T
25
Jul\Ago.
Doenças Crônicas - BRASIL
Profª Drª Míria Conceição Lavinas Santos-Enfermagem na Promoção da Saúde,Oncologia-UFC/CE-BRASIL
Profª Drª Sonia Regina Leite de Almeida Prado-Especialista em Saúde Pública,Saúde da Criança e Ensino-UNISA/SP-BRASIL
Prof. Dr. Francisco Stélio de Souza-Enfermagem na Promoção à Saúde ,Saúde da Mulher-UEPB/PB-BRASIL
Recenf
111-117
Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos,
Rogéria Maria do Nascimento.
118-124
Teresa Cristina Prochet, Maria Julia Paes da Silva.
Saúde Coletiva
125-134
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernan- des Carvalho.
135-143
A família como suporte para o enfrentamento do câncer de mama
The family as a support for the confrontation of breast cancer
Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares.
144-150
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda,
Amanda Gleice Fernandes Carvalho.
Abenfo
151-159
Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda.
160-168
169-176
111
244
Urgência, Emergência e Terapia intensiva
177-186
187-195
Anent
196-202
Maíris Duarte Alarcão, Mariele Cambiriba, Maria Antonia Ramos Costa.
203-206
Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza.
207-217
Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva,
Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi, Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros
Saúde do idoso
218-226
Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino.
227-242
José Vitor da Silva.
Os benefícios da visita pré-operatória de enfermagem para o
cliente cirúrgico: revisão sistemática de literatura
The benefits of preoperative visit nursing to surgical patients: a systematic review of literature
Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos,
Rogéria Maria do Nascimento. RECENF-Revista Técnico- Científica de Enfermagem-2010-v8-n25;(105-111).
Resumo
Este estudo tem como objetivo identificar os benefícios da visita pré-operatória de enfermagem para o
cliente que se submeterá à cirurgia. Trata-se de uma pesquisa exploratória, com abordagem qualitativa,
bibliográfica, realizada através de uma revisão sistemática na Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), nas bases de
dados do LILACS e BDENF, onde foram selecionadas 11 bibliografias potenciais, após a pré-leitura e leitura
seletiva, realizou-se ainda a leitura interpretativa e a análise temática. Resultados: emergiram duas categorias,
benefícios da visita pré-operatório de enfermagem, e cuidados pré-operatórios de enfermagem ao paciente
cirúrgico. Conclui-se que a visita pré-operatória é relevante e envolve a influência mútua e o processo de
comunicação e confiança entre o enfermeiro e o paciente, além de ajudar na adaptação do cliente cirúrgico ao
ambiente hospitalar, amenizando seus medos e ansiedades fazendo com que o mesmo aceite melhor e enfrente o
problema, proporcionando uma cirurgia tranquila e uma boa recuperação.
Descritores: Enfermagem pré-operatória, cuidados de enfermagem.
Abstract
This study aims to identify the benefits of preoperative evaluation of nursing for the customer who will
undergo surgery. This is an exploratory research with a qualitative approach, literature, accomplished through a
systematic review of the Virtual Health Library (VHL) in the databases LILACS and BDENF, where 11 were
selected bibliographies potential after pre-reading and selective reading, there was still reading and
interpretative thematic analysis. Results: Two categories emerged, the benefits seen preoperative nursing care
and preoperative nursing the surgical patient. We conclude that the preoperative visit is important and involves
the mutual influences and the process of communication and trust between nurse and patient, and help in
adapting the surgery patients to the hospital environment, easing their fears and anxieties by making the same
accepted best and face the problem, providing a smooth surgery and a good recovery.
Descriptors: Preoperative care, nursing .
Luciana Roberto de Souza. Acadêmica do 8º período do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Iguaçu (UNIG),
Nova Iguaçu/RJ. E-mail: [email protected]
Maria Aparecida Guerreiro de Souza. Acadêmica do 8º período do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Iguaçu
(UNIG), Nova Iguaçu/RJ.
Adriana da Silva Pinto. Acadêmica do 8º período do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Iguaçu (UNIG), Nova
Iguaçu/RJ. E-mail: [email protected]
Elaine Antunes Cortez. Enfermeira, Doutora em enfermagem (EEAN/ UFRJ), Professora orientadora da disciplina TCC (UNIG).
E-mail: [email protected]
Thalita Gomes do Carmos. Enfermeira Mestranda em enfermagem (EEAAC/ UFF), especialista em cardiologia pela Universidade
Federal do Estado do Rio de Janeiro no Instituto Nacional de Cardiologia (INC). E-mail: [email protected]
Rogéria Maria do Nascimento. Enfermeira, Coordenadora do curso de graduação em enfermagem da Universidade Iguaçu.
E-mail: [email protected]
111
Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos, Rogéria Maria do Nascimento.
Introdução
A presente pesquisa tem como objeto os benefícios obtidos com a visita pré-operatória de enfermagem
para o cliente submetido à cirurgia.
O interesse pelo estudo ocorreu durante o estagio do 7º período no
Hospital Geral de Nova Iguaçu, onde vários pacientes aguardavam cirurgia sem data prevista, e apresentavam seus fatores fisiológicos e
psicológicos alterados. Com isso,
notamos a possibilidade do profissional enfermeiro realizar a visita
pré-operatória como instrumento
amenizador do medo e da ansiedade que estes pacientes apresentam
frente à cirurgia, ajudando-o a perceber melhor sua doença, bem como os aspectos emocionais que
acontecem junto com a doença, tais
como, ansiedade, medo, fantasias,
mitos, enfim, fazer com que o paciente aceite melhor seu estado de doença e encare o problema.
A pessoa que será submetida a uma cirurgia, apresenta diversos temores que podem alterar o
seu equilíbrio. Um contato com profissionais de saúde, dentre eles,
com enfermeiro, possivelmente poderá ajudar essa pessoa no sentido
de fornecer-lhe informações e diminuir sua insegurança, conforme foi
constatado por vários autores (1).
Dessa forma, faz se necessário manter um contato prévio
com o paciente que irá se submeter
a uma cirurgia, por representar um
momento de grande importância,
onde lhe será conferido explicações sobre os procedimentos que
acontecerão e suas duvidas retiradas, a fim de minimizar seus temores, sua insegurança, e a apreensão
por ele sentida.
A visita pré-operatória de
enfermagem ajuda no ajustamento
do paciente ao ambiente hospitalar
e fornece informações e orientações no intuito de amenizar a ten-
112
são frente à notícia de cirurgia e
vem sendo realizada no Brasil desde 1975, data em que surge a primeira divulgação formal a respeito
(2).
Para o cliente, o período denominado pré-operatório é de vital
importância em nível biopsicossócioespiritual, desencadeando a ansiedade, os temores (da cirurgia, da
dor, de não voltar da anestesia, da
morte) e o medo do desconhecido
em geral (1).
Nesse período a assistência de enfermagem se faz extremamente importante, com o objetivo
de preparar o físico e principalmente o emocional do paciente, preocupando-se com seu eu e com o que
ocorrerá com seu corpo (1).
O fator psicológico pode
ajudar o paciente a perceber melhor
sua doença, lidar com os aspectos
emocionais que acontecem junto
com a doença, como ansiedade, medo, fantasias, mitos, enfim, fazer
com que o paciente aceite melhor o
que acontece com ele e encare o problema.
Destaca-se ainda que, todo
ser humano tem medo do desconhecido, pois o que é desconhecido
gera medo e insegurança, podendo
ser indefinível, imprevisível e incontrolável.
Os clientes são estimulados a expressar seus sentimentos e
temores e, através do diálogo, que
são fornecidos esclarecimentos de
dúvidas sobre o processo cirúrgico.
Assim o enfermeiro deve encorajar
a verbalização, deve ouvir ser compreensivo e prestar informações
que ajudem a dissolver as preocupações.
Ressalta-se ainda que quando o enfermeiro chega a compreender o que está acontecendo entre ele
e o paciente, pode-se dizer que atingiu a essência da prática de enfermagem (3).
O problema de pesquisa
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
consiste em responder a questão:
quais são os aspectos da visita préoperatória de enfermagem que podem beneficiar os clientes que se
submeterão à cirurgia?
O objetivo proposto é identificar os benefícios da visita préoperatória de enfermagem para o
cliente que se submeterá à cirurgia.
Como contribuição, o assunto proporciona um melhor entendimento
do real motivo de se realizar a visita
pré-operatória fazendo com que os
enfermeiros reflitam sobre a sua
prática profissional, podendo, dessa forma, buscar instrumentos que
contribua para uma assistência humanizada e integral. Oferecer aos
clientes um adequado preparo emocional, que vá além da fase préoperatória, propiciando sua participação no autocuidado póscirúrgica, além de demonstrar aos
acadêmicos o conhecimento dessa
temática.
Metodologia
Trata-se de um estudo exploratório. Quanto à definição de
pesquisa exploratória, ela é aquela
que tem como objetivo fornecer maior interação com o problema, com
o intuito de torná-lo mais explícito
e levantar hipóteses (4).
Estabelecemos a abordagem qualitativa, pois esta trabalha
com o universo dos significados,
dos motivos, das aspirações, das
crenças, dos valores e das atitudes,
enfatizando a importância das relações que se determinará durante a
realização do estudo (5). Os dados
qualitativos consistem em descrições detalhadas de situações com
que o objetivo de compreender os
indivíduos em seus próprios termos. Isto é, podemos dizer que as
pesquisas qualitativas visam entender o ser humano na sua essência e
acima disso trazer a pesquisa riqueza de detalhes sobre este que
Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos, Rogéria Maria do Nascimento.
possam muitas vezes responder aos
problemas levantados (6).
Foi realizada uma revisão
de literatura, nos bancos de dados e
do LILACS e BDenf, onde foram
selecionadas pesquisas que se encaixavam nos critérios de inclusão,
que foram: publicações em português e dos últimos 10 anos.
Os descritores utilizados
para a coleta dos dados foram:
Enfermagem pré-operatória e cuidados pré-operatórios.
Na intenção de organizar
os materiais coletados, iniciou-se a
coleta dos dados com os descritores
individualmente, vide quadro 1.
Resultados e análise
Benefícios da visita pré-operatória de enfermagem
Nessa categoria, estão inseridos 4 (quatro) produções científicas, 3 (três) artigos e 1 (uma) dissertação de mestrado, que abordam os benefícios da visita
pré- operatória de enfermagem, que podem ser visualizados no quadro 3
(três).
BASE DE DADOS/
AUTORES
Baggio;
Teixeira & Portella
ANO
2001
Bachion; Magalhães;
Munari, Almeida & 2004
Lima8
Schmitt. 9
2004
Quadro 1 - Distribuição quantitativa das bibliografias encontradas
Após a coleta dos dados inicial realizou-se uma nova busca associando os descritores em dupla e
desse resultado, foi feita a préleitura com intuito de obter uma visão sobre os assuntos encontrados,
e a leitura seletiva, cujo objetivo foi
selecionar pesquisas de acordo
com o nosso estudo. Dessa forma,
excluiu-se as pesquisas que não se
enquadravam nos critérios de inclusão e os repetidos, e a bibliografia potencial escolhida foi de 11 produções científicas, que pode ser visualizada no quadro 2 (dois).
13
16 29
Bibliografia
selecionada
Quadro 2 - Distribuição quantitativa das bibliografias encontradas na BVS
através dos descritores associados e selecionados
Distribuição quantitativa
das bibliografias encontradas na
BVS através dos descritores associados e selecionados
Pré-operatório do paciente cirúrgico
BDENF
cardíaco: a orientação de
Rev. gaúch. enferm;
enfermagem fazendo a diferença
22(1):122-139,
BDENF
Acta paul. enferm;
17(3): 298-304,
BDENF
Rev. SOBESC;
na BVS através dos descritores isolados.
TÍTULO
REVISTA/VOLUME/Nº
Identificação do medo no período
pré-operatório de cirurgia cardíaca
Cirurgia da obesidade mórbida:
atuação da enfermeira em uma
equipe multidisciplinar
9(4):15-18
Souza 10
BDENF
2004
Dissertação
Curitiba
Sentimentos e percepções do
cliente no pré-operatório de cirurgia
cardíaca
Quadro 3 - Distribuição das bibliografias potenciais da categoria temática “Benefícios da visita pré-operatória de enfermagem.”
O primeiro estudo (7) foi realizado em Unidade Cardiológica de um
hospital universitário com o objetivo de identificar a percepção do paciente
cirúrgico cardíaco acerca das orientações pré-operatórias fornecidas pela enfermagem. A orientação pré-operatória, em especial neste estudo, atendeu às
necessidades do paciente no período pré-operatório, sejam elas psicológicas
ou científicas, e contribuiu para uma melhor e mais rápida recuperação pósoperatória. A orientação permitiu o esclarecimento e a clarificação do evento aos indivíduos nele envolvidos diretamente. Durante a visita préoperatória, ficou estabelecida a humanização, caracterizada pela interação
enfermeira/paciente, com o que ocorreu a aceitação fundamentada na atenção, confiança e apoio entre esses seres, observando o resultado positivo do
processo estabelecido entre a enfermeira e o paciente.
O segundo estudo (8) desta categoria teve como objetivo estudar o
"medo" no período pré-operatório de cirurgia cardíaca foi realizado em hospital especializado em cirurgias cardíacas e mostrou que a incidência desse
diagnóstico sinaliza a necessidade de elaboração de protocolo de intervenções específicas para esse grupo, ressaltando a importância do enfermeiro esta ambientado com as reações emocionais que afetam os clientes no período
pré-operatório de um modo geral.
O terceiro estudo (9) é um relato de experiência de uma enfermeira
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
113
Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos, Rogéria Maria do Nascimento.
na cirurgia da obesidade mórbida
no Centro da Obesidade Mórbida,
considerando assistência da
Enfermagem ao paciente obeso cirúrgico envolvendo técnicas e procedimentos não apenas durante a
operação, mas também nos períodos pré e pós-operatório.
Objetivando destacar a relevância
do papel da Enfermagem, chamando a atenção dos profissionais da
área para esse novo campo de atuação, propondo a necessidade de
compreendê-lo como um paciente
diferenciado, devido às peculiaridades que apresenta.
O quarto estudo (10) objetivou identificar sentimentos e as
percepções do corpo enfermo que
se encontra em pré-operatório de cirurgia cardíaca. Trata-se de uma
pesquisa qualitativa, realizada no
Hospital de Clínicas da
Universidade Federal do Paraná, e
que conta com a participação de 11
sujeitos em pré-operatório de cirurgia cardíaca e são colocados todos
os seus medos e ansiedades.
Afirmando a importância e a necessidade de interação entre a enfermeira e o corpo enfermo na situação pré-operatório, tendo em vista
a promoção do seu bem-estar.
Resumindo essa categoria,
fica evidente que esta atividade é de
relevante interesse para a
Enfermagem, propondo em sua prática assistencial sistematizada, reflexões sobre uma contribuição efetiva, compreendendo-a como um
ser existencial.
Destaca-se que, na formação profissional do enfermeiro muitas vezes não é discutida a importância de se gerar a interação e o relacionamento com os pacientes no
pré-operatório ou até mesmo muitos enfermeiros desconhecem as estratégias de comunicação terapêutica, mesmo que já tenham tido contato com elas na formação acadêmica. Visto que o enfermeiro exer-
114
ce um papel como veículo de orientação, espera-se que o mesmo atue,
aconselhando rotineiramente sobre
os devidos cuidados àquele paciente que se encontra nos períodos pré
e pós-operatório sendo imprescindível se ter uma visão holística e humanizada, pois a doença e o processo cirúrgico trazem à tona seus medos e limitações, tornando-as extremamente vulneráveis ao se afastarem do ambiente familiar e de suas
atividades cotidianas.
Ressaltamos a importância
da enfermagem pré-operatória para
o paciente cirúrgico, a fim de identificar o grau de ansiedade do paciente, verificando a presença de alterações emocionais decorrentes do
anúncio do diagnóstico cirúrgico e
avaliação das condições físicas e fisiológicas do paciente. A desvalorização da visita pré-operatória como um método usado para levantar
e avaliar as necessidades individuais do paciente cirúrgico impede
um bom relacionamento terapêutico. Dificultando o planejamento de
uma assistência integral, individualizada, documentada e contínua
em todo o período pré-operatório,
contribuindo para o aumento dos
riscos cirúrgicos que o paciente está exposto.
Para discutir essa categoria
sobreleva salientar que é de suma
importância que o enfermeiro aprimore seus conhecimentos e execute a visita pré-operatória, criando estímulos e estratégias que possibilitem uma maior compreensão das dificuldades enfrentadas pelo paciente submetido a um procedimento cirúrgico. Pois durante esse período a
assistência de enfermagem é muito
importante e concentra intervenções destinadas a prevenir ou tratar
complicações futuras. Pois por menor que seja o procedimento cirúrgico, o risco de complicações sempre estará presente. A prevenção
destas promove rápida convales-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
cença, evita infecções hospitalares,
poupa tempo, reduz gastos, preocupações, ameniza a dor e aumenta a
sobrevida do paciente (11).
Outro destaque é a efetivação da consulta de enfermagem antes e após a cirurgia. A consulta de
enfermagem é uma atividade exercida pelo enfermeiro, na qual está
amparada na lei do exercício profissional n.º7.498/86, no seu art.11,
inciso I, alínea i, como privativa e é
efetivada na prática desses profissionais que nela acredita (12).
A consulta de enfermagem
tem sua origem na pós-consulta realizada pela enfermeira aos clientes
atendidos em programas de saúde
governamentais e sua implantação
ocorreu ao longo do desenvolvimento histórico da enfermagem, e
surgiu com a resolução n.º 159/92
do COFEn (Conselho Federal de
Enfermagem) que dita as normas e
requisitos para operacionalização
da consulta de enfermagem (13).
No que diz respeito à consulta de enfermagem préoperatória, chamada de visita préoperatória de enfermagem, podemos defini-la como etapa préoperatória realizada pela avaliação
dos dados obtidos durante a entrevista com o paciente a ser operado e
pela consulta da ficha préoperatória de enfermagem, prontuário do paciente, por meio do enfermeiro da unidade de internação e
familiares do paciente (11).
A visita pré-operatória de
enfermagem é realizada no Brasil
desde 1975, data em que surge a primeira divulgação formal a respeito.
Destaca-se que, para o paciente, o
período denominado préoperatório é de vital importância
em nível/dimensões biopsicossócioespiritual, pois desencadeia a ansiedade, os temores (da cirurgia, da
dor, de não voltar da anestesia, da
morte) e o medo do desconhecido
em geral. Assim, nesse período, a
Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos, Rogéria Maria do Nascime.nto.
assistência de enfermagem se faz extremamente importante, pois esta tem
como objetivo, preparar o indivíduo nas dimensões supracitas, de forma a
preocupar-se com seu “eu”, do paciente, e com o que ocorrerá com seu corpo
(14).
Cuidados pré-operatórios de enfermagem ao paciente cirúrgico
Nessa categoria, estão inseridas 7 (sete) produções científicas, sendo todas artigos, que abordam os fatores relacionados com os cuidados préoperatórios, conforme o quadro 4 (quatro) delineado abaixo.
ANO
Base de Dados/
Revista/Volume/nº
TÍTULOS
Jansen; Silva;
Novello;Guimarães &
Silvia. 15
2000
LILACS
Rev. SOCERJ;
13(1):22-29
Assistência de enfermagem à
criança portadora de cardiopatia
Santos; Cassapula &
Hellberger 16
2000
LILACS
Cogitare enferm;
5(n.esp):61-65
Programa de orientação préopetória em cirurgia pediátrica:
relato de experiência
Mendonça; Valadão;
Castro & Camargo.17
2007
LILACS
Rev. bras. cancerol;
53(4):431-435
A importância da consulta de
enfermagem em pré-operatório
de ostomias intestinais
Poltronieri Neto;
teixeira &
Barbosa.18
2008
LILASCS
Mundo saúde
32(1):107-110
Elaboração de um instrumento
para o preparo pré-operatório em
cirurgia cardíacas.
Lopes; Pompeo;
Canini & Rossi.19
LILASCS
Diagnósticos de enfermagem de
2009 Rev. latinoan. enferm;
pacientes em período pré17(1):66-73
operatório de cirurgia esofágica
AUTORES
Cristóforo &
Carvalho29
Grasel; Bretano &
Caregnato 21
2009
LILASCS
Rev. Esc. Enferm.
USP; 43(1),.
Cuidados de enfermagem
realizados ao paciente cirúrgico
no período pré-operatório
2009
LILASCS
Rev. SOBECC;
14(2):28-35
Ansiedade e medo: diagnóstico
de enfermagem aplicado no préoperatório do paciente cardíaco.
Quadro 4 - Distribuição das bibliografias potenciais da categoria temática “Cuidados pré-operatórios de enfermagem ao paciente cirúrgico”.
O primeiro estudo (15) é uma revisão bibliográfica com enfoque para a sistematização da assistência de enfermagem no pré-operatório, buscando mostrar que o roteiro sistematizado da assistência de enfermagem orienta
a equipe à prevenção e diagnóstico precoce das complicações favorecendo a
recuperação precoce da criança e, consequentemente, diminuindo o tempo
de permanência no ambiente hospitalar.
O segundo estudo (16) é
um relato de a experiência de enfermeiras no Programa de Orientação
Pré-operatória em hospital universitário descrevendo a importância
da orientação pré-operatória para
os pais e para a criança, nesse momento crítico.
O terceiro estudo (17) é
uma pesquisa bibliográfica, que
descreve os aspectos a ser abordado para se atingir um cuidado integral e humanizada, e a importância
da consulta de enfermagem no préoperatório de ostomias, no sentido
de possibilitar ao paciente melhor
aceitação da cirurgia e estimular o
autocuidado e prevenir complicações comuns no local de inserção
da ostomia.
O quarto estudo (18) é um
estudo de revisão de literatura utilizando livros-texto e publicações indexadas nas bases de dados
MEDLINE, LILACS e SCIELO,
onde foi construído um instrumento para preparo do cliente em cirurgia de revascularização do miocárdio e confeccionado um manual para o preenchimento do instrumento
citado.
O quinto estudo (19) é um
estudo realizado em 20 pacientes internados no Hospital das Clínicas
da Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto - Brasil para serem
submetidos à cirurgia esofágica.
Onde foram identificados os diagnósticos com frequência superior a
50%,e analisados considerando-se
os fatores relacionados, as características definidoras ou fatores de risco, de acordo com o tipo de diagnóstico, e as respostas à patologia
esofágica.
O sexto estudo (20) é um estudo descritivo transversal, com
abordagem quantitativa, realizado
em unidades cirúrgicas de dois hospitais do município de Ponta
Grossa, que objetivou caracterizar
os cuidados de enfermagem presta-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
115
Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos, Rogéria Maria do Nascimento.
dos a pacientes em período préoperatório de cirurgias eletivas.
Este estudo permitiu que se identificassem fragilidades no cuidado
do paciente cirúrgico, no sentido de
contribuir para a reflexão sobre a necessidade de mudança nas práticas
da enfermagem no ambiente hospitalar.
O sétimo estudo (21) é uma
pesquisa exploratória descritiva
com abordagem quantitativa, realizada com 20 pacientes no préoperatório de cirurgia cardíaca que
responderam a um questionário
com perguntas construídas através
das características definidoras e
fatores relacionados dos diagnósticos de Enfermagem Ansiedade e
Medo e o objetivo deste estudo foi
conhecer as evidências apresentadas pelos pacientes no préoperatório de cirurgia cardíaca relacionadas aos Diagnósticos de
Enfermagem Ansiedade e Medo.
Sintetizando essa categoria, fica evidente a importância dos
cuidados pré-operatórios, pois permite o levantamento e avaliação
das necessidades individuais do paciente cirúrgico. Viabilizando o planejamento de uma assistência integral, individualizada, documentada
e contínua em todo o período préoperatório, diminuindo os riscos cirúrgicos aos quais o paciente está
exposto e conseqüentemente melhorando a qualidade da assistência
de enfermagem.
Destaca-se ainda que os cuidados pré-operatórios além dos benefícios para o paciente oferecem
ao enfermeiro a oportunidade de
uma atuação mais direta com o paciente cirúrgico, proporcionando a realização do planejamento de uma
assistência continua e orientada e
proporcionando à enfermagem um
melhor reconhecimento da profissão, motivando ainda mais o trabalho do enfermeiro do Centro
Cirúrgico.
116
Para discutir essa categoria
com base no respeito à pessoa humana, percebe-se a necessidade iminente de melhorar a abordagem à
pessoa enferma, na tentativa de diminuir o conflito vivenciado pelos
pacientes ao se submeterem a certos tipos de cirurgias, e o medo de
morrer ou ficar com alguma deficiência física.
É necessário, portanto, que
os membros da equipe de saúde,
particularmente o enfermeiro, desempenhem suas atividades junto
ao paciente com mais humanidade,
interessando-se por ele como pessoa, por seu estado, sua evolução,
esforçando-se para ajudá-lo no tratamento e recuperação (22).
Na prática, são realizados
ações planejadas para preencher as
necessidades identificadas, na expectativa de que o enfermeiro considere todos os efeitos possíveis da
ação sobre o paciente, preocupando-se com a eficácia dessa para obter a solução da necessidade de ajuda (23).
É um direito do paciente,
estar informado sobre sua situação
e sobre o procedimento a que será
submetido. O paciente também deve estar ciente de que pode solicitar
analgésico e não achar que sentir
dor é normal, cabendo à equipe de
enfermagem prestar assistência,
responder aos chamados e manter o
paciente consciente de tudo que será realizado, estimulando o exercício da cidadania (24).
Os cuidados préoperatórios realizados estão voltados principalmente ao preparo físico do paciente, com pouca orientação quanto ao procedimento cirúrgico e aos cuidados efetuados. Fazse necessário instigar reflexões, sensibilizar ou influenciar ideias, hábitos maneira de agir e pensar dos profissionais de enfermagem para a necessidade de reconstruir novas prática no cuidado pré-operatório,
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
bem como sua instituição, para que
melhorias ocorram em favor dos pacientes, reservando-lhes o direito
de ser atendido de acordo com suas
necessidades, recebendo uma assistência de enfermagem de qualidade.
Em uma prática assistencial realizada, com paciente no período pré-operatório, verificou-se que
os cuidados pré-operatórios tornaram o momento cirúrgico, mas tranquilo, o que repercutiu numa boa recuperação do paciente isso mostra
o quanto o papel do enfermeiro e importante no sentido de prevenir e minimizar os estressores do processo
cirúrgico (25).
Conclusão
O presente estudo buscou
identificar e analisar através de revisão sistemática de literatura os benefícios da visita pré-operatória de
enfermagem para os clientes que
irão se submeter à cirurgia. Desse
modo, compreendeu-se que a visita
pré-operatória é relevante e envolve a influência mutua e o processo
de comunicação e confiança entre o
enfermeiro e o paciente e deve ser
encorajada e ensinada durante o período acadêmico e não menos importante durante a vida profissional. Pois muitos profissionais da enfermagem não exercitam a visita
pré-operatória de maneira adequada e específica, com cuidados realmente válidos para a cirurgia proposta, praticando apenas regras impostas pelas instituições ou prescritas em prontuários por médicos.
Conclui-se que o período
que antecede a internação apesar de
ser curto, é ideal para orientação e
esclarecimento quanto a dúvidas
em relação à cirurgia, e o enfermeiro tem obrigação legal e moral para
fazê-las de forma clara, diagnosticando alterações emocionais e fisiológicas, e tomando medidas inter-
Luciana Roberto de Souza, Maria Aparecida Guerreiro de Souza, Adriana da Silva Pinto,Elaine Antunes Cortez, Thalita Gomes do Carmos, Rogéria Maria do Nascimento.
ventivas adequadas, realizando cuidados e procedimentos, ajudando
na adaptação do paciente ao ambiente hospitalar, amenizando seus
medos e ansiedade fazendo com
que o paciente aceite melhor o que
acontece com ele e enfrente o problema, proporcionando uma cirurgia tranquila e uma boa recuperação. Diminuindo assim as chances
de complicações em todas as fases
de internação do paciente.
Referências
1.Bianchi, ERF; Castellanos, BEP.
Considerações sobre a visita préoperatóriado enfermeiro da unidade de centro cirúrgico: resenha da literatura estrangeira. Rev. paul. enferm. 1983; 5(3): 161-6.
2.Castelanos, BEP. Visita pré-operatória
do enfermeiro da unidade de centro cirúrgico: marcos referencial para seu ensino
no curso de graduação de enfermagem.
Rev. paul. enferm. 1984; 4(1): 10-14.
3.Orlando, IG. O relacionamento dinâmico enfermeiro/Paciente. São Paulo: EPV;
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Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
117
Competência comunicacional: o que é isso?
Communicational competence: What is this?
Competencia comunicacional: ¿ qué es esto?
Teresa Cristina Prochet, Maria Julia Paes da Silva. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n25; (112-118).
Resumo
O objetivo é revelar o entendimento sobre ser hábil e competente em comunicar-se com as pessoas. É
um estudo de campo, qualitativo, descritivo e exploratório desenvolvido no interior paulista com 117
graduandos e profissionais de saúde que participaram da capacitação em comunicação não-verbal em
gerontologia. As respostas foram ordenadas e analisadas, sendo construídas seis categorias, a saber:
habilidades centradas na atenção à necessidade, reação e compreensão do outro; habilidades centradas na
qualidade e facilidade da oratória pública; habilidades centradas na percepção do não-verbal e verbal;
habilidades centradas na maneira de lidar com o outro; habilidades centradas no contexto espacial e
temporal e habilidades centradas no conhecimento técnico. Ficou clara a interdependência comunicativa
presente nos discursos, revelando coerência com os pressupostos que defendem o quanto aprender a ser e
aprender a conviver são premissas essenciais na construção de um profissional de saúde competente.
Descritores: Comunicação, enfermagem, relação inter pessoal.
Abstract
The goal is to provide a better understanding on how one should be rendered able and competent while
communicating with others. The methodology is qualitative, descriptive, exploratory field work performed
in São Paulo State countryside by 117 undergraduate students and health professionals on non-verbal
capacity building in gerontology. The answers were organized, reviewed, and grouped in the following six
categories: abilities based on attention to needs, reacting to and understanding the other, abilities based on
public oratory quality and easiness, abilities based on verbal and non-verbal perception, abilities based on
time and space context perception, and abilities based on technical knowledge. The results showed that
there is a clear communicative interdependence in speech. This proved coherent with theoretical
fundamentals according to which one's learning how to be oneself and how to live with others are basic
assumptions while building a competent health professional.
Descriptors: Communication, nursing, interpersonal relationship.
118
Resumen
Objetivo: Rebelar la atención sobre ser hábil y competente en la comunicación con las personas. Resultados: Las respuestas fueron obtenidas y analizadas, siendo construidas 6 categorías, que son: habilidades
centradas en la atención a la necesidad, reacción y comprensión del otro; habilidades centradas en la calidad y facilidad de la oratoria pública, habilidades centradas en la percepción del no verbal y verbal; habilidades centradas en la forma como tratar con el otro; habilidades centradas en el contexto espacial y temporal y habilidades centradas en el conocimiento técnico. Conclusión: Quedó clara la independencia comunicativa presente en los discursos, rebelando coherencia con los presupuestos que defienden que el aprender a
ser y a convivir son premisas esenciales en la construcción de un profesional de salud competente.
Descriptores: Comunicacíon, Enferméria,
Relacionamiento Interpersonal
Teresa Cristina Prochet. Doutora em Ciências – Enfermagem na Saúde do Adulto pela Escola de Enfermagem da
Universidade de São Paulo - USP. Integrante do Grupo de Pesquisa e Estudo sobre Comunicação em Enfermagem do CNPq.
Docente Comissionada na Escola de Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. [email protected]
Maria Julia Paes da Silva. Professora Titular da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo e Coordenadora
do Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Comunicação em Enfermagem do CNPq. [email protected]
119
Teresa Cristina Prochet, Maria Julia Paes da Silva.
Introdução
Na última década, e em especial a partir do ano 2000, têm-se
verificado a crescente preocupação
dos gestores e dos usuários com a
humanização da atenção à saúde.
Por conta disso, muitos programas
específicos e pontuais até a Política
Nacional de Humanização, foram
desenvolvidos com o intuito de propor a melhorar a qualidade do cuidado oferecido aos usuários e trabalhadores do sistema de saúde.
Constantes movimentos,
encontros, reflexões e publicações
têm buscado colocar em cena a necessidade de se aprimorarem as habilidades comunicacionais, entre
vários outros aspectos, para se avançar em direção à melhor qualidade
dos serviços de saúde. Constata-se,
no entanto, a carência de discussões sobre o tema para atender a formação de profissionais de saúde
(1).
A preocupação com o ensino de habilidades de comunicação
no lidar com o cliente tem sido uma
realidade nos diversos cursos. Na
área da saúde, mais precisamente
na enfermagem, tem sido motivo
de preocupação, estudo e busca de
vários autores como Stefanelli (2),
Silva (3), Braga (4), dentre outros.
Compreende-se aqui por
habilidade em comunicação interpessoal como aquela que é desenvolvida em situações sociais relativamente informais em que pessoas,
em encontros face a face, sustentam uma interação concentrada por
meio da permuta recíproca de pistas verbais e não-verbais (5). Nessa
definição, incluem-se critérios,
com os quais a situação de cuidado
comunicacional em saúde encontra
correlação, são eles: existência de
duas ou mais pessoas em proximidade física e que percebam a presença uma da outra; "interdependência comunicativa" - uma pessoa
120
se comunica como consequência
da comunicação de outra; troca de
mensagens; compreensão das mensagens verbais e/ou não-verbais e
informalidade/flexibilidade (5).
Pode-se afirmar que relacionamento é um padrão de interação
entre duas pessoas, baseado em suas percepções recíprocas (6).
Esse recorte de estudo baseou-se nos pressupostos de que o ser
humano possui, simultaneamente,
duas dimensões para expressar suas necessidades ao mundo (3): a linguagem verbal (psicolinguística)
se refere às palavras ditas ou escritas; e não-verbal (psicobiológica),
aquelas associadas aos gestos, silêncios, expressões faciais, entonação e timbre da voz, toque, aparência física, condições ambientais,
posturas corporais, posição e distância corporal.
O conhecimento e o uso
dos recursos, técnicas e dimensões
comunicacionais sejam verbais ou
não-verbais subsidiam a construção da competência no cuidar pelo
profissional de saúde, pois a comunicação competente se expressa
quando o profissional permite vivenciá-la, ouve o outro, presta atenção no não-verbal, é capaz de eliminar barreiras de comunicação, demonstra afetividade, valida a compreensão das mensagens e está disposto a investir no autoconhecimento (4).
Quando o profissional de
saúde se conscientiza do valor da
comunicação e opta por desenvolvê-la de maneira consciente e respeita os conceitos e os pressupostos
envolvidos, consegue interferir na
sua própria prática cotidiana, conseqüentemente, influencia no alcance de cuidado efetivo a ser dado
ao cliente sob sua responsabilidade.
Mediante o exposto, sabese que estudar e desenvolver as habilidades comunicacionais favore-
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ce aos profissionais de saúde o exercício de suas atividades, alicerçado
não somente na valorização do assunto, mas sim em sua prática, visto
ser e requerer uma abordagem apropriada no mundo complexo dos quais as relações humanas se insere.
Objetivo
Revelar o entendimento sobre ser hábil e competente na comunicação interpessoal no discurso livre de profissional e graduandos da
área da saúde.
Material e método
Estudo qualitativo, de campo e exploratório desenvolvido no
interior paulista após aprovação do
Comitê de Ética em Pesquisa com
Seres Humanos (Processo
CEP/HRA n 167/2008) com 117
graduandos e profissionais de saúde que participaram da capacitação
em comunicação não-verbal em gerontologia (7).
A questão norteadora deste
estudo “O que para você é ser hábil
ou competente ao se comunicar
com as pessoas?” foi aplicada no
momento inicial do primeiro encontro, dentre três dos encontros realizados na capacitação (7).
O tratamento dos dados foi
realizado por meio da interpretação
dos 117 discursos, com base no método de análise de conteúdo. Esse
método é a aplicação de um conjunto de técnicas de análises das comunicações, que visa obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos
de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores que permitam a
inferência de conhecimentos relativos às percepções do cuidado, no
âmbito hospitalar (8).
Teresa Cristina Prochet, Maria Julia Paes da Silva.
Resultados e discussão dos dados
Foram submetidos à capacitação em comunicação nãoverbal em gerontologia 117 pessoas sendo: 71,8% (84) de profissionais de saúde e 28,2% (33) de graduandos na área da saúde.
Em relação ao gênero e a
idade 80,3% (94) eram mulheres
com idade média de 35,7 anos e
19,7% (23) homens com 29,6 anos
em média, de idade. A média geral
de idade dos participantes, independentemente do gênero, foi de
34,5 anos, tendo o mais novo 20
anos e o mais velho 59 anos.
Quando questionados sobre ser hábil ou competente ao comunicar-se com as pessoas, os participantes da pesquisa escreveram
alguns requisitos ou características
que reconheceram serem importantes. As respostas agrupadas permitiram a criação de seis categorias,
mas algumas foram pontuais como
“é saber ouvir, dar oportunidade
das pessoas participarem, se colocarem, exporem suas opiniões, baseado nisso ter amadurecimento de
conseguir fazer adaptações, se assim forem necessárias, usando bom
senso, conhecimento, postura corporal que revele segurança, entusiasmo e ainda, dar feedback daquilo
que foi colocado. Saber ouvir e saber falar com linguagem apropriada, e boa voz também são importantes para alcançar as metas e ajudar o grupo/pessoa no que for necessário” (E1). Outras respostas foram mais simples “é quando se é expressivo, educado e se consegue
passar bem o recado e o outro entende.” (E2), e ainda, umas não responderam objetivamente o questionado como: “é fazer tudo.” (E3)
Uma resposta ampla remete à possibilidade de inferirmos que
o participante não soube nominar
ou classificar adequadamente ao solicitado. Defendemos a premissa
que o conhecimento, sem sombra
de dúvida, é uma ferramenta importante na construção da competência comunicacional, mas isso
não garante uma intervenção assistencial competente, pois essa requer a habilidade e a coragem para
criar e inovar, que associadas às habilidades cognitivas e comportamentais, alicerça o saber-fazer do
profissional de saúde no cuidar
com responsabilidade. O que é corroborado por autores que estudam
o assunto (3,4).
As respostas dos participantes foram ordenadas e analisadas, sendo construídas seis categorias, a saber: habilidades centradas
na atenção às necessidades, reação
e compreensão do outro; habilidades centradas na qualidade e facilidade da oratória pública; habilidades centradas na percepção do nãoverbal e verbal; habilidades centradas na maneira de lidar com o outro; habilidades centradas no contexto espacial e temporal e habilidades centradas no conhecimento
técnico.
A primeira categoria citada, habilidades centradas na atenção às necessidades, reação e compreensão do outro (47,8%), agregou os discursos cujo destaque foi
dado ao atender às expectativas e
necessidades do outro, observar as
reações do ouvinte como estratégia
de saber se está sendo eficaz; saber
ouvir, valorizar a interação pessoal
como momento terapêutico; usar o
feedback como avaliação e continuidade da comunicação e para detectar se o outro entendeu, captou e
compreendeu a mensagem transmitida.
“É quando eu vejo o idoso
e percebo as limitações e as necessidades dele, atendo-o valorizando
o que ele de fato precisa e requer,
ouço o que me pede”(E4)
“É competente o profissional que valoriza a compreensão do
outro, isto é, pede o retorno do que
foi dito, verifica o entendimento da
comunicação.” (E5)
Braga (4) enfatiza que as
habilidades centradas na atenção e
compreensão do outro exigem que
o profissional de saúde agregue
perspicácia e vigilância no ser cuidado, observe as necessidades e as
valorize, e verifique as condições
sociais e culturais do outro que interferem no cuidado imediato e no
seu planejamento pós-hospitalar,
se for o caso. Sendo assim, pode-se
afirmar que o grupo de respostas
dessa categoria contemplou a importância que deva ser dada, pelo
profissional, na atenção às necessidades do cliente.
Já na segunda, habilidades
centradas na qualidade e facilidade
da oratória pública (29,1%) reuniram aqueles discursos voltados à
clareza da explanação da mensagem, uso de exemplos, explicação
com objetividade e simplicidade,
como também a facilidade de se expor em público, tomar iniciativa e
ser extrovertido.
“Falar claramente ou expor suas ideias com clareza, objetividade, dando exemplos para facilitar o entendimento.” (E7)
“Quando o indivíduo se expressa bem, sabe ser dinâmico, simples na frente das pessoas, não tem
vergonha.” (E8)
Esses resultados reforçam
que a área da saúde lida com diferentes questões importantes e oriundas do processo de cuidar, dentre
elas destaca-se a de ordem oral do
profissional, que exige dele a aplicação de linguagem apropriada ao
contexto, o uso de exemplificações
e a atenção a ser dada na clareza e
objetividade das mensagens. Essas
considerações devem ser valorizadas no cotidiano dos profissionais
de saúde e quando são usadas ade-
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121
Teresa Cristina Prochet, Maria Julia Paes da Silva.
quadamente são capazes de colaborar para o alcance do bem-estar das
pessoas e vai ao encontro dos autores como Silva (4) e Alberecht (9).
A categoria habilidades
centradas na percepção do nãoverbal e verbal (12,8%) reuniu os
discursos que continham direta ou
indiretamente menções sobre a qualidade e entonação da voz, o uso intencional da postura corporal, com
destaque na forma de olhar e de expressões faciais que possam revelar
segurança, confiança, simpatia do
locutor principal e, ainda, a utilização da linguagem apropriada que
valorizasse as condições social e
cultural do outro. Exemplos:
“Quando se fala bem, de
forma que a outra entenda, por isso
o tom da voz é importante, como a
expressão facial e corporal também é...”. (E9)
“Olhar no rosto das pessoas, dando toda atenção que se merece, sendo educado, simpático e carinhoso.” (E10)
Isso exposto ressalta-se
que a comunicação não-verbal fala
da essência do indivíduo, de suas
emoções e pensamentos. O desvendar da sua natureza potencializa a
comunicação do profissional com o
cliente e equipe (10) e isso precisa
ser um foco de atenção no cotidiano
dos serviços de saúde.
Os resultados estão em concordância com a afirmativa de que
é por meio do corpo, dos seus gestos, de sua aparência, dos seus movimentos que o homem se comunica
com os outros, e esse rol pode, em
determinado contexto, realizar movimentos ambíguos, ou seja, de
aproximação ou de afastamento,
uma vez que é por meio do corpo
que vemos e percebemos, somos
vistos e percebidos (11).
A quinta categoria, habilidades centradas na maneira de lidar
com o outro (12,0%), agrupou valor atribuído às qualidades de per-
122
sonalidade, como ser calmo, atencioso, simpático, compreensivo,
atencioso, interessado, sincero, afetuoso, carinhoso, respeitoso e educado ao comunicar-se com as pessoas. Eis os exemplos:
“É falar a linguagem da
pessoa com quem você está se comunicando, também sabendo falar
de maneira que ela entenda e a
transmissão aconteça.” (E11)
“Ser simpático e ter compreensão.” (E12)
“É preciso ser educado, paciente, saber ouvir a outra com jeito bom.” (E13)
Cabe aqui ressaltar que o
uso de padrões verbais que suscitam empatia, atenção e carinho interferindo no impacto da notícia e
no valor a ser dado pela mensagem
transmitida. A clareza das ideias facilita a consciência dos fenômenos
cognitivos e emotivos da linguagem, o que envolve a habilidade de
monitorar o uso dos padrões de linguagem próprios e alheios e de evitar jargões técnicos que causam
mal entendidos, conflitos e desajustes, desfocando a meta comunicacional (9).
Littlejohn (12) enfatiza como que as funções da teoria da comunicação podem se distinguir em
relação ao âmbito teórico, estilo de
composição, diferenças de função e
na abordagem filosófica, mas juntas compõem o entendimento de como o comportamento humano e as
relações interpessoais podem ser influenciados pela forma que se reage
afetivamente com o outro e também pela situação na qual o outro se
encontra.
Os resultados, portanto,
confirmam o proposto por
Alberecht (9) quando defende o
pressuposto que desenvolver empatia com o cliente significa disposição do profissional em permitir
compartilhar sentimentos e criar
vínculos, que induz a conquista de
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benefícios práticos e a preservação
de relacionamento de qualidade. A
empatia, aliada à disponibilidade, à
atenção e ao interesse do profissional ao sujeito a ser cuidado por ele,
são consideradas condições básicas
para que a eficácia do processo comunicacional ocorra (3).
Habilidades centradas no
contexto espacial e temporal
(8,5%) foram a categoria temática
cujos discursos citaram a escolha
do lugar e o adequado uso do tempo
como facilitadores para o desenvolvimento, tanto do assunto, quanto do grupo. Os discursos a seguir
explicitam-na:
“Saber se expressar sem
ser cansativo, usando bem o tempo.” (E14)
“É ser uma pessoa que fala
bem, na hora e lugar certo, sem
pressa, mas com atenção.”(E15)
Aqui fica evidente o quanto que a escolha do ambiente para
estabelecer e manter a comunicação é um ponto, também, a ser atentado pelo profissional de saúde,
uma vez que a presença de ruídos,
ventilação e iluminação inadequada são quesitos que podem aproximar ou distanciar as pessoas, consequentemente, colaborar ou não
no processo de comunicação (3,6).
Finalmente, habilidades centradas
no conhecimento técnico (6,8%) englobaram os discursos que deram
valor ao domínio do assunto tratado. Eis um exemplo:
“É saber o que falar, entender e
transmitir sem se preocupar e sem
cansar o outro.” (E16)
A categoria com maior número
de discursos, habilidades centradas
na atenção às necessidades, reação
e compreensão do outro (47,8%),
reforça o que é encontrado na literatura (13), quando os autores afirmam ser fundamental, na ação comunicativa, a participação do assistido. Aparecer em grande número
essa preocupação nos profissionais
Teresa Cristina Prochet, Maria Julia Paes da Silva.
é positivo, pois o que se verifica,
muitas vezes, é a imposição do profissional por meio da concepção de
que o domínio de sua verdade sobressaia e isso acaba por coibir o outro de expor suas emoções e opiniões, logo atentar-se a essa possibilidade é relevante e essencial ao
prestar o cuidado.
Pode-se afirmar que a valorização da comunicação interpessoal no cotidiano passa por muitas
instâncias, constituindo um desafio
na construção das habilidades próprias no cuidar efetivo/afetivo.
Atualmente, a busca por competência tem sido uma realidade. Isto pode ser comprovado nas premissas
da Lei de Diretrizes Curriculares e
Bases da Educação Nacional (14),
que fundamenta o processo de formação por meio de competências e
habilidades e do aperfeiçoamento
cultural, técnico e científico do cidadão, que busca um profissional
com perfil não somente alicerçado
nos aspectos de conhecimento cognitivo, mas que também seja capaz
de agir com eficácia diante das mais diversas situações, executando
atividades próprias da profissão, e
ainda, saiba conviver com as pessoas.
Os resultados verificados
neste estudo com os participantes
da capacitação proposta, mesmo
que inicial, vai ao encontro das considerações feitas por Silva (11), ao
afirmar que, para ser eficaz na comunicação é necessário o cumprimento de quatro principais aspectos: a) prestar atenção aos sinais
emitidos pelo outro e por si próprio;
isso porque quanto maior a capacidade de decodificar corretamente o
não-verbal maior serão as condições de emitir adequadamente sinais não-verbais; b) buscar desenvolver um comportamento empático;
c) utilizar adequadamente os cinco
sentidos voltados para a percepção
e compreensão do outro; d) ofere-
cer e solicitar feedback às pessoas
com as quais se relaciona.
Em suma, as considerações traçadas pelos participantes remetem ao próprio conceito de
Perrenoud (15) que cita a competência como a capacidade de mobilizar todos os tipos de recursos cognitivos, não apenas um saber procedimental, codificado, que seja aplicado literalmente, mas aquele que
potencializa e externa os saberes
considerados declarativos e condicionais. Pode-se afirmar que o autor ratifica que ser competente é
quando se valoriza o situacional e a
pessoa utiliza ações que sejam pertinentes ao contexto, o que exige reflexão e tomada de decisão/escolha
e não simplesmente “saber a ação
correta”.
Conclusão
De acordo como objetivo
proposto percebe-se que o entendimento sobre ser hábil e competente
na comunicação interpessoal, para
quase a metade dos 117 profissionais e/ou graduandos da área de saúde, envolveu a capacidade de identificação do verbal e não-verbal e
da atenção ao outro para que a compreensão correta da mensagem enviada fosse alcançada. Outros aspectos surgiram, porém, com menor frequência.
As habilidades comunicacionais, portanto, foram mais fortemente identificadas como aquelas
ligadas à valorização pessoal no
sentido de atentar-se a receptividade e entendimento do outro; nas habilidades que destacam a clareza da
explanação da mensagem com objetividade e simplicidade e ao jeito extrovertido da oratória e na qualidade e uso de aspectos não-verbais como, o uso da voz, postura corporal,
expressões faciais que, juntas, pudessem de alguma forma revelar segurança, confiança e simpatia do lo-
cutor principal.
Ficou clara a interdependência comunicativa inerente entre
as dimensões verbais e nãoverbais, presente nos discursos
apresentados, revelando coerência
com os pressupostos defendidos pela Lei de Diretrizes da Educação
(14) quando enfatiza o quanto
aprender a ser e aprender a conviver são premissas essenciais na
construção de um profissional de saúde competente.
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Perceptions of the user's health service on the family health program
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho. RECENF-Revista
Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n.25;(120-128).
Resumo
O Programa de Saúde da Família (PSF) apresenta-se como uma possibilidade de reestruturação
da atenção primária, a partir de um conjunto de ações conjugadas em sintonia com os princípios de
territorialização, intersetorialidade, descentralização, co-responsabilização e priorização de grupos
populacionais com maior risco de adoecer ou morrer. Tem o objetivo de contribuir para a reorientação das práticas em saúde, rompendo com o modelo de assistência que prevaleceu tradicionalmente em nossa sociedade: excludente, centrado na doença, individualizado e segmentado.
Visando identificar como anda a satisfação e o conhecimento da população sobre o PSF, destacamos como objetivo do presente trabalho: identificar a percepção dos usuários do serviço público
de saúde, sobre o que é o Programa Saúde da Família em uma cidade do sul de Minas Gerais, para
isso foi utilizado como referencial o método qualitativo do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). O
DSC é uma estratégia metodológica proveniente da Teoria das Representações Sociais. Por meio
desse modo discursivo é possível visualizar a representação social, que é o modo como os indivíduos reais e concretos pensam. Percebe-se que muitas famílias e usuários sabem as finalidades do
PSF o que nos leva a crer que existem equipes atuantes no ambiente familiar e fora dele.
Descritores: Programa de Saúde da Família, enfermagem, usuário.
Abstract
The Family Health Program (FHP) presents itself as a possibility of restructuring of primary
care from a combined set of actions in line with the principles of territorial, intersectional, decentralization, accountability and co-prioritization of population groups with greater risk of becoming
ill or dying. It is the goal to contribute to the reorientation of practices in health, breaking with the
type of assistance that traditionally prevailed in our society: exclusionary, focused on disease, individualized and targeted. To identify how the satisfaction and knowledge of the population go on
the FHP, as highlighted objective of this work: identifying the perception of users of public health,
on what is the Family Health Program in a town south of Minas Gerais, for it was the method used
as reference quality the Collective Subject Discourse. The CSD is a methodology from the Theory
of Social Representations. Through this way you can view the discursive social representation,
which is how the people feel real and concrete. Clearly the fact that many families and users know
the purpose of PSF which leads us to believe that there are teams working in the family and outside it.
Descriptors: Family health program, nursing, user.
