sofrimento psíquico. In: Valladares ACA., Organizadora. Arteterapia no novo paradigma de atenção em saúde mental. São Paulo: Vetor; 2004. p.11-3. 2. Valladares ACA. 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Idade: .................... anos Sexo: ( ) F Avaliação: ( ( ) Inicial ) Final ( )M Denominação verbal: "...................................................................................................." A criança: a. explora o material de forma primária (usando o nariz, a boca e o tato); b. amassa, aperta, joga e mexe com a massa. Tira partes do todo e junta-as novamente; c. faz cobrinhas na mesa e entre as mãos: (1) grandes, achatadas; (2) finas e uniformes; d. faz bolinhas na mesa, e entre as mãos; e. junta cobras, bolinhas e outras formas em novas combinações; nomeia o que está fazendo; f. forma figuras e objetos reconhecíveis, como potes simples, animais, pessoas, caracóis etc; g. dá atenção ao acabamento, alisando o barro e enfeitando o trabalho com impressões de objetos, riscos e desenhos. ANEXO B Roteiro para Avaliação da Produção da Modelagem* Nome da criança: .................................................................................................................................................................................... Grupo em Estudo: ( ) Experimental ( ) Controle DN: ......../ ......../ ........ Idade: ................... anos Sexo: ( ) F Data: ......./ ......./ ........ Período: .............................. Tempo: ..................................................... Avaliação: ( ) Inicial ( ) Final DESEMPENHO NÍVEL (A) Nível (A) +2 1.A) Variedade na Produção Plástica 2.A) Policromático ( )M Denominação verbal: " ..................................................................................................." Tendência Para (A) +1 Não Pertence Nem (A) – Nem (B) 0 Tendência Para (B) -1 Nível (B) DESEMPENHO NÍVEL (B) -2 1.B) Empobrecimento da Produção Plástica 2.B) Monocromático 3.A) Imagem Bem 3.B) Imagem Configurada Mal Configurada 4.A) Muito Criativo 5.A) Simetria 6.A) Regularidade 7.A) Complexidade 4.B) Pouco Criativo 5.B) Assimetria 6.B) Irregularidade 7.B) Simplicidade 8.A) Unidade 8.B) Fragmentação 9.A) Equilíbrio 9.B) Desequilíbrio 10.A) Atividade 11.A) Exatidão 12.A) Profundidade 10.B) Estático 11.B) Distorção 12.B) Planura REME – Rev. Min. Enf; 9(2):126-132, abr/jun, 2005 n 131 Produção de modelagem em... LEGENDA 1.a) Variedade na produção expressiva: quando existe uma diversidade produtiva nos trabalhos, pela variedade de elementos; 1.b) Empobrecimento da produção expressiva: quando os trabalhos não possuem diversidade ou variedade de elementos na sua produção. 2.a) Policromático: significa um trabalho apresentado uma diversidade cromática; 2.b) Monocromático: significa um trabalho apresentando apenas uma ou nenhuma cor. 3.a) Imagem bem configurada: reflete exatidão ou clareza das formas expressivas, demonstrando domínio sobre sua capacidade de expressar sua intenção; 3.b) Imagem mal configurada: reflete dificuldade em definir as formas ou omissão de elementos. 4.a) Muito criativo: demonstra independência, facilidade em elaborar um trabalho expressivo; 4.b) Pouco criativo: demonstra pouca originalidade, flexibilidade, fluência, elaboração e avaliação ao desenvolver os trabalhos. 5.a) Simetria: corresponde ao equilíbrio axial, a uma formulação visual resolvida, no qual cada unidade de um lado da linha central é rigorosamente repetida do outro lado; 5.b) Assimetria: é quando os elementos de um lado da linha central não se repetem do outro lado da obra. 6.a) Regularidade: constitui a uniformidade dos elementos e o desenvolvimento de uma seqüência ordenada por algum princípio ou método constante e invariável; 6.b) Irregularidade: constitui a ênfase no inesperado e no insólito e de certa forma caótico, sem se adequar a nenhum plano decifrável 7.a) Complexidade: eqüivale à riqueza de detalhes, caracterizada pela distinção de sexo e dos tipos de personagens, nas vestimentas e objetos, nas atividades e funções (convenções socioculturais) dos elementos, além da maior complexidade de justapor, congregar, encaixar, preencher, repartir, dividir, retirar, combinar, associar etc. Pode apresentar diferença de estilo; 7.b) Simplicidade: eqüivale a pobreza de detalhes. 8.a) Unidade: é uma forma de equilíbrio de elementos diversos de uma determinada totalidade percebida visualmente ou sua integração; 8.b) Fragmentação: é a decomposição dos elementos e unidade de um elemento em partes distintas, mas que se relacionam entre si apesar de manter um caráter individual. 9.a) Equilíbrio: sugere tamanho e proporção equilibrados ou distribuição harmoniosa de linhas, formas e cores, ou boa organização espacial entre o mesmo elemento ou a relação entre os elementos contemplados na obra; 9.b) Desequilíbrio: sugere que o elemento seja extravagante, ampliado, intensivo ou, ainda, muito abrandado, gerando desproporção do(s) elemento(s) visual(is). 10.a) Atividade: reflete movimento e ação, pela representação ou sugestão; 10.b) Estático: reflete rigidez dos elementos. 11.a) Exatidão: simboliza o objeto de acordo com sua aparência visual real; 11.b) Distorção: sugere adulteração, omissão, desvio ou desobediência nas proporções das imagens trabalhadas. 12. a) Profundidade: quando há presença de perspectiva e de suas leis, do efeito claro-escuro ou criação de planos, sobreposições e aparecimento da tridimensionalidade; 12. b) Planura: quando não há o efeito de luz e sombra. 132 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2):126-132, abr/jun, 2005 GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS DE SERVIÇOS DE SAÚDE: AVALIAÇÃO DE UM CENTRO DE TERAPIA INTENSIVA HEALTH SERVICE WASTE MANAGEMENT: EVALUATION OF AN INTENSIVE THERAPY CENTER GESTIÓN DE RESIDUOS HOSPITALARIOS: EVALUACIÓN DE UN CENTRO DE TERAPIA INTENSIVA Maria Verônica Guilherme Ferrareze1 Denise de Andrade2 Magda Fabbri Isaac Silva3 Lucidio de Sousa Santos4 Viviane Ferreira5 RESUMO Atualmente uma das preocupações, em âmbito mundial, reporta-se à geração contínua de resíduos sólidos, especialmente, considerando os riscos que os mesmos oferecem ao meio ambiente e a saúde pública. Este estudo descritivo tem como objetivo avaliar o gerenciamento desses resíduos em um Centro de Terapia Intensiva de um hospital geral escola. Utilizou-se a observação não-participante. Os resíduos foram classificados como do Grupo A (infectantes), B (químicos) e D (comuns). Importantes aspectos foram evidenciados, como dificuldades de implementar o gerenciamento adequado de Resíduos de Serviços de Saúde apontando a necessidade de incluir atividades de treinamentos em serviço e educação continuada. Palavras-chave: Resíduos de Serviços de Saúde; Infecção Hospitalar; Biossegurança ABSTRACT Nowadays, one of the main worries on a global scale is the continuous production of solid waste, especially considering environmental and public health risks. This is a descriptive study to evaluate waste management at an intensive therapy center of a general school hospital. Non-participant observation was used. Waste was classified as Group A (infectious), B (chemical) and D (common). Important aspects appeared as difficulties to implement adequate health service waste management, pointing towards the need to include in-service and permanent education training activities. Keywords: Medical Waste, Hospital infection, Biosafety RESUMEN Actualmente, una de las inquietudes mundiales es la generación continua de residuos sólidos, especialmente considerándose los riesgos que éstos ofrecen al medio ambiente y a la salud pública. La finalidad de este estudio descriptivo es evaluar la gestión de dichos residuos en el centro de terapia intensiva de un hospital escuela. Se utilizó la observación no participante. Los residuos fueron clasificados como del Grupo A (infecciosos), B (químicos) y D (comunes) Quedaron en evidencia aspectos importantes tales como la dificultad de poner en práctica la gestión adecuada de residuos hospitalarios, lo cual indica la necesidad de incluir actividades de capacitación en servicio y educación continuada. Palabras clave: residuos hospitalarios; infección hospitalaria; bioseguridad 1 2 3 4 5 Enfermeira do Centro de Terapia Intensiva do HCFMRP / USP / Unidade de Emergência Docente do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da EERP / USP. Docente do Curso de Enfermagem do Centro Universitário Barão de Mauá Docente do Departamento de Química da UNESP de Bauru Enfermeira do CTI / HCFMRP / USP / Unidade de Emergência e Especialista em Nefrologia Endereço para correspondência: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - Avenida Bandeirantes - 3900 Campus Universitário- Ribeirão Preto / SP cep 14040 – 902. REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 133-139, abr/jun, 2005 n 133 Gerenciamento de Resíduos de... INTRODUÇÃO Desde os primórdios a luta contra as ameaças à saúde tem sido uma busca constante e uma das principais preocupações do homem. Assim, sua capacidade de gerar tecnologia e de transformá-la em seu próprio benefício tem favorecido gerações e mais gerações, e as discussões sobre esse avanço científico e tecnológico vêm ganhando força, considerando o volume de problemas a que a população tem sido exposta por conseqüência desse desenvolvimento. Atualmente, as pressões advindas de uma percepção social cada vez maior, aliada aos novos conhecimentos fizeram nascer uma ideologia que busca responder às crescentes necessidades da população de maneira a minimizar ou anular os impactos adversos que afetam o equilíbrio físico, químico e biológico do homem e do seu ambiente. Neste contexto, uma das inquietações das pessoas, em âmbito mundial, e que tem gerado questionamentos, diz respeito à produção contínua e inesgotável de resíduos sólidos, considerando os múltiplos riscos que esses resíduos oferecem à sociedade e ao meio ambiente. Nas últimas décadas o gerenciamento de resíduos doméstico, industrial, bem como, aquele produzido em serviços de saúde tem envolvido estudiosos da área de saúde, ambientalistas, entre outros. Os esforços desses estudiosos são em prol de medidas eficazes de tratamento ou de destinação final desses resíduos. Nesse particular cabe mencionar que a maioria das cidades brasileiras não tem tratamento ou destino final adequado do lixo de qualquer natureza. Têm–se espalhados em todo território brasileiro os chamados "lixões" cujo número é crescente e alarmante. Neste ambiente hostil e insalubre é deprimente reconhecer que os lixões mantêm a sobrevivência de pessoas e animais. Sem dúvida, a situação é ainda mais séria quando se observa falta de critérios no descarte dos resíduos gerados em serviços de saúde, nos lixões e na rede de esgoto. Há de se ressaltar que no contexto dos serviços de saúde, particularmente os hospitais têm contribuído com o maior volume de resíduos infectantes considerando que nas atividades do cuidado, diferentes procedimentos são executados mediante a utilização de recursos e artigos diversos, o que conseqüentemente, acarreta a produção contínua desses resíduos. E o que tem sido feito com esses resíduos? Acredita-se que, por falta de gerenciamento e pela precariedade de recursos, ainda queimam o lixo a céu aberto ou em fornos improvisados ou obsoletos. Sem contar que as prefeituras coletam os resíduos de serviços de saúde em caminhões abertos, sujeitos a vazamentos, e com operários despreparados e sem Equipamentos de Proteção Individual (EPI).(1) É notório que a maior inquietação da sociedade está relacionada ao lixo hospitalar, atualmente, chamado de Resíduos de Serviços de Saúde (RSS) e conceituado como todo aquele resíduo gerado por prestadores de assistência médica, odontológica, laboratorial, farmacêutica, instituições de ensino e pesquisa médica referente tanto à população humana quanto à veterinária, que possui potencial de risco, em função da presença de material biológico capaz de causar infecção, de produtos químicos 134 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 133-139, abr/jun, 2005 perigosos, objetos perfurocortantes (PC), e mesmo de rejeitos radioativos, que necessitam cuidados específicos.(2) Vale mencionar a Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) de 1993 que em seu artigo 4º, determina que "... é responsabilidade dos estabelecimentos prestadores de serviços em saúde o gerenciamento de seus resíduos sólidos, desde a sua geração até a eliminação final, de maneira a atender aos requisitos ambientais e de saúde pública...".(3) Esta determinação ainda hoje, é desconsiderada pela maioria dos hospitais brasileiros e pelas administrações municipais ou outras entidades. Neste sentido, a Resolução nº 283 de 2001 do CONAMA estabelece o Plano de Gerenciamento de Resíduos de Saúde (PGRSS) baseado nos princípios da não geração de resíduos e na minimização dessa produção. Esse plano de gerenciamento aponta e descreve as ações relativas ao seu manejo, contemplando os aspectos da geração, segregação, acondicionamento, coleta, armazenamento, transporte, tratamento e disposição final, bem como a proteção à saúde pública.(4) O PGRSS deve ser elaborado pelo gerador dos resíduos e de acordo com os critérios estabelecidos pelos órgãos de vigilância sanitária e meio ambiente federal, estadual e municipal. Entretanto, apesar dos dispositivos legais e das evidências científicas associadas aos riscos à saúde e ao impacto ambiental por conseqüência do processamento inadequado do lixo, ainda permanecem muitos desafios. Diante dessas considerações, sentiu-se necessidade de realizar um estudo sobre Resíduos de Serviços de Saúde com vistas a descrever as etapas do gerenciamento desses resíduos em um Centro de Terapia Intensiva, desde a sua geração (segregação, acondicionamento, coleta, armazenamento, transporte, tratamento e disposição final até a apresentação à coleta especial ou externa). Optou-se pelo Centro de Terapia Intensiva considerando o tipo de clientela assistida (crítica / com risco iminente de morte); e a complexidade do cuidado que exige alta tecnologia, associado a procedimentos invasivos diversos e conseqüentemente a geração contínua de resíduos. Acredita-se que estudos dessa natureza não se limitam à descrição da realidade, mas, acima de tudo fomentam importantes reflexões nos profissionais afins. METODOLOGIA Trata-se de um estudo descritivo-exploratório considerando que se propõe descrever o processo de gerenciamento de resíduos de um Centro de Terapia Intensiva (CTI) de um Hospital universitário, de grande porte, situado no interior do estado de São Paulo. A coleta das informações relativas ao gerenciamento de RSS na respectiva unidade foi realizada durante dois meses, por meio da observação não participante. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição em estudo, conforme Portaria 196/ 96.(5) O recurso utilizado para apontar que as observações coletadas eram suficientes, foi a saturação dos dados, ou seja, a coleta dos dados foi encerrada no momento em que as observações se repetiam. Assim, foram realizadas 20 observações não participantes. O roteiro de observação não participante foi elaborado de acordo com o estudo de Silva, com base nas Resoluções nacionais e na classificação por grupos dos resíduos preconizada pelo CONAMA.(2,3,4,6) A seguir, está descrito a classificação RSS utilizada neste estudo: • Grupo A: resíduos de natureza biológica e perfurocortante (PC), animais usados em experimentação, bem como materiais que tenham entrado em contato com os mesmos, excreções, secreções e líquidos orgânicos, meios de cultura, tecidos, órgãos, fetos e peças anatômicas, filtros de gases aspirados de áreas contaminadas, resíduos advindos de áreas de isolamento, resíduos de laboratórios de análises clínicas, resíduos de unidades de tratamento ambulatorial, resíduos de sanitários de unidade de internação e de enfermaria, objetos perfurantes e cortantes, capazes de causar punctura ou corte, tais como lâminas de barbear, bisturis, agulhas, escalpes, vidros quebrados, provenientes de estabelecimentos prestadores de serviços de saúde. • Grupo B: resíduos de natureza química como drogas quimioterápicas e produtos por elas contaminados, resíduos farmacêuticos como medicamentos vencidos, contaminados, interditados, ou não utilizados, e demais produtos considerados perigosos, tóxicos, corrosivos, inflamáveis e/ou reativos. • Grupo C: rejeitos ou materiais radioativos ou contaminados com radionuclídeos, provenientes de laboratórios de análises clínicas, serviços de medicina nuclear e radioterapia, segundo Resolução da Comissão Nacional de Energia Nuclear CNEN 6.05 de 1985.(7) • Grupo D: são todos os resíduos que não se enquadram nos grupos descritos anteriormente, também, denominados de resíduos comuns. Cabe ressaltar que a utilização de um sistema de classificação de resíduos possibilita qualificar a geração de resíduos de uma determinada área ou instituição e, conseqüentemente, planejar o seu gerenciamento, assim como, esboçar uma avaliação dos possíveis riscos à saúde humana e ambiental e propor medidas de prevenção e controle.(8) Segundo Filho, para avaliar o gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde de uma unidade é necessário estabelecer a natureza ou composição desse resíduo. Sem dúvida, a classificação do resíduo é variável e depende do estabelecimento que o produz.(9) Resíduos de saúde gerados em um Centro de Terapia Intensiva: apontamentos de uma realidade É importante a especificidade do local em estudo que presta assistência de alta complexidade a pacientes críticos, realiza uma variedade de procedimentos, predominantemente invasivos, e conseqüentemente, acarreta a produção de diferentes resíduos em termos quanti-qualitativos. Sendo assim, os resíduos nesta unidade, foram classificados, como do tipo A (infectantes) em maior escala, B (químico) e D (comum). Vale ressaltar que a elevada execução de procedimentos invasivos coloca o CTI como gerador em alta escala de resíduos do grupo A, o que predispõe a risco, especialmente, biológico. Os resíduos do grupo A observados no CTI foram: luvas de procedimento, gases, esparadrapos, bolsas de hemoderivados, frascos coletores de secreção, filtros e linhas de sangue de hemodiálise, frascos de soro, equipos, sondas descartáveis, cânulas para entubação endotraqueal e traqueostomia, drenos de tórax, cateteres de Swangans, de duplo-lúmen, perfusores e dômus de PAM, fios agulhados, agulhas de mandril para cateter de teflon, seringas, agulhas, lâminas de bisturi, frascos de medicações, restos de soros e de medicamentos contaminados com fluidos corporais e restos de tecidos orgânicos. Com relação aos resíduos gerados foram classificados como do grupo B: glutaraldeído, hipoclorito de sódio, ácido acético a 5%, e restos de medicamentos. Ainda no grupo B, têm-se em menor escala, pilhas e fragmentos de termômetro de vidro com mercúrio. Nesta unidade não houve a geração de resíduos do grupo C (radioativos). Quanto aos resíduos do grupo D foram observados: copos descartáveis, restos de alimentos, papel toalha, máscaras, gorros, embalagens plásticas, papel impresso, caixas de papelão, frascos de dietas, frascos vazios de plástico de desinfetantes e anti-sépticos. Na unidade, em estudo, foi constatado que os resíduos do grupo D são muitas vezes acondicionados como resíduos do grupo A, fato este que aumentou o volume dos resíduos que devem ser submetidos a tratamento específico, onerando a instituição. O acondicionamento é a embalagem de resíduos, ato contínuo a sua geração, em recipientes tais que não possibilitem rupturas e vazamentos. Emprega-se saco plástico, segundo normas da ABNT(2,8,9,10 e11) observando-se: • resíduos infectantes exceto os perfurocortantes é preconizado o uso de sacos brancos leitosos; que devem ser preenchidos somente a 2/3 de sua capacidade; promover a amarradura da boca do saco com pelo menos dois nós; uso de sacos duplos ou mesmo triplos para resíduos densos (restos de alimentos, peças anatômicas, animais, etc.) igualmente preenchidos a 2/3, com vistas a impossibilitar vazamento por rupturas. As lixeiras de resíduos infectantes ou de áreas críticas deverão ser higienizadas uma vez por dia, e as demais sempre que apresentarem sujidade visível ou semanalmente. Em geral, é importante ressaltar que o tratamento adequado dos resíduos infectantes deve garantir a eliminação das características de periculosidade de maneira a assegurar a saúde ocupacional, preservar os padrões de qualidade ambiental e de saúde pública.(12) • resíduos perfurocortantes deve ser utilizada uma pré-embalagem em recipiente rígido, resistente a rupturas, a vazamentos, com sistema de fechamento que permita vedação, identificado com a simbologia de substância infectante. Há de se atentar que os resíduos PC podem provocar acidentes e aumentar o risco ocupacional de contaminação por agentes infecciosos veiculados pelo sangue, como o vírus da hepatite B, C e da AIDS.(12, 13, 14,15) No CTI os materiais PC são acondicionados em caixas rígidas, próprias para o descarte, próximas ao local de geração, excedendo por algumas vezes o limite máxi- REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 133-139, abr/jun, 2005 n 135 Gerenciamento de Resíduos de... mo de sua capacidade. As caixas de PC após o fechamento são lacradas com fita adesiva e encaminhadas para descarte sem o acondicionamento em saco plástico branco leitoso de acordo com as recomendações da ABNT.(10) • resíduos químicos requerem embalagens compatíveis com capacidade do resíduo a ser desprezado. Temse como indispensável a rotulagem referenciando: nome, simbologia (inclusive a de risco), volume e data. A adoção de programas de reaproveitamento é aconselhável. Para produtos classificados como químicos perigosos de acordo com normas da ABNT de 1986, é recomendado seguir a determinação específica junto à do órgão competente de controle ambiental.(8) Em síntese, a prática de descarte de substâncias químicas, soluções contaminadas com matéria orgânica na rede de esgoto é questionável e vem suscitando estudos considerando escassez de evidências científicas que forneçam aos profissionais subsídios para a tomada de decisão sobre qual é a conduta mais adequada. Resíduos químicos como o glutaraldeído devem ser armazenados em recipiente de plástico rígido, identificados e encaminhados para incineração em indústria química com licenciamento ambiental para essa prática, sendo este fato justificado pelo tratamento de esgoto municipal, onde o hospital está inserido. Os fluidos orgânicos dos pacientes e os produtos químicos com ação desinfetante são desprezados nos vasos sanitários da unidade ou em pias, sem tratamento prévio. Os demais resíduos infectantes são acondicionados em sacos plásticos brancos leitosos, em lixeiras de plástico branco resistentes, com pedal e tampa de metal, de acordo com a legislação vigente. E a coleta e o transporte dos RSS na unidade investigada estão de acordo com os dispositivos legais? Sabe-se que a coleta compreende a retirada dos sacos contendo resíduos, desde o ponto de geração até o armazenamento, por meio de veículos adequados e exclusivos para este fim. Geralmente, desenvolve-se em duas etapas: • Coleta interna I (do ponto de geração até a sala de armazenamento) é realizada manualmente ou pelo carro de coleta; • Coleta interna II (da sala de armazenamento até o abrigo de coleta externa); a transferência de resíduos para o abrigo é feita por meio do carro de coleta interna II. São condições gerais de coleta e transporte interno: atentar para manter fluxos exclusivos ou pré-estabelecidos (constância de horário, sentido único e fixo) evitando, assim, cruzamento com pessoas (pacientes, visitas, entre outras), com artigos (roupas limpas, alimentos, medicamentos, etc); ser realizada por equipe própria do serviço, devidamente treinada e paramentada com o EPI de acordo os dispositivos legais preconizados pelo Ministério da Saúde. A ABNT recomenda no manuseio dos RSS uso de EPI (máscara, avental, luvas de borracha, e sapato de couro fechado ou bota).(11, 17) Os carros de coleta necessitam ser de uso exclusivo para este fim; sua capacidade de carga deve ser compatível com o volume a ser transportado e com o esforço ergométrico a ser desempenhado; devem ser constituí- 136 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 133-139, abr/jun, 2005 dos de material liso, resistente, lavável, impermeável, sem cantos vivos, com pontos laterais abrindo para fora, rodas giratórias e identificação de substância infectante, seguindo as normas da ABNT.(11) Na unidade em estudo, a coleta interna I é realizada três vezes por dia por funcionários do serviço de limpeza. Durante essa coleta foi observado uso de luvas e botas de borracha, além de máscaras quando da ocorrência de odor fétido ou no transporte de resíduos provenientes de isolamentos. Os resíduos do grupo A e D são retirados da unidade e depositados dentro do carro de transporte, que permanece no abrigo temporário. Esses carros são de aço inoxidável, possuem tampa, entretanto, sem cantos arredondados. Cabe explicar que após o transporte interno dos resíduos do grupo D é realizado o transporte dos resíduos do grupo A, todavia, no mesmo carro, que é submetido à desinfecção. As caixas de PC são colocadas no piso do abrigo sem estarem acondicionadas em embalagem de plástico branco leitoso com símbolo de resíduos infectantes. Os resíduos são encaminhados para o abrigo externo, onde são armazenados. A coleta externa dos resíduos do grupo A é realizada por caminhão especial do Município que transporta os resíduos ao aterro sanitário onde são submetidos ao tratamento por microondas antes do destino final. Vale ressaltar que o Município conta com tratamento de esgoto, viabilizando o descarte de matéria orgânica na rede. Durante a coleta externa dos resíduos, os coletores lançam os sacos com resíduos do grupo A e as caixas de PC na calçada para, posteriormente, alocar no fundo do compartimento do caminhão. As caixas de PC são colocadas organizadamente dentro do caminhão, porém, são manipuladas sem muito cuidado pelos coletores. Antes da coleta observou-se que no caminhão já havia resíduos do grupo A derramados no piso do compartimento, como: equipos, seringas, papel toalha e gazes; além de derramamento visível dos sacos que permanecem na calçada e no asfalto após a coleta. Foi observado que o motorista do caminhão auxilia na coleta. Os EPI utilizados pelos coletores são: botas de borracha, luvas de borracha de cano curto e vestimentas de tecido não impermeável. A maioria dos sacos é de 90 litros com preenchimento de 2/3 conforme recomendação das normas regulamentadoras.(11) Os sacos de resíduos do grupo A são colocados dentro dos carros de transporte, enquanto os do grupo D, caixas de perfurocortantes e material reciclável são colocados sobre o carro, causando contaminação dos resíduos comuns. O elevador que encaminha os resíduos para o abrigo externo transporta junto com os carros de resíduos, pacientes, funcionários e materiais limpos. Após a coleta observou-se a entrada de vetores no abrigo externo além de odor extremamente forte. Após a coleta externa, um auxiliar de serviços promove a limpeza e desinfecção do abrigo com água e sabão, e posteriormente, com hipoclorito de sódio. A desinfecção das lixeiras e dos carros de transporte não ocorre de maneira planejada, inexistindo protocolo para estes procedimentos na instituição. As normas técnicas preconizadas pela ABNT exigem que o abrigo externo para resíduos do grupo A seja constituído de alvenaria, fechado e com cobertura, apresentando abertura para ventilação com telas milimétricas para impedir o acesso de vetores. As paredes internas, o piso e o teto sejam revestidos de materiais lisos, laváveis, resistentes, impermeáveis, não corrosíveis e de cor clara para salientar as sujidades. Apresente ralo para escoamento da água e ponto de água para lavagem e desinfecção e possua iluminação. As dimensões sejam suficientes para abrigar resíduos produzidos durante dois dias; o acesso se restrinja somente aos funcionários da limpeza e da coleta externa.(17) Durante as observações verificou-se que após os finais de semana o abrigo de resíduos do grupo A estava completamente lotado, sem condições de abertura da porta para coleta externa, uma vez que a coleta externa não é realizada aos domingos. As salas de resíduos deverão atender às recomendações da ABNT: área mínima de 4m2, prevendo espaço suficiente para entrada dos carros de coleta; pisos e paredes revestidos com material liso, resistente, lavável e impermeável; ralo sifonado ligado à rede de esgoto; abertura com tela para ventilação ou ventilação mecânica que proporcione pressão negativa; lavatório e torneira de lavagem; ponto de iluminação; prever áreas distintas para resíduos de classes diferentes, quando for o caso; prever espaço suficiente para as necessidades da unidade. Uma mesma sala de resíduos pode atender duas ou mais unidades, desde que tenha capacidade para abrigar a produção diária ou semanal.(11,12 17,18.) Ainda, nas recomendações acima é mencionado que o abrigo de resíduos sólidos deve ter porta com abertura para fora, dotada de proteção inferior, dificultando o acesso de vetores; ter iluminação artificial interna e externa; ter localização que permita facilidade de acesso e operação das coletas interna e externa; possuir símbolo de identificação, em local de fácil visualização, de acordo com a natureza do resíduo. Possuir uma área de higienização para carros de coleta interna e demais equipamentos utilizados, dotada de cobertura, iluminação, ponto de água, piso impermeável e ralo sifonado ligado à rede de esgoto sanitário. A instituição apresenta estas áreas de acordo com as normas. O hospital conta com três abrigos distintos, sendo um para resíduos do Grupo A e dois abrigos para resíduos comuns, um deles para recicláveis. GERENCIAMENTO DE RSS: BREVES REFLEXÕES Considerando a realidade descrita em relação ao fluxograma de RSS (representado na Fig.1) é possível evidenciar a variabilidade de resíduos gerados e de seu fluxo até o destino final, algumas vezes, em dissonância com as recomendações da literatura e os dispositivos legais. A segregação dos resíduos deve ser estabelecida com base no tipo de resíduo conforme preconizado pela disposição legal da ABNT de 1993, sendo considerado um requisito básico, essencial para qualidade do serviço de higiene e do gerenciamento dos resíduos nos serviços de saúde.(17) Segundo Filho, o objetivo principal da segregação não é simplesmente reduzir a quantidade de resíduos infectantes a qualquer custo, mas acima de tudo criar uma cultura organizacional de segurança e de não-desperdício. A forma ideal de introduzi-la é estabelecer um programa de redução de resíduos perigosos, que preveja a implantação gradual da segregação, com envolvimento dos setores de treinamento em serviço, de acordo com cada instituição. Um programa de segregação deve ser avaliado pela sua constância e confiabilidade, seus reflexos nos índices de acidentes e nos custos globais e benefícios para o meio ambiente. Além disso, é fator de redução de custos, permitindo o emprego mais racional dos recursos financeiros destinados ao gerenciamento de resíduos.