Iranilde de Oliveira Silva Lia Maria Teixeira de Oliveira Monica A. Del Rio Benevenuto organizadoras Andréia Cristina Matheus Jaqueline de Moraes Thurler Dália Carmen Oliveira Frade Lia Maria Teixeira de Oliveira Clarindo Aldo Lopes Luciana Nogueira Fontenele Diogo de Souza Pinto Fernanda Olivieri de Lima Gabriel Almeida Frazão Ingrid Bernardo dos Santos Iranilde de Oliveira Silva AARJ Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro Maíza Gabrielle Pereira Ribeiro Marcelle Felipo Mariane Del Carmen da Costa Diaz Monica A. Del Rio Benevenuto Selma Dansi Fabre Sumário Juventude protagonizando a transição agroecológica no Estado do Rio de Janeiro: a experiência da intervivência universitária na UFRRJ 9 Alternância e agroecologia: estratégias de formação de educação do campo com jovens dos movimentos sociais 25 Agroecologia e movimentos sociais no Estado do Rio de Janeiro: ensaiando algumas interpretações dos processos coletivos, políticos e históricos 43 Viver “da” e “na” terra: elementos para pensar experiências de ser jovem do campo 53 Entre dinâmicas, diálogos e reflexão: a expressividade nos valores culturais da juventude 71 Disputa de paradigmas na agricultura 83 Entre teorias e experiências: o que nos revelam os jovens assentados a respeito de escola e educação? 95 Educação e agroecologia: tecendo relações 111 A construção do conhecimento a partir de práticas de caráter popular e a articulação da juventude agroecológica no Estado do Rio de Janeiro 123 A pedagogia da alternância no Estado do Rio de Janeiro: relações entre Ceffas, comunidades e o poder público 137 Alternância e agroecologia: estratégias de formação do campo com jovens dos movimentos sociais Clarindo Aldo Lopes Lia Maria Teixeira de Oliveira1 “A razão técnica acredita que sabe como organizar do melhor modo possível pessoas e coisas, a cada um atribuindo um lugar, um papel e produtos a consumir. Mas o homem ordinário escapa silenciosamente a essa configuração. Ele inventa o cotidiano, graças às artes de fazer, às astúcias sutis, táticas de resistência pelas quais ele altera os objetos e os códigos, se reapropria do espaço e do uso a seu jeito.” Michel Certeau (1994) Situando espaços, tempos e atores da educação do campo Os atores ligados aos setores populares que ora lutam pelo desenvolvimento local e pela reforma agrária têm destacado em seus discursos a participação como sendo um princípio de base e uma condição inquestionável para a efetivação dos processos sociais onde estão militando. Considerando esse espírito e ainda essa especificidade, foi que entre os anos de 2008 e 2011 atores políticos se encontraram para a organização, 1 Informação sobre os autores a partir da página 155. 26 Estratégias de formação do campo com jovens dos movimentos sociais produção e execução de uma proposta de formação de jovens em bases agroecológicas estruturada como Programa de Intervivência Universitária2, com financiamento do CNPq/MDA e a UFRRJ/Reitoria. O primeiro encontro entre os movimentos sociais representados pela 3 Aarj – Articulação de Agroecologia do Estado do Rio de Janeiro e os docentes da UFRRJ das áreas de educação, agronomia e ciências sociais, em agosto de 2008, teve como foco juntar as ideias para a construção coletiva de um projeto de formação política em agroecologia que atendesse às reivindicações dos jovens rurais, dos quilombolas e da agricultura urbana da região suburbana e metropolitana da cidade do Rio de Janeiro. Tudo discutido e acertado, vimos que efetivamente o edital n. 23/2008 atenderia plenamente à UFRRJ e à Aarj, ambas interessadas em ampliar saberes e práticas engajadas nas lutas populares pelo acesso à educação de jovens para o exercício da cidadania de forma crítica e participativa. Tivemos dez dias para concluir um projeto, cuja sistematização demonstrou ser o início de um grande desafio político-cultural e pedagógico, por estar marcado pela diversidade e pluralidade de pensamentos, que normalmente perpassam a constituição de projetos de educação do campo em bases da Agroecologia e Agricultura Familiar. Todavia, mesmo cientes “Campo e Campus – Jovens rurais protagonizando o fortalecimento da agricultura familiar e a construção do conhecimento agroecológico no Estado do Rio de Janeiro” é o projeto que propiciou a experiência de intervivência, nosso objeto de reflexão no presente texto. 