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões. Enfermeira Professora Mestre em Bioética; Especialista em Docência no Ensino Superior;
Docente do Curso de Graduação e da Especialização em Saúde da Família da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz.
João Batista Ferreira Sobrinho. Enfermeiro Especialista em Saúde da Família Multiprofissional pela Escola de Enfermagem
Wenceslau Braz.
Amanda Gleice Fernandes Carvalho. Acadêmica de enfermagem do 4º ano, do primeiro semestre da Escola de Enfermagem
Wenceslau Braz, de Itajubá.
127
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho.
Introdução
Desde o início do século
XX, quando a Saúde Pública no
Brasil se configurou como política nacional de saúde, vêm-se
sistematizando práticas sanitárias na tentativa de estabelecer
uma assistência eficaz voltada
para a coletividade, tendo sido a
criação e regulamentação do
SUS os marcos mais importantes desse processo. Após sucessivos movimentos e tentativas,
essa foi a primeira ferramenta legitimada e garantida em lei para
a construção de um sistema de saúde digno, humano e universal
(1).
Segundo Borges (2), o
PSF tem o objetivo de contribuir
para a reorientação das práticas
em saúde, rompendo com o modelo de assistência que prevaleceu tradicionalmente em nossa
sociedade: excludente, centrado
na doença, individualizado e segmentado. Como a intervenção se
dá no nível primário de atenção,
ele trabalha localmente e, portanto, numa maior proximidade
às famílias. Ele afirma ainda que
o acolhimento e o vínculo são
privilegiados e se caracterizam
como uma modalidade de intervenção usuário-centrada, incentivada na proposta do SUS, para
que se possa estabelecer uma relação interpessoal mais próxima
dos usuários em suas demandas.
Características peculiares do PSF parecem favorecer a
integração entre comunidade e
equipes de saúde da família,
bem como a relação trabalhador-usuário. Neste sentido, destaca-se a introdução dos
Agentes Comunitários de Saúde
(ACS) nas equipes, adstrição de
128
clientela num território definido, atuação das equipes na ótica
da Vigilância em Saúde e o trabalho em equipe realizado por
um enfermeiro, um médico, dois
auxiliares de enfermagem e quatro a seis ACS. Segundo
Oliveira, Spiri (3), o estreito relacionamento entre profissionais
da equipe de saúde e as famílias,
estabelecidas pelo PSF, auxilia
na aceitação das pessoas para o
acompanhamento frequente e a
busca da satisfação das necessidades de saúde. Uma das demandas do PSF é o retorno da inclusão da família como partícipe
do processo saúde-doença e em
cujo espaço busca-se o desenvolvimento de ações preventivas, curativas e de reabilitação.
Visando identificar como anda a satisfação e o conhecimento da população sobre o
PSF, notamos que durante as atividades realizadas em nossa vivência profissional, como enfermeiros em equipes de saúde da
família de nossos respectivos
municípios, os usuários demandavam dúvidas comuns como:
O que é o PSF? Quais são suas diretrizes e funções? O que significa promoção e prevenção da saúde?
Percebemos que na prática a visão dos mesmos é ainda a de um
modelo curativo e hospitalocêntrico, dificultando assim, distinguir a proposta entre Hospital,
UBS, e o Programa Saúde da
Família.
A transição do modelo
curativo em que o processo se dava pela demanda espontânea, para o modelo de caráter substitutivo do PSF, que prevalece à promoção e a prevenção da saúde
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ainda não está evidenciada, e
com isso notamos que mesmo depois de anos de implantação, suas diretrizes e objetivos são pouco identificados pela maioria da
população, o usuário fecha as
portas de sua casa para a equipe
no que diz respeito à prevenção
de doenças e só procura o serviço de saúde, na maioria das vezes, quando a doença está incapacitando-o ou quando a doença
já está instalada.
A relevância deste estudo refere-se ao fato de que governantes gestores e a população em geral deveriam ser sensibilizados quanto à importância
do PSF bem como suas metas e
diretrizes. Com isso investiriam
mais na atenção primária, e a
equipe de saúde da família realizaria com melhores recursos o
seu trabalho.
Quanto à comunidade e
os usuários, eles se tornariam
mais ativos em seus cuidados,
participariam mais efetivamente
nos serviços de promoção da saúde oferecidos. Este trabalho
além da contribuição científica
visa ainda melhorar a qualidade
da assistência prestada, incentivar os profissionais de saúde a
exercer melhor suas atribuições
dentro da equipe, valorizar a participação popular e também compreender o que os usuários sabem sobre as competências do
PSF.
Diante do exposto destacamos como objetivo do presente trabalho: identificar a percepção dos usuários do serviço público de saúde, sobre o que é o
Programa Saúde da Família em
uma cidade do sul de Minas
Gerais.
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho.
Referencial conceitual
De acordo com Lima
(4), a proposta do PSF é parte integrante das estratégias da consolidação do SUS, implantado
pelo governo federal em 1994
através do Ministério da Saúde,
visando contribuir para o aprimoramento do SUS. Embora tenha sido criado com a denominação PSF, depois de uma década de experiências vividas em
sua trajetória e da realização de
estudos e reflexões à seu respeito, não há mais dúvida em afirmar que a saúde da família não é
apenas um programa, mas uma
estratégia; não é apenas uma estratégia de médico da família,
mas uma estratégia específica
de atenção à saúde. Não se caracteriza como um projeto piloto alternativo, paralelo ao SUS.
Trata-se de uma forma especial
para reverter à maneira como
sempre se fez a prestação de assistência à saúde no Brasil, construindo, consequentemente, um
novo modo de cuidar da saúde.
A saúde da família é entendida como uma estratégia de
reorientação do modelo assistencial, operacionalizada mediante a implantação de equipes
multiprofissionais em unidades
básicas de saúde. Essas equipes
são responsáveis pelo acompanhamento de um número definido de famílias, localizados em
uma área geográfica delimitada.
As equipes atuam com ações de
promoção de saúde, prevenção,
recuperação, reabilitação de doenças e agravos mais frequentes,
e na manutenção da saúde da comunidade (5).
Para Souza (6) a estratégia do PSF propõe uma nova di-
nâmica para a estruturação dos
serviços de saúde, bem como para a sua relação com a comunidade e entre os diversos níveis
de complexidade assistencial.
Assume o compromisso de prestar assistência universal, integral, equânime, contínua e acima de tudo resolutiva à população na unidade de saúde e no domicílio, sempre de acordo com
suas reais necessidades, identificando os fatores de risco, aos
quais ela está exposta, e nele intervindo de forma apropriada.
O PSF é um projeto dinamizador do SUS, condicionado
pela evolução histórica e organização do sistema de saúde no
Brasil. A velocidade de expansão do PSF comprova a adesão
de gestores estaduais e municipais aos seus princípios.
Conforme Silva (7), as
diretrizes ou princípios básicos
do PSF envolvem o caráter substitutivo, em que as atividades a
serem ofertadas estão voltadas a
promoção à saúde, a prevenção
dos agravos, o que caracteriza o
nível primário da atenção a saúde; a adscrição da clientela, que
visa estabelecer com definição
um território a ser trabalhado, o
que permite a equipe conhecer e
ter responsabilidades com um
número definido de famílias; o
cadastramento, que através da visita domiciliar tem a função de
inscrever ou cadastrar as famílias. O cadastramento permite a
equipe conhecer os componentes da família, as doenças mais
comuns, as condições sócioeconômicas entre outros pontos relevantes; a abordagem multiprofissional, o trabalho do PSF deve ser realizado por uma equipe
multiprofissional, tendo em vista a necessidade de diferentes
maneiras de compreender os problemas de saúde. É necessário
um médico, um enfermeiro, um
técnico ou auxiliar de enfermagem e os agentes comunitários
de saúde; a educação permanente, onde a capacitação dos profissionais das equipes visa atender as necessidades vindas do
próprio trabalho.
Ângelo (8) relata que a
família como unidade de cuidado é a perspectiva que dá sentido
ao processo de trabalho do PSF.
Podem-se focalizar aspectos específicos da família, o que resulta em uma gama muito ampla de
definições possíveis, ressalta ainda que, assim pode-se considerar a família como um sistema,
uma unidade cujos membros podem ou não estar relacionados
ou viver juntos, pode conter crianças sendo elas de um único pai
ou não. Nela existe um compromisso e um vínculo entre seus
membros e as funções de cuidado da unidade consistem em proteção, alimentação e socialização.
Silva (7) relata que, o trabalho em equipe multiprofissional é considerado um importante pressuposto para a reorganização do processo de trabalho
no âmbito do Programa de
Saúde da Família - PSF, visando
uma abordagem mais integral e
resolutiva. Isto pressupõe mudanças na organização do trabalho e nos padrões de atuação individual e coletiva, favorecendo
uma maior integração entre os
profissionais e as ações que desenvolvem.
A equipe de saúde da fa-
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Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho.
mília deve conhecer as famílias
do território de abrangência,
identificar os problemas de saúde e as situações de riscos existentes na comunidade, elaborar
um plano e uma programação de
atividades para enfrentar os determinantes do processo saúde/doença, desenvolver ações
educativas e intersetoriais relacionadas com os problemas de
saúde identificados e prestar assistência integral às famílias sob
sua responsabilidade no âmbito
da atenção básica (9).
A interação é aqui entendida como construção de consensos, em relação a objetivos e
resultados a serem alcançados
pelo conjunto dos profissionais.
Por meio dessa prática comunicativa, os profissionais constroem e executam um projeto comum pertinente às necessidades
de saúde dos usuários (5,10)
Segundo Carvalho (11), a promoção da saúde é uma estratégia
de produção de saúde articulada
às demais políticas e tecnologias
desenvolvidas no sistema de saúde brasileiro que busca contribuir com as necessidades sociais
em saúde, para além do enfoque
da doença. Conferências internacionais sobre promoção e prevenção da saúde, realizadas pela
Organização Mundial de Saúde
(OMS), vêm acontecendo desde
a segunda metade do século passado. No Brasil, particularmente, devido ao processo de implementação e consolidação do
SUS, os princípios gerais da promoção, - equidade, intersetorialidade, participação social, criação de um entorno propicio à vida e à justiça social - encontraram espaço para o seu desenvol-
130
vimento.
Referencial teórico metodológico
Teoria das representações sociais
Buscando atingir os objetivos propostos para esta pesquisa e responder às questões elaboradas para a compreensão do
objeto de estudo, foi utilizado o
método qualitativo, do tipo exploratório. Segundo Minayo
(12), a opção pela abordagem
qualitativa baseia-se no interesse em compreender a complexidade do fenômeno que não se restringe os dados estatísticos.
Considerando a natureza
da questão da pesquisa que visa
identificar a percepção dos usuários do serviço de saúde sobre o
que é o Programa Saúde da
Família, foi necessário, para isso, avaliar a compreensão do
que essas pessoas dizem, fazem
e pensam a respeito do PSF, sendo assim optamos por adotar como referencial metodológico a
Teoria das Representações
Sociais (TRS).
Para Abrantes;
Figueiredo (13), a TRS apresenta grande aderência aos objetos
de estudo na área de
Enfermagem, uma vez que ela
consegue apreender os aspectos
mais subjetivos que permeiam
os problemas inerentes esse campo. Como método do estudo utilizamos o Discurso Sujeito
Coletivo (DSC). Lefèvre;
Lefèvre; Teixeira (14) define
que o DSC é uma estratégia metodológica com a finalidade de
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tornar mais clara uma determinada representação social e o
conjunto das representações que
constituem um dado imaginário.
Por meio desse modo discursivo é possível visualizar a representação social, na medida
em que ela aparece não sob a forma (artificial) de quadros, tabelas ou categorias, mas sob a forma mais viva e direta de um discurso, que é o modo como os indivíduos reais e concretos pensam.
Trajetória metodológica
A pesquisa foi realizada
no município de Poço Fundo,
sul de Minas Gerais. O estudo teve como sujeitos, vinte moradores do município. A amostragem
foi do tipo intencional ou racional. Para se adequar ao critério
de inclusão o entrevistado deveria residir no município cuja pesquisa foi realizada e estar cadastrado em uma equipe de saúde
da família. Para acessar o cadastro das equipes, pedimos autorização ao secretário do município. Como estratégia para coleta
dos dados, utilizamos entrevista
não-estruturada, contendo a seguinte questão: Para você, o que
é o Programa de Saúde da
Família (PSF)?
Os discursos dos entrevistados foram registrados por
meio de gravador, após autorização prévia dos informantes, e da
assinatura do termo de consentimento informado. A autonomia
dos participantes do estudo foi
respeitada pela sua livre decisão
em participar da pesquisa, após
o fornecimento das orientações
que subsidiaram a sua decisão.
Os dados foram colhidos
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho.
individualmente mediante agenda e de acordo com a disponibilidade dos participantes.
Além disso, é preciso evidenciar que este estudo seguiu
os preceitos estabelecidos pela
Resolução 196/96, de
16/10/1996, do Ministério da
Saúde.
Resultados
Dentro da temática “Percepção dos usuários sobre o
PSF” serão compilados abaixo
as Ideias Centrais (IC) do discurso dos entrevistados e, logo
abaixo, seu respectivo DSC.
Sendo assim, obtemos as
seguintes IC: “Visitar as famílias”; “Ajudar na saúde”; “Orientar e prevenir doenças”;
“Não serve de nada”; “Eu não
sei o que é PSF”, sendo as três
primeiras IC com maior frequência.
Considerando as ideias
centrais, surgiram os seguintes
DSCs:
Ideia central: visitar as famílias
DSC
“Serve pra visitar as famílias e
ver o que elas estão precisando.
Acho bom porque como eu sou
doméstica não tem como eu levar meu filho lá, e eles sempre
tem o cuidado de vir aqui em casa. Recebo visita toda semana,
tem o agente de saúde, o controle da minha diabete todo mês.
Agora a gente recebe visita, porque de primeiro não tinha isso
não, mudou pra melhor... Todo
mês eles vão lá em casa, acho
que no geral eles fazem só o bem
pra nós.”
DSC
Ideia central: ajudar na saúde
DSC
“Ajuda, ajuda muito, pois
quando preciso de algum remédio, eu vou lá, ou eles vêm aqui
em casa, e sempre é muito bem
tratado... Graças ao PSF eu descobri que eu tenho pressão alta,
e agora eu faço tratamento direitinho, sarou minhas dores de cabeça, pra mim essa é a serventia
do PSF, ajudar na saúde das pessoas. Esse programa aí é pra ajudar na saúde. É pra atender as
famílias. Eu penso que o PSF é
muito bom... eu mesmo nunca tinha feito um preventivo, agora
eu to cuidando mais da saúde.”
Ideia central: orientar e prevenir doenças
DSC
“Pra meu entendimento serve
pra orientação das doenças que
a gente tem no bairro. É um programa do governo que serve para ajuda a população a prevenir
as doenças mais grave, sempre
que eles me fazem visita eu pergunto as coisas sobre minha doença, eles orientam a gente, eles
fazem palestras de vez em quando. Eles chamam atenção da
gente, todo mês eles me lembram de vacinar minhas crianças pequenas, serve de alerta
pra gente. O PSF cuida da família com um todo, e serve para trabalhar a promoção e a prevenção das doenças.”
Ideia central: não serve de nada
“Para mim não tem serventia
de nada não. Ah, eles ajudam só
de vez em quando...Eu sinto falta de orientação tenho pai e mãe
com pressão alta em casa e só eu
que cuido deles...”
Ideia central: eu não sei o que é
PSF
DSC
“Eu nem sei o que é programa
de família não, nunca recebi
uma visita de médico nem enfermeiro, só uma menina passa
uma vez por mês pra pegar a assinatura. Eu num entendo muito
bem desse PSF não.”
Discussões
As ICs com maior frequência foram: “visitar as famílias”; “ajudar na saúde”; “orientar e prevenir”; como podemos destacar nas falas dos DSC
abaixo: “... O PSF cuida da família, serve para promoção e
prevenção das doenças...”; “...
eles orientam bem a gente...”;
“... é pra atender as famílias”;
“... a serventia do PSF é ajudar
na saúde da pessoa...”.
Quanto à IC “visitar as
famílias”, evidenciamos a importância da visita para conhecer o contexto social de cada família, além de intensificar o modelo de saúde proposto.
Segundo Mandú et al.
(15) a expansão da visita tornase cada fez mais necessária, pois, com as mudanças ocorridas
no perfil epidemiológico da população, os idosos, hipertensos e
diabéticos entre outros são cada
vez mais cuidados em sua resi-
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Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho.
dência, fazendo-se necessário a
vigilância, manutenção e restauração de sua saúde onde eles se
encontram. Por outro lado, uma
das preocupações que se tem é
que as visitas do PSF possam levar à dependência da população
dos profissionais principalmente médicos, como podemos identificar nas falas: “As meninas
vêm fazer visita, e se marcar o
médico vem, acho melhor do jeito que é hoje... não precisa enfrentar fila”.
No que diz respeito à IC
“ajudar na saúde”, nas decisões
quanto à saúde dos indivíduos e
as comunidades deve-se respeitar o princípio ético da autonomia, evitando-se práticas paternalistas contrárias à vontade das
pessoas, pois todo cidadão tem o
direito de participar nas tomadas
de decisões no que se refere a
sua saúde (16).
A IC “orientar e prevenir doenças”, também se destacou, “... descobri que tenho pressão alta e agora eu faço tratamento direitinho...”; “... eles orientam bem a gente...”. Podendo,
também, ser identificada sua importância no estudo de Souza
(17), em que ele evidencia que a
ESF vem gerando um novo modelo de atenção à saúde através
de uma assistência integral e contínua a todos os membros das famílias e da comunidade em cada
uma das fases de vida, construindo um vínculo entre equipe e
população. Esse vínculo proporciona retomar a visão integral do indivíduo em seu contexto familiar, desenvolvendo
ações de promoção, proteção específica, diagnóstico precoce,
prevenção de danos, recupera-
132
ção da saúde e reabilitação, ou seja, uma prática humanizada competente, unindo o saber popular
ao saber técnico-científico.
Detectados nas falas abaixo: “...
eles fazem palestra de vez em
quando, minha mulher fez o prénatal com eles e foi tudo bem...”.
Os objetivos da implantação do modelo de saúde da família segundo o Ministério da
Saúde são, entre outros: prestar
assistência integral e contínua;
humanizar as práticas de saúde;
fazer com que a saúde seja reconhecida como um direito de cidadania e estimular a organização
da comunidade, porém cabe as
equipes de saúde da família, promover educação em saúde e melhorar o autocuidado dos indivíduos (18).
Segundo Costa;
Carbone (19) o enfermeiro deve
assistir às pessoas que necessitam de atenção de enfermagem.
Cada equipe de saúde da família
é capacitada para conhecer as realidades das famílias e a prática
sanitária não deve fixar na atenção meramente curativa, mais
manter a vigilância em saúde.
Para Carbone (20) no
PSF é muito importante transcender o biológico e compreender as dimensões biopsicossociais das famílias e também conhecer a história do usuário, inclusive sua fala reflete seu mundo.
Podemos confirmar tal
fato, com o que disse esse usuário: “... o PSF cuida da família
como um todo e serve para trabalhar a promoção e a prevenção das doenças desde o mais rico até o mais pobre, eu acho bonito é o valor que eles dão ao lar
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das pessoas que eles cuidam,
eles ensinam a ter saúde, muito
bom o trabalho deles, precisa valorizar esse trabalho”.
Encontramos nos resultados
que os usuários em sua maioria
consideram o PSF “Muito
bom”; “útil”; “cuida da família”. Essa satisfação com o PSF
vem ao encontro com o que diz
Turrini (21). Segundo ela a satisfação do cliente é uma forma
de se avaliar a qualidade do serviço de saúde, além do que, é
uma acessibilidade de garantir o
retorno do usuário quando necessitar. A partir do usuário, é
possível obter informações que
beneficiam a organização dos
serviços de saúde.
Percebe-se que muitas famílias e usuários sabem as finalidades do PSF, o que nos leva a
crer que existem equipes atuantes no ambiente familiar e fora
dele.
Segundo Cianciarullo
(22) o PSF constitui uma proposta inovadora nos serviços de
saúde, priorizando as ações de
promoção, proteção e recuperação da saúde das pessoas e das famílias de maneira integral e contínua.
Gualda, et. al. (23), também, cita que a equipe de Saúde
da Família tem como principal
missão promover a participação
da comunidade, favorecer a humanização do atendimento, possibilitando um bom relacionamento.
Para Cianciarullo (22),
alguns serviços ainda estão presos em procedimentos tradicionais, não adotando essa forma
inovadora e flexível que é o PSF.
O objetivo desse programa
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, João Batista Ferreira Sobrinho, Amanda Gleice Fernandes Carvalho.
(PSF) é uma reorganização da
prática assistencial, onde atenção centra-se na família, em seu
ambiente físico e social, com suas crenças e valores, favorecendo o atendimento do processo saúde/doença em um contexto geográfico definido.
De acordo com Turrini
(21) os resultados de um trabalho em saúde, efetivo, são avaliados pela satisfação do paciente,
pelos efeitos na saúde da população e pelo atendimento da atenção primária na comunidade.
Tivemos como IC que o PSF
“Não serve de nada” e ainda IC
“eu não sei o que é PSF”. Essas
ideias refletem a maneira como
as equipes têm relacionado com
as famílias, é um dado muito importante, ou seja, o que significa
o PSF, quais suas finalidades
não estão ainda bem definidas
na concepção de alguns usuários. Segundo Costa (24), Os serviços de saúde não estão estabelecendo um diálogo eficiente
com o paciente.
Muitos usuários dizem
que os profissionais de saúde
não olham para eles; os maiores
problemas de comunicação são
quando não se rompe a distância
entre o paciente e a equipe, refere ainda que a diversidade cultural envolva todas as maneiras de
viver dos indivíduos. Conforme
a fala “... Para mim não tem serventia de nada não...”
Reconhecemos que outros estudos com esse objetivo possam
ser realizados a fim de identificarmos prováveis falhas e proporcionar as devidas melhorias.
No entanto, essas falas servem
para os profissionais de enfermagem como alerta para suas re-
ais competências e, além disso,
estarem esclarecendo melhor
nossas famílias sobre as finalidades do PSF.
Como as percepções dos
usuários são ímpares, é difícil dizer o que significa para eles um
serviço ter a capacidade de solucionar o seu problema de saúde.
Medir a satisfação deles referese a compreender suas experiências com relação ao cuidado à saúde.
Conclusão
Os resultados do presente trabalho permitiram as seguintes conclusões: que a percepção dos usuários do serviço
público de saúde, sobre o
Programa Saúde da Família foram: “Visitar as famílias”, “Ajudar na saúde”, “Orientar e prevenir doenças”, “Não serve de
nada”, “Eu não sei o que é
PSF”.
Esta pesquisa permitiu
verificar que as percepções dos
usuários são ímpares, sendo difícil dizer o que significa para eles
um serviço ter a capacidade de
solucionar o seu problema de saúde. Mensurar a satisfação deles
refere-se a compreender suas experiências com relação ao cuidado com a saúde.
As expectativas dos
usuários podem ser bem distintas entre si, pois variam conforme os valores sociais e culturais,
contato com a equipe de saúde e
o contexto em que eles se inserem. A opinião, dos mesmos, é
muito importante para avaliar as
questões que envolvem o profissional, os serviços de saúde e as
etapas de um determinado cuidado e também as característi-
cas que relacionam com o seu
bem estar.
Esta pesquisa não se esgota aqui, muitos desafios ainda
cabem a nós enquanto profissionais. No entanto, temos a responsabilidade de não pouparmos esforços para que aos poucos nossa sociedade possa compreender que devemos valorizar
a saúde e não a doença, que o indivíduo deve ser tratado como
um ser integral, dentro de seu
contexto social, enfim, o PSF é
uma estratégia de esperança que
nos abre os horizontes para essa
possibilidade. Não podemos esquecer que o usuário, a família e
a comunidade são os fatores desse processo.
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Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
A família como suporte para o enfrentamento do câncer de mama
The family as a support for the confrontation of breast cancer
Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem2010-v8-n25; (129-138)
Resumo
O objetivo deste estudo foi investigar junto às mulheres com câncer de mama, a percepção
acerca do suporte familiar no enfrentamento da doença. Constituiu-se em uma pesquisa qualitativa
descritiva. O contato inicial com as participantes do estudo deu-se em uma Clínica de Oncologia e
Hematologia do interior do Estado do Rio Grande do Sul. Entrevistou-se 7 mulheres portadoras de
câncer de mama no período de março a maio de 2008. As entrevistas aconteceram no domicílio
das participantes de acordo com o agendamento prévio. Quanto à entrevista elaborou-se um roteiro
semi-estruturado com 5 perguntas abertas. O registro das informações deu-se através de gravação
das falas dos sujeitos da pesquisa. O processo analítico dos dados convergiu para a obtenção das seguintes categorias: a percepção da família na visão das mulheres com câncer de mama; a autoimagem como um desafio perante a sociedade e a si própria; a experiência do câncer de mama encarado não como uma doença, mas como mobilizadora de um trabalho educativo; sentimentos vivenciados a partir do diagnóstico de câncer de mama. Conclui-se que o apoio e suporte familiar às
pacientes com câncer de mama, constituem-se em importantes instrumentos para enfrentamento da
doença e manutenção do equilíbrio emocional.
Descritores: Neoplasias da Mama, Família, Enfermagem.
Abstract
The objective of this study was to investigate near to women with breast cancer, the perception
about the family support in the coping of the disease. It consisted in a descriptive qualitative study.
The initial contact with the study participants occurred in a Oncology and Hematology Clinic in
the interior of the Rio Grande do Sul State. They were interviewed 7 women carriers of breast cancer from March to May 2008. The interviews took place at the participants´ s domicile in agreement with the previous appointment. As for the interview it was elaborated a semi-structured
script with 5 open questions. The information records were done by recording the research subjects´ s statements. The data analytical process converged to the obtaining of the following categories: the perception of the family in the view of women with breast cancer, self-image as a challenge to society and herself, the experience of breast cancer seen not as a disease, but by mobilizing educational work; feelings experienced after diagnosis of breast cancer. It follows that the support and family support for patients with breast cancer, are in important tools for fighting the disease and maintain emotional balance.
Descriptors: Breast Neoplasm's, Family, Nursing.
Daniela do Nascimento. Enfermeira graduada pela Univ. Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões-Campus de Santo
Ângelo.
Narciso Vieira Soares. Mestre em Enfermagem. Docente do curso de Enfermagem da Univ. Regional Integrada do Alto Uruguai e
das Missões – Campus Santo Ângelo.
135
Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares.
Introdução
O Câncer de Mama constitui-se numa doença que acomete as mulheres em suas diversas faixas etárias, sendo temido
pelos seus efeitos psicológicos,
sexuais e de auto-imagem. A cada ano morrem de câncer no
Brasil cerca de dez mil mulheres, sendo que a faixa etária predominante situa-se acima de 35
anos (1-2). No Rio Grande do
Sul a incidência dessa patologia
está aumentando cada vez mais.
Segundo dados do INCA, dos
234.870 novos casos de câncer
estimados em mulheres gaúchas, 13% foram casos de câncer de mama, no ano 2007.
No Brasil, o câncer de
mama é o que causa mais mortes
entre as mulheres, sendo considerada a segunda causa de maior
incidência de morbidade no ano
de 2006 com 48.930 casos.
Essas informações são
preocupantes para a saúde pública e população em geral, na
medida em que o câncer de mama representa a causa mais comum de morte em mulheres entre 35 e 50 anos, embora seja verdade que, em muitas mulheres,
incluindo aquelas abaixo de 50
anos, os casos são diagnosticados e tratados com sucesso. O
câncer de mama é relativamente
raro em mulher com menos dos
35 anos de idade, mas acima desta faixa sua incidência cresce rápida e progressivamente (2).
Os sintomas do câncer
de mama são nódulos ou tumor
no seio, acompanhados ou não
de dor mamária. Podem surgir alterações da pele que recobre a
mama, como abaulamentos e retrações ou com um aspecto seme-
136
lhante à casca de uma laranja.
Podem, também, surgir nódulos
palpáveis na axila. Esses sintomas são considerados como sinais de alerta para identificação de
alguma anormalidade na mama.
Portanto, é de extrema importância o toque, o auto-exame,
não somente para a detecção do
câncer, mas também para a mulher adquirir conhecimento do
próprio corpo, livrando-se de vários tabus e preconceitos em relação à auto-imagem e autoestima perante a sociedade (2).
A família é uma das mais
importantes fontes de energia e
suporte para vários agravos de
saúde, principalmente no caso
do câncer, que traz consigo o
grande estigma da morte (3).
A família pode ser compreendida como “um complexo
sistema de membros interdependentes que exercem múltiplos
papéis no contexto social em
que estão inseridos, mantendo interação com outros membros, podendo contribuir para a melhoria da qualidade de saúde das mulheres acometidas de doença como o câncer de mama”(4).
Dentre os múltiplos papéis exercidos pela família podem-se citar as funções relativas
à saúde, uma vez que a família
protege seus membros, dando
apoio e resposta às necessidades
básicas em situações de doença.
No momento em que a
mulher adoece, ou seja, descobre que está com câncer, necessita de apoio para enfrentamento
das situações delicadas que está
vivenciando. O suporte familiar
constitui-se em elemento fundamental para ultrapassar os desafios do diagnóstico, do trata-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
mento e da recuperação que podem se estender por longo período. A família pode contribuir na
superação desse momento vivido, mediante ações de cuidado,
solidariedade, ajuda e conforto.
A participação em grupos de apoio é importante para as mulheres
com câncer de mama, pois nesses encontros, poderão compartilhar experiências positivas para ultrapassar esse momento,
através do incentivo de quem está vivenciando a mesma situação de doença, tornando-se assim, mais fortes para vencer cada etapa da experiência (5).
Buscou-se investigar
neste estudo, se a família dá suporte à mulher portadora de câncer de mama para ultrapassar esse momento com mais segurança e apoio emocional, pois a
ocorrência de câncer resulta em
alterações no processo de vida
da mulher. O tratamento é agressivo, estendendo-se por longo
período. Entretanto, se a mulher
mobilizar pensamentos positivos, juntamente com o apoio da
família e de amigos, sua recuperação poderá ser mais rápida, minimizando os efeitos agressivos
do tratamento, diminuindo o medo da morte.
No momento em que as
mulheres, portadoras do câncer
de mama, recebem a notícia de
que precisarão realizar a quimioterapia, sentem-se amedrontadas, abaladas, desesperadas, ansiosas e inseguras diante do tratamento e seus efeitos colaterais, os quais são geralmente
agressivos, tanto para a parte física quanto para a psicológica (6).
Além dos efeitos colaterais como náuseas, vômitos e mal-estar
Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares.
geral, a alopecia é um dos aspectos que mais preocupam a
maioria das mulheres, pois o cabelo também é considerado como símbolo de feminilidade significativa para a mulher. Por isso
as pacientes devem ser preparadas pelos profissionais de saúde
antes do tratamento, informando-as sobre os efeitos que ocorrem após o mesmo (6).
O cuidado de enfermagem às pacientes com câncer de
mama inclui cuidar, orientar, dar
apoio emocional, segurança,
conforto e proporcionar um ambiente acolhedor para as mulheres e seus familiares. O cuidado
integral e humanizado à paciente e seus familiares exige enfermeiros qualificados, capazes de
compreender o momento vivenciado, estabelecendo estratégias
visando minimizar os efeitos maléficos da doença, e a partir daí
dar apoio necessário às mesmas
(7). Nesse sentido, “o trabalho
da enfermagem constitui mais
de incentivo e suporte emocional para a mulher portadora do
câncer e sua família, do que propriamente a cura” (6).
Os profissionais de enfermagem devem investir na prevenção do câncer de mama, orientando e auxiliando a mulher
na realização do auto-exame,
oferecendo-lhe assistência, apoio e informação. Deve-se investir na assistência voltada não apenas aos cuidados físicos, mas ao
cuidado emocional, buscando assim, reduzir sua ansiedade e oferecer maior segurança e conforto (6).
Assim como a mulher
portadora do câncer de mama, a
família também necessita da
atenção e do cuidado de enfermagem, além de acompanhamento e apoio no enfrentamento
desse momento vivido. Dessa
forma, a mulher e sua doença,
não são os únicos focos da atenção do enfermeiro. A família
também deve ser incluída no planejamento das ações de cuidado
da enfermagem (7).
Através de experiência
vivida no âmbito familiar, percebeu-se que o apoio da família
é extremamente importante no
momento da confirmação do diagnóstico e ao longo do tratamento.
Por acreditar que é importante motivar as famílias a
compartilhar com a mulher portadora de câncer nesse momento
de sofrimento e dor em decorrência da doença, buscou-se através desse estudo, aprofundar reflexões sobre essa temática.
Buscou-se, além disso, ampliar
os conhecimentos sobre o câncer de mama, para compreender
como se pode cuidar melhor e ensinar às pessoas a serem melhores cuidadores, sejam profissionais de saúde ou familiares.
Esse estudo tem como
objetivo geral, investigar junto
às mulheres com câncer de mama, a sua percepção acerca do suporte familiar no enfrentamento
da doença. Como objetivos específicos têm-se: identificar a rede
de suporte familiar e social e a
sua relação com os mesmos; investigar como as mulheres conseguem lidar com os sentimentos que emergem a partir da doença; como mobilizam forças para o enfrentamento desta situação vivida e investigar quais os
desafios enfrentados nesse pe-
ríodo de doença.
S e n t i m e n t o s
Vivenciados pela Paciente com
Câncer de Mama e seus familiares
A mulher, ao receber o diagnóstico de câncer de mama
passa a enfrentar situações de crise, constituindo-se em um momento em que necessita de
amor, carinho e suporte emocional daqueles que estão próximos
para manter a própria identidade
e ajudar a enfrentar a grande incerteza do futuro (5). A presença
da família, apoiando as pacientes aliadas com “a esperança de
voltar à normalidade”, constituem importantes fatores facilitadores no enfrentamento de situações de crise (5).
De acordo com Silva e
Melo (8) não é fácil aceitar um
diagnóstico de câncer, não importa os conhecimentos que se tenha sobre a doença. Nesta árdua
luta contra o diagnóstico de câncer, o impacto do medo do desconhecido atinge não somente a
mulher, porquanto todos da família ficam naturalmente fragilizados a ponto de se sentirem limitados em suas ações normais da
vida.
Após confirmação do diagnóstico de câncer, a mulher
passa a apresentar sentimentos
de ansiedade, desespero, angústia, desamparo, pensamentos de
morte, acreditando que não irá
se curar e, se, ocorrer a cura, aparece o medo da recorrência da doença. É de suma importância
que ela tenha carinho e suporte
de pessoas próximas para ajudar
a enfrentar essa fase difícil sem
medos, mostrando-lhe a possibilidade de cura, resgatando o va-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
137
Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares.
lor da vida, permitindo que essa
mulher consiga olhar para o futuro sem incertezas, com ânimo e
coragem diante dos desafios que
se apresentam (5).
Bergamasco (5) em seu
estudo constatou que a família
foi identificada como rede de suporte social da mulher mastectomizada, antes, durante e depois
da intervenção cirúrgica, configurando-se, portanto, como elemento importante e presente durante a experiência da doença.
Através desta citação entende-se que, o apoio familiar é
importante desde o início do descobrimento do câncer, ou seja,
desde o diagnóstico confirmado
através dos exames realizados.
A família deverá manter
diálogo com a paciente, abordando aspectos relacionados à
patologia, mostrando que esta
pode ser combatida através do
tratamento, do cuidado e de atitudes positivas que resultem em
mobilização de forças para enfrentar e ultrapassar esse processo vivido com otimismo e segurança. Isso ajudará bastante a
compreender e enfrentar melhor
a situação, servindo para ajudar
a fortalecer a relação familiar
(5).
A experiência de ser portadora de câncer de mama oportuniza a mulher a aprender sobre
si mesma e adaptar-se à nova situação de vida. Através desta
afirmação, entende-se que a mulher deve ultrapassar essa etapa,
como um aprendizado em sua vida, adquirindo forças para enfrentar obstáculos e desafios.
Deve dar-se conta de que
algo, dali em diante, deverá ser
mudado, ou seja, mudar seu esti-
138
lo de vida, passar a viver com mais tranqüilidade e confiança.
Adaptar-se a essa nova forma de
vida requer que a família atue como suporte, ajudando-a a não desistir jamais, mas sim, encorajando-a a continuar viver (5).
No câncer de mama, ao
realizar a mastectomia, a mulher
perde a mama, que para a maioria delas é definido como um órgão significante e que, no momento dessa perda, acaba perdendo juntamente a sua autoestima e sua auto-imagem (8). A
auto-estima começa a ser abalada mais, acentuadamente, durante o tratamento quimioterápico, devido aos efeitos colaterais
destes, que causam desconforto,
mal estar, sensação de piora de
seu estado geral. Essas alterações em seu estado de saúde tornam-lhe vulnerável, já que atingem a área emocional e física,
constituindo assim um dos piores períodos de suas vidas.
O trauma é um sentimento que também pode ser vivenciado no momento do diagnóstico, pela mulher com câncer
de mama, mas não somente vivenciado por ela, mas também
pelos membros da família. É importante a atenção psicológica
às respostas emocionais, essa
atenção deve ser entendida pelos familiares e pessoas em sua
volta, em especial pelos filhos e
companheiros. A possibilidade
de comunicação favorável entre
os familiares ajudará a diminuir
o sentimento de isolamento da
mulher (5).
Muitas mulheres conseguem lidar positivamente com
essa situação, resolvendo bem,
consigo mesma, a questão emo-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
cional decorrente da doença
com ajuda de enfermeiros e de
profissionais da equipe de saúde, familiares e amigos, numa
perspectiva de tratar e curar a doença.
A paciente com câncer
de mama torna-se uma pessoa
duramente atingida física, psicológica e socialmente, tanto pela doença como pelo tratamento.
Aceitar sua nova condição e adaptar-se à nova imagem
de seu corpo exige esforço significativo para o qual, muitas vezes não estão preparadas (9).
Diante da confirmação do diagnóstico de câncer de mama, a mulher, muitas vezes sente-se completamente despreparada para
enfrentar a situação de doença
ameaçadora à sua integridade.
Emergem sentimentos que vão
desde a possibilidade de perder
uma mama, órgão importante
em seu corpo, até a perda de sua
vida. A paciente necessitará de
apoio psicológico e emocional
dos que estão à sua volta para elevar sua auto-estima.
Os sentimentos de medo
e ansiedade vivenciados pela paciente com câncer de mama acabam abalam seu equilíbrio emocional, influenciando em seus relacionamentos, pois suas atenções centram-se na doença esquecendo-se de cuidar de si mesma, centralizando suas emoções
somente na doença. A relação enfermeiro-paciente pode desempenhar papel de ajuda, através
do cuidado humanizado no qual
o profissional visualizará, não
apenas um “órgão doente”, mas
uma mulher com todas suas potencialidades com sua história
de vida, medos e angústias (9).
Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares.
Ao descobrir-se com diagnóstico de câncer, a mulher vivencia sensações e sentimentos
de forma singular. Isto pode resultar em mudanças em sua vida, necessitando adaptações aos
momentos difíceis e desgastantes, tanto para si quanto para sua
família que acaba se envolvendo
e participando dessa experiência
de dor e sofrimento pela qual estão enfrentando (10). Às vezes, a
família se isola por não saber lidar e interpretar o sofrimento da
mulher, ou ela se isola por não
querer preocupar a família, criando assim uma barreira entre
ambos, dificultando o acompanhamento e o apoio necessário
(11).
O câncer de mamar abala a mulher e toda sua estrutura
familiar, podendo levá-la ao desequilíbrio emocional, pelas fragilidades inerentes ao processo
vivenciado. É nesse momento
que a família necessita unir esforços visando ultrapassar as dificuldades, que se apresentam.
Os familiares devem manifestar
abertamente suas emoções e sentimentos para a mulher com câncer, demonstrando sua importância para todos, reforçando a
esperança da paciente. É um momento de união, de cooperação e
de busca de apoio dos profissionais da saúde e dos serviços de
saúde (10).
Compreender as fragilidades da paciente é importante
por que parte das famílias, assim
como as fontes de suportes disponíveis possam ajudá-la perante as dificuldades. O fortalecimento e a disponibilidade dos familiares são fundamentais para
a resistência do seu sofrimento e
cura. E é importante encarar a situação positivamente, com coragem, determinação e força interior, de querer vencer todas as
etapas (10).
A importância dos vínculos familiares é ressaltada
quando se fala em câncer de mama, pois se constitui num momento de grande fragilidade da
mulher acometida por essa doença. Considerando que todos nós,
seres humanos, necessitamos de
cuidado, carinho, atenção, ou seja, um afeto especial de todos os
membros da família, o que possibilita a nossa satisfação, e havendo a comunicação entre ambos, fortalecerá os relacionamentos e também crescimento
interior da família e da mulher
(11).
Metodologia
Tipo de Estudo
Este estudo constitui-se
em uma pesquisa com uma abordagem qualitativa do tipo descritiva. A pesquisa qualitativa
responde a questões muito particulares. Ela se preocupa, nas
ciências sociais, com um nível
de realidade que não pode ser
quantificado(12). A pesquisa
descritiva tem como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou o estabelecimento de relações entre variáveis (13).
Local e Período do Estudo
O contato inicial com as
mulheres para compor a amostra
do estudo foi realizado na
Clínica de Oncologia e
Hematologia de um município
do interior do Estado do Rio
Grande do Sul. As entrevistas foram realizadas nas residências
das mulheres que aceitaram participar da pesquisa conforme
acordo e agendamento prévio,
no período de março a maio de
2008.
Sujeitos do Estudo
Os sujeitos da pesquisa
foram sete mulheres portadoras
de câncer de mama que realizam
ou realizaram tratamento quimioterápico em um hospital da região noroeste do Estado do Rio
Grande do Sul. O acesso às pacientes deu-se mediante indicação
do médico assistente e da enfermeira que atendem na clínica anteriormente referida, onde se realizou o contato prévio com as
mulheres e familiares.
Estabeleceu-se que as entrevistas seriam realizadas no domicilio das pacientes.
Como critério de inclusão adotou-se: ter sido diagnosticada como portadora de câncer
de mama, ter mais de 18 anos,
aceitar participar espontaneamente da pesquisa mediante o
preenchimento do Termo de
Consentimento Livre e
Esclarecido. Como critério de
exclusão: não ser portadora de
câncer de mama, ser menor de
18 anos, não aceitar participar
da pesquisa.
Método de Coleta de Dados
Foram realizadas entrevistas com a utilização de um roteiro semi-estruturado com perguntas abertas. O registro dos dados coletados ocorreu mediante
a utilização de gravador, além
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139
Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares.
do diário de campo na qual foram realizadas as anotações das
verbalizações das mulheres, assim como a impressão dos pesquisadores no momento da coleta de dados.
A utilização de um roteiro semi-estruturado facilitou aos
pesquisadores durante a realização da entrevista, servindo como norteador no momento das
indagações às pesquisadas. Nas
questões abertas, apresentavase a pergunta e a partir daí a entrevistada elaborava sua resposta conforme seu entendimento
acerca do tema, momento em
que ocorreu a livre manifestação
de subjetividades (13).
Considerações Éticas
Para a realização deste
estudo foram respeitados os aspectos éticos para a pesquisa envolvendo seres humanos, estabelecidos pela resolução 196/96
do Ministério da Saúde (14).
Obteve-se a aprovação
do estudo pelo Comitê de Ética
da Universidade Regional
Integrada do Alto Uruguai e das
Missões – URI - Campus de
Santo Ângelo sob nº 10504/TCH/07. Apresentou-se às
p a c i e n t e s u m Te r m o d e
Consentimento Livre e
Esclarecido constando os objetivos do estudo, incluindo esclarecimento sobre a garantia do direito de retirarem seus consentimentos se assim o desejassem,
sem nenhuma implicação em
seu atendimento e tratamento,
garantia do anonimato nas publicações que resultassem do
presente estudo mediante a substituição de seus nomes por no-
140
mes de flores, garantia de acesso
aos dados resultantes da pesquisa a qualquer momento, e garantia de que sua participação não
implicaria em nenhum risco em
relação à sua saúde.
Apresentação e análise dos dados
Os dados obtidos através
das entrevistas com os sujeitos
da pesquisa foram submetidos
ao processo de leitura e releitura, separação por categoria
temática, conforme propõe
Minayo (15), emergindo de sua
análise as seguintes categorias finais apresentadas a seguir:
A percepção da família
na visão das mulheres com câncer de mama.
Nesta categoria apresenta-se a percepção das entrevistadas sobre a família e o enfrentamento da doença. Percebe-se
nas falas das entrevistadas que a
família, em momentos de doença, assume diferentes papéis, notadamente de apoio e incentivo.
O suporte familiar constitui-se
em valioso instrumento na superação desse momento, caracterizado para algumas como uma encruzilhada, podendo representar
vida ou morte. As afirmações a
seguir mostram como é percebido o apoio familiar pelas entrevistadas:
“A partir do momento da descoberta da doença, a primeira pessoa que me acompanhou em toda a etapa da pré cirurgia foi o
meu marido...”. (Cravo)
“.. .independente de umas ajudarem mais e outras menos, se
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não for a família eu acho que tu
não passa, não passa pela situação se não for a família. Para
mim foi fundamental”. (Margarida)
“A ajuda da família, eu penso
que é fundamental. Quando eu
fiz a cirurgia, eu tive a presença
da minha família”. (Violeta)
“.. .acho que em primeiro lugar,
tem que ter um apoio mesmo, se
tu não tiver apoio da família, tu
já viu, não é? Porque fácil não é,
às vezes eu dizia assim: ah, vou
desistir de tudo, vou parar porque é muito doloroso não é, as
fraquezas, a reação da quimio
...”. (Rosa)
“A ajuda da família foi muito importante e é importante até hoje... a dedicação assim, o carinho, a preocupação...”. (Girassol)
A participação efetiva da
família constitui-se um importante instrumento na ultrapassagem dos fatores adversos provocados pelo câncer de mama.
Essa participação poderá ser objetivada a partir do apoio emocional, pela compreensão dos sentimentos e emoções vivenciadas
pela mulher, disponibilizando
além de afeto e carinho, suporte
material e financeiro, o que contribuirá positivamente na trajetória dessa paciente durante o tratamento (8).
A família é considerada
uma força para o desenvolvimento de ações individuais e grupais, condizentes com o dia-adia da mulher mastectomizada
(16). Representa uma das mais
Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares.
importantes fontes de suporte
para vários agravos de saúde,
principalmente, no caso do câncer, que traz consigo o grande estigma da morte (3). A família como um sistema interligado em
que cada um de seus membros influencia sobre o outro, o adoecimento de um dos integrantes
tem reflexos no comportamento
e no estado emocional e até biológico dos demais (17).
Durante todo o período
da doença, o significado do suporte social para a mulher com
câncer de mama se reveste de importância, pois ela se vê sendo
ajudada para não desistir do tratamento, das consultas periódicas do cuidado de si próprias (5).
É relevante que a abordagem utilizada pela família para o enfrentamento do câncer de
mama, reforce expectativas de
esperança da mulher, mediante
manifestação de sentimentos
que a façam perceberem sua importância no contexto familiar
(14).
A auto-imagem como um desafio perante a sociedade e a si
próprio.
Nos relatos das entrevistadas, percebeu-se uma grande
preocupação com a autoimagem, somando-se às outras
questões relacionadas à doença,
o que faz com que as pacientes
estejam com um problema a mais. Essas preocupações são identificadas nas falas:
“O que foi e está sendo o meu
maior desafio, o que está sendo
hoje é a questão da operação da
mama. A questão mais comple-
xa pra mim é essa, sabe...de ter
mexido no meu corpo, é bem difícil. Meu maior desafio é esse, é
aceitar minha situação hoje. O
que está diariamente me incomodando e me afetando é a questão da operação.” (Margarida)
“Eu vou ser uma hipócrita em
não te dizer que eu não tive sentimento em perder uma parte
que foi minha, não é? não tem como, tu fica assim no início, ainda mais que eu não fiz a reconstituição, foi muito difícil. No verão, eu passo nas vitrines e vejo
aquelas bluzinhas, roupas bem
bonitas, tudo de alcinha não é?,
e eu dou uma olhada e digo: puxa...eu tenho que andar com roupa mais fechada...por quê?”.
(Adália)
A identidade feminina
tende a ser modificada quando
se concretiza a mastectomia e o
tratamento quimioterápico, altera-se também, o auto conceito,
podendo refletir-se de forma negativa na auto percepção da mulher (8).
A cirurgia para a retirada
da mama representa para muitas
mulheres, momento de muita
apreensão e perdas, pois a possibilidade de mutilação se dá pela
percepção da assimetria do corpo e pela visibilidade da cirurgia, que se constitui em agressão
à sua auto-imagem (18). Tratase da amputação de um órgão
que para ela é essencial na definição de seu gênero, faz parte do
ser mulher. A partir da amputação da mama, a mulher vive momentos de conflitos psicológicos, afetando a sua auto-imagem
corporal e a auto-estima (8).
A experiência do câncer de mama, encarado não como uma
doença, mas como mobilizadora de um trabalho educativo.
As entrevistadas manifestaram sentimentos e emoções
que afloraram após o diagnóstico do câncer de mama, dentre esses, a possibilidade de mudança
em sua vida, sendo capazes de
passarem de um estado de medo,
inércias frente à doença para a
ação. As afirmações a seguir
mostram como ocorre essa mudança:
“Eu mudei do dia pra noite, por
que...quando eu soube o diagnóstico, em nenhum momento eu
perguntei porque eu, as duas coisas que me preocuparam: e agora, o que eu vou fazer, e a segunda pergunta, o que eu preciso
aprender? Essas duas coisas.
Em mim, a partir dali, daquele
momento, a partir de mim, eu comecei a olhar a vida de outra maneira, não é?”. (Violeta)
“...Na nossa família agora tem
um tio que tem câncer de pele,
eu segunda feira fui lá de tarde
pra levantar ele, sabe, eu
me...mostro como exemplo, que
tu tem que reagir, não pode...sabe, as gurias dizem que
não sabem de onde que eu tenho
tanta força, mas eu, eu procuro
ajudar a quem precisa. Eu tento
ensinar pros outros o que
eu...como é que eu fui...”. (Girassol)
Silva e Mamede (9) consideram que “a manifestação da
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
141
Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares.
esperança é um ponto forte para
assegurar à mulher uma imagem
positiva das mudanças ocorridas
no seu corpo. Ajudar outra pessoa, partilhar experiências e problemas do diagnóstico, do tratamento, e até mesmo de problemas de outra natureza, são elementos considerados essenciais
para o crescimento e/ou transformação do comportamento”.
Para algumas mulheres,
a experiência do câncer de mama oportuniza um repensar e
aprender sobre si mesma, à medida que necessitam adaptarem-se
à situações não antes vivenciadas, tendo que compreender
aquilo que é importante na vida,
no sentido de valorizá-la, podendo a partir daí, dar novo significado à mesma(5).
Ao descobrir-se com um
diagnóstico como o câncer, a mulher e sua família passam por um
período de modificações em sua
vida, já que há exigências inerentes à doença que provocam
adaptações sempre desgastantes
e difíceis para todos os envolvidos (10).
Sentimentos vivenciados a partir do diagnóstico de câncer de
mama.
Vários sentimentos foram relatados neste estudo pelas
mulheres, dentre eles o medo, a
angústia, a tristeza, o pânico, o
pavor e o medo da morte, mas
além de sentimentos negativos,
elas também demonstraram força, coragem, pensamentos positivos e muita fé para enfrentar o
câncer e os tratamentos necessários, mesmo com suas dificulda-
142
des.
