Ano 19
n.1
2011
Caatinga:
a luta contra a
desertificação
Desastres ambientais
impactam área de seguros
“Doenças negligenciadas”:
falta de novos tratamentos ocasiona
milhões de mortes
Serra dos Órgãos: pesquisa científica e
lazer em prol da conservação
Foto da capa: Luiz Claudio Marigo
Editores
Anna Beatriz de Almeida Waehneldt
Claudia Guimarães
Editoração
Centro de Comunicação Corporativa
Senac
Projeto Gráfico,
Programação Visual e Diagramação
Cynthia Carvalho
Serviço Nacional
de Aprendizagem Comercial
Conselho Nacional
Antonio Oliveira Santos
Presidente
Revisão
Ana Cristina Lima
Produção Gráfica
Sandra Regina Fernandes do Amaral
Departamento Nacional
Sidney Cunha
Diretor-Geral
Senac/Departamento Nacional
Av. Ayrton Senna 5.555 - Barra da Tijuca
CEP 22775-004 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil
http://www.senac.br
E-mail: [email protected]
E-mail da revista: [email protected]
Os artigos assinados são de inteira respon­sabilidade
dos seus autores e sua reprodução, em qualquer
outro veículo de informação, só deve ser feita após
consulta à editoria da publicação Senac e Educação
Ambiental.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação
Senac e educação ambiental. – no. 1 (1992)- . – Rio
de Janeiro : Senac/Departamento Nacional, 1992- .
v. : Il. ; 30 cm.
Irregular.
1. Educação ambiental – Periódicos. 2. Ecologia –
Periódicos. 3. Meio ambiente – Periódicos. I. Senac.
Departamento Nacional.
CDD 574.505
Ficha elaborada pelo Centro de Documentação Técnica
(Cedoc) do Senac/DN.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
2
Senac e Educação Ambiental
Em um momento em que o debate em torno
da importância da preservação das nossas matas volta à
cena com mais força, Senac e Educação Ambiental chama
a atenção para a destruição da vegetação nativa de um
bioma geralmente pouco lembrado: a Caatinga.
Lar de mais de 20 milhões de brasileiros, e historicamente
marcada pelas intempéries do clima e por uma ocupação
com sérios equívocos políticos e sociais, a Caatinga é hoje o
bioma brasileiro mais ameaçado diante de um
cenário de aquecimento global.
O crescente processo de desertificação - causado por
muitos fatores, entre eles os desmatamentos e as
queimadas - vem provocando forte impacto sobre a fauna
e a flora do Semiárido, assim como na vida do sertanejo.
Para a população, surgem hoje melhores perspectivas de
atenuar o drama da seca, graças a iniciativas públicas e
da sociedade civil que visam proporcionar o bem mais
ambicionado nessa região: o suprimento
regular de água.
Se a situação da Caatinga é, em geral, preocupante,
sobram no país exemplos de bem-sucedidas
formas de se lidar com o nosso patrimônio
natural. Entre elas, destacamos a experiência
do Parque da Serra dos Órgãos, no Estado
do Rio de Janeiro, que nos seus 72 anos
de existência vem conseguindo aliar
preservação ambiental e pesquisa
científica, com a oferta de lazer
à população.
Destacamos, ainda, nesta edição
dois temas: a falta de interesse das
grandes indústrias farmacêuticas em
investir em novos tratamentos para as
chamadas “doenças negligenciadas”
(como a malária, o mal de Chagas e
a “doença do sono”) e os impactos
que os eventos climáticos extremos
(furacões, terremotos, tsunamis etc)
estão tendo especificamente sobre a
área de seguros, em todos os países.
foto: dreamstime.com
Por último, apresentamos uma
entrevista exclusiva com a
subsecretária de Economia Verde do
Estado do Rio de Janeiro, Suzana Kahn.
Nela, a engenheira e ambientalista
resume os desafios para pavimentar
o caminho rumo a uma economia
caracterizada por baixa emissão de
carbono. Responsável pelo tema na
Secretaria do Ambiente do Estado do Rio
de Janeiro, ela se mostra otimista quanto
ao futuro, apesar da gravidade dos desafios
e da lentidão dos acordos internacionais.
Senac e Educação Ambiental
3
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
8
26
46
Entrevista
Capa
Especial
Suzana Kahn:
“Está crescendo a
preocupação com a
sustentabilidade”
Caatinga busca
soluções contra riscos
de desertificação
Doenças negligenciadas
respondem por
milhões de mortes
Mais de 20 milhões de brasileiros
vivem no mais ameaçado bioma
nacional, onde o clima semiárido
impõe crescentes dificuldades
à sobrevivência do sertanejo. A
luta pela água, porém, demonstra
avanços, sobretudo pelas reservas
domiciliares, que se multiplicam
por meio de cisternas de grande
porte que estocam a água no
período chuvoso.
Males que afetam gravemente
cerca de um quinto da
humanidade, como a malária,
continuam a receber pouca
atenção das pesquisas e a ter
raros medicamentos novos.
Os laboratórios comerciais
consideram de pouco retorno
investimentos nessas doenças
da pobreza e a tarefa está sendo
assumida por uma rede de centros
de pesquisa governamentais de
países em desenvolvimento, entre
os quais o Brasil, com a
Fundação Oswaldo Cruz.
foto: dreamstime.com
A engenheira e ambientalista
Suzana Kahn comenta, em
entrevista exclusiva, os passos
necessários para se chegar
à implantação de uma Economia
Verde no dia a dia de nossa
sociedade, uma exigência para
a sustentabilidade da vida no
planeta. Responsável pelo tema na
Secretaria do Ambiente do Estado
do Rio de Janeiro, ela se mostra
otimista quanto ao futuro, apesar
da gravidade dos desafios e da
lentidão dos acordos internacionais.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
4
Senac e Educação Ambiental
13
Saúde
O desafio do saneamento
básico para todos
Universalizar os serviços de água
e tratamento de esgotos das
cidades brasileiras é uma meta
ainda distante, como mostra
o Atlas Brasil, estudo recente
da Agência Nacional de Águas
(ANA). Dados recentes do IBGE
mostram que apenas 28% das
cidades fazem o tratamento dos
seus dejetos e 13 milhões de
brasileiros não dispõem nem de
vaso sanitário em casa.
34
Eventos Extremos
Seguradoras alertas para os
desastres ambientais
A história humana sempre
registrou grandes cataclismas
periódicos, mas, recentemente,
a sua maior frequência e
intensidade alarma cientistas e
governos e cria a urgência de
reparos materiais cada vez mais
custosos, abrindo espaço para
uma nova categoria de seguros.
Senac e Educação Ambiental
20
Unidades
de Conservação
Ilha do Bananal
No coração do Brasil pulsa uma
região que guarda intocadas as
marcas de milênios na evolução
da flora e da fauna e abriga
tribos indígenas ainda vivendo as
tradições dos seus antepassados.
Mas o paraíso natural da Ilha do
Bananal começa a correr riscos.
40
Qualidade de Vida
Poluição eletromagnética, a
ameaça invisível da tecnologia
A eletricidade, que move todos
os aparelhos da vida moderna,
pode representar também riscos
para a saúde, segundo estudos
científicos, que recomendam
cuidados com seu uso, enquanto
sua periculosidade não estiver
totalmente determinada.
43
Biodiversidade
Serra dos Órgãos
Um dos primeiros parques
nacionais chega aos 70 anos
oferecendo melhor atendimento
aos visitantes e atuando como
pulmão verde de uma das maiores
concentrações humanas do país,
a Região Metropolitana do Rio de
Janeiro. Lazer popular e pesquisas
científicas completam a razão de
ser dessa importante área da Mata
Atlântica fluminense.
Criadouros ajudam a recuperar
espécies ameaçadas
Mudanças ambientais,
frequentemente produzidas
pelas atividades humanas,
desarticulam as condições naturais
de sobrevivência de numerosas
espécies. A paciente atividade dos
criadouros começa a dar novas
chances a esses animais.
Seções
Editorial 3
Cartas 7
Notas 19
Estante 39
5
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
BIG
Para expor suas opiniões na
Senac e Educação Ambiental ou
divulgar projetos e programas voltados
para a resolução de problemas
socioambientais, escreva para:
Senac Nacional
Diretoria de Educação Profissional
Centro de Educação a Distância
Av. Ayrton Senna, 5.555
Barra da Tijuca
CEP 22775-045
Rio de Janeiro - RJ
Fax: (21) 2136-5735
E-mail: [email protected]
Atendimento ao leitor:
Kátia Kitzinger
Atenção
As cartas devem trazer o nome e
o endereço completo do remetente
(no caso de e-mail, a cidade e
o estado)
Procure o Senac e comece já a se preparar.
Chegou a hora de os brasileiros se prepararem para
o maior evento que o país já recebeu. Temos muito
o que fazer e várias oportunidades pela frente.
Nas áreas de Turismo, Hospitalidade, Gestão,
Comércio, Idiomas ou Saúde, conte com o Senac:
a maior referência em educação profissional em
todo o Brasil.
www.copa2014.senac.br
Procure o Senac e comece já a se preparar.
Chegou a hora de os brasileiros se prepararem para o maior evento que o país já recebeu. Temos muito o que fazer e várias oportunidades pela frente. Nas áreas de Turismo,
FormandoIdiomas
profissionais
Hospitalidade, Gestão, Comércio,
ou vencedores
Saúde, conte com o Senac: a maior referência
Formando profissionais vencedores
em educação profissional em todo o Brasil.
www.copa2014.senac.br
Senac e Educação Ambiental
está na Internet:
http://www.senac.br
Conteúdo usado na
universidade
Gostaria de parabenizar pelo excelente trabalho que vem sendo realizado na publicação da revista Senac
e Educação Ambiental. Os artigos
são bem interessantes e vêm sendo,
geralmente, adotados como conteúdo para discussão nas disciplinas
que trabalhamos. Gostaria de saber
como proceder para ter acesso ao
acervo já publicado.
George Mamede
Coordenação do curso de
Engenharia de Energias
Universidade da Integração
Internacional da Lusofonia
Afro-Brasileira - Unilab Redenção
Ceará – Brasil
......
Apoio à produção de
textos
Tempos atrás, recebia a revista Senac e Educação Ambiental. Muito
boa, esclarecedora e que me servia,
até, para auxílio aos meus estudos e
apoio na produção de textos. Deixei
de recebê-la sem qualquer comunicação ou motivo aparente. Existe a
possibilidade de voltar a recebê-la?
Gostaria muito!
Alexandre Acioli
Recife – PE
......
Uso em minicursos
Quero parabenizar todos os responsáveis pela edição da revista,
não apenas pelos conteúdos e pela
apresentação, mas principalmente
pelo carinho com que cada exemplar
é preparado pela equipe. Nossa Instituição possui uma biblioteca com
inúmeros livros sobre o tema Ecologia e Meio Ambiente. Entretanto a
Revista Senac e Educação Ambiental é nosso único periódico sobre o
assunto e nos tem sido de enorme
valia na elaboração de minicursos e
para consultas diversas.
Tiago Resende
Belo Horizonte – MG
......
Material para discentes
e docentes
Aproveitamos para parabenizá-los
pela excelente publicação, de grande
valia para o acervo da biblioteca e do
corpo docente e discente da Faculdade de Belas Artes de São Paulo.
Marcia de Oliveira
São Paulo – SP
......
Servimos da presente para enaltecer
o excelente trabalho de pesquisa
realizado por essa conceituada revista, possibilitando aos discentes,
docentes e comunidade em geral a
plena atualização dos novos conceitos de gestão organizacional.
(...) Gostaríamos de contar com
exemplares da referida revista, que
certamente enriquecerá o nosso
acervo bibliográfico.
Prof. Roberto Guimarães
Extrema – MG
......
Papel reciclado
Tive acesso a esta por meio de um
professor do Senac/PR. Penso que
a proposta da revista é abrangente,
porém ela poderia ser ecológica nas
folhas tanto quanto o é nas páginas.
O papel branco libera dioxina, que
faz mal ao meio ambiente e às pessoas. Por que não apoiar a reciclagem do papel através do material de
suas folhas? Garanto que a revista,
num todo, iria ganhar muito mais
confiança e credibilidade.
Claudia Lopes
Curitiba – PR
......
Contribuição ao ensino
formal e não-formal
Venho aqui manifestar minhas saudações e parabenizá-los por esta
brilhante revista de educação ambiental, que é realmente exemplar
e de grande proveito para todos
nós que lidamos com as questões
ambientais, tanto no ensino formal
como no não-formal. Parabéns! A
sociedade agradece!
Roberto W. Neto
Vila Guarani – SP
......
Conteúdo rico e
dinâmico
Tão grata foi a minha surpresa ao conhecer a publicação Senac e Educação Ambiental, pois se trata de uma
obra riquíssima de conteúdo.
Maria Conceição da Silva
Macapá – AP
......
A revista Senac Educação Ambiental
sempre aborda assuntos de interesse de todos. É uma revista dinâmica,
que nos ajuda a entender o que há de
melhor em nosso ambiente.
Paulo Garibaldi
Sousa – PB
......
Gostaria de parabenizá-los pela alta
qualidade da revista. Trabalho na
área de educação e, com o objetivo
de ampliar meus conhecimentos,
gostaria de receber números atrasados.
Maria Conceição
Rio de Janeiro – RJ
......
Fonte de pesquisa
Sou estudante de Turismo e gostaria de receber a revista Senac e
Educação Ambiental, com a qual
tive contato e achei de excelente
qualidade. Os assuntos são tratados
de forma clara, objetiva e atualizada.
Gostaria de utilizá-la como fonte de
pesquisa e atualização.
Jorge Ribeiro
Niterói – RJ
......
Guia prático
(...) A revista contribui muito para
o andamento do meu trabalho. É
como se fosse um guia prático, que
tem me auxiliado na solução dos
problemas do dia a dia.
Marcos dos Santos
Dourados – MS
“Um mundo em crescimento
sustentável é bom para todos”
A ambientalista Suzana Kahn lida com as previsões mais catastróficas para o futuro do
planeta, mas rejeita o pessimismo. Seu otimismo baseia-se na expectativa de que o bom
senso e a força dos interesses pela sobrevivência comum vão prevalecer, gerando condições
para a reversão dos piores temores de um desequilíbrio ecológico irreversível
Elias Fajardo
foto: Mauricio Simonetti / Tyba
A engenheira Suzana Kahn Ribeiro é vicepresidente do Grupo de Mitigação do Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas
(IPCC), instituição que recebeu o Prêmio Nobel
da Paz em 2007, junto com o ex-vice-presidente
americano Al Gore, pela atuação nessa área. Segundo o climatologista Carlos Nobre, também
membro do IPCC, entre 2008 e 1010, quando
esteve à frente da Secretaria de Mudanças
Climáticas do Ministério de Meio Ambiente, ela
juntou audácia com capacidade de articulação
e contribuiu para reverter a posição brasileira
no sentido de que nosso país criasse metas
voluntárias de redução de emissões de gases
que provocam efeito estufa, apresentadas na
COP 15, Conferência das Partes da Convenção
de Mudanças Climáticas, realizada em Copenhague em 2009.
Agora, ela se vê diante de um novo desafio: em
março de 2011 tornou-se subsecretária de Economia Verde da Secretaria de Ambiente do Estado
do Rio de Janeiro. Isso significa contribuir para
criar as condições de uma economia caracterizada por baixa emissão de carbono na atmosfera e
melhor aproveitamento de recursos naturais.
Nesta entrevista, Suzana Khan analisa desde
temas complexos, como os subsídios para a
indústria do petróleo, até questões que influem
diretamente no cotidiano da população, como
o sistema de transporte de massa.
S&EA – O relatório “Rumo a uma economia
verde: caminhos para o desenvolvimento sustentável e a erradicação da pobreza”, divulgado
pelo Programa das Nações Unidas para o Meio
Ambiente (Pnuma) no início deste ano, informa
que construir um modelo econômico de baixo
carbono e melhor aproveitamento de recursos
naturais exigirá um investimento anual de mais
de US$ 1,3 trilhão, ou 2% do Produto Interno
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
8
Senac e Educação Ambiental
SK – Não acredito que a economia
verde vai se tornar uma utopia,
porque, quando se fala em custos
para implantar tecnologias novas
e limpas, é preciso também considerar todos os custos que, com a
implantação delas, estamos evitando gastar em outras ações. Então
a questão é que, muitas vezes, são
contabilizados apenas os custos de
um pedaço da cadeia de valor e os
benefícios estão em outro pedaço.
Um exemplo disso são os gastos
que a cidade, o estado e a nação têm
com a saúde da população.
Ao examinar os investimentos para
melhorar a qualidade do ar e para
aprimorar o transporte público,
podemos achar que eles são deficitários naquele momento. Mas o
que se economiza no Sistema Único
de Saúde é enorme, na medida em
que diminui a internação hospitalar
e também cai o número de horas
perdidas, quando as pessoas não
vão trabalhar porque estão com
doenças respiratórias. A análise de
todos esses fatores não costuma
ser contabilizada, bem como outras
questões de valoração de recursos
ambientais.
Um outro exemplo que posso dar,
em relação à relatividade de custos
considerados altos, é o caso dos
recursos hidricos. Para a própria
industria é muito importante estar
próxima do manancial de recursos
hídricos. Pagar para ter água limpa
vai aumentar os custos, mas precisamos considerar que a indústria
vai ter um custo cada vez maior
se tiver de ir buscar água muito
distante ou financiar, ela própria, a
limpeza da água que costuma usar.
Então investir para não esgotar os
recursos naturais vai sempre trazer
benefícios.
Hoje, um dos objetivos é exatamente explicitar tudo isso para que se
possa avaliar quanto vale o bom
uso do recurso natural e dar valor a
ele, seja o ar, a água ou o solo que
precisa ser regenerado. Porque,
dependendo da maneira como o
tratamos, até mesmo um recurso
dito renovável pode deixar de sêlo. Tomemos o exemplo do etanol,
do qual tanto se fala no Brasil. Ele é
produzido massivamente a partir do
cultivo da cana-de-açúcar: se não
cuidarmos da terra, com a adoção
de procedimentos corretos, ela vai
se esgotar, tende a ficar estéril e aí
vem a desertificação.
Então a análise em torno da economia verde tem de ser mais abrangente do que esta ótica muito focada
num só aspecto e sem levar em
consideração o todo.
S&EA – Os subsídios à produção
e comercialização de combustíveis fósseis superaram
US$ 650 bilhões em
2008.
Suzana Kahn:
subsecretária
de Economia
Verde do Rio de
Janeiro
1
Os dez setores identificados no relatório como fundamentais para tornar a economia global mais verde são: agricultura,
construção, abastecimento de energia, pesca, silvicultura, indústria, turismo, transportes, manejo de resíduos e água.
Senac e Educação Ambiental
9
Ano 20 • n.1
foto: Elias Fajardo
Bruto (PIB) mundial, em dez setores
estratégicos, até a metade do século
XXI1. O mundo está disposto e preparado para encarar este desafio ou
a economia verde vai continuar sendo uma utopia, apenas uma bandeira
levantada por ambientalistas?
foto: Cesar Duarte / Tyba
"Estamos estimulando o crescimento das energias limpas a partir do aumento da escala da sua utilização."
SK – Na questão dos subsídios, é
preciso ter certa cautela, porque
não se pode simplesmente retirar
alguns deles, sob pena de causar um
impacto na economia. A gente sabe
que o uso do óleo diesel envolve um
componente social grande, tanto
para o transporte público como
para o transporte de carga. Então,
se o preço do diesel aumentar muito
por falta de subsídios, o produto
final vai encarecer e o consumidor
brasileiro vai ser impactado. É claro
que, do ponto de vista ambiental,
incentivar o uso do diesel seria um
contrassenso.
foto: Ari Versiani / Tyba
Tantos recursos para um setor poluente desestimulam o projeto de
mudar a matriz energética. Diz o já
citado relatório do Pnuma: "Corrigir
subsídios onerosos e prejudiciais
em todos os setores abriria espaço
fiscal e liberaria recursos para a transição para uma economia verde." A
senhora acredita que a indústria petrolífera, por exemplo, que tem tanto
poder, abriria mão dos subsídios
governamentais que recebe?
"Estamos estudando melhores práticas para as grandes indústrias poluidoras"
tão trivial assim, ou seja, simplesmente retirar o subsídio porque o
diesel emite carbono. Precisamos
fazer uma análise mais aprofundada
do que isso vai causar de impacto
e, a partir daí, trabalhar para que
uma mudança não provoque um
efeito contrário ao que estamos
pretendendo. É necessário criar as
condições para, num determinado
prazo, retirar esses subsídios, que
é o desejado.
foto: Rogério Reis / Tyba
Mas, para começar a retirar o incentivo a ele, é preciso estar construindo uma alternativa, para que
possamos migrar de uma fonte de
energia para outra. Então não é algo
Acho que devemos caminhar para
a diminuição da participação dos
combustíveis fósseis nas nossas
atividades, mas para isso é preciso
estimular as alternativas, do contrário vamos acabar impingindo à
sociedade um custo ainda maior,
principalmente se considerarmos
que vivemos num mundo globalizado. Aqui no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, onde estou
trabalhando agora, se começarmos
a taxar isoladamente uma série de
atividades, podemos provocar uma
perda de competitividade na indústria. Por exemplo, se você taxar aqui,
mas seu vizinho não está taxando,
há um desequilíbrio e as pessoas
vão comprar em outro país ou em
outro estado. Então, na Subsecretaria de Mudanças Climáticas, ligada
à Secretaria de Ambiente do Estado
do Rio de Janeiro, estamos fazendo
essa análise da possível perda de
competitividade, para saber até que
ponto se pode chegar e o que é preciso fazer para podermos ir retirando
os subsídios.
S&EA – Impostos, incentivos fiscais, capacitação, treinamento e
"A gestão do
transporte é muito
complicada"
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
10
educação são algumas das ferramentas que devem ser acionadas
para construir um novo modelo econômico. Cite exemplos do emprego
de algumas delas no Brasil.
SK – Aqui no Rio de Janeiro, por
exemplo, temos um Imposto sobre
Circulação de Mercadorias, chamado de ICMS Verde, que é a cobrança
de um imposto diferenciado para
aquele município que teve um procedimento melhor em termos de
recuperação de áreas verdes etc.
No momento, estamos trabalhando
em um Zoneamento EconômicoEcológico (ZEE) em que a ideia é
incentivar ou taxar, procurando dar
condições diferenciadas às regiões
fluminenses em função do seu desempenho ambiental.