2 No período em que o projeto foi sistematizado pelo ator coletivo e o institucional (este coordenou o programa junto à UFRRJ e ao CNPq). A Aarj apresentou-se representando entidades e instituições tais como Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Rede Fitovida de Plantas Medicinais, Cooperativa de Prestação de Serviços em Agroecologia (Cedro), Rede Ecológica de Consumo, Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro-Rio), Associação de Agricultores Biológicos (Abio), Grupo de Agricultura Ecológica/UFRRJ (GAE), Grupo de Estudos e Trabalho em Ensino e Reforma Agrária/UFRRJ (Geterra), Mutirão de Agricultura Ecológica/UFF (MÃE), Pastoral da Saúde, Pastoral da Criança, Instituto Terra, Verdejar, Associação de Moradores do Quilombo Campinho, Instituto de Desenvolvimento Comunitário (Idaco). Cabe então destacar que os setenta jovens do programa vieram dessas entidades, das regiões Costa Verde, Metropolitana, Norte Fluminense, Vale do Paraíba, Serrana e Serramar do Estado do Rio de Janeiro. 3 Cadernos de discussão: juventude, educação do campo e agroecologia 27 dos riscos quando se trata de trabalhos que envolvem espaços, tempos e atores instituintes e institucionais, o projeto teria ainda que contemplar o CNPq. Não seria fácil atender expectativas de tantos atores experientes na prática e na análise de conjuntura político-cultural de formação de sujeitos para a cidadania e a produção de conhecimentos especializados. Mas encontramos na chamada do edital a brecha que precisávamos para despertar a “ideia-força”4 que mobilizaria os atores e nos encharcaria de ânimo para dois anos de trabalho intelectual e afetivo. A intencionalidade do CNPq/MDA era selecionar as propostas que visassem “estimular a divulgação e apropriação de conhecimento geral e especializado disponíveis nas Universidades, Centros Tecnológicos e Escolas Técnicas Públicas”, formando jovens estudantes e residentes da zona rural que, naquela época, estivessem engajados em atividades educativas, extensionistas e organizativas. Portanto, poderíamos juntar as nossas utopias pela agroecologia como referencial epistemológico e estratégico e ainda com recursos financeiros para colocar em prática a alternância como inovação pedagógica, de que há muito tínhamos anseio em nos apropriar. Por que a pedagogia da alternância deveria ser a nossa sustentação metodológica e a nossa práxis de formação? Ainda que estivéssemos em meio a territorialidades constituídas por uma educação do campo que assume a luta pela reforma agrária tendo a agroecologia como campo científico-cultural e político para o enfrentamento das disputas pela revolução cultural5, outro desafio se fazia inerente à formação, a saber: o projeto trabalharia a alternância como sendo práxis, sendo a estrutura da construção de conhecimentos e de identidades gestadas num mundo rural e urbano contemporâneo, onde se situa a disputa agroecologia x agronegócio. Tal como Gandin (1991) emprega o termo para se referir às utopias que nos orientam e nos sustentam em práticas participativas da educação popular. 4 5 Entendemos essa concepção de Gramsci engendrada na mobilização de atores e intelectuais orgânicos dispostos a dar direção política à reforma intelectual das massas. 28 Estratégias de formação do campo com jovens dos movimentos sociais Vale citar Mochcovitch (1995) devido à forma clara como interpreta a revolução cultural, como categoria gramsciana, de que nos apropriamos devido à intencionalidade que nos uniu pela ideia-força para executar o projeto Campo-Campus6. Para a autora é importante explicar que “... a reforma intelectual e moral tem seu ponto de partida na crítica do senso comum produzido e reproduzido pela introjeção de valores da ideologia dominante nas massas subalternas e integrado igualmente por reminiscências das concepções de mundo que prevaleceram em momentos de dominação já ultrapassados historicamente (...) a reforma intelectual e moral é essa luta cultural que ultrapassa os interesses mais imediatos (econômicos) das classes subalternas, e, com base na elevação cultural das massas, cria formas de ver o mundo adequadas a uma nova fase histórica, a ponto de fazer delas “forças materiais”, como dizia Marx. (...) O projeto dessa reforma é, portanto, a superação das formas de consciência existentes, da filosofia dominante e da visão de mundo das classes dominantes.” (p. 38-39) Estamos num espaço político-cultural em que ocorrem disputas pela hegemonia de projeto de sociedade. A Agroecologia e a Segurança Alimentar são na atualidade os significantes simbólicos da agricultura familiar na luta cultural e política, secular, que os povos do campo travam com os grandes empresários (outrora oligarquia rural). É significativo lembrar que os projetos de