XV ENCONTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DO NORTE E NORDESTE e PRÉ-ALAS BRASIL. 04 a 07 de setembro de 2012, UFPI, Teresina-PI. GT 3: Sociologia e Antropologia das Emoções AMIZADE VIRTUAL: SOCIABILIDADES E LAÇOS AFETIVOS NA INTERNET Maria Cristina Rocha Barreto Grupo de Pesquisa em Informação, Cultura e Práticas Sociais Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e Humanas | FAFIC | UERN E-mail: [email protected] MOSSORÓ | RN 2012 AMIZADE VIRTUAL: SOCIABILIDADES E LAÇOS AFETIVOS NA INTERNET A virtualização é um dos principais vetores da criação de realidade. Pierre Lévy Este trabalho é uma investigação inicial sobre a amizade como uma das formas de sociabilidade na internet. Perguntamos quais elementos a amizade, realizada por meio da rede mundial de computadores, preserva das relações presenciais e que transformações ocorrem quando as pessoas estabelecem vínculos que prescindem do contato face-a-face, do contato corporificado (a ausência da virtualidade). Estamos especialmente interessados em como a noção de amizade se configura dentro desse mundo denominado virtual1. Para isso trazemos autores como Gilles Deleuze, Pierre Lévy e Manuel Castells para problematizar a noção de virtual e para tornar mais clara as relações de amizade na internet. Trazemos, além do conceito amizade, tema central deste trabalho, uma discussão sobre a pretensa separação entre real e virtual, além de uma reflexão sobre os impactos sociais das interações mediadas por computador. Reflexões metodológicas A intenção inicial é saber o que as pessoas consideram “um amigo virtual” e que atributos são conferidos a esta espécie de amigo. Para isso fezse uma sondagem a respeito do assunto, através da aplicação de um questionário online2, acionando pessoas através das redes sociais no Brasil e alguns amigos através de e-mail. Esse primeiro momento serviu para tomar contato com o campo empírico, explorá-lo e para definir melhor os informantes, perguntando sobre a possibilidade de entrevistas futuras para aprofundamento e detalhamento das questões da pesquisa. Uma preocupação que logo se apresentou foi o problema da 1 O termo virtual, não obstante a discussão a ser travada neste trabalho, é utilizado tanto pelo senso comum quanto por especialistas da área. 2 Ver formulário em <http://form.jotform.com/form/20195836802>. 2 amostragem em um ambiente tão vasto e desterritorializado como a internet3, onde não há possibilidade de controle geográfico ou sequer numérico. Esta é uma questão de técnica de coleta de dados que ainda vem sendo debatida pelos estudiosos da internet e também dos fenômenos sociais que nela se desenvolvem4. Segundo Fragoso (2011, p.65), as dimensões, o dinamismo e a heterogeneidade torna a representatividade amostral em pesquisas na internet um problema difícil de resolver, pois só é possível através de análises quantitativas de larga escala. Por outro lado, “o número de componentes da amostra é menos importante que sua relevância para o problema de pesquisa, de modo que os elementos da amostra passam a ser selecionados deliberadamente, conforme apresentem as características necessárias para a observação, percepção e análise das motivações centrais da pesquisa” (Idem, ibidem, p. 67). Portanto, optamos por elaborar um questionário inicial com perguntas que levassem os entrevistados a se posicionarem especificamente sobre a existência, ou não, de uma diferença qualitativa entre o que se entende por amizade de modo tradicional – atualizada em seus contextos socioculturais locais – e a amizade nesse espaço de sociabilidades que se convencionou chamar de virtual. Conseguimos, no período de janeiro até março de 2012, o depoimento de 78 pessoas, predominantemente das regiões Nordeste (43), Sudeste (24) e Sul (3) e do Distrito Federal (9), sendo 27 homens e 51 mulheres, na faixa etária dos 15 aos 53 anos. Contudo o que nos chamou atenção foi o fato de que a maioria dos depoentes (56 pessoas) estava entre os 21 e os 40 anos, e destas, 47 cursavam ou já haviam concluído o nível superior e 21 cursavam ou já tinham realizado pós-graduação. Portanto, podemos dizer que nosso universo de pesquisa é formado, em sua maioria, por pessoas bastante informadas e assíduas usuárias da internet, que se conectam com os mais diversos interesses, desde necessidades de trabalho, pesquisas acadêmicas, participação em redes sociais, chats, troca de e-mails e também entretenimento. 