PPGCOM ESPM – ESPM – SÃO PAULO – COMUNICON 2013 (10 e 11 de outubro 2013). O trabalho voluntário segundo o cinema de Sergio Bianchi: o caso do filme
“Quanto Vale ou É Por Quilo?” 1
Fabio Silvestre Cardoso2
Universidade Anhembi Morumbi
Resumo
O presente artigo tem como objetivo analisar como a obra do cineasta Sergio Bianchi retrata o mundo do
trabalho voluntário, tomando como referência o filme “Quanto Vale ou É Por Quilo?”, de 2005. O filme de
Bianchi relaciona dois momentos da história do Brasil a partir do eixo do trabalho, articulando o período da
escravidão com o século XXI e a lógica do Terceiro Setor. Para retratar o universo do voluntariado, Sérgio
Bianchi se fundamenta essencialmente em duas estratégias: de um lado, lança mão de recursos estéticos
sofisticados, mesclando diferentes gêneros narrativos; de outro, utilizando a ironia como ferramenta, oferece
novo significado à ideia do voluntariado, a saber: assim como a escravidão era uma forma de controle social
e político das classes subalternas, o trabalho voluntário também pode ser entendido como forma de
dominação. Como referência, o autor utiliza um conto de Machado de Assis, “Pai Contra Mãe”, como
referência e livre-inspiração para a concepção do filme.
Palavras-chave: Voluntariado; Cinema Nacional; Crítica Social; Sociedade de Consumo.
O trabalho voluntário está entre as principais atividades caracterizadas como sine qua non
para os jovens que buscam emprego hoje em dia. Para além da proficiência em língua estrangeira,
da boa formação acadêmica e de certa ambição profissional, o voluntariado é levado em boa conta
pelos empresários e empregadores. Tanto é assim que, pelo menos desde a década de 1990, o
voluntariado tem atraído a atenção de diversos setores da cadeira produtiva, que, por sua vez, têm se
mobilizado no sentido de criar consenso em torno da necessidade de os profissionais buscarem
atuação nesse segmento. E até mesmo em algumas escolas o trabalho voluntário é praticado pelos
estudantes, e aqui parece ser claro o objetivo de sensibilizar os jovens em plena formação para uma
espécie de consciência social em relação aos problemas do País.
1
Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho Comunicação, Consumo, Trabalho e Espacialidades, do 3.º Encontro de GTs –
Comunicon, realizado nos dias 10 e 11 de outubro de 2013.
2
Mestre em Comunicação Contemporânea e professor universitário na Escola de Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi.
PPGCOM ESPM – ESPM – SÃO PAULO – COMUNICON 2013 (10 e 11 de outubro 2013). A partir de pesquisa realizada pelo Ibope em 20113, alguns dados acerca do voluntariado
ficaram mais claros, como a participação de ambos os sexos na atividade; a entrada de grupos mais
jovens; a qualificação dos recursos humanos; o crescimento da participação da Classe C; e
oportunidades para aprofundamento de algumas questões específicas, como o papel do voluntariado
empresarial. Nesse sentido, para além do fato de a pesquisa apontar para o crescimento sensível dos
voluntários, nota-se que existe um consenso de quem atua nessa área, uma vez que a maioria dos
entrevistados está bastante motivada a prosseguir fazendo serviço voluntário.
Assim, a cultura do voluntariado ganhou bastante fôlego no Brasil na década de 19904 e, no
século XXI, parece que veio para ficar. E se ganhou simpatizantes e adeptos ao longo da última
década, também é correto afirmar que essa prática também é alvo de crítica. Em 2005, foi lançado o
filme do cineasta paranaense Sérgio Bianchi, “Quanto Vale ou É Por Quilo?”, que ataca essa
temática. Para ser mais preciso, valendo-se do recurso da ironia, o cineasta compõe uma peça
cinematográfica que tem como alvo o voluntariado, apontando suas seus limites, suas contradições
e, mais importante, sua perversão travestida de boas intenções. Tomando a ironia como instrumento
para estabelecer suas críticas, o cineasta apresenta sua versão de mundo acerca do significado do
trabalho voluntário.