S&EA – A Região Metropolitana do
Rio de Janeiro está dominada por
ônibus poluentes e por uma massa
enorme de carros particulares, como
apontou recente estudo, indicando
um aumento de quase 30% da frota
de carros particulares, ou seja, 424
mil novos veículos, entre 2002 e
2011. A Subsecretaria tem planos
para sugerir mudanças no modelo
de transportes?
SK – No caso do transporte público,
estamos atuando no sentido de estabelecer uma meta de redução de
emissões de gases que provocam
efeito estufa, porque é o setor em
que podemos atuar mais fortemente. No transporte particular, a idéia
é que isto acabe sendo uma consequência, porque, na medida em que
se começa a melhorar o transporte
público, as pessoas têm mais chance
Senac e Educação Ambiental
SK – O que estamos estudando, inclusive com a colaboração das próprias grandes indústrias poluidoras,
é como trazê-las para um patamar de
melhores práticas que estão acontecendo no mundo. O instrumento
principal que temos na Secretaria
de Ambiente do Rio de Janeiro é o
licenciamento. No próprio ato do
licenciamento, estamos exigindo a
melhor tecnologia, e isto tem reflexos no parque industrial. Por outro
lado, já temos também um decreto
de compensação energética para o
caso de novas técnicas. Então, parte
da energia gerada por combustíveis
fósseis tem de ser acompanhada
pela geração de energias mais limpas, e com isto vai se criando uma
escala que tende a fazer com que o
custo destas novas tecnologias caia.
Estamos estimulando o crescimento
das energias limpas a partir do aumento da escala da sua utilização.
S&EA – Os transportes respondem
por 23% da emissão de CO2 no
mundo. A sra. afirma que é possível
implantar medidas concretas neste
setor. Em Estocolmo, por exemplo,
a cobrança pelo uso do carro em
área urbana diminuiu as emissões
de gases na atmosfera. E no Brasil?
As grandes obras projetadas para
a Copa de 2014 e as Olimpíadas
de 2016 podem permitir a incorporação de princípios da economia
verde no redesenho urbano que vai
acontecer?
SK – Sim, claro. Por exemplo, já
estamos analisando as vias de transporte rápido e o emprego de BRTs
(Bus Rapid Transport), sistema de
ônibus articulados, com capacidade
para levar mais passageiros, circulando em corredores exclusivos.
Estamos discutindo com os municípios fluminenses qual seria a melhor
tecnologia: ônibus elétricos, a gás,
a etanol ou ainda veículos que se
locomovem tanto com diesel como
com gás. Estamos realizando isso
através do próprio financiamento
do BNDES. O Banco, que financia
a compra de ônibus, só liberará
recursos para aqueles que tiverem
tecnologia mais moderna.
Senac e Educação Ambiental
SK – Elas tendem a ganhar novas dimensões, porque, se analisarmos a
realidade fora destes acordos internacionais, vemos que há um investimento cada vez maior em energia
renovável e tecnologias mais limpas.
Num mundo globalizado, quem não
se adapta acaba ficando para trás.
Os maiores poluidores e emissores
Termelétricas: "é
preciso estimular
alternativas"
foto: Cesar Duarte / Tyba
S&EA – O Rio de Janeiro é o segundo parque industrial do Brasil. Além
da atuação no setor do transportes,
quais as linhas mestras da Subsecretaria para desenvolver a economia verde no estado? Qual o nível
de sensibilização dos empresários
cariocas e fluminenses para adotar
medidas práticas, incorporando
princípios sustentáveis em seus
negócios? O custo das adaptações
é um empecilho?
S&EA – Em 2010, na Conferência
do Clima em Cancun, no México,
194 países definiram uma agenda
mínima para as mudanças climáticas.
Este acordo está longe de resolver
os problemas, mas o fato de todos
os países aceitarem voluntariamente reduzir emissões foi importante,
mesmo que os maiores poluidores
tenham sido contra adotar metas
obrigatórias de emissão com controles internacionais. Foi criado também
um Fundo Verde, que prevê alocar
US$ 100 bilhões por ano, a partir de
2020, embora não tenha sido definida
a origem das verbas que deverão
alimentá-lo. Como estas questões
se desdobrarão? Depois de longos e
desgastantes embates, o tema das
mudanças climáticas ganhará encaminhamentos viáveis?
11
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
foto: Ismar Ingber / Tyba
"Parte da energia
gerada por
combustíveis
fósseis tem de ser
acompanhada pela
geração de energias
mais limpas"
de migrar para outra forma de se locomover. Mas a gestão do transporte
é muito complicada, porque existem
interferências de várias esferas de
poder. Temos o município, que atua
fortemente, porque o transporte se
dá massivamente nas cidades. Já o
estado pode ser parceiro em certas
iniciativas, mas não pode interferir
tanto, pois quem cuida do transporte urbano é o município. Quanto a
outras medidas associadas, como
a troca de padrões de emissões de
gases que provocam efeito estufa,
isso fica na esfera de uma legislação
federal. O que se tem de fazer – e aí
começa um pouco a complicação – é
negociar de forma a poder caminhar
em direção a soluções viáveis.
foto: AF Rodrigues / Brazil Photos
de gases de efeito estufa são a China
e os Estados Unidos, que investem
muito em energia renovável.
Aliás, a China investe muito em
tudo. Ela tem muito carvão, mas é
a número um em energia eólica e
em placas solares. Já nos Estados
Unidos, há uma legislação dando
vantagens aos carros elétricos etc.
Então, independentemente de um
acordo global, que é muito difícil, estamos vendo acontecer uma série de
iniciativas – talvez não na velocidade
que desejamos, mas elas são concretas. A direção é esta. Um acordo
global é difícil, mas pelo menos não
está havendo retrocesso.
S&EA – Uma das dificuldades nesta
área são as formas de financiamento
através das quais as nações ricas –
as maiores responsáveis pelo aquecimento global - ajudariam os países
em desenvolvimento a minimizar
suas emissões. A senhora declarou
que, ajudando os mais pobres, os
mais ricos estariam ajudando a si
mesmos. Isso já está se concretiAno 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
Obras para a Copa
no Rio: desafio
de incorporar
princípios da
Economia Verde
zando?
SK – Ao examinar
o fluxo de capital
dos países mais
ricos para os em
desenvolvimento,
vemos que não
existe bondade
neste cenário. Ao
fazer isto, os ricos
também estão
criando mercados. Um mundo
e m c r e s cim e n to sustentável é
bom para todo
mundo, porque
tem mais atividade e se vende
mais. Quando um
país, por menor
que seja, entra em
colapso, como é
tudo muito interligado, uma crise
econômica afeta
todo mundo. Então não é interessante ter um país
ou um a r e gi ã o
muito deficitária. O
interessante é que haja crescimento,
porque todos têm vantagens. Assim,
auxiliar os países em crise significa
tentar tirar o mundo do colapso,
para que o comércio mundial não se
ressinta. Na hora em que um país vai
para o buraco, pode levar também
outros países ou regiões.
S&EA – O Protocolo de Kioto expira
em 2012. Há quem diga que ele desempenhou um papel importante no
contexto da problemática do clima.
Outros lembram que nem chegou a
ser cumprido, pois os Estados Unidos não o assinaram e alguns países
que aderiram, como o Canadá e a
Austrália, não cumpriram as metas
propostas. Qual é o seu balanço do
Protocolo de Kioto?
SK – Ele foi importante no sentido
quase de aprendizado, até para
mostrar que não é fácil construir
um acordo com metas e obrigações
para alguns países e para outros
não. Esse é o ponto central de o
Protocolo não ter tido sucesso: não
12
só os Estados Unidos não participaram, como um país do tamanho da
China, que emite muito e cresce rapidamente, também não participou.
Tudo isto mostra também a dificuldade de ter acordos que englobem
grandes países. Mas a estrutura do
Protocolo - e mesmo as metas parciais que foram criadas, entre elas
o incentivo a projetos associados
ao sequestro de carbono no ar e ao
comércio de emissões – foi muito
importante, porque começamos
a monitorar, a avaliar se o projeto
pode ser benéfico ou não à situação
do clima no planeta.
Outro exemplo: empreendimentos
como a captura do gás metano em
aterros sanitários de lixo puderam
acontecer por conta da existência
do Protocolo. E outro mais: o uso
do bagaço de cana como combustível teve muito incentivo a partir do
Protocolo. Hoje esse incentivo não é
mais necessário. Então o Protocolo
de Kioto teve, de alguma forma,
aspectos positivos.
S&EA – A senhora é otimista ou
pessimista com relação ao nosso
futuro comum? Os efeitos do desequilíbrio ambiental são irreversíveis
ou ainda é possível construirmos
uma sociedade planetária baseada
em princípios sustentáveis?
SK – O otimismo depende também
do nível de ambição que se tem. Se
a ambição for um mundo estável,
com todos os países tendo acesso
de maneira equitativa aos recursos,
eu não espero isto. Mas sou otimista, no sentido de que acho que as
coisas vão se ajeitar, pois ninguém
vai apostar num futuro em que não
se tenha lucro nem crescimento. Ao
mesmo tempo, cresce a preocupação com a sustentabilidade.
Mas acredito que continuarão a
existir problemas com a ética, pois
se não se consegue um ambiente de
relacionamento ideal nem em pequena escala, quem dirá no mundo.
Se a questão for esta, realmente eu
seria pessimista.
Mas, por outro lado, não considero a
destruição total por conta disto. Há
anos que se fala do fim do petróleo,
da enorme carência energética que
isto vai provocar etc. E, no entanto,
as coisas vão se desenrolando e
o mundo vai percorrendo novas
trilhas.
Senac e Educação Ambiental
Apesar de o Brasil dispor de 12% de toda a água doce do planeta, estudo da Agência
Nacional de Águas (ANA) prevê que serão precisos R$ 70 bilhões para garantir até 2025
o fornecimento de água e esgoto para toda a população. Se as reservas hídricas ainda dão
margem a certo otimismo, no quesito saneamento a situação é preocupante: apenas 28%
das cidades fazem o tratamento dos seus dejetos
Procópio Mineiro
O Dia Mundial da Água foi celebrado
em 22 de março sob o lema de “Água
para as cidades: responder ao desafio urbano”, lançado pela agência
Habitat, das Nações Unidas. Aqui,
a ocasião foi marcada pelo lançamento do Atlas Brasil pela Agência
Nacional de Águas (ANA), órgão do
Ministério do Meio Ambiente, que
fez um apurado estudo sobre os
desafios do abastecimento no país
até o ano de 2025, apontando as providências necessárias para a solução
dos problemas e para o atendimento
da segurança da população na questão do saneamento.
Já na Apresentação, o estudo resume a importância da superação
dos gargalos atuais nas redes de
abastecimento de água e esgoto nos
5.565 municípios brasileiros, devido
à importância dessa infraestrutura
para o crescimento do país.
Senac e Educação Ambiental
“A sustentabilidade e a segurança
hídricas são condicionantes ao desenvolvimento econômico e social
do país. Para enfrentar os sérios
problemas de acesso à água, que
atingem mais severamente a população de baixa renda dos pequenos
municípios e das periferias dos grandes centros urbanos, é fundamental
que se continue avançando no caminho do crescimento ambientalmente
responsável. A sucessão de eventos
críticos dos últimos anos, no Brasil
e no mundo, realça a gravidade
desses problemas. (...) Para vencer
esses desafios, é preciso empenho
dos governos no planejamento das
ações, na regulação da prestação
dos serviços públicos e nas políticas
de financiamento necessárias. Mas,
antes de tudo, é preciso conhecer o
problema em todas as suas dimensões”, afirma o estudo.
13
Entre outros pontos, o levantamento
realizado pela ANA “propõe medidas
de proteção dos mananciais e controle da poluição, ao indicar obras
de sistemas de coleta e tratamento
de esgotos”, e aponta a contaminação das fontes como um dos graves
problemas do setor a exigir também
a conscientização da população.
Um dos dados mais preocupantes
do levantamento do Atlas Brasil é
que apenas 28% das cidades fazem
o tratamento dos seus dejetos. Na
maioria absoluta dos casos, acabam in natura em rios, poluindo
inclusive mananciais de captação.
Segundo o IBGE, apenas na Região
Sudeste mais da metade dos domicílios (69,8%) tinha acesso à rede
de esgoto.
Esses dados se juntam aos apresentados em um estudo da Organização
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
foto: Rogério Reis / Tyba
País das águas mal distribuídas
planeja abastecimento
foto: AF Rodrigues
Barra da Tijuca (RJ): poluição das águas
reflete deficiência da rede de esgoto
Apesar de ser a sétima economia
do mundo, os recentes estudos
mostram que o Brasil está longe de
alcançar um dos compromissos que
assumiu, como signatário das Metas
do Milênio da ONU: reduzir em 50%,
até 2015, o número de pessoas sem
acesso a água potável e esgoto.
Deficiência das
canalizações e perdas
excessivas
O Atlas Brasil assinala que um dos
problemas do abastecimento é o alto
volume de perda de água tratada,
seja por deficiência das canalizações,
que sofrem vazamentos frequentes,
seja por retiradas clandestinas. Este
déficit entre a quantidade tratada nas
estações e o volume de consumo
registrado nos hidrômetros chega a
40%, um prejuízo anual em torno de
R$ 8 bilhões.
Para o ano de 2025, a ANA calcula
que o país poderá reduzir tais perdas
a 30%, um percentual ainda muito
alto, mas que ajudaria a resolver as
deficiências no abastecimento de
centenas de cidades, sem que fossem
necessários outros investimentos ou
a busca de novas fontes hídricas.
Para sanar este problema de desperdício, no entanto, será urgente
capacitar as empresas a melhorar
o gerenciamento de suas redes e,
em muitos casos, substituir ramais
muito antigos, onde é frequente que
vazamentos se estendam por muito
tempo sem serem percebidos, por
serem subterrâneos.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
Água: distribuição muito
desigual
Outras medidas envolvem o combate
a ligações clandestinas domiciliares
e empresariais e a troca dos hidrômetros a cada oito anos, além de
campanhas de conscientização da
população para o uso cada vez mais
responsável da água.
Para o ano de 2025, a infraestrutura
de saneamento deve estar pronta
para atender a cerca de 200 milhões
de brasileiros, dos quais mais da metade continuará apinhando cidades
da faixa litorânea, a menos servida de
cursos d’água e de aquíferos. Cerca
de 70% dessa população estará concentrada nas regiões Sudeste (45%)
e Nordeste (25%), as quais, por isso,
exigirão maior soma de investimentos e obras mais complexas para
captar toda a água necessária.
A maior parte da população brasileira (84%), segundo dados de 2010,
concentra-se em apenas 77 centros
urbanos acima de 250 mil moradores. Os restantes 16% espalham-se
em 5.153 pequenas cidades abaixo
de 50 mil pessoas e em outras 335,
que possuem entre 50 mil e 250
mil moradores. Esta variedade de
Estação de tratamento de
esgoto em Baueri (SP):
apenas um terço dos
dejetos é tratado no país
14
O estudo mostra que água e esgoto
estão entregues à administração de
empresas estaduais (69%, correspondendo à prestação de serviços
em 3.856 municípios), municipais
(27%, ou 1.510 municípios) e particulares (4%, ou 199 municípios),
com grandes disparidades técnicas
e financeiras para realizar os investimentos necessários.
O objetivo de universalizar o fornecimento de água e o tratamento de
esgotos até 2025 envolve superar
um déficit atual de 22%, no caso da
água, e de cerca de 70%, no caso do
esgotamento sanitário, pois 78% das
casas são abastecidas atualmente,
enquanto só 44% estão ligadas a
sistemas de esgoto.
foto: Delfim Martins / Tyba
Mundial da Saúde (OMS) de 2008,
segundo o qual o Brasil ocupa o nono
lugar na lista de países com maior
número de residências sem vaso
sanitário (13 milhões de pessoas).
proporções e a aglomeração de metrópoles na faixa litorânea, servida
de menor número de mananciais,
criam os diversos problemas que
será preciso superar até 2025, para
que os sistemas de abastecimento
e esgotamento sanitário não entrem
em colapso neste espaço de década
e meia à frente.
O consumo humano médio nacional
pulará dos 543 metros cúbicos por
segundo (dados de 2005) para 695
m3/s em 2025, com o uso per capita
calculado em 233 litros por dia, em
localidades com até 5 mil habitantes,
e até 373 litros diários, em cidades
acima de 500 mil habitantes. A Região Norte pulará da média de produção de 37 para 59 m3/s; o Nordeste,
de 130 para 170 m3/s; o Sudeste, de
266 para 323 m3/s; o Sul, de 74 para
94 m3 /s, e o Centro-Oeste, de 36
para 49 m3/s. No cálculo, segundo a
ANA, já estão computadas as altas
perdas comuns nos sistemas de
abastecimento.
Senac e Educação Ambiental
Mas, segundo afirma a ANA no
Atlas Brasil, “a grande variabilidade
climática que caracteriza o Brasil se
reflete em uma distribuição territorial bastante desigual dos recursos
hídricos disponíveis, verificando-se
extremos: enquanto a região de
maior escassez de água (Região
Hidrográfica Atlântico Nordeste
Oriental, que abrange o Rio Grande
do Norte e a Paraíba, além de boa
parte de Ceará, Pernambuco, Alagoas e pequeno trecho do Piauí) apresenta disponibilidade de 100 m3/s,
na Região Hidrográfica Amazônica
a disponibilidade hídrica é extremamente elevada, alcançando vazões
da ordem de 74 mil m3/s.”
Em resumo, a Amazônia conta com
81% das águas superficiais brasileiras
e o resto do país divide os restantes
19%, cabendo ao Nordeste Oriental,
devido à sua extensa região semiárida, apenas 0,001% (um milésimo) das
disponibilidades nacionais de captação de água, embora a região concentre 25% da população do país.
“O desafio do ponto de vista do
abastecimento de água consiste no
fato de a população brasileira estar
concentrada justamente nas regiões
em que a oferta de água é mais desfavorável”, informa a agência.
Quanto às águas subterrâneas, representam 42 mil m3/s ou 46% das águas
superficiais disponíveis. Cerca de
2.330 municípios já as usam, como
fonte exclusiva ou complementar
à de superfície. O tipo de aquífero
mais comum (estende-se sob 48%
do território nacional) é o poroso,
que acumula mais e produz mais,
concentrando-se nas bacias Amazônica, dos Parecis, Parnaíba e Paraná.
No Nordeste, predominam as acumulações subterrâneas menos produtivas e de menor qualidade, os tipos
fraturado e fraturado-cárstico, nas
bacias Semiárido e Bambuí-Caatinga,
que atendem a 255 cidades.
Previsão de
investimentos
Para superar os desafios, cabe aperfeiçoar os atuais sistemas e buscar
novas fontes, de modo a compatibilizar a oferta com as demandas
projetadas para 2025. Os cálculos do
Atlas Brasil indicam que o país precisa colocar em seu orçamento, daqui
para a frente, o dinheiro suficiente
para tocar os diversos estudos locais
e demais investimentos nos 5.565
municípios, de modo que cada residência disponha de suficiente água
tratada e dos serviços de esgotamento sanitário daqui a 15 anos.
A ANA prevê um gasto total de R$ 70
bilhões, sendo R$ 22,2 bilhões para
sistemas de água e R$ 47,8 bilhões
para sistemas de esgoto. A predominância dos investimentos em esgotamento sanitário reflete o histórico
esquecimento a que este assunto
é relegado pelos administradores
públicos, sob a alegação da falta de
recursos ou, segundo os opositores
de cada momento, porque “cano
enterrado não dá voto”.
Os técnicos, contudo, enfatizam que o
tratamento dos esgotos é um serviço
de alta relevância social, econômica e
ambiental, pois representa a redução
de doenças na população, menores
gastos em saúde e até no tratamento da água para consumo humano,
uma vez que lixo e dejetos tornam
muito cara a limpeza desse bem,
essencial à vida. A meta de 100%
de esgoto tratado, nos próximos 15
anos, representará a ressurreição
de centenas de rios, lagos e baías,
hoje em crítico estado de poluição e
fontes de contaminação.
No reforço do abastecimento de água,
o Sudeste e o Nordeste, as duas regiões mais populosas e menos contempladas com fontes hídricas, deverão
receber os investimentos maiores
(74% do total dos R$ 22,2 bilhões para
o setor), contemplando as necessidades de 2.076 municípios, a metade
dos quais localizados na Região Semiárida. Assim, as megalópoles de
São Paulo (R$, 5,3 bilhões) e Rio de
Janeiro (R$ 1 bilhão) e seus entornos,
no Sudeste, e Bahia (R$ 2,5 bilhões)
e Pernambuco (R$ 2,3 bilhões), no
Nordeste, receberão a maior parte
dos recursos para ampliação de seus
sistemas de adução.
A abrangência do estudo da Agência Nacional de Águas inclui detalhamentos quanto ao processo de
realização das obras, em conjunto
entre os governos federal, estaduais
e municipais, por intermédio do gerenciamento de comitês técnicos que
viabilizem a qualidade e o ritmo das
atividades. O Atlas Brasil desempenha, assim, o papel de um grande roteiro que possibilita ao país alcançar,
em década e meia, a oferta plena de
infraestrutura de saneamento, com
evidentes ganhos sociais, econômicos e ambientais.
Pirapora do Bom Jesus (SP) : apesar
dos avanços, a despoluição do rio Tietê
ainda é meta distante
Senac e Educação Ambiental
15
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
foto: João Luiz Bulcão / Tyba
Os números não deveriam tirar
o sono de ninguém, se as águas
fossem mais bem distribuídas pelo
país, tanto as superficiais quanto
as subterrâneas, uma vez que a
capacidade potencial brasileira de
captação hídrica é extraordinária:
91 mil m3/s (a vazão dos rios chega
a 180 mil m3/s). Assim, aqueles 695
m3/s de água tratada necessários em
2025 representarão apenas 0,76% da
capacidade disponível do país em
suas fontes superficiais, sem contar
as subterrâneas.
Código Florestal abre polêmica no Congresso
Depois de ser aprovado na Câmara
dos Deputados, no final de maio, o
projeto de mudança do Código Florestal se encontra sob análise do Senado. Se os senadores propuserem
mudanças, ele volta a ser discutido
na Câmara. Finalmente, deve ser
submetido ao Poder Executivo, sendo que a presidente Dilma Rousseff
tem a prerrogativa de vetar pontos
polêmicos ou até toda a proposta de
mudança do Código Florestal.
O projeto do Código Florestal em
discussão no Senado conta com o
apoio dos deputados da bancada
ruralista, que representa os interesses dos grandes proprietários
rurais e entende que a agropecuária
necessita de mais terras disponíveis
para produzir mais.
