Comunicacoes ´ Modernidade, Instituicoes ´ e Historiografia Religiosa no Brasil ~ ~ A AÇÃO TRIDENTINA NO CATOLICISMO SUL MINEIRO: A CRIAÇÃO DA DIOCESE POUSO-ALEGRENSE E AS VISITAS PASTORAIS DE DOM JOÃO BATISTA CORRÊA NERY ______________________________________ Ednaldo Josmar da Silva Graduando em História pela Universidade do Vale do Sapucaí, UNIVÁS [email protected] ______________________________________ A procedência da cidade de Pouso Alegre, localizada ao extremo sul do Estado de mineiro, não foi diferente do restante das outras cidades da região, por onde transitavam os bandeirantes no século XVIII. A ambição dos colonizadores portugueses em busca de ouro, marcou a chegada dos bandeirantes na região. Região conhecida no início como Pouso do Mandú, parada obrigatória para viajantes que percorriam os caminhos entre as capitânias de Minas Gerais e São Paulo1. Essa região, conhecida como o Sul-de-Minas pertenceu no eclesiástico ao bispado de São Paulo, do ano de 1775 a 1900. A assistência religiosa, era desempenhada pelos padres paulistas, no século XVIII, haviam seis paróquias na região todas elas sujeitas diocese de São Paulo, sendo elas: Santa Ana do Sapucaí, ereta em 1748, Ouro Fino 1749, Delfim Moreira 1762, Jacuí também no mesmo ano, Cabo verde 1765 e Camanducaia 1779. Percebam, que Pouso Alegre ainda não é uma Freguesia2, a elevação da Capela do Mandu em Pouso Alegre à freguesia se deu no ano de 18103. Segundo o Padre Hiansen4, o Sul de Minas no início do século XIX, passava pela sua Segunda fase de desenvolvimento econômico, tendo o ciclo do ouro se encerrado deixando fortes sinais de pobreza. Iniciou-se o desenvolvimento na região de atividades de criação de gado, trazendo consigo emigrantes que vinham das regiões das minas. Sendo assim, aumentando a densidade populacional dos arraiais e freguesias5. 1 TOLEDO, Tuany. Trabalhos dispersos memória histórica. 1993. Freguesia, s.f. Povoação sob o aspecto eclesiástico. 3 FRANCO, Hiansen Vieira. O Clero Paulista no Sul de Minas. 4 O Padre Hiansen Vieira Franco é professor de História da Igreja, na Faculdade Católica de Pouso Alegre, ele é o autor do livro “O Clero Paulista no Sul-de-Minas 1801-1900”. 5 Idem, p.27. 2 Para o Padre Hiansen, esse aumento populacional implicou diretamente nas atividades pastorais da Igreja. A necessidade do melhor atendimento as almas, segundo o discurso da Igreja, fez com que mais cinco paróquias fossem erigidas, Pouso Alegre e Carmo do Rio Claro em 1810, Caldas e Douradinho 1813 e Alpinopólis no ano de 18246. Porém, a necessidade do culto divino, juntamente com os interesses da Igreja, nem sempre justificou a ereção dessas novas freguesias. Os interesses políticos dos cidadãos locais também estavam atrelados a esses acontecimentos. Partindo para a cidade de Pouso Alegre, onde nosso tema de estudo é o âmbito religioso, sabe-se que, empenhou desde cedo para a elevação da Capela do Mandú à freguesia, o então Padre José Bento Leite Ferreira de Mello que desde seminarista trabalhou para tal acontecimento, a qual foi seu primeiro pároco. Entretanto, percebe-se o grande interesse do Padre José Bento de criar-se uma freguesia na cidade. José Bento nasceu em Campanha no ano de 1785, fez seus estudos superiores em São Paulo na casa do Bispo D. Matheus de Abreu Pereira, sendo ordenado sacerdote em 1809. Conhecedor das necessidades religiosas da população 7da região e da importância que teria Pouso Alegre elevando-se a freguesia, o Padre José Bento intercedeu junto ao bispo paulista, pedindo que fosse atendido em tal pedido.8 Eis que pôr fim, no ano de 1810, por Alvará Régio de 06 de Novembro de 