TATIANA MENDONÇA DE SANTANA
TIAGO BARRETO GALVÃO
POR UM CONTO: CADERNO ESPECIAL SOBRE
VIOLÊNCIA EM SALVADOR
SALVADOR – BA
JULHO DE 2005
TATIANA MENDONÇA DE SANTANA
TIAGO BARRETO GALVÃO
POR UM CONTO: CADERNO ESPECIAL SOBRE
VIOLÊNCIA EM SALVADOR
Memória do trabalho apresentado como
requisito parcial à conclusão do Curso
de Comunicação com habilitação em
jornalismo, Faculdade de Comunicação,
Universidade Federal da Bahia.
Orientador: Prof. Dr. Elias Machado
SALVADOR – BA
JULHO DE 2005
2
AGRADECIMENTOS
Gostaríamos de agradecer aos nossos pais, pelo incentivo, apoio e eterno
carinho; a nossas irmãs, pela compreensão e colaboração; ao nosso orientador,
o professor Elias Machado, pela paciência e dedicação; e ainda aos nossos
colegas e amigos, pelas generosas contribuições que tornaram possível a
realização deste projeto.
3
RESUMO
Por um conto é um caderno especial com reportagens sobre violência em Salvador.
A violência é um dos maiores problemas das grandes cidades brasileiras, sendo responsável
pela segunda causa de morte na capital baiana. Através das reportagens desta publicação,
contamos histórias de vidas afetadas pelo problema e exploramos o funcionamento dos elos
do sistema de Segurança Pública. Esta memória apresenta as etapas de elaboração e
realização deste produto.
4
“Todas as informações são terrivelmente incompletas”
Clarice Lispector
5
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO............................................................................................................ 07
O PONTO DE PARTIDA................................................................................................. 09
O PRODUTO......................................................................................................................13
A PRODUÇÃO.................................................................................................................. 18
APRENDIZADO............................................................................................................... 48
REFERÊNCIAS................................................................................................................ 51
OBRAS CONSULTADAS..................................................................................................53
ANEXOS............................................................................................................................ 56
6
APRESENTAÇÃO
O nosso Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) é um caderno especial com
reportagens sobre violência em Salvador, utilizando recursos do Jornalismo Literário. As
razões que nos motivam a fazer este projeto se ancoram na crença de que o jornalismo tem
definitivamente uma função de informar e orientar, gerando conhecimento sobre a
contemporaneidade (LIMA, 1993). Essa certeza nasce da percepção de que os meios de
comunicação jornalísticos são – ou deveriam ser – catalisadores capazes de nos fazer
entender e, a partir daí, modificar as diversas realidades que nos cercam. Uma delas é o
quadro da violência urbana no Brasil. No país, uma pessoa é assassinada a cada 12
minutos1. Por ano, são 45 mil homicídios. Este cenário se repete na cidade de Salvador,
onde também estão configurados altíssimos índices de violência, vitimando quatro
indivíduos por dia2.
Esta memória descreve todas as etapas de criação e execução da publicação Por um
conto. Na seção intitulada Ponto de partida, são comentadas as influências que deram
origem ao caderno, partindo de nossa trajetória na Faculdade de Comunicação da
Universidade Federal da Bahia (UFBA) e experiências em estágios.
Em O Produto, apresentamos as características da publicação e justificativas para as
diretrizes adotadas, como os critérios para as pautas das reportagens e o estilo de texto
empregado.
A seção A Produção divide-se em duas partes. Primeiramente tratamos das
atividades realizadas na elaboração e desenvolvimento do projeto que deu origem a este
caderno. Esta etapa inclui o referencial teórico que fundamenta a publicação e a
estruturação do perfil editorial e gráfico de Por um conto. Na segunda parte, destacam-se as
particularidades e desafios da produção – a seleção das pautas e fontes, a redação dos textos
e a diagramação da publicação. Por fim, em Aprendizado, refletimos sobre o processo de
criação e realização do caderno e sobre a formação oferecida pela Facom-UFBA.
O caderno especial Por um conto foi desenvolvido pelos estudantes da Faculdade de
Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Tatiana Mendonça e Tiago
1
AZEVEDO, Solange; DANTAS, Edna. Eles mataram. Revista Época, Editora Globo, 22 set. 2003
Ver SANTANA, Francisco dos Santos; KALIL, Maria Eunice Xavier; OLIVEIRA, Zenaide Calazans. O
Rastro da Violência em Salvador II – Mortes de Residentes em Salvador, de 1998 a 2001, 2002.
2
7
Galvão, sob orientação do professor Elias Machado durante o período de novembro de
2004 a julho de 2005.
