UNESCO Brasilia Office Representação da UNESCO no Brasil Entrevista com o Secretário-Adjunto de Política de Informática e Tecnologia do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), Arthur Pereira Nunes, sobre a Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação Brasília 2004 Artigo publicado, em 08 de janeiro de 2004, no Observatório da Sociedade da Informação, de responsabilidade do Setor de Comunicação e Informação da UNESCO no Brasil. © UNESCO, 2004 BR/2004/PI/H/18 O autor é responsável pela escolha e pela apresentação dos fatos contidos nesta publicação e pelas opiniões aqui expressas, que não são necessariamente as da UNESCO e não comprometem a Organização. As designações empregadas e a apresentação do material não implicam a expressão de qualquer opinião que seja, por parte da UNESCO, no que diz respeito ao status legal de qualquer país, território, cidade ou área, ou de suas autoridades, ou no que diz respeito à delimitação de suas fronteiras ou de seus limites. Entrevista com o Secretário-Adjunto de Política de Informática e Tecnologia do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), Arthur Pereira Nunes, sobre a Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação O Brasil fez mais do que marcar presença na Cúpula Mundial da Sociedade da Informação. Durante os três dias de debate, a delegação do país defendeu idéias, batalhou por projetos e negociou a criação de um grupo de discussão sobre governança da Internet – coordenado pelo Secretário-Geral da ONU, Kofi Anan. “O que o Brasil defendia, e acabou sendo um consenso, é que a governança na internet deve ser multilateral, democrática e inclusiva”, explicou o representante do Ministério da Ciência e Tecnologia no evento, Arthur Pereira Nunes. Fotógrafo: Eugênio Novaes Graduado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas e pós-graduado no Institut International d´Administration Publique (França), Pereira Nunes participou da formulação da política nacional de informática, na década de 80. Atualmente, é SecretárioAdjunto de Política de Informática e Tecnologia, do Ministério da Ciência e Tecnologia. Em entrevista exclusiva ao Observatório da Sociedade da Informação, ele avalia os resultados da Cúpula e mostra porque o Brasil se destacou nessa conferência – que reuniu participantes de 176 países, em Genebra. Observatório da Sociedade da Informação (OSI) – Qual foi o principal resultado da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação? Arthur Pereira Nunes – Acho que o principal avanço da Cúpula foi colocar na pauta de debates dos países que participaram desse encontro a necessidade de criar uma Sociedade da Informação Democrática. Isso foi um enorme avanço porque esse assunto nem ao menos era discutido em muitos países. Agora, que o assunto ganhou visibilidade, é preciso implementar um plano de ação para os próximos anos e conferir os resultados que ele atingir. OSI – Dentre os assuntos debatidos em Genebra, quais foram os mais importantes para o Brasil? Pereira Nunes – Como representante do MCT, defendi alguns pontos específicos que interessam ao país. Os três assuntos mais relevantes para nós dizem respeito a governança da internet, a definição da propriedade intelectual e o software livre. OSI – O que o Brasil defende em relação à governança da internet? Pereira Nunes – O que o Brasil defendia, e que acabou sendo um consenso, é que a governança na internet deve ser multilateral, democrática e inclusiva. É preciso dar espaço para que a sociedade civil, o governo e o setor empresarial trabalhem juntos pela internet. Havia quem defendesse uma posição estritamente estatal sobre esse assunto, como a União Internacional de Telecomunicação. OSI – E por que essa parceria entre governo, sociedade civil e empresas é importante para o bom funcionamento da internet? Pereira Nunes – Porque a interação faz parte da própria natureza da internet. O Estado sem dúvida tem um papel importante na hora de estabelecer políticas públicas para o uso da internet. Mas existem outros aspectos de natureza técnica ou física que exigem a colaboração de outros setores da sociedade. As ONGs, por exemplo, são um ótimo canal para ajudar a definir quais regiões devem ter acesso prioritário à rede. Dentro do aparelho do Estado não dá para definir quais locais ou pessoas precisam mais dessas novas tecnologias. É por isso que pedimos ao Secretário-Geral da ONU, Kofi Anan, que criasse um grupo de trabalho sobre a governança da Internet. O mesmo deve apresentar propostas de ações concretas sobre o assunto antes de 2005. OSI – O Brasil é declaradamente favorável ao uso do software livre. Como foram as discussões sobre o assunto durante a Cúpula? Pereira Nunes – Havia um grupo de países defendendo o direito à propriedade intelectual em contraposição ao uso do software livre. Mas também existia um outro grupo de países (do qual o Brasil faz parte) favorável ao compartilhamento do conhecimento. E foi essa a posição vencedora, pois no item 42 da declaração de princípios da Cúpula fala-se que a proteção à propriedade intelectual é importante que o compartilhamento de informações também é igualmente importante. Isso abre espaço para o uso do software livre. OSI – Por que o MCT considera o software livre tão importante para o Brasil? Pereira Nunes – Porque construir um projeto de Sociedade da Informação baseado exclusivamente no software proprietário seria economicamente inviável para o Brasil. Temos de investir na inclusão digital de uma massa imensa de pessoas. Por isso, é preciso buscar soluções mais baratas e que tragam a possibilidade de desenvolvimento tecnológico. Os softwares livres são vantajosos neste aspecto porque deixam você sair da situação de operador de “caixa preta”. Como ele não tem o código fechado, você pode interferir no processo colaborar com o desenvolvimento do sistema e compartilhar conhecimento. 2 OSI – E qual foi a repercussão desse modelo brasileiro de defesa do software livre? Pereira Nunes – O Brasil se destacou na conferência por conta da sua experiência nesse sentido. Houve sessões paralelas sobre o assunto durante a Cúpula e em muitas dessas reuniões debatia-se o modelo brasileiro de uso de software livre. O caso do MCT, por exemplo, é sui generis. De um lado somos indutores de políticas de incentivo ao uso destas tecnologias. Ao mesmo tempo somos desenvolvedores e também usuários de softwares livres através dos institutos e agências do MCT. Por isso conhecemos bem suas vantagens e seus problemas. OSI – Na sua opinião, o que faltou ser definido durante a Cúpula? Pereira Nunes - Houve um ponto polêmico que foi a criação de um Fundo de Solidariedade Digital, para ajudar os países mais pobres a dar os primeiros passos rumo à inclusão digital e a criação de uma Sociedade da informação. Só que ainda não há um consenso sobre o assunto. Por enquanto, existem duas tendências. A primeira é criar um fundo voluntário para incentivar a inclusão digital das populações dos países mais pobres. A segunda é estudar a eficácia e a viabilidade desse fundo, antes de torná-lo realidade. Nós éramos simpáticos à primeira proposta. O Brasil seria contribuidor e não beneficiário do fundo. Os principais defensores do projeto eram os países da África, que seriam diretamente beneficiados pelo Fundo. Fonte: Observatório da Sociedade da Informação. Janeiro de 2004 3