Como funciona a ficção
Em “Quanto Vale ou É Por Quilo?”, duas histórias correm em paralelo: de um lado, em
meados do século XVII, temos fragmentos da história da escravidão no Brasil: o comércio
escravocrata é um grande negócio, e não são poucos os que buscam aferir lucro com isso. Existe,
com isso, a mecânica da escravidão, que deseja não somente desfrutar de vantagem, mas, de acordo
com o que é apresentado no filme, estabelecer uma lógica de manutenção do poder vigente. Afinal,
a compra e venda de escravos é realizada com a anuência do Estado e das leis em curso. De outro
lado, o filme traz a história do tempo presente. Em uma grande capital do País (sabemos, pela
fotografia “concreta” e pelas imagens icônicas que se trata de São Paulo), uma narrativa apresenta 3
A pesquisa “Projeto Voluntariado Brasil” foi divulgada pelo Ibope em dezembro de 2011 e foi feita nas cidades de Salvador,
Brasília, Manaus, São Paulo, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Está disponível em http://www.ibope.com.br/ptbr/conhecimento/relatoriospesquisas/Lists/RelatoriosPesquisaEleitoral/OPP%20110274%20%20CVSP%20Voluntariado%20Brasil.pdf, acessado em 10 de agosto de 2013.
4
Embora ações voluntárias já existissem anteriormente, foi na década de 1990 que a ideia do voluntariado começou a ser associada
com a ação social responsável, conforme relato do Instituto Faça Parte: http://www.facaparte.org.br/?page_id=583. Acesso em 10 de
agosto de 2013.
2 PPGCOM ESPM – ESPM – SÃO PAULO – COMUNICON 2013 (10 e 11 de outubro 2013). se em curso: trata-se da história daqueles que orbitam em torno do trabalho voluntário: de um lado,
há os pobres, desvalidos e alijados do poder. Todavia, há, de outro, empresários e toda uma cadeia
alimentar que necessariamente vive graças ao voluntariado. E é aqui que se dá a amarração entre as
duas histórias, pois, se é verdade que o trabalho voluntário faz com que milhares de pessoas possam
ter melhores condições de vida, também é correto que existe, com isso, a consagração de um novo
mercado de trabalho, cujo produto central são eles, os pobres.
Para entender o funcionamento da mensagem apresentada pelo cineasta, é fundamental
capturar a estrutura e a maneira como se organiza o filme de Sérgio Bianchi, algo que não é tão
simples. Isso porque cineasta organiza a obra articulando ao menos dois gêneros simultaneamente.
Na parte em que são exibidas imagens que remetem à história do Brasil, a narração em voz over
traz um comentário que contextualiza as cenas que ora são exibidas. A encenação, portanto, é regida
com um tom de reconstituição dos fatos históricos, tais como se tivessem ocorrido efetivamente
daquele modo. É uma espécie de documentário. Já na parte do filme que se passa no século XXI, o
que existe é uma encenação, mas que, de tempos em tempos, conta, também, com a intervenção da
voz over e comentários para o espectador. Essa estrutura, que a princípio pode parecer confusa, se
ajusta ao projeto cinematográfico de Bianchi, que, em outros filmes, flertou com essa mescla de
gêneros que se acontecem ao mesmo tempo. “Quanto Vale ou É Por Quilo?” simboliza, nesse
sentido, uma síntese de obras anteriores do cineasta no tocante à forma e também atualiza uma
crítica contundente que o cineasta faz à sociedade, sem preservar nem mesmo entidades que são
publicamente celebradas pela sua atividade de resgate e auxílio à cidadania.