3 Segundo Lévy (2011, p.21) ,“a sincronização substitui a unidade de lugar, e a interconexão, a unidade de tempo. Mas [...] nem por isso o virtual é imaginário”. 4 Para tratar em mais profundidade essas questões metodológicas ver AMARAL (2008; 2010), AMARAL et al. (2008), KOZINETS (2010) e ROCHA e MONTARDO (2005) . 3 Uma primeira dificuldade teórica é que, já há algum tempo, muitos pesquisadores não fazem mais uma diferenciação entre real e virtual (LÉVY, 2005; NICOLACI-DA-COSTA, 2005), como se existisse uma ruptura entre o que acontece na internet e o que acontece fora dela (FRAGOSO et al., 2011, p.54). A internet não é “um mundo alternativo”, mas um meio que agiliza e dá suporte comunicacional às atividades cotidianas e corriqueiras das pessoas. Mesmo considerando estas questões, mantivemos a possibilidade de existir, ainda, uma diferenciação ontológica entre as amizades que se desenvolvem com a convivência presencial e aquelas que se desenvolvem e se afirmam na rede mundial de computadores. Foi com esse intuito que demos início a esta pesquisa para, posteriormente, analisar as relações de amizade, destacando não apenas sua dimensão de construção cultural, mas principalmente, o fato de que elas não têm um sentido único, transformando-se de acordo com o contexto em que são produzidas e, assim, perpassadas por negociações de significados e poder. O discurso sobre a amizade, desse modo, seriam práticas constituintes dos objetos sobre os quais elas discorrem, criando experiência, sendo produzido em contextos específicos de relações de poder (REZENDE, 2002a). Consideramos, então, um bom caminho de análise, inclusive para os desdobramentos posteriores da pesquisa, aquele tomado por Rezende (2002a), que parte das definições e significações dadas pelas próprias pessoas pesquisadas. Amigos atuais e amigos virtuais Começaremos esta reflexão reproduzindo um poema escrito por uma internauta, Kiara Kris5 sobre o que considera “O QUE É UMA AMIGA VIRTUAL VERDADEIRA...”: Amiga virtual é aquela que se quer e que nos quer bem. Amiga a qual nos acostumamos. Amiga que imaginamos os olhos, o sorriso, o perfume, o corpo, a cor dos cabelos, o tom da voz!!! Disponível em <http://anamgs.blogspot.com/2010/11/o-que-e-uma-amiga-virtualverdadeira.html> Acesso em 17/11/2011. 5 4 Amiga que sentimos muita vontade de conhecer pessoalmente. Amiga a quem desejamos dar e receber um abraço. Amiga que queremos ver sorrir a todo instante!!! Amiga a quem desejamos sucesso em todos os eventos e momentos de sua vida. Amiga a qual desejamos que encontre a felicidade pelos caminhos que percorrer. Amiga que procuramos encontrar através dos e-mails recebidos, porque sabemos que com eles sempre chegam palavras de carinho, de apoio, de incentivo, de força, de conforto. Ao abrir as mensagens, sentimos o calor humano, o calor morno, suave nos tocando. e quantas vezes peguei-me rindo, chorando, ao ler seus e-mails, suas piadas, seus poemas, seus textos sobre Deus me abençoando!!! Minha sensibilidade anda à flor da pele. Por isso senti necessidade de escrever para ti, não trancando em meu peito essa vontade que nesse momento e, em pensamento te olhar nos olhos dizendo: AMIGA como eu te AMO!!! Obrigada, por ser o FLUÍDO DA MINHA VIDA!!! O poema acima apresentado contem alguns elementos essenciais que marcam a amizade online. Pretendemos aqui analisar esta amizade como uma das formas possíveis de sociabilidade que se desenvolvem na internet – também denominada por web ou rede mundial de computadores – como os nossos entrevistados entendem esta relação e quais as possíveis transformações em suas subjetividades. Pois, como afirmam MORAES e SILVA (2006), “as máquinas tecnológicas de informação e de comunicação operam no núcleo da subjetividade humana, não apenas no seio das suas 5 memórias, da sua inteligência, mas também da sua sensibilidade, dos seus afetos, dos seus fantasmas inconscientes (...)”