8
PONTO DE PARTIDA
Antes mesmo de entrar na Faculdade, já havia de nossa parte a preferência pelo
jornalismo impresso. Esta tendência se confirmou através de nossas experiências e escolhas
na Faculdade de Comunicação da UFBA. Durante o primeiro semestre, na “Oficina de
Comunicação Escrita”, ministrada pela professora Lia Seixas, desenvolvemos um jornal
mural interno, exercitando diversos textos jornalísticos (editorial, matéria, perfil, artigo).
No semestre seguinte, durante a disciplina “Comunicação Jornalística”, ministrada pelo
professor Leandro Colling, pudemos entrar em contato com a prática da reportagem, que se
firmou para nós como texto jornalístico preferencial, pelas características de
aprofundamento e maior liberdade estilística. A ementa incluía a leitura e discussão de
textos sobre reportagem, um trabalho teórico sobre o tema e a elaboração de duas
reportagens, uma interpretativa e outra investigativa. Nesta disciplina, também ouvimos
falar, pela primeira vez, do Jornalismo Literário, através de reportagens de Eliane Brum. A
força do texto da jornalista nos impressionou e passamos a pesquisar sobre o assunto.
No terceiro semestre, vivenciamos a produção de um jornal, através da “Oficina de
Jornalismo Impresso”, ministrada pelos professores Elias Machado e Antônio Brotas. A
produção do Jornal Laboratório serviu para conhecer e exercitar as etapas que cercam a
produção de um jornal. A rigorosa discussão de pautas consolidou em nós a percepção
sobre o que é notícia. A produção dos textos jornalísticos nos fez entrar em contato com as
dificuldades práticas da profissão – adequar o fechamento da edição à disponibilidade das
fontes, lidar com análise e ausência de dados, reunir e alinhar no texto todas as informações
coletadas de maneira lógica e coesa. Neste período, realizamos reportagens sobre temas
relacionados à Universidade Federal da Bahia. O exercício da fotografia nos orientou sobre
as características do fotojornalismo. Após a produção e edição dos textos vivenciamos as
etapas da revisão, diagramação e impressão, com visitas à gráfica. Nesta disciplina também
foi possível aprofundar os conhecimentos teóricos em relação à prática jornalística, com a
elaboração de um ensaio.
O exercício da reportagem continuou no quarto semestre, na disciplina “Oficina de
Radiojornalismo” ministrada pelo professor José Pacheco. Nós optamos por desenvolver
um programa jornalístico chamado Olhares, com o slogan “Sua nova maneira de ouvir no
9
rádio”. Nossa proposta era realizar diversas reportagens sobre grupos discriminados em
Salvador. A primeira pauta escolhida – que também se tornou a única – foi a vida dos
idosos em abrigos e asilos. Na produção do texto, apesar de seguirmos as especificidades
do radiojornalismo, já utilizamos recursos do Jornalismo Literário, condizente com nossa
proposta de priorizar as histórias de vida dos idosos. A satisfação proporcionada pela
realização desta reportagem já nos indicava a linha a ser seguida na elaboração do nosso
Trabalho de Conclusão de Curso.
No semestre seguinte também trabalhamos com reportagens, na disciplina “Oficina
de Telejornalismo”, ministrada pela professora Simone Bortoliero. Investigamos o
crescimento das faculdades privadas em Salvador, numa reportagem de quatro minutos –
tempo bastante significativo para matérias veiculadas em televisão.
Durante o sexto semestre nos matriculamos na disciplina optativa “Oficina de
Jornalismo Impresso II”, ministrada pela professora Antoniella Devanier, na intenção de
estar novamente num dos raros espaços para a prática da reportagem na Facom-UFBA. Mas
o objetivo da disciplina era funcionar como uma agência de notícias sobre a produção
científica da UFBA, com a elaboração de matérias e notas para o boletim Ciência Press, o
que nos causou certo desapontamento. Mas foi válido conhecer, pela primeira vez em todo
o curso, as especificidades do Jornalismo Científico.
Foi também durante o sexto semestre, na disciplina “Elaboração de Projeto em
Comunicação”, ministrada pela professora Maria Carmem Jacob, que escolhemos o objeto
do nosso Trabalho de Conclusão de Curso. A idéia para este produto passou por diversas
modificações. A disciplina foi um momento importante para aprofundarmos a
fundamentação teórica sobre os temas com que nos propusemos a trabalhar e definir o
planejamento estratégico para orientar a produção nos semestres seguintes.
O interesse pelo tema da violência é decorrente das nossas trajetórias pessoais.