educação do campo, na escola ou no local de trabalho estão ancorados no campo político-ideológico da classe popular, em que se engendra uma nova cultura radicada na consciência popular, posto que o movimento “por uma educação do campo” é o resultado da produção 6 De agora em diante, a denominação utilizada quando for necessário nominar o Programa de Intervivência da UFRRJ coordenado pela autora deste texto. Cadernos de discussão: juventude, educação do campo e agroecologia 29 crítica dos sujeitos na luta. Por isso, para aqueles vinculados à organização da agricultura familiar, a agroecologia assume uma cientificidade gestada na perspectiva crítica, nas mentalidades e dos valores culturais populares em processo de conscientização. Para os movimentos sociais, esta é uma demonstração de que não se trata somente de um movimento de resistência, estes assumem que são propositivos à construção de outro modelo de intervenção na organização social e produtiva que aproxima campo-cidade, natureza-sociedade, trabalho manual-intelectual e participação-inclusão. Então, este trabalho objetiva revelar as nossas reflexões sobre a pedagogia da alternância, que nós, atores e sujeitos7 do Programa de Intervivência Universitária, vivenciamos e dele nos apropriamos juntamente a setenta jovens rurais, da agricultura urbana e integrantes da Aarj, bolsistas do CNPq e de Extensão da UFRRJ, em prol de uma formação em bases agroecológicas e de soberania alimentar. De onde falamos e com quem dialogamos Como dissemos, nossa experiência tem laços que vieram se estreitando desde o final da década de 1980. Alguns parceiros do projeto Baseando-nos em Pais (2003), fazemos a distinção entre sujeitos e atores nomeando-os a partir do seguinte entendimento: para nós, “sujeitos” são aqueles que participam de um projeto dando-lhe sentido pessoal ou não, mas dando-lhe sentido e sofrendo os impactos das possíveis interações dessa participação; enquanto os “atores” seriam aqueles representantes dos indivíduos nas ações coletivas, em entidades de classe, categorias, profissionais, etc. Entretanto, para Pais, ambos os termos podem ser concebidos como convenções sociológicas, sendo representadas pela entidade de indivíduo social. Para nosso entendimento, o mais importante é que nas redes de subjetividade formadas pela ação de sujeitos sobre o cotidiano – microcontexto –, este local de ações formativas compreende as “situações de interação” em que passam os jovens. Assim, o livro de José Machado Pais foi incorporado em nossa pesquisa devido ao seu enfoque nos estudos do cotidiano e das redes de subjetividades formadas por situações de interação de sujeitos e processos sociais em ocorrência em microcontextos. 7 30 Estratégias de formação do campo com jovens dos movimentos sociais Campo-Campus se conheciam de aulas e eventos na UFRRJ e mesmo na militância nos ambientes institucionais ou na rua, pela reforma agrária. Naquela época, quando ainda estudantes, tínhamos mais dúvidas do que certezas sobre os estragos do modelo desenvolvimentista com base na industrialização, exportação e capital estrangeiro, que conformava para a dominação das estruturas do meio rural. Hoje, temos clareza sobre o quanto foi social, cultural, política e economicamente desastrosa a modernização do campo e a tecnicização da agricultura baseada na Revolução Verde. A modernização utilizou exaustivamente os agrotóxicos, incentivou desmedidamente a biotecnologia para sementes geneticamente modificadas, abusou do poder político para manter o protecionismo do Estado em relação à burguesia e à posse da terra, perpetuando uma estrutura latifundiária, que na atualidade se configura na empresa agrícola ou no agronegócio. Quanto ao modelo agroecológico, é uma prática comum dos agricultores a troca de excedente de produção – além de trocar trabalhos e conhecimentos. O agricultor familiar pratica o melhoramento vegetal quando decide fazer o seu próprio banco de sementes, resgatando algumas espécies de plantas que outrora pertenceu à sua comunidade, intercambiando ano após ano com os outros agricultores que decidiram também produzir as suas sementes, quando resgatam variedades de plantas via processos de socialização. Dessa forma, as plantas vão se reproduzindo e se adaptando naturalmente ao ambiente. Neste contexto, na agricultura familiar são trocados excedentes de produção numa economia informal, que é inerente à vida social entre os povos do campo. Destaca-se que o paradigma da agroecologia é cultural e científico, pois vem sendo consolidado como conhecimento e prática