(9) Vale ressaltar as vantagens da aplicação do PGRSS considerando que permitirá a redução de riscos ambientais, do número de acidentes de trabalho, dos custos, do incremento da reciclagem e do volume de resíduos gerados. É premente a fiscalização dos órgãos competentes de maneira educativa imbuída num processo contínuo e permanente de apoio no sentido de auxiliar a implementação do Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS). Alertam para a necessidade de uma pluralidade de ações estruturadas nas diversas áreas do conhecimento isto é, na multidisciplinaridade, bem como, na aplicação crítica da Resolução nacional vigente. Verifica-se a necessidade de transporte em horários fixos para evitar o cruzamento com pacientes, familiar e profissional e que nesses horários em caso do uso de elevadores esteja disponível um ascensorista para evitar contaminação do ambiente pelas luvas dos funcionários que transportam os RSS.(18) Contudo, neste período marcado pelo imensurável desenvolvimento científico e tecnológico ainda há questionamentos sem respostas e controvérsias, o que nos aponta a necessidade da ampliar as discussões sobre a implementação de novas tecnologias considerando a dimensão humana e ambiental. Diante disso é procedente mencionar que em termos de controvérsias basta comparar os dispositivos legais do CONAMA (2001) com os preconizados pela ANVISA (2002). Urge, assim, a necessidade de profissionais críticos e não meros cumpridores de rotinas e acima de tudo com capacidade de discernir o que de fato pode ser transposto para a sua prática profissional. Acresce-se a importância de se atentar para o cumprimento dos princípios técnicos e das normas de segurança com vistas a manter o ambiente biologicamente seguro. Neste contexto, o valor das atividades educativas e do treinamento periódico se constitui na linha mestra para a formação de profissionais, críticos e conscientes do seu papel na prevenção e controle das complicações. Sendo assim, devem ser cada vez mais intensificadas as atividades educativas que promovam a reflexão, atualização e a mudança de comportamento em favor da qualidade do cuidado à saúde. Considerando o exposto um outro questionamento nos parece sensato para futuras reflexões: Você profissional: o que sabe e o que tem feito em prol do gerenciamento de resíduos em seu ambiente de trabalho? REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 133-139, abr/jun, 2005 n 137 Gerenciamento de Resíduos de... GERENCIAMENTO DE RSS: BREVES REFLEXÕES Fig.1: Fluxograma de Resíduos de Serviços de Saúde de um Centro de Terapia Intensiva 138 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 133-139, abr/jun, 2005 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1- Instituto de Pesquisas Tecnológicas– IPT. Lixo Municipal: manual de gerenciamento integrado Compromisso empresarial para reciclagem – São Paulo (SP): CEMPRE. 221; 1995. 2- Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Define os procedimentos mínimos para o gerenciamento de resíduos sólidos provenientes de serviços de saúde, portos e aeroportos. Resolução nº 5 de 05 de agosto de 1993. Diário Oficial da União, Brasília (DF); 31 agosto 1993. Seção 1. 3- Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). NBR 12807. Resíduos de Serviços de Saúde: terminologia. Rio de Janeiro (RJ); 1993. 4- Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Resolução nº 283, 12 de julho de 2001. Dispõe sobre o tratamento e a destinação final dos resíduos dos serviços de saúde. Diário oficial da República Federativa do Brasil, Brasília (DF), 1 out. 2001. 5- Brasil, Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Conselho Nacional de Saúde, Resolução no 196/ 96 de 10 de outubro de 1996. 6- Silva MFI. Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde no Centro Cirúrgico, Central de Material e Centro de Recuperação Anestésica de um Hospital do Interior Paulista [Tese]. Ribeirão Preto, São Paulo: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto / USP; 2004; 98 págs. 7- Comissão Nacional de Energia Nuclear. Resolução CNEN-NE 6.05. Gerência de rejeitos radioativos em instalações radioativas. Diário Nacional da União, Brasília (BR); 1985. 8- Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). NBR 10004. Resíduos sólidos, classificação. São Paulo (SP); 1986. 9- Filho VOR. Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde. In: Fernandes AT, Fernandes MOV, Filho NR. 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PERCEPÇÃO DOS ALUNOS DE GRADUAÇÃO SOBRE A DISCIPLINA DE ADMINISTRAÇAO APLICADA À ENFERMAGEM NURSING STUDENTS PERCEPTION OF THE SUBJECT MANAGEMENT APPLIED TO NURSING SENSACIÓN DE LOS ALUMNOS DEL CURSO DE ENFERMERÍA DE LA MATERIA ADMINISTRACIÓN APLICADA A ENFERMERÍA Mariza Borges Brito de Souza1 Sílvia Helena Zem-Mascarenhas2 Elyrose Sousa Brito Rocha3 RESUMO Este estudo teve como objetivos verificar as percepções dos alunos quanto à disciplina Administração Aplicada à Enfermagem no que tange aos conteúdos abordados, estratégias de ensino utilizadas, desempenho do professor e contribuições em nível pessoal e formação profissional. Trata-se de um estudo exploratório-descritivo a partir da perspectiva da abordagem qualitativa. As avaliações dos alunos revelaram que seguíamos uma trajetória adequada na disciplina, contudo acreditamos que ainda há um longo caminho a percorrer para que possamos estruturar um programa mais adequado, com vistas a atender a complexidade da prática profissional sempre em evolução. Palavras-chave: Educação em Enfermagem; Estudantes de Enfermagem; Organização e Administração. ABSTRACT The purpose of this study was to verify the perception of the students of the subject Management Applied to Nursing, as to the content, teaching method, teacher performance and what is learned as a person and as a professional. It is an exploratory-descriptive study from a qualitative approach. The evaluation by the students showed that we were on the right path in the subject. However, we believe there is still a long way to go for us to be able to structure a more adequate program, in order to attend to the complexity of professional practice which is constantly changing. Key words: Education in Nursing; Nursing students; Organization and Administration RESUMEN La finalidad de este estudio fue observar la sensación de los alumnos de la materia Administración aplicada a enfermería ante los contenidos, estrategias de enseñanza, desempeño del profesor, contribución personal y formación profesional. Se trata de un estudio exploratorio descriptivo desde el enfoque cualitativo. Las evaluaciones de los alumnos indicaron que la materia está siguiendo el camino adecuado; sin embargo, consideramos que hay mucho por hacer para poder estructurar un programa que atienda correctamente la complejidad de la práctica profesional, siempre en evolución. Palabras clave: educación en enfermería; estudiantes de enfermería; organización y administración 1 2 3 Enfermeira. Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos, Doutora em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto-USP. Enfermeira. Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos, Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-USP. Enfermeira. Professora Substituta do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos, Mestranda na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-USP. Endereço para correspondência: RodoviaWashington Luís (SP-310) - km 235, São Carlos, SP - CEP 13.565-905 – E-mail: [email protected] 140 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 140-146, abr/jun, 2005 INTRODUÇÃO Inicialmente o objeto da administração era a atividade fabril, depois se estendeu às empresas industriais e, mais tarde, a todo tipo de organização humana, passando gradativamente a envolver o intercâmbio entre as organizações e seus ambientes. Ao longo da história, as teorias administrativas procuraram privilegiar, cada qual a seu tempo, somente uma variável entre as cinco seguintes: tarefa, estrutura, pessoas, ambiente e tecnologia, omitindo as demais.(1) A administração na sociedade moderna tornou-se vital e indispensável à sobrevivência e sucesso das organizações e, na área da saúde, a complexidade e a interdependência das instituições são aspectos cruciais. Nesse sentido a administração avulta como um fator chave, tanto para a melhoria da qualidade dos serviços como para a solução de problemas cada vez mais complexos que afligem a humanidade. A palavra administração vem do latim ad (direção para, tendência para) e minister (subordinação ou obediência) e significa que uma pessoa realiza um serviço, subordinada a outra. Vemos em nossa prática que esse significado sofreu grandes transformações até nossa época. Administrar implica entender quais os objetivos propostos por uma instituição e colocá-los em ação através do planejamento, da organização, da direção e do controle a fim de alcançá-los da maneira mais adequada.(1) A função administrativa do enfermeiro, com seus significados essenciais fundamentados na sensibilidade, postura, respeito, compreensão, flexibilidade e na competência, é importante, necessária e benéfica para as organizações de saúde, ao serviço de enfermagem e, principalmente, para o cliente. As mudanças ocorridas no mundo e que se refletem nas relações humanas, no âmbito econômico, político, social e cultural, interferem profundamente no viver dos indivíduos e, conseqüentemente, nas questões educacionais inseridas neste contexto.(2) O momento é de reflexão sobre as práticas educacionais, indagando-se como, por quê, para quê e a quem educar? Neste panorama de rápidas transformações da sociedade, do conhecimento e da educação somos impulsionados a repensar a educação e a capacitação dos alunos de enfermagem do último semestre do curso. Em nossa experiência como docentes da disciplina de Administração, muito nos inquietam as múltiplas variáveis do processo educativo que afetam o aluno: o interesse, a atitude, a forma de pensar e agir, a postura, os valores, o entendimento e as expectativas que ele atribui à disciplina. No mundo atual o professor precisa estar apto a explorar e buscar meios para atualização contínua do processo ensino-aprendizagem. Neste estudo procuramos entender as percepções dos graduandos do curso de enfermagem acerca da disciplina Administração Aplicada à Enfermagem por meio de avaliações realizadas durante os anos de 1999 a 2003. Essas avaliações tiveram como proposta realizar um panorama da disciplina por meio de observações freqüentes e comentários dos alunos sobre o próprio desempenho bem como o desenvolvimento da disciplina. Assim, a avaliação torna-se um processo dinâmico e participativo, positivo tanto para o aluno, como para o professor e, conseqüentemente, para a disciplina. A disciplina Administração Aplicada à Enfermagem é oferecida no oitavo semestre do curso de enfermagem da Universidade Federal de São Carlos, tendo como objetivo geral que o aluno seja capaz de planejar, executar e avaliar a assistência de enfermagem, incluindo o gerenciamento da unidade. Como objetivos específicos encontramos: desenvolver atividades de gerenciamento em uma Unidade de Internação Hospitalar e nas Unidades Básicas de Saúde; caracterizar a unidade de saúde, identificar problemas que possam afetar a assistência de enfermagem ao paciente e propor soluções para os mesmos. As estratégias de ensino utilizadas na disciplina compreendem exposições dialogadas interativas, seminários e discussões em grupos, leitura e resenhas de textos sobre os temas que estão sendo discutidos, dinâmicas de grupo e atividades de ensino clínico em Unidades de Internação Hospitalar e Unidades Básicas de Saúde. Cabe ressaltar que acreditamos que o ensino da Administração Aplicada à Enfermagem deva estar voltado para a capacitação pautada na reflexão crítica sobre o papel que o profissional de enfermagem deve desempenhar. Para tanto, é imprescindível que a formação dos futuros enfermeiros possa abranger as habilidades necessárias ao gerenciamento de forma a atender as demandas emergentes nos diferentes cenários de atuação desse profissional. Consideramos que esta educação deve concretizar-se pelo diálogo, onde o aluno é sujeito proativo que indaga, observa, opina e participa frente às políticas de ensino e de saúde do país. Com o intuito de contribuir para melhor adequação da disciplina de Administração nos cursos de graduação em enfermagem este estudo teve por objetivos verificar as percepções dos alunos de graduação quanto à avaliação da disciplina Administração Aplicada à Enfermagem no que tange aos conteúdos abordados, estratégias de ensino utilizadas e desempenho do professor e, também, desvelar as percepções desses alunos relativas às contribuições da disciplina em nível pessoal e de formação profissional. METODOLOGIA Trata-se de uma pesquisa exploratória-descritiva a partir da perspectiva da abordagem qualitativa, visto que visamos descrever e explorar fenômenos para gerar novos conhecimentos. Para a coleta de dados foi utilizado um questionário contendo questões abertas. Foram elaboradas questões relativas à importância dos conteúdos abordados na disciplina e estratégias de ensino utilizadas, bem como contribuições do curso em nível pessoal e de formação profissional. O instrumento não continha campos de identificação, considerando que dessa forma o aluno poderia se expressar com mais liberdade, garantindo-se o anonimato dos participantes. Cabe ressaltar, ainda, que esta atividade de avaliação já estava prevista no programa da disciplina apresentado aos alunos no início da mesma, mas, no momento da aplicação REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 140-146, abr/jun, 2005 n 141 Percepção dos Alunos de... do instrumento, os alunos tinham a opção de responder ou não às questões apresentadas. Posteriormente as informações dos questionários foram digitadas e armazenadas em banco de dados, para facilitar a organização e a análise dos mesmos. Os dados foram sistematizados utilizando-se a técnica de análise de conteúdo, conforme descrita por Bardin.(3) A análise de conteúdo constitui um conjunto de instrumentos metodológicos que se aplica a discursos diversificados. A investigação dos temas ou análise temática foi o tipo de categorização adotado por ser rápido e eficaz na aplicação a discursos diretos e simples.(3) "Fazer uma análise temática consiste em descobrir os núcleos de sentidos que compõem a comunicação e cuja presença ou freqüência de aparição podem significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido".(3) Tal análise é representada pelos conteúdos dos discursos escritos pelos alunos favorecendo a visão compreensiva dos mesmos a partir do recorte teórico da disciplina. As avaliações foram lidas e analisadas na perspectiva do enfoque qualitativo, o qual está baseado no princípio que para se conhecer os indivíduos é preciso descrever a experiência humana como ela é vivida e como ela é definida por seus próprios atores. De acordo com os propósitos que orientam a pesquisa qualitativa, as fases de coleta e análise de conteúdos pouco estruturados e narrativos, proporcionam possibilidades de aproximação ao potencial das percepções e subjetividades dos indivíduos.(4) Para análise dos dados, as informações foram organizadas utilizado-se três pólos cronológicos previstos pela análise de conteúdo: a pré-análise (organização do material); a exploração do material (operação de codificação, classificação e categorização) e o tratamento dos resultados, inferência e interpretação (estabelecimento de relações por meio de reflexão e intuição).(3) RESULTADOS E DISCUSSÃO A população do estudo constituiu-se de 76 alunos que responderam aos questionários ao final da disciplina Administração Aplicada à Enfermagem, compreendendo cinco turmas distribuídas no período de 1999 a 2003. Buscamos, pelos depoimentos dos alunos, compreender quais as percepções que os mesmos apresentavam na conclusão da disciplina Administração Aplicada à Enfermagem, no último semestre da graduação, no que tange aos conteúdos abordados, estratégias de ensino utilizadas, relacionamento com o professor e das contribuições da disciplina em nível pessoal e de formação profissional. Inicialmente foi realizada a preparação formal do material, ou seja, a edição do texto dos questionários. Após várias leituras do conteúdo dos questionários pudemos extrair as unidades temáticas e identificar três categorias: considerando as estratégias de apresentação do conteúdo, contribuindo para o crescimento pessoal e refletindo sobre a prática profissional, conforme apresentadas a seguir. 142 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 140-146, abr/jun, 2005 Considerando as estratégias de apresentação do conteúdo Essa categoria incluiu as seguintes unidades temáticas: dinâmica e reflexão no planejamento e execução das aulas, seleção e organização do conteúdo, assessoria extraclasse e interação professor-aluno. Consideramos que a educação nos tempos atuais deve estar focada na reestruturação de conhecimentos e habilidades aprendidos e no desenvolvimento de novos conhecimentos, sempre primando pela interação professoraluno, e não mais em objetivos que evidenciem basicamente a aquisição de conhecimentos. Para que isso ocorra é preciso que a educação possa, de acordo com a realidade dos educandos, expressar reflexões críticas, curiosidade científica, criatividade e investigação tendo, o professor, responsabilidades no sentido de articular métodos de ensino que estimulem a motivação dos alunos.(5) Os relatos dos alunos, quando questionados a respeito do planejamento e execução das aulas, evidenciaram que o ensino propiciou reflexão constante e dinâmica, o que implica atribuir-lhe vida, pensá-lo e executá-lo por novas perspectivas e formas: "...as aulas foram dinâmicas e a forma de conduzi-las foi sempre muito atraente". "... as aulas foram dinâmicas, participativas, dialogadas e reflexivas, facilitando sempre a compreensão e o aprendizado." "As dinâmicas de grupo contribuíram muito para a fixação do conteúdo." "Gostei muito da forma de exposição das aulas, pois facilita a visualização e a compreensão do conteúdo." "... pude captar e refletir muito sobre o conteúdo." "Houve planejamento das aulas que sempre tinham discussões e nos faziam refletir." Os alunos referem que em relação à seleção e organização do conteúdo ficou claro o reconhecimento da dimensão da disciplina Administração Aplicada à Enfermagem em suas formações, bem como a importância que lhe foi atribuída por oferecer segurança e atitudes reflexivas a respeito de suas futuras profissões. Extremamente adequado para enfermeiras prestes a sair da Universidade, contribuindo para melhor formação e atualização de todas". "Todo o conteúdo da disciplina foi primordial para o nosso aprendizado. Tudo muito atualizado nos fez ver e vivenciar a realidade em que está inserida a nossa profissão, e a questionar o verdadeiro papel da enfermeira, além de analisar o quanto ela é essencial para o desenvolvimento de uma assistência de qualidade". "O conteúdo trabalhado é essencial para nossa formação." Outro aspecto importante encontrado nos relatos foi que apesar de considerarem que a organização do conteúdo foi adequada, apontaram que a carga horária da disciplina (150 horas/aula) deveria ser mais extensa ou distribuída em dois semestres, revelando a necessidade de mudanças no curso de graduação em Enfermagem no que tange à grade curricular. "O conteúdo foi selecionado realmente de acordo com o que precisávamos e foi bem distribuído ao longo do pouco tempo." " Abrangeu o mais importante, embora o tempo fosse pouco, acredito que a disciplina deveria ser dada ao longo de dois semestres." "O conteúdo das aulas foi muito bom. Acredito que houve muito desempenho dos professores para escolher o que seria mais importante, já que a carga horária é muito pequena." Os conteúdos abordados na disciplina relativos às questões de liderança, escala de folgas e dimensionamento de pessoal foram referidos como suficientes. Entretanto, os alunos consideraram que tais conteúdos os necessitariam de uma abordagem mais ampla por julgarem essas habilidades mais difíceis de serem desenvolvidas na prática da enfermagem. "... achei que alguns temas mereceriam um tempo maior de aula, como liderança e escala de funcionários". "...deveria haver mais tempo para as aulas sobre escala e dimensionamento de pessoal serem melhor trabalhadas". Outro aspecto mencionado nas falas dos alunos sobre o apoio do professor além do horário das aulas, foi a importância desses momentos para o esclarecimento de dúvidas, análise, revisão e aprofundamento de seus conhecimentos através da comunicação e disponibilidade do docente em recebê-los. Consideramos como função do educador conduzir o aluno para que o mesmo possa descobrir e praticar os valores por meio dos quais a educação ganha sentido, o que se concretiza por meio do processo ensino-aprendizagem. De forma geral, este ensino refere-se à interação professor-aluno que deve ter como produto final a aprendizagem,(6) sendo que as atividades para esse fim podem ocorrer além dos limites do ambiente da sala de aula. Essa sempre foi a nossa proposta, como docentes da disciplina em questão, por compreendermos que os alunos vivenciam nesse período final do curso momentos de ansiedade e de necessidade de apreender a maior gama de conteúdos possível. Os alunos afirmaram, em seus discursos, a necessidade e importância de encontrar o professor também fora do ambiente de sala de aula. "... sempre foi deixado claro a questão da comunicação, e que dúvidas poderiam (e deveriam) ser esclarecidas." "... a disponibilidade de cada professora foi muito importante para meu crescimento. Sempre que precisei, eles estavam me ajudando." "... tivemos muito apoio, isso é muito importante, pois reduz o grau de ansiedade frente ao desconhecido." "Os professores sempre eram bastante acessíveis e disponíveis em momento que procurávamos por eles fora da sala de aula ou fora de estágio." O processo ensino-aprendizagem é tema freqüente de discussões e reflexões por parte dos educadores. Importante torna-se a compreensão que esse processo não pode mais ser visto como a simples transmissão do conhecimento e que ensinar é um ato de comunicação, de compartilhar conhecimentos, idéias, sentimentos, crenças e valores de uma comunidade.(7) Para que o processo ensino-aprendizado seja efetivo alguns saberes e competências são necessários(5-8). Entre eles, encontra-se que a interação professor-aluno deve enfatizar os objetivos educacionais propostos, ser co-responsável pelo aprendizado, e ser uma forma de relacionamento do tipo parceria, de diálogo e respeito. Esses aspectos propiciam aos alunos e professores expressarem suas experiências, interesses e conhecimentos, tornando a relação professor-aluno mais horizontal.(8) "A interação foi positiva, devido às trocas de conhecimentos e experiências entre docentes e alunas." "...todos tiveram oportunidade de colocarem seus pontos de vista, alunos e professores." Consideramos que o professor pode assumir posturas que facilitam ou dificultam a aprendizagem do aluno, ou seja, ao permanecer próximo sem assumir posturas intimidatórias ele facilita a interação, abrindo espaço para que o aluno possa revelar seus sentimentos e suas expectativas. Dificulta quando fica distante e não percebe a realidade do aluno.(9) "Devo destacar que muitas vezes a postura do professor inibia a classe, o que prejudicou um pouco a interação aluno-professor, porém as situações foram amenizadas com as dinâmicas de interação etc." "A interação com a classe foi regular, porque muitas vezes o aluno tentava colocar a sua opinião, mas era inibido." "Sinto que isto foi tentado bastante, mas a interação seria melhor se o professor, em certos momentos não nos fizesse pensar que somos muito imaturos e tão despreparados para enfrentar o mercado de trabalho. Às vezes ele nem quis dizer isto durante o curso, mas esta foi a impressão que tive o curso todo: só no final que fiquei mais tranqüila." Estes relatos, como os acima citados, mostraram que alguns alunos perceberam a relação com o professor como sendo distante e, algumas vezes, inibindo suas atitudes e formas de expressão. Entretanto, para a maioria, a interação professor-aluno, bem como as interações entre os próprios alunos ocorreram de forma positiva, propiciando um ambiente de trocas, respeito e de desenvolvimento. Pelos depoimentos dos alunos podemos perceber o quanto são importante as relações entre professor e aluno e como a comunicação pode ser facilitadora ou não na busca do ensino-aprendizado. "A todo momento se buscou essa interação e isso foi muito bom." "Muito boa, fomos tratadas como colegas e não como aluno/professor." "Nunca tive problemas de interação e como a classe, de um modo geral, é muito unido, considero ótima a interação que houve entre professores e alunos." "Todos estávamos sempre interagindo, participando, discutindo, rindo e aprendendo." "...as professoras se mantiveram sempre abertas aos REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 140-146, abr/jun, 2005 n 143 Percepção dos Alunos de... questionamentos, sendo flexíveis na resolução dos problemas." "Creio que foi criado um vinculo entre eu e vocês." Contribuindo para o crescimento pessoal Essa categoria incluiu temáticas referentes à aquisição de novos conhecimentos, ao crescimento e amadurecimento pessoal, relacionamento interpessoal e melhora no desempenho. Os relatos dos alunos permitiram identificar uma ênfase nos aspectos relacionados a essas temáticas, talvez devido ao fato de terem experimentado, durante as aulas teóricas, dinâmicas diferentes daquelas até então desenvolvidas em outras disciplinas, e por assumirem responsabilidades durante o ensino clínico que até então não haviam vivenciado. "A disciplina me possibilitou deixar de lado a minha timidez e me mostrou o meu lugar no mundo, e que eu faço muita diferença." "Cresci como pessoa, me identifiquei com os discursos proferidos e pretendo seguir os conselhos não só na vida profissional, mas em todos os tipos de relacionamentos, como o profissional, a disciplina permitiu um grande progresso." "Um crescimento como pessoa e principalmente como ser humano. Mudei conceitos, destruí preconceitos." É interessante observar que para os alunos as suas percepções a respeito do relacionamento com as pessoas, tanto com o próprio grupo de convívio, como com os profissionais de enfermagem durante o período de ensino clínico, foram sendo aperfeiçoadas no decorrer da disciplina tendo como resultado reflexões sobre respeito e valorização das pessoas. "Aprendizagem a respeito de como me comportar e valorizar as demais pessoas". "Possibilidade de refletir e aprender sobre relacionamento pessoal, crescimento com auxilio dos conceitos/valores passado." "... a me relacionar com os membros da equipe de uma forma mais próxima e a repensar sobre meu jeito de ser." "Teve uma grande contribuição pessoal, pois somente através do contato com as pessoas é que podemos crescer." "... sinto-me mais preparada para o convívio em grupo." "O curso enriqueceu pessoalmente, pois tomo outras atitudes no cotidiano em relação às pessoas que convivo em minhas atividades." As características da disciplina, em termos de conteúdo programático e estratégias de apresentação dos mesmos, aliadas ao fato de ser ministrada no último semestre da graduação, propicia uma visão menos fragmentada da assistência de enfermagem, contribuindo para que o aluno perceba a atuação do enfermeiro de forma mais responsável, integral, contínua e organizada. "Neste curso curto e último aprendi o que é a enfermagem e como é grandiosa. Agora como pessoa tenho argumentos para fazer tal afirmação." 144 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 140-146, abr/jun, 2005 "A disciplina me ajudou a enxergar a função da relação entre enfermeira e toda equipe." "Me possibilitou uma visão do ser enfermeira, me fez ter certeza do que quero." "... acredito que a disciplina muito me fez refletir e me cobrar quanto à minha atuação com o ser humano, assim como os princípios da profissão." "Contribuiu muito na prática, pois me mostrou o quanto é complexo administrar, mas quando bem feito, é extremamente satisfatório." Entendemos que o ensino na graduação de enfermagem deva favorecer a aquisição de conhecimentos e propiciar mudanças comportamentais, podendo ser entendido como uma prática social, contribuindo para o desenvolvimento do ser humano na sua integralidade, possibilitando ações transformadoras na construção da cidadania. Consideramos que a prática de enfermagem pressupõe o cuidado, a supervisão e a comunicação, podendo ser entendida como crescimento pessoal.(6) O discurso dos alunos evidencia a preocupação com o crescimento e amadurecimento pessoal, sendo enfatizada a mudança percebida com relação a esses aspectos no decorrer da disciplina. Os alunos consideraram que houve melhora no desempenho pessoal, fato este de grande importância para a futura atuação profissional. "O curso contribuiu totalmente para meu desempenho pessoal... amadureci e sei que hoje consigo lidar com situações que antes não conseguia." "Pessoalmente evolui muito durante esse semestre, acredito que consigo tomar decisões e agir com mais maturidade agora." "A disciplina foi de suma importância para o meu crescimento pessoal. Interiorizei muitas coisas com as professoras em que passei pelo estágio, teve muitas sugestões que foram de grande valia para mim." "Tanto pessoal como profissionalmente, acredito que a disciplina muito me fez refletir e me cobrar quanto à minha atuação com o ser humano, assim como os princípios da profissão." "Esta disciplina contribuiu enormemente em minha formação pessoal, à medida que contribuiu com meu amadurecimento, relacionamento em grupo e conhecimento." REFLETINDO SOBRE A PRÁTICA PROFISSIONAL Nesta categoria emergiram as seguintes unidades temáticas quanto à prática profissional: desenvolvimento de liderança, crescimento profissional, trazendo conhecimentos e informações e entendendo o significado da profissão. Na enfermagem as preocupações com questões relacionadas à liderança remontam de algumas décadas. Pesquisas e estudos na área têm buscado conceituar esse fenômeno e caracterizar as pessoas que se destacam como líderes, identificando as diferentes variáveis que podem intervir nesse processo, como habilidades, estilos comportamentais e aspectos situacionais.(10) Para que a enfermagem tenha melhores resultados na qualidade da assistência ao paciente, a liderança precisa ser um conteúdo constante nos cursos de graduação e pós-graduação, como também na educação continuada das instituições de saúde.