Apesar de não termos tido contato durante o curso com a produção de textos sobre esta
temática, a forma como a violência é tratada pelos jornais impressos baianos sempre foi
uma questão que nos inquietou. No nosso primeiro semestre nesta Faculdade, através da
disciplina “Oficina de Comunicação Escrita”, Tiago Galvão fez uma análise da maneira
como os fatos violentos são representados pelos periódicos baianos A Tarde e Correio da
Bahia. A partir deste estudo, atentamos para a necessidade de se reportar à violência de
10
maneira mais conseqüente e socialmente responsável. Nós também estagiamos no
Movimento Estado de Paz – iniciativa de profissionais da mídia baiana para promover uma
política de comunicação social de revalorização da vida3, sob supervisão da jornalista
Suzana Varjão. Tatiana Mendonça estagiou por dois anos no Estado de Paz, coordenando a
produção de conteúdo para o banco de dados do Movimento. Um momento de destaque foi
o desenvolvimento da seção A segurança que temos, no qual foram entrevistados
representantes de todos os órgãos que integram o sistema brasileiro de Segurança Pública,
para posteriormente explicar o funcionamento destas instituições. Tiago Galvão estagiou na
instituição durante seis meses, para aprofundar os conhecimentos sobre violência e mídia.
Outros estágios realizados por nós serviram para complementar a formação
acadêmica. As experiências em assessoria de imprensa e produção de mídias institucionais
aprimoraram o contato com as fontes, busca e seleção de informações, redação de textos e
diagramação dos produtos, além de colocar os estudantes em contato com o mercado de
trabalho. Tiago Galvão estagiou durante um ano e seis meses na assessoria de comunicação
da Empresa de Turismo S/A (Emtursa), sob supervisão do jornalista Rafaela Manzo. Além
disso, supervisiona desde 2004 o departamento de comunicação da ONG Abrasse –
Associação Baiana de Representações Artísticas Solidárias à Saúde Emocional. Tatiana
Mendonça participou durante três meses da elaboração de CD institucional, contanto os
trinta anos de história de um colégio de Salvador.
Além das experiências em atividades práticas, soma-se o contato com pesquisa
acadêmica, que complementou a formação profissional. Tiago Galvão participou durante
um ano e sete meses do Programa Especial de Treinamento (PET), onde realizou pesquisas
em Estudos e Críticas Culturais, sob a tutoria do professor Maurício Tavares. Os
conhecimentos metodológicos adquiridos contribuíram para o refinamento do senso de
observação,
possibilitando
maior
aprofundamento
nos
assuntos
abordados
3
O “Movimento Estado de Paz - Uma Ação pela Vida” surgiu em 13 de março de 2001, motivado pelo
assassinato da colunista de teatro do jornal A Tarde Maristela Bouzas, em novembro de 2000. Formado por
jornalistas, fotógrafos, radialistas, publicitários, artistas, empresários, professores e estudantes de
comunicação, a iniciativa busca melhorar a cobertura jornalística sobre a violência e encontrar soluções para o
problema no Estado da Bahia. Um dos princípios do Movimento, estabelecido no documento “Por uma
Política de Comunicação Social de Revalorização da Vida”, é “tratar a questão da violência não como caso de
polícia, mas como problema social", descriminalizando o noticiário e criando espaços para a veiculação de
propostas e soluções de educação e inclusão social. O Estado de Paz está construindo um banco de dados
virtual que deverá fornecer subsídios aos jornalistas da área para que desenvolvam uma cobertura mais
criteriosa das ocorrências que envolvem atentados à vida (www.estadodepaz.com.br).
11
jornalisticamente. Todas as outras atividades que estiveram relacionadas, de alguma forma,
com as técnicas e os métodos utilizados em reportagens e o tema da violência, segurança e
direitos humanos foram essenciais para a realização deste Trabalho de Conclusão.
Seminários, oficinas, cursos e palestras, ocorridos dentro e fora da Universidade,
acrescentaram conhecimentos à formação dos graduandos, levantando problemas e
inquietações, e ajudaram na elaboração do caderno especial Por um conto.
12
O PRODUTO
Por um conto é um caderno especial de reportagens pautadas na violência urbana de
Salvador, fomentando a discussão sobre o funcionamento do sistema de Segurança Pública.
Nossa intenção é que o caderno seja encartado nos jornais A Tarde ou Correio da Bahia4.
Dessa forma, o produto supostamente abrangeria – sem acréscimo de custo para o leitor – o
mesmo público que é informado diariamente pelos jornais locais. Segundo Marta Sousa 5,
analista de marketing do jornal A Tarde, as editorias mais lidas nos jornais impressos
baianos são Esporte e Polícia. O alcance atingido pelas chamadas “páginas policiais”
reforça nosso empenho em propor uma nova maneira de pensá-las e produzi-las. O caráter
“especial” do caderno advém da dedicação a uma única temática – a violência –, de uma
maior liberdade estilística e da não-periodicidade do produto. Como Trabalho de Conclusão
de Curso iremos realizar uma única edição. No entanto, acreditamos que o caderno poderia
ser disponibilizado quinzenalmente ao público, como suplemento regular.