“Quando o resultado deu positivo, senti medo, mas me senti
com coragem para enfrentar todos os processos que eu ia enfrentar”. (Cravo)
“Meu sistema emocional ficou
muito abalado e a angústia era
muito grande, medo e pavor”.
(Tulipa)
“Não sei... acho que te dá um pânico, um medo. Pânico, pra mim
acho que deu pânico, não deu
medo, entrei em pânico sabe.
Até quando meu marido me contou, eu chorei aquela noite inteirinha, inteirinha...” (Margarida)
Muitas mulheres ao receberem o diagnóstico de câncer,
sentem-se fragilizadas, demonstrando sentimentos de medo, ansiedade, angústia, raiva, dúvida
e preocupação em comunicar ou
partilhar tais questões com sua
família, devido à imagem aterrorizada que emerge da doença
(19). O medo resultante do diagnóstico da doença constitui-se
na possibilidade de uma maior
gravidade do estado da pessoa
(16).
No momento do diagnóstico, o medo é um dos primeiros sentimentos que invade a
mente das mulheres portadoras
do câncer de mama, assim como
o medo da morte. Isto porque o
câncer é quase sempre associado à morte e também a uma doença sem cura(8) .
A “autonomia” da paciente e de seus familiares é afetada pelos sentimentos decorren-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
tes do câncer, entre eles, o choque, a ansiedade, a negação e a
raiva. Em conseqüência disto,
surgem desafios que precisam
ser enfrentados com o apoio da
família (19).
Considerações finais
Através dos relatos das
entrevistadas, constatou-se que
o suporte familiar é fundamental
para as mulheres com câncer de
mama, para que possam ultrapassar os momentos de angústia
e medo vivenciados, após a confirmação do diagnóstico, constituindo-se, dessa forma, na base
de apoio e sustentação para o enfrentamento da doença.
A realização das entrevistas gerou grande expectativa,
pois abordar um tema como o
câncer de mama, poderia representar para as mulheres, lembranças de momentos de angústia e aflição advindos da doença,
por isso, esteve presente a incerteza das reações emocionais, das
tristezas ou alegrias que poderiam ser mobilizadas, a partir da
visita domiciliar. A superação da
ansiedade inicial se deu no
transcorrer dos diálogos, quando a insegurança mútua foi superada com naturalidade e tranqüilidade, sendo possível realizar a
entrevista conforme proposta do
estudo. A interação foi se concretizando através do diálogo, estabelecendo-se o vínculo, o que
constituiu em fator motivador
para a interação pesquisador,
pesquisada.
A entrevista propiciou
um momento para que as pacientes pudessem expressar seus
sentimentos sobre a experiência
vivenciada, sendo a vista domi-
Daniela do Nascimento, Narciso Vieira Soares.
ciliar considerada por estas, um
momento de encontro, uma oportunidade para livre manifestação. O estudo, além disso, possibilitou às mulheres identificar a
importância da presença de profissionais da saúde competentes,
responsáveis e comprometidos
com a saúde das pacientes.
Entende-se que o enfermeiro, ao realizar o planejamento de ações de cuidado à paciente com câncer, deve incluir a família como parte integrante da
assistência de enfermagem. É relevante atentar para os aspectos
que envolvem a dinâmica familiar, auxiliando esses familiares
no cuidado da paciente que está
fragilizada naquele momento. A
enfermagem necessita definir estratégias de cuidados à mulher,
que incluam o suporte familiar, a
informação em relação ao câncer de mama, incluindo os aspectos relacionados aos tratamentos necessários e seus efeitos colaterais. Deve-se proporcionar tranqüilidade e conforto à
paciente, estimulando a expressão de sentimentos e pensamentos que viabilizem a “construção de alternativas viáveis para
minimizar a alteração na imagem corporal e que incentivem
na execução de atividades ocupacionais que reduzam a tensão
emocional e encorajem a sua
participação em grupos de auto-ajuda”.
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Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
143
Atendimento humanizado: as representações sociais dos membros
da equipe de enfermagem do programa de saúde da família de uma
cidade sul mineira
The meaning of humanized care by the nurse members of the staff of the family health program in a
towm located in the southern region of the minas gerais state.
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda,
Amanda Gleice Fernandes Carvalho. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n25; (139-145).
Resumo
Trata-se de um estudo que teve como objetivo identificar o significado de atendimento humanizado para os membros da equipe de enfermagem do Programa Saúde da Família (PSF) de uma cidade sul
mineira. Este estudo foi do tipo descritivo, exploratório com abordagem qualitativa. A amostra foi
constituída de 22 participantes, sendo 4 enfermeiros e 18 auxiliares de enfermagem inseridos no PSF.
A amostragem foi do tipo proposital. A coleta de dados foi realizada mediante entrevista nãoestruturada, gravada e transcrita literalmente. As diretrizes metodológicas do Discurso do Sujeito
Coletivo foram utilizadas para a seleção das ideias centrais e expressões-chave correspondentes, a partir das quais foram extraídos os discursos dos sujeitos, no cenário do Programa Saúde da Família. Do
ponto de vista dos auxiliares de enfermagem, identificaram-se as seguintes ideias centrais sobre o
evento “O significado de Atendimento Humanizado no PSF”: “Ser educado”; “Colocar-se no lugar do
paciente”; “Interagir com o paciente”; “Mais humano”; “Atender com respeito” e “Tratar com amor”.
Para os enfermeiros: “Assistir holisticamente”; “Colocar-se no lugar do outro” e “Saber ouvir”. As
conclusões permitiram conhecer que o significado de atendimento humanizado no PSF é significativo
e primordial, porém, quanto mais conseguirmos associar conhecimento científico aos aspectos afetivos, mais próximos estaremos do cuidado humanizado.
Descritores: Programa saúde da família; atendimento humanizado; equipe de enfermagem.
Abstract
This study aimed to identify the meaning of Humanized Care by the nurse members of the staff of
the Family Health Program (PSF), in a town located in the southern region of the Minas Gerais State. It
was descriptive, exploratory and qualitative approach. The group consisted of 4 nurses and 18 assistants' nurses, all involved in the PSF. The sampling was at random. The collection data was done in an
interview which was recorded and transcript. The methodological guidelines of the group's speech
were used for the selection of the main ideas and corresponding key expressions extracted from the
subject's speech, all within the PSF. For the assistant nurses the main idea identified was: “ The meaning of the PSF humanized care” – Be polite, act like a patient, interact with the patient, be more human,
answer and respect all kind of questions and treat the patient with extreme care. And for the nurses:
Assist the patient holistically, act like a patient, and listen carefully to the patient. The conclusion allowed knowing the meaning of humanized care in the PSF.
Descriptors: Family health program; humanized care, the nursing staff.
144
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões. Mestre em Bioética. Enfermeira Docente do Curso de Especialização Saúde da Família e do Curso
de Graduação da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz.
Carlos Eduardo da Silva Marinho. Mestre em Bioética. Enfermeira Docente do Curso de Especialização Saúde da Família e do Curso
de Graduação da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz. Enfermagem de Ouro Fino. Especialista em Saúde da Família.
Elisângela Cássia Marques. Enfermeira. Especialista em Saúde da Família e UTI Neonatal
Larissa Dela Líbera Miranda. Enfermeira. Mestranda em Ciências da Saúde pelo IAMSP. Especialista em Saúde da Família
Amanda Gleide Fernandes Carvalho. Acadêmica de enfermagem do 4º ano, do primeiro semestre da Escola de Enfermagem Wenceslau
Braz, de Itajubá.
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda, Amanda Gleice Fernandes Carvalho.
de-se a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde:
usuários, trabalhadores e gestores. Os valores que norteiam essa política são a autonomia e o
protagonismo dos sujeitos, a coresponsabilidade entre eles, o estabelecimento de vínculos solidários e a participação coletiva
no processo de gestão. A humanização como política transversal, proposta pelo Ministério da
Saúde, na rede de saúde pública
implica em reafirmar os princípios do SUS, construindo trocas
solidárias e comprometidas,
com a tarefa de produção de saúde e produção de sujeitos, a fim
de contagiar com suas ações humanizadoras (7).
O Programa Saúde da
Família (PSF), ao se constituir
em uma estratégia de mudança e
reordenamento do modelo assistencial no Brasil, propõe-se a alavancar o Sistema Único de
Saúde (SUS) que, apesar dos
avanços jurídico-políticos, não
foi capaz de reverter o quadro sóciossanitário nacional, regional
ou local, permanecendo como
hegemônico, modelo assistencial individual, curativo, cujo centro é o hospital. Portanto, o PSF
é inovador em seu aspecto de relação interativa entre os profissionais de enfermagem e a comunidade, tratando-se, no entanto,
de um projeto complexo, pelas
suas tantas atribuições e propostas, mas que em muitos casos
tem obtido excelentes resultados e alcançado saídas criativas,
comprometidas e transformadoras (8).
Diante do que foi exposto, despertou-nos alguns questi-
146
onamentos: será que a equipe de
enfermagem reconhece o verdadeiro sentido da palavra “humanizar”? Visa à humanização do
atendimento no Programa
Saúde da Família? Sabe qual é o
significado de atendimento humanizado?
Sendo assim, elaboramos para essa pesquisa a seguinte questão: Qual o significado do
atendimento humanizado para
os profissionais da equipe de enfermagem do PSF? O propósito
de compreendermos o significado do atendimento humanizado
para a equipe de saúde, principalmente para a equipe de enfermagem do Programa Saúde da
Família, implica reconhecermos
que, nas nossas práticas diárias,
a implementação do cuidado humanizado faz-se necessário, pois ele é fundamental na qualidade da atenção prestada. No entanto, podemos observar que isso muitas vezes não ocorre, os
serviços de saúde ainda enfocam a medicina curativa, especializada, hospitalocêntrica e fragmentada.
Acreditamos que este estudo poderá despertar na equipe
de enfermagem do PSF e nas demais pessoas, gestores coordenadores, secretários de saúde,
acadêmicos e professores o interesse em repensar suas ações ao
atender o usuário, família e a comunidade, assim como, utilizarem forma mais efetiva a humanização na assistência prestada.
O objetivo desta pesquisa é identificar o significado de
atendimento humanizado para
os membros da equipe de enfermagem do PSF de uma cidade
sul mineira.
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
Metodologia
O estudo foi realizado
nas Unidades de Saúde da
Família (USF) do município de
Santa Rita do Sapucaí, localizado no sul de Minas Gerias que
tem uma população de 35.473
mil habitantes.
Como critério de inclusão foi escolhido como sujeitos
deste estudo às pessoas que fazem parte da equipe de enfermagem (enfermeiros e auxiliares),
que trabalham no Programa
Saúde da Família das áreas urbana e rural do município de Santa
Rita do Sapucaí, Minas Gerais e
aceitaram participar do estudo.
Na pesquisa em questão
a amostra foi de 22 profissionais
que formam a equipe de enfermagem, entre eles, auxiliares e
enfermeiros.
A amostragem foi intencional ou proposital, na qual o
pesquisador pode decidir e selecionar a maior variedade possível de respondentes, ou escolher
sujeitos típicos da população em
questão ou conhecedores do assunto em estudo (9).
O método utilizado foi o
Discurso do Sujeito Coletivo
(DSC). De acordo com as diretrizes do Discurso do Sujeito
Coletivo são utilizadas três figuras metodológicas: ExpressõesChave (ECH) são transcrições literais de cada entrevistado. Ideia
Central (IC), que é uma expressão linguística que descreve de
maneira sintética as ECH e o
Discurso do Sujeito Coletivo
(DSC), formado pelas ECH que
tem as respectivas IC e é redigido na primeira pessoa do singular (10).
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda, Amanda Gleice Fernandes Carvalho.
Introdução
Atualmente, discute-se a
necessidade de humanizar o cuidado, a assistência, a relação
com o usuário do serviço de saúde. O SUS instituiu uma política
pública de saúde que, apesar dos
avanços acumulados, hoje, ainda enfrenta fragmentação do processo de trabalho e das relações
entre os diferentes profissionais,
fragmentação da rede assistencial, precária interação nas equipes, burocratização e verticalização do sistema, baixo investimento na qualificação dos trabalhadores, formação dos profissionais de saúde distante do debate e da formulação da política pública de saúde, entre outros aspectos tão ou mais importantes
do que os citados aqui, resultantes de ações consideradas desumanizadas na relação com os
usuários do serviço público de
saúde (1).
O modelo assistencial
ainda predominante no país caracteriza-se pela prática “hospitalocêntrica”, pelo individualismo, pela utilização irracional
dos recursos tecnológicos disponíveis e com baixa resolubilidade (2).
O Programa Saúde da
Família (PSF) propõe uma nova
dinâmica para a estruturação
dos serviços de saúde, bem como para a sua relação com a comunidade e entre os diversos níveis de complexidade assistencial. Assume o compromisso de
prestar assistência universal, integral, equânime, contínua e acima de tudo resolutiva à população na unidade de saúde e no domicílio, sempre de acordo com
suas reais necessidades, identifi-
cando os fatores de riscos, aos
quais ela está exposta, e nele intervindo de forma apropriada
(2).
A efetivação e o resgate
de uma atenção humanizada exigem dos profissionais, não somente a competência técnica,
mas a vivência ética. Nesse sentido o ensino da bioética pode
fornecer instrumentos e novos
olhares, a determinadas situações, contribuindo para que o
profissional tenha uma visão diferente daquela que à prática lhe
impõe. Ainda, é preciso ter claro
que a qualificação e o aprimoramento dos membros da equipe
são cada vez mais necessários,
para que possam acompanhar as
mudanças no âmbito da saúde.
Ressaltamos aqui a necessidade
de que a capacitação dos profissionais compreenda também os
valores éticos. O cuidado humano não deve ser tratado como
uma intervenção sobre o paciente. A relação não é sujeitoobjeto, mas sujeito-sujeito.
Logo, a relação do cuidado não é
de domínio sobre, mas de convivência, não é pura intervenção e
sim entrar em sintonia com (3).
Humanizar é garantir à
palavra a sua dignidade ética.
Ou seja, o sofrimento humano,
as percepções de dor ou de prazer no corpo para serem humanizadas precisam que sejam reconhecidas pelo outro. Pela linguagem fazem-se as descobertas de meios pessoais de comunicação com o outro, sem o que
se desumaniza reciprocamente.
Isto é, sem comunicação não há
humanização. A humanização
depende da capacidade de falar e
de ouvir, pois as coisas do mun-
do só se tornam humanas quando passam pelo diálogo com os
semelhantes (1).
Humanizar caracterizase em colocar a cabeça e o coração na tarefa a ser desenvolvida,
entregar-se de maneira sincera e
leal ao outro e saber ouvir com
ciência e paciência as palavras e
os silêncios. O relacionamento e
o contato direto fazem crescer, e
é neste momento de troca, que
humanizo, porque assim posso
reconhecer-me e identificar-me
como ser humano (4).
A utilização do conceito
de humanização no campo da saúde é recente, não existindo, ainda, grande quantidade de pesquisas sobre o tema.
Humanização pode ser objeto de
distintas interpretações, as quais
orientarão as questões a serem
pesquisadas. Uma vez que o conceito de humanização está ligado ao paradigma dos direitos e a
cada dia surgem novas reivindicações de direitos, que se remetem às singularidades dos sujeitos, esse paradigma vem se tornando complexo e expandindo,
alcançando novas esferas sociais e discursivas (5).
Está se tornando um consenso que é necessário humanizar a assistência à saúde em nosso país. Humanizar significa reconhecer as pessoas, que buscam nos serviços de saúde a resolução de suas necessidades de saúde, como sujeitos de direitos.
Humanizar é observar cada pessoa em sua individualidade, em
suas necessidades específicas,
ampliando as possibilidades para que possa exercer sua autonomia (6).
Por humanização enten-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
145
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda, Amanda Gleice Fernandes Carvalho.
A realização deste projeto foi feita após aprovação do
Comitê de Ética da Escola de
Enfermagem Wenceslau Braz,
obedecendo à resolução 196/96
do CNS (Conselho Nacional de
Saúde), que diz respeito às pesquisas com seres humanos e os
participantes assinaram o Termo
de Consentimento Livre e
Esclarecido.
Resultados
O resultado apresentado
permite visualizar o tema explorado, suas IC e a síntese dos respectivos DSC de cada uma del a s . Te m a : A t e n d i m e n t o
Humanizado no PSF. A questão
dirigida aos entrevistados foi:
Para você o que significa atendimento humanizado no PSF?
Para os auxiliares de enfermagem as IC identificadas
nos discursos foram:
1ª IC: interagir com o paciente
DSC
[...] humanização no PSF é o
funcionário interagir bem com o
paciente formando um vínculo
profissional para que a evolução deste paciente seja mais
tranquila e sem contratempos
[...];
2ª IC: Colocar-se no lugar do paciente
DSC
Para mim atendimento humanizado é se colocar no lugar do paciente como se a gente invertesse os papeis [...] tem horas que a
gente tem que se colocar para
sentir o que o paciente está sen-
tindo [...].
3ª IC: mais humano
DSC
[...] atendimento humanizado
para mim significa um atendimento humano, ter vínculo com
o paciente, saber o nome do paciente, para atendermos melhor,
para ajudá-lo naquilo que é necessário [...].
4ª IC: Tratar com amor
DSC
1ª IC: assistir holisticamente
DSC
[...]. atendimento humanizado é
aquele que assiste o indivíduo
holisticamente em todas as suas
necessidades biopsicossociais,
desde o momento da concepção
até a velhice, enfim, todas as fases da vida[...].
2ª IC: Colocar-se no lugar do outro
DSC
[...] tratar o paciente com muito
amor, ser paciente e atendê-lo
nas suas necessidades. O PSF é
um tipo de atendimento humanizado porque atende o paciente
em casa[...].
[...] O atendimento humanizado
é tratar o indivíduo com empatia, se colocando no lugar dele,
compreendendo seus medos e angústias, desde o momento em
que o paciente chega na unidade
[...].
5ª IC: Atender com respeito
DSC
3ª IC: saber ouvir
DSC
[...]Significa ter respeito com as
pessoas, ouvir com atenção, ter
um tratamento com igualdade e
procurar atender em todas as suas necessidades [...].
6ª IC: Ser educado
DSC
[...] atendimento humanizado
no PSF é atender bem o paciente, ser educado, cordial, saber
explicar o que está acontecendo, não deixar com dúvida, passar segurança e principalmente
atender o paciente com carinho
[...].
Quanto aos DCS dos
Enfermeiros foi possível detectar as seguintes IC:
[...]A gente percebe que a carência dos pacientes é muito
grande e, muitas vezes, essa carência transforma em doença,
então se você recebe esse paciente de forma carinhosa, falando com um tom de voz agradável, dando atenção, ouvindo,
olhando nos olhos, ele se sente
agradecido, com isso, ele se torna satisfeito, então, sabendo ouvir esse paciente, às vezes não
tem necessidade realmente de
uma intervenção e uma consulta
médica [...].
Discussões
O programa de humanização do SUS prioriza sua atuação no atendimento de urgências
e emergências, gravidez e parto
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
147
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda, Amanda Gleice Fernandes Carvalho.
de alto risco, porém essas ações
devem expandir a todas as unidades de saúde. Acredita-se que
a humanização deva alcançar cada vez mais um espaço concreto
dentro do SUS, permitindo uma
melhora entre a postura dos profissionais de saúde na relação entre os mesmos e entre o usuário
(11).
O usuário busca em uma
instituição de saúde mais do que
a cura ou alívio. Ele busca preservar a vida, recuperar a saúde,
ser tratado de forma holística,
com solidariedade e outros aspectos que ultrapassam a técnica. Entre os enfermeiros, “assistir holisticamente” foi a ideia
central com mais frequência, em
seguida: ”Saber ouvir” e “Colocar-se no lugar do outro”.
Quanto aos auxiliares, o
significado de cuidado humanizado foi: ”Colocar-se no lugar
do paciente” e “interagir com o
paciente”. Podemos confirmar
nas falas dos entrevistados: “...
Atendimento humanizado é
aquele que assiste o indivíduo
holisticamente em todas as suas
necessidades biopsicossociais,
desde o momento da concepção
até a velhice, enfim, todas as fases da vida...”
“A gente percebe que a
carência é muito grande dos pacientes e muitas vezes essa carência transforma em doença,
então se você recebe esse paciente de forma carinhosa, falando com um tom de voz agradável, dando atenção, ouvindo,
olhando nos olhos deste paciente ele se sente agradecido muitas vezes e com isso, ele se torna
satisfeito...”
Outro aspecto relevante
148
é que a humanização deve ser
parte da filosofia de enfermagem. O ambiente físico, os recursos materiais e tecnológicos
não são mais significativos do
que a essência humana. Essa,
sim, irá conduzir o pensamento
e as ações da equipe de enfermagem, principalmente do enfermeiro, tornando capaz de criticar e construir uma realidade mais humana (12).
Em saúde, humanizar é
um processo de busca que oferece ao paciente um tratamento
que envolva a totalidade, o bem
estar físico, psíquico, social e
moral. Envolve também autocuidado, comunicação, postura
profissional, ou seja, é um resgate a subjetividade do paciente.
Na humanização, o profissional
e o paciente possuem os mesmos
sentimentos e os mesmos anseios, logo, é uma via de mão dupla, existe um feedback (13).
O cuidado acompanha
valores que direcionam a paz, ao
amor e ao respeito. É o modo do
enfermeiro se relacionar com o
paciente, aplicando conhecimentos e atitudes que são influenciadas por fatores pessoais e
profissionais. Os serviços de saúde pública ainda têm ações voltadas para a doença e não a pessoa (14).
Assim ouvimos dos auxiliares:
“... Conhecer a pessoa, aquele
paciente, mas conhecer a pessoa como pessoa, não como a doença ou patologia só, às vezes
conhecer tudo. Humanização no
PSF é o funcionário interagir
bem com o paciente formando
um vínculo profissional para
que a evolução deste paciente seja mais tranquila e sem contra-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
tempos...”
Muitas vezes o cuidado
é fragmentado, despersonalizado podendo trazer implicações à
população e sua saúde. A humanização inclui cortesia, carinho
e a competência é um requisito
também essencial a qualquer
profissional, mais o que o paciente espera do profissional é a
atenção. Um paciente não sabe
diferenciar se um procedimento
foi executado corretamente ou
não, mas esse percebe a maneira
humana ou não com que está sendo cuidado (13). Os enfermeiros
confirmaram em suas falas:
“...Atendimento humanizado é a
gente tratar bem, ser cordial, é
passar todas as informações necessárias que ele precisa, é ajudar o nosso próximo, é dever e
obrigação ser bem humano, se
colocando no lugar do paciente...”
“Acredito que atendimento humanizado é atender o paciente
desde a sua chegada a unidade
até o seu atendimento, olhandoo como um todo, independente
da sua raça, escolaridade ou situação financeira...”.
Cada usuário precisa ser tratado
como único, considerando o valor e a dignidade. O cuidado humano precisa valorizar a pessoa
em seu ambiente social, e não
apenas as técnicas e os procedimentos (15).
Assim narraram os enfermeiros:
“... A humanização no PSF é você acolher o paciente desde a hora que ele chega à sua unidade
de atendimento até na hora que
ele vai pra casa, se estendendo
também no seu domicilio, com
seus familiares, pois muitas ve-
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda, Amanda Gleice Fernandes Carvalho.
zes, o problema dele não se resume a unidade de saúde...” É necessário sabermos mais, por isso
o PSF tem como meta o vínculo,
a necessidade de entender e apoiar esse paciente na resolução dos
problemas.
No caminho para a prática humanística é preciso amor,
as pessoas devem ser amadas
porque é gente e amor que reflete a ética. O cuidado precisa vir
acompanhado de estima, solidariedade, compaixão, amor e afeição. O cuidado, no contexto da
humanização é um dever da pessoa e do profissional, pois o poder de transformar pelo amor e
compaixão não são dons especiais de uma minoria. As relações
de cuidado não são de domínio
sobre, mas de convivência, de interação. É o resgate dos pequenos eventos que tornam o ser humano único e especial, prestando atendimento personalizado
(16).
Responderam os auxiliares que: “Atendimento humanizado ao paciente significa estar sempre pronto e apto para
atender às suas necessidades,
tratando sempre com amor, atenção, dedicação de acordo com
as suas necessidades”. Tratar o
paciente com muito amor, ser paciente e atendê-lo nas suas necessidades.
Vivemos numa era de internet, que em frações de segundo nos aproximamos de pessoas
e lugares, porém, não conseguimos estabelecer vínculos com
quem está ao nosso lado no diaa-dia, precisamos nos educar a
fim de usarmos efetivamente da
comunicação (15). Como referiram os enfermeiros: “...Atendi-
mento humanizado é o atendimento em que há um respeito entre enfermeiro e paciente, havendo assim uma boa comunicação e um bom relacionamento
entre ambos...’’
O bom relacionamento é
estabelecido a partir da empatia,
pois conforme Puggina (17) a
empatia é o radar do convívio social e a partir da empatia é que se
cria vínculos. As pessoas revelam aquilo que sentem não apenas com palavras, mas pela sua
expressão facial, olhar e outros.
Dar atendimento humanizado requer dedicação e saber
falar palavras de conforto, segurança e carinho (17). E os profissionais de saúde, sobretudo o enfermeiro, precisam desenvolver
essa sensibilidade de criarem
vínculos que favoreçam a assistência através de um bom relacionamento, ou seja, um relacionamento empático.
A interação é a essência
da vida social. É partir do relacionamento de seus membros que
os indivíduos tornam-se um grupo. E grupo é um conjunto de
pessoas que interagem (18).
Podemos entender a humanização como um conjunto
de coisas que se apresentam totalmente interligadas: a valorização dos sujeitos (usuários, trabalhadores, gestores), melhoria
das condições de trabalho entre
outros fatores que são necessários na área de saúde. O que nos caracteriza como seres humanos é
a necessidade de interagir com o
outro, principalmente no que diz
respeito ao carinho, atenção e no
apoio emocional. Para tornar o
relacionamento com o usuário
mais humanizado precisamos es-
tar abertos, prestando mais atenção aos gestos, a palavras e bem
como as expressões faciais.
Quanto mais conseguirmos associar conhecimento científico aos
aspectos afetivos mais próximos
estará do cuidado humanizado
(19).
Conclusão
Essa pesquisa permitiu
diante das ideias centrais encontradas perceber que o atendimento humanizado no PSF requer que os usuários sejam tratados segundo suas necessidades e
os profissionais devem procurar
dar um cuidado holístico, tratálo com respeito e amor, ser educado e humano, interagir com o
paciente, saber ouvir e, sobretudo colocar-se no lugar dele. É
preciso que as equipes de PSF estejam imbuídas quanto a essas
propostas e serem estimuladas a
trabalhar com um atendimento
mais humanizado.
O cuidado humanizado
passa pelo resgate dos pequenos
eventos que fazem o ser humano
ser único e especial nas diferentes situações, principalmente
quando se almeja prestar atendimento personalizado voltado para o ser humano e não para a doença. Um gesto de acolhida, um
ambiente agradável, um exame
no dia e horário agendados, um
sistema de informação integrado, materiais e recursos de qualidade entre outros fazem muita
diferença.
A transformação do modelo assistencial e a humanização do atendimento requerem
que os profissionais, que atuem
nas equipes de Saúde da Família
(médicos, enfermeiros, auxilia-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
149
Ivandira Anselmo Ribeiro Simões, Carlos Eduardo da Silva Marinho, Elisângela Cássia Marques, Larissa Dela Líbera Miranda, Amanda Gleice Fernandes Carvalho.
res de enfermagem e agentes comunitários), tenham responsabilidade individual de esclarecer
os usuários sobre as questões
que lhes são mais afeitas, assim
como criar condições para o estabelecimento de uma cultura institucional de informação, comunicação e humanização que leve
em conta as condições sócioculturais de cada comunidade
atendida.
Com o avanço científico
tecnológico e a modernização
de procedimentos, o enfermeiro
passou a assumir cada vez mais
encargos administrativos, afastando-se gradualmente do cuidado ao paciente, surgindo com
isso à necessidade de resgatar os
valores humanísticos da assistência de enfermagem.
Observamos que a enfermagem vem a cada dia despertando para um redirecionamento de seu papel enquanto um ser cuidador que se
envolve com os outros, ou seja,
enfermagem é a arte de cuidar. E
o cuidado humanizado é uma
dessas estratégias.
Apesar de a literatura ressaltar a necessidade da humanização dos usuários dos serviços
de saúde, pouco se sabe a respeito da implantação e dos resultados de medidas que visem minimizar a impessoalidade do cliente. Na enfermagem, embora
de forma indireta, a humanização do paciente foi enfocada no
século XIX, por Florence
Nightingale. Em seu livro de título Notas Sobre Enfermagem, em
vários momentos, ela sugere maneiras para o melhor restabelecimento dos pacientes através da
adoção de medidas ambientais
150
proporcionados pelos enfermeiros. Através dos seus escritos,
percebemos que naquela época,
ainda que o foco principal da assistência fosse o ambiente, a humanização já estava implícita na
atuação da enfermagem. Hoje,
passados um século e meio, a
questão da humanização ainda
consiste num desafio para a profissão que precisa se adequar às
demandas tecnológicas, econômicas e sociais todas elas com
forte tendência a desumanização (20).
A partir do exposto, sugerimos que outros trabalhos dessa
natureza sejam realizados a fim
de que novas estratégias sejam
promovidas e gradativamente
possamos intervir proporcionando melhor atendimento ao
usuário.
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Práticas comprovadamente úteis e que devem ser estimuladas
durante o trabalho de parto e parto, que estão sendo realizados
por enfermeiras obstétricas: revisão de literatura
Provenly useful practices that are being carried out by obsterician nurses which should
bencouraged during labor and parturition: literature review
Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n25; (148-155).
Resumo
As taxas de morbi mortalidade materna e neonatal e de partos cesariana chegaram a índices preocupantes no Brasil. Para reverter este quadro o Ministério da Saúde (MS) criou leis, portarias, manuais e financiou e incentivou cursos de especialização em enfermagem obstétrica. Essas especialistas estão aptas a assistir a mulher durante o pré natal, parto e puerpério, prestando uma assistência humanizada e em consonância com as práticas para a assistência recomendadas pela
Organização Mundial de Saúde (OMS). Assim sendo, este estudo buscou através de um levantamento bibliográfico, conhecer as quais práticas de assistência comprovadamente úteis e que devem
ser estimuladas, estão sendo utilizadas pelas enfermeiras obstétricas durante o trabalho de parto e
parto. Foram selecionados 31 trabalhos nacionais e 22 internacionais, das bases de dados ScieLo,
BDEnf, Dedalus, Lilacs, MedLine, Ibecs, Cochrane e PubMed, no período de 2005 a 2009. As práticas utilizadas abordaram a qualidade da atenção oferecida, autonomia e capacidade de atuação,
assistência nos centros de parto normal, posição adotada durante o trabalho de parto e parto, técnicas alternativas de alívio a dor, alimentação durante o trabalho de parto, utilização do partograma,
suporte emocional, presença de acompanhante, realização de episiotomia, taxas de parto operatório
e importância do pré natal. Concluiu-se que apesar do número de publicações realizadas pelas enfermeiras obstétricas estar aumentado, ainda é necessário que elas se organizem melhor, buscando
realizar mais estudos e divulgação de sua atuação.
Palavras chave: Enfermeiras obstétricas; Práticas de assistência; Trabalho de parto; Parto normal.
Abstract
Maternal, neonatal and Cesarean section mortality rates have reached worrying indexes in
Brazil. To change this picture the Ministry of Health has created laws, decrees and guides, and has
also financed and promoted graduate specializations in obstetric nursing. These graduate nurses
are qualified to assist women during prenatal, parturition and puerperium, delivering a humanized
assistance according to the assistance practices recommended by World Health Organization
(WHO). Thus, this study has tried to know, by means of a bibliographical survey, which assistance
practices are being used by obstetrician nurses during labor and parturition, that are provenly useful and that should be encouraged, 31 national and 22 international studies were selected from
ScieLo, BDEnf, Dedalus, Lilacs, MedLine, Ibecs, Cochrane and PubMed databases, between 2005
and 2009. The practices used approached the quality of the attention given, autonomy and capacity
of action, assistance in normal birth centers, position adopted during labor and parturition, alterna-
152
support, presence of companion, episiotomy, Cesarean section rates and importance of prenatal care. It was concluded that despite the fact that the number of publications carried out by obstetrician
nurses is increasing, they still need to be better organized, to carry out more studies and divulge
their actuation.
Key words: Obstetrician nurses; assistance practices, labor, normal birth.
Torcata Amorim. Mestre em Enfermagem. Doutoranda em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo
– EEUSP.Docente do Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem – Universidade
Federal de Minas Gerais. Enfermeira Obstetra (EEUFMG).
Dulce Maria Rosa Gualda. Doutora em Enfermagem. Obstetriz.Professora Titular do Departamento de Enfermagem MaternoInfantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo.
153
Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda.
INTRODUÇÃO
As taxas de mortalidade materna e neonatal e de parto cesariana no Brasil, apesar de sofrerem diferenças nas diversas camadas sociais e regiões, podem
ser consideradas um problema
de saúde pública no geral. O índice de morte materna atingiu a
marca de 51,7 óbitos declarados
por 100.000 nascidos vivos em
2003. O cálculo do Coeficiente
de Morte Materna (CMM) sofre
interferência devido à subinformação, que resulta do preenchimento incorreto das declarações
de óbito e/ou, por se omitir que a
morte teve causa relacionada à
gestação, ao parto ou ao puerpério. E também, devido ao subregistro, que é a omissão do registro do óbito em um cartório.
Assim, o CMM estimado é de
72,4 /100.000 nascidos vivos.
Os maiores valores são encontrados nas regiões Nordeste e
Centro-Oeste, e o menor na região Sudeste. As principais causas de morte são as obstétricas diretas, com destaque para as doenças hipertensivas e as síndromes
hemorrágicas (). Nos países desenvolvidos, as razões de mortalidade materna são em geral, inferiores a 20/100.000 ou
10/100.000 nascidos vivos (2).
Os partos cesariana representam 46% dos partos realizados no Brasil, sendo que, a
Organização Mundial da Saúde
recomenda que essas cirurgias
devam corresponder a no máximo 15% dos partos(3). A incidência de morte materna associada à cesariana é 3,5 vezes maior
do que no parto normal (4).
Esta situação reflete as
154
condições de assistência que a
população feminina em fase reprodutiva está submetida, já
que, muitos partos cesariana e
mortes maternas poderiam ser
evitadas. Segundo Cecatti,
Calderon (5), a atenção profissional à gestante e/ou parturiente
representa seguramente elemento chave para a obtenção de bons
resultados, tanto maternos quanto perinatais. Assim, melhores
condições da atenção profissional e institucional ao parto, independentemente de outras características das mulheres, são capazes de diminuir a ocorrência de
morbidade materna grave e de
mortes maternas.
Diante deste quadro, o
Ministério da Saúde do Brasil
criou leis, portarias e manuais,
buscando uma assistência mais
humanizada e reverter estas taxas. Dentre as medidas adotadas
podemos destacar o Programa
de Humanização do Pré-natal e
Nascimento (PHPN)(6); a publicação do manual “Parto,
Aborto e Puerpério: Assistência
Humanizada à Mulher”(7); o
Pacto de Ação para Redução da
Mortalidade Materna(8); a inclusão na tabela do Sistema Único de Saúde (SUS), o pagamento pelo parto normal sem distócia realizado pela enfermeira
obstétrica(9); a aprovação do laudo de enfermagem para emissão de Autorização de
Internação Hospitalar (AIH) para parto normal(10); o Prêmio
Galba de Araújo que premia maternidades que atendem ao SUS
e que desenvolvem ações de humanização à gestante e ao recém-nascido, estimulam o parto
normal, alojamento conjunto e
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
aleitamento(11) e a criação de
Centros de Parto Normal no âmbito do SUS, onde a enfermeira
obstétrica é membro da equipe
mínima(12).
A Organização Mundial
da Saúde (OMS), Confederação
Internacional de parteiras (CIF)
e a Federação Internacional de
Ginecologia e Obstetrícia
(FIGO), consideram que, dentre
os prestadores de serviços de parto, a enfermeira-parteira, é uma
profissional que recebeu treinamento adequado e que está apta
para assumir a responsabilidade
pela assistência à gestação e ao
parto normal, com competência
para agir de modo decidido e independente (13).
Mulheres em trabalho de
parto quando acompanhadas por
profissionais não médicos, necessitam de menos analgésicos,
há menos intervenções e os resultados finais são melhores que
aqueles produzidos pela assistência médica convencional
(14,15). Nos países industrializados, onde as parteiras são os
provedores de saúde primários
de mulheres saudáveis durante o
parto, os resultados maternos e
neonatais são mais favoráveis,
incluindo menores taxas de mortalidade perinatal e menores taxas de cesariana, que nos países
em que muitas mulheres saudáveis, ou a maioria delas, são atendidas por obstetras durante a gravidez (16).
A experiência exitosa de
alguns países, bem como, as medidas adotadas pelo Ministério
da Saúde, incentivou a atuação
de enfermeiras obstétricas, porém não havia no mercado, especialistas disponíveis, conforme
Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda.
observam Maranhão et al.:
“existe uma deficiência de profissionais que atuam na área materno-infantil, dentre eles, enfermeiras obstetras e parteiras profissionais”(17:20). Buscando
atender o espaço de atuação que
se abria para as enfermeiras obstétricas, o Ministério da Saúde,
Associação Brasileira de
Obstetrizes e Enfermeiros
Obstetras (ABENFO), escolas
de enfermagem e profissionais
da área se mobilizaram para discutir modelos de formação para
estas profissionais. Então, no final da década de 1990, o
Ministério da Saúde, através da
Área Técnica de Saúde da
Mulher, passou a financiar cursos de especialização em enfermagem obstétrica em todo o país
(18).
Em 2005, durante a II
Conferência Internacional sobre
Humanização do Parto e
Nascimento, as recomendações
para promover a incorporação
das práticas humanizadas na assistência ao parto e nascimento
em todo o mundo foram reforçadas (19), confirmando a importância da atuação das enfermeiras obstétricas neste modelo de
assistência. Para Costa (20), estas profissionais estão começando a desenhar um novo cenário
na assistência humanizada à mulher no pré-natal, parto, nascimento e puerpério, no Brasil.
Mas infelizmente, a atuação destas profissionais ainda
não foi suficiente para mudar o
quadro de assistência. Segundo
Brasil (21), apesar da estabilização nos índices de mortalidade
materna, associado à melhoria
da qualidade da atenção obsté-
trica e ao planejamento reprodutivo a partir do ano 2000, a assistência ao parto e nascimento ainda é marcada pela medicalização, intervenções desnecessárias e iatrogênicas, e pela prática
abusiva de cesarianas.
Buscando humanizar a assistência, a OMS recomendou a
utilização das seguintes medidas: implementação da assistência pré-natal, organização de sistemas de atenção à gestante de alto risco, redução das taxas de parto cesárea, promoção do parto
normal, investimentos em reformas de maternidades, publicação de normas técnicas atualizadas de atendimento durante o
pré-natal, gestação e, em situações de alto risco e emergências
obstétricas. Recomendou ainda,
que se respeitasse o processo fisiológico e a dinâmica de cada nascimento, e que, as intervenções
sejam cuidadosas, evitando-se
os excessos e utilizando-se criteriosamente os recursos tecnológicos disponíveis. A OMS ainda classificou as práticas relacionadas ao parto normal em quatro categorias: A) Práticas comprovadamente úteis e que devem ser estimuladas; B) Práticas
claramente prejudiciais ou ineficazes e que devem ser eliminadas; C) Práticas em relação às
quais não existem evidências suficientes para apoiar uma recomendação e que devem ser utilizadas com cautela, até que novas pesquisas esclareçam a questão e D) Práticas freqüentemente utilizadas, de modo inadequado (13).
Dentre as práticas comprovadamente úteis e que devem ser estimuladas durante o
trabalho de parto e parto, destacamos a elaboração de um plano
pessoal de parto; acompanhamento do bem estar físico e emocional da mulher; o oferecimento de líquidos por via oral; respeito à mulher em relação à escolha do local de nascimento e avaliação da segurança para o acontecimento do parto; privacidade
e escolha de um acompanhante;
oferecer apoio e informações da
evolução e assistência; utilização de métodos de massagem e
técnicas de relaxamento para alívio da dor; liberdade na escolha
da posição e movimento; utilização do partograma; promoção
precoce do contacto pele a pele
entre mãe e filho e início do aleitamento na 1 hora de pós-parto
(13).
No Brasil, a atuação das
enfermeiras obstétricas está pautada no Decreto lei n° 94.406
que regulamenta a Lei n°7.498
de 25 de junho de 1986 que em
seu artigo 9° faz referência aos
profissionais titulares de diploma ou certificado de obstetrizes
e enfermeiras obstetras, incubindo-as de: 1) prestar assistência à parturiente e ao parto normal; 2) identificar as distócias
obstétricas e tomada de providências, até a chegada do médico; 3) realizar episiotomia e episiorrafia, com aplicação de anestésico local, quando necessário
(22).
Diante da deliberação
destas medidas e da maior participação da enfermeira obstétrica
no cenário de assistência ao parto e nascimento, sentimos necessidade de conhecer através
de publicações, quais práticas
não farmacológicas e não inva-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
155
Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda.
sivas estão sendo utilizadas/aplicadas por estas profissionais, as parturientes.
Objetivo
Identificar, através de um levantamento bibliográfico de publicações científicas nacionais e
internacionais, quais práticas de
assistência comprovadamente
úteis e que devem ser estimuladas, estão sendo utilizadas pelas
enfermeiras obstétricas durante
o trabalho de parto, visando uma
atenção humanizada.
Método
Para realizar esta pesquisa, buscando atender ao rigor
necessário a um trabalho científico, primeiramente foram definidos alguns critérios de inclusão. Os trabalhos teriam que deixar claro a utilização de práticas
que, segundo a OMS, são comprovadamente úteis e devem ser
estimuladas; qual prática foi utilizada e, a participação de enfermeiras na atividade. Definiu-se
como critério de exclusão a falta
de acesso ao trabalho na íntegra.
Diante destes critérios foram selecionados 53 artigos, dissertações e teses encontradas nas bases de dados ScieLo, BDEnf,
Dedalus, Lilacs, MedLine,
Ibecs, Cochrane e PubMed no
período de 2005 a 2009. A consulta à base de dados foi realizada através dos descritores: enfermeira obstétrica / obstetrical
nursing, obstetriz / midwive; trabalho de parto / labor; assistência / assistence. Para a seleção
dos artigos, inicialmente foi realizada uma avaliação de cada re-
156
sumo e excluído os artigos, cujo
resumo deixava claro a não afinidade com o tema proposto.
Posteriormente foram analisados os trabalhos restantes, chegando-se ao número de 53. Os artigos que não estavam disponíveis on line foram encomendados através da biblioteca Baeta
Viana – UFMG. O levantamento
foi finalizado quando se percebeu um esgotamento dos trabalhos e sua repetição nas bases de
dados.
Resultado e Discussão
Foram selecionados 31
(trinta e um) artigos nacionais e
22 (vinte e dois) internacionais
que abordavam direta ou indiretamente as práticas de assistência utilizadas. Alguns trabalhos
citavam a utilização de mais de
um método comprovadamente
útil e que deve ser estimulado na
assistência durante o trabalho de
parto e parto.
A qualidade da atenção
prestada por enfermeiras obstétricas, visando uma melhor assistência, conforto, participação
da parturiente e melhores resultados durante o trabalho de parto
e parto, foi o assunto mais debatido, ressaltando-se a importância do acompanhamento e suporte da profissional. Foi frequente nos artigos, referência a
importância da privacidade durante o processo de parturição,
fazendo parte da qualidade da assistência. Para Brasil (23) o bem
estar físico e emocional da mulher contribuem para o bom desenvolvimento do trabalho de
parto e favorecem a redução dos
riscos e complicações. Para tanto, é necessário o respeito ao di-
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reito da mulher à privacidade, a
segurança e conforto, com uma
assistência humana e de qualidade, aliado ao apoio familiar durante a parturição, transformando o nascimento num momento
único e especial. Segundo a
OMS (24) a privacidade da mulher no ambiente de parto deve
ser respeitada e, uma parturiente
necessita de seu próprio quarto,
onde o número de prestadores de
serviço deve ser limitado ao mínimo essencial.
Autonomia e capacidade
de atuação, e de tomada de decisão das profissionais foi ressaltado, como sendo fator importante para o sucesso dos resultados do trabalho desenvolvido.
Os artigos que abordavam a atenção oferecida nos
Centros de Parto Normal (CPN)
eram mais explícitos quanto às
práticas utilizadas, às necessidades das parturientes, à satisfação
das profissionais e clientela com
o trabalho oferecido e, a motivação e dificuldades das profissionais para o desenvolvimento das
práticas. A experiência positiva
da assistência em um centro de
parto normal foi apresenta no trabalho de Campos e Lana (25),
que investigaram os resultados
do CPN Dr. Davi Capistrano
Filho em Belo Horizonte - MG.
Os autores concluem que os resultados daquele centro não se
distanciam dos resultados encontrados na literatura disponível, e destaca a baixa taxa de parto cesárea (2,2%), como o resultado mais significativo.
A posição adotada pela
parturiente durante o parto apareceu em artigos nacionais, comparando a posição adotada, com
Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda.
a integridade do períneo, trauma perineal e paridade. O trabalho internacional avaliou a integridade do períneo, edema vulvar e perda sanguínea, com a posição adotada no período expulsivo. A OMS recomenda que as
parturientes adotem as posições
que lhe agradem, devendo ser estimuladas por profissionais capacitados, e que acompanhem partos em outras posições, além da
tradicional. Em posições diferentes da litotomia, os escores
de Apgar foram melhores(13).
Mouta et al.(26) alerta que a posição vertical requer dos profissionais cuidados específicos em
relação à proteção perineal, de
modo a evitar a episiotomia ou a
laceração.
A literatura nacional
mencionou as massagens e banho como técnicas alternativas
de alívio à dor e a internacional
citou técnicas de respiração. A
prática de colocar a gestante para deambular foi encontrada em
um artigo que comparou o tempo de duração do trabalho de parto em parturientes que deambularam, com as que permaneceram no leito. Almeida, et al. (27)
realizaram um estudo utilizando
técnicas de respiração e relaxamento em 36 parturientes, sendo
17 do grupo controle (GC) e 19
do grupo experimental (GE), de
uma maternidade pública de
Goiânia – GO, a pesquisa concluiu que as técnicas utilizadas
não reduziram a intensidade da
dor, mas promoveram ao GE a
manutenção de baixo nível de ansiedade-estado (condição transitória de tensão diante de uma circunstância percebida como ameaçadora), por maior tempo na
parturição (fase latente e ativa).
A especificação da dieta
oferecida durante o trabalho de
parto foi encontrada em um artigo internacional, que comparava a ocorrência de distócia de dilatação cervical em um grupo de
mulheres que receberam dieta líquida, com um grupo que recebeu dieta rica em carboidratos,
constatando-se que não houve diferença significativa entre os
grupos. Segundo a OMS (13), a
adoção de dietas branda para repor as fontes de energia requeridas no trabalho de parto, previne
a desidratação e a cetose, garantindo o bem-estar fetal e materno. Portanto, a oferta de líquidos
e alimentos leves por via oral à
parturiente, respeitando o seu desejo, além de não interferir no desenvolvimento do trabalho de
parto e parto, pode ser benéfico.
A abordagem sobre a utilização do partograma foi feita
ao se avaliar a sua eficácia, sua
utilização ou não na instituição e
o preenchimento correto. O partograma é a representação gráfica do trabalho de parto, permitindo acompanhar sua evolução,
documentar, diagnosticar alterações e indicar a tomada de condutas apropriadas para a correção dos possíveis desvios. É um
método simples e ajuda a evitar
intervenções desnecessárias
(23).
Os artigos ressaltaram as
vantagens do suporte emocional
dado pelo acompanhante durante o processo de parturição. Os
resultados enfatizavam a importância do acompanhante de escolha da parturiente e a segurança
e conforto que são transmitidos
por eles, repercutindo em resul-
tados positivos. A presença de
um acompanhante de escolha da
parturiente e puérpera está respaldada na Portaria N° 2418 06
de dezembro de 2005(28), porém, este procedimento ainda
não acontece rotineiramente em
muitas maternidades do país.
Alguns artigos nacionais
mostram a preocupação com o
número de episiotomias, e a necessidade de avaliação do períneo para sua indicação correta,
bem como a necessidade de mudança desta prática, tão amplamente difundida. O uso liberal
ou rotineiro da episiotomia está
inserido no grupo D da publicação da OMS, que aborda as condutas frequentemente utilizadas
de forma inapropriadas (13).
A comparação do número de partos normais x partos cesarianos nas instituições, e os
motivos para indicação da cirurgia, foram mais encontrados em
trabalhos nacionais, mostrando
a preocupação dos profissionais
com estes dados.
Os descritores para o levantamento dos artigos não
abrangiam a assistência prénatal, porém, fazemos destaque
aos artigos que abordavam mais
de uma prática sendo utilizada e,
dentre elas, discutiam a importância do preparo da gestante durante o pré natal. Este momento
apareceu nos trabalhos como de
suma importância para informar
e preparar as gestantes e familiares para o trabalho de parto e parto, passar-lhes segurança, e reduzir com isto, a ansiedade. Esses
procedimentos realizados durante o atendimento de pré natal,
se mostraram importantes aliados no incentivo ao parto nor-
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157
Torcata Amorim, Dulce Maria Rosa Gualda.
mal. Segundo a OMS (24), uma
importante tarefa do parteiro é
ajudar as mulheres a suportar a
dor durante o trabalho de parto.
E, além do alívio farmacológico, é fundamental, e mais importante, a abordagem não farmacológica, que deve ser iniciada
durante o pré-natal com o fornecimento de informações tranqüilizadoras à gestante e ao seu
companheiro, e também à sua família, se necessário. Outro fator
que contribui para diminuir a necessidade de analgesia farmacológica é o apoio empático de
prestadores de serviço e acompanhantes, antes e durante o trabalho de parto.
Considerações finais
Observamos durante a revisão de literatura que a produção da enfermagem obstétrica
vem aumentando nos últimos
anos e, muitos destes trabalhos
são frutos de dissertações e teses, o que mostra um maior número de profissionais se qualificando. O pré requisito de analisar o trabalho na íntegra atende
ao rigor do trabalho científico,
mas excluiu alguns trabalhos,
uma vez que, não estavam disponíveis por completo on line e,
a encomenda no sistema de comutação era muitas vezes onerosa e demorada. A inclusão de
artigos que indiretamente abordavam a prática utilizada, como
por exemplo, a comparação do
tempo de trabalho de parto em
parturientes com movimentação
ativa e em repouso, contribuiu
para que mais artigos pudessem
ser incluídos.
Vemos nos artigos anali-
158
sados que as práticas comprovadamente úteis e que devem ser
estimuladas na assistência ao
parto de baixo risco, realizadas
por enfermeiras obstétricas, tem
aparecido, de modo ainda tímido. Poucos trabalhos mostraram
de forma direta as práticas utilizadas, seus resultados quantitativos e qualitativos.
A Pesquisa Nacional de
Demografia e Saúde da Criança
e da Mulher – 2006(29), verificou que 98% dos partos no
Brasil ocorrem em hospitais, porém, destes, 89% são assistidos
por médicos e 8,3% por enfermeiras. Estes resultados podem
justificar parcialmente o número reduzido de trabalhos encontrados, abordando as atividades
desempenhadas pelas enfermeiras obstétricas.