Já o Governo Federal apoia parte
do projeto, mas tem divergências
com relação a vários pontos. Um
dos principais é que o projeto,
na prática, anistia de multas os
proprietários que desmataram até
2008. Uma outra discordância diz
respeito à possibilidade de os estados legislarem sobre o Programa de
Regulamentação Ambiental.
As entidades científicas defendem uma discussão mais ampla e
queriam o adiamento da votação,
alegando que o Brasil tem um grande conhecimento em agricultura
tropical que não foi suficientemente
incluído na elaboração do projeto.
Em nota divulgada logo após a
votação na Câmara, os presidentes
da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena
B. Nader, e da Academia Brasileira
de Ciências (ABC), Jacob Palis,
solicitaram “mais dois anos para
construção de um código florestal
com base científica e tecnológica,
considerando aspectos jurídicos
não punitivos e com equidade econômica, social e ambiental”. Para as
entidades, foi “precipitada a decisão
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
“A aprovação da atual proposta de
reforma do Código Florestal é uma
imensa oportunidade perdida para
assegurar uma produção brasileira
em bases mais sustentáveis. Esse
seria um diferencial decisivo para
a aceitação de nossos produtos
no mercado internacional. Mas, se
forem associados ao aumento do
desmatamento e ao aquecimento
global, perderemos acesso a mercados”, critica o superintendente
de Conservação do WWF-Brasil,
Carlos Alberto Scaramuzza.
tomada na Câmara dos Deputados,
pois não levou em consideração
aspectos científicos e tecnológicos
na construção de um instrumento
legal para o país”. Lembraram, ainda,
que nunca houve convite oficial do
Congresso para que a ABC e a SBPC
participassem das discussões sobre
o substitutivo da lei florestal.
As entidades criaram um grupo de
trabalho composto por cientistas
das diferentes áreas e, em fevereiro,
divulgaram um relatório afirmando
que as APPs (áreas de preservação permanente), como matas em
margens de rio, não poderiam ser
alteradas – como prevê o texto-base
aprovado na Câmara, em maio.
Organizações ambientalistas também criticaram o projeto votado pela
Câmara por entenderem que representa um retrocesso com relação
à legislação ambiental. Eles acham
que é possível criar mecanismos
para conciliar produção agrícola e
proteção ambiental sem fazer grandes concessões ao desmatamento.
E lembram que, em março e abril de
2011, com a proximidade de votação
do Código, aumentou em 473% a
destruição da floresta amazônica,
segundo o Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (Inpe).
16
O proje to t ambém foi alvo de
ressalvas por par te de órgãos
ambientais, como a Agência Nacional de Águas (ANA), que em
abril passado divulgou, em nota
técnica, que não há necessidade
de alterar o atual Código Florestal
no que diz respeito às áreas de
mata ciliar, que margeiam os rios
do país. Segundo a nota, “não há
estudos técnicos que embasem as
limitações” propostas pelo projeto
aprovado na Câmara.
A Agência chamou a atenção para
a importância das matas ciliares
na proteção dos recursos hídricos,
uma vez que reduzem a quantidade
de resíduos defensivos e da adubação que chegam ao leito dos
cursos de água. Desproteger as
Áreas de Preservação Permanentes nas encostas e topos de morro
também não é benéfico para o
meio ambiente, segundo a ANA. A
Agência afirmou, ainda, que estas
áreas são consideradas zonas de
recarga dos aqüíferos.
O Código em vigor foi criado pela
Lei 4.771, de novembro de 1965,
e estabelece limites no uso das
propriedades rurais para respeitar
o meio ambiente, considerado pela
Constituição de 1988 um bem de
interesse comum dos brasileiros.
Senac e Educação Ambiental
Governo alemão
decide eliminar
energia nuclear
até 2022
Rio+20
vai discutir
economia verde
O grande acontecimento do ano
que vem será a Rio+20 - Conferência das Nações Unidas sobre
Desenvolvimento Sustentável, que
vai acontecer na cidade do Rio de
Janeiro, de 14 a 16 de maio. Os objetivos são realizar um balanço da
questão ambiental nos últimos 20
anos e, principalmente, reafirmar
os compromissos assumidos por
ocasião da Conferência sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento, a
Rio 92. Os dois principais temas a
serem discutidos no evento serão
a economia verde, no contexto da
erradicação da pobreza, e a governança internacional para o desenvolvimento sustentável.
A Rio+20 dará continuidade à tradição de reuniões da ONU sobre
temas ambientais, que começou
com a Conferência sobre Meio
Ambiente Humano realizada em
Estocolmo, em 1972. A ela se seguiu a Rio 92, que foi um marco na
história socioambiental do planeta,
pois deu origem às convenções da
Biodiversidade, da Desertificação
e das Mudanças Climáticas, além
de ter aprovado documentos como
a Car ta da Terra, a Declaração
de Princípios sobre Florestas e a
Agenda 21.
A preparação para a Rio+20 já está
em andamento, com a realização
de encontros e reuniões no Brasil
e em vários países. Todos os setores envolvidos concordam que há
muito o que fazer para construir
o nosso futuro comum. Assim, a
ideia é promover uma ampla discussão entre a sociedade civil e os
órgãos governamentais para dar
maior consistência e profundidade
aos debates que serão realizados
durante a Conferência. (Mais informações no site www.greeneconomycoalition.org).
Senac e Educação Ambiental
O governo de coalizão liderado
pela chanceler Angela Merkel decidiu, no final de maio, fechar todas
as 17 usinas nucleares do país até
2022. Em março, após o terremoto
seguido de tsunami no Japão, sete
reatores alemães foram fechados
temporariamente.
O fim do aterro
de Gramacho
Até dezembro de 2011, será fechado
o Aterro Municipal de Jardim Gramacho, no município de Duque de
Caxias, na Baixada Fluminense. Criado em 1976, numa área de 1.300.000
m2, ele recebe hoje cerca de 8 mil
toneladas de lixo por dia, vindas da
cidade do Rio de Janeiro e da Região
Metropolitana. Desse total, quase
200 toneladas são separadas para
reciclagem por 3.000 catadores que
atuam no local.
A partir de janeiro de 2012, os detritos da área urbana do Rio irão para
um novo aterro no município de
Seropédica, previsto para receber
9.000 toneladas diárias.
Recursos do Banco Mundial, do
BNDES e da CEF deverão ser empregados para melhorar a infraestrutura
das cooperativas de catadores, que
adquiriram maior visibilidade a partir
do filme “Lixo Extraordinário”, de Vik
Muniz. O filme foi premiado nos festivais de Sundance (EUA) e de Berlim
de 2010 como melhor documentário
escolhido pelo público. Ainda em
Berlim, ele recebeu o prêmio de defesa dos direitos humanos da Anistia
Internacional.
17
“Acreditamos que podemos mostrar aos países que querem abandonar a energia atômica que é
possível crescer, criar empregos
e gerar prosperidade econômica
optando por fontes renováveis de
energia”, declarou Merkel, ao fazer
o anúncio.
O ministro do Meio Ambiente alemão, Nobert Röttgen, comunicou
que as três usinas nucleares mais
modernas atrasarão eventualmente seu fechamento para 2022 no
caso de surgirem problemas com
a provisão de energia.
O governo alemão ainda não detalhou como irá substituir a energia
nuclear, apenas citou metas gerais
de aumentar dos atuais 17% para
35% a participação das fontes
renováveis na matriz energética
nacional, além de diminuir em
10% o consumo de energia em
seu território.
A decisão levantou críticas de países vizinhos, como a França, cujo
primeiro-ministro, François Fillon,
advertiu que será impossível para
a União Européia cumprir suas
metas de reduzir as emissões de
gases-estufa sem o uso de “alguma energia nuclear”. O ministro
do Meio Ambiente da Suécia, Andreas Carlgren, também criticou
a iniciativa: “Em vez de usinas nucleares, eles vão construir novas
usinas de carvão e gás e importar
energia da França” – país onde
quase 80% da energia vem das
usinas nucleares.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
O perigo dos
poluentes
orgânicos
resistentes
Os Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs) são compostos
químicos que, liberados no ambiente, resistem intensamente
a se degradar. São tóxicos e
cancerígenos, acumulam-se
nos organismos vivos e costumam ser transportados a longa
distância pela água, pelo vento
e pelos próprios animais. Eles
se dividem em pesticidas, dioxinas e furanos, sendo estes dois
últimos gerados por incinerações industriais de resíduos. A
queima de lixo e de pneus e a fabricação de cimento e de papel,
por exemplo, liberam dioxinas
e furanos na natureza.
A Convenção de Estocolmo
foi assinada em 2001 por 92
países e pela Comunidade
Europeia com o objetivo de
combater os POPs. O governo
brasileiro ratificou-a em 2004 e
se comprometeu a apresentar
um inventário sobre estas emissões de poluentes.”O inventário
aborda cada uma das categorias de fontes de geração destas
substâncias”, informa Ana Paula
Leal, gerente de Segurança
Química da Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade
Ambiental do MMA.
Dioxinas e furanos entram na
cadeia alimentar sem se degradar e por isso podem passar de
uma planta para o animal que se
alimenta dela. Uma pesquisa
feita pela Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) em
2001, em dez cidades brasileiras, constatou níveis acima da
média aceitável dessas duas
substâncias no leite de mães
em Cubatão, Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Índices
próximos à média foram encontrados em Caapora (PB), Belém
(PA), São Paulo (SP) e Fortaleza.
Em Brasília (DF) e Recife (PE)
foram registrados níveis mais
baixos no leite materno.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
Crescem os investimentos em
energias limpas
Os investimentos em energias limpas cresceram 30% no mundo em 2010 e
chegaram ao recorde de US$ 243 bilhões, segundo o relatório Quem está
vencendo a corrida pela energia limpa?, publicado pela ONG norte-americana
Pew Charitable Trusts. Depois de um recuo causado pela crise econômica de
2008, a maioria dos países voltou a direcionar mais recursos para este setor. A
China é a campeã, com US$ 54,4 bilhões, mais de um quinto do total geral.
Com investimento de U$ 7,6 bilhões, o Brasil ocupa o sexto lugar na lista de
países que mais investem em energias limpas. Cerca de 90% da energia elétrica brasileira provém de hidrelétricas. Na previsão para os próximos cinco
anos, a nossa produção de etanol ganha destaque com a possibilidade de
produção de 36 bilhões de litros. Para a geração elétrica com biomassa, estão
planejados mais de 8.000 megawatts; para as pequenas centrais hidroelétricas
(PCH), 5.000 megawatts.
Biodiversidade à moda
indiana
Em outubro de 2012, será realizada, na Índia, a décima-primeira
Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica.
Segundo o ministro de Meio Ambiente e Florestas do país, Jairam
Ramesh, em entrevista ao jornal Business Standard, a Convenção
é muito importante e deve ser fortalecida, pois reafirma o direito
soberano dos países sobre seus recursos biológicos, ao mesmo
tempo que estabelece a conservação deles, o uso sustentável de
seus componentes e a partilha justa e equitativa dos benefícios
gerados pela utilização de recursos genéticos.
Em 2002, a Índia foi um dos primeiros países a promulgar uma
legislação sobre diversidade biológica, que regula o acesso aos
recursos naturais e a repartição de seus benefícios.
18
Senac e Educação Ambiental
Incentivo ao comércio justo
Uma reunião do Conselho Nacional de Economia Solidária realizada
em Brasília, em 22 de março deste ano, selecionou entidades para
compor a Comissão Gestora do Sistema Nacional de Comércio
Justo e Solidário. Na comissão estarão representados produtores
organizados e órgãos governamentais de apoio a este segmento
comercial, entre eles o Sebrae. É uma tentativa de fortalecer um
comércio baseado na interação entre produtores e empresários
que trabalham com mercadorias elaboradas dentro dos princípios
da ética, justiça social e respeito ao meio ambiente.
O comércio justo cresce no país e a ONG Faces do Brasil informa
que existem experiências positivas em todas as regiões. Eis algumas delas: no Sudeste, a Associação dos Pequenos Agricultores
e Trabalhadores Rurais (Apat), de Tombos e Pedra Dourada (MG),
envolve 350 famílias de produtores rurais locais e 100 famílias
consumidoras da cidade do Rio de Janeiro. Eles comerciam milho,
café, cachaça e açúcar mascavo. As cascas de café e feijão viram
composto orgânico e o bagaço da cana é usado como combustível.
No Norte, destaca-se a Cooperativa de Fruticultores de Abaetetuba
(PA), a Cofruta, com 131 sócios que vendem polpa de acerola, cajá
e açaí e sementes de cupuaçu. Seu açaí foi certificado pelo Instituto
de Mercado Ecológico da Suíça.
No Centro-Oeste, a Central do Cerrado (DF) articula 20 organizações
comunitárias que exploram sustentavelmente a biodiversidade local
e fazem venda direta e a varejo. No Sul, a Associação dos Pequenos
Agricultores do Oeste Catarinense (Apaco) reúne 12 cooperativas
de agricultores familiares, com 117 agroindústrias e mais de 600
famílias que produzem embutidos, laticínios, mel, derivados da cana
de açúcar, ovos, pães, conservas e doces. No Nordeste, o Círculo
de Trabalhadores Cristãos de Gravatá (PE) mantém três escolas na
periferia da cidade, para 400 alunos de baixa renda, e também a
Cooperativa Art Gravatá, em que jovens produzem brinquedos e
materiais pedagógicos em madeira.
Água: um balanço desequilibrado
A população mundial aumentou 2,5 vezes no século XX, enquanto o consumo
de água cresceu seis vezes. Hoje, 2,5 bilhões de seres humanos vivem em
estresse hídrico, ou seja, uma situação em que cada pessoa tem acesso a
menos de mil metros cúbicos de água por ano.
Em 2025, segundo a ONU, cerca de 5,5 bilhões de pessoas viverão esta dificuldade. Além disso, a disponibilidade da água potável ao longo do planeta é
extremamente desigual. Ásia, África e Europa, juntas, têm 86% da população
mundial, mas apenas 55% dos recursos hídricos. Na América do Sul, o panorama se inverte: o continente tem apenas 6% da população e 26% da água.
Senac e Educação Ambiental
19
Troca de fraldas
Um grupo norte-americano liderado pela empresária Judy Aagard,
dona de uma empresa de fraldas no
seu país, realizou uma manifestação
curiosa: uma troca de fraldas simultânea, às 13 horas do dia 13 de abril
de 2011, em vários países, inclusive
no Brasil. O objetivo foi divulgar a
ideia da volta às fraldas de pano.
As fraldas descartáveis de plástico
são mais práticas, mas demoram
centenas de anos para se degradar
e contaminam os lixões onde são
depositadas. Já as de pano podem
ser reutilizadas, mas sua lavagem
gasta água, sabão e branqueadores à base de cloro e detergentes
poluentes.
Segundo o jornal eletrônico Crescer, a versão de tecido ainda é a
mais empregada no Brasil, por
razões econômicas: cerca de 73%
dos bebês de até 30 meses usam
o mesmo modelo que protegeu
seus pais e avós. Existem hoje no
mercado versões mais modernas
de fraldas de pano, com velcro e
uma camada de proteção de algodão, mas podem custar até dez
vezes mais do que as descartáveis
de plástico.
Nesta disputa ainda não se sabe
quem venceu, mas os defensores
de fraldas de pano pretendem
continuar sua campanha, pro movendo trocas de fraldas tão
grandes que possam figurar nos
livros de recordes.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
Bananal
Uma ilha gigante no
coração do Brasil
Maior ilha fluvial do mundo e um dos mais significativos santuários ecológicos brasileiros,
a Ilha do Bananal, em Tocantins, fica em uma encruzilhada natural entre o Cerrado e a
Floresta Amazônica. Periodicamente, são inundados 80% do seu território, que abriga dois
parques indígenas e mais de 200 lagos. Na floresta ou nas praias de areia, a vida se cria e se
multiplica. Mas a aproximação de fazendeiros representa um crescente risco
foto: Jose Caldas / BrazilPhotos
Elias Fajardo
Na linguagem biológica, a Ilha do
Bananal é um ecótono. Ecotonia,
uma palavra de origem grega, é
composta por tono (tensão) que,
ao lado do prefixo eco, cria o significado de área de tensão. E tanto
em termos científicos como sociais,
a tensão costuma criar conflitos,
mas também pode favorecer o
surgimento de novas realidades e
possibilidades.
A ilha se situa em uma área de transição entre dois dos maiores biomas
brasileiros: a Floresta Amazônica e
o Cerrado. Ela abriga organismos
desses dois biomas, além de formas
de vida próprias. Isso explica a exuberância dos processos vitais que
ali ocorrem e a mistura de espécies
diferentes, algo que os ecólogos
chamam de “efeito de borda”.
Ano 20
19 • n.1 • janeiro/junho
janeiro/abril de
de2011
2011
Entre outras, as funções dos ecótonos são servir de habitat para muitas
espécies, ajudar nas transformações
ambientais e acumular e exportar
matéria orgânica.
Segundo o geólogo Ivo Medina,
a origem da Ilha do Bananal está
ligada ao que acontece nos rios:
os depósitos de sedimentos do seu
solo resultam da desagregação ou
da decomposição de rochas primitivas ao longo dos cursos d’água,
em um processo natural que ocorre
há milhares de anos e que continua
ainda hoje intensamente.
A ilha fica na região chamada de
Depressão do Araguaia e é constituída por sedimentos da Formação
Bananal, que reúne areias, siltes
(pequenas partículas de minerais
20
que variam de 0,05mm a 0,005mm
de diâmetro) e crostas de rochas
com alto teor de ferro que aparecem
nas regiões tropicais úmidas. As
suas extensas praias arenosas nos
falam desse passado longínquo: a
ilha teria surgido no período Quaternário, há 1,8 milhão de anos.
Na ilha estão situados o Parque Indígena do Araguaia, ao sul (criado em
1971), a Terra Indígena Inawébohonã
(criada em 2006) e o Parque Nacional
do Araguaia, ao norte (criado em
1959). Parte da área do Parque Nacional do Araguaia está sobreposta
pela Terra Indígena Inawébohonã.
Além disso, a ilha é área protegida
pela Convenção sobre Zonas Úmidas de Importância Internacional, a
Convenção de Ramsar, um tratado
intergovernamental para conservar
Senac e Educação Ambiental
O clima é tropical quente semiúmido, com 38°C de agosto a setembro
e 22°C em julho. De novembro a abril
predominam as chuvas, e de maio a
outubro é época da estação seca.
Nesse santuário ecológico coexistem formas de vegetação que vão
desde a floresta tropical (resistente
a inundações e a longos períodos
chuvosos, alternados com prolongadas estiagens), até o cerradão
(com árvores altas e vegetação
densa), o cerrado restrito (com árvores menores e menos biomassa)
e campos de gramíneas inundáveis.
É possível encontrar árvores de até
30 metros de altura. Ao longo dos
rios, se distribuem palmeiras, maçarandubas, canjeranas e centenas
de outras espécies.
O rio Araguaia lança ali seu braço
principal, o Javaé, que vai encontrálo mais adiante em seu curso. Outra
característica notável na drenagem
da ilha é a ipuca (“água arrebentada”,
na língua tupi), uma espécie de “ilha”
vegetal da região central da bacia
do Araguaia, que, nas cheias, ajuda
a delimitar rios, córregos e igapós.
As ipucas são fragmentos florestais
que ocorrem nas várzeas, não se
prestam à agricultura e têm papel
ambiental importante. A portaria 483
do Instituto Natureza de Tocantins
(Naturantins) estabelece critérios
para proteger não só seu solo e sua
vegetação, mas também uma faixa
de 15 metros em torno delas.
Ambiente aquático e
aves
Em alguns locais, é possível percorrer de barco toda a ilha no sentido
transversal. Por outro lado, na seca
de 2007, quando a região ficou cinco
meses sem ter as bênçãos da chuva,
o rio Javaé desapareceu e a maior
ilha fluvial do mundo deixou provisoriamente de ser ilha.
Os lagos concentram a fauna e são
cenários de grande beleza. Há cerca
Senac e Educação Ambiental
de 200 lagos no Parque Nacional do
Araguaia e muitos outros nas reservas indígenas, todos muito cobiçados pela riqueza do pescado.
A fauna tem espécies do Cerrado,
da Região Amazônica e também
pantaneiras. A ilha é distante do
Pantanal Mato-Grossense, mas
nela, por causa do constante subir e
descer das águas, são encontrados
ambientes típicos do Pantanal, que
abrigam aves como o colhereiro, o
tuiuiú, a águia-pescadora, o socóboi, o bico-de-brasa, a ararimbinha,
o rapazinho-dos-velhos. Algumas
vivem permanentemente ali, outras
são migratórias.
Uma das mais curiosas é, sem
dúvida, a cigana, encontrada nas
várzeas amazônicas e nas suas
bordas. Em seu grande papo são fermentadas as folhas que ela engole,
num sistema parecido com o dos
bois. Tem forte cheiro de almíscar e
emite sons parecidos com os sons
dos répteis. Seus filhotes têm garras na curvatura das asas e elas são
as únicas aves no mundo com tais
características. Algumas horas depois de nascer, as pequenas ciganas
escalam a vegetação ribeirinha com
a ajuda das garras. Por tudo isto, os
pesquisadores acham que elas têm
parentescos com aves pré-históricas
e até, longinquamente, com os dinossauros.
Entre os mamíferos, citam-se a
onça-pintada, que está no topo da
cadeia dessa espécie, e também a
jaguatirica. Os quelônios também
vivem na ilha e, entre eles, podemos
mencionar a tracajá e a tartarugada-amazônia, a maior espécie de
quelônio de água doce da América
do Sul. Na época da reprodução,
as fêmeas sobem às praias, cavam
ninhos e depositam, cada uma, de
150 a 200 ovos. Cobertos de areia,
os ovos levam cerca de dois meses
para eclodir. Aí, começa a corrida
das tartaruguinhas para as águas,
atravessando as depressões de areia
que as fêmeas criaram ao fazer os
ninhos e fugindo dos predadores.
21
fotos: Jose Caldas / BrazilPhotos
e estimular o uso racional de recursos naturais das regiões úmidas.
Espécies ainda
encontradas
no Bananal: a
tartaruga tracajá,
o socó-boi e
o tamanduábandeira
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
Os índios
Os problemas
Como no res t ante do país, os
primeiros habitantes da região
foram os índios. Antigamente, as
etnias karajás e javaés, do tronco
linguístico macro-jê, espalhavam- se
pelo Vale do Araguaia. Com o tempo,
ocuparam também a Ilha do Bananal
e, não por acaso, seu sistema fluvial
está presente na mitologia indígena,
que se estrutura a partir do desenho
caprichoso dos cursos d´água e de
seus movimentos sazonais.