O formato definido para esta publicação é o tablóide, escolhido pelas características
de leveza e portabilidade6 e por facilitar a anexação junto aos já citados jornais baianos. A
publicação tem 24 páginas, incluindo aquelas destinadas à publicidade. Em Por um conto
priorizamos a reportagem, gênero jornalístico que vai além da notícia. Como define a
professora Cremilda Medina:
“[Na reportagem] as linhas de tempo e espaço se enriquecem: enquanto a notícia fixa o
aqui, o já, o acontecer, a grande reportagem abre um ciclo mais amplo, reconstitui o já
no antes e no depois, deixa os limites do acontecer para o estar acontecer, para o estar
acontecendo atemporal ou menos presente”. (MEDINA apud COIMBRA, 1993, p. 9).
No entanto, é inegável que existe uma intensa demanda pela atualização contínua da
informação, que vai desde as edições diárias dos jornais impressos à estratégia de plantões
ininterruptos em sites noticiosos, com diferentes níveis de contextualização. Nossa opção
em apostar em reportagens não se estabelece em detrimento às outras formas de
4
O jornal Tribuna da Bahia foi descartado pela incompatibilidade com a política editorial estabelecida para
esta publicação.
5
SOUZA, Marta. Entrevista concedida a Tiago Galvão e Tatiana Mendonça. Salvador, 12 nov. 2004.
6
Maiores informações sobre o formato da publicação podem ser encontradas no Projeto Editorial do caderno
(Anexo II).
13
representação jornalística da realidade. Apenas acreditamos que a temática pode ser melhor
explorada através da verticalização da chamada reportagem dissertativa, classificada por
Oswaldo Coimbra como estilo de reportar que adota um raciocínio lógico, abordando as
causas e efeitos do fenômeno analisado.
“Como na reportagem dissertativa a função de informar é inseparável do esforço de
convencer o leitor a aceitar a informação no contexto de um raciocínio que se pretende
correto, é óbvia a presença nela de argumentação”(COIMBRA, 1993, p. 13).
Artifícios como a narração, descrição de detalhes e comparação de situações –
seguida pela exemplificação de fatos – compõem estes textos, que servem como
“documentos históricos e sociológicos, mas ainda como alegoria e reflexão mais ampla
sobre a condição humana”. (Idem, Ibidem, p. 18).
Na pesquisa realizada pelo professor J. S. Faro sobre o auge da revista Realidade7 –
que se destacou pelo aprofundamento e qualidade do texto – Faro constatou que os temas
policiais eram os que mais representavam o código narrativo do veículo.
“Os repórteres da revista souberam dar aos temas policiais uma forte dimensão
humanizadora que abria caminho para a plenitude dos traços essenciais da grande
reportagem. [...] Nestes textos percebe-se a presença intensa dos recursos literários [...],
mas sua abrangência e significado surgem com força redobrada, porque estavam
vinculados a uma temática cuja natureza trágica, humana e social exigia e amplificava a
sua presença” (FARO, 1999, p.258, grifo nosso)
Para a cobertura de fatos violentos também apostamos na utilização de recursos
estilísticos do Jornalismo Literário. A escolha por esta modalidade de jornalismo se
justifica pela crise amplamente anunciada dos jornais impressos. Uma maneira de contornar
esta situação, agravada pela difusão da Internet e dos jornais on-line, é o aprofundamento e
revalorização do texto nos veículos impressos. Como afirma Gustavo Castro:
7
A revista Realidade, que circulou no Brasil entre 1966 e 1976, é considerada a maior representante do
Jornalismo Literário no país. O código narrativo da revista se aproxima dos recursos utilizados pelo New
Journalism americano, mas há controvérsias quanto à influência direta deste modelo na elaboração da
publicação da Editora Abril. Sucesso de vendas – chegando a atingir a marca de 500 mil exemplares, em 1968
–, a revista revolucionou pela qualidade, verticalidade do texto e pelo tratamento arrojado dado a temas
polêmicos. Com o recrudescimento da censura e a saída de seus principais repórteres e colaboradores, a
revista foi perdendo o fôlego até ser substituída, em 1976, por um guia de TV (Ver FARO, Revista Realidade:
Tempo de Reportagem na Imprensa Brasileira, 1999)
14
“O modelo da prática jornalística que conhecemos hoje, pelo menos o praticado em
vários jornais diários do país, está agonizante. Essa mesma imprensa, inclusive, já
começa a constatar a agonia e o padecimento desse modelo. [...] Uma das saídas para o
jornalismo contemporâneo, ao que parece, é voltar a investir na narração, ou na velha
fórmula da boa história a se contar”. (CASTRO, 2002, p.77)
A pesquisadora Florence Dravet também problematiza a opção dos jornais impressos
em investir em narrativas supostamente “objetivas e claras”, crendo ser esta a vontade do
público. “Um leitor que quer ler notícias claras e objetivas é um leitor sem desejo, sem
paixão. [...] Quero acreditar que este leitor não existe enquanto sujeito; que só pode existir
no imaginário das sociedades de consumo industrial”(DRAVET apud CASTRO 2002, p.