. Esta subjetividade liga-se ao conceito de sociabilidade, pois se encontra nos conjuntos dos agrupamentos sociais de vários tamanhos e é vivida por indivíduos em suas existências particulares (MORAES e SILVA, 2006). Sendo assim, poderíamos também entender a sociabilidade como “... a capacidade humana de estabelecer redes através das quais as unidades de atividades, individuais ou coletivas, fazem circular as informações que exprimem os seus interesses, gostos, paixões, opiniões...: vizinhos, públicos, salões, círculos, cortes reais, mercados, classes sociais, civilizações,...” (BAECHLER apud MARCELO, 2001, p.39). E dentro desta definição, pode-se inserir um conjunto de relações particulares a cada agrupamento social, que envolve emoções, sentimentos e práticas discursivas. Em meio a estas inúmeras combinações de sociabilidades, a amizade se configura através de um conjunto de significados transmitidos por símbolos reconhecidos por cada grupo particular. É dentro deste contexto que Rezende (2002, p.94) diferencia “amigo”, significando apenas uma pessoa próxima, “colega”, aquela pessoa com quem se estuda ou trabalha e o “amigo de verdade”, uma pessoa considerada como detentora do sentimento amizade e todos os outros que esta relação implica. Estas noções não são conceitos fechados, uma vez que, em seu uso corriqueiro, um colega também pode ser um amigo verdadeiro etc. De um modo geral, a amizade envolve sentimentos como confiança, sinceridade, respeito, seriedade, lealdade, calor, espontaneidade, cumplicidade, cuidado, comunicação, intimidade, além de afinidade nas visões de mundo e, em muitos casos de forma relativa, a presença. É importante que na amizade, diversamente a outros tipos de relacionamento, que cada um dos envolvidos mantenha sua individualidade. A reciprocidade é também um elemento fundamental para assegurar a correspondência de gostos que edificam e constituem a amizade. Igualmente existe uma ideia de que, na amizade, constitui-se um lócus onde o indivíduo possa ser “ele mesmo”. Mostrar seu “verdadeiro self”, segundo Rezende (2002a), implica “uma apresentação sem reservas e espontânea de si mesmo, sem o autocontrole 6 exigido pelas regras da polidez”. Em outras relações, a polidez tem uma importância fundamental e também um esforço de contensão das emoções, necessário para as novas amizades, aos meros conhecidos, nas relações com os colegas de trabalho e na esfera pública em geral.6 No que se refere à amizade na internet, a imaginação tem um papel importante, uma vez que nem sempre se conhece a imagem verdadeira do amigo(a). É o que informa a primeira estrofe do poema acima: “Amiga que imaginamos os olhos, / o sorriso, o perfume, o corpo, a / cor dos cabelos, o tom da voz!!!”. A expectativa de notícias e de manifestações sentimentais também são elementos importantes nas trocas de mensagens, de poemas e de textos das mais diversas naturezas. Ao mesmo tempo, nem tudo é idealizado nas amizades. Rezende (Ibidem) descreve sentimentos conflitantes que perpassam as relações de amizade, particularmente, no seu estudo em Londres. Não obstante, consideremos as práticas discursivas particulares e as diferenças que possam existir entre as culturas brasileira e britânica, alguns elementos podem ser úteis para nossa reflexão, notadamente quando percebemos as ambiguidades existentes em um ideal de amizade e sua prática efetiva no cotidiano. “Em qualquer relação de amizade, o início era marcado mais pela descoberta de afinidades e pelo exercício da sociabilidade do que pelas revelações do „self verdadeiro‟, que exigiam uma confiança construída através do tempo”. Essa revelação do verdadeiro self pode demorar algum tempo quando se trata de um relacionamento na web. Como afirma jsilva (31 anos, Juazeiro do Norte/CE, depoimento em 28/01/2012), “a diferença básica, na minha opinião, está na confiança. Com essa avalanche de informações que circulam nas redes sociais, inicialmente, acho mais prudente tratar os „novos amigos‟ como seguidores. A amizade pode chegar através do tempo e de acordo com os acontecimentos”. Mesmo assim, ele demonstra um interesse na concretização da amizade online: “Há alguns casos onde o encontro no mundo real acontece e dali surgem contatos mais interessantes, possibilidades de trabalho, de 6 Para uma melhor discussão dessas implicações da polidez, podemos nos remeter ao trabalho de GOFFMAN, E. Comportamento em lugares públicos. Petrópolis: Vozes, 2010. 