Grandes projetos de agricultura
(como o cultivo de arroz), transporte e
uso das águas são algumas das ameaças que a ilha tem sofrido. Até hoje,
a população do seu entorno continua
ocupando áreas indígenas e usandoas como pasto. O turismo agressivo e
o tráfico em grande escala de peixes
nobres, como o pirarucu, ameaçado
de extinção, também entram na lista
dos problemas e desafios. Algumas
instituições da sociedade civil, como
a ONG Ecológica – que realiza trabalho comunitário no seu entorno,
reflorestamento com árvores nativas
e pesquisa de carbono e mudança de
clima –, além de órgãos estaduais do
Tocantins, procuram minorar esses
impactos.
A maioria das aldeias tem uma ou
mais fileiras de casas ao longo do
rio; algumas habitadas por mulheres
e outras por homens. As relações
entre os parentes formam alianças
que norteiam a ocupação do território. Em geral, o genro passa a morar
com o sogro e a trabalhar para ele
depois do casamento. Os karajás
conservam sua língua e entre eles e
os javaés ainda é possível encontrar
um traço característico das tribos
indígenas: o ato de trabalhar visto
como uma atividade destinada a suprir as necessidades de todos e não
algo para satisfazer só os interesses
individuais. O centro ritual e político
das aldeias é a casa dos homens.
Hoje, são nove aldeias do grupo karajá e 12 do grupo javaé. Mas assim
como as águas e as matas, a própria
forma de viver dos índios e a sua
convivência com os brancos estão
também em transformação.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
A Ilha do Bananal tem
cerca de 20 mil quilômetros quadrados de extensão (1.916.225 hectares),
tamanho próximo ao estado de Sergipe. Localiza-se entre as latitudes
9°44’S e 12°49’S e entre
as longitudes 49°52’O e
50°44’O. Seus limites físicos são os rios Araguaia e
Javaés. Fica no Tocantins,
próximo à divisa com os
estados de Goiás, Mato
Grosso e Pará.
O futuro da Ilha do Bananal está marcado por grandes interrogações. E nele
devem estar presentes também os
pontos de vista dos indígenas, como
lembra o cacique karajá Daniel Coxini,
da aldeia Fontoura, em depoimento
publicado no livro Ilha do Bananal –
encontro de ecossistemas e culturas,
editado pelo Instituto Ecológica.
“Aqui sempre ficou nossa terra e
roças onde pegamos o buriti, os
cocos, a palha, os remédios. Agora,
dizem que não é mais dos karajás,
pois um dia o fazendeiro veio dizendo que era amigo e pediu para
os índios emprestarem terras para
ele botar gado. O fazendeiro cercou,
queimou os buritizeiros e hoje os
restos de nossas aldeias e nossas
panelas podem ser encontrados no
meio do pasto. Nós só queremos de
volta o que sempre foi nosso”.
Como em outros territórios do país, a
Ilha do Bananal é palco de disputas,
que ameaçam a integridade de uma
das regiões com maior biodiversidade e beleza do país.
22
Seu território pertence aos
municípios de Formoso do
Araguaia, Lagoa da Confusão e Pium, cujas prefeituras recebem recursos
do governo federal como
compensação, já que a ilha
é área indígena e unidade
de conservação.
foto: Jose Caldas / BrazilPhotos
Segundo Giovanni Salera Júnior,
mestre em Ciências do Ambiente e
especialista em Direito Ambiental, a
separação entre o território karajá e o
javaé é feita pelos rios Jaburu e Riozinho, que cortam a ilha pelo meio em
sentido longitudinal. A oeste ficam
os karajás; a leste, os javaés.
Perfil
da ilha
A Fundação Nacional do Índio (Funai) é o órgão ligado
ao Parque Indígena do Araguaia, e o Instituto Chico
Mendes de Conservação
da Biodiversidade (ICMbio) faz a gestão do Parque
Nacional do Araguaia. A
gestão compartilhada da
área sobreposta do Parque
Nacional do Araguaia e da
Terra Indígena Inawébohonã está sendo discutida
com representantes de
comunidades indígenas,
da Funai e do ICMbio.
Senac e Educação Ambiental
Parque da Serra dos Órgãos:
Aos 72 anos, o refúgio natural recebe crescente número de visitantes, que
podem dispor de variadas atividades de lazer, e oferece aos pesquisadores
preciosas oportunidades de estudos
Francisco Luiz Noel
Educação ambiental, montanhismo,
escalada e pesquisa acadêmica convivem lado a lado no Parque Nacional
da Serra dos Órgãos, um dos mais
antigos santuários ecológicos sob
proteção legal no Brasil. Com entrada
principal em Teresópolis, a 93 quilômetros da cidade do Rio de Janeiro,
a unidade é referência entre os 30
parques federais abertos à visitação,
do total de 64 sob a tutela do Instituto
Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade (ICMBio). O Parnaso,
como é chamado por frequentadores e pesquisadores, se destaca por
atributos como a qualidade do uso
público, o estímulo ao trabalho científico, a prevenção de incêndios e, no
saldo geral, a difusão do respeito ao
meio ambiente.
O parque é o quarto mais visitado do
país, atrás de seus congêneres da Tijuca, na capital fluminense; do Iguaçu,
no interior do Paraná, e de Brasília.
“Nossa visitação tem forte caráter
sazonal, com concentração nos rios
e cachoeiras, no verão, e nas montanhas, no inverno”, assinala o chefe da
unidade, Ernesto Viveiros de Castro.
O recorde de público foi atingido em
2010: 132.140 pessoas, mais de 6%
além dos 124 mil visitantes do ano
Senac e Educação Ambiental
anterior. O movimento aumenta ano a ano - 47 mil visitantes em
2004, 75 mil em 2005, 97 mil em 2206
e 113 mil em 2007. A frequência só
declinou em 2008, quando o excesso
de chuvas e a escassez de feriadões
baixou as visitas para 80 mil. Em 2010,
o mês de maior visitação foi fevereiro,
quando 29 mil pessoas – mais de mil
por dia – estiveram no parque.
Setentão, o Parque Nacional da Serra
dos Órgãos é um dos mais antigos do
Brasil. Criado em 30 de novembro de
1939 pelo presidente Getúlio Vargas, é
o terceiro da geração pioneira de unidades do gênero, precedido apenas
pelos parques nacionais do Iguaçu,
instituído em janeiro do mesmo ano, e
de Itatiaia, no Rio de Janeiro, em junho
de 1937. Com a criação das unidades,
no rastro da entrada em vigor do Código Florestal, em 1934, o Estado Novo
deu corpo às primeiras manifestações
em defesa da preservação de espaços
naturais, espécies vegetais e animais,
recursos hídricos e monumentos geológicos caros aos brasileiros.
Mergulho na natureza
Na Serra dos Órgãos, a mais vistosa
maravilha erigida pela natureza é a
cadeia de montanhas rochosas dominada pelo Dedo de Deus. O pico,
23
com 1.692 metros, escalado pela
primeira vez em 1912 e alçado à condição de símbolo do montanhismo
nacional, está para o parque como
as cataratas estão para o do Iguaçu
e as montanhas das Agulhas Negras
para o de Itatiaia. Outra atração geológica da serra é a Pedra do Açu,
rota obrigatória dos montanhistas
na travessia Petrópolis-Teresópolis,
uma das trilhas mais fascinantes do
país. Mirante de uma deslumbrante
panorâmica da Baía de Guanabara, o
Açu é uma rocha gigantesca fendida
pelas forças naturais, no topo de um
chapadão.
O nome da serra foi dado pelos
colonizadores por tugueses, que,
olhando da baía em direção ao interior, associaram o Dedo de Deus
e montanhas vizinhas aos foles dos
órgãos das antigas igrejas. As dimensões originais do parque somavam
nove mil hectares, nos municípios
de Teresópolis, Magé e Petrópolis.
A área foi ampliada para 10.650
hectares em agosto de 1984 e, seis
anos depois, passou ocupar parte de
mais um município, Guapimirim, que
abriga o Dedo. A fama da montanha
alimentava rivalidades locais havia
décadas, pois, embora ela fosse
identificada com Teresópolis, estava
situada em terras de Magé, perdidas
pelos mageenses com a emancipação
de Guapimirim.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
foto: Flavio Varricchio / Brazil Photos
preservação junto com lazer
Dos anos 1940 aos 50, a proximidade da cidade do Rio de Janeiro,
antiga capital federal, contribuiu
para fazer do Parque da Serra dos
Órgãos uma vitrine da natureza
tropical aos olhos brasileiros e
estrangeiros. A unidade, frequentada por autoridades e diplomatas
de outro países, recebeu vários
investimentos em estrutura para
a visitação. Além da instalação da
piscina natural, foram erguidos
edificações administrativas e operacionais, abrigos na Trilha do Sino
e residências para funcionários. O
parque chegou a ter 250 servidores,
incluídos garçons paramentados a
caráter, de smoking, a serviço de
visitantes em abrigos na floresta.
Com a mudança da capital para
Brasília, em 1960, o parque entrou
em declínio, de onde foi resgatado
no inicio dos anos 1980. Na época,
a unidade ganhou um plano de manejo, que caracterizou suas zonas,
traçou finalidades para cada uma e
fixou formas de uso nas partes abertas ao público. Em agosto de 1984,
um decreto presidencial delimitou e
procedeu à regularização fundiária
de algumas áreas, com a compra
de terras vizinhas. Na década seguinte, antigas instalações foram
recuperadas, ampliadas e outras
foram erguidas. O parque ganhou
um centro de operações e outro
para visitantes, auditório, a Casa do
Montanhista e uma pousada, num
antigo abrigo.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
fotos: Luiz Claudio Marigo
Vitrine ecológica
O Parque Nacional da Serra dos
Órgãos foi o primeiro a fazer um
plano de manejo com recursos
humanos de seu quadro funcional.
“Normalmente, os planos costumam ser contratados de consultores e raramente são implementados. Aqui, o plano foi feito por
nossa equipe, com a colaboração
de pesquisadores e do conselho.
Nós nos reunimos frequentemente
para monitorar a implementação
das atividades previstas. Até o
momento, colocamos em prática
95% das ações previstas desde
2 0 0 8 ”, o r g u l h a - s e o c h e f e d o
parque. Em 2009, a frequência
da unidade gerou receita de R$
460 mil – 15% dos gastos com a
estrutura oferecida à visitação, de
R$ 3 milhões.
As obras realizadas no parque, que
totalizaram investimento de R$ 4
milhões em 2008 e 2009, melhoraram as condições de acolhida
e proporcionaram licitações para
a exploração privada de diversos
ser viços. Os edit ais, lançados
como parte do programa Turismo
nos Parques, incluem cobrança de
ingresso e estacionamento, gestão
dos centros de visitantes, transporte interno, operação de campings,
abrigos, pousada e restaurante,
além da operação de esportes de
aventura como tirolesa, escalada
em muro e arvorismo.
Biodiversidade
De todos os vertebrados terrestres
do Brasil, 20% estão representados
24
A fauna e a flora dessa região registram
quase três mil espécies
Senac e Educação Ambiental
no Parque Nacional da Serra dos
Órgãos, que conta com 462 tipos
de aves, 105 de mamíferos e 101 de
anfíbios, incluídas espécies endêmicas e ameaçadas, como o macaco
muriqui. Expedições de pesquisa
em áreas bem preservadas detectaram sinais da presença também da
onça pintada, considerada extinta
na serra. Os indícios reforçam a importância da gestão integrada e da
busca de interligação com unidades
vizinhas, como o Parque Estadual
dos Três Picos, conforme prevê o
Mosaico de Unidades de Conservação da Mata Atlântica Central
Fluminense, instituído em 2006 pelo
Ministério do Meio Ambiente.
O conhecimento sobre a fauna
e a flora locais, distribuídas em
mais de 2,8 mil espécies, vem
sendo ampliado graças às pesquisas científicas. Em 2009, o parque
autorizou 66 novos estudos – um
recorde, pelo quinto ano, entre as
unidades do ICMBio. Numa das
pesquisas, coordenada pelo biólogo
Marcus Nadruz Coelho, do Jardim
Botânico do Rio de Janeiro, foram
encontradas duas novas espécies e
“redescobertas” outras, tidas como
extintas. “A resposta desse projeto
é o conhecimento da flora do parque de uma maneira bem realista,
que vai servir de exemplo para que
outras unidades de conservação
façam o mesmo, já que não adianta
preservar sem conhecer”, observa
o pesquisador.
A melhoria da prestação de serviços
ao público ocorre pouco mais de
dois anos depois de uma conquista
histórica da causa ambiental, com
reflexos nos quatro municípios
com áreas dentro do parque. Dos
10.650 hectares, a unidade teve a
área aumentada para 20.030 ha, em
13 de setembro de 2008, por força
de decreto assinado pelo então
presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
em Petrópolis. Com as novas áreas
agregadas à preservação, o parque
cresceu 88%, passando a dispor de
mais condições para conservar a
biodiversidade na região, proteger
mananciais que abastecem a população e abrir novas possibilidades
para o ecoturismo.
“Vários parques foram criados nos
últimos anos, mas a maioria está em
áreas remotas. O diferencial no Parque Nacional da Serra dos Órgãos
foi o fato de termos conseguido uma
ampliação tão expressiva, mesmo
estando numa área tão urbanizada”,
destaca Ernesto Viveiros de Castro.
“Além disso, o processo teve grande
participação da sociedade, por meio
do conselho consultivo do parque,
de reuniões em comunidades e de
consulta pública. O apoio foi tão
grande que a proposta técnica propunha a incorporação de 7 mil hectares e, no fim, foram incorporados
mais de 9 mil, graças às sugestões
da sociedade.”
Alianças e conflitos
Ao mesmo tempo que facilita o
acesso de visitantes, a proximidade com o Grande Rio impõe
atenção redobrada frente ao risco
de impactos típicos das regiões
metropolitanas, como a expansão
urbana e a poluição. Em nome da
boa convivência com as populações
vizinhas, o Parque Nacional da Serra
dos Órgãos inclui em seu conselho
consultivo representantes de prefeituras, moradores, produtores rurais,
empresários, montanhistas e outros
segmentos sociais. Os participantes
debatem prioridades ambientais e
iniciativas sustentáveis no entorno,
como o tratamento biológico de esgotos e a agricultura orgânica.
Mas nem tudo são flores. “Os conflitos são inevitáveis, já que as cidades crescem e as pessoas buscam
novas áreas para morar. Procuramos
resolver os problemas com diálogo,
sempre que é possível”, afirma o
chefe da unidade. A ocupação humana está presente em duas áreas
do parque: os vales do Garrafão, em
Guapimirim, e do Bonfim, em Petrópolis – respectivamente, com 45 e
100 moradias. A solução definitiva
do problema depende de dotações
do governo federal. No caso do Bonfim, porta de entrada do parque no
município, a solução do problema
fundiário está associada à melhoria
da sede local, modesta para a importância do acesso petropolitano
ao parque.
Outro desafio enfrentado na unidade, cor tada pelo trecho RioTeresópolis da BR-116 e por uma
linha de transmissão de energia, é
o enquadramento ambiental dessas
atividades. Desde 2008, a concessionária da estrada é responsável
por várias medidas de proteção,
como o acompanhamento de animais acidentados, o controle da
poluição atmosférica, hídrica e sonora, o tráfego de cargas perigosas
e a invasão do parque a partir da via.
Vitória nessa frente foi o fechamento
de um posto de gasolina, com apoio
do Ministério Público. Outra investida ambiental objetiva erradicar o
comércio irregular de plantas na
área – uma dupla ameaça à flora,
seja pela extinção de formas nativas,
seja pela disseminação de espécies
exóticas.
A crescente visitação por parte de
turistas, esportistas e estudiosos da
flora e da fauna atesta que o Parque
Nacional da Serra dos Órgãos representa um espaço de preservação da
natureza cada vez mais importante,
não só para o Estado do Rio, mas
para o país.
foto: Otacílio Rodrigues / Tyba
Só em 2010, mais de 132 mil
pessoas visitaram o parque
Caatinga,
o maior desafio brasileiro ante o
aquecimento global
Satélites alertam sobre a agonia do Semiárido e uma nova política pretende reverter a tendência
à desertificação, combater desmatamentos e queimadas e criar meios de garantir água para os
21 milhões de sertanejos. Implantação de cisternas, para captação de água da chuva destinada
ao consumo humano e para irrigação de produção familiar, começa a acender esperanças
Procópio Mineiro
O aquecimento atmosférico global
continua no centro de uma polêmica
científico-política que, a cada ano,
leva a comunidade internacional
a debater diretrizes, em busca de
consensos para a redução da emissão de gases de efeito estufa, o que
não se conseguiu nas duas últimas
Cúpulas do Clima, em Copenhague
(2009) e Cancun (2010).
Os cientistas insistem no alerta
sobre o desastre ambiental que se
aproxima, enquanto os políticos
procuram, ante esses riscos do
futuro, administrar as demandas do
presente – a gestão econômica que
configura riquezas e poder internacional e que se estrutura sobre muitas práticas de insustentabilidade
ambiental, como o uso excessivo de
energias poluentes e o desmedido
consumo dos recursos naturais.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
O Brasil tem muito a perder com a
evolução do aquecimento global e
já possui uma extensíssima região
sob ameaça extrema: é a Caatinga –
o bioma nacional mais ameaçado e
que engloba o grande e seco interior
do Nordeste, mais o Norte de Minas
Gerais e fração do Espírito Santo,
já no Sudeste, abrangendo um
território de cerca de um milhão de
quilômetros quadrados, um oitavo
do território nacional. É a terra de
21 milhões de brasileiros, que vivem
em 1.133 municípios, onde a média
pluviométrica anual gira em torno de
750 milímetros e a seca castiga periodicamente. Para comparação, vale
lembrar que na Amazônia chovem
até 3.000 mm anuais, no Sudeste as
chuvas variam de 1.500 mm a 3.000
mm, no Sul oscilam entre 1.200 mm
e 2.000 mm e, no Centro-Oeste, entre 1.250 mm e 3.000 mm anuais.
26
Quando se projetam cenários do
aquecimento global para o mundo
da Caatinga, teme-se a generalização de um fenômeno que já
se verifica ao olhar a paisagem
de diversas áreas desse bioma:
a desertificação. Nesses pontos,
extensos em partes de Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba,
Pernambuco, Sergipe e até Minas
Gerais, 238.644 km2 (cerca de 20%
da área abrangida pelo bioma) são
considerados de propensão muito
alta para se transformarem em desertos, isto é, são áreas em que o
solo, os sistemas hídricos, a fauna
e a flora estão perto de um ponto
de desarticulação definitiva, capaz
de tornar impossível a ocupação
humana. Outros 384.000 km2 estão
em situação de alto risco de desertificação, e mais 358.000 km2 em
risco moderado.
Senac e Educação Ambiental
Desmatamento
acelerado
À tragédia ambiental temida, somase a dos milhões de pessoas que
vivem na região e que atendem por
um designativo que é sinônimo de
dor e carências: os sertanejos.
O Programa de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da
Seca na América do Sul, do Instituto Interamericano de Cooperação
para a Agricultura (IICA), adverte
que o avanço da desertificação traz
uma ameaça social assustadora:
“Segundo estimativas das Nações
Unidas, uma dieta nutricionalmente
adequada para a crescente população mundial implica a triplicação da
produção de alimentos ao longo dos
próximos 50 anos, meta difícil de se
alcançar mesmo sob condições favoráveis. Dentro desta perspectiva,
pode-se esperar um agravamento
Senac e Educação Ambiental
significativo no quadro de desnutrição, falência econômica, baixo
nível educacional e concentração
de renda e poder que já existem
tradicionalmente em muitas áreas
propensas à desertificação nos países pobres ou em desenvolvimento.
Sob essas condições vivem milhões
de pessoas com pouca chance de se
enquadrar em uma economia cada
vez mais moderna e globalizada.”
Esta descrição corresponde a um retrato bem aproximado do que sucede
na Caatinga: fragilidade ambiental
decorrente do clima e da ação humana, resultando em baixo nível econômico, pobreza, fome, recorrência da
má escolaridade, cidadania precária.
Os programas assistenciais oficiais
vêm mitigando os efeitos sociais
negativos, mas não influem na causa
principal do desequilíbrio regional,
que é o clima adverso, que ameaça
tornar-se ainda mais hostil.
Em busca de práticas
sustentáveis
No ano passado, o então ministro
do Meio Ambiente, Carlos Minc,
lançou um alerta sobre a Caatinga,
anunciando um programa oficial de
ações voltadas para impedir uma
catástrofe ambiental no bioma brasileiro mais frágil, a começar pela
destinação à Caatinga de metade
dos recursos do Fundo Nacional de
27
“Não haverá solução para a defesa
da Caatinga sem mudar a matriz
energética, com o uso de energia
eólica, de pequenas centrais hidrelétricas e do gás natural”, propôs na
época Carlos Minc, referindo-se às
conclusões do estudo “Monitoramento dos Biomas Brasileiros”, que
aponta a ação humana como fator de
desequilíbrio da Caatinga, em especial pelo desmatamento para uso da
lenha como fonte energética.
Esse estudo do Ministério do Meio
Ambiente/Ibama compara os levantamentos realizados em 2002 e
em 2008, indicando que a Caatinga
perdeu mais 2% de sua cobertura
florestal nesse período de apenas
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
foto: Luiz Claudio Marigo
Assim, da área de 1.150.662 km2, a
região do Semiárido tem 980.711
km 2 suscetíveis à desertificação,
caso nada se faça para a reversão
do processo, quando, no horizonte, o fenômeno do aquecimento
global ameaça provocar efeitos
sinistros num sistema ambiental já
altamente fragilizado, tanto pelas
condições naturais quanto pela
intervenção humana.
Mudanças Climáticas – R$ 500 milhões anuais. O Banco do Nordeste,
por sua vez, gerenciará um Fundo
Caatinga, específico para levar
agricultores e pecuaristas a práticas
sustentáveis em suas atividades.
Fiscalização contra desmatamento
e queimadas, aliada a financiamento de projetos de recuperação do
bioma e educação ambiental são
as linhas básicas das ações oficiais
e compõem também o Pacto pelo
Desenvolvimento do Semiárido
Brasileiro, documento final do I Encontro Nacional de Enfrentamento
da Desertificação, realizado nas
cidades gêmeas de Juazeiro, Bahia,
e Petrolina, em Pernambuco, em
março de 2010, quando o ministro
fez seu pronunciamento.