É nesse sentido que o papel designado às Organizações Não Governamentais é central em
“Quanto Vale ou É Por Quilo?”. Como se vê ao longo do filme, o trabalho voluntário é só um meio
através do qual as empresas buscam atingir um objetivo: desfrutar de mais influência política e
conquistar mais um mercado bastante lucrativo. Bianchi denuncia isso utilizando o recurso da ironia
para identificar as verdadeiras intenções dos empresários e das instituições deste setor. É evidente
que, nesse caso, o autor faz uso da encenação para caricaturar o discurso, o método e os recursos
apresentados por essas instituições para angariar fundos junto à iniciativa privada. E isso fica claro
logo nas primeiras cenas do filme, quando uma voz over traz uma locução que contrasta com a
imagem que é exibida. Segundo o texto da locução, “doar é um instrumento de poder. A
superexposição de seres humanos em degradantes condições de vida... faz extravasar sentimentos e
emoções. Sente-se nojo, espanto, piedade, carinho, felicidade... e por fim, alívio. E ainda faz uma
3 PPGCOM ESPM – ESPM – SÃO PAULO – COMUNICON 2013 (10 e 11 de outubro 2013). boa dieta na consciência.” (BENAIM et al., 2006, p.59)
No momento em que esse texto é apresentado, uma mulher da alta sociedade, engajada no
trabalho voluntário, organiza crianças no alto de uma comunidade carente para que seja tirada uma
foto. Não contente em fazer com que as crianças estejam lado a lado, a personagem Marta
Figueiredo, vivida pela atriz Ariclê Perez, distribui presentes para as crianças e logo se posiciona no
meio delas, como se fosse uma espécie de benemérita entre os desassistidos. No comentário que
segue no roteiro do filme, um dos realizadores explica a cena:
Comentário: Essa é mais uma foto-retrato que reproduz o ideal burguês de
felicidade. No caso a felicidade é uma burguesa cercada de excluídos que ela
cuida, ordena e controla. Essa foto foi escolhida para ser o cartaz do filme com o
slogan: Mais vale pobres na mão do que pobres roubando. É também uma cena de
apresentação de Marta. (IDEM, 2006, p.59)
Como se observa, é parte integrante do projeto do filme apresentar esses contrastes entre o
que o que se poderia classificar de discurso e a real intenção. É curioso, inclusive, o fato de a
encenação ser permeada por um tom de making of, haja vista que a todo momento os personagens
estão envolvidos em algum tipo de encenação: seja para assinalar que o universo do terceiro setor,
tal qual retratado, depende que sua mensagem seja chancelada pelos meios de comunicação, seja
para mostrar o quão forjado é esse ambiente, escondendo, portanto, seu interesse mercadológico e
nada altruísta. O Terceiro Setor, nesse caso, é apenas mais uma divisão de negócios, uma fronteira
que ora é explorada pelo capitalismo com a chancela do Estado.
Ao mesmo tempo, quando o filme retoma o período histórico, Bianchi apresenta também as
contradições da escravidão no Brasil. Em breves relatos, conta a história de capitalistas que viviam
de explorar o trabalho e a mão de obra escrava, não como grandes proprietários de terra, mas como
negociadores desses escravos. Nesse caso, o cineasta faz coro à análise elaborada por um dos
principais estudiosos da obra de Machado de Assis, o crítico Roberto Schwarz, que escreveu dois
livros que analisam a fundo as relações entre a ficção machadiana e a sociedade brasileira no século
XIX. Em um dos textos mais emblemáticos dessas obras, “As ideias fora do lugar”, publicado na
década de 1970, Schwarz aponta para uma contradição entre o discurso do trabalho livre no Brasil e
a existência do trabalho escravo por aqui, ainda que a Constituição Brasileira de 1824 tenha
reproduzido por aqui parte do Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento central
4 PPGCOM ESPM – ESPM – SÃO PAULO – COMUNICON 2013 (10 e 11 de outubro 2013). da Revolução Francesa, promulgado por lá nos idos de agosto de 1789.