A mesma pesquisa (29)
mostrou que o alívio da dor através de métodos não invasivos e
não farmacológicos e a presença
do acompanhante, somadas às
medidas farmacológicas (analgesia peridural) são pouco aplicadas, visto que foram encontradas somente em 28% para a utilização dos métodos, e 16%, para a presença do acompanhante.
Buscou-se com os achados internacionais, apesar de
não serem objetos deste estudo,
identificar as práticas que mais
aparecem nos artigos de outros
países. Entende-se que, os trabalhos internacionais merecem um
levantamento e avaliação independentes, uma vez que em muitos países, a atuação da enfermeira obstétrica, obstetriz ou matrona já está consolidada, e em
outros não.
Concluímos que compe-
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te às profissionais se organizar
melhor, buscando meios de realizar estudos freqüentes e confiáveis, que permitam tornar públicos os resultados obtidos através de seu trabalho. A partir destes resultados, de preferência
qualitativos e quantitativos, novas metas de assistência poderão ser traçadas. Consideramos
ser esta uma forma eficaz de contribuir para a melhoria da qualidade da assistência e redução
das taxas de morbi mortalidade
materna e neonatal e de partos cesárea.
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Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
159
Aleitamento materno exclusivo: fatores norteadores para sua
prática
Exclusive breastfeeding: guiders factors for its practice
Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira
Souza. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n25; (156-164).
Resumo
Estudo de abordagem qualitativa realizado em uma Unidade Básica de Saúde do município de
Juiz de Fora/MG, após aprovação do Comitê de Ética da UFJF, parecer nº 143/2007. Foram depoentes onze mulheres, amamentando filhos com até seis meses de idade, com o objetivo de compreender o significado do aleitamento materno exclusivo para as mães que amamentam descrevendo
os fatores incentivadores e norteadores dessa prática. Utilizou-se a entrevista aberta mediante relação empática e a redução de pressupostos com vistas ao desenvolvimento da análise compreensiva
fenomenológica na perspectiva heideggeriana. Foram constituídas quatro unidades de significação
- O leite como principal alimento para o bebê e a importância da amamentação; Sentimento de
aproximaçãracto e contato mãe/filho ao amamentar; Facilidades e dificuldades do dia-a-dia da amamentação; Dúvidas que emergem da prática da amamentação exclusiva. A análise compreensiva
desvelou que as mulheres mostraram-se como ser-aí-com porque buscaram dialogar com os enfermeiros em face da possibilidade de amamentar até o sexto mês. Nesse sentido o apoio e auxílio para o processo de viver a amamentação de forma saudável exigem uma relação assistencial empática e de diálogo com as mulheres/mães.
Descritores: Saúde da mulher, aleitamento materno, enfermagem em saúde comunitária
Abstract
Study of qualitative approach realized in a Basic Unit of Health of the Juiz de Fora/MG
county, after approval of the Comitê de Ética da UFJF (Committee of Ethics of the UFJF), report
n.143/2007. Eleven women were deponents, breastfeeding children up to six months old, with the
aim at understanding the meaning of the exclusive breastfeeding for the mothers that breastfeed describing the stimulator and guider factors of this practice. It was used the open interview through
empathic relation and the presupposed reduction in review of the development of the
phenomenological comprehensive analysis development in the heideggerian perspective. Four
units of signification were constituted: the milk as main food for the baby and the breastfeeding importance; Sentiment of approach and contact of the mother/child binomial on breastfeeding;
Opportunities and difficulties of the breastfeeding daily and doubts that emerge from the exclusive
breastfeeding´ s practice: the nurse in the context of the promotion and support to the exclusive
breastfeeding. The comprehensive analysis unveiled that the women showed themselves as eager,
because they searched for dialoguing with the nurses in the face of the possibility of breastfeeding
up to the sixth month. Therein the support and aid for the empathic assistance relation and of the dialogue with the women/mothers.
Descriptors: Woman, breastfeeding, nursing.
160
Anna Maria de Oliveira Salimena. Enfermeira. Graduada no 2º sem/2007 do Curso de Enfermagem da Faculdade de Enfermagem
da Universidade Federal de Juiz de Fora (FACENF/UFJF).
Marilena Cazetta Venâncio. Orientadora da Pesquisa. Doutora em Enfermagem. Professora Associada do Departamento
Enfermagem Aplicada da FACENF/UFJF. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa O cotidiano do cuidar em Enfermagem da
FACENF/UFJF e do Núcleo de Pesquisa em Enfermagem em Saúde da Mulher NUPESM/ EEAN/UFRJ.
Maria Carmen Simões Cardoso de Melo. Mestre em Enfermagem. Professora Assistente do Departamento Enfermagem Aplicada
da FACENF/UFJF. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal
do Rio de Janeiro - EEAN/UFRJ. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa O cotidiano do cuidar em Enfermagem da FACENF/UFJF e
do Núcleo de Pesquisa em Enfermagem em Saúde da Mulher NUPESM/ EEAN/UFRJ.
Ívis Emília de Oliveira Souza. Doutora em Enfermagem. Professora Titular de Enfermagem Obstétrica do Departamento
Enfermagem Materno - Infantil da EEAN/UFRJ. Pesquisadora e Membro da Diretoria do Núcleo de Pesquisa em Enfermagem em
Saúde da Mulher - NUPESM/EEAN/UFRJ.
161
Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza.
Introdução
As propriedades nutricionais e imunológicas presentes
no leite materno bem como as influências psicológicas, emocionais e afetivas propiciadas pela
amamentação, confirmadas nos
estudos científicos produzidos
nos últimos trinta anos são incontestáveis, entretanto o desmame precoce ainda é uma realidade. Na implementação da
proposta de Promoção, Proteção
e Apoio ao Aleitamento
Materno parece que a modalidade de aleitamento materno exclusivo até o sexto mês ainda precisa ser mais bem difundida e discutida entre as gestantes e mães.
Pois, o fato de muitas mães não
terem informações sobre os benefícios do leite materno e da alimentação no seio, bem como a
falta de assistência, apoio e orientação tanto dos profissionais
da saúde quanto de familiares,
contribui para o desmame precoce e chama-nos à atenção.
Iniciativas de promoção,
e proteção do aleitamento materno estão sendo realizadas, entre elas a Iniciativa Hospital
Amigo da Criança (IHAC), que
segundo a Federação Brasileira
das Associações de Ginecologia
e Obstetrícia é uma estratégia para implementar mudanças nas rotinas e práticas referentes à amamentação nos serviços de saúde
(1).
Contudo, apesar do consenso acerca das inúmeras vantagens do aleitamento materno e
da mobilização mundial nas últimas décadas para recuperação
da cultura da amamentação o
desmame precoce ainda é uma
162
prática comum em todo o mundo, mesmo sabendo-se que o aleitamento materno proporciona
um momento de interação mãefilho prazeroso para ambos (2).
Além disso, o leite materno é a
melhor e mais completa fonte nutricional do bebê e traz também,
várias vantagens tanto para mãe
quanto para o recém-nascido
(3). A dupla mãe e filho está ligada por um afeto mútuo, uma intensa relação emocional e após
estabelecidos esses vínculos de
amor e afetividade há uma base
forte para que ocorra o sucesso
no aleitamento (4).
O primeiro contato entre
mãe e filho, se realizado precocemente, tem um efeito benéfico
fortalecendo o vínculo afetivo
entre ambos e influenciando positivamente na duração do aleitamento (5). Também, observase que para diversas mulheres decidir amamentar é importante para sua determinação pessoal, sendo a base de conhecimentos adquiridos através de várias fontes, acerca do valor que o leite
materno exerce sobre o desenvolvimento e crescimento da criança (6).
Portanto, com o intuito
de favorecer a melhoria da saúde
e da qualidade de vida das crianças e de suas famílias, a promoção do aleitamento materno deveria ser considerada uma ação
prioritária, além disso, esse poderia ser um exemplo de política
pública que envolve família, comunidade, sociedade e governo,
com baixo custo e ótimo impacto sobre o crescimento infantil
(7).
A rede de assistência primária no Brasil constitui a prin-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
cipal forma de acompanhamento da gestante durante seu prénatal, sendo este acompanhamento um fator importante na
promoção do aleitamento materno uma vez que nessa fase
ocorre a definição da prática a
qual a nutriz irá recorrer (8).
Sendo assim, o incentivo ao aleitamento deve ser efetivado durante as consultas de pré-natal,
onde o profissional da saúde irá
estimular orientar e preparar a
mãe emocionalmente para o momento da amamentação. Além
disso, durante a realização do
exame das mamas nessas consultas, podem-se detectar alguns
fatores ou problemas que influenciarão eventualmente no aleitamento e podem contribuir para
o desmame precoce (9).
No âmbito da atenção
primária, o Programa Saúde da
Família (PSF) constitui um importante meio de promoção e
apoio ao aleitamento, em vista
que oferece suporte à saúde das
famílias e pode oferecer atividades educativas desde o prénatal, que possibilitem à mulher
conhecer outros aspectos que favoreçam o processo de amamentação. Também permite que
o profissional da saúde atue diretamente nas intercorrências comuns nesse processo (7).
Uma das principais causas do desmame precoce é a adoção de bicos e mamadeiras, uma
vez que modifica a forma de mamada da criança levando a retirada insuficiente de leite do peito, o que ocasiona baixa eficácia
na ação do leite, aumentando assim a incidência de doenças respiratórias, diarreia, distúrbios na
fala, infecções dentárias entre
Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza.
na fala, infecções dentárias entre outras (10). Além disso, o
uso do bico/chupeta e mamadeira introduzido pela mãe, com a
volta ao trabalho ou sobrecarregada de afazeres, pode estar camuflando possíveis problemas e
dificuldades na amamentação
ou até mesmo uma ansiedade e
insegurança materna frente a esse processo, que necessitaria de
uma intervenção e abordagem
mais eficazes por parte dos profissionais/família (5).
Atualmente o processo
de amamentação sofre influências culturais, sociais e familiares induzindo as mães a recorrerem a tais artifícios, diminuindo
a importância e o valor que o aleitamento exerce na vida e saúde
da mãe e filho (11).
A mulher-mãe necessita
compreender que o desmame
faz parte do processo de crescimento da criança, há um momento correto para que esse
aconteça. E, o momento certo para o desmame é quando um dos
parceiros está realmente pronto
para interromper a amamentação, que está relacionada ao momento em que o bebê pode substituir o seio materno por outra alimentação que remeta a ele o sentido de amor e suporte emocional vividos na amamentação (4).
A mãe necessita de condições favoráveis para realizar o aleitamento e deve receber apoio, orientação e informação do profissional de saúde capacitado, que
irá auxiliar no momento da amamentação, sempre lembrando
que a mãe é a pessoa central em
tal processo (12). Essas informações devem abranger conhecimentos que envolvam temas
como a produção e composição
do leite, a técnica da amamentação e seus benefícios para a saúde do bebê e da mãe, bem como
sobre os problemas mais comumente citados na prática do aleitamento materno (13).
As informações ditas à
mãe, durante e após a gestação,
acerca do aleitamento materno e
seus benefícios influenciam na
decisão dessa sobre o tempo da
amamentação bem como a forma como irá realizá-la, se de forma exclusiva ou não. Dessa forma, promover uma base de informações adequadas sobre o tema contribui para provocar e produzir o desejo de amamentar
(6).
O profissional de saúde
é parte fundamental no processo
das ações voltadas para a recuperação, manutenção e proteção
da saúde do bebê através de uma
comunicação efetiva, que é a base para desenvolver ações de saúde. Através dessa, tem condições de criar condições favoráveis para efetivar a relação com
a nutriz, de forma que a mesma
perceba sua atenção e sinta-se
confortável, encorajando assim
o processo do aleitamento.
A mulher deve ser ouvida sobre suas expectativas, dúvidas e necessidades, a fim de direcionar uma assistência de qualidade, oferecendo condições para que possa agir, decidir (14) sobre o melhor para si e para o filho mesmo sabendo que a prática da amamentação seja imprescindível para a promoção da saúde para o binômio mãe-filho
(15).
Objetivo do estudo
Compreender o significado do aleitamento materno exclusivo para as mães que amamentam descrevendo os fatores
incentivadores e norteadores
dessa prática.
Material e método
Estudo de abordagem
qualitativa realizado em uma
Unidade Básica de Saúde
Progresso do município de Juiz
de Fora/MG, após aprovação do
Comitê de Ética da UFJF, parecer nº 143/2007 (16). Foram depoentes onze mulheres, em fase
de amamentação, com crianças
na faixa etária até seis meses de
idade, no intervalo de setembro
a outubro de 2007. Utilizou-se a
entrevista aberta mediante relação empática (17) com as seguintes questões norteadoras: O que sabe e o que significa para
você amamentação? - Como você compreende o papel do enfermeiro nesse processo? Como está vivendo esse momento e que
fator ajuda ou dificulta a amamentação exclusiva?
Após a transcrição de cada depoimento, procedeu-se à leitura flutuante, que deu condições de perceber as estruturas essenciais para apreender os momentos-chave do fenômeno e a
redução de pressupostos com
vistas ao desenvolvimento da
análise compreensiva fenomenológica na perspectiva heideggeriana.
Resultado e análise dos dados
A análise compreensiva
desvelou quatro Unidades de
Significação: O leite como principal alimento para o bebê e a im-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
163
Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza.
portância da amamentação;
Sentimento de aproximação e
contato do binômio mãe/filho ao
amamentar; Facilidades e dificuldades do dia-a-dia da amamentação e dúvidas que emergem da prática da amamentação
exclusiva; o enfermeiro no contexto da promoção e apoio à amamentação exclusiva.
O leite como principal alimento
para o bebê e a importância da
amamentação
O incentivo ao aleitamento materno vem se destacando como uma estratégia de
promoção da saúde infantil,
apresentando oscilações nas diferentes sociedades e tempo,
frente às suas diversas vantagens já comprovadas ao longo
dos anos através dos estudos e indicadores de saúde.
Sabe-se que o leite materno é o mais completo alimento para o bebê, sendo essencial
para ajudar no crescimento da
criança e seu desenvolvimento
nos primeiros anos de vida, pois
atende todas as suas necessidades, tanto nutricionais, fisiológicas quanto emocionais (9).
Percebemos que as mães estão
cientes de que o aleitamento materno é a melhor alimentação
que a criança pode receber possuindo todos os fatores importantes para o início de sua vida.
Sabem ainda que nenhum outro
alimento substitui o leite materno em suas propriedades:
“... que é o alimento mais correto para o bebê, mais apropriado... é a melhor coisa que a gen-
164
te pode fazer pro bebê é amamentar...”. E5
“... a sei que o leite é muito importante, que tudo que ela precisa é adquirido no leite né. Não
precisa beber água, que tomá
chá, num precisa nada disso,
que tudo que ela precisa ta no leite...”. E7
“Eu sei que é o principal alimento que eu tenho pro meu filho... não tem nada que é melhor
pra ele, nem mamadeira nem outro tipo de leite. Só o meu, a minha amamentação que é o principal alimento pra ele...”. E8
“... a amamentação é muito importante pro neném porque é mais saudável...”.E9
São inúmeras as vantagens, que se destacam a queda
na mortalidade infantil, devido
ao menor índice de doenças como diarreia, pneumonia, desnutrição, além de contribuir para diminuir a taxa de obesidade em
crianças e ser um importante fator imunológico para a criança
nos primeiros meses de vida.
“..., porque ela desenvolve mais
rápido,... fica mais forte,... fica
imune praticamente de qualquer doença... no dia a dia nem
gripe, resfriado... pra mim foi importante a amamentação, que
ele teve pneumonia e ajudou muito pra curá a pneumonia dele
só mamou no peito...”. E1
“... ajuda a ele também porque é
uma vacina...”. E3
“Todos os anticorpos que contém no meu corpo vai passando
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
pra ele...”. E11
Percebemos que as participantes são informadas e conhecem os valores da amamentação uma vez que várias citaram seus benefícios. Como também são evidenciados os aspectos promotores de saúde às
mães, como por exemplo, contribui para a involução uterina,
diminui sangramento após o parto e o risco de anemia e protege
contra o câncer de mama e ovário (12).
Entretanto, foram poucas as que citaram as vantagens
do aleitamento para as mães, o
que demonstra falta de informação quanto a alguns aspectos relacionados com sua própria saúde.
“... pro câncer de mama também ajuda a prevenir”. E6
“é bom pra mulher mesmo...
mas eu acho importantíssimo
pra mulher voltá ao corpo normal, é que queima bastante caloria mesmo quando ta mamando”. E11
Nessa situação podemos questionar até que ponto as orientações estão sendo feitas de maneira que elas apreendam? Será
que as mães estão sendo orientadas quanto a todos os aspectos
que envolvem a amamentação,
inclusive aqueles relacionados
às mesmas? É de fundamental
importância que as mães tenham
o conhecimento desses pontos
para incentivar e promover melhor a prática do aleitamento materno exclusivo, para que esse seja efetivado.
Sentimento de aproxi-
Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza.
mação e contato do binômio
mãe/filho ao amamentar
Encontramos na literatura a importância do contato entre mãe e filho durante a amamentação, dos aspectos emocionais e psicológicos que estão envolvidos nessa relação como:
“... ajuda a mulher e o bebê a
formarem uma relação íntima e
amorosa que a faz sentir-se profundamente satisfeita emocionalmente. O contato íntimo desde imediatamente após o parto
ajuda essa relação a se desenvolver” (2). A promoção do aleitamento contribui para o fortalecimento do vínculo mãe-filho,
proporcionando para o bebê estímulos sensoriais e emocionais.
Alguns depoimentos expressam
e confirmam a importância do
contato mãe e filho durante a
amamentação:
“eu gostei. Pra ele transmite carinho, amor... eu gosto de amamentar ele”. E2
“eu tô amamentando também
pra conhecer meu filho. A gente
tá mais próximo, a gente ta entendendo mais, eu entendo ele e
ele me entende”. E4
“... é importante o contato que a
gente tem com o filho, a criança
deve sentir o carinho da mãe
também... Mas às vezes num é
que ela ta com fome, ela ta querendo um acalento... que ela ficou lá dentro da gente esse tempo todo, depois que sai o único
contato que ela tem com a mãe é
o peito. Assim mais próximo mais íntimo”. E7
“É um vínculo da mãe com a criança, um momento sagrado entre a mãe e a criança é a hora da
amamentação”. E8
Assim sendo, percebemos que é valorizado pelas mães
este momento de contato com seus bebês. Quase todas as mães estavam com seus filhos durante a
entrevista e esse fato possibilitou observar os gestos de afeto
que a mãe lançava sobre a criança ao falar sobre os sentimentos
que estão envolvidos no ato de
amamentar, conforme explicitado “Os benefícios emocionais
da alimentação ao seio também
são indubitáveis. O recémnascido humano não sobrevive
sem cuidados e, principalmente,
não se desenvolve sem carinho e
afeto” (11). Bem como, ao estar
amamentando a mãe mostra que
está conseguindo construir um
vínculo com o bebê, proporcionando um momento de carinho e
contato pele a pele, que é tão importante para o desenvolvimento da criança (11).
As depoentes falaram sobre seu sentimento ao amamentar seus filhos, mostrando-se felizes por fazê-lo e que não havia
maior satisfação do que estar vivendo tal momento.
“Olha, nossa pra mim no começo foi bom, basicamente emocionante dá mamá pro meu filho
ainda mais que sô muito novinha”. E1
“Olha eu tô vivendo com muita
alegria porque já é meu segundo
filho e eu acho que agora que eu
to conseguindo aproveitar mais”. E5
“... quando eu tô dando de mamá... eu gosto de dá mamá quando eu tô sozinha, ou então na presença do meu marido sem televisão ligada sabe”. E7
“... Ah eu to achando assim maravilhoso”. E9
Evidenciamos, então, que não
há nada melhor para o bebê do
que ser amamentado, acalentado ao seio da mãe, recebendo tudo o que esse necessita emocionalmente e psicologicamente para seu desenvolvimento e crescimento saudável. O contato
mãe/filho, assim, se faz necessário para o fortalecimento do vínculo entre ambos e mostra-se
um fator responsável por maior
tempo de aleitamento devido à
satisfação e sentimentos provocados em sua prática.
Facilidades e dificuldades do
dia-a-dia da amamentação e
dúvidas que emergem da prática da amamentação exclusiva
Ao se expressarem sobre os pontos facilitadores no
processo de amamentação, os fatores mais citados e que, provavelmente, se fazem os principais
influenciadores são o fato de:
ser um alimento que está pronto
a qualquer hora e ser de fácil
acesso. A praticidade do leite materno como um fator de fundamental importância como expresso: “o aleitamento materno
é a forma mais prática de se ter
um leite pronto e em temperatu
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
165
Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza.
ra adequada, quando comparado ao preparo de uma mamadeira” (18). As depoentes ratificaram:
“O que ajuda o principal lógico, é que tá pronto a qualquer hora, você num tem que levantar
pra fazê uma mamadeira e
tal...”. E8
“... é uma mão na roda, quem dera se o mínimo pudesse mamá
até começa a comer”. E11
Nota-se que a questão
que mais favorece a continuidade do aleitamento materno é indiscutivelmente o fato do leite
materno ser o alimento mais fácil para o bebê, o que facilita muito a adesão a esse processo.
Além disso, uma das depoentes expressou como positiva a experiência anterior com a
maternidade e o prévio conhecimento que envolve a prática da
amamentação como um ponto facilitador nesse processo. Para as
mães que já conseguiram amamentar com sucesso anteriormente, o desejo soma-se à certeza de que o aleitamento irá prosseguir naturalmente e com sucesso (6).
“O que me ajudou acho que foi
a experiência de já ter tido um filho, de sabe como que é amamentar, de saber as dificuldades, de ter tido um preparo adequado da mama, porque eu não
tive rachadura na mama dessa
vez”. E5
Também, consideraram
aspectos que dificultavam o aleitamento materno emergindo
pontos negativos e/ou dificulta-
166
dores:
“É no começo eu tive muita dificuldade porque eu acho que todas as mães tem, por causa que
são dores das rachaduras no peito, mas eu tive, eu fiz bastante
massagem... mas quando ele mama uma vez a mais então eu sinto muitas dores e dá um pouco
de incômodo”. E4
“Porque na primeira eu fiquei
muito preocupada... queria fazer tudo muito correto, tudo muito como tava no livro. Então eu
acho que to tendo até mais leite
do que eu tive na primeira”. E5
“Ah o nervosismo”. E6
“Ah assim, eu sinto um pouquinho de dor quando ela mama sabe. Mas depois das primeiras sugadas assim, pára de doer...”.
E7
“Ás vezes eu preciso de sair e
ele precisa ficar e aí ele acaba
tendo que toma uma mamadeira, de um leite que num é tão importante como o meu e isso pode
até atrapalhar ele tomá o meu
depois dessa mamadeira... Mas
querendo ou não tem hora que
num tem jeito”. E8
Foi possível desvelar
através desses depoimentos que
mesmo muitas mães conhecendo pouco sobre a amamentação,
ainda ocorre uma falha no fornecimento de informações sobre
questões que são importantes no
dia-a-dia destas mulheres. Mas,
sabe-se também da importância
de auxiliar as mães na tentativa
de resolver as dificuldades e dúvidas comuns nos três primeiros
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
meses de vida do bebê, principalmente se a mãe for primípara, como ocorreu com algumas
das depoentes.
Percebemos que ocorre,
também, contradição entre as
orientações para as mães:
“Ah isso é um poquim complicado na minha cabeça, porque lá
na... que me falaram sobre amamentação foi uma coisa e o que
o enfermeiro daqui me falou foi
outra. Igual lá na... me falaram
pra eu dá 40 minutos num peito,
depois 40 minutos no outro.
Achei assim muito, que ela não
mama nem 20 minutos e também
é muito assim receita de boca fala 40 minutos, cada criança é de
um jeito...”. E7
Assim, ficou evidenciado as divergências entre as orientações recebidas, o que pode
favorecer uma interrupção desse aleitamento, pelo fato da mãe
desconhecer o correto para seu
bebê.
Algumas vezes as orientações dadas pelos médicos que
as acompanhavam não eram
bem recebidas, sendo passadas
de forma equivocada e sem muita clareza, ainda restando dúvidas acerca do processo do aleitamento o que causava, segundo
as mães dificuldade na tomada
de decisões sobre o modo correto de aleitar seu filho.
“Assim, amamentação em nada
ta dificultando não. Às vezes eu
fico em dúvida se ele tá satisfeito. Que a médica fala assim “há
dez minutos é o suficiente”. Às
vezes tem hora que ele mama 20
minutos, tem hora que mama cinco, então a gente nunca sabe se
satisfez o neném, como é que a
Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza.
gente fica sabendo isso. E toda
vez que ele mama dá cólica, isso
assim que a gente fica com duvida, ai será que é alguma coisa
com o leite...”. E9
Sendo assim, “as determinações do pediatra tendem a
ser assimiladas e incorporadas
na medida em que são julgadas
corretas, com base naquilo que
as mães consideram ser práticas que comprovam a boa saúde
das crianças” (6).Vários são os
estudos que apontam como a volta ao trabalho dificultador da
continuidade do aleitamento ao
seio, como “uma das razões do
desmame precoce é a separação
da mãe de seu filho, devido a volta ao trabalho fora do lar, condição pior nas grandes cidades pela situação de transporte e distância casa-local de trabalho”
(19).
É sabido que essa situação ocorre com muita frequência. Neste depoimento a reação
da mãe foi de desaprovação com
esta situação, da separação do
seu filho durante a amamentação.
“E a dificuldade é trabalhar fora, porque infelizmente não peguei a licença de 6 meses ainda
e meu filho já tá na creche, então
está mamando só no período da
noite.” E5
O enfermeiro no contexto da
promoção e apoio à amamentação exclusiva
O enfermeiro nesse contexto é de fundamental importância como educador e fonte de
informações para as mães sobre
todos os aspectos envolvidos durante a amamentação, que irão
influenciar a decisão da mãe em
amamentar seu filho. Portanto, é
responsável também na adesão a
esse processo, pois “a amamentação não é uma prática natural. Para melhoria dos seus índices faz-se necessário adequado
aprendizado das mães com participação ativa dos profissionais de saúde, propiciando orientações e suporte oportunos para
as gestantes e lactantes” (20).
Dessa forma fica claro
que o profissional de enfermagem tem um papel indelével na
assistência às mães no período
de amamentação, auxiliando e
esclarecendo possíveis dúvidas
e dificuldades encontradas por
elas neste processo, conforme
os depoimentos:
“Ele pelo menos comigo me ajudou muito, me explicando como
se põe a criança pra mamá, criança pra arrotá vê uma forma
melhor pra mãe e o bebê ficar
confortável assim, na hora da
amamentação, que é uma hora
sagrada pra criança e pra mãe
também”. E1
“Pra mim foi de suma importância, muita coisa eu num conhecia, principalmente que é meu
primeiro filho e eu tive muitas
orientações... eu recebi orientações do enfermeiro de fazer massagem, o que ajudou bastante”.
E4
“Pra mim foi importante porque
no hospital tinha uma enfermeira exclusiva pra cada bebê e pra
cada mãe. E a enfermeira nos ensinava pra quem não sabia amamentar e num tinha bico no pei-
to sabe, ela nos ensinava como
que era o processo, o tempo que
o bebê mama, a quantidade, tudo ela explicava pra gente e a
gente acaba ficando mais segura com estas informações”. E8
“pra mim foi muito importante,
porque lá na maternidade na hora de dá o mamá ela que ensinou
como é que eu pegava, como é
que era mais confortável pra
mim. E ele num pegava e ela me
ensinou como eu estimula ele”.
E9
Portanto, faz-se necessário que os profissionais de enfermagem gerem ações de promoção do aleitamento nas diversas Unidades Básicas de Saúde,
a fim de melhorar o índice de
adesão à amamentação, isto inclui também realizar capacitação da equipe para o manejo e
técnicas adequadas para tal.
Pois, as diferenças de atuação
das equipes e dos profissionais
de enfermagem podem influenciar na duração da amamentação, uma vez que essa pode ser
abandonada quando as dificuldades encontradas pelas mães
não são superadas (7).
Percebe-se que o sucesso
na prática do aleitamento depende muito da qualidade e quantidade de informações que são
transmitidas às mães, que podem ajudar na superação das dificuldades que eventualmente surjam. E, mesmo com todas as orientações que são fornecidas pelos enfermeiros, ainda há falhas
nesse processo. O fato de praticamente todas as mães entrevistadas não terem informação nenhuma sobre a AME comprova
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
167
Anna Maria de Oliveira Salimena, Marilena Cazetta Venâncio, Maria Carmen Simões Cardoso de Melo, Ívis Emília de Oliveira Souza.
essa situação.
Conclusão
A amamentação é um momento
peculiar na vida de uma mulher/mãe, um momento de
aprendizado único em sua vida,
de conhecer seu filho e tudo o
que ele necessita que só ela possa oferecer.
Os resultados apontaram que as mulheres desconheciam o significado do
Aleitamento Materno Exclusivo
mesmo tendo recebido e ainda
recebendo informações dos profissionais de saúde sobre: amamentação, a importância do leite
materno para o bebê e sobre a
não introdução de outros líquidos e alimentos antes do sexto
mês. A análise hermenêutica
mostrou mães ocupadas com as
mamas, com os filhos, com o significado do choro dos filhos e
com dificuldade de, no dia-adia, aplicarem as orientações recebidas no pré-natal e nas consultas de acompanhamento da
criança. As mulheres mostraram-se como ser-aí-com porque
buscaram dialogar com os enfermeiros em face da possibilidade de amamentar até o sexto
mês.
Nesse sentido o enfermeiro é ponto fundamental na
ajuda à nutriz a viver a amamentação de forma saudável e contribuindo para seu êxito. A falta
de conhecimento entre as depoentes sobre o Aleitamento
Materno Exclusivo indicou que
esta prática não está sendo bem
compreendida pelas mulheres.
Porém, atividades de apoio visando auxiliá-las a superarem as
dificuldades no início da ama-
168
mentação, parecem estar sendo
empregadas e surtindo o efeito
desejado, uma vez que as mães
estudadas conseguiram amamentar com sucesso. Nesse sentido o apoio e auxílio para o processo de viver a amamentação
de forma saudável, contribuindo
para sua extensão e exclusividade até o sexto mês exige uma relação assistencial empática e de
diálogo na qual as mulheres precisam falar de si, de suas vivências e de seu vivido.
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Aleitamento materno, introdução de leite artificial e anemia em
crianças de 06 a 23 meses de idade
Breastfeeding, supplement-feeding introduction and anaemia in children from 06 to 23 months of
age
Elisabeth Schettert, Luciana Pedrosa Leal, Marly Javorski, Mônica Maria Osório, Ednaldo Cavalcante de Araújo. RECENF-Revista
Técnico –Científica de Enfermagem-2010v8-n25;(165-172)
Resumo
O objetivo deste estudo foi correlacionar a prevalência do aleitamento materno e a introdução da
alimentação complementar com o diagnóstico de anemia em crianças de 06–23 meses. Os dados
secundários de 421 crianças foram coletados da pesquisa realizada em 2001, nos ambulatórios de
puericultura e pediatria do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, com o objetivo
de avaliar a validação e reprodutibilidade dos sinais clínicos e da escala de cores da hemoglobina da
Organização Mundial da Saúde no diagnóstico de anemia em crianças. A introdução de leite artificial
foi realizada após os 120 dias de vida para mais de 50% das crianças. Entre elas, 89,1% eram
anêmicas, estando a maior prevalência (91,7%) nas crianças de 06 a 11 meses. A única variável que
mostrou relação estatística significante com anemia foi à idade da criança (2= 23,99, P < 0,0001).
Neste estudo, não se observou relação estatística significante entre o aleitamento materno e a
introdução do leite artificial e o desenvolvimento de anemia. Os resultados obtidos nos direcionaram a
sugerir como rotina nos ambulatórios de puericultura e pediatria que incentivem o aleitamento
materno exclusivo até os 06 meses de idade e a partir desta data orientar sobre a alimentação
complementar, com alimentos ricos em ferro, tendo em vista a alta prevalência de anemia no Brasil,
implementando a suplementação com sulfato ferroso oral para menores de 24 meses.
Palavras-chave: anemia, amamentação, alimentação complementar.
Abstract
Correlating the breastfeeding prevalence and the supplement-feeding introduction with the
anaemia diagnosis, in 06-23 children months was the objective of this study. Data secondary from 421
children had been collected of the research carried through in 2001 year, attended at puericulture and
pediatrics sectors of the Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, with the aims
evaluating the validation and reprodutibility of the clinical signals and the hemoglobin of colors scale
of the World Health Organization in the diagnosis of anaemia in children. The supplement-feeding
introduction was carried through after the 120 life days for more than 50.0% of the children. Between
them, 89.1% were anaemics, being the biggest prevalence (91,7%) it enters those with ages between
06 to 11 months. The only variable that showed to relation significant statistics with anaemia was the
child age (2= 23,99, P < 0,0001). In this study, there was no statistically significant relationship
between breastfeeding and the introduction of artificial milk and the development of anemia. Our
results addressed us to suggest to the routine at puericulture and pediatrics sectors, to stimulate the
exclusive breastfeeding until the 06 months of age and to leave of this date to guide the supplements
feeding, with rich foods in iron, in view of the high prevalence of anaemia in Brazil, implementing the
supplementation with oral ferrous sulphate for minors of 24 months.
Key Words: anaemia, breastfeeding, supplements feeding.
169
Elisabeth Schettert. Enfermeira Especialista em Saúde da Criança na Modalidade de Residência. Graduada pela Universidade Federal
de Pernambuco. E-mail: [email protected]
Luciana Pedrosa Leal. Enfermeira. Mestre em Nutrição. Professora Assistente da Área Infantil do Departamento de Enfermagem da
Universidade Federal de Pernambuco. E-mail: [email protected]
Marly Javorski. Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora Assistente da Área Infantil do Departamento de Enfermagem da
Universidade Federal de Pernambuco. E-mail: [email protected]
Mônica Maria Osório. Nutricionista. Professor Associado da Universidade Federal de Pernambuco, pesquisador 2 do CNPq.
Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Nutrição- CCS/UFPE. E-mail: [email protected]
Ednaldo Cavalcante de Araújo. Enfermeiro. Professor Pós-doutor da Área Infantil do Departamento de Enfermagem da Universidade
Federal de Pernambuco. E-mail: [email protected]
170
Elisabeth Schettert, Luciana Pedrosa Leal, Marly Javorski, Mônica Maria Osório, Ednaldo Cavalcante de Araújo.
Introdução
Devido aos benefícios
do leite humano, a Organização
Mundial da Saúde (OMS) e o
Ministério da Saúde do Brasil
(MS) recomendam aleitamento
materno exclusivo até os seis meses e a manutenção do aleitamento materno (AM) complementar até os dois anos. O leite
materno (LM) oferecido de forma exclusiva, somente leite humano sem outros líquidos ou sólidos, é o alimento ideal para o
lactente nos primeiros meses de
vida, por ser rico em nutrientes,
fatores imunológicos e microorganismos (1-3).
No contexto mundial, as
conseqüências do abandono do
AM são preocupantes, acarretando em prejuízos importantes
para a saúde da criança, como as
anemias, especialmente as nutricionais (ferropriva e megaloblástica). Caracteriza-se como
um problema de saúde pública
devido a altas prevalências, no
qual as crianças nos primeiros
anos e as gestantes em países desenvolvidos e subdesenvolvidos
ficam mais vulneráveis às doenças, entretanto, atingindo mais
as nações pobres. No Brasil, apesar da superioridade do LM sobre outros tipos de leite, as mulheres que amamentam exclusivamente são minorias e a introdução de alimentos ocorre precocemente (3-9).
Segundo a OMS, a anemia ferropriva ou a concentração de ferro circulante abaixo do
normal, chega a ser responsável
por até 95% das anemias mundiais, caracterizando-se o problema mais comum de nutrição em
crianças. Entretanto, sabe-se
que a anemia interfere no crescimento, no desenvolvimento
mental, motor e da linguagem;
acarreta em alterações comportamentais e psicológicas como
falta de atenção, fadiga, insegurança, alterações do sistema digestivo e imunológico; ocasiona
diminuição da atividade física,
alterações metabólicas na pele e
mucosa (3-6,10).
Tendo em vista que o
principal fator etiológico da anemia ferropriva é de natureza dietética, constitui-se interesse de
estudo a investigação de práticas alimentares que possam diminuir o aporte de ferro, como é
o caso da realização precoce do
desmame e do manejo inadequado na introdução de alimentos complementares. A introdução da alimentação complementar (AC) precoce (introdução de
outros alimentos à dieta da criança que não seja o leite materno, antes dos quatro meses de
idade), especialmente sem orientação profissional, é fator predisponente à anemia ferropriva
no primeiro ano de vida (11-14).
Em face aos problemas
consequentes da anemia ferropriva em crianças menores de 24
meses, o objetivo desse estudo é
correlacionar à prevalência do
aleitamento materno e a introdução da alimentação complementar com o diagnóstico de anemia
em crianças de 06–23 meses.
Acredita-se que os resultados
deste estudo possam contribuir
para o planejamento de estratégias de intervenções que venham a ser utilizadas para ajudar
a reduzir a prevalência de anemia nesta população.
Material e métodos
Trata-se de um estudo
do tipo transversal, realizado pela pesquisa quantitativa em 421
crianças de 06–23 meses atendidas nos ambulatórios de puericultura e pediatria do Instituto
de Medicina Integral Professor
Fernando Figueira (IMIP) da cidade de Recife, PE.
Os dados secundários foram coletados da pesquisa realizada no ano de 2001, nos ambulatórios de puericultura e pediatria do IMIP, no período de maio
a outubro, com o objetivo de avaliar a validação e reprodutibilidade dos sinais clínicos e da escala de cores da hemoglobina da
OMS no diagnóstico de anemia
em crianças, obedecendo aos seguintes critérios de inclusão: 1)
crianças de 06–23 meses de idade; 2) acompanhadas por mãe biológica à consulta de rotina no
ambulatório de puericultura ou,
3) para primeira consulta ou, 4)
consulta de retorno ao ambulatório de pediatria; critérios de exclusão: 1) crianças portadoras
de doenças crônicas (cardiopatias, doenças reumáticas, nefropatias, afecções do aparelho gastrointestinal, doenças respiratórias, entre outras), com diagnóstico confirmado no momento da
consulta.
Os dados foram analisados utilizando-se o programa
Epi-Info 6.04, apresentados em
distribuições de freqüências absolutas e relativas e dispostos
em tabelas. Para fins de análise
do aleitamento materno, embora
a OMS indique os 180 dias como idade adequada para iniciar
o desmame, foi considerado o
ponto de corte de 120 dias de vi-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
171
Elisabeth Schettert, Luciana Pedrosa Leal, Marly Javorski, Mônica Maria Osório, Ednaldo Cavalcante de Araújo.
da, no intuito de correlacionar com a prática adotada pelas mães em nosso meio, com o período de
retorno das mesmas ao trabalho e com a idade mínima preconizada pela OMS para introdução de
outros alimentos, além do leite artificial na dieta
das crianças que não recebem o aleitamento materno exclusivo.
A anemia foi diagnosticada de acordo com a recomendação da OMS, que considera anêmicas as crianças menores de cinco anos cuja hemoglobina seja < 11g/dl (5-6).
Foi utilizado o teste do qui-quadrado (2)
para investigar a associação entre anemia e variáveis da criança (idade, sexo, peso ao nascer e peso
atual) e amamentação exclusiva até os 06 meses,
porém será apresentado o teste relacionado apenas à idade da criança, onde mostrou significância
estatística. A discussão foi subsidiada pela revisão
da literatura encontrada.
A coleta dos dados na pesquisa original
foi realizada de acordo com a Resolução nº
196/96, do Conselho Nacional de Saúde, que trata
sobre a condução das pesquisas envolvendo seres
humanos e aprovada pelo Comitê de Ética e
Pesquisa do Instituto de Medicina Integral
Professor Fernando Figueira – IMIP, em reunião
realizada no dia 11/02/2001.
RESULTADOS
A tabela 2 evidencia a prevalência de anemia nas crianças. Constata-se que a maioria das
crianças apresenta anemia. Esta prevalência supera inclusive a prevalência mundial estimada pela
OMS5 para crianças com idade entre 0 e 48 meses
que foi de 20,1% para os países industrializados e
48,1% para os países não industrializados. A mesma corrobora com estudos nacionais que mostram prevalências acima de 49% entre as crianças
menores de 24 meses (14).
A tabela 3 revela a relação entre a anemia
e a idade da criança, a qual mostrou associação estatística significante (p < 0,0001).
A tabela 4 demonstra a relação entre anemia e sexo nas crianças. Corroborando com os dados desta pesquisa, os estudos como os de
Devincenzi (15) e Neuman et al. (16) também não
encontraram associações entre anemia e sexo.
Todavia, Torres et al.,(17) evidenciaram que a prevalência da anemia pode variar entre os sexos,
com freqüência de 63,1% para o sexo masculino e
55,2% para o sexo feminino. Estes pesquisadores
acreditam que a maior ocorrência de anemia no sexo masculino possa ser explicada pela “maior velocidade de crescimento apresentada pelos meninos, nesta faixa etária, acarretando maior necessidade de ferro pelo organismo, não suprida pela dieta”.
A tabela 5 apresenta a relação do peso da
criança ao nascer e anemia e revela que entre as
172
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
Elisabeth Schettert, Luciana Pedrosa Leal, Marly Javorski, Mônica Maria Osório, Ednaldo Cavalcante de Araújo.
crianças com peso baixo ao nascer a maior prevalência de anemia ocorreu nas crianças entre 2.500
e 2.999g. Todavia, para todas as classes de peso ao
nascer a prevalência de anemia esteve acima de
85%.
A tabela 6 mostra a relação entre anemia e
duração da amamentação nas crianças. Constatase, também, que a freqüência da anemia foi maior
nas crianças que receberam amamentação por mais tempo. Contudo, sabe-se que o leite materno
propicia a criança ferro de alta biodisponibilidade
e proteção contra infecções, condições que a protegem da anemia (18,19).
Na tabela 7 constata-se a relação entre a
anemia e o tempo de amamentação exclusiva nas
crianças do estudo. Relacionando o tempo de amamentação exclusiva e nível de hemoglobina, entre
as 166 que mamaram exclusivamente por 120 dias ou mais, 89,2% apresentavam anemia.
Na tabela 8 verifica-se a relação entre anemia e alimentação com leite artificial. Em relação
à associação entre as variáveis alimentações com
leite artificial e anemia, obteve-se uma freqüência
menor de anemia nas crianças que iniciaram a alimentação com leite artificial com menos de 120 dias (89,4%), do que nas que receberam aleitamento artificial com 120 dias ou mais (95%).
DISCUSSÃO
As características sociais e biológicas das
crianças ao nascer e de suas mães revelaram que
as crianças apresentaram idade média de 08 meses, estando a maioria (68,9%) entre 06–11 meses, 22,6% entre 12–17 meses e apenas 8,6% entre 18–23 meses. No tocante ao sexo, 50,1% era
do sexo masculino e 49,9% do sexo feminino.
Quanto ao peso ao nascer 60,5% ficou entre
3.000–3.800 Kg e apenas 6,7% teve peso inferior
a 2.500 Kg. O peso atual observado estava entre
7.000–10.000 Kg em 64,3% e acima de 13.000
Kg em 3% das crianças.
Em relação à distribuição das mulheres
por faixa etária, constatou-se que a média de idade das mães foi de 24 anos, sendo 48,5% com 25
anos ou mais, 32,3% entre 20–24 anos e com menos de 20 anos 19,2%. Com referência à escolaridade, a maioria das mães (94,6%) possuía escolaridade acima de quatro anos de estudo e a minoria
(5,1%) tinha menos de quatro anos de estudo,
72,2% das mulheres não trabalhavam fora do lar.
Fizeram parte desse estudo lactentes menores de
24 meses, que segundo Souza et al., Souza (11) e
Dewey et al.(20) , constituem um grupo susceptível à anemia por carência de ferro, uma vez que estão submetidos a uma maior dependência das fontes dietéticas deste mineral. A maioria das mães referiu ter mais de quatro anos de estudo divergindo
da situação encontrada na Pesquisa Nacional sobre desnutrição infantil nos municípios brasileiros, onde 41,7% não eram alfabetizadas (21).
Saber sobre o grau de instrução das mães é
importante para o enfermeiro, visto que ele precisa adequar às informações a serem transmitidas,
de acordo com o nível de compreensão das mesmas, a fim de que possam assimilar melhor as orientações recebidas e atingir os objetivos planejados. Neste sentido Silva (22), afirma que dependendo da idade e do grau de escolaridade materna,
do acesso às informações em saúde e do tempo dedicado aos cuidados da criança, esta tem maior ou
menor risco de adoecer.
Neste estudo, observou-se predominância
de mães na faixa etária de 25 anos ou mais, porém,
chamou-se a atenção o percentual de mães adolescentes (19,2%). A adolescência, conforme
Araújo (23) é a fase do desenvolvimento caracte-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
173
Elisabeth Schettert, Luciana Pedrosa Leal, Marly Javorski, Mônica Maria Osório, Ednaldo Cavalcante de Araújo.
rizada por transformações devido às diversas mudanças físicas,
biológicas, psicológicas e sociais. Refere ainda que a ocorrência
de maternidade, nessa fase da vida, implica em somatório de mudanças que exigem um repensar
sobre o futuro. Araújo (23),
Coates e Sant'Anna (24), referem que a qualidade da atenção
que as mães adolescentes dispensam a seus filhos é frequentemente questionada devido às
características próprias da adolescência, período de conflitos,
oposição à realização de tarefas
e responsabilidades, entre outras.
A maioria das mulheres não trabalhava fora do lar, fato que talvez possa ter contribuído para a
redução na compra dos alimentos, entre eles os ricos em ferro.
Por outro lado, ficando mais tempo em casa, supõe-se que elas puderam se dedicar mais aos filhos
e ao cuidado com a alimentação.
Nesse estudo, 99% das crianças
receberam leite materno e somente 1% não mamou (resultados não apresentados nas tabelas). Constatou-se, desse modo,
que na região Nordeste os percentuais de crianças que não iniciam a amamentação vêm diminuindo. Na década de 90, pesquisas realizadas em nove estados do Nordeste (23) revelaram
um percentual de 7,8% de crianças que nunca mamaram. O estudo de Vasconcelos26, analisando os dados estaduais de crianças de 024 meses de idade, mostra que 6,8% das crianças no estado de Pernambuco nunca foram
amamentadas. Observou-se
uma melhor adesão à amamentação na população do estudo,
174
quando comparada com os dados estaduais.
Autores como Osório (27),
Lima e Osório (28) consideram
o baixo peso ao nascer um fator
determinante de anemia em crianças, no primeiro ano de vida e
mesmo que a criança pré-termo
ou de baixo peso ao nascer possua, em média, a mesma quantidade de ferro/kg de peso de uma
criança nascida a termo, o total
de reserva se depleta mais cedo,
tornando-as dependentes de fontes exógenas e facilitando, dessa
maneira a instalação da anemia.
Verificou-se que a freqüência de
anemia foi acima de 88% para as
crianças que mamavam exclusivamente por mais de 120 dias,
como para aquelas que mamaram menos de 120 dias.
Contrariando o que afirma Assis
et al., (29), quando refere que o
ferro melhor aproveitado pela espécie humana é contido no leite
materno, com um aproveitamento de até 70%, quando a amamentação é exclusiva.
Souza et al.,(11) em pesquisa realizada com crianças até 12 meses de vida, em quatro Centros
de Saúde Escola do Município
de São Paulo, também, não encontraram associação significativa entre anemia e duração do
aleitamento materno exclusivo,
cujo tempo mediano foi o mesmo para anêmicos e não anêmicos. Estudo realizado em 2004,
em serviços da rede pública,
com crianças menores de 12 meses de idade, em dez cidades localizadas nas cinco regiões geográficas brasileiras, encontrou
uma prevalência de anemia de
51,7% para crianças de 0612 meses (11). Em Santa Catarina,
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
Neuman et al.,(16) verificaram
que a anemia acomete mais da
metade das crianças entre 0624
meses de idade (54%). No semiárido baiano, Assis et al.,(29) demonstram uma prevalência da
anemia em crianças de 1223 meses de 50% e, entre os menores
de um ano, 29,9% e em
Pernambuco, Osório et al (27),
encontraram uma prevalência
na região metropolitana do
Recife de 71,7% e 58,2% nas crianças de 0611 e 1223 meses, respectivamente.
As anemias afetam grandes contingentes populacionais, sendo
uma carência freqüente no
Brasil. Em Pernambuco, este estudo mostrou uma maior prevalência de anemia quando comparado aos dados da última
Pesquisa Estadual de Saúde e
Nutrição trabalhados por Osório
et al., (27). Acredita-se que estas
altas prevalências se devem, conforme a OMS (5-6), ao baixo
conteúdo de ferro nas dietas e rápido crescimento da criança, durante o primeiro ano de vida.
Giugliani et al., (13) estudando
crianças na faixa etária de 036
meses em Porto Alegre, constataram que a anemia foi mais prevalente na faixa etária de 1223
meses, o que difere dos dados
aqui encontrados. Todavia este
estudo apresentou resultados semelhantes aos encontrados por
Lima e Osório (28), ao analisar
crianças menores de 12 meses
em Maringá (PR), onde a anemia apresentou uma prevalência
maior no segundo semestre de vida, sendo a diferença encontrada estatisticamente significativa. Segundo Lima (14) e Osório
(27), a alta prevalência de ane-
Elisabeth Schettert, Luciana Pedrosa Leal, Marly Javorski, Mônica Maria Osório, Ednaldo Cavalcante de Araújo.
mia até 24 meses de idade ocorra devido a uma maior velocidade do crescimento, desmame
precoce, falta de dieta balanceada e doenças como diarréia e infecções respiratórias, nos primeiros anos de vida.
Ao se analisar a ocorrência de uma maior prevalência entre as crianças de 06–11 meses
apresentada neste estudo, concorda-se com Faireweather-Tait
(30) e Lönnerdal e Dewey (10)
quando afirmam que a biodisponibilidade do ferro no leite humano pode diminuir até 80% quando outros alimentos passam a
ser ingeridos pelo lactente e, ainda, ao considerar a introdução
precoce de alimentos complementares como fator de alto risco para o aparecimento da anemia ferropriva.
Acredita-se que alguns
fatores podem ter determinado o
maior percentual de crianças
anêmicas amamentadas por mais de 120 dias, vale ressaltar que
aqui não estão sendo considerados o tempo de AME e o início
da introdução de AC que conforme Osório et al., ( 27) a introdução precoce de alimentos complementares é considerada como fator de alto risco para o aparecimento de anemia ferropriva.
Estudo realizado por
Giugliani et AL., (13) em crianças de 036 meses de idade em todas as escolas municipais infantis de Porto Alegre, também não
encontrou associação entre tempo de aleitamento materno e anemia. Registrando prevalência de
51,8%, 49,6% e 44,5% para amamentação por período ≤ a 90 dias; 120 a 180 dias e ≥ a 210 dias,
respectivamente.
Entretanto, Torres et al.,
(17) estudando crianças menores de 24 meses, atendidas nas
Unidades Básicas de Saúde no
estado de São Paulo encontraram associação estatisticamente
significante entre a presença de
anemia e o tempo de AM, com
prevalência de 62,7% se a criança não foi amamentada ao seio,
60,6% se foi amamentada até 60
dias, 57,35% mamou entre 90 e
180 dias e 55,5% se este período
foi superior a 180 dias.
O resultado obtido na tabela 7 foi contrário ao esperado,
que era uma freqüência de anemia maior nas crianças que iniciaram a alimentação com leite
artificial mais precocemente,
visto que Fairweather-Tait (30)
refere que a maioria das ocorrências de deficiências de ferro
tem vínculo com dietas à base de
amido e consumo de grandes
quantidades de leite de vaca e os
resultados verificados em alguns estudos sugerem a hipótese
de que a anemia no primeiro ano
de vida tenha como causa entre
outras, o desmame precoce13.