(11) Neste sentido a função de liderança exercida pelo enfermeiro se faz primordial por sua contingência e por seu caráter de continuidade, de coordenação e de organização cujo propósito é o cuidado integral, qualificado e sistematizado.(12) Como docentes da disciplina em questão, julgamos importante abordar o desenvolvimento de várias habilidades necessárias à prática da profissão, entre elas os aspectos relacionados aos atributos do líder. Entre os conteúdos abordados, a liderança surge como fator relevante e preocupação evidente na fala dos alunos. "Desenvolvi liderança, postura, respeito com as pessoas, saber ouvir o outro, não temer situações novas, saber promover mudanças." "Além de todo o conteúdo, a professora estimulou nossa liderança, responsabilidade e me mostrou que quem decide somos nós e não o professor por nós. O que temos é que arcar com as conseqüências." "Aprendi a liderar e a me responsabilizar por uma equipe de trabalho." Os relatos apontaram que esta disciplina propiciou um crescimento profissional perceptível aos alunos, talvez porque os mesmos tiveram oportunidades de refletir mais sobre os conteúdos e assumir responsabilidades na prática, ligadas ao desenvolvimento de atividades mais próximas da realidade da profissão. "Contribuiu muito para a minha formação profissional e proporcionou-me a reflexão de várias atitudes que são essenciais à minha formação. A todo momento, aprendemos e refletimos tudo o que está muito próximo do dia-dia da nossa profissão." "Indiscutivelmente decisivo na minha formação profissional, visto que me proporcionou elementos e conhecimentos necessários para um crescimento profissional condizente com a realidade da enfermagem no Brasil e no mundo, oferecendo bagagem para enfrentar o mercado de trabalho." "Essa disciplina mostrou realmente a atuação profissional o qual nunca consegui explicar. Foi o fechamento (agrupamento) de 4 anos." "O curso foi decisivo para meu desenvolvimento profissional". "Com certeza, foi de essencial importância para minha formação. Apresentou vários aspectos que devem ser considerados na prática profissional." Em nossos dias a informação e o conhecimento surgem como aquisições indispensáveis para o exercício do pensamento crítico e das atividades profissionais. Acreditamos que o processo ensino-aprendizagem de enfermagem deva abraçar estes aspectos de forma atual, contínua e coerente, o que implica assumir um compromisso com o futuro profissional que se quer formar. Os depoimentos dos alunos nos indicaram que é inerente à disciplina de Administração Aplicada a Enferma- gem, a aquisição de conhecimentos e informações indispensáveis às suas formações, os quais encontravam-se ocultos até então e que possibilitaram o aperfeiçoamento de suas práticas e saberes. "A formação profissional teve um dimensionamento diferente e enriquecedor, depois da disciplina trouxe conhecimentos e informações que até então eu não tinha ..." "Houve aprendizado em todos os aspectos que envolvem a profissão". "O conteúdo oferecido possibilitou aperfeiçoamento cientifico". "Sem duvida nenhuma, posso dividir claramente minhas ações antes e depois da disciplina." "... a disciplina me fez buscar conhecimentos que não havia tido muito contato." "A disciplina deu melhores e maiores recursos e conhecimentos para meu futuro desempenho profissional." Florence Nightingale(13) definiu a enfermeira como "uma pessoa com a qual se possa contar... deve ser sóbria e honesta e respeitar sua própria vocação porque a vida, a mais preciosa dádiva de Deus, é posta literalmente em suas mãos; deve ser uma observadora minuciosa, fiel, rápida; uma pessoa de sentimentos delicados e recatados". A visão do ser enfermeira expressa no discurso de Florence nos remete à reflexão a respeito de nossas próprias percepções do ser enfermeiro, como docentes, bem como das percepções dos alunos. O cruzamento das informações e conhecimentos, tanto em sala de aula como durante o ensino clínico, possibilitaram uma visão mais profunda do ser enfermeiro, pois nestas situações são vivenciados e articulados atributos, comportamentos e valores morais inerentes à profissão. Para os alunos do curso de enfermagem que se encontravam no último semestre, cursando a disciplina de Administração Aplicada à Enfermagem, o significado de ser enfermeiro se mostrou repleto de descobertas, reflexões e mudanças. "Consegui enxergar o que é ser enfermeira, suas funções, sua importância e, principalmente, o amor e respeito pela minha profissão, de modo que vejo que preciso me dedicar sempre e melhorar cada vez mais em função de prestar a melhor assistência que puder aos meus pacientes." "...minha visão da Enfermagem mudou completamente, pois agora eu sei que a Enfermeira deve buscar os conhecimentos e as mudanças." "Me fez ver a necessidade do trabalho em equipe e me definiu realmente o papel de enfermeiro num serviço." "Aplicar teoria à prática, foi um aprendizado grande." "Admiro a capacidade dos professores (através das dinâmicas dadas em sala de aula), em todo momento fizeram com que o aluno parasse para pensar e refletisse o papel que o enfermeiro ocupa." Outro aspecto constatado no discurso de alguns alunos foi que acreditavam que a função gerencial do enferREME – Rev. Min. Enf; 9(2): 140-146, abr/jun, 2005 n 145 Percepção dos Alunos de... meiro estaria apenas relacionada àquela de caráter administrativo-burocrático. Na verdade, assumindo este espaço, muitas vezes exigido pelas organizações hospitalares, o enfermeiro estaria afastando-se de suas funções verdadeiramente administrativas, que devem abranger não só as atividades burocráticas como as de assistência ao paciente.(14) "Contribuiu para aprimorar a visão do todo que o enfermeiro deve ter em relação à assistência ao paciente, relacionamento com a equipe de enfermagem, com os médicos e com os assuntos burocráticos e administrativos." Entendemos que a formação básica do enfermeiro no curso de graduação deve contemplar a administração da assistência prestada aos pacientes. O inter-relacionamento entre a administração do cuidado e a gerência burocrática é a função primordial deste profissional, que necessita possuir habilidades para articular essas duas dimensões do cuidado. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com base na avaliação da disciplina, fruto em parte da própria discussão que se processava no departamento de enfermagem sobre a reforma curricular, realizamos as avaliações com os alunos no intuito de obter subsídios para uma proposta de programa da disciplina para o novo currículo. Consideramos que as avaliações dos alunos foram importantes no sentido de revelar que seguíamos uma trajetória adequada quanto à apresentação dos conteúdos da disciplina e estratégias de ensino, pois em seus relatos ficou explícito o crescimento pessoal e profissional após a realização da mesma. Embora os conteúdos ministrados tivessem carga horária pequena, buscamos sempre estimular leituras complementares além de incentivar a busca de informações e conhecimentos adicionais, para que os alunos pudessem tornar-se instrumentos de mudança da prática da enfermagem. Dessa forma, o processo ensino-aprendizagem pode ocorrer de maneira diferente dos moldes do passado. Hoje o professor não é mais a única fonte de informação e precisa esclarecer os alunos, desde o primeiro ano do curso, sobre a importância da busca do conhecimento e de informações disponíveis de forma contínua e crítica, a fim de acrescentar valores à sua formação, tanto pessoal como profissional.(15) Acreditamos que a condução da disciplina no que tange ao período do ensino clínico tem possibilitado aos alunos uma visão mais crítica da realidade de saúde e da própria administração em enfermagem. As experiências por eles relatadas mostram as reflexões sobre o papel do enfermeiro, como incorporar novos saberes e como integrálos de maneira mais adequada à prática profissional. Entretanto, como responsáveis pela disciplina, acreditamos constatar que ainda há um longo caminho a percorrer para que possamos estruturar um programa mais adequado para a disciplina de administração, com vistas a atender à complexidade da prática profissional sempre em evolução. 146 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 140-146, abr/jun, 2005 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Chiavenato I. Introdução à teoria geral da administração. 3ª ed. São Paulo: McGraw - Hill do Brasil, 1993. 2. Peres HHC, Leite MMJ, Kurcgant P. A percepção dos docentes universitários à respeito de sua capacitação para o ensino de enfermagem. Rev Esc Enferm USP 1998; 32(1):52-8. 3. Bardin L. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições; 1977. 4. Polit DF, Hungler BP. Fundamentos de pesquisa em enfermagem. 3a ed. Porto Alegre: Artes Médicas; 1995. 5. 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O ensino da disciplina administração aplicada à enfermagem: compreensão das graduandas [tese]. São Paulo (SP): Escola de Enfermagem de USP; 1994. Recebido em: 16/02/2005 Aprovado em: 11/07/2005 A REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM E A DIVULGAÇÃO DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA NA ENFERMAGEM THE REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM AND THE DISSEMINATION OF SCIENTIFIC PRODUCTION IN NURSING REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM (REVISTA DE ENFERMERÍA DE MINAS GERAIS) Y DIVULGACIÓN DE PUBLICACIONES CIENTÍFICAS EN ENFERMERÍA Danielle Sandra da Silva de Jesus1 Tânia Couto Machado Chianca2 Aidê Ferreira Ferraz2 Maria Helena Larcher Caliri3 Allana dos Reis Corrêa4 RESUMO A informação tem assumido, nos últimos anos, um papel destacado como estratégia e ferramenta de conhecimento na ordem mundial. Este artigo apresenta a história do surgimento dos periódicos científicos, descrevendo a criação de um deles, a Revista Mineira de Enfermagem – REME e as etapas do processo de editoração. Discorre sobre os critérios utilizados para a análise dos artigos pelos consultores e aponta as principais dificuldades inerentes ao processo de editoração, impressão e distribuição dessa revista. Relata também alguns aspectos do projeto de reestruturação implementado e vivenciado pela equipe responsável por esse periódico, bem como as perspectivas promissoras e as potencialidades da difusão do conhecimento científico no contexto da enfermagem brasileira. Palavras-chave: Publicações Periódicas/História; Editoração; Enfermagem ABSTRACT In recent years information has become important as a strategy and tool for knowledge in the world order. This article shows the history of scientific journals, describing the setting up of one of them, the Revista Mineira de Enfermagem – REME, and the stages of the editorial process. It discusses the criteria used by the consultants in analyzing the articles and indicates the main difficulties of the editorial process, printing and distribution of the journal. It also reports some aspects of the restructuring project that was implemented as experienced by the team that runs the journal, as well as the promising outlook and the potential for dissemination of scientific knowledge in the context of Brazilian nursing. Key words: Scientific Publication; Editorial; Nursing RESUMEN En los últimos años la información ha asumido un rol importante en el orden mundial como estrategia e instrumento de conocimiento. Este estudio cuenta la historia de los periódicos científicos y describe cómo se creó uno de ellos: la Revista de Enfermería de Minas Gerais – REME y las etapas del proceso editorial. Menciona los criterios empleados por los consultores para analizar los artículos y señala los principales problemas inherentes al proceso editorial, publicación y distribución de la revista. También describe algunos aspectos del proyecto de reestructuración realizado por el equipo de trabajo del periódico, así como las perspectivas futuras de difusión del conocimiento científico en el contexto de enfermería brasileña. Palabras clave: Publicaciones periódicas/historia; editorial, enfermería 1 2 3 4 Enfermeira. Mestranda em Enfermagem/UFMG. Enfermeiras. Doutoras em Enfermagem. Professoras Adjunta do Departamento de Enfermagem Básica da Escola de Enfermagem da UFMG Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora da Escola de Enfermagem da EERP/USP. Enfermeira. Especialista em Atendimento Pré-Hospitalar. Endereço para correspondência: Rua Bérgamo, 185 - Bandeirantes - Belo Horizonte/MG - CEP 31.340-370 REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 147-152, abr/jun, 2005 n 147 A Revista Mineira de Enfermagem e… INTRODUÇÃO Um periódico científico tem por missão divulgar o produto de pesquisas à comunidade científica e é a última etapa do processo de produção acadêmica. A importância de um periódico científico remete-nos à importância do ato de escrever, e a linguagem escrita é uma das mais relevantes conquistas da humanidade surgindo como uma forma de socialização do conhecimento. A criação da imprensa, na Europa, no século XV, veio contribuir para facilitar o processo de comunicação, em que o documento escrito exerce papel vital.(1) Até meados do século XVII, a comunicação científica era constituída maciçamente por correspondências particulares. Em 1665, o processo de comunicação científica passa por uma mudança radical, quando surge o Journal des Sçavans, em Paris, que pode ser considerado a primeira revista impressa do mundo. O Journal des Sçavans tinha como funções: catalogar e reunir os livros mais importantes publicados na Europa; publicar óbitos de personalidades eminentes; descrever os progressos científicos e técnicos; registrar as principais decisões jurídicas e publicar notícias sobre o que acontecia na "República das Letras".(1,2) Na Inglaterra, no mesmo ano, foi editada a Philosophical Transactions of the Royal Society of London, a qual era composta por cartas trocadas entre membros da comunidade e correspondentes, tanto do país quanto do exterior, que traziam informações sobre novas idéias e pesquisas. Cabe ressaltar que, já naquela época, os editores dessa revista preconizavam que os textos deveriam ser aprovados pelos membros de seu Conselho. O principal motivo para o surgimento do periódico científico era a necessidade de comunicação, fato que influenciou diretamente a formalização do processo de comunicação. No entanto, outros motivos podem ser acrescentados, tais como a expectativa de lucros e a crença de que, para haver novos descobrimentos, era necessário um debate coletivo. Após a Segunda Guerra Mundial, com o surgimento dos periódicos especializados que cobriam não só as grandes áreas do conhecimento, como também as subáreas, ocorreu o fenômeno denominado explosão bibliográfica, associado ao crescimento da produção e desenvolvimento de pesquisas, à ampliação da comunidade científica e ao aparecimento dos computadores eletrônicos. A comunicação eletrônica veio trazer grandes vantagens para os cientistas, colocando os pesquisadores de todos os países em condições de igualdade com os dos países desenvolvidos. Atualmente, o Brasil encontra-se entre os 20 países maiores produtores de conhecimento do mundo, devido ao grande desenvolvimento ocorrido no nível da pós-graduação.(3) O maior veículo de comunicação da produção científica brasileira são as revistas nacionais. Entretanto, essas revistas convivem com questões como amadorismo, atrasos na edição, comunicações deficientes com leitores e colaboradores, entre outras.(4,5) Além disso, várias revistas nacionais são editadas apenas em língua portuguesa, focalizando temáticas locais e, nesse sentido, isolam a ciência brasileira do resto do mundo. 148 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 147-152, abr/jun, 2005 Outra questão é o clima de "produtivismo" que invadiu as Universidades brasileiras, sobretudo, nestes últimos anos.(6) Cursar disciplinas, ler, pesquisar, escrever e publicar dentro de um prazo determinado pelas agências de fomento tem sido a exigência nos programas de pósgraduação. Certamente as subvenções públicas devem ser utilizadas com critério e controle, porém é preciso entender que o tempo demandado desde a concepção de um problema de pesquisa, formulação e teste das hipóteses, seleção de metodologias adequadas, implementação do plano de pesquisa, tratamento e análise dos resultados e elaboração de relatório final pode não coincidir com o tempo político determinado pelas autoridades e constituir-se em mais um entrave para publicações da produção de conhecimento nas diversas áreas. Não há como negar os reflexos desse "produtivismo" na organização de um periódico científico. A necessária socialização do saber vai paulatinamente se transformando em compulsão por publicar, o que muitas vezes torna a publicação fruto de pesquisas não formuladas adequadamente, pobres em conteúdo, apresentando resultados distantes de aplicação prática. A pesquisa em enfermagem, considerada recente no país, pode ser inserida nesse contexto. Nas décadas de 30, 40 e 50 as pesquisas ainda eram escassas, provavelmente em decorrência do próprio processo de formação de recursos humanos que ainda não estava sendo preparado para a produção do conhecimento. O primeiro periódico específico da enfermagem foi a Revista Brasileira de Enfermagem, criada em 1932. Nos anos 70, com o ingresso da enfermagem no sistema nacional de pós-graduação, houve um grande incentivo para o desenvolvimento da pesquisa e a formação acadêmica de pesquisadores.(7) Pode-se dizer que a pesquisa está consolidada no meio universitário da enfermagem brasileira. Entretanto, a produção científica na enfermagem ainda tem muito a desenvolver assim como a pesquisa no Brasil. Reconhece-se que a informação é um fator que diminui as diferenças e transformará a sociedade.(8) Porém, cabe a nós entender o valor da difusão do conhecimento e o processo de publicação da produção científica brasileira, superando as dificuldades existentes e já arraigadas em nossa cultura. Este artigo tem o objetivo de descrever o processo de criação, produção e manutenção de um periódico científico na enfermagem, a Revista Mineira de Enfermagem. Constitui um estudo descritivo fundamentado na análise documental subsidiada pelo arquivo histórico, pelo banco de dados existente na Secretaria da Revista sediada na Escola de Enfermagem da UFMG e pela experiência das autoras durante a criação, manutenção e reestruturação da mesma, visando a aquisição de informações sobre a história da criação da REME e o fluxograma dos manuscritos enviados para análise. A REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM A Revista Mineira de Enfermagem –REME é uma publicação da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG), em parceria com Es- colas de Graduação em Enfermagem sediadas em todo o Estado. Foi criada por professores da EEUFMG por iniciativa do Programa de Desenvolvimento da Enfermagem - PRODEN apoiado pela W.K. Kellogg Foundation. O PRODEN sediado na Escola de Enfermagem da UFMG desde 1991, definiu entre suas linhas de trabalho a criação da Rede de Escolas de Enfermagem de Minas Gerais, que mais tarde passou a integrar a Rede de Enfermagem da América Latina – REAL, que tem entre seus objetivos possibilitar e incentivar o intercâmbio e a divulgação do conhecimento em Enfermagem na América Latina.(9) Nesse contexto de interação interinstitucional nos âmbitos regional, nacional e internacional, foi proposta a criação de um veículo de publicação científica, que visasse contribuir para a atualização, educação continuada, divulgação e difusão do conhecimento produzido pela Enfermagem, através de um esforço conjunto das Escolas do Estado. Assim, a REME foi criada em março de 1996, com periocidade semestral, e teve o seu primeiro número lançado em 1997. Sua criação foi fundamentada também na análise contextual das publicações em Enfermagem no País e em Minas Gerais que, àquela época, visualizava a necessidade de aumentar mecanismos de produção, publicação e difusão do conhecimento. Teve - se como objetivo o incremento da disseminação da produção científica no Estado de Minas Gerais e no Brasil, disponibilizando mais um veículo de estímulo e agilização do processo de produção e divulgação da produção científica na área.(9) Ao longo desses anos de circulação, a REME já publicou treze exemplares; além de um suplemento para divulgação do Fórum do Curso de Especialização em Saúde da Família no qual constam resumos das monografias elaboradas pelos alunos do Curso de Especialização em Saúde da Família – Projeto Veredas de Minas. Nos volumes publicados pela REME constam artigos científicos contemplando pesquisas, resumos de dissertações e teses, revisões teóricas e relatos de experiência. Foi analisada a produção científica constante nos treze exemplares da REME até o momento. Entre os 160 artigos divulgados (média de 12,3 por revista) verificouse uma predominância de artigos de pesquisa (67%), conforme tabela 1. TABELA 1. DISTRIBUIÇÃO DOS TIPOS DE ARTIGOS PUBLICADOS NA REME TIPOS DE ARTIGOS NÚMERO % MÉDIA/ EXEMPLAR Pesquisa 107 67 8,2 Revisão de literatura 13 08 1,0 Relato de experiência 26 16 2,0 Artigos reflexivos 14 09 1,1 TOTAL 160 100 12,3 A REME ainda não contou com a participação de autores estrangeiros em suas edições. Entre os artigos publicados observam-se três trabalhos com sete ou mais autores, apesar de a média de autores por artigo ser de 2,7. Além disso, verifica-se que a maioria dos autores são enfermeiros (46%), de acordo com dados apresentados no gráfico 1. O tipo de artigo, a quantidade e origem dos autores são alguns dos aspectos que estão sendo considerados na proposta de reestruturação da Revista, em andamento, que visa uma melhor conceituação nas próximas avaliações de qualidade do periódico realizadas pela CAPES. GRÁFICO 1. DISTRIBUIÇÃO DE AUTORES DE ARTIGOS PUBLICADOS NA REME Todo periódico científico precisa ter uma estrutura hierárquica considerada necessária para que o gerenciamento e a publicação sejam efetivos. Esta pode ser diversa, dependendo da estruturação definida para cada periódico. A REME possui, além do Editor Geral, um Conselho Administrativo, um Diretor Executivo, um Conselho Editorial e uma Secretaria. O Conselho Administrativo é composto por diretores de Escolas de Graduação em Enfermagem de Minas Gerais. Já o Conselho Editorial é constituído por pesquisadores com título de doutor, cadastrados, e outros doutores das diversas áreas - Ad hoc, formando-se então o Corpo de Consultores. REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 147-152, abr/jun, 2005 n 149 A Revista Mineira de Enfermagem e… PROCEDIMENTOS DE FLUXO DOS ARTIGOS NA REME Os artigos científicos enviados pelos autores são recebidos de todo o Brasil e do exterior na Secretaria, onde é verificado se o material está completo - carta de solicitação de publicação; duas cópias do artigo impressas e uma cópia em disquete; se está estruturado segundo as normas estabelecidas pela REME. A normalização bibliográfica utilizada pela REME é a de Vancouver, adotada pela maioria dos periódicos da área da saúde. A partir daí, é feito o cadastro do artigo, e a Diretoria Executiva da Revista faz a indicação do Consultor que irá avaliá-lo. A indicação é feita segundo o foco central do estudo, a metodologia utilizada e a especialidade dos Consultores da Revista. O texto impresso é enviado ao consultor sem a identificação do(s) autor(es) – blind copy – a fim de evitar possíveis interferências pessoais na avaliação do parecerista. Após a apreciação, o consultor remete-o de volta à Secretaria com o seu parecer. Posteriormente, se necessário, o texto é enviado para o autor com a avaliação do consultor para que o próprio autor proceda às modificações. Os artigos podem ser aceitos para publicação, recusados ou reformulados e, neste caso, são enviados aos autores visando sua adequação à avaliação do consultor parecerista. Feitas as correções pelo autor, o trabalho é remetido ao mesmo consultor para nova análise e para verificar se todas as adequações foram efetuadas quando, então, é emitido o parecer final. Em caso de não aprovação do artigo para publicação, o autor é notificado desse fato por meio de carta, contendo uma síntese da análise do consultor, a quem sempre é garantido o anonimato. Esse sigilo é fundamental em todo o processo de trabalho na Revista, sendo controlado com todo o rigor e cuidado.(6) Quando o trabalho é aprovado, há a indicação de publicação imediata ou segundo a ordem de chegada. Ainda assim, está reservado ao Editor Geral e à Diretora Executiva o poder de veto ou alteração no tempo de publicação do referido trabalho, após criteriosa análise de cada caso em particular. Os critérios adotados pela REME para avaliação de artigos seguem um protocolo, do qual destacamos alguns itens: • adequação do título; • demonstração de informações suficientes para justificar o problema e os conceitos apresentados; • clareza de objetivos e descrição metodológica; • apresentação de resultados de forma compreensí vel e conclusões pertinentes; • apresentação concisa de resumos em português/ inglês/ espanhol; • atualização, pertinência e citação das referências bibliográficas. A não aceitação do trabalho pelo Consultor pode ser devida ao não alcance das propostas formuladas pelo estudo, à inadequação do referencial teóricometodológico, à incoerência na análise e discussão dos resultados, ao não cumprimento dos requisitos éticos de pesquisas, à falta de contribuição significativa para o conhecimento sobre o tema proposto.(5) 150 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 147-152, abr/jun, 2005 Os artigos aceitos para publicação pelos Consultores são aprovados e categorizados pelo Editor Geral e pela Diretora Executiva. Feito isso, novas etapas se sucedem: • correção de palavras-chave por uma bibliotecária, segundo os descritores estabelecidos internacionalmente; • revisão bibliográfica pela bibliotecária; • revisão de português no resumo e em todo o texto, realizada por uma professora especialista em Língua Portuguesa, e posteriormente conferida junto à Diretora Executiva, buscando-se evitar mudanças inadequadas no sentido desejado pelo autor ou de termos específicos da área; • revisão de título, palavras-chave e resumo em espanhol, realizada por uma especialista em Língua Espanhola; • revisão de título, palavras-chave e resumo em inglês, realizada por um especialista em Língua Inglesa. Na etapa final de produção o exemplar da Revista é constituído por 13 artigos, em média, estabelecendo-se a definição da seqüência e da categoria dos artigos. Após essa definição, o conjunto de artigos de cada número da Revista é encaminhado à editoração em cópia impressa e em disquetes e, antes de ser enviado para impressão, o material é integralmente revisado pela Diretora Executiva da REME, que o encaminha à gráfica em disquetes para elaboração de fotolitos e para reprodução. Os fotolitos também são submetidos à análise da Diretora Executiva da Revista para eventuais correções. Alguns pontos desse processo ainda são importantes de serem ressaltados: 1. Para ser publicado na REME o artigo precisa, inpreterivelmente, ser original: não se admitem "duplicatas", ou seja, o trabalho precisa ser inédito e não ter sido divulgado em outras revistas;(10) 2. É fundamental cumprir os prazos determinados tanto para autores e respectivos consultores, quanto para os serviços terceirizados para garantir a periodicidade da Revista; 3. É preciso zelar pela qualidade dos textos e competência profissional dos autores. É relevante afirmar que o oferecimento e o crescimento de Cursos de Pós-Graduação têm provocado um aumento importante na produção científica a ser publicada. Tal fato foi constatado na Escola de Enfermagem da UFMG; por isso fez-se necessária e urgente a reestruturação sistematizada da REME visando, principalmente, o aumento da captação de artigos e a contínua melhoria da qualidade dos trabalhos nela publicados.(9) A principal meta, já concretizada a partir de março de 2004, foi a periodicidade trimestral. Um novo projeto gráfico, uma nova estrutura organizacional e a dotação de infra-estrutura mais apropriada à nova demanda que se apresentara foram realizados. Outro ponto importante é a ampliação da indexação da revista em bases de dados bibliográficas nacionais e internacionais. Atualmente ela encontra- se indexada nas bases de dados do Centro Latino Americano e do Caribe de Informações em Ciências da Saúde (LILACS) e no BDENF (Base de Dados em Enfermagem da SURENF – Sub-Rede Brasileira de Informações em Enfermagem/ BIREME-OPS). Os textos publicados na REME encontram-se disponíveis nos endereços eletrônicos: www.enfermagem.ufmg.br e www.periodicos.capes.gov.br. Com o objetivo de se capacitar para atender critérios de avaliação de periódicos para a publicação eletrônica de suas edições, bem como de organização das bases de dados bibliográficas e dos textos e a fim de ter a publicação avaliada pelos indicadores estatísticos de uso e impacto da sua literatura científica. Assim, a REME poderá ser incluída na Scientific Eletronic Library Online (Coleção SIELO), que é um importante indexador internacional de periódicos científicos. O Conselho Administrativo propôs sua reestruturação para aumentar a visibilidade, acesso e credibilidade da revista em âmbito nacional e internacional. Para esta inclusão, são avaliados a importância de seu conteúdo científico para a área de enfermagem; o processo de avaliação e aprovação dos artigos; a composição do conselho editorial por especialistas de várias instituições reconhecidos nacional e internacionalmente; a periodicidade mínima trimestral; a pontualidade nas publicações; a padronização na apresentação e estrutura dos textos, referências bibliográficas e descritores; a apresentação de informações completas sobre os autores, bem como lista de citações compatíveis com os de outros periódicos da área. Futuramente, todo o processo de submissão, avaliação e aprovação dos artigos será efetivado eletronicamente. Os periódicos científicos são avaliados anualmente, recebendo uma conceituação que traduz a qualidade e o grau de importância das informações contidas, competência de seus autores, entre outros aspectos.