Ora, o paralelo existente entre o trabalho escravo e o trabalho voluntário, conforme o cinema
de Bianchi, se dá exatamente na efetividade da aparência dos discursos e na dinâmica pragmática de
como esses negócios realmente aconteciam e acontecem. No caso da escravidão, nas palavras do
crítico Roberto Schwarz, havia uma espécie de comédia ideológica, conforme análise do autor:
O estudo racional do processo produtivo, assim como a sua modernização
continuada, com todo o prestígio que lhes advinha da revolução que ocasionavam
na Europa, eram sem propósito no Brasil. Para complicar ainda o quadro,
considere-se que o latifúndio escravista havia sido na origem um empreendimento
do capital comercial, e que portanto o lucro fora desde sempre o seu pivô. Ora, o
lucro como prioridade subjetiva e comum às formas antiquadas do capital e às
mais modernas. De sorte que os incultos e abomináveis escravistas até certa data –
quando esta forma de produção veio a ser menos rentável que o trabalho
assalariado – foram no essencial, capitalistas mais conseqüentes do que nossos
defensores de Adam Smith, que no capitalismo achavam antes que tudo a
liberdade. Está-se vendo que para a vida intelectual o nó estava armado. Em
matéria de racionalidade, os papéis se embaralhavam e trocavam normalmente: a
ciência era fantasia e moral, o obscurantismo era realismo e responsabilidade, a
técnica não era prática, o altruísmo implantava a mais-valia etc. E, de maneira
geral, na ausência do interesse organizado da escravaria, o confronto entre
humanidade e inumanidade, por justo que fosse, acabava encontrando uma
tradução mais rasteira no conflito entre dois modos de empregar os capitais do
qual era a imagem que convinha a uma das partes. (SCHWARZ, 2001, p.12)
Onde está essa contradição no filme de Bianchi? Aparece quando recorda que até mesmo
negros alforriados são agentes da escravidão; ou quando mostra que até mesmo a responsável por
trabalhar com instituições de apoio e oferta de caridade é capaz de negociar em tom ameaçador para
que uma de suas ajudantes possa seguir como funcionária ainda que para esta última as condições
sejam adversas. Nesses casos, as cenas não deixam dúvida acerca da mensagem de “Quanto Vale ou
5 PPGCOM ESPM – ESPM – SÃO PAULO – COMUNICON 2013 (10 e 11 de outubro 2013). É Por Quilo?”: exatamente porque existe um tom condescendente em torno daqueles que
necessitam de ajuda, a lógica que rege o voluntariado é, sim, a de dominação. Nesse caso, outra
forma de dominação. E para aqueles que desobedecerem essa lógica cabe a punição sumária.
Pela manutenção do status quo, ou: o que importa é a liberdade para consumir
O filme “Quanto Vale ou É Por Quilo?” é livremente inspirado num conto de Machado de
Assis, “Pai contra Mãe”, publicado apenas em 1906. E é nesse texto que uma das características da
obra machadiana se apresentam de forma mais consistente, o uso da ironia. Para o crítico literário
John Gledson, a presença da ironia nos textos de Machado de Assis se deve pelo fato de que, no seu
tempo, o escritor não poder atacar temas tão espinhosos de forma tão cristalina. O uso da ironia,
nesse sentido, servia como uma espécie de máscara necessária para a crítica social inerente no
trabalho do escritor. Em “Pai contra Mãe”, o que se tem, a princípio, é um relato sobre a vida de um
jovem, Candinho, que se vê às voltas com a necessidade de sustentar uma família. Sua mulher,
Clara, engravida e logo essa família, protegida pela Tia Mônica, vai crescer – tudo isso sem que
Candinho seja o provedor da casa, posto que ele não consegue permanecer em qualquer trabalho. A
saída era buscar um ofício do tempo, o de capitão do mato, figura responsável por capturar escravos
fugidos. Todavia, à medida que o tempo passa na narrativa, os escravos a serem capturados vão
rareando (o motivo, implícito na prosa de Machado de Assis, é a lei do ventre livre e a proximidade
da libertação dos escravos). E o clímax do conto é o momento em que Candinho tem de decidir
entre a vida de seu filho e a do filho, ainda no ventre da mãe, de uma escrava que ele estava prestes
a capturar: eis o dilema: se ele a deixa ir, ela tem o filho, mas ele terá de entregar o seu à roda dos
enjeitados por não conseguir sustentá-lo; caso a capture, poderá viver com seu filho, enquanto ela
voltará à condição de cativa. A opção do protagonista é pela lógica do trabalho – e que, por
conseguinte, lhe dará a condição de sustentar sua família.