87).
A opção de elaborar um jornal impresso, e não outro suporte midiático, se justificativa
por razões de interesse, competência, recursos e objetivos que se pretende alcançar. O
caderno especial foi escolhido pela possibilidade de explorar mais amplamente a
reportagem enquanto gênero jornalístico. Tomando como base a observação de
suplementos regulares em circulação nos jornais impressos brasileiros dirigidos a públicos
diversos – como o caderno Mais da Folha de S. Paulo, o Correio Repórter do Correio da
Bahia, ou ainda o caderno especial Jardim da Infâmia, sobre violência sexual contra
crianças e adolescentes, publicado no jornal A Tarde – percebe-se o investimento em um
jornalismo mais autoral, que se distancia do padrão recorrente nas principais editorias.
Estes cadernos apresentam maior profundidade sobre o tema que se propõem a tratar,
permitindo explorar recursos jornalísticos e literários que não estão presentes nos diários
impressos.
O formato revista foi descartado em função dos altos custos de impressão e pelo caráter
temático da publicação. O rádio e a televisão não foram eleitos em função da falta de
intimidade dos realizadores com estes veículos, e pela necessidade de se recorrer a
equipamentos e aparatos tecnológicos disputadíssimos ou ausentes na Facom-UFBA. No
entanto, não menosprezamos o imenso potencial comunicador destes veículos, num país
que não cultiva o hábito de leitura e que ainda tem uma grande parcela da população nãoalfabetizada. Apesar da programação atual feita para estes veículos no Brasil ser
comumente criticada pela superficialidade com que aborda as notícias, acreditamos que é
possível desenvolver reportagens de profundidade e qualidade para estas mídias. Também
15
não podemos deixar de mencionar o amplo espaço que estes suportes – principalmente a
televisão, em programas como Brasil Urgente8 (da Rede Bandeirantes) e Cidade Alerta (da
Rede Record, que saiu do ar em junho deste ano) – vêm dando para a questão da violência
nas grandes cidades brasileiras, formando opinião de maneira descontextualizada e
sensacionalista.
O suporte Internet foi cogitado como alternativa ao caderno impresso, por não envolver
grandes custos para divulgação e pela potencial universalidade do veículo. A publicação
poderia ser disponibilizada na extensão PDF ou em algum site jornalístico, utilizando as
características de fragmentação, multimidialidade e hiperlinks do Jornalismo Online. No
entanto, o pequeno acesso da população baiana e brasileira à internet, especialmente no que
se refere à população pobre – mais atingida pela violência e um dos públicos deste caderno
– foi fator decisivo para optarmos pelo jornal impresso.
As pautas de Por um conto foram estabelecidas utilizando-se os critérios de atualidade,
proximidade, amplitude, identificação humana, relevância social e segurança pessoal dos
realizadores9 . O trabalho de investigação – intrínseco à atividade jornalística – norteou
todos os textos elaborados para este caderno, mas nunca tivemos a pretensão de realizar as
ditas reportagens de “denúncia”, pelo risco real que envolvem, especialmente na área de
violência. No Brasil, um dos casos de maior repercussão foi a morte do jornalista Tim
Lopes, assassinado em 2002 pelos traficantes da favela da Grota, no Rio de Janeiro,
enquanto fazia uma reportagem para a Rede Globo sobre o tráfico de drogas e exploração
sexual de crianças e adolescentes na área.
Outra justificativa para esta escolha é o nosso posicionamento pessoal e profissional em
não apostar num jornalismo “denuncista”, que se baseia em acusações precipitadas e
inconseqüentes, condenando moralmente sujeitos que não encontram espaço para se
defender na mídia e que, em função da morosidade da Justiça, demorarão muito tempo para
provarem sua inocência ou serem legalmente condenados pelo Poder Judiciário. Optamos
por produzir reportagens interpretativas e centradas, sempre que possível, nos diagnósticos
realizados pelas crescentes pesquisas acadêmicas na área de segurança, violência e direitos
8
Sobre o Brasil Urgente, ver TEMER, Ana Carolina Rocha Pessoa. Sensacionalismo sem sangue - uma
analise do telejornalismo ao vivo. Disponível
em:<http://www.versoereverso.unisinos.br/index.php?e=4&s=9&a=36>. Acesso em: 30 maio 2005.
9
Para maiores informações sobre os critérios de noticiabilidade adotados por esta publicação, ver Projeto
Editorial (Anexo II)
16
humanos, sem esquecer do nosso principal propósito: contar como a violência vem
afetando a vida das pessoas em Salvador, através de um texto criativo, cobrando dos
poderes públicos e da sociedade civil organizada suas responsabilidades frente ao
problema.