Conforme o Ministério da
Saúde (2), o padrão alimentar de
alimentação precoce na região
Nordeste é inadequado. Os alimentos complementares são de
baixo teor energético devido à diluição inadequada e ao uso de
uma forma de administração predominantemente líquida e diluída.
Neste estudo não foi investigado o tipo de leite utilizado pelas mães. Infere-se que,
provavelmente, a utilização de
fórmulas lácteas modificadas,
com algum enriquecimento de
ferro, no desmame das crianças
antes dos quatro meses de idade,
pode atuar diminuindo a incidência de anemia.
Conclusões
A prevalência do aleitamento materno foi de 99%, porém, 50,5% mamaram por 120
dias ou mais e 45,0% mamaram
exclusivamente até os 04 meses
ou mais.
A anemia apresentou prevalência de 89,1%, mostrando
maior prevalência entre as crianças com idades entre 06-11
meses (91,7%). A relação entre a
idade da criança e o valor da hemoglobina foi estatisticamente
significante.
Das crianças com peso
ao nascer < 2.500g, 85,2% tinham anemia, embora a maior
prevalência tenha ocorrido no
grupo de crianças entre 2.500g a
2.999g (94,4%). A prevalência
de anemia foi maior entre as crianças que receberam amamentação por mais tempo (88,5%),
assim como entre àqueles que
mamaram exclusivamente por
120 dias ou mais (89,2%), contrariando a maioria dos autores
sobre o efeito protetor do aleitamento materno no desenvolvimento da anemia.
Das crianças que iniciaram a alimentação com leite artificial com 120 dias ou mais,
95,3% tinham anemia.
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imediato
Profile of the users and its demands in a unit of immediate attendance
Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha.RECENF-Revista Técnico-Científica de
Enfermagem-2010-v8-n25;(174-186)
Resumo
Este estudo teve por objetivo analisar o perfil e as demandas dos usuários de uma Unidade de
Atendimento Imediato (UAI) de Betim-MG. Trata-se de um estudo de caso descritivo quantitativo.
Os dados foram coletados através das fichas dos usuários dos meses de março e setembro de 2007,
escolhidos aleatoriamente 5 dias de cada um dos meses. No total, foram analisadas 978 fichas da
especialidade clínica médica, dessas 59% foram de atendimentos a mulheres, com idade média de
40 anos. Dentre o total de usuários 83% faziam parte da área de abrangência dessa unidade, apenas
2% foram encaminhados por Unidades Básicas de Saúde (UBS) e 68% não realizaram exames
laboratoriais e de imagem após a consulta. Os diagnósticos mais frequentes foram doenças do
aparelho respiratório, seguida de doenças do aparelho osteomuscular, doenças geniturinárias e do
aparelho digestório. Quanto ao acesso à unidade, 95% desses usuários vieram por meios próprios,
permanecendo a maioria deles mais de 60 minutos na unidade de saúde. Após o atendimento 92%
desses receberam alta e apenas 29% foram encaminhados para acompanhamento nas UBS. O
preenchimento das fichas de atendimento mostrou-se deficiente, sendo os itens mais
negligenciados: profissão, motivo de procura da unidade e o horário de alta. Por esse fato foi
impossível assegurar se o usuário tinha ou não necessidade de um atendimento de urgência. Mas
percebe-se que os usuários procuraram a UAI com diferentes necessidades, desde queixas simples
às mais complexas. No pronto-atendimento estudado foi possível observar a utilização da
referência e contrarreferências presentes no município.
Descritores: Serviços médicos de emergência, necessidades e demandas de serviços de saúde,
atenção secundária a saúde.
178
Abstract
This study had as an objective to analyze the users' profile and demanding in an Immediate
Attendance Unit (IAU) in Betim (MG - Brazil). It is a descriptive quantitative case study. The data
were collected through users' files from March to September 2007, randomly chosen five days of
each month. Nine hundred seventy-eight clinical medical files were analyzed; of those 59% were
of women attendance aged 40 in average. Among the total of users, 83% were part of the working
demand of that health unit, only 2% of them were forwarded by basic health units and 68% of
them hadn't done laboratorial and image exams after consultation. The most frequent diagnosis
was concerning to breath device, the osteomuscular device, the digestive device and genitutary
diseases. Concerning the access to the health unit, 95% of the users came by their own means and
they stayed more than sixty minutes. After 92% of those went back home and only 29% were
forwarded to the IAUs. The files fulfilling were deficient, the most neglected items were:
occupation, the reason why and the time of leaving. By that, it was impossible to precise if the user
had or not the need of urgency attendance, but it's possible to denote that they come to the IAUs
with different needs, from the most simple to the most complex health complaints. At the ER were
the study took place, it was possible to observe the use of the reference and against-references that
are in the city.
Descriptors: Emergency medical services, health services needs and demand, secondary health care.
Meiriele Tavares Araujo. Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem pela UFMG. Mestre em Enfermagem pela Escola de
Enfermagem da UFMG. Especialista em Trauma, Urgência e Terapia Intensiva pela Reanimação/FCMMG. Membro do Núcleo de
Pesquisa e Administração em Enfermagem (NUPAE). Email: [email protected]
Alexandre Rodrigues Ferreira. Médico. Doutor em Medicina pela UFMG. Mestre em Medicina pela Universidade Federal de
Minas Gerais. Professor Adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Instrutor do PHTLS®
(Pré-Hospital Trauma Life Support). Instrutor do PALS® (Pediatric Advanced Life Support). Email: [email protected].
Thays Batista da Rocha Acadêmica do 8º período do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Bolsista de
Iniciação Científica da FAPEMIG. Membro do Núcleo de Pesquisa Administração em Enfermagem (NUPAE). Email:
[email protected]
179
Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha.
Introdução
O Brasil, nos últimos
anos, tem buscado várias estratégias para aprimorar a organização do Sistema Único de
Saúde (SUS). Principalmente,
visando colocar em prática, de
forma mais efetiva, os princípios da universalização do acesso,
a integralidade e equidade na
atenção à saúde da população
atendida.
Devido à proposta de mudança no modelo de atenção a saúde, com a implantação do SUS,
foram necessárias a contratação
e abertura de novos serviços
com o objetivo de dar maior rapidez, agilidade e reduzir as longas filas que se formavam nas
portas das instituições públicas
(1). Assim, dentre as estratégias
pensadas, encontra-se a expansão dos serviços de urgência/emergência como suporte para diminuir a demanda dos hospitais, por meio da criação de
Unidades de Pronto
Atendimento (UPA), Serviço de
Atendimento Móvel de
Urgência (SAMU) e Serviço de
Resgate do Corpo de Bombeiros
para atendimento às vítimas de
urgência e trauma além da abertura de vários centros de atenção
básica.
A área das urgências foi
considerada prioritária, em
2003, sendo publicada a
Portaria GM/MS 1863, reconhecida como a “Política
Nacional de Atenção às
Urgências”, incorporando novos elementos conceituais no
atendimento das urgências além
da revisão e retomada de outros
já bastante difundidos (2). Esses
elementos retomados são: a ga-
180
rantia da universalidade, da equidade e da integralidade no atendimento, consubstanciar as diretrizes de regionalização da atenção às urgências; desenvolver estratégias promocionais da qualidade de vida e saúde capazes de
prevenir agravos, proteger a vida, educar para a defesa da saúde e recuperar a saúde, protegendo e desenvolvendo a autonomia e a equidade de indivíduos e coletividades; fomentar, coordenar e executar projetos estratégicos de atendimento às “catástrofes”, integrar o complexo
regulador do Sistema Único de
Saúde implementando e aperfeiçoando permanentemente a produção de dados e democratização das informações com a perspectiva de usá-las para alimentar estratégias promocionais e
gerenciais; qualificar a assistência e promover a capacitação
continuada das equipes de saúde
do SUS na Atenção às
Urgências (2).
Assim, apesar do fluxo
hierarquizado proposto na estruturação do modelo de atenção
ás urgências, não muito claro para os usuários, as Unidades de
Atendimento Imediato (UAI),
ou seja, os pronto-atendimentos
ainda vêm atuando como importante porta de entrada do sistema
de saúde pública. Essas unidades servem de acesso aos pacientes que chegam por demanda
espontânea e que, em sua maioria, procuram atendimentos de
consultas simples e de cuidados
básicos. No entanto, esses atendimentos básicos nos serviços
de urgência descaracterizam a
proposta do sistema de saúde,
proporcionando pouca vincula-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
ção do usuário com o serviço de
Atenção Básica e com a equipe
de saúde de sua área de origem
(1).
Essa situação faz com
que esses serviços apresentem alta capacidade de produção de
consultas médicas e expressem
cada vez mais a fragmentação
da assistência e as deficiências
de interligação entre os vários níveis de atenção (1). Vale ressaltar que esses serviços de urgência são cada vez mais onerosos
para o sistema, e o descompasso
entre as necessidades do usuário
e a forma de oferta de serviços
gera, frequentemente, conflito
entre os usuários e os profissionais em suas portas. Pois, os profissionais partem do princípio
de que o usuário procura os serviços de urgência para todo o tipo de atendimento, ora por desconhecer o que seria urgência
ora pela baixa resolutividade encontrada na atenção básica.
Por outro lado, o usuário
que procura a UAI tem urgência
em resolver seu problema de saúde e, não raro, reclama da morosidade do atendimento e da “má
vontade” dos profissionais. Para
Jacquemot (3), há uma distorção
extrema entre a urgência definida e organizada a partir de critérios técnicos dos agentes do sistema médico, com a urgência tal
como ela é concebida pela população dos usuários, aquela representada e vivida por eles.
Segundo Magalhães (4),
os conceitos de urgência e emergência são confusos e polêmicos. Por outro lado, a definição
de urgência é complexa e modernamente fala-se em situações clínicas agudas. Logo, a de-
Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha.
finição de urgência não é precisa, abrindo assim a possibilidade de interpretações múltiplas
que justificariam a subjetividade da observação dos vários atores.
Assim, a procura aos serviços de saúde ainda pode ser entendida como um pedido que traduz as demandas do usuário como necessidades que podem ser
satisfeitas por meio da consulta
médica, realização de exames e
consumo de medicamentos.
Entretanto, essas necessidades
de cada usuário podem ser outras como a busca de respostas
às questões socioeconômicas, às
más condições de vida, à violência, à solidão, à necessidade de
v í n c u l o c o m u m s e r v iço/profissional, ou, ainda, o
acesso a alguma tecnologia específica que lhe possa proporcionar alguma qualidade de vida
(5).
Outro fato, é que esse
usuário reclama que não foi atendido no Centro de Saúde, mas na
maioria das vezes nem o procurou tendo o pronto-socorro como uma possibilidade concreta
de acesso à consulta médica. E
algumas vezes também existe a
concepção de que o médico do
pronto-atendimento é melhor
que o do Centro de Saúde. Por
outro lado, Dave e Isser (6);
Grumbach, Keane e Bindman
(7) concordam que outra questão a destacar é que os próprios
profissionais de saúde, sabendo
dessa problemática dentro dos
serviços de urgência ainda encaminham seus clientes que, a rigor, não careceriam de um atendimento em nível terciário ou
nos prontos-socorros.
Para Minayo (8), as interpretações das doenças estão
dentro de um contexto natural,
sobrenatural, psicossocial e socioeconômico. Corroborando
com essa ideia Jacquemont (3)
traz que a percepção da urgência
não é restrita ao médico e sim
uma construção contextual em
que há vários envolvimentos,
não só do doente, mais de todo o
contexto no qual se insere.
Nesse sentido, o presente estudo tem por objetivo analisar o perfil e as demandas de
usuários de uma UAI de BetimMG. O mesmo torna-se relevante, pois ao traçar esse perfil e conhecer as demandas pode-se colaborar para que se tenha subsídios a fim de melhorar a integração desse serviço com os demais
níveis de atenção à saúde presentes no município além da possibilidade de estabelecimento
de novas estratégias de gestão
tanto dos recursos humanos e
materiais possibilitando, assim,
a criação de estratégias para integralidade das ações em saúde e
otimização de recursos.
Metodologia
Trata-se de um estudo de
caso descritivo, com base nos dados presentes na ficha de atendimento, preenchida em uma
UAI, que corresponde ao prontuário do usuário nesse serviço.
O sistema de saúde municipal de Betim-MG é composto
por 4 UAI, 16 Unidades de
Atendimento Básico de Saúde
(UBS) e 14 Unidades de
Atendimento de Saúde Família,
10 Centros de Especialidades, 1
Unidade consorciada com outros municípios para consultas
de especialistas (CISMEP), 1
Banco de Leite Humano e 4
Hospitais (incluindo uma maternidade e um hospital em cogestão com a Fundação
Hospitalar de Minas Gerais), 1
Serviço de Atendimento Móvel
(SAMU). Atualmente, a população atendida em Betim é de 422
mil habitantes (9) sendo a população atendida pelo sistema municipal de saúde (incluindo populações de outros municípios como Sarzedo, Esmeraldas,
Martinho Campos) de 1,5 milhões de habitantes.
O cenário deste estudo
será uma das Unidades de
Atendimento Imediato (UAI) de
Betim-MG. A escolha do local
se deu por facilidade de acesso
ao gerente da unidade e aos coordenadores de enfermagem e dos
médicos. Essa unidade é referencia para o atendimento de urgência para as Unidades Básicas
de Saúde do Alterosas, Bueno
Franco, Dom Bosco, Homero
Gil e Icaivera e 13 Equipes de
Saúde da Família. Através do
consórcio Intermunicipal do
Médio Paraopeba (CISMEP) e
da Programação Pactuada
Integrada (PPI), atendendo a população de Brumadinho, Mário
Campos e Sarzedo em urgências
encaminhadas. Essa unidade oferece serviços de Raios-X e eletrocardiograma, além de exames laboratoriais e pequenas cirurgias eletivas previamente
agendadas, contam com os seguintes profissionais: clínico geral, cirurgião geral, pediatra, tecnólogo em radiologia, farmacêutico, enfermeiro e equipe de
enfermagem, assistente social e
auxiliares de análises clínicas
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
181
Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha.
(9). Esse serviço atende uma média de 90 pacientes por dia chegando a um total de 5.500 pacientes
por mês.
As fichas de atendimento foram separadas, aleatoriamente pormeio de sorteio, sendo referentes a 2
meses do ano de 2007, março e setembro, perfazendo meses sem férias escolares ou dos profissionais da atenção básica e sem ocorrência de greves.
Foram sorteados 5 dias de cada um desses meses
sendo uma segunda, uma quarta, uma sexta, um sábado e um domingo, totalizando assim 10 dias no
ano de 2007 que juntos somaram 1592 atendimentos. Desses foram selecionados 1011 que correspondem aos atendimentos realizados pela Clínica
Médica.
Foi construído um banco de dados secundário, organizado em porcentagens e analisado de
acordo com a literatura, considerando os seguintes
parâmetros: dados sóciodemográficos (idade, sexo, profissão, bairro), motivo de procura do serviço, hipótese diagnóstica após atendimento médico
e período que ficou em observação na unidade, se
realizou exames (laboratoriais ou de imagem) e se
após alta foi encaminhado para casa ou para alguma unidade de referência.
Os dados só foram coletados após aprovação e liberação do Comitê de Ética da Faculdade de
Medicina Ciências Médicas de Minas Gerais,
Protocolo nº146/08.
em março de 40 anos, ficando a amostra com uma
idade média de 40 anos.
A tabela (2) discute a utilização do serviço
pelas pessoas de sua área de abrangência e de outros lugares sendo possível observar que dessa
amostra 83,43%, ou seja, a maioria foram realmente usuários determinados pela abrangência, enquanto apenas 1,73% correspondem a atendimentos de outras cidades.
Apresentação dos resultados
O mês de março de 2007 apresentou um total de 5741 atendimentos dos quais 872 (15,2%)
ocorreram nos 5 dias analisados sendo separados
apenas as fichas de atendimento para Clínica médica, totalizando 538 atendimentos. Já o mês de setembro de 2007 foram atendidos no total 3951 pessoas sendo separadas 720 (18,2%) referentes aos 5
dias analisados e desses 473 (45,09%) são referentes á atendimentos da clínica médica. Foram, então, analisadas um total de 1011 fichas, dessas apenas 978 foram consideradas válidas devido ao preenchimento insuficiente, sendo 537 do mês de março e 441 do mês de setembro.
A Tabela (1) mostra as características da população estudada. Dos 978 atendimentos realizados, 59% foram do sexo feminino e 41%, do masculino. A idade média em setembro foi de 39 anos e
182
A tabela (3) apresenta as formas de acessos
que esses usuários atendidos utilizaram. Dessa
amostra 97,34% não foram encaminhados pelas
Unidades Básicas de Saúde (UBS), ou seja, são demandas espontâneas que muitas vezes procuram a
UAI como porta de entrada no sistema de saúde.
Com relação à utilização da atenção préhospitalar (Bombeiros, Samu, etc) apenas 2,25% foram trazidos ao serviço pelo SAMU/Bombeiros, a
maioria chegou por meios próprios.
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha.
A tabela (4) apresenta um apanhado dos diagnósticos realizados após as consultas médicas
nessa unidade, não foi possível avaliar pelo nível
de preenchimento das fichas quais os casos seriam
considerados urgentes, ou seja, aqueles que realmente deveriam ser atendidos nessa unidade. As
doenças do aparelho respiratório foram o diagnóstico mais expressivo dessa amostra correspondendo á 21,16%, logo após com 9,92% vêm as doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo e em terceiro lugar estão as doenças do aparelho
geniturinário com 8,9% e próximo disso com
8,18% as doenças do aparelho digestivo. É importante ressaltar que no montante de fichas consultadas, 8,59% não tinham o diagnóstico relatado e
7,67% estavam ilegíveis, esses valores são representativos e demonstram perda de informações importantes para a continuidade do tratamento caso
seja necessário recorrer a essas fichas novamente
quando houver retorno do paciente a esse serviço.
A tabela (5) demonstra a propedêutica adotada após a consulta. Apenas 31,18% dos consultados realizaram algum exame, sendo esse de imagem ou laboratorial. Quanto ao tempo de permanência, mesmo com a precariedade de preenchimento da ficha foi possível observar que 16,67%
dos usuários permaneceram entre 60 minutos e 240
minutos dentro da unidade, contabilizando desde o
horário do preenchimento da ficha até a alta. Com
relação à alta, a grande maioria, 92,74% dos usuários, foram encaminhados para casa e apenas 29% referenciadas para UBS para continuar algum tratamento.
Discussão dos resultados
Uma análise primária das fichas permitiu
observar que o preenchimento das mesmas foi falho e incompleto, seja por parte dos profissionais da
recepção seja pela equipe de saúde. Os dados de
identificação, principalmente, ocupação e motivo
da consulta ficaram em branco respectivamente em
100% e 37,21% das 978 fichas, tornando inviável
uma analise mais aprofundada desses dados.
As fichas sem o motivo da consulta, que deveria ter sido anotado na recepção, nos permitem inferir que esses usuários possam estar recebendo
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
183
Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha.
uma primeira escuta de seus problemas negligenciada, ou seja,
um acolhimento ineficiente que
pode atrapalhar o bom direcionamento do atendimento. Uma
quantidade significativa das fichas ainda não possuía o horário
de saída registrado, situação que
se agrava mais nos casos em que
o usuário ficou em observação
por mais de 24hs na Instituição o
que impossibilitou calcular a taxa de ocupação dos leitos, sendo
possível apenas uma avaliação
do tempo de permanência na unidade.
Em um estudo semelhante de Carvalho et al (10), sobre o tipo de preenchimento das
fichas de atendimento foi evidenciado que o registro mais frequentemente encontrado na ficha de consulta médica foi o da
conduta médica adotada, presente em cerca de 85% das fichas, os demais registros como
o da queixa e/ou história da doença foi menor; em média, apenas
67% apresentavam tal dado e
em apenas 38% houve registro
de exame físico.
A amostra foi predominantemente feminina o que já
era esperado. Outros estudos(1,11,12,13,14), demonstram uma predominância do gênero feminino para as consultas
de clínica médica nos prontoatendimentos. Esses trabalhos
também discutem a causa dessa
predominância sendo devido à
menor inserção da mulher no
mercado formal de trabalho,
com maior disponibilidade de
tempo, além de uma possível
percepção diferenciada do seu
processo saúde-doença. Por outro lado, devido ao fato desse ser-
184
viço funcionar 24 horas ininterruptas, o horário de atendimento
não pode ser entendido como fator dificultador do acesso da população masculina adulta, como
ocorre nos serviços de atenção
básica.
O acesso a esse serviço
traz dados que entram em concordância com outros estudos como o de Rocha (1), foi possível
observar que os usuários chegam, em sua maioria, por meios
próprios e são provenientes dos
bairros da área de abrangência
os quais a unidade é realmente
responsável. Apenas 2% da
amostra foram encaminhados
pela Atenção Básica de Saúde.
Assim, acredita-se que
as pessoas que recorrem a esse
serviço de pronto-atendimento
apresentam razões diversas como: problemas de saúde, fácil
acessibilidade, funcionamento
durante 24 horas, impossibilidade de recorrer aos serviços ambulatoriais e também por se encontrarem angustiadas e apreensivas com sua situação atual (15).
Para alguns autores, a presença
de grande número de usuários
nos serviços de emergência de
"causas comuns", denominados
inadequados, com queixas típicas de serviços de atenção primária de saúde, caracteriza um
uso abusivo desses serviços por
parte da população (15).
Um número significativo de pacientes passou pela consulta e foram liberados ao domicílio. Esses pacientes tinham
queixas agudas que foram tratadas pontualmente. Nesses casos
o serviço tinha condições e capacidade de atendê-las sendo os cuidados prestados e resolvidas às
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
necessidades daquele momento.
Pelos relatos da fichas apenas
nas situações em que se fazia necessária a continuidade do atendimento, os pacientes eram encaminhados para os serviços de
atenção básica .
Ainda com relação assistência prestada apenas
31,18% do consultados realizaram algum exame na unidade
sendo laboratorial ou de imagem, porcentagem essa diferente da presente no senso comum
desses usuários. No imaginário
do senso comum presente no estudo de Rocha (1), os usuários relatavam que o atendimento na
unidade de urgência, era bom,
pois além de viabilizar a consulta médica no mesmo dia, ainda
podia proporcionar maior resolutividade, pois ele poderia sair
com os seus problemas pesquisados por meio de exames de
RX, laboratório e outros.
Salla et al (16), encontraram 60,6% de atendimentos
nos pronto-atendimentos caracterizados como não sendo de urgência ou emergência, resultados aproximados, 74,5%, foram
achados por Furtado et al (15),
em estudo semelhante. Esses resultados demonstraram que os
prontos socorros eram utilizados como uma "válvula de escape" dos serviços de saúde, prejudicando o atendimento dos casos considerados adequados. No
presente estudo não foi possível
fazer uma analise aprofundada
dos casos a ponto de calcular
quais seriam indicados para a
UAI e quais seriam para a
Atenção Básica devido a qualidade do preenchimento das fichas de atendimento analisadas.
Meiriele Tavares Araujo, Alexandre Rodrigues Ferreira, Thays Batista da Rocha.
Mas por meio da organização dos diagnósticos por capítulos do CID 10 foi possível inferir que alguns diagnósticos não
se aplicam ao atendimento de
unidades de pronto atendimento
como gravidez, doenças infectoparasitárias e neoplasias.
Considerando que na época desses atendimentos a dengue ainda
não tinha um papel tão expressivo dentro da categoria das doenças infectoparasitárias presente
nos pronto-atendimentos.
O excesso de demanda
considerada desviada acarreta
acúmulo de tarefas e consequente sobrecarga para toda a equipe
de profissionais dos prontos socorros, contribuindo também para o aumento dos custos hospitalares. Esse fato também aponta
para a ineficácia do Sistema de
Saúde, incapaz de oferecer a esses indivíduos um acesso mais
fácil à rede de atenção primária,
encaminhando-os aos serviços
de urgência e emergência
(15,16). De acordo com Cecílio
(5), a população procura acessar
o sistema onde é possível, contrariando a lógica racionalista na
qual os técnicos do setor saúde
continuam a defender a rede de
serviços em forma de pirâmide,
visando que suas necessidades
sejam atendidas.
Conclusão
O perfil dos usuários que
procuraram a UAI foi, predominantemente, do gênero feminino, com média de idade de 40
anos, provenientes do domicílio, sendo a maioria da região de
abrangência da UAI. O preenchimento das fichas de atendi-
mento mostrou-se deficiente,
sendo os itens mais negligenciados: a profissão, o motivo de procura da unidade e o horário de alta. Os diagnósticos mais representativos foram os das doenças
do aparelho respiratório, as doenças do sistema osteomuscular
e do tecido conjuntivo seguidas
das doenças do aparelho geniturinário e do aparelho digestivo.
Os usuários procuraram
a UAI com diferentes necessidades, desde queixas simples às
mais complexas, de acordo com
o que estão sentindo no momento e o que consideram como urgência e emergência. Esses buscam o pronto atendimento para
resolução de necessidades agudas ou não, mas que, no momento, lhe trazem dificuldades e desconforto. Porém, essas questões
de diferença conceitual dos termos urgência e emergência entre usuários e profissionais de saúde, ainda são pouco compreendidas pelos trabalhadores de
Urgência e Emergência, os quais esperam trabalhar apenas com
casos considerados graves pela
sua lógica biomédica de atendimento. Essa discussão está presente na grande maioria da literatura nacional e internacional a
respeito da utilização das urgências como porta de entrada nos
serviços de saúde.
A unidade demonstrou
estar de portas abertas para as demandas que lhes chegasse e que
respondia, dentro de seus limites, a sua finalidade de atender à
queixa principal. Ainda foi possível inferir a presença de um
vínculo com os serviços de saúde, em diferentes níveis, tanto
na atenção básica, quanto nas es-
pecialidades e os hospitais, utilizando assim as possibilidades
de referência e contrarreferência do município.
Assim sendo, o serviço
atendia às necessidades dessa população mesmo para as queixas
eletivas e complementares com
ações iniciadas em outros níveis
de atendimento uma vez que o
usuário fez uma busca espontânea desse atendimento. O compromisso com a cura fica expresso no limite da expectativa
deste usuário, geralmente pontual e momentânea, deixando
apenas para os gestores e profissionais de saúde o ideal de prevenção e promoção de saúde.
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186
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
A contribuição do acolhimento com a classificação de risco nos
serviços de urgência para organização e gerenciamento
The contribution of the shelter with the risk classification in the urgency services for organization
and management
Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva. RECENF-Revista TécnicoCientífica de Enfermagem-2010-v8-n25; (183-191).
Resumo
Este estudo tem como objetivo ressaltar como o processo de classificação em um serviço de
urgência pode ajudar na sua organização e gerenciamento. Esperou-se mostrar a real importância
do acolhimento e classificação de risco no gerenciamento e organização dos serviços de urgência,
bem como a falta de informação dos usuários leva a superlotação dos mesmos. Trata-se de um
artigo de revisão bibliográfica, em que foram utilizados sites, livros, artigos científicos e manuais
do Ministério da Saúde para elaboração do mesmo, sendo analisadas publicações nas áreas médica
e de enfermagem que abordaram o tema triagem classificatória de risco. Foi realizada uma busca
de artigos científicos através do banco de dados da Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), utilizandose dos descritores: triagem, emergências, serviços médicos de emergência e acolhimento. A partir
dessa experiência foi possível alcançar novas informações sobre o assunto, em que foi notável a
importância do acolhimento e classificação de risco para a organização e diminuição da demanda
nos serviços de urgência.
Descritores: Acolhimento, emergências, triagem, serviços médicos de emergência.
Abstract
This study aims to understand how the process of classification in an urgency service can help
in its organization and management. We expected to show the real importance of the shelter and
classification of risk in the management and organization in the urgency services, as well as the
lack of information of the users leads to overcrowding the urgency services. We made
bibliographical revision, where sites, books, scientific and manual articles of the Brazilian Health
Department had been used, being analyzed publications in the medical and nursing areas which
approached the subject classification of risk. A scientific article search was carried through in the
data base of the Virtual Library of Health (BVS), using the describers: triage, emergencies,
emergency medical services and user embracement. This work allowed to get new information on
the subject, where there was notable the importance of the shelter and risk classification for the
organization and reduction of the demand in the urgency services.
Descriptors: User embracement, triage, emergencies, emergency medical services.
Nelise Maria Nascimento. Enfermeira (Unilavras). Especializanda em Enfermagem em Urgência, Emergência e Trauma (PUCMG). RT da Unid. Básica de Saúde de Monte Sião – MG.
Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva. Doutorando em Bioquímica e Imunologia, Instituto de Ciências Biológicas,
Universidade Federal de Minas Gerais. Centro de Pesquisas René Rachou (Fiocruz). E-mail: [email protected]
Daniela Carla Medeiros Silva. Doutoranda em Bioquímica e Imunologia, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de
Minas Gerais. Centro de Pesquisas René Rachou (Fiocruz). E-mail: [email protected]
187
Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva.
1) Introdução
O tema acolhimento
com classificação de risco tem
despertado bastante interesse entre os enfermeiros, pois além de
se tratar de um assunto relativamente novo, é ainda bastante
desconhecido pela população
usuária e até mesmo pelos profissionais de saúde, dentre eles o
enfermeiro.
A superlotação dos serviços dos serviços de urgência e
emergência representa grave
problema do sistema de saúde e
a demanda espontânea dos pacientes com doenças simples amplifica exageradamente o número de atendimento nessas unidades (1). Os serviços de pronto
atendimento, sejam eles públicos ou privados, devem ser estruturados para prestar um atendimento em situações de urgência e emergência, devendo garantir todas as maneiras de sustentação da vida, tendo condições de dar continuidade a assistência no local ou em outro nível
de atendimento (2).
Para que a assistência seja prestada de forma integral, é
necessário que haja vários recursos técnicos, pessoal qualificado, e espaço físico mínimo para a prestação de uma assistência.
A situação encontrada
hoje nos prontos socorros é caótica, principalmente pela superlotação dos mesmos, sendo vários os outros fatores contribuintes para essa situação (2). Um deles é a falta de recursos encontrados nos serviços de atenção
básica, resultando assim na grande procura pelos serviços de urgência, pois ao contrário das uni-
188
dades hospitalares, o pronto socorro, não delimita a entrada de
pacientes, trabalha com leitos extras (macas), número fixo de funcionários e área física restrita. A
somatória desses fatores resulta
em um ambiente de trabalho estressante e difícil.
Pode-se dizer que os serviços de urgência e emergência
constituem um grave problema
de saúde pública no Brasil, onde
há descaso governamental, onde
as dificuldades de cada serviço
precisam ser solucionadas dentro de cada um deles, de acordo
com cada realidade, pois, esse,
cotidiano caótico pode gerar
grandes frustrações para o paciente e toda a equipe de saúde.
Assim, vêm sendo implantados
protocolos universais de atendimento (2).
Contudo, a principal característica para o conhecimento da real gravidade dos usuários
que vão a um serviço de emergência é seu potencial para estabelecer um tratamento precoce
aos mesmos, distinguindo não
apenas suas particularidades,
mas também permitindo uma visão individualizada de cada paciente.
A falta de recursos humanos e infraestrutura fazem cair à
qualidade do atendimento. Os
profissionais trabalham inseguros e, grande parte das vezes,
sob pressão, passando por situações difíceis, as quais precisam
escolher que paciente será atendido primeiro, qual de tantos
que está na fila poderá suportar a
dor um pouco mais (3).
A utilização dos serviços de saúde representa o centro
do funcionamento dos sistemas
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
de saúde. Os determinantes de
sua utilização podem ser descritos como fatores relacionados à
necessidade de saúde, aos usuários, aos prestadores de serviços, a organização e a política. O
conceito de uso compreende todo contato direto ou indireto
com os serviços, devendo ser levado em conta o resultado da interação do comportamento do indivíduo que procura cuidados e
também o comportamento individual, ou seja, de acordo com
suas necessidades e situações de
vida que o levam a elaborar estratégias de enfrentamento de seus problemas cotidianos (4).
Associar o individual e o
coletivo na compreensão do processo de utilização dos serviços
é um desafio, pois as organizações devem responder as demandas populacionais. Por isso,
um fator importante para o planejamento e a organização dos
serviços de urgência, é conhecer
o perfil socioeconômico e demográfico dos usuários e a mobilização existente na utilização dos
serviços de saúde (4).
Tendo em vista o exposto acima, vê-se a importância
dos profissionais e diretores dos
serviços de urgência conhecer o
tipo de população que irão atender, em todos os perfis, conseguindo assim, obter uma maior
resolutividade do atendimento e
consequentemente, uma maior
satisfação dos usuários.
Alguns autores relatam
que a demanda aos serviços de
saúde pode ser entendida como
um pedido explícito que expressa todas as necessidades do usuário, podendo se efetivar por meio de consulta, exames, medica-
Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva.
mentos, realização de procedimentos, sendo essa a forma como os serviços se organizam.
Em toda situação de atendimento prestado por profissionais de
saúde, o acolhimento deve estar
presente, atendendo a todos, ouvindo-os e assumindo uma postura capaz de dar respostas adequadas aos usuários, utilizando
os recursos disponíveis para a resolução de problemas. Devem
ser estabelecidas articulações
com outros serviços, para obter
continuidade da assistência, garantindo a eficácia do atendimento (5).
Em função do exposto
acima, pode-se observar que os
serviços de urgência e emergência encontram-se sempre superlotados, com poucos recursos
disponíveis e com ausência de
uma boa articulação com os serviços de atenção primária.
O desenvolvimento desse trabalho justifica-se uma vez
que existe uma escassez de trabalhos científicos acerca do processo de acolhimento com classificação de risco e por se tratar
de um assunto de destaque quando consideramos o processo de
reestruturação dos serviços de
urgência e emergência proposta
pelo Ministério da Saúde. Assim
pretende-se, com esse estudo,
ressaltar a importância do acolhimento com a classificação de
risco na reestruturação e organização dos serviços de urgência.
Dessa forma, o presente
estudo tem como objetivo delinear como o processo de acolhimento com classificação de risco pode contribuir para a organização dos serviços de urgência e
emergência.
2) Metodologia
Trata-se de um artigo de
revisão bibliográfica, onde foram utilizados sites, livros, artigos científicos e manuais do
Ministério da Saúde para elaboração do mesmo, sendo analisadas publicações nas áreas médicas e de enfermagem que abordaram o tema triagem classificatória de risco.
Para confecção do artigo, foi realizada uma busca de artigos científicos, através do banco de dados da Biblioteca
Virtual de Saúde (BVS), utilizando-se os descritores:
Acolhimento, Emergências,
Triagem, Serviços Médicos de
Emergência. Inicialmente, os
descritores foram utilizados individualmente, resultando num
grande número de artigos.
Dessa forma, utilizou-se a estratégia de combinação dos descritores para uma seleção mais específica dos artigos a serem utilizados. Além disso, foram utilizados como limites de busca: artigos publicados no período de
1993 a 2009 e pesquisas realizadas com seres humanos. Esse período de publicação foi selecionado, pois data de 1993 a primeira tentativa de implantação de
um protocolo canadense de avaliação e classificação de risco
em um hospital brasileiro (6).
Após a busca dos artigos, foi realizada a seleção dos
artigos de interesse para que fosse realizada a leitura na íntegra
dos mesmos. Os artigos foram
selecionados, inicialmente, pela
leitura dos títulos e resumos, sendo excluídos aqueles cujo resumo não apresentava relação com
a temática deste trabalho. Após
a definição dos artigos a serem
utilizados procedeu-se à leitura
dos mesmos, identificando conceitos e temas relevantes à construção deste estudo.
3) Desenvolvimento
3.1) Acolhimento com classificação de risco
3.1.1) O conceito de acolhimento
Acolhimento é uma maneira de operar os processos de
trabalho em saúde, para satisfazer os usuários que chegam até a
esse serviço, procurando atender, escutando e oferecendo respostas as pessoas. Implica em
um atendimento com resolutividade, encaminhando os pacientes, para continuidade da assistência, quando for o caso, e mantendo sempre a comunicação
com os outros serviços, para garantir um bom atendimento aos
usuários (7).
De acordo com outros autores, o principal objetivo do
acolhimento é selecionar entre
os pacientes a serem atendidos
de acordo com a prioridade de
gravidade, ressalta ainda, que
não tem a finalidade de rejeitar
ou excluir um usuário, mas sim,
organizar o fluxo de usuários, selecionando os meios mais adequados para o diagnóstico e tratamento do problema de saúde
apresentado. Tem como objetivos principais, identificar as condições de ameaça a vida e de urgência, garantir o local mais
apropriado aos usuários que che-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
189
Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva.
gam ao serviço de urgência, prestar esclarecimentos a pacientes e
familiares e oferecer informações que ajudem a definir o nível de acuidade do serviço (2).
O acolhimento, que anteriormente era conhecido como
triagem é um meio de organizar
o atendimento nos serviços de urgência, pois prioriza os atendimentos do serviço de acordo
com a gravidade de cada caso.
De acordo com Abbês e
Massaro (7), o acolhimento na
área de saúde, tem sido visto como uma recepção administrativa e ambiente confortável ou em
momentos como uma ação de triagem administrativa e encaminhamentos. Sendo importante
que as duas ações devam ser feitas juntas, obtendo um vínculo e
prestando um serviço com responsabilização, vendo o paciente não como uma doença, mas
sim como um todo, obtendo
uma visão holística.
A implantação e implementação do acolhimento com
avaliação e classificação de risco nas unidades de pronto atendimento são de grande relevância no contexto atual do atendimento de urgência e emergência
tendo em vista o aumento do número de acidentes de trânsito, da
violência urbana e do aumento
da demanda por atendimento
nos serviços de urgência e emergência. Aliado a isso, está a insuficiente estruturação da rede assistencial que tem contribuído
decisivamente para a sobrecarga
dos serviços de Urgência e
Emergência disponibilizados para o atendimento da população
(8).
190
3.1.2) Fluxo dos usuários no serviço de urgência
Vários são os fatores que
contribuíram para o aumento da
utilização dos serviços de urgência, o que levou os serviços a
criarem uma maneira de selecionar os atendimentos nesses serviços. Há algum tempo os serviços de urgência representam importante porta de entrada nos serviços de saúde o que gera problemas de demanda, consequentemente podendo gerar diminuição na qualidade do atendimento (2).
Os serviços de emergência, sempre superlotados, são focos de problemas, por não conseguirem oferecer uma qualidade ideal no atendimento aos
usuários. E seu principal papel é
avaliar e manejar pacientes doentes e com mal-estar nas primeiras etapas da crise e sua maior ênfase deve ser na identificação e
tratamento de manifestações de
doenças que precedam ações de
tratamento intensivo (9).
A procura por serviços
de saúde pelo usuário, depende
de como esse está organizado.
Sendo influentes a urgência do
problema, tecnologia, resolutividade da atenção, o acolhimento, condições de acesso, agilidade do atendimento, destreza na
realização de serviço, como marcação de exames e o vínculo criado entre usuários e profissionais
(2).
A baixa qualidade e resolutividade apresentadas nos serviços de saúde, acompanhada da
dificuldade de mudanças de hábitos e crenças da população, leva o usuário a procurar a solução
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
pelo seu problema de saúde onde encontra as portas abertas.
A população procura o
serviço de urgência não somente
para casos agudos, mas também
em casos eletivos, complementando a ação dos serviços das
Unidades Básicas de Saúde
(UBS) e das Unidades
Especializadas. Apesar de sempre lotados e atendendo somente
a queixa principal, os serviços
de urgência possuem recursos,
como remédios, exames, consultas e internações, enquanto as
unidades de atenção básica oferecem, geralmente, apenas a consulta médica (2).
A regionalização e a hierarquização, por si só, não garantem a diminuição do fluxo
dos usuários aos níveis de maior
complexidade. É esperado que
os usuários além de serem acolhidos no nível primário, também recebam atenção resolutiva, ou seja, a resolubilidade das
unidades básicas e secundárias
de saúde é condição fundamental para evitar a maioria dos encaminhamentos desnecessários
aos centros de complexidade terciária e, particularmente, aos
hospitais de maior porte, permitindo que seus leitos sejam ocupados por usuários que realmente deles necessitam (3).
3.1.3) Papel do enfermeiro no
acolhimento e classificação de
risco
O enfermeiro é o profissional preparado para exercer tal
função, sendo esse respaldado
pela lei do exercício profissional. A consulta de enfermagem e
a prescrição de medicamentos
Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva.
protocolados em alguns serviços, fazem parte da triagem (2).
O enfermeiro além de realizar uma classificação de maneira correta, deve reavaliar o paciente constantemente, explicar
os motivos da demora do atendimento e estabelecer uma relação
profissional adequada entre profissional–cliente e profissional–familiares, evitando assim,
interpretações errôneas (10).
É papel do enfermeiro
no acolhimento com a classificação de risco, não só avaliar os
pacientes do serviço, organizando o atendimento, pela ordem de
gravidade dos mesmos, como
também estabelecer um vínculo
entre pacientes e seus familiares, orientando, esclarecendo suas dúvidas, procurando atender
da melhor forma possível a demanda de cada um, encaminhando-os ao setor correto dentro do próprio serviço ou a outros serviços como UBSs ou
PSFs, quando for o caso.
O acolhimento com a
classificação de risco, é um campo novo e constitui uma nova
área de atuação para o profissional enfermeiro. Permite melhorar o gerenciamento do serviço,
pois contribui com a garantia do
acesso ao paciente, diminuindo
o tempo de espera, riscos e ocorrências iatrogênicas e, principalmente melhorando a qualidade do atendimento (11).
No entanto, devemos
considerar também os questionamentos que surgem em relação à atuação do enfermeiro no
processo de acolhimento com
classificação de risco. De acordo com Medeiros-Silva et al.
(12), o enfermeiro tem sido o
profissional escolhido para assumir os serviços que utilizam o
protocolo de acolhimento com
avaliação e classificação de risco, gerando inúmeros questionamentos em relação à falta de
autonomia do enfermeiro para
solicitação de exames e interpretação dos mesmos, e relativos à capacitação dos mesmos
para exercer tal função, tendo
em vista que atualmente existe,
geralmente, em nível de capacitação, apenas treinamento em
serviço.
Outro problema diz respeito à
inexistência de disciplinas que
tratem a temática em questão
com a profundidade merecida
nos currículos de graduação em
enfermagem e pós-graduação
em áreas de urgência, emergência e trauma (12).
3.1.4) Recursos necessários para a realização do acolhimento
Existe uma grande dificuldade de estabelecer critérios
objetivos na classificação, resultando assim, em opiniões diferentes entre os profissionais
no que diz respeito a gravidade
do paciente, havendo necessidade de protocolos de atendimento
estruturados e próprios para a
classificação (13).
Procurando a uniformidade do atendimento e a utilização de instrumentos que permitam uma classificação mais correta quanto a gravidade dos sintomas, foi criado as escalas de
acolhimento com a classificação de risco. É importante que,
os serviços possuam instrumentos para uma avaliação rápida e
com baixos índices de erro.
Gerdtz e Bucknall (14),
afirmam que as escalas de classificação são instrumentos que
favorecem o enfermeiro da classificação organizar as informações, determinando o nível de
prioridade. As primeiras escalas
criadas foram de forma ordinais,
inicialmente de três níveis, posteriormente foram desenvolvidas escalas de cinco níveis, obtendo maior concordância e resultando em uma classificação
mais precisa de acordo com as
condições clínicas de cada paciente.
As escalas de classificação, ou triagem, como são conhecidas, são grandes aliadas na
prestação da assistência de enfermagem nos serviços de urgência e emergência, mas para
que seja utilizada de forma correta, é necessária que haja treinamento dos profissionais enfermeiros que trabalham no setor de classificação e acolhimento aos pacientes, como também, a documentação do atendimento, discussão dos casos, experiência profissional e principalmente, empatia por parte do
profissional.
Alguns autores acreditam que o primeiro ponto ao se
implementar um serviço de classificação, é que esteja compatível com a realidade da região,
atendendo as necessidades da população usuária do serviço. O
treinamento dos enfermeiros deve garantir padronização de condutas, otimização do tempo gasto na avaliação dos pacientes e
tomada de decisão rápida, com
qualidade e com o menor risco
para o paciente (2).
É importante considerar
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
191
Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva.
alguns pontos para a realização
da classificação, como o registro de dados importantes nos
prontuários de cada paciente. A
classificação deve ser realizada
em um ambiente próximo a entrada do serviço de urgência, porém, que ofereça privacidade para o paciente e o enfermeiro. É
essencial que haja uma boa comunicação do enfermeiro e principalmente, empatia e comprometimento desse profissional,
para o bom funcionamento e satisfação dos usuários do serviço.
3.1.5) Humanização no serviço
de urgência
A modernidade auxilia
nos processos de diagnósticos e
tratamentos, porém isso faz com
que o trabalho das equipes se tornem mecânicos, distanciandoas do fator humano. Com isso
vê-se a diminuição ou até mesmo a exclusão do sujeito de forma psicológica e social, esquecendo seus valores, cultura e
emoções (2).
As propostas de humanização dos serviços de saúde levam a refletir sobre o tipo de
atendimento prestado nesses serviços, profissionais apesar de humanos, prestam cuidados de forma desumana ou pouco humanizadas. Um grande contribuinte
para um serviço desumano, é a
falta de recursos físicos, humanos, mas principalmente o baixo
investimento na qualificação de
profissionais (2).
A equipe multidisciplinar deve estar envolvida, desenvolvendo ações, cada um em sua
área de competência, obtendo
um bom desempenho profissio-
192
nal, consequentemente, alcançando a qualidade dos serviços.
A humanização, principalmente, nos serviços de urgência, encontra-se precária, pois recebem
um grande número de pacientes,
com variados casos e gravidade,
levando assim a uma sobrecarga
dos trabalhadores do serviço, resultando em um atendimento de
pouca qualidade.
O Acolhimento com
Classificação de Risco é um dispositivo que opera concretamente os princípios da Política
de Humanização, que tem como
meta implantar um modelo de
atenção com responsabilização
e vínculo, ampliando o acesso
do usuário ao SUS, implantando
um acolhimento responsável e
resolutivo, baseado em critérios
de risco (15).
3.1.5.1) Humanização da área
física
De acordo com Calil et
al (2), qualquer estrutura hospitalar deve ter o olhar voltado à
humanização, principalmente
nas áreas onde há o acolhimento
dos pacientes, ou seja, a porta de
entrada. É necessário que haja
segurança e conforto, tornando
um ambiente agradável, não expondo os usuários do serviço. A
falta de privacidade, o desconforto são queixas comuns encontradas pelos pacientes do serviço, principalmente, de urgência.
Para Martins (16), os estabelecimentos assistenciais de
saúde, bem como os serviços de
urgência, são empresas complexas, abrigando diversos setores,
cada um com sua especificidade
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
e função. São empreendimentos
que exigem grandes investimentos na construção, na compra de equipamentos e, principalmente, na manutenção dos
custos operacionais. Os estabelecimentos de saúde do futuro,
além da viabilidade econômicofinanceira, devem atender aos requisitos de: expansibilidade, flexibilidade, segurança, eficiência e, sobretudo, humanização.
Nesse ponto, o conforto ambiental aparece como forte aliado
nos processos de cura de pacientes.
Uma pessoa está confortável em um ambiente quando se
sente em neutralidade em relação a ele. No caso dos edifícios
hospitalares, a arquitetura pode
ser um instrumento terapêutico
caso contribua para o bem-estar
físico do paciente com a criação
de espaços que, além de acompanharem os avanços da tecnologia, desenvolvam condições
de convívio mais humanas (17).
Miquelin (18) lembra
que o desconforto ambiental nos
serviços de saúde não pode ser
um problema a mais nesses espaços, construídos para, muitas vezes, situações estressantes de
atendimento associadas a pacientes com risco de vida ou sofrimento profundo.
A humanização do ambiente físico de saúde ao mesmo
tempo em que colabora com o
processo terapêutico do paciente, contribui para a qualidade
dos serviços de saúde prestados
pelos profissionais envolvidos.
A natureza transversal dessa política envolve todos os atores e
pode ser colocada em prática de
imediato, porque exige apenas
Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva.
decisão de mudar a forma de ver
o outro (16).
Os usuários dos serviços
de saúde devem se sentir seguros, à vontade, na hora do atendimento, obtendo um atendimento com maior resolutividade.
3.1.5.2) Humanização do pessoal e entre profissionais
Calil et al (2) acreditam
que a humanização dos profissionais e entre eles, deve ser um fator essencial para transformar o
atendimento uma experiência
agradável. Deve haver uma mudança na visão dos dirigentes
destes serviços, não focando apenas na obtenção de equipes treinadas, com desenvolvimento
técnico e científico, como também em um serviço humanizado. Os protocolos são ferramentas importantes para a agilidade
do atendimento, mas o profissional deve ficar atento para não
deixar de lado a individualidade
do paciente no seu aspecto mais
humano.
Sendo assim, o profissional deve ter consciência de que
o paciente necessita de um bom
atendimento, não tratando somente a queixa principal, a doença, ou o monitor, mas sim, ter
uma visão holística, evitando o
atendimento mecanizado. A comunicação é um ponto essencial
em um atendimento humanizado, abordando e orientando os
usuários.
O processo de humanização não deve limitar-se aos pacientes e familiares, como também entre os próprios profissionais, pois um bom relaciona-
mento entre esses leva a uma maior motivação e comprometimento (2).
O atendimento na emergência envolve dados subjetivos, relacionados com ansiedade e medo, pelos clientes e familiares. O profissional precisa saber lidar com esses sentimentos,
buscando informações concretas, fundamentadas em sinais clínicos. “A questão fundamental é
quais os dados utilizados para
classificar um paciente, que instrumento utilizar?” (11).
A humanização está sendo considerada o diferencial, pois deve fazer parte do dia a dia
das instituições. É imprescindível que as instituições tenham a
visão de que a assistência deve
ser prestada em função da vida e
saúde e não da doença ou morte,
que os protocolos utilizados são
uma grande ajuda para a avaliação mais rápida dos pacientes,
mas não esquecendo de oferecer
um atendimento mais humano.
Entretanto verifica-se
que a simples implantação da
classificação de risco como forma de atenção humanizada não
garante a qualidade e agilidade
no atendimento. Há necessidade
de mudanças nas atitudes de toda equipe, com objetivo de prestar um cuidado integral e humanizado (19).
3.1.6) Qualidade nos serviços
de urgência
Como já foi falado, havendo humanização nos serviços, provavelmente haverá qualidade dos mesmos. A qualidade
é dependente da satisfação dos
clientes, da agilidade em alta de-
manda e a equipe não deve somente resolver tudo, mas tudo
de maneira correta.
Donabedian (20) definiu
qualidade como uma propriedade que pode ser obtida em vários
níveis, de acordo com a obtenção de benefícios e menores riscos para o paciente, dependente
dos recursos disponíveis e os valores sociais existentes, propondo uma tríade: estrutura, processo e resultado.
Um grande contribuinte
para precárias condições de saúde está aliada ao fato de grande
parte da população não possuir
acesso a um bom serviço de saúde e na maioria das vezes a utilização desses serviços existentes
ocorrer de maneira caótica. O
usuário não sabe qual serviço
procurar nas diferentes condições de saúde que ele se encontra.
Sendo assim, alguns autores, referem que um ambiente
tumultuado e estressante dificulta a prestação de um serviço
com qualidade, em que os profissionais ficam sobrecarregados, não sendo capazes de prestar um atendimento qualificado
aos pacientes (21).
Por esse motivo, outros
autores citam, visando melhorar
a qualidade da atenção à saúde
realizada pelo SUS, a criação de
programas de qualidade como o
Qualisus, pelo ministério da saúde, em regiões metropolitanas,
nos serviços de urgência (22).
De acordo com
Bittencourt e Hortale (22), a qualidade é vista como o grau em
que os serviços de saúde satisfazem as necessidades dos indivíduos e seus familiares. Alguns
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
193
Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva.
pontos são considerados como
fatores de qualidade, são eles: resolubilidade, eficácia e efetividade da atenção a saúde, redução dos riscos a saúde, humanização, presteza na atenção, motivação dos profissionais, e controle social.
Nas frequentes situações de alta demanda, a classificação dos pacientes passa a ser
crucial na priorização dos pacientes graves ou potencialmente
graves. Com isso, é possível
uma avaliação rápida e eficiente, com protocolos e profissionais hábeis, e condutas de urgência e emergência. Outro ponto crucial, relacionado a qualidade do atendimento, é o controle da dor. A equipe deve ser
treinada para perceber os sinais
de dor, utilizando escalas. Deve
haver uma distribuição do trabalho entre a equipe para que aconteça uma organização do mesmo, facilitando a assistência e
obtendo uma maior qualidade
(2).
3.1.7) Enfermagem na emergência: aspectos éticos e legais
Para Calil et al (2) alguns aspectos éticos e legais das
práticas assistencial e gerencial
de enfermagem em serviços de
emergência, envolvem o processo de tomada de decisão,
bem como as responsabilidades
da equipe (2).
A ética profissional, como parte da ética geral, visa despertar no profissional a reflexão
sobre o processo de trabalho, as
relações interpessoais e a responsabilidade diante das ações
profissionais, comportamentos
194
ou decisões, devendo esses estar
resguardadas nos princípios éticos e legais do exercício profissional (23).
Os profissionais devem
agir pautados por leis, com ética
profissional e assegurar ao cliente uma assistência livre de danos decorrentes de imperícia, negligência ou imprudência. É importante que o profissional de enfermagem procure estar sempre
se atualizando e ampliando seus
conhecimentos técnicos, científicos e culturais.
Segundo Oguisso e
Zoboli (23), os aspectos éticos e
legais do agir dos profissionais
de enfermagem, pautam-se no
código de ética dos profissionais
de enfermagem e na lei do exercício profissional, porém devese considerar que os fundamentos éticos de agir são um conjunto de valores.
A consulta de enfermagem é atividade privativa do enfermeiro, que utiliza componentes do método científico para
identificar situações de saúde/doença, prescrever e implementar medidas de enfermagem
que contribuam para a promoção, prevenção, proteção da saúde, recuperação e reabilitação
do indivíduo, família e comunidade. Compõe-se de histórico
de enfermagem (entrevista), exame físico, diagnóstico de enfermagem, prescrição e implementação da assistência e evolução
de enfermagem. A institucionalização da consulta de enfermagem como um processo da prática de enfermagem, leva a uma
perspectiva da concretização de
um modelo assistencial adequado às condições das necessida-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
des de cada população (24).
Nos serviços de urgência e emergência, deve estar presente também a consulta de enfermagem, pois o enfermeiro é o
profissional mais indicado para
obter uma classificação com boa
resolução, sem deixar de ser humanizada e respaldada por lei.
4) Conclusão
Ao término desse estudo
foi possível obter novos conhecimentos sobre aspectos gerenciais acerca do acolhimento com
a classificação de risco, mostrando a realidade encontrada
nos serviços de urgência, bem
como as dificuldades enfrentadas pelos profissionais do serviço e pelos usuários do mesmo.
O principal papel da implantação do protocolo de classificação de risco no serviço de
urgência é garantir a qualidade
da assistência pela padronização do atendimento e da priorização do paciente mais grave,
garantindo assim, a ação e a prioridade adequada do atendimento, além de assegurar que os recursos sejam alocados de forma
devida. A organização da assistência permite conhecer indicadores que direcionam a gestão
do serviço e a necessidade de investimentos de recursos.
Graças a esse estudo foi
possível observar como o acolhimento e a classificação de risco nos serviços de urgência, podem ajudar a organizar e gerenciar os serviços, obtendo uma diminuição de demanda dos mesmos, sem deixar de prestar a devida assistência aos usuários, encaminhando-os a outros serviços, e consequentemente resul-
Nelise Maria Nascimento, Eduardo Augusto dos Santos Moreira Silva, Daniela Carla Medeiros Silva.
tando em uma menor sobrecarga
de trabalho aos profissionais, podendo assim, oferecer um atendimento com maior eficiência,
qualidade e humanizado.
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Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
195
Análise dos riscos ocupacionais dos profissionais de enfermagem
de Paranavaí /PR
Analysis of the nurses´ occupational risks in Paranavaí / PR.
El análisis de los riesgos laborales de los profesionales de enfermería Paranavaí / PR
Maíris Duarte Alarcão, Mariele Cambiriba, Maria Antonia Ramos Costa. RECENF-Revista Técnico-Científico de Enfermagem2010-v8-n25; (193-198)
Resumo
O trabalho é uma atividade inerente à existência humana. O trabalho de enfermagem por sua
vez, expõe seus trabalhadores a inúmeros riscos ocupacionais, dentre esses o mais comum é o risco biológico principalmente aqueles ocasionados por material pérfurocortante. Assim este trabalho
teve como objetivo caracterizar o perfil do profissional de enfermagem acidentado nos aspectos relacionados ao sexo, idade e ocupação e ainda identificar o tipo de acidente de maior prevalência no
município de estudo destacando suas principais causas e características. Como método, utilizou-se
coleta de dados através de pesquisa de campo quantiqualitativa, com dados secundários da Ficha
de Investigação de Acidente de Trabalho do SINAN no período dos quatro primeiros meses dos
anos de 2007, 2008 e 2009. As variáveis utilizadas foram dados do acidentado como sexo, idade,
categoria profissional, tipo de acidente, tipo de material biológico e situação vacinal do mesmo. A
análise dos dados deu-se através de tabelas e gráficos do software Excel 2003. Os resultados revelaram que os profissionais que mais se acidentaram foram os técnicos e auxiliares de enfermagem
e o tipo de acidente em prevalência foi o percutâneo tendo como material orgânico o sangue e como agente causal principal a perfuração por agulhas.
Descritores: Riscos ocupacionais, equipe de enfermagem, acidentes de trabalho.
Abstract
The work is an activity inherent in human existence. The work of nursing as per say, exposes
its workers to numerous occupational hazards, among them the most common is the biological risk
especially those caused by needlestick injuries. So this study aimed to characterize the profile of
nursing staff injured in the aspects related to gender, age and occupation and identify the type of accident most prevalent in the municipality of study highlighting its main causes and characteristics.
The method was used for data collection through quantitative and qualitative field research, with
the secondary data sheet for the Investigation of Accident SINAN during the first four months of
the years 2007, 2008 and 2009. The variables used were taken from the victims as sex, age, professional category, and type of accident, type of biological material and vaccination status of it. Data
analysis took place with tables and graphs in Excel 2003 software. The results revealed that staff
were hurt most were the technicians and nursing assistants and the type of accident in prevalence
was having as percutaneous blood and organic material as the main causal agent piercing needles.
Descriptors: Occupational risks, nursing, team, accidents, occupational.
197
Resumen
El trabajo es una actividad inherente a la existencia humana. El trabajo de la enfermería, a su
vez, expone a sus trabajadores a numerosos riesgos profesionales, entre ellos el riesgo biológico
más común, especialmente las causadas por pinchazos con agujas. Así que este estudio tuvo como
objetivo caracterizar el perfil del personal de enfermería heridos en los aspectos relacionados con
el sexo, edad y ocupación e identificar el tipo de accidente más frecuente en el municipio de estudio destacando sus principales causas y características. El método fue utilizado para la recolección
de datos a través de la investigación de campo cuantitativos y cualitativos, con la hoja de datos secundarios para la Investigación del Accidente SINAN durante los primeros cuatro meses de los
años 2007, 2008 y 2009. Las variables utilizadas fueron tomadas de las víctimas de sexo, edad, categoría profesional, tipo de accidente, tipo de material biológico y estado de vacunación de la misma. El análisis de datos se llevó a cabo con tablas y gráficos en Excel 2003 de software. Los resultados revelaron que el personal estaba más perjudicados fueron los técnicos y auxiliares de enfermería y el tipo de accidente en la prevalencia fue teniendo como percutáneo de sangre y materia orgánica como el principal agente que causa la perforación agujas.
Descriptores: Riesgos laborales, grupo de enfermería, accidentes de trabajo.
Maíris Duarte Alarcão. Enfermeira; Graduada no Curso de Enfermagem da Faculdade Estadual de
Educação, Ciências e Letras de Paranavaí.
Mariele Cambiriba. Enfermeira; Graduada no Curso de Enfermagem da Faculdade Estadual de
Educação, em Ciências e Letras de Paranavaí.
Maria Antonia Ramos Costa. Enfermeira; Mestre, Docente e Chefe do Departamento do Curso de
Enfermagem da Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí.
198
Maíris Duarte Alarcão, Mariele Cambiriba, Maria Antonia Ramos Costa.
Introdução
O trabalho é uma atividade inerente à existência humana e que implica ao homem utilizar-se de suas capacidades físicas e mentais na produção de
bens e serviços que contribui para a reprodução da vida humana,
individual e social (1).
Em nossa sociedade, o
trabalho é visto pelo homem
com tamanha importância que
ocupa grande número de horas
de seu dia. Nessa perspectiva, o
processo de trabalho está de tal
modo imbuído de normas e rotinas, com exigências cada vez
maiores, exageradas ou ultrapassadas, que acaba por impedir
que o homem transforme-se durante sua realização, além de atuar como um agente causal dos
agravos à saúde física ou mental
do trabalhador (2).
Os agravos à saúde do
trabalhador podem ser provenientes de fatores nocivos presentes no ambiente laboral. Os trabalhadores de saúde por sua vez,
estão sujeitos a riscos gerais e específicos, porém, os mais susceptíveis aos riscos ocupacionais são os profissionais de enfermagem (particularmente os que
atuam em unidades hospitalares), por realizarem cuidados diretos aos pacientes e serem os
responsáveis pela execução de
60% das ações de saúde. Assim,
estão conseqüentemente mais
expostos ao risco de doenças e
acidentes laborais (2).
É oportuno mencionar
que, acidente de trabalho do ponto de vista legal é definido como
sendo aquele que ocorre pelo
exercício do trabalho, a serviço
da empresa, provocando lesão
corporal, perturbação funcional
ou doença que cause a morte,
perda ou redução, permanente
ou temporária da capacidade para o trabalho. Considera-se ainda como acidente de trabalho,
aquele que ocorre no trajeto entre a residência do trabalhador e
o local de trabalho, a doença que
é produzida ou desencadeada pelo exercício de determinado trabalho e ainda a doença adquirida
ou desencadeada pelas condições de trabalho (3).
Os riscos ocupacionais,
segundo a Organização PanAmericana de Saúde no Brasil,
podem ser classificados em biológicos, físicos, químicos, psicossociais, ergonômicos e de acidentes (4). Enfatizaremos neste
trabalho os riscos ocupacionais
causados por agentes biológicos, em particular os acidentes
com materiais pérfurocortantes,
por serem tão comuns entre os
profissionais de enfermagem,
que em seu cotidiano lidam com
materiais como agulhas, sondas
e cateteres, muitas vezes contaminados por sangue ou fluídos
corpóreos.
Tais eventos são preocupantes, pois, os acidentes ocasionados com agulhas são responsáveis por 80 a 90% das transmissões de doenças infecciosas
entre trabalhadores de saúde. O
risco de transmissão de infecções por meio de agulhas contaminadas é de um em três para
Hepatite B, um em trinta para
Hepatite C e um em trezentos para HIV(5).
Em virtude do exposto,
os objetivos deste trabalho foram caracterizar o perfil do profissional de enfermagem aci-
dentado nos aspectos relacionados ao sexo, idade e ocupação e
ainda identificar o tipo de acidente de maior prevalência no
município de estudo destacando
suas principais causas e características.
Metodologia
Este estudo desenvolveu-se através de uma pesquisa
exploratória, que inicia-se por algum fenômeno de interesse e,
além de observar e registrar a incidência do fenômeno, busca explorar as dimensões deste, a maneira pela qual ele se manifesta e
os outros fatores com os quais
ele se relaciona (6).
Assim, utilizou-se como
método de coleta de dados a pesquisa de campo quantiqualitativa, com dados secundários da
Ficha de Investigação de
Acidente de Trabalho do
Sistema de Informação de
Agravos de Notificação –
SINAN. O acesso às fichas foi
permitido após autorização por
escrito da Secretaria Municipal
de Saúde de Paranavaí-PR, através do Setor de Epidemiologia
onde foram analisadas as notificações do município durante os
quatro primeiros meses dos anos
de 2007, 2008 e 2009. As variáveis utilizadas foram alguns dados do acidentado como sexo,
idade, categoria profissional, tipo de acidente, tipo de material
biológico e situação vacinal do
mesmo.
O SINAN é alimentado,
principalmente, pela notificação
e investigação de casos de doenças e agravos que constam da lista nacional de doenças de notificação compulsória. Sua utiliza-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
199
Maíris Duarte Alarcão, Mariele Cambiriba, Maria Antonia Ramos Costa.
ção efetiva permite a realização do diagnóstico dinâmico da ocorrência de um evento na população;
podendo fornecer subsídios para explicações causais dos agravos de notificação compulsória, além
de vir a indicar riscos aos quais as pessoas estão sujeitas, contribuindo assim, para a identificação da
realidade epidemiológica de determinada área geográfica (7).
Como toda a pesquisa científica, utilizouse levantamento bibliográfico, para fundamentar
as discussões sobre como prevenir os acidentes
com material biológico e para subsidiar a análise
dos dados coletados, que foram compilados em tabelas e gráficos do software Excel 2003, para melhor compreensão dos resultados. A pesquisa foi
realizada dentro dos preceitos éticos e legais da
Resolução 196/06, conforme aprovação do
Comitê de Ética da Universidade Estadual de
Maringá, parecer nº 540/2009.
Resultados e discussão
Com a análise dos dados foi possível traçar um perfil da população acidentada e caracterizar o acidente e suas causas. O total de notificações no período de estudo foi de 32 casos.
Observa-se que o número de exposições ao sangue, incluindo aquelas percutâneas e mucotâneas,
varia conforme as diferentes categorias profissionais, as atividades realizadas pelo profissional e
os setores de atuação dos serviços de saúde (8). O
estudo verificou que 50% desse total envolveram
profissionais de enfermagem em suas diferentes
funções, o que pode ser observado na figura 1, confirmando que por prestar cuidados diretos e contínuos a pacientes com diferentes graus de complexidade, a equipe de enfermagem é a categoria mais exposta a acidentes com material biológico.
200
Observando a figura 2, ao separarmos a porcentagem de casos na equipe de enfermagem por ano
de estudo, percebemos maior prevalência em
2007. Todavia, não se pode afirmar que nos anos
seguintes houve realmente uma queda brusca de
casos, pois muitos profissionais não notificam o
acidente (subnotificação), o que impede que se tenha uma ideia da real dimensão desse problema
nas unidades de saúde.
Estima-se que no Brasil ocorra uma alta taxa de subnotificação de acidentes, que pode estar
relacionada a diversos fatores entre eles, a falta de
conhecimento da realidade dos riscos por parte
dos trabalhadores, ao medo de desemprego, ao
sentimento de culpa que sente em relação a esse
evento, a falta de organização adequada das
ações, a dificuldade de acesso ao sistema de informação e ainda à descrença dada a gravidade de
um acidente desta natureza (9).
Na definição do perfil dos profissionais de
enfermagem acidentados, observou-se que 73%
são do sexo feminino, confirmando que as mulheres constituem maioria na área da enfermagem fato que se compele ao surgimento da profissão que
inicialmente era exercida exclusivamente por mulheres. Essa categoria está mais sujeita aos riscos
ocupacionais também pelo fato de sofrerem maior desgaste físico, mental e emocional devido à necessidade de conciliação entre trabalho doméstico e atividade profissional (dupla ou tripla jornada de trabalho) (10).
Quanto à faixa etária dos profissionais, podemos identificar através da figura 3 que o maior
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
Maíris Duarte Alarcão, Mariele Cambiriba, Maria Antonia Ramos Costa.
número de acidentes ocorreu com profissionais relativamente jovens com idade entre 20 e 29 anos.
Ao analisarmos as causas e características
do acidente constatou-se que a exposição em prevalência foi a percutânea, ocorrendo com 14 dos
16 profissionais de enfermagem. Esse tipo de exposição ocupacional é caracterizado pelo contato
direto com fluidos potencialmente contaminados
e pode ocorrer de dois modos distintos: por inoculação percutânea, também chamada de parenteral,
e pelo contato direto com pele e/ou mucosa, com
comprometimento de sua integridade após arranhões, corte ou por dermatites (11). Outro ponto a
se ressaltar, é que 81% dos acidentes tiveram como agente causal agulhas em sua maioria com lúmen, sendo que em 100% dos casos o material orgânico presente foi o sangue, o que nos remete
uma reflexão preocupante, pois, quando o acidente ocorre com material contaminado ha possibilidade do desenvolvimento de doenças graves como HIV/AIDS, Hepatite B e hepatite C.
O risco médio de se adquirir o HIV com exposição sanguínea é de, aproximadamente, 0,3%
após exposição percutânea, e de 0,09% após exposição muco cutânea. Para Hepatite B esse risco é
ainda maior podendo atingir 40% em exposições
em que o paciente apresente sorologia HBsAg reativa. No caso de contato com o vírus da Hepatite
C, o risco médio é de 1,8%, podendo variar de 1 a
10%, ressaltando ainda que não exista uma intervenção específica para prevenir a transmissão do
vírus da Hepatite C após exposição ocupacional
(8). Um ponto positivo identificado foi que todos
os profissionais de enfermagem estavam com o es-
quema vacinal de Hepatite B completo (3 doses).
São inúmeros os procedimentos executados pelos profissionais de enfermagem, e muitos
deles são realizados em circunstâncias que oferecem riscos ao trabalhador. Na tabela 1 identificamos as principais circunstâncias em que ocorreram os acidentes ocupacionais da equipe de enfermagem.
Um fato que chamou-nos atenção foi que, 2
das 3 atendentes de enfermagem acidentaram-se
durante procedimento cirúrgico, o que denota disparidade com o regulamentado pela Lei do exercício de enfermagem. Pois, segundo essa lei, a enfermagem é exercida privativamente pelo enfermeiro, técnico de enfermagem, auxiliar de enfermagem e parteira, sendo assegurado aos atendentes de enfermagem admitidos antes da vigência
dessa lei em locais com carência de recursos humanos nessa área, apenas o exercício de atividades elementares de enfermagem como, por exemplo, prestar cuidados de higiene e conforto ao paciente (12). Em virtude do exposto, fica evidente
que o atendente de enfermagem não poderia participar de procedimentos cirúrgicos, pois, tal função não faz parte de suas atribuições se tratando
de exercício irregular da profissão de enfermagem por esse servidor não possuir habilitação legal e treinamento para a execução da mesma.
Observou-se que os acidentes com agulhas constituem a principal forma de exposição
percutânea acidental dos profissionais de saúde,
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
201
Maíris Duarte Alarcão, Mariele Cambiriba, Maria Antonia Ramos Costa.
em especial, de enfermagem
(13). Sendo assim é necessário
que medidas preventivas sejam
implantadas e/ou seguidas, pois
a prevenção é maneira mais adequada para se prevenir acidentes
ocupacionais, haja vista os inevitáveis riscos a que estão sujeitos os trabalhadores dessa categoria profissional.
Conclusão
Este estudo permitiunos identificar que os profissionais de enfermagem que sofreram acidentes ocupacionais foram em sua maioria mulheres jovens, com idade entre 20 e 29
anos, ocupando função de auxiliar ou técnico de enfermagem.
O tipo de acidente em prevalência foi o percutâneo tendo como
material orgânico o sangue e como agente causal principal a perfuração por agulhas, que ocorreu durante a realização de procedimentos rotineiros como administração de medicação intramuscular (IM), punção venosa e
dextro.
Diante de tais resultados, fica evidente a necessidade
de enfermeiros e gestores estarem analisando as notificações
dos acidentes ocorridos nas unidades de saúde para obterem
uma estatística do número de acidentes, bem como reconhecerem os fatores determinantes para a ocorrência do mesmo, a fim
de definir medidas preventivas e
soluções efetivas para a diminuição da ocorrência desses eventos danosos a saúde do trabalhador, inclusive fazendo cumprir a
NR-32 (14), que tem por finalidade estabelecer as diretrizes bá-
202
sicas para a implementação de
medidas de proteção à segurança e à saúde dos trabalhadores
dos serviços de saúde, bem como daqueles que exercem atividades de promoção e assistência
à saúde em geral.
A partir da compreensão
de que todas as categorias de enfermagem estão sujeitas os inúmeros riscos ocupacionais, temse a necessidade de que as instituições de saúde elaborem programas de educação continuada
e treinamento dos profissionais,
realizem supervisão contínua e
sistemática e ainda programe
modificações nas rotinas de trabalho em que se torne um hábito
a prática de precauções de segurança na realização das atividades laborais.
Igualmente, concordamos que reorientar a prática profissional dos trabalhadores é um
desafio para a enfermagem, haja
vista o fato de pouco sabermos
sobre o conhecimento dos profissionais a cerca desse assunto.
Questionamos se esses desconhecem as precauções padronizadas ou simplesmente as ignoram, pois mesmo cientes dos riscos, muitos ainda deixam de proteger-se como se fosse uma atitude natural. Nesse sentido, as
instituições devem buscar promover a saúde ocupacional centradas não só na prevenção de
acidentes, mas principalmente
na melhoria da qualidade de vida no trabalho.
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14.Portaria MTE nº 485, de 11 de novembro de 2005 ( Diário Oficial da União de 16
de novembro de 2005-Seção I) que define
diretrizes da Norma Regulamentadora nº
32- Segurança e Saúde no Trabalho em
Serviços de saúde.
Análise do uso de equipamentos de proteção individual por agricultores que utilizam agrotóxicos
Analysis of the equipment use of individual protection for agriculturist who use agrotóxicos
Eniva Miladi Fernandes Stumm, Marli Maria Loro, Rosane Maria Kirchner, Alexandre Zaisov, Liamara Denise Ubessi, Ane Gabriele
Poli, Maiara Tamires Franco. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n25; (199-202).
Resumo
O uso de agrotóxicos nas lavouras sem proteção do trabalhador é prejudicial à sua saúde e ao meio
ambiente. A pesquisa analisa o perfil de trabalhadores que utilizam agrotóxicos na região noroeste do
Rio Grande do Sul e relaciona variáveis do mesmo ao uso de Equipamentos de Proteção IndividualEPIs. É quantitativa, descritiva, envolvendo resultados parciais de investigação desenvolvida no noroeste do Rio Grande do Sul. Trata-se de uma amostra parcial (285 famílias) de um total de 400 famílias
residentes no meio rural dos respectivos municípios. Para a coleta de dados, foi utilizado instrumento
com dados sociodemográficos e questões sobre EPIs. A análise se deu pela estatística descritiva e observados os preceitos éticos conforme Resolução196/96 do Ministério da Saúde. A maioria dos agricultores pesquisados é do gênero masculino, usa agrotóxicos, casada, mais da metade possui filhos e
cursou o ensino fundamental incompleto. Dentre os EPIs mencionados pelos agricultores integrantes
da pesquisa, o chapéu é o mais usado, seguido de botas e macacão. Já, óculos e protetor solar são os menos utilizados. O cruzamento das variáveis EPIS utilizados com a escolaridade mostra que o uso dos referidos equipamentos se dá na freqüência “sempre”, independente da escolaridade.
Palavras-chave: Saúde da população rural; agrotóxicos; escolaridade; perfil epidemiológico; equipamentos de proteção; profissional de saúde.
Abstract
The pesticides use on farming without worker protection is harmful to health and to environment.
The research analyzes workers profile who use pesticides in northwest of Rio Grande do Sul and relates variables of this profile using PPEs (personal protective equipment) -. It is a quantitative and descriptive research, involving partial results of investigation developed in northwest of Rio Grande do
Sul. It is partial sample that involves 400 families living in rural zone of respective municipalities,
totalizing 285 families. To data collection was used instrument with sociodemographic data and questions about PPEs. The analysis occurred by descriptive statistic and was observed the ethical as resolution 196/96 of Health Ministry. Most of farmers visited are male, use pesticides, are married, more
than half have children and attended incomplete basic school. Among PPEs mentioned by farmers involved in the research, hat is the most used, followed by boots and overalls. Already, sunglasses and
sunscreen are the least used. The crossing of PPEs variables used with scholarity data shows that the
use of these equipments has “always” frequency, regardless of schooling.
Keywords: Health rural population; pesticides, scholarity; epidemiological profile; protective devices; health personnel.
Eniva Miladi Fernandes Stumm. Enfermeira, Mestre em Administração - Recursos Humanos, pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS), docente da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ. E-mail: [email protected]
Marli Maria Loro . Enfermeira, Especialista em Enfermagem do Trabalho, Mestre em Educação nas Ciências, docente do
Departamento de Ciências da Saúde da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), representante
da Associação Nacional de Enfermagem do Trabalho/RS, [email protected].
Rosane Maria Kirchner. Professora Doutora em Engenharia Elétrica - Métodos de Apoio à Decisão. Professora de Estatística da
Universidade Federal de Santa Maria- Cesnors – UFSM - RS, [email protected].
Alexandre Zaisov. Acadêmico de enfermagem da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ).
Bolsista PIBIC-UNIJUI.
Acadêmicos de enfermagem da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ). Bolsista voluntário,
[email protected]..
203
Eniva Miladi Fernandes Stumm, Marli Maria Loro, Rosane Maria Kirchner, Alexandre Zaisov, Liamara Denise Ubessi, Ane Gabriele Poli,
Maiara Tamires Franco.
INTRODUÇÃO
A tecnologia aliada aos
avanços científicos tem colocado
à disposição da população um número expressivo de substâncias tóxicas, que podem gerar danos à saúde, ao meio ambiente e se constituir em um problema de saúde pública. A utilização destas substâncias de forma inadequada incorre,
para além do impacto na saúde
das pessoas, em sérios problemas
sociais, econômicos e ambientais. A utilização de agrotóxicos está comprometendo a vida dos seres humanos e o meio ambiente,
em decorrência de os trabalhadores manusearem estas substâncias
sem a devida proteção (botas, macacões, máscaras, capacetes, luvas e outros equipamentos) (1).
Uma pesquisa que objetivou avaliar percepções referentes
ao risco, práticas e posturas no
uso de agrotóxicos por agricultores de Culturama, Mato Grosso
do Sul, em 2005, mostrou que os
pesquisados eram cientes dos riscos no manuseio de agrotóxicos.
Segundo os autores, muitos agricultores se preocupam com a possibilidade de se contaminarem,
bem como com o meio ambiente
(2).
Os principais problemas
de saúde decorrentes do uso de
agrotóxicos, evidenciados em estudos (3), são expressos pela diminuição das defesas imunológicas,
anemias, impotência sexual masculina, cefaléia, insônia, alterações da pressão arterial e distúrbios do comportamento. Os homens são os que mais se intoxicam, mas a exposição aos agrotóxicos é generalizada, inclusive
com a participação de crianças.
Os efeitos sobre a saúde humana
podem ser divididos em agudos e
crônicos (4). Os efeitos agudos
204
aparecem seguidamente ao contato da pessoa com o agrotóxico e
normalmente apresentam características peculiares, tais como: espasmos musculares, convulsões,
náuseas, desmaios, vômitos, diarréias e dificuldades respiratórias.
Os efeitos crônicos podem ser percebidos em semanas, meses ou
anos após o contato com essas
substâncias, sendo muitas vezes
difícil de relacionar ao agente causador, ou seja, o agrotóxico.
Nesta ressalta-se que os efeitos negativos de uma possível contaminação por agrotóxicos à saúde humana sejam agravados em pequenas comunidades rurais, pelas precárias condições sanitárias, deficiência no sistema de saúde local
e falta de infra-estrutura da maioria da população local, normalmente, de baixas condições socioeconômicas.
Evidencia-se que os agricultores, em nível mundial, estão
expostos aos efeitos danosos dos
agrotóxicos, o que torna indispensável o uso de Equipamentos
de Proteção Individual- EPIs.
Nesse contexto, igualmente, se observa déficit de informação aliado
a falta de cuidado dos trabalhadores, levando ao não uso ou uso inadequado das medidas de proteção
quando da utilização de agrotóxicos.
O Brasil é um dos países
que mais consome agrotóxico,
com um número expressivo de trabalhadores expostos (5,6). Nesse
sentido, a presente pesquisa analisa o perfil de trabalhadores que
utilizam agrotóxicos na região noroeste do Rio Grande do Sul e relaciona variáveis do mesmo ao uso
de Equipamentos de Proteção
Individual-EPIs.
MATERIAIS E MÉTODOS
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
O estudo se caracteriza como uma pesquisa quantitativa,
descritiva, envolvendo resultados
parciais de uma investigação que
está sendo desenvolvida na
Região Noroeste do Estado do
Rio Grande do Sul (Noroeste
Colonial). Esta, segundo dados da
Fundação de Economia e
Estatística do Estado do Rio
Grande do Sul(7), integra 32 municípios, com uma população de
aproximadamente 309.747 habitantes, com uma área de 9.911,3
km², densidade demográfica de
31,3 hab/km², taxa de analfabetismo de 8,28%, expectativa de vida
ao nascer de 71 anos, coeficiente
de mortalidade Infantil de 13,01
por mil nascidos vivos, renda per
capita (2004): R$ 11.415,00 (dados de 2006). Destaca-se que a
economia desta região tem por base a agricultura, o comércio e serviços.
No que tange a população
estudada, trata-se de uma amostra
parcial de uma pesquisa que compreende 400 famílias residentes
em domicílios do meio rural dos
municípios que integram a
Região Noroeste Colonial do Rio
Grande do Sul. O presente artigo
foi construído a partir de resultados parciais envolvendo 285 famílias, sendo que esse número foi
distribuído entre os municípios,
respeitando a proporcionalidade
com o número total da população
dos mesmos. No que tange aos critérios de inclusão, foram definidos os seguintes: ser produtor rural e residir na região Noroeste
Colonial do estado do Rio Grande
do Sul; interesse em participar da
pesquisa, após ser esclarecido e tomado conhecimento dos objetivos; aceitar e assinar o termo de
consentimento livre e esclarecido.
Eniva Miladi Fernandes Stumm, Marli Maria Loro, Rosane Maria Kirchner, Alexandre Zaisov, Liamara Denise Ubessi, Ane Gabriele Poli,
Maiara Tamires Franco.
Para a coleta de dados
foi utilizado um instrumento
criado e testado pelas pesquisadoras, contendo dados sociodemográficos e questões sobre o uso de EPIs. Os dados sociodemográficos foram: gênero, idade, uso de agrotóxicos,
estado civil, filhos e escolaridade; as questões referentes a
freqüência de uso dos dispositivos de proteção foram: macacão, luvas, máscara, chapéu,
botas, óculos e protetor solar.
A análise dos dados se deu pela
estatística descritiva e uso do
software estatístico SPSS. Os
resultados são apresentados
em forma de gráficos e tabelas
cruzadas. Para verificar a relação entre as variáveis estudadas, foi aplicado o Teste t de
Student.
Por se tratar de uma pesquisa que envolve pessoas, foram observados todos os preceitos éticos contidos na
Resolução196/96 do
Ministério da Saúde7.
Inicialmente o projeto de pesquisa foi registrado no
SISNEP e encaminhado ao
Comitê de Ética em Pesquisa
da Unijuí, sendo aprovado sob
o Parecer Consubstanciado
Número 074/2008. Todos os
participantes da pesquisa assinaram TCLE, em duas vias, ficando uma em poder deles e outra dos pesquisadores.
Resultados e discussáo
Inicialmente considera-se importante destacar que
99% dos agricultores integrantes dessa pesquisa utilizam
agrotóxicos nas lavouras onde
trabalham. Esse dado vem ao
encontro da literatura, em que
vários autores pontuam que o
Brasil é um líder em nível mundial no uso de agrotóxicos nas
plantações, tendo como consequências elevados custos à saúde das pessoas, danos ao meio
ambiente, dentre outros (6,9).
Quanto ao gênero dos
trabalhadores pesquisados que
utilizam agrotóxicos nas lavouras, constata-se que a grande maioria é de homens, ou seja, um percentual de 90%.
Uma pesquisa foi realizada
com 1479 trabalhadores rurais
dos municípios de Antônio
Prado e Ipê, na Serra Gaúcha,
em 495 unidades produtivas,
com os objetivos de: descrever
as características da exposição
ocupacional aos agrotóxicos e
analisar a incidência de intoxicações por agrotóxicos, no contexto da agricultura familiar.
Na avaliação dos pesquisados
quanto as características demográficas e relações de trabalho,
o sexo masculino compreendeu 55,0% dos proprietários e
arrendatários e a 68,0% dos empregados (5,6).
Com relação ao estado
civil dos pesquisados, a maioria, ou seja, 81% deles é casado ou vive em união estável,
14% são solteiros, 3% viúvos e
2% são separados. Importante
ressaltar que 58% deles possuem filhos. Nesse sentido, destaca-se a importância de os profissionais da saúde realizar
ações educativas que envolvam não somente o trabalhador rural que utilizam agrotóxicos, como também seus familiares.
Ao analisar o grau de
instrução dos integrantes dessa pesquisa, constata-se que
mais da metade dos agricultores (60,4%) possui o ensino
fundamental incompleto e
10,2% cursou o ensino fundamental completo. Evidenciase que os que cursaram o ensino médio completo e /ou incompleto perfazem 21,1% e
8,4% possuem o ensino superior completo ou incompleto.
A escolaridade pode ser entendida como um indicador social
da pessoa aliado a melhores
condições de saúde, produzindo um efeito de proteção contra os malefícios dos agrotóxicos à saúde humana.
Estudo realizado mostra que a maioria das pesquisas
destaca a baixa escolaridade
do agricultor como um problema, por dificultar e restringir a
leitura referente aos cuidados e
medidas de segurança, descrito nos rótulos dos agrotóxicos
(6).
Nesse contexto, o processo de modernização da agricultura, a qual garantiu crédito
e estimulou o crescimento da
indústria de agrotóxicos no
Brasil, porém não considerou
as dificuldades de estrutura e
institucionais, tais como a qualificação dos trabalhadores e a
das instituições direcionadas à
proteção do meio ambiente e
da saúde dos
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
205
Eniva Miladi Fernandes Stumm, Marli Maria Loro, Rosane Maria Kirchner, Alexandre Zaisov, Liamara Denise Ubessi, Ane Gabriele Poli,
Maiara Tamires Franco.
trabalhadores envolvidos. A não observância desses aspectos tornou esse grupo suscetível aos riscos ocupacionais e ambientais (10).
Ainda em relação ao grau de instrução/ escolaridade dos trabalhadores que integraram essa
pesquisa, considera-se importante a construção de
programas em nível governamental de extensão
agrícola, com ênfase em técnicas alternativas de
controle de pragas e no uso seguro de agrotóxicos
(2).
Sequencialmente, a Figura1, apresenta o
uso de EPIs pela população pesquisada. Constatase que o chapéu é utilizado pela grande maioria dos
trabalhadores seguido de botas e macacão. O hábito de utilizar EPIs, apesar de não desejado, deve ser
considerado pelo trabalhador que se expõe a situação de risco, como meio de proteção disponível em
uma visão integrada e sistêmica dos agravos de origem ocupacionais (4).
Os equipamentos de proteção individual
(EPIs), de acordo com a legislação, devem ser usados com a finalidade de reduzir o risco de absorção
do produto pelo organismo humano durante a aplicação. O Ministério do Trabalho e Emprego considera EPI todo dispositivo de uso individual destinado a preservar e proteger a integridade física do
trabalhador, considerando-se como EPI padrão para a aplicação de agrotóxicos a utilização de boné,
máscara, macacão, avental, luvas e botas (11). Para
o autor, essas medidas devem ser observadas sempre que a proteção coletiva não é possível ou não
seja eficaz contra os riscos ocupacionais.
Em pesquisa realizada em dois municípios
de Pernambuco, em 2008, dos 182 produtores que
participaram da mesma, 95 (52%) afirmaram utili-
206
zar agrotóxicos, e destes, apenas 22 (23%) usaram
EPI. Dentre os EPIs apropriados para a manipulação e aplicação de agroquímicos nas lavouras, botas (38%), chapéu (17%), máscara (16%) e luvas(14%) foram os mais usados pela população estudada(11). Esses resultados diferem dos encontrados na presente pesquisa, onde a grande maioria
(99%) usa agrotóxicos nas plantações e quanto ao
uso de EPIs, igualmente os integrantes dessa pesquisa afirmam usa-los com maior freqüência.
Em continuidade a análise e discussão dos
dados obtidos com esta pesquisa, foram realizadas
o cruzamento das variáveis Uso de EPIs e
Escolaridade dos pesquisados. Neste observa-se
que nos EPIs bota (76,5%) e chapéu (86,2), mais de
três quartos sempre fazem uso destes equipamentos. Também, verifica-se que independente da escolaridade, prevalece à categoria do uso “sempre”.
Constata-se que os EPIs óculos e protetor
solar são os menos utilizados pelos agricultores participantes da pesquisa (para óculos um percentual
de 62,2% e para protetor solar 76,1% que não utilizam). Também, quando analisada a escolaridade,
observa-se o predomínio da não utilização em todas as categorias.
Quando observados os EPIs macacão
(54,4%), luvas (53,4%) e máscara (60,9%), em torno da metade dos trabalhadores pesquisados fazem
uso sempre destes equipamentos. Isto se destaca
em todos os níveis de escolaridade.
Em pesquisa realizada com 1479 trabalhadores rurais visando descrever as características da
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
Eniva Miladi Fernandes Stumm, Marli Maria Loro, Rosane Maria Kirchner, Alexandre Zaisov, Liamara Denise Ubessi, Ane Gabriele Poli,
Maiara Tamires Franco.
exposição ocupacional aos agrotóxicos e analisar a incidência
de intoxicações por agrotóxicos,
no contexto da agricultura, constatatou-se que o uso de EPIs foi
mais freqüente entre homens e
pessoas com escolaridade média – 5 a 8 anos e o grupo sem
escolaridade foi o que menos utilizou estes dispositivos de segurança. Mostrou também, que entre os agricultores idosos o uso
destas medidas de proteção foi
reduzido (5). Pode-se afirmar
que esses resultados são contraditórios ao da presente pesquisa.
Outro estudo realizado
em 2008, em assentamentos dos
municípios de Lagoa Grande e
Santa Maria da Boa Vista, em
Pernambuco, com o objetivo de
verificar a utilização dos EPIs
pelos assentados do Movimento
dos Sem Terra (MST), mostrou
que dos 182 participantes, 87%
são homens. Destes 18,15% não
são alfabetizados, 64,5% possuem até quarta série do ensino
Fundamental e 1,3% possuem o
ensino médio. Dentre os assentados, nenhum utilizou os EPI
completos e adequadamente, e o
baixo índice de uso pode estar relacionado ao baixo grau de escolaridade dos assentados(12).
Nesse contexto, pode-se
afirmar que a não utilização ou
incompleta das medidas de proteção representa perigo à saúde
do agricultor, inclusive, gerando
aumento significativo no índice
de intoxicações por produtos químicos.
Conclusões
O perfil dos agricultores
pesquisados é: a grande maioria
do gênero masculino usa agrotóxicos nas plantações, casada, ma-
is da metade possui filhos.
Quanto ao grau de instrução, predomina os com ensino fundamental incompleto.
Quanto ao uso de EPIs, o
chapéu é o mais usado pelos agricultores integrantes da pesquisa,
seguido de botas e macacão. Os
mesmos, independente da escolaridade, prevalece a categoria
do uso “sempre”. Constata-se
que óculos e protetor solar são
os EPIS menos utilizados pelos
agricultores participantes da pesquisa e, quando analisada a escolaridade, ocorre o predomínio
da não utilização em todas as categorias. Os EPIS macacão, luvas e máscara, são usadas sempre pelos trabalhadores pesquisados e isso ocorre em todos os
níveis de escolaridade.
A relevância da pesquisa
centra-se em informar a população estudada acerca do uso correto dos produtos, aliado às medidas de proteção específicas, esclarecer acerca de maneiras de
evitar agravos e, caso ocorram,
que saibam as condutas adequadas para evitar danos à saúde
dos expostos a estas substâncias. Os resultados também podem ser utilizados como subsídios para a implementação de
propostas de educação em saúde
articuladas com programas de
prevenção e controle de agravos, disponibilizando à comunidade local e regional, um serviço de informação e orientação
em nível de atendimento primário.
Os resultados desta pesquisa podem ser utilizados por
estudantes, pesquisadores, profissionais que atuam tanto em organizações desta natureza, como também na Rede Básica de
Saúde, em hospitais, no sentido
de desencadear reflexões, discussões, instigar a realização de
mais investigações envolvendo
a referida temática, bem como
mobilizar ações no sentido de
minimizar os riscos à saúde dos
trabalhadores, seus familiares, à
população em geral, bem como
na proteção do meio ambiente.
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Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
207
Alterações à saúde decorrentes do manuseio do glutaraldeído na
desinfecção de artigos médico-hospitalares
Health alterations due to the handling of glutaraldehyde in the disinfection of medical-hospital
products
Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz
Robazzi, Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros-RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010v8-n25; (203212)
Resumo
O trabalhador de enfermagem expõe-se aos vários fatores de riscos em seu ambiente laboral, inclusive ao manusear Glutaraldeído, substância química utilizada nos Estabelecimentos Assistenciais
de Saúde para a desinfecção e esterilização de artigos médico-hospitalares não-descartáveis. Essa exposição tem gerado discussões sobre a saúde e segurança dos trabalhadores de enfermagem. O presente estudo tem como objetivo investigar as alterações à saúde ocasionadas aos trabalhadores de enfermagem relacionados ao manuseio desse produto no processo de desinfecção dos artigos médicohospitalares, bem como os principais meios de proteção necessários quando se utiliza essa substância
e em qual ambiente essa deve ser manipulada. Utilizou-se como metodologia a revisão bibliográfica
de artigos publicados na biblioteca eletrônica SciELO entre 1994 e 2008, utilizando-se os descritor
glutaraldeído e enfermagem do trabalho. A amostra foi composta por oito artigos os quais foram lidos
na íntegra e analisados criteriosamente. Com os resultados, constatou-se que o manuseio do glutaraldeído é um fator de risco ocupacional que pode ocasionar alterações em vários sistemas do corpo humano, como o respiratório, cardiovascular, gastrointestinal, tegumentar, ocular, entre outros sintomas; quando tal produto é manipulado pelo trabalhador de forma inadequada e sem o uso de equipamentos de proteção individual. Conclui-se que os trabalhadores de enfermagem que manipulam glutaraldeído necessitam aderir aos princípios de biossegurança dando ênfase na utilização dos equipamentos de proteção individual, evitando assim eventos como tosse, coriza, cefaléia, dermatites, ulcerações, irritações nos olhos, entre outros.
Descritores: glutaraldeído, risco ocupacional, enfermagem do trabalho
208
Abstract
Nursing workers are exposed to several risk factors in their occupational environment, including
the handling of Glutaraldehyde, chemical substance used in Health Care Services, to the disinfection
and sterilization of non-reusable medical-hospital products. This exposure has caused discussions
about nursing workers' health and security. The present study aims to explore the alterations caused to
nursing workers' health, related to the handling of Glutaraldehyde in the disinfection process of medical-hospital products, as well as the main protection means needed when using this substance and in
which environment it should be handled. It was used as methodology the bibliographic review of articles published on the electronic library SciELO, between 1994 and 2008, using as descriptors
Glutaraldehyde and occupational nursing. The sample consisted of eight articles which were read
fully and thoughtfully analyzed. As results it was evidenced the handling of glutaraldehyde is an occupational risk factor that might cause changes in several body systems like the respiratory, cardiovascular, gastric, integumentary ocular systems, among others symptoms, when this product is handled by
the worker improperly and without the use of personal protective equipment. It was concluded the
nursing workers that handle of Glutaraldehyde need to adhere to the principles of biosafety, with emphasis on use of personal protective equipment, preventing events such as cough, runny nose, headache, dermatitis, ulcerations, eye irritation, among others
Descriptors: Glutaraldehyde, Occupational Risks, Occupational Health Nursing
Anielle Samara de Souza – Enfermeira, Graduada no Centro Universitário do Triângulo UNITRI. [email protected]
Eliene Ferreira Resende - Enfermeira, Graduada no Centro Universitário do Triângulo UNITRI. [email protected]
Liomar Afonso Teixeira - Enfermeiro, Graduado no Centro Universitário do Triângulo UNITRI. [email protected]
Miriam de Fátima Silva - Enfermeira, Graduada no Centro Universitário do Triângulo UNITRI. [email protected]
Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi. Enfermeira do Trabalho. Doutora em Enfermagem. Professora Titular da Escola de Enfermagem
de Ribeirão Preto EERP-SP. E-mail: [email protected].
Luiz Almeida da Silva - Enfermeiro do Trabalho. Mestrando em Enfermagem Fundamental - Saúde do Trabalhador EERP/USP,
Professor do UNITRI- Uberlândia-MG. E-mail: [email protected]
Sonia Aparecida Faleiros – Especialista em Metodologia do Ensino Superior. Professora da Escola Navegantes, Uberlândia-MG.
Email: [email protected]
209
Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi,
Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros.
Introdução
Uma das formas mais
usuais para a prevenção de infecções hospitalares é o processo de esterilização e desinfecção
dos artigos médico-hospitalares
não descartáveis. Tais infecções
constituem-se em um importante problema de Saúde Pública,
tanto pela sua abrangência como
pelos elevados custos sociais e
econômicos (1).
Os responsáveis pela segurança e eficácia da utilização
dos materiais médicohospitalares, em geral, são os
profissionais de enfermagem.
Com a desinfecção e esterilização, que se constituem em procedimentos habitualmente realizados sob sua responsabilidade,
pressupõe-se que a saúde dos trabalhadores de enfermagem deve
ser considerada, já que eles estão diretamente envolvidos com
as substâncias químicas utilizadas na destruição de microorganismos patogênicos, alojados
nesses equipamentos. O manuseio inadequado de tais substâncias pode causar danos à saúde
constituindo-se em questão relevante para a segurança do trabalhador (2).
Ao se relacionar a análise das vertentes entre saúde e trabalho devem ser consideradas as
discussões sobre biossegurança,
entendida como um conjunto de
ações voltadas para prevenção,
minimização ou eliminação dos
riscos inerentes às atividades laborais. Essas atividades, na maioria das vezes, podem comprometer a saúde do homem bem como a qualidade do trabalho desenvolvido (2).
Na área de saúde pode-
210
se observar a existência de numerosos fatores de riscos ocupacionais, sendo um deles representado pelo Glutaraldeído, agente de
risco químico, ao qual o trabalhador pode se tornar exposto.
Esse produto é uma substância química na forma líquida
utilizada nos Estabelecimentos
Assistenciais de Saúde (EAS)
no processo de desinfecção e esterilização de artigos médicohospitalares, por ter eficiente papel na eliminação de microrganismos como bactérias, fungos,
vírus e outros. É aceito largamente como desinfetante de alto
nível e quimioesterilizador (3).
No entanto, a recente
Resolução RDC n° 8, de
27/02/2009 da Agencia
Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVISA) determina que, fica
suspensa a esterilização química por imersão, com agentes esterilizantes líquidos, para o instrumental cirúrgico e produtos
para saúde utilizados nos procedimentos hospitalares (4).
Diante disso, no presente estudo, não será abordada a esterilização, e sim a desinfecção
por Glutaraldeído, o que é preconizado atualmente pela
ANVISA (4).
A vigilância à saúde dos
trabalhadores expostos aos fatores de riscos químicos, em especial ao Glutaraldeído, deve ocorrer de forma constante. A manipulação dessa substância, diante
dos sérios riscos que pode oferecer a saúde do trabalhador necessita ser realizada com todos
os equipamentos de proteção individual (EPI) necessários. O
ambiente físico onde é manuseado deve ser arejado, dispor de
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
chuveiros para banho, ter água
abundante e condições de atendimento imediato às vítimas de
possíveis acidentes com esse
produto. A exposição ao vapor
de Glutaraldeído acontece quando o trabalhador manipula os artigos em ambientes fechados,
sem ventilação, favorecendo o
aparecimento de irritação nos
olhos, nariz e garganta, queimaduras cutâneas e outros (2).
É de fundamental importância a conscientização e
educação permanente dos profissionais proporcionando-lhes
condições para um trabalho seguro, bem como a oportunidade
para reflexões, discussões, críticas, atualização e adoção de medidas preventivas corretas (5).
Por atuar no processo de
desinfecção dos artigos médicohospitalares não descartáveis, o
profissional de enfermagem expõe-se aos efeitos do
Glutaraldeido, sendo os mais comuns decorrentes dessa exposição os seguintes: náuseas, cefaleia, obstrução das vias aéreas,
asma, rinite, irritação dos olhos,
dermatite e descoloração da pele. Quando manipulam
Glutaraldeído, precauções apropriadas devem ser adotadas para
proteger a saúde, tornando assim, imprescindível o uso de
EPI's (5).
A investigação das alterações à saúde ocasionada aos
trabalhadores de enfermagem,
relacionadas ao manuseio do
Glutaraldeído, no processo de
desinfecção dos artigos médicohospitalares, possibilitará uma
promoção do conhecimento dos
profissionais de saúde quanto
aos malefícios e benefícios do
Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi,
Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros.
mesmo favorecendo um melhor
cuidado às pessoas que procuram os serviços de saúde.
Entende-se então que este estudo é de relevância social e cientifica, contribuindo para aumentar o conhecimento sobre o tema.
Objetivos
Geral: investigar as alterações à saúde ocasionadas aos
trabalhadores de enfermagem relacionados ao manuseio do
Glutaraldeído no processo de desinfecção dos artigos médicohospitalares não descartáveis.
Específicos: identificar
sinais e sintomas ocasionados
pelo uso e manuseio do
Glutaraldeído; quais os meios
de proteção individual necessários para manusear esse produto
e qual o ambiente físico mais
adequado para este manuseio.
Revisão da literatura
História da desinfecção e da esterilização
A infecção hospitalar
apresenta relevância na história
dos hospitais e da medicina, pois muito se aprende com o passado. Ignaz Semmelweis (18181865) instituiu, no ato de lavar
as mãos, a medida de eleição no
controle das infecções hospitalares e Oliver Holmes (19091994) implantou a prática da lavagem das mãos, no controle
das infecções cruzadas nos hospitais. O gesto de lavar as mãos
sobrevive como medida mais eficaz na prevenção das infecções,
tendo sido adotado por pessoas
importantes que desenvolveram
conhecimentos e métodos, os
quais contribuíram para o controle da infecção hospitalar, podendo-se citar Florence
Nightingale, Joseph Lister,
Louis Pasteur e William
Halstedt (6), entre outros.
A lavagem das mãos é
um procedimento rotineiro que
juntamente com o processo de
desinfecção e esterilização representa uma grande importância no controle das infecções
hospitalares. O processo de desinfecção dos artigos médicohospitalares constituiu-se em
uma grande descoberta para eliminar antígenos patogênicos,
uma prática já utilizada há muitos anos (6).
Artigos médicohospitalares são instrumentos
de natureza diversa, utilizados e
manuseados pelos pacientes, tais como utensílios (comadres,
papagaios, louças, talheres,
etc.), instrumentos de corte, próteses, drenos e outros. Podem
ser classificados em: artigos críticos (os que penetram através
da pele e mucosas nos tecidos
sub-epiteliais e no sistema vascular, tais como bisturis, agulhas, entre outros. Pelo grande
risco de transmissão, devem ser
esterilizados); artigos semicríticos (os que têm contato com a pele não íntegra ou com mucosas
íntegras, como endoscópicos, laringoscópios, entre outros.
Requerem desinfecção
de alto nível ou esterilização para ter garantia da qualidade do
seu múltiplo uso); artigos nãocríticos (os que entram em contato com a pele íntegra, tais como termômetros axilares, estetoscópios e outros). Tais artigos
devem ser desinfectados e esterilizados de forma correta, com
o objetivo de prevenir as infecções hospitalares (7).
No final do século XIX,
o calor de aproximadamente
125 graus centígrados e água em
ebulição foram elementos utilizados para realizar a limpeza e
desinfecção dos aventais e instrumentais cirúrgicos.
Favoreceram a descoberta dos
equipamentos de esterilização
atuais. Em 1867, Joseph Lister,
baseando-se nas descobertas de
Louis Pasteur, concluiu que o
uso de ácido fênico ou ácido carbônico poderia reduzir o risco
de infecções nos pacientes submetidos a cirurgias; se o ferimento fosse coberto por uma atadura umedecida em fenol, poderia manter o antígeno distante
dos ferimentos. Acreditava também que as lavagens das mãos e
dos instrumentos cirúrgicos na
mesma solução diminuiriam as
infecções que poderiam ser provenientes das mãos e instrumentos insuficientemente assépticos
(8). Naquela época era difícil
convencer as pessoas de que a higienização das mãos e de instrumentos cirúrgicos, de vestimentas e do ambiente poderia promover saúde e qualidade de vida. Entretanto, mesmo diante da
evolução do conhecimento científico, as infecções hospitalares
ainda têm se constituído em grave problema de Saúde Pública
envolvendo custos sociais e econômicos (3).
O uso do Glutaraldeído no processo de desinfecção
Aldeídos têm sido usa-
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211
Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi,
Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros.
dos desde o ano de 1963, classificados como solução germicida
de alto nível, sendo capaz de esterilizar artigos em período de
exposição prolongado. O
Glutaraldeído é o agente mais
utilizado na desinfecção. Na concentração de 2%, não danifica
metais; é um produto não corrosivo, sendo usado para instrumentos sensíveis ao calor, que
são denominados de artigos termossensíveis. Por outro lado, é
considerado um produto tóxico
e nocivo à saúde das pessoas que
o manuseiam, podendo comprometer a saúde dessas pessoas,
quando não seguem as normas
adequadas para desinfecção,
além de produzir efeitos nocivos
ao meio ambiente (1).
A desinfecção dos artigos médico-hospitalares pode
ser divida em três níveis, de acordo com o poder de destruição
dos microorganismos. No seu espectro de ação a desinfecção de
alto nível deve iniciar a eliminação de alguns esporos, tais como: o bacilo da tuberculose,
além de todas as bactérias vegetativas, fungos e todos os vírus.
É indicada para artigos semicríticos, como lâminas de laringoscópios, equipamento de terapia
respiratória, anestesia e endoscópio de fibra ótica flexível (1).
Na desinfecção de nível
intermediário, não é esperada
qualquer ação sobre os esporos
bacterianos e ação média sobre
vírus não-lipídicos; mas se espera que seja tuberculicida e elimine a maioria das células vegetativas bacterianas. Cloro, iodóforos, fenólicos e álcoois pertencem a esse grupo. Os desinfetantes dessa classificação, junta-
212
mente com os de baixo nível,
são tipicamente usados para artigos que entrarão em contato somente com a pele íntegra ou para desinfecção de superfícies
(1).
Na desinfecção de baixo
nível, não há ação sobre os esporos ou o bacilo da tuberculose,
podendo ter ou não ação sobre vírus não-lipídicos e com atividade relativa sobre fungos; capaz
de eliminar a maioria das bactérias em forma vegetativa (1).
Riscos à saúde do trabalhador de enfermagem relacionado ao manuseio do
Glutaraldeído
No ambiente hospitalar
há vários riscos ocupacionais,
constituídos por uma multiplicidade de fatores de riscos presentes neste local, aos quais se submetem os trabalhadores da saúde, em geral, incluindo-se os de
enfermagem. Um desses riscos
ocupacionais (químicos) está relacionado ao contato com o
Glutaraldeído muito utilizado
nos hospitais e que tem causado
danos à saúde do trabalhador,
sem que este perceba os sinais e
sintomas inerentes ao manuseio
dessa substância (9).
Trabalhadores da área
da saúde são expostos, então, diariamente, a uma variedade de
substâncias tóxicas. Há cerca de
sete milhões de substâncias químicas registradas em nível mundial. A maioria prejudiciais e sua
toxidade está relacionada à dose, porém raramente os sinais clínicos são associados à utilização
desses produtos (2).
As principais manifestações que traduzem uma agressão cutâneo-mucosa são: irrita-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
ção, ulcerações, queimaduras e
erupções alérgicas. Os sinais clínicos descritos com maior frequência por trabalhadores de enfermagem têm sido ardor nos
olhos e queimação no nariz. O
uso impróprio do Glutaraldeído
propicia um risco real aos trabalhadores de saúde, em especial
aos de enfermagem que desempenham funções relevantes no
processo de desinfecção de artigos médico-hospitalares, portanto, é imprescindível que utilizem EPI e adotem medidas apropriadas de biossegurança (2).
No Estado de São Paulo,
considerando-se que há dentro
dos EAS o uso inadequado do
Glutaraldeído foi aprovada a
Resolução SS-27, de
28/02/2007, da Secretaria de
Estado da Saúde, instituindo medidas de controle sobre o uso do
produto. Entre outras determinações, instituiu-se que todos os
trabalhadores expostos devem
passar por exames médicos, tanto admissionais como periódicos, além de exame clínico minucioso e que inclua a avaliação de
aspectos neurocomportamentais e exames de laboratórios indicadores do efeito da exposição.
Deve-se estar atento,
também, para a necessidade de
realização de exames de mudança de função e de retorno ao trabalho. Além disso, os EAS devem realizar programas internos
de capacitação, treinamento e comunicação de riscos aos trabalhadores (10). Visando maior segurança aos trabalhadores dos
serviços de saúde, foi elaborada
a Norma Regulamentadora –
NR 32 intitulada Segurança e
Saúde no Trabalho em Serviços
Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi,
Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros.
de Saúde. Essa Norma Regulamentadora – NR
tem por finalidade estabelecer as diretrizes básicas
para a implementação de medidas de proteção à segurança e à saúde dos trabalhadores dos serviços
de saúde, bem como daqueles que exercem atividades de promoção e assistência à saúde em geral.
Para fins de aplicação desta NR entende-se por serviços de saúde qualquer edificação
destinada à prestação de assistência à saúde da população e todas as ações de promoção, recuperação, assistência, pesquisa e ensino em saúde em
qualquer nível de complexidade (11).
Metodologia
Trata-se de um estudo de revisão de literatura onde foram procurados artigos nacionais publicados entre 1994 e 2008 na biblioteca eletrônica
SciELO -Scientific Electronic Library Online. O levantamento bibliográfico foi realizado no período
de fevereiro a outubro de 2009, utilizando-se os
descritores constantes no DeCS da Bireme;
Glutaraldeído, riscos ocupacionais e enfermagem
do trabalho.
A partir dessa estratégia foram identificados, inicialmente 82 artigos, os quais seus resumos
foram analisados criteriosamente. Foram incluídos
os artigos com acesso na íntegra; publicados no idioma português e aqueles que embora não tivessem
todos os descritores, estivessem relacionados com
alterações à saúde em enfermagem e glutaraldeído.
Foram excluídos aqueles que, embora os descritores os direcionassem, não se relacionavam diretamente ao tema proposto. Ao final, obedecidos aos
critérios de inclusão e exclusão dos artigos, obteve-se, o total de oito que abordavam as alterações à
saúde dos trabalhadores de enfermagem, ocasionado pelo manuseio inadequado do Glutaraldeído.
Para melhor fundamentação teórica que
possibilitasse uma boa discussão, foram também
utilizados outros manuscritos encontrados na
ANVISA e outras literaturas impressas pertinentes, tais como: livros e revistas científicas.
Resultados e discussão
No quadro a seguir estão apresentadas algumas características dos artigos utilizados na pesquisa.
Conforme descrito anteriormente, no período de 1994 a 2008 oito artigos foram publicados
nos periódicos Revista Latino-Americana de
Enfermagem, Ciência, Cuidado e Saúde, Revista
Brasileira de Enfermagem, Revista Eletrônica de
Enfermagem, Revista de Enfermagem da UERJ,
Acta Ortop Brás, Brasiliamédica; sendo que cinco
foram de revisão bibliográfica e três de pesquisa
descritiva com análise quantitativa de dados.
Em consonância com os objetivos do estudo, os achados foram divididos nos tópicos descritos a seguir.
Quanto ao objetivo de identificar sinais e
sintomas ocasionados pelo uso e manuseio do
Glutaraldeído, as alterações à saúde do trabalhador
encontradas nos artigos utilizados neste estudo, foram divididas conforme os sistemas do corpo humano e estão apresentadas a seguir.
No artigo O uso do Glutaraldeído em serviços de saúde e a segurança do trabalhador, os principais sinais e sintomas citados foram: prurido,
manchas pelo corpo, falta de ar e edema na face, lesões na boca, ardor na garganta e olhos, queimação
no nariz. É relevante destacar que nem sempre estes sinais e sintomas são percebidos pelos trabalhadores que manuseiam tal produto (2).
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No artigo Riscos químicos a que estão submetidos os
trabalhadores de enfermagem:
uma revisão bibliográfica foram
relatados casos de enfermeiros e
médicos apresentando manifestações clínicas como lacrimejamento, rinites, dermatites, dificuldades respiratórias, náuseas
e dor de cabeça após a exposição
ao Glutaraldeído (9).
O uso de EPI é uma das
medidas de segurança para os
profissionais que manipulam
substâncias tóxicas em seus locais de trabalho; esses equipamentos são regulamentados pela
Portaria 3214-NR-6 do
Ministério do Trabalho e devem
ser disponibilizados aos trabalhadores. Para o manuseio adequado do Glutaraldeído necessita-se de avental impermeável, luva de nitrila ou dupla luva de látex; óculos de proteção e máscara com filtro químico (2).
O fator ambiental é um
aspecto relevante a ser observado com elevada atenção na relação com a exposição do profissional a esse composto químico,
durante o período de trabalho. A
Sociedade Brasileira de
Enfermeiros de Centro
Cirúrgico, Recuperação
Anestésica e Centro de Material
e Esterilização (SOBECC) recomenda que, a esterilização de
material, deve ocorrer de forma
centralizada. Condições apropriadas de segurança em um ambiente de trabalho devem ser previstas em seu plano arquitetônico e implementadas na execução da obra (2).
No artigo Avaliação arquitetônica do centro de material de esterilização de hospitais
214
do interior do estado de Goiás há
o relato que a descentralização
ou a semicentralização dificultam a padronização das etapas
operacionais do reprocessamento dos artigos (limpeza, secagem, preparo, acondicionamento, desinfecção e esterilização)
(12).
A sala onde ocorre a desinfecção por Glutaraldeído deve dispor no mínimo de bancadas com cubas, ponto de água
fria, revestimentos de paredes e
piso com material impermeável
e de fácil higienização, ralo sinfonado com tampa escamoteável, sinalização gráfica para
identificação do local, lava
olhos para uso de emergência e
sistema de ventilação (7).
A falta de planejamento
do espaço físico, a aeração inadequada e as temperaturas elevadas podem agir sinergicamente e contribuir para o aumento
das concentrações do
Glutaraldeído nesses locais, potencializando o risco laboral.
Recomenda-se que o deslocamento do ar deva ser sempre das
áreas de baixo para as de maior
risco, ou das áreas limpas para
as menos limpas (2).
No que se refere ao objetivo de identificar quais os meios de proteção necessários ao
manusear o produto, encontrouse a biossegurança, que é uma
área de conhecimento relativamente nova, a qual impõe desafios não somente à equipe de saúde, mas também às empresas
que investem em pesquisas.
Designa um campo de
conhecimento e um conjunto de
práticas e ações técnicas, com
preocupações sociais e ambien-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
tais, destinados a conhecer e controlar os riscos que o trabalho pode oferecer ao ambiente e à vida
(7).
Nos EAS a biossegurança necessita ser mais bem compreendida pelos profissionais
que ali atuam, especialmente, os
que trabalham em áreas hospitalares críticas, uma vez que estão
mais suscetíveis a adquirir doenças provenientes de acidentes de
trabalho, por ausência de adoção e compreensão da biossegurança (13).
Biossegurança pode ser
também entendida como um conjunto de ações voltadas para a
prevenção, minimização ou eliminação de riscos inerentes às
atividades de pesquisa, produção, ensino, desenvolvimento
tecnológico e prestação de serviços, riscos que podem comprometer a saúde do homem, animais, meio ambiente ou a qualidade dos trabalhos desenvolvidos (13).
Trabalhadores de enfermagem compõem a maioria dos
que atuam na área de saúde e são
as pessoas que estão frente à desinfecção de artigos médicohospitalares termossensíveis,
sempre expostos aos produtos
químicos, como por exemplo, o
Glutaraldeído, muito utilizado
para este tipo de desinfecção.
Diante da definição de biossegurança, o uso dos EPI é indispensável para o manuseio desse
produto químico, por se tratar de
uma substância altamente tóxica (13). .
Os EPI constituem-se
em dispositivos de proteção individual que destinam a proteger o
trabalhador e minimizar aciden-
Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi,
Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros.
tes ocupacionais e são fundamentais para os profissionais de
enfermagem que trabalham com
produtos químicos em desinfecção de artigos médicohospitalares não descartáveis
(14).
O fator de prevenção de
acidente ocupacional mais relevante é a atitude que cada indivíduo adota, graças a um processo
educativo, pois a própria equipe
de enfermagem tem dificuldade
e resistência em aderir às medidas de segurança que buscam a
proteção ao risco, subestimando, muitas vezes, o próprio risco
(5).
A educação em biossegurança não foi inserida nas disposições legais de formação dos
profissionais de enfermagem,
existindo, ainda, um largo caminho entre a dimensão do problema, formação e capacitação de
recursos humanos para a concretização de uma prática profissional segura.
Consequentemente existe uma deficiência na formação
profissional do enfermeiro, no
que tange à sua sensibilização
para medidas relativas à biossegurança (5). .
A representação da biossegurança é descrita pelos trabalhadores de enfermagem como
EPI, antissepsia e uso apropriado de descartex e outros. Essas
representações apresentam-se
fortemente vinculadas aos aspectos benéficos das ações nesse aspecto por proporcionar medidas de proteção individual e
coletivas aos pacientes e profissionais do ambiente hospitalar
(13).
O hospital é o local onde
se concentra a maioria dos trabalhadores da área de saúde,
principalmente a equipe de enfermagem que presta assistência
direta e indireta ao paciente, que
permanecem a maior parte do
seu tempo dentro desse ambiente, muitas vezes em mais de um
turno de trabalho. O ambiente
hospitalar, local onde se tenta
salvar vidas e recuperar a saúde
perdida das pessoas doentes é o
mesmo que favorece o adoecer
das pessoas que nele trabalham,
porque aparentemente, não há
uma inquietação com a proteção, promoção e manutenção da
saúde de seus empregados (9).
A preocupação com a saúde do trabalhador da saúde fez
se presente desde 1700, quando
Ramazzini questionou a contaminação das parteiras, possíveis
precursoras dos trabalhadores
de enfermagem, durante a realização de seu trabalho e consolidou-se após o reconhecimento
das ações de risco a relevância
do uso dos EPI (9).
No ambiente hospitalar
os profissionais de enfermagem
estão submetidos aos vários riscos, dentre eles, os químicos, biológicos, físicos e outros. Os riscos químicos são os gerados pelo manuseio de uma grande variedade de substâncias químicas,
provenientes da manipulação de
sustâncias utilizadas em áreas
de limpeza, desinfecção e esterilização dos materiais, equipamentos e mobiliários utilizados
pelos pacientes (8). Entende-se
que os EPI ajudam a eliminar ou
minimizar os acidentes de trabalho.
Apesar de não se restringir apenas ao uso do
Glutaraldeído, a recente NR 32
que trata sobre a segurança nos
serviços de saúde, também explicitam a necessidade de utilização de EPI para os vários tipos
de atividades desenvolvidas nos
EAS, equipamentos estes que
vão promover a proteção e segurança dos trabalhadores (11).
O trabalhador de enfermagem torna-se mais vulnerável aos riscos, devido à diversificação das atividades e o conhecimento ainda precário da
equipe, no que diz respeito aos
riscos associados à manipulação
de produtos químicos, não reconhecendo a nocividade para a saúde, quando são manipulados
inadequadamente (8).
Durante a exposição e
manuseio do glutaraldeído são
necessários cuidados específicos tais como: proteção dos
olhos, das mãos, do corpo e via
respiratória.
Em relação à proteção
dos olhos, esses devem ser protegidos contra o contato com a
solução de glutaraldeído e os níveis de vapor devem ser controlados para prevenir irritação nos
olhos; óculos com ampla visão
e/ou peça facial inteira devem
ser usados sempre que trabalhar
com o produto (15).
Quanto à proteção das
mãos, elas devem ser protegidas
do contato com a solução, luvas
de borracha nitrílica e butílica
são os materiais mais impermeáveis ao glutaraldeído.
Polietileno e propileno fornecem proteção adequada por algumas horas. Polivinil e neoprene
não fornecem proteção adequada ao glutaraldeído. Luvas de látex não devem ser usadas, exce-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
215
Anielle Samara de Souza, Eliene Ferreira Resende, Liomar Afonso Teixeira, Miriam de Fátima Silva, Maria Lúcia do Carmo Cruz Robazzi,
Luiz Almeida da Silva, Sonia Aparecida Faleiros.
to por curto período de tempo
em contatos acidentais (15).
Para a proteção do corpo
recomenda-se o uso de capas,
aventais ou jalecos com mangas
longas e punhos em materiais impermeáveis disponíveis em polietileno e polipropileno. Tais vestimentas de proteção devem ser
removidas, imediatamente com
a saturação e lavadas antes do reuso; se houver qualquer contato
do produto com a pele, o local deve ser lavado com sabão sob
água corrente por pelo menos 15
minutos (15).
Com relação à proteção
respiratória, todos os indivíduos
expostos ao vapor de glutaraldeído devem usar respiradores adequados durante os procedimentos de rotina ou emergenciais e
inseridos em Programa de
Proteção Respiratória (PPR), de
acordo com as recomendações
técnicas da Fundação Jorge
Duprat Figueiredo de
Segurança e Medicina do
Trabalho (FUNDACENTRO),
conforme estabelecido na
Instrução Normativa n°. 1 de
11/04/94 (15).
Quanto ao objetivo de
identificar qual o ambiente físico mais adequado para o manuseio do Glutaraldeído, ficou evidente que nos EAS, especialmente em hospitais, a ativação e
manipulação do produto são realizadas na Central de Materiais e
Esterilização (CME), isto é, centralizando o seu uso.
Recomenda-se a não utilização
em Centros Cirúrgicos para não
expor os trabalhadores e os pacientes ao vapor orgânico, pois os
ambientes fechados, mesmo
com sistema de ar condicionado
216
central com filtros, não possuem
renovação do ar, apenas recirculação (15).
A SOBECC recomenda
que o ambiente onde se inicie o
processo de desinfecção e esterilização seja centralizado. O
planejamento do ambiente físico é de suma importância, considerando-se as diferentes etapas do processamento dos materiais, até a sua distribuição nas
unidades do hospital. Por isso deve ser executado por equipe multiprofissional, cuja atenção deve
estar voltada para a dinâmica de
funcionamento do setor. Quanto
a essa dinâmica existem três tipos de central de esterilização: a
descentralizada – cada unidade
ou conjunto de unidades do hospital é responsável por preparar
e esterilizar os materiais que utiliza; a semicentralizada, onde cada unidade prepara os seus materiais, mas encaminha à Central
de Material para serem esterilizados e a centralizada, onde os
materiais de uso em todas as unidades do hospital são totalmente
processados na Central de
Material (16).
Conclusão
O trabalhador de enfermagem que manuseia o
Glutaraldeído no processo de desinfecção de artigos médicohospitalares não descartáveis
apresenta sinais e sintomas que
nem sempre são percebidos,
mas que podem afetar a saúde futuramente, tais como, obstrução
das vias aéreas superiores, tosse,
coriza, cefaleia, dermatites, ulcerações, erupções alérgicas, irritação nos olhos, lacrimejamento, dentre outros. Nesse aspecto
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
é de fundamental importância a
utilização de medidas apropriadas de biossegurança além dos
EPI, o que implica na redução
dos fatores de riscos ocupacionais. Os principais equipamentos recomendados quando houver necessidade de manipulação
desse produto são: óculos com
ampla visão ou peça facial inteira; luvas de borracha nitrílica e
butílica; aventais ou jalecos com
mangas longas e punhos em materiais impermeáveis; máscaras
compatíveis com o trabalho realizado e inseridos no PPR.
A manipulação do
Glutaraldeído deve acontecer
em ambiente apropriado com o
objetivo de propiciar ao trabalhador um local salubre e evitar
acidentes relacionados a este
produto químico.
Percebe-se que há necessidade de aumentar o número
de pesquisas sobre essa temática
com desígnio de incrementar o
conhecimento existente sobre a
mesma, contribuindo também
para que o trabalhador de enfermagem tenha sempre informações pertinentes sobre os problemas ocupacionais relacionados aos riscos químicos em geral e ao Glutaraldeído em especial.
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Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
217
Caderno da
Saúde do Idoso
Conselho Cientifico do Caderno da Saúde do Idoso
Diretor Científico/Scientific Editor
Dr. José Vitor da Silva- Saúde da Pessoa Idosa-Escola Enferm. Wenceslau Braz,UNIVÁS/MG-BRASIL
Conselho Científico
Dra. Cristiane Giffoni Braga Mattos- Doutora em Enfermagem, Diagnósticos de enfermagem- Escola de Enfermagem Wenceslau Braz/ MGBRASIL
Dra. Maria Angélica Mendes- Doutora em Enfermagem,Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE)-UNIFAL/ MG-BRASIL
Avaliação da qualidade de vida dos homens idosos residentes em
cidades sul-mineiras
Life quality evaluation of elderly men living in south of Minas
Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino.
RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n.25;(203-212).
Resumo
Os objetivos do presente estudo foram: 1) identificar as características biossociais, familiares, econômicas e de saúde dos homens idosos, residentes em cidades sul-mineiras; 2) avaliar a sua QV e 3) relacionar as características biossociais, familiares, econômicas e de saúde com a QV. A abordagem foi
do tipo quantitativo, descritivo e transversal. A amostra foi de 300 pessoas do gênero masculino com
60 anos ou mais, das cidades de Itajubá, Maria da Fé e Brazópolis, MG. A amostragem foi do tipo não
probabilístico intencional. A entrevista foi estruturada direta. Foram utilizados três instrumentos: 1)
Características biossociais, familiares, econômicas e de saúde; 2) WHOQOL-bref e 3) WHOQOLold. Numa escala de 0 a 100 pontos, a avaliação da QV geral, por meio do WHOQOL-bref, apresentou
M= 74,20 e DP= 8,65. O domínio “psicológico” foi aquele que mais qualificou a QV com M= 76,2 e
DP= 9,86; já o domínio “meio ambiente” obteve o escore mais baixo (M= 70,45 e DP= 9,77). Quanto à
avaliação da QV total por meio do WHOQOL-old (em uma escala de 0 a 100 pontos), obteve-se M=
75,6 e DP= 8,12. O domínio “funcionamento do sensório” foi o que mais contribuiu com a QV com
M= 80,65 e DP= 16,75. A dimensão “autonomia” foi a que alcançou pontuação mais inferior entre as
demais (M= 70,25 e DP= 11,35). Ao relacionar as variáveis biossociais com o WHOQOL-old, encontrou-se correlações positivas e significativas. As pessoas idosas qualificaram sua vida como muito
boa, tanto do ponto de vista geral como específico.
Descritores: Qualidade de vida; idoso; gênero.
Abstract
The present study aimed at first to identify the biosocial, familiar, economic and health features of
elderly men, living in the south of Minas; secondly to evaluate their QL and in third place to relate the
biosocial, familiar, economic and health features with the QL. It is a quantitative, descriptive and
transversal study. The sample was composed of 300 male people, aging 60 years or more, living in the
cities of Itajubá, Maria da Fé and Brazópolis, MG. It was an intentional, non probabilistic kind. Three
instruments were applied: 1) Biosocial, familiar, economic and health features; 2) WHOQOL-bref; 3)
WHOQOL-old. In a scale of 0 to 100 points, the evaluation of general QL, through WHOQOL-bref,
presented M= 74,20 and DP= 8,65. The psychological dominium was the one that most qualified the
QL with M= 76,2 and DP= 9,86; the “environmental” dominium got the lower score in relation to the
others (M= 70,45 e DP= 9,77). Regarding the total QL evaluation by through WHOQOL-old (in a
scale of 0 to 100 points), it got M= 75,6 e DP= 8,12. The “sensory working” dominium was the one that
most contributed to the QL with M= 80,65 and DP= 16,75. On the other hand, the “autonomy” dimension was the one that got the lowest punctuation among the (M= 70,25 e DP= 11,35). Elderly people
qualified their lives as very good, both from general and the specific point of view.
Descriptors: Quality of life; elderly; gender.
Daniel Rodrigues Machado. Acadêmico do 6º Período do Curso de Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem Wenceslau
Braz (EEWB). Bolsista de Iniciação Científica da Fapemig.
Ewerton Naves Dias. Enfermeiro, docente da EEWB. Mestrando pela Universidade de São Paulo (USP).
José Vitor da Silva. Enfermeiro, docente da EEWB. Pós-doutorando pela USP.
Luciano Magalhães Vitorino. Enfermeiro, docente da EEWB. Mestrando pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
Fernando Magalhães Vitorino. Enfermeiro, docente da EEWB.
220
Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino.
Introdução
Na atualidade, observase a ascensão da tecnologia voltada para a saúde, mais acesso à
vacinação, medicações, exames, e melhoria nas condições
sanitárias das zonas rurais e urbanas. Todos esses fatores podem
ser citados como responsáveis
pelo aumento da expectativa de
vida das pessoas e, consequentemente, pela transição demográfica que os países desenvolvidos
e em desenvolvimento como o
Brasil estão vivenciando (1).
O envelhecimento populacional é hoje um fenômeno
mundial de relevância considerável, determinando um aumento da população idosa em relação aos demais grupos etários.
Em 1950, o percentual de pessoas com 60 anos ou mais de idade
era de 8,2%; em 2000 essa faixa
etária alcançou 10%. As projeções para 2050 afirmam que haverá uma pessoa idosa para cada
grupo de cinco indivíduos (2).
Para Trentini (3) é reconhecido que viver por muitos
anos sempre foi desejado pela
humanidade, mas somente esse
fato não é satisfatório para preencher os objetivos humanos.
Diante desse panorama, fica clara a importância dos estudos direcionados à avaliação da
Qualidade de Vida (QV) na velhice, pois eles têm o potencial
de esclarecer se as pessoas idosas estão adicionando anos à vida ou vida aos anos.
A noção de QV vai além
das questões que refletem o campo saúde e doença; possui, portanto, um campo semântico e
pluralista: de um lado, encontrase relacionada ao modo de vida,
suas condições e estilos; de outro, ao desenvolvimento sustentável e aos direitos humanos e sociais (4).
Paschoal (5) afirma que
existem diferenças entre a QV
do homem idoso e a QV da mulher idosa. Envelhecer em uma
classe social poderosa é diferente do envelhecer pertencendo a
uma classe social menos favorecida, e envelhecer enquanto homem é diverso de envelhecer
sendo mulher. Envelhecimento
envolve, portanto, classe social
e gênero (6).
Barros (7) comenta que
o homem idoso passa a ter o seu
dia a dia no espaço privado, perdendo assim o poder característico do homem adulto jovem,
que tem no espaço público sua
atuação cotidiana; isso representaria, portanto, perda de poder, que tem repercussões significativas na imagem de autonomia e de liberdade vivenciada pela maioria dos homens.
Diante do exposto, é viável o questionamento sobre a
QV do homem idoso. Os objetivos do trabalho foram: 1) identificar as características biossociais, familiares, econômicas e de
saúde dos homens idosos, residentes em cidades sul-mineiras;
2) avaliar a QV dos homens idosos e 3) associar as características biossociais, familiares, econômicas e de saúde, com a QV,
dos homens idosos.
Revisão de literatura
O crescimento da população idosa, em números relativos e absolutos, é um fenômeno
mundial e está ocorrendo de forma sem precedentes. No ano de
1950, eram cerca de 204 milhões de pessoas idosas no mundo e, em 1998, quase cinco décadas depois, esse contingente passou a somar 579 milhões de indivíduos, um crescimento de quase oito milhões de gerontes por
ano. Existem projeções que indicam que, em 2050, o número de
pessoas idosas será de 1,9 bilhão
(8).
Uma pesquisa recente
diz que 9% da população da
América Latina possui 60 anos
ou mais de idade, e a previsão para 2050 é de que, para cada cinco
latino-americanos, um terá essa
idade (9).
No Brasil, estima-se que
34 milhões de pessoas terão idade igual ou superior a 60 anos
até a data de 2025, o que representa, aproximadamente, expressivos 13% da população total. Em 2000, o número de indivíduos com 60 anos ou mais era
de cerca de 14.536.029 contra
10.722.705 em 1991 (10).
Por essas mudanças na
estrutura da população entendese transição demográfica, que é
definida como o processo de alteração de uma situação com altas
taxas de fecundidade e mortalidade para outra com baixas taxas desses indicadores (11).
A transição demográfica
é um fenômeno assinalado por
quatro fases. A primeira fase é caracterizada por elevadas taxas
de fecundidade e mortalidade.
Na segunda, a fecundidade continua alta, mas, com os
avanços científicos e sociais na
prevenção de doenças, a taxa de
mortalidade começa a declinar.
Na terceira fase, a taxa de fecundidade entra em queda junto
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
221
Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino.
o com a mortalidade e começa a
haver maior proporção de adultos e jovens, não mais de crianças. Por fim, a última fase é marcada com a continuidade da redução da taxa de fecundidade e de
mortalidade e, consequentemente, o número de pessoas idosas torna-se expressivo (12).
Para Freitas (13), a população
brasileira está inserida na terceira fase dessa transição.
Segundo Bimbato (14),
em meio a essas transformações
expressivas, na estrutura populacional, ocorrem alterações,
também, nas características epidemiológicas. A transição epidemiológica é definida como:
mudanças nos padrões de morbimortalidade, principalmente,
por declínio das doenças infecto-parasitárias e aumento das doenças crônico-degenerativas
(15).
Em território brasileiro,
um terço dos indivíduos que chegam aos 70 anos são portadores
de doenças crônicas e pelo menos 20% dessas pessoas idosas
terão algum grau de incapacidade associada, implicando diminuição da capacidade física e restrições à autonomia e à independência (16).
A QV vem-se tornando
uma variável útil para determinar o impacto global das doenças e dos tratamentos médicos a
partir da perspectiva do indivíduo, e sua avaliação é potencialmente válida para aplicações na
pesquisa e prática clínica para explicitar o impacto das doenças e
o possível benefício das intervenções terapêuticas (17).
Apesar de grande utilização e de diversas discussões
222
existentes sobre o real significado do termo QV nos últimos tempos, os pesquisadores concordam que o termo é ambíguo e inconsistente, que possui várias definições constituídas por uma variedade de fatores objetivos e
subjetivos que alternam de indivíduo para indivíduo, e que sofre influências de valores étnicos, religiosos e culturais
(18,19).
Kimura (20) esclarece
que, embora haja divergência
quanto ao real significado desse
termo, observa-se que há concordâncias, entre os autores,
quanto à inclusão de aspectos relacionados à capacidade funcional, às funções fisiológicas, ao
comportamento afetivo e emocional, às interações sociais, ao
trabalho e à situação econômica,
centrados na avaliação subjetiva
dos indivíduos. Assim a QV
apresenta-se, como um construto multifatorial, muito mais amplo do que meramente a presença ou ausência de saúde.
O modo de viver do homem gera estresse, sedentarismo, má alimentação e prática de
comportamentos não saudáveis
e de risco. É comum esse cidadão possuir várias parceiras sexuais, não fazer uso de preservativo, consumir bebidas alcoólicas e tabaco, não usar cinto de segurança, entre outras atitudes,
propiciando tanto o desenvolvimento de doenças como de situações que aumentam as taxas de
mortalidade (21, 22, 23).
Vários estudos mostram
maior mortalidade masculina do
que feminina. A maioria dos indicadores tradicionais de saúde
apontam, com clareza, a exis-
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
tência desse diferencial, sendo
maior a mortalidade masculina
em praticamente todas as idades, e para quase a totalidade das
causas. A menor sobrevida masculina foi, ou ainda é, quase sempre aceita sem muita discussão e
vista somente como resultado de
fatores biológicos (24).
Figueiredo (25) comenta
que os homens não buscam, como fazem as mulheres, os serviços de atenção primária. Brasil
(26) concorda com esta idéia e
acrescenta dizendo que os homens adentram o sistema de saúde pela atenção ambulatorial e
hospitalar de média e alta complexidade, o que causa o agravo
da morbidade pela demora na
atenção e também um maior gasto para os serviços de saúde.
As pesquisas qualitativas apontam várias razões para a
baixa adesão dos homens aos serviços de saúde, mas, de um modo geral, esses motivos podem
ser divididas em dois grupos
principais: barreiras sócioculturais e barreiras institucionais
(26,27).
Os estereótipos de gênero, presentes há centenas de
anos na cultura patriarcal, potencializam práticas baseadas
em crenças e valores do que é ser
masculino. O homem não reconhece a fragilidade como inerente à sua condição biológica e,
portanto, tenta esconder qualquer tipo de evento que contrarie
essa perspectiva, inclusive a doença (26). Segundo Bozon (28)
o homem julga-se invulnerável,
o que acaba por contribuir para
que ele dispense menos cuidados a si mesmo e se exponha mais às situações de risco.
Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino.
Muitos homens alegam que não procuram os serviços de atenção primária em razão da
posição de provedores que ocupam. Eles argumentam que os horários de funcionamento desses tipos de serviço coincidem com a carga horária de seu trabalho. Não há duvida de que isso é
uma barreira importante, contudo, há de se destacar que grande parte das mulheres se inclui na
força produtiva, e nem por isso elas ignoram a saúde (26).
Material e método
A abordagem do estudo foi do tipo quantitativo, descritivo e transversal. A amostra foi
constituída por 300 pessoas do gênero masculino que possuíam 60 anos ou mais, sendo que 212
pessoas idosas residiam em Itajubá, 52 em
Brazópolis e 36 em Maria da Fé, MG. A distribuição da amostra foi realizada de acordo com a relação proporcional de homens idosos residentes
em cada uma daquelas cidades onde a pesquisa
foi realizada. A amostragem foi do tipo não probabilístico intencional ou proposital. Os critérios de elegibilidade constituíram-se em: concordar em participar da pesquisa; ter 60 anos ou mais; ser do gênero masculino; residir nas cidades
mencionadas anteriormente e ter capacidade cognitiva e de comunicação preservadas.
A entrevista foi estruturada direta e o período de coleta de dados foi de março a dezembro de 2009. Para a coleta de dados, foram utilizados três instrumentos: 1) Características biossociais, familiares, econômicas e de saúde; 2)
WHOQOL-bref e 3) WHOQOL-old.
Foi utilizada a estatística descritiva para a
obtenção das frequências absolutas e relativas para as variáveis categóricas, assim como as medidas de tendência central para as variáveis contínuas ou numéricas, representadas pela média,
mediana, moda, desvio padrão, valor mínimo,
máximo e amplitude. Da estatística inferencial,
foram utilizadas as correlações de Spearmann e
o alfa de Cronbach.
À pesquisa seguiu às recomendações da
Resolução 196/96, do Conselho Nacional da
Saúde do Ministério da Saúde, no que concerne
a estudos que envolvem seres humanos. O trabalho foi encaminhado ao Comitê de Ética em
Pesquisa da Escola de Enfermagem Wenceslau
Braz (EEWB), tendo recebido parecer favorável
sob o número de protocolo: 219/2008.
Resultados
A maioria dos participantes (97,66%) residiam na zona urbana; a média de idade foi de
71,08 anos; 92,66% praticavam alguma religião,
sendo predominante a católica com 92,44%. No
que se refere à escolaridade, 41,33% tinham o ensino fundamental incompleto. No tocante ao estado conjugal, 71,66% eram casados; o tipo de família nuclear sobressaiu com 61,66%; 90% possuíam filhos e a média de filhos foi de 4,82. Em
relação à situação de trabalho, 63% eram aposentados e deixaram de trabalhar, a média de rendimento mensal foi de R$ 1.664,89
(DP=1623,00), sendo 2,85 o número médio de
pessoas dependentes dessa renda.
Quanto à percepção do estado de saúde, 37,33%
escolheram a opção “boa”; 58% possuíam doenças crônicas não transmissíveis, sendo a hipertensão arterial a patologia predominante
(53,44%); 55% não praticavam tipo algum
de exercício físico.
Tabela 1 - Medidas de tendência central da
Qualidade de vida referente aos homens idosos.
Itajubá, Brazópolis e Maria da Fé, MG, 2009
(n=300).
Fonte: Instrumento de Pesquisa.
A tabela 1 evidencia os escores obtidos
pelos instrumentos que avaliaram a QV. Os escores das escalas variavam de 0 a 100 pontos, sendo que quanto mais próximo de 100 melhor a
QV e quanto mais próximo de zero pior a insatisfação com a vida.
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223
Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino.
Tabela 2 - Medidas de tendência central dos domínios do WHOQOL-bref referentes aos homens idosos. Itajubá, Brazópolis e Maria da Fé, MG, 2009
(n=300).
Fonte: Instrumento de Pesquisa.
Tabela 3 - Medidas de tendência central dos domínios do WHOQOL-old referentes aos homens idosos. Itajubá, Brazópolis e Maria da Fé, MG, 2009
(n=300).
Fonte: Instrumento de Pesquisa.
nhada (r= 0,5 e p= 0,022) com a faceta “participação social”; não possuir doença crônica com os domínios “autonomia” e “Funcionamento do sensório” (r= 0,6 e p= 0,001 e r= 0,5 e p= 0,034, respectivamente).
O alfa de Cronbach alcançou o valor de
0,80 para o WHOQOL-bref, sendo que o domínio
“Físico” obteve o valor de 087, “Psicológico” 078,
“Relações Sócias” 0,81 e “Meio Ambiente” 0,80.
Já para o WHOQOL-old, o valor do alfa de
Crombach correspondeu a 0,82, enquanto que as facetas “Funcionamento do Sensório”, “Atividades
Passadas Presentes e Futuras” e “Morte e Morrer”
alcançaram o valor de 081, “Intimidade” e “Participação Social” receberam 0,79 e “Autonomia”
0,78.
Discussão
As tabelas 2 e 3 mostram as medidas de tendência central dos domínios do WHOQOL-bref e
WHOQOL-old. É importante mencionar que a distribuição dos escores dos domínios é igual à avaliação da QV global genérica e específica.
Ao relacionar as variáveis biossociais com
o WHOQOL-old, encontrou-se correlação positiva
e significativa com estado civil casado (r= 0,6 e p=
0,011); número de filhos (r= 0,5 e p= 0,029); estado
de saúde melhor (r= 0,5 e p= 0,033). Quando as variáveis biossociais foram relacionadas com os domínios do WHOQOL-old, houve correlação positiva e significativa do número de filhos (r= 0,7 e p=
0,000) e estado civil casado (r= 0,4 e p= 0,003) com
o domínio “atividades passadas presentes e futuras”; religião (r= 0,5 e p= 0,032) com o fator “morte
e morrer”; ter filhos (r= 0,4 e p= 0,007) e fazer cami-
224
Para avaliar a QV, dividiu-se o valor máximo de 100 pontos em cinco categorias distintas, tendo cada uma delas em forma crescente, o valor de
20 pontos. As categorias são: ruim, regular, boa,
muito boa e ótima.
Ao interpretar a QV dos homens idosos encontrou-se que ela se encontrava muito boa (61 a
80 pontos), tanto do ponto de vista geral como específico. Essa ocorrência talvez possa ser justificada
pelo fato de muitos homens idosos já terem atingido os seus objetivos profissionais, sociais e pessoais. Portanto, eles sentem-se mais realizados e desenvolvem um sentimento de dever cumprido em
relação à vida. Santos (29) afirma que algumas pessoas idosas convivem com o sentimento de orgulho, pois adquiriram casa própria, conseguiram o
beneficio da aposentadoria, obtiveram sucesso na
criação dos filhos e sobreviveram. Silva (30) realizou um estudo sobre a avaliação da QV de pessoas
idosas residentes em comunidades e constatou que
ela estava muito boa.
No instrumento WHOQOL-bref, o domínio que mais contribuiu com a QV foi o “Psicológico”. Pode ser que a experiência de vida auxilie o homem idoso na superação dos problemas do cotidiano e, consequentemente, ele aproveita melhor a vida, assim como desenvolve maior satisfação com
ela. Portanto, a probabilidade da pessoa idosa desenvolver sentimentos negativos tais como: mau
humor, desespero e ansiedade é reduzida. A pessoa
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Daniel Rodrigues Machado, Ewerton Naves Dias, José Vitor da Silva, Luciano Magalhães Vitorino, Fernando Magalhães Vitorino.
com experiência de vida analisa
o problema sob diversos prismas, o que facilita na escolha da
melhor alternativa para solucionar as dificuldades (31).
Segundo Neri (32), a esfera psicológica é a menos afetada com
o passar dos anos, pois o bemestar subjetivo - caracterizado
por afetos positivos, bem-estar,
satisfação, felicidade - não declina com a idade.
Por outro lado, o domínio “Meio Ambiente” foi o que
mais comprometeu a QV geral.
Essa faceta avalia a satisfação
das pessoas em relação a diferentes aspectos, como: moradia,
transporte, acesso aos serviços
de saúde, renda, lazer e segurança.
Quanto ao meio ambiente intrínseco, pode ser que o homem idoso esteja insatisfeito
com as condições de sua moradia, com o contingente populacional que habita a sua residência, com as relações familiares,
ou ainda, com as funções que lhe
são atribuídas. O homem, ao longo da vida, sempre teve como
preocupação central a função de
provedor, não tendo se adaptado
com os afazeres domésticos, que
podem ser incorporados ao seu
cotidiano. Com o crescimento
dos filhos e a chegada das noras,
genros e netos, o indivíduo em
questão também pode perde o
seu status dentro de sua própria
casa, pois é introduzida uma nova dinâmica familiar. Deduz-se
ainda, que a relação do homem
idoso com o meio ambiente intrínseco não é favorecida, pois
ele passou grande parte de sua vida em ambiente público.
No tocante ao meio ambi-
ente extrínseco, parece bastante
claro que os fatores como: transporte, lazer, renda, segurança e
acesso aos serviços de saúde são
desqualificados pela maior parte
da população dos países subdesenvolvidos, inclusive, pelo contingente de homens idosos. A faceta “Meio Ambiente” do instrumento WHOQOL-bref frequentemente apresenta resultados poucos satisfatórios em países subdesenvolvidos, pois ela
engloba diversas necessidades
que dependem dos órgãos governamentais (33).
Em relação ao instrumento WHOQOL-old, o domínio “Funcionamento do
Sensório” foi o que mais contribuiu com a QV. O fato de grande
parte das alterações fisiológicas
do envelhecimento relacionadas
com os sentidos poder ser compensadas com pequenas alterações no estilo de vida, ou ainda
pelo uso de aparelhos (óculos,
aparelhos auditivos, entre outros), pode ter influenciado esse
resultado. O envelhecimento é
um processo biológico natural,
cujo conhecimento científico pode contribuir para atenuar as limitações próprias da idade (34).
Verificou-se no
estudo que o domínio “Autonomia” alcançou o resultado menos satisfatório na avaliação da
QV específica. Acredita-se que
a autonomia do homem idoso é
reduzida com a idade avançada,
pois ao longo da vida ele sempre
foi líder, suas ações se voltavam
para o ambiente público, entretanto, com a aposentadoria, ele
passa a viver predominantemente no ambiente privado, restando-lhe a passividade diante do
domínio feminino.
O excesso de zelo dos familiares pode resultar em paternalismo, que nega à pessoa idosa o direito de manejar as questões que lhe dizem respeito.
Consequentemente, os homens
idosos se acomodam, renunciam
ao direito de decidir sua própria
vida, pois acham que não têm capacidade e, assim, passam a viver em estado de nãoparticipação, desenvolvendo o
sentimento de impotência. Um
estudo sobre a QV de pessoas
idosas residentes na comunidade, também detectou que a autonomia foi o domínio que mais
comprometeu a vida dos participantes do estudo (35).
Conclusões
Os homens idosos qualificaram sua vida como muito
boa, tanto do ponto de vista geral como específico. O fenômeno QV das pessoas idosas se correlacionou com diversas variáveis pessoais e de saúde.
Recomenda-se que outros trabalhos dessa natureza sejam realizados, no sentido de ampliar a avaliação da QV do homem idoso, em populações com
diferentes características e de diferentes regiões do país, para a
confirmação dos resultados obtidos nesta pesquisa.
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Significados de ser idoso: as representações sociais de pessoas idosas de cidades sul-mineiras
Meanings about being old: the social representations of elderly people in the cities in the south of
Minas Gerais
José Vitor da Silva. RECENF-Revista Técnico-Científica de Enfermagem-2010-v8-n.25;(221-236)
Resumo
Trata-se de um estudo que teve como objetivo: identificar as representações sociais sobre os significados de ser uma pessoa idosa. O estudo foi de abordagem qualitativa, exploratório e transversal. A
amostra se constituiu de 50 pessoas idosas de ambos os gêneros e residentes em cidades sul-mineiras:
Itajubá, Pouso Alegre e Santa Rita do Sapucaí. A coleta de dados foi realizada mediante entrevista semiestruturada, gravada e transcrita literalmente. As diretrizes metodológicas do Discurso do Coletivo
foram utilizadas para a seleção das ideias centrais e das expressões chave correspondentes, a partir das
quais foram extraídos os seguintes discursos das pessoas idosas: “ser pessoa idosa”; “pessoa com capacidade e inabilidade funcional”; “ pessoas com bastante idade, mas com saúde e cumpriu os seus objetivos de vida”. Os resultados confirmaram neste estudo que o construto pessoa idosa apresentou diversos significados subjetivos da vida humana.
Descritores: Idosos; representação social; significados.
Abstract
This is about a study that aimed at identifying the social representations about the meanings of being in an old person. It was a qualitative, exploratory and transversal study. The sample was formed by
50 elderly people, both male and female, living in the cities in the south of Minas Gerais: Itajubá,
Pouso Alegre e Santa Rita do Sapucaí. Data collecting was performed through semi-structured interview that was taped and literally transcript. The methodological guidelines of Collective Discourse
were used in order to select the central ideas and the corresponding key expressions, from which it was
possible to get the following speech of the elderly people: “being an old person”, “person with capacity and functional inability”, “very old people but with health and able of getting that life goals”. The results confirmed, in this study, that the construct elderly people presented a lot of subjective meanings
of human life.
Descriptors: Elderly, social representation, meanings.
José Vitor da Silva. Enfermeiro, docente da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz, Itajubá-MG e da Universidade do Vale do Sapucaí,
Pouso Alegre-MG. Pós-doutorando pela USP.
227
José Vitor da Silva.
Introdução
O envelhecimento das
populações tornou-se um desafio crítico em todo o mundo. Já
não há dúvidas de que o envelhecimento da população mundial é um fenômeno preocupante. Em 1950, o percentual de maiores de 60 anos de idade era de
8,2%; em 2000, essa faixa etária
alcançou 10%. As projeções para 2050 estimam que a Terra abrigará 21,1% de pessoas idosas
(1).
O envelhecimento da população brasileira já não é um
exercício de futurologia: no
Brasil, os idosos já são cerca de
15 milhões de pessoas, segundo
o último censo do IBGE (2) estando presentes em todos os espaços da sociedade. No Brasil, a
população com mais de 60 anos
aumentou de 4% em 1940 para
8,6% em 2000. A estimativa de
vida ao nascer, em 1980, era de
57,2 anos para homens e de 64,3
para a mulher. Em 1990, esses
dados já eram 59,3 e 65,8 anos
respectivamente. Em 2000, no
Brasil, a expectativa de vida era
de 64,8 para homem e 72,5 anos
para a mulher. Estima-se que entre 2045 e 2050 a expectativa de
vida do brasileiro seja de 76,9
anos de idade. Projeções indicam que o Brasil será o sexto país do mundo em número de idosos no ano de 2020, com aproximadamente 32 milhões de idosos (1,3).
A velocidade da mudança do perfil demográfico brasileiro dificultou a necessária revisão de conceitos e valores de nossa sociedade em relação ao envelhecimento, na superação de preconceitos e muitos que roubam a
228
dignidade do idoso, bem como o
encaminhamento de ações que
possam atender com dignidade
às necessidades específicas dessa “terceira idade.” Os idosos
ocupam, ainda, um espaço secundário na comunidade, bem
como na família, como se o fato
de envelhecer significasse a passagem para uma cidadania de segunda classe.
O título de explicação,
pode-se dizer que as graves questões sociais que afetam os países
do terceiro mundo estavam no
seu auge quando ocorreu a explosão demográfica do envelhecimento, exatamente nessa sofrida realidade de desenvolvimento.
Esse cenário tem provocado consequências em âmbito
social, familiar e de saúde das
pessoas idosas. Primeiro impacto do envelhecimento é a perda dos seus papeis sociais e o vazio experimentado por não encontrar novas funções. Quanta
angústia, sofrimento e decepção, e ao mesmo tempo quanto
potencial desperdiçado!
Uma outra consequência
relacionada à primeira é a aposentadoria que significa perda
de rendimentos e impõe a necessidade de redefinição do padrão
de vida e/ou a busca de nova ocupação como meio de renda complementar, que nem sempre é lograda devido à grande concorrência e ao estigma da velhice.
Um outro resultado decorrente dessa transformação demográfica, quando aliada à maior sobrevida das mulheres relativamente aos homens e à maior
frequência de casamento nos homens em relação às mulheres, é
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
uma alta porcentagem de viuvez
e solidão entre as mulheres idosas.
Para a sociedade brasileira e a de muitos países do terceiro mundo, que estão experimentando o envelhecimento populacional de forma rápida, o impacto maior será na repartição dos
poucos recursos existentes. O aumento do número absoluto e relativo dos idosos traz à baila novas
necessidades e demandas.
Paralelamente, há um grande
contingente de crianças, adultos
jovens, também com necessidades e demandas, muitas delas
ainda não equacionadas (alimentação, moradia, educação e
emprego). A chegada brusca dos
idosos leva à competição de recursos. Como resolver? (4).
No âmbito das relações
familiares, um sentimento semelhante de perda de ocupação e
tendência à solidão pode surgir
em função da independência dos
filhos, viuvez e consequente esvaziamento da casa (5).
As transformações recentes na estrutura familiar, como diminuição do tamanho da família e inserção da mulher no
mercado de trabalho, têm dificultado o suporte familiar ao idoso, sobretudo em caso de doença
e/ou incapacidade (5). Muitas vezes são fatores agravantes a distância entre as moradias, as dificuldades dos meios de transporte e do trânsito, assim como o
pouco tempo e/ou interesse dos
adultos e jovens para o contato
mais estreito com seus familiares idosos.