O dilema de Candinho no conto de Machado de Assis não é levado da mesma forma para o
filme de Sérgio Bianchi. Todavia, o cineasta aproxima as narrativas a fim de que as histórias se
assemelhem em uma questão elementar: o de quanto a lógica do trabalho pode, sim, parecer
perversa, sobretudo se tiver como objetivo sub-reptício a manutenção do status quo. Assim como no
conto de Machado de Assis o personagem central opta pelo status quo ao entregar a escrava e, por
isso, executar o seu trabalho, em “Quanto Vale ou é Por Quilo?”, o diretor articula a mesma
6 PPGCOM ESPM – ESPM – SÃO PAULO – COMUNICON 2013 (10 e 11 de outubro 2013). discussão ao apontar o quanto o trabalho das ONGs, também de forma sub-reptícia, ajuda a manter
os pobres nesta mesma condição, tendo em vista que não há ascensão social possível desde que os
pobres e desvalidos permaneçam como tais, com a diferença de que recebem uma fração da ajuda
do dinheiro das grandes empresas e de certo auxílio do próprio governo. Eis a tese do cinema de
Bianchi: o trabalho voluntário ajuda apenas a enriquecer ainda mais àqueles que estão no poder,
concedendo a esta elite ainda melhores condições de se destacar midiaticamente e de ganhar mais
influência.
No filme, isso é apresentado não só com os diálogos e com certo tom de denúncia de parte dos
personagens, mas, também, com as imagens que apontam em direções contraditórias que abalam o
consenso que está forjado pelo senso comum em torno das ONGs. É dessa maneira, por exemplo,
que vemos como os empresários do terceiro setor, geralmente apresentados como figuras nobres
pelo discurso midiático, muitas vezes buscam a glória e poder para si, nada a ver com essa narrativa
forjada em torno de “empreendedores sociais”. De igual modo, a crítica ao Estado, na figura de um
governador e outro parlamentar, mais atentos à publicidade e ao destaque em torno dessas ações
sociais do que efetivamente preocupados com a educação e o bem-estar da população. Sobra ainda
para a elite, personificada na caricatura da socialite Marta Figueiredo, que deseja, sim, ajudar aos
outros, mas não percebe o quão insensível esse gesto pode ser uma vez que sua preocupação é tão
somente aplacar a própria consciência. É essa ironia que permeia o filme e, à medida que a história
avança, uma sensação de incômodo e desengano atinge o espectador, confrontado com uma versão
contracorrente sobre o que aprendeu e leu acerca das ONGs.
A ideia de perversão em torno da questão do trabalho atinge seu ápice numa cena em que há
uma inversão de papéis. Em dado momento do filme, um dos personagens, vivido pelo ator Lázaro
Ramos, decide assumir à frente de um sequestro. Como bem observa a análise crítica de Maria Rita
Kehl, ele utiliza todo o repertório de palavras-chave de um empresário ou de um gerente de produto,
para preparar com seus comparsas o sequestro. Ao mesmo tempo, esta cena aparece um pouco
depois de uma apresentação, feita no filme, de como devem ser feitos os projetos para captar
recursos para voluntariado. É como se houvesse uma simbiose do discurso ao mesmo tempo em que
as imagens mostram, apesar da distância histórica, o quanto o Brasil permanece um País desigual e
marcado pelos interesses da elite em permanecer no mesmo lugar de privilégio nem que para isso
tenha de oferecer uma espécie de ajuda social para que os desassistidos permaneçam onde estão. De
sua parte, quem está do lado de lá da pobreza, como é o caso do personagem de Lázaro Ramos,
7 PPGCOM ESPM – ESPM – SÃO PAULO – COMUNICON 2013 (10 e 11 de outubro 2013). prefere agir para fazer o outro lado sofrer. E em outra cena, numa espécie de discurso em defesa de
suas ações, afirma: “o que importa é a liberdade para consumir”.