7 divertimento e outras vezes, daquele encontro se resulta uma amizade virtual mais próxima, mais íntima, mais confiável”. Podemos observar, muitas vezes, que a confiança é um elemento de extrema importância nas relações na internet, onde não há a certeza de que as pessoas com quem se conversa sejam “elas mesmas” ou apenas um “personagem”. Essa desconfiança leva alguns a agirem mais cautelosamente quanto ao aprofundamento dos laços virtuais. Montaigne (2000, p.278), por outro lado, afirma a amizade como uma relação perfeita, que “é desfrutada na medida em que é desejada, e apenas na fruição se cria, se alimenta e cresce, porque é espiritual e a alma se aprimora com o uso”. Para este filósofo, a amizade é idealizada, é uma “concordância das vontades”, pois se as ações entre amigos se desencontram, “não seriam mais amigos um do outro segundo minha medida” (Ibidem, p.283). Para falar de uma amizade “verdadeira” é preciso diferenciar os meros contatos e as convivências entabulados devido a circunstâncias ou conveniências. E quando esses atributos são extrapolados transforma-se em amor: “o amor é o desejo de obter a amizade de alguém que nos atrai por sua beleza” (Ibidem, p.280). Silva (2011) comenta que o conceito de amizade em Montaigne se une ao conceito de liberdade. Quando a pessoa toma a atitude de tecer uma amizade, mais ela é capaz de se humanizar, pois a aproximação permite a união das duas vontades. Nessa aproximação, acontece a união fraternal, que denota a comunhão de valores e dos testemunhos de vida. Agir fraternalmente significa agir livremente. Aquela pessoa que respeita o espaço do outro é capaz de agir com liberdade, porque o ama e deseja o melhor a ele.” Em seu estudo sobre a amizade no Rio de Janeiro, Rezende (2002, p. 96), acrescenta que a troca de abraços, beijos e afagos são manifestações corporais comuns, assim como as brincadeiras junto aos amigos mais próximos. Há sempre o aguçamento da vontade e do desejo de conhecer o amigo pessoalmente, de realizar essa amizade através da presença física e de manifestações de carinho, como fica explícito nos primeiros versos da segunda estrofe do poema acima mencionado: “Amiga que sentimos muita vontade / de conhecer pessoalmente. / Amiga a quem desejamos dar e / receber um abraço”. 8 Outro ponto destacado no estudo efetuado por Rezende se relaciona à profundidade da relação como critério de diferenciação entre os tipos de amizade. Com os “amigos de verdade” o envolvimento era mais profundo que nas relações com os “amigos”, enquanto as relações com colegas ou “amiguinhos” eram tidas como mais “superficiais”. Entre os mais velhos, frequentemente o compartilhamento de experiências é fundamental para que uma pessoa “provasse ser amiga de verdade”. De um modo geral, “... a dimensão expressiva da amizade era importante tanto para a individualidade quanto para o estabelecimento de um círculo de relações confiáveis. A preocupação com o outro era elemento fundamental dessa visão de amizade, e esperava-se dos amigos uma “doação” de fato: estar presente em todas as situações, boas ou más. Ao contrario do individualismo “egoísta” que predominaria fora desses círculos, entre amigos deveria imperar a ideia de confiar, ser leal e dar-se ao outro” (REZENDE, 2002, p.109). Entretanto, em muitos depoimentos do nosso estudo podemos encontrar referências a “amigos de verdade” nos relacionamentos da internet, já que, como assegura Lévy (2011, p.20), mesmo não havendo a presença física, a comunidade virtual “está repleta de paixões e de projetos, de conflitos e de amizades”. Este é o caso de Iza (32 anos, Mossoró/RN, depoimento em 23/01/2012): “Acho que a amizade virtual pode ser duradoura, tenho alguns amigos com quem converso apenas através das Redes Sociais com frequência, por familiaridade, interesses em comum. Mas é claro que as amizades reais pesam mais e se fortalecem no contato presencial. Também tenho amigos reais que tenho a impressão de que me conhecem menos que os virtuais pelo tempo