17
A PRODUÇÃO
Durante o período de elaboração de Por um conto, realizaram-se alguns
procedimentos que foram de fundamental importância para a compreensão do processo de
produção de um jornal e da realização das reportagens. Abaixo, estão descritas todas as
atividades executadas durante o período da Elaboração do Projeto em Comunicação à
produção do Trabalho de Conclusão de Curso:
1) Elaboração do Projeto e Desenvolvimento Orientado de Projeto
O primeiro contato com o que viria a ser esta publicação se deu na disciplina
obrigatória “Elaboração do Projeto em Comunicação”, período em que definimos qual seria
o objeto do Trabalho de Conclusão de Curso e amadurecemos a idéia com a pesquisa em
livros sobre reportagens, Jornalismo Literário, violência e a evolução da cobertura
jornalística sobre o tema. O “achismo” inicial foi ganhando consistência teórica e
formatação acadêmica. Estabelecemos que o Trabalho de Conclusão seria um produto
(publicação impressa), mas somente na disciplina “Desenvolvimento Orientado de Projeto”
é que o formato e as características editoriais e gráficas do caderno foram estruturados.
Uma das primeiras recomendações da professora Linda Rubim, que ministrou a disciplina,
foi que escolhêssemos o nome do professor orientador, para que ele pudesse acompanhar o
desenvolvimento do Projeto, sugerindo uma bibliografia mais especializada e auxiliando na
elaboração de uma “boneca” para a publicação. Escolhemos o professor Elias Machado
para orientar o trabalho. O professor avaliou o Projeto e começaram, então, os encontros
com o objetivo de coletar as primeiras sugestões de bibliografia complementar e
assessoramento nas etapas da formatação do produto.
O orientador recomendou que aprofundássemos o conhecimento sobre Jornalismo
Literário, com livros dos fundadores do New Journalism, e conhecêssemos as publicações
que utilizaram recursos do estilo aqui no Brasil – como foi o caso da revista Realidade. Ao
conhecermos esta publicação reforçou-se a convicção da importância de se investir num
texto mais rico e criativo. O vigor das reportagens da revista ainda impressiona, depois de
quase trinta anos de sua extinção.
18
Outra sugestão do professor orientador foi que fizéssemos um diagnóstico mais
preciso sobre as “páginas policiais” no Brasil e na Bahia. Uma das etapas previstas no
Projeto para a realização do caderno era uma pesquisa nas “páginas policiais” dos jornais A
Tarde, Correio da Bahia e Tribuna da Bahia, para que pudéssemos traçar de maneira mais
precisa o modo como os jornais baianos reportam questões ligadas à violência. A
professora de “Desenvolvimento de Projeto Orientado”, Linda Rubim, questionou a
multiplicidade de propostas do Projeto e as limitações de tempo para executá-las, já que a
pesquisa nestes jornais por si só configuraria um Trabalho de Conclusão de Curso. O prazo
que tínhamos não era adequado para uma avaliação criteriosa, o que nos levou a procurar
trabalhos que já tivessem explorado o tema.
Também era indispensável, para a construção do caderno, conhecer as evoluções
por que passaram as “páginas policiais” no Brasil e no mundo, sendo crucial, portanto, a
leitura sobre sensacionalismo e seus ícones no país, como o jornal paulista Notícias
Populares. Para finalizar, foi recomendada a leitura de livros-reportagem sobre o tema da
violência, para apreensão dos estilos narrativos e dos métodos de apuração utilizados nesta
cobertura. Dois livros considerados fundamentais foram Abusado, de Caco Barcellos –
sobre o traficante Marcinho VP, “dono” do Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro – e
Notícias de um Seqüestro, do jornalista e escritor Gabriel Garcia Márquez, que trata do
seqüestro de jornalistas colombianos.
Na etapa de construção da fundamentação teórica do trabalho, também
entrevistamos jornalistas e analisamos outras publicações. Pretendíamos entrevistar ao
menos um repórter ligado à cobertura da violência nos três principais jornais baianos, para
que pudéssemos conhecer os problemas mais comuns desta editoria e analisar pelo viés dos
produtores a maneira como as reportagens sobre a temática são elaboradas. Após
entrevistarmos o jornalista Deodato Alcântara10, que foi repórter policial do jornal Correio
da Bahia durante quatro anos e desde março de 2005 trabalha para a mesma editoria de A
Tarde, percebemos que as entrevistas seriam enriquecedoras, mas dispensáveis, já que o
produto final (matérias e notas diárias) elaborado por estes jornalistas era muito
10
ALCÂNTARA, Deodato. Entrevista concedida a Tiago Galvão e Tatiana Mendonça. Salvador, 18 mar.
2005.
19
diferenciado do nosso. Além disso, estávamos concentrados na execução dos projetos
editorial e gráfico do caderno.