No período 2002-2008, desapareceram mais 16.576 km2 de matas,
a uma taxa média anual de 2.763
km2 – nada menos que 7,5 km2 por
dia. Bahia (4.527 km2), Ceará (4.132
km2), Piauí (2.586 km2) e Pernambuco (2.204 km2), Rio Grande do Norte
(1.142 km2) e Paraíba (1.013 km2)
lideraram o desmatamento. Minas
Gerais (359 km2), Alagoas (353 km2),
Sergipe (157 km2) e Maranhão (97
km2) completaram o quadro.
Entre os 20 municípios campeões
desse desmatamento, sete são
cearenses (Barro, o vice-campeão
nordestino da motosserra sertaneja,
já que perdeu as árvores de 13,9%
de seu território, e mais Acopiara – o
terceiro, pois pôs abaixo as árvores
de 8% de seu território municipal
em seis anos, além de Tauá, Boa
Viagem, Crateús, Santa Quitéria e
Saboeiro). Outros sete são baianos
(Bom Jesus da Lapa, Morro do
Chapéu, Campo Formoso, Casa
Nova, Tucano, Mucugê e Euclides da
Cunha), quatro são pernambucanos
O mesmo estudo do Ministério do
Meio Ambiente revela que essa
surpreendente atividade desmatadora na Caatinga representou
uma significativa contribuição ao
aquecimento global, pois do bioma
foram lançados na atmosfera 25
milhões de toneladas anuais de
dióxido de carbono (CO2), nos seis
anos estudados.
Como perspectiva ambiental, o
quadro é muito preocupante, quan-
do se projeta a rotineira limitação e
irregularidade de chuvas na região
com o avanço do aquecimento global. De atenuante, apenas o fato de
que os corpos d’água aumentaram
de 0,95% para 0,99%, indicando a
construção de novos locais para
acumulação hídrica, como açudes.
Cisternas mais
transposição do São
Francisco
Água é a questão do Semiárido. O
elemento essencial à sobrevivência
humana torna-se, com frequência,
um desafio à vida humana, animal
e vegetal, numa região em que as
irregularidades do clima tanto podem produzir secas mortais quanto
fazer despencar súbitas e desastrosas chuvas torrenciais. A situação
passou a provocar preocupação
nacional no século XIX, na época
imperial (ver boxe), quando planos
de combate à seca começaram a
surgir e consagraram a açudagem,
os grandes reservatórios-lagos,
como principal sistema de oferta de
água aos sertanejos.
Mas, dependendo da intensidade
da seca, mesmo os açudes secam,
como inúmeros rios e riachos que
só correm na estação chuvosa, e
os poços domésticos muitas vezes
resultam em água salobra. Ainda no
Império, surgiu a idéia de transposição de águas do Rio São Francisco,
foto: Luiz Claudio Marigo
A motosserra sertaneja
(Serra Talhada, Petrolina, São José
do Belmonte, este perdendo em
seis anos 7,7% da cobertura vegetal municipal, e Pedra, que perdeu
nada menos que 10,5% das matas
locais). Os últimos dois, dentre os
maiores desmatadores, pertencem
ao Rio Grande do Norte: Mossoró e
Touros, este o campeoníssimo, pois
perdeu 14,9% das suas matas entre
2002 e 2008.
foto: Claus Meyer / Tyba
seis anos. Restava, em 2002, um
total de 55,67% das matas do bioma,
que se reduziram agora a 53,62%, o
que significa que o desmatamento
atinge hoje 45,39% da Caatinga.
Apesar dos problemas, a Caatinga
contém uma rica biodiversidade,
em que se incluem 932 espécies de
plantas, 148 de mamíferos e nada
menos que 510 de aves.
só agora sendo concretizada. Não
sem evitar polêmicas profundas,
ante o temor de muitos de que a
retirada de água agrave a situação
ambiental do São Francisco e resulte
em modificações insignificantes no
combate à seca e na oferta de água
à população da região.
Hoje, a transposição de águas está
às vésperas de se tornar realidade,
com o objetivo declarado de beneficiar 12 milhões de pessoas com uma
oferta sustentada de água, por meio
da perenização de algumas bacias
hidrográficas em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, e
melhor desempenho de um sistema
de grandes açudes já existentes.
Alimentados com menos de 2% da
vazão do São Francisco, dois grandes sistemas de adução abastecerão
os açudes, que deixarão de sofrer
os efeitos das secas e alimentarão,
de forma permanente, os rios hoje
temporários do Sertão.
Quase 500 mil
reservatórios
Já os partidários do sistema de
cisternas estão envolvidos em
outro programa público, o P1MC,
que quer dizer Programa 1 Milhão
de Cisternas, que já atingiu quase
50% da meta e deverá fechar 2011
próximo aos 60%. Até março de
2011, foram construídos 480 mil
cisternas domiciliares, beneficiando
quantidade igual de famílias – cerca
de 2,5 milhões de pessoas. Quando
completo, o programa terá dotado
um milhão de famílias (5 milhões
de pessoas) com um reservatório
domiciliar de 16 mil litros de água
das chuvas, recolhidas do telhado
das casas. É garantia hídrica para
até oito meses – uma revolução no
dia a dia dos sertanejos e um drible
de alta eficiência nos determinismos
do clima seco.
“A cisterna é mesmo uma revolução
para a família do Semiárido, pois
Senac e Educação Ambiental
modifica a perspectiva de vida das
pessoas”, diz Igor Arsky, coordenador-geral do Programa de Cisternas
do Ministério do Desenvolvimento
Social.
Em execução desde 2003, o P1MC
é gerenciado pela Articulação do
Semiárido (ASA), uma entidade
não governamental que congrega
os esforços de centenas de outras
organizações não governamentais
voltadas para ações sociais e econômicas no ambiente da Caatinga.
A sustentação financeira é basicamente pública, em especial do
Governo Federal, por intermédio do
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), para
a construção das cisternas.
Dados de março de 2011 confirmam
que as cisternas construídas já chegam a 480 mil, distribuídas por 11
estados e 1.073 municípios, beneficiando 480 mil famílias, que receberam também noções ambientais.
Até o final de 2011, o Ministério do
Desenvolvimento Social e Combate
à Fome planeja financiar a construção de mais 100 mil cisternas, nos
convênios com a ASA.
O P1MC é considerado um êxito,
com grande efeito sobre o bemestar das famílias sertanejas, segundo o presidente do Conselho
Nacional de Segurança Alimentar e
Nutricional (Consea), Renato Maluf,
que elogiou a eficiência de execução do programa ao participar de
eventos comemorativos dos dez
29
anos de atuação da Articulação do
Semiárido.
O P1MC, chamado de “água de beber” por se destinar ao consumo da
família, vem desde 2003, mas desde
2007 é complementado pelo programa P1+2, ou “água de comer”,
uma segunda cisterna, de 32 mil
litros, que atua como reservatório
de água destinada à irrigação de
cultivos alimentares e à criação. Por
enquanto, 7.500 famílias já receberam a estrutura, mas o objetivo é
dotar o mesmo milhão de famílias
com cisternas desse tipo para a
produção alimentar.
Outro desdobramento do programa
de reservatórios começou em 2009,
com cisternas de 32 mil litros em
escolas rurais – é a “água de educar”, por enquanto com cerca de 50
unidades instaladas.
A polêmica sobre as melhores alternativas para enfrentar o problema
da seca e o fantasma da desertificação continua. Mas ambos os lados
reconhecem que qualquer coisa
que se faça para dotar o sertanejo
de água é um passo à frente para
cortar um dos males clássicos da
região: a dependência clientelista
provocada pela falta d’água, que
torna o c ar ro - pip a um agen te
eleitoral privilegiado, ao lado de
outros métodos de exploração da
situação sertaneja crítica e que
ganharam o apelido de “indústria
da seca”.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
foto: Luiz Claudio Marigo
Os críticos da transposição elegeram a construção de micro-açudes
domésticos, as cisternas, como a
forma mais eficiente de dotar cada
família sertaneja da segurança hídrica essencial para fazer frente aos
períodos de estiagem e mesmo às
secas. A água recolhida nos dias de
chuvas pode durar meses e garantir
a permanência das famílias em seus
locais de moradia.
foto: Luiz Claudio Marigo
Botânico
defende açudes
e cisternas
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o doutor em Botânica
Roberto Esteves analisa a situação da Caatinga e defende a maior eficiência de açudes e
cisternas como estratégia para superar as dificuldades de acesso à água
S&EA – Como avalia a situação
atual da região, sob os aspectos da
atividade/sobrevivência humana e
da relação homem-natureza quanto
à sustentabilidade?
RE – Como botânico, tive a oportunidade de conhecer algumas
regiões de caatinga, principalmente
na Bahia. De um modo geral, muito
pouco se fez para alterar o quadro
centenário, bem diagnosticado por
Euclides da Cunha em “Os Sertões”.
Na verdade, grande parte do homem
interiorano vive hoje do recebimento
da aposentadoria rural ou de outros
programas assistencialistas. Isto se
distribui em cascata: o mais jovem
vivendo em parasitismo “existencialista” dos ganhos recebidos por seus
pais, tios, avós. A sobrevivência
pelo uso da terra, seja em atividade
pastoril ou pela agricultura continua,
em geral, muito difícil. Deve-se,
entretanto, destacar que o estabelecimento de pequenas cooperativas
tem alterado esse quadro. Isto vale,
também, para cooperativas que reúnem artesãos de matérias-primas
variadas.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
S&EA – Ações recentes de fiscalização do Ibama flagraram intensos
desmatamentos na Caatinga (para
comércio de madeira e fabricação de
carvão) e também queimadas (para
abrir áreas agrícolas). Há relatos coloniais de queimadas que duravam
meses no bioma da Caatinga, para
abertura de pastos. A cobertura
vegetal hoje existente/sobrevivente
traz as marcas dessa ação de ocupação colonial?
RE – Nas últimas décadas, o governo incentivou o desmatamento
acelerado do Cerrado para o estabelecimento de monoculturas – o
exemplo lapidar diz respeito à soja
no Centro-Oeste. Até onde é do
meu conhecimento, a Caatinga
não s o f r eu con si s ten temen te,
com esse tipo de pressão do governo e de grandes latifundiários.
Entretanto as populações dessa
região continuam a agredir o meio
ambiente, por uma questão básica
de sobrevivência. Pude observar a
fabricação de carvão em dezenas de
sítios, assim como a substituição da
vegetação nativa para a cultura de
30
eucalipto, naturalmente, nas mãos
de grandes empresas. Respondendo à sua pergunta: a cobertura
vegetal hoje existente/sobrevivente
registra, ainda, a feição da ocupação colonial.
S&EA – A ideia rotineira que se
tem do chamado Sertão é de uma
zona semimorta, inviável, de flora
agonizante e de fauna em dizimação.
A imagem é pior que a realidade?
RE – A imagem é pior. Quando
chove, mesmo na zona do Semiárido, encontramos uma vegetação
razoável. Já a relação flora/fauna
é mais complexa. Por exemplo: se
uma determinada espécie animal se
extingue por destruição sistemática
de seu habitat, a recomposição do
mesmo não trará, obviamente, aquela espécie de volta.
S&EA – O projeto do Ministério
do Meio Ambiente para a Caatinga
prevê fiscalização rigorosa contra desmatamentos, queimadas e
agressões à fauna da região. Representará um grande avanço?
Senac e Educação Ambiental
RE – Na minha opinião, a multiplicação de cisternas e açudes distribui
melhor esse recurso. Ela é mais
eficiente, mesmo sabendo-se que
em muitas partes a água é salobra.
Um dos programas do governo
para dessalinizar a água foi furar
poço artesiano, provendo-o de uma
bomba elétrica movida a energia
eólica. Infelizmente, por falta de manutenção, muito desse esforço foi
perdido. A transposição das águas
do rio São Francisco deve ser vista
como um processo e não como um
fim em si mesma, haja vista que o
fundamental é distribuir a água e
não possuí-la.
foto: Claus Meyer / Tyba
S&EA – Qual a avaliação sobre os
vários programas relacionados à
disponibilização/conservação de
água que estão em curso na região?
Como tem aparecido na mídia,
conflitam os programas de transposição das águas do São Francisco
(iniciativa do Governo Federal com
apoios estaduais) com a multiplicação de cisternas e açudes (ao que
parece, o preferido por organizações sociais).
Três faces da realidade do sertanejo: a dependência do
açude, as novas perspectivas com o Projeto
1 Milhão de Cisternas e a histórica escassez de água
foto: arquivo da Articulação do Semiárido (ASA)
RE – Não acredito. Precisa haver
fiscalização efetiva e não corrupta;
após fiscalizar e punir, orientar com
programas educacionais; concomitantemente, tentar erradicar a
pobreza. Um homem com fome e/
ou para alimentar sua família depredará em qualquer parte do mundo.
Sob e s s a ótica, os programas
assistencialistas do governo atual
merecem uma avaliação positiva.
RE – Não acredito na desertificação
como um risco iminente para a
Caatinga. Por quê? Porque, devido à sua condição inóspita para
o homem (de um modo geral), a
densidade populacional no cerne
da C aa tinga ainda é pequena.
Devemos, entretanto, considerar
que a antropização é quase sempre
uma ameaça aos ecossistemas,
respeitando-se iniciativas como o
extrativismo controlado das riquezas naturais.
Senac e Educação Ambiental
foto: Daniela Dacorso / BrazilPhotos
S&EA – Algumas áreas da Paraíba,
do Rio Grande do Norte e do Ceará
são apontadas como em estado de
pré-desertos. A desertificação é
um risco iminente para a Caatinga?
Como modificar o quadro? Qual o
peso da mão humana na degradação da flora e dos solos na região? 31
foto: Luiz Claudio Marigo
S&EA – Em seu livro “Cultura e Opulência do Brasil
por suas Minas e Drogas”,
de 1711, o jesuíta André
J o ã o A n t o n i l ex a l t a a
pecuária nordestina que
se desenvolvia, de forma intensa, exatamente
na área do Ser t ão, da
B ahi a a o P i auí, s e n do
Pernambuco o possuidor
do maior rebanho, secundado pela Bahia. Pelas
informações que ele dá,
pelos numerosos rios
que enumera como origem dos gordos pastos
que multiplicavam os rebanhos, é possível inferir
que a situação se tenha
degradado muito nestes
últimos 300 anos?
R E – É inevit ável que
tenha havido uma de gradação grande nesses
últimos 300 anos. Mas
não vejo a Caatinga como
uma região propícia a
grande s rebanhos bo vinos. Alguns es tudos
já apont aram, por ou tro lado, a caprinicultura
como saída viável para
as regiões mais pobres.
O s e co s si s tema s têm,
i n t r i n s e c a m e n t e, u m a
energia que viabiliza a
sua recuperação, quando
a degradação não atinge
o seu clímax (P.M.).
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
A Caatinga e o dedo do homem
Região com maior risco de produzir zonas desérticas, no Brasil, a Caatinga possui
um histórico de ocupação humana imemorial, com presenças tribais registradas
em sítios arqueológicos e na remanescência das comunidades indígenas da região.
Seria da Caatinga, segundo pesquisas arqueológicas, a aglomeração humana mais
antiga das Américas: o Homem da Serra da Capivara, no sudeste do Piauí, na região
do município de São Raimundo Nonato, com pelo menos 50 mil anos de presença
tribal – estudam-se vestígios que recuariam essa presença até 100 mil anos antes
de Cristo. Caçador e coletor, mais tarde rudimentar agricultor, ceramista e profuso
artista e pintor, deixou sua arte em inúmeras grutas da região que hoje constitui
o Parque Nacional da Serra da Capivara, onde está instalado o Museu do Homem
Americano (fumdham.org.br).
As pesquisas na região mostram que o clima sofreu mudanças progressivas,
tornando-se mais seco, sobretudo a partir de 10.000 a.C., quando chega ao fim a
última glaciação e começa o Período Neolítico, que traz também o desenvolvimento
da agricultura e um aumento populacional.
Mas foi a ocupação do colonizador português, a partir do século XVI, e com mais
intensidade nos séculos XVII e XVIII, que definiu o poder da presença humana
sobre aquele vasto bioma.
A Caatinga foi a região privilegiada da pecuária nordestina colonial, que se espalhou
pelas extensíssimas sesmarias concedidas pelo rei àqueles que queriam desenvolver a criação de bois. As fazendas estendiam-se em latifúndios de dezenas de
léguas e dessas propriedades começariam a brotar as povoações, vilas e cidades
que aprofundaram a ação humana sobre a paisagem.
Em seu importante registro daquela época – “Cultura e Opulência do Brasil por
suas Drogas e Minas”, de 1711 – o padre jesuíta André João Antonil, um italiano
surpreso com as coisas do Brasil, para onde veio, em 1681, por insistência do Padre
Antônio Vieira, relata a expansão da pecuária no interior nordestino, da Bahia ao
Piauí, casando, em definitivo, a imagem dos sertões com a figura do boiadeiro de
chapéu de couro.
“As (cabeças de gado) da parte da Bahia se tem por certo que passam de meio
milhão, e mais de oitocentas mil hão de ser as da parte de Pernambuco”, relata
Antonil, sem somar as boiadas de outros pontos do Nordeste. Somente Pernambuco e Bahia possuíam mais de 1.200 imensas fazendas de gado, segundo Antonil,
que registra a abundância de rios e os grandes campos propícios à criação de
gado, naquele início do século XVIII, quando está desenvolvendo a sua narrativa,
no momento em que privilegiados sesmeiros – os primeiros latifundiários do interior – implantam uma pecuária vigorosa que vai varrer a presença das populações
indígenas milenares (P.M.).
32
Senac e Educação Ambiental
Tauá: um caso emblemático
Segundo os pesquisadores, a
Caatinga “praticamente tem perdido suas características geoecológicas primárias em função do
uso inapropriado das atividades
socioeconômicas. Nas últimas
décadas, vem-se observando um
cenário extremamente modificado
pela intervenção degradadora do
ser humano, manifestada, principalmente, no surgimento e/ou
na intensificação dos processos
biofísicos, tais como erosão dos
solos, aumento do déficit hídrico
do solo, contribuindo para a alteração microclimática, afetando a
biodiversidade e, consequentemente, favorecendo a expansão
da desertificação.”
Senac e Educação Ambiental
A pesquisa analisou três áreas
distintas: uma dedicada ao extrativismo e ao pastoreio; a segunda
com extrativismo e agricultura; e
a terceira, uma área deixada em
repouso por dez anos.
“O uso e a ocupação ocorreram de
modo desordenado e vêm acarretando processo de desertificação
ao longo da área em estudo, o que
se verifica em todo o município. O
processo foi acelerado nas últimas
décadas, devido à ocorrência de
alguns fatos, como a agricultura
de sequeiro (cotonicultura), a
pecuária tradicional extensiva
(pequeno, médio e grande porte), a
mineração, o extrativismo vegetal,
a agricultura de subsistência, contribuindo para o desgaste do solo e
uma futura degradação do ambiente”, registram os estudiosos.
“Do ponto de vista social, pode-se
observar o estado crítico em que
se encontra a população que reside na região, principalmente nas
zonas rurais, buscando seu sustento em uma área cuja escassez
de condições naturais é evidente.
Buscam por meio da agricultura
itinerante, devido às condições
edáficas, provocando constantes
desmatamentos e queimadas,
para dar lugar à pecuária extensiva, refletindo-se no rendimento
das lavouras e alterando a disponibilidade das pastagens e sua
capacidade de suporte”, verificam
os pesquisadores, ao descrever
situações e práticas em Tauá, mas
que são características e tradicionais em todo o Semiárido.
33
Ainda segundo o estudo, o desmatamento provoca “diminuição
da cobertura vegetal, o que resulta
em maior penetração da luz solar
no solo, maior aquecimento, maior
evapotranspiração e diminuição
do adensamento das espécies,
modificando a umidade (que é
fator ecológico da maior importância para as espécies da Caatinga) e prejudicando as interações
clima-planta-solo, necessárias
ao equilíbrio do ecossistema. O
pastoreio afeta o solo através do
pisoteio do gado, o que provoca
sua compactação e diminuição da
umidade, prejudicando as atividades microbiológicas da reciclagem
da matéria orgânica.”
O desmatamento e o uso da área
para agricultura causaram mais
forte degradação do que a área em
que o desmatamento se combina
com a pecuária, segundo os pesquisadores, porque envolveram
a queimada prévia e “e adubação
química, sem controle, de agrotóxicos. Tudo isso contribuiu para
acelerar, ainda mais, o processo
de degradação, atingindo tanto
os componentes bióticos como
abióticos e os processos de fluxo de energia e ciclo da matéria,
responsáveis pelo equilíbrio do
ecossistema.”
Tauá, assim, pode ser tomado
como um modelo do processo
de empobrecimento ambiental da
Caatinga, em que a mão do homem
– por necessidade, desconhecimento e carência de outros recursos – vai inviabilizando a imensa
região sertaneja (P.M.).
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
foto: Ricardo Azoury / Tyba
Um dos 20 destaques negativos no
período 2002-2008, quando eliminou 173 km2 de florestas, correspondentes a 4,3% de seu território,
o município de Tauá, no sudoeste
do Ceará, mereceu um detalhado
estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará, que
o publicaram em junho do ano
passado, na revista eletrônica do
Prodema. Indicadores biofísicos e
a dinâmica da degradação/desertificação no bioma Caatinga: estudo
de caso no município de Tauá, dos
professores da UFC Eliedir Ribeiro
da Cunha Trigueiro, Vládia Pinto
Vidal de Oliveira e Carlos Lineu
Frota Bezerra, demonstra a fórmula
de degradação ambiental em que
o clima adverso e uma natureza
fragilizada recebem a contribuição
do homem para tornar a situação
ainda mais difícil no bioma do
Semiárido.