em que passamos sem dialogar pessoalmente”. Uma declaração importante sobre as diferenças entre as amizades na web e as presenciais é a de Breno (33 anos, João Pessoa/PB, depoimento em 29/01/2012): A amizade virtual é uma amizade real porque se trata do encontro de dois seres humanos, ainda que mediado por tecnologias. Nesse sentido, o conceito de "amigo virtual" para mim é pobre, porque o que temos é um amigo. Virtual é apenas o termo que usamos para o meio que lançamos mão naquele momento em que interagimos. Não vejo como positiva uma distinção entre amigos virtuais e "reais". Somos todos reais! Apesar dessas diferenciações, parece que estamos passando por um período de transição em que as pessoas ainda não “acreditam” na realidade 9 dos relacionamentos criados sem a presença física ou através de uma grande distância. Dayane (22 anos, Açu/RN, depoimento em 23/01/2012) acredita ser necessária a convivência física, pois “é fácil mascarar sentimentos e omitir sensações virtualmente. Próximo, isso se torna mais visível”. Essa aparente ambiguidade nas falas pode acontecer já que a virtualização subverte a narrativa clássica: “unidade de tempo sem unidade de lugar (graças às interações em tempo real por redes eletrônicas, às transmissões ao vivo, aos sistemas de telepresença), continuidade de ação apesar de uma duração descontínua (como na comunicação por secretária eletrônica ou por correio eletrônico)” (LÉVY, 2011, p.21). Uma discussão inicial sobre redes e virtualidade Alguns autores afirmam que vivemos hoje em uma sociedade conectada em rede (DIMANTAS, 2010; CASTELLS, 2003). A internet, principalmente, modificou drasticamente a forma como as pessoas se comunicam e como a sociedade se organiza. Mais ainda do que conversar, as pessoas trocam links7 através dos blogs e redes sociais. “Linkar é o espaço no qual a informação se conecta, é o espaço informacional” (DIMANTAS, 2010, p.21). Estar imerso em uma rede social significa conectar-se com os amigos dos amigos, procurar compartilhar informações com mais pessoas e, quase sempre, fazendo parte de comunidades cujos interesses temos em comum com outros membros. “Com base na experiência da blogosfera, a palavra „vizinhança‟ é a que melhor expressa os links que seguimos e aqueles que nos linkam. Como as vizinhanças são sempre diferentes, a linkania aponta para um espaço sem limites, já que a web tende ao „infinitesimal infinito‟” (Idem, ibidem, p. 22). Fazer parte da rede é também fazer parte de comunidades que só existem enquanto as pessoas realizam trocas e estabelecem laços sociais. Assim, viver em rede significa afeto (afetar e sermos afetados por ela), inteligência, desejo e cooperação. Isso se reflete em uma nova forma de construir saberes e trocar e difundir informações, que prescinde dos grandes meios de comunicação e pode se realizar individual ou coletivamente utilizando apenas as ferramentas existentes na web. 7 A esse hábito de trocar links, Dimantas (2010) denominou “linkania”. 10 Figura 1 – Uma visão figurativa da rede mundial de computadores. Permite-se aos usuários se vincularem a qualquer página que queiram, mas naturalmente construirão comunidades de informação com páginas similares. Os melhores sites recebem votos de aprovação (na forma de links) de muitas páginas. Disponível em <https://www.cia.gov/library/center-for-the-study-of-intelligence/csipublications/csi-studies/studies/vol49no3/html_files/Intelligence_Networking_6.htm>. Acesso em 01/06/2012.. É nesse sentido que Dimantas (2010, p.43) afirma: “há uma propensão por parte das pessoas que habitam o ciberespaço – e fazem dele uma extensão da própria vida – de encarar a internet como um novo lugar. Nesse lugar, existem de fato pessoas conversando com pessoas”. Isso nos leva a uma discussão sobre uma dicotomia que ainda permanece no discurso de muitas pessoas usuárias da internet, ou seja, a dicotomia entre o virtual e o real8. Já no início de seu livro “O que é Virtual?”, Lévy (2011, p.15-17) considera a oposição entre real e virtual muito fácil e equivocada. A noção do senso comum para a palavra virtual é a de uma ausência de realidade tangível e concreta. A palavra virtual vem do latim virtus, designando força, potência, existindo em potência e não em ato. Lévy argumenta que o virtual não se opõe ao real, mas ao atual, pois “virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes”. Para ele, o virtual procura atualizar-se, o que significa poder criar e inventar qualidades novas e 8 Para mais detalhes sobre a formação das comunidades virtuais e seu impacto na vida social ver CASTELLS (2003a). 11 transformar ideias que o retroalimentam. Nesse sentido, pensar os relacionamentos virtuais como não reais é um equívoco, uma vez que os limites entre estas instâncias estão cada vez mais difusos, tendendo a desaparecer. A virtualização das relações faz repensar as coordenadas espaciais e temporais, percebendo-as não como uma solução estável, mas constantemente problematizadas. Isso se confirma quando Raab (26 anos, Açu/RN, sexo feminino, depoimento em 21/01/2012) declara: “tenho amigos que nunca vi, mas que são meus amigos há muito tempo apenas pela internet. Há muito tempo que eu digo, são mais de 10 anos de amizade virtual. Sei que são meus amigos pela sintonia, pelo ombro dado, pela presença constante apesar da ausência”. Mateus (15 anos, Natal/RN, depoimento em 21/01/2012) demonstra uma grande maturidade quando diz que “amizades não dependem de algo físico, já que consistem na consideração e afeição de um indivíduo pelo outro, se esses sentimentos durarem, a amizade também dura”. Isso indica que as amizades virtuais trazem em si toda a força e potencialidades que as assemelham aos relacionamentos presenciais. Tanto que, como declara Sam (36 anos, São Paulo/SP, sexo feminino, depoimento em 30/01/2012), a amizade na internet pode ser duradoura, inclusive possibilitando o estreitamento de laços ao se tornar madrinha de casamento de uma amiga virtual com quem convive há anos, além de frequentar a casa de outros amigos que conheceu na web e ter se casado com um deles. Diz: “Não faço diferença, acredito que a internet seja só uma ferramenta, como o telefone, que aproxima quem está longe e ajuda na comunicação”. Deleuze, em sua obra Diferença e repetição (2006), discute justamente essa relação entre virtual/atual e possível/real, que nos ajudará a esclarecer a dicotomia presente no senso comum. Em primeiro lugar, este autor chama atenção para a inexatidão desta oposição e assevera que o virtual não se opõe ao real, mas ao atual, pois possui plena realidade enquanto virtual. Afirma: “O virtual dever ser mesmo definido como uma estrita parte do objeto real – como se o objeto tivesse uma de suas partes no virtual e aí mergulhasse como numa dimensão objetiva” (Idem, p.197). No quarto capítulo desta obra, “Síntese ideal da diferença”, Deleuze faz uma distinção entre o possível e o real, considerando que o processo do possível é uma “realização”. “Na medida em 12 que o possível se propõe à „realização‟, ele próprio é concebido como a imagem do real, e o real como a semelhança do possível” (Idem, p.199). O processo do virtual, por sua vez, é a “atualização”, em que ele diferencia-se a si mesmo em constante processo de criação ativa de algo novo. É um atual que não se assemelha ao virtual de onde surgiu e, sendo assim, produz inúmeras diversidades de atualizações. Aqui a diferença e a repetição realizam o movimento de atualização e da diferenciação como criação, substituindo assim a identidade e semelhança do possível. Neste sentido é que podemos pensar na constituição de novas formas de sociabilidades no “mundo virtual” (internet) e a velocidade com que estas mesmas sociabilidades se transformam, a ponto de tornar difícil o seu acompanhamento. Sendo assim definir uma amizade como virtual, no sentido de se desenvolver na internet, nada a faz diferir daquilo que chamaremos de amizade atualizada de acordo com as considerações de Deleuze acima descritas. Porém, em termos concretos, encontramos muitos de nossos entrevistados que ainda fazem essa distinção. Como por exemplo, Dan (25 anos, São Carlos/SP, sexo feminino, depoimento em 25/01/2012) quando diz que a amizade “pode ser duradoura, mas não teria o mesmo calor, a mesma espontaneidade. Tudo o que a era da suposta não-distância trouxera foi uma proximidade ilusória. Nada como falar com um amigo podendo