Mais próximo da nossa proposta estava o Trabalho de Conclusão de Curso do
jornalista Ernesto Marques11, graduado em 2004 pela Facom-UFBA. Marques realizou um
jornal impresso com reportagens de caráter literário, exclusivamente voltado para a questão
da violência – mais especificamente sobre as mortes ocorridas no Hospital de Custódia e
Tratamento de Salvador (publicação intitulada A loucura sob custódia – crime, violência e
perversão no manicômio judiciário). Conversamos com o jornalista, que expressou seu
desapontamento por não ter conseguido se aprofundar nas histórias dos pacientes do HCT e
satisfação por ter conseguido imprimir três mil exemplares do jornal. O projeto gráfico e a
diagramação do produto não ficaram a cargo do jornalista. Outro Trabalho de Conclusão de
Curso analisado por nós foi o jornal de reportagens Prosa, realizado no mesmo ano pelas
estudantes Fernanda Braga, Ingrid Campos e Luize Meirelles. Também entrevistamos a
diretora de marketing do jornal A Tarde, Marta Souza12, colhendo informações sobre a
incidência de leitura das “páginas policiais” e averiguando a possibilidade de encartarmos o
caderno naquele jornal.
Para a elaboração da fundamentação teórica e do Projeto Gráfio do caderno também
analisamos outras publicações, especialmente tablóides, como o jornal Província da Bahia.
Uma das nossas preocupações era verificar como dispor harmonicamente grandes textos,
comuns às reportagens. Os suplementos neste formato veiculados periodicamente nos
jornais baianos (como o Dez!, Esporte Clube e Rural, de A Tarde) e cadernos especiais
sobre o Rio São Francisco (Caminhos do Opará – A Tarde), gastronomia (Sabor e Estilo Correio da Bahia) e a África (África: um povo do sol - A Tarde ) foram algumas das
publicações analisadas. Dos periódicos nacionais, nos detivemos especialmente no caderno
Mais!, da Folha de S. Paulo. A diagramação inovadora presente nesta publicação, que traz
extensos textos analíticos, serviu para inspirar o Projeto Gráfio de Por um conto.
Durante o período de pesquisa, não foi encontrado nenhum jornal que tratasse
exclusivamente do tema da violência, à exceção dos cadernos promovidos pelo prêmio Tim
Lopes, da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), que financia publicações
11
12
MARQUES, Ernesto. Entrevista concedida a Tiago Galvão e Tatiana Mendonça. Salvador, 20 mar. 2005.
SOUZA, Marta. Entrevista concedida a Tiago Galvão e Tatiana Mendonça. Salvador, 12 nov. 2004
20
sobre abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. Como exemplos, os jornais
Jardim da Infâmia, veiculado no jornal A Tarde em 2003, e Asas Feridas, produzido por
alunos da Faculdade Social da Bahia (FSBA). Apenas organizações do terceiro setor que
trabalham com a temática dos direitos humanos dedicam publicações (boletins informativos
e newsletters) exclusivamente voltadas à questão da violência.
Apesar dos jornais impressos brasileiros oferecerem ao público uma grande
quantidade de cadernos temáticos – e das páginas com notícias sobre crimes serem umas
das mais lidas – nenhum jornal do país oferece uma publicação que trate de maneira mais
aprofundada o tema da violência, segurança e direitos humanos. Acreditamos que algumas
das causas desta situação sejam o desinteresse e a dificuldade em obter anúncios para este
tipo de conteúdo, já que as empresas temem vincular sua imagem ao problema. Mas
provavelmente esta explicação não é suficiente para que os jornais, agentes ativos no
processo da formação das representações de uma sociedade, deixem de tratar de maneira
responsável o tema, que se configura hoje como um dos maiores desafios do país.
A partir da década de 1990, os principais jornais do país (como o Estado de S.
Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo e Correio Brasiliense) abdicaram de uma editoria
exclusiva para assuntos ligados à área de violência, as chamadas “páginas policiais”. As
notícias que poderiam ser classificadas como “casos de polícia” passaram a ser
apresentadas em cadernos ligados à cidade e ao cotidiano, sem distinção com as demais
notícias que tratam de temas locais. Esta mudança pode ser considerada um avanço, por não
restringir o problema da violência à polícia e tratá-lo de forma mais integrada com a
dinâmica social. Apesar de, a princípio, parecer conflitante propor um suplemento que trate
exclusivamente do tema, acreditamos que um produto com as características que
apresentamos neste trabalho virá preencher uma lacuna e fomentar a discussão
contextualizada sobre o fenômeno da violência urbana.