de base ecológica, cuja cientificidade é explicada pelo enfoque sistêmico de compreender a natureza e a sociedade pelo pensamento complexo e interdependente. O solo para a agroecologia é como um sistema vivo, que sempre está interagindo com os demais elementos da natureza, inclusive com o homem, o que remete ao entendimento segundo o qual tudo está Cadernos de discussão: juventude, educação do campo e agroecologia 31 interligado, implicando a busca de um manejo equilibrado (sustentável ambientalmente), que propicia aos ecossistemas agrícolas a capacidade de autorregulação. A mentalidade agroecológica prima à sustentabilidade ambiental, mas também a economia familiar, estabelecida no princípio da solidariedade humana e planetária, resgata o valor moral e ético estruturante e determinante para uma economia e um mercado justo, que vai implicar, além das trocas, formas de sociabilidade e de produção baseadas na cooperação, associação e união de todos para ações coletivas. Dessa forma, a agroecologia, como sendo a agropecuária ecologicamente correta, toma a configuração científica, econômica, cultural e tecnicamente comprometida com as causas campesinas pela reforma agrária. Objetivamente, as experiências de grupos articulados politicamente visam ainda não permitir que atravessadores ou pessoas de fora do ambiente comunitário e familiar descaracterizem o processo de beneficiamento e comercialização de seus produtos, tanto que algumas dessas entidades vinculadas à Aarj promovem feiras, mutirões, organizam cooperativas, etc. Para estes, o mais importante não é o rendimento e a produtividade de uma cultura ou do solo, mas sim a dignidade e a qualidade de vida de seus agricultores e famílias. Souza (2004) esclarece que as monoculturas comerciais destroem tradições locais de subsistência, geralmente diversificadas. Isto implica que na educação do campo as políticas têm se voltado para a valorização das culturas dos povos das florestas e das matas em prol de uma produção agrícola ecologicamente contextualizada às comunidades tradicionais e às respectivas territorialidades também. São esses povos que sempre produziram seus alimentos mantendo a biodiversidade, porque se alimentam e produzem a partir de plantas e animais que culturalmente têm significado para eles. A UFRRJ sempre esteve diante do desafio de formação profissional agronômica e agrária para atender às demandas populares e aos grupos que se formam em prol da defesa do meio ambiente e dos valores de ser 32 Estratégias de formação do campo com jovens dos movimentos sociais humano e da cidadania planetária. Desta feita, encontramos em Oliveira (2010) alguns depoimentos de agricultores, pesquisadores e coordenadores de redes sociais que têm ou já tiveram vínculos com os projetos em que a UFRRJ esteve como parceira. Vale destacar o do professor Antônio Carlos de S. Abboud, ex-aluno de Agronomia, que desde a década de 1970 vem participando ativamente dos movimentos em prol da agroecologia na UFRRJ. Oliveira, citando o depoimento do professor Abboud, destaca a maturidade da luta pela agroecologia há três décadas: “... uma insatisfação com o uso excessivo de máquinas e agroquímicos, com a destruição sistemática do meio ambiente (...) naquele momento a ecologia não era um tema da moda, como é hoje. Mas já estava começando a haver denúncias sobre o desmatamento da Amazônia, por exemplo (...) pouquíssimos professores se juntaram a nós (...) por outro lado havia um rico intercâmbio desse grupo de universitários com alguns produtores de orgânicos, especialmente os “novos rurais” da região serrana.” Pela experiência que a UFRRJ teve com a Aarj na formação em agroecologia de jovens e da relação com alguns dos pais, a maior parte agricultores familiares, arriscamos em sustentar a tese de que a agroecologia é um conhecimento e uma prática social que se constrói na relação dos sujeitos agindo criticamente nas suas realidades, não sendo significada como conhecimento científico pelos agricultores, visto que vem da integração da família ao ambiente; há de se considerar que a agroecologia é resultado das identidades e da territorialidade dos sujeitos em seus processos de ocupação da terra e a cultura (cosmovisão). Portanto, tem a ver com a proposta de reforma agrária dos agricultores que desejam, anteriormente a qualquer decreto-lei, participar da reforma intelectual e moral para transformação de mentalidades, para então fazerem a reforma nas relações de produção (infraestrutura). Cadernos de discussão: juventude, educação do campo e agroecologia 33 Pedagogia da alternância: entre práticas e conceitos formulados na práxis A agroecologia, vista a partir de uma forma de organização da vida social e produtiva de sujeitos, torna-se capaz de promover a construção de conhecimentos estruturantes voltados a criar condições intelectuais e objetivas de sujeitos orgânicos dos movimentos sociais que participam de lutas por reforma agrária. No entanto, para que saberes consolidados nas experiências cotidianas dos sujeitos e atores políticos do campo sejam incorporados na formação, fez-se condição a construção de uma filosofia e metodologia de formação, que por muitos vem sendo denominada de “alternância”. Concernente a tal compreensão, a aproximação entre agroecologia e soberania alimentar se dá na medida em que se pretende superar o modelo de organização social e de produção excludente que ainda permanece no campo. Assiste-se aos processos de insegurança alimentar devido à alta concentração de terras para o agronegócio, o uso de agrotóxico, as monoculturas, a degradação do ambiente humano e natural, que articuladas culminam na destituição da soberania alimentar de povos tradicionais do campo. As novas formas de produção de conhecimento em meio acadêmico, em tempos de revisão e transição paradigmática, remetem à agroecologia como sendo a ciência contra-hegemônica, resultado da articulação de saberes populares, da experiência de vida e de pesquisas acadêmicas que são geradas de redes sociais de cientistas com agricultores; é a ação crítica sobre os ecossistemas agrícolas, de modo a não corroborar com as formas de produção de mundo rural espoliadoras da natureza e do ser humano. Sabemos que a agricultura familiar em grande medida não tem sido aquela prática social acusada de ser responsável pela atual crise ecológica e social. Pelo contrário, o agronegócio, que tem a monocultura e a agricultura moderna como sustentáculo para intervenção 34 Estratégias de formação do campo com jovens dos movimentos sociais contumaz do homem no meio ambiente, é que tem sido responsabilizado por um projeto de sociedade agrária que separa campo-cidade e natureza-sociedade. A formação em bases da agroecologia, normalmente, adota conteúdos e práticas sociais de naturezas diversificadas, na medida em que os fundamentos e a metodologia de cada experiência ganham realidade pelas contextualizações próprias dos locais/regiões, dos sujeitos em que estes se situam na luta pela terra, na territorialidade e na cultura. Observa-se que, nos trabalhos universitários, os enfoques de conteúdos e práticas têm se limitado, na maioria das vezes, à reprodução e/ou apropriação de saberes exclusivamente científicos descontextualizados da realidade via pedagogia tradicional. Ou seja, na escola ou na universidade os conteúdos e valores são tratados de modo a preparar os indivíduos a desempenhar papéis sociais e a lidar com as normas vigentes que mantêm a divisão social e a técnica do trabalho. Para a academia, a ciência e a técnica são respostas definitivas, solucionam todos os problemas. Pensando assim foi que a tendência pedagógica tecnicista se acomodou, mantendo-se em meio às metodologias e processos educativos dotando as ações de caráter racional e produtivista a fim de dirimir as interferências subjetivas ou ideológicas contra-hegemônicas no âmbito da escola, da universidade, na extensão rural e no ensino profissionalizante agrícola/agrário. Nessa perspectiva, o tecnicismo moldou as instituições educacionais e de pesquisa subordinando a educação de jovens e adultos às leis da sociedade industrial e do mercado, visando à formação de recursos humanos e mão de obra para usarem as tecnologias. A educação do campo, pela tendência crítico-dialética, adota novos espaços de construção de conhecimento socioambiental e cultural referenciados a partir das experiências específicas dos atores e sujeitos. Isto é mediado pela análise crítica sobre o sistema capitalista, que tem finalidades sociopolíticas de subordinação do agricultor familiar ao capital e ao determinismo econômico das cadeias produtivas do agronegócio. Cadernos de discussão: juventude, educação do campo e agroecologia 35 A pedagogia da alternância (ZAMBERLAN, 1995) entre práticas e conceitos delineou e articulou todo o processo de formação dos jovens em agroecologia. A metodologia de trabalho pela alternância nos permitiu aproximar e interagir com os tempos e espaços da juventude rural/ urbana e quilombola, compreendendo as agendas de lutas, o trabalho de produção agrícola, os elementos da cultura e a sociedade. Visto sob a perspectiva sociopolítica e cultural, o processo educativo no programa de intervivência universitária pela alternância esteve significado em espaços-tempos de estudos e ações sobre a realidade e sob a autogestão pedagógica dos jovens. Toda a programação foi definida buscando estreitar teoria-prática, o saber-fazer em dois tempos e espaços que denominamos de Tempo Escola (na UFRRJ) e Tempo Comunidade (na sua terra), com o eixo estruturante: trabalho, educação, reforma agrária, desenvolvimento local, cultura (interculturalidade) e agricultura, sendo tratados como prática social. Vimos em Gimonet (1998) outra característica importante da alternância para sistematização e práticas de formação, que também visualizamos nos jovens. Eles atendiam as nossas orientações de organicidade às ações; os jovens, tal como preconiza Gimonet, respondiam positivamente às atividades e instrumentos pedagógicos específicos para articular os tempos e espaços, associando em sinergia as dimensões práticas e conceituais, facilitando a problematização de suas realidades. Segundo Gimonet, é indicado “articular os tempos e espaços de formação, que consiste em criar liga e ligação, isto é, interação entre os dois espaços-tempos, continuidade na sucessão das microrrupturas engendradas pela passagem de um para o outro (nos planos relacionais, afetivos, epistemológicos), coerência, unidade, integração” (p. 6). A pedagogia da alternância como processo formativo que atende às expectativas de associar TE e TC, ou mesmo sendo práxis pedagógica, vem sendo apropriada segundo a realidade cultural e política brasileira. Ficou evidenciada nos períodos do TE que a maior parte dos jovens 36 Estratégias de formação do campo com jovens dos movimentos sociais tinha acumulado a experiência de seus pais no espírito de luta pela democracia, nas decisões a serem tomadas por eles/elas. Participaram das decisões e deram organicidade, em parceria com a equipe da UFRRJ, e organizaram coordenações e núcleos para a reafirmação de seus direitos e obrigações de estudos, diversões e momentos culturais. O atual debate sobre a diversidade do campo não pode ser compreendido apenas pela configuração da produção agrícola, de grupos hegemônicos, na medida em que no espaço-tempo rural/agrário se entrelaçam outras dimensões e processos de socialização, como os de formação. A pedagogia da alternância tem sido empregada usualmente porque assume a aproximação entre os espaços e tempos de estudos e as agendas de luta e trabalho que os movimentos sociais trazem como perspectivas pela reterritorialização de subjetividades num mundo rural que os excluiu. Na nossa compreensão, sob a perspectiva também apontada por Gimonet (1998), há uma dificuldade dos sistemas educacionais em incluir a diversidade e as diferenças nos processos educativos, daí a opção dos movimentos sociais em assumir as pedagogias libertadoras ou libertárias. Por isso, ele entende que a alternância não pode ser reduzida a simples metodologia que aproxima teoria-prática ou trabalho intelectual-manual. Na verdade, ele considera a alternância uma formação sistêmica, complexa, e que trata o aluno/jovem/adulto como ator de sua formação, promovendo a dialogação. Segundo ele, “O alternante é ator de sua formação. Em se tratando de um adolescente, de um adulto, pouco importa a idade, a alternância é uma pedagogia de adulto porque um alternante não é um aluno na escola, mas um ator social que entra em formação permanente”. No sentido de sintetizarmos as nossas questões, postas neste texto, cabe considerar que a alternância vem atender às expectativas dos movimentos sociais pela formação dos jovens e adultos determinados para serem intelectuais orgânicos ou mesmo multiplicadores de mentalidades proativas. Decerto, Gohn (2003) define a nova realidade Cadernos de discussão: juventude, educação do campo e agroecologia 37 de organização dos movimentos de modo apropriado às nossas observações. Para o autor, “as ações sociais coletivas de caráter sociopolítico e cultural viabilizam distintas formas da população se organizar e expressar suas demandas. Na ação concreta, essas formas adotam diferentes estratégias que variam da simples denúncia, passando pela pressão direta (mobilizações, marchas, concentrações, passeatas, distúrbios à ordem constituída, atos de desobediência civil, negociações, etc.), até as pressões indiretas. (...) Os movimentos sociais atuam por meio de redes sociais, locais, regionais, nacionais e internacionais, e utilizam-se muito dos novos meios de comunicação e informação, como a internet. Por