(11) No Brasil essa avaliação – Qualis CAPES Periódicos de Enfermagem, é feita pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior- CAPES, que atribui aos periódicos científicos os conceitos: C – B – A – Nacional / C – B – A – Internacional, na ordem crescente de qualidade, em conformidade com os critérios estabelecidos por aquele órgão. A REME foi avaliada inicialmente pelo "Qualis CAPES Periódicos de Enfermagem" da CAPES, com o Conceito C (Nacional), último nível de classificação atribuído por este órgão de avaliação a periódicos da área. Entretanto, com a regularização da periodicidade da Revista que ficara fragmentada no período de 1999 a 2000, a qualificação do Conselho Editorial e a contínua evolução da qualidade dos trabalhos foi avaliada pelo Qualis CAPES - Periódicos de Enfermagem 2002, divulgado em agosto de 2003, que atribuiu à Revista o conceito B, Nacional. Esse fato evidencia a relevância de novas iniciativas no sentido de garantir importância, qualidade e consistência quanto ao caráter científico e de difusão de conhecimentos na Enfermagem e em áreas afins. Tem sido ressaltada a necessidade de internacionalização da produção científica e o grande desafio que isso representa para a enfermagem brasileira e o impacto da produção científica nos países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, principalmente quando se refere à publicação de temas direcionados às prioridades nacionais e concatenadas com as linhas e prioridades de pesquisa estabelecidas. No entanto, é necessário que universidades e agências fomentadoras apóiem mais a publicação científica para o avanço no conhecimento.(11,12) Várias são as formas de propiciar o crescimento profissional e, entre estas se colocam o intercâmbio de idéias por meio da produção, publicação e difusão de informações.(13) A Enfermagem brasileira tem enfrentado limitações nesse sentido. Apesar do relativo aumento do número de periódicos de enfermagem no Brasil, ainda tem sido longo o tempo despendido entre o encaminhamento dos artigos para análise, até o parecer e a publicação.(13) No caso da REME, essa relativa morosidade ainda é atribuída a diferentes fatores, tais como: o número de artigos enviados para análise ainda não permite um fluxo ininterrupto entre autores e consultores, demora na emissão de pareceres pelos consultores, a falta de secretária eficiente, entraves de ordem financeira e precária articulação com alguns antigos parceiros. No caso da Enfermagem brasileira, os avaliadores mais bem capacitados são numericamente insuficientes para absorver a demanda e dar conta da responsabilidade nos prazos determinados pelos periódicos. Para amenizar ou até mesmo sanar essa dificuldade, há necessidade de se incluirem conteúdos sobre divulgação científica nos programas de formação de doutores(8,11), além de proporcionar aos atuais e futuros consultores/ pareceristas um retorno compatível com as exigências dessa função, como por exemplo, o devido reconhecimento e a valorização dessa atividade pelas agências avaliadoras da produção científica dos participantes de Conselhos Editoriais e pelos consultores Ad hoc, quando da análise de seus currículos. Considerando os avanços já obtidos pela Revista, a sua importância para o desenvolvimento da pesquisa e sua interface com a extensão e o ensino na graduação e na pós-graduação e, ainda, tendo em vista a evolução positiva da REME nos processos avaliativos da CAPES e demais agências, é importante ressaltar a necessidade e a inevitabilidade de prosseguir na busca da excelência desse importante periódico científico da Enfermagem. Isso poderá ser conseguido por meio da total reestruturação a que está sendo submetido, objetivando-se oferecer aos leitores e assinantes uma revista ágil e de qualidade, em consonância com as demandas da sociedade e da Enfermagem contemporâneas. REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 147-152, abr/jun, 2005 n 151 A Revista Mineira de Enfermagem e… REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Russo M, Santos ETG, Santos MJVC. Produção científica brasileira: da comunicação à recuperação via WEB. In: Fórum Nacional de Padronização e Divulgação da Produção Científica. Fortaleza, ago. 2001. 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Guilherme Augusto Armond1 Adriana Jorge Barbosa2 Edna Maria Rezende3 RESUMO Trata-se de uma revisão de publicações sobre infecção perinatal pelo Estreptococo do Grupo B (EGB), em neonatos. Considerando a relevância atual do tema, a dificuldade de implementação de medidas preventivas e a escassez de pesquisas nacionais sobre o assunto, este estudo propõe uma atualização sobre as diretrizes de prevenção. Os resultados demonstram a colonização materna pelo EGB como o fator de risco mais importante, a transmissão intra-útero como a mais freqüente e a forma precoce da doença como a mais grave. As principais diretrizes de prevenção englobam a identificação das gestantes portadoras de EGB e a quimioprofilaxia intraparto, medidas essas que têm determinado redução importante na incidência da infecção neonatal precoce pelo EGB. Palavras-chave: Infecção Perinatal; Estreptococo do Grupo B; Quimioprofilaxia ABSTRACT This is a review of publications on perinatal infection by Group B Streptococcus (GBS).Because of the current relevance of the theme, the difficulty in implementing preventive measures and the lack of national research on the issue, this study proposes an update on the preventive guidelines. The results show the colonization of the mother by GBS as the most important factor. The main prevention guidelines include the identification of pregnant women who are carriers of GBS and chemio-prophylasis during delivery, which have shown a significant reduction in early infection by GBS. Key Words: Perinatal Disease, Group B Streptococcus, Infection RESUMEN Se trata de la revisión de publicaciones sobre infección perinatal en neonatos causada por el estreptococo del grupo B (EGB) Considerando su actual relevancia, la dificultad de poner en práctica medidas preventivas y la escasa investigación nacional del asunto, la propuesta de este estudio es actualizar las directrices de prevención. Los resultados demuestran que el principal factor de riesgo es la colonización materna causada por el virus, que la transmisión intrauterina es la más frecuente y que la forma más grave es la forma temprana de la enfermedad. Las principales directrices de prevención incluyen identificar a las embarazadas portadoras del EGB y quimioprofilaxia en el parto. Estas medidas han reducido considerablemente la incidencia de la infección neonatal temprana causada por el EGB. Palabras clave: infección perinatal, estreptococo del grupo B; quimioprofilaxia 1 2 3 Enfermeiro da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do HC/UFMG, Coordenador do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Sofia Feldman e da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar da Maternidade Municipal de Contagem. Especialista em Controle de Infecção Hospitalar. Acadêmica de Enfermagem da UFMG, estagiária da CCIH-HC/UFMG Professora Adjunta. Escola de Enfermagem da UFMG, Doutora em Med.Vet Prev. e Epidemiologia Endereço para correspondência: Av. Alfredo Balena 110 - Santa Efigênia – Belo Horizonte/MG, CEP: 30130100, e-mail: [email protected] REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 153-157, abr/jun, 2005 n 153 Infecção Perinatal pelo… INTRODUÇÃO Durante o período pré-natal vários processos infecciosos maternos são investigados tais como a toxoplasmose, a rubéola e a citomegalovirose. Essa tem sido uma estratégia de abordagem preventiva e terapêutica materna, fetal e neonatal, com importante impacto na redução da morbimortalidade do recém-nascido (RN). Entretanto, a infecção pelo Estreptococo do Grupo B (EGB) de Lancefield, doença infecciosa de maior letalidade neonatal, não é freqüentemente pesquisada. Sua forma precoce ocorre principalmente na primeira semana de vida e representa a grande maioria das infecções neonatais.(1) É geralmente de curso fulminante e, apesar de todo o avanço oferecido pela terapia intensiva neonatal, o óbito ocorre em 15% a 65% dos infectados e as seqüelas são freqüentes.(2) A infecção precoce pelo EGB prolonga ainda os dias de hospitalização e eleva os custos hospitalares.(3) Nos anos 60, o EGB foi reconhecido como patógeno associado a infecções perinatais nos EUA e na Europa e, a partir de 1970, passou a ser o agente mais freqüente em infecção precoce neonatal.(4) A incidência da doença perinatal por EGB até a década de 70, nos Estados Unidos, era de 2 a 3 casos por mil partos, com uma letalidade de 50%. Com o aprimoramento dos cuidados intensivos neonatais e a eficácia do uso profilático de antibióticos houve uma redução da letalidade para 4% e nos anos 80 a incidência passou para 0,5 por mil partos. Na década de 90 observou-se, nos Estados Unidos, um decréscimo ainda mais importante na incidência da doença precoce nos RN(1) decorrente, especialmente, da adoção de medidas profiláticas padronizadas pelo Guia de Prevenção da Doença Perinatal por EGB, publicado em 1996, elaborado pelo Centers for Disease Control (CDC), em conjunto com outros órgãos.(5) Dados coletados sistematicamente pelo CDC, após 1996, possibilitaram a reavaliação das estratégias de prevenção e a revisão do referido Guia em 2002, aperfeiçoando-se as diretrizes que atualmente norteiam os procedimentos mais adequados a serem implementados pelos profissionais de saúde, visando à prevenção da infecção pelo EGB. Neste sentido, há perspectivas em relação a algumas medidas de prevenção que, se confirmada sua eficácia, poderão alterar a profilaxia da infecção por EGB. Entre elas, podem ser citados o teste rápido para detecção de colonização por EGB, utilizado no período intraparto, particularmente em gestantes que não fizeram o pré-natal apropriado, e o desenvolvimento de vacinas produzidas a partir de polissacarídeos capsulares.(1) No Brasil existem poucos estudos sobre o tema, embora a mortalidade seja relevante e algumas experiências indiquem o EGB como o principal agente etiológico de doença precoce neonatal. Por essas razões e considerando as novas perspectivas de prevenção, optou-se por uma revisão sobre a literatura relacionada à infecção perinatal por EGB, no sentido de possibilitar aos profissionais de saúde um aprofundamento do tema e atualização sobre as diretrizes atuais de prevenção. 154 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 153-157, abr/jun, 2005 METODOLOGIA Para realização deste estudo revisaram-se artigos científicos publicados no período de 1996 a 2002. As fontes de pesquisa utilizadas foram as bases de dados Medline-Pubmed e Lilacs usando como referência para busca as seguintes palavras-chave: infecção perinatal, estreptococo do grupo B e quimioprofilaxia. Além disso, pesquisaram-se também publicações do CDC e artigos referenciados nas bibliografias das três fontes citadas. Foram identificados inicialmente um total de 83 artigos, reduzindo-se para 26 após a combinação das palavras-chave perinatal/quimioprofilaxia, perinatal/ Estreptococo do Grupo B e quimioprofilaxia/ Estreptococo do grupo B. Poucos artigos nacionais (seis) foram identificados e a maioria deles restringindo-se a resumos das diretrizes do CDC para a prevenção da doença perinatal pelo EGB. COLONIZAÇÃO, FORMAS DE TRANSMISSÃO E INFECÇÃO O Estreptococo do Grupo B, ou Streptococcus agalactiae, foi inicialmente reconhecido como uma causa de sepse puerperal. Embora o microrganismo ainda seja associado a esta doença, é notória sua grande importância como causa de septicemia, pneumonia e meningite em recém-nascidos.(2,6) O EGB são cocos gram-positivos de 0,6 a 1,2 mm, formam cadeias curtas em amostras clínicas e cadeias maiores em cultura. O microrganismo cresce bem em meio nutricionalmente enriquecido, como colônias cremosas maiores do que as observadas com o Estreptococo do Grupo A e circundadas por uma estreita zona de bhemólise. Algumas cepas poderão ser não-hemolíticas ou a-hemolíticas.(6,7) O trato gastrintestinal é o reservatório natural do EGB, mas também pode ser encontrado na vagina, bexiga ou na garganta de adultos.(1) Costa et al.(4), ressalta que o trato geniturinário é o principal sítio de colonização na mulher e que não há diferença quanto à freqüência de colonização entre mulheres gestantes durante as várias fases de gestação e mulheres não gestantes. A colonização do trato geniturinário varia de 5% a 27%, podendo estar relacionada aos diferentes métodos de semeadura do microrganismo. A investigação da colonização do trato urinário pode ser feita através de urocultura, já que a presença de bacteriúria por EGB, mesmo que assintomática, é um fator de risco de complicações infecciosas para o RN. De acordo com o CDC(1), aproximadamente 10% a 30% das gestantes são colonizadas pelo EGB de forma transitória, crônica ou intermitente, na vagina ou reto e 50% delas poderão transmiti-lo para o RN antes ou durante o parto. Entretanto, segundo Fernandes et al. (6) somente 1% a 2% dos RN colonizados desenvolverão a doença invasiva. Em estudo realizado por Richmann em 1996, no Hospital Maternidade Santa Joana em São Paulo, encontrou-se uma incidência de colonização vaginal pelo EGB de 13%, considerado o principal agente de sepse precoce neonatal.(4,8) Ainda no mesmo hospital, no período de abril de 1991 a março de 2000, a incidência global da infecção precoce por EGB foi de 0,39 por 1000 nascidos vivos.(9) Entre os principais fatores que influenciam a colonização genital materna estão o uso de dispositivo intrauterino, a idade menor de 20 anos, a menor paridade e a raça negra.(1) O surgimento da doença perinatal por EGB está relacionado a vários fatores de risco como a colonização materna, retal ou genital, idade gestacional inferior a 37 semanas, ruptura prolongada da membrana amniótica, superior a maior que 18 horas, infecção intraamniótica, baixa idade materna, raça negra, baixos índices de anticorpos anti capsular e febre intraparto maior ou igual a 38ºC.(1,10,11) A transmissão pode ocorrer intra-útero, através da passagem pelo canal de parto, ou em decorrência da hospitalização. A transmissão intra-uterina do EGB resulta da ascensão do microrganismo da vagina da mulher colonizada para o útero, independentemente de haver ruptura de membrana, ou, ainda, da aspiração fetal do líquido amniótico infectado, e pode acarretar aborto, pneumonia ou sepse. Já pela via canal de parto, os RN geralmente, se tornam colonizados na pele ou membranas mucosas e permanecem assintomáticos.(1) A transmissão hospitalar ocorre com menos freqüência e a apresentação clínica mais comum é a meningite1. Existem duas formas de infecção entre os RN: a precoce e a tardia. A precoce manifesta-se na primeira semana de vida e representa 75% dos casos.(1,12) Ocorre por transmissão vertical em gestante colonizada e está relacionada a baixos níveis maternos de anticorpos anti-EGB, prematuridade, amniorrexe prematura por período maior que 18 horas, gestação múltipla, bacteremia materna, entre outros fatores. As manifestações clínicas incluem a septicemia, pneumonia, meningite e falência de múltiplos órgãos.(6,10) A mortalidade neste grupo varia de 4,7% a 9,0%.(10) A infecção tardia, mais relacionada à transmissão horizontal, manifesta-se após a primeira semana de vida, e geralmente não se relaciona com os fatores de risco associados à infecção de início precoce. A meningite é a forma clínica mais freqüente, ocorre em 85% dos casos e a mortalidade varia de 2,0% a 2,8%.(10) PREVENÇÃO Diversos estudos demonstram a necessidade de implementação de estratégias preventivas para a redução da incidência de infecção perinatal por EGB. A princípio as diretrizes eram mais direcionadas para a investigação dos principais fatores de risco, para a definição do período mais adequado para a realização de testes e para a verificação da eficácia das intervenções.(2-6) Na opinião de Costa et. al.,(4) a prevenção da doença precoce pelo EGB está mais relacionada à conduta obstétrica do que aos cuidados com o RN, e as três estratégias para prevenção são a imunização, a anti-sepsia do canal de parto e a quimioprofilaxia, sendo essa última a recomendada pelas diretrizes do CDC.(1) IMUNIZAÇÃO A imunização de mulheres antes ou durante a gravidez poderia prevenir a doença peri-parto materna e pro- teger a criança de adquirir infecção por via placentária. Isto eliminaria a necessidade do swab no pré-natal e da antibioticoprofilaxia intraparto, o que reduziria os custos e os possíveis efeitos adversos associados ao uso dessas drogas.(1) A demonstração da eficácia da vacina na prevenção de doença precoce perinatal por EGB é um desafio, considerando que para a realização de ensaios clínicos seriam necessárias grandes amostras. Outra dificuldade para o desenvolvimento da vacina refere-se à troca de sorotipos do EGB que causam a doença, o que poderia determinar outras modificações na composição dos sorotipos da vacina.(1) No entanto, segundo Costa et al.(4), estudos já demonstraram a eficácia da vacina em torno de 95% quando aplicada uma dose durante a idade procriativa e um reforço durante a gestação. Embora os resultados preliminares da vacina sejam bastante promissores, ela não está ainda disponível comercialmente. ANTI-SEPSIA DO CANAL DE PARTO A irrigação vaginal com solução aquosa de gluconato de clorexidina tem mostrado resultados satisfatórios. A clorexidina é um anti-séptico do grupo das biguanidas que apresenta melhor ação germicida para as bactérias gram-positivas comparado às bactérias gram-negativas e fungos. Possui efeito residual prolongado de 5 a 6 horas, maior efetividade em pH de 5 a 8, sendo pouco afetada pela presença de sangue e outras matérias orgânicas. É pouco absorvida pela pele integra e possui baixo potencial de toxicidade.(13,14) Trabalho realizado em 1992 mostrou que o uso de clorexidina em gestantes, no momento da admissão à maternidade e a cada seis horas até o nascimento, reduziu de forma significativa o número de admissões de RN na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal. Estudo similar desenvolvido em Malawi, na África, por Taha e cols. concluiu também que o uso da clorexidina em gestantes em trabalho de parto é uma medida simples, benéfica e de baixo custo.(4) QUIMIOPROFILAXIA O uso de antibioticoprofilaxia em gestantes colonizadas por EGB previne a colonização e reduz a infecção precoce por EGB no recém-nascido. Nos Estados Unidos, a partir da década de 90, após a implementação da antibioticoprofilaxia para o EGB, preconizado pelo guia do CDC observou-se uma redução da incidência da doença precoce de 1,5/1000 nascidos vivos para 0,5/1000 nascidos vivos.(1) O tratamento com antibióticos durante o pré-natal, segundo Costa et al.,(4) não previne a infecção neonatal, já que grande parte das gestantes tratadas adequadamente, durante a gestação, apresentam recolonização no momento do parto. O tratamento de seus parceiros sexuais, concomitantemente, não é eficaz, pois acreditase que a recolonização possa estar relacionada à contaminação sexual. A quimioprofilaxia no pós-parto, ou seja, no recém-nascido logo após o nascimento, ainda segundo o autor, também não é eficaz, visto que a infecção intra-útero ou via canal de parto já ocorreu e a evolução REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 153-157, abr/jun, 2005 n 155 Infecção Perinatal pelo… da doença é muito mais rápida que a eficácia da terapia instituída. A quimioprofilaxia intraparto realizada pela administração de antimicrobiano logo após o início do trabalho de parto ou ruptura das membranas, em todas as gestantes portadoras do EGB, demonstrou ser capaz de reduzir de 80% a 90%, a incidência da colonização neonatal.(10) Estudo prospectivo realizado no Hospital King George V, em Sidney, de 1986 a 1988, demonstrou que o tratamento com antibiótico intraparto promoveu a diminuição de 84% da doença neonatal por EGB. O tratamento era indicado a grávidas que apresentassem pelo menos uma das seguintes características: colonização por EGB, identificação desse agente na urina, história de recém-nascido com infecção neonatal por EGB e trabalho de parto pré-termo com um estado de portador desconhecido. O estudo ressalta ainda que a razão risco/beneficio e os custos tanto da realização de testes quanto do tratamento com antibiótico intraparto em todas as grávidas portadoras do EGB deve ser sempre considerado.(15) O Guia do CDC(5) lançado em 1996 recomendava a opção de duas estratégias para indicação de quimioprofilaxia. A primeira, baseada em fatores de risco, considerava as seguintes condições: trabalho de parto anterior a 37ª semana de gestação; febre intraparto maior ou igual a 38ºC e ruptura de membrana, superior a 18 horas. A segunda, baseada na triagem microbiológica era feita pela realização de swab retal ou vaginal colhido entre a 35ª e 37ª semana. Para ambas as estratégias, a profilaxia era também indicada quando a doença tivesse ocorrido em gestação anterior ou fosse diagnosticado bacteriúria durante a gravidez. Costa et al.,(4) fazendo referência a um estudo desenvolvido por Tafari entre 1993-1997, ressalta que as duas estratégias para a prevenção precoce do EGB neonatal em crianças a termo foram utilizadas. No referido estudo foi observado um aumento da pesquisa de colonização materna de 64% para 79% no período, embora a incidência de colonização tenha se mantido constante em 20% a 25% das gestantes. Observou-se ainda um aumento do uso de antibiótico intraparto de 18% em 1993 para 32% em 1997 e diminuição considerável da incidência de infecção precoce pelo EGB em recémnascidos. Vacilotto et al. (9) concluíram que a triagem microbiológica entre a 35ª e a 37ª semana de gestação para determinar as gestantes colonizadas que possuem indicação de quimioprofilaxia é mais importante do que o critério baseado em fatores de risco. Isto porque em estudo desenvolvido no Hospital e Maternidade Escola Santa Joana, São Paulo, foi observado que em apenas um terço dos casos de doença precoce pelo EGB existia fator de risco. Pesquisa realizada, no período pré e pósguia do CDC de 1996, para avaliar a eficácia da triagem microbiológica e aquela baseada em fatores de risco na redução da doença precoce pelo EGB no RN, demonstrou uma redução de 63% em favor da primeira.(4) Em 2002, as diretrizes do CDC foram revisadas priorizando-se a triagem microbiológica para a indica- 156 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 153-157, abr/jun, 2005 ção de quimioprofilaxia. O novo Guia recomenda que todas as gestantes entre a 35ª e a 37ª semana de gestação devem se submeter à realização de swab retal e vaginal para análise microbiológica, a fim de detectar a colonização por EGB. A opção pela coleta do material entre a 35ª e a 37ª semana de gestação se justifica por ser o período de maior sensibilidade e especificidade para a detecção de mulheres que persistem colonizadas até o momento do parto1, 10. Além da cultura positiva para EGB, entre a 35ª e 37ª semana de gestação, a antibioticoprofilaxia intraparto para as grávidas fica também determinada a partir de alguma das seguintes características: bacteriúria por EGB, já que é um sinal de grande colonização genital; filho anterior com doença por EGB; estado desconhecido para EGB juntamente com: parto pré-termo <37 semanas ou, ruptura da membrana amniótica por tempo superior a 18 horas ou ainda febre intraparto.(1) A antibioticoprofilaxia baseada em critérios de risco segundo o novo Guia não é mais uma alternativa aceitável já que, vários casos de infecção neonatal pelo EGB não seriam prevenidos10 considerando que cerca de 75% das mulheres não apresentam esses fatores intra-parto.(1) Poderá ser administrada, durante o parto, em circunstâncias em que os resultados da cultura não estiverem disponíveis. O Guia atual do CDC(1) ressalta, ainda, que a colonização em gestação anterior não é indicação para antibioticoprofilaxia nas gestações posteriores, exceto se houver persistência da colonização e que a realização de cesariana não previne a transmissão vertical de EGB. Adverte que quando a cesariana for realizada antes do trabalho de parto em uma mulher com membrana amniótica intacta, o risco de transmissão do EGB é muito baixo e, sendo assim, os riscos de a mãe receber antibioticoprofilaxia intraparto podem superar os benefícios. Logo, nesse caso específico não é recomendado. O antibiótico de escolha para a profilaxia intraparto preconizado pelo Guia do CDC(1) é a penicilina (5 milhões de unidade) que deve ser administrada por via intravenosa no mínimo 4 horas antes do nascimento. Caso o trabalho de parto se estenda por mais de 4 horas, deve-se administrar a penicilina (2,5milhões de unidades) a cada 4 horas, até o momento do parto. CONSIDERAÇÕES FINAIS Prevenir a infecção perinatal por EGB é um desafio a ser enfrentado pelos profissionais de saúde que se dedicam à área materno-infantil. Recomendações baseadas em evidências científicas demonstram a eficácia e o benefício clínico da prevenção para redução da ocorrência de doença perinatal por EGB. A pesquisa de gestantes colonizadas pelo EGB entre a 35a e a 37 a semana de gestação e a antibioticoprofilaxia intraparto são as principais recomendações para prevenção. Há de se considerar, entretanto, os obstáculos para implementação de tais medidas, especialmente em relação aos serviços de saúde que não possuem estrutura adequada para realização de exames microbiológicos capazes de rastrear gestantes colonizadas por EGB. Nesse caso, a preven- ção baseada em fatores de risco, pode constituir alternativa de valor. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1-CDC. Prevention of perinatal streptococcal disease. MMWR 2002; 51(RR11): 1-24 2- Ritchman R. 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Enf; 9(2): 153-157, abr/jun, 2005 n 157 A Abordagem da Sexualidade Humana … A ABORDAGEM DA SEXUALIDADE HUMANA NA COLETA DE DADOS EM ENFERMAGEM: DESAFIO PARA ENFERMEIROS1 AN APPROACH TO HUMAN SEXUALITY IN NURSING DATA COLLECTION: A CHALLENGE TO NURSES ENFOQUE DE LA SEXUALIDAD HUMANA EN LA RECOLECCIÓN DE DATOS EN ENFERMERÍA: DESAFÍO PARA ENFERMEROS Alexandra de Souza Melo2 Emília Campos de Carvalho3 RESUMO O estudo objetiva apresentar os aspectos da sexualidade humana que devem ser abordados, segundo a literatura, numa coleta de dados aplicada a uma pessoa adulta. Foram analisadas sete publicações específicas no período de 1960 a 2003. A literatura demonstrou que existem aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais que envolvem a sexualidade. No aspecto biológico, devem-se investigar as três fases da resposta sexual: desejo, excitação e orgasmo, relacionando-as com alterações biológicas; o psicológico deve envolver a auto-imagem sexual e o sociocultural deve conter dados a respeito do papel social e do sexual, abrangendo o relacionamento sexual, além dos tabus e crendices sexuais. Palavras-chave: Sexualidade; Pesquisa em Enfermagem ABSTRACT The aim of this study is to present specific aspects of data collection in adult clients. The authors analyzed seven specific publications in the period 1960-2003. The literature consisted of biological, psychological and socio-cultural aspects involving sexuality. As to biology, it is important to investigate three phases of sexual response: desire, excitement and orgasm, relating them to biological alterations. Sexual self-image should be included in the psychological data; whereas the socio-cultural aspect should include data on taboos, sexual beliefs and social and sexual roles, including sexual relations. Key-words: Sexuality; Nursing Research RESUMEN El objetivo del estudio es presentar los aspectos de la sexualidad humana que deben enfocarse, según la literatura, en la recolección de datos de un adulto. Se analizaron siete publicaciones específicas entre 1960 – 2003. La literatura demuestra que hay aspectos biológicos, psicológicos y socioculturales involucrados en la sexualidad. En el aspecto biológico hay que investigar tres etapas de la respuesta sexual: deseo, excitación y orgasmo, y relacionarlas a alteraciones biológicas; lo psicológico debe incluir la autoimagen sexual y lo sociocultural datos sobre el rol social y sexual, contando con la relación sexual, además de los tabúes y supersticiones sexuales. Palabras clave: sexualidad, investigación en enfermería. 1 2 3 Trabalho extraído da tese de Doutorado "Validação dos diagnósticos de Enfermagem"Disfunção Sexual" e "Padrões de Sexualidade Ineficazes"", apresentada ao Programa Interunidades de Doutoramento em Enfermagem, da EERP – USP. Enfermeira. Doutora em Enfermagem pelo Programa Interunidades de Doutoramento em Enfermagem, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – USP. Enfermeira. Professora Titular da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – USP. Endereço para correspondência: R. Porto União 28, apto 21, CEP 14055-460. Ribeirão Preto S.P – E-mail: [email protected] 158 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 158-162, abr/jun, 2005 INTRODUÇÃO Preconiza-se na Enfermagem que o indivíduo deve ser assistido em sua totalidade. Relacionando este paradigma de assistência com a definição de que a sexualidade é "uma parte intrínseca de nossa existência"(1), pode-se concluir que a sexualidade deve ser contemplada pelo processo de assistência de enfermagem, constituindo-se em domínio de prática desta profissão. Esta área do conhecimento apresenta inter-relação com diversos campos e formas de assistir o ser humano. Mas, será que os profissionais de Enfermagem estão preparados para lidar com a sexualidade do outro, identificando suas necessidades? Na literatura da enfermagem brasileira estudos comentam sobre o despreparo da Enfermagem para lidar com o assunto sexualidade humana(2), evidenciando que as enfermeiras têm sido formadas para lidar com os aspectos físicos e emocionais da doença, mas não com o desenvolvimento psicossexual dos seres humanos.(3) Em um outro estudo com enfermeiros, Pelá et al.(4) concluíram que apenas 25% da amostra estudada tinha o conteúdo sobre sexualidade humana incluído em sua formação acadêmica. Essa lacuna persiste até os dias de hoje, visto que não há uma disciplina específica sobre sexualidade humana, na maioria dos cursos de graduação em Enfermagem. Algumas disciplinas abordam apenas alguns aspectos da sexualidade, não dando subsídios suficientes para o enfermeiro atuar nessa área, no contexto da assistência. Portanto, se o enfermeiro não recebe preparo para lidar com a sexualidade do cliente, certamente não identificará, na coleta de dados, informações relevantes sobre essa área e, conseqüentemente, não prestará assistência de enfermagem a tais aspectos. Inclusive, há dois diagnósticos de enfermagem a respeito de sexualidade contidos na taxonomia II da North American Nursing Diagnosis Association (NANDA): Disfunção Sexual e Padrões de Sexualidade Ineficazes(5), cujas definições apresentam uma abordagem da sexualidade que vai muito além da prática atual de coleta de dados, realizada pela maioria dos enfermeiros. Por sua vez, esses profissionais investigam, basicamente, a presença de vida sexual ativa e o uso de métodos contraceptivos. Portanto, a identificação desses diagnósticos, de forma a expressar a situação dos clientes, dependerá da abordagem dos diferentes aspectos da sexualidade na coleta de dados. Partindo dessas considerações, este estudo pretende apresentar os aspectos da sexualidade humana que devem ser abordados, segundo a literatura, numa coleta de dados aplicada a uma pessoa adulta. METODOLOGIA Com o intuito de priorizar os aspectos a serem apresentados, foi realizado, inicialmente, um levantamento bibliográfico, através das fontes: "Lilacs", "Medline" e "Dedalus". Os unitermos adotados em português e inglês para as duas primeiras fontes foram: sexualidade e enfermagem (sexuality and nursing), diagnóstico de en- fermagem e sexualidade (nursing diagnosis and sexuality) e coleta de dados e enfermagem e sexualidade (nursing assessment and sexuality). Especificamente na fonte "Dedalus", para uma busca mais refinada, utilizaram-se os unitermos: sexualidade e enfermagem e diagnóstico de enfermagem; coleta de dados e sexualidade. Foi considerado o período de 1960 a 2003. Na fonte "Lilacs", foram encontradas 79 referências bibliográficas; no "Medline", foram 113 e, no "Dedalus", 14 referências; no total, foram 218 referências bibliográficas. A partir daí, procedeu-se à leitura seletiva dos resumos que consistiu na discriminação do material, quanto à sua pertinência ao estudo ou não. Foram selecionadas 20 referências bibliográficas do "Lilacs"; 16 do "Medline" e 04 do "Dedalus" por enfocarem o tema sobre a assistência de enfermagem, com maior abrangência. Em seguida, procedeu-se à localização dessas publicações e consulta, através de leitura. Porém, houve 05 publicações do "Lilacs" e 06 do "Medline", cuja consulta não foi possível em razão do difícil acesso. O objetivo da leitura dessas 29 publicações foi identificar as obras utilizadas sobre sexualidade, para configurar a sua estrutura teórica. A partir daí, procedeu-se à localização das obras selecionadas e sua leitura reflexiva, objetivando buscar os aspectos da sexualidade que devem ser abordados na coleta de dados em enfermagem, fundamentados teoricamente. É importante ressaltar que foi encontrada uma diversidade de obras e autores brasileiros a respeito da sexualidade humana, com os mais diferentes temas. Porém, ao serem consultadas, observou-se que são trabalhos que abrangem aspectos pontuais da sexualidade ou em populações específicas. No levantamento realizado em 29 publicações, foram identificadas obras específicas sobre sexualidade humana, com temáticas pioneiras nessa área, como os estudos de William Masters e Virginia Johnson(6) que trazem as fases genitais da resposta sexual, sendo esta uma referência utilizada até os dias atuais; os estudos de Kaplan(7,8) sobre as fases da resposta sexual, contribuindo com maiores subsídios sobre os distúrbios sexuais e uma obra que retrata exclusivamente a assistência de enfermagem e a sexualidade humana.(1) Houve, também, três obras, indicadas por pesquisadores da área, relevantes para este trabalho, uma relaciona o assunto sexualidade humana com os inúmeros distúrbios físicos que acometem o organismo de um ser humano(9), além das fases genitais da resposta humana; outra traz um estudo sobre as inadequações sexuais humanas(10) e, finalmente, a última obra apresenta as múltiplas faces da sexualidade humana.(11) Portanto, a amostra deste estudo constitui-se de sete obras específicas sobre sexualidade humana. RESULTADOS E DISCUSSÃO Dados relevantes a serem incorporados na Avaliação de Enfermagem Consideramos inicialmente importante ressaltar que, durante a entrevista de enfermagem, os dados dos clien- REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 158-162, abr/jun, 2005 n 159 A Abordagem da Sexualidade Humana … tes devem ser indagados concomitantemente à observação clínica (exame físico) do cliente; principalmente, os dados de caráter biológico, que envolvem a integridade do organismo, pois, o comprometimento da maioria dos órgãos reflete direta ou indiretamente na sexualidade. Esta proposta corrobora a literatura que considera o exame físico necessário, para validar os dados obtidos durante a entrevista e obter novos dados.(12) As obras consultadas demonstram que há aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais que envolvem a sexualidade. Portanto, todos devem ser abordados na coleta de dados. Para Gir et al.(13) torna-se utópico querer abordar a sexualidade isoladamente. Aspecto biológico que envolve a sexualidade Quando a literatura se reporta ao aspecto biológico que envolve a sexualidade, há predominância da abordagem do funcionamento dos órgãos genitais e da fisiologia da resposta sexual humana. Kaplan(7) afirma que para o funcionamento sexual adequado, é primordial a integridade dos órgãos genitais. Porém, Hogan(1) ressalta que a integridade dos sistemas nervoso central, endócrino e vascular é tão importante quanto a dos órgãos genitais. Com isso, no que diz respeito ao aspecto biológico, é importante relacionar o quadro patológico geral do cliente às drogas utilizadas no tratamento e os achados do exame físico à sexualidade do cliente. A doença e sua terapêutica, ao comprometer um ou mais sistemas do organismo, pode ter influência em uma ou mais fases da resposta sexual humana compreendidas como fases genitais que se dividem em quatro estágios: excitação, platô, orgasmo e resolução.(6) Em 1979, foi apresentada uma compreensão significativa dessas fases, que ficaram conhecidas como fases biológicas da resposta sexual humana, contemplando: desejo, excitação e orgasmo, as quais, apesar de serem fases distintas, estão interligadas entre si.(7,8) Fundamentado nessas fases, surge o conceito de disfunção sexual que consiste em qualquer desajuste, total ou parcial, que ocorra em uma dessas fases.(8,11) A fase do desejo é caracterizada como um "comportamento encoberto", ou seja, subjetivo. (8,11) Porém, a Enfermagem, deve compreender que se trata de dado subjetivo, mas diretamente relacionado ao aspecto biológico. Logo, na entrevista, é importante que seja abordado não só o interesse da pessoa em participar de atividade sexual, mas também a sensação de sentir-se ou não desejável pelo outro, pois aquele que não se sente desejável, dificilmente conseguirá despertar o desejo sexual no outro. Vale ressaltar que ao referir à atividade sexual, estamos abordando a relação sexual e a masturbação e recomendamos que o enfermeiro, ao coletar esses dados, não use a palavra desejável e, sim, atraente e/ou sensual. Porém, o fato de sentir-se ou não desejável está relacionado com a auto-imagem que, por sua vez, está relacionado ao aspecto psicológico que envolve a sexualidade. 160 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 158-162, abr/jun, 2005 Em face dessas considerações, temos que admitir que há uma grande dificuldade em avaliar as conseqüências das doenças físicas sobre a sexualidade, não tendo como delimitar "até onde vai a ação direta da doença ou onde começa a manifestação psicológica".(11) Na fase da excitação, se o sujeito for homem, devese questionar problemas relacionados ao alcance ou manutenção da ereção. No caso da mulher, a investigação centraliza-se na lubrificação vaginal e na presença de dispareunia. Considerando que essa fase caracteriza-se por um fenômeno vasocongestivo e, também, reflexo nos homens, um distúrbio do sistema cardiovascular e/ ou do sistema nervoso podem, certamente, comprometer a excitação masculina e feminina.(9,11) Sendo assim, a Enfermagem diante de distúrbios dessa natureza deve orientar o cliente sobre as possíveis complicações da doença. Quanto à fase do orgasmo, deve ser questionada a capacidade de atingir a satisfação sexual, manifestada pela sensação de prazer sexual e, no caso dos homens, também a percepção em atingir o prazer muito rápido.(6,9) Com relação à mulher, é importante, ainda, investigar a vida reprodutiva e ginecológica, com dados a respeito da história menstrual, gravidez, aborto e freqüência a consultas ginecológicas. Além da coleta de dados sobre as três fases da resposta sexual, relacionando os dados com os do exame físico, sugerimos que seja questionada a percepção do cliente a respeito de alguma limitação do estado de saúde ou do tratamento na sua vida sexual, a fim de completar todas as possíveis alterações e para facilitar a investigação, é desejável que se faça uma comparação da resposta sexual, antes e após a mudança do estado de saúde, se for o caso, ou desde a época em que se iniciaram suas atividades sexuais até o aparecimento da alteração. Aspecto psicológico que envolve a sexualidade Considerando-se o aspecto psicológico, Hogan(1) orienta que devem ser avaliadas as alterações na auto-imagem sexual, sendo esta definida como a imagem que temos de nós próprios como homens e mulheres, influenciados pela imagem corporal.(1) Kolodny et al.(9) salientam que, mediante uma modificação negativa na auto-imagem, principalmente, decorrente de processos patológicos ou terapêuticos, pode ocorrer um sentimento de inferioridade, por se sentir feia ou diferente das outras pessoas. Sendo assim, é importante investigar a respeito das alterações físicas, decorrentes do processo patológico e terapêutico, vivenciadas atualmente e a interferência dessas alterações na vida sexual, pois sabe-se que um distúrbio da imagem corporal está diretamente relacionado à auto-estima que, por sua vez, também influencia a sexualidade. A abordagem das práticas e hábitos sexuais pode contemplar tanto os aspectos biológicos quanto o psicológico que envolvem a sexualidade. Se o enfoque for a avaliação de riscos de se adquirir doenças através da relação sexual, comprometendo a integridade dos órgãos genitais, trata-se de como aspecto biológico que envolve a sexualidade. Porém, se a avaliação centralizarse no comportamento da pessoa diante das suas atividades sexuais, refere-se ao aspecto psicológico. De um modo geral, a literatura, a respeito de práticas e hábitos sexuais, engloba a investigação sobre a parceria sexual, especificando, se caracteriza uma parceria fixa ou não, o número de parceiros por ano e, principalmente, o uso de métodos contraceptivos e de proteção física. Sabe-se que o uso da camisinha é um hábito que deve ser praticado por todos; portanto, cabe à Enfermagem exercer sua prática educativa, no que diz respeito à orientação do uso desse método. Ressaltamos que, durante a assistência de enfermagem a pacientes portadores de distúrbios onco-hematológicos, que caracterizam uma população em que o uso da camisinha é essencial, devido ao comprometimento de sua imunidade, observamos que essa prática não está se efetuando, em parte importante dessa clientela que tem vida sexual ativa. Esse fato nos remete à necessidade de identificar tais hábitos, para se reforçar ou introduzir ações educativas de promoção à saúde e prevenção de doenças à população e à clientela de pacientes imunossuprimidos em especial. Aspecto sociocultural que envolve a sexualidade O aspecto sociocultural que envolve a sexualidade deve englobar, na coleta de dados, o papel social(1,11) e o papel sexual.(1,9) A palavra ‘papel’ é definida como o comportamento de uma pessoa, segundo a expectativa de um grupo familiar, religioso, enfim, dos grupos de que a pessoa faz parte.(11) Sendo assim, o grupo social determina os nossos "papéis" e sua aprendizagem ocorre durante toda a vida, conhecida como processo de socialização. Segundo Chauí(14), os grandes mentores desse processo são a família e a religião. Hogan(1) considera que a interrupção temporária ou definitiva dos papéis sociais, desempenhados por uma pessoa na família, pode acabar influenciando sua sexualidade, principalmente se o motivo do afastamento for doença. Pode não só interferir no desempenho do papel social da pessoa acometida, como também refletir-se negativamente na sua vida sexual. Um exemplo disso ocorre quando a doença atinge o cônjuge responsável pela manutenção econômica da família, podendo ser tão estressante, a ponto de os parceiros não pensarem na sua vida sexual e até se afastarem um do outro. Nessa ótica, é importante investigar qual o papel que a pessoa desempenha na sua família, quais as limitações do estado de saúde ou do tratamento na vida diária e se o afastamento dessas atividades tem influência na sua vida sexual. A religião, caracterizada como um sistema de crenças, determina o comportamento das pessoas, de acordo com seus preceitos morais; sabendo disso, a Enfermagem deve investigar dados sobre as práticas religio- sas, bem como a influência dessa religião na vida sexual do paciente. Esses dados são importantes para o planejamento da assistência de enfermagem a respeito da sexualidade, evitando que o enfermeiro, inadvertidamente, provoque no cliente conflito de valores, através de suas orientações. Observa-se que, ao discutir o meio social, não podemos deixar de referir as relações interpessoais, nas quais pode-se incluir o relacionamento sexual.(1,9,11) O relacionamento sexual envolve o diálogo entre os parceiros, o toque, as carícias, enfim, a maneira como se expressa um sentimento para com uma pessoa significativa em sua vida.(1) Neste sentido, a coleta de dados deve centralizar-se na percepção de alterações nesse relacionamento, principalmente, pela possibilidade de a pessoa, acometida por determinados processos patológicos, sentir que a sua sexualidade alterou-se, por meio do diagnóstico médico.Hogan(1) menciona que, consciente ou inconscientemente, isso diminui a aproximação entre parceiros sexuais, tanto em contato físico, quanto em comunicação. Em situação presenciada, durante assistência de enfermagem a pacientes portadores de distúrbios oncohematológicos, o paciente refere uma maior atenção do(a) parceiro(a) sexual, após a mudança do estado de saúde, mas também uma falta de diálogo entre eles, a respeito de seus sentimentos. A comunicação deles passa a centralizar-se no tratamento e, quando o cliente está envolvido numa internação hospitalar, concentrase em notícias da família. Portanto, a Enfermagem deve incentivar os parceiros ao diálogo a respeito do relacionamento entre eles, durante essa visita ou mesmo em domicílio, bem como evitar interromper o diálogo entre parceiros(as) durante a visita hospitalar. O papel sexual, também conhecido como papel de gênero, é definido como sendo nosso comportamento perante os demais e a sociedade.(9,10) No entanto, a averiguação, a respeito desse papel, centraliza-se na maneira da expressão sexual da pessoa, questionando se ela combina ou não com as normas da sociedade e se a prática o incomoda.(1,9) Costa(10) ressalta que é importante também questionar a respeito do papel afetivo-sexual que se caracteriza como vínculo, ou seja, o relacionamento entre as pessoas em face da sociedade. Para isso, deve-se investigar se o relacionamento que a pessoa mantém é com alguém do sexo oposto ou não. A abordagem do papel sexual e do papel afetivo-sexual pode aparentemente não ter significado, mas ganha importância quando se caracteriza como um fator de preocupação na vida desse sujeito. Ainda há de se considerar a investigação quanto à presença de tabus e crendices sexuais, sendo que tabus são idéias proibidas a respeito da atividade sexual, com prejuízo para quem praticá-las, e crendices são informações sem fundamento sobre assuntos sexuais.(11) Portanto, cabe ao enfermeiro perguntar sobre essas questões na vida sexual, podendo questionar se, em algum momento, alguém ensinou que algo era proibido e o que se pode ou não fazer a respeito de sexo. REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 158-162, abr/jun, 2005 n 161 A Abordagem da Sexualidade Humana … Como se percebe, todos esses dados, independentemente do aspecto abordado, são importantes para avaliar como as alterações que ocorrem no organismo interferem na sexualidade de uma pessoa. CONSIDERAÇÕES FINAIS A literatura traz os aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais que envolvem a sexualidade. Esses dados, ao serem coletados pela Enfermagem, devem identificar suas relações com outras alterações que o cliente possa estar apresentando. Porém, a relação desses aspectos da sexualidade com as alterações do organismo não tem sido considerada na assistência de enfermagem, evidenciando-se, que a identificação de alterações na área da sexualidade humana deve ser valorizada. A assistência a problemas sexuais não deve ser somente da responsabilidade do enfermeiro, mas compartilhada com médicos, psicólogos e sexólogos, quando houver. O desenvolvimento de competência para dar assistência ao cliente nesta área é responsabilidade das instituições formadoras, assim como do próprio profissional. Para isso, sugere-se que o assunto Sexualidade Humana deve ser abordado no currículo de graduação em Enfermagem não só como uma disciplina específica, mas também como tema transversal no decorrer do curso. Independentemente do modelo e da estrutura curricular adotados, o conteúdo deve englobar a fisiologia da resposta sexual humana, a abordagem da auto-imagem sexual e do papel social e sexual. Recomenda-se a inclusão dos aspectos abordados quanto à sexualidade na coleta de dados praticada pelos enfermeiros, durante a assistência de enfermagem, bem como a reflexão sobre a importância desses aspectos em nossas próprias vidas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Hogan RM. Human sexuality – a nursing perspective. United States of America: Appleton-Century-Crofts; 1985:747. 2. Ferreira MA, Figueiredo NMA. Expressäo da sexualidade do cliente hospitalizado e estratégias para o cuidado de enfermagem. Rev Bras Enf1997; 50(1):17-30. 3. Zalar MK. Role preparation for nurses in human sexual functioning. Clin North Am 1982; 17(3):351-63. 4. Pelá NTR, Melo AS, Santana WMS, Nhamba AL. A sexualidade humana no contexto da assistência de enfermagem. Rev Bras Sexual Humana 1995; 6(1): 99-113. 5. North American Nursing Diagnosis Association – NANDA. Diagnósticos de enfermagem da NANDA: definições e classificação 20012002. Philadelphia: NANDA; 2001:288. 6. Masters WH, Johnson V. Human sexual response. Boston: Little Brown; 1966.. 7. Kaplan HS. A nova terapia do sexo: tratamento dinâmico das disfunções sexuais. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1977. p.494. 8. Kaplan HS. O desejo sexual – e novos conceitos e técnicas da terapia do sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1983. p.231. 9. Kolodny RC, Masters WH, Johnson VE. Manual de medicina sexual. St.Louis: Manoele; 1982. p.640. 10. Costa RP. Os onze sexos: as múltiplas faces da sexualidade humana. São Paulo: Gente; 1994. p.207. 11. Cavalcanti R, Cavalcanti, M. Tratamento clínico das inadequações sexuais. 2ª. ed. São Paulo: Roca; 1996. p.480. 162 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 158-162, abr/jun, 2005 12. Griffith-Kenney JW, Christensen PJ, eds. Nursing process: application of theories, frameworks and models. A multifocal approach to individuals, families and communities. 2ª. ed. St. Louis: Mosby; 1986. p.429. 13. Gir E, Nogueira MS, Pelá NTR. Sexualidade humana na formação do enfermeiro. Rev. Latino-Am. Enf 2000; 8(2):33-40. 14. Chauí M. Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida. 12ª. ed. São Paulo: Brasiliense; 1991. p.234. Recebido em: 21/02/2005 Aprovado em: 11/07/2005 A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA FAMÍLIA BRASILEIRA1 THE EVOLUTION OF BRAZILIAN FAMILIES LA EVOLUCIÓN HISTÓRICA DE LA FAMILIA BRASILEÑA Paula Cambraia de Mendonça Vianna2 Sônia Barros3 RESUMO Trata-se de uma revisão bibliográfica sobre a evolução histórica da família brasileira, procurando contextualizar suas formas de organização social, política, econômica e cultural, desde o descobrimento do Brasil até os dias atuais. Palavras-Chave: Família; História; Brasil; Organização Social ABSTRACT This study is a review of the literature on the evolution of Brazilian families. It also contextualizes their forms of social, political, economic and cultural organization, since the discovery of Brazil until today. Key-Words: Family; History; Brazil; Social Organization. RESUMEN Este estudio incluye una revisión bibliográfica de la evolución histórica de la familia brasileña e intenta contextualizar sus formas de organización social, política, económica y cultural desde el descubrimiento de Brasil hasta hoy. Palabras Clave: Familia; Historia; Brasil; Organización Social 1 2 3 Este artigo faz parte da tese de Doutorado de Paula Cambraia de Mendonça Vianna, realizada na Escola de Enfermagem/USP, no período de 1999 a 2002. Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem/USP. Professora da Escola de Enfermagem/UFMG.E-mail: [email protected] Doutora em Enfermagem. Professora da Escola de Enfermagem/USP. E-mail: [email protected] Endereço para correspondência: Av. Alfredo Balena, 190, sala 600. Cep: 30.130-100. Belo Horizonte-MG REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 163-167, abr/jun, 2005 n 163 A Evolução Histórica da Família… INTRODUÇÃO Quando os portugueses chegaram ao Brasil, encontraram a terra e o homem em estado bruto. Seus habitantes dormiam em redes ou no chão, viviam da caça e da pesca, plantavam pequenas lavouras, andavam nus. Não havia riquezas minerais disponíveis para um intercurso comercial vantajoso, ao contrário das expedições realizadas ao Oriente onde era abundante o comércio de especiarias e de pedras preciosas. Em terras brasileiras, a única possibilidade de fortuna seria a exploração agrária e o povoamento regular. No início da colonização formou-se, no Brasil, uma sociedade de estrutura agrária, escravocrata na técnica de exploração econômica, mestiça de índio, de português e, mais tarde de negro, em sua composição.(1) Os índios sofreram, com a colonização, um enorme impacto em sua vida social, econômica e cultural desfazendo o equilíbrio nas relações do homem com a natureza. Os portugueses e, sobretudo, os jesuítas não aceitavam os valores e costumes indígenas, pois feriam a moral católica e as normas da Igreja. Freyre(1) aponta, de acordo com o quadro organizado pelo antropólogo inglês Pitt-Rivers sobre as influências maléficas do contato de raças em diferentes níveis de desenvolvimento, alguns fatores responsáveis pela degradação da raça e da cultura indígena no Brasil: • a concentração dos índios em grandes aldeias. Acostumados com a vida dispersa e nômade, os índios não se habituaram às grandes concentrações e a sedentariedade absoluta; • o vestuário europeu; • a segregação dos índios nas plantações; • o obstáculo ao casamento à moda indígena; • a aplicação da legislação penal européia a supostos crimes de fornicação; • a abolição de guerras entre as tribos; • a abolição da poligamia; • o aumento da mortalidade infantil devido às novas condições de vida impostas pelos colonizadores; • a abolição do sistema comunal e da autoridade dos chefes e dos pajés. Entre os índios, os homens eram responsáveis pelas atividades da caça, da pesca, do remo e da guerra. As mulheres plantavam pequenas lavouras de mandioca, cará, milho, jerimum, amendoim e mamão; buscavam água nos riachos; cuidavam das crianças; preparavam a comida; e produziam o necessário à vida e ao conforto comuns. Os animais domesticados pelo índio não eram utilizados no serviço doméstico e nem no transporte de cargas, que era feito no dorso do homem e, principalmente, da mulher. A poligamia era difundida e não só os chefes mas, também, os fortes e os que podiam manter família grande casavam-se com várias mulheres. As relações incestuosas eram freqüentes e o parentesco verdadeiro se dava por parte de pai pois a mãe servia apenas para gerar a criança. A adaptação da mulher indígena aos costumes portugueses aconteceu mais facilmente devido a sua maior 164 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 163-167, abr/jun, 2005 estabilidade entre os povos nômades. Ao contrário, o índio não se adaptou ao trabalho agrícola, mas foi o grande companheiro do português na obra de conquista dos sertões e defesa da colônia, servindo como guia, canoeiro, guerreiro, caçador e pescador. Devemos considerar a mulher indígena como a base física da família brasileira e, também, um valioso elemento de cultura. Ela nos enriqueceu com seus alimentos, drogas e remédios caseiros, utensílios de cozinha, higiene diária, rede e óleo para o cabelo. O negro com seu temperamento extrovertido, alegre, ágil vem substituir o índio moroso e introvertido na lavoura, na casa-grande e no serviço doméstico. Segundo Freyre(1), "no caso dos negros, comparados com os indígenas do Brasil, pode-se talvez atribuir parte de sua superioridade de eficiência econômica e eugênica ao regime alimentar mais equilibrado e rico que o dos outros, povos ainda nômades, sem agricultura regular nem criação de gado". O português não trouxe da África apenas os negros dos canaviais e cafezais. Vieram, também, as "donas de casa" para os colonos sem mulher branca, técnicos para as minas, artífices em ferros, entendidos na criação de gado e na indústria pastoril, comerciantes, mestres e sacerdotes. Para os comerciantes portugueses que massacraram essa cultura milenar, a África representava apenas um lugar onde homens negros eram caçados. "Sempre que considerarmos a influência do negro sobre a vida íntima do brasileiro, é a ação do escravo, e não a do negro por si, que apreciamos...O negro nos aparece no Brasil, através de toda a nossa vida colonial e da nossa primeira fase da vida independente, deformado pela escravidão. Pela escravidão e pela monocultura de que foi o instrumento, o ponto de apoio firme, ao contrário do índio, sempre movediço".(1) A cultura africana contagiou e enriqueceu a cultura brasileira através do grande número de escravos e da freqüente comunicação com os portos africanos. O negro trouxe para a nossa cultura a ternura, a mímica excessiva, a música, a dança, a comida, o canto de ninar menino pequeno. As histórias e as músicas portuguesas foram modificadas pelas negras e amas-de-leite. Tornavam-se ora mais ternas, ora mais assustadoras e o universo do menino brasileiro passou a ser povoado por lendas, assombrações e cantigas indígenas, negras e portuguesas. "A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles...O ‘dói’ dos grandes tornou-se o ‘dodói’ dos meninos. Palavra muito mais dengosa".(1) Entretanto, apesar de tudo que o negro trouxe de positivo para a cultura brasileira, ele foi tratado sempre como um objeto, uma mercadoria pelo povo português, pois até o cuidado que lhes era dispensado deve ser entendido como zelo, pelo capital que representava. Como cita Holanda(2:54) "chega-me a parecer que [os] criam como se criam as pombas para ir ao mercado". O jesuíta Antonil, citado por Del Priore e Venâncio(3:63), alertou os senhores de engenho quanto ao grau de violência que devia ser destinado ao negro: "Aos feitores, de nenhuma maneira se deve consentir o dar couces, principalmente nas barrigas das mulheres que andam pejadas, nem dar com paus nos escravos porque na cólera não se medem os golpes, e pode ferir na cabeça um escravo de muito préstimo, que vale muito dinheiro e perdê-lo". Alguns fatores favoreceram a colonização portuguesa nos trópicos. Nenhum outro povo colonizador demonstrou tamanha miscibilidade e aclimatabilidade como o português. Povo indefinido entre a Europa e a África, herdou dos dois continentes características bastante peculiares, aproveitaram-se da gente nativa e principalmente da mulher, não só como instrumento de trabalho mas como um elemento fundamental de formação da família.(1) Para esse autor, o português "não só conseguiu vencer as condições de clima e de solo desfavoráveis ao estabelecimento de europeus nos trópicos, como suprir a extrema penúria de gente branca para a tarefa colonizadora unindo-se com mulher de cor. Pelo intercurso com mulher índia ou negra multiplicou-se o colonizador em vigorosa e dúctil população mestiça, ainda mais adaptável do que ele ao clima tropical".(1) Diferentemente da colonização em outros locais da América, os portugueses foram os primeiros europeus a se estabelecerem verdadeiramente nas colônias e, para isso, alguns deles venderam o que possuíam em Portugal e mudaram-se com suas famílias para as novas terras. Segundo Freyre(1), "a família, não o indivíduo, nem tampouco o Estado nem nenhuma companhia de comércio, é desde o século XVI o grande fator colonizador no Brasil, a unidade produtiva, o capital que desbrava o solo, instala as fazendas, compra escravos, bois, ferramentas, a força social que se desdobra em política, constituindose na aristocracia colonial mais poderosa da América. Sobre ela o rei de Portugal quase que reina sem governar". A colonização por indivíduos, entre eles, aventureiros, degredados, cristãos novos, quase que não deixou traços na economia brasileira. DESENVOLVIMENTO Os legados indígena, africano e português foram de vital importância para a formação e organização da família brasileira. Segundo Samara(4), "a família brasileira seria o resultado da transplantação e adaptação da família portuguesa ao nosso ambiente colonial, tendo gerado um modelo com características patriarcais e tendências conservadoras em sua essência". Esse tipo de família era característico das lavouras canavieiras do Nordeste e tinha uma estrutura bastante complexa. Ligados ao núcleo central, dono da casa, mulher e prole legítima, encontravam pessoas vinculadas ao proprietário por laços de parentesco, trabalho ou amizade. O patriarca era o responsável pela preservação da linhagem e da honra familiar e sua autoridade era exercida sobre a mulher, os filhos e as demais pessoas que viviam no latifúndio, "sendo o núcleo doméstico para onde convergia a vida econômica, social e política".(4) Contudo, nas cidades imperavam as famílias com estruturas mais simples e com poucos integrantes, em média entre um e quatro elementos. Entre as classes mais pobres da população, havia uma certa resistência ao casamento, associada geralmente à falta de recursos dos noivos e ao alto custo das despesas matrimoniais. Optavam por uniões ilegítimas, mesmo sob pena de serem recolhidos às cadeias e sentenciados pela Junta da Justiça. Os matrimônios eram "preferencialmente circunscritos aos grupos de origem, representando a união de interesses, especialmente entre a elite branca. Esta, interessada na manutenção do prestígio e da estabilidade social, procurava limitar os casamentos mistos quanto a cor, assim como em desigualdade de nascimento, honra e riqueza".(4) Nas famílias mais abastadas, esses fatores eram relevantes e os casamentos, muitas vezes, deixaram de acontecer por falta de cônjuges elegíveis. Essa falta de pretendentes estimulou a fusão dos grupos provocando alterações no quadro social brasileiro. O pudor, a docilidade, a delicadeza, a graça, a beleza, a obediência e a submissão feminina eram os atributos desejados pela sociedade da época no que tange à mulher. Era papel da família desenvolver essas qualidades e existia, por parte dos pais, uma grande preocupação com a educação das filhas mulheres. Procuravam "incliná-las ao amor da pureza virginal; afastá-las da familiaridade de todo homem que não fosse irmão e das criadas e amigas pouco honestas: e incliná-las, desde cedo, ao louvor, ao rosário, à lição espiritual e à devoção à Virgem Maria".(5) O casamento era, além da vida religiosa e do recolhimento, uma das poucas opções que restava à mulher e representava proteção e sobrevivência decente, pois era competência do marido zelar pelos bens e pela segurança da mulher e da prole. Em caso de morte dos pais, entre as responsabilidades impostas aos tutores, estava a de arranjar marido para as filhas mulheres. A legalização das uniões dependia do consentimento paterno e o amor ocupava lugar de pouca importância nos casamentos. "Nos testamentos, são mais comuns as referências a estima, dedicação e gratidão do que realmente ao amor do casal. Carinho e amor são aspectos relevantes nos casamentos dos pobres e libertos. Talvez, por isso, se desfizessem, com facilidade, essas uniões. Os padrões de moralidade eram mais flexíveis e havia pouco a se dividir ou oferecer numa vida simples".(6) As funções da mulher eram restritas ao âmbito doméstico, cuidando da casa e dos filhos. O homem pouco permanecia em casa e o seu tempo livre era gasto na rua, como hábito da época. "Quanto mais distante e inacessível, tanto mais autoridade possuía. Mulheres e filhos ouviam-no, de tempos em tempos, para obedecer. Não havia necessidade de contato permanente e prolongado para que a ordem, na residência colonial, produzisse seus efeitos. O medo à punição bastava".(7) A casa era desvalorizada, havia pouco interesse do homem em torná-la mais atrativa e a mulher nada podia fazer sem o consentimento do marido. Essa desvalorização era traduzida, entre outras coisas, pela pobreza decorativa dos ambientes internos. Mesmo entre as famílias mais abastadas, havia poucos móveis, em geral, toscos REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 163-167, abr/jun, 2005 n 165 A Evolução Histórica da Família… e mal-acabados. A riqueza era demonstrada através dos trajes, dos cavalos enfeitados de prata, do número de escravos e da extensão das terras. A presença de escravos dentro das casas impedia o estabelecimento de uma maior aproximação entre os membros da família. Entretanto, o funcionamento da casa era inviável sem o braço escravo. No que se refere à família escrava, vários fatores interferiram na sua formação. O tráfico negreiro privilegiava o transporte de homens em detrimento do transporte de mulheres e esse desequilíbrio numérico impedia que todos formassem famílias. O espaço social do escravo era restrito à propriedade do senhor. Dessa maneira, os escravos de pequenas propriedades encontravam grandes dificuldades em encontrar parceiras disponíveis. Nas grandes propriedades, onde o relacionamento com o proprietário era mais distante, os escravos tinham a possibilidade de decidir sobre suas próprias vidas, criando laços de união e afeto. Os negros preferiam não formalizar sua união perante a Igreja Católica, pois eram fiéis às crenças africanas e optavam por uniões balizadas por suas tradições. Existia, também, o receio de que o proprietário vendesse ou doasse separadamente pai, mãe e filhos escravos. Contudo, a formação de famílias estáveis escravas foi uma realidade. Mesmo contra a vontade do senhor, os escravos se uniam e a formação de famílias atenuava o peso da escravidão. Os negros eram muitos afeiçoados às esposas e filhos e dentro das senzalas usufruíam o afeto e a liberdade que a escravidão lhes tirara.(8) As crianças brancas eram, geralmente, cuidadas por escravas e pouco representavam afetivamente para os seus genitores. Recebiam castigos violentos por qualquer deslize, quando eram utilizadas as palmatórias, as varas de marmelo, os cipós, entre outros, e aprendiam que a obediência era a única maneira de escapar dos espancamentos. "Do ponto de vista da propriedade, a criança era um acessório supérfluo. Ao pai-proprietário interessava o filho adulto, com capacidade para herdar seus bens, levar adiante seu trabalho e enriquecer a família".(7) Logo que entravam na adolescência, assumiam a postura de adultos e tornavam-se merecedores de maior atenção das famílias. O índice de mortalidade infantil era alto em conseqüência, principalmente, da falta de cuidados dos adultos com as crianças. Atingia, indistintamente, filhos de ricos e pobres, de livres e cativos. Os "enterros de anjos" eram comuns nas cidades brasileiras, e as causas de morte eram decorrentes, principalmente, do mau tratamento do cordão umbilical, do vestuário impróprio, da alimentação inadequada, do desprezo dos adultos com as moléstias da 1ª infância, da falta de higiene, das más condições de habitação, da sífilis, do insucesso dos partos assistidos por parteiras e do despreparo das mulheres que casavam cedo e não estavam aptas para assumir o matrimônio e a procriação.(6) Esperava-se que a mulher casada tivesse vários filhos e essa sucessão de partos contribuía, enormemente, para a sua decadência física e para o seu envelhecimento precoce. Vigiado pelos olhos atentos da Igreja, do Estado, 166 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 163-167, abr/jun, 2005 dos homens e da sociedade, o corpo da mulher não possuía outra tarefa senão a de preencher ordenadamente os vazios demográficos da colônia.(5) Até meados do século XVIII, as ações dirigidas à saúde da população eram precárias e a ausência de médicos era uma constante. Como era proibido o ensino superior nas colônias, os médicos vinham de Portugal em número escasso e mostravam dificuldades de serem eficientes longe dos remédios europeus e, também, pelo desconhecimento da flora local. Nos hospitais, a presença dos médicos não era diária e a assistência aos enfermos era competência e tarefa dos religiosos: são eles os enfermeiros dos hospitais coloniais.(9) Com a presença da Corte, no Rio de Janeiro, esse caos sanitário deveria ser controlado, principalmente devido aos surtos epidêmicos e à taxa de mortalidade elevada. A chegada ao Brasil da Corte Portuguesa e mais cerca de 15 mil pessoas, membros da Corte lusitana e da alta administração do Reino, em 1808, modificaram o perfil das famílias da época. Se, até então, a casa colonial era considerada como um local de reclusão, com poucos móveis e afastada do convívio social, com a vinda da família real novos hábitos são adquiridos. Móveis caros são comprados, as festas constantes representam prestígio social e a casa torna-se um local de convívio com a sociedade. A exploração do ouro, empreendida desde o início do século XVIII, possibilitou o surgimento de uma elite colonial contrária aos interesses de Portugal e à sua extorsão econômica. Se, até então, o Reino pouco tinha se preocupado com o processo de ocupação e urbanização das terras brasileiras, com esse novo interesse econômico, Portugal investe no controle da cidade e da população em função dos interesses do Estado. Incapaz de conter o caos urbano através da polícia e da justiça, tornando as famílias aliadas do Estado, o governo lança mão da medicina e de sua política higiênica. "Idealmente, a família projetada pelos higienistas deixar-se-ia manipular acreditando-se respeitada; abandonaria antigos privilégios em troca de novos benefícios; regular-se-ia, tornando cada um dos seus membros agente da saúde individual e estatal. Desenvolvendo uma nova moral da vida e do corpo, a medicina contornou as vicissitudes da lei, classificando as condutas lesa-Estado como antinaturais e anormais... a saúde e a prosperidade da família dependem da sua sujeição ao Estado".(7) Essa política higiênica impôs à família uma educação física, moral, intelectual e sexual, buscando exterminar a desordem higiênica dos velhos hábitos coloniais. As crianças foram recolhidas aos internatos e submetidas às regras da política higiênica. Portanto, o novo homem, servil ao Estado, começaria a ser criado dentro desses colégios, longe da influência e dos maus costumes das famílias. A família amorosa, criada pela higiene, preocupavase agora com o bem-estar, desenvolvimento e educação de sua prole, com o amor entre o homem e a mulher e transformou o patriarca no homem responsável pela subsistência da família, pela reprodução da raça e pela valorização do patriotismo da sociedade.(5) Cabia à mu- lher, a responsabilidade pelos afazeres domésticos e a assistência moral à família. Entretanto, o papel da mulher no Brasil do século XIX não foi somente de submissão. Não são raros os exemplos de mulheres que geriram o patrimônio da família na ausência do marido ou viuvez, trabalharam na agricultura e nas pequenas manufaturas domésticas, contribuindo para o sustento da casa. Esse papel, porém, era limitado, face à manutenção dos privilégios masculinos.(6) Para Corrêa(10), a organização familiar no Brasil contenta-se com a história da família patriarcal, em que seus personagens se substituem no decorrer das gerações, onde nada ameaça sua hegemonia e os clãs asseguram a indivisibilidade de seu poder. A decadência desta forma de organização acontece com "o advento da industrialização e com a ruína das grandes propriedades rurais, sendo então substituída pela família conjugal moderna." Para esta autora, este tipo de família é típico produto da urbanização e seus membros se reduzem ao casal e aos filhos. Buscam não mais a manutenção da propriedade mas se unem pela satisfação dos impulsos sexuais e afetivos. A função de assegurar a sobrevivência da família, antes responsabilidade do patriarca, é dividida, então, entre os seus membros. Se a função econômica passa a ser dividida, as responsabilidades administrativas e afetivas do cotidiano de cada família também o são. Cuidar passa a ser função de todos. A família, como instituição, passa a ser "um agente ativo, capaz de promover mudança social e de facilitar a adaptação de seus membros a novas condições econômicas e sociais".(12) Corroborando com essa citação, Melman(11) nos traz que "a família como forma de organização social, em seu percurso histórico e social, sempre conseguiu adaptar-se às necessidades e vicissitudes das épocas, modificando suas funções por meio de processos de flutuação das normas sociais e de seus valores". A família conjugal moderna sofre as conseqüências da educação higiênica do século XIX. Costa(7:16) afirma que "o controle educativo-terapêutico instaurado pela higiene iniciou um modo de regulação política da vida dos indivíduos que, até hoje, vem se tornando eficiente". A família passa a ser o lugar primeiro de qualquer forma de intervenção que solidifique os valores político-ideológicos dominantes. Essa família abdicou dos antigos laços de parentesco e valores que a mantinham protegida dos perigos externos, sem conseguir criar algo que os pudesse substituir. O núcleo familiar, formado por pais e filhos, tornou-se frágil e, muitas vezes, ineficaz para suportar as necessidades impostas pelos seus membros. A casa tornou-se espaço de disputa e luta entre sexos e gerações. "A independência reclamada pelos adultos implica o abandono das crianças; a autonomia dos filhos, no cerceamento da liberdade dos pais; a emancipação da mulher, em atritos com o poder do homem"(7:11). Esse afrouxamento dos laços familiares fez com que a família renunciasse a resolver seus próprios problemas, recorrendo, cada vez mais, à ajuda de especialistas, em busca de soluções para os seus males domésticos. Os pais, dominados pela culpa da ausência e pela sensação de desamparo aos filhos, nutrem-se de uma busca incessante pelo melhor que a eles pode ser dado. Cuidar dos filhos tornou-se um trabalho sobre-humano, pois os pais nunca estão certos e seguros do que sentem e fazem. Se na educação higiênica a solução para o cuidado e educação das crianças se encontrava nos internatos, no mundo atual a solução se encontra nas mãos de especialistas, nas aulas particulares, na agenda cheia das crianças. É pelo excesso de atividades que a família pouco se vê, pouco se confronta. Regulada pelo social, a família moderna perde o que tem de mais íntimo, mais caro, ou seja, tornar-se um porto seguro contra as pressões do mundo exterior. CONSIDERAÇÕES FINAIS A importância de estudos sobre a família para a compreensão da estrutura das sociedades nos levou a analisar de forma particular a organização social, política, econômica e cultural da família brasileira. Foi através da miscigenação das raças e da importação de seus costumes e tradições que se encontrou o pilar estruturante de nossa sociedade. O modelo patriarcal dominou a sociedade colonial e grande parte da república. Hoje, entretanto, convivemos com um novo tipo de família, estruturado não mais para a manutenção da propriedade e do pátrio poder mas para a satisfação dos impulsos afetivos e sexuais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1 - Freyre G. Casa-grande e senzala. 39ª ed. Rio de Janeiro: Record; 2000. 2 - Holanda SB. Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras; 1995. 3 - Del Priore M, Venâncio RP. O livro de ouro da história do Brasil. Rio de janeiro: Ediouro; 2001. 4 - Samara EM. A família brasileira. 4ª ed. São Paulo:Brasiliense; 1993. 5 - Nascimento ES, Medina AVA, Teixeira CDL. O corpo da mulher no período colonial: algumas reflexões. Revista Mineira de Enfermagem 1998; 2 (1): 14-21. 6 - Samara EM. As mulheres, o poder e a família: São Paulo, século XIX. São Paulo: Marco Zero; 1989. 7 - Costa JF. Ordem médica e norma familiar. 3ª ed. Rio de Janeiro: Graal; 1989. 8 - Neves MFR. A família escrava brasileira no século XIX. Rev Bras Cresc Des Hum 1994; 4(1): 59-70. 9 - Machado R. Danação da norma: medicina social e constituição da psiquiatria no Brasil. Rio de Janeiro: Graal; 1978. 10 - Corrêa M. Repensando a família patriarcal brasileira. In: Arantes, AA; Feldman-Bianco B, Brandão, CR, Corrêa, M, Slenes, R, Kofes, S et al. Colcha de retalhos: estudos sobre a família no Brasil. Campinas: Editora da UNICAMP; 1994. p.15-37. 11 - Melman J. Representando o cuidado em relação aos familiares de pacientes com transtorno mental [dissertação] São Paulo (SP): Faculdade de Medicina da USP; 1998. 12 - Bianco BF. Capitalismo e família. In: Arantes, AA, Feldman-Bianco B, Brandão, CR, Corrêa, M, Slenes, R, Kofes, S et al. Colcha de retalhos: estudos sobre a família no Brasil. Campinas: Editora da UNICAMP; 1994. p.161-183. Recebido em: 12/04/2004 Aprovado em: 25/11/2004 REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 163-167, abr/jun, 2005 n 167 A Oficina de Trabalho como... Relatos de Experiência A OFICINA DE TRABALHO COMO ESTRATÉGIA EDUCATIVA COM ADOLESCENTES NA ÁREA DE SEXUALIDADE THE USE OF WORKSHOPS FOR ADOLESCENTS AS AN EDUCATIONAL STRATEGY ON THE ISSUE OF SEXUALITY EL TALLER DE TRABAJO PARA ADOLESCENTES COMO ESTRATEGIA EDUCATIVA EN EL ÁREA DE LA SEXUALIDAD Marta Araújo Amaral1 Rosa Maria Godoy Serpa da Fonseca2 RESUMO Este estudo tem como objetivo relatar a experiência de Oficinas de Trabalho na área de saúde sexual e reprodutiva, desenvolvida com adolescentes do sexo feminino, moradoras da Vila Acaba Mundo-Belo Horizonte/MG. A modalidade de Oficina como uma prática educativa garantiu às participantes um espaço privilegiado de exercício de criatividade e liberdade de expressão resultando em alto grau de participação, aumento da auto-estima e desencadeamento de novas propostas de discussão direcionadas à iniciação sexual e planos futuros. Percebeu-se que discutir tais questões abriu possibilidades de posicionamentos mais conscientes, respeitosos e solidários entre as participantes, preparando-as para vida adulta. Palavra chave: Adolescente; Educação em Saúde; Criatividade; Sexualidade ABSTRACT This study intends to report the Workshop experience with female adolescents on the issue of sexuality. The subjects lived in Acaba Mundo Village in Belo Horizonte. The workshop proved to be a good opportunity to experience creativity and freedom of expression, not only resulting in the adolescents’ intense participation but also triggering new suggestions for discussion such as: sexual initiation, feminine identity and future plans. It was also clear that discussing, in a playful way issues related to sexuality, opened more conscious, respectful and sympathetic possibilities of positioning towards life among the participants, making them better prepared for adult life. Key words: Adolescent; Health Education; Creativeness, Sexuality RESUMEN El objeto del presente estudio es relatar la experiencia de talleres de trabajo en el área de salud sexual reproductiva para adolescentes del sexo femenino de Vila Acaba Mundo, Belo Horizonte, Minas Gerais. El taller como práctica educativa permitió que las participantes contasen con un espacio privilegiado para ejercer la creatividad y la libertad de expresión. Los resultados fueron: alto índice de participación, aumento del amor propio y sugerencia de nuevas propuestas para discutir la iniciación sexual y planes futuros. Se observó que al debatir tales asuntos las participantes se enfrentaron ante la posibilidad de adoptar una postura más consciente, respetuosa y solidaria que las prepara para la vida adulta. Palabras clave: adolescente; educación en salud; creatividad; sexualidad 1 2 Enfermeira.Profª Assistente da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Departamento Materno Infantil. Doutoranda do Programa Interunidades da Escola de Enfermagem da USP. Enfermeira.Profª Titular da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Departamento Saúde Pública. Endereço para correspondência: Rua Nicarágua 15 Aptº 501- Bairro Sion- CEP: 30320-050- Belo Horizonte/MG E-mail: [email protected] e [email protected] 168 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 168-173, abr/jun, 2005 INTRODUÇÃO A Oficina de Trabalho surgiu com o movimento feminista, na década de 70, numa tentativa de oferecer às mulheres um espaço de reflexão sobre a condição feminina e relações de gênero, a partir de situações cotidianas vividas por elas próprias. Esse movimento visava a contribuir para o crescimento individual das mulheres e, ao mesmo tempo, trazer mudanças no âmbito coletivo. Afonso(1) caracteriza a Oficina como "uma prática de intervenção psicossocial, seja em contexto pedagógico, clínico comunitário ou de política social" e a conceitua como "um processo estruturado com grupos, independentemente do número de encontros, sendo focalizado em torno de uma questão central que o grupo se propõe elaborar, em um contexto social. A elaboração que se busca na Oficina não se restringe a uma reflexão racional, mas envolve os sujeitos de maneira integral, formas de pensar, sentir e agir".(1,p.11) A prática de Oficinas disseminou-se em diversas áreas como na psicologia, sociologia, enfermagem e em grupos autônomos de mulheres do movimento feminista como uma proposta de articular subjetividade, racionalidade, experiência pessoal e conhecimento. A proposta de Oficina como processo educativo recebeu diferentes denominações, tais como: Grupos de autoconsciência, Grupos de reflexão, Oficina de Trabalho, entre outros, sendo desenvolvida com o público feminino, adolescentes, profissionais de diferentes áreas, usuários do serviço de saúde, etc. A partir da década de 90, inúmeras experiências têm sido desenvolvidas por enfermeiras que reforçam a contribuição da Oficina de Trabalho para o exercício da enfermagem, seja na intervenção educativa em grupos seja na área de investigação.(2-8) Para o desenvolvimento da técnica da Oficina, Carneiro e Agostini(9) sugerem algumas etapas como: aquecimento, uso de estratégias facilitadoras de expressão, problematização das questões, processo de troca, análise e articulação com o geral. Fonseca(10) propõe fases similares ao apresentar a estrutura básica de uma Oficina, sendo elas: aquecimento, reflexão individual, reflexão grupal, síntese. Ambas as propostas apresentam o momento inicial de descontração e entrosamento do grupo como fundamentais para as fases seguintes de reflexão individual e grupal. Reforçam também a etapa complementar de análise e síntese das questões discutidas, quando será feita uma articulação com a realidade vivenciada pelo grupo. Chiesa e Westphal(11) destacam a possibilidade de a Oficina permitir uma relação horizontal entre técnicos e população, considerando que o espaço de discussão tem como objetivo resgatar os conhecimentos existentes e permitir a manifestação de sentimentos relativos à vivência, facilitar a expressão e comunicação intergrupal e motivar a discussão de conteúdos. A proposta da Oficina traz forte grau de similaridade com a visão filosófica, política e metodológica da educa3 ção defendida por Paulo Freire. Ambas defendem a formação dos sujeitos, visam à valorização e transformação da realidade e consideram as experiências de vida de cada participante. Pinto(12), ao analisar a proposta que norteia o trabalho das Oficinas, também identifica elementos de convergência com a concepção de aprendizagem transformadora de Paulo Freire. Essas propostas de aprendizagem baseiamse na experiência vivencial e no desenvolvimento da consciência crítica dos participantes. Baseado nessa vertente da educação críticoemancipatória, Fonseca(10) concebe a proposta de Oficina de Trabalho como um espaço privilegiado de ampliação da consciência crítica dos sujeitos, utilizada com sucesso, com grupos de mulheres, pacientes, educandas, trabalhadoras da área da saúde ou da enfermagem. Entendemos que a proposta da Oficina tem, também, grande afinidade com o público adolescente e apresenta inúmeras possibilidades de trabalho e de crescimento.Diante da possibilidade de trabalharmos com adolescentes, do sexo feminino, na Asssociação Querubins em Belo Horizonte-MG, nos questionamos sobre qual o melhor caminho metodológico a adotarmos para atendermos a uma demanda dessas adolescentes de discutirem questões ligadas à sexualidade e como estimular discussões sobre relações de gênero e suas implicações na construção da identidade feminina e masculina. Optamos por adotar a Oficina de trabalho como estratégia educativa numa proposta de garantirmos espaços para que os adolescentes se expressassem com liberdade, exercessem sua criatividade, refletissem sobre as múltiplas mudanças que ocorrem nesse período de suas vidas e discutissem questões de seu interesse. O desenvolvimento desse trabalho estimulou-nos a apresentar esse estudo com o objetivo de relatar a experiência de Oficinas de Trabalho na área de saúde sexual e reprodutiva, desenvolvida com adolescentes do sexo feminino, moradoras da Vila Acaba Mundo- Belo Horizonte/MG. METODOLOGIA Este estudo surgiu da experiência das autoras com Oficinas de Trabalho na área da sexualidade, com 16 adolescentes do projeto Querubins, com idade entre 11 e 16 anos. As Oficinas tiveram início em agosto de 2002 e foram realizadas semanalmente, com três grupos distintos, considerando a faixa etária das adolescentes. As Oficinas foram coordenadas por uma das autoras deste estudo, sendo reestruturada, a cada semestre, conforme demanda apresentada pelo grupo. Neste artigo apresentaremos quatro Oficinas de Trabalho realizadas no período de novembro e dezembro de 2003, após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da EUSP(3). Cada Oficina teve a duração de 90 minutos, sendo observadas as seguintes etapas em seu desenvolvimento: aquecimento, reflexão individual, reflexão grupal e síntese. Estas Oficinas constituem parte da tese de doutorado intitulada "Entre o desejo e o medo: as Oficinas de Trabalho como espaço de reflexão e empoderamento de adolescentes", com defesa prevista na Escola de Enfermagem da USP para março de 2005. REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 168-173, abr/jun, 2005 n 169 A Oficina de Trabalho como... Apresentação da proposta de Oficinas de Trabalho Os temas debatidos nessas quatro Oficinas foram organizados a partir de inquietações apresentadas pelas OFICINA TEMA OBJETIVO ESTRATÉGIA FACILITADORA I Iniciação sexual: o que eu penso sobre isso? - Identificar o conhecimento e a postura das adolescentes acerca da iniciação sexual. -Refletir com as adolescentes sobre os sentimentos e responsabilidades envolvidos na decisão da iniciação sexual - Desenhos para identificar os sentimentos das adolescentes ao iniciar e ao terminar a Oficina de Trabalho - Jogo educativo destacando as seguintes questões: o que penso sobre iniciação sexual, o que pensam meus pais e meus amigos, medos e dúvidas, sentimentos envolvidos. II Ser adolescente e ser mulher Identificar e refletir sobre o significado que as participantes atribuem à condição de ser adolescente e de ser mulher. -Refletir sobre os estereótipos relacionados à feminilidade e masculinidade na sociedade atual. - Técnica de descontração dos participantes: o jardim - Divisão em duplas através da técnica corações partidos para preenchimento do exercício: Hoje adolescente... Amanhã mulher .... - Caixinha reveladora: ser adolescente ser mulher - Balões coloridos III Uma vida pela frente: onde quero chegar -Identificar e refletir sobre os planos futuros e as metas pessoais para atingi-los. - Técnica de descontração dos participantes: Escalando uma montanha. - Navega barquinho: levantamento individual dos planos futuros e discussão das estratégias para alcançá-los. - Uma viagem no tempo: daqui a 10 anos, como desejo estar? IV Oficina de Sexualidade: como cheguei... como estou? - Analisar a proposta das Oficinas de Trabalho como estratégia educativa a partir dos pressupostos de participação, responsabilidade compartilhada, auto-estima e empoderamento. - Analisar o potencial da Oficina de Trabalho para a construção e transformação do conhecimento individual e grupal - Conhecer o significado atribuído pelas adolescentes à Oficina de Trabalho. - Jogo do feedback - Preenchimento de uma folha tarefa com a seguinte questão: Você recomendaria a um amigo seu participar desta oficina? Por quê? - Através da técnica de mosaico, verificar o que representou para o adolescente participar das Oficinas de Trabalho. Para analisar a potencialidade da Oficina de Trabalho como prática educativa com o grupo de adolescentes, foram articuladas a Teoria da Educação Emancipatória de Paulo Freire e a Teoria do Grupo Operativo de Enrique PichonRivière, numa tentativa de entender a transformação do conhecimento individual e grupal e também os vínculos que se formam entre os participantes, que são a base para os processos de comunicação e aprendizado(13, 14). Ao procurar aprofundar e articular as dimensões educativa e psicossocial da Oficina de Trabalho, amplia170 n próprias adolescentes. Apresentamos no quadro seguinte a estrutura de cada uma delas, associada aos objetivos e às estratégias facilitadoras. REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 168-173, abr/jun, 2005 mos o entendimento do processo intra e intersubjetivo no grupo, buscando contribuir para o reconhecimento científico dessa modalidade de trabalho educativo e para a reflexão dos profissionais que a utilizam. COMENTÁRIOS Entendendo como práxis o fazer, o executar, não de forma isolada, mas numa relação mútua com o conhecimento, analisamos não só as quatro Oficinas selecionadas para este artigo, como também todo o processo educativo na área da sexualidade, que foi vivenciado e construído pelas adolescentes e pela instrutora, desde agosto de 2002. O registro sistematizado ao final de cada Oficina contribuiu para a formação de um diário de campo, constituindo-se em um instrumento de avaliação da Oficina como técnica educativa e como espaço de reflexão para as adolescentes, assim como dos acertos e dificuldades encontrados na condução do processo. Estruturação das Oficinas A organização e a estruturação das Oficinas não seguiram uma norma rígida, elas se construíram a cada sessão, tendo em vista os objetivos do trabalho e a demanda apresentada pelo grupo. Particularmente em relação a este estudo, a estruturação das Oficinas ocorreu de forma diferenciada, considerando-se a faixa etária e o tipo de interesse dos participantes. Contudo, alguns aspectos mostraram-se similares, tornando-se importantes na condução dos grupos, os quais apresentamos a seguir para melhor compreensão da transformação contínua da práxis e dos novos caminhos criados. • Ingresso da instrutora no campo antes de iniciar as Oficinas, importante para conhecer as atividades já desenvolvidas pelas adolescentes em grupos de dança, artes plásticas, percussão, apoio escolar, entre outros, e para identificar, comportamentos e habilidades demonstradas por cada uma delas. Essa primeira aproximação possibilitou, não somente estabelecer um contato com os adolescentes, mas também uma integração com a equipe de profissionais que atua na Associação Querubins. • Divisão dos grupos por faixa etária e nível de interesse, não ultrapassando o número de 08 participantes, tendo em vista a participação ativa de cada uma delas. Pacto inicial com as participantes em relação ao sigilo, pontualidade, assiduidade, respeito pela opinião dos colegas, empenho individual para o crescimento do grupo. • Intervalo semanal entre as Oficinas, visando a um período de reflexão, mas com o cuidado de que ele não fosse demasiadamente longo, para que as adolescentes não se distanciassem das questões em debate. • Preparo prévio do ambiente e das técnicas utilizadas. Inserção de detalhes referentes à realidade do grupo, destacando-se questões de preservação do meio ambiente, atitudes não-violentas, relações interpessoais respeitosas, etc. • Apresentação para os grupos de uma consigna clara e objetiva sobre as técnicas e atividades propostas, respeitando as etapas de aquecimento, reflexão individual, reflexão grupal e síntese propostas para o desenvolvimento das Oficinas. • Estímulo à participação individual, respeitando, porém, as singularidades de comportamento de cada adolescente e o contexto sociocultural em que elas estão inseridas. • Valorização da bagagem de conhecimentos do grupo e receptividade às sugestões apresentadas pelos participantes para as próximas Oficinas ou planejamentos futuros. • Proposta de um ritmo mais dinâmico de atividades, através de jogos e técnicas participativas, evitando a dispersão e desinteresse do grupo. • Retorno a um mesmo tema em diferentes Oficinas, reforçando o conteúdo anterior, motivando a reflexão de outros aspectos não discutidos e atentando para o conhecimento construído por cada grupo, conforme o seu grau de maturidade e interesse. • Avaliação individual com a adolescente que apresentava atitudes agressivas e desrespeitosas em relação ao grupo. Manutenção de postura firme e reforço de limites pela instrutora, caso a adolescente insistisse em não cumprir os acordos firmados. • Avaliação periódica com o grupo sobre os comportamentos que poderiam ser melhorados com atitudes de solidariedade, respeito pelas diferenças, compromisso com os colegas. • Apresentação de um retorno positivo para o grupo quando o trabalho era desenvolvido com cooperação e empenho. O feed-back apresentado de forma respeitosa e afetuosa gera motivação tanto individual quanto coletiva para melhoria do comportamento. • Cumprimento dos compromissos assumidos com o grupo ou apresentação de justificativa para mudanças no planejamento das atividades. • Estabelecimento de parcerias com os setores de psicologia e pedagogia para os adolescentes que necessitassem de acompanhamento. Com a realização das Oficinas, foi possível constatarmos um movimento dialético da prática modificando o conhecimento, e este criando novas práticas. Reconhecemos que a Oficina como proposta educativa de cunho emancipatório requer por parte do instrutor e dos participantes uma grande mobilização, pois visa, além da construção do conhecimento, a transformação de posturas e ações no mundo em que vivem. A prática da Oficina possibilitou-nos aproximar das adolescentes, associar "o ouvir" e "o olhar" para compreender melhor seus sentimentos, entender sua inquietação como forma de comunicação e reconhecer o potencial latente de cada uma delas. O comportamento inquieto e instável das adolescentes levou-nos a adaptar e elaborar novas técnicas que motivassem a participação do grupo de forma dinâmica e, ao mesmo tempo, reflexiva. Gradativamente, as relações de cooperação e reciprocidade entre as adolescentes foram se fortalecendo, assim como os posicionamentos individuais, o que resultou em um crescimento progressivo do grupo. Fonseca(10), ao analisar a Oficina de Trabalho como prática educativa, apresenta quatro pressupostos norteadores dessa proposta: participação, responsabilidade compartilhada, auto-estima e empoderamento. No processo de construção da auto-estima merece ser lembrada a participação da família e da escola. Uma articulação entre Oficina, pais e escola é uma solução estratégica para se criarem espaços de convivência regidos pelo diálogo, respeito, criatividade e contribuir, conseqüentemente, para a elevação da auto-estima dos adolescentes. REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 168-173, abr/jun, 2005 n 171 A Oficina de Trabalho como... A prática das Oficinas possibilitou constatar que, à medida que as adolescentes se sentiam mais confiantes, elas tornavam-se mais participativas, defendiam com mais firmeza suas opiniões, mostravam-se mais flexíveis nas relações interpessoais, mais persistentes na busca de seus objetivos. Branden(15) apresenta correlações entre auto-estima saudável e vários traços da personalidade como: flexibilidade, criatividade, habilidade para lidar com mudanças, disponibilidade de admitir erros, benevolência, cooperação, intuição, entre outros. Por outro lado, correlaciona baixa auto-estima a irracionalidade, rigidez, postura defensiva, medo do novo e do não-familiar, conformismo ou rebeldia impróprios, comportamento por demais submisso ou controlador, medo dos outros e hostilidade em relação a eles, etc. Para o autor "o valor da auto-estima não está no fato de ela permitir que nos sintamos melhor, mas poder permitir que vivamos melhor, respondendo aos desafios e as oportunidades de maneira rica e mais apropriada".(15,p. 2) As considerações acima apresentadas foram reforçadas na prática das Oficinas. A elas acrescentamos que a auto-estima elevada contribui para que os adolescentes tenham mais senso de responsabilidade, sejam resolutivos e resilientes, atendendo às exigências que o momento atual impõe. Dentre os quatros pressupostos apresentados por Fonseca(10), percebemos que no grupo de adolescentes a auto-estima mereceu um destaque especial, pois foi a partir dela que se desencadearam novos comportamentos que refletiram a participação, a responsabilidade compartilhada e o empoderamento dos participantes, fortalecendo novamente a auto-estima e iniciando outro ciclo que dá sentido à proposta de Oficinas. Ao avaliarmos o comportamento das adolescentes que participaram da Oficinas de Sexualidade, constatamos inúmeras atitudes e ações que refletiam o empoderamento individual, muitas delas associadas ao fortalecimento da auto-estima: • Maior facilidade de expressar suas opiniões, tanto verbalmente como na escrita, e de defendê-las diante do grupo. • Apresentação de sugestões e propostas de redefinição de normas em relação à Oficina • Manifestação de respeito pelas diferenças apresentadas pelas colegas, atitudes de cooperação e amizade. • Clareza e determinação ao relatarem os planos de vida. Propostas de estratégias para alcançar suas metas. • Posicionamento mais crítico diante de situações em debate ou apresentadas na mídia referentes à sexualidade. • Ampliação do entendimento sobre comportamento saudável e responsável da sexualidade. • Desencadeamento de novas propostas: Oficinas com grupos mistos, formados de meninas e meninos; formação de grupos de pais. • Relato de comportamentos na família e na escola em prol de seus direitos, demonstrando o fortalecimento interno das adolescentes. 172 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 168-173, abr/jun, 2005 As posturas e os comportamentos aqui destacados e outros apresentados durante as Oficinas reforçaram o fortalecimento do poder interior, da autoconfiança e o direcionamento consciente das ações das adolescentes. O empoderamento, assim considerado, muito se aproxima das propostas apresentadas por Libanio(16), Costa(17) e UNESCO(18), que defendem a formação do adolescente baseada em quatro competências necessárias para o ser humano realizar-se como pessoa, como trabalhador e como cidadão: competência pessoal (aprender a ser); competência social (aprender a conviver); competência produtiva (aprender a fazer), competência cognitiva (aprender a conhecer). No sentido mais imediato, empoderamento significa, para o adolescente, o seu fortalecimento interno. Contudo sabemos que ele não é estático, renovando-se ao longo de toda a vida e contribuindo, certamente, para uma geração de homens e mulheres mais conscientes, responsáveis, determinados, solidários, competentes e felizes. O conceito de empoderamento (empowerment) tem sido utilizado na literatura científica desde a década de 80, inicialmente com o significado de "ausência de poder" e relacionado à mulher e ao trabalho de educação em saúde. Opõe-se ao termo "powerlessness", compondo a idéia de fortalecimento interior, através de um processo social que amplia o controle sobre suas vidas, assim como o espaço de participação no meio em que vivem.(19) Neste artigo, o termo "empoderamento" foi utilizado como o processo em que as adolescentes reforçam seu poder interior para expressar suas opiniões, ampliam sua auto-confiança e direcionam suas ações visando sua melhor qualidade de vida. As Oficinas de Trabalho sob o olhar da pesquisadora A cada Oficina tornou-se transparente a criação de laços de respeito e afetividade entre os participantes. A construção do conhecimento foi lenta e progressiva, elaborada a partir de fragmentos de idéias e de tímidos questionamentos por parte dos adolescentes, mas que gradativamente foram se tornando mais abrangentes e críticos. A confiança estabelecida entre participantes e instrutora foi um fator determinante para que as adolescentes assumissem suas opiniões, verbalizassem seus medos e também seus sonhos. Daí a importância desse trabalho ter sido desenvolvido em um maior período de tempo, considerando a realidade e as necessidades de cada participante e, a partir delas, direcionando propostas de melhoria das Oficinas. A grande diferença que percebemos entre a proposta de Oficinas e outras práticas educativas com adolescentes foi a não superficialidade do trabalho, o aprofundamento de questões ligadas à sua realidade, a construção do conhecimento pelos próprios adolescentes, o convite a conhecer a si mesmo, os outros e o mundo, além de possibilitar desencadeamento de novos trabalhos que contemplem o crescimento individual e coletivo. Sendo a adolescência uma fase de construção de valores, de mudança de comportamentos e atitudes, de formação da identidade, torna-se importante a criação de um espaço que possibilite ao adolescente reconhecer seu potencial interior, desenvolver sua capacidade de relacionar-se com o outro e acreditar nas mudanças que começam dentro dele mesmo e, progressivamente, se irradiam para sua casa, sua escola, sua comunidade, interferindo no bem comum. Se, apartir do momento presente, o adolescente viver sua sexualidade com mais consciência, mais respeito por si mesmo e pelo outro, se buscar uma convivência mais harmônica e igualitária com outro sexo, lutar pelos seus sonhos e ideais, acreditar em si mesmo, torna-se possível vislumbrar um salto evolutivo na vida de cada um deles. Para a instrutora, a Oficina mostra-se como um desafio contínuo e prazeroso na medida em que se busca aprimorá-la a cada sessão, aprendendo junto com as adolescentes a entender as constantes transformações que se apresentam no mundo contemporâneo e contribuindo para a formação de uma geração que se posiciona, decide e age com responsabilidade e determinação, sem perder a sensibilidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS A Oficina mostra-se como um espaço de reflexão e crescimento para as adolescentes no que se refere a suas potencialidades e limitações, à imagem do próprio corpo, aos comportamentos e posturas no grupo. Estimula, ainda, a adolescente a cuidar de si mesma e de refletir sobre seus pensamentos, palavras e ações. A cada Oficina de Trabalho forma-se uma teia de relações,em que cada participante, ao se conhecer melhor, e ao conhecer o contexto em que ele está inserido, posiciona-se com mais segurança e espírito crítico. As relações são fortalecidas gradativamente no grupo, com repercussão positiva nas atitudes dos participantes. Entendemos que a proposta da Oficina tem um cunho afetivo, intelectual e também político, pois considera sentimentos e relações entre participantes, estimula a construção conjunta de conhecimentos e envolve uma ação transformadora sobre a realidade, tendo em vista modificá-la positivamente. Forma-se, assim, com a proposta da Oficina uma ciranda movida pela reflexão, consciência, empoderamento, mudanças, desencadeando novas reflexões e tornando as adolescentes agentes potenciais de transformações sociais. 5. Barrientos DMS. Mulher e saúde: dialetizando o trabalho da enfermagem ambulatorial [tese]. São Paulo (SP): Escola de Enfermagem da USP; 2002. 6. Aranha e Silva AL. Enfermagem em saúde mental: a ação e o trabalho de agentes de nível médio no campo psicossocial [tese]. São Paulo (SP): Escola de Enfermagem da USP; 2003. 7. Coelho S. As práticas de enfermagem em Saúde da Mulher, em Minas Gerais: um olhar de gênero [tese]. São Paulo (SP): Escola de Enfermagem da USP; 2003. 8. Carneiro F, Agostini M, Organizadoras. Oficinas de reflexão: espaço de liberdade e saúde. In: Agostini M. Trabalho feminino e saúde. Rio de Janeiro: FIOCRUZ/ENSP/Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana; 1994. p. 52-83. 9. Fonseca RMGS Investigando, construindo e reconstruindo a enfermagem generificada através das Oficinas de Trabalho. In: Anais do 2º Encontro Internacional de Pesquisa em Enfermagem: Trajetória Espaço-Temporal da Pesquisa; 2002 out. 28-31; Águas de Lindóia, SP. [CDRom]. Águas de Lindóia: EEUSP; 2002. 10. Chiesa AM, Westphal MF. A sistematização de Oficinas Educativas problematizadoras no contexto dos serviços de saúde. Saúde Deb 1995; (46):19-21. 11. Pinto MCP. Oficinas em dinâmica de grupo com adolescentes na escola: a construção da identidade e autonomia mediada pela interação social [dissertação]. 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Artigo Reflexivo ATENÇÃO BÁSICA À SAÚDE: UM OLHAR A PARTIR DAS PRÁTICAS DE INTEGRALIDADE EM SAÚDE1 BASIC HEALTH CARE: THE POINT OF VIEW OF HOLISTIC HEALTH CARE PRACTICES ATENCIÓN BÁSICA A LA SALUD: UNA MIRADA DESDE LAS PRÁCTICAS DE INTEGRALIDAD EN SALUD Roseni Pinheiro2 RESUMO Este trabalho visa a apresentar uma reflexão crítica sobre a atenção à saúde, no que tange à efetivação dos princípios do SUS, ao papel da enfermagem e à atenção básica como um espaço fértil de atuação e formação profissional. Tal reflexão tem as práticas de integralidade em saúde como eixo analítico, destacando o cuidado como categoria constituinte de um "saber-fazer" que fundamenta o agir em saúde, sendo a enfermagem agente relevante nesse processo. Por fim, ressaltase a necessidade de conhecer as experiências inovadoras no SUS na atenção básica, espaços de práticas em defesa da vida e do direito à saúde. Palavras-chave: Serviços Básicos de Saúde; Cuidados Básicos de Enfermagem; Cuidados Integrais a Saúde; Cuidados Primários de Saúde; SUS (BR). ABSTRACT This is a critical reflection on health care , on the implementation of principles of the Brazilian Single Health System (SUS), the role of nursing and basic health care as a field for professional training. This reflection takes holistic health care as its analytical axis, highlighting health care as a "know how to do" that underlies action in health, where nursing is a relevant agent in this process. Finally, we underline the need to get to know the innovative experiences in the SUS in basic health care, opportunities for the practice of the defense of life and the right to health. Key words: Basic Health Services; Primary Nursing Care; Comprehensive Health Care; Primary Health Care; SUS (BR) RESUMEN Este trabajo tiene por objetivo presentar una reflexión crítica sobre la atención a la salud en lo que respecta a tornar efectivos los principios del SUS, el rol de enfermería y la atención básica como un espacio fértil de actuación y formación profesional. Dicha reflexión tiene las prácticas de integralidad en salud como eje analítico, destacando el cuidado como categoría constituyente de un "saber-hacer" que fundamenta la acción en salud, siendo enfermería un agente relevante de este proceso. Por fin, se realza la necesidad de conocer las experiencias novedosas del SUS en la atención básica, espacios de prácticas en defensa de la vida y del derecho a la salud. Palabras clave: Atención integral a la salud, enfermería, Sistema Único de Salud 1 2 Trabalho apresentado na mesa-redonda "Atenção à Saúde: universalização / focalização, a enfermagem e a atenção básica ambulatorial.", durante o 50º Congresso Brasileiro de Enfermagem realizado no Riocentro, Rio de Janeiro, em novembro de 2003. Enfermeira sanitarista. Professora visitante do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; coordenadora do Laboratório de Pesquisas sobre Práticas de Integralidade em Saúde (LAPPIS), que conta com o apoio de CNPq, FAPERJ, UERJ e Ministério da Saúde. Endereço para correspondência: IMS/UERJ. Rua São Francisco Xavier, 524/ sala 7.014-E. Maracanã – Rio de Janeiro – RJ – CEP 20559-900. E-mail: [email protected] / [email protected] 174 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 174-178, abr/jun, 2005 INTRODUÇÃO Refletir sobre o tema proposto – Atenção à Saúde: universalização/focalização, a enfermagem e a atenção básica ambulatorial – significa considerar o lugar onde estou, onde situo o objeto principal das atividades de pesquisas e de ensino no Laboratório de Pesquisa sobre Práticas de Integralidade em Saúde (LAPPIS), que coordeno no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS-UERJ): as práticas de saúde. Esta reflexão, inevitavelmente, deverá iniciar-se pela necessidade de compreendermos valores, sentidos e significados atribuídos pelos sujeitos em suas práticas no cotidiano dos serviços sobre o "cuidado em saúde". Entre esses valores defendo, aqui, a integralidade no cuidado à saúde na atenção às pessoas. Entendo a integralidade como um princípio norteador de uma política de Estado para a saúde – o SUS –, que tem no campo das práticas um espaço privilegiado para a materialização da saúde como direito e como serviço. Isso significa dizer que a integralidade, como eixo norteador de uma política, deverá ser construída cotidianamente, por permanentes interações democráticas dos sujeitos, pautada por valores emancipatórios fundados na garantia da autonomia, no exercício da solidariedade e no reconhecimento da liberdade de escolha do cuidado e da saúde que se deseja obter. Tal entendimento talvez nos auxilie a nos compreender como sujeitos coletivos, como aponta José Ricardo Ayres, "resultantes da intersubjetividade que somos", vivendo em espaços públicos, ainda carentes de um agir político compartilhado e sociabilizado-os serviços de saúde.(1) Uma explicação para essa carência se deve ao fato de nos faltar a compreensão de que esses espaços constituem locais de "encontros", com uma visão distinta daquela tradicionalmente atribuída ao atendimento e/ou consulta, nos quais as relações de poder-saber se acentuam, estabelecendo hierarquizações nem sempre desejáveis na relação entre cuidador e cuidado. Uma visão voltada para a construção de projetos coletivos, integrados, de cuidado em saúde, em que os profissionais, gestores e os usuários / pacientes seriam co-responsáveis pela produção de um saberfazer, feito por gente que cuida de gente. Nesse sentido, o sucesso de nossas ações cotidianas não se restringiria ao êxito da técnica, mas residia na capacidade de reconhecimento de suas dimensões éticas e estéticas no agir na atenção à saúde. Ou seja, acreditamos serem essas as dimensões em que se concentram os atributos desejáveis à prática do cuidado integral em saúde. Esta reflexão faz parte do esforço de convencimento de que, ao analisarmos as políticas de saúde e seus princípios, a forma de organização de seu processo de trabalho, devemos estar atentos à complexidade, pluralidade e diversidade dos problemas apresentados e das respostas que serão necessárias para resolvê-las. Para tanto, cito algumas críticas sintentizadoras dessa discussão. Em primeiro lugar, devemos refletir sobre as maneiras como são construídas essas respostas e suas aplicações para solucionarem os problemas de saúde considerados prioritários pelos usuários dos serviços. A materialização da integralidade, assim como da universalização e da eqüidade, espelham os grandes desafios de concretização do direito à saúde em um país de profundas desigualdades como o Brasil. Desafios que necessitam ser enfrentados, para, ao fim consolidarmos as conquistas sociais obtidas na Constituição de 1988, mediante a defesa radical da democratização das relações entre os diferentes sujeitos na luta cotidiana pela implementação de políticas sociais mais justas. Nessa perspectiva, é possível compreender a focalização no contexto das práticas de saúde, com outros sentidos, entre eles as estratégias de consolidação da própria universalização, convivendo com diferentes formas de intervenção destinadas à concretização dos princípios do SUS. Em segundo lugar, acreditamos que tratar desigualdades requer, em grande medida, definições técnicas e políticas voltadas para o estabelecimento de prioridades, com base nos valores que regem as sociedades sobres os bens e serviços a serem distribuídos à população. Esses valores estão fundados na justiça social e personificados nas instituições, como resultado de uma ampla participação política dos membros dessa mesma sociedade, capaz de desenvolver habilidades e responsabilidades de como lidar com as diferenças nas demandas por saúde. Ou seja, para tratar desigualdades, há de se construir respostas desiguais, o que não quer dizer que, nesse movimento de construção, sejam expropriados os valores que defendemos, traduzidos por princípios – por exemplo, a integralidade em saúde. As práticas integrais em saúde requerem, no cotidiano dos sujeitos nos serviços de saúde, sobretudo das equipes de saúde, uma postura ética, política e moral de reconhecimento da diferença na diversidade das demandas apresentadas pelas pessoas que buscam os serviços de saúde, assim como nas respostas governamentais oferecidas para solucioná-las. Partimos do pressuposto de que o reconhecimento da diferença deve ter, na resposta por ela demandada, os atributos habilitadores de uma política de saúde de fato justa. Em terceiro e último lugar, advertimos que a presente reflexão deve contribuir para o debate de diferentes temas sobre as políticas de saúde. Destacamos o financiamento da saúde, pois julgamos insuficiente o aporte de recursos destinado para o setor, sobretudo para garantir a integralidade na atenção e no cuidado em saúde. Contudo, é possível afirmar que as possibilidades de se construir o direito à saúde ganham contornos mais nítidos quando observamos a ação criativa dos novos atores, verdadeiros sujeitos em ação que, na luta pela edificação de um sistema de saúde universal, democrático, acessível e de qualidade, têm con- REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 174-178, abr/jun, 2005 n 175 Atenção Básica à Saúde... tribuído para o surgimento de inúmeras inovações institucionais, seja na organização dos serviços de saúde, seja na incorporação e/ou desenvolvimento de novas tecnologias assistenciais de atenção aos usuários do SUS. É nesse sentido que propomos a integralidade como eixo analítico do modelo de atenção à saúde, na medida em que nos ajuda a identificar os nexos constitutivos entre os componentes, aparentemente segmentados, de estruturação do tema proposto, quais sejam: a universalização (como um dos princípios do SUS), a enfermagem (como uma profissão majoritária na equipe de saúde) e a atenção básica (como um nível de atenção voltado ao maior contato). Em que pesem a diversidade e a pluralidade das temáticas abordadas, ficam evidentes os diferentes desafios a serem enfrentados pelos gestores, profissionais e técnicos para encontrar soluções para os problemas de saúde prioritários da população. Em relação às novas tecnologias assistenciais, mais especificamente, verifica-se que as práticas em saúde desenvolvidas nessas experiências vêm resultando em transformações no cotidiano das pessoas que buscam e oferecem cuidados de saúde. Entendemos que a prática do cuidado é uma construção social, histórica e cultural, cuja produção e reprodução se deve às diferentes instituições, em particular às instituições família e escola. Essa seria uma visão segundo a qual as práticas eficazes do cuidar se caracterizariam por ações interligadas entre si e relacionadas a duas outras dimensões da atuação dos profissionais em saúde – quais sejam, a educação e a pesquisa. É justamente aqui, na interseção dessas dimensões, que encontramos as marcas da identidade do profissional de enfermagem, como um nexo constitutivo da temática proposta, na medida em que possuem os atributos habilitadores para efetivo exercício das ações do cuidar em saúde. Afinal, a enfermagem foi incorporando as práticas de cuidar como campo de domínio pelas próprias peculiaridades histórico-sociais da construção da profissão predominantemente exercido por mulheres para atender a uma clientela quase exclusivamente feminina, sendo essas mulheres na maioria das vezes chefes de família. São práticas que tiveram sua origem, observandose sua genealogia, no espaço doméstico, privado, particular, no interior das próprias famílias, bastando para isso apenas uma sabedoria prática, adquirida no exercício do "fazer cotidiano" e na "experiência de vida", passada de geração a geração.(2) A esse fazer cotidiano e experiência de vida se clamou, desde a Grécia antiga, de cuidado. Todavia, com a modernidade criou-se a prática do pesquisar, ou seja, de criar novos conhecimentos historicamente, revelando toda sua potência de transformação social da realidade. Contudo, os conhecimentos que vêm sendo produzidos têm-se constituído, ao longo da história, de forma fragmentada em seus espaços especializados e disciplinares, reforçando dicotomias 176 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 174-178, abr/jun, 2005 entre o saber-fazer, dificultando o reconhecimento de experiências inovadoras nos diferentes níveis de atenção. Destacamos algumas delas, mais especificamente relacionadas à atenção básica, quais sejam, as ações de promoção da saúde e as tecnologias de gestão do cuidado. As propostas de promoção da saúde, por exemplo, que na maioria das vezes eram compreendidas como um conjunto de "tecnologias simplificadas, surgem nesse contexto como uma prática caracterizada por uma elevada densidade tecnológica, na qual a interdisciplinaridade dos conhecimentos envolvidos evidencia a alta complexidade das ações. Essa compreensão da promoção da saúde vem reforçar a importância da atenção básica na oferta de serviços públicos, como um dos loci mais importantes para a consolidação dos princípios do SUS, no qual a integralidade da atenção é o amálgama dos demais princípios e fundamenta o cuidado como uma tecnologia de saúde. O "cuidado na atenção à saúde" é tomado como uma tecnologia assistencial complexa, presente em todos os níveis de atenção do sistema, pois, ao praticá-lo, se buscaria estabelecer relações de saúde e relações sociais, ou seja, ao garantir as relações entre a epidemiologia, as ciências humanas e as ciências biomédicas, esse "cuidado" contribui para a construção de conceitos e estratégias assistenciais mais ricas e eficazes. Com relação à tecnologia do cuidado, verificamos três aspectos importantes: o primeiro se refere à democratização do processo de trabalho na organização dos serviços; o segundo diz respeito à renovação das práticas de saúde – numa perspectiva de integralidade da atenção – e o terceiro se volta à valorização do cuidado como uma tecnologia complexa em saúde. Tal complexidade não se define pelo custo do equipamento utilizado na prestação do cuidado, mas pelo reconhecimento da existência de diferentes dimensões sociais, econômicas, políticas e culturais que envolvem os sujeitos. Essas experiências se caracterizam por uma forte associação entre recursos humanos, informacionais, materiais e financeiros, que têm na raiz de suas concepções a idéia-força de considerar o usuário como sujeito a ser atendido e respeitado em suas necessidades, buscando garantir autonomia no cuidado de sua saúde. A partir de uma lógica sistêmica, inerente à gênese do SUS, as propostas que destacamos aqui apresentam estratégias de melhoria do acesso a serviços e medicamentos, assim como o desenvolvimento de práticas integrais do cuidado às populações consideradas especiais e de riscos de saúde. Observamos propostas que tratam de capacitações voltadas para a humanização do atendimento e para a promoção da solidariedade social, até a realização de estudos operativos destinados à avaliação e registro de projetos ou segmentos específicos da gestão ou mesmo do cuidado em saúde. Algumas dessas propostas estão associadas à incorporação de tecnologias computacionais (criação de softwares e sistemas de informação), destinadas à modernização da relação entre profissionais e serviços, e entre estes e os usuários. Mas todas elas estão relacionadas com a promoção e a gestão do cuidado em saúde, mediante a valorização do profissional e do usuário, garantindo sua autonomia, de modo a estabelecer uma relação democrática entre demanda e oferta, com ações integrais na atenção. Outro aspecto interessante dessas experiências diz respeito à pluralidade dos temas abordados, que refletem a especificidade e a complexidade dos contextos em que estão inseridos. Muitas delas traduzem a historicidade de movimentos sociais que, ao longo do tempo, vêm buscando o atendimento de suas reivindicações e demandas. Entre eles, destacamos aqui os movimentos das áreas de saúde reprodutiva e saúde mental. As duas áreas se relacionam com antigas lutas sociais, com uma identidade própria e ancorada em demandas de movimentos coletivos específicos, como os movimentos de mulheres e o da reforma psiquiátrica, para os quais as reformas das instituições de saúde são, até os dias de hoje, questão central de suas reivindicações. Embora a origem desses movimentos preceda a própria implantação do SUS, a incorporação de tecnologias em saúde, nas duas áreas, legitima a capacidade que esse sistema de saúde tem para promover transformações sociais, sobretudo quando suas ações são potencializadas. No entanto, há de se ter claro que os limites dessas ações, assim como a construção da integralidade estarão relacionados em grande medida à baixa permeabilidade das instituições políticas e sociais aos valores democráticos defendidos no texto constitucional. Podemos afirmar, segundo alguns estudos, que o estilo de gestão, a cultura política e os partidos políticos (entenda-se programa de governo), quando porosos a esses valores, elevam as possibilidades de surgimento de um agir em saúde, capaz de renovar e recriar novas práticas, mediante a inclusão de diferentes conhecimentos, fruto de uma mesma interação, que é construída na relação entre usuário, profissional de saúde e gestor. Essas práticas são nada menos que estratégias concretas de um fazer coletivo realizado por indivíduos em defesa da vida. Por fim podemos resumir, em três palavras, as práticas dos sujeitos no cotidiano dos serviços de saúde para construção da integralidade: diversidade, pluralidade e inovação. Destas, destacamos dois aspectos específicos. O primeiro aspecto refere-se às possibilidades de essas experiências se tornarem campo de formação em saúde. Exemplo concreto é a Política de Educação Permanente e Desenvolvimento no SUS, desenvolvida pela SEGEST / Gestão da Educação, sob direção do prof. Ricardo Burg Ceccim. A proposta busca mudanças nas estratégias de organização e do exercício da atenção a ser construída na prática concreta das equipes, pela interinstitucionalidade e desenvolvimento da política de educação no SUS, considerando as neces- sidades de saúde de grupos sociais territorializados. Por meio da criação dos pólos de educação permanente em saúde, deseja-se trabalhar com os elementos que conferem à integralidade da atenção à saúde forte capacidade de impacto sobre a população e que são essenciais para a superação dos limites da formação de práticas tradicionais, como, por exemplo, acolhimento e vínculo. Nesse sentido, a atenção básica cumpre papel estratégico na dinâmica de funcionamento do SUS porque propicia a construção contínua com a população. Essa proposta inova na medida em que redefine a idéia de redes de ações e serviços de saúde, como uma cadeia de cuidado progressivo em saúde, no qual se considerem a organização e o funcionamento horizontal dos recursos, das tecnologias e da disponibilidade dos trabalhadores em saúde, para garantir a oportunidade, a integralidade e a resolução dos processos de atenção à saúde, da gestão, do controle social e da produção social de conhecimento. O segundo aspecto diz respeito ao desenvolvimento de novas práticas de atenção à saúde e ao aprendizado institucional que essas experiências podem suscitar na relação entre os três níveis de gestão do SUS. Destaca-se nessas experiências a predominância de iniciativas municipais. Embora tenhamos percebido a coerência entre as diretrizes municipais/estaduais com as diretrizes nacionais, no que concerne às políticas de saúde, fica evidente a importância do espaço local como locus privilegiado e eficaz de materialização de uma política de saúde. Analisando essas experiências, foi possível perceber que conceitos, definições e noções vêm sendo repensados, reconstruídos e renovados à luz da integralidade da atenção, como um valor democrático, formando verdadeiro amálgama dos demais princípios norteadores do SUS. Pensar o cuidado em saúde como uma tecnologia, por exemplo, e não somente como objeto de práticas de saúde realizadas na atenção básica nos demais níveis de atenção especializada – em que a complexidade não seja dada pelo grau de hierarquização dos espaços e procedimentos por ela definidos, mas pelos recursos cognitivos, materiais e financeiros que reúne – é sem dúvida um repensar inovador. Encerro este trabalho afirmando que tomar conhecimento dos relatos das experiências voltadas para a defesa explícita dos valores democráticos e da vida das pessoas nos desafia a pensar que a consolidação dos princípios do SUS, sobretudo a integralidade e suas ações, deve ser compreendida como uma estratégia concreta de um fazer coletivo e realizado por indivíduos em defesa da vida. Acreditamos que essas experiências nos ajudem a conceber a idéia de que o SUS dá certo, é legal, é conquista e que, na verdade, são vitórias cotidianas acumuladas por todos aqueles que lutam por políticas sociais mais justas. Tenhamos cuidado com o SUS, pois cuidar de si, de nós ou dos outros na saúde depende de uma combinação necessária entre ação, compro- REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 174-178, abr/jun, 2005 n 177 Atenção Básica à Saúde... misso e solidariedade social com uma população que carece muito de atenção. Esperamos que num espaço bem curto de tempo não seja mais preciso falar em integralidade e cuidado como algo externo a nós, tampouco que se necessite de modelos para serem concretizados, mas um modo de andar da vida nos serviços, no sentido de construir cotidianamente uma Grande Saúde. Como dizia o amigo David Capistrano, "temos uma dívida muito grande para com os desassistidos, e eles têm pressa..." REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Ayres JR. Sujeito, intersubjetividade e práticas de saúde. Rev Ciên Saúde Col 2001; 6 (1): 63-72. 2. Daher DV, Santo FHE, Escudeiro CL. Cuidar e pesquisar: práticas complementares ou excludentes? Rev Latino-Am Enf 2002; 10 (2): 145-50. 3. Pinheiro R, Mattos R. Os sentidos da integralidade na atenção e no cuidado em saúde. Rio de Janeiro: IMS-UERJ; 2001. 4. Pinheiro R, Mattos R. Construção da integralidade: cotidiano, saberes e práticas de saúde. Rio de Janeiro: IMS-UERJ; 2003. 5. Pinheiro R. Práticas de saúde e integralidade: as experiências inovadoras na incorporação e desenvolvimento de novas tecnologias assistenciais de atenção aos usuários do SUS. In: Brasil. Ministério da Saúde. Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde- SAS / Projeto REFORSUS. Experiências inovadoras no SUS: relatos de experiências de Desenvolvimento de novas tecnologias assistenciais de atenção aos usuários. Brasília: Ministério da Saúde; 2002. Recebido em: 07/12/2005 Aprovado em: 30/08/2005 178 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 174-178, abr/jun, 2005 Normas de Publicação 1 - A REME - Revista Mineira de Enfermagem é uma publicação da Escola de Enfermagem da UFMG em parceria com Escolas e Cursos de Graduação em Enfermagem de Minas Gerais, com periodicidade trimestral, tem por finalidade contribuir para a produção, divulgação e utilização do conhecimento produzido na enfermagem e áreas correlatas, abrangendo as temáticas ensino, pesquisa e assistência. 2 - A REME tem a seguinte estrutura: Editorial; Artigos Originais, Resumos de Teses e Dissertações, Relatos de Experiência, Atualização e Revisão; Notas e Informações (atualização em enfermagem e em áreas afins, notas de trabalhos de investigação, resenhas e notícias diversas); Normas de publicação 3 - Os trabalhos recebidos serão analisados pelo Corpo Editorial da REME, que se reserva o direito de aceitar ou recusar os trabalhos submetidos. 4 - Os trabalhos devem ser encaminhados em disquete, programa "Word for Windows", versão 6.0 ou superior, letra "Times New Roman", tamanho 12, digitados em espaço duplo, em duas vias, impressas em papel padrão ISO A4 (212x 297mm), com margens de 25mm, padrão carta ou a laser, limitando-se a 20 laudas, incluindo título, texto, agradecimentos, referências, tabelas, legendas e ilustrações. Devem vir acompanhadas de ofício de encaminhamento contendo nome dos autores, endereço para correspondência, e-mail, telefone e fax, e serem endereçados à REME. 5 - A primeira página deverá conter o título do trabalho; nomes dos autores, com o grau acadêmico mais alto e instituição; endereço para correspondência e entidades financiadoras (alocadas em nota de rodapé); resumos e palavras-chave, o título, resumo e palavras-chave devem ser em português, inglês e espanhol. As versões do resumo em inglês e espanhol deverão vir no final do trabalho, antes das referências bibliográficas. O resumo deve conter, no máximo, 100 palavras. 6 - Os desenhos e gráficos devem ser apresentados em, papel vegetal, fotografias e/ou "slides" em branco e preto numerados, indicando o local a ser inserido no texto; abreviaturas, grandezas, símbolos, unidades e referências bibliográficas devem observar as Normas Internacionais de Publicação. 7- Para efeito de normalização, serão adotados os Requerimentos do Comitê Internacional de Editores de Revistas, Médicas. Estas normas poderão ser encontradas na íntegra nas seguintes publicações: International Committé of Medical Journal. Editors, Uniforms requeriments for manuscripts submitted to biomedical joumals; Can. Assoc. J. 1995; 152(9):1459-65 e em espanhol, no Bol. Of Sanit. Panam. 1989, 107 (5).422-31. 8 - Todo trabalho deverá ter a seguinte estrutura e ordem: • título (com tradução para inglês e espanhol); • nome completo do autor (ou autores), acompanhado(s) de sua profissão e de seu(s) respectivos(s) título(s); • resumo do trabalho em português, sem exceder um limite de 100 palavras; • Palavras-chave (três a dez), de acordo com a lista Medical Subject Headings (MeSH) do Index Medicus; • texto: introdução, material e método ou descrição da metodologia, resultados, discussão e/ou comentários • conclusões; • Resumo em língua inglesa (Summary) e espanhola (Resumen), consistindo na correta versão do resumo para aquelas línguas; • Key words/ Palabras-clave (palavras-chave em lingua inglesa e espanhola) de acordo com a lista Medical Subject Headings I (MeSH) do Index Medicus; descritores da BIREME: www.bireme.br • Agradecimentos (opcional); • Referências bibliográficas como especificado no item 10; • Endereço do autor para correspondências; 9 - As ilustrações devem ser colocadas imediatamente após a referência a elas. Dentro de cada categoria deverão ser numeradas seqüencialmente durante o texto. Exemplo: (Tab. 1, Fig. 1, Gráf 1). Cada ilustração deve ter um título e a fonte de onde foi extraida. Cabeçalhos e legendas devem ser suficientemente claros e compreensíveis sem necessidade de consulta ao texto. As referências às ilustrações no texto deverão ser mencionadas entre parênteses, indicando a categoria e o número da ilustração. Ex. (Tab. 1). As fotografias deverão ser em preto e branco, apresentadas em envelope à parte, serem nítidas e de bom contraste, feitas em papel brilhante e trazer no verso: nome do autor, título do artigo e número com que irão figurar no texto. 10 - As referências bibliográficas são numeradas consecutivamente, na ordem em que são mencionadas pela primeira vez no texto. São apresentadas de acordo com as normas do Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas, citado no item 7. Os títulos das revistas são abreviados de acordo com o Index Medicus, na publicação "List of Journals Indexed in Index Medicus", que publica anualmente como parte do número de janeiro, em separata. As referências no texto devem ser REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 179-185, abr/jun, 2005 n 179 citadas mediante número arábico, correspondendo às referências no final do artigo. Nas referências bibliográficas, citar como abaixo: 10.1 PERIÓDICOS a) Artigo padrão de revista. Incluir o nome de todos os autores, quando são seis ou menos. Se são sete ou mais, anotar os três primeiros, seguidos de et al. Nascimento ES Compreendendo o cotidiano em saúde. Enf Rev 1995;2(4):31-8. b) Autor corporativo: The Royal Marsden Hospital Bone-Marrow Transplantation Team. Failure os syngeneic bone-marrow graft without preconditioning in post hepatitis marrow aplasia. Lancet 1977;2:242-4. c) Sem autoria (entrar pelo título): Coffee drinking and cancer of the pancreas (Editorial). Br Med J 1981;283:628-9. d) Suplemento de revista: Mastri AR. Neuropathy of diabetic neurogenic bladder. Ann Intern Med 1980; 92 (2pte 2): 316-8. Frumin AM, Nussabaum J, Esposito M. Functional asplenia: demonstration of esplenic activity by bone marrow sean (resumen). Blood 1979; 54(supl. 1): 26ª. 10.2 LIVROS E OUTRAS MONOGRAFIAS a) Autor(es) – pessoa física: Resende ALM, Santos GF, Caldeira VP, Magalhães ZR. Ritos de morte na lembrança de velhos. Florianópolis: Editora da UFSC, 1996:156. b) Editor, compilador, coordenador como autor: Griffth-Kenney JW, Christensen PJ, eds. Nuring process: application of theories, frameworks and models. A multifocal approach to individuals, families and communities. St. Louis: Mosby; 1986:429. 10.2.1- Capítulo de livro: Chompré RR, Lange I, Monterrosa E. Political challenges for nursing in Latin America. The next century. In: Fagin CM, ed. Nursing leandership global strategies: International Nursing Development of the 21St. Century. New York: National League for Nursing; 1990:221-28. 10.2.2- Trabalhos apresentados em congressos, seminários, reuniões etc.: Cunha MHF, Jesus MCP, Peixoto MRB. A hermenêutica e as pesquisas qualitativas em Enfermagem. Anais do 48º Congresso Brasileiro de Enfermagem. 1996,460. São Paulo: Associação Brasileira de Enfermagem; 1996. 10.2.3- Monografia que forma parte de uma série: Bailey KD. Typoligies and taxonomies: an introduction to classification techniques. In: Lewis-Beck MS, ed. Quantitative application in the Social Sciences. Thousand-Oaks: Sage publications; 1994: 7-102. 10.2.4- Publicação de um organismo: Brasil. Ministério da Saúde. Portaria 196, de 24 de junho de 1983. Brasília; 1983:5. 10.3 TESES Chianca TCM. Análise sincrônica e diacrônica de falhas de enfermagem em pós-operatório imediato. (Tese de doutorado). Ribeirão Preto, São Paulo: Universidade de São Paulo; 1997; 151. 10.4 ARTIGO DE JORNAL Chompré RR, Lange I. Interes y dificuldades para realizar estudios de maestria y doutorado en enfermería de América Latina: Horizonte de Enfermería, Santiago, 1990; Ano 1:1. 10.5 ARTIGO DE REVISTA (não científica) Neves MA et al. Técnicas de limpeza e desinfecção da sala de operação: estudo da eficácia após cirurgia infectada. Ars Cyrandi Hosp 1986; 4:15-23. 11 - Agradecimentos devem constar de parágrafo à parte, colocado antes das referências bibliográficas, após as key-words. 12 - As medidas de comprimento, altura, peso e volume devem ser expressas em unidades do sistema métrico decimal (metro, quilo, litro) ou seus múltiplos e submúltiplos. As temperaturas em graus Celsius. Os valores de pressão arterial em milímetros de mercúrio. Abreviaturas e símbolos devem obedecer padrões internacionais. Ao empregar pela primeira vez uma abreviatura, esta deve ser precedida do termo ou expressão completos, salvo se se tratar de uma unidade de medida comum.. 13 - Os casos omissos serão resolvidos pelo Corpo Editorial. 14 - A publicação não se responsabiliza pelas opiniões emitidas nos artigos. 15 - Os artigos devem ser enviados para: At/REME- Revista Mineira de Enfermagem Escola de Enfermagem da UFMG Av. Alfredo Balena, 190, sala 421 - CEP: 30130-100 - Belo Horizonte / MG Tel.: (31) 3248-9876 - E-mail: [email protected] 180 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 179-185, abr/jun, 2005 Publication Norms 1 - REME - Revista Mineira de Enfermagem is a publication of the School of Nursing of the Federal University of Minas Gerais/UFMG, in partnership with Nursing schools and courses in the State of Minas Gerais, Brazil. The magazine is issued every quarter with the objective of contributing to the production, dissemination and use of the knowledge produced in nursing and other areas, covering issues related to teaching, research and assistance. 2 - REME has the following structure: an Editorial; original articles, abstracts of theses and dissertations, reports of experience, updates and reviews; notes and information (updates in nursing and similar fields, research reports, abstracts and varied pieces of news); publication norms. 3 - The papers are analyzed by the editors of REME, who have the right to accept or refuse the papers submitted. 4 - The articles must be sent on a diskette, in "Word for Windows", version 6.0 or higher, "Times New Roman", size 12, double space, in two copies printed on standard ISO A4 paper (212x 297mm), with margins of 25mm, standard letter or laser, limited to 20 pages, including title, text, acknowledgements, bibliography, tables, legends and illustrations. They must be addressed to REME with a cover letter containing the name of the authors, mailing address, e-mail address, telephone and fax numbers. 5 - The first page should contain the title of the paper; names of the authors, with their highest academic qualification and institution; address for correspondence and financing agencies (in a footnote); abstract and key-words; the title, abstract and key-words should be in Portuguese, English and Spanish. The English and Spanish abstracts should come at the end of the paper, before the bibliography. The abstract should be no longer than 100 words. 6 - The drawings and graphs should be presented on tracing paper; photographs and/or slides numbered and in black and White, indicating the place for insertion in the text; abbreviations, symbols, units and bibliography should follow international norms of publication. 7 - For the purposes of normalization, we adopt the requirements of the International Committee of Medical Journal Editors. These norms can be found in full in the following publications: International Committee of Medical Journal. Editors: Uniform requirements for manuscripts submitted to biomedical joumals; Can. Assoc. J. 1995; 152(9):1459-65 and in Spanish, in the Bol. Of Sanit. Panam. 1989, 107 (5).422-31. 8 - All papers should have the following structure and order: • title (with translations into Portuguese and Spanish); • Complete name of author (authors), followed by their profession and respective qualifications; • Abstract in Portuguese, no longer than 100 words; • Key-words (three to tem), according to the Medical Subject Headings (MeSH) of the Index Medicus; • text: introduction, material and method or description of methodology, results, discussion and/or comments and conclusions; • Summary in English (Abstract) and Spanish (Resumen), with the correct version for those languages; • Key words/ Palabras-clave (English and Spanish) according to the Medical Subject Headings I (MeSH) of the Index Medicus; descriptors of BIREME: www.bireme.br; • Acknowledgements (optional); • Bibliography, as specified in item 10; • Author’s address for correspondence. 9 - Illustrations should be placed immediately after references to them in the text. Within each category, they should be numbered in sequence throughout the text. Example: (Tab. 1, Fig. 1, Graph 1). Each illustration should have a title and its source. Headings and legends should be sufficiently clear and comprehensible, without the need to consult the text. References to illustrations in the text should be mentioned between parenthesis, indicating the category and number of the illustration. Ex. (Tab. 1). Photographs should be black and White, coming in a separate envelope. They should be sharp and with good contrast, on glossy paper and, on the back, they must include: author’s name, title of the article and number for inclusion in the text. 10 - The bibliography references will be numbered in sequence, in the order in which they are mentioned in the text. They must follow the norms of the International Committee of Medical Journal Editors mentioned in item 7. The titles of the journals are abbreviated as in the Index Medicus, in the publication "List of Journals Indexed in Index Medicus", issued annually in January, in separate. The text references should be given in Arabic numbers, corresponding to the references at the end of the article. Bibliographical references should be quoted as follows: 10.1 - JOURNALS a) Standard journal article. Include the name of all the authors, when they are six or fewer. If they are seven or more, quote the fist three, followed by et al. Nascimento ES Compreendendo o cotidiano em saúde. Enf Rev 1995; 2(4):31-8. REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 179-185, abr/jun, 2005 n 181 b) Corporate authors: The Royal Marsden Hospital Bone-Marrow Transplantation Team. Failure of syngeneic bone-marrow graft without preconditioning in post hepatitis marrow aplasia. Lancet 1977;2:242-4. c) No authors (enter by title): Coffee drinking and cancer of the pancreas (Editorial). Br Med J 1981;283:628-9. d) Journal supplement: Mastri AR. Neuropathy of diabetic neurogenic bladder. Ann Intern Med 1980; 92 (2pte 2): 316-8. Frumin AM, Nussabaum J, Esposito M. Functional asplenia: demonstration of esplenic activity by bone marrow sean (resumen). Blood 1979; 54 (supl. 1): 26ª. 10.2 - BOOKS AND OTHER ARTICLES a) Authors – individuals: Resende ALM, Santos GF, Caldeira VP, Magalhães ZR. Ritos de morte na lembrança de velhos. Florianópolis: Editora da UFSC, 1996:156. b) Editor, compiler, coordinator as author: Griffth-Kenney JW, Christensen PJ, eds. Nursing process: application of theories, frameworks and models. A multifocal approach to individuals, families and communities. St. Louis: Mosby; 1986:429. 10.2.1- Book chapter: Chompré RR, Lange I, Monterrosa E. Political challenges for nursing in Latin America. The next century. In: Fagin CM, ed. Nursing leadership global strategies: International Nursing Development of the 21St. Century. New York: National League for Nursing; 1990:221-28. 10.2.2 - Papers presented at conferences, seminars, meetings, etc. Cunha MHF, Jesus MCP, Peixoto MRB. A hermenêutica e as pesquisas qualitativas em Enfermagem. Anais do 48º Congresso Brasileiro de Enfermagem. 1996,460. São Paulo: Associação Brasileira de Enfermagem; 1996. 10.2.3 - Articles that are part of a series: Bailey KD. Typologies and taxonomies: an introduction to classification techniques. In: Lewis-Beck MS, ed. Quantitative application in the Social Sciences. Thousand-Oaks: Sage publications; 1994: 7-102. 10.2.4 - Publication by an agency: Brasil. Ministério da Saúde. Portaria 196, de 24 de junho de 1983. Brasília; 1983:5. 10.3 - THESES Chianca TCM. Análise sincrônica e diacrônica de falhas de enfermagem em pós-operatório imediato. (Tese de doutorado). Ribeirão Preto, São Paulo: Universidade de São Paulo; 1997; 151. Chompré RR, Lange I. Interes y dificuldades para realizar estudios de maestria y doutorado en enfermería de América Latina: Horizonte de Enfermería, Santiago, 1990; Ano 1:1. 10.4 - JOURNAL ARTICLE Chompré RR, Lange I. Interes y dificuldades para realizar estudios de maestria y doutorado en enfermería de América Latina: Horizonte de Enfermería, Santiago, 1990; Ano 1:1. 10.5 - JOURNAL ARTICLE (non-scientific) Neves MA et al. Técnicas de limpeza e desinfecção da sala de operação: estudo da eficácia após cirurgia infectada. Ars Cyrandi Hosp 1986; 4:15-23. 11 - Acknowledgements should be in a separate paragraph, placed before the bibliography, after the key-words. 12 - The measurements of length, height, weight and volume should be expressed in metric system units (meter, kilogram, liter) or their multiples and submultiples. Temperatures in degrees Celsius. Blood pressure in milliliters of mercury. Abbreviations and symbols should follow international standards. The first time an abbreviation is used, it should be preceded by the full term or expression, except when it is a common measurement unit. 13 - Exceptions will be solved by the Editors. 14 - The journal is not responsible for opinions expressed in the articles. 15 - Articles should be sent to: At/REME- Revista Mineira de Enfermagem Escola de Enfermagem da UFMG Av. Alfredo Balena, 190, sala 421 - CEP.: 30130-100 Belo Horizonte-MG Tel.: (55 31) 3248-9876 - E-mail: [email protected] 182 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 179-185, abr/jun, 2005 Normas de Publicación 1 - La REME - Revista de Enfermería de Minas Gerais - es una publicación trimestral de la Escuela de Enfermería de la UFMG conjuntamente con escuelas y cursos de graduación en Enfermería de Minas Gerais. Su finalidad es contribuir a la producción, divulgación y utilización del conocimiento en enfermería y áreas correlacionadas, incluyendo también temas de enseñanza, investigación y asistencia. 2 - La REME tiene la siguiente estructura: editorial, artículos originales, resúmenes de tesis y disertaciones, relatos de experiencias, actualización y revisión; notas e informaciones (actualización en enfermería y en áreas afines, notas de trabajos de investigación, reseñas y otras noticias); normas de publicación. 3 - Los trabajos recibidos serán analizados por el Cuerpo Editorial de la REME, que se reserva el derecho de aceptarlos para su publicación o rechazarlos. 4 - Los trabajos deberán enviarse en disquete, programa "Word for Windows", versión 6.0 o superior, letra "Times New Roman", tamaño 12, digitalizados en espacio doble, en dos copias, impresas en papel estándar ISO A4 (212x 297mm), con márgenes de 25mm, modelo carta o a láser, limitándose a 20 carillas incluyendo título, texto, agradecimientos, referencias, tablas, notas e ilustraciones. Junto con el trabajo deberá enviarse una carta de presentación dirigida a la REME con el nombre de los autores, dirección para correspondencia, dirección electrónica, teléfono y fax. 5 - La primera página deberá tener el título del trabajo; nombre de los autores con su nivel académico más alto e institución; dirección para correspondencia y entidades de financiación (dispuestas en nota de pié de página); resúmenes y palabras clave; el título, resumen y palabras clave deberán estar en portugués, inglés y español. Los resúmenes en inglés y español deberán constar al final del trabajo, antes de las referencias bibliográficas. El resumen deberá tener, como máximo, 100 palabras. 6 - Los dibujos y gráficos deberán presentarse en papel vegetal, fotografías y/o diapositivas en blanco y negro numeradas, indicando dónde deberán incluirse en el texto; abreviaturas, tamaños, símbolos, unidades y referencias bibliográficas deberán seguir las Normas Internacionales de Publicación. 7 - Para efectos de normalización se adoptarán los Requisitos del Comité Internacional de Editores de Revistas Médicas. Las normas están publicadas integralmente en el International Committee of Medical Journal. Editors, Uniform requirements for manuscripts submitted to biomedical journals; Can. Assoc. J. 1995; 152(9):1459-65 y, en español, en el Bol. of Sanit. Panam. 1989, 107 (5).422-31. 8 - Los trabajos deberán tener la siguiente estructura y orden: • título (con traducción en inglés y español); • nombre completo del autor (o autores), con profesión y título; • resumen del trabajo en portugués, sin exceder el límite de las 100 palabras; • Palabras clave (entre tres y diez), en conformidad con la lista del Medical Subject Headings (MeSH) del Index Medicus; • texto: introducción, material y método o descripción de la metodología, resultados, discusión y/o comentarios y conclusiones; • Resumen en inglés (Summary) y español (Resumen), con la traducción correcta del resumen en los dos idiomas; • Key words/ Palabras clave en inglés y español en conformidad con la lista del Medical Subject Headings I (MeSH) del Index Medicus; descriptores de la BIREME: www.bireme.br; • Agradecimientos (opcional); • Referencias bibliográficas como se especifica en el punto 10; • Dirección del autor para correspondencia; 9 - Las ilustraciones deberán estar situadas después de su mención en el texto. Dentro de cada categoría deberán enumerarse en secuencia durante el texto. Por ej. (Tab. 1, Fig. 1, Gráf. 1). Cada ilustración deberá llevar un título y la fuente de dónde ha sido retirada. Encabezamientos y textos explicativos deberán estar claros y comprensibles sin necesidad de tener que recurrir al texto. Las referencias a las ilustraciones en el texto deberán mencionarse entre paréntesis, indicando la categoría y el número de la ilustración. Por ej. (Tab. 1). Las fotografías deberán ser en blanco y negro, colocadas en un sobre aparte, nítidas y con buen contraste, de papel brillante y llevar atrás el nombre del autor, título del artículo y número con el cual figurarán en el texto. 10 - Las referencias bibliográficas deberán enumerarse consecutivamente, siguiendo el orden en el que se mencionan por primera vez en el texto. Deberán presentarse en conformidad con las normas del Comité Internacional de Editores de Revistas Médicas, citado en el punto 7. Los títulos de las revistas se abrevian de acuerdo con el Index Medicus, en la publicación "List of Journals Indexed in Index Medicus", que publica anualmente como parte del número de enero, en separado. Las referencias en el texto deberán citarse mediante número arábico, correspondiendo a las referencias al final del artículo. En las referencias bibliográficas, citar como a continuación: REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 179-185, abr/jun, 2005 n 183 10.1 - PERIÓDICOS a) Artículo estándar de revista. Si son seis o menos de seis incluir el nombre de todos los autores. Si son siete o más anotar los tres primeros y después et al. Nascimento ES Compreendendo o cotidiano em saúde. Enf Rev 1995;2(4):31-8. b) Autor corporativo: The Royal Marsden Hospital Bone-Marrow Transplantation Team. Failure os syngeneic bone-marrow graft without preconditioning in post hepatitis marrow aplasia. Lancet 1977;2:242-4. c) Sin autor (comenzar por el título): Coffee drinking and cancer of the pancreas (Editorial). Br Med J 1981;283:628-9. d) Suplemento de revista: Mastri AR. Neuropathy of diabetic neurogenic bladder. Ann Intern Med 1980; 92 (2pte 2): 316-8. Frumin AM, Nussabaum J, Esposito M. Functional asplenia: demonstration of esplenic activity by bone marrow sean (resumen). Blood 1979; 54(supl. 1): 26ª. 10.2 - LIBROS Y OTRAS MONOGRAFÍAS a) Autor(es) – persona física: Resende ALM, Santos GF, Caldeira VP, Magalhães ZR. Ritos de morte na lembrança de velhos. Florianópolis: Editora da UFSC, 1996:156. b) Editor, copilador, coordinador como autor: Griffth-Kenney JW, Christensen PJ, eds. Nuring process: application of theories, frameworks and models. A multifocal approach to individuals, families and communities. St. Louis: Mosby; 1986:429. 10.2.1 - Capítulo de libro: Chompré RR, Lange I, Monterrosa E. Political challenges for nursing in Latin America. The next century. In: Fagin CM, ed. Nursing leandership global strategies: International Nursing Development of the 21St. Century. New York: National League for Nursing; 1990:221-28. 10.2.2 - Trabajos presentados en congresos, seminarios, reuniones etc.: Cunha MHF, Jesus MCP, Peixoto MRB. A hermenêutica e as pesquisas qualitativas em Enfermagem. Anais do 48º Congresso Brasileiro de Enfermagem. 1996,460. São Paulo: Associação Brasileira de Enfermagem; 1996. 10.2.3 - Monografía que forma parte de una serie: Bailey KD. Typoligies and taxonomies: an introduction to classification techniques. In: Lewis-Beck MS, ed. Quantitative application in the Social Sciences. Thousand-Oaks: Sage publications; 1994: 7-102. 10.2.4 - Publicación de un organismo: Brasil. Ministério da Saúde. Portaria 196, de 24 de junho de 1983. Brasília; 1983:5. 10.3 - TESIS Chianca TCM. Análise sincrônica e diacrônica de falhas de enfermagem em pós-operatório imediato. (Tese de doutorado). Ribeirão Preto, São Paulo: Universidade de São Paulo; 1997; 151. 10.4 - ARTÍCULO DE PERIÓDICO Chompré RR, Lange I. Interes y dificuldades para realizar estudios de maestría y doctorado en enfermería de América Latina: Horizonte de Enfermería, Santiago, 1990; Año 1:1. 10.5 - ARTÍCULO DE REVISTA (no científica) Neves MA et al. Técnicas de limpeza e desinfecção da sala de operação: estudo da eficácia após cirurgia infectada. Ars Cyrandi Hosp 1986; 4:15-23. 11 - Los agradecimientos deberán hacerse en un párrafo aparte, antes de las referencias bibliográficas y después de las palabras clave. 12 - Las medidas de longitud, altura, peso y volumen deberán expresarse en unidades del sistema métrico decimal (metro, kilo, litro) o sus múltiplos y submúltiplos. Las temperaturas en grados Celsius. Los valores de presión arterial en milímetros de mercurio. Abreviaturas y símbolos deberán seguir las normas internacionales. Al emplear por primera vez una abreviatura, ésta debe estar precedida del término o expresión completos, salvo si se trata de una unidad de medida común. 13 - El Cuerpo Editorial resolverá los casos omisos. 14 - La publicación no se hace responsable de las opiniones emitidas en los artículos. 15 - Los artículos deberán enviarse a: At/REME- Revista Mineira de Enfermagem Escola de Enfermagem da UFMG Av. Alfredo Balena, 190, sala 421 - CEP.: 30130-100 - Belo Horizonte-MG Tel.: (31) 3248-9876 - E-mail: [email protected] 184 n REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 179-185, abr/jun, 2005 ✁ REME Revista Mineira de Enfermagem Nursing Journal of Minas Gerais Revista de Enfermeríade Minas Gerais Assinatura 2005 (4 exemplares) Valor R$ 80,00 Nome: ____________________________________________________________________________________ Endereço: _________________________________________________________________________________ Bairro: ________________________________________________ CEP: ______________________________ Cidade: _______________________________________________ Estado: ____________________________ Telefone: _____________________________________________ Fax: _______________________________ Profissão: _____________________________________________ Especialidade: _____________________ E-mail: ________________________________________________ ASSINALE A FORMA DE PAGAMENTO Depósito bancário Cheque nominal à REME (Revista Mineira de Enfermagem/FUNDEP) ____________________________________________ Assinatura DADOS BANCÁRIOS Banco do Brasil Agência: 1615-2 Conta: 480109-1 Código Identificador: 4828011 Enviar o comprovante para o fax: 31 3248 9830 _____________________________________________ Data REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM Universidade Federal de Minas Gerais - Escola de Enfermagem Av. Alfredo Balena, 190 - sala 421 - Belo Horizonte - MG - Brasil - CEP: 30130-100 Tel.: (31) 3248 9876 Fax.: (31) 3248 9830 E-mail: [email protected] REME – Rev. Min. Enf; 9(2): 179-185, abr/jun, 2005 n 185