T 25 Jul\Ago. Doenças Crônicas - BRASIL Profª Drª Míria Conceição Lavinas Santos-Enfermagem na Promoção da Saúde,Oncologia-UFC/CE-BRASIL Profª Drª Sonia Regina Leite de Almeida Prado-Especialista em Saúde Pública,Saúde da Criança e Ensino-UNISA/SP-BRASIL Prof. Dr. Francisco Stélio de Souza-Enfermagem na Promoção à Saúde ,Saúde da Mulher-UEPB/PB-BRASIL Recenf 111-117 Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos, Rogéria Maria do Nascimento. 118-124 Teresa Cristina Prochet, Maria Julia Paes da Silva. Saúde Coletiva 125-134 Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernan- des Carvalho. 135-143 A família como suporte para o enfrentamento do câncer de mama The family as a support for the confrontation of breast cancer Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares. 144-150 Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. Abenfo 151-159 Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda. 160-168 169-176 111 244 Urgência, Emergência e Terapia intensiva 177-186 187-195 Anent 196-202 Maíris Duarte Alarcão, Mariele Cambiriba, Maria Antonia Ramos Costa. 203-206 Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza. 207-217 Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi, Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros Saúde do idoso 218-226 Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino. 227-242 José Vitor da Silva. Os benefícios da visita pré-operatória de enfermagem para o cliente cirúrgico: revisão sistemática de literatura The benefits of preoperative visit nursing to surgical patients: a systematic review of literature Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos, Rogéria Maria do Nascimento. RECENF-Revista Técnico- Científica de Enfermagem-2010-v8-n25;(105-111). Resumo Este estudo tem como objetivo identificar os benefícios da visita pré-operatória de enfermagem para o cliente que se submeterá à cirurgia. Trata-se de uma pesquisa exploratória, com abordagem qualitativa, bibliográfica, realizada através de uma revisão sistemática na Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), nas bases de dados do LILACS e BDENF, onde foram selecionadas 11 bibliografias potenciais, após a pré-leitura e leitura seletiva, realizou-se ainda a leitura interpretativa e a análise temática. Resultados: emergiram duas categorias, benefícios da visita pré-operatório de enfermagem, e cuidados pré-operatórios de enfermagem ao paciente cirúrgico. Conclui-se que a visita pré-operatória é relevante e envolve a influência mútua e o processo de comunicação e confiança entre o enfermeiro e o paciente, além de ajudar na adaptação do cliente cirúrgico ao ambiente hospitalar, amenizando seus medos e ansiedades fazendo com que o mesmo aceite melhor e enfrente o problema, proporcionando uma cirurgia tranquila e uma boa recuperação. Descritores: Enfermagem pré-operatória, cuidados de enfermagem. Abstract This study aims to identify the benefits of preoperative evaluation of nursing for the customer who will undergo surgery. This is an exploratory research with a qualitative approach, literature, accomplished through a systematic review of the Virtual Health Library (VHL) in the databases LILACS and BDENF, where 11 were selected bibliographies potential after pre-reading and selective reading, there was still reading and interpretative thematic analysis. Results: Two categories emerged, the benefits seen preoperative nursing care and preoperative nursing the surgical patient. We conclude that the preoperative visit is important and involves the mutual influences and the process of communication and trust between nurse and patient, and help in adapting the surgery patients to the hospital environment, easing their fears and anxieties by making the same accepted best and face the problem, providing a smooth surgery and a good recovery. Descriptors: Preoperative care, nursing . Luciana Roberto de Souza. Acadêmica do 8º período do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Iguaçu (UNIG), Nova Iguaçu/RJ. E-mail: [email protected] Maria Aparecida Guerreiro de Souza. Acadêmica do 8º período do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Iguaçu (UNIG), Nova Iguaçu/RJ. Adriana da Silva Pinto. Acadêmica do 8º período do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Iguaçu (UNIG), Nova Iguaçu/RJ. E-mail: [email protected] Elaine Antunes Cortez. Enfermeira, Doutora em enfermagem (EEAN/ UFRJ), Professora orientadora da disciplina TCC (UNIG). E-mail: [email protected] Thalita Gomes do Carmos. Enfermeira Mestranda em enfermagem (EEAAC/ UFF), especialista em cardiologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro no Instituto Nacional de Cardiologia (INC). E-mail: [email protected] Rogéria Maria do Nascimento. Enfermeira, Coordenadora do curso de graduação em enfermagem da Universidade Iguaçu. E-mail: [email protected] 111 Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos, Rogéria Maria do Nascimento. Introdução A presente pesquisa tem como objeto os benefícios obtidos com a visita pré-operatória de enfermagem para o cliente submetido à cirurgia. O interesse pelo estudo ocorreu durante o estagio do 7º período no Hospital Geral de Nova Iguaçu, onde vários pacientes aguardavam cirurgia sem data prevista, e apresentavam seus fatores fisiológicos e psicológicos alterados. Com isso, notamos a possibilidade do profissional enfermeiro realizar a visita pré-operatória como instrumento amenizador do medo e da ansiedade que estes pacientes apresentam frente à cirurgia, ajudando-o a perceber melhor sua doença, bem como os aspectos emocionais que acontecem junto com a doença, tais como, ansiedade, medo, fantasias, mitos, enfim, fazer com que o paciente aceite melhor seu estado de doença e encare o problema. A pessoa que será submetida a uma cirurgia, apresenta diversos temores que podem alterar o seu equilíbrio. Um contato com profissionais de saúde, dentre eles, com enfermeiro, possivelmente poderá ajudar essa pessoa no sentido de fornecer-lhe informações e diminuir sua insegurança, conforme foi constatado por vários autores (1). Dessa forma, faz se necessário manter um contato prévio com o paciente que irá se submeter a uma cirurgia, por representar um momento de grande importância, onde lhe será conferido explicações sobre os procedimentos que acontecerão e suas duvidas retiradas, a fim de minimizar seus temores, sua insegurança, e a apreensão por ele sentida. A visita pré-operatória de enfermagem ajuda no ajustamento do paciente ao ambiente hospitalar e fornece informações e orientações no intuito de amenizar a ten- 112 são frente à notícia de cirurgia e vem sendo realizada no Brasil desde 1975, data em que surge a primeira divulgação formal a respeito (2). Para o cliente, o período denominado pré-operatório é de vital importância em nível biopsicossócioespiritual, desencadeando a ansiedade, os temores (da cirurgia, da dor, de não voltar da anestesia, da morte) e o medo do desconhecido em geral (1). Nesse período a assistência de enfermagem se faz extremamente importante, com o objetivo de preparar o físico e principalmente o emocional do paciente, preocupando-se com seu eu e com o que ocorrerá com seu corpo (1). O fator psicológico pode ajudar o paciente a perceber melhor sua doença, lidar com os aspectos emocionais que acontecem junto com a doença, como ansiedade, medo, fantasias, mitos, enfim, fazer com que o paciente aceite melhor o que acontece com ele e encare o problema. Destaca-se ainda que, todo ser humano tem medo do desconhecido, pois o que é desconhecido gera medo e insegurança, podendo ser indefinível, imprevisível e incontrolável. Os clientes são estimulados a expressar seus sentimentos e temores e, através do diálogo, que são fornecidos esclarecimentos de dúvidas sobre o processo cirúrgico. Assim o enfermeiro deve encorajar a verbalização, deve ouvir ser compreensivo e prestar informações que ajudem a dissolver as preocupações. Ressalta-se ainda que quando o enfermeiro chega a compreender o que está acontecendo entre ele e o paciente, pode-se dizer que atingiu a essência da prática de enfermagem (3). O problema de pesquisa Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 consiste em responder a questão: quais são os aspectos da visita préoperatória de enfermagem que podem beneficiar os clientes que se submeterão à cirurgia? O objetivo proposto é identificar os benefícios da visita préoperatória de enfermagem para o cliente que se submeterá à cirurgia. Como contribuição, o assunto proporciona um melhor entendimento do real motivo de se realizar a visita pré-operatória fazendo com que os enfermeiros reflitam sobre a sua prática profissional, podendo, dessa forma, buscar instrumentos que contribua para uma assistência humanizada e integral. Oferecer aos clientes um adequado preparo emocional, que vá além da fase préoperatória, propiciando sua participação no autocuidado póscirúrgica, além de demonstrar aos acadêmicos o conhecimento dessa temática. Metodologia Trata-se de um estudo exploratório. Quanto à definição de pesquisa exploratória, ela é aquela que tem como objetivo fornecer maior interação com o problema, com o intuito de torná-lo mais explícito e levantar hipóteses (4). Estabelecemos a abordagem qualitativa, pois esta trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes, enfatizando a importância das relações que se determinará durante a realização do estudo (5). Os dados qualitativos consistem em descrições detalhadas de situações com que o objetivo de compreender os indivíduos em seus próprios termos. Isto é, podemos dizer que as pesquisas qualitativas visam entender o ser humano na sua essência e acima disso trazer a pesquisa riqueza de detalhes sobre este que Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos, Rogéria Maria do Nascimento. possam muitas vezes responder aos problemas levantados (6). Foi realizada uma revisão de literatura, nos bancos de dados e do LILACS e BDenf, onde foram selecionadas pesquisas que se encaixavam nos critérios de inclusão, que foram: publicações em português e dos últimos 10 anos. Os descritores utilizados para a coleta dos dados foram: Enfermagem pré-operatória e cuidados pré-operatórios. Na intenção de organizar os materiais coletados, iniciou-se a coleta dos dados com os descritores individualmente, vide quadro 1. Resultados e análise Benefícios da visita pré-operatória de enfermagem Nessa categoria, estão inseridos 4 (quatro) produções científicas, 3 (três) artigos e 1 (uma) dissertação de mestrado, que abordam os benefícios da visita pré- operatória de enfermagem, que podem ser visualizados no quadro 3 (três). BASE DE DADOS/ AUTORES Baggio; Teixeira & Portella ANO 2001 Bachion; Magalhães; Munari, Almeida & 2004 Lima8 Schmitt. 9 2004 Quadro 1 - Distribuição quantitativa das bibliografias encontradas Após a coleta dos dados inicial realizou-se uma nova busca associando os descritores em dupla e desse resultado, foi feita a préleitura com intuito de obter uma visão sobre os assuntos encontrados, e a leitura seletiva, cujo objetivo foi selecionar pesquisas de acordo com o nosso estudo. Dessa forma, excluiu-se as pesquisas que não se enquadravam nos critérios de inclusão e os repetidos, e a bibliografia potencial escolhida foi de 11 produções científicas, que pode ser visualizada no quadro 2 (dois). 13 16 29 Bibliografia selecionada Quadro 2 - Distribuição quantitativa das bibliografias encontradas na BVS através dos descritores associados e selecionados Distribuição quantitativa das bibliografias encontradas na BVS através dos descritores associados e selecionados Pré-operatório do paciente cirúrgico BDENF cardíaco: a orientação de Rev. gaúch. enferm; enfermagem fazendo a diferença 22(1):122-139, BDENF Acta paul. enferm; 17(3): 298-304, BDENF Rev. SOBESC; na BVS através dos descritores isolados. TÍTULO REVISTA/VOLUME/Nº Identificação do medo no período pré-operatório de cirurgia cardíaca Cirurgia da obesidade mórbida: atuação da enfermeira em uma equipe multidisciplinar 9(4):15-18 Souza 10 BDENF 2004 Dissertação Curitiba Sentimentos e percepções do cliente no pré-operatório de cirurgia cardíaca Quadro 3 - Distribuição das bibliografias potenciais da categoria temática “Benefícios da visita pré-operatória de enfermagem.” O primeiro estudo (7) foi realizado em Unidade Cardiológica de um hospital universitário com o objetivo de identificar a percepção do paciente cirúrgico cardíaco acerca das orientações pré-operatórias fornecidas pela enfermagem. A orientação pré-operatória, em especial neste estudo, atendeu às necessidades do paciente no período pré-operatório, sejam elas psicológicas ou científicas, e contribuiu para uma melhor e mais rápida recuperação pósoperatória. A orientação permitiu o esclarecimento e a clarificação do evento aos indivíduos nele envolvidos diretamente. Durante a visita préoperatória, ficou estabelecida a humanização, caracterizada pela interação enfermeira/paciente, com o que ocorreu a aceitação fundamentada na atenção, confiança e apoio entre esses seres, observando o resultado positivo do processo estabelecido entre a enfermeira e o paciente. O segundo estudo (8) desta categoria teve como objetivo estudar o "medo" no período pré-operatório de cirurgia cardíaca foi realizado em hospital especializado em cirurgias cardíacas e mostrou que a incidência desse diagnóstico sinaliza a necessidade de elaboração de protocolo de intervenções específicas para esse grupo, ressaltando a importância do enfermeiro esta ambientado com as reações emocionais que afetam os clientes no período pré-operatório de um modo geral. O terceiro estudo (9) é um relato de experiência de uma enfermeira Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 113 Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos, Rogéria Maria do Nascimento. na cirurgia da obesidade mórbida no Centro da Obesidade Mórbida, considerando assistência da Enfermagem ao paciente obeso cirúrgico envolvendo técnicas e procedimentos não apenas durante a operação, mas também nos períodos pré e pós-operatório. Objetivando destacar a relevância do papel da Enfermagem, chamando a atenção dos profissionais da área para esse novo campo de atuação, propondo a necessidade de compreendê-lo como um paciente diferenciado, devido às peculiaridades que apresenta. O quarto estudo (10) objetivou identificar sentimentos e as percepções do corpo enfermo que se encontra em pré-operatório de cirurgia cardíaca. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, realizada no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, e que conta com a participação de 11 sujeitos em pré-operatório de cirurgia cardíaca e são colocados todos os seus medos e ansiedades. Afirmando a importância e a necessidade de interação entre a enfermeira e o corpo enfermo na situação pré-operatório, tendo em vista a promoção do seu bem-estar. Resumindo essa categoria, fica evidente que esta atividade é de relevante interesse para a Enfermagem, propondo em sua prática assistencial sistematizada, reflexões sobre uma contribuição efetiva, compreendendo-a como um ser existencial. Destaca-se que, na formação profissional do enfermeiro muitas vezes não é discutida a importância de se gerar a interação e o relacionamento com os pacientes no pré-operatório ou até mesmo muitos enfermeiros desconhecem as estratégias de comunicação terapêutica, mesmo que já tenham tido contato com elas na formação acadêmica. Visto que o enfermeiro exer- 114 ce um papel como veículo de orientação, espera-se que o mesmo atue, aconselhando rotineiramente sobre os devidos cuidados àquele paciente que se encontra nos períodos pré e pós-operatório sendo imprescindível se ter uma visão holística e humanizada, pois a doença e o processo cirúrgico trazem à tona seus medos e limitações, tornando-as extremamente vulneráveis ao se afastarem do ambiente familiar e de suas atividades cotidianas. Ressaltamos a importância da enfermagem pré-operatória para o paciente cirúrgico, a fim de identificar o grau de ansiedade do paciente, verificando a presença de alterações emocionais decorrentes do anúncio do diagnóstico cirúrgico e avaliação das condições físicas e fisiológicas do paciente. A desvalorização da visita pré-operatória como um método usado para levantar e avaliar as necessidades individuais do paciente cirúrgico impede um bom relacionamento terapêutico. Dificultando o planejamento de uma assistência integral, individualizada, documentada e contínua em todo o período pré-operatório, contribuindo para o aumento dos riscos cirúrgicos que o paciente está exposto. Para discutir essa categoria sobreleva salientar que é de suma importância que o enfermeiro aprimore seus conhecimentos e execute a visita pré-operatória, criando estímulos e estratégias que possibilitem uma maior compreensão das dificuldades enfrentadas pelo paciente submetido a um procedimento cirúrgico. Pois durante esse período a assistência de enfermagem é muito importante e concentra intervenções destinadas a prevenir ou tratar complicações futuras. Pois por menor que seja o procedimento cirúrgico, o risco de complicações sempre estará presente. A prevenção destas promove rápida convales- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 cença, evita infecções hospitalares, poupa tempo, reduz gastos, preocupações, ameniza a dor e aumenta a sobrevida do paciente (11). Outro destaque é a efetivação da consulta de enfermagem antes e após a cirurgia. A consulta de enfermagem é uma atividade exercida pelo enfermeiro, na qual está amparada na lei do exercício profissional n.º7.498/86, no seu art.11, inciso I, alínea i, como privativa e é efetivada na prática desses profissionais que nela acredita (12). A consulta de enfermagem tem sua origem na pós-consulta realizada pela enfermeira aos clientes atendidos em programas de saúde governamentais e sua implantação ocorreu ao longo do desenvolvimento histórico da enfermagem, e surgiu com a resolução n.º 159/92 do COFEn (Conselho Federal de Enfermagem) que dita as normas e requisitos para operacionalização da consulta de enfermagem (13). No que diz respeito à consulta de enfermagem préoperatória, chamada de visita préoperatória de enfermagem, podemos defini-la como etapa préoperatória realizada pela avaliação dos dados obtidos durante a entrevista com o paciente a ser operado e pela consulta da ficha préoperatória de enfermagem, prontuário do paciente, por meio do enfermeiro da unidade de internação e familiares do paciente (11). A visita pré-operatória de enfermagem é realizada no Brasil desde 1975, data em que surge a primeira divulgação formal a respeito. Destaca-se que, para o paciente, o período denominado préoperatório é de vital importância em nível/dimensões biopsicossócioespiritual, pois desencadeia a ansiedade, os temores (da cirurgia, da dor, de não voltar da anestesia, da morte) e o medo do desconhecido em geral. Assim, nesse período, a Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos, Rogéria Maria do Nascime.nto. assistência de enfermagem se faz extremamente importante, pois esta tem como objetivo, preparar o indivíduo nas dimensões supracitas, de forma a preocupar-se com seu “eu”, do paciente, e com o que ocorrerá com seu corpo (14). Cuidados pré-operatórios de enfermagem ao paciente cirúrgico Nessa categoria, estão inseridas 7 (sete) produções científicas, sendo todas artigos, que abordam os fatores relacionados com os cuidados préoperatórios, conforme o quadro 4 (quatro) delineado abaixo. ANO Base de Dados/ Revista/Volume/nº TÍTULOS Jansen; Silva; Novello;Guimarães & Silvia. 15 2000 LILACS Rev. SOCERJ; 13(1):22-29 Assistência de enfermagem à criança portadora de cardiopatia Santos; Cassapula & Hellberger 16 2000 LILACS Cogitare enferm; 5(n.esp):61-65 Programa de orientação préopetória em cirurgia pediátrica: relato de experiência Mendonça; Valadão; Castro & Camargo.17 2007 LILACS Rev. bras. cancerol; 53(4):431-435 A importância da consulta de enfermagem em pré-operatório de ostomias intestinais Poltronieri Neto; teixeira & Barbosa.18 2008 LILASCS Mundo saúde 32(1):107-110 Elaboração de um instrumento para o preparo pré-operatório em cirurgia cardíacas. Lopes; Pompeo; Canini & Rossi.19 LILASCS Diagnósticos de enfermagem de 2009 Rev. latinoan. enferm; pacientes em período pré17(1):66-73 operatório de cirurgia esofágica AUTORES Cristóforo & Carvalho29 Grasel; Bretano & Caregnato 21 2009 LILASCS Rev. Esc. Enferm. USP; 43(1),. Cuidados de enfermagem realizados ao paciente cirúrgico no período pré-operatório 2009 LILASCS Rev. SOBECC; 14(2):28-35 Ansiedade e medo: diagnóstico de enfermagem aplicado no préoperatório do paciente cardíaco. Quadro 4 - Distribuição das bibliografias potenciais da categoria temática “Cuidados pré-operatórios de enfermagem ao paciente cirúrgico”. O primeiro estudo (15) é uma revisão bibliográfica com enfoque para a sistematização da assistência de enfermagem no pré-operatório, buscando mostrar que o roteiro sistematizado da assistência de enfermagem orienta a equipe à prevenção e diagnóstico precoce das complicações favorecendo a recuperação precoce da criança e, consequentemente, diminuindo o tempo de permanência no ambiente hospitalar. O segundo estudo (16) é um relato de a experiência de enfermeiras no Programa de Orientação Pré-operatória em hospital universitário descrevendo a importância da orientação pré-operatória para os pais e para a criança, nesse momento crítico. O terceiro estudo (17) é uma pesquisa bibliográfica, que descreve os aspectos a ser abordado para se atingir um cuidado integral e humanizada, e a importância da consulta de enfermagem no préoperatório de ostomias, no sentido de possibilitar ao paciente melhor aceitação da cirurgia e estimular o autocuidado e prevenir complicações comuns no local de inserção da ostomia. O quarto estudo (18) é um estudo de revisão de literatura utilizando livros-texto e publicações indexadas nas bases de dados MEDLINE, LILACS e SCIELO, onde foi construído um instrumento para preparo do cliente em cirurgia de revascularização do miocárdio e confeccionado um manual para o preenchimento do instrumento citado. O quinto estudo (19) é um estudo realizado em 20 pacientes internados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - Brasil para serem submetidos à cirurgia esofágica. Onde foram identificados os diagnósticos com frequência superior a 50%,e analisados considerando-se os fatores relacionados, as características definidoras ou fatores de risco, de acordo com o tipo de diagnóstico, e as respostas à patologia esofágica. O sexto estudo (20) é um estudo descritivo transversal, com abordagem quantitativa, realizado em unidades cirúrgicas de dois hospitais do município de Ponta Grossa, que objetivou caracterizar os cuidados de enfermagem presta- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 115 Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos, Rogéria Maria do Nascimento. dos a pacientes em período préoperatório de cirurgias eletivas. Este estudo permitiu que se identificassem fragilidades no cuidado do paciente cirúrgico, no sentido de contribuir para a reflexão sobre a necessidade de mudança nas práticas da enfermagem no ambiente hospitalar. O sétimo estudo (21) é uma pesquisa exploratória descritiva com abordagem quantitativa, realizada com 20 pacientes no préoperatório de cirurgia cardíaca que responderam a um questionário com perguntas construídas através das características definidoras e fatores relacionados dos diagnósticos de Enfermagem Ansiedade e Medo e o objetivo deste estudo foi conhecer as evidências apresentadas pelos pacientes no préoperatório de cirurgia cardíaca relacionadas aos Diagnósticos de Enfermagem Ansiedade e Medo. Sintetizando essa categoria, fica evidente a importância dos cuidados pré-operatórios, pois permite o levantamento e avaliação das necessidades individuais do paciente cirúrgico. Viabilizando o planejamento de uma assistência integral, individualizada, documentada e contínua em todo o período préoperatório, diminuindo os riscos cirúrgicos aos quais o paciente está exposto e conseqüentemente melhorando a qualidade da assistência de enfermagem. Destaca-se ainda que os cuidados pré-operatórios além dos benefícios para o paciente oferecem ao enfermeiro a oportunidade de uma atuação mais direta com o paciente cirúrgico, proporcionando a realização do planejamento de uma assistência continua e orientada e proporcionando à enfermagem um melhor reconhecimento da profissão, motivando ainda mais o trabalho do enfermeiro do Centro Cirúrgico. 116 Para discutir essa categoria com base no respeito à pessoa humana, percebe-se a necessidade iminente de melhorar a abordagem à pessoa enferma, na tentativa de diminuir o conflito vivenciado pelos pacientes ao se submeterem a certos tipos de cirurgias, e o medo de morrer ou ficar com alguma deficiência física. É necessário, portanto, que os membros da equipe de saúde, particularmente o enfermeiro, desempenhem suas atividades junto ao paciente com mais humanidade, interessando-se por ele como pessoa, por seu estado, sua evolução, esforçando-se para ajudá-lo no tratamento e recuperação (22). Na prática, são realizados ações planejadas para preencher as necessidades identificadas, na expectativa de que o enfermeiro considere todos os efeitos possíveis da ação sobre o paciente, preocupando-se com a eficácia dessa para obter a solução da necessidade de ajuda (23). É um direito do paciente, estar informado sobre sua situação e sobre o procedimento a que será submetido. O paciente também deve estar ciente de que pode solicitar analgésico e não achar que sentir dor é normal, cabendo à equipe de enfermagem prestar assistência, responder aos chamados e manter o paciente consciente de tudo que será realizado, estimulando o exercício da cidadania (24). Os cuidados préoperatórios realizados estão voltados principalmente ao preparo físico do paciente, com pouca orientação quanto ao procedimento cirúrgico e aos cuidados efetuados. Fazse necessário instigar reflexões, sensibilizar ou influenciar ideias, hábitos maneira de agir e pensar dos profissionais de enfermagem para a necessidade de reconstruir novas prática no cuidado pré-operatório, Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 bem como sua instituição, para que melhorias ocorram em favor dos pacientes, reservando-lhes o direito de ser atendido de acordo com suas necessidades, recebendo uma assistência de enfermagem de qualidade. Em uma prática assistencial realizada, com paciente no período pré-operatório, verificou-se que os cuidados pré-operatórios tornaram o momento cirúrgico, mas tranquilo, o que repercutiu numa boa recuperação do paciente isso mostra o quanto o papel do enfermeiro e importante no sentido de prevenir e minimizar os estressores do processo cirúrgico (25). Conclusão O presente estudo buscou identificar e analisar através de revisão sistemática de literatura os benefícios da visita pré-operatória de enfermagem para os clientes que irão se submeter à cirurgia. Desse modo, compreendeu-se que a visita pré-operatória é relevante e envolve a influência mutua e o processo de comunicação e confiança entre o enfermeiro e o paciente e deve ser encorajada e ensinada durante o período acadêmico e não menos importante durante a vida profissional. Pois muitos profissionais da enfermagem não exercitam a visita pré-operatória de maneira adequada e específica, com cuidados realmente válidos para a cirurgia proposta, praticando apenas regras impostas pelas instituições ou prescritas em prontuários por médicos. Conclui-se que o período que antecede a internação apesar de ser curto, é ideal para orientação e esclarecimento quanto a dúvidas em relação à cirurgia, e o enfermeiro tem obrigação legal e moral para fazê-las de forma clara, diagnosticando alterações emocionais e fisiológicas, e tomando medidas inter- Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos, Rogéria Maria do Nascimento. ventivas adequadas, realizando cuidados e procedimentos, ajudando na adaptação do paciente ao ambiente hospitalar, amenizando seus medos e ansiedade fazendo com que o paciente aceite melhor o que acontece com ele e enfrente o problema, proporcionando uma cirurgia tranquila e uma boa recuperação. Diminuindo assim as chances de complicações em todas as fases de internação do paciente. Referências 1.Bianchi, ERF; Castellanos, BEP. Considerações sobre a visita préoperatóriado enfermeiro da unidade de centro cirúrgico: resenha da literatura estrangeira. Rev. paul. enferm. 1983; 5(3): 161-6. 2.Castelanos, BEP. Visita pré-operatória do enfermeiro da unidade de centro cirúrgico: marcos referencial para seu ensino no curso de graduação de enfermagem. Rev. paul. enferm. 1984; 4(1): 10-14. 3.Orlando, IG. O relacionamento dinâmico enfermeiro/Paciente. São Paulo: EPV; 1987. 4.Gil, AC. Como elaborar projetos de pesquisa. 4ª ed. São Paulo: Atlas; 2002. 5.Cervo, AL; Bervian, PA. Metodologia cientifica. 5ª ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall; 2002. 6.Goldenberg, M. A arte de pesquisar: como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais. 7ª ed. Rio de Janeiro: Record; 2003. 7.Baggio, MA; Teixeira, A; Portella, MR. Pré-operatório do paciente cirúrgico cardíaco: a orientação de enfermagem fazendo a diferença. Rev. gaúch. enferm. 2001; 22(1): 122-139. 8.Bachion, MM; Magalhães, FGS; Munari, DB; Almeida, SP; Lima, ML. Identificação do medo no período préoperatório de cirurgia cardíaca. Acta paul. enferm. 2004; 17(3): 298-304. 9.Schmitt, MT. Cirurgia da obesidade mórbida: atuação da enfermeira em uma equipe multidisciplinar. Rev. SOBECC. 2004; 9(4): 15-8. 10.Souza, RHS. Sentimentos e percepções do cliente no pré-operatório de cirurgia cardíaca [dissertação]. Curitiba: Universidade Federal do Paraná; 2004. 11.Possari, JF. Centro cirúrgico: planejamento, organização e gestão. 1ª ed. São Paulo: látria; 2004. 12.Silva, MG. A consulta de enfermagem no contexto da comunicação interpessoal – a percepção do cliente. Rev. latinoam. enferm. 1998 jan/fev; 6(1): 27-31. 13.Conselho Federal de Enfermagem. Código de ética dos profissionais de enfermagem. Rio de Janeiro; 1993. 14.Jorgetto, GV; Noronha, R; Araújo, IEM. Estudo da visita pré-operatória de enfermagem sobre a ótica dos enfermeiros do centro-cirúrgico de um hospital universitário. Rev. eletrônica enferm [periódico online]. 2004 ago/set [capturado em 2009 dez 06];6(2): 213-222. Disponível em: http: / / w w w . f e n.ufg.br/revista/revista6_2/pdf/Orig8_visit a.pdf 15.Jansen, D; Silva, KVPT; Novello, R; Guimarães, TCF; Silva, VG. Assistência de enfermagem à criança portadora de cardiopatia. Rev. SOCERJ. 2000; 13(1): 22-29 16.Santos, R; Cassapula, R; Hellberger, T. Programa de orientação pré-operatória em cirurgia pediátrica: relato de experiência. Cogitare enferm. 2000; 5 (nº esp):6165. 17.Mendonça, RS; Valadão, M; Castro, L; Camargo, TC. A importância da consulta de enfermagem em pré-operatório de ostomias intestinais. Rev. bras. cancerol. 2007; 53(4): 431-5. 18.Poltronieri, Neto A; Teixeira, JBA; Barbosa, MH. Elaboração de um instrumento para o preparo pré-operatório em cirurgias cardíacas. Mundo saúde (1995). 2008; 32(1): 107-110. 19.Lopes, AER; Pompeo, DA; Canini, SRMS; Rossi, LA. Diagnósticos de enfermagem de pacientes em período préoperatório de cirurgia esofágica. Rev. latinoam. enferm. 2009; 17(1): 66-73. 20.Christóforo, BEB; Carvalho, DS. Cuidados de enfermagem realizados ao paciente cirúrgico no período préoperatório. Rev. Esc. Enferm. USP. 2009; 43(1). 21.Grasel, LH; Bretano, EP; Caregnato, RC. Ansiedade e medo: diagnóstico de enfermagem aplicado no pré-operatório do paciente cardíaco. Rev. SOBECC. 2009; 14(2): 28-35. 22.Biazin, DT; Coldibelli, LMF; Ribeiro, RP; Recanello, J; Simon, MCF; Silva, MC. Projeto de extensão: visita pré e pós- operatória de cirurgia cardíaca [material eletrônico]. Terra e Cultura. [capturado em 2009 dez 15]. Ano XVIII(35):133-142. D i s p o n í v e l e m : http://web.unifil.br/docs/revista_eletronic a/terra_cultura/35/Terra%20e%20Cultur a_35-11.pdf 23.Leonard, MK; George, JB; Ida, JO. In: George JB. Teorias de enfermagem: os fundamentos à prática profissional. 4ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas Sul; 2000. 24.Loureiro, M; Zappas, S. Consulta de en- fermagem pré-operatória: significado de um projeto vivenciado no ESPENSUL para a prática assistencial. Texto & contexto enferm. 1999; 8 (nº esp):113-131. 25.Hoffer, JL. Anestesia In: Meek MH. Rothrock Jc. Alexander: Cuidados de enfermagem ao paciente cirurgico. 10ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara koogan; 1997. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 117 Competência comunicacional: o que é isso? Communicational competence: What is this? Competencia comunicacional: ¿ qué es esto? Teresa Cristina Prochet, Maria Julia Paes da Silva. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n25; (112-118). Resumo O objetivo é revelar o entendimento sobre ser hábil e competente em comunicar-se com as pessoas. É um estudo de campo, qualitativo, descritivo e exploratório desenvolvido no interior paulista com 117 graduandos e profissionais de saúde que participaram da capacitação em comunicação não-verbal em gerontologia. As respostas foram ordenadas e analisadas, sendo construídas seis categorias, a saber: habilidades centradas na atenção à necessidade, reação e compreensão do outro; habilidades centradas na qualidade e facilidade da oratória pública; habilidades centradas na percepção do não-verbal e verbal; habilidades centradas na maneira de lidar com o outro; habilidades centradas no contexto espacial e temporal e habilidades centradas no conhecimento técnico. Ficou clara a interdependência comunicativa presente nos discursos, revelando coerência com os pressupostos que defendem o quanto aprender a ser e aprender a conviver são premissas essenciais na construção de um profissional de saúde competente. Descritores: Comunicação, enfermagem, relação inter pessoal. Abstract The goal is to provide a better understanding on how one should be rendered able and competent while communicating with others. The methodology is qualitative, descriptive, exploratory field work performed in São Paulo State countryside by 117 undergraduate students and health professionals on non-verbal capacity building in gerontology. The answers were organized, reviewed, and grouped in the following six categories: abilities based on attention to needs, reacting to and understanding the other, abilities based on public oratory quality and easiness, abilities based on verbal and non-verbal perception, abilities based on time and space context perception, and abilities based on technical knowledge. The results showed that there is a clear communicative interdependence in speech. This proved coherent with theoretical fundamentals according to which one's learning how to be oneself and how to live with others are basic assumptions while building a competent health professional. Descriptors: Communication, nursing, interpersonal relationship. 118 Resumen Objetivo: Rebelar la atención sobre ser hábil y competente en la comunicación con las personas. Resultados: Las respuestas fueron obtenidas y analizadas, siendo construidas 6 categorías, que son: habilidades centradas en la atención a la necesidad, reacción y comprensión del otro; habilidades centradas en la calidad y facilidad de la oratoria pública, habilidades centradas en la percepción del no verbal y verbal; habilidades centradas en la forma como tratar con el otro; habilidades centradas en el contexto espacial y temporal y habilidades centradas en el conocimiento técnico. Conclusión: Quedó clara la independencia comunicativa presente en los discursos, rebelando coherencia con los presupuestos que defienden que el aprender a ser y a convivir son premisas esenciales en la construcción de un profesional de salud competente. Descriptores: Comunicacíon, Enferméria, Relacionamiento Interpersonal Teresa Cristina Prochet. Doutora em Ciências – Enfermagem na Saúde do Adulto pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo - USP. Integrante do Grupo de Pesquisa e Estudo sobre Comunicação em Enfermagem do CNPq. Docente Comissionada na Escola de Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. [email protected] Maria Julia Paes da Silva. Professora Titular da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo e Coordenadora do Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Comunicação em Enfermagem do CNPq. [email protected] 119 Teresa Cristina Prochet, Maria Julia Paes da Silva. Introdução Na última década, e em especial a partir do ano 2000, têm-se verificado a crescente preocupação dos gestores e dos usuários com a humanização da atenção à saúde. Por conta disso, muitos programas específicos e pontuais até a Política Nacional de Humanização, foram desenvolvidos com o intuito de propor a melhorar a qualidade do cuidado oferecido aos usuários e trabalhadores do sistema de saúde. Constantes movimentos, encontros, reflexões e publicações têm buscado colocar em cena a necessidade de se aprimorarem as habilidades comunicacionais, entre vários outros aspectos, para se avançar em direção à melhor qualidade dos serviços de saúde. Constata-se, no entanto, a carência de discussões sobre o tema para atender a formação de profissionais de saúde (1). A preocupação com o ensino de habilidades de comunicação no lidar com o cliente tem sido uma realidade nos diversos cursos. Na área da saúde, mais precisamente na enfermagem, tem sido motivo de preocupação, estudo e busca de vários autores como Stefanelli (2), Silva (3), Braga (4), dentre outros. Compreende-se aqui por habilidade em comunicação interpessoal como aquela que é desenvolvida em situações sociais relativamente informais em que pessoas, em encontros face a face, sustentam uma interação concentrada por meio da permuta recíproca de pistas verbais e não-verbais (5). Nessa definição, incluem-se critérios, com os quais a situação de cuidado comunicacional em saúde encontra correlação, são eles: existência de duas ou mais pessoas em proximidade física e que percebam a presença uma da outra; "interdependência comunicativa" - uma pessoa 120 se comunica como consequência da comunicação de outra; troca de mensagens; compreensão das mensagens verbais e/ou não-verbais e informalidade/flexibilidade (5). Pode-se afirmar que relacionamento é um padrão de interação entre duas pessoas, baseado em suas percepções recíprocas (6). Esse recorte de estudo baseou-se nos pressupostos de que o ser humano possui, simultaneamente, duas dimensões para expressar suas necessidades ao mundo (3): a linguagem verbal (psicolinguística) se refere às palavras ditas ou escritas; e não-verbal (psicobiológica), aquelas associadas aos gestos, silêncios, expressões faciais, entonação e timbre da voz, toque, aparência física, condições ambientais, posturas corporais, posição e distância corporal. O conhecimento e o uso dos recursos, técnicas e dimensões comunicacionais sejam verbais ou não-verbais subsidiam a construção da competência no cuidar pelo profissional de saúde, pois a comunicação competente se expressa quando o profissional permite vivenciá-la, ouve o outro, presta atenção no não-verbal, é capaz de eliminar barreiras de comunicação, demonstra afetividade, valida a compreensão das mensagens e está disposto a investir no autoconhecimento (4). Quando o profissional de saúde se conscientiza do valor da comunicação e opta por desenvolvê-la de maneira consciente e respeita os conceitos e os pressupostos envolvidos, consegue interferir na sua própria prática cotidiana, conseqüentemente, influencia no alcance de cuidado efetivo a ser dado ao cliente sob sua responsabilidade. Mediante o exposto, sabese que estudar e desenvolver as habilidades comunicacionais favore- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 ce aos profissionais de saúde o exercício de suas atividades, alicerçado não somente na valorização do assunto, mas sim em sua prática, visto ser e requerer uma abordagem apropriada no mundo complexo dos quais as relações humanas se insere. Objetivo Revelar o entendimento sobre ser hábil e competente na comunicação interpessoal no discurso livre de profissional e graduandos da área da saúde. Material e método Estudo qualitativo, de campo e exploratório desenvolvido no interior paulista após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (Processo CEP/HRA n 167/2008) com 117 graduandos e profissionais de saúde que participaram da capacitação em comunicação não-verbal em gerontologia (7). A questão norteadora deste estudo “O que para você é ser hábil ou competente ao se comunicar com as pessoas?” foi aplicada no momento inicial do primeiro encontro, dentre três dos encontros realizados na capacitação (7). O tratamento dos dados foi realizado por meio da interpretação dos 117 discursos, com base no método de análise de conteúdo. Esse método é a aplicação de um conjunto de técnicas de análises das comunicações, que visa obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores que permitam a inferência de conhecimentos relativos às percepções do cuidado, no âmbito hospitalar (8). Teresa Cristina Prochet, Maria Julia Paes da Silva. Resultados e discussão dos dados Foram submetidos à capacitação em comunicação nãoverbal em gerontologia 117 pessoas sendo: 71,8% (84) de profissionais de saúde e 28,2% (33) de graduandos na área da saúde. Em relação ao gênero e a idade 80,3% (94) eram mulheres com idade média de 35,7 anos e 19,7% (23) homens com 29,6 anos em média, de idade. A média geral de idade dos participantes, independentemente do gênero, foi de 34,5 anos, tendo o mais novo 20 anos e o mais velho 59 anos. Quando questionados sobre ser hábil ou competente ao comunicar-se com as pessoas, os participantes da pesquisa escreveram alguns requisitos ou características que reconheceram serem importantes. As respostas agrupadas permitiram a criação de seis categorias, mas algumas foram pontuais como “é saber ouvir, dar oportunidade das pessoas participarem, se colocarem, exporem suas opiniões, baseado nisso ter amadurecimento de conseguir fazer adaptações, se assim forem necessárias, usando bom senso, conhecimento, postura corporal que revele segurança, entusiasmo e ainda, dar feedback daquilo que foi colocado. Saber ouvir e saber falar com linguagem apropriada, e boa voz também são importantes para alcançar as metas e ajudar o grupo/pessoa no que for necessário” (E1). Outras respostas foram mais simples “é quando se é expressivo, educado e se consegue passar bem o recado e o outro entende.” (E2), e ainda, umas não responderam objetivamente o questionado como: “é fazer tudo.” (E3) Uma resposta ampla remete à possibilidade de inferirmos que o participante não soube nominar ou classificar adequadamente ao solicitado. Defendemos a premissa que o conhecimento, sem sombra de dúvida, é uma ferramenta importante na construção da competência comunicacional, mas isso não garante uma intervenção assistencial competente, pois essa requer a habilidade e a coragem para criar e inovar, que associadas às habilidades cognitivas e comportamentais, alicerça o saber-fazer do profissional de saúde no cuidar com responsabilidade. O que é corroborado por autores que estudam o assunto (3,4). As respostas dos participantes foram ordenadas e analisadas, sendo construídas seis categorias, a saber: habilidades centradas na atenção às necessidades, reação e compreensão do outro; habilidades centradas na qualidade e facilidade da oratória pública; habilidades centradas na percepção do nãoverbal e verbal; habilidades centradas na maneira de lidar com o outro; habilidades centradas no contexto espacial e temporal e habilidades centradas no conhecimento técnico. A primeira categoria citada, habilidades centradas na atenção às necessidades, reação e compreensão do outro (47,8%), agregou os discursos cujo destaque foi dado ao atender às expectativas e necessidades do outro, observar as reações do ouvinte como estratégia de saber se está sendo eficaz; saber ouvir, valorizar a interação pessoal como momento terapêutico; usar o feedback como avaliação e continuidade da comunicação e para detectar se o outro entendeu, captou e compreendeu a mensagem transmitida. “É quando eu vejo o idoso e percebo as limitações e as necessidades dele, atendo-o valorizando o que ele de fato precisa e requer, ouço o que me pede”(E4) “É competente o profissional que valoriza a compreensão do outro, isto é, pede o retorno do que foi dito, verifica o entendimento da comunicação.” (E5) Braga (4) enfatiza que as habilidades centradas na atenção e compreensão do outro exigem que o profissional de saúde agregue perspicácia e vigilância no ser cuidado, observe as necessidades e as valorize, e verifique as condições sociais e culturais do outro que interferem no cuidado imediato e no seu planejamento pós-hospitalar, se for o caso. Sendo assim, pode-se afirmar que o grupo de respostas dessa categoria contemplou a importância que deva ser dada, pelo profissional, na atenção às necessidades do cliente. Já na segunda, habilidades centradas na qualidade e facilidade da oratória pública (29,1%) reuniram aqueles discursos voltados à clareza da explanação da mensagem, uso de exemplos, explicação com objetividade e simplicidade, como também a facilidade de se expor em público, tomar iniciativa e ser extrovertido. “Falar claramente ou expor suas ideias com clareza, objetividade, dando exemplos para facilitar o entendimento.” (E7) “Quando o indivíduo se expressa bem, sabe ser dinâmico, simples na frente das pessoas, não tem vergonha.” (E8) Esses resultados reforçam que a área da saúde lida com diferentes questões importantes e oriundas do processo de cuidar, dentre elas destaca-se a de ordem oral do profissional, que exige dele a aplicação de linguagem apropriada ao contexto, o uso de exemplificações e a atenção a ser dada na clareza e objetividade das mensagens. Essas considerações devem ser valorizadas no cotidiano dos profissionais de saúde e quando são usadas ade- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 121 Teresa Cristina Prochet, Maria Julia Paes da Silva. quadamente são capazes de colaborar para o alcance do bem-estar das pessoas e vai ao encontro dos autores como Silva (4) e Alberecht (9). A categoria habilidades centradas na percepção do nãoverbal e verbal (12,8%) reuniu os discursos que continham direta ou indiretamente menções sobre a qualidade e entonação da voz, o uso intencional da postura corporal, com destaque na forma de olhar e de expressões faciais que possam revelar segurança, confiança, simpatia do locutor principal e, ainda, a utilização da linguagem apropriada que valorizasse as condições social e cultural do outro. Exemplos: “Quando se fala bem, de forma que a outra entenda, por isso o tom da voz é importante, como a expressão facial e corporal também é...”. (E9) “Olhar no rosto das pessoas, dando toda atenção que se merece, sendo educado, simpático e carinhoso.” (E10) Isso exposto ressalta-se que a comunicação não-verbal fala da essência do indivíduo, de suas emoções e pensamentos. O desvendar da sua natureza potencializa a comunicação do profissional com o cliente e equipe (10) e isso precisa ser um foco de atenção no cotidiano dos serviços de saúde. Os resultados estão em concordância com a afirmativa de que é por meio do corpo, dos seus gestos, de sua aparência, dos seus movimentos que o homem se comunica com os outros, e esse rol pode, em determinado contexto, realizar movimentos ambíguos, ou seja, de aproximação ou de afastamento, uma vez que é por meio do corpo que vemos e percebemos, somos vistos e percebidos (11). A quinta categoria, habilidades centradas na maneira de lidar com o outro (12,0%), agrupou valor atribuído às qualidades de per- 122 sonalidade, como ser calmo, atencioso, simpático, compreensivo, atencioso, interessado, sincero, afetuoso, carinhoso, respeitoso e educado ao comunicar-se com as pessoas. Eis os exemplos: “É falar a linguagem da pessoa com quem você está se comunicando, também sabendo falar de maneira que ela entenda e a transmissão aconteça.” (E11) “Ser simpático e ter compreensão.” (E12) “É preciso ser educado, paciente, saber ouvir a outra com jeito bom.” (E13) Cabe aqui ressaltar que o uso de padrões verbais que suscitam empatia, atenção e carinho interferindo no impacto da notícia e no valor a ser dado pela mensagem transmitida. A clareza das ideias facilita a consciência dos fenômenos cognitivos e emotivos da linguagem, o que envolve a habilidade de monitorar o uso dos padrões de linguagem próprios e alheios e de evitar jargões técnicos que causam mal entendidos, conflitos e desajustes, desfocando a meta comunicacional (9). Littlejohn (12) enfatiza como que as funções da teoria da comunicação podem se distinguir em relação ao âmbito teórico, estilo de composição, diferenças de função e na abordagem filosófica, mas juntas compõem o entendimento de como o comportamento humano e as relações interpessoais podem ser influenciados pela forma que se reage afetivamente com o outro e também pela situação na qual o outro se encontra. Os resultados, portanto, confirmam o proposto por Alberecht (9) quando defende o pressuposto que desenvolver empatia com o cliente significa disposição do profissional em permitir compartilhar sentimentos e criar vínculos, que induz a conquista de Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 benefícios práticos e a preservação de relacionamento de qualidade. A empatia, aliada à disponibilidade, à atenção e ao interesse do profissional ao sujeito a ser cuidado por ele, são consideradas condições básicas para que a eficácia do processo comunicacional ocorra (3). Habilidades centradas no contexto espacial e temporal (8,5%) foram a categoria temática cujos discursos citaram a escolha do lugar e o adequado uso do tempo como facilitadores para o desenvolvimento, tanto do assunto, quanto do grupo. Os discursos a seguir explicitam-na: “Saber se expressar sem ser cansativo, usando bem o tempo.” (E14) “É ser uma pessoa que fala bem, na hora e lugar certo, sem pressa, mas com atenção.”(E15) Aqui fica evidente o quanto que a escolha do ambiente para estabelecer e manter a comunicação é um ponto, também, a ser atentado pelo profissional de saúde, uma vez que a presença de ruídos, ventilação e iluminação inadequada são quesitos que podem aproximar ou distanciar as pessoas, consequentemente, colaborar ou não no processo de comunicação (3,6). Finalmente, habilidades centradas no conhecimento técnico (6,8%) englobaram os discursos que deram valor ao domínio do assunto tratado. Eis um exemplo: “É saber o que falar, entender e transmitir sem se preocupar e sem cansar o outro.” (E16) A categoria com maior número de discursos, habilidades centradas na atenção às necessidades, reação e compreensão do outro (47,8%), reforça o que é encontrado na literatura (13), quando os autores afirmam ser fundamental, na ação comunicativa, a participação do assistido. Aparecer em grande número essa preocupação nos profissionais Teresa Cristina Prochet, Maria Julia Paes da Silva. é positivo, pois o que se verifica, muitas vezes, é a imposição do profissional por meio da concepção de que o domínio de sua verdade sobressaia e isso acaba por coibir o outro de expor suas emoções e opiniões, logo atentar-se a essa possibilidade é relevante e essencial ao prestar o cuidado. Pode-se afirmar que a valorização da comunicação interpessoal no cotidiano passa por muitas instâncias, constituindo um desafio na construção das habilidades próprias no cuidar efetivo/afetivo. Atualmente, a busca por competência tem sido uma realidade. Isto pode ser comprovado nas premissas da Lei de Diretrizes Curriculares e Bases da Educação Nacional (14), que fundamenta o processo de formação por meio de competências e habilidades e do aperfeiçoamento cultural, técnico e científico do cidadão, que busca um profissional com perfil não somente alicerçado nos aspectos de conhecimento cognitivo, mas que também seja capaz de agir com eficácia diante das mais diversas situações, executando atividades próprias da profissão, e ainda, saiba conviver com as pessoas. Os resultados verificados neste estudo com os participantes da capacitação proposta, mesmo que inicial, vai ao encontro das considerações feitas por Silva (11), ao afirmar que, para ser eficaz na comunicação é necessário o cumprimento de quatro principais aspectos: a) prestar atenção aos sinais emitidos pelo outro e por si próprio; isso porque quanto maior a capacidade de decodificar corretamente o não-verbal maior serão as condições de emitir adequadamente sinais não-verbais; b) buscar desenvolver um comportamento empático; c) utilizar adequadamente os cinco sentidos voltados para a percepção e compreensão do outro; d) ofere- cer e solicitar feedback às pessoas com as quais se relaciona. Em suma, as considerações traçadas pelos participantes remetem ao próprio conceito de Perrenoud (15) que cita a competência como a capacidade de mobilizar todos os tipos de recursos cognitivos, não apenas um saber procedimental, codificado, que seja aplicado literalmente, mas aquele que potencializa e externa os saberes considerados declarativos e condicionais. Pode-se afirmar que o autor ratifica que ser competente é quando se valoriza o situacional e a pessoa utiliza ações que sejam pertinentes ao contexto, o que exige reflexão e tomada de decisão/escolha e não simplesmente “saber a ação correta”. Conclusão De acordo como objetivo proposto percebe-se que o entendimento sobre ser hábil e competente na comunicação interpessoal, para quase a metade dos 117 profissionais e/ou graduandos da área de saúde, envolveu a capacidade de identificação do verbal e não-verbal e da atenção ao outro para que a compreensão correta da mensagem enviada fosse alcançada. Outros aspectos surgiram, porém, com menor frequência. As habilidades comunicacionais, portanto, foram mais fortemente identificadas como aquelas ligadas à valorização pessoal no sentido de atentar-se a receptividade e entendimento do outro; nas habilidades que destacam a clareza da explanação da mensagem com objetividade e simplicidade e ao jeito extrovertido da oratória e na qualidade e uso de aspectos não-verbais como, o uso da voz, postura corporal, expressões faciais que, juntas, pudessem de alguma forma revelar segurança, confiança e simpatia do lo- cutor principal. Ficou clara a interdependência comunicativa inerente entre as dimensões verbais e nãoverbais, presente nos discursos apresentados, revelando coerência com os pressupostos defendidos pela Lei de Diretrizes da Educação (14) quando enfatiza o quanto aprender a ser e aprender a conviver são premissas essenciais na construção de um profissional de saúde competente. Referências 1.Cerqueira, AT de AR. Habilidades de comunicação com pacientes e famílias. Interface 2009,13(29): 469-73. 2.Stefanelli, MC. Comunicação com paciente teoria e ensino. São Paulo: Robe editorial; 1993. 3.Silva, MJP da. Construção e validação de um programa sobre comunicação nãoverbal para enfermeiros [tese]. São Paulo: Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, 1993. 4.Braga, EM. Competência em comunicação: uma ponte entre aprendizado e ensino na Enfermagem [tese]. São Paulo: Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, 2004. 5.Barlund, D. Teorias de comunicação int e r p e s s o a l . I n : L i t t l e j o h n S W. Fundamentos teóricos da comunicação humana. Trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar; 1978. p. 206. 6.Littlejohn, SW. Fundamentos teóricos da comunicação humana. Trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar; 1978. 7 . P ro c h e t , T C . C a p a c i t a ç ã o e m Comunicação Não-Verbal: um caminho para ações de cuidado efetivo/afetivo ao idoso [tese]. São Paulo: Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, 2010. 8.Bardin, L. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições; 1979. 9.Alberecht, K. Inteligência social. São Paulo: M Books; 2006. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 123 Teresa Cristina Prochet, Maria Julia Paes da Silva. 10.Silva, MJP da. O aprendizado da linguagem não-verbal e o cuidar. In: Stefanelli MC, Carvalho EC, organizadores. A comunicação nos diferentes contextos da enfermagem. São Paulo: Manole; 2005. p. 47-61. 11.Silva, MJP da. Comunicação tem remédio. São Paulo: Loyola; 2002. 12.Littlejohn, SW. Fundamentos teóricos da comunicação humana. Rio de Janeiro: Zahar; 1982. 13.Machado, MMT; Leitão, GM; Holanda, FUX. O conceito de ação comunicativa: uma contribuição para a consulta de enfermagem. Rev Lat Am Enferm [periódico na Internet]. 2005 [citado 2009 dez. 3];13(5). Disponível em: http: // www.scielo.br/scielo. php?script=sci _arttext&pid =S0104-11692005000500017&lng=pt 14.Brasil. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Parecer CNE/CES n.1133, de 7 agosto de 2001. Institui as diretrizes curriculares nacionais dos cursos de graduação em enfermagem, medicina e nutrição [legislação na Internet]. Brasília; 2001. [citado 2004 fev. 12]. Disponível em: http://www.mec.gov.br/Sesu/diretriz.shtm# legislação. 15.Perrenoud, P. A prática reflexiva ao oficio de professor: profissionalização e razão pedagógica. Porto Alegre: Artmed; 2002. 124 Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 As percepções do usuário do serviço de saúde sobre o programa saúde da família Perceptions of the user's health service on the family health program Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n.25;(120-128). Resumo O Programa de Saúde da Família (PSF) apresenta-se como uma possibilidade de reestruturação da atenção primária, a partir de um conjunto de ações conjugadas em sintonia com os princípios de territorialização, intersetorialidade, descentralização, co-responsabilização e priorização de grupos populacionais com maior risco de adoecer ou morrer. Tem o objetivo de contribuir para a reorientação das práticas em saúde, rompendo com o modelo de assistência que prevaleceu tradicionalmente em nossa sociedade: excludente, centrado na doença, individualizado e segmentado. Visando identificar como anda a satisfação e o conhecimento da população sobre o PSF, destacamos como objetivo do presente trabalho: identificar a percepção dos usuários do serviço público de saúde, sobre o que é o Programa Saúde da Família em uma cidade do sul de Minas Gerais, para isso foi utilizado como referencial o método qualitativo do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). O DSC é uma estratégia metodológica proveniente da Teoria das Representações Sociais. Por meio desse modo discursivo é possível visualizar a representação social, que é o modo como os indivíduos reais e concretos pensam. Percebe-se que muitas famílias e usuários sabem as finalidades do PSF o que nos leva a crer que existem equipes atuantes no ambiente familiar e fora dele. Descritores: Programa de Saúde da Família, enfermagem, usuário. Abstract The Family Health Program (FHP) presents itself as a possibility of restructuring of primary care from a combined set of actions in line with the principles of territorial, intersectional, decentralization, accountability and co-prioritization of population groups with greater risk of becoming ill or dying. It is the goal to contribute to the reorientation of practices in health, breaking with the type of assistance that traditionally prevailed in our society: exclusionary, focused on disease, individualized and targeted. To identify how the satisfaction and knowledge of the population go on the FHP, as highlighted objective of this work: identifying the perception of users of public health, on what is the Family Health Program in a town south of Minas Gerais, for it was the method used as reference quality the Collective Subject Discourse. The CSD is a methodology from the Theory of Social Representations. Through this way you can view the discursive social representation, which is how the people feel real and concrete. Clearly the fact that many families and users know the purpose of PSF which leads us to believe that there are teams working in the family and outside it. Descriptors: Family health program, nursing, user. Ivandira Anselmo Ribeiro Simões. Enfermeira Professora Mestre em Bioética; Especialista em Docência no Ensino Superior; Docente do Curso de Graduação e da Especialização em Saúde da Família da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz. João Batista Ferreira Sobrinho. Enfermeiro Especialista em Saúde da Família Multiprofissional pela Escola de Enfermagem Wenceslau Braz. Amanda Gleice Fernandes Carvalho. Acadêmica de enfermagem do 4º ano, do primeiro semestre da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz, de Itajubá. 