Gravidade crescente dos
desastres naturais estimula
a procura de seguros
O ditado “prevenir é melhor do que remediar” traduz a preocupação de todos em preservar
a vida e os bens contra acidentes, roubos e demais riscos. Mas outros perigos, causados
pela natureza e pelo próprio homem, têm ameaçado cada vez mais patrimônios e vidas em
todo o mundo. No ano passado, os prejuízos causados por eventos extremos somaram mais
de US$ 200 bilhões e provocaram a perda de mais de 300 mil vidas,
um dramático recorde nos últimos 35 anos
Enrique Blanco
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
34
Senac e Educação Ambiental
foto: Ricardo Funari / Brazil Photos
Regiao Serrana: chuvas torrenciais, em áreas de ocupação irregular, deixaram mais de 800 mortos em janeiro de 2011
De acordo com o recente estudo
“Catástrofes naturais e desastres
provocados pelo homem: um ano
de acontecimentos caros e devastadores”, de uma das maiores seguradoras e resseguradoras do mundo,
a Swiss Re, as perdas econômicas
em todo o mundo decorrentes de
catástrofes naturais e desastres
causados ​​pelo homem, em 2010,
chegaram a 218 bilhões de dólares,
mais do que o triplo de 2009. O custo
para a indústria global de seguros
foi de mais de 43 bilhões de dólares, aumento de 60% sobre o ano
anterior. Cerca de 304 mil pessoas
morreram nesses eventos, o maior
número desde 1976.
Expectativas pessimistas
Em 2011, o cenário tende a se complicar ainda mais. No Brasil, logo em
janeiro, a região serrana do Rio de
Janeiro enfrentou o maior desastre
natural do país – de acordo com o
Centro para a Pesquisa da Epidemiologia de Desastres da ONU, está
entre os dez maiores deslizamentos
registrados no mundo, em 111 anos.
Foram mais de 800 mortos e um
grande número de desaparecidos,
segundo a Defesa Civil, além de milhões de reais em danos materiais.
Três meses depois, em março, as
enchentes na região do Pantanal
Mato-Grossense e no Paraná desabrigaram milhares de famílias.
Do outro lado do mundo, a Austrália foi alvo da maior enchente dos
Senac e Educação Ambiental
Sul e no Rio de Janeiro e a percepção
sobre a intensidade de tais eventos
relacionados às mudanças climáticas
indicam que a procura por este tipo
de seguros aumentará no futuro”.
últimos 50 anos, com prejuízos em
torno de 1,6 bilhão de dólares. Pouco
mais de um mês após esse evento,
em fevereiro, um intenso terremoto
atingiu o país vizinho, a Nova Zelândia, matando quase 200 pessoas. O
tremor representa o maior desastre
natural no país em 80 anos e chegou
a partir um bloco de 30 milhões de
toneladas da geleira Tasman.
Como se proteger
Empresas e pessoas físicas podem
agir de forma preventiva, protegendo seus bens móveis e imóveis
contra as intempéries e outros riscos. O presidente da Comissão de
Riscos Patrimoniais, da Federação
Nacional de Seguros (FenSeg), Adelson Almeida Cunha, explica: “Os
clientes que mais contratam seguros
são pessoas físicas e jurídicas com
seguros residenciais e empresariais,
respectivamente. As coberturas são
para vendaval, granizo, alagamentos, desmoronamento, queda de
raio, inundação, entre outros. Atualmente, o mercado segurador cobre
praticamente qualquer bem.”
Mas a pior catástrofe ainda não tinha
acontecido. No início de março, cidades japonesas foram assoladas por
terremotos seguidos de tsunamis,
num dos piores desastres naturais
do planeta. Estima-se em quase
30 mil o número de vítimas, entre
mortos e desaparecidos. Especialistas preveem que os danos ainda
serão sentidos nos próximos anos,
principalmente devido à contaminação radioativa decorrente de danos
em reatores nucleares do complexo
de Fukushima, localizado na região
nordeste do país, a mais atingida
pelos terremotos.
De acordo com relatório do Banco
Mundial, os prejuízos causados
pelos terremotos e tsunamis ficarão
entre 122 bilhões e 235 bilhões de
dólares, neste que é o maior caso
de indenização de seguros em todos os tempos. Somente a Swiss
Re estima que deverá reparar cerca
de 1,2 bilhão de dólares, mas os
custos globais de seguros poderão
chegar até 25 bilhões de dólares. As
seguradoras e resseguradoras (companhias que assumem os riscos
das próprias seguradoras) calculam
que os prejuízos no Japão poderão
aumentar o valor das apólices em
todo o mundo, já que o mercado
de seguros precisará recuperar as
perdas referentes aos pagamentos
das apólices e à queda das ações
dessas companhias.
O Brasil, segundo um dos autores
do estudo de 2009 da Swis Re, Brian
Rogers, ainda não apresenta crescimento na área de seguros contra
catástrofes naturais, por não ter
histórico consistente de terremotos e
vendavais, mas o pesquisador prevê:
“As recentes inundações na região
35
Em situações de alagamentos, granizo, terremoto, furacão e submersão
parcial ou total, somente a chamada
“cobertura compreensiva” indeniza
os prejuízos com automóveis. As
coberturas multirriscos cobrem a
habitação e o “recheio” (os bens
Vulcão Eyjafjallajökull (Islândia): nuvem
parou, literalmente, a Europa em 2010
foto: Nasa Earth Observatory / AFP
Eventos extremos como enchentes,
terremotos, furacões e tsunamis
sempre ocorreram. Mas hoje têm
se tornado tão frequentes que os
governos e o mercado de seguros
passaram a enfrentar uma nova
realidade. Diante disso, no caso do
poder público, constata-se a necessidade de se adotarem estratégias
e práticas de prevenção contra
desastres naturais. No âmbito da
iniciativa privada, acena-se com a
possibilidade de aumento do valor
das apólices, devido aos altos sinistros que estão sendo pagos pelas
empresas seguradoras.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
foto: CCTV / AFP
Nessas situações, o poder público
exerce um papel fundamental no
controle de riscos por meio de planos diretores e códigos de obras, que
organizam e controlam a expansão
urbana e definem ações preventivas
e emergenciais. Contudo outras
medidas necessárias nem sempre
são possíveis, como aconteceu na
tragédia da região serrana do Rio de
Janeiro, no início do ano. Em alguns
casos, ressalta o coordenador do
Laboratório de Geoprocessamento
da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), geógrafo Jorge Xavier da Silva, problemas decorrentes
de uma caótica ocupação territorial
estabelecida durante anos em áreas
de risco acompanham diversas administrações municipais.
Tsunami atinge o Japão: prejuízo pode ficar entre 122 e 235 bilhões de dólares
internos) e são mais amplas do que
o seguro habitacional obrigatório,
rassarcindo prejuízos contra granizo, vendavais, danos elétricos,
alagamentos e de sliz amentos.
Mas dependendo do local onde se
encontra a construção, como em
áreas de alto risco, o valor do seguro para pessoa física pode ficar
impraticável.
Os governos também podem contratar seguros, o que é visto por
especialistas como uma medida
estratégica diante de grandes desastres. Em relação à tragédia no
Japão, a situação poderia ter sido
pior, se o país não fosse o segundo
produtor e consumidor de seguros
no mundo, ficando atrás apenas
dos EUA. A cobertura contratada
pela empresa responsável pela
usina nuclear japonesa é de 2,2
bilhões de dólares, mas a apólice
não cobre os danos causados pelos
terremotos – impactos e incêndios
–, ambos de responsabilidade civil.
Será o governo do Japão que arcará
com esses custos, como arcou com
um aporte de 85 bilhões de dólares para capitalizar as instituições
financeiras. Como nem todos os
países têm essas condições, Brian
Rogers adverte: “Muitos governos
e suas infraestruturas não possuem
cobertura total nem parcial. Isso
causa um grande problema após um
desastre, devido à falta de fundos
para reconstrução e à necessidade
de redirecionamento de verbas
de outros setores que também
sofreram com o desastre. Por esse
motivo, a Swiss Re recomenda que
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
os governos tenham seguros contra
grandes desastres”.
Trata-se de uma mudança cultural
do brasileiro diante de um cenário
em mudança. “Na verdade, quando
alguém passa por um risco provocado por algum desastre natural, há
um tempo que vai do momento do
susto até a busca por proteção”, confirma Adelson Cunha, da FenSeg.
Para reduzir o “susto” que o cidadão
passa ao enfrentar um desastre natural, os governos federal, estadual
e municipal devem adotar a cultura
de prevenção, pois a maior parte da
sociedade não tem condições de
assumir os custos com os seguros
privados, principalmente no momento atual, em que uma sequência
de eventos catastróficos poderá
aumentar o valor dos seguros.
“A demanda por seguro contra desastres naturais deve, teoricamente,
aumentar se os riscos aumentarem,
mas na prática essa demanda está
atrelada ao valor do seguro. No caso
de inundações, alguns riscos são tão
óbvios que nenhuma seguradora
está disposta a oferecer cobertura
para esses casos. Para garantir a
acessibilidade e a segurabilidade,
precisamos tomar medidas que
reduzam o risco e a vulnerabilidade
na origem”, avalia Brian Rogers.
Na prática, as próprias seguradoras podem recusar a cobertura de
propriedades localizadas em áreas
onde a iminência de desastre é
muito grande, já que a possibilidade
de ocorrer o evento torna-se quase
uma certeza.
36
“A simples remoção dos moradores
pode gerar problemas jurídicos.
Essas áreas podem ter sido parcialmente ocupadas por vias de
transporte que impedem sua transferência imediata. Medidas como
obras de contenção em encostas,
construção de desvios de cursos
d’água, uso de áreas de descarga e
armazenamento para águas fluviais
dependem de áreas físicas disponíveis; e se estiverem ocupadas, as
ações não podem ser realizadas”,
esclarece.
País livre das catástrofes
naturais?
Diante de um cenário de mudanças
climáticas, alguns conceitos têm
mudado. Um deles é que o Brasil não
é afetado por catástrofes naturais.
“De fato, as alterações climáticas
trazem riscos de ordem catastrófica
que até pouco tempo atrás o Brasil
não conhecia. Ocasionalmente, havia alguns fenômenos, mas agora
estamos diante de um quadro mais
crítico. Como esses casos são recentes, ainda não percebemos aumento
na procura por seguros em função
dos desastres naturais. Entretanto o
mercado de seguros é reativo e tem
um vetor social, e certamente será
afetado por esses acontecimentos”,
diz Adelson Cunha.
Os impactos climáticos sobre as
áreas urbanas ganham maior destaque por envolver populações
maiores, mas a zona rural não está
livre. A situação de emergência
devida às intensas chuvas que atingiram o Pantanal do Mato-Grosso,
Senac e Educação Ambiental
A ausência de um histórico climatológico de eventos extremos no
Brasil é apontada como um dos
fatores responsáveis pela falta
de uma cultura de prevenção no
país. Mas a frequência e a intensidade das alterações climáticas
têm aumentado, relata o chefe do
Centro Nacional de Gerenciamento
de Riscos e Desastres (Cenad), da
Secretaria Nacional de Defesa Civil,
Armin Augusto Braun: “No que diz
respeito às consequências das mudanças climáticas, observamos, principalmente,
o aumento da intensidade
de desastres naturais de
causa eólica, bem como
os relacionados com temperaturas extremas e o
aumento ou a diminuição
de precipitação hídrica.
O b s e r vamo s t amb ém
mudanças nas áreas em
que esses fenômenos
ocorrem: onde se re gistravam determinados
índices de chuvas, houve
aumento dos níveis pluviométricos; onde não se
registravam vendavais,
verificaram-se tempestades severas e ocorrência
de diversos danos”.
Tecnologia preventiva
A geotecnologia aplicada, como o
Sistema de Análise Geoambiental
(Saga), desenvolvido pelo Laboratório de Geoprocessamento da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, é uma ferramenta valiosa para
o mapeamento de áreas de risco,
segundo Jorge Xavier. O geoprocessamento auxilia tanto a população,
no sentido de evitar a ocupação de
áreas críticas, quanto as seguradoras, na avaliação da ocorrência de
eventos, além da Defesa Civil, que
informa as comunidades sobre o
risco de suas moradias. Quando
esse conhecimento não é aplicado
em medidas de prevenção, eventos
naturais, como chuvas intensas, podem provocar enchentes e deslizamentos em áreas ocupadas de forma
desordenada e sem a presença do
Estado, produzindo catástrofes que
poderiam ser evitadas:
“Áreas de alto risco devem ser
ocupadas somente se tiverem importância necessária que justifique
essa ocupação. O planejamento
deve identificar a distribuição espacial das condições ambientais:
se enchentes ou deslizamentos
poderão ocorrer nas áreas de risco,
se nas vizinhanças existem favelas
e eixos viários relevantes e se há
paisagens de interesse turístico e
locais disponíveis para vazadouros ou grandes reservatórios para
descargas hídricas de emergência.
Devemos aprender com o passado,
para evitar episódios dramáticos”,
explica o geógrafo.
A utilização dessas informações é
fundamental para a proteção global da população, que é realizada
pela Defesa Civil, esclarece o chefe
do Cenad, Armin Braun: “O geoprocessamento é uma ferramenta
fundamental para realizar um bom
trabalho de mapeamento de risco de
todas as áreas com maior precisão,
o que facilita tomar medidas de prevenção com agilidade e economia.
Para a gestão integral de riscos, a
prevenção é a ação de defesa civil
que merece maior atenção, pois evita a ocorrência de danos humanos,
materiais e ambientais e tem o menor custo financeiro, se comparada
com a resposta a desastres e com a
reconstrução de áreas afetadas”.
Em qualquer ação emergencial ou
preventiva do poder público ou da
iniciativa privada, o conhecimento
científico é a base para a tomada
de decisões. O superintendente de
risco socioambiental do Banco Santander, Christopher Wells, constata:
“O setor empresarial e, especialmente, o setor de bancos e seguradoras ainda carecem de estudos
detalhados de como as mudanças
climáticas afetam um negócio ou
setor específico, no curto ou médio
prazos. Estudos preveem que mudanças de temperatura e chuvas no
Brasil podem afetar a agricultura a
Haiti: terremoto em
2010 deixou poucas
casas de pé na capital,
Porto Príncipe
Senac e Educação Ambiental
37
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
foto: Thony Belizaire / AFP
provocando a maior cheia dos rios
em 15 anos, é um exemplo recente.
Com a quebra da safra de soja e a
morte de milhares de cabeças de
gado, os pantaneiros sofreram um
prejuízo da ordem de 190 milhões
de reais, segundo a Embrapa. Como
o diretor da UBF Seguros, união da
UBF Garantias e Seguros e da Seguradora Brasileira Rural, Geraldo
Mafra, afirma: “No segmento agrícola, a variabilidade climática é fator
indispensável para cobertura de
riscos. O comportamento do clima
tem significativa importância nos
estudos atuariais de produtos. Levando em consideração o comportamento climatológico dos últimos
anos, teremos que investir grande
parte da avaliação para o desenvolvimento de produtos, considerando
variabilidades climatológicas e alterações provocadas por essas quanto
à produção de determinadas culturas nos municípios e/ou regiões do
Brasil”, explica.
longo ou médio prazos, mas faltam
informações mais específicas, que
seriam úteis para diretores de bancos e empresários.”
Para os negócios do campo e outros segmentos, é imprescindível
a estruturação de um banco de
dados que subsidie estudos sobre
aspectos climatológicos e como
eles afetam a produção e a vida
das pessoas, diz Geraldo Mafra:
“O aspecto climatológico é de valia
para o mercado segurador, e seria
fundamental que o governo proporcionasse ao mercado o acesso
às informações climatológicas de
suas instituições especializadas e
apresentasse um plano estratégico
para o país, no sentido de investir
em tecnologia quanto ao comportamento futuro do clima”.
foto: Kevin C. Cox / Getty Images / AFP
Ação humana
Mesmo que o conhecimento científico ainda não seja utilizado em toda
sua potencialidade, certos riscos
naturais ou provocados pela ação
humana podem ser reduzidos. A
diminuição de fatores desencadeadores de tragédias que poderiam ser
evitadas é responsabilidade conjunta do poder público e da sociedade.
“Uma catástrofe natural só se torna
um desastre devido aos seres humanos e seus meios insuficientes
de proteção contra as forças da natureza. Uma gestão de risco de alta
qualidade pode reduzir muito o impacto de catástrofes naturais, como
verificamos, em 2010, nos dois terremotos que ocorreram, por um lado,
no Chile, e por outro lado, no Haiti.
Rigorosos códigos de construção e
a conscientização sobre os riscos
ajudaram muito o Chile a mitigar
o impacto do terremoto na vida da
população e as ações de construção.
Diferentemente do sismo ocorrido
no Haiti, que atingiu uma sociedade
totalmente despreparada com um
impacto devastador”, enfatiza Brian
Rogers, da Swiss Re.
Seguradoras e pesquisadores concordam que eventos ex tremos,
associados à falta de prevenção e
à exposição a riscos, são fatores
que podem desencadear diversos
desastres naturais, prejudicando
a cidade e o campo. Porém a avaliação precisa sobre a influência
da ação humana em relação às
mudanças climáticas ainda carece
de dados mais precisos, diz Jorge
Xavier: “Apesar de ser possível e
adequado comparar sequências de
dados do passado e dados atuais,
essas informações não têm sido
trabalhadas com o rigor necessário
em todas as investigações sobre
a influência da ação humana nas
mudanças climáticas. É verdade
que há um panorama de relativo
ceticismo visualizado por muitos
pesquisadores, entre os quais eu
me incluo. No entanto vale ressaltar
que tal posição não é fechada. Já
em relação aos desastres naturais,
especificamente, é inegável que
dados sociais devem ser levados em
consideração”, ressalta.
A sociedade pode reduzir as catástrofes antropogênicas (causadas
pela ação humana) e os desastres
naturais, como aponta o Manifesto
da Associação Brasileira de Engenheiros Civis sobre Prevenção de
38
Catástrofes e Melhoria do Atendimento Emergencial, elaborado em
2009. O documento indica, entre
outras ações, o mapeamento de
áreas de risco como medida determinante, mas a implementação
mais abrangente dessas ações deve
acompanhar o fortalecimento das
instituições. “Como consequência
do aumento de desastres, surge a
necessidade de maior preparação
para enfrentar esses eventos. É
necessário o fortalecimento da Defesa Civil nos diferentes níveis de
governo, estruturando organismos
de defesa civil e de pesquisa em desastres, investindo em capacitação
de recursos humanos, planejamento
e tecnologia”, avalia Armim Braun.
Entretanto, mesmo com o fortalecimento das instituições e seguradoras e a difusão do conhecimento
científico preventivo, a conscientização social sempre será a peça-chave
diante das catástrofes climáticas.
Brian Rogers assegura: “Em relação
às alterações climáticas, precisamos
tomar medidas de precaução em
todos os níveis, começando com o
uso restritivo de ocupação de terra
em áreas propensas a inundações e
deslizamentos, dando continuidade
com ações de reforço das encostas
e terminando com medidas específicas de execução de construção.
Assim podemos assegurar, de forma
sustentável, a viabilidade dos seguros contra catástrofes naturais em
um ambiente em mudança – e que
será potencialmente mais perigoso
no futuro”.
Alabama: série de tornados nos
Estados Unidos deixou mais de
300 mortos em abril de 2011
Meio ambiente e
saúde: o desafio das
metrópoles
O automóvel:
o planejamento
urbano e a crise das
cidades
Raimundo C. Caruso.
Editora Fiscal Tech,
2010.
Vinte especialistas,
entre urbanistas, planejadores e arquitetos de
cinco estados brasileiros, reuniram-se para
propor soluções para
graves problemas do
trânsito nas cidades. O
país alcançou a marca
de mais de 60 milhões
de automóveis e contabiliza cerca de 150 mil
mortes decorrentes de
acidentes de trânsito.
O fenômeno do tráfego
urbano já é estudado
em seu “caráter patológico”, pois a questão
da mobilidade nas
cidades tem implicação
direta na economia e
na saúde da população,
envolvendo doenças
psicológicas e físicas,
consumo extra de combustível e acidentes. A
proposta é a utilização
de meios de transporte
alternativos, melhoria
do transporte coletivo,
planejamento de ruas,
estradas e a ampliação
dos trens subterrâneos
e de superfície. Editora
Fiscal Tech. Tel: (41)
3314-3400. Site: www.
fiscaltech.com.br
Senac e Educação Ambiental
Paulo Saldiva et al. Instituto Saúde e Sustentabilidade, 2010.
O objetivo do livro é
abordar o tema da urbanização do ponto de vista da saúde, tendo como
foco a região metropolitana de São Paulo. De
acordo com os autores,
o crescente processo
de urbanização não tem
acompanhado a preocupação com a qualidade
de vida nas metrópoles.
E apesar de 80% da população brasileira residir
em cidades, o debate
sobre a ecologia urbana
não está presente na
questão ambiental. As
consequências atuais da
falta de planejamento
ambiental dos grandes
centros urbanos são a
queda de qualidade da
água e do ar, o adensamento populacional,
a disposição incorreta
dos resíduos sólidos e o
aumento do estresse da
população, o que atinge
diretamente a saúde das
pessoas. Pesquisadores
de diversas áreas participam da obra, como
Alfred Szwarc (Cetesb),
Emília Wanda Rutkowski
(Unicamp) e Helena
Ribeiro (USP), entre
outros. Instituto Saúde
e Sustentabilidade. Tel:
(11) 3759-0472 ou
e-mail: [email protected]
39
A cidade e o Código
Florestal
Marcio Ackerman. Editora Plêiade, 2010.
O geógrafo Marcio
Ackerman baseouse nas pesquisas de
mestrado desenvolvidas
no curso de Gestão,
Planejamento e Projeto em Habitação, do
Instituto de Pesquisa
Tecnológicas de São
Paulo (IPT), para aprofundar o debate sobre
as Áreas de Preservação
Permanente (APPs). De
acordo com o autor,
o espaço urbano está
sendo desconsiderado
na reformulação do Código Florestal, ou seja,
o código pode e deve
ser aplicado nos centros
urbanos, em sintonia
com o Estatuto das
Cidades. Nesse sentido,
as APPs (compostas
por mangues, margens
de córregos e represas,
várzeas e encostas),
principalmente as
localizadas nas áreas
urbanas, devem ser utilizadas para preservação
dos recursos hídricos e
da biodiversidade e da
proteção do solo. Atualmente, algumas APPs
servem de espaço alternativo de moradia, com
a ocupação de famílias
de baixa renda, devido
ao déficit habitacional.
Editora Plêiade. Tel: (11)
2579-9863/9865. Site:
www.editorapleiade.
com.br
Geomorfologia urbana
Antonio José Teixeira
Guerra (org.). Editora
Bertrand, 2011
Em um cenário global de
aumento na quantidade e
na intensidade de eventos climáticos extremos,
a geomorfologia urbana
tem uma importante
contribuição no sentido
de reconhecer áreas de
risco de deslizamentos e
de enchentes.