Pois é nesse momento em que são dadas condições para a compreensão desse filme. Bianchi
aponta para a chave do consumo como explicação para a dinâmica que muitas vezes move tanto
quem oferta esse tipo de serviço, o chamado Terceiro Setor, quanto para os interesses que movem
aqueles que recebem, aparentemente de forma apaziguada e bastante satisfeita com o que
conquistou. A propósito disso, o ensaísta Tales Ab’ Saber, em livro publicado em 2012, assinalou
para as contradições dessa movimentação, numa análise de algum modo profética para os protestos
que aconteceriam no Brasil no ano de 2013:
A importante ausência significante de crítica e do constrangimento da esquerda
aos felizes neoburgueses de massa de todos os matizes, com grande parte das
facções à esquerda do processo mais preocupadas com a sua própria inserção
orgânica nos novos negócios de Estado, a sua própria capitalização primitiva no
“novo” capitalismo de laços brasileiro, o seu aburguesamento urgente, pela
primeira vez na história contemporânea deste país liberou a nova consciência
autossufisciente da elite endinheirada, que se equalizava ao mundo ilimitado das
benesses do dinheiro, com sua subjetivação anti-humanista, que podia chegar a
beirar a perversão industrial de si a si, como o modo norte-americano de ser do
dinheiro e para o dinheiro deixou bem claro. (AB’SABER, 2012, p.64)
Nos últimos anos, com o sucesso do Brasil no plano internacional, é correto assinalar que
muitas das conquistas sociais tiveram o efeito de consolidar uma sensação de bem-estar que fez
muitos acreditarem na diluição das desigualdades sociais do Brasil. Para alcançar esse objetivo, sem
dúvida nobre, de forma mais acelerada, houve quem acreditasse que a atuação das ONGs e do
terceiro setor fossem elementares nesse processo, haja vista que o Estado não daria conta de tudo
com a mesma velocidade. Na contramão dessa análise, o filme de Sérgio Bianchi, “Quanto Vale ou
é Por Quilo?” questiona não apenas essa narrativa, mas, essencialmente, ataca o papel do terceiro
setor como agente que tem essa missão exclusivamente altruísta. No filme, a lógica do trabalho, em
todas as suas dimensões, pode ser tão perversa e nociva que até mesmo as Organizações Não
Governamentais podem, sim, atuar em benefício próprio, de modo a estabelecer para si todo um
mercado a partir de uma clientela rica de um lado – no caso, os empresários, os industriais e os
demais capitalistas – e, de outro, um “produto” cuja quantidade é inesgotável no país – aqui, os
8 PPGCOM ESPM – ESPM – SÃO PAULO – COMUNICON 2013 (10 e 11 de outubro 2013). pobres. Em paralelo a isso, a comparação com o período da escravidão mostra o quanto a ideia de
trabalho, na história do Brasil, já teve um significado perverso, se se pensar no mercado de escravos
que eram comercializados a céu aberto.
Em “Quanto Vale ou é Por Quilo?”, o cineasta Sérgio Bianchi utiliza uma espécie de
tempestade de gêneros, a mistura de um proto-documentário e uma encenação, para validar sua
crítica às ONGs, em particular, e à ideia do assistencialismo, num plano mais amplo. Nesse sentido,
não sobra espaço para elogios ou tentativa de escape a partir da história do Brasil, tampouco no
presente, já que, em ambos os casos, a saída escolhida foi a da resignação e da acomodação do
status quo.