127 Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. Introdução Desde o início do século XX, quando a Saúde Pública no Brasil se configurou como política nacional de saúde, vêm-se sistematizando práticas sanitárias na tentativa de estabelecer uma assistência eficaz voltada para a coletividade, tendo sido a criação e regulamentação do SUS os marcos mais importantes desse processo. Após sucessivos movimentos e tentativas, essa foi a primeira ferramenta legitimada e garantida em lei para a construção de um sistema de saúde digno, humano e universal (1). Segundo Borges (2), o PSF tem o objetivo de contribuir para a reorientação das práticas em saúde, rompendo com o modelo de assistência que prevaleceu tradicionalmente em nossa sociedade: excludente, centrado na doença, individualizado e segmentado. Como a intervenção se dá no nível primário de atenção, ele trabalha localmente e, portanto, numa maior proximidade às famílias. Ele afirma ainda que o acolhimento e o vínculo são privilegiados e se caracterizam como uma modalidade de intervenção usuário-centrada, incentivada na proposta do SUS, para que se possa estabelecer uma relação interpessoal mais próxima dos usuários em suas demandas. Características peculiares do PSF parecem favorecer a integração entre comunidade e equipes de saúde da família, bem como a relação trabalhador-usuário. Neste sentido, destaca-se a introdução dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) nas equipes, adstrição de 128 clientela num território definido, atuação das equipes na ótica da Vigilância em Saúde e o trabalho em equipe realizado por um enfermeiro, um médico, dois auxiliares de enfermagem e quatro a seis ACS. Segundo Oliveira, Spiri (3), o estreito relacionamento entre profissionais da equipe de saúde e as famílias, estabelecidas pelo PSF, auxilia na aceitação das pessoas para o acompanhamento frequente e a busca da satisfação das necessidades de saúde. Uma das demandas do PSF é o retorno da inclusão da família como partícipe do processo saúde-doença e em cujo espaço busca-se o desenvolvimento de ações preventivas, curativas e de reabilitação. Visando identificar como anda a satisfação e o conhecimento da população sobre o PSF, notamos que durante as atividades realizadas em nossa vivência profissional, como enfermeiros em equipes de saúde da família de nossos respectivos municípios, os usuários demandavam dúvidas comuns como: O que é o PSF? Quais são suas diretrizes e funções? O que significa promoção e prevenção da saúde? Percebemos que na prática a visão dos mesmos é ainda a de um modelo curativo e hospitalocêntrico, dificultando assim, distinguir a proposta entre Hospital, UBS, e o Programa Saúde da Família. A transição do modelo curativo em que o processo se dava pela demanda espontânea, para o modelo de caráter substitutivo do PSF, que prevalece à promoção e a prevenção da saúde Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 ainda não está evidenciada, e com isso notamos que mesmo depois de anos de implantação, suas diretrizes e objetivos são pouco identificados pela maioria da população, o usuário fecha as portas de sua casa para a equipe no que diz respeito à prevenção de doenças e só procura o serviço de saúde, na maioria das vezes, quando a doença está incapacitando-o ou quando a doença já está instalada. A relevância deste estudo refere-se ao fato de que governantes gestores e a população em geral deveriam ser sensibilizados quanto à importância do PSF bem como suas metas e diretrizes. Com isso investiriam mais na atenção primária, e a equipe de saúde da família realizaria com melhores recursos o seu trabalho. Quanto à comunidade e os usuários, eles se tornariam mais ativos em seus cuidados, participariam mais efetivamente nos serviços de promoção da saúde oferecidos. Este trabalho além da contribuição científica visa ainda melhorar a qualidade da assistência prestada, incentivar os profissionais de saúde a exercer melhor suas atribuições dentro da equipe, valorizar a participação popular e também compreender o que os usuários sabem sobre as competências do PSF. Diante do exposto destacamos como objetivo do presente trabalho: identificar a percepção dos usuários do serviço público de saúde, sobre o que é o Programa Saúde da Família em uma cidade do sul de Minas Gerais. Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. Referencial conceitual De acordo com Lima (4), a proposta do PSF é parte integrante das estratégias da consolidação do SUS, implantado pelo governo federal em 1994 através do Ministério da Saúde, visando contribuir para o aprimoramento do SUS. Embora tenha sido criado com a denominação PSF, depois de uma década de experiências vividas em sua trajetória e da realização de estudos e reflexões à seu respeito, não há mais dúvida em afirmar que a saúde da família não é apenas um programa, mas uma estratégia; não é apenas uma estratégia de médico da família, mas uma estratégia específica de atenção à saúde. Não se caracteriza como um projeto piloto alternativo, paralelo ao SUS. Trata-se de uma forma especial para reverter à maneira como sempre se fez a prestação de assistência à saúde no Brasil, construindo, consequentemente, um novo modo de cuidar da saúde. A saúde da família é entendida como uma estratégia de reorientação do modelo assistencial, operacionalizada mediante a implantação de equipes multiprofissionais em unidades básicas de saúde. Essas equipes são responsáveis pelo acompanhamento de um número definido de famílias, localizados em uma área geográfica delimitada. As equipes atuam com ações de promoção de saúde, prevenção, recuperação, reabilitação de doenças e agravos mais frequentes, e na manutenção da saúde da comunidade (5). Para Souza (6) a estratégia do PSF propõe uma nova di- nâmica para a estruturação dos serviços de saúde, bem como para a sua relação com a comunidade e entre os diversos níveis de complexidade assistencial. Assume o compromisso de prestar assistência universal, integral, equânime, contínua e acima de tudo resolutiva à população na unidade de saúde e no domicílio, sempre de acordo com suas reais necessidades, identificando os fatores de risco, aos quais ela está exposta, e nele intervindo de forma apropriada. O PSF é um projeto dinamizador do SUS, condicionado pela evolução histórica e organização do sistema de saúde no Brasil. A velocidade de expansão do PSF comprova a adesão de gestores estaduais e municipais aos seus princípios. Conforme Silva (7), as diretrizes ou princípios básicos do PSF envolvem o caráter substitutivo, em que as atividades a serem ofertadas estão voltadas a promoção à saúde, a prevenção dos agravos, o que caracteriza o nível primário da atenção a saúde; a adscrição da clientela, que visa estabelecer com definição um território a ser trabalhado, o que permite a equipe conhecer e ter responsabilidades com um número definido de famílias; o cadastramento, que através da visita domiciliar tem a função de inscrever ou cadastrar as famílias. O cadastramento permite a equipe conhecer os componentes da família, as doenças mais comuns, as condições sócioeconômicas entre outros pontos relevantes; a abordagem multiprofissional, o trabalho do PSF deve ser realizado por uma equipe multiprofissional, tendo em vista a necessidade de diferentes maneiras de compreender os problemas de saúde. É necessário um médico, um enfermeiro, um técnico ou auxiliar de enfermagem e os agentes comunitários de saúde; a educação permanente, onde a capacitação dos profissionais das equipes visa atender as necessidades vindas do próprio trabalho. Ângelo (8) relata que a família como unidade de cuidado é a perspectiva que dá sentido ao processo de trabalho do PSF. Podem-se focalizar aspectos específicos da família, o que resulta em uma gama muito ampla de definições possíveis, ressalta ainda que, assim pode-se considerar a família como um sistema, uma unidade cujos membros podem ou não estar relacionados ou viver juntos, pode conter crianças sendo elas de um único pai ou não. Nela existe um compromisso e um vínculo entre seus membros e as funções de cuidado da unidade consistem em proteção, alimentação e socialização. Silva (7) relata que, o trabalho em equipe multiprofissional é considerado um importante pressuposto para a reorganização do processo de trabalho no âmbito do Programa de Saúde da Família - PSF, visando uma abordagem mais integral e resolutiva. Isto pressupõe mudanças na organização do trabalho e nos padrões de atuação individual e coletiva, favorecendo uma maior integração entre os profissionais e as ações que desenvolvem. A equipe de saúde da fa- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 129 Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. mília deve conhecer as famílias do território de abrangência, identificar os problemas de saúde e as situações de riscos existentes na comunidade, elaborar um plano e uma programação de atividades para enfrentar os determinantes do processo saúde/doença, desenvolver ações educativas e intersetoriais relacionadas com os problemas de saúde identificados e prestar assistência integral às famílias sob sua responsabilidade no âmbito da atenção básica (9). A interação é aqui entendida como construção de consensos, em relação a objetivos e resultados a serem alcançados pelo conjunto dos profissionais. Por meio dessa prática comunicativa, os profissionais constroem e executam um projeto comum pertinente às necessidades de saúde dos usuários (5,10) Segundo Carvalho (11), a promoção da saúde é uma estratégia de produção de saúde articulada às demais políticas e tecnologias desenvolvidas no sistema de saúde brasileiro que busca contribuir com as necessidades sociais em saúde, para além do enfoque da doença. Conferências internacionais sobre promoção e prevenção da saúde, realizadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), vêm acontecendo desde a segunda metade do século passado. No Brasil, particularmente, devido ao processo de implementação e consolidação do SUS, os princípios gerais da promoção, - equidade, intersetorialidade, participação social, criação de um entorno propicio à vida e à justiça social - encontraram espaço para o seu desenvol- 130 vimento. Referencial teórico metodológico Teoria das representações sociais Buscando atingir os objetivos propostos para esta pesquisa e responder às questões elaboradas para a compreensão do objeto de estudo, foi utilizado o método qualitativo, do tipo exploratório. Segundo Minayo (12), a opção pela abordagem qualitativa baseia-se no interesse em compreender a complexidade do fenômeno que não se restringe os dados estatísticos. Considerando a natureza da questão da pesquisa que visa identificar a percepção dos usuários do serviço de saúde sobre o que é o Programa Saúde da Família, foi necessário, para isso, avaliar a compreensão do que essas pessoas dizem, fazem e pensam a respeito do PSF, sendo assim optamos por adotar como referencial metodológico a Teoria das Representações Sociais (TRS). Para Abrantes; Figueiredo (13), a TRS apresenta grande aderência aos objetos de estudo na área de Enfermagem, uma vez que ela consegue apreender os aspectos mais subjetivos que permeiam os problemas inerentes esse campo. Como método do estudo utilizamos o Discurso Sujeito Coletivo (DSC). Lefèvre; Lefèvre; Teixeira (14) define que o DSC é uma estratégia metodológica com a finalidade de Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 tornar mais clara uma determinada representação social e o conjunto das representações que constituem um dado imaginário. Por meio desse modo discursivo é possível visualizar a representação social, na medida em que ela aparece não sob a forma (artificial) de quadros, tabelas ou categorias, mas sob a forma mais viva e direta de um discurso, que é o modo como os indivíduos reais e concretos pensam. Trajetória metodológica A pesquisa foi realizada no município de Poço Fundo, sul de Minas Gerais. O estudo teve como sujeitos, vinte moradores do município. A amostragem foi do tipo intencional ou racional. Para se adequar ao critério de inclusão o entrevistado deveria residir no município cuja pesquisa foi realizada e estar cadastrado em uma equipe de saúde da família. Para acessar o cadastro das equipes, pedimos autorização ao secretário do município. Como estratégia para coleta dos dados, utilizamos entrevista não-estruturada, contendo a seguinte questão: Para você, o que é o Programa de Saúde da Família (PSF)? Os discursos dos entrevistados foram registrados por meio de gravador, após autorização prévia dos informantes, e da assinatura do termo de consentimento informado. A autonomia dos participantes do estudo foi respeitada pela sua livre decisão em participar da pesquisa, após o fornecimento das orientações que subsidiaram a sua decisão. Os dados foram colhidos Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. individualmente mediante agenda e de acordo com a disponibilidade dos participantes. Além disso, é preciso evidenciar que este estudo seguiu os preceitos estabelecidos pela Resolução 196/96, de 16/10/1996, do Ministério da Saúde. Resultados Dentro da temática “Percepção dos usuários sobre o PSF” serão compilados abaixo as Ideias Centrais (IC) do discurso dos entrevistados e, logo abaixo, seu respectivo DSC. Sendo assim, obtemos as seguintes IC: “Visitar as famílias”; “Ajudar na saúde”; “Orientar e prevenir doenças”; “Não serve de nada”; “Eu não sei o que é PSF”, sendo as três primeiras IC com maior frequência. Considerando as ideias centrais, surgiram os seguintes DSCs: Ideia central: visitar as famílias DSC “Serve pra visitar as famílias e ver o que elas estão precisando. Acho bom porque como eu sou doméstica não tem como eu levar meu filho lá, e eles sempre tem o cuidado de vir aqui em casa. Recebo visita toda semana, tem o agente de saúde, o controle da minha diabete todo mês. Agora a gente recebe visita, porque de primeiro não tinha isso não, mudou pra melhor... Todo mês eles vão lá em casa, acho que no geral eles fazem só o bem pra nós.” DSC Ideia central: ajudar na saúde DSC “Ajuda, ajuda muito, pois quando preciso de algum remédio, eu vou lá, ou eles vêm aqui em casa, e sempre é muito bem tratado... Graças ao PSF eu descobri que eu tenho pressão alta, e agora eu faço tratamento direitinho, sarou minhas dores de cabeça, pra mim essa é a serventia do PSF, ajudar na saúde das pessoas. Esse programa aí é pra ajudar na saúde. É pra atender as famílias. Eu penso que o PSF é muito bom... eu mesmo nunca tinha feito um preventivo, agora eu to cuidando mais da saúde.” Ideia central: orientar e prevenir doenças DSC “Pra meu entendimento serve pra orientação das doenças que a gente tem no bairro. É um programa do governo que serve para ajuda a população a prevenir as doenças mais grave, sempre que eles me fazem visita eu pergunto as coisas sobre minha doença, eles orientam a gente, eles fazem palestras de vez em quando. Eles chamam atenção da gente, todo mês eles me lembram de vacinar minhas crianças pequenas, serve de alerta pra gente. O PSF cuida da família com um todo, e serve para trabalhar a promoção e a prevenção das doenças.” Ideia central: não serve de nada “Para mim não tem serventia de nada não. Ah, eles ajudam só de vez em quando...Eu sinto falta de orientação tenho pai e mãe com pressão alta em casa e só eu que cuido deles...” Ideia central: eu não sei o que é PSF DSC “Eu nem sei o que é programa de família não, nunca recebi uma visita de médico nem enfermeiro, só uma menina passa uma vez por mês pra pegar a assinatura. Eu num entendo muito bem desse PSF não.” Discussões As ICs com maior frequência foram: “visitar as famílias”; “ajudar na saúde”; “orientar e prevenir”; como podemos destacar nas falas dos DSC abaixo: “... O PSF cuida da família, serve para promoção e prevenção das doenças...”; “... eles orientam bem a gente...”; “... é pra atender as famílias”; “... a serventia do PSF é ajudar na saúde da pessoa...”. Quanto à IC “visitar as famílias”, evidenciamos a importância da visita para conhecer o contexto social de cada família, além de intensificar o modelo de saúde proposto. Segundo Mandú et al. (15) a expansão da visita tornase cada fez mais necessária, pois, com as mudanças ocorridas no perfil epidemiológico da população, os idosos, hipertensos e diabéticos entre outros são cada vez mais cuidados em sua resi- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 131 Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. dência, fazendo-se necessário a vigilância, manutenção e restauração de sua saúde onde eles se encontram. Por outro lado, uma das preocupações que se tem é que as visitas do PSF possam levar à dependência da população dos profissionais principalmente médicos, como podemos identificar nas falas: “As meninas vêm fazer visita, e se marcar o médico vem, acho melhor do jeito que é hoje... não precisa enfrentar fila”. No que diz respeito à IC “ajudar na saúde”, nas decisões quanto à saúde dos indivíduos e as comunidades deve-se respeitar o princípio ético da autonomia, evitando-se práticas paternalistas contrárias à vontade das pessoas, pois todo cidadão tem o direito de participar nas tomadas de decisões no que se refere a sua saúde (16). A IC “orientar e prevenir doenças”, também se destacou, “... descobri que tenho pressão alta e agora eu faço tratamento direitinho...”; “... eles orientam bem a gente...”. Podendo, também, ser identificada sua importância no estudo de Souza (17), em que ele evidencia que a ESF vem gerando um novo modelo de atenção à saúde através de uma assistência integral e contínua a todos os membros das famílias e da comunidade em cada uma das fases de vida, construindo um vínculo entre equipe e população. Esse vínculo proporciona retomar a visão integral do indivíduo em seu contexto familiar, desenvolvendo ações de promoção, proteção específica, diagnóstico precoce, prevenção de danos, recupera- 132 ção da saúde e reabilitação, ou seja, uma prática humanizada competente, unindo o saber popular ao saber técnico-científico. Detectados nas falas abaixo: “... eles fazem palestra de vez em quando, minha mulher fez o prénatal com eles e foi tudo bem...”. Os objetivos da implantação do modelo de saúde da família segundo o Ministério da Saúde são, entre outros: prestar assistência integral e contínua; humanizar as práticas de saúde; fazer com que a saúde seja reconhecida como um direito de cidadania e estimular a organização da comunidade, porém cabe as equipes de saúde da família, promover educação em saúde e melhorar o autocuidado dos indivíduos (18). Segundo Costa; Carbone (19) o enfermeiro deve assistir às pessoas que necessitam de atenção de enfermagem. Cada equipe de saúde da família é capacitada para conhecer as realidades das famílias e a prática sanitária não deve fixar na atenção meramente curativa, mais manter a vigilância em saúde. Para Carbone (20) no PSF é muito importante transcender o biológico e compreender as dimensões biopsicossociais das famílias e também conhecer a história do usuário, inclusive sua fala reflete seu mundo. Podemos confirmar tal fato, com o que disse esse usuário: “... o PSF cuida da família como um todo e serve para trabalhar a promoção e a prevenção das doenças desde o mais rico até o mais pobre, eu acho bonito é o valor que eles dão ao lar Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 das pessoas que eles cuidam, eles ensinam a ter saúde, muito bom o trabalho deles, precisa valorizar esse trabalho”. Encontramos nos resultados que os usuários em sua maioria consideram o PSF “Muito bom”; “útil”; “cuida da família”. Essa satisfação com o PSF vem ao encontro com o que diz Turrini (21). Segundo ela a satisfação do cliente é uma forma de se avaliar a qualidade do serviço de saúde, além do que, é uma acessibilidade de garantir o retorno do usuário quando necessitar. A partir do usuário, é possível obter informações que beneficiam a organização dos serviços de saúde. Percebe-se que muitas famílias e usuários sabem as finalidades do PSF, o que nos leva a crer que existem equipes atuantes no ambiente familiar e fora dele. Segundo Cianciarullo (22) o PSF constitui uma proposta inovadora nos serviços de saúde, priorizando as ações de promoção, proteção e recuperação da saúde das pessoas e das famílias de maneira integral e contínua. Gualda, et. al. (23), também, cita que a equipe de Saúde da Família tem como principal missão promover a participação da comunidade, favorecer a humanização do atendimento, possibilitando um bom relacionamento. Para Cianciarullo (22), alguns serviços ainda estão presos em procedimentos tradicionais, não adotando essa forma inovadora e flexível que é o PSF. O objetivo desse programa Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. (PSF) é uma reorganização da prática assistencial, onde atenção centra-se na família, em seu ambiente físico e social, com suas crenças e valores, favorecendo o atendimento do processo saúde/doença em um contexto geográfico definido. De acordo com Turrini (21) os resultados de um trabalho em saúde, efetivo, são avaliados pela satisfação do paciente, pelos efeitos na saúde da população e pelo atendimento da atenção primária na comunidade. Tivemos como IC que o PSF “Não serve de nada” e ainda IC “eu não sei o que é PSF”. Essas ideias refletem a maneira como as equipes têm relacionado com as famílias, é um dado muito importante, ou seja, o que significa o PSF, quais suas finalidades não estão ainda bem definidas na concepção de alguns usuários. Segundo Costa (24), Os serviços de saúde não estão estabelecendo um diálogo eficiente com o paciente. Muitos usuários dizem que os profissionais de saúde não olham para eles; os maiores problemas de comunicação são quando não se rompe a distância entre o paciente e a equipe, refere ainda que a diversidade cultural envolva todas as maneiras de viver dos indivíduos. Conforme a fala “... Para mim não tem serventia de nada não...” Reconhecemos que outros estudos com esse objetivo possam ser realizados a fim de identificarmos prováveis falhas e proporcionar as devidas melhorias. No entanto, essas falas servem para os profissionais de enfermagem como alerta para suas re- ais competências e, além disso, estarem esclarecendo melhor nossas famílias sobre as finalidades do PSF. Como as percepções dos usuários são ímpares, é difícil dizer o que significa para eles um serviço ter a capacidade de solucionar o seu problema de saúde. Medir a satisfação deles referese a compreender suas experiências com relação ao cuidado à saúde. Conclusão Os resultados do presente trabalho permitiram as seguintes conclusões: que a percepção dos usuários do serviço público de saúde, sobre o Programa Saúde da Família foram: “Visitar as famílias”, “Ajudar na saúde”, “Orientar e prevenir doenças”, “Não serve de nada”, “Eu não sei o que é PSF”. Esta pesquisa permitiu verificar que as percepções dos usuários são ímpares, sendo difícil dizer o que significa para eles um serviço ter a capacidade de solucionar o seu problema de saúde. Mensurar a satisfação deles refere-se a compreender suas experiências com relação ao cuidado com a saúde. As expectativas dos usuários podem ser bem distintas entre si, pois variam conforme os valores sociais e culturais, contato com a equipe de saúde e o contexto em que eles se inserem. A opinião, dos mesmos, é muito importante para avaliar as questões que envolvem o profissional, os serviços de saúde e as etapas de um determinado cuidado e também as característi- cas que relacionam com o seu bem estar. Esta pesquisa não se esgota aqui, muitos desafios ainda cabem a nós enquanto profissionais. No entanto, temos a responsabilidade de não pouparmos esforços para que aos poucos nossa sociedade possa compreender que devemos valorizar a saúde e não a doença, que o indivíduo deve ser tratado como um ser integral, dentro de seu contexto social, enfim, o PSF é uma estratégia de esperança que nos abre os horizontes para essa possibilidade. Não podemos esquecer que o usuário, a família e a comunidade são os fatores desse processo. Referências 1.Nunes, ED. Sobre a história da Saúde Pública: ideias e autores. Ciênc. Saúde Colet. 2000 5(2):251-264. 2.Borges, CC. Promover e recuperar saúde: sentidos produzidos em grupos comunitários no contexto do Programa de Saúde da Família. Interface. 2005 set/dez; 18(9): 507-519. 3.Oliveira, EM; Spiri, WC. Programa Saúde da Família: a experiência de equipe Multiprofissional. Rev. Saúde Pública. 2006 ago; 40(4): 727-33. 4.Lima, CB. Enfermagem atual em cursos: estomaterapia, incontinências, urinária e anal, Programa Saúde da Família. Petrópolis, RJ: EPUB, 2005. 5.Peduzzi, M. Equipe multiprofissional de saúde: conceito e tipologia - atualização. Rev. Saúde Pública. 2001; 35 (1): 103-109. 6.Souza, MF. A coragem do PSF. 2 ed. São Paulo: Hucitec, 2003. 7Silva, L. Guia Curricular: O contexto e a instrumentalização da ação do agente comunitário de saúde. Vol I. Belo Horizonte: Escola de Enfermagem da UFMG, 2006. 8. Ângelo, M. Abrir-se para a família: superando desafios. Fam. Saúde Desenvolvimento. 1999; 1(1-2): 7-14. 9 . BRAS I L . M inis tér io da Sa ú d e. Departamento de Atenção Básica. Guia prático do Programa de Saúde da Família. Brasília: Ministério da Saúde, 2001. 10. Peduzzi, M. Equipe multiprofissional de saúde: a interface entre trabalho e inte- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 133 Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. ção. [Tese Doutorado] - Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. 1998. 11. Carvalho, YM. Promoção da Saúde, Práticas Corporais e Atenção Básica. Rev. Brasileira Saúde da Família. 2006 jul/set; s.n.(11): 33-45. 12.Minayo, MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 7 ed. São Paulo: Hucitec-Abrasco, 2000. 13.Abrantes, VL; Figueiredo, NM. Construindo representações sociais com alunas (os) da pós-graduação em enfermagem: questões práticas em sala de aula. In: 9° Seminário de Pesquisa em Enfermagem. Anais. Vitória (ES), julho, 1996. 14.Lefèvre, F; Lefèvre, AMC; Teixeira, JJV (org.). O discurso do sujeito coletivo, São Paulo: EDUCS, 2000. 15.Mandú, ENT; Gaíva, MAM; Silva, MA; Silva, AMN. Visita domiciliária sob o olhar do usuário do programa saúde da família. Revi Texto e Contexto em Enfermagem. 2008 Jan/mar; 17(1): 131-140. 16.Fortes, PAC; Martins, CL. A Ética, a Humanização e a Saúde da Família. Ver. Brasileira de Enferm. 2000 dez; 53: 31-33. 17.Souza, MF. A Enfermagem reconstruindo sua Prática: Mais que uma conquista no PSF. Rev. Brasileira de Enferm. 2000 dez; 53(n. especial): 31-33. 18.BRASIL Ministério da Saúde. Secretaria de Assistência à Saúde. Coordenação de Saúde da Comunidade. Saúde da Família: uma estratégia para a reorientação do modelo assistencial. Brasília: Ministério da Saúde, 1997. 19.Costa, EMA; Carbone, MH. Saúde da Família: uma abordagem interdisciplinar. RJ: Rubio, 2004. 20. Carbone, MH. Estilo de Vida. In: Costa EMA, Carbone MHS. Saúde da Família: uma abordagem interdisciplinar. RJ: Rubio; 2004. Cap.8. 21.Turrini, RTVT. Resolutividade dos Serviços de Saúde e satisfação do cliente. In: Cianciarullo TI (org). Saúde na Família e na Comunidade. São Paulo: ROBE. 102-122p. 2002. 22.Cianciarullo, TI. Compreendendo a família no cenário de uma nova estratégia de saúde. In: Cianciarullo TI (org.). Saúde na Família e na Comunidade. ROBE. São Paulo. 2002. 23.Gualda, DMR; Bergamasco, RB; Okazaki, ELJ; Viana, L. Assistência prénatal no contexto do conceito de saúde reprodutiva. In: Cianciarullo TI; Gualda DMR; Silva GTR; Cunha ICKO, organizadores. Saúde na família e na comunidade. São Paulo: Robe. 2002. p. 187-197. 24. Costa, EMA. Escutando o paciente. In: Costa EMA, Carbone MH. Saúde da Família: Uma abordagem interdisciplinar. 134 Rio de Janeiro: Rubio.2004. cap. 4, p.2328. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 A família como suporte para o enfrentamento do câncer de mama The family as a support for the confrontation of breast cancer Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem2010-v8-n25; (129-138) Resumo O objetivo deste estudo foi investigar junto às mulheres com câncer de mama, a percepção acerca do suporte familiar no enfrentamento da doença. Constituiu-se em uma pesquisa qualitativa descritiva. O contato inicial com as participantes do estudo deu-se em uma Clínica de Oncologia e Hematologia do interior do Estado do Rio Grande do Sul. Entrevistou-se 7 mulheres portadoras de câncer de mama no período de março a maio de 2008. As entrevistas aconteceram no domicílio das participantes de acordo com o agendamento prévio. Quanto à entrevista elaborou-se um roteiro semi-estruturado com 5 perguntas abertas. O registro das informações deu-se através de gravação das falas dos sujeitos da pesquisa. O processo analítico dos dados convergiu para a obtenção das seguintes categorias: a percepção da família na visão das mulheres com câncer de mama; a autoimagem como um desafio perante a sociedade e a si própria; a experiência do câncer de mama encarado não como uma doença, mas como mobilizadora de um trabalho educativo; sentimentos vivenciados a partir do diagnóstico de câncer de mama. Conclui-se que o apoio e suporte familiar às pacientes com câncer de mama, constituem-se em importantes instrumentos para enfrentamento da doença e manutenção do equilíbrio emocional. Descritores: Neoplasias da Mama, Família, Enfermagem. Abstract The objective of this study was to investigate near to women with breast cancer, the perception about the family support in the coping of the disease. It consisted in a descriptive qualitative study. The initial contact with the study participants occurred in a Oncology and Hematology Clinic in the interior of the Rio Grande do Sul State. They were interviewed 7 women carriers of breast cancer from March to May 2008. The interviews took place at the participants´ s domicile in agreement with the previous appointment. As for the interview it was elaborated a semi-structured script with 5 open questions. The information records were done by recording the research subjects´ s statements. The data analytical process converged to the obtaining of the following categories: the perception of the family in the view of women with breast cancer, self-image as a challenge to society and herself, the experience of breast cancer seen not as a disease, but by mobilizing educational work; feelings experienced after diagnosis of breast cancer. It follows that the support and family support for patients with breast cancer, are in important tools for fighting the disease and maintain emotional balance. Descriptors: Breast Neoplasm's, Family, Nursing. Daniela do Nascimento. Enfermeira graduada pela Univ. Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões-Campus de Santo Ângelo. Narciso Vieira Soares. Mestre em Enfermagem. Docente do curso de Enfermagem da Univ. Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus Santo Ângelo. 135 Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares. Introdução O Câncer de Mama constitui-se numa doença que acomete as mulheres em suas diversas faixas etárias, sendo temido pelos seus efeitos psicológicos, sexuais e de auto-imagem. A cada ano morrem de câncer no Brasil cerca de dez mil mulheres, sendo que a faixa etária predominante situa-se acima de 35 anos (1-2). No Rio Grande do Sul a incidência dessa patologia está aumentando cada vez mais. Segundo dados do INCA, dos 234.870 novos casos de câncer estimados em mulheres gaúchas, 13% foram casos de câncer de mama, no ano 2007. No Brasil, o câncer de mama é o que causa mais mortes entre as mulheres, sendo considerada a segunda causa de maior incidência de morbidade no ano de 2006 com 48.930 casos. Essas informações são preocupantes para a saúde pública e população em geral, na medida em que o câncer de mama representa a causa mais comum de morte em mulheres entre 35 e 50 anos, embora seja verdade que, em muitas mulheres, incluindo aquelas abaixo de 50 anos, os casos são diagnosticados e tratados com sucesso. O câncer de mama é relativamente raro em mulher com menos dos 35 anos de idade, mas acima desta faixa sua incidência cresce rápida e progressivamente (2). Os sintomas do câncer de mama são nódulos ou tumor no seio, acompanhados ou não de dor mamária. Podem surgir alterações da pele que recobre a mama, como abaulamentos e retrações ou com um aspecto seme- 136 lhante à casca de uma laranja. Podem, também, surgir nódulos palpáveis na axila. Esses sintomas são considerados como sinais de alerta para identificação de alguma anormalidade na mama. Portanto, é de extrema importância o toque, o auto-exame, não somente para a detecção do câncer, mas também para a mulher adquirir conhecimento do próprio corpo, livrando-se de vários tabus e preconceitos em relação à auto-imagem e autoestima perante a sociedade (2). A família é uma das mais importantes fontes de energia e suporte para vários agravos de saúde, principalmente no caso do câncer, que traz consigo o grande estigma da morte (3). A família pode ser compreendida como “um complexo sistema de membros interdependentes que exercem múltiplos papéis no contexto social em que estão inseridos, mantendo interação com outros membros, podendo contribuir para a melhoria da qualidade de saúde das mulheres acometidas de doença como o câncer de mama”(4). Dentre os múltiplos papéis exercidos pela família podem-se citar as funções relativas à saúde, uma vez que a família protege seus membros, dando apoio e resposta às necessidades básicas em situações de doença. No momento em que a mulher adoece, ou seja, descobre que está com câncer, necessita de apoio para enfrentamento das situações delicadas que está vivenciando. O suporte familiar constitui-se em elemento fundamental para ultrapassar os desafios do diagnóstico, do trata- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 mento e da recuperação que podem se estender por longo período. A família pode contribuir na superação desse momento vivido, mediante ações de cuidado, solidariedade, ajuda e conforto. A participação em grupos de apoio é importante para as mulheres com câncer de mama, pois nesses encontros, poderão compartilhar experiências positivas para ultrapassar esse momento, através do incentivo de quem está vivenciando a mesma situação de doença, tornando-se assim, mais fortes para vencer cada etapa da experiência (5). Buscou-se investigar neste estudo, se a família dá suporte à mulher portadora de câncer de mama para ultrapassar esse momento com mais segurança e apoio emocional, pois a ocorrência de câncer resulta em alterações no processo de vida da mulher. O tratamento é agressivo, estendendo-se por longo período. Entretanto, se a mulher mobilizar pensamentos positivos, juntamente com o apoio da família e de amigos, sua recuperação poderá ser mais rápida, minimizando os efeitos agressivos do tratamento, diminuindo o medo da morte. No momento em que as mulheres, portadoras do câncer de mama, recebem a notícia de que precisarão realizar a quimioterapia, sentem-se amedrontadas, abaladas, desesperadas, ansiosas e inseguras diante do tratamento e seus efeitos colaterais, os quais são geralmente agressivos, tanto para a parte física quanto para a psicológica (6). Além dos efeitos colaterais como náuseas, vômitos e mal-estar Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares. geral, a alopecia é um dos aspectos que mais preocupam a maioria das mulheres, pois o cabelo também é considerado como símbolo de feminilidade significativa para a mulher. Por isso as pacientes devem ser preparadas pelos profissionais de saúde antes do tratamento, informando-as sobre os efeitos que ocorrem após o mesmo (6). O cuidado de enfermagem às pacientes com câncer de mama inclui cuidar, orientar, dar apoio emocional, segurança, conforto e proporcionar um ambiente acolhedor para as mulheres e seus familiares. O cuidado integral e humanizado à paciente e seus familiares exige enfermeiros qualificados, capazes de compreender o momento vivenciado, estabelecendo estratégias visando minimizar os efeitos maléficos da doença, e a partir daí dar apoio necessário às mesmas (7). Nesse sentido, “o trabalho da enfermagem constitui mais de incentivo e suporte emocional para a mulher portadora do câncer e sua família, do que propriamente a cura” (6). Os profissionais de enfermagem devem investir na prevenção do câncer de mama, orientando e auxiliando a mulher na realização do auto-exame, oferecendo-lhe assistência, apoio e informação. Deve-se investir na assistência voltada não apenas aos cuidados físicos, mas ao cuidado emocional, buscando assim, reduzir sua ansiedade e oferecer maior segurança e conforto (6). Assim como a mulher portadora do câncer de mama, a família também necessita da atenção e do cuidado de enfermagem, além de acompanhamento e apoio no enfrentamento desse momento vivido. Dessa forma, a mulher e sua doença, não são os únicos focos da atenção do enfermeiro. A família também deve ser incluída no planejamento das ações de cuidado da enfermagem (7). Através de experiência vivida no âmbito familiar, percebeu-se que o apoio da família é extremamente importante no momento da confirmação do diagnóstico e ao longo do tratamento. Por acreditar que é importante motivar as famílias a compartilhar com a mulher portadora de câncer nesse momento de sofrimento e dor em decorrência da doença, buscou-se através desse estudo, aprofundar reflexões sobre essa temática. Buscou-se, além disso, ampliar os conhecimentos sobre o câncer de mama, para compreender como se pode cuidar melhor e ensinar às pessoas a serem melhores cuidadores, sejam profissionais de saúde ou familiares. Esse estudo tem como objetivo geral, investigar junto às mulheres com câncer de mama, a sua percepção acerca do suporte familiar no enfrentamento da doença. Como objetivos específicos têm-se: identificar a rede de suporte familiar e social e a sua relação com os mesmos; investigar como as mulheres conseguem lidar com os sentimentos que emergem a partir da doença; como mobilizam forças para o enfrentamento desta situação vivida e investigar quais os desafios enfrentados nesse pe- ríodo de doença. S e n t i m e n t o s Vivenciados pela Paciente com Câncer de Mama e seus familiares A mulher, ao receber o diagnóstico de câncer de mama passa a enfrentar situações de crise, constituindo-se em um momento em que necessita de amor, carinho e suporte emocional daqueles que estão próximos para manter a própria identidade e ajudar a enfrentar a grande incerteza do futuro (5). A presença da família, apoiando as pacientes aliadas com “a esperança de voltar à normalidade”, constituem importantes fatores facilitadores no enfrentamento de situações de crise (5). De acordo com Silva e Melo (8) não é fácil aceitar um diagnóstico de câncer, não importa os conhecimentos que se tenha sobre a doença. Nesta árdua luta contra o diagnóstico de câncer, o impacto do medo do desconhecido atinge não somente a mulher, porquanto todos da família ficam naturalmente fragilizados a ponto de se sentirem limitados em suas ações normais da vida. Após confirmação do diagnóstico de câncer, a mulher passa a apresentar sentimentos de ansiedade, desespero, angústia, desamparo, pensamentos de morte, acreditando que não irá se curar e, se, ocorrer a cura, aparece o medo da recorrência da doença. É de suma importância que ela tenha carinho e suporte de pessoas próximas para ajudar a enfrentar essa fase difícil sem medos, mostrando-lhe a possibilidade de cura, resgatando o va- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 137 Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares. lor da vida, permitindo que essa mulher consiga olhar para o futuro sem incertezas, com ânimo e coragem diante dos desafios que se apresentam (5). Bergamasco (5) em seu estudo constatou que a família foi identificada como rede de suporte social da mulher mastectomizada, antes, durante e depois da intervenção cirúrgica, configurando-se, portanto, como elemento importante e presente durante a experiência da doença. Através desta citação entende-se que, o apoio familiar é importante desde o início do descobrimento do câncer, ou seja, desde o diagnóstico confirmado através dos exames realizados. A família deverá manter diálogo com a paciente, abordando aspectos relacionados à patologia, mostrando que esta pode ser combatida através do tratamento, do cuidado e de atitudes positivas que resultem em mobilização de forças para enfrentar e ultrapassar esse processo vivido com otimismo e segurança. Isso ajudará bastante a compreender e enfrentar melhor a situação, servindo para ajudar a fortalecer a relação familiar (5). A experiência de ser portadora de câncer de mama oportuniza a mulher a aprender sobre si mesma e adaptar-se à nova situação de vida. Através desta afirmação, entende-se que a mulher deve ultrapassar essa etapa, como um aprendizado em sua vida, adquirindo forças para enfrentar obstáculos e desafios. Deve dar-se conta de que algo, dali em diante, deverá ser mudado, ou seja, mudar seu esti- 138 lo de vida, passar a viver com mais tranqüilidade e confiança. Adaptar-se a essa nova forma de vida requer que a família atue como suporte, ajudando-a a não desistir jamais, mas sim, encorajando-a a continuar viver (5). No câncer de mama, ao realizar a mastectomia, a mulher perde a mama, que para a maioria delas é definido como um órgão significante e que, no momento dessa perda, acaba perdendo juntamente a sua autoestima e sua auto-imagem (8). A auto-estima começa a ser abalada mais, acentuadamente, durante o tratamento quimioterápico, devido aos efeitos colaterais destes, que causam desconforto, mal estar, sensação de piora de seu estado geral. Essas alterações em seu estado de saúde tornam-lhe vulnerável, já que atingem a área emocional e física, constituindo assim um dos piores períodos de suas vidas. O trauma é um sentimento que também pode ser vivenciado no momento do diagnóstico, pela mulher com câncer de mama, mas não somente vivenciado por ela, mas também pelos membros da família. É importante a atenção psicológica às respostas emocionais, essa atenção deve ser entendida pelos familiares e pessoas em sua volta, em especial pelos filhos e companheiros. A possibilidade de comunicação favorável entre os familiares ajudará a diminuir o sentimento de isolamento da mulher (5). Muitas mulheres conseguem lidar positivamente com essa situação, resolvendo bem, consigo mesma, a questão emo- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 cional decorrente da doença com ajuda de enfermeiros e de profissionais da equipe de saúde, familiares e amigos, numa perspectiva de tratar e curar a doença. A paciente com câncer de mama torna-se uma pessoa duramente atingida física, psicológica e socialmente, tanto pela doença como pelo tratamento. Aceitar sua nova condição e adaptar-se à nova imagem de seu corpo exige esforço significativo para o qual, muitas vezes não estão preparadas (9). Diante da confirmação do diagnóstico de câncer de mama, a mulher, muitas vezes sente-se completamente despreparada para enfrentar a situação de doença ameaçadora à sua integridade. Emergem sentimentos que vão desde a possibilidade de perder uma mama, órgão importante em seu corpo, até a perda de sua vida. A paciente necessitará de apoio psicológico e emocional dos que estão à sua volta para elevar sua auto-estima. Os sentimentos de medo e ansiedade vivenciados pela paciente com câncer de mama acabam abalam seu equilíbrio emocional, influenciando em seus relacionamentos, pois suas atenções centram-se na doença esquecendo-se de cuidar de si mesma, centralizando suas emoções somente na doença. A relação enfermeiro-paciente pode desempenhar papel de ajuda, através do cuidado humanizado no qual o profissional visualizará, não apenas um “órgão doente”, mas uma mulher com todas suas potencialidades com sua história de vida, medos e angústias (9). Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares. Ao descobrir-se com diagnóstico de câncer, a mulher vivencia sensações e sentimentos de forma singular. Isto pode resultar em mudanças em sua vida, necessitando adaptações aos momentos difíceis e desgastantes, tanto para si quanto para sua família que acaba se envolvendo e participando dessa experiência de dor e sofrimento pela qual estão enfrentando (10). Às vezes, a família se isola por não saber lidar e interpretar o sofrimento da mulher, ou ela se isola por não querer preocupar a família, criando assim uma barreira entre ambos, dificultando o acompanhamento e o apoio necessário (11). O câncer de mamar abala a mulher e toda sua estrutura familiar, podendo levá-la ao desequilíbrio emocional, pelas fragilidades inerentes ao processo vivenciado. É nesse momento que a família necessita unir esforços visando ultrapassar as dificuldades, que se apresentam. Os familiares devem manifestar abertamente suas emoções e sentimentos para a mulher com câncer, demonstrando sua importância para todos, reforçando a esperança da paciente. É um momento de união, de cooperação e de busca de apoio dos profissionais da saúde e dos serviços de saúde (10). Compreender as fragilidades da paciente é importante por que parte das famílias, assim como as fontes de suportes disponíveis possam ajudá-la perante as dificuldades. O fortalecimento e a disponibilidade dos familiares são fundamentais para a resistência do seu sofrimento e cura. E é importante encarar a situação positivamente, com coragem, determinação e força interior, de querer vencer todas as etapas (10). A importância dos vínculos familiares é ressaltada quando se fala em câncer de mama, pois se constitui num momento de grande fragilidade da mulher acometida por essa doença. Considerando que todos nós, seres humanos, necessitamos de cuidado, carinho, atenção, ou seja, um afeto especial de todos os membros da família, o que possibilita a nossa satisfação, e havendo a comunicação entre ambos, fortalecerá os relacionamentos e também crescimento interior da família e da mulher (11). Metodologia Tipo de Estudo Este estudo constitui-se em uma pesquisa com uma abordagem qualitativa do tipo descritiva. A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado(12). A pesquisa descritiva tem como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou o estabelecimento de relações entre variáveis (13). Local e Período do Estudo O contato inicial com as mulheres para compor a amostra do estudo foi realizado na Clínica de Oncologia e Hematologia de um município do interior do Estado do Rio Grande do Sul. As entrevistas foram realizadas nas residências das mulheres que aceitaram participar da pesquisa conforme acordo e agendamento prévio, no período de março a maio de 2008. Sujeitos do Estudo Os sujeitos da pesquisa foram sete mulheres portadoras de câncer de mama que realizam ou realizaram tratamento quimioterápico em um hospital da região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. O acesso às pacientes deu-se mediante indicação do médico assistente e da enfermeira que atendem na clínica anteriormente referida, onde se realizou o contato prévio com as mulheres e familiares. Estabeleceu-se que as entrevistas seriam realizadas no domicilio das pacientes. Como critério de inclusão adotou-se: ter sido diagnosticada como portadora de câncer de mama, ter mais de 18 anos, aceitar participar espontaneamente da pesquisa mediante o preenchimento do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Como critério de exclusão: não ser portadora de câncer de mama, ser menor de 18 anos, não aceitar participar da pesquisa. Método de Coleta de Dados Foram realizadas entrevistas com a utilização de um roteiro semi-estruturado com perguntas abertas. O registro dos dados coletados ocorreu mediante a utilização de gravador, além Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 139 Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares. do diário de campo na qual foram realizadas as anotações das verbalizações das mulheres, assim como a impressão dos pesquisadores no momento da coleta de dados. A utilização de um roteiro semi-estruturado facilitou aos pesquisadores durante a realização da entrevista, servindo como norteador no momento das indagações às pesquisadas. Nas questões abertas, apresentavase a pergunta e a partir daí a entrevistada elaborava sua resposta conforme seu entendimento acerca do tema, momento em que ocorreu a livre manifestação de subjetividades (13). Considerações Éticas Para a realização deste estudo foram respeitados os aspectos éticos para a pesquisa envolvendo seres humanos, estabelecidos pela resolução 196/96 do Ministério da Saúde (14). Obteve-se a aprovação do estudo pelo Comitê de Ética da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI - Campus de Santo Ângelo sob nº 10504/TCH/07. Apresentou-se às p a c i e n t e s u m Te r m o d e Consentimento Livre e Esclarecido constando os objetivos do estudo, incluindo esclarecimento sobre a garantia do direito de retirarem seus consentimentos se assim o desejassem, sem nenhuma implicação em seu atendimento e tratamento, garantia do anonimato nas publicações que resultassem do presente estudo mediante a substituição de seus nomes por no- 140 mes de flores, garantia de acesso aos dados resultantes da pesquisa a qualquer momento, e garantia de que sua participação não implicaria em nenhum risco em relação à sua saúde. Apresentação e análise dos dados Os dados obtidos através das entrevistas com os sujeitos da pesquisa foram submetidos ao processo de leitura e releitura, separação por categoria temática, conforme propõe Minayo (15), emergindo de sua análise as seguintes categorias finais apresentadas a seguir: A percepção da família na visão das mulheres com câncer de mama. Nesta categoria apresenta-se a percepção das entrevistadas sobre a família e o enfrentamento da doença. Percebe-se nas falas das entrevistadas que a família, em momentos de doença, assume diferentes papéis, notadamente de apoio e incentivo. O suporte familiar constitui-se em valioso instrumento na superação desse momento, caracterizado para algumas como uma encruzilhada, podendo representar vida ou morte. As afirmações a seguir mostram como é percebido o apoio familiar pelas entrevistadas: “A partir do momento da descoberta da doença, a primeira pessoa que me acompanhou em toda a etapa da pré cirurgia foi o meu marido...”. (Cravo) “.. .independente de umas ajudarem mais e outras menos, se Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 não for a família eu acho que tu não passa, não passa pela situação se não for a família. Para mim foi fundamental”. (Margarida) “A ajuda da família, eu penso que é fundamental. Quando eu fiz a cirurgia, eu tive a presença da minha família”. (Violeta) “.. .acho que em primeiro lugar, tem que ter um apoio mesmo, se tu não tiver apoio da família, tu já viu, não é? Porque fácil não é, às vezes eu dizia assim: ah, vou desistir de tudo, vou parar porque é muito doloroso não é, as fraquezas, a reação da quimio ...”. (Rosa) “A ajuda da família foi muito importante e é importante até hoje... a dedicação assim, o carinho, a preocupação...”. (Girassol) A participação efetiva da família constitui-se um importante instrumento na ultrapassagem dos fatores adversos provocados pelo câncer de mama. Essa participação poderá ser objetivada a partir do apoio emocional, pela compreensão dos sentimentos e emoções vivenciadas pela mulher, disponibilizando além de afeto e carinho, suporte material e financeiro, o que contribuirá positivamente na trajetória dessa paciente durante o tratamento (8). A família é considerada uma força para o desenvolvimento de ações individuais e grupais, condizentes com o dia-adia da mulher mastectomizada (16). Representa uma das mais Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares. importantes fontes de suporte para vários agravos de saúde, principalmente, no caso do câncer, que traz consigo o grande estigma da morte (3). A família como um sistema interligado em que cada um de seus membros influencia sobre o outro, o adoecimento de um dos integrantes tem reflexos no comportamento e no estado emocional e até biológico dos demais (17). Durante todo o período da doença, o significado do suporte social para a mulher com câncer de mama se reveste de importância, pois ela se vê sendo ajudada para não desistir do tratamento, das consultas periódicas do cuidado de si próprias (5). É relevante que a abordagem utilizada pela família para o enfrentamento do câncer de mama, reforce expectativas de esperança da mulher, mediante manifestação de sentimentos que a façam perceberem sua importância no contexto familiar (14). A auto-imagem como um desafio perante a sociedade e a si próprio. Nos relatos das entrevistadas, percebeu-se uma grande preocupação com a autoimagem, somando-se às outras questões relacionadas à doença, o que faz com que as pacientes estejam com um problema a mais. Essas preocupações são identificadas nas falas: “O que foi e está sendo o meu maior desafio, o que está sendo hoje é a questão da operação da mama. A questão mais comple- xa pra mim é essa, sabe...de ter mexido no meu corpo, é bem difícil. Meu maior desafio é esse, é aceitar minha situação hoje. O que está diariamente me incomodando e me afetando é a questão da operação.” (Margarida) “Eu vou ser uma hipócrita em não te dizer que eu não tive sentimento em perder uma parte que foi minha, não é? não tem como, tu fica assim no início, ainda mais que eu não fiz a reconstituição, foi muito difícil. No verão, eu passo nas vitrines e vejo aquelas bluzinhas, roupas bem bonitas, tudo de alcinha não é?, e eu dou uma olhada e digo: puxa...eu tenho que andar com roupa mais fechada...por quê?”. (Adália) A identidade feminina tende a ser modificada quando se concretiza a mastectomia e o tratamento quimioterápico, altera-se também, o auto conceito, podendo refletir-se de forma negativa na auto percepção da mulher (8). A cirurgia para a retirada da mama representa para muitas mulheres, momento de muita apreensão e perdas, pois a possibilidade de mutilação se dá pela percepção da assimetria do corpo e pela visibilidade da cirurgia, que se constitui em agressão à sua auto-imagem (18). Tratase da amputação de um órgão que para ela é essencial na definição de seu gênero, faz parte do ser mulher. A partir da amputação da mama, a mulher vive momentos de conflitos psicológicos, afetando a sua auto-imagem corporal e a auto-estima (8). A experiência do câncer de mama, encarado não como uma doença, mas como mobilizadora de um trabalho educativo. As entrevistadas manifestaram sentimentos e emoções que afloraram após o diagnóstico do câncer de mama, dentre esses, a possibilidade de mudança em sua vida, sendo capazes de passarem de um estado de medo, inércias frente à doença para a ação. As afirmações a seguir mostram como ocorre essa mudança: “Eu mudei do dia pra noite, por que...quando eu soube o diagnóstico, em nenhum momento eu perguntei porque eu, as duas coisas que me preocuparam: e agora, o que eu vou fazer, e a segunda pergunta, o que eu preciso aprender? Essas duas coisas. Em mim, a partir dali, daquele momento, a partir de mim, eu comecei a olhar a vida de outra maneira, não é?”. (Violeta) “...Na nossa família agora tem um tio que tem câncer de pele, eu segunda feira fui lá de tarde pra levantar ele, sabe, eu me...mostro como exemplo, que tu tem que reagir, não pode...sabe, as gurias dizem que não sabem de onde que eu tenho tanta força, mas eu, eu procuro ajudar a quem precisa. Eu tento ensinar pros outros o que eu...como é que eu fui...”. (Girassol) Silva e Mamede (9) consideram que “a manifestação da Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 141 Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares. esperança é um ponto forte para assegurar à mulher uma imagem positiva das mudanças ocorridas no seu corpo. Ajudar outra pessoa, partilhar experiências e problemas do diagnóstico, do tratamento, e até mesmo de problemas de outra natureza, são elementos considerados essenciais para o crescimento e/ou transformação do comportamento”. Para algumas mulheres, a experiência do câncer de mama oportuniza um repensar e aprender sobre si mesma, à medida que necessitam adaptarem-se à situações não antes vivenciadas, tendo que compreender aquilo que é importante na vida, no sentido de valorizá-la, podendo a partir daí, dar novo significado à mesma(5). Ao descobrir-se com um diagnóstico como o câncer, a mulher e sua família passam por um período de modificações em sua vida, já que há exigências inerentes à doença que provocam adaptações sempre desgastantes e difíceis para todos os envolvidos (10). Sentimentos vivenciados a partir do diagnóstico de câncer de mama. Vários sentimentos foram relatados neste estudo pelas mulheres, dentre eles o medo, a angústia, a tristeza, o pânico, o pavor e o medo da morte, mas além de sentimentos negativos, elas também demonstraram força, coragem, pensamentos positivos e muita fé para enfrentar o câncer e os tratamentos necessários, mesmo com suas dificulda- 142 des. “Quando o resultado deu positivo, senti medo, mas me senti com coragem para enfrentar todos os processos que eu ia enfrentar”. (Cravo) “Meu sistema emocional ficou muito abalado e a angústia era muito grande, medo e pavor”. (Tulipa) “Não sei... acho que te dá um pânico, um medo. Pânico, pra mim acho que deu pânico, não deu medo, entrei em pânico sabe. Até quando meu marido me contou, eu chorei aquela noite inteirinha, inteirinha...” (Margarida) Muitas mulheres ao receberem o diagnóstico de câncer, sentem-se fragilizadas, demonstrando sentimentos de medo, ansiedade, angústia, raiva, dúvida e preocupação em comunicar ou partilhar tais questões com sua família, devido à imagem aterrorizada que emerge da doença (19). O medo resultante do diagnóstico da doença constitui-se na possibilidade de uma maior gravidade do estado da pessoa (16). No momento do diagnóstico, o medo é um dos primeiros sentimentos que invade a mente das mulheres portadoras do câncer de mama, assim como o medo da morte. Isto porque o câncer é quase sempre associado à morte e também a uma doença sem cura(8) . A “autonomia” da paciente e de seus familiares é afetada pelos sentimentos decorren- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 tes do câncer, entre eles, o choque, a ansiedade, a negação e a raiva. Em conseqüência disto, surgem desafios que precisam ser enfrentados com o apoio da família (19). Considerações finais Através dos relatos das entrevistadas, constatou-se que o suporte familiar é fundamental para as mulheres com câncer de mama, para que possam ultrapassar os momentos de angústia e medo vivenciados, após a confirmação do diagnóstico, constituindo-se, dessa forma, na base de apoio e sustentação para o enfrentamento da doença. A realização das entrevistas gerou grande expectativa, pois abordar um tema como o câncer de mama, poderia representar para as mulheres, lembranças de momentos de angústia e aflição advindos da doença, por isso, esteve presente a incerteza das reações emocionais, das tristezas ou alegrias que poderiam ser mobilizadas, a partir da visita domiciliar. A superação da ansiedade inicial se deu no transcorrer dos diálogos, quando a insegurança mútua foi superada com naturalidade e tranqüilidade, sendo possível realizar a entrevista conforme proposta do estudo. A interação foi se concretizando através do diálogo, estabelecendo-se o vínculo, o que constituiu em fator motivador para a interação pesquisador, pesquisada. A entrevista propiciou um momento para que as pacientes pudessem expressar seus sentimentos sobre a experiência vivenciada, sendo a vista domi- Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares. ciliar considerada por estas, um momento de encontro, uma oportunidade para livre manifestação. O estudo, além disso, possibilitou às mulheres identificar a importância da presença de profissionais da saúde competentes, responsáveis e comprometidos com a saúde das pacientes. Entende-se que o enfermeiro, ao realizar o planejamento de ações de cuidado à paciente com câncer, deve incluir a família como parte integrante da assistência de enfermagem. É relevante atentar para os aspectos que envolvem a dinâmica familiar, auxiliando esses familiares no cuidado da paciente que está fragilizada naquele momento. A enfermagem necessita definir estratégias de cuidados à mulher, que incluam o suporte familiar, a informação em relação ao câncer de mama, incluindo os aspectos relacionados aos tratamentos necessários e seus efeitos colaterais. Deve-se proporcionar tranqüilidade e conforto à paciente, estimulando a expressão de sentimentos e pensamentos que viabilizem a “construção de alternativas viáveis para minimizar a alteração na imagem corporal e que incentivem na execução de atividades ocupacionais que reduzam a tensão emocional e encorajem a sua participação em grupos de auto-ajuda”. REFERÊNCIAS 1. Lopes MWP. Serviço de regulação da oncologia - Setor de Planejamento - 12º Coordenadoria Regional de Saúde. Santo Ângelo; 2008 2. Instituto Nacional do Câncer. Disponível em: < http://www.inca.gov.br [2007 ago.15] 3. Biffi RG. A dinâmica de um grupo de mulheres com câncer de mama. Ribeirão Preto. (Tese) Universidade Federal de São Paulo. Disponível em: http://www.teses.usp.br ]2008 mar.30]. 