A tendência a um natural
afastamento de gerações tem-se
intensificado nas últimas déca-
José Vitor da Silva.
das em função da rápida mudança de valores sociais e transformações tecnológicas que dificultam a comunicação e a identidade entre jovens e velhos. Na
convivência familiar, é comum a
“falta de assunto”, favorecida
muitas vezes pela mobilidade sociocultural, que distancia os mais jovens dos seus ascendentes,
bem como os conflitos e intolerância de parte a parte, cujas recuperações tendem a privá-los
do potencial de crescimento mútuo e intergeracional (5).
Para o setor de saúde, o
primeiro impacto que o envelhecimento populacional traz é a
mudança importante nas causas
de morbimortalidade. As doenças infectocontagiosas cedem lugar às doenças crônicodegenerativas como causa líder
de mortalidade.
A Secretaria de Estado
de Minas Gerais (6) mostrou que
os maiores índices de mortalidade se encontram na população
de 60 anos e mais. Mesmo entre
os óbitos dos maiores de 60
anos, há uma tendência de concentração das idades mais avançadas, sendo causas de óbitos, tipicamente na população idosa,
em ordem de importância: 1) doenças do aparelho circulatório
(isquêmicas, do coração, cerebrovascular e hipertensiva); 2)
neoplasmas malignos; 3) doenças do aparelho respiratório e 4)
doenças metabólicas (6).
Essas doenças crônicodegenerativas, próprias dos idosos, estão se tornando progressivamente mais prevalentes num
país como o Brasil. Só que a resposta a essa mudança é, em geral, ineficiente devido à falta de
controle, complicações e sequelas. Como são doenças incuráveis, obrigam os seus portadores
a procurarem os serviços de saúde com grande frequência, havendo necessidade aumentada
de recursos materiais e humanos, muitas vezes com tecnologia complexa. Com isso, os custos financeiros também aumentam. Para um país que não resolveu problemas prementes de saúde materno-infantil (mortalidade e desnutrição), o aumento da
prevalência das doenças crônico-degenerativas vai levar a
uma competição pelos recursos
já escassos e mal-empregados
(7).
É conhecido que os idosos, quando comparados com outros grupos etários, internam-se
com maior frequência, reinternam-se mais vezes no mesmo
ano e permanecem internados
por um tempo mais prolongado
em cada internação. Além disso,
utilizam os serviços de saúde,
em geral, numa proporção muito
maior que toda a população ou
que outras faixas etárias. A grande maioria dos atendimentos é feita na rede pública ou na privada
vinculada à Previdência Social,
sem haver um enfoque preventivo para reduzir a demanda e sobrecarga dos serviços de saúde.
Além disso, aumenta
também a necessidade de investimentos na área social, pois pessoas com doenças crônicas e suas sequelas demandam suporte
de longa duração, com serviços
comunitários e uma rede de apoio, ajudando as famílias no cuidado desses idosos. Mesmo porque, as famílias são cada vez menores e as mulheres, tradicionais
cuidadoras dos parentes idosos,
agora estão trabalhando fora, havendo necessidade de ser suprida essa função.
A longevidade acarreta
uma situação ambígua vivenciada por muitas pessoas, mesmo
pelas ainda não idosas: o desejo
de viver cada vez mais e, simultaneamente, o temor de viver em
meio a incapacidades e à dependência. De fato, o avanço da idade aumenta a chance de ocorrência de doenças e de prejuízos à
funcionalidade física, psíquica e
social. Mais anos vividos podem
ser anos de sofrimento para os indivíduos e suas famílias. Anos
marcados por isolamento social,
desvalorização, depressão e perda da autonomia dos idosos.
Com relação à necessidade de inclusão nas políticas sociais, principalmente dos países
da América Latina e África,
aconteceu há vinte e sete anos,
exatamente em 1982, a Primeira
Assembleia da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre o
envelhecimento em Viena, na
Áustria, na qual foram delineadas e elaboradas diretrizes políticas relacionadas com os mais
diversos aspectos do envelhecimento populacional.
Vinte anos decorridos,
em Madrid, na Espanha, no período de 8 a 11 de abril de 2002,
a ONU retomou a questão durante a Segunda Assembleia
Mundial sobre envelhecimento,
abordando a temática “uma sociedade para todas as idades”, dessa vez com a proposta de um
Plano de Ação Internacional,
que está estruturado no compromisso por diversos países, entre
eles, o Brasil.
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
229
José Vitor da Silva.
Considerando a grave situação enfrentada e vivida pelos
idosos, em especial daqueles
continentes, que abrangem as
áreas sociais, política, econômica e de saúde, a mencionada assembleia concluiu que não deve
existir mais uma ação isolada,
mas integral, na qual Estado,
Sociedade e Família, todos comprometidos perante a comunidade internacional, possam promover a cidadania plena dos idosos. Embora seja um desafio, somente a ação articulada desses
três pilares pode conduzir a um
processo de mudança na qualidade de vida dos idosos brasileiros.
Diante do cenário apresentado, há que se considerar a
necessidade premente de colocar em prática a integração proposta para que se possa promover as estratégias necessárias ao
enfrentamento dessa realidade.
No Brasil, inegavelmente, demorou que se tomasse consciência de que o agrupamento
idoso exigia atitudes diferenciadas. Entidades especializadas no
setor gerontológico, associações de idosos e de aposentados
e facções dentro das mais diversas universidades, no início dos
anos 1970, reivindicaram providências aos setores governamentais para o problema crescente da população mais velha.
A convocação de uma
Assembleia Constituinte, em
1988, e o convite a que população e entidades oferecessem sugestões, possibilitaram centenas
de propostas, que acabaram reduzidas ao teor do que explicitou,
depois, o Artigo 230 da nova
Constituição, no particular da
230
gente idosa:
A família, a sociedade e
o Estado têm o dever de amparar
as pessoas idosas, assegurando a
sua participação na comunidade, defendendo a sua dignidade
e bem-estar e garantindo-lhes o
direito à vida (8).
Considerando a necessidade de providências urgentes
para a questão do idoso, foi instituída a Política Nacional do
Idoso (PNI) de acordo com o
que preceitua a Lei 8.842,
01/04/1994, regulamentada pelo Decreto n°1948, de
03/07/1996.
O país poderia estar numa situação bem melhor quanto
às políticas de atenção ao idoso,
se o que está escrito e regulamentado pelo Decreto
n°1948/96 tivesse realmente sido executado, pois falta garantir
a dotação de recursos financeiros para a implantação e implementação da Política Nacional
do idoso.
No sentido de colocar
em prática as ações preconizadas na PNI, os órgãos governamentais propuseram um plano
de ação conjunta, que trata de
ações preventivas, curativas e
promocionais, objetivando a melhor qualidade de vida do idoso.
O pano Integrado de
Ação Governamental para o
Desenvolvimento da Política
Nacional do Idoso foi publicado
em janeiro de 1997, pela
Secretaria da Assistência Social
do Ministério da Previdência e
Assistência Social (9).
A Igreja Católica, reconhecendo o contexto de exclusão social e de desamparo dos
idosos, do qual pouco se sabe, e
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
que a infraestrutura necessária
para atender a essa população é
bastante precária, pois os serviços, programas sociais e de saúde são muito deficientes, escolheu para a Campanha da
Fraternidade do ano de 2003 o tema “Fraternidade e Pessoas
Idosas”, cujo objetivo geral é
motivar todas as pessoas para
que, iluminadas por valores
evangélicos, sejam construtoras
de novos relacionamentos, novas estruturas, que assegurem valorização integral às pessoas idosas e respeito aos seus direitos
(10).
No que tange à área de saúde, entretanto, é ainda evidente
o despreparo da maioria dos profissionais, aí incluídos os enfermeiros no atendimento adequado às demandas específicas da
população de idosos.
Da leitura de textos, referentes às áreas de gerontologia e
geriatria, pode-se observar que
os autores consideram a longevidade um problema com consequências sérias nas diferentes dimensões da vida humana, não só
no contexto físico, como também psíquico e social, trazendo
implicações importantes para a
vida. Esses anos vividos a mais
podem ser de sofrimento para os
idosos e suas famílias, marcados
por doenças, declínio funcional,
aumento de dependência, perda
da autonomia, isolamento social
e depressão. Entretanto, se as
pessoas envelhecem mantendose autônomas, com capacidade
funcional e de autocuidado, a sobrevida aumentada pode ganhar
em satisfação de viver.
Diante disso, fez-se presente o seguinte questionamento:
José Vitor da Silva.
Do ponto de vista da pessoa que está vivenciando o envelhecimento, o que significa ser
uma pessoa idosa?
As respostas a esse questionamento são de importância
fundamental para todos os profissionais de saúde, no momento
em que a sociedade brasileira
passa por uma transição demográfica e epidemiológica.
Este artigo contribui no
sentido de oferecer uma base
conceitual, a partir de dados da
realidade empírica e do desenvolvimento de instrumento de
medida de conceito, que contemple a especificidade da população idosa.
A intenção é identificar
os significados de ser uma pessoa idosa, na perspectiva de idosos residentes em três cidades
sul-mineiras.
Referencial teóricometodológico
Na Teoria de
Representação Social, o conhecimento é analisado no
Intercâmbio das histórias em âmbito individual e social da pessoa. O Discurso do Sujeito
Coletivo é um método que implica em recompor, com o material dos discursos empíricos individuais, os discursos coletivos.
Essa parte enfoca os pressupostos das representações sociais e
a descrição do método do
Discurso do Sujeito Coletivo,
que se baseia nas fontes daquela
Teoria.
As representações sociais
Após terem sido fenômeno marcante da ciência social
na França, no século XIX, as representações sociais caíram em
desuso. Seu conceito, a partir da
década de 1960, foi resgatado e
introduzido na psicologia social
por Serge Moscovici, em um estudo sobre a difusão da psicanálise e sua integração à cultura
francesa. Então começou a ser divulgado em diversos países, para pesquisa em várias áreas do
conhecimento, como atropologia, psicologia, educação, sociologia e saúde, entre outras.
A enfermagem vem utilizando os pressupostos da
Teoria das Representações
Sociais (TRS) desde a década de
1980, buscando compreender os
aspectos psicossociais que emergem nos vários objetos da investigação que ela focaliza. A TRS
apresenta grande aderência aos
objetos de estudos na área de enfermagem, uma vez que ela consegue apreender os aspectos mais subjetivos, que permeiam os
problemas inerentes a essa área
(11,12,13).
As representações sociais (RS) consistem na maneira de
interpretar a nossa realidade cotidiana, uma forma de conhecimento social, ao associar a atividade mental desenvolvida pelos
indivíduos e os grupos para fixar
sua posição em relação à situação, acontecimentos, objetos e
comunicação que lhes dizem respeito (14).
As representações sociais são uma forma de conhecimento socialmente elaborado e
partilhado, tendo uma visão prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum
a um conjunto social (15,16).
Toda RS é a representação de al-
go e de alguém. Ela não é nem o
duplo do real, nem do ideal, nem
a parte subjetiva do objeto nem a
parte objetiva do sujeito. Ela é o
processo pelo qual se estabelece
a sua relação (15,16).
RS consiste em imagens
que condensam um conjunto de
significações, sistemas de referências que nos permitem interpretar o que nos acontece, ou como se dá um sentido inesperado;
categorias que servem para classificar as circunstâncias e os fenômenos com os quais temos
contato (15,16).
O processo de representação permite tornar conhecido
o desconhecido a partir de referenciais próprios ao sujeito e de
acordo com seu contexto de valores culturais e de regras sociais.
Representar um objeto
implica conferir-lhe o status de
um signo, em conhecê-lo, tornando-o significante: implica,
portanto, numa relação dinâmica de reciprocidade indivíduosociedade.
Visam a tornar familiar
os fenômenos estranhos da vida
cotidiana e, como a vida cotidiana apresenta novidades a todo o
momento, as RS são categorias
de conhecimento que estão sempre em construção. Essa construção envolve dois processos: a
ancoragem que incorpora os elementos estranhos ao sistema de
pensamento e de valores preexistentes, nas representações já
construídas, e a objetivação, processo por meio do qual as representações se concretizam em palavras e imagens. É o mecanismo que permite o intercâmbio
entre percepção e conceito e é
Revista Técnico-Científica de Enfermagem | v8 | n25 | 2010
231
José Vitor da Silva.
formador de imagens estruturantes, criadoras de novas realidades (15,16).
Ancorar é classificar e
denominar: “coisas que não são
classificadas, nem denominadas, são estranhas, não existentes”; objetivar “é descobrir a qualidade icônica de uma ideia ou
ser imprecisos, reproduzir um
conceito em uma imagem”.
Com a objetivação, o que antes
era um esquema conceitual agora torna-se real. Com ela, dá-se
uma contrapartida material a algo abstrato. Um alimenta o outro numa relação dialética, definindo o conteúdo das RS (14).
Assim, os processos de
formação das RS, quanto dialeticamente relacionados, articulam as três funções básicas da representação: a função cognitiva
de integração da novidade, a função de interpretação da realidade e a função de orientação das
condutas e relações sociais. O
processo de formação de uma representação traduz sempre duas
realidades inseparáveis, sendo
um lado simbólico ou icônico e
outro figurativo da representação, como se fossem duas faces
de um papel ou os dois lados de
uma moeda, um refletindo e caracterizando o outro (14).
A TRS visa a dar conta
de um fenômeno em que o homem manifesta sua capacidade
criativa para aponderar-se do
mundo, por meio de conceitos,
afirmações e explicações sociais
a respeito do objeto social, para
torná-lo familiar e garantir comunicação no interior do grupo
e facilitar a interação com as outras pessoas e grupos.
As RS devem ser estuda-
232
das, articulando elementos afetivos, mentais e sociais, integrando ao lado da cognição, da linguagem e da comunicação, a
consideração das relações sociais que afetam as representações
e a realidade material, social e
ideal as quais vão intervir
(15,16).
Como forma de retratar
a realidade, as RS se manifestam
em conduta, gestos, imagens e
chegam a ser institucionalizadas, podendo ser analisadas a
partir da compreensão das estruturas e dos comportamentos sociais. Elas são fruto das vivências
e das contradições, que permeiam o dia-a-dia da sociedade, e
sua expressão marca o entendimento delas pelos indivíduos e
pelas instituições, gerando o senso comum sobre determinado objeto focalizado. A partir do senso
comum, os indivíduos se movem, estabelecem relações, constroem suas vidas e as explicam,
embasados nos seus esquemas
de conhecimentos.
Outro aspecto da TRS
diz respeito aos fundamentos
das RS. É preciso diferenciar dois enfoques: as RS enquanto campo socialmente estruturado e enquanto núcleo estruturante da
ação (17,18).
Enquanto campo socialmente estruturado, implicam em
conhecer as experiências individuais como decorrentes da realidade social na qual o sujeito está
imerso; realidade que se apresenta sob a forma de “campos sociais” delimitados: família, bairro, categoria profissional.
Implica que as condições sociais
de inserção desses sujeitos determinam suas representações e
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os discursos que as veiculam.
Do ponto de vista de núcleo estruturante das ações, consideram o sujeito o produtor de sentido, isto é, ele expressa em suas
representações o sentido que dá
à sua experiência no mundo social.
As RS são vistas como
uma forma de discurso e conhecimento, cujas implicações sociais provêm da situação de comunicação, do lugar social, a partir
do que os sujeitos falam da finalidade dos seus discursos
(17,18).
Em síntese, as RS são
uma forma de conhecimento prático – o saber do senso comum –
que tem por finalidade estabelecer uma ordem que permita aos
indivíduos orientarem-se em
seu mundo e dominá-lo e possibilitar a comunicação entre os
membros de um determinado
grupo.
DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO
Para conhecer e descrever o significado de ser idoso
sob a perspectiva de pessoas
com 60 anos ou mais de três cidade sul-mineiras, sob o referencial das RS, a opção pela abordagem qualitativa era o melhor caminho e o Discurso do Sujeito
Coletivo (DSC) constitui o método escolhido para a construção
dos significados, permitindo a
aproximação com o fenômeno
em estudo.
As diretrizes metodológicas do
DSC
O DSC é uma estratégia
metodológica com a finalidade
de tornar mais clara uma deter-
José Vitor da Silva.
minada RS e o conjunto das representações que constituem um
dado imaginário. Por meio desse
modo discursivo é possível visualizar a RS, na medida em que
ela aparece não sob a forma (artificial) de quadros, tabelas ou
categorias, mas sob a forma mais viva e direta de um discurso,
que é o modo como os indivíduos reais e concretos pensam
(19).
O DSC consiste na reunião, num só discurso-síntese de
vários discursos individuais emitidos como resposta a uma mesma questão de pesquisa, por sujeito social e institucionalmente
equivalentes ou que fazem parte
de uma mesma cultura organizacional e de um grupo social homogêneo, na medida em que os
indivíduos que fazem parte desse grupo ocupam a mesma ou posições vizinhas num dado campo social. O DSC é, então, uma
forma de expressar diretamente
a RS de um dado sujeito (20,21).
A proposta inovadora para somar discursos implica em
que é preciso recompor o material dos discursos empíricos coletivos. Então por meio do DSC,
busca-se escapar tanto da nãopessoa da ciência (números, discurso impessoal ou “discurso sobre”) quanto do discurso individualizado, não generalizável, da
primeira pessoa do singular.
O DSC é uma proposta
de organização e tabulação de dados qualitativos de natureza verbal, obtidos de depoimentos, artigos de jornal, materiais de revistas e cartas, entre outros (20,21).
O Sujeito Coletivo se expressa então por meio de um discurso emitido no que se poderia
chamar de primeira “pessoa (coletiva) do singular”. Trata-se de
um “eu” sintático que, ao mesmo tempo que sinaliza a presença de um sujeito individual do
discurso, expressa uma referência coletiva na maneira em que
este “eu” fala pela ou em nome
de uma coletividade. Esse discurso coletivo expressa um sujeito coletivo (20, 21).
Foi adotado para o DSC
um “pressuposto socioantropológico de base”, por meio do
qual entende-se que o pensamento de uma coletividade sobre um dado tema pode ser visto
como o conjunto dos discursos
existentes na sociedade e na cultura sobre tal tema, do qual os sujeitos lançam mão para se comunicarem, interagirem e pensarem.
Nesse sentido, o pensamento coletivo é como se fosse
um segundo idioma, uma segunda língua que, à medida que viabiliza e permite a troca entre indivíduos distintos de uma mesma
cultura é, como o primeiro idioma, uma condição imprescindível para a vida humana em sociedade.
A comparação entre
DSC e os idiomas permite que se
entenda algo de suma importância, ou seja, um indivíduo que domina determinada língua é, ao
mesmo tempo, um ente coletivo
e um ente individual na medida
em que, enquanto ente coletivo,
compartilha com os membros da
sua cultura um código comum e,
enquanto ente individual é capaz de produzir e produz, frequentemente, nas suas interações habituais, frases inéditas.
Ora, isso acontece exata-
mente com o DSC (20,21).
O DSC é o equivalente da língua
ou idioma e o depoimento dos indivíduos, com os quais ele é feito, ou a partir dos quais ele é reconstruído ou mesmo elaborado, o equivalente as frases individuais.
Logo, o Discurso do
Sujeito Coletivo é um construto,
elaborado por abstração, a partir
de um conjunto de falas individuais de sentido reputado semelhante ou complementar, com a
finalidade precípua de expressar
um pensamento coletivo
(20,21).
Se o pensamento coletivo pode ser visto como um conjunto de discursos sobre um dado tema, o DSC visa a iluminar o
conjunto de individualidades semânticas, próprias do imaginário social. É uma maneira destinada a fazer a coletividade “falar” diretamente.
Para a elaboração do
DSC foram criadas quatro figuras metodológicas que são:
1.Expressões-chave
(ECH): são partes ou todo o conteúdo das transcrições literais do
discurso de cada sujeito, que devem ser identificados e a seguir
destacados (sublinhados, coloridos ou iluminados) pelo pesquisador e que revelam a essência
do discurso ou a teoria subjacente.
2.Ideias centrais (IC): é um nome ou expressão linguística que revela e descreve da maneira mais sintética, precisa e fidedigna possível
o sentido de cada um dos discursos
analisados e de cada conjunto homogêneo de ECH que posteriormente,
vai dar origem ao DSC. É importan-
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233
José Vitor da Silva.
te assinalar que a IC não é uma interpretação, mas uma descrição
do sentido do depoimento ou de
um conjunto de depoimentos.
As ICs podem ser resgatadas por
meio de descrições diretas do
sentido do depoimento, revelando “o que foi dito”, ou por meio
de descrições indiretas ou mediatas que revelam o tema do depoimento ou ”sobre o quê” o sujeito enunciador está falando.
Nesse último caso é preciso,
após a identificação do tema, reconhecer as ICs correspondentes.
3Ancoragem (AC): algumas ECH remetem não apenas a
uma IC correspondente, mas
também a uma figura metodológica que, sob a inspiração da
TRS, denomina-se Ancoragem
(AC), que é a manifestação linguística explícita de uma determinada teoria ou crença que o autor do discurso professa e que,
na qualidade de afirmação genérica, está sendo utilizada pelo
enunciador para “enquadrar”
uma situação específica. É importante observar que todo depoimento tem uma ou várias ICs,
mas apenas alguns depoimentos
apresentam, de maneira explícita, as marcas discursivas das ancoragens (20).
4.Discurso do Sujeito
Coletivo (DSC): redigido na primeira pessoa do singular e composto pelas ECHs que têm a mesma IC ou AC.
Interrelações de ideias centrais
e expressões-chave
No âmbito de uma pesquisa qualitativa empírica de RS
que envolva coleta de depoi-
234
mentos individuais, o que se busca obter, pelo menos inicialmente, é uma descrição do sentido de
cada um e do (s) conjunto (s) dos
depoimentos/discursos que se
coletou sobre uma determinada
temática.
Considerando cada depoimento/discurso isoladamente, a
IC é uma descrição mais sucinta
e objetiva possível do sentido
desse discurso, o qual pode ter
mais de uma IC, conforme foi comentado anteriormente.
A IC tem, por isso, a importante função de individualizar um dado discurso ou um conjunto de discurso, descrevendo,
positivamente, suas especialidades semânticas e distinguindoos de outros discursos, portadores de outras especificidades semânticas.
Considerando a IC o “nome” ou a “marca” do sentido dos
discursos, pode-se dizer que as
ECH representam o “conteúdo”
ou “substância” desse sentido
identificado e especificado por
esse nome ou por essa marca. As
ECH são segmentos dos discursos que remetem à IC e a corporificam.
Fica claro, então, que as
ICs e ECHc são ambas, indispensáveis para que os discursos
possam ser adequadamente descritos, tendo a primeira uma função identificadora, particularizadora, especificadora e a segunda uma função corporificadora, de substantivação, de “recheio” do sentido nomeado.
Essas funções não devem apenas ser consideradas isoladamente, mas em interrelação
dialética. De fato, não é possível
identificar uma IC de um con-
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junto de depoimentos/discursos
sem que se tenham examinado
antes, detidamente, as ECHs presentes nesse conjunto de discursos. Na realização de seu trabalho de descrição dos discursos
obtidos dos depoimentos de
uma dada pesquisa, o pesquisador começa por examinar as
ECHs dos depoimentos. Nesse
momento percebe, ainda que de
forma intuitiva e impressionista,
que um conjunto de ECH pode
ser agrupado ou reunido num
“arquivo” porque parece remeter a uma ideia ou sentido semelhante ou complementar. Em seguida, busca o pesquisador nomear ou identificar, quando
bem-sucedida, a IC.
Pode acontecer também
que o pesquisador se sinta inseguro ou insatisfeito com o resultado à medida que não encontrar
um nome, ou seja, uma IC adequada para caracterizar aquele
conjunto de ECH inicialmente,
consideradas semelhantes.
Diante disso, o pesquisador deve recomeçar seu trabalho, visando a adequar, corretamente,
IC,s e ECHs e vice versa.
Apresentação de resultados do
DSC
O DSC, como técnica de
processamento de dados com
vistas à obtenção do pensamento coletivo, dá como resultado
um painel de discursos de sujeitos coletivos, enunciados na primeira pessoa do singular, justamente para sugerir uma pessoa
coletiva, falando como se fosse
um sujeito individual de discurso (20,21).
É fácil perceber essa ma-
José Vitor da Silva.
neira de apresentação de resultados, pois confere muita naturalidade, espontaneidade e vivacidade ao pensamento coletivo, o
que contrasta muito com as formar clássicas de apresentação
de resultados.
Pode-se apresentar os resultados obtidos por questão e,
quando houver mais de um DSC
por questão, pode-se apresentar
inicialmente um quadro-síntese
com as ICs surgidas na análise
da questão.
O DSC pode estar em itálico e em negrito, ao mesmo tempo, para indicar que se trata de
uma fala ou depoimento coletivo, mas não é conveniente aspear porque não se trata de uma citação (20,21).
Terminada a exposição
dos quadros, com as ICs e seus
DSCs, pode-se comentar descritivamente os dados obtidos em
cada questão da mesma forma
que se comentam tabelas e gráficos.
O DSC passo a passo
Considerando a exposição anterior, esquematicamente,
encontram-se listados a seguir
os passos necessários para chegar à construção dos DSC.
Tendo sido todas as entrevistas gravadas e transcritas
para a tabulação de dados, é preciso acompanhar, rigorosamente, os seguintes passos:
1.As questões devem ser
analisadas isoladamente, isto é,
será inicialmente analisada a
questão 1 de todos os sujeitos entrevistados, a seguir a questão 2
e assim sucessivamente. Dessa
forma, o primeiro passo consiste
em copiar, integralmente o conteúdo de todas as respostas referentes à questão 1 no
Instrumento de Análise de
Discurso 1 (IAD1), na coluna
ECH do quadro de apresentação.
2.Identificar e sublinhar,
em cada uma das respostas, com
uma determinada cor ou utilizando outro recurso gráfico as
ECH das ICs e, quando houver,
com outra cor ou usando outro recurso, as ECH das ancoragens.
3.Identificar as ICs e,
quando for o caso, as ancoragens, a partir das ECH, colocando-as nas caselas correspondentes do quadro elaborado.
4.Identificar e agrupar as
ICs e as ancoragens de mesmo
sentido ou de sentido equivalente ou complementar. Deve-se
“etiquetar” cada grupo: A, B, C e
assim por diante.
5.Denominar cada um
dos agrupamentos A, B, C, D, e
outros, o que, na realidade, implica em criar uma IC ou ancoragem-síntese que expresse, da melhor maneira possível, todas as
ICs e ancoragens de mesmo sentido. Às vezes, todas ou várias
ICs ou ancoragens têm o mesmo
título, ou nome, o que evidentemente, facilita o processo.
6.Construir o DSC. Para
isso é preciso utilizar o
Instrumento de Análise de
Discurso 2 (IAD2). Deve-se
construir um DSC para cada
agrupamento identificado no
passo anterior. Portanto, devem
ser utilizados tantos IAD2 quantos forem os agrupamentos.
A primeira etapa para a
construção do DSC é copiar do
IAD1 todas as ECH do mesmo
agrupamento e “colá-las” na coluna das ECH do IAD2. A segunda etapa é a construção do
DSC propriamente dito de cada
agrupamento.
Trajetória metodológica
Essa parte abarca os aspectos relacionados com os locais da pesquisa, a população do estudo, a coleta de dados, os procedimentos utilizados para a coleta, tratamento e análise de resultados, assim como os preceitos éticos da pesquisa.
Cenário do estudo
O estudo foi realizado
em três cidades sul-mineiras:
Itajubá, Pouso Alegre e Santa
Rita do Sapucaí.
O Estado de Minas
Gerais conta hoje com
1.624.981 idosos. A cidade de
Itajubá possui 90,000 habitantes, dos quais 8.577 têm 60 anos
ou mais. A população total de
Pouso Alegre é de 106.776 pessoas, tendo 8,978 idosos. O município de Santa Rita do Sapucaí
possui 32,720 habitantes, dos
quais 3,046 são idosos (2).
A distância entre Itajubá
e Pouso Alegre é de 60 km e entre a primeira e Santa Rita do
Sapucaí é, aproximadamente, de
45km.
Na área de educação, as
três cidades contam com estabelecimentos de ensino deste préescolar ao superior, oferecendo
possibilidades de estudos não
apenas para os alunos da cidade
e dos arredores, mas também de
todo o país, sobretudo nas
Universidades e Institutos instalados na região.
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José Vitor da Silva
O setor de saúde está formado por hospitais gerais de médio e grande portes, nas duas primeiras cidades, e um de pequeno porte em Santa Rita do
Sapucaí, consignados para atendimentos médico-hospitalares
do Sistema Único de Saúde
(SUS), de natureza particular e
conveniada.
A infraestrutura destinada aos atendimentos de saúde coletiva constitui-se de diversas
unidades básicas de saúde
(UBS), distribuídas nas zonas urbana e rural daquelas cidades.
O perfil de morbimortalidade nessas cidades caracteriza-se pelo predomínio das doenças cardiocirculatórias, doenças
do aparelho respiratório, neoplasias malignas e doenças endócrinas (2).
No contexto social, as cidades contam hoje com grupos
organizados para terceira idade,
abertos a todos os idosos da região e por meio dos quais são desenvolvidas atividades festivas,
de lazer e outras. Finalmente, para os idosos com problemas familiares e sociais existem diversos
asilos que funcionam em sistema fechado e semi-aberto.
Tamanho e natureza da amostra
O objetivo de uma pesquisa de RS é o resgate do imaginário social sobre um dado tema. Esse imaginário, na técnica
do DSC, conforme comentários
anteriores adquire a forma de
um painel de discursos.
Esse painel reflete o que
se pode pensar, numa dada formação sociocultural, num dado
236
grupo ou numa dada coletividade, sobre um determinado assunto. Ora, quando a via de acesso a esse imaginário é o depoimento de pessoas, obtido por meio de entrevistas individuais, um
maior número de entrevistados
aumenta, em princípio a chance
de que o imaginário obtido seja
mais rico (20,21).
Na pesquisa qualitativa,
é sempre importante um conhecimento prévio das características gerais do tema em investigação para saber que tipo e quantos
informantes são necessários para que o painel de discurso composto com os seus depoimentos
seja o mais amplo possível
(20,21).
O tamanho da amostra
em pesquisas qualitativas de reconstrução de imaginários sociais tem muito a ver com as dificuldades técnicas e operacionais
que implicam em analisar, detalhadamente, uma massa grande
de depoimentos, às vezes, densos e complexos. Análises envolvendo um número maior de
depoimentos podem ser feitas
ou propostas, aumentando a riqueza do imaginário obtido
(20,21).
Os pequenos números
não constituem uma característica inalienável das pesquisas
qualitativas. Nada há que determine que a pesquisa qualitativa
tenha de ser conduzida com pequenos números. Mas as grandes quantidades de dados densos que os métodos qualitativos
tendem a gerar propiciam uma
razão de ordem prática para que
se limite o tamanho da amostra
(22).
A amostra do estudo foi
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constituída por pessoas, tanto do
sexo masculino quanto do feminino, residentes nas cidades citadas anteriormente e com 60 anos
ou mais. Esse critério é adotado
pela Organização Mundial de
Saúde para definir pessoa idosa,
do ponto de vista cronológico
nos países em desenvolvimento,
a exemplo do Brasil (23). Os sujeitos da pesquisa foram selecionados por meio dos grupos de terceira idade, igrejas, locais de trabalho e pelo conhecimento prévio deles.
A amostra foi composta
de 50 idosos, dos quais dez foram entrevistados em Santa Rita
do Sapucaí e os demais, equitativamente, nas outras duas cidades. A amostragem foi intencional ou por seleção racional, que
se baseia na crença de que os conhecimentos de um pesquisador
sobre a população e seus elementos podem ser utilizados para selecionar os casos que serão
incluídos na amostra (24). O pesquisador pode decidir e selecionar, intencionalmente, a mais
ampla variedade possível de entrevistados, ou ainda pode selecionar os sujeitos tidos como característicos da população em
questão, ou particularmente conhecedores das questões que estão sendo estudadas.
Foram incluídos no estudo os idosos que:
-Concordaram em participar do
estudo.
-Foram capazes de comunicarse verbalmente, isto é, lúcidos e
não portadores de desordens cognitivas. Para certificar-se de que
eles atendiam a esse critério, foi
utilizado o Questionário de
Avaliação Mental.
José Vitor da Silva
-Estavam residindo nas cidades
de Itajubá, Pouso Alegre e Santa
Rita do Sapucaí.
Coleta de dados
Instrumentos
A coleta de dados ocorreu por meio de três instrumentos:
1.Questionário de avaliação mental: proposto por Khan
(25). Ele consiste em dez perguntas que analisam basicamente a orientação temporoespacial
e a memória para os fatos tardios, possibilitando avaliar se o
idoso sofre ou não de uma síndrome mental orgânica. O respondente deve acertar no mínimo sete do total de dez perguntas.
2.Características biossociais, familiares, econômicas e
de saúde: o questionário permitiu obter informações quanto às
características individuais e familiares, da saúde física, das atividades da vida diária, dos recursos sociais e econômicos, assim como das necessidades e problemas que afetavam os idosos.
A sua elaboração baseou-se no Questionário BOAS
(Brasil Old Age Schedule) elaborado por Veras (26).
3.Roteiro de entrevista
semiestruturada: foi constituído
por uma pergunta aberta, destinada à identificação do significado de “pessoa idosa”.
Procedimento para coleta de dados
A aplicação dos questionários de Avaliação Mental e das
Características biossociais, familiares, econômicas e de
saúde ocorreu por meio de entrevista estruturada.
Para a questão de envelhecimento, foi utilizada a técnica de entrevista semiestruturada. A entrevista privilegia a obtenção de dados por meio da fala
que revela condições estruturais
de sistema de valores, normas e
símbolos e, ao mesmo tempo,
transmite por meio de um portavoz as representações sociais de
grupos determinados, em condições históricas, socioeconômicas e culturais específicas (27).
Entre os diversos tipos
de entrevista, optou-se pela semiestruturada que é uma técnica
que valoriza a presença do investigador e permite que o entrevistado alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias, enriquecendo a investigação, favorecendo não só a descrição dos
fenômenos sociais, mas também
sua explicação e a compreensão
de sua totalidade (28).
As estratégias utilizadas
para a coleta de dados foram as
seguintes:
-As entrevistas foram realizadas
no domicílio do idoso.
-Todas as entrevistas foram agendadas previamente com cada idoso, respeitando os dias e horários que lhes eram viáveis.
-Antes do início da entrevista, o
idoso tomava ciência do objetivo do estudo, instrumentos a serem aplicados e da entrevista gravada, assim como da garantia do
anonimato.
-Esclarecimentos de outras dúvidas, quando necessário.
-Assinatura do Termo de
Consentimento Informado pelo
respondente, após sua anuência.
Os discursos dos entrevistados foram registrados por
microgravador de fitas de 60 minutos. O tempo médio de duração da entrevista foi de 45 a 60
minutos. A reação dos entrevistados em relação ao gravador foi
sempre positiva, não se observando constrangimento do respondente. Não houve relato, por
parte dos idosos, de falta de entendimento das perguntas.
Todos os respondentes aceitaram prontamente o convite.
Tratamento e análise dos dados
De acordo com as diretrizes do DSC, foram adotadas
neste estudo três figuras metodológicas: Expressões-Chave,
Ideia Central e Discurso do
Sujeito Coletivo. Para o tratamento e análise dos dados, utilizou-se, rigorosamente, a ordem
das seguintes etapas:
-1ª etapa: antes do início da
transcrição dos dados, as fitas foram ouvidas várias vezes para
que se tivesse uma ideia panorâmica e melhor compreensão dos
textos. Com os discursos gravados em fitas, procedeu-se à
transcrição literal deles.
-2.ª etapa: efetuou-se a leitura
exaustiva de todo o material
transcrito em dois momentos distintos: no primeiro, procedeu-se
à leitura de todas as entrevistas
de cada um dos idosos, na sua totalidade; num segundo momento, realizou-se a leitura individual da única questão da entrevista
gravada.
-3ª etapa: copiou-se integralmente o conteúdo de todas as respostas inerentes à questão da entrevista de cada respondente no
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Instrumento de Análise de Discurso 1 (IAD1), representando as ECH em itálico. De posse das ECH
e após a leitura de cada uma, identificou-se a sua
IC, tomando-se o cuidado de que ela representasse
a descrição das ECH e não a sua interpretação.
-4ª etapa: elaboração do Instrumento de Análise do
Discurso 2 (IAD2) que contém, separadamente, cada ideia central com as respectivas ECH semelhantes ou complementares.
-5ª etapa: extraiu-se o tema de casa uma das perguntas da entrevista semiestruturada, agrupando a
ele as suas respectivas ICs, assim como os sujeitos,
representados pelo seu número e as frequências de
ideias, por meio de quadros. Finalmente, construíram-se os DSCs, separadamente, de cada IC com as
suas respectivas ECH.
Resultados
A caracterização das pessoas idosas
que participaram deste estudo permitiu mostrar
que a maior parte delas era do gênero feminino, a
média de idade foi de 70 anos. Quase todas sabiam
ler e escrever, embora tivessem apenas o nível mais
elementar de escolaridade. Eram predominantemente casadas, tinham em média quatro filhos, sentiam-se satisfeitas com quem moravam, assim como com os vizinhos e amigos. Quanto ao estado de
saúde, o consideraram bom, inclusive quando comparado ao de outras pessoas da sua idade. A maioria
era portadora de uma doença crônica não transmissível, predominando a hipertensão arterial sistêmica. Recebiam em média um salário mínimo referente a aposentadoria para suprir as necessidades
diária.
Tema I: pessoa idosa
1.O que é para o Senhor (a) uma pessoa idosa?
O quadro 1 mostra as ideias centrais, sujeitos e frequência de ideias do tema “pessoa idosa”.
Quadro 1- Ideias centrais, sujeitos e frequência de
Primeira ideia central
É a pessoa com incapacidade e inabilidade funcional.
DSC
É uma pessoa de idade avançada, com vida
já bem longa, mas que perdeu o gosto pela vida,
sem vontade de viver e não consegue mais levar
aquele... aquele ritmo de viver que é próprio de
uma pessoa mais moça. A pessoa já fica meio cansada, meio decepcionada e às vezes até desiludindo os outros. Não se sente disposta para fazer uma
coisa além do que ela consegue, nas forças que ela
tem. É uma pessoa incapaz, doente, sem ânimo para trabalhar e viver... sem forças para lutar, com limitações e sem ter os objetivos que teria ainda de
cumprir. Logo, idosa é aquela pessoa que está hoje
praticamente inerte, sem uma atividade, né? Acha
que não tem mais potencial e que, por ser idosa,
não pode fazer nada. Tem que ficar parada não
quer e não pode trabalhar e fica só pensando na velhice. Ai, vêm todos os problemas, tanta coisa,
né?
ideias do tema “pessoa idosa”
Segunda ideia central
Fonte: Instrumento de Pesquisa
É uma pessoa com bastante idade, saúde e
vida normal.
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José Vitor da Silva.
DSC
DSC
Uma pessoa idosa, no conceito da palavra,
é aquele que tem muita idade, mas eu não vejo dessa maneira, eu não acho que pessoa idosa seja a
idade, não. Isso é de cada um. Eu creio também que
a idade não é o tempo... não é tempo....não é totalmente o tempo de vida que a gente tem. Eu creio
que a idade, ela...ela é...ela depende muito de como a pessoa vive, de qual a concepção que a pessoa tem da vida. O conceito de idoso pode ser mais
amplo. Eu, por exemplo, aos 71 anos de idade, sou
uma pessoa muito feliz... eu lembro que sou velho
quando olho no espelho... porque o meu coração é
jovem, eu não me sinto velho, eu não me entreguei
ainda à velhice... Eu continuo sendo uma pessoa dinâmica, trabalho 12 horas por dia, tenho uma vida
saudável e não me preocupo com a idade, né? Acho
que depende muito do espírito de cada um.
Pessoa idosa para mim é quem tem bastante saúde, vontade de viver e vida normal. Tem ânimo para tudo e para trabalhar, está em atividade e
tem a felicidade de ajudar os outros.
Eu acho que está tudo bem comigo porque
eu tenho bastante saúde e muita disposição para o
trabalho. Sou aposentado, mas continuo trabalhando porque não gosto de ficar parado, certo?
Logo, eu creio que ser velho não é se entregar, é viver a vida nas condições de velho... reconhecendo
que é uma pessoa velha, porém uma pessoa que
não se entrega para ir morrendo aos poucos.
Para mim, uma pessoa idosa é uma pessoa
que tem vivido, que sabe aproveitar os anos vividos
e que tem mais experiência de serviço e mais experiência para tudo, né? Então eu posso citar a idade
cronológica avançada, mas também aquele que adquiriu bastante experiência porque uma vida de 60
anos... já gozou muita coisa e já sofreu na prática a
vida suficiente de todas as matérias, pode-se assim
dizer para ensinar alguém. Uma pessoa idosa tem
compreensão das coisas da vida e sabe aproveitar
os seus anos vividos, né? Viveu a mocidade, já passou por ela e sabe o que é, né?
Enfim, eu acho que ser idoso é muito bom.
A gente tem experiência e a gente dá conselho para
os mais novos que pedem tudo. Eu penso que, de
uma maneira sucinta, seria isso.
Terceira ideia central
É a pessoa que já viveu muitos anos
Quinta ideia central
É a pessoa que já cumpriu os seus objetivos
d vida.
DSC
Uma pessoa idosa é aquela que já viveu muito que já passou dos 60 anos e que já atingiu todas
as fases desde a adolescência até chegar nessa fase de vida mais avançada. Já alcançou tudo aquilo
que almejada como trabalho, família, criou ou filhos e aposentadoria... É uma pessoa que já realizou tudo, mas que tem uma vida digna e bem vivida. Essa para mim é uma pessoa idosa perfeita.
A figura 1 ilustra o significado de ser pessoa idosa.
DSC
Pessoas com bastante
idade, saúde e vida
normal
Uma pessoa idosa é aquela que tem muitos
anos vividos. É uma pessoa velha, de idade bastante avançada e que já viveu mais de 60 anos, 70, 80
por ai. Uma pessoa idosa, diz a medicina é aquela
que já viveu mais de 60 anos.
É claro que tudo isso é relativo porque depende do
modo como a pessoa encara o que seja essa questão, né? Então, é fisicamente, porque espiritualmente a gente nunca é idosa.
Significados
de pessoas
idosas
Pessoa que já
viveu muitos anos
Quarta ideia central
É aquele que tem muita experiência de vida.
Pessoa que já cumpriu
seus objetivos de vida
Pessoas com incapacidade
e inabilidade funcional
Aquele que tem muita
experiência de vida
Figura 1 - Significados de ser pessoa idosa
Fonte: Instrumento de Pesquisa
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José Vitor da Silva.
Os integrantes do estudo representaram socialmente a
pessoa idosa como aquela que já
tem muitos anos, portadora de
uma experiência de vida, que já
cumpriu os seus objetivos traçados, com saúde e vida normais
ou com incapacidade ou inabilidade funcional.
Discussão
Ao analisar as representações sociais dos idosos sobre
velhice, observou-se que elas foram notadamente heterogêneas,
oscilando desde uma concepção
mais negativa de que o idoso é
“uma pessoa incapaz, doente,
sem ânimo para trabalhar e viver... sem forças para lutar, com
limitações e sem ter os objetivos
que teria de cumprir”, perpassando pela ideia de que é aquele
que “já cumpriu seus objetivos
de vida”, “é a pessoa que já viveu muitos anos” até chegar a
outro extremo de que, embora seja ”uma pessoa com “bastante
idade”, tem saúde e disposição
para trabalhar.”
A heterogeneidade das
expressões vividas e percebidas
sobre velhice reflete as diversas
possibilidades de o idoso interpretar a sua condição, dependendo da história de vida de cada um, disponibilidade do suporte afetivo, a nível social e sistemas de valores pessoais. As diferentes representações dos idosos sobre velhice encontram respaldo em Ferrari (29), para
quem o processo de envelhecimento é muito pessoal, constitui
uma etapa de vida com realidade
própria e diferente das anteriores, limitadas por condições objetivas e subjetivas.
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A heterogeneidade de
significados ou de representações é um fenômeno que traduz
as diferenças entre as pessoas
em razão das suas distintas histórias de vida. Essas são construídas com base na interação entre a história de vida individual,
a personalidade e as experiências sociais que os indivíduos compartilham com seus semelhantes. Como a diferença de opiniões diz respeito às experiências individuais que são únicas e
construídas durante todo o ciclo
de vida, é possível admitir que
ela se acentua à medida que as
pessoas envelhecem (30).
Ao contrário do que se
costuma pensar, as pessoas idosas não são todas iguais, assim
como tendem a ser diferentes entre si na sua concepção de ser velho. As representações dessa etapa de vida refletem a síntese do
momento em que se vive, associado a todo o contexto anterior
e às expressões vividas e sentidas.
Entretanto, não há uma
consciência clara de que a velhice possa ser anunciada por meio
de características físicas, psicológicas, sociais, culturais e espirituais. Algumas pessoas parecem velhas aos 45 anos de idade
e outras jovens aos 70. Se o início da velhice é rigorosamente
indefinido, havendo divergências de opiniões e de indicadores,
o viver e o sentir a velhice também são marcados por divergências pessoais vindas dos seus próprios atores (31).
Associado ao que foi dito anteriormente, no contexto de
desigualdade social que impera
no Brasil, alguns idosos conse-
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guem vivem a velhice de modo
mais rico e inovado do que as
pessoas idosas de antigamente.
Infelizmente muitos outros idosos continuam amarrados às
mesmas restrições, à falta de
oportunidades e a desvantagens,
em virtude da pobreza que só
agrava as dificuldades físicas e
sociais da velhice. Seu destino é
sombrio não só por terem envelhecido, mas também pela má
qualidade de vida precedente.
Consequentemente, as acepções
sobre velhice também serão heterogêneas (30).
Zimermam (32), ao analisar os motivos que levam os
idosos a terem divergências de
interpretação sobre a velhice, observou que aqueles com bom nível de capacidade funcional e autonomia, com suas doenças crônicas controladas, com a sensação do dever cumprido em relação ao trabalho e à família, sentindo-se úteis e experientes, assim como aqueles que tinham recursos financeiros adequados,
conceituavam-na positivamente, o que não ocorria com idosos
em situações opostas.
Essa diversificação de
ideias sobre a pessoa idosa coincide ainda com Zimermam (32)
quanto, ao referir-se a ela, diz:
velho é aquele que tem a idade
do corpo, aquele que tem experiência, mais vivência, mais doença crônica e mais perdas físicas. No momento em que o idoso utiliza mais a sua experiência
adquirida ao longo dos anos, é
capaz de ensinar e conviver com
a própria velhice e sentir-se realizado.
Ainda no contexto sobre
diversidade de ideias a respeito
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da velhice, a natureza desse fenômeno é multidimensional e
multidirecional, ou seja, relaciona-se com aspectos físicos, psicológicos, sociais do indivíduo,
cujo processo de degeneração
inicia em diferentes momentos
da vida, ocorre em ritmos e com
diferentes resultados de adaptação a ele. Para complicar, o ser
idoso é um evento, cujas concepções podem variar no tempo
e no espaço, dependendo dos significados atribuídos a ele. Os significados são diferentes em decorrência da realidade familiar
social e cultural (33).
Ao interpretar separadamente, cada uma das ideias centrais relacionadas ao significado
de ser uma pessoa idosa, a “incapacidade e a inabilidade funcional” são a ideia com maior frequência. É importante destacar
que, apesar de estabelecerem essa relação entre velhice e incapacidade funcional, a maioria
dos idosos deste estudo não se
via como pessoa incapaz ou improdutiva, ou seja, não se percebia como velho, apesar da ideia
cronológica e dos problemas de
saúde referidos por muitos. Isso
leva à suposição de que os participantes do estudo, vivendo numa sociedade preconceituosa
em relação aos idosos, reproduziram os seus estereótipos como, de resto, é comum observar
na população em geral. Esse pode ser o motivo pelo qual, muitas vezes, os próprios idosos se
referiram à velhice de forma negativa (5).
De qualquer modo, o resultado observado coincide com
o posicionamento de Ramos,
Saad (34), que consideram a ca-
pacidade funcional o componente que melhor reflete o estado de saúde dos idosos e que melhor sinaliza as reais necessidades de cuidados que requer essa
população.
Com relação às ideias
centrais “é a pessoa que já viveu
muitos anos” e “é uma pessoa
com bastante idade, mas com
disposição para trabalhar”, é
importante citar, inicialmente,
que é a idade cronológica a demarcadora social da velhice
(31). O indivíduo deve chegar à
velhice com saúde, mas para
uma pessoa idosa, o que é ter saúde? O que significa envelhecer
de forma saudável? Idoso saudável é aquele que não tem doença? Se isso fosse verdade, existiria algum idoso saudável? O idoso, mesmo portador de uma doença pode sentir-se saudável,
desde que seja capaz de desempenhar funções e atividades, alcançar expectativas e desejos,
manter-se ativo em seu meio, ter
alguma função social, efetivar
projetos, conseguindo assim
uma boa qualidade de vida, podendo realizar-se como ser humano, e o que é mais importante,
ser feliz. Saúde, portanto, é a capacidade de o idoso continuar
exercendo funções em seu meio
físico e social, contribuindo para
a sociedade e interagindo com
ela (7).
A maior parte dos idosos
deste estudo percebeu o seu estado de saúde como bom (60%) ou
muito bom (26%), embora 78%
fossem portadores de uma doença crônico-degenerativa, sobretudo de natureza cardiocirculatória. A saúde, para eles, era vista como condição necessária pa-
ra realizar atividades, superar os
problemas e viver melhor. Logo,
na concepção desses idosos, saúde não tem um fim em si mesma,
mas é um recurso para viver plenamente: porque a pessoa que
tem saúde vive melhor com seus
familiares, vive melhor com
Deus e vive melhor consigo mesmo.
As demais ideias centrais: “é aquele que tem muita experiência de vida” e “é a pessoa
que cumpriu seus objetivos de vida” encontram respaldo em
Zimermam (32) ao afirmar que,
quando o idoso é reconhecido pelas suas experiências anteriores
e potencialidades atuais, assim
como pelo que ainda é capaz de
realizar, ele está protegido contra a perda da autoestima e o isolamento social. A sensação de dever cumprido ou de alcance das
metas pessoais o previne da perda da própria identidade social
(32).
Considerações finais
“Ser uma pessoa idosa”
foi caracterizado como um fenômeno multidimensional e multidirecional, ou seja, relativo a aspectos físicos, psicológicos e sociais do organismo, cujo processo de degeneração começa em diferentes momentos da vida, ocorre em diferentes ritmos e com diferentes resultados de adaptação. O envelhecimento é também um evento passível de vários tipos de interpretação, ou seja, as concepções a seu respeito
podem variar no tempo e no espaço, dependendo dos significados
a ele atribuídos.
Como evento natural, envelhecimento significa degene-
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te perturbadores para o homem
como indivíduo e espécie. Em última análise é o principal determinante de seu esforço para controlar o envelhecimento e as condições que o determinam.
Por outro lado, o envelhecimento, é um fenômeno distinto para cada pessoa. Cada ser
humano tem o seu envelhecimento próprio que está centrado
em diversos aspectos, tais como
valores, cultura, estilo de visa e
cuidado com a saúde. Associada
a esses aspectos, a concepção
própria sobre vida e envelhecimento é também um fator que
contribui para o seu desenvolvimento.
Todos os elementos mencionados anteriormente constituem a estrutura do que se denomina hoje envelhecimento produtivo e bem-sucedido, sendo este uma contraposição à associação tradicional entre velhice e
inatividade, isolamento social e
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