falar da mesma lua ou sol que os ilumina”. Ou mesmo Máh (17 anos, Mossoró/RN, sexo feminino, depoimento em 24/01/2012) que afirma “Eu já vi muita diferença entre os amigos reais e os virtuais, os virtuais pareciam ser mais cautelosos, porém em um momento de tristeza não há como contar com eles na falta de um abraço, ou seja, os reais acabam sempre sendo os mais procurados”. A Srtª. Mozart (30 anos, João Pessoa/PB, depoimento em 29/01/2012) também compartilha da ideia de que os laços com os amigos “do dia a dia” são mais profundos, enquanto que as amizades mantidas no mundo online possuem laços mais frouxos e superficiais. Afirma também que mantém contatos online apenas para fins profissionais e manter contatos com amigos “reais” que estão em outras regiões ou países, além de manter contato com pessoas que conheceu em cursos ou palestras. 13 Talvez o problema dos relacionamentos na internet, e que ainda está por ser compreendido mais amplamente, é que não é tanto a presença ou a superficialidade dos laços que “incomoda”, mas a velocidade cada vez maior com que se estabelecem estes contatos e relações, constituindo espaço-tempo em constante transformação. Nicolaci-da-Costa (2005) critica esta posição ao falar de Bauman, principalmente em sua obra “Amor Líquido” (2004), afirmando que os relacionamentos virtuais não são uma reedição daqueles do início da Internet e ainda influentes nos dias de hoje. A autora assevera que Bauman extrapola a noção de virtual como característica da maioria das relações do que ele chamou de “modernidade líquida”, afirmando que os relacionamentos “reais” modernos seriam “sólidos”, “profundos” e “autênticos”, em contraposição aos relacionamentos virtuais, corolários dos relacionamentos “reais” pósmodernos, considerados “descartáveis”, “frágeis”, “superficiais”, “pouco autênticos” e incapazes de gerar introspecção. Ainda a partir de sua ótica, os relacionamentos “reais” da modernidade eram cimentados por diferentes tipos de solidariedade que estão ausentes tanto nos relacionamentos virtuais quanto nos relacionamentos “reais” pós-modernos. Assim, ele insiste em um engano que opõe estes relacionamentos que possuem características próprias e atuais àqueles de uma época em que não havia sequer as tecnologias digitais. Acredito termos explicitado, com os exemplos acima, que essa noção de fragilidade dos laços de amizade na internet não é inteiramente verdadeira, pois muitos deles podem ser percebidos como profundos e duráveis. Estas considerações de Bauman se mostram inexatas ao examinarmos uma boa parte das entrevistas coletadas em nossa pesquisa inicial. A despeito do que afirma Bauman, encontramos alguns exemplos (que podem provavelmente ser multiplicados em uma pesquisa de maior monta) em que as amizades se estabelecem e consolidam na internet e perduram tanto quanto aquelas realizadas nas proximidades espaciais de nossas vidas. Assim, Mari (17 anos, PB, depoimento em 26/01/12) considera que estas amizades virtuais podem durar para sempre, dependendo somente – assim como na vida fora da net – das afinidades e interesses em comum. Beth (24 anos, DF, depoimento em 29/01/2012) diz não fazer distinção entre amigos reais e virtuais: “Como não costumo sair à noite, os amigos virtuais e reais se misturam no meu cotidiano. 14 O carinho e atenção são praticamente os mesmos. Por que tenho amigos reais de anos que infelizmente estão longe pela rotina, por terem mudado de cidade; e esse contato virtual me faz senti-los próximo, do mesmo modo como os que ainda não conheço pessoalmente. Em ambos os casos, a gente vive a espera de um dia se encontrar”. E ainda reforça: “Já me apaixonei por uma pessoa da minha cidade que se aproximou de mim pelo Orkut, em 2008. Nossa relação era praticamente de namorados. Não nos conhecemos pessoalmente, porque 2 meses depois ele se mudou de cidade e uns 8 meses após, faleceu. Hoje mantenho contato com o primo dele, e o trato como confidente, como o primo que não tenho. Ele já veio a cidade, a minha casa, mas no momento eu não estava presente”. Da mesma forma, existem pessoas que consideram que uma amizade online só poderá ser duradoura se vier a ser presencial, pois amigos virtuais são