4 Stanhope M. Teorias e desenvolvimento familiar. In: Stanhope M, Lancaster J. Enfermagem comunitária: promoção de saúde de grupos, famílias e indivíduos. Lisboa; 1999. 5. Bergamasco RB, Ângelo M. O sofrimento de descobrir-se com câncer de mama: como o diagnóstico é experienciado pela mulher. Rev. Bras. de Cancerol 2001; 47(3):277-82. 6. Pereira SG, Rosenhein DP, Bulhosa MS, Lunardi VL, Filho WDL. Vivências de cuidados da mulher mastectomizada: uma pesquisa bibliográfica. Rev. Bras. de Enferm 2006; 59(6):791-5. 7. Ângelo M. Abrir-se para a família: superando desafios. Famí Saú e Desenvolv 1999; 1(1/2):7-14. 8. Silva RM, Melo EM, Rodrigues MSP. Família como suporte para a mulher em tratamento quimioterápico. Famíl. Saú e Desenvolv. 1999; 1(1/2):87-96. 9. Régis MFS, Simões SMF. Diagnóstico de câncer de mama: sentimentos, comportamentos e expectativas de mulheres. Disponível em: http://revistas.ufg.br [2008 jun.03]. 10. Hayashi VD, Chico E, Ferreira NML. Enfermagem de família: um enfoque em oncologia. Rev. Enferm. UERJ 2006; 14 (1):13-20. 11. Maia SAF. Câncer e morte: o impacto sobre o paciente e a família. Curitiba; 2 0 0 5 . D i s p o n í v e l e m : http://www.intercef.com.br [2008 abr.08]. 12. Minayo MC de S. Pesquisa qualitativa em saúde. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2003. 13. Gil AC. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas; 1999. 14. Brasil. Ministério da Saúde (BR). Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 196, de 10 de outubro de 1996. Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa em seres humanos. Brasília (DF); 1996. 15. Minayo MC de S. O Desafio do Conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo/Rio de Janeiro: Hucitec. Abrasco; 2007. 16. Mesquita ME, Magalhães SR, Carvalho AMA, Férnandez AF, Rego CDM. Comportamentos da família diante do diagnóstico de câncer de mama. D i s p o n í v e l e m : http://www.um.es/ojs/index.php/eglobal/a rticle/viewFile [2008 mar.20]. 17. Bervian PI, Girardon NMOP. A família (com )vivendo com a mulher/mãe após a mastectomia. Rev Bras de Cancerol 2006; 52 (2):121-128. 18. Ferreira MLSM, Mamede MV. Representação do corpo na relação consigo mesma após mastectomia. Rev Latinoam Enferm 2003; 11 (3):299-304. 19. Muniz RM, Dutra MG. O cliente em tratamento quimioterápico: a família vivenciando o cuidado. Famí Saú e Desenvolv 2003; 5 (2):125-132. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 143 Atendimento humanizado: as representações sociais dos membros da equipe de enfermagem do programa de saúde da família de uma cidade sul mineira The meaning of humanized care by the nurse members of the staff of the family health program in a towm located in the southern region of the minas gerais state. Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n25; (139-145). Resumo Trata-se de um estudo que teve como objetivo identificar o significado de atendimento humanizado para os membros da equipe de enfermagem do Programa Saúde da Família (PSF) de uma cidade sul mineira. Este estudo foi do tipo descritivo, exploratório com abordagem qualitativa. A amostra foi constituída de 22 participantes, sendo 4 enfermeiros e 18 auxiliares de enfermagem inseridos no PSF. A amostragem foi do tipo proposital. A coleta de dados foi realizada mediante entrevista nãoestruturada, gravada e transcrita literalmente. As diretrizes metodológicas do Discurso do Sujeito Coletivo foram utilizadas para a seleção das ideias centrais e expressões-chave correspondentes, a partir das quais foram extraídos os discursos dos sujeitos, no cenário do Programa Saúde da Família. Do ponto de vista dos auxiliares de enfermagem, identificaram-se as seguintes ideias centrais sobre o evento “O significado de Atendimento Humanizado no PSF”: “Ser educado”; “Colocar-se no lugar do paciente”; “Interagir com o paciente”; “Mais humano”; “Atender com respeito” e “Tratar com amor”. Para os enfermeiros: “Assistir holisticamente”; “Colocar-se no lugar do outro” e “Saber ouvir”. As conclusões permitiram conhecer que o significado de atendimento humanizado no PSF é significativo e primordial, porém, quanto mais conseguirmos associar conhecimento científico aos aspectos afetivos, mais próximos estaremos do cuidado humanizado. Descritores: Programa saúde da família; atendimento humanizado; equipe de enfermagem. Abstract This study aimed to identify the meaning of Humanized Care by the nurse members of the staff of the Family Health Program (PSF), in a town located in the southern region of the Minas Gerais State. It was descriptive, exploratory and qualitative approach. The group consisted of 4 nurses and 18 assistants' nurses, all involved in the PSF. The sampling was at random. The collection data was done in an interview which was recorded and transcript. The methodological guidelines of the group's speech were used for the selection of the main ideas and corresponding key expressions extracted from the subject's speech, all within the PSF. For the assistant nurses the main idea identified was: “ The meaning of the PSF humanized care” – Be polite, act like a patient, interact with the patient, be more human, answer and respect all kind of questions and treat the patient with extreme care. And for the nurses: Assist the patient holistically, act like a patient, and listen carefully to the patient. The conclusion allowed knowing the meaning of humanized care in the PSF. Descriptors: Family health program; humanized care, the nursing staff. 144 Ivandira Anselmo Ribeiro Simões. Mestre em Bioética. Enfermeira Docente do Curso de Especialização Saúde da Família e do Curso de Graduação da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz. Carlos Eduardo da Silva Marinho. Mestre em Bioética. Enfermeira Docente do Curso de Especialização Saúde da Família e do Curso de Graduação da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz. Enfermagem de Ouro Fino. Especialista em Saúde da Família. Elisângela Cássia Marques. Enfermeira. Especialista em Saúde da Família e UTI Neonatal Larissa Dela Líbera Miranda. Enfermeira. Mestranda em Ciências da Saúde pelo IAMSP. Especialista em Saúde da Família Amanda Gleide Fernandes Carvalho. Acadêmica de enfermagem do 4º ano, do primeiro semestre da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz, de Itajubá. Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. de-se a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde: usuários, trabalhadores e gestores. Os valores que norteiam essa política são a autonomia e o protagonismo dos sujeitos, a coresponsabilidade entre eles, o estabelecimento de vínculos solidários e a participação coletiva no processo de gestão. A humanização como política transversal, proposta pelo Ministério da Saúde, na rede de saúde pública implica em reafirmar os princípios do SUS, construindo trocas solidárias e comprometidas, com a tarefa de produção de saúde e produção de sujeitos, a fim de contagiar com suas ações humanizadoras (7). O Programa Saúde da Família (PSF), ao se constituir em uma estratégia de mudança e reordenamento do modelo assistencial no Brasil, propõe-se a alavancar o Sistema Único de Saúde (SUS) que, apesar dos avanços jurídico-políticos, não foi capaz de reverter o quadro sóciossanitário nacional, regional ou local, permanecendo como hegemônico, modelo assistencial individual, curativo, cujo centro é o hospital. Portanto, o PSF é inovador em seu aspecto de relação interativa entre os profissionais de enfermagem e a comunidade, tratando-se, no entanto, de um projeto complexo, pelas suas tantas atribuições e propostas, mas que em muitos casos tem obtido excelentes resultados e alcançado saídas criativas, comprometidas e transformadoras (8). Diante do que foi exposto, despertou-nos alguns questi- 146 onamentos: será que a equipe de enfermagem reconhece o verdadeiro sentido da palavra “humanizar”? Visa à humanização do atendimento no Programa Saúde da Família? Sabe qual é o significado de atendimento humanizado? Sendo assim, elaboramos para essa pesquisa a seguinte questão: Qual o significado do atendimento humanizado para os profissionais da equipe de enfermagem do PSF? O propósito de compreendermos o significado do atendimento humanizado para a equipe de saúde, principalmente para a equipe de enfermagem do Programa Saúde da Família, implica reconhecermos que, nas nossas práticas diárias, a implementação do cuidado humanizado faz-se necessário, pois ele é fundamental na qualidade da atenção prestada. No entanto, podemos observar que isso muitas vezes não ocorre, os serviços de saúde ainda enfocam a medicina curativa, especializada, hospitalocêntrica e fragmentada. Acreditamos que este estudo poderá despertar na equipe de enfermagem do PSF e nas demais pessoas, gestores coordenadores, secretários de saúde, acadêmicos e professores o interesse em repensar suas ações ao atender o usuário, família e a comunidade, assim como, utilizarem forma mais efetiva a humanização na assistência prestada. O objetivo desta pesquisa é identificar o significado de atendimento humanizado para os membros da equipe de enfermagem do PSF de uma cidade sul mineira. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 Metodologia O estudo foi realizado nas Unidades de Saúde da Família (USF) do município de Santa Rita do Sapucaí, localizado no sul de Minas Gerias que tem uma população de 35.473 mil habitantes. Como critério de inclusão foi escolhido como sujeitos deste estudo às pessoas que fazem parte da equipe de enfermagem (enfermeiros e auxiliares), que trabalham no Programa Saúde da Família das áreas urbana e rural do município de Santa Rita do Sapucaí, Minas Gerais e aceitaram participar do estudo. Na pesquisa em questão a amostra foi de 22 profissionais que formam a equipe de enfermagem, entre eles, auxiliares e enfermeiros. A amostragem foi intencional ou proposital, na qual o pesquisador pode decidir e selecionar a maior variedade possível de respondentes, ou escolher sujeitos típicos da população em questão ou conhecedores do assunto em estudo (9). O método utilizado foi o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). De acordo com as diretrizes do Discurso do Sujeito Coletivo são utilizadas três figuras metodológicas: ExpressõesChave (ECH) são transcrições literais de cada entrevistado. Ideia Central (IC), que é uma expressão linguística que descreve de maneira sintética as ECH e o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), formado pelas ECH que tem as respectivas IC e é redigido na primeira pessoa do singular (10). Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. Introdução Atualmente, discute-se a necessidade de humanizar o cuidado, a assistência, a relação com o usuário do serviço de saúde. O SUS instituiu uma política pública de saúde que, apesar dos avanços acumulados, hoje, ainda enfrenta fragmentação do processo de trabalho e das relações entre os diferentes profissionais, fragmentação da rede assistencial, precária interação nas equipes, burocratização e verticalização do sistema, baixo investimento na qualificação dos trabalhadores, formação dos profissionais de saúde distante do debate e da formulação da política pública de saúde, entre outros aspectos tão ou mais importantes do que os citados aqui, resultantes de ações consideradas desumanizadas na relação com os usuários do serviço público de saúde (1). O modelo assistencial ainda predominante no país caracteriza-se pela prática “hospitalocêntrica”, pelo individualismo, pela utilização irracional dos recursos tecnológicos disponíveis e com baixa resolubilidade (2). O Programa Saúde da Família (PSF) propõe uma nova dinâmica para a estruturação dos serviços de saúde, bem como para a sua relação com a comunidade e entre os diversos níveis de complexidade assistencial. Assume o compromisso de prestar assistência universal, integral, equânime, contínua e acima de tudo resolutiva à população na unidade de saúde e no domicílio, sempre de acordo com suas reais necessidades, identifi- cando os fatores de riscos, aos quais ela está exposta, e nele intervindo de forma apropriada (2). A efetivação e o resgate de uma atenção humanizada exigem dos profissionais, não somente a competência técnica, mas a vivência ética. Nesse sentido o ensino da bioética pode fornecer instrumentos e novos olhares, a determinadas situações, contribuindo para que o profissional tenha uma visão diferente daquela que à prática lhe impõe. Ainda, é preciso ter claro que a qualificação e o aprimoramento dos membros da equipe são cada vez mais necessários, para que possam acompanhar as mudanças no âmbito da saúde. Ressaltamos aqui a necessidade de que a capacitação dos profissionais compreenda também os valores éticos. O cuidado humano não deve ser tratado como uma intervenção sobre o paciente. A relação não é sujeitoobjeto, mas sujeito-sujeito. Logo, a relação do cuidado não é de domínio sobre, mas de convivência, não é pura intervenção e sim entrar em sintonia com (3). Humanizar é garantir à palavra a sua dignidade ética. Ou seja, o sofrimento humano, as percepções de dor ou de prazer no corpo para serem humanizadas precisam que sejam reconhecidas pelo outro. Pela linguagem fazem-se as descobertas de meios pessoais de comunicação com o outro, sem o que se desumaniza reciprocamente. Isto é, sem comunicação não há humanização. A humanização depende da capacidade de falar e de ouvir, pois as coisas do mun- do só se tornam humanas quando passam pelo diálogo com os semelhantes (1). Humanizar caracterizase em colocar a cabeça e o coração na tarefa a ser desenvolvida, entregar-se de maneira sincera e leal ao outro e saber ouvir com ciência e paciência as palavras e os silêncios. O relacionamento e o contato direto fazem crescer, e é neste momento de troca, que humanizo, porque assim posso reconhecer-me e identificar-me como ser humano (4). A utilização do conceito de humanização no campo da saúde é recente, não existindo, ainda, grande quantidade de pesquisas sobre o tema. Humanização pode ser objeto de distintas interpretações, as quais orientarão as questões a serem pesquisadas. Uma vez que o conceito de humanização está ligado ao paradigma dos direitos e a cada dia surgem novas reivindicações de direitos, que se remetem às singularidades dos sujeitos, esse paradigma vem se tornando complexo e expandindo, alcançando novas esferas sociais e discursivas (5). Está se tornando um consenso que é necessário humanizar a assistência à saúde em nosso país. Humanizar significa reconhecer as pessoas, que buscam nos serviços de saúde a resolução de suas necessidades de saúde, como sujeitos de direitos. Humanizar é observar cada pessoa em sua individualidade, em suas necessidades específicas, ampliando as possibilidades para que possa exercer sua autonomia (6). Por humanização enten- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 145 Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. A realização deste projeto foi feita após aprovação do Comitê de Ética da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz, obedecendo à resolução 196/96 do CNS (Conselho Nacional de Saúde), que diz respeito às pesquisas com seres humanos e os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Resultados O resultado apresentado permite visualizar o tema explorado, suas IC e a síntese dos respectivos DSC de cada uma del a s . Te m a : A t e n d i m e n t o Humanizado no PSF. A questão dirigida aos entrevistados foi: Para você o que significa atendimento humanizado no PSF? Para os auxiliares de enfermagem as IC identificadas nos discursos foram: 1ª IC: interagir com o paciente DSC [...] humanização no PSF é o funcionário interagir bem com o paciente formando um vínculo profissional para que a evolução deste paciente seja mais tranquila e sem contratempos [...]; 2ª IC: Colocar-se no lugar do paciente DSC Para mim atendimento humanizado é se colocar no lugar do paciente como se a gente invertesse os papeis [...] tem horas que a gente tem que se colocar para sentir o que o paciente está sen- tindo [...]. 3ª IC: mais humano DSC [...] atendimento humanizado para mim significa um atendimento humano, ter vínculo com o paciente, saber o nome do paciente, para atendermos melhor, para ajudá-lo naquilo que é necessário [...]. 4ª IC: Tratar com amor DSC 1ª IC: assistir holisticamente DSC [...]. atendimento humanizado é aquele que assiste o indivíduo holisticamente em todas as suas necessidades biopsicossociais, desde o momento da concepção até a velhice, enfim, todas as fases da vida[...]. 2ª IC: Colocar-se no lugar do outro DSC [...] tratar o paciente com muito amor, ser paciente e atendê-lo nas suas necessidades. O PSF é um tipo de atendimento humanizado porque atende o paciente em casa[...]. [...] O atendimento humanizado é tratar o indivíduo com empatia, se colocando no lugar dele, compreendendo seus medos e angústias, desde o momento em que o paciente chega na unidade [...]. 5ª IC: Atender com respeito DSC 3ª IC: saber ouvir DSC [...]Significa ter respeito com as pessoas, ouvir com atenção, ter um tratamento com igualdade e procurar atender em todas as suas necessidades [...]. 6ª IC: Ser educado DSC [...] atendimento humanizado no PSF é atender bem o paciente, ser educado, cordial, saber explicar o que está acontecendo, não deixar com dúvida, passar segurança e principalmente atender o paciente com carinho [...]. Quanto aos DCS dos Enfermeiros foi possível detectar as seguintes IC: [...]A gente percebe que a carência dos pacientes é muito grande e, muitas vezes, essa carência transforma em doença, então se você recebe esse paciente de forma carinhosa, falando com um tom de voz agradável, dando atenção, ouvindo, olhando nos olhos, ele se sente agradecido, com isso, ele se torna satisfeito, então, sabendo ouvir esse paciente, às vezes não tem necessidade realmente de uma intervenção e uma consulta médica [...]. Discussões O programa de humanização do SUS prioriza sua atuação no atendimento de urgências e emergências, gravidez e parto Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 147 Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. de alto risco, porém essas ações devem expandir a todas as unidades de saúde. Acredita-se que a humanização deva alcançar cada vez mais um espaço concreto dentro do SUS, permitindo uma melhora entre a postura dos profissionais de saúde na relação entre os mesmos e entre o usuário (11). O usuário busca em uma instituição de saúde mais do que a cura ou alívio. Ele busca preservar a vida, recuperar a saúde, ser tratado de forma holística, com solidariedade e outros aspectos que ultrapassam a técnica. Entre os enfermeiros, “assistir holisticamente” foi a ideia central com mais frequência, em seguida: ”Saber ouvir” e “Colocar-se no lugar do outro”. Quanto aos auxiliares, o significado de cuidado humanizado foi: ”Colocar-se no lugar do paciente” e “interagir com o paciente”. Podemos confirmar nas falas dos entrevistados: “... Atendimento humanizado é aquele que assiste o indivíduo holisticamente em todas as suas necessidades biopsicossociais, desde o momento da concepção até a velhice, enfim, todas as fases da vida...” “A gente percebe que a carência é muito grande dos pacientes e muitas vezes essa carência transforma em doença, então se você recebe esse paciente de forma carinhosa, falando com um tom de voz agradável, dando atenção, ouvindo, olhando nos olhos deste paciente ele se sente agradecido muitas vezes e com isso, ele se torna satisfeito...” Outro aspecto relevante 148 é que a humanização deve ser parte da filosofia de enfermagem. O ambiente físico, os recursos materiais e tecnológicos não são mais significativos do que a essência humana. Essa, sim, irá conduzir o pensamento e as ações da equipe de enfermagem, principalmente do enfermeiro, tornando capaz de criticar e construir uma realidade mais humana (12). Em saúde, humanizar é um processo de busca que oferece ao paciente um tratamento que envolva a totalidade, o bem estar físico, psíquico, social e moral. Envolve também autocuidado, comunicação, postura profissional, ou seja, é um resgate a subjetividade do paciente. Na humanização, o profissional e o paciente possuem os mesmos sentimentos e os mesmos anseios, logo, é uma via de mão dupla, existe um feedback (13). O cuidado acompanha valores que direcionam a paz, ao amor e ao respeito. É o modo do enfermeiro se relacionar com o paciente, aplicando conhecimentos e atitudes que são influenciadas por fatores pessoais e profissionais. Os serviços de saúde pública ainda têm ações voltadas para a doença e não a pessoa (14). Assim ouvimos dos auxiliares: “... Conhecer a pessoa, aquele paciente, mas conhecer a pessoa como pessoa, não como a doença ou patologia só, às vezes conhecer tudo. Humanização no PSF é o funcionário interagir bem com o paciente formando um vínculo profissional para que a evolução deste paciente seja mais tranquila e sem contra- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 tempos...” Muitas vezes o cuidado é fragmentado, despersonalizado podendo trazer implicações à população e sua saúde. A humanização inclui cortesia, carinho e a competência é um requisito também essencial a qualquer profissional, mais o que o paciente espera do profissional é a atenção. Um paciente não sabe diferenciar se um procedimento foi executado corretamente ou não, mas esse percebe a maneira humana ou não com que está sendo cuidado (13). Os enfermeiros confirmaram em suas falas: “...Atendimento humanizado é a gente tratar bem, ser cordial, é passar todas as informações necessárias que ele precisa, é ajudar o nosso próximo, é dever e obrigação ser bem humano, se colocando no lugar do paciente...” “Acredito que atendimento humanizado é atender o paciente desde a sua chegada a unidade até o seu atendimento, olhandoo como um todo, independente da sua raça, escolaridade ou situação financeira...”. Cada usuário precisa ser tratado como único, considerando o valor e a dignidade. O cuidado humano precisa valorizar a pessoa em seu ambiente social, e não apenas as técnicas e os procedimentos (15). Assim narraram os enfermeiros: “... A humanização no PSF é você acolher o paciente desde a hora que ele chega à sua unidade de atendimento até na hora que ele vai pra casa, se estendendo também no seu domicilio, com seus familiares, pois muitas ve- Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. zes, o problema dele não se resume a unidade de saúde...” É necessário sabermos mais, por isso o PSF tem como meta o vínculo, a necessidade de entender e apoiar esse paciente na resolução dos problemas. No caminho para a prática humanística é preciso amor, as pessoas devem ser amadas porque é gente e amor que reflete a ética. O cuidado precisa vir acompanhado de estima, solidariedade, compaixão, amor e afeição. O cuidado, no contexto da humanização é um dever da pessoa e do profissional, pois o poder de transformar pelo amor e compaixão não são dons especiais de uma minoria. As relações de cuidado não são de domínio sobre, mas de convivência, de interação. É o resgate dos pequenos eventos que tornam o ser humano único e especial, prestando atendimento personalizado (16). Responderam os auxiliares que: “Atendimento humanizado ao paciente significa estar sempre pronto e apto para atender às suas necessidades, tratando sempre com amor, atenção, dedicação de acordo com as suas necessidades”. Tratar o paciente com muito amor, ser paciente e atendê-lo nas suas necessidades. Vivemos numa era de internet, que em frações de segundo nos aproximamos de pessoas e lugares, porém, não conseguimos estabelecer vínculos com quem está ao nosso lado no diaa-dia, precisamos nos educar a fim de usarmos efetivamente da comunicação (15). Como referiram os enfermeiros: “...Atendi- mento humanizado é o atendimento em que há um respeito entre enfermeiro e paciente, havendo assim uma boa comunicação e um bom relacionamento entre ambos...’’ O bom relacionamento é estabelecido a partir da empatia, pois conforme Puggina (17) a empatia é o radar do convívio social e a partir da empatia é que se cria vínculos. As pessoas revelam aquilo que sentem não apenas com palavras, mas pela sua expressão facial, olhar e outros. Dar atendimento humanizado requer dedicação e saber falar palavras de conforto, segurança e carinho (17). E os profissionais de saúde, sobretudo o enfermeiro, precisam desenvolver essa sensibilidade de criarem vínculos que favoreçam a assistência através de um bom relacionamento, ou seja, um relacionamento empático. A interação é a essência da vida social. É partir do relacionamento de seus membros que os indivíduos tornam-se um grupo. E grupo é um conjunto de pessoas que interagem (18). Podemos entender a humanização como um conjunto de coisas que se apresentam totalmente interligadas: a valorização dos sujeitos (usuários, trabalhadores, gestores), melhoria das condições de trabalho entre outros fatores que são necessários na área de saúde. O que nos caracteriza como seres humanos é a necessidade de interagir com o outro, principalmente no que diz respeito ao carinho, atenção e no apoio emocional. Para tornar o relacionamento com o usuário mais humanizado precisamos es- tar abertos, prestando mais atenção aos gestos, a palavras e bem como as expressões faciais. Quanto mais conseguirmos associar conhecimento científico aos aspectos afetivos mais próximos estará do cuidado humanizado (19). Conclusão Essa pesquisa permitiu diante das ideias centrais encontradas perceber que o atendimento humanizado no PSF requer que os usuários sejam tratados segundo suas necessidades e os profissionais devem procurar dar um cuidado holístico, tratálo com respeito e amor, ser educado e humano, interagir com o paciente, saber ouvir e, sobretudo colocar-se no lugar dele. É preciso que as equipes de PSF estejam imbuídas quanto a essas propostas e serem estimuladas a trabalhar com um atendimento mais humanizado. O cuidado humanizado passa pelo resgate dos pequenos eventos que fazem o ser humano ser único e especial nas diferentes situações, principalmente quando se almeja prestar atendimento personalizado voltado para o ser humano e não para a doença. Um gesto de acolhida, um ambiente agradável, um exame no dia e horário agendados, um sistema de informação integrado, materiais e recursos de qualidade entre outros fazem muita diferença. A transformação do modelo assistencial e a humanização do atendimento requerem que os profissionais, que atuem nas equipes de Saúde da Família (médicos, enfermeiros, auxilia- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 149 Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. res de enfermagem e agentes comunitários), tenham responsabilidade individual de esclarecer os usuários sobre as questões que lhes são mais afeitas, assim como criar condições para o estabelecimento de uma cultura institucional de informação, comunicação e humanização que leve em conta as condições sócioculturais de cada comunidade atendida. Com o avanço científico tecnológico e a modernização de procedimentos, o enfermeiro passou a assumir cada vez mais encargos administrativos, afastando-se gradualmente do cuidado ao paciente, surgindo com isso à necessidade de resgatar os valores humanísticos da assistência de enfermagem. Observamos que a enfermagem vem a cada dia despertando para um redirecionamento de seu papel enquanto um ser cuidador que se envolve com os outros, ou seja, enfermagem é a arte de cuidar. E o cuidado humanizado é uma dessas estratégias. Apesar de a literatura ressaltar a necessidade da humanização dos usuários dos serviços de saúde, pouco se sabe a respeito da implantação e dos resultados de medidas que visem minimizar a impessoalidade do cliente. Na enfermagem, embora de forma indireta, a humanização do paciente foi enfocada no século XIX, por Florence Nightingale. Em seu livro de título Notas Sobre Enfermagem, em vários momentos, ela sugere maneiras para o melhor restabelecimento dos pacientes através da adoção de medidas ambientais 150 proporcionados pelos enfermeiros. Através dos seus escritos, percebemos que naquela época, ainda que o foco principal da assistência fosse o ambiente, a humanização já estava implícita na atuação da enfermagem. Hoje, passados um século e meio, a questão da humanização ainda consiste num desafio para a profissão que precisa se adequar às demandas tecnológicas, econômicas e sociais todas elas com forte tendência a desumanização (20). A partir do exposto, sugerimos que outros trabalhos dessa natureza sejam realizados a fim de que novas estratégias sejam promovidas e gradativamente possamos intervir proporcionando melhor atendimento ao usuário. Referências 1.Oliveira, BRG; Collet, N; Vieira, CS. A humanização na assistência à saúde. Rev. Latino-americana de enferm. 2006 mar/abr; 2 (14): 277-84. 2.Sousa, MF. A enfermagem reconstruindo sua prática: mais que uma conquista no psf. Rev. brasileira de enferm. 2000 dez; 53 (especial): 25-30. 3.Gaiva, MAM. O cuidar em unidades de cuidados intensivos neonatais: em busca de um cuidado ético e humanizado. Rev. Cogitare enferm. 2006; 11 (1): 61-66. 4.Oliveira, ME. Mais uma nota para a melodia da humanização. In: A melodia da humanização: reflexos sobre o cuidado durante o processo do nascimento. Florianópolis: Cidade futura; 2001. 5.Vaitsman, J; Andrade, GRB. Satisfação e responsabilidade: formas de medir a qualidade e a humanização da assistência à saúde. Rev. Ciência e saúde coletiva. 2005 jul./set; 3(10): 345-359. 6.Fortes, PAC; Martins, CL. A ética, a humanização e a saúde da família. Rev. Brasileira de enferm. 2000 dez; 53 (especial): 31-33. 7.Brasil, Ministério da Saúde. Política nacional de humanização: documento base para gestores e trabalhadores do SUS, Brasília 2004. 8.Ayres, RCV; Pereira, SAOE; Ávila, SMV; Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 Valentim, W. Acolhimento no psf: humanização e solidariedade. Rev. O mundo da saúde. 2006 abr./jun; 2 (30): 306-311. 9.Polit, DF; Beck, CT; Hungler, BP. Fundamentos de pesquisa em enfermagem: métodos, avaliação e utilização. 5. ed. Porto Alegre: Artmed; 2004. 10.Lefevre, F; Lefevre, AMC. DSC: um novo enfoque em pesquisa qualitativa (desdobramentos). 2. Ed. São Paulo: Educs; 2005. 11 . B r a s i l , M i n i s t é r i o d a S a ú d e . Humanização – SUS. Brasília, 2000. 12. Bedin, E; Ribeiro, IBM; Barreto, RASS. Humanização da assistência de enfermagem em centro cirúrgico. Rev. Eletrônica de enferm. 2004; 6 (3):118-127. 13.Mezzono, JC. Hospital humanizado. Fortaleza: Premius, 2001. 14.Farias, MCAD; Varela, ZMV; Oliveira, FB. Retroação social em enfermagem comunitária: um estilo de cuidado. Rev. Nursing. 2006 out; 9(101): 1050-1056, 15.Pessini, L. Bioética: um grito por dignidade de viver. São Paulo: Paulinas; 2006. 16.Backes, DS; Lunardi Filho, WD; Lunardi, LV. A construção de um ambiente de cuidado humano: percepção dos integrantes do grupo de humanização. Rev. Nursing. 2006 out; 9(101): 1057-1063 17.Puggina, ACG. Administrar o tempo pode mudar o jeito de dizer “bom dia”. In: Silva M JP. Qual o tempo do cuidado? São Paulo: Loyola; 2004. 18.Berusa, AAS; Ricco, GMG. Trabalho em equipe. In: Cianciarullo TI. Instrumentos básicos para o cuidar. São Paulo: Atheneu; 1996. Cap. 7. 19.Martins, MCFN. Humanização das relações assistenciais: a formação do profissional de saúde. Casa do psicólogo: 2001; p.130. 20.Matsuda, LM; Silva, N; Tisolin, AM. Humanização da assistência de enfermagem: estudo com clientes no período pósinternação de uma UTI adulto. Rev. Acta scientarum. Health sciences. 2003; 25 (2): 163-170. Práticas comprovadamente úteis e que devem ser estimuladas durante o trabalho de parto e parto, que estão sendo realizados por enfermeiras obstétricas: revisão de literatura Provenly useful practices that are being carried out by obsterician nurses which should bencouraged during labor and parturition: literature review Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n25; (148-155). Resumo As taxas de morbi mortalidade materna e neonatal e de partos cesariana chegaram a índices preocupantes no Brasil. Para reverter este quadro o Ministério da Saúde (MS) criou leis, portarias, manuais e financiou e incentivou cursos de especialização em enfermagem obstétrica. Essas especialistas estão aptas a assistir a mulher durante o pré natal, parto e puerpério, prestando uma assistência humanizada e em consonância com as práticas para a assistência recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Assim sendo, este estudo buscou através de um levantamento bibliográfico, conhecer as quais práticas de assistência comprovadamente úteis e que devem ser estimuladas, estão sendo utilizadas pelas enfermeiras obstétricas durante o trabalho de parto e parto. Foram selecionados 31 trabalhos nacionais e 22 internacionais, das bases de dados ScieLo, BDEnf, Dedalus, Lilacs, MedLine, Ibecs, Cochrane e PubMed, no período de 2005 a 2009. As práticas utilizadas abordaram a qualidade da atenção oferecida, autonomia e capacidade de atuação, assistência nos centros de parto normal, posição adotada durante o trabalho de parto e parto, técnicas alternativas de alívio a dor, alimentação durante o trabalho de parto, utilização do partograma, suporte emocional, presença de acompanhante, realização de episiotomia, taxas de parto operatório e importância do pré natal. Concluiu-se que apesar do número de publicações realizadas pelas enfermeiras obstétricas estar aumentado, ainda é necessário que elas se organizem melhor, buscando realizar mais estudos e divulgação de sua atuação. Palavras chave: Enfermeiras obstétricas; Práticas de assistência; Trabalho de parto; Parto normal. Abstract Maternal, neonatal and Cesarean section mortality rates have reached worrying indexes in Brazil. To change this picture the Ministry of Health has created laws, decrees and guides, and has also financed and promoted graduate specializations in obstetric nursing. These graduate nurses are qualified to assist women during prenatal, parturition and puerperium, delivering a humanized assistance according to the assistance practices recommended by World Health Organization (WHO). Thus, this study has tried to know, by means of a bibliographical survey, which assistance practices are being used by obstetrician nurses during labor and parturition, that are provenly useful and that should be encouraged, 31 national and 22 international studies were selected from ScieLo, BDEnf, Dedalus, Lilacs, MedLine, Ibecs, Cochrane and PubMed databases, between 2005 and 2009. The practices used approached the quality of the attention given, autonomy and capacity of action, assistance in normal birth centers, position adopted during labor and parturition, alterna- 152 support, presence of companion, episiotomy, Cesarean section rates and importance of prenatal care. It was concluded that despite the fact that the number of publications carried out by obstetrician nurses is increasing, they still need to be better organized, to carry out more studies and divulge their actuation. Key words: Obstetrician nurses; assistance practices, labor, normal birth. Torcata Amorim. Mestre em Enfermagem. Doutoranda em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo – EEUSP.Docente do Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem – Universidade Federal de Minas Gerais. Enfermeira Obstetra (EEUFMG). Dulce Maria Rosa Gualda. Doutora em Enfermagem. Obstetriz.Professora Titular do Departamento de Enfermagem MaternoInfantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. 153 Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda. INTRODUÇÃO As taxas de mortalidade materna e neonatal e de parto cesariana no Brasil, apesar de sofrerem diferenças nas diversas camadas sociais e regiões, podem ser consideradas um problema de saúde pública no geral. O índice de morte materna atingiu a marca de 51,7 óbitos declarados por 100.000 nascidos vivos em 2003. O cálculo do Coeficiente de Morte Materna (CMM) sofre interferência devido à subinformação, que resulta do preenchimento incorreto das declarações de óbito e/ou, por se omitir que a morte teve causa relacionada à gestação, ao parto ou ao puerpério. E também, devido ao subregistro, que é a omissão do registro do óbito em um cartório. Assim, o CMM estimado é de 72,4 /100.000 nascidos vivos. Os maiores valores são encontrados nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, e o menor na região Sudeste. As principais causas de morte são as obstétricas diretas, com destaque para as doenças hipertensivas e as síndromes hemorrágicas (). Nos países desenvolvidos, as razões de mortalidade materna são em geral, inferiores a 20/100.000 ou 10/100.000 nascidos vivos (2). Os partos cesariana representam 46% dos partos realizados no Brasil, sendo que, a Organização Mundial da Saúde recomenda que essas cirurgias devam corresponder a no máximo 15% dos partos(3). A incidência de morte materna associada à cesariana é 3,5 vezes maior do que no parto normal (4). Esta situação reflete as 154 condições de assistência que a população feminina em fase reprodutiva está submetida, já que, muitos partos cesariana e mortes maternas poderiam ser evitadas. Segundo Cecatti, Calderon (5), a atenção profissional à gestante e/ou parturiente representa seguramente elemento chave para a obtenção de bons resultados, tanto maternos quanto perinatais. Assim, melhores condições da atenção profissional e institucional ao parto, independentemente de outras características das mulheres, são capazes de diminuir a ocorrência de morbidade materna grave e de mortes maternas. Diante deste quadro, o Ministério da Saúde do Brasil criou leis, portarias e manuais, buscando uma assistência mais humanizada e reverter estas taxas. Dentre as medidas adotadas podemos destacar o Programa de Humanização do Pré-natal e Nascimento (PHPN)(6); a publicação do manual “Parto, Aborto e Puerpério: Assistência Humanizada à Mulher”(7); o Pacto de Ação para Redução da Mortalidade Materna(8); a inclusão na tabela do Sistema Único de Saúde (SUS), o pagamento pelo parto normal sem distócia realizado pela enfermeira obstétrica(9); a aprovação do laudo de enfermagem para emissão de Autorização de Internação Hospitalar (AIH) para parto normal(10); o Prêmio Galba de Araújo que premia maternidades que atendem ao SUS e que desenvolvem ações de humanização à gestante e ao recém-nascido, estimulam o parto normal, alojamento conjunto e Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 aleitamento(11) e a criação de Centros de Parto Normal no âmbito do SUS, onde a enfermeira obstétrica é membro da equipe mínima(12). A Organização Mundial da Saúde (OMS), Confederação Internacional de parteiras (CIF) e a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO), consideram que, dentre os prestadores de serviços de parto, a enfermeira-parteira, é uma profissional que recebeu treinamento adequado e que está apta para assumir a responsabilidade pela assistência à gestação e ao parto normal, com competência para agir de modo decidido e independente (13). Mulheres em trabalho de parto quando acompanhadas por profissionais não médicos, necessitam de menos analgésicos, há menos intervenções e os resultados finais são melhores que aqueles produzidos pela assistência médica convencional (14,15). Nos países industrializados, onde as parteiras são os provedores de saúde primários de mulheres saudáveis durante o parto, os resultados maternos e neonatais são mais favoráveis, incluindo menores taxas de mortalidade perinatal e menores taxas de cesariana, que nos países em que muitas mulheres saudáveis, ou a maioria delas, são atendidas por obstetras durante a gravidez (16). A experiência exitosa de alguns países, bem como, as medidas adotadas pelo Ministério da Saúde, incentivou a atuação de enfermeiras obstétricas, porém não havia no mercado, especialistas disponíveis, conforme Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda. observam Maranhão et al.: “existe uma deficiência de profissionais que atuam na área materno-infantil, dentre eles, enfermeiras obstetras e parteiras profissionais”(17:20). Buscando atender o espaço de atuação que se abria para as enfermeiras obstétricas, o Ministério da Saúde, Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (ABENFO), escolas de enfermagem e profissionais da área se mobilizaram para discutir modelos de formação para estas profissionais. Então, no final da década de 1990, o Ministério da Saúde, através da Área Técnica de Saúde da Mulher, passou a financiar cursos de especialização em enfermagem obstétrica em todo o país (18). Em 2005, durante a II Conferência Internacional sobre Humanização do Parto e Nascimento, as recomendações para promover a incorporação das práticas humanizadas na assistência ao parto e nascimento em todo o mundo foram reforçadas (19), confirmando a importância da atuação das enfermeiras obstétricas neste modelo de assistência. Para Costa (20), estas profissionais estão começando a desenhar um novo cenário na assistência humanizada à mulher no pré-natal, parto, nascimento e puerpério, no Brasil. Mas infelizmente, a atuação destas profissionais ainda não foi suficiente para mudar o quadro de assistência. Segundo Brasil (21), apesar da estabilização nos índices de mortalidade materna, associado à melhoria da qualidade da atenção obsté- trica e ao planejamento reprodutivo a partir do ano 2000, a assistência ao parto e nascimento ainda é marcada pela medicalização, intervenções desnecessárias e iatrogênicas, e pela prática abusiva de cesarianas. Buscando humanizar a assistência, a OMS recomendou a utilização das seguintes medidas: implementação da assistência pré-natal, organização de sistemas de atenção à gestante de alto risco, redução das taxas de parto cesárea, promoção do parto normal, investimentos em reformas de maternidades, publicação de normas técnicas atualizadas de atendimento durante o pré-natal, gestação e, em situações de alto risco e emergências obstétricas. Recomendou ainda, que se respeitasse o processo fisiológico e a dinâmica de cada nascimento, e que, as intervenções sejam cuidadosas, evitando-se os excessos e utilizando-se criteriosamente os recursos tecnológicos disponíveis. A OMS ainda classificou as práticas relacionadas ao parto normal em quatro categorias: A) Práticas comprovadamente úteis e que devem ser estimuladas; B) Práticas claramente prejudiciais ou ineficazes e que devem ser eliminadas; C) Práticas em relação às quais não existem evidências suficientes para apoiar uma recomendação e que devem ser utilizadas com cautela, até que novas pesquisas esclareçam a questão e D) Práticas freqüentemente utilizadas, de modo inadequado (13). Dentre as práticas comprovadamente úteis e que devem ser estimuladas durante o trabalho de parto e parto, destacamos a elaboração de um plano pessoal de parto; acompanhamento do bem estar físico e emocional da mulher; o oferecimento de líquidos por via oral; respeito à mulher em relação à escolha do local de nascimento e avaliação da segurança para o acontecimento do parto; privacidade e escolha de um acompanhante; oferecer apoio e informações da evolução e assistência; utilização de métodos de massagem e técnicas de relaxamento para alívio da dor; liberdade na escolha da posição e movimento; utilização do partograma; promoção precoce do contacto pele a pele entre mãe e filho e início do aleitamento na 1 hora de pós-parto (13). No Brasil, a atuação das enfermeiras obstétricas está pautada no Decreto lei n° 94.406 que regulamenta a Lei n°7.498 de 25 de junho de 1986 que em seu artigo 9° faz referência aos profissionais titulares de diploma ou certificado de obstetrizes e enfermeiras obstetras, incubindo-as de: 1) prestar assistência à parturiente e ao parto normal; 2) identificar as distócias obstétricas e tomada de providências, até a chegada do médico; 3) realizar episiotomia e episiorrafia, com aplicação de anestésico local, quando necessário (22). Diante da deliberação destas medidas e da maior participação da enfermeira obstétrica no cenário de assistência ao parto e nascimento, sentimos necessidade de conhecer através de publicações, quais práticas não farmacológicas e não inva- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 155 Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda. sivas estão sendo utilizadas/aplicadas por estas profissionais, as parturientes. Objetivo Identificar, através de um levantamento bibliográfico de publicações científicas nacionais e internacionais, quais práticas de assistência comprovadamente úteis e que devem ser estimuladas, estão sendo utilizadas pelas enfermeiras obstétricas durante o trabalho de parto, visando uma atenção humanizada. Método Para realizar esta pesquisa, buscando atender ao rigor necessário a um trabalho científico, primeiramente foram definidos alguns critérios de inclusão. Os trabalhos teriam que deixar claro a utilização de práticas que, segundo a OMS, são comprovadamente úteis e devem ser estimuladas; qual prática foi utilizada e, a participação de enfermeiras na atividade. Definiu-se como critério de exclusão a falta de acesso ao trabalho na íntegra. Diante destes critérios foram selecionados 53 artigos, dissertações e teses encontradas nas bases de dados ScieLo, BDEnf, Dedalus, Lilacs, MedLine, Ibecs, Cochrane e PubMed no período de 2005 a 2009. A consulta à base de dados foi realizada através dos descritores: enfermeira obstétrica / obstetrical nursing, obstetriz / midwive; trabalho de parto / labor; assistência / assistence. Para a seleção dos artigos, inicialmente foi realizada uma avaliação de cada re- 156 sumo e excluído os artigos, cujo resumo deixava claro a não afinidade com o tema proposto. Posteriormente foram analisados os trabalhos restantes, chegando-se ao número de 53. Os artigos que não estavam disponíveis on line foram encomendados através da biblioteca Baeta Viana – UFMG. O levantamento foi finalizado quando se percebeu um esgotamento dos trabalhos e sua repetição nas bases de dados. Resultado e Discussão Foram selecionados 31 (trinta e um) artigos nacionais e 22 (vinte e dois) internacionais que abordavam direta ou indiretamente as práticas de assistência utilizadas. Alguns trabalhos citavam a utilização de mais de um método comprovadamente útil e que deve ser estimulado na assistência durante o trabalho de parto e parto. A qualidade da atenção prestada por enfermeiras obstétricas, visando uma melhor assistência, conforto, participação da parturiente e melhores resultados durante o trabalho de parto e parto, foi o assunto mais debatido, ressaltando-se a importância do acompanhamento e suporte da profissional. Foi frequente nos artigos, referência a importância da privacidade durante o processo de parturição, fazendo parte da qualidade da assistência. Para Brasil (23) o bem estar físico e emocional da mulher contribuem para o bom desenvolvimento do trabalho de parto e favorecem a redução dos riscos e complicações. Para tanto, é necessário o respeito ao di- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 reito da mulher à privacidade, a segurança e conforto, com uma assistência humana e de qualidade, aliado ao apoio familiar durante a parturição, transformando o nascimento num momento único e especial. Segundo a OMS (24) a privacidade da mulher no ambiente de parto deve ser respeitada e, uma parturiente necessita de seu próprio quarto, onde o número de prestadores de serviço deve ser limitado ao mínimo essencial. Autonomia e capacidade de atuação, e de tomada de decisão das profissionais foi ressaltado, como sendo fator importante para o sucesso dos resultados do trabalho desenvolvido. Os artigos que abordavam a atenção oferecida nos Centros de Parto Normal (CPN) eram mais explícitos quanto às práticas utilizadas, às necessidades das parturientes, à satisfação das profissionais e clientela com o trabalho oferecido e, a motivação e dificuldades das profissionais para o desenvolvimento das práticas. A experiência positiva da assistência em um centro de parto normal foi apresenta no trabalho de Campos e Lana (25), que investigaram os resultados do CPN Dr. Davi Capistrano Filho em Belo Horizonte - MG. Os autores concluem que os resultados daquele centro não se distanciam dos resultados encontrados na literatura disponível, e destaca a baixa taxa de parto cesárea (2,2%), como o resultado mais significativo. A posição adotada pela parturiente durante o parto apareceu em artigos nacionais, comparando a posição adotada, com Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda. a integridade do períneo, trauma perineal e paridade. O trabalho internacional avaliou a integridade do períneo, edema vulvar e perda sanguínea, com a posição adotada no período expulsivo. A OMS recomenda que as parturientes adotem as posições que lhe agradem, devendo ser estimuladas por profissionais capacitados, e que acompanhem partos em outras posições, além da tradicional. Em posições diferentes da litotomia, os escores de Apgar foram melhores(13). Mouta et al.(26) alerta que a posição vertical requer dos profissionais cuidados específicos em relação à proteção perineal, de modo a evitar a episiotomia ou a laceração. A literatura nacional mencionou as massagens e banho como técnicas alternativas de alívio à dor e a internacional citou técnicas de respiração. A prática de colocar a gestante para deambular foi encontrada em um artigo que comparou o tempo de duração do trabalho de parto em parturientes que deambularam, com as que permaneceram no leito. Almeida, et al. (27) realizaram um estudo utilizando técnicas de respiração e relaxamento em 36 parturientes, sendo 17 do grupo controle (GC) e 19 do grupo experimental (GE), de uma maternidade pública de Goiânia – GO, a pesquisa concluiu que as técnicas utilizadas não reduziram a intensidade da dor, mas promoveram ao GE a manutenção de baixo nível de ansiedade-estado (condição transitória de tensão diante de uma circunstância percebida como ameaçadora), por maior tempo na parturição (fase latente e ativa). A especificação da dieta oferecida durante o trabalho de parto foi encontrada em um artigo internacional, que comparava a ocorrência de distócia de dilatação cervical em um grupo de mulheres que receberam dieta líquida, com um grupo que recebeu dieta rica em carboidratos, constatando-se que não houve diferença significativa entre os grupos. Segundo a OMS (13), a adoção de dietas branda para repor as fontes de energia requeridas no trabalho de parto, previne a desidratação e a cetose, garantindo o bem-estar fetal e materno. Portanto, a oferta de líquidos e alimentos leves por via oral à parturiente, respeitando o seu desejo, além de não interferir no desenvolvimento do trabalho de parto e parto, pode ser benéfico. A abordagem sobre a utilização do partograma foi feita ao se avaliar a sua eficácia, sua utilização ou não na instituição e o preenchimento correto. O partograma é a representação gráfica do trabalho de parto, permitindo acompanhar sua evolução, documentar, diagnosticar alterações e indicar a tomada de condutas apropriadas para a correção dos possíveis desvios. É um método simples e ajuda a evitar intervenções desnecessárias (23). Os artigos ressaltaram as vantagens do suporte emocional dado pelo acompanhante durante o processo de parturição. Os resultados enfatizavam a importância do acompanhante de escolha da parturiente e a segurança e conforto que são transmitidos por eles, repercutindo em resul- tados positivos. A presença de um acompanhante de escolha da parturiente e puérpera está respaldada na Portaria N° 2418 06 de dezembro de 2005(28), porém, este procedimento ainda não acontece rotineiramente em muitas maternidades do país. Alguns artigos nacionais mostram a preocupação com o número de episiotomias, e a necessidade de avaliação do períneo para sua indicação correta, bem como a necessidade de mudança desta prática, tão amplamente difundida. O uso liberal ou rotineiro da episiotomia está inserido no grupo D da publicação da OMS, que aborda as condutas frequentemente utilizadas de forma inapropriadas (13). A comparação do número de partos normais x partos cesarianos nas instituições, e os motivos para indicação da cirurgia, foram mais encontrados em trabalhos nacionais, mostrando a preocupação dos profissionais com estes dados. Os descritores para o levantamento dos artigos não abrangiam a assistência prénatal, porém, fazemos destaque aos artigos que abordavam mais de uma prática sendo utilizada e, dentre elas, discutiam a importância do preparo da gestante durante o pré natal. Este momento apareceu nos trabalhos como de suma importância para informar e preparar as gestantes e familiares para o trabalho de parto e parto, passar-lhes segurança, e reduzir com isto, a ansiedade. Esses procedimentos realizados durante o atendimento de pré natal, se mostraram importantes aliados no incentivo ao parto nor- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 157 Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda. mal. Segundo a OMS (24), uma importante tarefa do parteiro é ajudar as mulheres a suportar a dor durante o trabalho de parto. E, além do alívio farmacológico, é fundamental, e mais importante, a abordagem não farmacológica, que deve ser iniciada durante o pré-natal com o fornecimento de informações tranqüilizadoras à gestante e ao seu companheiro, e também à sua família, se necessário. Outro fator que contribui para diminuir a necessidade de analgesia farmacológica é o apoio empático de prestadores de serviço e acompanhantes, antes e durante o trabalho de parto. Considerações finais Observamos durante a revisão de literatura que a produção da enfermagem obstétrica vem aumentando nos últimos anos e, muitos destes trabalhos são frutos de dissertações e teses, o que mostra um maior número de profissionais se qualificando. O pré requisito de analisar o trabalho na íntegra atende ao rigor do trabalho científico, mas excluiu alguns trabalhos, uma vez que, não estavam disponíveis por completo on line e, a encomenda no sistema de comutação era muitas vezes onerosa e demorada. A inclusão de artigos que indiretamente abordavam a prática utilizada, como por exemplo, a comparação do tempo de trabalho de parto em parturientes com movimentação ativa e em repouso, contribuiu para que mais artigos pudessem ser incluídos. Vemos nos artigos anali- 158 sados que as práticas comprovadamente úteis e que devem ser estimuladas na assistência ao parto de baixo risco, realizadas por enfermeiras obstétricas, tem aparecido, de modo ainda tímido. Poucos trabalhos mostraram de forma direta as práticas utilizadas, seus resultados quantitativos e qualitativos. A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher – 2006(29), verificou que 98% dos partos no Brasil ocorrem em hospitais, porém, destes, 89% são assistidos por médicos e 8,3% por enfermeiras. Estes resultados podem justificar parcialmente o número reduzido de trabalhos encontrados, abordando as atividades desempenhadas pelas enfermeiras obstétricas. A mesma pesquisa (29) mostrou que o alívio da dor através de métodos não invasivos e não farmacológicos e a presença do acompanhante, somadas às medidas farmacológicas (analgesia peridural) são pouco aplicadas, visto que foram encontradas somente em 28% para a utilização dos métodos, e 16%, para a presença do acompanhante. Buscou-se com os achados internacionais, apesar de não serem objetos deste estudo, identificar as práticas que mais aparecem nos artigos de outros países. Entende-se que, os trabalhos internacionais merecem um levantamento e avaliação independentes, uma vez que em muitos países, a atuação da enfermeira obstétrica, obstetriz ou matrona já está consolidada, e em outros não. Concluímos que compe- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 te às profissionais se organizar melhor, buscando meios de realizar estudos freqüentes e confiáveis, que permitam tornar públicos os resultados obtidos através de seu trabalho. A partir destes resultados, de preferência qualitativos e quantitativos, novas metas de assistência poderão ser traçadas. Consideramos ser esta uma forma eficaz de contribuir para a melhoria da qualidade da assistência e redução das taxas de morbi mortalidade materna e neonatal e de partos cesárea. Referências 1.Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Manual dos Comitês de Mortalidade Materna. 3ª ed. Série A. Normas e Manuais Técnicos. Brasília – DF. 2007. 103 p. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos /pdf/comites_mortalidade_materna_M.pd f. [2010 fev. 25] 2.Sousa MH, et al. Sistemas de informação em saúde e monitoramento de morbidade materna grave e mortalidade maternal. Rev. Bras. Saúde Mater. Infant. v.6 n.2. A p r. / J u n . 2 0 0 6 . D i s p o n í v e l e m : http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S151 938292006000200002&script=sci_arttex t&tlng=em. [2010 fev.23] 3.Brasil. Ministério da Saúde. Saúde, Brasil. Duas décadas de transformação social. Publicação do Ministério da Saúde. Agosto de 2008. Edição n° 147. ISSN 16788 4 9 4 . D i s p o n í v e l e m : http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos /pdf/saude_brasil_agosto_2008.pdf. [2010 fev. 23] 4.Brasil. Ministério da Saúde. Parto normal: mais segurança para a mãe e o bebê. D i s p o n í v e l e m : http://portal.saude.gov.br/saude/visualiza r_texto.cfm?idtxt=20911. [2010 fev. 25] 5.Cecatti JG, Calderón IMP. Intervenções benéficas durante o parto para a prevenção da mortalidade maternal. Rev. Bras. Ginecol. Obstet. v. 27 n. 6. Jun. 2005. 6.Portaria nº 569/GM em 1 de junho de 2000 - Institui o programa de humanização no pré-natal e nascimento, no âmbito do Sistema Único de Saúde. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/saude/vi sualizar_texto.cfm?... [2009 nov. 25] Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda. 7.Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Área Técnica de Saúde da mulher. Parto, Aborto e Puerpério: Assistência Humanizada à Mulher. Brasília: Ministério da Saúde, 2001. 8.Brasil. Ministério da Saúde. Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal: Balanço de 3 anos. OMS/OPS. Brasília, 2007. 8p. 9.Brasil. Lei n° 2.815 de 29 de maio de 1998. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília (DF) 1998c jun.2; Seção 1: 47-8. 10.Brasil. Lei n° 163 de 29 de maio de 1998. Aprova o laudo de enfermagem para emissão de autorização de internação hospitalar. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília (DF) 1998b jun.2; Seção 1: 47-8. 11.Brasil. Portaria n° 2.883/GM de 4 de julho de 1998. Institui o prêmio Professor Galba de Araujo no Sistema Único de Saúde. Brasília (DF) s.n. 1998 12.Brasil. Ministério da Saúde. Portaria 985/99 GM de 05 de agosto de 1999 - CPN 13.Organização Mundial de Saúde. Assistência ao parto normal: um guia prático. Genebra: OMS/SRF/MSM, 1996. 51p 14.Hodnett ED & Osborn RW. A randomized trial of the effect of monitrice support during labor: mothers views two four weeks postpartum. Birth. 1989 16:177-83. 15.Blanchette,H. Comparison of obstetric outcome of a primary-care access clinic staffed by certified nurse-midwives and a private practice group of obstetricians in the same community. Am. J Obst. Gynecol 172 (6):1864-1868. 16.Enkin M, et al. Guia para atenção efetiva na gravidez e no parto. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogam; 2005. 279 p. 17.Maranhão et al. (1990), Apud Brasil (1995, p. 20): Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Assistência à Saúde. Coordenação Materno-Infantil. Plano de ação para redução da mortalidade materna. Brasília; 1995. 22p. 18.Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Área Técnica de Saúde da Mulher. Comitê de Especialistas em Enfermagem Obstétrica: diretrizes para elaboração de projetos de cursos de especialização em enfermagem obstétrica. Brasília. 2004. 19.Rede pela Humanização do Parto. REHUNA. II Conferência Internacional sobre Humanização do Parto e Nascimento. XV Encontro de Gestação e Parto Natural Conscientes. Rio Centro: Rio de Janeiro. 2005. 20.Costa, AANM. Enfermeiras obstetras egressas dos cursos financiados pelo Ministério da Saúde na região nordeste do país: caracterização e atuação profissional. [Tese de Doutorado]. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo, 2007. 21.Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção a Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Área Técnica de Saúde da Mulher. Relatório de gestão 2003 – 2006. Brasília 2007 22.Brasil. Lei n° 7.498 de 25 de junho de 1986: dispõe sobre a regulamentação do exercício da enfermagem e da outras providências. Diário Oficial da República Federativa do Brasil. 2006 jun 26; Secção 1:1. 23.Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas públicas de Saúde. Parto Aborto e Puerpério. Assistência humanizada à mulher. 2ª ed. Brasília – DF. 2003 24.Organização Mundial da Saúde. Maternidade segura. Disponível em: http://www.abcdoparto.com.br/Assistenci a/AssistenciaPartoNormal-OMS.htm. [2010 fev. 25] 25.Campos SEV, Lana FCF.. Resultados da assistência ao parto no Centro de Parto Normal Dr. David Capistrano da Costa Filho em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Cad. Saúde Pública, v.23, n.6. Jun. 2 0 0 7 . D i s p o n í v e l e m : http://www.scielosp.org/scielo.php?script =sci_arttext&pid=S0102311X2007000600010&lng=pt. [2010 jan. 22] 26.Mouta RJO, et al. Relação entre posição adotada pela mulher no parto, integridade perineal e vitalidade do recémnascido. Rev. Enf. UERJ 2008; out/dez; 16(4):472-6. 27.Almeida NAM; et al. Utilização de técnicas de respiração e relaxamento para alívio de dor e ansiedade no processo de parturição. Rev. Latino-Am. Enfermagem 2005; Jan./Feb. v.13 n.1 Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sc i _ a r t t e x t & p i d = S 0 1 0 4 11692005000100009&lng=en&nrm=iso. [2010 jan. 19] 28.Brasil. Portaria N° 2418 06 de dezembro de 2005. Regulamenta em conformidade com o Art. 1º da Lei nº 11.108, de 7 de abril de 2005, a presença de acompanhante para mulheres em trabalho de parto, parto e pós-parto imediato nos hospitais públicos e conveniados com o Sistema Único de Saúde - SUS. 29.Brasil. Ministério da Saúde. PNDS 2006 - Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher. Brasília – DF, 2008. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 159 Aleitamento materno exclusivo: fatores norteadores para sua prática Exclusive breastfeeding: guiders factors for its practice Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n25; (156-164). Resumo Estudo de abordagem qualitativa realizado em uma Unidade Básica de Saúde do município de Juiz de Fora/MG, após aprovação do Comitê de Ética da UFJF, parecer nº 143/2007. Foram depoentes onze mulheres, amamentando filhos com até seis meses de idade, com o objetivo de compreender o significado do aleitamento materno exclusivo para as mães que amamentam descrevendo os fatores incentivadores e norteadores dessa prática. Utilizou-se a entrevista aberta mediante relação empática e a redução de pressupostos com vistas ao desenvolvimento da análise compreensiva fenomenológica na perspectiva heideggeriana. Foram constituídas quatro unidades de significação - O leite como principal alimento para o bebê e a importância da amamentação; Sentimento de aproximaçãracto e contato mãe/filho ao amamentar; Facilidades e dificuldades do dia-a-dia da amamentação; Dúvidas que emergem da prática da amamentação exclusiva. A análise compreensiva desvelou que as mulheres mostraram-se como ser-aí-com porque buscaram dialogar com os enfermeiros em face da possibilidade de amamentar até o sexto mês. Nesse sentido o apoio e auxílio para o processo de viver a amamentação de forma saudável exigem uma relação assistencial empática e de diálogo com as mulheres/mães. Descritores: Saúde da mulher, aleitamento materno, enfermagem em saúde comunitária Abstract Study of qualitative approach realized in a Basic Unit of Health of the Juiz de Fora/MG county, after approval of the Comitê de Ética da UFJF (Committee of Ethics of the UFJF), report n.143/2007. Eleven women were deponents, breastfeeding children up to six months old, with the aim at understanding the meaning of the exclusive breastfeeding for the mothers that breastfeed describing the stimulator and guider factors of this practice. It was used the open interview through empathic relation and the presupposed reduction in review of the development of the phenomenological comprehensive analysis development in the heideggerian perspective. Four units of signification were constituted: the milk as main food for the baby and the breastfeeding importance; Sentiment of approach and contact of the mother/child binomial on breastfeeding; Opportunities and difficulties of the breastfeeding daily and doubts that emerge from the exclusive breastfeeding´ s practice: the nurse in the context of the promotion and support to the exclusive breastfeeding. The comprehensive analysis unveiled that the women showed themselves as eager, because they searched for dialoguing with the nurses in the face of the possibility of breastfeeding up to the sixth month. Therein the support and aid for the empathic assistance relation and of the dialogue with the women/mothers. Descriptors: Woman, breastfeeding, nursing. 160 Anna Maria de Oliveira Salimena. Enfermeira. Graduada no 2º sem/2007 do Curso de Enfermagem da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Juiz de Fora (FACENF/UFJF). Marilena Cazetta Venâncio. Orientadora da Pesquisa. Doutora em Enfermagem. Professora Associada do Departamento Enfermagem Aplicada da FACENF/UFJF. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa O cotidiano do cuidar em Enfermagem da FACENF/UFJF e do Núcleo de Pesquisa em Enfermagem em Saúde da Mulher NUPESM/ EEAN/UFRJ. Maria Carmen Simões Cardoso de Melo. Mestre em Enfermagem. Professora Assistente do Departamento Enfermagem Aplicada da FACENF/UFJF. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro - EEAN/UFRJ. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa O cotidiano do cuidar em Enfermagem da FACENF/UFJF e do Núcleo de Pesquisa em Enfermagem em Saúde da Mulher NUPESM/ EEAN/UFRJ. Ívis Emília de Oliveira Souza. Doutora em Enfermagem. Professora Titular de Enfermagem Obstétrica do Departamento Enfermagem Materno - Infantil da EEAN/UFRJ. Pesquisadora e Membro da Diretoria do Núcleo de Pesquisa em Enfermagem em Saúde da Mulher - NUPESM/EEAN/UFRJ. 161 Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza. Introdução As propriedades nutricionais e imunológicas presentes no leite materno bem como as influências psicológicas, emocionais e afetivas propiciadas pela amamentação, confirmadas nos estudos científicos produzidos nos últimos trinta anos são incontestáveis, entretanto o desmame precoce ainda é uma realidade. Na implementação da proposta de Promoção, Proteção e Apoio ao Aleitamento Materno parece que a modalidade de aleitamento materno exclusivo até o sexto mês ainda precisa ser mais bem difundida e discutida entre as gestantes e mães. Pois, o fato de muitas mães não terem informações sobre os benefícios do leite materno e da alimentação no seio, bem como a falta de assistência, apoio e orientação tanto dos profissionais da saúde quanto de familiares, contribui para o desmame precoce e chama-nos à atenção. Iniciativas de promoção, e proteção do aleitamento materno estão sendo realizadas, entre elas a Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC), que segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia é uma estratégia para implementar mudanças nas rotinas e práticas referentes à amamentação nos serviços de saúde (1). Contudo, apesar do consenso acerca das inúmeras vantagens do aleitamento materno e da mobilização mundial nas últimas décadas para recuperação da cultura da amamentação o desmame precoce ainda é uma 162 prática comum em todo o mundo, mesmo sabendo-se que o aleitamento materno proporciona um momento de interação mãefilho prazeroso para ambos (2). Além disso, o leite materno é a melhor e mais completa fonte nutricional do bebê e traz também, várias vantagens tanto para mãe quanto para o recém-nascido (3). A dupla mãe e filho está ligada por um afeto mútuo, uma intensa relação emocional e após estabelecidos esses vínculos de amor e afetividade há uma base forte para que ocorra o sucesso no aleitamento (4). O primeiro contato entre mãe e filho, se realizado precocemente, tem um efeito benéfico fortalecendo o vínculo afetivo entre ambos e influenciando positivamente na duração do aleitamento (5). Também, observase que para diversas mulheres decidir amamentar é importante para sua determinação pessoal, sendo a base de conhecimentos adquiridos através de várias fontes, acerca do valor que o leite materno exerce sobre o desenvolvimento e crescimento da criança (6). Portanto, com o intuito de favorecer a melhoria da saúde e da qualidade de vida das crianças e de suas famílias, a promoção do aleitamento materno deveria ser considerada uma ação prioritária, além disso, esse poderia ser um exemplo de política pública que envolve família, comunidade, sociedade e governo, com baixo custo e ótimo impacto sobre o crescimento infantil (7). A rede de assistência primária no Brasil constitui a prin- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 cipal forma de acompanhamento da gestante durante seu prénatal, sendo este acompanhamento um fator importante na promoção do aleitamento materno uma vez que nessa fase ocorre a definição da prática a qual a nutriz irá recorrer (8). Sendo assim, o incentivo ao aleitamento deve ser efetivado durante as consultas de pré-natal, onde o profissional da saúde irá estimular orientar e preparar a mãe emocionalmente para o momento da amamentação. Além disso, durante a realização do exame das mamas nessas consultas, podem-se detectar alguns fatores ou problemas que influenciarão eventualmente no aleitamento e podem contribuir para o desmame precoce (9). No âmbito da atenção primária, o Programa Saúde da Família (PSF) constitui um importante meio de promoção e apoio ao aleitamento, em vista que oferece suporte à saúde das famílias e pode oferecer atividades educativas desde o prénatal, que possibilitem à mulher conhecer outros aspectos que favoreçam o processo de amamentação. Também permite que o profissional da saúde atue diretamente nas intercorrências comuns nesse processo (7). Uma das principais causas do desmame precoce é a adoção de bicos e mamadeiras, uma vez que modifica a forma de mamada da criança levando a retirada insuficiente de leite do peito, o que ocasiona baixa eficácia na ação do leite, aumentando assim a incidência de doenças respiratórias, diarreia, distúrbios na fala, infecções dentárias entre Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza. na fala, infecções dentárias entre outras (10). Além disso, o uso do bico/chupeta e mamadeira introduzido pela mãe, com a volta ao trabalho ou sobrecarregada de afazeres, pode estar camuflando possíveis problemas e dificuldades na amamentação ou até mesmo uma ansiedade e insegurança materna frente a esse processo, que necessitaria de uma intervenção e abordagem mais eficazes por parte dos profissionais/família (5). Atualmente o processo de amamentação sofre influências culturais, sociais e familiares induzindo as mães a recorrerem a tais artifícios, diminuindo a importância e o valor que o aleitamento exerce na vida e saúde da mãe e filho (11). A mulher-mãe necessita compreender que o desmame faz parte do processo de crescimento da criança, há um momento correto para que esse aconteça. E, o momento certo para o desmame é quando um dos parceiros está realmente pronto para interromper a amamentação, que está relacionada ao momento em que o bebê pode substituir o seio materno por outra alimentação que remeta a ele o sentido de amor e suporte emocional vividos na amamentação (4). A mãe necessita de condições favoráveis para realizar o aleitamento e deve receber apoio, orientação e informação do profissional de saúde capacitado, que irá auxiliar no momento da amamentação, sempre lembrando que a mãe é a pessoa central em tal processo (12). Essas informações devem abranger conhecimentos que envolvam temas como a produção e composição do leite, a técnica da amamentação e seus benefícios para a saúde do bebê e da mãe, bem como sobre os problemas mais comumente citados na prática do aleitamento materno (13). As informações ditas à mãe, durante e após a gestação, acerca do aleitamento materno e seus benefícios influenciam na decisão dessa sobre o tempo da amamentação bem como a forma como irá realizá-la, se de forma exclusiva ou não. Dessa forma, promover uma base de informações adequadas sobre o tema contribui para provocar e produzir o desejo de amamentar (6). O profissional de saúde é parte fundamental no processo das ações voltadas para a recuperação, manutenção e proteção da saúde do bebê através de uma comunicação efetiva, que é a base para desenvolver ações de saúde. Através dessa, tem condições de criar condições favoráveis para efetivar a relação com a nutriz, de forma que a mesma perceba sua atenção e sinta-se confortável, encorajando assim o processo do aleitamento. A mulher deve ser ouvida sobre suas expectativas, dúvidas e necessidades, a fim de direcionar uma assistência de qualidade, oferecendo condições para que possa agir, decidir (14) sobre o melhor para si e para o filho mesmo sabendo que a prática da amamentação seja imprescindível para a promoção da saúde para o binômio mãe-filho (15). Objetivo do estudo Compreender o significado do aleitamento materno exclusivo para as mães que amamentam descrevendo os fatores incentivadores e norteadores dessa prática. Material e método Estudo de abordagem qualitativa realizado em uma Unidade Básica de Saúde Progresso do município de Juiz de Fora/MG, após aprovação do Comitê de Ética da UFJF, parecer nº 143/2007 (16). Foram depoentes onze mulheres, em fase de amamentação, com crianças na faixa etária até seis meses de idade, no intervalo de setembro a outubro de 2007. Utilizou-se a entrevista aberta mediante relação empática (17) com as seguintes questões norteadoras: O que sabe e o que significa para você amamentação? - Como você compreende o papel do enfermeiro nesse processo? Como está vivendo esse momento e que fator ajuda ou dificulta a amamentação exclusiva? Após a transcrição de cada depoimento, procedeu-se à leitura flutuante, que deu condições de perceber as estruturas essenciais para apreender os momentos-chave do fenômeno e a redução de pressupostos com vistas ao desenvolvimento da análise compreensiva fenomenológica na perspectiva heideggeriana. Resultado e análise dos dados A análise compreensiva desvelou quatro Unidades de Significação: O leite como principal alimento para o bebê e a im- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 163 Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza. portância da amamentação; Sentimento de aproximação e contato do binômio mãe/filho ao amamentar; Facilidades e dificuldades do dia-a-dia da amamentação e dúvidas que emergem da prática da amamentação exclusiva; o enfermeiro no contexto da promoção e apoio à amamentação exclusiva. O leite como principal alimento para o bebê e a importância da amamentação O incentivo ao aleitamento materno vem se destacando como uma estratégia de promoção da saúde infantil, apresentando oscilações nas diferentes sociedades e tempo, frente às suas diversas vantagens já comprovadas ao longo dos anos através dos estudos e indicadores de saúde. Sabe-se que o leite materno é o mais completo alimento para o bebê, sendo essencial para ajudar no crescimento da criança e seu desenvolvimento nos primeiros anos de vida, pois atende todas as suas necessidades, tanto nutricionais, fisiológicas quanto emocionais (9). Percebemos que as mães estão cientes de que o aleitamento materno é a melhor alimentação que a criança pode receber possuindo todos os fatores importantes para o início de sua vida. Sabem ainda que nenhum outro alimento substitui o leite materno em suas propriedades: “... que é o alimento mais correto para o bebê, mais apropriado... é a melhor coisa que a gen- 164 te pode fazer pro bebê é amamentar...”. E5 “... a sei que o leite é muito importante, que tudo que ela precisa é adquirido no leite né. Não precisa beber água, que tomá chá, num precisa nada disso, que tudo que ela precisa ta no leite...”. E7 “Eu sei que é o principal alimento que eu tenho pro meu filho... não tem nada que é melhor pra ele, nem mamadeira nem outro tipo de leite. Só o meu, a minha amamentação que é o principal alimento pra ele...”. E8 “... a amamentação é muito importante pro neném porque é mais saudável...”.E9 São inúmeras as vantagens, que se destacam a queda na mortalidade infantil, devido ao menor índice de doenças como diarreia, pneumonia, desnutrição, além de contribuir para diminuir a taxa de obesidade em crianças e ser um importante fator imunológico para a criança nos primeiros meses de vida. “..., porque ela desenvolve mais rápido,... fica mais forte,... fica imune praticamente de qualquer doença... no dia a dia nem gripe, resfriado... pra mim foi importante a amamentação, que ele teve pneumonia e ajudou muito pra curá a pneumonia dele só mamou no peito...”. E1 “... ajuda a ele também porque é uma vacina...”. E3 “Todos os anticorpos que contém no meu corpo vai passando Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 pra ele...”. E11 Percebemos que as participantes são informadas e conhecem os valores da amamentação uma vez que várias citaram seus benefícios. Como também são evidenciados os aspectos promotores de saúde às mães, como por exemplo, contribui para a involução uterina, diminui sangramento após o parto e o risco de anemia e protege contra o câncer de mama e ovário (12). Entretanto, foram poucas as que citaram as vantagens do aleitamento para as mães, o que demonstra falta de informação quanto a alguns aspectos relacionados com sua própria saúde. “... pro câncer de mama também ajuda a prevenir”. E6 “é bom pra mulher mesmo... mas eu acho importantíssimo pra mulher voltá ao corpo normal, é que queima bastante caloria mesmo quando ta mamando”. E11 Nessa situação podemos questionar até que ponto as orientações estão sendo feitas de maneira que elas apreendam? Será que as mães estão sendo orientadas quanto a todos os aspectos que envolvem a amamentação, inclusive aqueles relacionados às mesmas? É de fundamental importância que as mães tenham o conhecimento desses pontos para incentivar e promover melhor a prática do aleitamento materno exclusivo, para que esse seja efetivado. Sentimento de aproxi- Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza. mação e contato do binômio mãe/filho ao amamentar Encontramos na literatura a importância do contato entre mãe e filho durante a amamentação, dos aspectos emocionais e psicológicos que estão envolvidos nessa relação como: “... ajuda a mulher e o bebê a formarem uma relação íntima e amorosa que a faz sentir-se profundamente satisfeita emocionalmente. O contato íntimo desde imediatamente após o parto ajuda essa relação a se desenvolver” (2). A promoção do aleitamento contribui para o fortalecimento do vínculo mãe-filho, proporcionando para o bebê estímulos sensoriais e emocionais. Alguns depoimentos expressam e confirmam a importância do contato mãe e filho durante a amamentação: “eu gostei. Pra ele transmite carinho, amor... eu gosto de amamentar ele”. E2 “eu tô amamentando também pra conhecer meu filho. A gente tá mais próximo, a gente ta entendendo mais, eu entendo ele e ele me entende”. E4 “... é importante o contato que a gente tem com o filho, a criança deve sentir o carinho da mãe também... Mas às vezes num é que ela ta com fome, ela ta querendo um acalento... que ela ficou lá dentro da gente esse tempo todo, depois que sai o único contato que ela tem com a mãe é o peito. Assim mais próximo mais íntimo”. E7 “É um vínculo da mãe com a criança, um momento sagrado entre a mãe e a criança é a hora da amamentação”. E8 Assim sendo, percebemos que é valorizado pelas mães este momento de contato com seus bebês. Quase todas as mães estavam com seus filhos durante a entrevista e esse fato possibilitou observar os gestos de afeto que a mãe lançava sobre a criança ao falar sobre os sentimentos que estão envolvidos no ato de amamentar, conforme explicitado “Os benefícios emocionais da alimentação ao seio também são indubitáveis. O recémnascido humano não sobrevive sem cuidados e, principalmente, não se desenvolve sem carinho e afeto” (11). Bem como, ao estar amamentando a mãe mostra que está conseguindo construir um vínculo com o bebê, proporcionando um momento de carinho e contato pele a pele, que é tão importante para o desenvolvimento da criança (11). As depoentes falaram sobre seu sentimento ao amamentar seus filhos, mostrando-se felizes por fazê-lo e que não havia maior satisfação do que estar vivendo tal momento. “Olha, nossa pra mim no começo foi bom, basicamente emocionante dá mamá pro meu filho ainda mais que sô muito novinha”. E1 “Olha eu tô vivendo com muita alegria porque já é meu segundo filho e eu acho que agora que eu to conseguindo aproveitar mais”. E5 “... quando eu tô dando de mamá... eu gosto de dá mamá quando eu tô sozinha, ou então na presença do meu marido sem televisão ligada sabe”. E7 “... Ah eu to achando assim maravilhoso”. E9 Evidenciamos, então, que não há nada melhor para o bebê do que ser amamentado, acalentado ao seio da mãe, recebendo tudo o que esse necessita emocionalmente e psicologicamente para seu desenvolvimento e crescimento saudável. O contato mãe/filho, assim, se faz necessário para o fortalecimento do vínculo entre ambos e mostra-se um fator responsável por maior tempo de aleitamento devido à satisfação e sentimentos provocados em sua prática. Facilidades e dificuldades do dia-a-dia da amamentação e dúvidas que emergem da prática da amamentação exclusiva Ao se expressarem sobre os pontos facilitadores no processo de amamentação, os fatores mais citados e que, provavelmente, se fazem os principais influenciadores são o fato de: ser um alimento que está pronto a qualquer hora e ser de fácil acesso. A praticidade do leite materno como um fator de fundamental importância como expresso: “o aleitamento materno é a forma mais prática de se ter um leite pronto e em temperatu Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 165 Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza. ra adequada, quando comparado ao preparo de uma mamadeira” (18). As depoentes ratificaram: “O que ajuda o principal lógico, é que tá pronto a qualquer hora, você num tem que levantar pra fazê uma mamadeira e tal...”. E8 “... é uma mão na roda, quem dera se o mínimo pudesse mamá até começa a comer”. E11 Nota-se que a questão que mais favorece a continuidade do aleitamento materno é indiscutivelmente o fato do leite materno ser o alimento mais fácil para o bebê, o que facilita muito a adesão a esse processo. Além disso, uma das depoentes expressou como positiva a experiência anterior com a maternidade e o prévio conhecimento que envolve a prática da amamentação como um ponto facilitador nesse processo. Para as mães que já conseguiram amamentar com sucesso anteriormente, o desejo soma-se à certeza de que o aleitamento irá prosseguir naturalmente e com sucesso (6). “O que me ajudou acho que foi a experiência de já ter tido um filho, de sabe como que é amamentar, de saber as dificuldades, de ter tido um preparo adequado da mama, porque eu não tive rachadura na mama dessa vez”. E5 Também, consideraram aspectos que dificultavam o aleitamento materno emergindo pontos negativos e/ou dificulta- 166 dores: “É no começo eu tive muita dificuldade porque eu acho que todas as mães tem, por causa que são dores das rachaduras no peito, mas eu tive, eu fiz bastante massagem... mas quando ele mama uma vez a mais então eu sinto muitas dores e dá um pouco de incômodo”. E4 “Porque na primeira eu fiquei muito preocupada... queria fazer tudo muito correto, tudo muito como tava no livro. Então eu acho que to tendo até mais leite do que eu tive na primeira”. E5 “Ah o nervosismo”. E6 “Ah assim, eu sinto um pouquinho de dor quando ela mama sabe. Mas depois das primeiras sugadas assim, pára de doer...”. E7 “Ás vezes eu preciso de sair e ele precisa ficar e aí ele acaba tendo que toma uma mamadeira, de um leite que num é tão importante como o meu e isso pode até atrapalhar ele tomá o meu depois dessa mamadeira... Mas querendo ou não tem hora que num tem jeito”. E8 Foi possível desvelar através desses depoimentos que mesmo muitas mães conhecendo pouco sobre a amamentação, ainda ocorre uma falha no fornecimento de informações sobre questões que são importantes no dia-a-dia destas mulheres. Mas, sabe-se também da importância de auxiliar as mães na tentativa de resolver as dificuldades e dúvidas comuns nos três primeiros Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 meses de vida do bebê, principalmente se a mãe for primípara, como ocorreu com algumas das depoentes. Percebemos que ocorre, também, contradição entre as orientações para as mães: “Ah isso é um poquim complicado na minha cabeça, porque lá na... que me falaram sobre amamentação foi uma coisa e o que o enfermeiro daqui me falou foi outra. Igual lá na... me falaram pra eu dá 40 minutos num peito, depois 40 minutos no outro. Achei assim muito, que ela não mama nem 20 minutos e também é muito assim receita de boca fala 40 minutos, cada criança é de um jeito...”. E7 Assim, ficou evidenciado as divergências entre as orientações recebidas, o que pode favorecer uma interrupção desse aleitamento, pelo fato da mãe desconhecer o correto para seu bebê. Algumas vezes as orientações dadas pelos médicos que as acompanhavam não eram bem recebidas, sendo passadas de forma equivocada e sem muita clareza, ainda restando dúvidas acerca do processo do aleitamento o que causava, segundo as mães dificuldade na tomada de decisões sobre o modo correto de aleitar seu filho. “Assim, amamentação em nada ta dificultando não. Às vezes eu fico em dúvida se ele tá satisfeito. Que a médica fala assim “há dez minutos é o suficiente”. Às vezes tem hora que ele mama 20 minutos, tem hora que mama cinco, então a gente nunca sabe se satisfez o neném, como é que a Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza. gente fica sabendo isso. E toda vez que ele mama dá cólica, isso assim que a gente fica com duvida, ai será que é alguma coisa com o leite...”. E9 Sendo assim, “as determinações do pediatra tendem a ser assimiladas e incorporadas na medida em que são julgadas corretas, com base naquilo que as mães consideram ser práticas que comprovam a boa saúde das crianças” (6).Vários são os estudos que apontam como a volta ao trabalho dificultador da continuidade do aleitamento ao seio, como “uma das razões do desmame precoce é a separação da mãe de seu filho, devido a volta ao trabalho fora do lar, condição pior nas grandes cidades pela situação de transporte e distância casa-local de trabalho” (19). É sabido que essa situação ocorre com muita frequência. Neste depoimento a reação da mãe foi de desaprovação com esta situação, da separação do seu filho durante a amamentação. “E a dificuldade é trabalhar fora, porque infelizmente não peguei a licença de 6 meses ainda e meu filho já tá na creche, então está mamando só no período da noite.” E5 O enfermeiro no contexto da promoção e apoio à amamentação exclusiva O enfermeiro nesse contexto é de fundamental importância como educador e fonte de informações para as mães sobre todos os aspectos envolvidos durante a amamentação, que irão influenciar a decisão da mãe em amamentar seu filho. Portanto, é responsável também na adesão a esse processo, pois “a amamentação não é uma prática natural. Para melhoria dos seus índices faz-se necessário adequado aprendizado das mães com participação ativa dos profissionais de saúde, propiciando orientações e suporte oportunos para as gestantes e lactantes” (20). Dessa forma fica claro que o profissional de enfermagem tem um papel indelével na assistência às mães no período de amamentação, auxiliando e esclarecendo possíveis dúvidas e dificuldades encontradas por elas neste processo, conforme os depoimentos: “Ele pelo menos comigo me ajudou muito, me explicando como se põe a criança pra mamá, criança pra arrotá vê uma forma melhor pra mãe e o bebê ficar confortável assim, na hora da amamentação, que é uma hora sagrada pra criança e pra mãe também”. E1 “Pra mim foi de suma importância, muita coisa eu num conhecia, principalmente que é meu primeiro filho e eu tive muitas orientações... eu recebi orientações do enfermeiro de fazer massagem, o que ajudou bastante”. E4 “Pra mim foi importante porque no hospital tinha uma enfermeira exclusiva pra cada bebê e pra cada mãe. E a enfermeira nos ensinava pra quem não sabia amamentar e num tinha bico no pei- to sabe, ela nos ensinava como que era o processo, o tempo que o bebê mama, a quantidade, tudo ela explicava pra gente e a gente acaba ficando mais segura com estas informações”. E8 “pra mim foi muito importante, porque lá na maternidade na hora de dá o mamá ela que ensinou como é que eu pegava, como é que era mais confortável pra mim. E ele num pegava e ela me ensinou como eu estimula ele”. E9 Portanto, faz-se necessário que os profissionais de enfermagem gerem ações de promoção do aleitamento nas diversas Unidades Básicas de Saúde, a fim de melhorar o índice de adesão à amamentação, isto inclui também realizar capacitação da equipe para o manejo e técnicas adequadas para tal. Pois, as diferenças de atuação das equipes e dos profissionais de enfermagem podem influenciar na duração da amamentação, uma vez que essa pode ser abandonada quando as dificuldades encontradas pelas mães não são superadas (7). Percebe-se que o sucesso na prática do aleitamento depende muito da qualidade e quantidade de informações que são transmitidas às mães, que podem ajudar na superação das dificuldades que eventualmente surjam. E, mesmo com todas as orientações que são fornecidas pelos enfermeiros, ainda há falhas nesse processo. O fato de praticamente todas as mães entrevistadas não terem informação nenhuma sobre a AME comprova Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 167 Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza. essa situação. Conclusão A amamentação é um momento peculiar na vida de uma mulher/mãe, um momento de aprendizado único em sua vida, de conhecer seu filho e tudo o que ele necessita que só ela possa oferecer. Os resultados apontaram que as mulheres desconheciam o significado do Aleitamento Materno Exclusivo mesmo tendo recebido e ainda recebendo informações dos profissionais de saúde sobre: amamentação, a importância do leite materno para o bebê e sobre a não introdução de outros líquidos e alimentos antes do sexto mês. A análise hermenêutica mostrou mães ocupadas com as mamas, com os filhos, com o significado do choro dos filhos e com dificuldade de, no dia-adia, aplicarem as orientações recebidas no pré-natal e nas consultas de acompanhamento da criança. As mulheres mostraram-se como ser-aí-com porque buscaram dialogar com os enfermeiros em face da possibilidade de amamentar até o sexto mês. Nesse sentido o enfermeiro é ponto fundamental na ajuda à nutriz a viver a amamentação de forma saudável e contribuindo para seu êxito. A falta de conhecimento entre as depoentes sobre o Aleitamento Materno Exclusivo indicou que esta prática não está sendo bem compreendida pelas mulheres. Porém, atividades de apoio visando auxiliá-las a superarem as dificuldades no início da ama- 168 mentação, parecem estar sendo empregadas e surtindo o efeito desejado, uma vez que as mães estudadas conseguiram amamentar com sucesso. Nesse sentido o apoio e auxílio para o processo de viver a amamentação de forma saudável, contribuindo para sua extensão e exclusividade até o sexto mês exige uma relação assistencial empática e de diálogo na qual as mulheres precisam falar de si, de suas vivências e de seu vivido. Referências FEBRASGO, Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Aleitamento Materno: manual de orientação. Editor: Corintio Mariani Neto – SP, 2006. 2 JUSTINO, MM. et al. Relato de Experiência de uma Atividade Educativa c o m m u l h e re s : I n c e n t i v a n d o a Amamentação desde a Gestação. Rev. Enfermagem Atual, 2007; 37: 24-29. 3 MARCA, EH. Práticas de Aleitamento Materno e Alimentação Infantil no Bairro de Itaipu, Medianeira – PR. Revista Saúde Coletiva, 2006; 03 (12): 118-123. 4 SONEGO, J,SAND, ICPV. D, ALMEIDA, AM, GOMES, FA. Experiência do desmame entre mulheres de uma mesma família. Revista da Escola de Enfermagem USP 2004; 38(1):341-9. 5 CHAVES RG, LAMOUNIER JA, CÉSAR CC. Factors associated with duration of breastfeeding. J. Pediatr (Rio J). 2007; 83(3):241-246. 6 OSIS MJD, DUARTE GA, PÁDUA KS, HARDY E., SANDOVAL LEM, BENTO SF. Aleitamento materno exclusivo entre trabalhadoras com creche no local de trabalho. Revista Saúde Pública. 2004; 38(2): 172-9. 7 PARADA CMGL, CARVALHAES MABL, WINCKLER CC, WINCKLER LA, WINCKLER VC. Situação do aleitamento materno em população assistida pelo Programa Saúde da Família - PSF. Revista Latino – Americana de Enfermagem. 2005; 13(3):407-14. 8 OLIVEIRA, MIC et al. Promoção, proteção e apoio à amamentação na atenção primária à saúde no Estado do Rio de Janeiro, Brasil: uma política de saúde pública baseada em evidência. Cadernos Saúde Pública – RJ, 2005; 21(6): 1901-1910. 1 Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 9 PONTES, CM et al. Exame das Mamas no Pré-Natal: uma das Estratégias na Promoção do Aleitamento Materno. Revista Nursing. 2002; 49: 14-17. 10 BRASIL, Ministério da Saúde. Bicos e mamadeiras prejudicam a amamentação, 2004. Disponível em: < http://portal.saude.gov.br/ >. Acesso em: 12/04/07. 11 CARVALHO MR, TAMEZ RN. Amamentação: bases profissionais para a prática profissional. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan S.A., 2002. 12 JULIANI, CM et al. Aleitamento materno: acompanhando e avaliando essa experiência. Revista Enfermagem Atual . 2004, v. 23(04): 29-34. 13 REZENDE MA, SIGAUD CHS, VERÍSSIMO MDLÓR, CHIESA AM, BERTOLOZZI MR. O processo de comunicação na promoção do aleitamento materno. Revista Latino-Americana de Enfermagem. 2002; 10(2):234-8. 14 Salimena AMO. O cotidiano da mulher após histerectomia à luz do pensamento de Martin Heidegger. [Doutorado] Rio de Janeiro (RJ): EEAN-UFRJ; 2007. 15 Alves VH, Costa, SF. O ato da amamentação: uma questão de valor ou um valor em questão? Revista Recenf. 2009; 7(2):139-151. 16 Brasil. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde, Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. Resolução Nº 196 de 10 de outubro de 1996: diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos. Brasília (DF): MS; 1996. 17 Carvalho AS. Metodologia da Entrevista: uma abordagem fenomenológica. Rio de Janeiro: Agir, 1991. 18 ICHISATO SMT, SHIMO AKK. Aleitamento Materno e as Crenças Alimentares. Revista Latino-Americana de Enfermagem 2001; 9(5):70-6. 19 REA MF, VENÂNCIO SI, BATISTA LE, SANTOS RG, GREINER T. Possibilidades e limitações da amamentação entre mulheres trabalhadoras formais. Revista de Saúde Pública 1997; 31(2): 149-56. 20 CALDEIRA AP, AGUIAR GN, MAGALHÃES WAC, FAGUNDES GC. Conhecimentos e práticas de promoção do aleitamento materno em Equipes de Saúde da Família em Montes Claros, Minas gerais, Brasil. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(8):1965-1970, ago, 2007 Aleitamento materno, introdução de leite artificial e anemia em crianças de 06 a 23 meses de idade Breastfeeding, supplement-feeding introduction and anaemia in children from 06 to 23 months of age Elisabeth Schettert, Luciana Pedrosa Leal, Marly Javorski, Mônica Maria Osório, Ednaldo Cavalcante de Araújo. RECENF-Revista Técnico –Científica de Enfermagem-2010v8-n25;(165-172) Resumo O objetivo deste estudo foi correlacionar a prevalência do aleitamento materno e a introdução da alimentação complementar com o diagnóstico de anemia em crianças de 06–23 meses. Os dados secundários de 421 crianças foram coletados da pesquisa realizada em 2001, nos ambulatórios de puericultura e pediatria do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, com o objetivo de avaliar a validação e reprodutibilidade dos sinais clínicos e da escala de cores da hemoglobina da Organização Mundial da Saúde no diagnóstico de anemia em crianças. A introdução de leite artificial foi realizada após os 120 dias de vida para mais de 50% das crianças. Entre elas, 89,1% eram anêmicas, estando a maior prevalência (91,7%) nas crianças de 06 a 11 meses. A única variável que mostrou relação estatística significante com anemia foi à idade da criança (2= 23,99, P < 0,0001). Neste estudo, não se observou relação estatística significante entre o aleitamento materno e a introdução do leite artificial e o desenvolvimento de anemia. Os resultados obtidos nos direcionaram a sugerir como rotina nos ambulatórios de puericultura e pediatria que incentivem o aleitamento materno exclusivo até os 06 meses de idade e a partir desta data orientar sobre a alimentação complementar, com alimentos ricos em ferro, tendo em vista a alta prevalência de anemia no Brasil, implementando a suplementação com sulfato ferroso oral para menores de 24 meses. Palavras-chave: anemia, amamentação, alimentação complementar. Abstract Correlating the breastfeeding prevalence and the supplement-feeding introduction with the anaemia diagnosis, in 06-23 children months was the objective of this study. Data secondary from 421 children had been collected of the research carried through in 2001 year, attended at puericulture and pediatrics sectors of the Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, with the aims evaluating the validation and reprodutibility of the clinical signals and the hemoglobin of colors scale of the World Health Organization in the diagnosis of anaemia in children. The supplement-feeding introduction was carried through after the 120 life days for more than 50.0% of the children. Between them, 89.1% were anaemics, being the biggest prevalence (91,7%) it enters those with ages between 06 to 11 months. The only variable that showed to relation significant statistics with anaemia was the child age (2= 23,99, P < 0,0001). In this study, there was no statistically significant relationship between breastfeeding and the introduction of artificial milk and the development of anemia. Our results addressed us to suggest to the routine at puericulture and pediatrics sectors, to stimulate the exclusive breastfeeding until the 06 months of age and to leave of this date to guide the supplements feeding, with rich foods in iron, in view of the high prevalence of anaemia in Brazil, implementing the supplementation with oral ferrous sulphate for minors of 24 months. Key Words: anaemia, breastfeeding, supplements feeding. 169 Elisabeth Schettert. Enfermeira Especialista em Saúde da Criança na Modalidade de Residência. Graduada pela Universidade Federal de Pernambuco. E-mail: [email protected] Luciana Pedrosa Leal. Enfermeira. Mestre em Nutrição. Professora Assistente da Área Infantil do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Pernambuco. E-mail: [email protected] Marly Javorski. Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora Assistente da Área Infantil do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Pernambuco. E-mail: [email protected] Mônica Maria Osório. Nutricionista. Professor Associado da Universidade Federal de Pernambuco, pesquisador 2 do CNPq. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Nutrição- CCS/UFPE. E-mail: [email protected] Ednaldo Cavalcante de Araújo. Enfermeiro. Professor Pós-doutor da Área Infantil do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Pernambuco. E-mail: [email protected] 170 Elisabeth Schettert, Luciana Pedrosa Leal, Marly Javorski, Mônica Maria Osório, Ednaldo Cavalcante de Araújo. Introdução Devido aos benefícios do leite humano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde do Brasil (MS) recomendam aleitamento materno exclusivo até os seis meses e a manutenção do aleitamento materno (AM) complementar até os dois anos. O leite materno (LM) oferecido de forma exclusiva, somente leite humano sem outros líquidos ou sólidos, é o alimento ideal para o lactente nos primeiros meses de vida, por ser rico em nutrientes, fatores imunológicos e microorganismos (1-3). No contexto mundial, as conseqüências do abandono do AM são preocupantes, acarretando em prejuízos importantes para a saúde da criança, como as anemias, especialmente as nutricionais (ferropriva e megaloblástica). Caracteriza-se como um problema de saúde pública devido a altas prevalências, no qual as crianças nos primeiros anos e as gestantes em países desenvolvidos e subdesenvolvidos ficam mais vulneráveis às doenças, entretanto, atingindo mais as nações pobres. No Brasil, apesar da superioridade do LM sobre outros tipos de leite, as mulheres que amamentam exclusivamente são minorias e a introdução de alimentos ocorre precocemente (3-9). Segundo a OMS, a anemia ferropriva ou a concentração de ferro circulante abaixo do normal, chega a ser responsável por até 95% das anemias mundiais, caracterizando-se o problema mais comum de nutrição em crianças. Entretanto, sabe-se que a anemia interfere no crescimento, no desenvolvimento mental, motor e da linguagem; acarreta em alterações comportamentais e psicológicas como falta de atenção, fadiga, insegurança, alterações do sistema digestivo e imunológico; ocasiona diminuição da atividade física, alterações metabólicas na pele e mucosa (3-6,10). Tendo em vista que o principal fator etiológico da anemia ferropriva é de natureza dietética, constitui-se interesse de estudo a investigação de práticas alimentares que possam diminuir o aporte de ferro, como é o caso da realização precoce do desmame e do manejo inadequado na introdução de alimentos complementares. A introdução da alimentação complementar (AC) precoce (introdução de outros alimentos à dieta da criança que não seja o leite materno, antes dos quatro meses de idade), especialmente sem orientação profissional, é fator predisponente à anemia ferropriva no primeiro ano de vida (11-14). Em face aos problemas consequentes da anemia ferropriva em crianças menores de 24 meses, o objetivo desse estudo é correlacionar à prevalência do aleitamento materno e a introdução da alimentação complementar com o diagnóstico de anemia em crianças de 06–23 meses. Acredita-se que os resultados deste estudo possam contribuir para o planejamento de estratégias de intervenções que venham a ser utilizadas para ajudar a reduzir a prevalência de anemia nesta população. Material e métodos Trata-se de um estudo do tipo transversal, realizado pela pesquisa quantitativa em 421 crianças de 06–23 meses atendidas nos ambulatórios de puericultura e pediatria do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP) da cidade de Recife, PE. Os dados secundários foram coletados da pesquisa realizada no ano de 2001, nos ambulatórios de puericultura e pediatria do IMIP, no período de maio a outubro, com o objetivo de avaliar a validação e reprodutibilidade dos sinais clínicos e da escala de cores da hemoglobina da OMS no diagnóstico de anemia em crianças, obedecendo aos seguintes critérios de inclusão: 1) crianças de 06–23 meses de idade; 2) acompanhadas por mãe biológica à consulta de rotina no ambulatório de puericultura ou, 3) para primeira consulta ou, 4) consulta de retorno ao ambulatório de pediatria; critérios de exclusão: 1) crianças portadoras de doenças crônicas (cardiopatias, doenças reumáticas, nefropatias, afecções do aparelho gastrointestinal, doenças respiratórias, entre outras), com diagnóstico confirmado no momento da consulta. Os dados foram analisados utilizando-se o programa Epi-Info 6.04, apresentados em distribuições de freqüências absolutas e relativas e dispostos em tabelas. Para fins de análise do aleitamento materno, embora a OMS indique os 180 dias como idade adequada para iniciar o desmame, foi considerado o ponto de corte de 120 dias de vi- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 171 Elisabeth Schettert, Luciana Pedrosa Leal, Marly Javorski, Mônica Maria Osório, Ednaldo Cavalcante de Araújo. da, no intuito de correlacionar com a prática adotada pelas mães em nosso meio, com o período de retorno das mesmas ao trabalho e com a idade mínima preconizada pela OMS para introdução de outros alimentos, além do leite artificial na dieta das crianças que não recebem o aleitamento materno exclusivo. A anemia foi diagnosticada de acordo com a recomendação da OMS, que considera anêmicas as crianças menores de cinco anos cuja hemoglobina seja < 11g/dl (5-6). Foi utilizado o teste do qui-quadrado (2) para investigar a associação entre anemia e variáveis da criança (idade, sexo, peso ao nascer e peso atual) e amamentação exclusiva até os 06 meses, porém será apresentado o teste relacionado apenas à idade da criança, onde mostrou significância estatística. A discussão foi subsidiada pela revisão da literatura encontrada. A coleta dos dados na pesquisa original foi realizada de acordo com a Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, que trata sobre a condução das pesquisas envolvendo seres humanos e aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira – IMIP, em reunião realizada no dia 11/02/2001. RESULTADOS A tabela 2 evidencia a prevalência de anemia nas crianças. Constata-se que a maioria das crianças apresenta anemia. Esta prevalência supera inclusive a prevalência mundial estimada pela OMS5 para crianças com idade entre 0 e 48 meses que foi de 20,1% para os países industrializados e 48,1% para os países não industrializados. A mesma corrobora com estudos nacionais que mostram prevalências acima de 49% entre as crianças menores de 24 meses (14). A tabela 3 revela a relação entre a anemia e a idade da criança, a qual mostrou associação estatística significante (p < 0,0001). A tabela 4 demonstra a relação entre anemia e sexo nas crianças. Corroborando com os dados desta pesquisa, os estudos como os de Devincenzi (15) e Neuman et al. (16) também não encontraram associações entre anemia e sexo. Todavia, Torres et al.,(17) evidenciaram que a prevalência da anemia pode variar entre os sexos, com freqüência de 63,1% para o sexo masculino e 55,2% para o sexo feminino. Estes pesquisadores acreditam que a maior ocorrência de anemia no sexo masculino possa ser explicada pela “maior velocidade de crescimento apresentada pelos meninos, nesta faixa etária, acarretando maior necessidade de ferro pelo organismo, não suprida pela dieta”. A tabela 5 apresenta a relação do peso da criança ao nascer e anemia e revela que entre as 172 Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 Elisabeth Schettert, Luciana Pedrosa Leal, Marly Javorski, Mônica Maria Osório, Ednaldo Cavalcante de Araújo. crianças com peso baixo ao nascer a maior prevalência de anemia ocorreu nas crianças entre 2.500 e 2.999g. Todavia, para todas as classes de peso ao nascer a prevalência de anemia esteve acima de 85%. A tabela 6 mostra a relação entre anemia e duração da amamentação nas crianças. Constatase, também, que a freqüência da anemia foi maior nas crianças que receberam amamentação por mais tempo. Contudo, sabe-se que o leite materno propicia a criança ferro de alta biodisponibilidade e proteção contra infecções, condições que a protegem da anemia (18,19). Na tabela 7 constata-se a relação entre a anemia e o tempo de amamentação exclusiva nas crianças do estudo. Relacionando o tempo de amamentação exclusiva e nível de hemoglobina, entre as 166 que mamaram exclusivamente por 120 dias ou mais, 89,2% apresentavam anemia. Na tabela 8 verifica-se a relação entre anemia e alimentação com leite artificial. Em relação à associação entre as variáveis alimentações com leite artificial e anemia, obteve-se uma freqüência menor de anemia nas crianças que iniciaram a alimentação com leite artificial com menos de 120 dias (89,4%), do que nas que receberam aleitamento artificial com 120 dias ou mais (95%). DISCUSSÃO As características sociais e biológicas das crianças ao nascer e de suas mães revelaram que as crianças apresentaram idade média de 08 meses, estando a maioria (68,9%) entre 06–11 meses, 22,6% entre 12–17 meses e apenas 8,6% entre 18–23 meses. No tocante ao sexo, 50,1% era do sexo masculino e 49,9% do sexo feminino. Quanto ao peso ao nascer 60,5% ficou entre 3.000–3.800 Kg e apenas 6,7% teve peso inferior a 2.500 Kg. O peso atual observado estava entre 7.000–10.000 Kg em 64,3% e acima de 13.000 Kg em 3% das crianças. Em relação à distribuição das mulheres por faixa etária, constatou-se que a média de idade das mães foi de 24 anos, sendo 48,5% com 25 anos ou mais, 32,3% entre 20–24 anos e com menos de 20 anos 19,2%. Com referência à escolaridade, a maioria das mães (94,6%) possuía escolaridade acima de quatro anos de estudo e a minoria (5,1%) tinha menos de quatro anos de estudo, 72,2% das mulheres não trabalhavam fora do lar. Fizeram parte desse estudo lactentes menores de 24 meses, que segundo Souza et al., Souza (11) e Dewey et al.(20) , constituem um grupo susceptível à anemia por carência de ferro, uma vez que estão submetidos a uma maior dependência das fontes dietéticas deste mineral. A maioria das mães referiu ter mais de quatro anos de estudo divergindo da situação encontrada na Pesquisa Nacional sobre desnutrição infantil nos municípios brasileiros, onde 41,7% não eram alfabetizadas (21). Saber sobre o grau de instrução das mães é importante para o enfermeiro, visto que ele precisa adequar às informações a serem transmitidas, de acordo com o nível de compreensão das mesmas, a fim de que possam assimilar melhor as orientações recebidas e atingir os objetivos planejados. Neste sentido Silva (22), afirma que dependendo da idade e do grau de escolaridade materna, do acesso às informações em saúde e do tempo dedicado aos cuidados da criança, esta tem maior ou menor risco de adoecer. Neste estudo, observou-se predominância de mães na faixa etária de 25 anos ou mais, porém, chamou-se a atenção o percentual de mães adolescentes (19,2%). A adolescência, conforme Araújo (23) é a fase do desenvolvimento caracte- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 173 Elisabeth Schettert, Luciana Pedrosa Leal, Marly Javorski, Mônica Maria Osório, Ednaldo Cavalcante de Araújo. rizada por transformações devido às diversas mudanças físicas, biológicas, psicológicas e sociais. Refere ainda que a ocorrência de maternidade, nessa fase da vida, implica em somatório de mudanças que exigem um repensar sobre o futuro. Araújo (23), Coates e Sant'Anna (24), referem que a qualidade da atenção que as mães adolescentes dispensam a seus filhos é frequentemente questionada devido às características próprias da adolescência, período de conflitos, oposição à realização de tarefas e responsabilidades, entre outras. A maioria das mulheres não trabalhava fora do lar, fato que talvez possa ter contribuído para a redução na compra dos alimentos, entre eles os ricos em ferro. Por outro lado, ficando mais tempo em casa, supõe-se que elas puderam se dedicar mais aos filhos e ao cuidado com a alimentação. Nesse estudo, 99% das crianças receberam leite materno e somente 1% não mamou (resultados não apresentados nas tabelas). Constatou-se, desse modo, que na região Nordeste os percentuais de crianças que não iniciam a amamentação vêm diminuindo. Na década de 90, pesquisas realizadas em nove estados do Nordeste (23) revelaram um percentual de 7,8% de crianças que nunca mamaram. O estudo de Vasconcelos26, analisando os dados estaduais de crianças de 024 meses de idade, mostra que 6,8% das crianças no estado de Pernambuco nunca foram amamentadas. Observou-se uma melhor adesão à amamentação na população do estudo, 174 quando comparada com os dados estaduais. Autores como Osório (27), Lima e Osório (28) consideram o baixo peso ao nascer um fator determinante de anemia em crianças, no primeiro ano de vida e mesmo que a criança pré-termo ou de baixo peso ao nascer possua, em média, a mesma quantidade de ferro/kg de peso de uma criança nascida a termo, o total de reserva se depleta mais cedo, tornando-as dependentes de fontes exógenas e facilitando, dessa maneira a instalação da anemia. Verificou-se que a freqüência de anemia foi acima de 88% para as crianças que mamavam exclusivamente por mais de 120 dias, como para aquelas que mamaram menos de 120 dias. Contrariando o que afirma Assis et al., (29), quando refere que o ferro melhor aproveitado pela espécie humana é contido no leite materno, com um aproveitamento de até 70%, quando a amamentação é exclusiva. Souza et al.,(11) em pesquisa realizada com crianças até 12 meses de vida, em quatro Centros de Saúde Escola do Município de São Paulo, também, não encontraram associação significativa entre anemia e duração do aleitamento materno exclusivo, cujo tempo mediano foi o mesmo para anêmicos e não anêmicos. Estudo realizado em 2004, em serviços da rede pública, com crianças menores de 12 meses de idade, em dez cidades localizadas nas cinco regiões geográficas brasileiras, encontrou uma prevalência de anemia de 51,7% para crianças de 0612 meses (11). Em Santa Catarina, Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 Neuman et al.,(16) verificaram que a anemia acomete mais da metade das crianças entre 0624 meses de idade (54%). No semiárido baiano, Assis et al.,(29) demonstram uma prevalência da anemia em crianças de 1223 meses de 50% e, entre os menores de um ano, 29,9% e em Pernambuco, Osório et al (27), encontraram uma prevalência na região metropolitana do Recife de 71,7% e 58,2% nas crianças de 0611 e 1223 meses, respectivamente. As anemias afetam grandes contingentes populacionais, sendo uma carência freqüente no Brasil. Em Pernambuco, este estudo mostrou uma maior prevalência de anemia quando comparado aos dados da última Pesquisa Estadual de Saúde e Nutrição trabalhados por Osório et al., (27). Acredita-se que estas altas prevalências se devem, conforme a OMS (5-6), ao baixo conteúdo de ferro nas dietas e rápido crescimento da criança, durante o primeiro ano de vida. Giugliani et al., (13) estudando crianças na faixa etária de 036 meses em Porto Alegre, constataram que a anemia foi mais prevalente na faixa etária de 1223 meses, o que difere dos dados aqui encontrados. Todavia este estudo apresentou resultados semelhantes aos encontrados por Lima e Osório (28), ao analisar crianças menores de 12 meses em Maringá (PR), onde a anemia apresentou uma prevalência maior no segundo semestre de vida, sendo a diferença encontrada estatisticamente significativa. Segundo Lima (14) e Osório (27), a alta prevalência de ane- Elisabeth Schettert, Luciana Pedrosa Leal, Marly Javorski, Mônica Maria Osório, Ednaldo Cavalcante de Araújo. mia até 24 meses de idade ocorra devido a uma maior velocidade do crescimento, desmame precoce, falta de dieta balanceada e doenças como diarréia e infecções respiratórias, nos primeiros anos de vida. Ao se analisar a ocorrência de uma maior prevalência entre as crianças de 06–11 meses apresentada neste estudo, concorda-se com Faireweather-Tait (30) e Lönnerdal e Dewey (10) quando afirmam que a biodisponibilidade do ferro no leite humano pode diminuir até 80% quando outros alimentos passam a ser ingeridos pelo lactente e, ainda, ao considerar a introdução precoce de alimentos complementares como fator de alto risco para o aparecimento da anemia ferropriva. Acredita-se que alguns fatores podem ter determinado o maior percentual de crianças anêmicas amamentadas por mais de 120 dias, vale ressaltar que aqui não estão sendo considerados o tempo de AME e o início da introdução de AC que conforme Osório et al., ( 27) a introdução precoce de alimentos complementares é considerada como fator de alto risco para o aparecimento de anemia ferropriva. Estudo realizado por Giugliani et AL., (13) em crianças de 036 meses de idade em todas as escolas municipais infantis de Porto Alegre, também não encontrou associação entre tempo de aleitamento materno e anemia. Registrando prevalência de 51,8%, 49,6% e 44,5% para amamentação por período ≤ a 90 dias; 120 a 180 dias e ≥ a 210 dias, respectivamente. Entretanto, Torres et al., (17) estudando crianças menores de 24 meses, atendidas nas Unidades Básicas de Saúde no estado de São Paulo encontraram associação estatisticamente significante entre a presença de anemia e o tempo de AM, com prevalência de 62,7% se a criança não foi amamentada ao seio, 60,6% se foi amamentada até 60 dias, 57,35% mamou entre 90 e 180 dias e 55,5% se este período foi superior a 180 dias. O resultado obtido na tabela 7 foi contrário ao esperado, que era uma freqüência de anemia maior nas crianças que iniciaram a alimentação com leite artificial mais precocemente, visto que Fairweather-Tait (30) refere que a maioria das ocorrências de deficiências de ferro tem vínculo com dietas à base de amido e consumo de grandes quantidades de leite de vaca e os resultados verificados em alguns estudos sugerem a hipótese de que a anemia no primeiro ano de vida tenha como causa entre outras, o desmame precoce13. Conforme o Ministério da Saúde (2), o padrão alimentar de alimentação precoce na região Nordeste é inadequado. Os alimentos complementares são de baixo teor energético devido à diluição inadequada e ao uso de uma forma de administração predominantemente líquida e diluída. Neste estudo não foi investigado o tipo de leite utilizado pelas mães. Infere-se que, provavelmente, a utilização de fórmulas lácteas modificadas, com algum enriquecimento de ferro, no desmame das crianças antes dos quatro meses de idade, pode atuar diminuindo a incidência de anemia. Conclusões A prevalência do aleitamento materno foi de 99%, porém, 50,5% mamaram por 120 dias ou mais e 45,0% mamaram exclusivamente até os 04 meses ou mais. A anemia apresentou prevalência de 89,1%, mostrando maior prevalência entre as crianças com idades entre 06-11 meses (91,7%). A relação entre a idade da criança e o valor da hemoglobina foi estatisticamente significante. Das crianças com peso ao nascer < 2.500g, 85,2% tinham anemia, embora a maior prevalência tenha ocorrido no grupo de crianças entre 2.500g a 2.999g (94,4%). A prevalência de anemia foi maior entre as crianças que receberam amamentação por mais tempo (88,5%), assim como entre àqueles que mamaram exclusivamente por 120 dias ou mais (89,2%), contrariando a maioria dos autores sobre o efeito protetor do aleitamento materno no desenvolvimento da anemia. Das crianças que iniciaram a alimentação com leite artificial com 120 dias ou mais, 95,3% tinham anemia. REFERÊNCIAS 1.Montrone VG, Arantes CA. Prevalência do aleitamento materno na cidade de São Carlos, São Paulo. Jornal de Pediatria. 2000; 76: 138-142. 2.Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Políticas de Saúde. Saúde da Criança e Aleitamento Materno. Guias alimentares para as crianças menores de dois anos no nordeste do Brasil: da teoria à prática. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 175 Elisabeth Schettert, Luciana Pedrosa Leal, Marly Javorski, Mônica Maria Osório, Ednaldo Cavalcante de Araújo. Brasília: (DF); 2002. 3.Del Ciampo LA, Ricco R, Almeida CAN. Aleitamento materno: passagens e transferências mãe-filho. São Paulo: Atheneu; 2004. 4.Who World Health Organization. The prevalence of nutricional anaemia in women. A tabulation of available information. Geneva; 1992. 5.Who World Health Organization. Iron deficiency anaemia. Assessment, prevention and control. A guide for programme managers. Geneva; 2001. 6.Who World Health Organization. Worldwide prevalence of anaemia 1993–2005 : WHO global database on anaemia. Geneva; 2008. 7.Lima TM. Perfil do aleitamento materno em crianças menores de 2 anos de idade da Região Nordeste do Brasil. [dissertação]. Recife (PE): Departamento de Nutrição. Universidade Federal de Pernambuco; 2001. 8.Pollitt E. The developmental and probabilistic nature of the functional consequences of iron-deficiency anemia in children. Philadelphia. The Journal of Nutrition. 2001; 131:669-675. 9.Benoist B. Iron-deficiency anaemia: reexamining the nature and magnitude of the public health problem. Philadelphia. The Journal of Nutrition. 2001; 131:564-567. 10.Lönnerdal B, Dewey KG. Epidemiologia e deficiência de ferro no lactente e na criança. São Paulo. Anais da Nestlé. 1996; 52:11-17. 11.Souza SB, Szarfarc SC, Souza JMP. Prática alimentar no primeiro ano de vida, em crianças atendidas em centros de saúde escola do município de São Paulo. Revista de Saúde Pública. 1997; 12:167-174. 12.Who World Health Organization. Complementary feeding of young children in developing contries: a review of currents scientific knowledge. Geneva; 1998. 13.Giugliani ERJ et al. O alimento materno na prática clínica. Jornal de Pediatria. 