Neste livro, diferentes
especialistas mostram
como a geomorfologia urbana contribui para fazer
diagnósticos, assim como
– a partir do conhecimento produzido – elaborar
prognósticos, impedindo
que tais danos sejam
recorrentes e evitando
a perda de vidas e os
prejuízos materiais que
atingem casas, prédios,
indústrias, escolas hospitais, ruas, pontes etc.
Este livro chama atenção,
portanto, para as várias
formas como a geomorfologia urbana pode colaborar com as sociedades
urbanas. A participação
conjunta e integrada de
geógrafos, geólogos,
engenheiros, arquitetos
e outros profissionais
é de grande relevância
para que esses objetivos
sejam alcançados.
Editora Bertrand. Tel.
(021) 2585-2070.
E-mail: mdireto@record.
com.br
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
Poluição eletromagnética:
ameaça real ou imaginária?
Afinal, as ondas eletromagnéticas têm ou não o poder de causar danos à nossa saúde e
ao meio ambiente? Usar demais o telefone celular pode provocar tumores? O forno de
micro-ondas realmente altera as moléculas dos alimentos? Estas e muitas outras dúvidas a
respeito deste assunto polêmico surgem a todo momento, sem respostas convincentes de
quem acredita na poluição eletromagnética e quem duvida nela.
Patrícia Costa
foto: Luiz Claudio Marigo
Imagine viver sem forno de microondas, sem a tecnologia wireless
– aquela que elimina os incômodos
fios e transmite dados por ondas de
baixa frequência – , sem TV via satélite, sem celulares... Parece quase
impossível, não é mesmo?
No entanto as gerações anteriores
viviam muito bem assim, até poucas
décadas atrás. O que ocorreu é que,
neste curto espaço de tempo, a vida
mudou muito. Os avanços tecnológicos trouxeram essas e muitas
outras novidades que facilitaram
nosso cotidiano e contribuíram para
revolucionar a sociedade global.
Tais avanços, porém, trouxeram
também o que se convencionou chamar de “poluição eletromagnética”.
Mas o que é isso?
Primeiro, vamos à explicação do
que é um campo eletromagnético,
fornecida pelo professor Renato
Sabbatini, coordenador do Comitê
Latino-Americano de Campos Eletromagnéticos de Alta Frequência e
Saúde Humana: “Existem campos
eletromagnéticos diferentes. Todas
as radiações emitidas pelo Sol,
como luz, calor e raios ultravioleta,
são campos eletromagnéticos. Da
mesma forma, existem os campos
gerados pelas linhas de alta tensão
e os fios dentro de casa, as lâmpadas, os motores, as geladeiras, os
televisores e computadores, que
são campos de baixa frequência de
até 60 hertz, absolutamente inócuos
para a saúde”.
Houve, nas últimas décadas, um
crescimento de fontes de radiofrequência e de micro-ondas, ambos
usados na comunicação de longa
distância com celulares, no sistema
wireless, em controles remotos,
antenas etc. Para alguns especialistas, esse excesso provoca poluição
eletromagnética, que pode afetar os
organismos vivos.
Todos esses raios usados em comunicação, inclusive de rádio e
televisão, são chamados de não ionizantes (RNI), isto é, não possuem
energia suficiente para quebrar
moléculas no organismo, mas
podem aumentar a temperatura de tecidos biológicos,
de acordo com sua proximidade. Já os chamados raios
ionizantes, como o raios X,
os raios gama e alguns tipos
de raios ultravioleta, são mais
perigosos, pois podem alterar
as moléculas de DNA e provocar
doenças como o câncer.
“Muita gente se preocupa com os
efeitos que os celulares, as torres
de transmissão de energia e as
Estações Rádio Base (ERB) podem
causar. Mas não se dão conta de
que somos muito mais expostos
a uma fonte bem mais intensa de
raios eletromagnéticos: o sol, que
é 1,5 milhão de vezes mais potente
do que uma antena e provoca cerca
de 300 mil casos de câncer de pele
por ano”, comenta o professor Sabbatini, que é fundador do Instituto
Edumed de Educação em Medicina
e Saúde, em Campinas (SP). Ele
destaca que, além do sol, outras
fontes naturais, como os planetas
e os corpos aquecidos de qualquer
natureza – como o corpo humano
–, são responsáveis por 70% dos
campos de radiofrequência existentes na Terra.
Senac e Educação Ambiental
A polêmica da
intensidade
Desde os anos 1960, surgiram dúvidas sobre a influência que os campos artificiais poderiam ter sobre
nossa saúde e sobre o ambiente.
E os estudos começaram. Com o
passar do tempo, tal preocupação
foi aumentando, a tal ponto que
a Organização Mundial da Saúde
(OMS) criou, há alguns anos, uma
comissão de especialistas cuja
missão foi reavaliar muitas das pesquisas já realizadas. Cinquenta anos
e cerca de dois mil estudos depois,
o consenso é de que não existem
efeitos comprovados dos RNI sobre
o organismo humano.
Hoje existem mais de 176 milhões de
celulares espalhados pelo país
Mas, se é assim, por que a polêmica?
A professora Adilza Condessa Dode,
engenheira e mestra em Meio Ambiente, Saneamento e Recursos
Hídricos pela Universidade Federal
de Minas Gerais, acredita que isso
fica por conta da maneira como as
pesquisas – e as leis resultantes
delas – foram elaboradas: “A maioria dos estudos parte da análise da
influência dos RNI de alta frequência
e num curto período de tempo. É
preciso que se façam mais estudos
que avaliem a exposição a longo
prazo em menor intensidade, que é
como vivemos hoje”.
E cita como exemplo o projeto Reflex, publicado em 2004, que con41
sumiu 3 milhões de euros e durou
quatro anos. O estudo envolveu 12
grupos de setes países da União
Europeia, que fizeram experiências
em laboratório. A conclusão foi de
que os raios não ionizantes podiam
afetar células humanas em níveis de
baixa frequência. Um dos coordenadores do projeto, Franz Adlkofer, da
Fundação Verum para o Comportamento e o Ambiente, com sede em
Munique, na Alemanha, afirmou que
existem, de fato, efeitos biológicos,
por isso não se pode afirmar que
não existam riscos à saúde a longo
prazo.
foto: Ricardo Funari
Hertz é uma unidade de medida que
corresponde à vibração das ondas,
é como elas circulam pelo espaço.
Ele explica ainda que esses campos
podem ser visíveis ou invisíveis,
e são medidos por equipamentos
especializados.
No Brasil
Por aqui ainda não foi realizada
nenhuma grande pesquisa sobre o
tema, apenas estudos localizados,
como o da dra. Ciliane Sollitto, da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (ver boxe).
Talvez, por isso, na população,
pouco se fale sobre o assunto.
O analista de sistemas Paulo
Ferreira, por exemplo, usa muito
o celular por conta do trabalho, e
há mais de dez anos. “Eu não sinto
nada, apenas o aparelho esquentar,
e troco de ouvido. Assim como eu,
muita gente usa muito o aparelho,
sem problemas”.
Hoje existem mais de 176 milhões
de celulares espalhados pelo país,
e este é um número que não para
de crescer, assim como as ERBs.
Segundo dados da Anatel, são mais
de 50 mil. Muitas delas foram erguidas sem autorização, o que revela
outra face do problema: a falta de
fiscalização.
“Existem regras para a instalação e o
funcionamento dessas antenas. Elas
devem ter uma determinada altura,
uma determinada distância de áreas
residenciais e funcionar numa determinada frequência. A maioria funciona com 20 a 100 watts de potência,
o mesmo que uma lâmpada doméstica”, explica o dr. Sabbatini. Essas
medidas foram ratificadas pela lei
federal 11.934, de maio de 2009, que
segue os padrões internacionais de
No entanto, para a professora
Adilza, não existem limites seguros.
“O Brasil adotou padrões maiores
do que na Rússia. Mas baixar a
potência das emissões das ERBs
em nada afetaria a transmissão ou
a qualidade da comunicação. Na
França, já proibiram o uso de tecnologia wireless em escolas. Na Inglaterra, existe uma orientação para
que as crianças não usem celulares.
Se fossem realmente seguros, não
haveria necessidade de tomar tais
medidas”.
Ela destaca que Porto Alegre tem
a lei mais completa a respeito
do funcionamento das ERBs, e a
fiscalização funciona. São Paulo,
Campinas e Rio de Janeiro também
possuem leis parecidas, mas ainda
é pouco. “É preciso que se faça
uma campanha nacional de esclarecimento, para que as pessoas
tomem conhecimento dos possíveis riscos que correm e possam
optar por se protegerem”, defende
a especialista.
Ceticismo x medo da
tecnologia
Uma campanha como essa, segundo o dr. Renato Sabbatini, poderia
apenas espalhar um medo irracional
da tecnologia. “Quando o telefone
e o telégrafo foram inventados,
surgiram boatos de que faziam mal.
Até quando a televisão foi criada,
cogitou-se que poderia causar aborto. Estas antenas, que são feias e
grandes, causam desconfiança, mas
são absolutamente seguras.”
Já em relação ao aparelho de microondas, é preciso ter cuidado: “Ele
deve estar blindado, pois o calor
que emite é de 5 mil kilowatts e
pode causar queimaduras, mas
não altera nem contamina os alimentos”. No caso dos telefones
celulares, não há consenso. “Apesar
de alguns estudos fazerem uma
ligação entre o uso excessivo e
por longo tempo a um pequeno
aumento de incidência de um tipo
de tumor maligno no cérebro, é discutível fechar questão sobre isso.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
Micro-ondas:
dúvidas sobre possíveis malefícios
Na Dinamarca, por exemplo, um
trabalho com 450 mil usuários de
celular constatou que 20 mil deles
tinham câncer, e eram pessoas que
usaram o aparelho ao longo de 12
anos, ou seja, pessoas mais velhas.
Mas casos de câncer sempre foram
mais presentes na população idosa.
Por isso não é algo conclusivo”.
Para a professora Adilza, o Brasil
e o mundo não estão enfrentando
essa questão. “A comunidade não
conhece esse assunto, que, para
mim, é o problema ambiental mais
sério, hoje. Se essa tecnologia não
é segura, é preciso criar outra, e
só com financiamentos para a pesquisa científica será possível achar
essa alternativa”.
O que ambos os cientistas defendem é o princípio da precaução:
foto: Ricardo Funari
emissão de RNI, de até 300 GHz
(gigahertz). No caso dos celulares, a Agência Nacional de
Telecomunicações (Anatel)
estipula um limite de 2w/kg
(watts por quilo de peso) de
emissão.
quando a ciência ainda não chegou
a uma conclusão irrefutável sobre o tema, não quer dizer que
não existe a possibilidade de
dano. Por isso o melhor é ter
bom senso. “Não se deve dar
celulares para crianças, pois a
espessura do crânio que protege o cérebro ainda é pequena.
Pode-se usar o fone de ouvido para
falar ao celular. E é bom evitar falar
no aparelho por um longo tempo”,
recomenda a dra. Adilza.
Enquanto os cientistas polemizam,
os cidadãos comuns seguem dependendo cada vez mais dos confortos modernos. A advogada Ana
Cristina de Carvalho, por exemplo,
não vive sem seu celular, bem como
o marido e os três filhos. Como
muita gente, ela sequer tem ideia
do que é poluição eletromagnética.
“Viver sem celular, a gente até vive.
Agora, sem computador e telefone
sem fio, sem micro-ondas, sem TV
via satélite, sem antena de transmissão, aí é um pouco demais! Ia
complicar muito a nossa vida!”
Talvez não, Ana. Afinal, seus avós
viviam assim...
Para saber mais
Lei federal 11.934:
http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/231413/lei-11934-09
Linhas de transmissão e câncer:
uma tênue ligação?
A tese “Leucemias e proximidade de residência a linhas de energia elétrica na cidade de São Paulo”, publicada em outubro de 2009 pela dra.
Ciliane Matilde Sollitto, sugere que crianças e adolescentes que moram
a até 200 metros das linhas de transmissão têm mais propensão a desenvolver câncer.
Ao analisar casos de pessoas com um tipo de leucemia infantil, o estudo apontou que elas estariam sujeitas a um possível aumento de risco,
quando residiam perto das linhas de transmissão. “Por isso acredito
que os riscos podem ser minimizados, se as legislações não permitirem
a instalação destas linhas perto de residências. As políticas públicas
devem levar em conta a poluição eletromagnética como uma realidade
já consolidada dos grandes centros urbanos”, afirma a bióloga.
Para a pesquisadora, todas as modernas tecnologias que hoje fazem
parte do nosso cotidiano são emissoras de campos eletromagnéticos e
devem ser mais bem controladas. “Devemos, como cientistas, desenvolver o maior número possível de estudos com o maior número possível
de indivíduos e variáveis, para podermos demonstrar a importância do
controle social e governamental dos riscos que estes novos tipos de
poluições modernas podem acarretar”, conclui.
42
Senac e Educação Ambiental
Reprodução em
cativeiro: salva
espécies, educa os
homens
Roberto Azeredo
anilhando filhote de mutum-do-sudeste
Cinco séculos de alterações ambientais no país reduziram as matas e tornaram precárias
as condições de sobrevivência de muitas espécies, cujas populações se reduziram a níveis
críticos. A reprodução em cativeiro, para posterior reintrodução na natureza, é um dos
esforços científicos que vêm sendo feitos para reverter a situação, com crescente sucesso
Texto e fotos de Luiz Claudio Marigo
Muitas são as razões por que as
populações de uma espécie animal
declinam na natureza até sua total
extinção. Na maioria dos casos, a
causa principal é a destruição de seu
hábitat. A Mata Atlântica, o Cerrado
e a Caatinga, por exemplo, têm hoje
apenas uma pequena porcentagem
de sua área original e essa perda, em
tão grande escala, afeta um grande
número de espécies. No caso da
Mata Atlântica, muitas são endêmicas – vivem apenas nesse bioma. E
quando a população de uma espécie
se fragmenta e diminui muito, sua reprodução pode tornar-se inviável por
razões genéticas ou porque os casais
não conseguem se encontrar. A caça
de animais usados como fonte de
proteína por algumas comunidades
Senac e Educação Ambiental
humanas vitima os bichos maiores
e pode ser o golpe de misericórdia
para a extinção de uma espécie. Até
eventos excepcionais, como o aquecimento global, contribuem para a
perda de formas de vida na Terra.
Todas as espécies que têm suas
populações em declínio necessitam
de ajuda. Precisam da proteção de
seu ambiente natural e de que suas
populações sejam monitoradas e
especialmente protegidas. Às vezes,
precisam que o homem ajude, com
colocação de ninhos artificiais ou
plantio das espécies de que se alimentam. Mas algumas, em situação
crítica, necessitam de uma UTI: sua
reprodução em cativeiro e posterior
reintrodução na natureza.
43
Duas espécies são casos exemplares para entendermos esse processo: o mutum-do-sudeste e a harpia,
a mais poderosa ave de rapina do
mundo. Presa e predador.
O mutum-do-sudeste (Crax blumenbachii) é uma espécie endêmica da
Mata Atlântica, mas nunca existiu
em toda a extensão desse bioma.
Apenas do sul da Bahia até o estado
do Rio de Janeiro. No entanto, devido a um processo secular de destruição de seu hábitat, hoje se restringe
apenas a poucas reservas do leste do
Brasil. Não se tem uma ideia realista
de quantos mutuns ainda existem
na natureza, pois não foram feitos
censos detalhados nas reservas onde
a espécie ocorre, mas estima-se uma
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
reintrodução, que devem oferecer
segurança para as aves e respaldo
em caráter permanente e definitivo.
Esse esforço é muito grande, intenso
e dispendioso para se arriscar um
retrocesso.
Finalmente, ao mesmo tempo em
que todas essas etapas são cumpridas, um programa de comunicação e
educação ambiental é desenvolvido
junto às comunidades vizinhas às
reservas. Esse trabalho reforça a
segurança das aves, afastando
caçadores e diminuindo a incidência de conflitos e mal-entendidos, com a progressiva
mudança de mentalidade
das populações humanas.
O intercâmbio com outras
instituições científicas e
a divulgação de resultados das pesquisas e
experiências fazem parte
dessa política, que dissemina informação útil para
outros projetos, reforça
o papel da instituição e a
ajuda a conseguir novas
parcerias e apoios.
Harpia com filhote no ninho e no cativeiro
população de apenas 250 indivíduos
e, portanto, é considerada pela União
Internacional para a Conservação da
Natureza (IUCN) altamente ameaçada de extinção. Seu futuro é crítico
e, por isso, o mutum-do-sudeste
precisa, como poucas espécies, de
proteção e ajuda.
Banco genético de 100
espécies
Em Contagem, na grande Belo Horizonte, a Sociedade de Pesquisa do
Manejo e da Reprodução da Fauna
Silvestre (Crax), fundada por dois
brasileiros, Roberto Azeredo e James Simpson, é uma entidade não
governamental dedicada a pesquisar
a reprodução de cerca de 100 espécies de aves brasileiras, aumentar
seu número em cativeiro e depois
reintroduzi-las em seu ambiente
natural. Azeredo e Simpson pensam
que “se esse banco genético não for
utilizado, animais cativos em nada
contribuem para as populações na
natureza”.
A instituição se mantém com recursos próprios e doações. Seus projetos de reintrodução são realizados
em parceria com outras instituições
que a apoiam financeiramente e
possuem florestas apropriadas.
Desde 1978, a Crax já reproduziu
cerca de 1.500 mutuns-do-sudeste
e reintroduziu aproximadamente 300
aves na natureza, em três reservas no
estado de Minas Gerais e na Reserva
de Guapiaçu, no Rio de Janeiro.
Em 1990, a Crax iniciou com a Cenibra
– Celulose Nipo-Brasileira S/A o projeto de reintrodução do mutum-doAno 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
sudeste,
da jacutinga, do jacuaçu, do macuco,
do jaó - do - sul, do
inhambuguaçu e do uru-capoeira
na Mata Atlântica da Fazenda Macedônia, uma floresta preservada de
1.500 ha nos municípios de Santo
Antônio de Ipaba e Iapu, no Vale
do Rio Doce, Minas Gerais. Todas
essas espécies reproduziram-se
na natureza e estabeleceram-se na
mata da Cenibra. Em 1995, nasceu
o símbolo da viabilidade e do sucesso do projeto: o primeiro filhote
de mutum-do-sudeste na natureza.
Hoje o mutum-de-bico-vermelho,
como também é conhecido, já tem
cinco gerações nascidas na Fazenda
Macedônia.
Programas de Educação
Ambiental
O método da Crax prevê 13 etapas de
um projeto de reintrodução, desde
a seleção das espécies a serem trabalhadas e suas aves multiplicadas
no cativeiro, passando por todas as
formalidades legais e autorizações
do Ibama, até a identificação, o
estudo, as ações de conservação e
recuperação ambiental e a criação
da infraestrutura nas áreas para
44
As aves são preparadas para a
soltura e levadas para a área de
reintrodução em caixas de papelão
durante a noite, quando a temperatura é mais amena e as aves são menos
ativas, para que o estresse da viagem
seja minimizado. James Simpson
afirma que “o monitoramento durante as primeiras semanas após a
soltura é fundamental e é bom logo
seguir as aves, porque nesse período
elas permitem que as acompanhemos e podemos ver o que comem
na natureza. Vimos que comem
muito uma samambaia, folhas, grãos
e que reviram galhos caídos para
comer insetos, pequenos lagartos e
anfíbios. Logo abandonam os cochos
de comida e água que botamos e só
se alimentam na natureza”.
Esse acompanhamento é importante
também para detectar as causas de
sobrevivência ou morte das aves. Por
exemplo, em 2001, de 67 aves, foram
identificadas 14 perdas e a causa
principal foi a predação natural. Querendo aumentar o índice de sucesso,
Roberto Azeredo observou que, no
grande viveiro para a aclimatação
das aves ao novo ambiente por 30
dias, alguns carnívoros vinham rondar suas presas e que as aves, após
os primeiros sustos, percebiam que
seus predadores não podiam alcanSenac e Educação Ambiental
çá-las. Desse modo, acostumavamse a isso e, nos primeiros dias após
a soltura, permaneciam perto do
viveiro e reagiam da mesma maneira,
tornando-se presas de guaxinins,
gatos-maracajás e cachorros-domato. A solução foi isolar visualmente o viveiro, tampando-o até a
metade de sua altura, para as aves
não verem os predadores e não se
acostumarem a eles.
A adaptação inicial das aves ao
ambiente natural deve ser facilitada
com a oferta de comida e água em
cochos. Após algumas semanas, elas
aprendem instintivamente a procurar
suas fontes de alimento e a fugir
dos predadores. Logo estabelecem
seus territórios na mata e, depois
de alguns meses ou anos, formam
casais e começam a se reproduzir e
a aumentar sua população.
do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), é grande colaboradora da
Crax, trazendo as informações de
suas pesquisas com a harpia na natureza. Durante todo o ano, Roberto
fornece ao macho do casal galhos
fortes para a construção do ninho,
como ele faz na natureza. O ninho é
uma gigantesca estrutura de galhos
muito compactados, construído na
forquilha principal de uma árvore
alta. Na Crax, o macho intensifica a
feitura do ninho no início da primavera, em setembro e outubro, e as
fêmeas botam um ovo ou, mais raramente, dois em janeiro ou fevereiro,
incubando-os durante 53 ou 54 dias.
Os filhotes nascem, geralmente, de
abril a junho, na região onde está a
Crax. Na natureza, apenas o filhote
que nasceu primeiro, em geral o mais
forte, sobrevive.
O voo de caça do uiraçu é silencioso,
suave e certeiro. Essa ave de rapina
agarra a presa com o hálux (sua garra
maior, de 7 cm de comprimento,
equivalente ao nosso polegar e de
unha equivalente ao nosso dedo
indicador) e perfura-a para matar com a garra equivalente ao
nosso dedo menor. Consegue
voar com preguiças, macacos
Jacuaçu:
e até filhotes de caititus, que
reintroduzido na
carrega para o ninho.
natureza
Sucesso com a harpia
A harpia, gavião-real ou uiraçu
(uirá = ave, açu = grande) é um
predador poderoso de topo de
cadeia alimentar. É uma águia
com 2 m de envergadura,
altura de 57 cm (macho) a
90 cm (fêmea) e pode pesar
até 9 kg (fêmeas). Necessita
de grandes áreas de floresta,
onde caça preguiças, macacos, outros mamíferos de
médio porte e até aves. Apesar
de rara e extremamente ameaçada
de extinção na Mata Atlântica (ainda
subsiste com populações viáveis
na Amazônia), continua sendo alvo
de caçadores, fascinados por seu
simbolismo e aspecto imponente.