1810, de D. João VI, Príncipe Regente de Portugal, foi elevada à categoria de freguesia colada a capela do Senhor Bom Jesus de Pouso Alegre, Vulgarmente chamada de Mandu. Em 20 de Fevereiro de 1811, toma posse da nova freguesia o Padre José Bento. Começa a partir de então, a existência oficial da cidade e ao mesmo tempo com a eclesiástica 9. Preocupado com o desenvolvimento da cidade, o Padre José Bento tratou logo de adquirir meios para o seu desenvolvimento urbano. Trabalhou para o alinhamento das ruas, preocupou-se com a questão da higiene na cidade e seu embelezamento. Promovendo o desenvolvimento material da cidade, há também o aumento significativo da população. Segundo Tuany Toledo, cidadão pousoalegrensse, esse período marcou, a fundação de numerosas famílias na cidade. Para ele o Padre José Bento foi: “Um homem verdadeiramente superior. Com a instrução deficiente que em 1810 se exigia de um padre, conseguiu à força de talento tornar-se um dos vultos mais eminentes de 6 Ibidem, p.27 O Padre José Bento, juntamente com o bispo paulista, sabiam das necessidades espirituais da população, segundo consta no Alvará de Criação da Paróquia do Bom Jesus: “Instruída com um requerimento do povo e representação do Juiz de Fôra, que anciosamente suplicavam a ereção de uma nova Freguesia na Capella do Senhor Bom Jesus de Pouso Alegre”. Livro do Tombo de Pouso Alegre, p. 37. 8 TOLEDO, Tuany. Trabalhos dispersos (Memória Histórica) 1991. 9 Idem. p.32. 7 2 um partido em que se figuravam muitos homens notáveis. Não um simples soldado, era um chefe precioso, dotado de inteligência superior, que sabia combinar o ataque e a defesa, e de uma vontade firme que não conhecia obstáculos”10. A dedicação e os trabalhos realizados pelo Padre José Bento em sua paróquia do Bom Jesus de Pouso Alegre lhe renderam a atenção do governo, que o nomeou Cônego da Sé de São Paulo. O Padre José Bento, também foi o fundador do Partido Liberal em Pouso Alegre, eleito membro da Junta do Governo Provisório e também membro do Conselho Geral na Providência de Minas, deputado geral em três legislaturas, de 1826 a 1834 e finalmente Senador do Império. No ano de 1830, mais ausente do que presente em sua paróquia devido à sua carreira política, começou o Cônego José Bento ser auxiliado pelo coadjutor (auxiliar) Padre João Dias de Quadros Aranha na publicação do jornal o “Pregoeiro Constitucional”, órgão de grande importância para as lutas políticas da época, esse jornal foi o primeiro a ser publicado no Sul-de-Minas e o quinto na Província mineira. Um acontecimento peculiar dentro da história do Brasil, é que foram nas oficinas desse jornal, que se editou o projeto de nova constituição do império, chamado na história de “Constituição de Pouso Alegre” preparado por elementos do partido moderado, no intuito de satisfazer as exigências dos mais avançados e pacificar os ânimos exaltados, em relação aos membros do Partido Liberal e Moderador.11 Retornando a discussão da criação da nova freguesia, encontra-se no Arquivo da Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Pouso Alegre, em um Livro de Tombo, a cópia do Régio Alvará, ao qual se eregiu a freguesia de Pouso Alegre, documento esse que será analisado no decorrer deste capítulo. Como já sabemos, a medida em que a população aumentava aos preceitos católicos, foi necessário uma melhor assistência a ela, pois o culto sagrado era desempenhado pela freguesia de Santa Ana do Sapucaí. Segundo Tuany Toledo, as terras doadas para a construção do patrimônio para a edificação da capela foram doação do português Antônio José Machado, e construída por João da Silva Perreira as margens do Rio Mandú no final do século XVIII12. Porém, essa capela, estava sob o domínio da paróquia de Santana do Sapucaí. O povoado que se desenvolvera em torno dessa capela aos poucos foi crescendo, ficando cada vez mais difícil a assistência religiosa pelo sacerdote que não residia no local. Dentro desse contexto, começa a partir de então manifestos por parte dos moradores da região ao bispo paulista D. Matheus, juntamente com o apoio direto do padre José Bento, para que houvesse a criação de uma nova paróquia, desmembrada da de Santa Ana. Tal acontecimento foi oficilalizado pelo Régio Alvará, que em suas primeiras linhas dizia. 10 Idem. p.33. A Diocese de Pouso Alegre no Ano Jubilar de 1950. 12 Tuany Toled) p.18.o. Trabalhos Dispersos ( Memória Histórica) p.18. 11 3 “Eu príncipe regente de Portugal como governador e perpétuo administrador que sou do Mestrado Cavalaria e Ordem de nosso Senhor Jesus Christo. Faço saber, que representando-me o Ver. Bispo de São Paulo, do meu Conselho se necessário estabelecer uma côngrua para um coadjutor que ajudasse a parochiar o vigário da Freguesia de Santa Ana...”13 Através deste trecho documental, percebemos novamente a submissão da Igreja perante ao Estado, esse fato ocorreu no ano de 1811, o Brasil era um Reino Unido a Portugal e Algarves. Portanto, notemos aqui de que como a Igreja não podia manifestar-se e agir perante ao Estado sem a autorização do mesmo. Pois se tratava da criação de uma nova freguesia, que sem a autorização do Estado português não poderia ser eregida. Isso se insere em toda a discussão feita, de que pouca foi a influencia da igreja na sociedade colonial. Entretanto, mesmo o Brasil caminhando para a sua Independência, a relação entre Estado e Igreja não mudaria muito, pois, o imperador se tornou o chefe efetivo da Igreja no Brasil e novamente a Instituição Católica estava sobre a autoridade do governo imperial. Contudo a Igreja se fez presente e novamente caminhava para as suas últimas décadas de submissão ao Estado14. A princípio, percebemos pelo Régio Alvará que a população não exigia de imediato a ereção de uma paróquia, e sim a nomeação de um coadjutor que auxiliasse o pároco da Freguesia de Santa Ana. Pois alegavam ser um território grande, de almas necessitadas ao poder divino. Sendo assim seria impossível apenas um padre atender todas as necessidades dos fiéis. Mas, para a surpresa da população carente aos assuntos religiosos e a persistência das pessoas influentes que insistiam na criação da freguesia: “... Eis por bem mandar informar o mesmo Revd. Bispo se era mais conveniente, eregir alguma outra freguesia em sítio que lhe parece conveniente, desmembrando-a daquella, e atendendo a informação do dito Revd. Bispo, instruída com um requerimento do povo e representação do Juiz de Fôra, que anciosamente suplicavam a ereção de uma nova freguesia na Capela do Bom Jesus do Pouso Alegre, vulgarmente chamado de Mandú, que se achava erecta no sobredito districto da Freguesia de Santa Ana do Sapucaí...15 Portanto um requerimento feito pela população não teria tanto impacto e efeito, se não estivesse acompanhado da representação do Juiz de Fôra da cidade, juntamente com a ação nos bastidores do Pe. José Bento. 13 Livro do Tombo, p. 37. AZZI, Riolando. O Altar Unido ao Trono. Um projeto Conservador. S.P. 15 Livro do Tombo, p. 37. 14 4 “...o que tudo visto em resposta dos procuradores Geraes das Ordens, e de minha Real Coroa e Fazenda que tudo subia minha real presença em consulta do meu Tribunal da Mesa da Consciência e Ordens: Hei por bem eregir em nova capela, digo, em nova Freguesia Colada a Capela do Sr. Bom Jesus de Pouso Alegre, vulgarmente chamada de Mandú, desmembrada da Freguesia de Santana do Sapucaí em o Bispado de São Paulo, e mando ao Ver. Bispo dauqella diocese que fixe os limites a esta nova freguesia como lheparecem próprios...”16 Todavia, percebe-se novamente as características do regime de padroado no período colonial, onde o Estado zelava pelos negócios eclesiásticos e era responsável pelo funcionamento da Igreja, independente da Santa Sé. Portanto, o Régio Alvará da criação da Freguesia de Pouso Alegre foi finalizado com os seguintes dizeres: “...Hei por bem eregir em nova capela digo em nova Freguesia Colada a Capela do Sr. Bom Jesus do Pouso Alegre vulgarmente chamada de Mandú, desmembrada da Freguesia de Santana do Sapucaí em o Bispado de São Paulo, e, mando o Ver. Bispo daquela diocese que fixe os limites a esta nova freguesia como lhe parecem próprios. Este se cumprirá como nelle se contém, sendo passado pela Chancellaria da Ordem e registrado nos livros da Câmara de São Paulo e no de ambas as mencionadas freguesias...Rio de Janeiro 06 de Novembro de 1810.”17 Sendo então criada a nova Freguesia do Bom Jesus em Pouso Alegre, haveria agora o bispo paulista D. Matheus, estabelecer e fixar os limites do território que passaria a abranger a Freguesia do Bom Jesus. Geralmente o critério usado pelas autoridades eclesiásticas para marcar uma divisa e estabelecer os territórios de uma diocese ou freguesia, são as divisas naturais, como por exemplo rios, ribeirões serras etc. A nova Freguesia de Pouso Alegre, passou a dividir-se com mais quatro paróquias, Itajubá, Ouro Fino, Camanducaia e Santa Ana. Segundo consta na “Cópia do Editaes” dos limites da Freguesia do Bom Jesus, a nova freguesia passaria a fazer divisa com Itajubá, sendo o Rio da Vargem Grande o divisor dos limites entre as duas freguesias. “...que fica quase no meio de ambas as parochias, principiando desde suas cabeceiras, até as terras que tem Manoel Antônio de Azevedo... e dali em linha recta até as terras de Antônio Ribeiro da Silva...18”. 16 Idem Idem p.38. 18 Ibidem p. 40 17 5 Outra Freguesia que também passara a fazer limites com a Freguesia do Bom Jesus, foi a de Ouro Fino, o marco divisório foi o Ribeirão da Borda da Mata. “Cujo ribeirão descendo de uma estrada que vai de uma a outra Parochia, passando pelos fundo da morada de Manoel Marques, e dali digo, e descendo por elle abaixo até onde faz barra no Rio Mandú e dali até o cervo ficando servindo de divisa o Espigão denominado Boa Divisa, que justamente, é um que se acha no meio da distância de uma e outra matriz” Levando em consideração, os recursos disponíveis para fazer essas divisas, ao nosso ver, deveria ser bem delicado o trabalho de visitador designado pelo bispo para este ofício. Pois, o único meio para percorrer os territórios das freguesias, buscando um limite para separá-las, era no lombo de um cavalo. Outra freguesia que também passou a fazer divisa com a de Pouso Alegre, foi a de Camanducaia. “E da Freguesia de Pouso Alegre com Camanducaia é termo dividente: Seguindo rumo direito do morro da Boa Vereda até a estrada de Camanducaia para Pouso Alegre no lugar donde passa o Ribeirão dos Três Irmãs e dali descendo pelo dito Ribeirão até sua barra e dela seguindo rumo direito ao ribeirão...e dali direto ao Rio Capivary19”. A Freguesia de Santa Ana do Sapucaí, desde sua criação atendia eclesiasticamente a Capela do Mandú em Pouso Alegre ou Pouso do Mandú. A Paróquia de Santa Ana, assim como as demais paróquias que passaram a fazer limite com Freguesia ou Paróquia de Pouso Alegre, de certa forma tiveram que ceder parte de seu solo a nova Freguesia. “Certifico que esta Parochia divide com a Freguesia de Santa Ana do Sapucay pelo Rio Cervo desde suas cabeceiras até sua barra cuja divisão foi feita pelo parocho colado da mesna...20”. Todavia, como registrados nos documentos oficiais da Igreja, sob o selo e o sinal das armas das autoridades eclesiásticas, foi erecta a Freguesia de Pouso Alegre, e assim fixados os limites divisórios. Essas divisões servem para definir os limites entre as paróquias, até onde uma paróquia deve atender no sentido religioso, para obter sua sustentação diante dos compromissos com a Igreja. 19 20 Ibidem p. 43 Ibidem p. 44. 6 Hoje, a arquidiocese de Pouso Alegre para um melhor atendimento e organização pastoral é dividida por setores, sendo eles: Setor Fernão Dias, Mogi, Paraisópolis, Mantiqueira, Sapucaí, Dourado, Alto da Serra e Pouso Alegre. Fazendo uma relação com os setores de hoje, a Freguesia de Pouso Alegre, dividia-se no momento de sua criação, em sentido ao Setor Mantiqueira com a Freguesia de Itajubá, Setor Mogi Ouro Fino, Fernão Dias Camanducaia e finalmente com a Freguesia de Santa Ana no Setor Dourado. Mas é importante deixar bem claro, que no ano de 1810 ano da criação da Freguesia de Pouso Alegre, todas essas paróquias, Delfim Moreira, Ouro Fino, Camanducaia e Santa Ana, pertenciam eclesiasticamente ao bispado de São Paulo, assim como a nova Paróquia do Bom Jesus de Pouso Alegre. Portanto, relacionamos com os setores de hoje da Arquidiocese de Pouso Alegre, somente para se ter uma noção do aspecto geográfico e dos limites entre as Freguesias. Em relação ao atendimento religioso por parte da Igreja aos fiéis, sem dúvida, houve uma grande melhoria no sentido de mais uma paróquia na região, da figura do sacerdote, representantes do poder divino na comunidade. Esse fato foi de grande consideração para a carência espiritual das almas que viviam no Pouso do Mandú. Por outro lado, havia a Igreja Paulista, a visão de que seria importante para a região a criação de uma Freguesia no Pouso do Mandú, para o seu desenvolvimento religioso, social e político. Nesse momento inicial do século XIX, como já falado, devido a decadência do ouro na região das minas, surgiram outros meios para a sobrevivência econômica da Província Mineira. A saída encontrada pelos aventureiros que deixavam a região das minas, foi a atividade pastoril. Pouso Alegre, assim como diversas cidades da região passou nesse momento, por um período de desenvolvimento, em relação as atividades econômicas. Agora o campo era a unidade de esperança econômica da região. Diante desse novo ciclo de atividades, começam a chegar a região um grande número de pessoas ocupando e fazendo aumentar os arraiais. Conseqüentemente esse aumento populacional gerou o aumento das fazendas de criação de gado. Todavia, esse revigoramento do aumento populacional da região implicou diretamente nos trabalhos pastorais da Igreja. Como se sabe, logo no Início do século XIX foram criadas cinco paróquias no território mineiro. A necessidade do atendimento a população por parte da Igreja, estava atrelado ao retorno que daria a décima parte, contribuições e pagamentos dos sacramentos da população a suas paróquias. Entretanto, era de grande interesse da Igreja juntamente com o Estado, envolvidos pelo Regime de Padroado, eregirem novas paróquias, onde começasse a surgir sinais de desenvolvimento econômico. Nesse momento devido ao regime de Padroado que predominou no Brasil até a proclamação da República, quem administrava os dízimos era o Estado e não a Igreja. 7 Todas essas questões que envolvem nosso tema de estudo neste primeiro capítulo, onde procuramos retratar no início a caminhada da Igreja no período colonial e sua tentativa de uma Reforma Tridentina, para um entendimento dos caminhos que a Igreja percorreu em todo o período colonial e suas relações de submissão ao Estado devido ao regime de Padroado. Portanto, tentamos compreender a Igreja do período colonial para tentar entender a Igreja na cidade de Pouso Alegre, desde a criação da Freguesia – Paróquia do Bom Jesus em 1810. Pois a criação de uma paróquia é um traço tridentino, estabelecidos pelos mecanismos do Concílio de Trento. Até a criação da primeira diocese no Sul de Minas, também na mesma cidade, no ano de 1900. Mas este será o tema do próximo capítulo. Uma outra questão que se insere dentro da discussão dos aspectos tridentinos na região, é a questão das visitas pastorais, realizadas pelos representantes do Bispado de São Paulo. A Igreja através das visitas pastorais tinha como intenção criar um mecanismo de aproximação dos bispos, vistos como pastores, afim de que acompanhar e controlar o comportamento das “ovelhas” forma como eram vistos os fiéis. As visitas pastorais foram prescritas no Concílio de Trento. A observação e correção dos visitadores deveriam ser feitas segundo determinavam as diretrizes tridentinas, bem como as Constituições diocesanas, as quais traziam permenorizadas as diretrizes tridentinas 21. O fato que destacarmos neste capítulo a questão das visitas pastorais, implica justamente em ser um traço tridentino, objeto de reforma da Igreja. Na parte sul mineira do bispado paulista, logo no início do século XIX eram freqüentes as visitas dos religiosos na região. No início do século XIX, as paróquias no Estado mineiro pertencentes a diocese de São Paulo, receberam a visita do Dr. e Cônego Matheus Gonçalves de Andrade. O representante da diocese paulista percorreu as paróquias de Ouro Fino, Santa Ana do Sapucaí, isso no ano de 1803. Em 1809, visitou o Sul de minas o Padre Antônio Paes de Camargo, Vigário Colado de Santa Efigênia, nesse momento o Padre Antônio, visitou todas as paróquias paulistas na região. Entre visitas e regresso a sua diocese, o Padre Antônio Paes permaneceu como visitador da região por seis anos consecutivos. Em uma de suas últimas visitas, o Padre Antônio já se encontrava como Cônego e secretário do bispado paulista22. Uma boa vigilância de seu clero, fez com que D. Matheus enviasse ao Sul de Minas em 1818 o Vigário colado de Cotia, o Padre Antônio Marques Henriques, como de costume dos visitadores, percorrerem todas as paróquias praticando todos os atos de uma visita pastoral, um dos mais freqüentes e praticados por esses representantes era o sacramento da crisma. 21 Na Colônia até o século XVIII a atuação dos bispos e sacerdotes pautava-se pelas Constituições de Lisboa, que por sua vez pautavam-se no Concílio de Trento. Com a publicação das Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, no início do período setecentista, as dioceses e bispos de toda a Colônia passaram a utiliza-la para orientação de suas atividades. 22 C.F.: J.A de Oliveira, Diocese de Pouso Alegre no Ano Jubilar de 1950. 8 O sucessor de D. Matheus, D. Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade, criou mais seis paróquias no Sul de Minas. D. Manuel Joaquim, em 1832 nomeou um sacerdote da região como visitador o vigário de Pouso Alegre, Cônego José Bento F. de Melo 23. Percebam que os dois primeiros bispos, não tiveram contato direto com se clero. Os bispos nomeavam seus representantes para o exercício das visitas pastorais. A partir da segunda metade do século XIX, com a política de uma reforma da Igreja Católica no Brasil. Surgem os bispos reformadores, pois, cabia ao bispo orientar seu clero numa perspectiva de mudanças e reformas dentro da Igreja. Desenvolve-se na Igreja Católica um exaltado sentimento de fidelidade e devoção ao Papa, denominado ultramontanismo e uma crescente centralização romana24. D. Antônio Joaquim de Melo, bispo de São Paulo, entre 1852 a 1861, empenhou-se de forma superior a seus antecessores. Foi ele o primeiro bispo a visitar pessoalmente as paróquias paulistas do Sul de Minas. D. Antônio foi desataque entre os chamados bispos ultramontanos, dedicando parte de seu governo diocesano as visitas pastorais. D. Sebastião Pinto Rego, sucessor de D. Antônio Joaquim de Mello não deixou nenhum registro de visitas pastorais na região, e nem ao menos designou um representante para tal ofício. Porém, este bispo criou seis paróquias no Sul de Minas. As visitas pastorais na região, do sucessor de D. Sebastião, D. Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, a frente do bispado paulista de 1873 a 1894, foram freqüentes na região. D. Lino, durante seu bispado eregiu dezessete paróquias no território sul mineiro pertencente ao bispado paulista. D. Lino esteve em diversas paróquias do Sul de Minas, em 1880 e em 1889. Sua visita pastoral na cidade de Pouso Alegre, no ano de 1889, foi registrada no Livro de Tombo número 4 da cidade, que será esse novamente nosso objeto de análise. D. Lino Deodato, acompanhado de seu secretário de visita pastoral, o Cônego Raymundo Marcolino da Cruz Cintra, chegaram a Pouso Alegre no dia sete de Setembro, de 1889. Vejamos, como se registrou tal acontecimento: “Provimento Geral, dado em visita pastoral por S. Exª. Revmª. o Senhor bispo Diocesano, Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, a Paróchia do Senhor Bom Jesus dos Matozinhos da cidade de Pouso Alegre, sul da Província de Minas Geraes e Bispado de São Paulo25. 23 Idem. MATOS. Henrique Cristiano José, Caminhando pela História da Igreja. Vol. III. Ed. O Lutador, B.H 1996. 25 ACMPA, Livro de Tombo de Pouso Alegre, p. 03. 24 9 Como sendo uma das principais atividades desenvolvidas pelo bispo, D. Lino em sua visita pastoral em Pouso Alegre, conferiu o sacramento da crisma, segundo consta nos registros, do dia doze de setembro ao dia seis de outubro, há 8.358 pessoas. Sendo, 4.114 homens e 4.244 mulheres, pessoas de ambos os sexos e de diversas idades, estados e condições, achando-se os adultos preparados pela confissão e comunhão26. Além do sacramento da crisma, e das constantes celebrações e adoração ao S.Sacramento, cabia ao bispo “inspecionar” os objetos usados para o ofício religioso indispensáveis a uma Igreja paroquial. Das observações do bispo, vejamos como ele se referiu aos objetos da Paróquia do Bom Jesus. “Verificam-se que a Egreja Matriz está bem provida de paramentos a alfaias”27. A paróquia do Bom Jesus, deveria ser muito bem administrada pelo seu pároco, o Conêgo Vicente de Mello César, pois, o bispo não poupou elogios quanto, a conservação e limpeza dos objetos. “Além de uma custodia com relevas douradas...quatro cálices...vasos para Santos Óleos e concha basptismal...os livros da parochia estão bem conservados e os mais novos bem escripturados e em dia, o que muito abona a inteligência, dedicação e zelo, do actual Reverendo Parocho28”. De forma geral, o bispo D. Lino, como um visitador, fez colocações sobre o sacrário, pia batismal, sacristia, capela-mor, capelas e cemitério público, nada escapava aos olhos do visitador e seu secretário. Sobre o sacrário, ele registrou o seguinte: “...está como convém em capela própria, no compartimento que fica ao lado direito da capela mor...29” A respeito da pia batismal: “...esta provida do necessário para a solene administração do sacramento do batismo.” Porém, “vale lembrar a conveniência de se fazer substituir mais tarde essa pia por outra de mármore30. Em relação a sacristia, observou o seguinte: “...está decente...esta decente este altar, tem banqueta própria de metal branco...31. Retratando a capela mor, o secretário escreveu as palavras seguintes: “o retabulo e altar, que são oleado de branco, e sem fridos dourados, prestam-se decentemente ao mister a que são destinados32. Entretanto, “a imagem do padroeiro, que é a do Senhor crusificado, em vulto grande, está collocada no primeiro degrao do trono, e com quanto não seja tam perfeita como deveria ser33. Além dos visitadores fazerem uma ”inspeção“ na matriz, caso houvessem capelas pertencente a paróquia ela também eram visitas. Na paróquia do Bom Jesus em Pouso Alegre, segundo consta, havia somente uma capela, a de Santa Cruz, situada próxima ao cemitério, sobre essa capela foi novamente observado o seguinte: 26 Idem, p. 04. Ibidem, p. 09. 28 Ibidem, p. 11,12. 29 Ibidem, p. 12. 30 Ibidem, p. 13. 31 Ibidem, p. 13. 32 Ibidem, p. 14. 33 Ibidem, p. 14. 27 10 “é pequena...está sofrivelmente decente e nella se celebra o Santo Sacrifício da Missa, posto que lhe faltam ainda diversos parametros e alfaias...no estado actual dessa pequena capela não convém que ali se faça exposição do Santíssimo Sacramento34.” O único cemitério da cidade também foi visitado pelo bispo, que sobre o mesmo, registrou os termos da seguinte forma: “ É todo murado com colunas de tijolo, e paredes de pedra...um excelente portão de ferro...”. Contudo,: “Não tem ainda capella própria, mas cruz alta no centro 35” No momento em que D. Lino esteve pela última vez em Pouso Alegre, a Paróquia do Bom Jesus se encontrava em reformas, haveria nesse momento por parte dos religiosos locais a idéia de impressionar o bispo paulista: No sentido de uma estrutura organizada para ser a paróquia do Bom Jesus, uma catedral metropolitana, sendo Pouso Alegre a sede de um novo bispado: Pois, como vimos, há somente registros favoráveis ao bom funcionamento e organização da Paróquia. No ano de 1894, assumiu como bispo da diocese de São Paulo, D. Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, mais tarde, D. Arcoverde seria o primeiro cardeal latino-americano. Pessoalmente, o novo bispo paulista esteve em visita a algumas paróquias do Sul de Minas em 1896. Não há registros de visita pastoral, desse bispo em Pouso Alegre. De 1899 a 1903, período da criação da Diocese de Pouso Alegre, governou o bispado paulista, D. Antônio Cândido de Alvarenga. Tal bispo não esteve pessoalmente na região, mas nesse momento, como veremos no segundo capítulo, com as vicissitudes da criação da diocese, e com o empenho do vigário da cidade o Padre José Paulino de Andrada, para a criação do bispado na cidade, foi justamente o Padre José Paulino nomeado por D. Antônio, como visitador diocesano de todas as paróquias paulistas no Sul de Minas, foi essa a última visita efetuada na região. De certa forma, as visitas realizadas pelo Padre José Paulino, foram próprias para preparar as paróquias para a formação da nova diocese36, seguido da construção do seminário em 1899 para a formação dos novos sacerdotes, a idéia da construção dos seminários está inserida no discurso reformador da Igreja no Brasil, propostas dos bispos ultramontanos a partir da segunda metade do século XIX. 34 Ibidem, p. 19. Ibidem, p. 20. 36 CF.: J. A. de Oliveira, A diocese de Pouso Alegre no Ano Jubilar de 1950, p. 29. 35 11