2000; 76 (supl. III):253-61. 14.Lima ACVMS et al. Fatores determinantes dos níveis de hemoglobina em crianças aos 12 meses de vida na Zona da Mata Meridional de Pernambuco. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil. 2004; 4 (1):45-59. 15.Devincenzi MU. Anemia ferropriva na primeira infância: intervenções com atenção primária à saúde em comunidades carentes. [dissertação]. São Paulo (SP): Universidade Federal de São Paulo/EPM; 1999. 16.Neuman NA et al. Prevalência e fatores de risco para anemia no Sul do Brasil. Revista de Saúde Pública. 2000; 34 (1):5663. 176 17.Torres MAA, Sato K, Queiroz SS. Anemia em crianças menores de dois anos atendidas nas unidades básicas de saúde no Estado de São Paulo, Brasil. Revista de Saúde Publica. 1994; 28 (1):290-94. 18.Beard JL. Iron biology in immune function, muscle metabolism and neuronal functioning. The Journal of Nutrition. 2001; 131 (2) (supl. II):568-80. 19.Oppenheimer SJ. Iron and its relation to immunity and infectious disease. The Journal of Nutrition. 2001; 131 (2) (supl. II):616-35. 20.Dewey KG et al. Iron supplementation affects growth and morbidity of breast-fed infants: results of a randomized trial in Sweden and Honduras. The Journal of Nutrition. 2002; 132 (11): 3249-55. 21.Monteiro CA, Benício MHDB. Desnutrição infantil nos municípios brasileiros: risco de ocorrência. Brasília: UNICEF; 1997. 22.SILVA GAP. O uso de chupeta contribui para uma maior ocorrência de enteroparasitose? Jornal de Pediatria. 1997; 73 (1):2-4. 23.Araújo, EC. Adoção de práticas de sexo mais seguro de jovens do sexo masculino. [tese]. São Paulo (SP): Doutorado em Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina; 2001. 24.Coates, V, Sant'Anna, MJ. Gravidez na adolescência. In: Françoso LA, Gejer D, Reato LFN. Sexualidade e saúde reprodutiva na adolescência. Rio de Janeiro: Atheneu; 2001. 25.Unicef Fundo das Nações Unidas para a Infância - Pesquisas Estaduais (19871992). Saúde e nutrição das crianças Nordestinas. Recife; 1995. 26.Vasconcelos MGL. Perfil do aleitamento materno em crianças de 0 a 24 meses de idade no estado de Pernambuco. [dissertação]. Recife (PE): Departamento de Nutrição. Universidade Federal de Pernambuco; 1999. 27.Osório MM. Perfil epidemiológico da anemia e fatores associados à hemoglobina em crianças de 6 a 59 meses de idade no Estado de Pernambuco. [tese]. Recife (PE): Departamento de Nutrição. Universidade Federal de Pernambuco; 2000. 28.Lima TM, Osório MM. Perfil e fatores associados ao aleitamento materno em crianças menores de 25 meses da Região Nordeste do Brasil. Revista Brasileira de Saúde Materno Infanti. 2003; 3 (3):24. 29.Assis AM. et al. Distribuição da anemia em pré-escolares do semi-árido da Bahia. Rio de Janeiro. Cadernos de Saúde Pública. 1997; 13: 237-43. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 30.Fairweather-Tait SJ. Iron deficiency in infancy; easy to prevent – or is it?. European Journal of Clinical Nutrition. 1992; 46 (supl. IV):9-14. Perfil dos usuários e suas demandas em uma unidade de atendimento imediato Profile of the users and its demands in a unit of immediate attendance Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha.RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n25;(174-186) Resumo Este estudo teve por objetivo analisar o perfil e as demandas dos usuários de uma Unidade de Atendimento Imediato (UAI) de Betim-MG. Trata-se de um estudo de caso descritivo quantitativo. Os dados foram coletados através das fichas dos usuários dos meses de março e setembro de 2007, escolhidos aleatoriamente 5 dias de cada um dos meses. No total, foram analisadas 978 fichas da especialidade clínica médica, dessas 59% foram de atendimentos a mulheres, com idade média de 40 anos. Dentre o total de usuários 83% faziam parte da área de abrangência dessa unidade, apenas 2% foram encaminhados por Unidades Básicas de Saúde (UBS) e 68% não realizaram exames laboratoriais e de imagem após a consulta. Os diagnósticos mais frequentes foram doenças do aparelho respiratório, seguida de doenças do aparelho osteomuscular, doenças geniturinárias e do aparelho digestório. Quanto ao acesso à unidade, 95% desses usuários vieram por meios próprios, permanecendo a maioria deles mais de 60 minutos na unidade de saúde. Após o atendimento 92% desses receberam alta e apenas 29% foram encaminhados para acompanhamento nas UBS. O preenchimento das fichas de atendimento mostrou-se deficiente, sendo os itens mais negligenciados: profissão, motivo de procura da unidade e o horário de alta. Por esse fato foi impossível assegurar se o usuário tinha ou não necessidade de um atendimento de urgência. Mas percebe-se que os usuários procuraram a UAI com diferentes necessidades, desde queixas simples às mais complexas. No pronto-atendimento estudado foi possível observar a utilização da referência e contrarreferências presentes no município. Descritores: Serviços médicos de emergência, necessidades e demandas de serviços de saúde, atenção secundária a saúde. 178 Abstract This study had as an objective to analyze the users' profile and demanding in an Immediate Attendance Unit (IAU) in Betim (MG - Brazil). It is a descriptive quantitative case study. The data were collected through users' files from March to September 2007, randomly chosen five days of each month. Nine hundred seventy-eight clinical medical files were analyzed; of those 59% were of women attendance aged 40 in average. Among the total of users, 83% were part of the working demand of that health unit, only 2% of them were forwarded by basic health units and 68% of them hadn't done laboratorial and image exams after consultation. The most frequent diagnosis was concerning to breath device, the osteomuscular device, the digestive device and genitutary diseases. Concerning the access to the health unit, 95% of the users came by their own means and they stayed more than sixty minutes. After 92% of those went back home and only 29% were forwarded to the IAUs. The files fulfilling were deficient, the most neglected items were: occupation, the reason why and the time of leaving. By that, it was impossible to precise if the user had or not the need of urgency attendance, but it's possible to denote that they come to the IAUs with different needs, from the most simple to the most complex health complaints. At the ER were the study took place, it was possible to observe the use of the reference and against-references that are in the city. Descriptors: Emergency medical services, health services needs and demand, secondary health care. Meiriele Tavares Araujo. Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem pela UFMG. Mestre em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da UFMG. Especialista em Trauma, Urgência e Terapia Intensiva pela Reanimação/FCMMG. Membro do Núcleo de Pesquisa e Administração em Enfermagem (NUPAE). Email: [email protected] Alexandre Rodrigues Ferreira. Médico. Doutor em Medicina pela UFMG. Mestre em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professor Adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Instrutor do PHTLS® (Pré-Hospital Trauma Life Support). Instrutor do PALS® (Pediatric Advanced Life Support). Email: [email protected]. Thays Batista da Rocha Acadêmica do 8º período do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Bolsista de Iniciação Científica da FAPEMIG. Membro do Núcleo de Pesquisa Administração em Enfermagem (NUPAE). Email: [email protected] 179 Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha. Introdução O Brasil, nos últimos anos, tem buscado várias estratégias para aprimorar a organização do Sistema Único de Saúde (SUS). Principalmente, visando colocar em prática, de forma mais efetiva, os princípios da universalização do acesso, a integralidade e equidade na atenção à saúde da população atendida. Devido à proposta de mudança no modelo de atenção a saúde, com a implantação do SUS, foram necessárias a contratação e abertura de novos serviços com o objetivo de dar maior rapidez, agilidade e reduzir as longas filas que se formavam nas portas das instituições públicas (1). Assim, dentre as estratégias pensadas, encontra-se a expansão dos serviços de urgência/emergência como suporte para diminuir a demanda dos hospitais, por meio da criação de Unidades de Pronto Atendimento (UPA), Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e Serviço de Resgate do Corpo de Bombeiros para atendimento às vítimas de urgência e trauma além da abertura de vários centros de atenção básica. A área das urgências foi considerada prioritária, em 2003, sendo publicada a Portaria GM/MS 1863, reconhecida como a “Política Nacional de Atenção às Urgências”, incorporando novos elementos conceituais no atendimento das urgências além da revisão e retomada de outros já bastante difundidos (2). Esses elementos retomados são: a ga- 180 rantia da universalidade, da equidade e da integralidade no atendimento, consubstanciar as diretrizes de regionalização da atenção às urgências; desenvolver estratégias promocionais da qualidade de vida e saúde capazes de prevenir agravos, proteger a vida, educar para a defesa da saúde e recuperar a saúde, protegendo e desenvolvendo a autonomia e a equidade de indivíduos e coletividades; fomentar, coordenar e executar projetos estratégicos de atendimento às “catástrofes”, integrar o complexo regulador do Sistema Único de Saúde implementando e aperfeiçoando permanentemente a produção de dados e democratização das informações com a perspectiva de usá-las para alimentar estratégias promocionais e gerenciais; qualificar a assistência e promover a capacitação continuada das equipes de saúde do SUS na Atenção às Urgências (2). Assim, apesar do fluxo hierarquizado proposto na estruturação do modelo de atenção ás urgências, não muito claro para os usuários, as Unidades de Atendimento Imediato (UAI), ou seja, os pronto-atendimentos ainda vêm atuando como importante porta de entrada do sistema de saúde pública. Essas unidades servem de acesso aos pacientes que chegam por demanda espontânea e que, em sua maioria, procuram atendimentos de consultas simples e de cuidados básicos. No entanto, esses atendimentos básicos nos serviços de urgência descaracterizam a proposta do sistema de saúde, proporcionando pouca vincula- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 ção do usuário com o serviço de Atenção Básica e com a equipe de saúde de sua área de origem (1). Essa situação faz com que esses serviços apresentem alta capacidade de produção de consultas médicas e expressem cada vez mais a fragmentação da assistência e as deficiências de interligação entre os vários níveis de atenção (1). Vale ressaltar que esses serviços de urgência são cada vez mais onerosos para o sistema, e o descompasso entre as necessidades do usuário e a forma de oferta de serviços gera, frequentemente, conflito entre os usuários e os profissionais em suas portas. Pois, os profissionais partem do princípio de que o usuário procura os serviços de urgência para todo o tipo de atendimento, ora por desconhecer o que seria urgência ora pela baixa resolutividade encontrada na atenção básica. Por outro lado, o usuário que procura a UAI tem urgência em resolver seu problema de saúde e, não raro, reclama da morosidade do atendimento e da “má vontade” dos profissionais. Para Jacquemot (3), há uma distorção extrema entre a urgência definida e organizada a partir de critérios técnicos dos agentes do sistema médico, com a urgência tal como ela é concebida pela população dos usuários, aquela representada e vivida por eles. Segundo Magalhães (4), os conceitos de urgência e emergência são confusos e polêmicos. Por outro lado, a definição de urgência é complexa e modernamente fala-se em situações clínicas agudas. Logo, a de- Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha. finição de urgência não é precisa, abrindo assim a possibilidade de interpretações múltiplas que justificariam a subjetividade da observação dos vários atores. Assim, a procura aos serviços de saúde ainda pode ser entendida como um pedido que traduz as demandas do usuário como necessidades que podem ser satisfeitas por meio da consulta médica, realização de exames e consumo de medicamentos. Entretanto, essas necessidades de cada usuário podem ser outras como a busca de respostas às questões socioeconômicas, às más condições de vida, à violência, à solidão, à necessidade de v í n c u l o c o m u m s e r v iço/profissional, ou, ainda, o acesso a alguma tecnologia específica que lhe possa proporcionar alguma qualidade de vida (5). Outro fato, é que esse usuário reclama que não foi atendido no Centro de Saúde, mas na maioria das vezes nem o procurou tendo o pronto-socorro como uma possibilidade concreta de acesso à consulta médica. E algumas vezes também existe a concepção de que o médico do pronto-atendimento é melhor que o do Centro de Saúde. Por outro lado, Dave e Isser (6); Grumbach, Keane e Bindman (7) concordam que outra questão a destacar é que os próprios profissionais de saúde, sabendo dessa problemática dentro dos serviços de urgência ainda encaminham seus clientes que, a rigor, não careceriam de um atendimento em nível terciário ou nos prontos-socorros. Para Minayo (8), as interpretações das doenças estão dentro de um contexto natural, sobrenatural, psicossocial e socioeconômico. Corroborando com essa ideia Jacquemont (3) traz que a percepção da urgência não é restrita ao médico e sim uma construção contextual em que há vários envolvimentos, não só do doente, mais de todo o contexto no qual se insere. Nesse sentido, o presente estudo tem por objetivo analisar o perfil e as demandas de usuários de uma UAI de BetimMG. O mesmo torna-se relevante, pois ao traçar esse perfil e conhecer as demandas pode-se colaborar para que se tenha subsídios a fim de melhorar a integração desse serviço com os demais níveis de atenção à saúde presentes no município além da possibilidade de estabelecimento de novas estratégias de gestão tanto dos recursos humanos e materiais possibilitando, assim, a criação de estratégias para integralidade das ações em saúde e otimização de recursos. Metodologia Trata-se de um estudo de caso descritivo, com base nos dados presentes na ficha de atendimento, preenchida em uma UAI, que corresponde ao prontuário do usuário nesse serviço. O sistema de saúde municipal de Betim-MG é composto por 4 UAI, 16 Unidades de Atendimento Básico de Saúde (UBS) e 14 Unidades de Atendimento de Saúde Família, 10 Centros de Especialidades, 1 Unidade consorciada com outros municípios para consultas de especialistas (CISMEP), 1 Banco de Leite Humano e 4 Hospitais (incluindo uma maternidade e um hospital em cogestão com a Fundação Hospitalar de Minas Gerais), 1 Serviço de Atendimento Móvel (SAMU). Atualmente, a população atendida em Betim é de 422 mil habitantes (9) sendo a população atendida pelo sistema municipal de saúde (incluindo populações de outros municípios como Sarzedo, Esmeraldas, Martinho Campos) de 1,5 milhões de habitantes. O cenário deste estudo será uma das Unidades de Atendimento Imediato (UAI) de Betim-MG. A escolha do local se deu por facilidade de acesso ao gerente da unidade e aos coordenadores de enfermagem e dos médicos. Essa unidade é referencia para o atendimento de urgência para as Unidades Básicas de Saúde do Alterosas, Bueno Franco, Dom Bosco, Homero Gil e Icaivera e 13 Equipes de Saúde da Família. Através do consórcio Intermunicipal do Médio Paraopeba (CISMEP) e da Programação Pactuada Integrada (PPI), atendendo a população de Brumadinho, Mário Campos e Sarzedo em urgências encaminhadas. Essa unidade oferece serviços de Raios-X e eletrocardiograma, além de exames laboratoriais e pequenas cirurgias eletivas previamente agendadas, contam com os seguintes profissionais: clínico geral, cirurgião geral, pediatra, tecnólogo em radiologia, farmacêutico, enfermeiro e equipe de enfermagem, assistente social e auxiliares de análises clínicas Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 181 Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha. (9). Esse serviço atende uma média de 90 pacientes por dia chegando a um total de 5.500 pacientes por mês. As fichas de atendimento foram separadas, aleatoriamente pormeio de sorteio, sendo referentes a 2 meses do ano de 2007, março e setembro, perfazendo meses sem férias escolares ou dos profissionais da atenção básica e sem ocorrência de greves. Foram sorteados 5 dias de cada um desses meses sendo uma segunda, uma quarta, uma sexta, um sábado e um domingo, totalizando assim 10 dias no ano de 2007 que juntos somaram 1592 atendimentos. Desses foram selecionados 1011 que correspondem aos atendimentos realizados pela Clínica Médica. Foi construído um banco de dados secundário, organizado em porcentagens e analisado de acordo com a literatura, considerando os seguintes parâmetros: dados sóciodemográficos (idade, sexo, profissão, bairro), motivo de procura do serviço, hipótese diagnóstica após atendimento médico e período que ficou em observação na unidade, se realizou exames (laboratoriais ou de imagem) e se após alta foi encaminhado para casa ou para alguma unidade de referência. Os dados só foram coletados após aprovação e liberação do Comitê de Ética da Faculdade de Medicina Ciências Médicas de Minas Gerais, Protocolo nº146/08. em março de 40 anos, ficando a amostra com uma idade média de 40 anos. A tabela (2) discute a utilização do serviço pelas pessoas de sua área de abrangência e de outros lugares sendo possível observar que dessa amostra 83,43%, ou seja, a maioria foram realmente usuários determinados pela abrangência, enquanto apenas 1,73% correspondem a atendimentos de outras cidades. Apresentação dos resultados O mês de março de 2007 apresentou um total de 5741 atendimentos dos quais 872 (15,2%) ocorreram nos 5 dias analisados sendo separados apenas as fichas de atendimento para Clínica médica, totalizando 538 atendimentos. Já o mês de setembro de 2007 foram atendidos no total 3951 pessoas sendo separadas 720 (18,2%) referentes aos 5 dias analisados e desses 473 (45,09%) são referentes á atendimentos da clínica médica. Foram, então, analisadas um total de 1011 fichas, dessas apenas 978 foram consideradas válidas devido ao preenchimento insuficiente, sendo 537 do mês de março e 441 do mês de setembro. A Tabela (1) mostra as características da população estudada. Dos 978 atendimentos realizados, 59% foram do sexo feminino e 41%, do masculino. A idade média em setembro foi de 39 anos e 182 A tabela (3) apresenta as formas de acessos que esses usuários atendidos utilizaram. Dessa amostra 97,34% não foram encaminhados pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS), ou seja, são demandas espontâneas que muitas vezes procuram a UAI como porta de entrada no sistema de saúde. Com relação à utilização da atenção préhospitalar (Bombeiros, Samu, etc) apenas 2,25% foram trazidos ao serviço pelo SAMU/Bombeiros, a maioria chegou por meios próprios. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha. A tabela (4) apresenta um apanhado dos diagnósticos realizados após as consultas médicas nessa unidade, não foi possível avaliar pelo nível de preenchimento das fichas quais os casos seriam considerados urgentes, ou seja, aqueles que realmente deveriam ser atendidos nessa unidade. As doenças do aparelho respiratório foram o diagnóstico mais expressivo dessa amostra correspondendo á 21,16%, logo após com 9,92% vêm as doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo e em terceiro lugar estão as doenças do aparelho geniturinário com 8,9% e próximo disso com 8,18% as doenças do aparelho digestivo. É importante ressaltar que no montante de fichas consultadas, 8,59% não tinham o diagnóstico relatado e 7,67% estavam ilegíveis, esses valores são representativos e demonstram perda de informações importantes para a continuidade do tratamento caso seja necessário recorrer a essas fichas novamente quando houver retorno do paciente a esse serviço. A tabela (5) demonstra a propedêutica adotada após a consulta. Apenas 31,18% dos consultados realizaram algum exame, sendo esse de imagem ou laboratorial. Quanto ao tempo de permanência, mesmo com a precariedade de preenchimento da ficha foi possível observar que 16,67% dos usuários permaneceram entre 60 minutos e 240 minutos dentro da unidade, contabilizando desde o horário do preenchimento da ficha até a alta. Com relação à alta, a grande maioria, 92,74% dos usuários, foram encaminhados para casa e apenas 29% referenciadas para UBS para continuar algum tratamento. Discussão dos resultados Uma análise primária das fichas permitiu observar que o preenchimento das mesmas foi falho e incompleto, seja por parte dos profissionais da recepção seja pela equipe de saúde. Os dados de identificação, principalmente, ocupação e motivo da consulta ficaram em branco respectivamente em 100% e 37,21% das 978 fichas, tornando inviável uma analise mais aprofundada desses dados. As fichas sem o motivo da consulta, que deveria ter sido anotado na recepção, nos permitem inferir que esses usuários possam estar recebendo Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 183 Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha. uma primeira escuta de seus problemas negligenciada, ou seja, um acolhimento ineficiente que pode atrapalhar o bom direcionamento do atendimento. Uma quantidade significativa das fichas ainda não possuía o horário de saída registrado, situação que se agrava mais nos casos em que o usuário ficou em observação por mais de 24hs na Instituição o que impossibilitou calcular a taxa de ocupação dos leitos, sendo possível apenas uma avaliação do tempo de permanência na unidade. Em um estudo semelhante de Carvalho et al (10), sobre o tipo de preenchimento das fichas de atendimento foi evidenciado que o registro mais frequentemente encontrado na ficha de consulta médica foi o da conduta médica adotada, presente em cerca de 85% das fichas, os demais registros como o da queixa e/ou história da doença foi menor; em média, apenas 67% apresentavam tal dado e em apenas 38% houve registro de exame físico. A amostra foi predominantemente feminina o que já era esperado. Outros estudos(1,11,12,13,14), demonstram uma predominância do gênero feminino para as consultas de clínica médica nos prontoatendimentos. Esses trabalhos também discutem a causa dessa predominância sendo devido à menor inserção da mulher no mercado formal de trabalho, com maior disponibilidade de tempo, além de uma possível percepção diferenciada do seu processo saúde-doença. Por outro lado, devido ao fato desse ser- 184 viço funcionar 24 horas ininterruptas, o horário de atendimento não pode ser entendido como fator dificultador do acesso da população masculina adulta, como ocorre nos serviços de atenção básica. O acesso a esse serviço traz dados que entram em concordância com outros estudos como o de Rocha (1), foi possível observar que os usuários chegam, em sua maioria, por meios próprios e são provenientes dos bairros da área de abrangência os quais a unidade é realmente responsável. Apenas 2% da amostra foram encaminhados pela Atenção Básica de Saúde. Assim, acredita-se que as pessoas que recorrem a esse serviço de pronto-atendimento apresentam razões diversas como: problemas de saúde, fácil acessibilidade, funcionamento durante 24 horas, impossibilidade de recorrer aos serviços ambulatoriais e também por se encontrarem angustiadas e apreensivas com sua situação atual (15). Para alguns autores, a presença de grande número de usuários nos serviços de emergência de "causas comuns", denominados inadequados, com queixas típicas de serviços de atenção primária de saúde, caracteriza um uso abusivo desses serviços por parte da população (15). Um número significativo de pacientes passou pela consulta e foram liberados ao domicílio. Esses pacientes tinham queixas agudas que foram tratadas pontualmente. Nesses casos o serviço tinha condições e capacidade de atendê-las sendo os cuidados prestados e resolvidas às Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 necessidades daquele momento. Pelos relatos da fichas apenas nas situações em que se fazia necessária a continuidade do atendimento, os pacientes eram encaminhados para os serviços de atenção básica . Ainda com relação assistência prestada apenas 31,18% do consultados realizaram algum exame na unidade sendo laboratorial ou de imagem, porcentagem essa diferente da presente no senso comum desses usuários. No imaginário do senso comum presente no estudo de Rocha (1), os usuários relatavam que o atendimento na unidade de urgência, era bom, pois além de viabilizar a consulta médica no mesmo dia, ainda podia proporcionar maior resolutividade, pois ele poderia sair com os seus problemas pesquisados por meio de exames de RX, laboratório e outros. Salla et al (16), encontraram 60,6% de atendimentos nos pronto-atendimentos caracterizados como não sendo de urgência ou emergência, resultados aproximados, 74,5%, foram achados por Furtado et al (15), em estudo semelhante. Esses resultados demonstraram que os prontos socorros eram utilizados como uma "válvula de escape" dos serviços de saúde, prejudicando o atendimento dos casos considerados adequados. No presente estudo não foi possível fazer uma analise aprofundada dos casos a ponto de calcular quais seriam indicados para a UAI e quais seriam para a Atenção Básica devido a qualidade do preenchimento das fichas de atendimento analisadas. Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha. Mas por meio da organização dos diagnósticos por capítulos do CID 10 foi possível inferir que alguns diagnósticos não se aplicam ao atendimento de unidades de pronto atendimento como gravidez, doenças infectoparasitárias e neoplasias. Considerando que na época desses atendimentos a dengue ainda não tinha um papel tão expressivo dentro da categoria das doenças infectoparasitárias presente nos pronto-atendimentos. O excesso de demanda considerada desviada acarreta acúmulo de tarefas e consequente sobrecarga para toda a equipe de profissionais dos prontos socorros, contribuindo também para o aumento dos custos hospitalares. Esse fato também aponta para a ineficácia do Sistema de Saúde, incapaz de oferecer a esses indivíduos um acesso mais fácil à rede de atenção primária, encaminhando-os aos serviços de urgência e emergência (15,16). De acordo com Cecílio (5), a população procura acessar o sistema onde é possível, contrariando a lógica racionalista na qual os técnicos do setor saúde continuam a defender a rede de serviços em forma de pirâmide, visando que suas necessidades sejam atendidas. Conclusão O perfil dos usuários que procuraram a UAI foi, predominantemente, do gênero feminino, com média de idade de 40 anos, provenientes do domicílio, sendo a maioria da região de abrangência da UAI. O preenchimento das fichas de atendi- mento mostrou-se deficiente, sendo os itens mais negligenciados: a profissão, o motivo de procura da unidade e o horário de alta. Os diagnósticos mais representativos foram os das doenças do aparelho respiratório, as doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo seguidas das doenças do aparelho geniturinário e do aparelho digestivo. Os usuários procuraram a UAI com diferentes necessidades, desde queixas simples às mais complexas, de acordo com o que estão sentindo no momento e o que consideram como urgência e emergência. Esses buscam o pronto atendimento para resolução de necessidades agudas ou não, mas que, no momento, lhe trazem dificuldades e desconforto. Porém, essas questões de diferença conceitual dos termos urgência e emergência entre usuários e profissionais de saúde, ainda são pouco compreendidas pelos trabalhadores de Urgência e Emergência, os quais esperam trabalhar apenas com casos considerados graves pela sua lógica biomédica de atendimento. Essa discussão está presente na grande maioria da literatura nacional e internacional a respeito da utilização das urgências como porta de entrada nos serviços de saúde. A unidade demonstrou estar de portas abertas para as demandas que lhes chegasse e que respondia, dentro de seus limites, a sua finalidade de atender à queixa principal. Ainda foi possível inferir a presença de um vínculo com os serviços de saúde, em diferentes níveis, tanto na atenção básica, quanto nas es- pecialidades e os hospitais, utilizando assim as possibilidades de referência e contrarreferência do município. Assim sendo, o serviço atendia às necessidades dessa população mesmo para as queixas eletivas e complementares com ações iniciadas em outros níveis de atendimento uma vez que o usuário fez uma busca espontânea desse atendimento. O compromisso com a cura fica expresso no limite da expectativa deste usuário, geralmente pontual e momentânea, deixando apenas para os gestores e profissionais de saúde o ideal de prevenção e promoção de saúde. Referências 1. Rocha, AFS. Determinantes da Procura de Atendimento de Urgência Pelos Usuários nas Unidades de Pronto Atendimento da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. [Dissertação de Mestrado]. Belo Horizonte: Escola de Enfermagem da UFMG; 2005. 2. Brasil. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção às Urgências. 3a ed. Brasília: Editora do Ministério da Saúde; 2006. 3 . J a c q u e m o t , G A . U rg ê n c i a s e Emergências em Saúde: Perspectivas de Profissionais e Usuários. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2005. 4 . M a g a l h ã e s , H M . U rg ê n c i a e Emergência: A participação do município. In: REIS, A. T. Sistema Único de Saúde de Belo Horizonte: reescrevendo o público. São Paulo: Xamã, 1998. Parte III: 265-86. 5. Cecílio, LCO. As necessidades de saúde como conceito estruturante na luta pela integralidade e equidade na atenção em saúde. In: Pinheiro R, Mattos RA, organizadores. Os sentidos da integralidade na atenção e no cuidado à saúde. Rio de Janeiro: UERJ, IMS: ABRASCO; 2001. 113-126 6. Dave, B; Isser, D. Primary care physician and patient factors that result in patients seeking emergency care in a Hospital Setting: The patient's perspective. The Journal of Emergency Medicine (online).1999; 17(3):405-412. Disponível em: http://www.elsevier.com/wps/find/journal d e s c r i p t i o n . c w s _ h ome/525473/description#description Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 185 Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha. 7. Grumbach, K; Keane, D; Bindman, A. Primary care and public emergency department overcrowding. American Journal of Public Health (online). 1993; 83(3): 372-8. D i s p o n í v e l e m : http://ajph.aphapublications.org/ 8. Minayo, MCS. Saúde-doença: uma concepção popular da etiologia. Cad. Saúde Pública. 1988; 4 (4): 363-81. 9. Dados Sistema de Informação em Saúde (SIA-SUS). Secretaria Municipal de Betim-MG. 2007. 10. Carvalho, MS et al . Demanda ambulatorial em três serviços da rede pública do município do Rio de Janeiro, Brasil. Cad. Saúde Pública. 1994; 10(1): 17-29, jan/mar. 11. Benitez, G; Monzó, L. Morbilidad en consultas ambulatoriales del Policlínico de la Comunidad “Belkys Sotomayor”, Año 1983. Rev. cuba. Salud pública. 1985: 234242. 12. Delozier, JE; Gagnon, RO. National Ambulatory Medical Care Survey: 1989 Summary, Advance Data from Vital and Health Statistics of the National Center for Health Statistics. Washington DC: National Center for Health Statistics 1991. 13. Tanaka, OY; Rosenburg, CP. Análise da utilização pela clientela de uma unidade ambulatorial da Secretaria da Saúde do Município de São Paulo, SP (Brasil). Rev. Saude Publica 1990; 24: 60-68. 14. Yazzle-Rocha, JS; Nogueira, JL. Padrões de morbidade em assistência primária na região de Ribeirão Preto, SP (Brasil). Rev. Saúde Publica 1985; 19: 215-224. 15. Furtado, BMASM; Araujo, JRJLC; Cavalcanti, P. O perfil da emergência do Hospital da Restauração: uma análise dos possíveis impactos após a municipalização dos serviços de saúde. Rev. bras. epidemiol. 2004; 7(3): 279-289. 16. Salla, J; Chellar, ML; Ilha, MS; Frandoloso, PR. Perfil da demanda de um serviço de Pronto Socorro, Santa Maria, RS. Saúde 1989; 15(1/2): 71-80. 186 Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 A contribuição do acolhimento com a classificação de risco nos serviços de urgência para organização e gerenciamento The contribution of the shelter with the risk classification in the urgency services for organization and management Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva. RECENF-Revista TécnicoCientífica de Enfermagem-2010-v8-n25; (183-191). Resumo Este estudo tem como objetivo ressaltar como o processo de classificação em um serviço de urgência pode ajudar na sua organização e gerenciamento. Esperou-se mostrar a real importância do acolhimento e classificação de risco no gerenciamento e organização dos serviços de urgência, bem como a falta de informação dos usuários leva a superlotação dos mesmos. Trata-se de um artigo de revisão bibliográfica, em que foram utilizados sites, livros, artigos científicos e manuais do Ministério da Saúde para elaboração do mesmo, sendo analisadas publicações nas áreas médica e de enfermagem que abordaram o tema triagem classificatória de risco. Foi realizada uma busca de artigos científicos através do banco de dados da Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), utilizandose dos descritores: triagem, emergências, serviços médicos de emergência e acolhimento. A partir dessa experiência foi possível alcançar novas informações sobre o assunto, em que foi notável a importância do acolhimento e classificação de risco para a organização e diminuição da demanda nos serviços de urgência. Descritores: Acolhimento, emergências, triagem, serviços médicos de emergência. Abstract This study aims to understand how the process of classification in an urgency service can help in its organization and management. We expected to show the real importance of the shelter and classification of risk in the management and organization in the urgency services, as well as the lack of information of the users leads to overcrowding the urgency services. We made bibliographical revision, where sites, books, scientific and manual articles of the Brazilian Health Department had been used, being analyzed publications in the medical and nursing areas which approached the subject classification of risk. A scientific article search was carried through in the data base of the Virtual Library of Health (BVS), using the describers: triage, emergencies, emergency medical services and user embracement. This work allowed to get new information on the subject, where there was notable the importance of the shelter and risk classification for the organization and reduction of the demand in the urgency services. Descriptors: User embracement, triage, emergencies, emergency medical services. Nelise Maria Nascimento. Enfermeira (Unilavras). Especializanda em Enfermagem em Urgência, Emergência e Trauma (PUCMG). RT da Unid. Básica de Saúde de Monte Sião – MG. Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva. Doutorando em Bioquímica e Imunologia, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Minas Gerais. Centro de Pesquisas René Rachou (Fiocruz). E-mail: [email protected] Daniela Carla Medeiros Silva. Doutoranda em Bioquímica e Imunologia, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Minas Gerais. Centro de Pesquisas René Rachou (Fiocruz). E-mail: [email protected] 187 Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva. 1) Introdução O tema acolhimento com classificação de risco tem despertado bastante interesse entre os enfermeiros, pois além de se tratar de um assunto relativamente novo, é ainda bastante desconhecido pela população usuária e até mesmo pelos profissionais de saúde, dentre eles o enfermeiro. A superlotação dos serviços dos serviços de urgência e emergência representa grave problema do sistema de saúde e a demanda espontânea dos pacientes com doenças simples amplifica exageradamente o número de atendimento nessas unidades (1). Os serviços de pronto atendimento, sejam eles públicos ou privados, devem ser estruturados para prestar um atendimento em situações de urgência e emergência, devendo garantir todas as maneiras de sustentação da vida, tendo condições de dar continuidade a assistência no local ou em outro nível de atendimento (2). Para que a assistência seja prestada de forma integral, é necessário que haja vários recursos técnicos, pessoal qualificado, e espaço físico mínimo para a prestação de uma assistência. A situação encontrada hoje nos prontos socorros é caótica, principalmente pela superlotação dos mesmos, sendo vários os outros fatores contribuintes para essa situação (2). Um deles é a falta de recursos encontrados nos serviços de atenção básica, resultando assim na grande procura pelos serviços de urgência, pois ao contrário das uni- 188 dades hospitalares, o pronto socorro, não delimita a entrada de pacientes, trabalha com leitos extras (macas), número fixo de funcionários e área física restrita. A somatória desses fatores resulta em um ambiente de trabalho estressante e difícil. Pode-se dizer que os serviços de urgência e emergência constituem um grave problema de saúde pública no Brasil, onde há descaso governamental, onde as dificuldades de cada serviço precisam ser solucionadas dentro de cada um deles, de acordo com cada realidade, pois, esse, cotidiano caótico pode gerar grandes frustrações para o paciente e toda a equipe de saúde. Assim, vêm sendo implantados protocolos universais de atendimento (2). Contudo, a principal característica para o conhecimento da real gravidade dos usuários que vão a um serviço de emergência é seu potencial para estabelecer um tratamento precoce aos mesmos, distinguindo não apenas suas particularidades, mas também permitindo uma visão individualizada de cada paciente. A falta de recursos humanos e infraestrutura fazem cair à qualidade do atendimento. Os profissionais trabalham inseguros e, grande parte das vezes, sob pressão, passando por situações difíceis, as quais precisam escolher que paciente será atendido primeiro, qual de tantos que está na fila poderá suportar a dor um pouco mais (3). A utilização dos serviços de saúde representa o centro do funcionamento dos sistemas Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 de saúde. Os determinantes de sua utilização podem ser descritos como fatores relacionados à necessidade de saúde, aos usuários, aos prestadores de serviços, a organização e a política. O conceito de uso compreende todo contato direto ou indireto com os serviços, devendo ser levado em conta o resultado da interação do comportamento do indivíduo que procura cuidados e também o comportamento individual, ou seja, de acordo com suas necessidades e situações de vida que o levam a elaborar estratégias de enfrentamento de seus problemas cotidianos (4). Associar o individual e o coletivo na compreensão do processo de utilização dos serviços é um desafio, pois as organizações devem responder as demandas populacionais. Por isso, um fator importante para o planejamento e a organização dos serviços de urgência, é conhecer o perfil socioeconômico e demográfico dos usuários e a mobilização existente na utilização dos serviços de saúde (4). Tendo em vista o exposto acima, vê-se a importância dos profissionais e diretores dos serviços de urgência conhecer o tipo de população que irão atender, em todos os perfis, conseguindo assim, obter uma maior resolutividade do atendimento e consequentemente, uma maior satisfação dos usuários. Alguns autores relatam que a demanda aos serviços de saúde pode ser entendida como um pedido explícito que expressa todas as necessidades do usuário, podendo se efetivar por meio de consulta, exames, medica- Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva. mentos, realização de procedimentos, sendo essa a forma como os serviços se organizam. Em toda situação de atendimento prestado por profissionais de saúde, o acolhimento deve estar presente, atendendo a todos, ouvindo-os e assumindo uma postura capaz de dar respostas adequadas aos usuários, utilizando os recursos disponíveis para a resolução de problemas. Devem ser estabelecidas articulações com outros serviços, para obter continuidade da assistência, garantindo a eficácia do atendimento (5). Em função do exposto acima, pode-se observar que os serviços de urgência e emergência encontram-se sempre superlotados, com poucos recursos disponíveis e com ausência de uma boa articulação com os serviços de atenção primária. O desenvolvimento desse trabalho justifica-se uma vez que existe uma escassez de trabalhos científicos acerca do processo de acolhimento com classificação de risco e por se tratar de um assunto de destaque quando consideramos o processo de reestruturação dos serviços de urgência e emergência proposta pelo Ministério da Saúde. Assim pretende-se, com esse estudo, ressaltar a importância do acolhimento com a classificação de risco na reestruturação e organização dos serviços de urgência. Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo delinear como o processo de acolhimento com classificação de risco pode contribuir para a organização dos serviços de urgência e emergência. 2) Metodologia Trata-se de um artigo de revisão bibliográfica, onde foram utilizados sites, livros, artigos científicos e manuais do Ministério da Saúde para elaboração do mesmo, sendo analisadas publicações nas áreas médicas e de enfermagem que abordaram o tema triagem classificatória de risco. Para confecção do artigo, foi realizada uma busca de artigos científicos, através do banco de dados da Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), utilizando-se os descritores: Acolhimento, Emergências, Triagem, Serviços Médicos de Emergência. Inicialmente, os descritores foram utilizados individualmente, resultando num grande número de artigos. Dessa forma, utilizou-se a estratégia de combinação dos descritores para uma seleção mais específica dos artigos a serem utilizados. Além disso, foram utilizados como limites de busca: artigos publicados no período de 1993 a 2009 e pesquisas realizadas com seres humanos. Esse período de publicação foi selecionado, pois data de 1993 a primeira tentativa de implantação de um protocolo canadense de avaliação e classificação de risco em um hospital brasileiro (6). Após a busca dos artigos, foi realizada a seleção dos artigos de interesse para que fosse realizada a leitura na íntegra dos mesmos. Os artigos foram selecionados, inicialmente, pela leitura dos títulos e resumos, sendo excluídos aqueles cujo resumo não apresentava relação com a temática deste trabalho. Após a definição dos artigos a serem utilizados procedeu-se à leitura dos mesmos, identificando conceitos e temas relevantes à construção deste estudo. 3) Desenvolvimento 3.1) Acolhimento com classificação de risco 3.1.1) O conceito de acolhimento Acolhimento é uma maneira de operar os processos de trabalho em saúde, para satisfazer os usuários que chegam até a esse serviço, procurando atender, escutando e oferecendo respostas as pessoas. Implica em um atendimento com resolutividade, encaminhando os pacientes, para continuidade da assistência, quando for o caso, e mantendo sempre a comunicação com os outros serviços, para garantir um bom atendimento aos usuários (7). De acordo com outros autores, o principal objetivo do acolhimento é selecionar entre os pacientes a serem atendidos de acordo com a prioridade de gravidade, ressalta ainda, que não tem a finalidade de rejeitar ou excluir um usuário, mas sim, organizar o fluxo de usuários, selecionando os meios mais adequados para o diagnóstico e tratamento do problema de saúde apresentado. Tem como objetivos principais, identificar as condições de ameaça a vida e de urgência, garantir o local mais apropriado aos usuários que che- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 189 Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva. gam ao serviço de urgência, prestar esclarecimentos a pacientes e familiares e oferecer informações que ajudem a definir o nível de acuidade do serviço (2). O acolhimento, que anteriormente era conhecido como triagem é um meio de organizar o atendimento nos serviços de urgência, pois prioriza os atendimentos do serviço de acordo com a gravidade de cada caso. De acordo com Abbês e Massaro (7), o acolhimento na área de saúde, tem sido visto como uma recepção administrativa e ambiente confortável ou em momentos como uma ação de triagem administrativa e encaminhamentos. Sendo importante que as duas ações devam ser feitas juntas, obtendo um vínculo e prestando um serviço com responsabilização, vendo o paciente não como uma doença, mas sim como um todo, obtendo uma visão holística. A implantação e implementação do acolhimento com avaliação e classificação de risco nas unidades de pronto atendimento são de grande relevância no contexto atual do atendimento de urgência e emergência tendo em vista o aumento do número de acidentes de trânsito, da violência urbana e do aumento da demanda por atendimento nos serviços de urgência e emergência. Aliado a isso, está a insuficiente estruturação da rede assistencial que tem contribuído decisivamente para a sobrecarga dos serviços de Urgência e Emergência disponibilizados para o atendimento da população (8). 190 3.1.2) Fluxo dos usuários no serviço de urgência Vários são os fatores que contribuíram para o aumento da utilização dos serviços de urgência, o que levou os serviços a criarem uma maneira de selecionar os atendimentos nesses serviços. Há algum tempo os serviços de urgência representam importante porta de entrada nos serviços de saúde o que gera problemas de demanda, consequentemente podendo gerar diminuição na qualidade do atendimento (2). Os serviços de emergência, sempre superlotados, são focos de problemas, por não conseguirem oferecer uma qualidade ideal no atendimento aos usuários. E seu principal papel é avaliar e manejar pacientes doentes e com mal-estar nas primeiras etapas da crise e sua maior ênfase deve ser na identificação e tratamento de manifestações de doenças que precedam ações de tratamento intensivo (9). A procura por serviços de saúde pelo usuário, depende de como esse está organizado. Sendo influentes a urgência do problema, tecnologia, resolutividade da atenção, o acolhimento, condições de acesso, agilidade do atendimento, destreza na realização de serviço, como marcação de exames e o vínculo criado entre usuários e profissionais (2). A baixa qualidade e resolutividade apresentadas nos serviços de saúde, acompanhada da dificuldade de mudanças de hábitos e crenças da população, leva o usuário a procurar a solução Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 pelo seu problema de saúde onde encontra as portas abertas. A população procura o serviço de urgência não somente para casos agudos, mas também em casos eletivos, complementando a ação dos serviços das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e das Unidades Especializadas. Apesar de sempre lotados e atendendo somente a queixa principal, os serviços de urgência possuem recursos, como remédios, exames, consultas e internações, enquanto as unidades de atenção básica oferecem, geralmente, apenas a consulta médica (2). A regionalização e a hierarquização, por si só, não garantem a diminuição do fluxo dos usuários aos níveis de maior complexidade. É esperado que os usuários além de serem acolhidos no nível primário, também recebam atenção resolutiva, ou seja, a resolubilidade das unidades básicas e secundárias de saúde é condição fundamental para evitar a maioria dos encaminhamentos desnecessários aos centros de complexidade terciária e, particularmente, aos hospitais de maior porte, permitindo que seus leitos sejam ocupados por usuários que realmente deles necessitam (3). 3.1.3) Papel do enfermeiro no acolhimento e classificação de risco O enfermeiro é o profissional preparado para exercer tal função, sendo esse respaldado pela lei do exercício profissional. A consulta de enfermagem e a prescrição de medicamentos Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva. protocolados em alguns serviços, fazem parte da triagem (2). O enfermeiro além de realizar uma classificação de maneira correta, deve reavaliar o paciente constantemente, explicar os motivos da demora do atendimento e estabelecer uma relação profissional adequada entre profissional–cliente e profissional–familiares, evitando assim, interpretações errôneas (10). É papel do enfermeiro no acolhimento com a classificação de risco, não só avaliar os pacientes do serviço, organizando o atendimento, pela ordem de gravidade dos mesmos, como também estabelecer um vínculo entre pacientes e seus familiares, orientando, esclarecendo suas dúvidas, procurando atender da melhor forma possível a demanda de cada um, encaminhando-os ao setor correto dentro do próprio serviço ou a outros serviços como UBSs ou PSFs, quando for o caso. O acolhimento com a classificação de risco, é um campo novo e constitui uma nova área de atuação para o profissional enfermeiro. Permite melhorar o gerenciamento do serviço, pois contribui com a garantia do acesso ao paciente, diminuindo o tempo de espera, riscos e ocorrências iatrogênicas e, principalmente melhorando a qualidade do atendimento (11). No entanto, devemos considerar também os questionamentos que surgem em relação à atuação do enfermeiro no processo de acolhimento com classificação de risco. De acordo com Medeiros-Silva et al. (12), o enfermeiro tem sido o profissional escolhido para assumir os serviços que utilizam o protocolo de acolhimento com avaliação e classificação de risco, gerando inúmeros questionamentos em relação à falta de autonomia do enfermeiro para solicitação de exames e interpretação dos mesmos, e relativos à capacitação dos mesmos para exercer tal função, tendo em vista que atualmente existe, geralmente, em nível de capacitação, apenas treinamento em serviço. Outro problema diz respeito à inexistência de disciplinas que tratem a temática em questão com a profundidade merecida nos currículos de graduação em enfermagem e pós-graduação em áreas de urgência, emergência e trauma (12). 3.1.4) Recursos necessários para a realização do acolhimento Existe uma grande dificuldade de estabelecer critérios objetivos na classificação, resultando assim, em opiniões diferentes entre os profissionais no que diz respeito a gravidade do paciente, havendo necessidade de protocolos de atendimento estruturados e próprios para a classificação (13). Procurando a uniformidade do atendimento e a utilização de instrumentos que permitam uma classificação mais correta quanto a gravidade dos sintomas, foi criado as escalas de acolhimento com a classificação de risco. É importante que, os serviços possuam instrumentos para uma avaliação rápida e com baixos índices de erro. Gerdtz e Bucknall (14), afirmam que as escalas de classificação são instrumentos que favorecem o enfermeiro da classificação organizar as informações, determinando o nível de prioridade. As primeiras escalas criadas foram de forma ordinais, inicialmente de três níveis, posteriormente foram desenvolvidas escalas de cinco níveis, obtendo maior concordância e resultando em uma classificação mais precisa de acordo com as condições clínicas de cada paciente. As escalas de classificação, ou triagem, como são conhecidas, são grandes aliadas na prestação da assistência de enfermagem nos serviços de urgência e emergência, mas para que seja utilizada de forma correta, é necessária que haja treinamento dos profissionais enfermeiros que trabalham no setor de classificação e acolhimento aos pacientes, como também, a documentação do atendimento, discussão dos casos, experiência profissional e principalmente, empatia por parte do profissional. Alguns autores acreditam que o primeiro ponto ao se implementar um serviço de classificação, é que esteja compatível com a realidade da região, atendendo as necessidades da população usuária do serviço. O treinamento dos enfermeiros deve garantir padronização de condutas, otimização do tempo gasto na avaliação dos pacientes e tomada de decisão rápida, com qualidade e com o menor risco para o paciente (2). É importante considerar Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 191 Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva. alguns pontos para a realização da classificação, como o registro de dados importantes nos prontuários de cada paciente. A classificação deve ser realizada em um ambiente próximo a entrada do serviço de urgência, porém, que ofereça privacidade para o paciente e o enfermeiro. É essencial que haja uma boa comunicação do enfermeiro e principalmente, empatia e comprometimento desse profissional, para o bom funcionamento e satisfação dos usuários do serviço. 3.1.5) Humanização no serviço de urgência A modernidade auxilia nos processos de diagnósticos e tratamentos, porém isso faz com que o trabalho das equipes se tornem mecânicos, distanciandoas do fator humano. Com isso vê-se a diminuição ou até mesmo a exclusão do sujeito de forma psicológica e social, esquecendo seus valores, cultura e emoções (2). As propostas de humanização dos serviços de saúde levam a refletir sobre o tipo de atendimento prestado nesses serviços, profissionais apesar de humanos, prestam cuidados de forma desumana ou pouco humanizadas. Um grande contribuinte para um serviço desumano, é a falta de recursos físicos, humanos, mas principalmente o baixo investimento na qualificação de profissionais (2). A equipe multidisciplinar deve estar envolvida, desenvolvendo ações, cada um em sua área de competência, obtendo um bom desempenho profissio- 192 nal, consequentemente, alcançando a qualidade dos serviços. A humanização, principalmente, nos serviços de urgência, encontra-se precária, pois recebem um grande número de pacientes, com variados casos e gravidade, levando assim a uma sobrecarga dos trabalhadores do serviço, resultando em um atendimento de pouca qualidade. O Acolhimento com Classificação de Risco é um dispositivo que opera concretamente os princípios da Política de Humanização, que tem como meta implantar um modelo de atenção com responsabilização e vínculo, ampliando o acesso do usuário ao SUS, implantando um acolhimento responsável e resolutivo, baseado em critérios de risco (15). 3.1.5.1) Humanização da área física De acordo com Calil et al (2), qualquer estrutura hospitalar deve ter o olhar voltado à humanização, principalmente nas áreas onde há o acolhimento dos pacientes, ou seja, a porta de entrada. É necessário que haja segurança e conforto, tornando um ambiente agradável, não expondo os usuários do serviço. A falta de privacidade, o desconforto são queixas comuns encontradas pelos pacientes do serviço, principalmente, de urgência. Para Martins (16), os estabelecimentos assistenciais de saúde, bem como os serviços de urgência, são empresas complexas, abrigando diversos setores, cada um com sua especificidade Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 e função. São empreendimentos que exigem grandes investimentos na construção, na compra de equipamentos e, principalmente, na manutenção dos custos operacionais. Os estabelecimentos de saúde do futuro, além da viabilidade econômicofinanceira, devem atender aos requisitos de: expansibilidade, flexibilidade, segurança, eficiência e, sobretudo, humanização. Nesse ponto, o conforto ambiental aparece como forte aliado nos processos de cura de pacientes. Uma pessoa está confortável em um ambiente quando se sente em neutralidade em relação a ele. No caso dos edifícios hospitalares, a arquitetura pode ser um instrumento terapêutico caso contribua para o bem-estar físico do paciente com a criação de espaços que, além de acompanharem os avanços da tecnologia, desenvolvam condições de convívio mais humanas (17). Miquelin (18) lembra que o desconforto ambiental nos serviços de saúde não pode ser um problema a mais nesses espaços, construídos para, muitas vezes, situações estressantes de atendimento associadas a pacientes com risco de vida ou sofrimento profundo. A humanização do ambiente físico de saúde ao mesmo tempo em que colabora com o processo terapêutico do paciente, contribui para a qualidade dos serviços de saúde prestados pelos profissionais envolvidos. A natureza transversal dessa política envolve todos os atores e pode ser colocada em prática de imediato, porque exige apenas Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva. decisão de mudar a forma de ver o outro (16). Os usuários dos serviços de saúde devem se sentir seguros, à vontade, na hora do atendimento, obtendo um atendimento com maior resolutividade. 3.1.5.2) Humanização do pessoal e entre profissionais Calil et al (2) acreditam que a humanização dos profissionais e entre eles, deve ser um fator essencial para transformar o atendimento uma experiência agradável. Deve haver uma mudança na visão dos dirigentes destes serviços, não focando apenas na obtenção de equipes treinadas, com desenvolvimento técnico e científico, como também em um serviço humanizado. Os protocolos são ferramentas importantes para a agilidade do atendimento, mas o profissional deve ficar atento para não deixar de lado a individualidade do paciente no seu aspecto mais humano. Sendo assim, o profissional deve ter consciência de que o paciente necessita de um bom atendimento, não tratando somente a queixa principal, a doença, ou o monitor, mas sim, ter uma visão holística, evitando o atendimento mecanizado. A comunicação é um ponto essencial em um atendimento humanizado, abordando e orientando os usuários. O processo de humanização não deve limitar-se aos pacientes e familiares, como também entre os próprios profissionais, pois um bom relaciona- mento entre esses leva a uma maior motivação e comprometimento (2). O atendimento na emergência envolve dados subjetivos, relacionados com ansiedade e medo, pelos clientes e familiares. O profissional precisa saber lidar com esses sentimentos, buscando informações concretas, fundamentadas em sinais clínicos. “A questão fundamental é quais os dados utilizados para classificar um paciente, que instrumento utilizar?” (11). A humanização está sendo considerada o diferencial, pois deve fazer parte do dia a dia das instituições. É imprescindível que as instituições tenham a visão de que a assistência deve ser prestada em função da vida e saúde e não da doença ou morte, que os protocolos utilizados são uma grande ajuda para a avaliação mais rápida dos pacientes, mas não esquecendo de oferecer um atendimento mais humano. Entretanto verifica-se que a simples implantação da classificação de risco como forma de atenção humanizada não garante a qualidade e agilidade no atendimento. Há necessidade de mudanças nas atitudes de toda equipe, com objetivo de prestar um cuidado integral e humanizado (19). 3.1.6) Qualidade nos serviços de urgência Como já foi falado, havendo humanização nos serviços, provavelmente haverá qualidade dos mesmos. A qualidade é dependente da satisfação dos clientes, da agilidade em alta de- manda e a equipe não deve somente resolver tudo, mas tudo de maneira correta. Donabedian (20) definiu qualidade como uma propriedade que pode ser obtida em vários níveis, de acordo com a obtenção de benefícios e menores riscos para o paciente, dependente dos recursos disponíveis e os valores sociais existentes, propondo uma tríade: estrutura, processo e resultado. Um grande contribuinte para precárias condições de saúde está aliada ao fato de grande parte da população não possuir acesso a um bom serviço de saúde e na maioria das vezes a utilização desses serviços existentes ocorrer de maneira caótica. O usuário não sabe qual serviço procurar nas diferentes condições de saúde que ele se encontra. Sendo assim, alguns autores, referem que um ambiente tumultuado e estressante dificulta a prestação de um serviço com qualidade, em que os profissionais ficam sobrecarregados, não sendo capazes de prestar um atendimento qualificado aos pacientes (21). Por esse motivo, outros autores citam, visando melhorar a qualidade da atenção à saúde realizada pelo SUS, a criação de programas de qualidade como o Qualisus, pelo ministério da saúde, em regiões metropolitanas, nos serviços de urgência (22). De acordo com Bittencourt e Hortale (22), a qualidade é vista como o grau em que os serviços de saúde satisfazem as necessidades dos indivíduos e seus familiares. Alguns Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 193 Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva. pontos são considerados como fatores de qualidade, são eles: resolubilidade, eficácia e efetividade da atenção a saúde, redução dos riscos a saúde, humanização, presteza na atenção, motivação dos profissionais, e controle social. Nas frequentes situações de alta demanda, a classificação dos pacientes passa a ser crucial na priorização dos pacientes graves ou potencialmente graves. Com isso, é possível uma avaliação rápida e eficiente, com protocolos e profissionais hábeis, e condutas de urgência e emergência. Outro ponto crucial, relacionado a qualidade do atendimento, é o controle da dor. A equipe deve ser treinada para perceber os sinais de dor, utilizando escalas. Deve haver uma distribuição do trabalho entre a equipe para que aconteça uma organização do mesmo, facilitando a assistência e obtendo uma maior qualidade (2). 3.1.7) Enfermagem na emergência: aspectos éticos e legais Para Calil et al (2) alguns aspectos éticos e legais das práticas assistencial e gerencial de enfermagem em serviços de emergência, envolvem o processo de tomada de decisão, bem como as responsabilidades da equipe (2). A ética profissional, como parte da ética geral, visa despertar no profissional a reflexão sobre o processo de trabalho, as relações interpessoais e a responsabilidade diante das ações profissionais, comportamentos 194 ou decisões, devendo esses estar resguardadas nos princípios éticos e legais do exercício profissional (23). Os profissionais devem agir pautados por leis, com ética profissional e assegurar ao cliente uma assistência livre de danos decorrentes de imperícia, negligência ou imprudência. É importante que o profissional de enfermagem procure estar sempre se atualizando e ampliando seus conhecimentos técnicos, científicos e culturais. Segundo Oguisso e Zoboli (23), os aspectos éticos e legais do agir dos profissionais de enfermagem, pautam-se no código de ética dos profissionais de enfermagem e na lei do exercício profissional, porém devese considerar que os fundamentos éticos de agir são um conjunto de valores. A consulta de enfermagem é atividade privativa do enfermeiro, que utiliza componentes do método científico para identificar situações de saúde/doença, prescrever e implementar medidas de enfermagem que contribuam para a promoção, prevenção, proteção da saúde, recuperação e reabilitação do indivíduo, família e comunidade. Compõe-se de histórico de enfermagem (entrevista), exame físico, diagnóstico de enfermagem, prescrição e implementação da assistência e evolução de enfermagem. A institucionalização da consulta de enfermagem como um processo da prática de enfermagem, leva a uma perspectiva da concretização de um modelo assistencial adequado às condições das necessida- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 des de cada população (24). Nos serviços de urgência e emergência, deve estar presente também a consulta de enfermagem, pois o enfermeiro é o profissional mais indicado para obter uma classificação com boa resolução, sem deixar de ser humanizada e respaldada por lei. 4) Conclusão Ao término desse estudo foi possível obter novos conhecimentos sobre aspectos gerenciais acerca do acolhimento com a classificação de risco, mostrando a realidade encontrada nos serviços de urgência, bem como as dificuldades enfrentadas pelos profissionais do serviço e pelos usuários do mesmo. O principal papel da implantação do protocolo de classificação de risco no serviço de urgência é garantir a qualidade da assistência pela padronização do atendimento e da priorização do paciente mais grave, garantindo assim, a ação e a prioridade adequada do atendimento, além de assegurar que os recursos sejam alocados de forma devida. A organização da assistência permite conhecer indicadores que direcionam a gestão do serviço e a necessidade de investimentos de recursos. Graças a esse estudo foi possível observar como o acolhimento e a classificação de risco nos serviços de urgência, podem ajudar a organizar e gerenciar os serviços, obtendo uma diminuição de demanda dos mesmos, sem deixar de prestar a devida assistência aos usuários, encaminhando-os a outros serviços, e consequentemente resul- Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva. tando em uma menor sobrecarga de trabalho aos profissionais, podendo assim, oferecer um atendimento com maior eficiência, qualidade e humanizado. Referências 1. Teixeira, JMC et al. Organização do Fluxo de Atendimento em um Serviço de Emergência. Disponível em: <http://www.premiomariocovas.sp.gov.br /2008/2005/Eficiencia_e_Desburocratiza cao/ED_500.DOC.> Acesso em: 05 fev. 2009. 2. Calil, AM; Paranhos, WY. O enfermeiro e as situações de emergência. São Paulo: Atheneu; 2007 3. Santos, JS; Scarpelini, S; Brasileiro, SLL; Ferraz, CA; Dallora, MELV; Sá, MFS. Avaliação do modelo de organização d a u n i d a d e d e e m e rg ê n c i a d o HCFMRP–USP, adotando, como referência, as políticas nacionais de atenção as urgências e de humanização. Medicina (Ribeirão Preto). 2003; 36: 498-515 4. Roese, A; Gerhardt, TE. Fluxos e utilização de serviços de saúde: mobilidade dos usuários de média complexidade. Rev Gaúcha Enferm., Porto Alegre (RS) 2008 jun;29(2):221-9. 5. Marques, GQ; Lima, MADS. Demandas de usuários a um serviço de pronto atendimento e seu acolhimento ao sistema de saúde. Rev Lat Am Enfermagem 2007; 15(1): 13-19. 6. Grupo Brasileiro de Acolhimento com Classificação de Risco (GBACR). História da Classificação de risco. [citado em 15 dez 2008] Disponível em: URL: <http://gbacr.com.br/index.php?option=c o m _ c o ntent&task=view&id=74&Itemid=107> Acesso em: 15 out. 2009. 7. Abbês, C; Massaro, A. Acolhimento Com Classificação de Risco. Disponível em: <http://www.saude.sc.gov.br/hijg/gth/Aco l h i m e nto%20com%20Classifica%C3%A7%C3 %A3o%20de%20Risco.pdf> Acesso em: 05 fev. 2009. 8. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Assistência à Saúde. Regulamento técnico dos sistemas estaduais de urgência e emergência. Portaria GM/MS nº 2048,de 5 de novembro de 2002. Ministério da Saúde, Brasília; 2002. (Série E. Legislação de Saúde). [citado em 20 dez 2008] D i s p o n í v e l e m : U R L : <http://www.saude.mg.gov.br/atos_norm a t i v o s / l e g i s l a c a o sanitaria/estabelecimentos-de- s a u d e / u r g e n c i a - e emergencia/portaria_2048_B.pdf> Acesso em: 15 out. 2009. 9. Machado, SCEP. Como um Protocolo de Classificação de Risco pode Qualificar o Encaminhamento dos Pacientes na Emergência. Disponível em: <http://inovacao.enap.gov.br/index.php? o p t ion=com_docman&task=doc_view&gid= 103> Acesso em: 05 fev. 2009. 10. Laurant, LS. Encounter at triage results in legal liability. J Emerg Nurs 2003; 29(1): 55-57. 11. Pires, PS. Tradução para o português e validação de instrumento para triagem de pacientes em serviço de emergência: Canadian Triage and Acuity Scale (CTAS); 2003. [Tese de Doutorado] – Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, São Paulo. 12. Medeiros-Silva, DC et al. Acolhimento com avaliação e classificação de risco: dificuldades no processo de implantação e implementação nos serviços de urgência. RECENF 2009; 7 (22):195-201. 13. Pires, PS; Gato, MAF. Escala canadense de triagem e acuidade (CTAS): validação e aplicação. Revista Emergência 2005; 1 (1):14-19. 14. Gerdtz, MF; Bucknall, TK. Why we do the things we do: applying clinical decision – making frameworks to triage practice. Acc Emerg Nurs 1999;7(1):50-7. 15. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria-Executiva, Núcleo técnico da Política nacional de humanização. HumanizaSUS: Acolhimento com avaliação e classificação de risco: um paradigma ético-estético no fazer saúde. Brasília: Ministério da Saúde; 2004. Série B. Textos básicos em Saúde. 16. Martins, VP. A Humanização e o Ambiente Físico Hospitalar. Anais do I Congresso Nacional da ABDEH – IV Seminário de Engenharia Clínica. 2004. D i s p o n í v e l e m : <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicaco es/humanizacao_ambiente_fisico.pdf> Acesso em: 25 out. 2009. 17. Corbella, O. Em busca de arquitetura sustentável para os trópicos – conforto ambiental. Rio de Janeiro: Revan, 2003. 18. Miquelin LC. Anatomia dos edifícios hospitalares. São Paulo: CEDAS, 1993. 19. Shiroma, LMB; Pires, DEP; Reibnitz, KSR. Reflexão acerca da implantação de um protocolo de classificação de risco no serviço de emergência. Anais do 2º Seminário de Trabalho em Enfermagem (2° SITEn); 2008. [citado em 10 nov 2009] Disponível em: URL: <www.abennacional.org.br/2SITEn/Arquivos/N.102.pdf> Acesso em: 15 out. 2009 . 20. Donabedian, A. The seven pillars of quality. Arch Pathol Lab Med 1990; 114: 1115-8. 21. Novaes, HM; Paganini, JM. Garantia de Qualidade: acreditação de hospitais para a América – Latina e o Caribe. Brasília, 1993. 22. Bittencourt, RJ; Hortale, VA. A qualidade nos serviços de emergência de hospitais públicos e algumas considerações sobre a conjuntura recente no município do Rio de Janeiro. Ciênc. saúde coletiva 2007; 12(4): 929-934. 23. Oguisso, T; Zoboli, E. Ética e Bioética: desafios para a enfermagem e a saúde. São Paulo: Manole, 2006. 24. COREN-MG. Legislação e Normas/ Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais. – V. 11, n. 1. Belo Horizonte: COREN-MG, 2009:43 – 44. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 195 Análise dos riscos ocupacionais dos profissionais de enfermagem de Paranavaí /PR Analysis of the nurses´ occupational risks in Paranavaí / PR. El análisis de los riesgos laborales de los profesionales de enfermería Paranavaí / PR Maíris Duarte Alarcão, Mariele Cambiriba, Maria Antonia Ramos Costa. RECENF-Revista Técnico-Científico de Enfermagem2010-v8-n25; (193-198) Resumo O trabalho é uma atividade inerente à existência humana. O trabalho de enfermagem por sua vez, expõe seus trabalhadores a inúmeros riscos ocupacionais, dentre esses o mais comum é o risco biológico principalmente aqueles ocasionados por material pérfurocortante. Assim este trabalho teve como objetivo caracterizar o perfil do profissional de enfermagem acidentado nos aspectos relacionados ao sexo, idade e ocupação e ainda identificar o tipo de acidente de maior prevalência no município de estudo destacando suas principais causas e características. Como método, utilizou-se coleta de dados através de pesquisa de campo quantiqualitativa, com dados secundários da Ficha de Investigação de Acidente de Trabalho do SINAN no período dos quatro primeiros meses dos anos de 2007, 2008 e 2009. As variáveis utilizadas foram dados do acidentado como sexo, idade, categoria profissional, tipo de acidente, tipo de material biológico e situação vacinal do mesmo. A análise dos dados deu-se através de tabelas e gráficos do software Excel 2003. Os resultados revelaram que os profissionais que mais se acidentaram foram os técnicos e auxiliares de enfermagem e o tipo de acidente em prevalência foi o percutâneo tendo como material orgânico o sangue e como agente causal principal a perfuração por agulhas. Descritores: Riscos ocupacionais, equipe de enfermagem, acidentes de trabalho. Abstract The work is an activity inherent in human existence. The work of nursing as per say, exposes its workers to numerous occupational hazards, among them the most common is the biological risk especially those caused by needlestick injuries. So this study aimed to characterize the profile of nursing staff injured in the aspects related to gender, age and occupation and identify the type of accident most prevalent in the municipality of study highlighting its main causes and characteristics. The method was used for data collection through quantitative and qualitative field research, with the secondary data sheet for the Investigation of Accident SINAN during the first four months of the years 2007, 2008 and 2009. The variables used were taken from the victims as sex, age, professional category, and type of accident, type of biological material and vaccination status of it. Data analysis took place with tables and graphs in Excel 2003 software. The results revealed that staff were hurt most were the technicians and nursing assistants and the type of accident in prevalence was having as percutaneous blood and organic material as the main causal agent piercing needles. Descriptors: Occupational risks, nursing, team, accidents, occupational. 197 Resumen El trabajo es una actividad inherente a la existencia humana. El trabajo de la enfermería, a su vez, expone a sus trabajadores a numerosos riesgos profesionales, entre ellos el riesgo biológico más común, especialmente las causadas por pinchazos con agujas. Así que este estudio tuvo como objetivo caracterizar el perfil del personal de enfermería heridos en los aspectos relacionados con el sexo, edad y ocupación e identificar el tipo de accidente más frecuente en el municipio de estudio destacando sus principales causas y características. El método fue utilizado para la recolección de datos a través de la investigación de campo cuantitativos y cualitativos, con la hoja de datos secundarios para la Investigación del Accidente SINAN durante los primeros cuatro meses de los años 2007, 2008 y 2009. Las variables utilizadas fueron tomadas de las víctimas de sexo, edad, categoría profesional, tipo de accidente, tipo de material biológico y estado de vacunación de la misma. El análisis de datos se llevó a cabo con tablas y gráficos en Excel 2003 de software. Los resultados revelaron que el personal estaba más perjudicados fueron los técnicos y auxiliares de enfermería y el tipo de accidente en la prevalencia fue teniendo como percutáneo de sangre y materia orgánica como el principal agente que causa la perforación agujas. Descriptores: Riesgos laborales, grupo de enfermería, accidentes de trabajo. Maíris Duarte Alarcão. Enfermeira; Graduada no Curso de Enfermagem da Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí. Mariele Cambiriba. Enfermeira; Graduada no Curso de Enfermagem da Faculdade Estadual de Educação, em Ciências e Letras de Paranavaí. Maria Antonia Ramos Costa. Enfermeira; Mestre, Docente e Chefe do Departamento do Curso de Enfermagem da Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí. 198 Maíris Duarte Alarcão, Mariele Cambiriba, Maria Antonia Ramos Costa. Introdução O trabalho é uma atividade inerente à existência humana e que implica ao homem utilizar-se de suas capacidades físicas e mentais na produção de bens e serviços que contribui para a reprodução da vida humana, individual e social (1). Em nossa sociedade, o trabalho é visto pelo homem com tamanha importância que ocupa grande número de horas de seu dia. Nessa perspectiva, o processo de trabalho está de tal modo imbuído de normas e rotinas, com exigências cada vez maiores, exageradas ou ultrapassadas, que acaba por impedir que o homem transforme-se durante sua realização, além de atuar como um agente causal dos agravos à saúde física ou mental do trabalhador (2). Os agravos à saúde do trabalhador podem ser provenientes de fatores nocivos presentes no ambiente laboral. Os trabalhadores de saúde por sua vez, estão sujeitos a riscos gerais e específicos, porém, os mais susceptíveis aos riscos ocupacionais são os profissionais de enfermagem (particularmente os que atuam em unidades hospitalares), por realizarem cuidados diretos aos pacientes e serem os responsáveis pela execução de 60% das ações de saúde. Assim, estão conseqüentemente mais expostos ao risco de doenças e acidentes laborais (2). É oportuno mencionar que, acidente de trabalho do ponto de vista legal é definido como sendo aquele que ocorre pelo exercício do trabalho, a serviço da empresa, provocando lesão corporal, perturbação funcional ou doença que cause a morte, perda ou redução, permanente ou temporária da capacidade para o trabalho. Considera-se ainda como acidente de trabalho, aquele que ocorre no trajeto entre a residência do trabalhador e o local de trabalho, a doença que é produzida ou desencadeada pelo exercício de determinado trabalho e ainda a doença adquirida ou desencadeada pelas condições de trabalho (3). Os riscos ocupacionais, segundo a Organização PanAmericana de Saúde no Brasil, podem ser classificados em biológicos, físicos, químicos, psicossociais, ergonômicos e de acidentes (4). Enfatizaremos neste trabalho os riscos ocupacionais causados por agentes biológicos, em particular os acidentes com materiais pérfurocortantes, por serem tão comuns entre os profissionais de enfermagem, que em seu cotidiano lidam com materiais como agulhas, sondas e cateteres, muitas vezes contaminados por sangue ou fluídos corpóreos. Tais eventos são preocupantes, pois, os acidentes ocasionados com agulhas são responsáveis por 80 a 90% das transmissões de doenças infecciosas entre trabalhadores de saúde. O risco de transmissão de infecções por meio de agulhas contaminadas é de um em três para Hepatite B, um em trinta para Hepatite C e um em trezentos para HIV(5). Em virtude do exposto, os objetivos deste trabalho foram caracterizar o perfil do profissional de enfermagem aci- dentado nos aspectos relacionados ao sexo, idade e ocupação e ainda identificar o tipo de acidente de maior prevalência no município de estudo destacando suas principais causas e características. Metodologia Este estudo desenvolveu-se através de uma pesquisa exploratória, que inicia-se por algum fenômeno de interesse e, além de observar e registrar a incidência do fenômeno, busca explorar as dimensões deste, a maneira pela qual ele se manifesta e os outros fatores com os quais ele se relaciona (6). Assim, utilizou-se como método de coleta de dados a pesquisa de campo quantiqualitativa, com dados secundários da Ficha de Investigação de Acidente de Trabalho do Sistema de Informação de Agravos de Notificação – SINAN. O acesso às fichas foi permitido após autorização por escrito da Secretaria Municipal de Saúde de Paranavaí-PR, através do Setor de Epidemiologia onde foram analisadas as notificações do município durante os quatro primeiros meses dos anos de 2007, 2008 e 2009. As variáveis utilizadas foram alguns dados do acidentado como sexo, idade, categoria profissional, tipo de acidente, tipo de material biológico e situação vacinal do mesmo. O SINAN é alimentado, principalmente, pela notificação e investigação de casos de doenças e agravos que constam da lista nacional de doenças de notificação compulsória. Sua utiliza- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 199 Maíris Duarte Alarcão, Mariele Cambiriba, Maria Antonia Ramos Costa. ção efetiva permite a realização do diagnóstico dinâmico da ocorrência de um evento na população; podendo fornecer subsídios para explicações causais dos agravos de notificação compulsória, além de vir a indicar riscos aos quais as pessoas estão sujeitas, contribuindo assim, para a identificação da realidade epidemiológica de determinada área geográfica (7). Como toda a pesquisa científica, utilizouse levantamento bibliográfico, para fundamentar as discussões sobre como prevenir os acidentes com material biológico e para subsidiar a análise dos dados coletados, que foram compilados em tabelas e gráficos do software Excel 2003, para melhor compreensão dos resultados. A pesquisa foi realizada dentro dos preceitos éticos e legais da Resolução 196/06, conforme aprovação do Comitê de Ética da Universidade Estadual de Maringá, parecer nº 540/2009. Resultados e discussão Com a análise dos dados foi possível traçar um perfil da população acidentada e caracterizar o acidente e suas causas. O total de notificações no período de estudo foi de 32 casos. Observa-se que o número de exposições ao sangue, incluindo aquelas percutâneas e mucotâneas, varia conforme as diferentes categorias profissionais, as atividades realizadas pelo profissional e os setores de atuação dos serviços de saúde (8). O estudo verificou que 50% desse total envolveram profissionais de enfermagem em suas diferentes funções, o que pode ser observado na figura 1, confirmando que por prestar cuidados diretos e contínuos a pacientes com diferentes graus de complexidade, a equipe de enfermagem é a categoria mais exposta a acidentes com material biológico. 200 Observando a figura 2, ao separarmos a porcentagem de casos na equipe de enfermagem por ano de estudo, percebemos maior prevalência em 2007. Todavia, não se pode afirmar que nos anos seguintes houve realmente uma queda brusca de casos, pois muitos profissionais não notificam o acidente (subnotificação), o que impede que se tenha uma ideia da real dimensão desse problema nas unidades de saúde. Estima-se que no Brasil ocorra uma alta taxa de subnotificação de acidentes, que pode estar relacionada a diversos fatores entre eles, a falta de conhecimento da realidade dos riscos por parte dos trabalhadores, ao medo de desemprego, ao sentimento de culpa que sente em relação a esse evento, a falta de organização adequada das ações, a dificuldade de acesso ao sistema de informação e ainda à descrença dada a gravidade de um acidente desta natureza (9). Na definição do perfil dos profissionais de enfermagem acidentados, observou-se que 73% são do sexo feminino, confirmando que as mulheres constituem maioria na área da enfermagem fato que se compele ao surgimento da profissão que inicialmente era exercida exclusivamente por mulheres. Essa categoria está mais sujeita aos riscos ocupacionais também pelo fato de sofrerem maior desgaste físico, mental e emocional devido à necessidade de conciliação entre trabalho doméstico e atividade profissional (dupla ou tripla jornada de trabalho) (10). Quanto à faixa etária dos profissionais, podemos identificar através da figura 3 que o maior Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 Maíris Duarte Alarcão, Mariele Cambiriba, Maria Antonia Ramos Costa. número de acidentes ocorreu com profissionais relativamente jovens com idade entre 20 e 29 anos. Ao analisarmos as causas e características do acidente constatou-se que a exposição em prevalência foi a percutânea, ocorrendo com 14 dos 16 profissionais de enfermagem. Esse tipo de exposição ocupacional é caracterizado pelo contato direto com fluidos potencialmente contaminados e pode ocorrer de dois modos distintos: por inoculação percutânea, também chamada de parenteral, e pelo contato direto com pele e/ou mucosa, com comprometimento de sua integridade após arranhões, corte ou por dermatites (11). Outro ponto a se ressaltar, é que 81% dos acidentes tiveram como agente causal agulhas em sua maioria com lúmen, sendo que em 100% dos casos o material orgânico presente foi o sangue, o que nos remete uma reflexão preocupante, pois, quando o acidente ocorre com material contaminado ha possibilidade do desenvolvimento de doenças graves como HIV/AIDS, Hepatite B e hepatite C. O risco médio de se adquirir o HIV com exposição sanguínea é de, aproximadamente, 0,3% após exposição percutânea, e de 0,09% após exposição muco cutânea. Para Hepatite B esse risco é ainda maior podendo atingir 40% em exposições em que o paciente apresente sorologia HBsAg reativa. No caso de contato com o vírus da Hepatite C, o risco médio é de 1,8%, podendo variar de 1 a 10%, ressaltando ainda que não exista uma intervenção específica para prevenir a transmissão do vírus da Hepatite C após exposição ocupacional (8). Um ponto positivo identificado foi que todos os profissionais de enfermagem estavam com o es- quema vacinal de Hepatite B completo (3 doses). São inúmeros os procedimentos executados pelos profissionais de enfermagem, e muitos deles são realizados em circunstâncias que oferecem riscos ao trabalhador. Na tabela 1 identificamos as principais circunstâncias em que ocorreram os acidentes ocupacionais da equipe de enfermagem. Um fato que chamou-nos atenção foi que, 2 das 3 atendentes de enfermagem acidentaram-se durante procedimento cirúrgico, o que denota disparidade com o regulamentado pela Lei do exercício de enfermagem. Pois, segundo essa lei, a enfermagem é exercida privativamente pelo enfermeiro, técnico de enfermagem, auxiliar de enfermagem e parteira, sendo assegurado aos atendentes de enfermagem admitidos antes da vigência dessa lei em locais com carência de recursos humanos nessa área, apenas o exercício de atividades elementares de enfermagem como, por exemplo, prestar cuidados de higiene e conforto ao paciente (12). Em virtude do exposto, fica evidente que o atendente de enfermagem não poderia participar de procedimentos cirúrgicos, pois, tal função não faz parte de suas atribuições se tratando de exercício irregular da profissão de enfermagem por esse servidor não possuir habilitação legal e treinamento para a execução da mesma. Observou-se que os acidentes com agulhas constituem a principal forma de exposição percutânea acidental dos profissionais de saúde, Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 201 Maíris Duarte Alarcão, Mariele Cambiriba, Maria Antonia Ramos Costa. em especial, de enfermagem (13). Sendo assim é necessário que medidas preventivas sejam implantadas e/ou seguidas, pois a prevenção é maneira mais adequada para se prevenir acidentes ocupacionais, haja vista os inevitáveis riscos a que estão sujeitos os trabalhadores dessa categoria profissional. Conclusão Este estudo permitiunos identificar que os profissionais de enfermagem que sofreram acidentes ocupacionais foram em sua maioria mulheres jovens, com idade entre 20 e 29 anos, ocupando função de auxiliar ou técnico de enfermagem. O tipo de acidente em prevalência foi o percutâneo tendo como material orgânico o sangue e como agente causal principal a perfuração por agulhas, que ocorreu durante a realização de procedimentos rotineiros como administração de medicação intramuscular (IM), punção venosa e dextro. Diante de tais resultados, fica evidente a necessidade de enfermeiros e gestores estarem analisando as notificações dos acidentes ocorridos nas unidades de saúde para obterem uma estatística do número de acidentes, bem como reconhecerem os fatores determinantes para a ocorrência do mesmo, a fim de definir medidas preventivas e soluções efetivas para a diminuição da ocorrência desses eventos danosos a saúde do trabalhador, inclusive fazendo cumprir a NR-32 (14), que tem por finalidade estabelecer as diretrizes bá- 202 sicas para a implementação de medidas de proteção à segurança e à saúde dos trabalhadores dos serviços de saúde, bem como daqueles que exercem atividades de promoção e assistência à saúde em geral. A partir da compreensão de que todas as categorias de enfermagem estão sujeitas os inúmeros riscos ocupacionais, temse a necessidade de que as instituições de saúde elaborem programas de educação continuada e treinamento dos profissionais, realizem supervisão contínua e sistemática e ainda programe modificações nas rotinas de trabalho em que se torne um hábito a prática de precauções de segurança na realização das atividades laborais. Igualmente, concordamos que reorientar a prática profissional dos trabalhadores é um desafio para a enfermagem, haja vista o fato de pouco sabermos sobre o conhecimento dos profissionais a cerca desse assunto. Questionamos se esses desconhecem as precauções padronizadas ou simplesmente as ignoram, pois mesmo cientes dos riscos, muitos ainda deixam de proteger-se como se fosse uma atitude natural. Nesse sentido, as instituições devem buscar promover a saúde ocupacional centradas não só na prevenção de acidentes, mas principalmente na melhoria da qualidade de vida no trabalho. Referências 1.Kurcgant, P. Gerenciamento em enfermagem.1ª Ed. São Paulo: EPU, 1991 p111. 2.Cavalcante, CAA; Enders, BC; Menezes, RMP; Medeiros, SM. Riscos Ocupacionais Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 do Trabalho em Enfermagem: Uma análise contextual. Cien Cuid Saúde 2006; 5(1): 88-97. 3.Lei 8213 de 24 de julho de 1991 – Decreto 611 de 21 de julho de1992, art 19º, d i s p o n í v e l e m : U R L : http://www3.dataprev.gov.br/SISLEX/pagi nas/42/1991/8213.htm [ 2009 nov. 25] 4.Mauro, MYC; Muzi, CD; Guimarães, RM; Mauro, CCC. Riscos Ocupacionais em Saúde. Rev. Enferm UERJ 2004; 12: 338-45. 5.Simão, SAF; Souza, V; Borges, RVA; Soares, CRG; Cortez, EA. Fatores associados aos acidentes biológicos entre profissionais de enfermagem. Cogitare Enferm 2010; 15 (1):87-91. 6.Polit, DF; Hungler, BP. Fundamentos de pesquisa em enfermagem. 2ª ed. Porto Alegre - RS(Brasil): Artes Médicas; 1995. 7.Torres, M; Campins, M; Esteban, JI; Costa, J; Batisda, MT; Brug, M. Is it useful to perform the RNA test for hepatitis C in health care workers after an accidental needlestick. J Hepatol 2000; 33:683. 8.Santos, APB; Novaes, MMV; Paizante, GO. Acidentes de trabalho e biossegurança no ambiente hospitalar. Rer. Edu. Meio Amb. e Saúde, 2008; 3(1): 51-62. 9.Marziale, MHP; Silva, EJ; Hass, VJ; Robazzi, MLCC. Acidentes com material biológico em hospital da Rede de Prevenção de Acidentes do Trabalho – REPAT. Rev. Brasileira de Saúde Ocupacional, São Paulo2007; 32(115): 109-119. 10.Leite, PC; Silva, A; Merighi, MAB. A mulher trabalhadora de Enfermagem e os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo 2007; 41 (2):287-291. 11.Decher, MD. The Osha bloodborne hazard standard. Infect control Hosp. Epidemiol. 1992; 13(7): 407-17. 12.Lei 7498 de 25.06.86 (DOU 26.06.86), Dispõe sobre a regulamentação do exercício de enfermagem e dá outras providências. Art 2º e 23º. Disponível em: URL: abr. 04] 13.Balsamo, AC; Felli, VEA. Estudo sobre os acidentes de trabalho com exposição aos líquidos corporais humanos em trabalhadores da saúde de um hospital universitário. Rev. Latino - am Enfermagem 2006; 14 (3): 346-53. 14.Portaria MTE nº 485, de 11 de novembro de 2005 ( Diário Oficial da União de 16 de novembro de 2005-Seção I) que define diretrizes da Norma Regulamentadora nº 32- Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de saúde. Análise do uso de equipamentos de proteção individual por agricultores que utilizam agrotóxicos Analysis of the equipment use of individual protection for agriculturist who use agrotóxicos Eniva Miladi Fernandes Stumm, Marli Maria Loro, Rosane Maria Kirchner, Alexandre Zaisov, Liamara Denise Ubessi, Ane Gabriele Poli, Maiara Tamires Franco. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n25; (199-202). Resumo O uso de agrotóxicos nas lavouras sem proteção do trabalhador é prejudicial à sua saúde e ao meio ambiente. A pesquisa analisa o perfil de trabalhadores que utilizam agrotóxicos na região noroeste do Rio Grande do Sul e relaciona variáveis do mesmo ao uso de Equipamentos de Proteção IndividualEPIs. É quantitativa, descritiva, envolvendo resultados parciais de investigação desenvolvida no noroeste do Rio Grande do Sul. Trata-se de uma amostra parcial (285 famílias) de um total de 400 famílias residentes no meio rural dos respectivos municípios. Para a coleta de dados, foi utilizado instrumento com dados sociodemográficos e questões sobre EPIs. A análise se deu pela estatística descritiva e observados os preceitos éticos conforme Resolução196/96 do Ministério da Saúde. A maioria dos agricultores pesquisados é do gênero masculino, usa agrotóxicos, casada, mais da metade possui filhos e cursou o ensino fundamental incompleto. Dentre os EPIs mencionados pelos agricultores integrantes da pesquisa, o chapéu é o mais usado, seguido de botas e macacão. Já, óculos e protetor solar são os menos utilizados. O cruzamento das variáveis EPIS utilizados com a escolaridade mostra que o uso dos referidos equipamentos se dá na freqüência “sempre”, independente da escolaridade. Palavras-chave: Saúde da população rural; agrotóxicos; escolaridade; perfil epidemiológico; equipamentos de proteção; profissional de saúde. Abstract The pesticides use on farming without worker protection is harmful to health and to environment. The research analyzes workers profile who use pesticides in northwest of Rio Grande do Sul and relates variables of this profile using PPEs (personal protective equipment) -. It is a quantitative and descriptive research, involving partial results of investigation developed in northwest of Rio Grande do Sul. It is partial sample that involves 400 families living in rural zone of respective municipalities, totalizing 285 families. To data collection was used instrument with sociodemographic data and questions about PPEs. The analysis occurred by descriptive statistic and was observed the ethical as resolution 196/96 of Health Ministry. Most of farmers visited are male, use pesticides, are married, more than half have children and attended incomplete basic school. Among PPEs mentioned by farmers involved in the research, hat is the most used, followed by boots and overalls. Already, sunglasses and sunscreen are the least used. The crossing of PPEs variables used with scholarity data shows that the use of these equipments has “always” frequency, regardless of schooling. Keywords: Health rural population; pesticides, scholarity; epidemiological profile; protective devices; health personnel. Eniva Miladi Fernandes Stumm. Enfermeira, Mestre em Administração - Recursos Humanos, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), docente da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ. E-mail: [email protected] Marli Maria Loro . Enfermeira, Especialista em Enfermagem do Trabalho, Mestre em Educação nas Ciências, docente do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), representante da Associação Nacional de Enfermagem do Trabalho/RS, [email protected]. Rosane Maria Kirchner. Professora Doutora em Engenharia Elétrica - Métodos de Apoio à Decisão. Professora de Estatística da Universidade Federal de Santa Maria- Cesnors – UFSM - RS, [email protected]. Alexandre Zaisov. Acadêmico de enfermagem da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ). Bolsista PIBIC-UNIJUI. Acadêmicos de enfermagem da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ). Bolsista voluntário, [email protected].. 203 Eniva Miladi Fernandes Stumm, Marli Maria Loro, Rosane Maria Kirchner, Alexandre Zaisov, Liamara Denise Ubessi, Ane Gabriele Poli, Maiara Tamires Franco. INTRODUÇÃO A tecnologia aliada aos avanços científicos tem colocado à disposição da população um número expressivo de substâncias tóxicas, que podem gerar danos à saúde, ao meio ambiente e se constituir em um problema de saúde pública. A utilização destas substâncias de forma inadequada incorre, para além do impacto na saúde das pessoas, em sérios problemas sociais, econômicos e ambientais. A utilização de agrotóxicos está comprometendo a vida dos seres humanos e o meio ambiente, em decorrência de os trabalhadores manusearem estas substâncias sem a devida proteção (botas, macacões, máscaras, capacetes, luvas e outros equipamentos) (1). Uma pesquisa que objetivou avaliar percepções referentes ao risco, práticas e posturas no uso de agrotóxicos por agricultores de Culturama, Mato Grosso do Sul, em 2005, mostrou que os pesquisados eram cientes dos riscos no manuseio de agrotóxicos. Segundo os autores, muitos agricultores se preocupam com a possibilidade de se contaminarem, bem como com o meio ambiente (2). Os principais problemas de saúde decorrentes do uso de agrotóxicos, evidenciados em estudos (3), são expressos pela diminuição das defesas imunológicas, anemias, impotência sexual masculina, cefaléia, insônia, alterações da pressão arterial e distúrbios do comportamento. Os homens são os que mais se intoxicam, mas a exposição aos agrotóxicos é generalizada, inclusive com a participação de crianças. Os efeitos sobre a saúde humana podem ser divididos em agudos e crônicos (4). Os efeitos agudos 204 aparecem seguidamente ao contato da pessoa com o agrotóxico e normalmente apresentam características peculiares, tais como: espasmos musculares, convulsões, náuseas, desmaios, vômitos, diarréias e dificuldades respiratórias. Os efeitos crônicos podem ser percebidos em semanas, meses ou anos após o contato com essas substâncias, sendo muitas vezes difícil de relacionar ao agente causador, ou seja, o agrotóxico. Nesta ressalta-se que os efeitos negativos de uma possível contaminação por agrotóxicos à saúde humana sejam agravados em pequenas comunidades rurais, pelas precárias condições sanitárias, deficiência no sistema de saúde local e falta de infra-estrutura da maioria da população local, normalmente, de baixas condições socioeconômicas. Evidencia-se que os agricultores, em nível mundial, estão expostos aos efeitos danosos dos agrotóxicos, o que torna indispensável o uso de Equipamentos de Proteção Individual- EPIs. Nesse contexto, igualmente, se observa déficit de informação aliado a falta de cuidado dos trabalhadores, levando ao não uso ou uso inadequado das medidas de proteção quando da utilização de agrotóxicos. O Brasil é um dos países que mais consome agrotóxico, com um número expressivo de trabalhadores expostos (5,6). Nesse sentido, a presente pesquisa analisa o perfil de trabalhadores que utilizam agrotóxicos na região noroeste do Rio Grande do Sul e relaciona variáveis do mesmo ao uso de Equipamentos de Proteção Individual-EPIs. MATERIAIS E MÉTODOS Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 O estudo se caracteriza como uma pesquisa quantitativa, descritiva, envolvendo resultados parciais de uma investigação que está sendo desenvolvida na Região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Noroeste Colonial). Esta, segundo dados da Fundação de Economia e Estatística do Estado do Rio Grande do Sul(7), integra 32 municípios, com uma população de aproximadamente 309.747 habitantes, com uma área de 9.911,3 km², densidade demográfica de 31,3 hab/km², taxa de analfabetismo de 8,28%, expectativa de vida ao nascer de 71 anos, coeficiente de mortalidade Infantil de 13,01 por mil nascidos vivos, renda per capita (2004): R$ 11.415,00 (dados de 2006). Destaca-se que a economia desta região tem por base a agricultura, o comércio e serviços. No que tange a população estudada, trata-se de uma amostra parcial de uma pesquisa que compreende 400 famílias residentes em domicílios do meio rural dos municípios que integram a Região Noroeste Colonial do Rio Grande do Sul. O presente artigo foi construído a partir de resultados parciais envolvendo 285 famílias, sendo que esse número foi distribuído entre os municípios, respeitando a proporcionalidade com o número total da população dos mesmos. No que tange aos critérios de inclusão, foram definidos os seguintes: ser produtor rural e residir na região Noroeste Colonial do estado do Rio Grande do Sul; interesse em participar da pesquisa, após ser esclarecido e tomado conhecimento dos objetivos; aceitar e assinar o termo de consentimento livre e esclarecido. Eniva Miladi Fernandes Stumm, Marli Maria Loro, Rosane Maria Kirchner, Alexandre Zaisov, Liamara Denise Ubessi, Ane Gabriele Poli, Maiara Tamires Franco. Para a coleta de dados foi utilizado um instrumento criado e testado pelas pesquisadoras, contendo dados sociodemográficos e questões sobre o uso de EPIs. Os dados sociodemográficos foram: gênero, idade, uso de agrotóxicos, estado civil, filhos e escolaridade; as questões referentes a freqüência de uso dos dispositivos de proteção foram: macacão, luvas, máscara, chapéu, botas, óculos e protetor solar. A análise dos dados se deu pela estatística descritiva e uso do software estatístico SPSS. Os resultados são apresentados em forma de gráficos e tabelas cruzadas. Para verificar a relação entre as variáveis estudadas, foi aplicado o Teste t de Student. Por se tratar de uma pesquisa que envolve pessoas, foram observados todos os preceitos éticos contidos na Resolução196/96 do Ministério da Saúde7. Inicialmente o projeto de pesquisa foi registrado no SISNEP e encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa da Unijuí, sendo aprovado sob o Parecer Consubstanciado Número 074/2008. Todos os participantes da pesquisa assinaram TCLE, em duas vias, ficando uma em poder deles e outra dos pesquisadores. Resultados e discussáo Inicialmente considera-se importante destacar que 99% dos agricultores integrantes dessa pesquisa utilizam agrotóxicos nas lavouras onde trabalham. Esse dado vem ao encontro da literatura, em que vários autores pontuam que o Brasil é um líder em nível mundial no uso de agrotóxicos nas plantações, tendo como consequências elevados custos à saúde das pessoas, danos ao meio ambiente, dentre outros (6,9). Quanto ao gênero dos trabalhadores pesquisados que utilizam agrotóxicos nas lavouras, constata-se que a grande maioria é de homens, ou seja, um percentual de 90%. Uma pesquisa foi realizada com 1479 trabalhadores rurais dos municípios de Antônio Prado e Ipê, na Serra Gaúcha, em 495 unidades produtivas, com os objetivos de: descrever as características da exposição ocupacional aos agrotóxicos e analisar a incidência de intoxicações por agrotóxicos, no contexto da agricultura familiar. Na avaliação dos pesquisados quanto as características demográficas e relações de trabalho, o sexo masculino compreendeu 55,0% dos proprietários e arrendatários e a 68,0% dos empregados (5,6). Com relação ao estado civil dos pesquisados, a maioria, ou seja, 81% deles é casado ou vive em união estável, 14% são solteiros, 3% viúvos e 2% são separados. Importante ressaltar que 58% deles possuem filhos. Nesse sentido, destaca-se a importância de os profissionais da saúde realizar ações educativas que envolvam não somente o trabalhador rural que utilizam agrotóxicos, como também seus familiares. Ao analisar o grau de instrução dos integrantes dessa pesquisa, constata-se que mais da metade dos agricultores (60,4%) possui o ensino fundamental incompleto e 10,2% cursou o ensino fundamental completo. Evidenciase que os que cursaram o ensino médio completo e /ou incompleto perfazem 21,1% e 8,4% possuem o ensino superior completo ou incompleto. A escolaridade pode ser entendida como um indicador social da pessoa aliado a melhores condições de saúde, produzindo um efeito de proteção contra os malefícios dos agrotóxicos à saúde humana. Estudo realizado mostra que a maioria das pesquisas destaca a baixa escolaridade do agricultor como um problema, por dificultar e restringir a leitura referente aos cuidados e medidas de segurança, descrito nos rótulos dos agrotóxicos (6). Nesse contexto, o processo de modernização da agricultura, a qual garantiu crédito e estimulou o crescimento da indústria de agrotóxicos no Brasil, porém não considerou as dificuldades de estrutura e institucionais, tais como a qualificação dos trabalhadores e a das instituições direcionadas à proteção do meio ambiente e da saúde dos Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 205 Eniva Miladi Fernandes Stumm, Marli Maria Loro, Rosane Maria Kirchner, Alexandre Zaisov, Liamara Denise Ubessi, Ane Gabriele Poli, Maiara Tamires Franco. trabalhadores envolvidos. A não observância desses aspectos tornou esse grupo suscetível aos riscos ocupacionais e ambientais (10). Ainda em relação ao grau de instrução/ escolaridade dos trabalhadores que integraram essa pesquisa, considera-se importante a construção de programas em nível governamental de extensão agrícola, com ênfase em técnicas alternativas de controle de pragas e no uso seguro de agrotóxicos (2). Sequencialmente, a Figura1, apresenta o uso de EPIs pela população pesquisada. Constatase que o chapéu é utilizado pela grande maioria dos trabalhadores seguido de botas e macacão. O hábito de utilizar EPIs, apesar de não desejado, deve ser considerado pelo trabalhador que se expõe a situação de risco, como meio de proteção disponível em uma visão integrada e sistêmica dos agravos de origem ocupacionais (4). Os equipamentos de proteção individual (EPIs), de acordo com a legislação, devem ser usados com a finalidade de reduzir o risco de absorção do produto pelo organismo humano durante a aplicação. O Ministério do Trabalho e Emprego considera EPI todo dispositivo de uso individual destinado a preservar e proteger a integridade física do trabalhador, considerando-se como EPI padrão para a aplicação de agrotóxicos a utilização de boné, máscara, macacão, avental, luvas e botas (11). Para o autor, essas medidas devem ser observadas sempre que a proteção coletiva não é possível ou não seja eficaz contra os riscos ocupacionais. Em pesquisa realizada em dois municípios de Pernambuco, em 2008, dos 182 produtores que participaram da mesma, 95 (52%) afirmaram utili- 206 zar agrotóxicos, e destes, apenas 22 (23%) usaram EPI. Dentre os EPIs apropriados para a manipulação e aplicação de agroquímicos nas lavouras, botas (38%), chapéu (17%), máscara (16%) e luvas(14%) foram os mais usados pela população estudada(11). Esses resultados diferem dos encontrados na presente pesquisa, onde a grande maioria (99%) usa agrotóxicos nas plantações e quanto ao uso de EPIs, igualmente os integrantes dessa pesquisa afirmam usa-los com maior freqüência. Em continuidade a análise e discussão dos dados obtidos com esta pesquisa, foram realizadas o cruzamento das variáveis Uso de EPIs e Escolaridade dos pesquisados. Neste observa-se que nos EPIs bota (76,5%) e chapéu (86,2), mais de três quartos sempre fazem uso destes equipamentos. Também, verifica-se que independente da escolaridade, prevalece à categoria do uso “sempre”. Constata-se que os EPIs óculos e protetor solar são os menos utilizados pelos agricultores participantes da pesquisa (para óculos um percentual de 62,2% e para protetor solar 76,1% que não utilizam). Também, quando analisada a escolaridade, observa-se o predomínio da não utilização em todas as categorias. Quando observados os EPIs macacão (54,4%), luvas (53,4%) e máscara (60,9%), em torno da metade dos trabalhadores pesquisados fazem uso sempre destes equipamentos. Isto se destaca em todos os níveis de escolaridade. Em pesquisa realizada com 1479 trabalhadores rurais visando descrever as características da Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 Eniva Miladi Fernandes Stumm, Marli Maria Loro, Rosane Maria Kirchner, Alexandre Zaisov, Liamara Denise Ubessi, Ane Gabriele Poli, Maiara Tamires Franco. exposição ocupacional aos agrotóxicos e analisar a incidência de intoxicações por agrotóxicos, no contexto da agricultura, constatatou-se que o uso de EPIs foi mais freqüente entre homens e pessoas com escolaridade média – 5 a 8 anos e o grupo sem escolaridade foi o que menos utilizou estes dispositivos de segurança. Mostrou também, que entre os agricultores idosos o uso destas medidas de proteção foi reduzido (5). Pode-se afirmar que esses resultados são contraditórios ao da presente pesquisa. Outro estudo realizado em 2008, em assentamentos dos municípios de Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista, em Pernambuco, com o objetivo de verificar a utilização dos EPIs pelos assentados do Movimento dos Sem Terra (MST), mostrou que dos 182 participantes, 87% são homens. Destes 18,15% não são alfabetizados, 64,5% possuem até quarta série do ensino Fundamental e 1,3% possuem o ensino médio. Dentre os assentados, nenhum utilizou os EPI completos e adequadamente, e o baixo índice de uso pode estar relacionado ao baixo grau de escolaridade dos assentados(12). Nesse contexto, pode-se afirmar que a não utilização ou incompleta das medidas de proteção representa perigo à saúde do agricultor, inclusive, gerando aumento significativo no índice de intoxicações por produtos químicos. Conclusões O perfil dos agricultores pesquisados é: a grande maioria do gênero masculino usa agrotóxicos nas plantações, casada, ma- is da metade possui filhos. Quanto ao grau de instrução, predomina os com ensino fundamental incompleto. Quanto ao uso de EPIs, o chapéu é o mais usado pelos agricultores integrantes da pesquisa, seguido de botas e macacão. Os mesmos, independente da escolaridade, prevalece a categoria do uso “sempre”. Constata-se que óculos e protetor solar são os EPIS menos utilizados pelos agricultores participantes da pesquisa e, quando analisada a escolaridade, ocorre o predomínio da não utilização em todas as categorias. Os EPIS macacão, luvas e máscara, são usadas sempre pelos trabalhadores pesquisados e isso ocorre em todos os níveis de escolaridade. A relevância da pesquisa centra-se em informar a população estudada acerca do uso correto dos produtos, aliado às medidas de proteção específicas, esclarecer acerca de maneiras de evitar agravos e, caso ocorram, que saibam as condutas adequadas para evitar danos à saúde dos expostos a estas substâncias. Os resultados também podem ser utilizados como subsídios para a implementação de propostas de educação em saúde articuladas com programas de prevenção e controle de agravos, disponibilizando à comunidade local e regional, um serviço de informação e orientação em nível de atendimento primário. Os resultados desta pesquisa podem ser utilizados por estudantes, pesquisadores, profissionais que atuam tanto em organizações desta natureza, como também na Rede Básica de Saúde, em hospitais, no sentido de desencadear reflexões, discussões, instigar a realização de mais investigações envolvendo a referida temática, bem como mobilizar ações no sentido de minimizar os riscos à saúde dos trabalhadores, seus familiares, à população em geral, bem como na proteção do meio ambiente. REFERÊNCIAS 1. SOARES, E.L. Agrotóxicos: O veneno nosso de cada dia. [cited 2007 mai 25]. Available f r o m : w w w . c o l a d a w e b .com/biologia/agrotoxicos. 2. Recena MC, Caldas ED. Percepção de risco, atitudes e práticas no uso de agrotóxicos entre agricultores de Culturama-MS. Cad Saúde Pública. 2008;42(2):294-301 3. Levigard YE. A interpretação dos profissionais de saúde acerca das queixas do nervoso no meio rural: uma aproximação ao problema das intoxicações por agrotóxicos. [dissertação] Rio de Janeiro (RJ): Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz; 2001. 4. Veiga MM, Duarte FJCM, Meirelles LA, Garrigou A, baldi I. A contaminação por agrotóxicos e os equipamentos de proteção individual (EPIs). Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, 2007; 32 (116):57-68. 5. Faria NMX, Facchini LA, Fassa AG, Tomas E. Trabalho rural e intoxicações por agrotóxicos. Cad. Saúde Pública.2004 Set/Out;20(5):1298308. 6. Faria NMX, Fassa AG, Facchini LA. Intoxicação por agrotóxicos no Brasil: os sistemas oficiais de informação e desafios para realização de estudos epidemiológicos. Ciênc. saúde coletiva. 2007; 12 (1):25-38. 7. Estado do Rio Grande do Sul. Secretaria de Planejamento e Gestão. Fundação de Economia e Estatística. Disponível em <http://www.fee.tche.br/sitefee>. Acesso em 11 de novembro de 2009. 8. Brasil. Ministério da Saúde. Conselho Nacional da Saúde. Diretrizes e normas regulamentadoras da pesquisa envolvendo os seres humanos: Resolução 196/96. Brasília, 1996. 9. Pires DX, Caldas ED, Recena MCP. Uso de agrotóxicos e suicídios no Estado do Mato Grosso do Sul, Brasil. Cad. Saúde Pública. 2005 Mar/Apr;21 (2):598-605. 10. Soares WL, Porto MF. Atividade agrícola e externalidade ambiental: uma análise a partir do uso de agrotóxicos no cerrado brasileiro. Ciênc. saúde coletiva. 2007 Jan/Mar;12(1):131-43. 11. Brasil. Ministério do Trabalho. Normas Regulamentadoras: Segurança e Medicina do Trabalho. São Paulo: Atlas; 2004. 12. Rocha AM, Silva FA, Barbosa FR, Pereira RC, Ferreira LO. Uso de EPIs pelos produtores em dois assentamentos dos municípios de Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista, Pernambuco. In: XXII Congresso Brasileiro de Entomologia. 2008 Ago 06-11; Uberlândia, Minas Gerais. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 207 Alterações à saúde decorrentes do manuseio do glutaraldeído na desinfecção de artigos médico-hospitalares Health alterations due to the handling of glutaraldehyde in the disinfection of medical-hospital products Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi, Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros-RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010v8-n25; (203212) Resumo O trabalhador de enfermagem expõe-se aos vários fatores de riscos em seu ambiente laboral, inclusive ao manusear Glutaraldeído, substância química utilizada nos Estabelecimentos Assistenciais de Saúde para a desinfecção e esterilização de artigos médico-hospitalares não-descartáveis. Essa exposição tem gerado discussões sobre a saúde e segurança dos trabalhadores de enfermagem. O presente estudo tem como objetivo investigar as alterações à saúde ocasionadas aos trabalhadores de enfermagem relacionados ao manuseio desse produto no processo de desinfecção dos artigos médicohospitalares, bem como os principais meios de proteção necessários quando se utiliza essa substância e em qual ambiente essa deve ser manipulada. Utilizou-se como metodologia a revisão bibliográfica de artigos publicados na biblioteca eletrônica SciELO entre 1994 e 2008, utilizando-se os descritor glutaraldeído e enfermagem do trabalho. A amostra foi composta por oito artigos os quais foram lidos na íntegra e analisados criteriosamente. Com os resultados, constatou-se que o manuseio do glutaraldeído é um fator de risco ocupacional que pode ocasionar alterações em vários sistemas do corpo humano, como o respiratório, cardiovascular, gastrointestinal, tegumentar, ocular, entre outros sintomas; quando tal produto é manipulado pelo trabalhador de forma inadequada e sem o uso de equipamentos de proteção individual. Conclui-se que os trabalhadores de enfermagem que manipulam glutaraldeído necessitam aderir aos princípios de biossegurança dando ênfase na utilização dos equipamentos de proteção individual, evitando assim eventos como tosse, coriza, cefaléia, dermatites, ulcerações, irritações nos olhos, entre outros. Descritores: glutaraldeído, risco ocupacional, enfermagem do trabalho 208 Abstract Nursing workers are exposed to several risk factors in their occupational environment, including the handling of Glutaraldehyde, chemical substance used in Health Care Services, to the disinfection and sterilization of non-reusable medical-hospital products. This exposure has caused discussions about nursing workers' health and security. The present study aims to explore the alterations caused to nursing workers' health, related to the handling of Glutaraldehyde in the disinfection process of medical-hospital products, as well as the main protection means needed when using this substance and in which environment it should be handled. It was used as methodology the bibliographic review of articles published on the electronic library SciELO, between 1994 and 2008, using as descriptors Glutaraldehyde and occupational nursing. The sample consisted of eight articles which were read fully and thoughtfully analyzed. As results it was evidenced the handling of glutaraldehyde is an occupational risk factor that might cause changes in several body systems like the respiratory, cardiovascular, gastric, integumentary ocular systems, among others symptoms, when this product is handled by the worker improperly and without the use of personal protective equipment. It was concluded the nursing workers that handle of Glutaraldehyde need to adhere to the principles of biosafety, with emphasis on use of personal protective equipment, preventing events such as cough, runny nose, headache, dermatitis, ulcerations, eye irritation, among others Descriptors: Glutaraldehyde, Occupational Risks, Occupational Health Nursing Anielle Samara de Souza – Enfermeira, Graduada no Centro Universitário do Triângulo UNITRI. [email protected] Eliene Ferreira Resende - Enfermeira, Graduada no Centro Universitário do Triângulo UNITRI. [email protected] Liomar Afonso Teixeira - Enfermeiro, Graduado no Centro Universitário do Triângulo UNITRI. [email protected] Miriam de Fátima Silva - Enfermeira, Graduada no Centro Universitário do Triângulo UNITRI. [email protected] Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi. Enfermeira do Trabalho. Doutora em Enfermagem. Professora Titular da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto EERP-SP. E-mail: [email protected]. Luiz Almeida da Silva - Enfermeiro do Trabalho. Mestrando em Enfermagem Fundamental - Saúde do Trabalhador EERP/USP, Professor do UNITRI- Uberlândia-MG. E-mail: [email protected] Sonia Aparecida Faleiros – Especialista em Metodologia do Ensino Superior. Professora da Escola Navegantes, Uberlândia-MG. Email: [email protected] 209 Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi, Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros. Introdução Uma das formas mais usuais para a prevenção de infecções hospitalares é o processo de esterilização e desinfecção dos artigos médico-hospitalares não descartáveis. Tais infecções constituem-se em um importante problema de Saúde Pública, tanto pela sua abrangência como pelos elevados custos sociais e econômicos (1). Os responsáveis pela segurança e eficácia da utilização dos materiais médicohospitalares, em geral, são os profissionais de enfermagem. Com a desinfecção e esterilização, que se constituem em procedimentos habitualmente realizados sob sua responsabilidade, pressupõe-se que a saúde dos trabalhadores de enfermagem deve ser considerada, já que eles estão diretamente envolvidos com as substâncias químicas utilizadas na destruição de microorganismos patogênicos, alojados nesses equipamentos. O manuseio inadequado de tais substâncias pode causar danos à saúde constituindo-se em questão relevante para a segurança do trabalhador (2). Ao se relacionar a análise das vertentes entre saúde e trabalho devem ser consideradas as discussões sobre biossegurança, entendida como um conjunto de ações voltadas para prevenção, minimização ou eliminação dos riscos inerentes às atividades laborais. Essas atividades, na maioria das vezes, podem comprometer a saúde do homem bem como a qualidade do trabalho desenvolvido (2). Na área de saúde pode- 210 se observar a existência de numerosos fatores de riscos ocupacionais, sendo um deles representado pelo Glutaraldeído, agente de risco químico, ao qual o trabalhador pode se tornar exposto. Esse produto é uma substância química na forma líquida utilizada nos Estabelecimentos Assistenciais de Saúde (EAS) no processo de desinfecção e esterilização de artigos médicohospitalares, por ter eficiente papel na eliminação de microrganismos como bactérias, fungos, vírus e outros. É aceito largamente como desinfetante de alto nível e quimioesterilizador (3). No entanto, a recente Resolução RDC n° 8, de 27/02/2009 da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) determina que, fica suspensa a esterilização química por imersão, com agentes esterilizantes líquidos, para o instrumental cirúrgico e produtos para saúde utilizados nos procedimentos hospitalares (4). Diante disso, no presente estudo, não será abordada a esterilização, e sim a desinfecção por Glutaraldeído, o que é preconizado atualmente pela ANVISA (4). A vigilância à saúde dos trabalhadores expostos aos fatores de riscos químicos, em especial ao Glutaraldeído, deve ocorrer de forma constante. A manipulação dessa substância, diante dos sérios riscos que pode oferecer a saúde do trabalhador necessita ser realizada com todos os equipamentos de proteção individual (EPI) necessários. O ambiente físico onde é manuseado deve ser arejado, dispor de Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 chuveiros para banho, ter água abundante e condições de atendimento imediato às vítimas de possíveis acidentes com esse produto. A exposição ao vapor de Glutaraldeído acontece quando o trabalhador manipula os artigos em ambientes fechados, sem ventilação, favorecendo o aparecimento de irritação nos olhos, nariz e garganta, queimaduras cutâneas e outros (2). É de fundamental importância a conscientização e educação permanente dos profissionais proporcionando-lhes condições para um trabalho seguro, bem como a oportunidade para reflexões, discussões, críticas, atualização e adoção de medidas preventivas corretas (5). Por atuar no processo de desinfecção dos artigos médicohospitalares não descartáveis, o profissional de enfermagem expõe-se aos efeitos do Glutaraldeido, sendo os mais comuns decorrentes dessa exposição os seguintes: náuseas, cefaleia, obstrução das vias aéreas, asma, rinite, irritação dos olhos, dermatite e descoloração da pele. Quando manipulam Glutaraldeído, precauções apropriadas devem ser adotadas para proteger a saúde, tornando assim, imprescindível o uso de EPI's (5). A investigação das alterações à saúde ocasionada aos trabalhadores de enfermagem, relacionadas ao manuseio do Glutaraldeído, no processo de desinfecção dos artigos médicohospitalares, possibilitará uma promoção do conhecimento dos profissionais de saúde quanto aos malefícios e benefícios do Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi, Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros. mesmo favorecendo um melhor cuidado às pessoas que procuram os serviços de saúde. Entende-se então que este estudo é de relevância social e cientifica, contribuindo para aumentar o conhecimento sobre o tema. Objetivos Geral: investigar as alterações à saúde ocasionadas aos trabalhadores de enfermagem