isso, exercitam o que Habermas (1987) denominou como “agir comunicativo”. A criação e o desenvolvimento de novos saberes são produtos dessa comunicabilidade.” Instituições e movimentos: podemos estreitar diálogos e práticas? O campo acadêmico, de socialização científica, passa por crises de identidade ou crises nos modelos, o que configura processos de desterritorialização pertinentes à ambiência e às práticas educativas de extensão rural – desconstrução-construção identitárias –, provocando rupturas e novas visões de formação para lidar com as demandas populares. As macro e micropolíticas dirigidas à educação do campo, embora um pouco mais democratizada, não se voltam à ideia de educação, que deve refletir e analisar criticamente o rural como territórios contestados, marcados pelas permanências e ambiguidades de um país que não fez reforma agrária, não distribuiu equitativamente a terra e nem a renda; 38 Estratégias de formação do campo com jovens dos movimentos sociais em que a questão fundiária e a tecnicização da agricultura foram e são tratadas pela tecnocracia como questões de natureza somente técnica. Estas são ainda as pendências ocultadas na forma de “revolução passiva” ou “pelo alto”, conforme nos fundamenta Antonio Gramsci (citado por MOCHCOVICH, 1995). Por força das redes sociais contra-hegemônicas, constituídas de atores coletivos de novas relações de produção e pela reforma agrária, intensificam-se processos socioculturais e políticos visando à desconstrução de subjetividades formadas em laços do passado, que oprimiam os indivíduos a uma visão homogênea e hegemônica de campo e campesinato. Precisamos avançar com a dialogação ancorada em princípios que solapam a disciplinaridade moderna, de modo a seguirmos orientados a uma prática pedagógica auto-organizativa e transdisciplinar. No programa de intervivência universitária, nós, educadores, nos transformamos em educandos de um processo dialógico, a partir de uma perspectiva política e científico-cultural enredada na diversidade e multiplicidade de conhecimentos e saberes, que se projetavam conforme aconteciam a reconstrução e a ressignificação da práxis da agricultura familiar. No movimento de educação do campo, os atores compreendem que estão exercendo a cidadania ao pensar a educação da juventude sob o princípio da solidariedade, da participação e da educação que liberta para a tomada de consciência crítica de sua condição de classe. Por isso, as pedagogias que elegem a autoformação e a dialogação, de modo que os educando se reconheçam na práxis, têm sido referência para os movimentos sociais. Vários autores, brasileiros e estrangeiros, em diferentes eventos e publicações, vêm defendendo essa nova postura diante da complexidade que é a realidade atual. Um deles é Edgar Morin. Outros, como Carlos Rodrigues Brandão e Leonardo Boff, defendem processos formativos vislumbrando uma solidariedade efetiva, pautados num outro “saber cuidar” humano e da natureza. Assim, os componentes ético e humano, Cadernos de discussão: juventude, educação do campo e agroecologia 39 com os quais a educação superior e as instituições educacionais têm que estar afinadas, não se esgotam em uma ou em outra pedagogia, mas nas experiências e expressões de alteridade de grupos sociais que, unidos em projetos políticos e públicos, a todo momento criam e recriam a sua práxis. Em rede social e política, os atores coletivos reivindicam os direitos de viver e produzir com qualidade social e ambiental, em bases agroecológicas. Portanto, o Programa de Intervivência Universitária, como modalidade de educação do campo, esteve centrado no eixo primordial da organização dos atores do campo, que é: o respeito às novas ruralidades, as diferenças, a política de igualdade, o respeito à especificidade de projetos identitários e à diversidade de sujeitos (Conferência Nacional Educação do Campo, Luziânia, GO, 2004). Referências bibliográficas BELTRAME, S. A. B. MST, professores e professoras: sujeitos em movimento. São Paulo: Faculdade de Educação/USP, 2000. BOURDIEU, P. O poder Simbólico. 2ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 1998. _____. Razões práticas sobre a teoria da ação. São Paulo: Papirus, 1997. Cadernos Cedes/Centro de Estudos Educação e Sociedade – v. 22, n. 57. Campinas, SP: Cedes, 2002. FREIRE, P. Extensão ou comunicação? 6ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. FISCHER, P. Ensinar ou produzir: o dilema das escolas agrotécnicas. Goiânia, GO: UFG, 1987. GANDIN, D. 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