A ficção cinematográfica como crítica à lógica do trabalho
Tão relevante como a observação feita às ONGs, o que se vê nesse filme de Sergio Bianchi é
a crítica à lógica do trabalho como forma de emancipação das classes desfavorecidas ao mesmo
tempo em que aponta uma fissura na maneira como a elite defende certo espírito do capitalismo.
Em uma das cenas mais emblemáticas a esse respeito, o empresário Ricardo (Caco Ciocler) avisa
para Arminda (Ana Carbatti), quando é acusado de desvio de dinheiro que deveria ser destinado
para uma ação social: “Isso aqui é uma empresa, viu?” Quando ela sugere que fará uma denúncia
sobre os desvios, ele não parece enxergar um problema, pelo contrário: “Eu posso te dar uma lista
das pessoas que só sobrevivem hoje por causa do nosso trabalho”, destacando que, com as
denúncias, tanto ele quanto essas pessoas seriam prejudicadas.
Nota-se, aqui, que a crítica ultrapassa à percepção de que as ONGs, em si, fazem um
trabalho ruim. Em verdade, o cinema de Bianchi observa o assistencialismo, tal qual praticado pelas
empresas, guarda grande relação para com o comércio de escravos justamente porque existe uma
corrupção no cerne do questão, na raiz do problema, como se fosse um elemento orgânico dessa
dinâmica. Nesse sentido, não chega a surpreender o fato de que o trabalho voluntário é, também,
perverso. Isso porque sua perversão reside exatamente no esvaziamento de valores altruístas que
foram substituídos pela lógica empresarial do mercado, que observa as pessoas como se fossem
coisas ou commodities, e as associações e instituições de caridade como empresas que efetivamente
conquistam novos mercados e novos investidores, que necessitam desse verniz exatamente para
tornar a marca dessas empresas em algo com alto valor agregado – o valor, no caso, é a
responsabilidade social, um elemento-chave para aplacar as consciências contra o capitalismo
selvagem.
9 PPGCOM ESPM – ESPM – SÃO PAULO – COMUNICON 2013 (10 e 11 de outubro 2013). A lógica do trabalho, aqui, soa como perversa exatamente porque está mascarada por outra
agenda, a de servir como suporte ou mesmo abrigo para as grupos sociais desfavorecidos no
contexto de desigualdade social gritante da sociedade brasileira. Nesse sentido, o voluntariado, sem
dúvida alguma ocuparia um papel de destaque no sentido de oferecer um tipo de auxílio mais atento
ao grito que vem das ruas, para utilizar um lugar-comum. Todavia, conforme a tese defendida pelo
filme, essa agenda não consegue sequer transformar a vida daquelas pessoas exatamente porque,
nesse caso, os vícios privados não trazem benefícios públicos, na contramão do adágio liberal.
Nesse sentido, as ideias não poderiam estar mais fora de lugar, aprofundando o que escreveu o
crítico Roberto Schwarz a propósito de Machado de Assis. E o filme toma isso como referência e
constitui seu argumento conjugando esses dois momentos distintos da história do Brasil como se
fossem períodos gêmeos, isto é, articulados a partir de um mesmo DNA, ainda que se trate de
questões diferentes. Para Sergio Bianchi, a lógica da escravidão está replicada nas entrelinhas do
trabalho voluntário sobretudo porque acentua a divisão de classe e faz com que aqueles que
recebem esse tipo de auxílio não sejam efetivamente beneficiados.
10 PPGCOM ESPM – ESPM – SÃO PAULO – COMUNICON 2013 (10 e 11 de outubro 2013). Referências
AB’SABER, Tales. Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica. São Paulo: Hedra, 2012.
BENAIM, Eduardo. et al. Quanto Vale ou É Por Quilo?. São Paulo: Imesp, 2008.
GIANNETTI, Eduardo. “Vícios Privados, Benefícios Públicos?”. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das
Letras, 2007.
SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor, as batatas. São Paulo: Ed. 34, 2001.
Filme:
QUANTO vale ou é por quilo? Direção: Sérgio Bianchi. Versátil, 2009.
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