relacionados ao manuseio do Glutaraldeído no processo de desinfecção dos artigos médicohospitalares não descartáveis. Específicos: identificar sinais e sintomas ocasionados pelo uso e manuseio do Glutaraldeído; quais os meios de proteção individual necessários para manusear esse produto e qual o ambiente físico mais adequado para este manuseio. Revisão da literatura História da desinfecção e da esterilização A infecção hospitalar apresenta relevância na história dos hospitais e da medicina, pois muito se aprende com o passado. Ignaz Semmelweis (18181865) instituiu, no ato de lavar as mãos, a medida de eleição no controle das infecções hospitalares e Oliver Holmes (19091994) implantou a prática da lavagem das mãos, no controle das infecções cruzadas nos hospitais. O gesto de lavar as mãos sobrevive como medida mais eficaz na prevenção das infecções, tendo sido adotado por pessoas importantes que desenvolveram conhecimentos e métodos, os quais contribuíram para o controle da infecção hospitalar, podendo-se citar Florence Nightingale, Joseph Lister, Louis Pasteur e William Halstedt (6), entre outros. A lavagem das mãos é um procedimento rotineiro que juntamente com o processo de desinfecção e esterilização representa uma grande importância no controle das infecções hospitalares. O processo de desinfecção dos artigos médicohospitalares constituiu-se em uma grande descoberta para eliminar antígenos patogênicos, uma prática já utilizada há muitos anos (6). Artigos médicohospitalares são instrumentos de natureza diversa, utilizados e manuseados pelos pacientes, tais como utensílios (comadres, papagaios, louças, talheres, etc.), instrumentos de corte, próteses, drenos e outros. Podem ser classificados em: artigos críticos (os que penetram através da pele e mucosas nos tecidos sub-epiteliais e no sistema vascular, tais como bisturis, agulhas, entre outros. Pelo grande risco de transmissão, devem ser esterilizados); artigos semicríticos (os que têm contato com a pele não íntegra ou com mucosas íntegras, como endoscópicos, laringoscópios, entre outros. Requerem desinfecção de alto nível ou esterilização para ter garantia da qualidade do seu múltiplo uso); artigos nãocríticos (os que entram em contato com a pele íntegra, tais como termômetros axilares, estetoscópios e outros). Tais artigos devem ser desinfectados e esterilizados de forma correta, com o objetivo de prevenir as infecções hospitalares (7). No final do século XIX, o calor de aproximadamente 125 graus centígrados e água em ebulição foram elementos utilizados para realizar a limpeza e desinfecção dos aventais e instrumentais cirúrgicos. Favoreceram a descoberta dos equipamentos de esterilização atuais. Em 1867, Joseph Lister, baseando-se nas descobertas de Louis Pasteur, concluiu que o uso de ácido fênico ou ácido carbônico poderia reduzir o risco de infecções nos pacientes submetidos a cirurgias; se o ferimento fosse coberto por uma atadura umedecida em fenol, poderia manter o antígeno distante dos ferimentos. Acreditava também que as lavagens das mãos e dos instrumentos cirúrgicos na mesma solução diminuiriam as infecções que poderiam ser provenientes das mãos e instrumentos insuficientemente assépticos (8). Naquela época era difícil convencer as pessoas de que a higienização das mãos e de instrumentos cirúrgicos, de vestimentas e do ambiente poderia promover saúde e qualidade de vida. Entretanto, mesmo diante da evolução do conhecimento científico, as infecções hospitalares ainda têm se constituído em grave problema de Saúde Pública envolvendo custos sociais e econômicos (3). O uso do Glutaraldeído no processo de desinfecção Aldeídos têm sido usa- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 211 Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi, Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros. dos desde o ano de 1963, classificados como solução germicida de alto nível, sendo capaz de esterilizar artigos em período de exposição prolongado. O Glutaraldeído é o agente mais utilizado na desinfecção. Na concentração de 2%, não danifica metais; é um produto não corrosivo, sendo usado para instrumentos sensíveis ao calor, que são denominados de artigos termossensíveis. Por outro lado, é considerado um produto tóxico e nocivo à saúde das pessoas que o manuseiam, podendo comprometer a saúde dessas pessoas, quando não seguem as normas adequadas para desinfecção, além de produzir efeitos nocivos ao meio ambiente (1). A desinfecção dos artigos médico-hospitalares pode ser divida em três níveis, de acordo com o poder de destruição dos microorganismos. No seu espectro de ação a desinfecção de alto nível deve iniciar a eliminação de alguns esporos, tais como: o bacilo da tuberculose, além de todas as bactérias vegetativas, fungos e todos os vírus. É indicada para artigos semicríticos, como lâminas de laringoscópios, equipamento de terapia respiratória, anestesia e endoscópio de fibra ótica flexível (1). Na desinfecção de nível intermediário, não é esperada qualquer ação sobre os esporos bacterianos e ação média sobre vírus não-lipídicos; mas se espera que seja tuberculicida e elimine a maioria das células vegetativas bacterianas. Cloro, iodóforos, fenólicos e álcoois pertencem a esse grupo. Os desinfetantes dessa classificação, junta- 212 mente com os de baixo nível, são tipicamente usados para artigos que entrarão em contato somente com a pele íntegra ou para desinfecção de superfícies (1). Na desinfecção de baixo nível, não há ação sobre os esporos ou o bacilo da tuberculose, podendo ter ou não ação sobre vírus não-lipídicos e com atividade relativa sobre fungos; capaz de eliminar a maioria das bactérias em forma vegetativa (1). Riscos à saúde do trabalhador de enfermagem relacionado ao manuseio do Glutaraldeído No ambiente hospitalar há vários riscos ocupacionais, constituídos por uma multiplicidade de fatores de riscos presentes neste local, aos quais se submetem os trabalhadores da saúde, em geral, incluindo-se os de enfermagem. Um desses riscos ocupacionais (químicos) está relacionado ao contato com o Glutaraldeído muito utilizado nos hospitais e que tem causado danos à saúde do trabalhador, sem que este perceba os sinais e sintomas inerentes ao manuseio dessa substância (9). Trabalhadores da área da saúde são expostos, então, diariamente, a uma variedade de substâncias tóxicas. Há cerca de sete milhões de substâncias químicas registradas em nível mundial. A maioria prejudiciais e sua toxidade está relacionada à dose, porém raramente os sinais clínicos são associados à utilização desses produtos (2). As principais manifestações que traduzem uma agressão cutâneo-mucosa são: irrita- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 ção, ulcerações, queimaduras e erupções alérgicas. Os sinais clínicos descritos com maior frequência por trabalhadores de enfermagem têm sido ardor nos olhos e queimação no nariz. O uso impróprio do Glutaraldeído propicia um risco real aos trabalhadores de saúde, em especial aos de enfermagem que desempenham funções relevantes no processo de desinfecção de artigos médico-hospitalares, portanto, é imprescindível que utilizem EPI e adotem medidas apropriadas de biossegurança (2). No Estado de São Paulo, considerando-se que há dentro dos EAS o uso inadequado do Glutaraldeído foi aprovada a Resolução SS-27, de 28/02/2007, da Secretaria de Estado da Saúde, instituindo medidas de controle sobre o uso do produto. Entre outras determinações, instituiu-se que todos os trabalhadores expostos devem passar por exames médicos, tanto admissionais como periódicos, além de exame clínico minucioso e que inclua a avaliação de aspectos neurocomportamentais e exames de laboratórios indicadores do efeito da exposição. Deve-se estar atento, também, para a necessidade de realização de exames de mudança de função e de retorno ao trabalho. Além disso, os EAS devem realizar programas internos de capacitação, treinamento e comunicação de riscos aos trabalhadores (10). Visando maior segurança aos trabalhadores dos serviços de saúde, foi elaborada a Norma Regulamentadora – NR 32 intitulada Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi, Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros. de Saúde. Essa Norma Regulamentadora – NR tem por finalidade estabelecer as diretrizes básicas para a implementação de medidas de proteção à segurança e à saúde dos trabalhadores dos serviços de saúde, bem como daqueles que exercem atividades de promoção e assistência à saúde em geral. Para fins de aplicação desta NR entende-se por serviços de saúde qualquer edificação destinada à prestação de assistência à saúde da população e todas as ações de promoção, recuperação, assistência, pesquisa e ensino em saúde em qualquer nível de complexidade (11). Metodologia Trata-se de um estudo de revisão de literatura onde foram procurados artigos nacionais publicados entre 1994 e 2008 na biblioteca eletrônica SciELO -Scientific Electronic Library Online. O levantamento bibliográfico foi realizado no período de fevereiro a outubro de 2009, utilizando-se os descritores constantes no DeCS da Bireme; Glutaraldeído, riscos ocupacionais e enfermagem do trabalho. A partir dessa estratégia foram identificados, inicialmente 82 artigos, os quais seus resumos foram analisados criteriosamente. Foram incluídos os artigos com acesso na íntegra; publicados no idioma português e aqueles que embora não tivessem todos os descritores, estivessem relacionados com alterações à saúde em enfermagem e glutaraldeído. Foram excluídos aqueles que, embora os descritores os direcionassem, não se relacionavam diretamente ao tema proposto. Ao final, obedecidos aos critérios de inclusão e exclusão dos artigos, obteve-se, o total de oito que abordavam as alterações à saúde dos trabalhadores de enfermagem, ocasionado pelo manuseio inadequado do Glutaraldeído. Para melhor fundamentação teórica que possibilitasse uma boa discussão, foram também utilizados outros manuscritos encontrados na ANVISA e outras literaturas impressas pertinentes, tais como: livros e revistas científicas. Resultados e discussão No quadro a seguir estão apresentadas algumas características dos artigos utilizados na pesquisa. Conforme descrito anteriormente, no período de 1994 a 2008 oito artigos foram publicados nos periódicos Revista Latino-Americana de Enfermagem, Ciência, Cuidado e Saúde, Revista Brasileira de Enfermagem, Revista Eletrônica de Enfermagem, Revista de Enfermagem da UERJ, Acta Ortop Brás, Brasiliamédica; sendo que cinco foram de revisão bibliográfica e três de pesquisa descritiva com análise quantitativa de dados. Em consonância com os objetivos do estudo, os achados foram divididos nos tópicos descritos a seguir. Quanto ao objetivo de identificar sinais e sintomas ocasionados pelo uso e manuseio do Glutaraldeído, as alterações à saúde do trabalhador encontradas nos artigos utilizados neste estudo, foram divididas conforme os sistemas do corpo humano e estão apresentadas a seguir. No artigo O uso do Glutaraldeído em serviços de saúde e a segurança do trabalhador, os principais sinais e sintomas citados foram: prurido, manchas pelo corpo, falta de ar e edema na face, lesões na boca, ardor na garganta e olhos, queimação no nariz. É relevante destacar que nem sempre estes sinais e sintomas são percebidos pelos trabalhadores que manuseiam tal produto (2). Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 213 Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi, Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros. No artigo Riscos químicos a que estão submetidos os trabalhadores de enfermagem: uma revisão bibliográfica foram relatados casos de enfermeiros e médicos apresentando manifestações clínicas como lacrimejamento, rinites, dermatites, dificuldades respiratórias, náuseas e dor de cabeça após a exposição ao Glutaraldeído (9). O uso de EPI é uma das medidas de segurança para os profissionais que manipulam substâncias tóxicas em seus locais de trabalho; esses equipamentos são regulamentados pela Portaria 3214-NR-6 do Ministério do Trabalho e devem ser disponibilizados aos trabalhadores. Para o manuseio adequado do Glutaraldeído necessita-se de avental impermeável, luva de nitrila ou dupla luva de látex; óculos de proteção e máscara com filtro químico (2). O fator ambiental é um aspecto relevante a ser observado com elevada atenção na relação com a exposição do profissional a esse composto químico, durante o período de trabalho. A Sociedade Brasileira de Enfermeiros de Centro Cirúrgico, Recuperação Anestésica e Centro de Material e Esterilização (SOBECC) recomenda que, a esterilização de material, deve ocorrer de forma centralizada. Condições apropriadas de segurança em um ambiente de trabalho devem ser previstas em seu plano arquitetônico e implementadas na execução da obra (2). No artigo Avaliação arquitetônica do centro de material de esterilização de hospitais 214 do interior do estado de Goiás há o relato que a descentralização ou a semicentralização dificultam a padronização das etapas operacionais do reprocessamento dos artigos (limpeza, secagem, preparo, acondicionamento, desinfecção e esterilização) (12). A sala onde ocorre a desinfecção por Glutaraldeído deve dispor no mínimo de bancadas com cubas, ponto de água fria, revestimentos de paredes e piso com material impermeável e de fácil higienização, ralo sinfonado com tampa escamoteável, sinalização gráfica para identificação do local, lava olhos para uso de emergência e sistema de ventilação (7). A falta de planejamento do espaço físico, a aeração inadequada e as temperaturas elevadas podem agir sinergicamente e contribuir para o aumento das concentrações do Glutaraldeído nesses locais, potencializando o risco laboral. Recomenda-se que o deslocamento do ar deva ser sempre das áreas de baixo para as de maior risco, ou das áreas limpas para as menos limpas (2). No que se refere ao objetivo de identificar quais os meios de proteção necessários ao manusear o produto, encontrouse a biossegurança, que é uma área de conhecimento relativamente nova, a qual impõe desafios não somente à equipe de saúde, mas também às empresas que investem em pesquisas. Designa um campo de conhecimento e um conjunto de práticas e ações técnicas, com preocupações sociais e ambien- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 tais, destinados a conhecer e controlar os riscos que o trabalho pode oferecer ao ambiente e à vida (7). Nos EAS a biossegurança necessita ser mais bem compreendida pelos profissionais que ali atuam, especialmente, os que trabalham em áreas hospitalares críticas, uma vez que estão mais suscetíveis a adquirir doenças provenientes de acidentes de trabalho, por ausência de adoção e compreensão da biossegurança (13). Biossegurança pode ser também entendida como um conjunto de ações voltadas para a prevenção, minimização ou eliminação de riscos inerentes às atividades de pesquisa, produção, ensino, desenvolvimento tecnológico e prestação de serviços, riscos que podem comprometer a saúde do homem, animais, meio ambiente ou a qualidade dos trabalhos desenvolvidos (13). Trabalhadores de enfermagem compõem a maioria dos que atuam na área de saúde e são as pessoas que estão frente à desinfecção de artigos médicohospitalares termossensíveis, sempre expostos aos produtos químicos, como por exemplo, o Glutaraldeído, muito utilizado para este tipo de desinfecção. Diante da definição de biossegurança, o uso dos EPI é indispensável para o manuseio desse produto químico, por se tratar de uma substância altamente tóxica (13). . Os EPI constituem-se em dispositivos de proteção individual que destinam a proteger o trabalhador e minimizar aciden- Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi, Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros. tes ocupacionais e são fundamentais para os profissionais de enfermagem que trabalham com produtos químicos em desinfecção de artigos médicohospitalares não descartáveis (14). O fator de prevenção de acidente ocupacional mais relevante é a atitude que cada indivíduo adota, graças a um processo educativo, pois a própria equipe de enfermagem tem dificuldade e resistência em aderir às medidas de segurança que buscam a proteção ao risco, subestimando, muitas vezes, o próprio risco (5). A educação em biossegurança não foi inserida nas disposições legais de formação dos profissionais de enfermagem, existindo, ainda, um largo caminho entre a dimensão do problema, formação e capacitação de recursos humanos para a concretização de uma prática profissional segura. Consequentemente existe uma deficiência na formação profissional do enfermeiro, no que tange à sua sensibilização para medidas relativas à biossegurança (5). . A representação da biossegurança é descrita pelos trabalhadores de enfermagem como EPI, antissepsia e uso apropriado de descartex e outros. Essas representações apresentam-se fortemente vinculadas aos aspectos benéficos das ações nesse aspecto por proporcionar medidas de proteção individual e coletivas aos pacientes e profissionais do ambiente hospitalar (13). O hospital é o local onde se concentra a maioria dos trabalhadores da área de saúde, principalmente a equipe de enfermagem que presta assistência direta e indireta ao paciente, que permanecem a maior parte do seu tempo dentro desse ambiente, muitas vezes em mais de um turno de trabalho. O ambiente hospitalar, local onde se tenta salvar vidas e recuperar a saúde perdida das pessoas doentes é o mesmo que favorece o adoecer das pessoas que nele trabalham, porque aparentemente, não há uma inquietação com a proteção, promoção e manutenção da saúde de seus empregados (9). A preocupação com a saúde do trabalhador da saúde fez se presente desde 1700, quando Ramazzini questionou a contaminação das parteiras, possíveis precursoras dos trabalhadores de enfermagem, durante a realização de seu trabalho e consolidou-se após o reconhecimento das ações de risco a relevância do uso dos EPI (9). No ambiente hospitalar os profissionais de enfermagem estão submetidos aos vários riscos, dentre eles, os químicos, biológicos, físicos e outros. Os riscos químicos são os gerados pelo manuseio de uma grande variedade de substâncias químicas, provenientes da manipulação de sustâncias utilizadas em áreas de limpeza, desinfecção e esterilização dos materiais, equipamentos e mobiliários utilizados pelos pacientes (8). Entende-se que os EPI ajudam a eliminar ou minimizar os acidentes de trabalho. Apesar de não se restringir apenas ao uso do Glutaraldeído, a recente NR 32 que trata sobre a segurança nos serviços de saúde, também explicitam a necessidade de utilização de EPI para os vários tipos de atividades desenvolvidas nos EAS, equipamentos estes que vão promover a proteção e segurança dos trabalhadores (11). O trabalhador de enfermagem torna-se mais vulnerável aos riscos, devido à diversificação das atividades e o conhecimento ainda precário da equipe, no que diz respeito aos riscos associados à manipulação de produtos químicos, não reconhecendo a nocividade para a saúde, quando são manipulados inadequadamente (8). Durante a exposição e manuseio do glutaraldeído são necessários cuidados específicos tais como: proteção dos olhos, das mãos, do corpo e via respiratória. Em relação à proteção dos olhos, esses devem ser protegidos contra o contato com a solução de glutaraldeído e os níveis de vapor devem ser controlados para prevenir irritação nos olhos; óculos com ampla visão e/ou peça facial inteira devem ser usados sempre que trabalhar com o produto (15). Quanto à proteção das mãos, elas devem ser protegidas do contato com a solução, luvas de borracha nitrílica e butílica são os materiais mais impermeáveis ao glutaraldeído. Polietileno e propileno fornecem proteção adequada por algumas horas. Polivinil e neoprene não fornecem proteção adequada ao glutaraldeído. Luvas de látex não devem ser usadas, exce- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 215 Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi, Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros. to por curto período de tempo em contatos acidentais (15). Para a proteção do corpo recomenda-se o uso de capas, aventais ou jalecos com mangas longas e punhos em materiais impermeáveis disponíveis em polietileno e polipropileno. Tais vestimentas de proteção devem ser removidas, imediatamente com a saturação e lavadas antes do reuso; se houver qualquer contato do produto com a pele, o local deve ser lavado com sabão sob água corrente por pelo menos 15 minutos (15). Com relação à proteção respiratória, todos os indivíduos expostos ao vapor de glutaraldeído devem usar respiradores adequados durante os procedimentos de rotina ou emergenciais e inseridos em Programa de Proteção Respiratória (PPR), de acordo com as recomendações técnicas da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (FUNDACENTRO), conforme estabelecido na Instrução Normativa n°. 1 de 11/04/94 (15). Quanto ao objetivo de identificar qual o ambiente físico mais adequado para o manuseio do Glutaraldeído, ficou evidente que nos EAS, especialmente em hospitais, a ativação e manipulação do produto são realizadas na Central de Materiais e Esterilização (CME), isto é, centralizando o seu uso. Recomenda-se a não utilização em Centros Cirúrgicos para não expor os trabalhadores e os pacientes ao vapor orgânico, pois os ambientes fechados, mesmo com sistema de ar condicionado 216 central com filtros, não possuem renovação do ar, apenas recirculação (15). A SOBECC recomenda que o ambiente onde se inicie o processo de desinfecção e esterilização seja centralizado. O planejamento do ambiente físico é de suma importância, considerando-se as diferentes etapas do processamento dos materiais, até a sua distribuição nas unidades do hospital. Por isso deve ser executado por equipe multiprofissional, cuja atenção deve estar voltada para a dinâmica de funcionamento do setor. Quanto a essa dinâmica existem três tipos de central de esterilização: a descentralizada – cada unidade ou conjunto de unidades do hospital é responsável por preparar e esterilizar os materiais que utiliza; a semicentralizada, onde cada unidade prepara os seus materiais, mas encaminha à Central de Material para serem esterilizados e a centralizada, onde os materiais de uso em todas as unidades do hospital são totalmente processados na Central de Material (16). Conclusão O trabalhador de enfermagem que manuseia o Glutaraldeído no processo de desinfecção de artigos médicohospitalares não descartáveis apresenta sinais e sintomas que nem sempre são percebidos, mas que podem afetar a saúde futuramente, tais como, obstrução das vias aéreas superiores, tosse, coriza, cefaleia, dermatites, ulcerações, erupções alérgicas, irritação nos olhos, lacrimejamento, dentre outros. Nesse aspecto Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 é de fundamental importância a utilização de medidas apropriadas de biossegurança além dos EPI, o que implica na redução dos fatores de riscos ocupacionais. Os principais equipamentos recomendados quando houver necessidade de manipulação desse produto são: óculos com ampla visão ou peça facial inteira; luvas de borracha nitrílica e butílica; aventais ou jalecos com mangas longas e punhos em materiais impermeáveis; máscaras compatíveis com o trabalho realizado e inseridos no PPR. A manipulação do Glutaraldeído deve acontecer em ambiente apropriado com o objetivo de propiciar ao trabalhador um local salubre e evitar acidentes relacionados a este produto químico. Percebe-se que há necessidade de aumentar o número de pesquisas sobre essa temática com desígnio de incrementar o conhecimento existente sobre a mesma, contribuindo também para que o trabalhador de enfermagem tenha sempre informações pertinentes sobre os problemas ocupacionais relacionados aos riscos químicos em geral e ao Glutaraldeído em especial. Referências 1. Fernandes, AT. Infecções e suas interfaces na área da saúde. São Paulo: Atheneu, 2000. 2.Tipple, AFV et al. O Uso do Glutaraldeído em serviços de saúde e a segurança do trabalhador. Rev enferm UERJ. 2004; 12: 186-9. 3. Kalil, EM; Costa, AJF. Desinfecção e esterilização. Acta ort brás. out-dez, 1994. 4. Ministério da Saúde (Br). Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC n° 08, de 19 de fevereiro de 2009. Dispõe sobre as medidas para re- Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi, Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros. dução de infecções por Micobactérias de Crescimento Rápido – MCR em serviços de saúde da ANVISA. Brasília (DF): ANVISA; 2009. 5. Andrade, AC; Sanna, MC. Ensino de Biossegurança na Graduação em Enfermagem: uma revisão da literatura. Rev bras enferm [periodico na Internet]. 2007 out [citado em 2010 fev 27] ; 60(5): 569-572. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sc i _ a r t t e x t & p i d = S 0 0 3 4 71672007000500016&lng=pt. 6. Andrade, GM. Infecção Hospitalar: mitos e verdades, velhos hábitos, novas atitudes. Brasiliamédica, 2002; 57-59. 7. Ministério da Saúde (Br). Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Informe Técnico n° 04/07 de março de 2007. Glutaraldeído em Estabelecimentos de Assistência a Saúde. Brasília (DF): ANVISA; 2007. 8. Steinhofel, E; Piccoli, M; Maraschin, M. A utilização de Equipamentos de Proteção Individual pela equipe de enfermagem na área de limpeza e desinfecção de materiais: revisando a literatura. Ciência, Cuidado e Saúde. 2002; 1: 299-307. 9. Xelegati, R; Robazzi, MLCC. Riscos químicos a que estão submetidos os trabalhadores de enfermagem: uma revisão de literatura. Rev Latino-Am Enfermagem [ periodico na Internet]. 2003 Jun [acesso 2010 fev 27]; 11(3): 350-356. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sc i _ a r t t e x t & p i d = S 0 1 0 4 11692003000300013&lng=pt. 10. São Paulo. Gabinete do Secretário. Resolução SS-27 de 28 de fevereiro de 2007. Aprova Norma Técnica que institui medidas de controle sobre o uso do Glutaraldeído nos Estabelecimentos Assistenciais de Saúde. Diário Oficial do Estado de são Paulo. [Documento na internet], 2007 abril [citado em 2010 abr 16]. D i s p o n í v e l e m : http://acpo.org.br/campanhas/glutaraldei do/resolucao.pdf. 11. Robazzi, MLCC; Barros, JCJ. Proposta brasileira de normatização para os trabalhadores da saúde. Cienc enferm. [periódico na Internet]. 2005 Dez [citado 2010 Fev 08]; 11(2): 11-15. Disponível em: http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci _ a r t t e x t & p i d = S 0 7 1 7 95532005000200003&lng=pt. 12. Guadagnin, SVT; Tipple, AFV; Souza, ACS. Avaliação arquitetônica dos centros de material e esterilização de hospitais do interior do estado de Goiás. Revista Eletrônica de Enfermagem [ periódico na internet]. set-dez, 2007[ acesso em 2010 jun 06]; 09 (03): 656-673,. Disponível em: http://www.fen.ufg.br/revista/v9/n3/v9n3a 07.htm. 13. Teixeira, P; Valle, S. Biossegurança: uma abordagem multidisciplinar. Rio de Janeiro: Fiocruz; 1996. 14. Ministério da Saúde (Br). Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Norma Regulamentadora n° 6 de 19 de Junho de 2001. Equipamento de Proteção Individual. Brasília (DF): ANVISA; 2008. 15. Branco, JC et al. Associação de Combate aos Poluentes; Associação de Consciência à Prevenção Ocupacional. Protocolo de Procedimentos Compulsórios para o uso do Glutaraldeído. [site na internet]. 2005. [citado em 2009 abr 06]. Disponível em: http://www.acpo.org.br. 16. Pinto, CAL. A importância do enfermeiro na Central de Material Esterilizado. [ site na internet]. Nov. 2008. [citado em 2009 mai 03]. Disponível em: http://www.webartigos.com/articles/1185 4/1/a-importancia-do-enfermeiro-nacentral-de-material-esterilizado. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 217 Caderno da Saúde do Idoso Conselho Cientifico do Caderno da Saúde do Idoso Diretor Científico/Scientific Editor Dr. José Vitor da Silva- Saúde da Pessoa Idosa-Escola Enferm. Wenceslau Braz,UNIVÁS/MG-BRASIL Conselho Científico Dra. Cristiane Giffoni Braga Mattos- Doutora em Enfermagem, Diagnósticos de enfermagem- Escola de Enfermagem Wenceslau Braz/ MGBRASIL Dra. Maria Angélica Mendes- Doutora em Enfermagem,Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE)-UNIFAL/ MG-BRASIL Avaliação da qualidade de vida dos homens idosos residentes em cidades sul-mineiras Life quality evaluation of elderly men living in south of Minas Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n.25;(203-212). Resumo Os objetivos do presente estudo foram: 1) identificar as características biossociais, familiares, econômicas e de saúde dos homens idosos, residentes em cidades sul-mineiras; 2) avaliar a sua QV e 3) relacionar as características biossociais, familiares, econômicas e de saúde com a QV. A abordagem foi do tipo quantitativo, descritivo e transversal. A amostra foi de 300 pessoas do gênero masculino com 60 anos ou mais, das cidades de Itajubá, Maria da Fé e Brazópolis, MG. A amostragem foi do tipo não probabilístico intencional. A entrevista foi estruturada direta. Foram utilizados três instrumentos: 1) Características biossociais, familiares, econômicas e de saúde; 2) WHOQOL-bref e 3) WHOQOLold. Numa escala de 0 a 100 pontos, a avaliação da QV geral, por meio do WHOQOL-bref, apresentou M= 74,20 e DP= 8,65. O domínio “psicológico” foi aquele que mais qualificou a QV com M= 76,2 e DP= 9,86; já o domínio “meio ambiente” obteve o escore mais baixo (M= 70,45 e DP= 9,77). Quanto à avaliação da QV total por meio do WHOQOL-old (em uma escala de 0 a 100 pontos), obteve-se M= 75,6 e DP= 8,12. O domínio “funcionamento do sensório” foi o que mais contribuiu com a QV com M= 80,65 e DP= 16,75. A dimensão “autonomia” foi a que alcançou pontuação mais inferior entre as demais (M= 70,25 e DP= 11,35). Ao relacionar as variáveis biossociais com o WHOQOL-old, encontrou-se correlações positivas e significativas. As pessoas idosas qualificaram sua vida como muito boa, tanto do ponto de vista geral como específico. Descritores: Qualidade de vida; idoso; gênero. Abstract The present study aimed at first to identify the biosocial, familiar, economic and health features of elderly men, living in the south of Minas; secondly to evaluate their QL and in third place to relate the biosocial, familiar, economic and health features with the QL. It is a quantitative, descriptive and transversal study. The sample was composed of 300 male people, aging 60 years or more, living in the cities of Itajubá, Maria da Fé and Brazópolis, MG. It was an intentional, non probabilistic kind. Three instruments were applied: 1) Biosocial, familiar, economic and health features; 2) WHOQOL-bref; 3) WHOQOL-old. In a scale of 0 to 100 points, the evaluation of general QL, through WHOQOL-bref, presented M= 74,20 and DP= 8,65. The psychological dominium was the one that most qualified the QL with M= 76,2 and DP= 9,86; the “environmental” dominium got the lower score in relation to the others (M= 70,45 e DP= 9,77). Regarding the total QL evaluation by through WHOQOL-old (in a scale of 0 to 100 points), it got M= 75,6 e DP= 8,12. The “sensory working” dominium was the one that most contributed to the QL with M= 80,65 and DP= 16,75. On the other hand, the “autonomy” dimension was the one that got the lowest punctuation among the (M= 70,25 e DP= 11,35). Elderly people qualified their lives as very good, both from general and the specific point of view. Descriptors: Quality of life; elderly; gender. Daniel Rodrigues Machado. Acadêmico do 6º Período do Curso de Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz (EEWB). Bolsista de Iniciação Científica da Fapemig. Ewerton Naves Dias. Enfermeiro, docente da EEWB. Mestrando pela Universidade de São Paulo (USP). José Vitor da Silva. Enfermeiro, docente da EEWB. Pós-doutorando pela USP. Luciano Magalhães Vitorino. Enfermeiro, docente da EEWB. Mestrando pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Fernando Magalhães Vitorino. Enfermeiro, docente da EEWB. 220 Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino. Introdução Na atualidade, observase a ascensão da tecnologia voltada para a saúde, mais acesso à vacinação, medicações, exames, e melhoria nas condições sanitárias das zonas rurais e urbanas. Todos esses fatores podem ser citados como responsáveis pelo aumento da expectativa de vida das pessoas e, consequentemente, pela transição demográfica que os países desenvolvidos e em desenvolvimento como o Brasil estão vivenciando (1). O envelhecimento populacional é hoje um fenômeno mundial de relevância considerável, determinando um aumento da população idosa em relação aos demais grupos etários. Em 1950, o percentual de pessoas com 60 anos ou mais de idade era de 8,2%; em 2000 essa faixa etária alcançou 10%. As projeções para 2050 afirmam que haverá uma pessoa idosa para cada grupo de cinco indivíduos (2). Para Trentini (3) é reconhecido que viver por muitos anos sempre foi desejado pela humanidade, mas somente esse fato não é satisfatório para preencher os objetivos humanos. Diante desse panorama, fica clara a importância dos estudos direcionados à avaliação da Qualidade de Vida (QV) na velhice, pois eles têm o potencial de esclarecer se as pessoas idosas estão adicionando anos à vida ou vida aos anos. A noção de QV vai além das questões que refletem o campo saúde e doença; possui, portanto, um campo semântico e pluralista: de um lado, encontrase relacionada ao modo de vida, suas condições e estilos; de outro, ao desenvolvimento sustentável e aos direitos humanos e sociais (4). Paschoal (5) afirma que existem diferenças entre a QV do homem idoso e a QV da mulher idosa. Envelhecer em uma classe social poderosa é diferente do envelhecer pertencendo a uma classe social menos favorecida, e envelhecer enquanto homem é diverso de envelhecer sendo mulher. Envelhecimento envolve, portanto, classe social e gênero (6). Barros (7) comenta que o homem idoso passa a ter o seu dia a dia no espaço privado, perdendo assim o poder característico do homem adulto jovem, que tem no espaço público sua atuação cotidiana; isso representaria, portanto, perda de poder, que tem repercussões significativas na imagem de autonomia e de liberdade vivenciada pela maioria dos homens. Diante do exposto, é viável o questionamento sobre a QV do homem idoso. Os objetivos do trabalho foram: 1) identificar as características biossociais, familiares, econômicas e de saúde dos homens idosos, residentes em cidades sul-mineiras; 2) avaliar a QV dos homens idosos e 3) associar as características biossociais, familiares, econômicas e de saúde, com a QV, dos homens idosos. Revisão de literatura O crescimento da população idosa, em números relativos e absolutos, é um fenômeno mundial e está ocorrendo de forma sem precedentes. No ano de 1950, eram cerca de 204 milhões de pessoas idosas no mundo e, em 1998, quase cinco décadas depois, esse contingente passou a somar 579 milhões de indivíduos, um crescimento de quase oito milhões de gerontes por ano. Existem projeções que indicam que, em 2050, o número de pessoas idosas será de 1,9 bilhão (8). Uma pesquisa recente diz que 9% da população da América Latina possui 60 anos ou mais de idade, e a previsão para 2050 é de que, para cada cinco latino-americanos, um terá essa idade (9). No Brasil, estima-se que 34 milhões de pessoas terão idade igual ou superior a 60 anos até a data de 2025, o que representa, aproximadamente, expressivos 13% da população total. Em 2000, o número de indivíduos com 60 anos ou mais era de cerca de 14.536.029 contra 10.722.705 em 1991 (10). Por essas mudanças na estrutura da população entendese transição demográfica, que é definida como o processo de alteração de uma situação com altas taxas de fecundidade e mortalidade para outra com baixas taxas desses indicadores (11). A transição demográfica é um fenômeno assinalado por quatro fases. A primeira fase é caracterizada por elevadas taxas de fecundidade e mortalidade. Na segunda, a fecundidade continua alta, mas, com os avanços científicos e sociais na prevenção de doenças, a taxa de mortalidade começa a declinar. Na terceira fase, a taxa de fecundidade entra em queda junto Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 221 Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino. o com a mortalidade e começa a haver maior proporção de adultos e jovens, não mais de crianças. Por fim, a última fase é marcada com a continuidade da redução da taxa de fecundidade e de mortalidade e, consequentemente, o número de pessoas idosas torna-se expressivo (12). Para Freitas (13), a população brasileira está inserida na terceira fase dessa transição. Segundo Bimbato (14), em meio a essas transformações expressivas, na estrutura populacional, ocorrem alterações, também, nas características epidemiológicas. A transição epidemiológica é definida como: mudanças nos padrões de morbimortalidade, principalmente, por declínio das doenças infecto-parasitárias e aumento das doenças crônico-degenerativas (15). Em território brasileiro, um terço dos indivíduos que chegam aos 70 anos são portadores de doenças crônicas e pelo menos 20% dessas pessoas idosas terão algum grau de incapacidade associada, implicando diminuição da capacidade física e restrições à autonomia e à independência (16). A QV vem-se tornando uma variável útil para determinar o impacto global das doenças e dos tratamentos médicos a partir da perspectiva do indivíduo, e sua avaliação é potencialmente válida para aplicações na pesquisa e prática clínica para explicitar o impacto das doenças e o possível benefício das intervenções terapêuticas (17). Apesar de grande utilização e de diversas discussões 222 existentes sobre o real significado do termo QV nos últimos tempos, os pesquisadores concordam que o termo é ambíguo e inconsistente, que possui várias definições constituídas por uma variedade de fatores objetivos e subjetivos que alternam de indivíduo para indivíduo, e que sofre influências de valores étnicos, religiosos e culturais (18,19). Kimura (20) esclarece que, embora haja divergência quanto ao real significado desse termo, observa-se que há concordâncias, entre os autores, quanto à inclusão de aspectos relacionados à capacidade funcional, às funções fisiológicas, ao comportamento afetivo e emocional, às interações sociais, ao trabalho e à situação econômica, centrados na avaliação subjetiva dos indivíduos. Assim a QV apresenta-se, como um construto multifatorial, muito mais amplo do que meramente a presença ou ausência de saúde. O modo de viver do homem gera estresse, sedentarismo, má alimentação e prática de comportamentos não saudáveis e de risco. É comum esse cidadão possuir várias parceiras sexuais, não fazer uso de preservativo, consumir bebidas alcoólicas e tabaco, não usar cinto de segurança, entre outras atitudes, propiciando tanto o desenvolvimento de doenças como de situações que aumentam as taxas de mortalidade (21, 22, 23). Vários estudos mostram maior mortalidade masculina do que feminina. A maioria dos indicadores tradicionais de saúde apontam, com clareza, a exis- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 tência desse diferencial, sendo maior a mortalidade masculina em praticamente todas as idades, e para quase a totalidade das causas. A menor sobrevida masculina foi, ou ainda é, quase sempre aceita sem muita discussão e vista somente como resultado de fatores biológicos (24). Figueiredo (25) comenta que os homens não buscam, como fazem as mulheres, os serviços de atenção primária. Brasil (26) concorda com esta idéia e acrescenta dizendo que os homens adentram o sistema de saúde pela atenção ambulatorial e hospitalar de média e alta complexidade, o que causa o agravo da morbidade pela demora na atenção e também um maior gasto para os serviços de saúde. As pesquisas qualitativas apontam várias razões para a baixa adesão dos homens aos serviços de saúde, mas, de um modo geral, esses motivos podem ser divididas em dois grupos principais: barreiras sócioculturais e barreiras institucionais (26,27). Os estereótipos de gênero, presentes há centenas de anos na cultura patriarcal, potencializam práticas baseadas em crenças e valores do que é ser masculino. O homem não reconhece a fragilidade como inerente à sua condição biológica e, portanto, tenta esconder qualquer tipo de evento que contrarie essa perspectiva, inclusive a doença (26). Segundo Bozon (28) o homem julga-se invulnerável, o que acaba por contribuir para que ele dispense menos cuidados a si mesmo e se exponha mais às situações de risco. Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino. Muitos homens alegam que não procuram os serviços de atenção primária em razão da posição de provedores que ocupam. Eles argumentam que os horários de funcionamento desses tipos de serviço coincidem com a carga horária de seu trabalho. Não há duvida de que isso é uma barreira importante, contudo, há de se destacar que grande parte das mulheres se inclui na força produtiva, e nem por isso elas ignoram a saúde (26). Material e método A abordagem do estudo foi do tipo quantitativo, descritivo e transversal. A amostra foi constituída por 300 pessoas do gênero masculino que possuíam 60 anos ou mais, sendo que 212 pessoas idosas residiam em Itajubá, 52 em Brazópolis e 36 em Maria da Fé, MG. A distribuição da amostra foi realizada de acordo com a relação proporcional de homens idosos residentes em cada uma daquelas cidades onde a pesquisa foi realizada. A amostragem foi do tipo não probabilístico intencional ou proposital. Os critérios de elegibilidade constituíram-se em: concordar em participar da pesquisa; ter 60 anos ou mais; ser do gênero masculino; residir nas cidades mencionadas anteriormente e ter capacidade cognitiva e de comunicação preservadas. A entrevista foi estruturada direta e o período de coleta de dados foi de março a dezembro de 2009. Para a coleta de dados, foram utilizados três instrumentos: 1) Características biossociais, familiares, econômicas e de saúde; 2) WHOQOL-bref e 3) WHOQOL-old. Foi utilizada a estatística descritiva para a obtenção das frequências absolutas e relativas para as variáveis categóricas, assim como as medidas de tendência central para as variáveis contínuas ou numéricas, representadas pela média, mediana, moda, desvio padrão, valor mínimo, máximo e amplitude. Da estatística inferencial, foram utilizadas as correlações de Spearmann e o alfa de Cronbach. À pesquisa seguiu às recomendações da Resolução 196/96, do Conselho Nacional da Saúde do Ministério da Saúde, no que concerne a estudos que envolvem seres humanos. O trabalho foi encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz (EEWB), tendo recebido parecer favorável sob o número de protocolo: 219/2008. Resultados A maioria dos participantes (97,66%) residiam na zona urbana; a média de idade foi de 71,08 anos; 92,66% praticavam alguma religião, sendo predominante a católica com 92,44%. No que se refere à escolaridade, 41,33% tinham o ensino fundamental incompleto. No tocante ao estado conjugal, 71,66% eram casados; o tipo de família nuclear sobressaiu com 61,66%; 90% possuíam filhos e a média de filhos foi de 4,82. Em relação à situação de trabalho, 63% eram aposentados e deixaram de trabalhar, a média de rendimento mensal foi de R$ 1.664,89 (DP=1623,00), sendo 2,85 o número médio de pessoas dependentes dessa renda. Quanto à percepção do estado de saúde, 37,33% escolheram a opção “boa”; 58% possuíam doenças crônicas não transmissíveis, sendo a hipertensão arterial a patologia predominante (53,44%); 55% não praticavam tipo algum de exercício físico. Tabela 1 - Medidas de tendência central da Qualidade de vida referente aos homens idosos. Itajubá, Brazópolis e Maria da Fé, MG, 2009 (n=300). Fonte: Instrumento de Pesquisa. A tabela 1 evidencia os escores obtidos pelos instrumentos que avaliaram a QV. Os escores das escalas variavam de 0 a 100 pontos, sendo que quanto mais próximo de 100 melhor a QV e quanto mais próximo de zero pior a insatisfação com a vida. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 223 Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino. Tabela 2 - Medidas de tendência central dos domínios do WHOQOL-bref referentes aos homens idosos. Itajubá, Brazópolis e Maria da Fé, MG, 2009 (n=300). Fonte: Instrumento de Pesquisa. Tabela 3 - Medidas de tendência central dos domínios do WHOQOL-old referentes aos homens idosos. Itajubá, Brazópolis e Maria da Fé, MG, 2009 (n=300). Fonte: Instrumento de Pesquisa. nhada (r= 0,5 e p= 0,022) com a faceta “participação social”; não possuir doença crônica com os domínios “autonomia” e “Funcionamento do sensório” (r= 0,6 e p= 0,001 e r= 0,5 e p= 0,034, respectivamente). O alfa de Cronbach alcançou o valor de 0,80 para o WHOQOL-bref, sendo que o domínio “Físico” obteve o valor de 087, “Psicológico” 078, “Relações Sócias” 0,81 e “Meio Ambiente” 0,80. Já para o WHOQOL-old, o valor do alfa de Crombach correspondeu a 0,82, enquanto que as facetas “Funcionamento do Sensório”, “Atividades Passadas Presentes e Futuras” e “Morte e Morrer” alcançaram o valor de 081, “Intimidade” e “Participação Social” receberam 0,79 e “Autonomia” 0,78. Discussão As tabelas 2 e 3 mostram as medidas de tendência central dos domínios do WHOQOL-bref e WHOQOL-old. É importante mencionar que a distribuição dos escores dos domínios é igual à avaliação da QV global genérica e específica. Ao relacionar as variáveis biossociais com o WHOQOL-old, encontrou-se correlação positiva e significativa com estado civil casado (r= 0,6 e p= 0,011); número de filhos (r= 0,5 e p= 0,029); estado de saúde melhor (r= 0,5 e p= 0,033). Quando as variáveis biossociais foram relacionadas com os domínios do WHOQOL-old, houve correlação positiva e significativa do número de filhos (r= 0,7 e p= 0,000) e estado civil casado (r= 0,4 e p= 0,003) com o domínio “atividades passadas presentes e futuras”; religião (r= 0,5 e p= 0,032) com o fator “morte e morrer”; ter filhos (r= 0,4 e p= 0,007) e fazer cami- 224 Para avaliar a QV, dividiu-se o valor máximo de 100 pontos em cinco categorias distintas, tendo cada uma delas em forma crescente, o valor de 20 pontos. As categorias são: ruim, regular, boa, muito boa e ótima. Ao interpretar a QV dos homens idosos encontrou-se que ela se encontrava muito boa (61 a 80 pontos), tanto do ponto de vista geral como específico. Essa ocorrência talvez possa ser justificada pelo fato de muitos homens idosos já terem atingido os seus objetivos profissionais, sociais e pessoais. Portanto, eles sentem-se mais realizados e desenvolvem um sentimento de dever cumprido em relação à vida. Santos (29) afirma que algumas pessoas idosas convivem com o sentimento de orgulho, pois adquiriram casa própria, conseguiram o beneficio da aposentadoria, obtiveram sucesso na criação dos filhos e sobreviveram. Silva (30) realizou um estudo sobre a avaliação da QV de pessoas idosas residentes em comunidades e constatou que ela estava muito boa. No instrumento WHOQOL-bref, o domínio que mais contribuiu com a QV foi o “Psicológico”. Pode ser que a experiência de vida auxilie o homem idoso na superação dos problemas do cotidiano e, consequentemente, ele aproveita melhor a vida, assim como desenvolve maior satisfação com ela. Portanto, a probabilidade da pessoa idosa desenvolver sentimentos negativos tais como: mau humor, desespero e ansiedade é reduzida. A pessoa Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino. com experiência de vida analisa o problema sob diversos prismas, o que facilita na escolha da melhor alternativa para solucionar as dificuldades (31). Segundo Neri (32), a esfera psicológica é a menos afetada com o passar dos anos, pois o bemestar subjetivo - caracterizado por afetos positivos, bem-estar, satisfação, felicidade - não declina com a idade. Por outro lado, o domínio “Meio Ambiente” foi o que mais comprometeu a QV geral. Essa faceta avalia a satisfação das pessoas em relação a diferentes aspectos, como: moradia, transporte, acesso aos serviços de saúde, renda, lazer e segurança. Quanto ao meio ambiente intrínseco, pode ser que o homem idoso esteja insatisfeito com as condições de sua moradia, com o contingente populacional que habita a sua residência, com as relações familiares, ou ainda, com as funções que lhe são atribuídas. O homem, ao longo da vida, sempre teve como preocupação central a função de provedor, não tendo se adaptado com os afazeres domésticos, que podem ser incorporados ao seu cotidiano. Com o crescimento dos filhos e a chegada das noras, genros e netos, o indivíduo em questão também pode perde o seu status dentro de sua própria casa, pois é introduzida uma nova dinâmica familiar. Deduz-se ainda, que a relação do homem idoso com o meio ambiente intrínseco não é favorecida, pois ele passou grande parte de sua vida em ambiente público. No tocante ao meio ambi- ente extrínseco, parece bastante claro que os fatores como: transporte, lazer, renda, segurança e acesso aos serviços de saúde são desqualificados pela maior parte da população dos países subdesenvolvidos, inclusive, pelo contingente de homens idosos. A faceta “Meio Ambiente” do instrumento WHOQOL-bref frequentemente apresenta resultados poucos satisfatórios em países subdesenvolvidos, pois ela engloba diversas necessidades que dependem dos órgãos governamentais (33). Em relação ao instrumento WHOQOL-old, o domínio “Funcionamento do Sensório” foi o que mais contribuiu com a QV. O fato de grande parte das alterações fisiológicas do envelhecimento relacionadas com os sentidos poder ser compensadas com pequenas alterações no estilo de vida, ou ainda pelo uso de aparelhos (óculos, aparelhos auditivos, entre outros), pode ter influenciado esse resultado. O envelhecimento é um processo biológico natural, cujo conhecimento científico pode contribuir para atenuar as limitações próprias da idade (34). Verificou-se no estudo que o domínio “Autonomia” alcançou o resultado menos satisfatório na avaliação da QV específica. Acredita-se que a autonomia do homem idoso é reduzida com a idade avançada, pois ao longo da vida ele sempre foi líder, suas ações se voltavam para o ambiente público, entretanto, com a aposentadoria, ele passa a viver predominantemente no ambiente privado, restando-lhe a passividade diante do domínio feminino. O excesso de zelo dos familiares pode resultar em paternalismo, que nega à pessoa idosa o direito de manejar as questões que lhe dizem respeito. Consequentemente, os homens idosos se acomodam, renunciam ao direito de decidir sua própria vida, pois acham que não têm capacidade e, assim, passam a viver em estado de nãoparticipação, desenvolvendo o sentimento de impotência. Um estudo sobre a QV de pessoas idosas residentes na comunidade, também detectou que a autonomia foi o domínio que mais comprometeu a vida dos participantes do estudo (35). Conclusões Os homens idosos qualificaram sua vida como muito boa, tanto do ponto de vista geral como específico. O fenômeno QV das pessoas idosas se correlacionou com diversas variáveis pessoais e de saúde. Recomenda-se que outros trabalhos dessa natureza sejam realizados, no sentido de ampliar a avaliação da QV do homem idoso, em populações com diferentes características e de diferentes regiões do país, para a confirmação dos resultados obtidos nesta pesquisa. Referências 1.Dias, EM; Silva, JV; Vitorino, LM. Capacidade Funcional: uma necessidade emergente entre idosos. In: Silva JV, organizador. Saúde do Idoso - processo de envelhecimento sob múltiplos aspectos. São Paulo: Iátria; 2009. 2.Camarano, AA. Os novos idosos brasileiros muito além dos 60? Rio de Janeiro: Ipea; 2004. 3.Trentini, CM. Qualidade de vida em ido- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 225 Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino. sos [Tese de Doutorado]. Porto Alegre: Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2004. 4.Minayo, MCS; Hartz, ZMA; Buss, PM. Qualidade de vida e saúde: um debate necessário. Ciênc Saúde Coletiva 2000; 5(1): 7-18. 5.Paschoal, SMP. Qualidade de vida na velhice. In: Freitas EV, Organizadora. Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2002. 6.Trindade, E. Hermenêutica do Existir do Homem de Meia Idade – Paternidade, Sexualidade e Projetos de Vida: Um Olhar a Luz de Heidegger [Tese de Doutorado]. Ribeirão Preto: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo; 2003. 7.Barros, MML. Velhice ou terceira idade? Rio de Janeiro: FGV Editora; 1998. 8.Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Perfil dos idosos responsáveis pelos domicílios no Brasil; 2002. 9.United Nations. World population prospects: the 2006 revision; 2006. 10.Davim, RMB; Torres, GV; Dantas, SMM; Lima, VM. Estudo com idosos de instituições asilares no município de Natal/RN: características socioeconômicas e de saúde. Rev Latinoam Enferm 2004; 12(3): 518-24. 11.Rodrigues, RAP; Kusumota, L; Marques, S; Fabrício, SCC; Cruz, IR; Lange, C. Política Nacional de Atenção ao Idoso e a Contribuição da Enfermagem. Texto & Contexto Enferm 2007; 16(3): 536-45. 12.Oliveira, AJ. “Terceira idade” e cidade: o envelhecimento populacional no espaço intra-urbano de Santos [Dissertação de Mestrado]. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo; 2009. 13.Freitas, EV. “Demografia e Epidemiologia do Envelhecimento”. In: Py L, organizador. Tempo de envelhecer: percursos e dimensões psicossociais. Rio de Janeiro: Nau Editora; 2004. 14.Bimbato, AMJ. A representação de velhice entre os profissionais que atuam nos Núcleos de saúde da família [Dissertação de Mestrado]. Ribeirão Preto: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; 2009. 15.Paschoal, SMP; Franco, RP; Salles, RFN. Epidemiologia do Envelhecimento. In: Papaléo Netto M, organizador. Tratado de Gerontologia. São Paulo: Atheneu; 2007. 16.Camarano, AA. Envelhecimento da População Brasileira: uma contribuição demográfica. In: Freitas EV, organizadora. Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 226 2002. 17.Berlim, MT; Fleck, MPAA. Quality of life: a brand new concept for research and practice in psychiatry. Rev Bras Psiquiatr 2003; 25(4): 249-52. 18.Ferrans, CE; Powers, MJ. Quality of life of hemodialysis patients. AANNT J 1993; 20(5): 575-81. 19.Cianciarullo, TI. Cidadania e qualidade de vida. In: Cianciarullo TI, Fugulin FMT, Andreoni S. A hemodiálise em questão: opção pela qualidade assistencial. São Paulo: Ícone; 1998. 20.Kimura, M. Tradução para o português e validação do Quality of Life Index de Ferrans e Powers [Tese de Doutorado]. São Paulo: Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo; 1999. 21.Courtenay, WH. Constructions of masculinity and their influence on men's wellbeing: a theory of gender and health. Soc Sci Med E 2000; 50(10): 1385-1401. 22.Taylor, B. Exploring the perspectives of men who self-harm. Learning in Health and Social Care 2003; 2(2):83-91. 23.Couto, MT; Schraiber, LB. Homens, saúde e violência: novas questões de gênero no campo da Saúde Coletiva. In: Minayo MCS, Coimbra Junior CEA, organizadores. Críticas e atuantes: ciências sociais e humanas em saúde na América Latina. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2005. 24.Laurenti, R; Jorge, MHPM; Gotlieb, SLD. Perfil epidemiológico da morbimortalidade masculina. Ciênc Saúde Coletiva 2005; 10(1): 35-46. 25.Figueredo, W. Assistência à Saúde dos homens: um desafio para os serviços de atenção primária. Ciênc Saúde Coletiva 2005; 10(1): 105-109. 26.Brasil. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Integral à saúde do homem: princípios e diretrizes. Brasília (DF): 2008. 27.Gomes, R. Sexualidade masculina e saúde do homem: proposta para uma discussão. Ciênc Saúde Coletiva 2003; 8(3): 825-29. 28.Bozon, M. Sociologia da sexualidade. Rio de Janeiro: FGV Editora; 2004. 29.Santos, IE. Homem Idoso: vivência de papéis durante o ciclo vital da família [Dissertação de Mestrado]. Recife: Universidade Católica de Pernambuco; 2006. 30.Silva, JV. Ser idoso e ter qualidade de vida: as representações de idosos residentes em cidades do sul de Minas Gerais [Tese de Doutorado]. São Paulo: Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo; 2003. 31.Bredemeier, S. O despreparo da sociedade em enfrentar o envelhecimento. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 Revista do Instituto Humanitas Usinos [periódico online] 2006; 204. Disponível em: URL: http://www.ihuonline.unisinos.br/uploads/ edicoes/1163447848.37pdf.pdf [2009 dez.1]. 32.Néri, AL. Qualidade de vida na velhice. In: Rebellato JR, Morelli JGS, organizadores. Fisioterapia Geriátrica: a Prática da Assistência ao Idoso. São Paulo: Manole; 2004. 33.Ecave, C; Nadal, CS; Aplewicz, JGF; Laurindo, MA; Padilha, LA; Junior, GBV. Nível de Qualidade de Vida de Universitários. Revista do Centro de Pesquisas Avançadas em Qualidade de Vida [periódico online] 2009; 1(1). Disponível em: URL: http://www.guanis.org/cpaqv/1/rcpaqv_vo l01_2009_caroline_ecave.pdf [2010 abr. 1]. 34.Lima, JP. A influência das alterações sensoriais na qualidade de vida do idoso. Revista Científica Eletrônica de Psicologia [periódico online] 2007; 5(8). Disponível em: URL: http://www.revista.inf.br/psicologia08/pa ges/artigos/edic08-anov-art03.pdf [2010 abr. 1]. 35.Cunha, JA. Manual da versão em português das Escalas Beck. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2001. Significados de ser idoso: as representações sociais de pessoas idosas de cidades sul-mineiras Meanings about being old: the social representations of elderly people in the cities in the south of Minas Gerais José Vitor da Silva. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n.25;(221-236) Resumo Trata-se de um estudo que teve como objetivo: identificar as representações sociais sobre os significados de ser uma pessoa idosa. O estudo foi de abordagem qualitativa, exploratório e transversal. A amostra se constituiu de 50 pessoas idosas de ambos os gêneros e residentes em cidades sul-mineiras: Itajubá, Pouso Alegre e Santa Rita do Sapucaí. A coleta de dados foi realizada mediante entrevista semiestruturada, gravada e transcrita literalmente. As diretrizes metodológicas do Discurso do Coletivo foram utilizadas para a seleção das ideias centrais e das expressões chave correspondentes, a partir das quais foram extraídos os seguintes discursos das pessoas idosas: “ser pessoa idosa”; “pessoa com capacidade e inabilidade funcional”; “ pessoas com bastante idade, mas com saúde e cumpriu os seus objetivos de vida”. Os resultados confirmaram neste estudo que o construto pessoa idosa apresentou diversos significados subjetivos da vida humana. Descritores: Idosos; representação social; significados. Abstract This is about a study that aimed at identifying the social representations about the meanings of being in an old person. It was a qualitative, exploratory and transversal study. The sample was formed by 50 elderly people, both male and female, living in the cities in the south of Minas Gerais: Itajubá, Pouso Alegre e Santa Rita do Sapucaí. Data collecting was performed through semi-structured interview that was taped and literally transcript. The methodological guidelines of Collective Discourse were used in order to select the central ideas and the corresponding key expressions, from which it was possible to get the following speech of the elderly people: “being an old person”, “person with capacity and functional inability”, “very old people but with health and able of getting that life goals”. The results confirmed, in this study, that the construct elderly people presented a lot of subjective meanings of human life. Descriptors: Elderly, social representation, meanings. José Vitor da Silva. Enfermeiro, docente da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz, Itajubá-MG e da Universidade do Vale do Sapucaí, Pouso Alegre-MG. Pós-doutorando pela USP. 227 José Vitor da Silva. Introdução O envelhecimento das populações tornou-se um desafio crítico em todo o mundo. Já não há dúvidas de que o envelhecimento da população mundial é um fenômeno preocupante. Em 1950, o percentual de maiores de 60 anos de idade era de 8,2%; em 2000, essa faixa etária alcançou 10%. As projeções para 2050 estimam que a Terra abrigará 21,1% de pessoas idosas (1). O envelhecimento da população brasileira já não é um exercício de futurologia: no Brasil, os idosos já são cerca de 15 milhões de pessoas, segundo o último censo do IBGE (2) estando presentes em todos os espaços da sociedade. No Brasil, a população com mais de 60 anos aumentou de 4% em 1940 para 8,6% em 2000. A estimativa de vida ao nascer, em 1980, era de 57,2 anos para homens e de 64,3 para a mulher. Em 1990, esses dados já eram 59,3 e 65,8 anos respectivamente. Em 2000, no Brasil, a expectativa de vida era de 64,8 para homem e 72,5 anos para a mulher. Estima-se que entre 2045 e 2050 a expectativa de vida do brasileiro seja de 76,9 anos de idade. Projeções indicam que o Brasil será o sexto país do mundo em número de idosos no ano de 2020, com aproximadamente 32 milhões de idosos (1,3). A velocidade da mudança do perfil demográfico brasileiro dificultou a necessária revisão de conceitos e valores de nossa sociedade em relação ao envelhecimento, na superação de preconceitos e muitos que roubam a 228 dignidade do idoso, bem como o encaminhamento de ações que possam atender com dignidade às necessidades específicas dessa “terceira idade.” Os idosos ocupam, ainda, um espaço secundário na comunidade, bem como na família, como se o fato de envelhecer significasse a passagem para uma cidadania de segunda classe. O título de explicação, pode-se dizer que as graves questões sociais que afetam os países do terceiro mundo estavam no seu auge quando ocorreu a explosão demográfica do envelhecimento, exatamente nessa sofrida realidade de desenvolvimento. Esse cenário tem provocado consequências em âmbito social, familiar e de saúde das pessoas idosas. Primeiro impacto do envelhecimento é a perda dos seus papeis sociais e o vazio experimentado por não encontrar novas funções. Quanta angústia, sofrimento e decepção, e ao mesmo tempo quanto potencial desperdiçado! Uma outra consequência relacionada à primeira é a aposentadoria que significa perda de rendimentos e impõe a necessidade de redefinição do padrão de vida e/ou a busca de nova ocupação como meio de renda complementar, que nem sempre é lograda devido à grande concorrência e ao estigma da velhice. Um outro resultado decorrente dessa transformação demográfica, quando aliada à maior sobrevida das mulheres relativamente aos homens e à maior frequência de casamento nos homens em relação às mulheres, é Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 uma alta porcentagem de viuvez e solidão entre as mulheres idosas. Para a sociedade brasileira e a de muitos países do terceiro mundo, que estão experimentando o envelhecimento populacional de forma rápida, o impacto maior será na repartição dos poucos recursos existentes. O aumento do número absoluto e relativo dos idosos traz à baila novas necessidades e demandas. Paralelamente, há um grande contingente de crianças, adultos jovens, também com necessidades e demandas, muitas delas ainda não equacionadas (alimentação, moradia, educação e emprego). A chegada brusca dos idosos leva à competição de recursos. Como resolver? (4). No âmbito das relações familiares, um sentimento semelhante de perda de ocupação e tendência à solidão pode surgir em função da independência dos filhos, viuvez e consequente esvaziamento da casa (5). As transformações recentes na estrutura familiar, como diminuição do tamanho da família e inserção da mulher no mercado de trabalho, têm dificultado o suporte familiar ao idoso, sobretudo em caso de doença e/ou incapacidade (5). Muitas vezes são fatores agravantes a distância entre as moradias, as dificuldades dos meios de transporte e do trânsito, assim como o pouco tempo e/ou interesse dos adultos e jovens para o contato mais estreito com seus familiares idosos. A tendência a um natural afastamento de gerações tem-se intensificado nas últimas déca- José Vitor da Silva. das em função da rápida mudança de valores sociais e transformações tecnológicas que dificultam a comunicação e a identidade entre jovens e velhos. Na convivência familiar, é comum a “falta de assunto”, favorecida muitas vezes pela mobilidade sociocultural, que distancia os mais jovens dos seus ascendentes, bem como os conflitos e intolerância de parte a parte, cujas recuperações tendem a privá-los do potencial de crescimento mútuo e intergeracional (5). Para o setor de saúde, o primeiro impacto que o envelhecimento populacional traz é a mudança importante nas causas de morbimortalidade. As doenças infectocontagiosas cedem lugar às doenças crônicodegenerativas como causa líder de mortalidade. A Secretaria de Estado de Minas Gerais (6) mostrou que os maiores índices de mortalidade se encontram na população de 60 anos e mais. Mesmo entre os óbitos dos maiores de 60 anos, há uma tendência de concentração das idades mais avançadas, sendo causas de óbitos, tipicamente na população idosa, em ordem de importância: 1) doenças do aparelho circulatório (isquêmicas, do coração, cerebrovascular e hipertensiva); 2) neoplasmas malignos; 3) doenças do aparelho respiratório e 4) doenças metabólicas (6). Essas doenças crônicodegenerativas, próprias dos idosos, estão se tornando progressivamente mais prevalentes num país como o Brasil. Só que a resposta a essa mudança é, em geral, ineficiente devido à falta de controle, complicações e sequelas. Como são doenças incuráveis, obrigam os seus portadores a procurarem os serviços de saúde com grande frequência, havendo necessidade aumentada de recursos materiais e humanos, muitas vezes com tecnologia complexa. Com isso, os custos financeiros também aumentam. Para um país que não resolveu problemas prementes de saúde materno-infantil (mortalidade e desnutrição), o aumento da prevalência das doenças crônico-degenerativas vai levar a uma competição pelos recursos já escassos e mal-empregados (7). É conhecido que os idosos, quando comparados com outros grupos etários, internam-se com maior frequência, reinternam-se mais vezes no mesmo ano e permanecem internados por um tempo mais prolongado em cada internação. Além disso, utilizam os serviços de saúde, em geral, numa proporção muito maior que toda a população ou que outras faixas etárias. A grande maioria dos atendimentos é feita na rede pública ou na privada vinculada à Previdência Social, sem haver um enfoque preventivo para reduzir a demanda e sobrecarga dos serviços de saúde. Além disso, aumenta também a necessidade de investimentos na área social, pois pessoas com doenças crônicas e suas sequelas demandam suporte de longa duração, com serviços comunitários e uma rede de apoio, ajudando as famílias no cuidado desses idosos. Mesmo porque, as famílias são cada vez menores e as mulheres, tradicionais cuidadoras dos parentes idosos, agora estão trabalhando fora, havendo necessidade de ser suprida essa função. A longevidade acarreta uma situação ambígua vivenciada por muitas pessoas, mesmo pelas ainda não idosas: o desejo de viver cada vez mais e, simultaneamente, o temor de viver em meio a incapacidades e à dependência. De fato, o avanço da idade aumenta a chance de ocorrência de doenças e de prejuízos à funcionalidade física, psíquica e social. Mais anos vividos podem ser anos de sofrimento para os indivíduos e suas famílias. Anos marcados por isolamento social, desvalorização, depressão e perda da autonomia dos idosos. Com relação à necessidade de inclusão nas políticas sociais, principalmente dos países da América Latina e África, aconteceu há vinte e sete anos, exatamente em 1982, a Primeira Assembleia da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre o envelhecimento em Viena, na Áustria, na qual foram delineadas e elaboradas diretrizes políticas relacionadas com os mais diversos aspectos do envelhecimento populacional. Vinte anos decorridos, em Madrid, na Espanha, no período de 8 a 11 de abril de 2002, a ONU retomou a questão durante a Segunda Assembleia Mundial sobre envelhecimento, abordando a temática “uma sociedade para todas as idades”, dessa vez com a proposta de um Plano de Ação Internacional, que está estruturado no compromisso por diversos países, entre eles, o Brasil. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 229 José Vitor da Silva. Considerando a grave situação enfrentada e vivida pelos idosos, em especial daqueles continentes, que abrangem as áreas sociais, política, econômica e de saúde, a mencionada assembleia concluiu que não deve existir mais uma ação isolada, mas integral, na qual Estado, Sociedade e Família, todos comprometidos perante a comunidade internacional, possam promover a cidadania plena dos idosos. Embora seja um desafio, somente a ação articulada desses três pilares pode conduzir a um processo de mudança na qualidade de vida dos idosos brasileiros. Diante do cenário apresentado, há que se considerar a necessidade premente de colocar em prática a integração proposta para que se possa promover as estratégias necessárias ao enfrentamento dessa realidade. No Brasil, inegavelmente, demorou que se tomasse consciência de que o agrupamento idoso exigia atitudes diferenciadas. Entidades especializadas no setor gerontológico, associações de idosos e de aposentados e facções dentro das mais diversas universidades, no início dos anos 1970, reivindicaram providências aos setores governamentais para o problema crescente da população mais velha. A convocação de uma Assembleia Constituinte, em 1988, e o convite a que população e entidades oferecessem sugestões, possibilitaram centenas de propostas, que acabaram reduzidas ao teor do que explicitou, depois, o Artigo 230 da nova Constituição, no particular da 230 gente idosa: A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando a sua participação na comunidade, defendendo a sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida (8). Considerando a necessidade de providências urgentes para a questão do idoso, foi instituída a Política Nacional do Idoso (PNI) de acordo com o que preceitua a Lei 8.842, 01/04/1994, regulamentada pelo Decreto n°1948, de 03/07/1996. O país poderia estar numa situação bem melhor quanto às políticas de atenção ao idoso, se o que está escrito e regulamentado pelo Decreto n°1948/96 tivesse realmente sido executado, pois falta garantir a dotação de recursos financeiros para a implantação e implementação da Política Nacional do idoso. No sentido de colocar em prática as ações preconizadas na PNI, os órgãos governamentais propuseram um plano de ação conjunta, que trata de ações preventivas, curativas e promocionais, objetivando a melhor qualidade de vida do idoso. O pano Integrado de Ação Governamental para o Desenvolvimento da Política Nacional do Idoso foi publicado em janeiro de 1997, pela Secretaria da Assistência Social do Ministério da Previdência e Assistência Social (9). A Igreja Católica, reconhecendo o contexto de exclusão social e de desamparo dos idosos, do qual pouco se sabe, e Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 que a infraestrutura necessária para atender a essa população é bastante precária, pois os serviços, programas sociais e de saúde são muito deficientes, escolheu para a Campanha da Fraternidade do ano de 2003 o tema “Fraternidade e Pessoas Idosas”, cujo objetivo geral é motivar todas as pessoas para que, iluminadas por valores evangélicos, sejam construtoras de novos relacionamentos, novas estruturas, que assegurem valorização integral às pessoas idosas e respeito aos seus direitos (10). No que tange à área de saúde, entretanto, é ainda evidente o despreparo da maioria dos profissionais, aí incluídos os enfermeiros no atendimento adequado às demandas específicas da população de idosos. Da leitura de textos, referentes às áreas de gerontologia e geriatria, pode-se observar que os autores consideram a longevidade um problema com consequências sérias nas diferentes dimensões da vida humana, não só no contexto físico, como também psíquico e social, trazendo implicações importantes para a vida. Esses anos vividos a mais podem ser de sofrimento para os idosos e suas famílias, marcados por doenças, declínio funcional, aumento de dependência, perda da autonomia, isolamento social e depressão. Entretanto, se as pessoas envelhecem mantendose autônomas, com capacidade funcional e de autocuidado, a sobrevida aumentada pode ganhar em satisfação de viver. Diante disso, fez-se presente o seguinte questionamento: José Vitor da Silva. Do ponto de vista da pessoa que está vivenciando o envelhecimento, o que significa ser uma pessoa idosa? As respostas a esse questionamento são de importância fundamental para todos os profissionais de saúde, no momento em que a sociedade brasileira passa por uma transição demográfica e epidemiológica. Este artigo contribui no sentido de oferecer uma base conceitual, a partir de dados da realidade empírica e do desenvolvimento de instrumento de medida de conceito, que contemple a especificidade da população idosa. A intenção é identificar os significados de ser uma pessoa idosa, na perspectiva de idosos residentes em três cidades sul-mineiras. Referencial teóricometodológico Na Teoria de Representação Social, o conhecimento é analisado no Intercâmbio das histórias em âmbito individual e social da pessoa. O Discurso do Sujeito Coletivo é um método que implica em recompor, com o material dos discursos empíricos individuais, os discursos coletivos. Essa parte enfoca os pressupostos das representações sociais e a descrição do método do Discurso do Sujeito Coletivo, que se baseia nas fontes daquela Teoria. As representações sociais Após terem sido fenômeno marcante da ciência social na França, no século XIX, as representações sociais caíram em desuso. Seu conceito, a partir da década de 1960, foi resgatado e introduzido na psicologia social por Serge Moscovici, em um estudo sobre a difusão da psicanálise e sua integração à cultura francesa. Então começou a ser divulgado em diversos países, para pesquisa em várias áreas do conhecimento, como atropologia, psicologia, educação, sociologia e saúde, entre outras. A enfermagem vem utilizando os pressupostos da Teoria das Representações Sociais (TRS) desde a década de 1980, buscando compreender os aspectos psicossociais que emergem nos vários objetos da investigação que ela focaliza. A TRS apresenta grande aderência aos objetos de estudos na área de enfermagem, uma vez que ela consegue apreender os aspectos mais subjetivos, que permeiam os problemas inerentes a essa área (11,12,13). As representações sociais (RS) consistem na maneira de interpretar a nossa realidade cotidiana, uma forma de conhecimento social, ao associar a atividade mental desenvolvida pelos indivíduos e os grupos para fixar sua posição em relação à situação, acontecimentos, objetos e comunicação que lhes dizem respeito (14). As representações sociais são uma forma de conhecimento socialmente elaborado e partilhado, tendo uma visão prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social (15,16). Toda RS é a representação de al- go e de alguém. Ela não é nem o duplo do real, nem do ideal, nem a parte subjetiva do objeto nem a parte objetiva do sujeito. Ela é o processo pelo qual se estabelece a sua relação (15,16). RS consiste em imagens que condensam um conjunto de significações, sistemas de referências que nos permitem interpretar o que nos acontece, ou como se dá um sentido inesperado; categorias que servem para classificar as circunstâncias e os fenômenos com os quais temos contato (15,16). O processo de representação permite tornar conhecido o desconhecido a partir de referenciais próprios ao sujeito e de acordo com seu contexto de valores culturais e de regras sociais. Representar um objeto implica conferir-lhe o status de um signo, em conhecê-lo, tornando-o significante: implica, portanto, numa relação dinâmica de reciprocidade indivíduosociedade. Visam a tornar familiar os fenômenos estranhos da vida cotidiana e, como a vida cotidiana apresenta novidades a todo o momento, as RS são categorias de conhecimento que estão sempre em construção. Essa construção envolve dois processos: a ancoragem que incorpora os elementos estranhos ao sistema de pensamento e de valores preexistentes, nas representações já construídas, e a objetivação, processo por meio do qual as representações se concretizam em palavras e imagens. É o mecanismo que permite o intercâmbio entre percepção e conceito e é Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 231 José Vitor da Silva. formador de imagens estruturantes, criadoras de novas realidades (15,16). Ancorar é classificar e denominar: “coisas que não são classificadas, nem denominadas, são estranhas, não existentes”; objetivar “é descobrir a qualidade icônica de uma ideia ou ser imprecisos, reproduzir um conceito em uma imagem”. Com a objetivação, o que antes era um esquema conceitual agora torna-se real. Com ela, dá-se uma contrapartida material a algo abstrato. Um alimenta o outro numa relação dialética, definindo o conteúdo das RS (14). Assim, os processos de formação das RS, quanto dialeticamente relacionados, articulam as três funções básicas da representação: a função cognitiva de integração da novidade, a função de interpretação da realidade e a função de orientação das condutas e relações sociais. O processo de formação de uma representação traduz sempre duas realidades inseparáveis, sendo um lado simbólico ou icônico e outro figurativo da representação, como se fossem duas faces de um papel ou os dois lados de uma moeda, um refletindo e caracterizando o outro (14). A TRS visa a dar conta de um fenômeno em que o homem manifesta sua capacidade criativa para aponderar-se do mundo, por meio de conceitos, afirmações e explicações sociais a respeito do objeto social, para torná-lo familiar e garantir comunicação no interior do grupo e facilitar a interação com as outras pessoas e grupos. As RS devem ser estuda- 232 das, articulando elementos afetivos, mentais e sociais, integrando ao lado da cognição, da linguagem e da comunicação, a consideração das relações sociais que afetam as representações e a realidade material, social e ideal as quais vão intervir (15,16). Como forma de retratar a realidade, as RS se manifestam em conduta, gestos, imagens e chegam a ser institucionalizadas, podendo ser analisadas a partir da compreensão das estruturas e dos comportamentos sociais. Elas são fruto das vivências e das contradições, que permeiam o dia-a-dia da sociedade, e sua expressão marca o entendimento delas pelos indivíduos e pelas instituições, gerando o senso comum sobre determinado objeto focalizado. A partir do senso comum, os indivíduos se movem, estabelecem relações, constroem suas vidas e as explicam, embasados nos seus esquemas de conhecimentos. Outro aspecto da TRS diz respeito aos fundamentos das RS. É preciso diferenciar dois enfoques: as RS enquanto campo socialmente estruturado e enquanto núcleo estruturante da ação (17,18). Enquanto campo socialmente estruturado, implicam em conhecer as experiências individuais como decorrentes da realidade social na qual o sujeito está imerso; realidade que se apresenta sob a forma de “campos sociais” delimitados: família, bairro, categoria profissional. Implica que as condições sociais de inserção desses sujeitos determinam suas representações e Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 os discursos que as veiculam. Do ponto de vista de núcleo estruturante das ações, consideram o sujeito o produtor de sentido, isto é, ele expressa em suas representações o sentido que dá à sua experiência no mundo social. As RS são vistas como uma forma de discurso e conhecimento, cujas implicações sociais provêm da situação de comunicação, do lugar social, a partir do que os sujeitos falam da finalidade dos seus discursos (17,18). Em síntese, as RS são uma forma de conhecimento prático – o saber do senso comum – que tem por finalidade estabelecer uma ordem que permita aos indivíduos orientarem-se em seu mundo e dominá-lo e possibilitar a comunicação entre os membros de um determinado grupo. DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO Para conhecer e descrever o significado de ser idoso sob a perspectiva de pessoas com 60 anos ou mais de três cidade sul-mineiras, sob o referencial das RS, a opção pela abordagem qualitativa era o melhor caminho e o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) constitui o método escolhido para a construção dos significados, permitindo a aproximação com o fenômeno em estudo. As diretrizes metodológicas do DSC O DSC é uma estratégia metodológica com a finalidade de tornar mais clara uma deter- José Vitor da Silva. minada RS e o conjunto das representações que constituem um dado imaginário. Por meio desse modo discursivo é possível visualizar a RS, na medida em que ela aparece não sob a forma (artificial) de quadros, tabelas ou categorias, mas sob a forma mais viva e direta de um discurso, que é o modo como os indivíduos reais e concretos pensam (19). O DSC consiste na reunião, num só discurso-síntese de vários discursos individuais emitidos como resposta a uma mesma questão de pesquisa, por sujeito social e institucionalmente equivalentes ou que fazem parte de uma mesma cultura organizacional e de um grupo social homogêneo, na medida em que os indivíduos que fazem parte desse grupo ocupam a mesma ou posições vizinhas num dado campo social. O DSC é, então, uma forma de expressar diretamente a RS de um dado sujeito (20,21). A proposta inovadora para somar discursos implica em que é preciso recompor o material dos discursos empíricos coletivos. Então por meio do DSC, busca-se escapar tanto da nãopessoa da ciência (números, discurso impessoal ou “discurso sobre”) quanto do discurso individualizado, não generalizável, da primeira pessoa do singular. O DSC é uma proposta de organização e tabulação de dados qualitativos de natureza verbal, obtidos de depoimentos, artigos de jornal, materiais de revistas e cartas, entre outros (20,21). O Sujeito Coletivo se expressa então por meio de um discurso emitido no que se poderia chamar de primeira “pessoa (coletiva) do singular”. Trata-se de um “eu” sintático que, ao mesmo tempo que sinaliza a presença de um sujeito individual do discurso, expressa uma referência coletiva na maneira em que este “eu” fala pela ou em nome de uma coletividade. Esse discurso coletivo expressa um sujeito coletivo (20, 21). Foi adotado para o DSC um “pressuposto socioantropológico de base”, por meio do qual entende-se que o pensamento de uma coletividade sobre um dado tema pode ser visto como o conjunto dos discursos existentes na sociedade e na cultura sobre tal tema, do qual os sujeitos lançam mão para se comunicarem, interagirem e pensarem. Nesse sentido, o pensamento coletivo é como se fosse um segundo idioma, uma segunda língua que, à medida que viabiliza e permite a troca entre indivíduos distintos de uma mesma cultura é, como o primeiro idioma, uma condição imprescindível para a vida humana em sociedade. A comparação entre DSC e os idiomas permite que se entenda algo de suma importância, ou seja, um indivíduo que domina determinada língua é, ao mesmo tempo, um ente coletivo e um ente individual na medida em que, enquanto ente coletivo, compartilha com os membros da sua cultura um código comum e, enquanto ente individual é capaz de produzir e produz, frequentemente, nas suas interações habituais, frases inéditas. Ora, isso acontece exata- mente com o DSC (20,21). O DSC é o equivalente da língua ou idioma e o depoimento dos indivíduos, com os quais ele é feito, ou a partir dos quais ele é reconstruído ou mesmo elaborado, o equivalente as frases individuais. Logo, o Discurso do Sujeito Coletivo é um construto, elaborado por abstração, a partir de um conjunto de falas individuais de sentido reputado semelhante ou complementar, com a finalidade precípua de expressar um pensamento coletivo (20,21). Se o pensamento coletivo pode ser visto como um conjunto de discursos sobre um dado tema, o DSC visa a iluminar o conjunto de individualidades semânticas, próprias do imaginário social. É uma maneira destinada a fazer a coletividade “falar” diretamente. Para a elaboração do DSC foram criadas quatro figuras metodológicas que são: 1.Expressões-chave (ECH): são partes ou todo o conteúdo das transcrições literais do discurso de cada sujeito, que devem ser identificados e a seguir destacados (sublinhados, coloridos ou iluminados) pelo pesquisador e que revelam a essência do discurso ou a teoria subjacente. 2.Ideias centrais (IC): é um nome ou expressão linguística que revela e descreve da maneira mais sintética, precisa e fidedigna possível o sentido de cada um dos discursos analisados e de cada conjunto homogêneo de ECH que posteriormente, vai dar origem ao DSC. É importan- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 233 José Vitor da Silva. te assinalar que a IC não é uma interpretação, mas uma descrição do sentido do depoimento ou de um conjunto de depoimentos. As ICs podem ser resgatadas por meio de descrições diretas do sentido do depoimento, revelando “o que foi dito”, ou por meio de descrições indiretas ou mediatas que revelam o tema do depoimento ou ”sobre o quê” o sujeito enunciador está falando. Nesse último caso é preciso, após a identificação do tema, reconhecer as ICs correspondentes. 3Ancoragem (AC): algumas ECH remetem não apenas a uma IC correspondente, mas também a uma figura metodológica que, sob a inspiração da TRS, denomina-se Ancoragem (AC), que é a manifestação linguística explícita de uma determinada teoria ou crença que o autor do discurso professa e que, na qualidade de afirmação genérica, está sendo utilizada pelo enunciador para “enquadrar” uma situação específica. É importante observar que todo depoimento tem uma ou várias ICs, mas apenas alguns depoimentos apresentam, de maneira explícita, as marcas discursivas das ancoragens (20). 4.Discurso do Sujeito Coletivo (DSC): redigido na primeira pessoa do singular e composto pelas ECHs que têm a mesma IC ou AC. Interrelações de ideias centrais e expressões-chave No âmbito de uma pesquisa qualitativa empírica de RS que envolva coleta de depoi- 234 mentos individuais, o que se busca obter, pelo menos inicialmente, é uma descrição do sentido de cada um e do (s) conjunto (s) dos depoimentos/discursos que se coletou sobre uma determinada temática. Considerando cada depoimento/discurso isoladamente, a IC é uma descrição mais sucinta e objetiva possível do sentido desse discurso, o qual pode ter mais de uma IC, conforme foi comentado anteriormente. A IC tem, por isso, a importante função de individualizar um dado discurso ou um conjunto de discurso, descrevendo, positivamente, suas especialidades semânticas e distinguindoos de outros discursos, portadores de outras especificidades semânticas. Considerando a IC o “nome” ou a “marca” do sentido dos discursos, pode-se dizer que as ECH representam o “conteúdo” ou “substância” desse sentido identificado e especificado por esse nome ou por essa marca. As ECH são segmentos dos discursos que remetem à IC e a corporificam. Fica claro, então, que as ICs e ECHc são ambas, indispensáveis para que os discursos possam ser adequadamente descritos, tendo a primeira uma função identificadora, particularizadora, especificadora e a segunda uma função corporificadora, de substantivação, de “recheio” do sentido nomeado. Essas funções não devem apenas ser consideradas isoladamente, mas em interrelação dialética. De fato, não é possível identificar uma IC de um con- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 junto de depoimentos/discursos sem que se tenham examinado antes, detidamente, as ECHs presentes nesse conjunto de discursos. Na realização de seu trabalho de descrição dos discursos obtidos dos depoimentos de uma dada pesquisa, o pesquisador começa por examinar as ECHs dos depoimentos. Nesse momento percebe, ainda que de forma intuitiva e impressionista, que um conjunto de ECH pode ser agrupado ou reunido num “arquivo” porque parece remeter a uma ideia ou sentido semelhante ou complementar. Em seguida, busca o pesquisador nomear ou identificar, quando bem-sucedida, a IC. Pode acontecer também que o pesquisador se sinta inseguro ou insatisfeito com o resultado à medida que não encontrar um nome, ou seja, uma IC adequada para caracterizar aquele conjunto de ECH inicialmente, consideradas semelhantes. Diante disso, o pesquisador deve recomeçar seu trabalho, visando a adequar, corretamente, IC,s e ECHs e vice versa. Apresentação de resultados do DSC O DSC, como técnica de processamento de dados com vistas à obtenção do pensamento coletivo, dá como resultado um painel de discursos de sujeitos coletivos, enunciados na primeira pessoa do singular, justamente para sugerir uma pessoa coletiva, falando como se fosse um sujeito individual de discurso (20,21). É fácil perceber essa ma- José Vitor da Silva. neira de apresentação de resultados, pois confere muita naturalidade, espontaneidade e vivacidade ao pensamento coletivo, o que contrasta muito com as formar clássicas de apresentação de resultados. Pode-se apresentar os resultados obtidos por questão e, quando houver mais de um DSC por questão, pode-se apresentar inicialmente um quadro-síntese com as ICs surgidas na análise da questão. O DSC pode estar em itálico e em negrito, ao mesmo tempo, para indicar que se trata de uma fala ou depoimento coletivo, mas não é conveniente aspear porque não se trata de uma citação (20,21). Terminada a exposição dos quadros, com as ICs e seus DSCs, pode-se comentar descritivamente os dados obtidos em cada questão da mesma forma que se comentam tabelas e gráficos. O DSC passo a passo Considerando a exposição anterior, esquematicamente, encontram-se listados a seguir os passos necessários para chegar à construção dos DSC. Tendo sido todas as entrevistas gravadas e transcritas para a tabulação de dados, é preciso acompanhar, rigorosamente, os seguintes passos: 1.As questões devem ser analisadas isoladamente, isto é, será inicialmente analisada a questão 1 de todos os sujeitos entrevistados, a seguir a questão 2 e assim sucessivamente. Dessa forma, o primeiro passo consiste em copiar, integralmente o conteúdo de todas as respostas referentes à questão 1 no Instrumento de Análise de Discurso 1 (IAD1), na coluna ECH do quadro de apresentação. 2.Identificar e sublinhar, em cada uma das respostas, com uma determinada cor ou utilizando outro recurso gráfico as ECH das ICs e, quando houver, com outra cor ou usando outro recurso, as ECH das ancoragens. 3.Identificar as ICs e, quando for o caso, as ancoragens, a partir das ECH, colocando-as nas caselas correspondentes do quadro elaborado. 4.Identificar e agrupar as ICs e as ancoragens de mesmo sentido ou de sentido equivalente ou complementar. Deve-se “etiquetar” cada grupo: A, B, C e assim por diante. 5.Denominar cada um dos agrupamentos A, B, C, D, e outros, o que, na realidade, implica em criar uma IC ou ancoragem-síntese que expresse, da melhor maneira possível, todas as ICs e ancoragens de mesmo sentido. Às vezes, todas ou várias ICs ou ancoragens têm o mesmo título, ou nome, o que evidentemente, facilita o processo. 6.Construir o DSC. Para isso é preciso utilizar o Instrumento de Análise de Discurso 2 (IAD2). Deve-se construir um DSC para cada agrupamento identificado no passo anterior. Portanto, devem ser utilizados tantos IAD2 quantos forem os agrupamentos. A primeira etapa para a construção do DSC é copiar do IAD1 todas as ECH do mesmo agrupamento e “colá-las” na coluna das ECH do IAD2. A segunda etapa é a construção do DSC propriamente dito de cada agrupamento. Trajetória metodológica Essa parte abarca os aspectos relacionados com os locais da pesquisa, a população do estudo, a coleta de dados, os procedimentos utilizados para a coleta, tratamento e análise de resultados, assim como os preceitos éticos da pesquisa. Cenário do estudo O estudo foi realizado em três cidades sul-mineiras: Itajubá, Pouso Alegre e Santa Rita do Sapucaí. O Estado de Minas Gerais conta hoje com 1.624.981 idosos. A cidade de Itajubá possui 90,000 habitantes, dos quais 8.577 têm 60 anos ou mais. A população total de Pouso Alegre é de 106.776 pessoas, tendo 8,978 idosos. O município de Santa Rita do Sapucaí possui 32,720 habitantes, dos quais 3,046 são idosos (2). A distância entre Itajubá e Pouso Alegre é de 60 km e entre a primeira e Santa Rita do Sapucaí é, aproximadamente, de 45km. Na área de educação, as três cidades contam com estabelecimentos de ensino deste préescolar ao superior, oferecendo possibilidades de estudos não apenas para os alunos da cidade e dos arredores, mas também de todo o país, sobretudo nas Universidades e Institutos instalados na região. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 235 José Vitor da Silva O setor de saúde está formado por hospitais gerais de médio e grande portes, nas duas primeiras cidades, e um de pequeno porte em Santa Rita do Sapucaí, consignados para atendimentos médico-hospitalares do Sistema Único de Saúde (SUS), de natureza particular e conveniada. A infraestrutura destinada aos atendimentos de saúde coletiva constitui-se de diversas unidades básicas de saúde (UBS), distribuídas nas zonas urbana e rural daquelas cidades. O perfil de morbimortalidade nessas cidades caracteriza-se pelo predomínio das doenças cardiocirculatórias, doenças do aparelho respiratório, neoplasias malignas e doenças endócrinas (2). No contexto social, as cidades contam hoje com grupos organizados para terceira idade, abertos a todos os idosos da região e por meio dos quais são desenvolvidas atividades festivas, de lazer e outras. Finalmente, para os idosos com problemas familiares e sociais existem diversos asilos que funcionam em sistema fechado e semi-aberto. Tamanho e natureza da amostra O objetivo de uma pesquisa de RS é o resgate do imaginário social sobre um dado tema. Esse imaginário, na técnica do DSC, conforme comentários anteriores adquire a forma de um painel de discursos. Esse painel reflete o que se pode pensar, numa dada formação sociocultural, num dado 236 grupo ou numa dada coletividade, sobre um determinado assunto. Ora, quando a via de acesso a esse imaginário é o depoimento de pessoas, obtido por meio de entrevistas individuais, um maior número de entrevistados aumenta, em princípio a chance de que o imaginário obtido seja mais rico (20,21). Na pesquisa qualitativa, é sempre importante um conhecimento prévio das características gerais do tema em investigação para saber que tipo e quantos informantes são necessários para que o painel de discurso composto com os seus depoimentos seja o mais amplo possível (20,21). O tamanho da amostra em pesquisas qualitativas de reconstrução de imaginários sociais tem muito a ver com as dificuldades técnicas e operacionais que implicam em analisar, detalhadamente, uma massa grande de depoimentos, às vezes, densos e complexos. Análises envolvendo um número maior de depoimentos podem ser feitas ou propostas, aumentando a riqueza do imaginário obtido (20,21). Os pequenos números não constituem uma característica inalienável das pesquisas qualitativas. Nada há que determine que a pesquisa qualitativa tenha de ser conduzida com pequenos números. Mas as grandes quantidades de dados densos que os métodos qualitativos tendem a gerar propiciam uma razão de ordem prática para que se limite o tamanho da amostra (22). A amostra do estudo foi Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 constituída por pessoas, tanto do sexo masculino quanto do feminino, residentes nas cidades citadas anteriormente e com 60 anos ou mais. Esse critério é adotado pela Organização Mundial de Saúde para definir pessoa idosa, do ponto de vista cronológico nos países em desenvolvimento, a exemplo do Brasil (23). Os sujeitos da pesquisa foram selecionados por meio dos grupos de terceira idade, igrejas, locais de trabalho e pelo conhecimento prévio deles. A amostra foi composta de 50 idosos, dos quais dez foram entrevistados em Santa Rita do Sapucaí e os demais, equitativamente, nas outras duas cidades. A amostragem foi intencional ou por seleção racional, que se baseia na crença de que os conhecimentos de um pesquisador sobre a população e seus elementos podem ser utilizados para selecionar os casos que serão incluídos na amostra (24). O pesquisador pode decidir e selecionar, intencionalmente, a mais ampla variedade possível de entrevistados, ou ainda pode selecionar os sujeitos tidos como característicos da população em questão, ou particularmente conhecedores das questões que estão sendo estudadas. Foram incluídos no estudo os idosos que: -Concordaram em participar do estudo. -Foram capazes de comunicarse verbalmente, isto é, lúcidos e não portadores de desordens cognitivas. Para certificar-se de que eles atendiam a esse critério, foi utilizado o Questionário de Avaliação Mental. José Vitor da Silva -Estavam residindo nas cidades de Itajubá, Pouso Alegre e Santa Rita do Sapucaí. Coleta de dados Instrumentos A coleta de dados ocorreu por meio de três instrumentos: 1.Questionário de avaliação mental: proposto por Khan (25). Ele consiste em dez perguntas que analisam basicamente a orientação temporoespacial e a memória para os fatos tardios, possibilitando avaliar se o idoso sofre ou não de uma síndrome mental orgânica. O respondente deve acertar no mínimo sete do total de dez perguntas. 2.Características biossociais, familiares, econômicas e de saúde: o questionário permitiu obter informações quanto às características individuais e familiares, da saúde física, das atividades da vida diária, dos recursos sociais e econômicos, assim como das necessidades e problemas que afetavam os idosos. A sua elaboração baseou-se no Questionário BOAS (Brasil Old Age Schedule) elaborado por Veras (26). 3.Roteiro de entrevista semiestruturada: foi constituído por uma pergunta aberta, destinada à identificação do significado de “pessoa idosa”. Procedimento para coleta de dados A aplicação dos questionários de Avaliação Mental e das Características biossociais, familiares, econômicas e de saúde ocorreu por meio de entrevista estruturada. Para a questão de envelhecimento, foi utilizada a técnica de entrevista semiestruturada. A entrevista privilegia a obtenção de dados por meio da fala que revela condições estruturais de sistema de valores, normas e símbolos e, ao mesmo tempo, transmite por meio de um portavoz as representações sociais de grupos determinados, em condições históricas, socioeconômicas e culturais específicas (27). Entre os diversos tipos de entrevista, optou-se pela semiestruturada que é uma técnica que valoriza a presença do investigador e permite que o entrevistado alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias, enriquecendo a investigação, favorecendo não só a descrição dos fenômenos sociais, mas também sua explicação e a compreensão de sua totalidade (28). As estratégias utilizadas para a coleta de dados foram as seguintes: -As entrevistas foram realizadas no domicílio do idoso. -Todas as entrevistas foram agendadas previamente com cada idoso, respeitando os dias e horários que lhes eram viáveis. -Antes do início da entrevista, o idoso tomava ciência do objetivo do estudo, instrumentos a serem aplicados e da entrevista gravada, assim como da garantia do anonimato. -Esclarecimentos de outras dúvidas, quando necessário. -Assinatura do Termo de Consentimento Informado pelo respondente, após sua anuência. Os discursos dos entrevistados foram registrados por microgravador de fitas de 60 minutos. O tempo médio de duração da entrevista foi de 45 a 60 minutos. A reação dos entrevistados em relação ao gravador foi sempre positiva, não se observando constrangimento do respondente. Não houve relato, por parte dos idosos, de falta de entendimento das perguntas. Todos os respondentes aceitaram prontamente o convite. Tratamento e análise dos dados De acordo com as diretrizes do DSC, foram adotadas neste estudo três figuras metodológicas: Expressões-Chave, Ideia Central e Discurso do Sujeito Coletivo. Para o tratamento e análise dos dados, utilizou-se, rigorosamente, a ordem das seguintes etapas: -1ª etapa: antes do início da transcrição dos dados, as fitas foram ouvidas várias vezes para que se tivesse uma ideia panorâmica e melhor compreensão dos textos. Com os discursos gravados em fitas, procedeu-se à transcrição literal deles. -2.ª etapa: efetuou-se a leitura exaustiva de todo o material transcrito em dois momentos distintos: no primeiro, procedeu-se à leitura de todas as entrevistas de cada um dos idosos, na sua totalidade; num segundo momento, realizou-se a leitura individual da única questão da entrevista gravada. -3ª etapa: copiou-se integralmente o conteúdo de todas as respostas inerentes à questão da entrevista de cada respondente no Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 237 José Vitor da Silva. Instrumento de Análise de Discurso 1 (IAD1), representando as ECH em itálico. De posse das ECH e após a leitura de cada uma, identificou-se a sua IC, tomando-se o cuidado de que ela representasse a descrição das ECH e não a sua interpretação. -4ª etapa: elaboração do Instrumento de Análise do Discurso 2 (IAD2) que contém, separadamente, cada ideia central com as respectivas ECH semelhantes ou complementares. -5ª etapa: extraiu-se o tema de casa uma das perguntas da entrevista semiestruturada, agrupando a ele as suas respectivas ICs, assim como os sujeitos, representados pelo seu número e as frequências de ideias, por meio de quadros. Finalmente, construíram-se os DSCs, separadamente, de cada IC com as suas respectivas ECH. Resultados A caracterização das pessoas idosas que participaram deste estudo permitiu mostrar que a maior parte delas era do gênero feminino, a média de idade foi de 70 anos. Quase todas sabiam ler e escrever, embora tivessem apenas o nível mais elementar de escolaridade. Eram predominantemente casadas, tinham em média quatro filhos, sentiam-se satisfeitas com quem moravam, assim como com os vizinhos e amigos. Quanto ao estado de saúde, o consideraram bom, inclusive quando comparado ao de outras pessoas da sua idade. A maioria era portadora de uma doença crônica não transmissível, predominando a hipertensão arterial sistêmica. Recebiam em média um salário mínimo referente a aposentadoria para suprir as necessidades diária. Tema I: pessoa idosa 1.O que é para o Senhor (a) uma pessoa idosa? O quadro 1 mostra as ideias centrais, sujeitos e frequência de ideias do tema “pessoa idosa”. Quadro 1- Ideias centrais, sujeitos e frequência de Primeira ideia central É a pessoa com incapacidade e inabilidade funcional. DSC É uma pessoa de idade avançada, com vida já bem longa, mas que perdeu o gosto pela vida, sem vontade de viver e não consegue mais levar aquele... aquele ritmo de viver que é próprio de uma pessoa mais moça. A pessoa já fica meio cansada, meio decepcionada e às vezes até desiludindo os outros. Não se sente disposta para fazer uma coisa além do que ela consegue, nas forças que ela tem. É uma pessoa incapaz, doente, sem ânimo para trabalhar e viver... sem forças para lutar, com limitações e sem ter os objetivos que teria ainda de cumprir. Logo, idosa é aquela pessoa que está hoje praticamente inerte, sem uma atividade, né? Acha que não tem mais potencial e que, por ser idosa, não pode fazer nada. Tem que ficar parada não quer e não pode trabalhar e fica só pensando na velhice. Ai, vêm todos os problemas, tanta coisa, né? ideias do tema “pessoa idosa” Segunda ideia central Fonte: Instrumento de Pesquisa É uma pessoa com bastante idade, saúde e vida normal. 238 Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 José Vitor da Silva. DSC DSC Uma pessoa idosa, no conceito da palavra, é aquele que tem muita idade, mas eu não vejo dessa maneira, eu não acho que pessoa idosa seja a idade, não. Isso é de cada um. Eu creio também que a idade não é o tempo... não é tempo....não é totalmente o tempo de vida que a gente tem. Eu creio que a idade, ela...ela é...ela depende muito de como a pessoa vive, de qual a concepção que a pessoa tem da vida. O conceito de idoso pode ser mais amplo. Eu, por exemplo, aos 71 anos de idade, sou uma pessoa muito feliz... eu lembro que sou velho quando olho no espelho... porque o meu coração é jovem, eu não me sinto velho, eu não me entreguei ainda à velhice... Eu continuo sendo uma pessoa dinâmica, trabalho 12 horas por dia, tenho uma vida saudável e não me preocupo com a idade, né? Acho que depende muito do espírito de cada um. Pessoa idosa para mim é quem tem bastante saúde, vontade de viver e vida normal. Tem ânimo para tudo e para trabalhar, está em atividade e tem a felicidade de ajudar os outros. Eu acho que está tudo bem comigo porque eu tenho bastante saúde e muita disposição para o trabalho. Sou aposentado, mas continuo trabalhando porque não gosto de ficar parado, certo? Logo, eu creio que ser velho não é se entregar, é viver a vida nas condições de velho... reconhecendo que é uma pessoa velha, porém uma pessoa que não se entrega para ir morrendo aos poucos. Para mim, uma pessoa idosa é uma pessoa que tem vivido, que sabe aproveitar os anos vividos e que tem mais experiência de serviço e mais experiência para tudo, né? Então eu posso citar a idade cronológica avançada, mas também aquele que adquiriu bastante experiência porque uma vida de 60 anos... já gozou muita coisa e já sofreu na prática a vida suficiente de todas as matérias, pode-se assim dizer para ensinar alguém. Uma pessoa idosa tem compreensão das coisas da vida e sabe aproveitar os seus anos vividos, né? Viveu a mocidade, já passou por ela e sabe o que é, né? Enfim, eu acho que ser idoso é muito bom. A gente tem experiência e a gente dá conselho para os mais novos que pedem tudo. Eu penso que, de uma maneira sucinta, seria isso. Terceira ideia central É a pessoa que já viveu muitos anos Quinta ideia central É a pessoa que já cumpriu os seus objetivos d vida. DSC Uma pessoa idosa é aquela que já viveu muito que já passou dos 60 anos e que já atingiu todas as fases desde a adolescência até chegar nessa fase de vida mais avançada. Já alcançou tudo aquilo que almejada como trabalho, família, criou ou filhos e aposentadoria... É uma pessoa que já realizou tudo, mas que tem uma vida digna e bem vivida. Essa para mim é uma pessoa idosa perfeita. A figura 1 ilustra o significado de ser pessoa idosa. DSC Pessoas com bastante idade, saúde e vida normal Uma pessoa idosa é aquela que tem muitos anos vividos. É uma pessoa velha, de idade bastante avançada e que já viveu mais de 60 anos, 70, 80 por ai. Uma pessoa idosa, diz a medicina é aquela que já viveu mais de 60 anos. É claro que tudo isso é relativo porque depende do modo como a pessoa encara o que seja essa questão, né? Então, é fisicamente, porque espiritualmente a gente nunca é idosa. Significados de pessoas idosas Pessoa que já viveu muitos anos Quarta ideia central É aquele que tem muita experiência de vida. Pessoa que já cumpriu seus objetivos de vida Pessoas com incapacidade e inabilidade funcional Aquele que tem muita experiência de vida Figura 1 - Significados de ser pessoa idosa Fonte: Instrumento de Pesquisa Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 239 José Vitor da Silva. Os integrantes do estudo representaram socialmente a pessoa idosa como aquela que já tem muitos anos, portadora de uma experiência de vida, que já cumpriu os seus objetivos traçados, com saúde e vida normais ou com incapacidade ou inabilidade funcional. Discussão Ao analisar as representações sociais dos idosos sobre velhice, observou-se que elas foram notadamente heterogêneas, oscilando desde uma concepção mais negativa de que o idoso é “uma pessoa incapaz, doente, sem ânimo para trabalhar e viver... sem forças para lutar, com limitações e sem ter os objetivos que teria de cumprir”, perpassando pela ideia de que é aquele que “já cumpriu seus objetivos de vida”, “é a pessoa que já viveu muitos anos” até chegar a outro extremo de que, embora seja ”uma pessoa com “bastante idade”, tem saúde e disposição para trabalhar.” A heterogeneidade das expressões vividas e percebidas sobre velhice reflete as diversas possibilidades de o idoso interpretar a sua condição, dependendo da história de vida de cada um, disponibilidade do suporte afetivo, a nível social e sistemas de valores pessoais. As diferentes representações dos idosos sobre velhice encontram respaldo em Ferrari (29), para quem o processo de envelhecimento é muito pessoal, constitui uma etapa de vida com realidade própria e diferente das anteriores, limitadas por condições objetivas e subjetivas. 240 A heterogeneidade de significados ou de representações é um fenômeno que traduz as diferenças entre as pessoas em razão das suas distintas histórias de vida. Essas são construídas com base na interação entre a história de vida individual, a personalidade e as experiências sociais que os indivíduos compartilham com seus semelhantes. Como a diferença de opiniões diz respeito às experiências individuais que são únicas e construídas durante todo o ciclo de vida, é possível admitir que ela se acentua à medida que as pessoas envelhecem (30). Ao contrário do que se costuma pensar, as pessoas idosas não são todas iguais, assim como tendem a ser diferentes entre si na sua concepção de ser velho. As representações dessa etapa de vida refletem a síntese do momento em que se vive, associado a todo o contexto anterior e às expressões vividas e sentidas. Entretanto, não há uma consciência clara de que a velhice possa ser anunciada por meio de características físicas, psicológicas, sociais, culturais e espirituais. Algumas pessoas parecem velhas aos 45 anos de idade e outras jovens aos 70. Se o início da velhice é rigorosamente indefinido, havendo divergências de opiniões e de indicadores, o viver e o sentir a velhice também são marcados por divergências pessoais vindas dos seus próprios atores (31). Associado ao que foi dito anteriormente, no contexto de desigualdade social que impera no Brasil, alguns idosos conse- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 guem vivem a velhice de modo mais rico e inovado do que as pessoas idosas de antigamente. Infelizmente muitos outros idosos continuam amarrados às mesmas restrições, à falta de oportunidades e a desvantagens, em virtude da pobreza que só agrava as dificuldades físicas e sociais da velhice. Seu destino é sombrio não só por terem envelhecido, mas também pela má qualidade de vida precedente. Consequentemente, as acepções sobre velhice também serão heterogêneas (30). Zimermam (32), ao analisar os motivos que levam os idosos a terem divergências de interpretação sobre a velhice, observou que aqueles com bom nível de capacidade funcional e autonomia, com suas doenças crônicas controladas, com a sensação do dever cumprido em relação ao trabalho e à família, sentindo-se úteis e experientes, assim como aqueles que tinham recursos financeiros adequados, conceituavam-na positivamente, o que não ocorria com idosos em situações opostas. Essa diversificação de ideias sobre a pessoa idosa coincide ainda com Zimermam (32) quanto, ao referir-se a ela, diz: velho é aquele que tem a idade do corpo, aquele que tem experiência, mais vivência, mais doença crônica e mais perdas físicas. No momento em que o idoso utiliza mais a sua experiência adquirida ao longo dos anos, é capaz de ensinar e conviver com a própria velhice e sentir-se realizado. Ainda no contexto sobre diversidade de ideias a respeito José Vitor da Silva. da velhice, a natureza desse fenômeno é multidimensional e multidirecional, ou seja, relaciona-se com aspectos físicos, psicológicos, sociais do indivíduo, cujo processo de degeneração inicia em diferentes momentos da vida, ocorre em ritmos e com diferentes resultados de adaptação a ele. Para complicar, o ser idoso é um evento, cujas concepções podem variar no tempo e no espaço, dependendo dos significados atribuídos a ele. Os significados são diferentes em decorrência da realidade familiar social e cultural (33). Ao interpretar separadamente, cada uma das ideias centrais relacionadas ao significado de ser uma pessoa idosa, a “incapacidade e a inabilidade funcional” são a ideia com maior frequência. É importante destacar que, apesar de estabelecerem essa relação entre velhice e incapacidade funcional, a maioria dos idosos deste estudo não se via como pessoa incapaz ou improdutiva, ou seja, não se percebia como velho, apesar da ideia cronológica e dos problemas de saúde referidos por muitos. Isso leva à suposição de que os participantes do estudo, vivendo numa sociedade preconceituosa em relação aos idosos, reproduziram os seus estereótipos como, de resto, é comum observar na população em geral. Esse pode ser o motivo pelo qual, muitas vezes, os próprios idosos se referiram à velhice de forma negativa (5). De qualquer modo, o resultado observado coincide com o posicionamento de Ramos, Saad (34), que consideram a ca- pacidade funcional o componente que melhor reflete o estado de saúde dos idosos e que melhor sinaliza as reais necessidades de cuidados que requer essa população. Com relação às ideias centrais “é a pessoa que já viveu muitos anos” e “é uma pessoa com bastante idade, mas com disposição para trabalhar”, é importante citar, inicialmente, que é a idade cronológica a demarcadora social da velhice (31). O indivíduo deve chegar à velhice com saúde, mas para uma pessoa idosa, o que é ter saúde? O que significa envelhecer de forma saudável? Idoso saudável é aquele que não tem doença? Se isso fosse verdade, existiria algum idoso saudável? O idoso, mesmo portador de uma doença pode sentir-se saudável, desde que seja capaz de desempenhar funções e atividades, alcançar expectativas e desejos, manter-se ativo em seu meio, ter alguma função social, efetivar projetos, conseguindo assim uma boa qualidade de vida, podendo realizar-se como ser humano, e o que é mais importante, ser feliz. Saúde, portanto, é a capacidade de o idoso continuar exercendo funções em seu meio físico e social, contribuindo para a sociedade e interagindo com ela (7). A maior parte dos idosos deste estudo percebeu o seu estado de saúde como bom (60%) ou muito bom (26%), embora 78% fossem portadores de uma doença crônico-degenerativa, sobretudo de natureza cardiocirculatória. A saúde, para eles, era vista como condição necessária pa- ra realizar atividades, superar os problemas e viver melhor. Logo, na concepção desses idosos, saúde não tem um fim em si mesma, mas é um recurso para viver plenamente: porque a pessoa que tem saúde vive melhor com seus familiares, vive melhor com Deus e vive melhor consigo mesmo. As demais ideias centrais: “é aquele que tem muita experiência de vida” e “é a pessoa que cumpriu seus objetivos de vida” encontram respaldo em Zimermam (32) ao afirmar que, quando o idoso é reconhecido pelas suas experiências anteriores e potencialidades atuais, assim como pelo que ainda é capaz de realizar, ele está protegido contra a perda da autoestima e o isolamento social. A sensação de dever cumprido ou de alcance das metas pessoais o previne da perda da própria identidade social (32). Considerações finais “Ser uma pessoa idosa” foi caracterizado como um fenômeno multidimensional e multidirecional, ou seja, relativo a aspectos físicos, psicológicos e sociais do organismo, cujo processo de degeneração começa em diferentes momentos da vida, ocorre em diferentes ritmos e com diferentes resultados de adaptação. O envelhecimento é também um evento passível de vários tipos de interpretação, ou seja, as concepções a seu respeito podem variar no tempo e no espaço, dependendo dos significados a ele atribuídos. Como evento natural, envelhecimento significa degene- Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 241 José Vitor da Silva. te perturbadores para o homem como indivíduo e espécie. Em última análise é o principal determinante de seu esforço para controlar o envelhecimento e as condições que o determinam. Por outro lado, o envelhecimento, é um fenômeno distinto para cada pessoa. Cada ser humano tem o seu envelhecimento próprio que está centrado em diversos aspectos, tais como valores, cultura, estilo de visa e cuidado com a saúde. Associada a esses aspectos, a concepção própria sobre vida e envelhecimento é também um fator que contribui para o seu desenvolvimento. Todos os elementos mencionados anteriormente constituem a estrutura do que se denomina hoje envelhecimento produtivo e bem-sucedido, sendo este uma contraposição à associação tradicional entre velhice e inatividade, isolamento social e improdutividade. Referências 1.Pessini, L. Envelhecimento e saúde: ecos da II Assembléia Mundial sobre o envelhecimento. Mundo Saúde 2002; 26(4): 45763. 2.Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Nacional. Brasília (DF); 2000. 3.Pessini, L; Queiroz, ZV. Envelhecimento e saúde: desafios para o novo século. Mundo Saúde 2002; 26 (4):455-56. 4.Paschoal, SMP. Epidemiologia do envelhecimento. In: Papaléo Neto M, organizador. Gerontologia. São Paulo: Atheneu; 2000. 5.Assis, M. O envelhecimento e suas conseqüências sociais. In: Caldas CP, organizadora. A saúde do idoso: a arte de cuidar. 2.ed. Rio de Janeiro: Editora da UERJ; 2004. 6.Secretaria do Estado de Saúde de Minas Gerais. Programa de saúde do idoso. Belo Horizonte (MG); 2006. 7.Paschoal, SMP. Epidemiologia do envelhecimento. In: Papaléo Neto M, organiza- 242 dor. Gerontologia. São Paulo: Atheneu; 2006. p.26-43. 8.Fernandes, FS. A importância da legislação para a terceira idade. Mundo Saúde 1997; 21(4):231-33. 9.Caldas, CP. A política nacional do idoso. In: Caldas CP, organizadora. A saúde do idoso: a arte de cuidar. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora da UERJ; 2004. p.37-38. 10.Conferência Nacional de Bispos do Brasil. Campanha da Fraternidade de 2003: fraternidade e pessoas idosas (sinopse). Mundo Saúde 2002; 26(4): 509-34. 11.Abrantes, VL. Filhos adolescentes de casa-lar: desafiando vivências modelando projetos de vida e tecendo espaços para a enfermagem [Tese de Doutorado]. Rio de Janeiro: Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro; 1996. 12.Figueiredo, NMA. O Corpo da enfermeira: instrumento do cuidado de enfermagem. Um estudo sobre representações de enfermeiras [Tese de Doutorado]. Rio de Janeiro: Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro; 1994. 13.Silva, JV. Ser idoso e ter qualidade de vida: as representações de idosos residentes em cidades do sul de Minas Gerais [Tese de Doutorado]. São Paulo: Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo; 2003. 14.Moscovici, S. Representação social da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar; 1978. 15.Jodelet, D. Les representaciones sociales. Paris: Presses Universitales de France ; 1989. 16.Jodelet, D. Les representaciones sociales. Paris: Presses Universitales de France ; 2002. 17.Jodelet, D. La representación social: fenómenos, concepto y teoría. In: Moscovici S. Psicologia Social. Barcelona: Paidós; 1985. p. 469-94. 18.Jodelet, D. La representación social: fenómenos, concepto y teoría. In: Moscovici S. Psicologia Social. Barcelona: Paidós; 2002. 19.Lefèvre, F; Lefèvre, AMC; Teixeira, JJV. O Discurso do Sujeito Coletivo. São Paulo: EDUCS; 2000. 20.Lefèvre, F; Lefèvre, AMC. Uma proposta de processamento de dados em pesquisa qualitativa. São Paulo, 2002. 21.Lefèvre, F; Lefèvre, AMC. DSC: uma proposta de processamento de dados em pesquisa qualitativa. São Paulo: EDUCS; 2005. 22. Sá, A. O que é pesquisa qualitativa? [online] 2002. Disponível em: URL: http://www.genesis.puc.rio.br/rartigos_00 1.html [2002 dez.1]. 23.Brasil. Ministério da Previdência e Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 Assistência Social. Plano de Ação Governamental Integrado para o desenvolvimento da Política Nacional do Idoso. Brasília (DF); 1996. 24.Polit, DF; Beck, CT; Hungler, BP. Fundamentos de pesquisa em enfermagem. Porto Alegre: Artmed; 2004. 25.Khan, RL. Brief objective measures for the determination of mental status in the aged. Am J Psychyatric 1960; 117(1):3268. 26.Veras, RP. País jovem com cabelos brancos: a saúde do idoso no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dunará; 1994. 27.Minayo, MCS; Deslandes, SF; Cruz Neto, O; Gomes, I. Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. 17 ed. Petrópolis: VOZES; 2007. 28.Triviños, ANS. Introdução à pesquisa em ciências sociais. 2ed. São Paulo: Atlas; 2008. 29.Ferrari, MAC. O envelhecer no Brasil. Mundo Saúde 1999; 23(4):197-203. 30.Goldstein, LL; Siqueira, MEC. Heterogeneidade e diversidade nas experiências de velhice. In: Neri AL, Freire SA, organizadoras. E por falar em velhice. Campinas: Papirus; 2000. p.113-24. 31. Papaléo Neto, M. Introdução ao estudo do envelhecimento e da velhice. In: Freitas EV, organizadora. Tratado de geriatria e gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2006. p.2-12. 32.Zimermam, GI. Velhice: aspectos biopsicossociais. Porto Alegre: Artes Médicas; 2004. p. 19-85. 33.Neri, AL. Qualidade de vida e idade madura. Campinas: Papirus; 2002. p. 9-55. 34.Ramos, LR; Saad, PM. Morbidade da população idosa. In: Fundação SEADE. O idoso na Grande São Paulo. São Paulo: SEADE; 1990. p. 161-72. Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 243 244 Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010 14 ENENT Temas Livres e Posters Inscrições até o dia 18 de Junho Maiores informações: www.anent.gov.br Realização Patrocínio BRASIL Apoio Institucional