Fazendeiros também a abatem, para
proteger suas criações, quando a
harpia começa a atacá-las.
A pesquisa com harpia em cativeiro
iniciou-se na década de 1950, no
zoo de São Paulo, mas sua reprodução nunca teve sucesso. A Crax
iniciou seu projeto com a harpia em
1994, quatro anos depois formou o
primeiro casal e já em abril de 1999
conseguiu o primeiro filhote nas
Américas completamente criado
pelos pais. Até hoje a instituição
recebeu 13 harpias e criou 12. Está
pronta para iniciar novos projetos de
reintrodução.
Roberto Azeredo crê que para o
sucesso da reprodução em cativeiro
devem-se reproduzir as condições
naturais. A cientista Tânia Sanaiotti,
Senac e Educação Ambiental
cativeiro havia 12 anos, Azeredo e
outros consultores prepararam-na
durante um ano para soltá-la na Estação Veracel, próxima a Porto Seguro,
no sul da Bahia. O recinto da ave foi
visualmente isolado com pano camuflado, seu tratamento modificado,
sua rotina de alimentação quebrada
e um coelho pendurado numa cordinha lhe era oferecido a intervalos
de dias, em períodos irregulares. A
harpia precisava agarrá-lo em voo, e
assim o animal perdeu peso. A ave
foi solta com um radio transmissor,
com bateria para três anos e bem
alimentada, para lhe dar tempo de
se adaptar ao novo regime de liberdade. Sucesso: após quatro dias da
soltura, o poderoso rapineiro foi visto
e fotografado com uma preguiça parcialmente comida nas garras!
Durante o crescimento do filhote, é
preciso continuar dando os galhos
com folhas verdes. Na natureza, as
folhas escondem o filhote e diminuem a temperatura do ninho. Mas
a cria precisa tomar sol nas horas
mais frescas do dia, e o macho adulto
posiciona o ninho para receber os
raios solares nas primeiras horas
da manhã. Essa situação deve ser
reproduzida no cativeiro.
Na Crax, os adultos são alimentados separadamente, pois há sempre uma ave
dominadora, geralmente a fêmea, que é
mais forte. Se o tratador não faz assim, o
mais fraco come apenas os restos.
“A ave, no viveiro, não faz exercício
e quase não voa, por isso tem de comer menos. Na natureza, as harpias
não comem todo dia”, diz Azeredo.
No processo de adaptação de uma
harpia que vinha sendo mantida em
45
A Crax já tem um macho para
o próximo projeto na Estação
Veracel ou outra reserva apropriada. Novos indivíduos foram selecionados para futuras reintroduções.
O Ibama já deu as autorizações e a
Crax selecionou duas áreas. Uma é
a Reserva Florestal de Linhares, da
mineradora Vale, no norte do Espírito
Santo. Ela é contígua à Reserva Biológica de Sooretama. Juntas, ambas
protegem cerca de 40.000 ha de
Mata Atlântica de tabuleiro. A outra
é a reserva de Telêmaco Borba, no
Paraná, da Indústria Klabin, de Papel
e Celulose.
Com a realização desses projetos,
a harpia vai conquistar novos territórios de subsistência e de caça
e sua presença na Mata Atlântica
vai ganhar um aliado que cada vez
mais se mostra poderoso como
ela: o processo de criação em cativeiro e reintrodução na natureza.
E os brasileiros vão reconquistar a
esperança de ver esse imponente
símbolo de força e soberania voando na Mata Atlântica, o grande
bioma do litoral onde se iniciou a
colonização do País.
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
Doenças negligenciadas: por quê?
Falhas nas políticas públicas e desinteresse da indústria farmacêutica explicam a enorme quantidade
de mortos, em todo o mundo, pelas chamadas “doenças negligenciadas”, como malária, mal de
Chagas, "doença do sono" (tripanossomíase humana africana) e a leishmaniose visceral
Texto e fotos de João Roberto Ripper
As estatísticas comprovam que
milhões de vidas no mundo correm
riscos, devido a contaminações por
doenças pouco pesquisadas ou para
as quais são limitados os tratamentos e remédios. O alerta é da DNDi
(Drugs for Neglected Diseases Initiative ou Iniciativa de Medicamentos
para Doenças Negligenciadas), que
é parceiro da Fiocruz e de vários
hospitais na América Latina. A instituição foi criada em 2003 e exerce
a função de coordenar os esforços
de cinco entidades de pesquisas médicas dedicadas a descobrir novos
remédios para o tratamento de males que, silenciosamente, provocam
milhões de mortes a cada ano.
As entidades científicas vinculadas
aos esforços da DNDi são Fundação
Oswaldo Cruz (Fiocruz/Brasil), Conselho de Pesquisa Médicas da Índia,
Instituto de Pesquisas Médicas do
Quênia, Ministério da Saúde da Malásia e Instituto Pasteur, da França.
Ano 19
20 • n.1 • janeiro/abril
janeiro/junhodede2011
2011
Como órgão de apoio, atua o Banco
Mundial (Bird). Como se vê, todas
são entidades de natureza pública
dedicando-se a descobrir tratamentos inovadores para doenças que
não fazem parte das preocupações
dos laboratórios privados.
Uma das mais mortais doenças do
mundo pobre (781 mil casos fatais
na África, no ano passado, segundo
estatísticas da Organização Mundial
da Saúde), a malária, por exemplo,
só no Brasil, provoca centenas de
milhares de novos casos por ano
(306 mil em 2009) e ainda mata
dezenas de pessoas (58 casos, em
2009). Na América Latina, a doença
de Chagas, endêmica em 21 países, infecta cerca de 12 milhões de
pessoas no continente, onde causa
cerca de 14 mil mortes anuais. O mal
já chegou a países desenvolvidos
como Austrália, Canadá, Japão, Espanha e Estados Unidos, por causa
do aumento da migração de latino46
americanos que desconhecem a
própria infecção e, ao doarem sangue, contaminam os receptores.
Doenças da pobreza
As doenças negligenciadas afetam
as populações mais empobrecidas
dos países menos desenvolvidos,
portanto não despertam a atenção
de governos e indústrias, por não se
tratarem de um mercado lucrativo
para as empresas, nem representarem apoio político substancial para
os governos. As doenças tropicais
como a malária, a doença de Chagas,
a doença do sono (tripanossomíase
humana africana/THA), a leishmaniose visceral (LV), a filariose linfática, a dengue e a esquistossomose
continuam sendo das principais
causas de contaminação e mortalidade em todo o mundo. Estes males
incapacitam ou matam milhões de
pessoas e representam uma necessidade médica importante que
Senac e Educação Ambiental
permanece sem respostas adequadas. Segundo a Organização
Mundial da Saúde (OMS), estas doenças, que não ganham manchetes,
infectam 1 bilhão de pessoas ao
redor do mundo.
doença de Chagas. Como se sabe,
mais de 500 milhões de pessoas são
ameaçadas por essas três doenças
parasitárias.
As doenças negligenciadas são um
problema global de saúde pública,
mas as áreas de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) das indústrias
farmacêuticas são orientadas quase
sempre pelo lucro, estando o setor
industrial privado focado
n a s
Como se sabe, estas doenças,
que caracterizam as regiões mais
pobres, provocam diversos tipos
de distúrbios, em geral atingindo o
sistema circulatório, os intestinos,
a pele, o sistema linfático e até o
cérebro Sua gravidade se
acentua pelo número
reduzido de tratamentos
Centro de Combate
e medicamentos disponíao Mal de Chagas na
veis, como consequência
Argentina: doença é
da falta de pesquisas e inendêmica no país
vestimentos financeiros.
Embora as doenças tropicais negligenciadas e a
tuberculose sejam responsáveis por 11,4% da carga
global de infecções, apenas
21 (1,3%) dos 1.556 novos
medicamentos, registrados
nos 29 anos entre 1975 e
2004, foram desenvolvidos
especificamente para combatê-las. Durante o mesmo
período, 1.535 medicamentos
(98,7%) foram registrados para
outros males. Nos países ricos, o
progresso científico dos últimos 30
anos gerou avanços médicos sem
precedentes e um ganho substancial
na expectativa de vida. No entanto
doenças tropicais fatais, que muitas
vezes podem ser prevenidas, tratadas e curadas, continuam a assolar
comunidades pobres nos países
em desenvolvimento, devido, em
grande parte, a falhas de mercado
e de políticas públicas.
Essas são afirmações do DNDi.
Seu diretor de comunicação, Flávio
Guilherme Pontes, lembra que estudo recente sobre o financiamento
mundial de inovação para doenças
negligenciadas (G-Finder, na sigla
em inglês) revelou que menos de 5%
dos recursos foram investidos no
grupo das doenças extremamente
negligenciadas, ou seja, doença
do sono, leishmaniose visceral e
Senac e Educação Ambiental
doenças globais para as
quais medicamentos podem ser
produzidos e comercializados com
geração de lucros. Com baixo poder
aquisitivo e sem influência política,
os pacientes e sistemas de saúde
mais pobres não conseguem gerar
o retorno financeiro exigido pela
maior parte dos laboratórios voltados ao lucro com os remédios.
O Relatório Anual sobre a Malária
2010, da OMS, calcula que no ano
passado deveriam ter sido empregados US$ 6 bilhões em tratamentos e
remédios no combate à doença. Mas
os recursos efetivamente aplicados
não passaram de US$ 1,8 bilhão.
Rede de pesquisas
Um dos objetivos da DNDi é trabalhar com as estruturas de pesquisa
e desenvolvimento dos países onde
essas doenças existem, ou seja,
dos chamados países endêmicos,
fortalecendo assim as estruturas
47
locais de P&D. Ao mesmo tempo
que aproveita e apoia as capacidades existentes em tais países,
a DNDi ajuda a criar capacidades
adicionais, de forma sustentável, por
meio da transferência de tecnologia
em busca de medicamentos para as
doenças negligenciadas.
Neste contex to, e por se tratar
de uma das mais fortes instituições científicas dos países
em desenvolvimento, a Fiocruz participou da criação do
DNDi, o que lhe assegura o
direito, como fundadora, a
participar das decisões estratégicas e das atividades
de pesquisa e desenvolvimento de novos fármacos.
Recentemente, ambas as
entidades disponibilizaram
um novo me dic amen to
contra a malária, o ASMQ
(artesunato+mefloquina),
desenvolvido e produzido
pela Farmanguinhos/Fiocruz. O remédio combina
dois compostos potentes contra o parasita da
malária e é atualmente utilizado
pelo Ministério da Saúde como
medicamento de primeira linha
para o tratamento da doença, sendo
igualmente recomendado pela Organização Mundial da Saúde como
a droga mais eficaz até agora.
No final de 2010, a Fiocruz enviou um
grande lote do ASMQ para a Bolívia,
que então passava por uma epidemia. Segundo informe da Fiocruz,
“o desenvolvimento do produto
é uma estratégia decisiva de luta
global contra a malária. Totalmente
desenvolvido e registrado no Brasil,
o medicamento é uma combinação
de duas substâncias (artesunato e
cloridrato de mefloquina) antes usadas separadamente. De acordo com
os resultados obtidos até o momento, essa formulação em dose fixa é
mais eficaz no combate à doença. A
redução do número de comprimidos
e dias do tratamento resulta na cura
mais rápida dos pacientes e num
baixo índice de abandono. São necessários apenas dois comprimidos
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
A malária é uma das
chamadas "doenças
negligenciadas"
que mais afetam
as populações
ribeirinhas
por dia, durante três dias, para chegar à cura da doença. Na terapêutica
convencional, os comprimidos são
divididos ao meio, dificultando a
adesão ao tratamento, causando sua
interrupção, o que provoca resistência ao micro-organismo”.
Os dados mais recentes do Ministério da Saúde indicam que, em
2009, houve 306.908 novos casos
de malária no país, correspondentes à metade dos casos de 2005,
mostrando uma curva decrescente
nas infecções ao longo dos últimos
anos. As internações também baixaram para 4.442 (-60%) e as mortes
vitimaram 58 pessoas, 52% menos
em relação a 2005.
Apesar das 781 mil mortes por
malária na África em 2010 – uma
devastação nos países negros,
assolados ainda por muitas outras
doenças –, o representante especial
da ONU para assuntos relacionados
à malária, Ray Chambers, mostrouse otimista ao fazer o balanço anual:
destacou que, no ano 2000, 980 mil
africanos morreram em decorrência
da doença. Embora a redução tenha
sido de apenas 200 mil em uma década, Chambers disse que o mundo
pode chegar a 2015 evitando mortes
por malária, caso haja um esforço
global contra a doença, tanto com
novos medicamentos quanto com
um atendimento médico mais ágil.
usada, mas, para uso em crianças,
precisa ser partida e macerada, tornando sua administração complexa
e, na maioria das vezes, incorreta).
O segundo é o E1224 (ravuconozal),
este considerado muito promissor
para pacientes em fase crônica.
Além disso, a DNDi promete entregar até mais oito novos remédios
nos próximos três anos.
Outro fármaco criado pela rede de
pesquisa é o NECT, uma combinação
simplificada de nifurtimox oral com
eflornitina intravenosa, que demonstrou eficácia e segurança, além
de ser uma nova opção terapêutica
para o tratamento da segunda fase
da doença do sono.
No caso da doença de Chagas, há
uma relação direta entre a ocupação
do meio ambiente e a disseminação da contaminação. No Brasil, a
transmissão do parasita pelo inseto
barbeiro está praticamente erradicada desde que o país obteve sucesso
com a dedetização das casas. No entanto, com a ocupação das florestas
na Amazônia, é cada vez mais fre-
quente a transmissão da doença por
via oral, devido ao consumo de açaí
in natura, não pasteurizado. Mais
de dois mil casos foram registrados
nos últimos anos em populações
que vivem nas margens dos rios da
região e que consomem o açaí diretamente da floresta. O inseto e suas
fezes, triturados junto com o açaí,
acabam ingeridos e contaminam
quem se alimenta desse produto
sem tratamento.
A importância de criar tratamentos e medicamentos novos e em
quantidade para estes males da
pobreza importa não apenas para o
bem-estar humano, mas representa
também reforço à economia desses
países. A doença de Chagas crônica,
por exemplo, causa deficiências
significativas e tem alto impacto
social e econômico, incluindo desemprego, diminuição da capacidade produtiva e gastos hospitalares.
Somente no Brasil, calcula-se que
mais de 1,3 bilhão de dólares, em
salários e produtividade industrial,
são perdidos, anualmente, devido à
contaminação de trabalhadores pela
doença de Chagas.
A Iniciativa de Medicamentos para
Doenças Negligenciadas (DNDi), ao
coordenar um grupo de centros de
excelência em pesquisas médicas,
não apenas conscientiza as sociedades sobre as doenças extremamente
esquecidas, como mobiliza o setor
público a investir na saúde da população, estimula a pesquisa científica
e cria mecanismos de financiamento
sustentável, avançando na busca da
garantia do acesso equitativo aos
medicamentos essenciais.
Severina Maria da Silva, moradora de
Aliança (PE): marido morreu de doença
de Chagas
Países em teste
Quanto à doença de Chagas, a Argentina e a Bolívia são países onde
o mal é endêmico, sendo a Bolívia
o mais afetado. Por isso a DNDi
escolheu as duas regiões para testar novos medicamentos contra o
parasita. O primeiro é o benznidazol
pediátrico (a formulação adulta já é
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
48
Senac e Educação Ambiental
Em Pernambuco, atendimento especial a chagásicos
Por causa da grande quantidade de pacientes
extremamente pobres que padecem da doença
na região, o professor adjunto de Cardiologia
da Universidade de Pernambuco (UPE), Wilson
de Oliveira Júnior, fundou, em agosto de 1997, o
Ambulatório de Doença de Chagas e Insuficiência
Cardíaca do Hospital Universitário Oswaldo Cruz/
UPE, que acompanha hoje 1.200 pacientes.
Segundo o médico, a maior causa de implante de
marca-passo em pessoas entre 30 e 50 anos no
Brasil é a doença de Chagas, outro motivo que
levou à criação do ambulatório. “Nosso objetivo
é melhorar cada vez mais o serviço para atendimentos de doenças crônicas, em especial Chagas,
e lutar para manter o tratamento.” O ambulatório
oferece atendimento profissional de assistência
integral ao paciente chagásico, com nutricionista,
psicólogo, assistente social e médico. Além disso,
identifica outros membros da família para tratar
preventivamente, principalmente as crianças. Outra conquista importante é o paciente poder ser
atendido pelo mesmo médico, para que se possa
criar um vínculo terapêutico.
“Nossa filosofia é a de enxergar o indivíduo como
um todo, priorizando uma visão que não olhe
o corpo como uma máquina”, diz o professor
Wilson de Oliveira. “É uma postura médica que
se faz ainda mais necessária nas doenças negligenciadas. Temos de pensar, por exemplo, que
um paciente portador de Chagas sofre inúmeras
vezes de depressão. Por isso precisa de um atendimento integral. Precisamos ter uma visão mais
abrangente e o modelo biomédico ainda predomina. O que queremos é ampliar esse modelo,
que é muito eficaz com a doença instalada, mas
não acompanha os fatores sociais que cercam o
paciente”, observa.
Para ele, o triângulo paciente-médico-família deve
agir em conjunto. Sua equipe tem feito reuniões
para desmistificar os estigmas, preconceitos e
superstições. “Muitas pessoas pensavam que
Chagas era uma ferida no coração; os que colocam
marca-passo tinham medo de sair na rua em dia
de chuva”, conta.
Trabalhando com uma associação de voluntários,
composta na sua maioria por pacientes, a equipe
de profissionais sob a liderança do professor Wilson
Oliveira Jr. conseguiu ganhar a adesão de muitas
pessoas que ajudam na continuação do tratamento,
que envolve de quatro a cinco drogas (se compradas
nas farmácias, essas drogas têm um custo aproximado de 150 reais por mês). O presidente da associação
é sempre um paciente, que, entre outras coisas,
luta, por exemplo, para garantir para os associados
o vale-transporte.
Uma das importantes iniciativas do grupo de profissionais e voluntários é a campanha “Adote um
paciente”. Quem adota um paciente responsabiliza-se
por prover seus medicamentos. Com isso, o grupo
espera conseguir beneficiar 500 pacientes, enquanto
mantém a luta para que o Estado forneça toda a medicação necessária para o tratamento sintomático e
não apenas o benznidazol. Tratados de forma integral,
os pacientes apresentariam um número menor de
internações, resultando em redução da mortalidade
e melhoria da qualidade de vida.
Segundo explica o professor Wilson Oliveira Jr.,
a doença de Chagas persiste no Brasil, mas está
controlada. “Controlamos um dos transmissores, o
Triatoma infestans, que, infelizmente, não é o mais
comum no Nordeste.” Por esse trabalho, em 2006,
o Brasil recebeu, ao lado do Chile e do Uruguai, o
certificado de controle da Organização Mundial de
Saúde (J.R.R.).
Pacientes do Hospital Universitário
Oswaldo Cruz (PE): tratamento
diferenciado para os portadores do
mal de Chagas
Senac e Educação Ambiental
49
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
Na Amazônia, malária e
leishmaniose afetam o futuro
No Amazonas e no Pará, o combate às doenças
negligenciadas une a dedicação de médicos, enfermeiros, agentes de saúde, pacientes e populações
de áreas endêmicas. Pesquisas locais demonstram
a importância de investimentos no tratamento das
doenças, que impactam negativamente a qualidade
de vida, o rendimento econômico e os resultados
no aprendizado dos escolares.
Segundo o dr. Marcus Lacerda, da Fundação de
Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, desde
o ano de 2008 a instituição científica tem parceria
com a Universidade do Estado do Amazonas e
desenvolve pesquisas com a população do município de Careiro, a 100 km de Manaus. As duas
comunidades atendidas pelo projeto se situam ao
longo da rodovia BR-319 (que liga Manaus a Porto
Velho). São cerca de 800 pessoas, entre adultos e
crianças, acompanhadas, ao longo desses anos
em que se verifica a incidência da malária, por
faixa etária e pela gravidade da anemia causada
por essa doença. As crianças também são investigadas sobre parasitoses intestinais e outras doenças genéticas que podem se relacionar à maior
gravidade clínica.
Dr. Marcus explica que, no acompanhamento de
crianças em idade escolar, verificou-se que as
que tiveram pelo menos um episódio de malária,
durante o ano letivo de 2009, aprenderam menos
Português e/ou Matemática. Esse resultado permitiu compreender um pouco dos impactos maldescritos da malária sobre essa população, que
vive basicamente da agricultura, em um rincão da
Amazônia Brasileira. Explica o médico que esse
tipo de pesquisa permite também a educação em
saúde, com o reforço das capacidades locais.
“Por se tratar de doença de baixa mortalidade entre
nós, a malária é considerada doença também de
Ano 19 • n.1 • janeiro/abril de 2011
50
baixa prioridade para os setores públicos. Com
a divulgação dos dados de maior ocorrência de
malária entre crianças e de seu impacto sobre o
aprendizado, inicia-se uma importante discussão
sobre esse tipo de doença, considerada negligenciada, em nosso país”.
O dr. Marcus Lacerda enfatiza que se trata de
doenças que acometem populações pobres, sem
qualquer retorno financeiro para as indústrias
farmacêuticas. Entretanto, finaliza o especialista,
“verificamos que é evidente o impacto da malária
sobre a educação e, portanto, sobre o desenvolvimento sustentável de longo prazo de nossa nação.
Por isso o tema merece a atenção das nossas
agências locais de fomento à pesquisa, como o
CNPq e a Fapeam”.
Em Santarém, no Pará, foi firmado um convênio
recente entre o município e o Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo, que permitiu
o início de um serviço de infectologia no hospital
municipal, visando, entre outras moléstias, à
leishmaniose. Segundo a médica Mariana Quiroga, “as atividades compreendem também participação dos médicos em áreas rurais, ao lado da
equipe regional de controle de endemias, para
atendimento local a vítimas de malária e outras
doenças.”
A médica explica que essa equipe está formada
por técnicos da antiga Fundação Nacional de
Saúde, treinados para diagnóstico e tratamento
precoce da malária e outros agravos. São eles
que instalam seus “laboratórios ambulantes” em
barcos, em casas nas comunidades ou onde a
demanda da região o indique. “São locais sem
médico, e lá os agentes de saúde realizam a proeza
de uma luta diária e silenciosa contra a doença
que ainda mata um milhão de pessoas no mundo”,
assinala a dra. Mariana Quiroga (J.R.R.).
Senac e Educação Ambiental
Download

Caatinga: