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ID: 58179727
03-03-2015
Tiragem: 34477
Pág: 9
País: Portugal
Cores: Cor
Period.: Diária
Área: 10,88 x 24,23 cm²
Âmbito: Informação Geral
Corte: 1 de 1
Não está a ser fácil
transferir doentes
para cuidados
continuados
Saúde
Alexandra Campos
Médica diz que a rede para
pessoas com perda de
autonomia está “saturada”,
apesar dos anúncios
de abertura de camas
Há hospitais que estão a tentar mandar doentes que já têm alta para a
Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (criada para as
pessoas em situação de dependência e perda de autonomia), mas não
conseguem vaga. Ontem, o problema
foi de novo denunciado no Hospital
Pedro Hispano (Matosinhos) durante
uma visita de responsáveis da Ordem
dos Médicos e dos sindicatos. “Este hospital tem cerca de 30 doentes
internados nas camas de medicina
interna de [casos] agudos que estão a aguardar transferência para
cuidados continuados”, adiantou o
presidente do Conselho Regional do
Norte da Ordem dos Médicos (OM),
Miguel Guimarães, para quem a situação é “absolutamente lamentável”.
O presidente do Conselho de Administração, Vítor Herdeiro, confirmou à Lusa que há constrangimentos
para “passar estes doentes para os
cuidados continuados”, à semelhança do que se passa noutras unidades
da região. “A rede está saturada. Fecharam várias unidades de convalescença [de curta duração] para onde
iam, por exemplo, as pessoas que
estão a recuperar de um AVC. São
pessoas que ainda não estão bem
para estar em casa mas já não deviam estar nos hospitais”, explicou
ao PÚBLICO Merlinde Madureira,
do Sindicato dos Médicos do Norte,
que participou na visita ao hospital
de Matosinhos. Este problema, diz,
é generalizado e agravou-se no Inverno, devido ao “maior número de
internamento de pessoas idosas sem
apoio social”. “Eles vivem com pes-
soas idosas ou sozinhas, não podem
ir para casa”, sintetiza a médica.
Na sexta-feira, responsáveis de um
dos maiores hospitais da Grande Lisboa tinham-se queixado ao PÚBLICO
da dificuldade que estavam a sentir
para transferir doentes com alta para
a rede de continuados, apesar de o
Ministério da Saúde ter autorizado
em Fevereiro a contratação de centenas de camas. O PÚBLICO pediu
esclarecimentos à Administração
Central do Sistema de Saúde (ACSS),
sem sucesso. O gabinete do ministro
da Saúde respondeu ontem remetendo explicações para a ACSS e para
a Administração Regional de Saúde
(ARS) de Lisboa e Vale do Tejo, mas
garantiu que “foram autorizadas as
contratações de todas as unidades
prontas na região (...), para onde
já estão doentes a ser encaminhados”.
Quando a Rede de Cuidados Continuados arrancou, em 2006, foi
criada uma estrutura e nomeado um
responsável a nível nacional para a
gerir. Agora, a rede está centralizada na ACSS, a nível nacional, e nas
ARS, a nível regional. Responsáveis
governamentais calcularam recentemente que, desde 2012 (altura em
que havia 5911 camas), abriram mais
1249, número que mesmo assim fica
abaixo do pretendido pelo ministro
Paulo Macedo, que só para 2013 tinha
estimado abrir 1100 camas. As metas
iniciais desta rede para 2016 eram 15
mil camas, mas foram reduzidas para
pouco mais de 11 mil.
Depois das denúncias de situações
de caos em várias urgências, em Fevereiro sucederam-se vários despachos. O primeiro veio atribuir cerca
de 16,5 milhões de euros através de
contratos-programa para a rede, divididos por todos as tipologias –unidades de convalescença, de cuidados
paliativos (para doentes com patologias avançadas e incuráveis) e de média ou de longa duração. Depois, foi
autorizada a abertura de 150 camas
em unidades de cuidados paliativos.
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Não está a ser fácil transferir doentes para cuidados continuados