como os “amigos imaginários das crianças, mas online. Amigos reais são muito diferentes dos virtuais” (Drika, 41 anos, Sumaré/SP, depoimento em 23/01/2012). De qualquer modo, muitas pessoas que se conhecem virtualmente procuram, na medida do possível, conhecerem-se pessoalmente. Breno (33 anos, João Pessoa/PB), em seu depoimento (29/01/2012) diz ter amigos com os quais só se comunica através da web. “Geralmente são amigos que conheci pessoalmente, mas que perdi o contato no dia a dia. Alguns, por exemplo, são colegas de redação (sou jornalista), então falamos bastante de jornalismo, matérias e 9 memes . São raros os casos de amigos que fiz apenas pela internet e mantivemos a amizade por muito tempo. As coisas que tínhamos em comum são as mais triviais como gosto musical, religiosidade (sou batista) ou preferências de entretenimento”. Para Breno, um amigo é virtual quando o contato é todo, ou praticamente todo, realizado na internet, porém “em termos de importância, um amigo virtual pode ter a mesma atenção que dispenso a um a quem vejo pessoalmente”. Em alguns casos o amigo virtual pode se tornar conselheiro e confidente. Breno continua em seu testemunho: “Conheci uma menina que falou que não era mais virgem abertamente em um fórum de uma comunidade no Orkut na época 9 O termo “meme” é utilizado para qualquer coisa que faça sucesso na internet e que seja repassado pelo internauta para sua rede de contatos. Pode ser um desenho mal feito, uma frase, imagem, vídeo etc. 15 em que se postava anonimamente. Aí comentei que achava ela bastante nova pra esse tipo de experiência. Ela deletou meu "scrap" porque disse que a mãe poderia ler e começamos a nos comunicar. Ficamos amigos a ponto de trocar torpedos pelo celular e nos falarmos por telefone, o que era raro. Finalmente viajei a São Paulo e, como ela era de Guarulhos, tentei visitá-la. Mas era bem longe de onde estava hospedado e não pudemos nos encontrar. Essa menina era quase uma namoradinha virtual que eu tive. Queria conhecê-la pessoalmente, mas não deu certo. Hoje perdemos o contato, mas ainda tenho ela e a mãe dela no meu MSN”. Algumas considerações Como vimos, este trabalho é um primeiro resultado de uma pesquisa ainda em desenvolvimento sobre o significado da amizade desenvolvida online. A maioria dos nossos entrevistados, dos quais apenas algumas falas mais representativas foram citadas neste trabalho, vê a amizade eminentemente como uma questão de confiança e reciprocidade, uma relação onde se possa mostrar o “verdadeiro eu”, expor-se, onde se possa sentir à vontade sem as preocupações a polidez e a educação. A amizade online, embora não seja sentida de forma “menos real” que aquelas onde a presença do amigo é física, exige dos parceiros nela engajados mais cautela, uma vez que a não-presença não dá garantias do amigo ser realmente aquele que diz ser, o que leva talvez muitas pessoas a diferenciarem uma amizade da outra. Talvez seja por isso que autores como Bauman tenham atribuído a estas relações online uma fragilidade e uma fluidez que, como mostramos, não é inteiramente verdadeira, pois muitas pessoas as percebem e vivenciam como laços profundos e duráveis. No entanto, acreditamos ainda ser muito cedo para as pessoas absorverem o fato de que podem ter sentimentos e relacionamentos reais em um lócus “sem lugar”. O fato de duas pessoas realizarem trocas simbólicas intermediadas por uma máquina, não torna essas trocas “imaginárias”, mas sim cada vez mais velozes, dando a impressão de que os próprios relacionamentos são efêmeros. No entanto, possivelmente esta sensação de efemeridade seja apenas a vertigem causada pela velocidade do mundo digital contemporâneo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 16 AMARAL, Adriana. Etnografia e pesquisa em cibercultura: limites e insuficiências metodológicas. Revista USP. São Paulo, nº 86, p. 122-135, junho/agosto 2010. _________ . Autoetnografia e inserção online: o papel do pesquisador-insider nas práticas comunicacionais das subculturas da Web. Revista Fronteiras – Estudos midiáticos, 11(1):14-24, janeiro/abril 2009. AMARAL, Adriana; NATAL, Georgia e VIANA, Lucina. 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