1.1) Fundamentação Teórica
Para a realização desta publicação, foi imprescindível aprofundar o conhecimento
sobre os objetos com os quais nós nos propusemos a trabalhar. Nas disciplinas “Elaboração
de Projeto em Comunicação”, ministrada pela professora Maria Carmen Jacob, e
21
“Desenvolvimento Orientado de Projeto”, ministrada pela professora Linda Rubim e
acompanhada pelo professor orientador Elias Machado, pôde-se refletir sobre os temas
através da leitura da bibliografia básica sobre Jornalismo Literário, Violência e a cobertura
sobre o tema.
Jornalismo e Literatura
As fronteiras entre o jornalismo e a literatura nunca foram bem definidas. Muitos
foram os escritores brasileiros e estrangeiros que atuaram como jornalistas, como Machado
de Assis, Euclides da Cunha, Ernest Hemingway e, mais atualmente, Luis Fernando
Veríssimo, Carlos Heitor Cony e Gabriel Garcia Márquez.
Primordialmente, o jornalismo e a literatura têm como interseção o exercício da
palavra, utilizando-a como instrumento de trabalho. Além disso, o universo humano e a
realidade servem de matéria-prima para que escritores e jornalistas exerçam seus ofícios.
Contudo, na literatura investe-se no imaginário, ao contrário do jornalismo, onde não existe
permissão para ir além do factual.
O diálogo entre os representantes desses dois campos, embora sempre existente,
também se mostra tenso. O poeta e ensaísta Salvado Novo, num discurso carregado de
acidez, anunciou: “não se pode alternar o santo mistério da maternidade que é a literatura
com o exercício da prostituição que é o jornalismo” (NOVO apud CASTRO, 2002, p.17).
É importante perceber como se deu este encontro de forma mais sistematizada. O
New Journalism surgiu nos Estados Unidos na década de 1960, vinculado ao movimento
hippie de contestação dos valores estabelecidos, buscando uma maneira de retratar a
“realidade com mais cor, vivacidade e presença” (LIMA, 1993, p.96). O estilo nasceu,
principalmente, como alternativa ao modelo da “pirâmide invertida”, surgido em 1861 no
jornal The New York Times.
Foram jornalistas como Tom Wolfe, Truman Capote, Gay Talese e Norman Mailer
que passaram a enxergar o jornalismo sob um prisma diferente e, através de textos que
apresentavam características literárias na abordagem de fatos reais, criaram o que viria a ser
chamado de New Journalism. Como definiu Nicolaus Mills numa antologia do New
22
Journalism, “a who, where, when, why style of reporting could not begin to capture the
anger of a black power movement or the euphoria of a Woodstock 13” (MILLS apud
HELLMAN, 1981, p.3).
O New Journalism pregou o uso da melhor técnica literária combinada com a
melhor reportagem, concentrando-se em quatro recursos específicos: a construção cena a
cena; a reprodução do diálogo das personagens; a exploração das variadas possibilidades
expressivas do foco narrativo (inclusive com emprego do fluxo de consciência, como nos
melhores romances psicológicos); o registro de gestos, cotidianos, hábitos, modos, e outros
detalhes simbólicos para reforçar a aparência da realidade14. A busca não deve ser só pela
informação, há que necessariamente passar por uma descoberta compreensiva do universo
do ser humano, para que os entrevistados sirvam de “espelho das possibilidades disponíveis
a toda a espécie” (LIMA, 1993, p. 90).
Um dos ícones do Jornalismo Literário – A Sangue Frio, de Truman Capote – narra
minuciosamente, como um romance do real, todos os acontecimentos que precederam o
assassinato da família Clutter e todas suas futuras implicações. É interessante notar que o
Jornalismo Literário nasce vinculado ao chamado “jornalismo policial”.
“While there are a number of precedents extending back through the history of both
journalism and prose fiction, the beginning of the New Journalism (...) can with some
symbolic justification be dated as 1965, the year when (...) Truman Capote’s In Cold
Blood was published”15. (HELLMAN, 1981, p.1)
A imprensa brasileira também passou por este processo de transformação. Destacase a já citada revista Realidade, sucesso de vendas nos anos 60. As inovações também
atingiram o jornalismo diário, a exemplo do vespertino Jornal da Tarde, de São Paulo, que
combinou matérias de conteúdo exclusivamente informativo com reportagens que
valorizavam a visão do repórter, transitando para um texto mais inventivo e literário
(FARO, 1999, p. 94).
13
“O estilo ‘quem, quando, onde, porque’ de reportar não seria capaz de capturar toda a raiva do movimento
negro ou a euforia de Woodstock” (Tradução nossa).
14
Ver LUIZA, A e TOYAMA, L., Um jornalismo muito humano. Disponível em:
<http://www.facasper.com.br/jo/reportagens.php?tb_jo=&id_noticias=55>. Acesso em: 25 ago. 2003
15
“Embora haja um numeroso precedente tensionando a história tanto do jornalismo quanto da literatura, o
início do jornalismo literário (...) pode, com alguma justificativa simbólica, ser datado em 1965, ano em que
(...) A Sangue Frio, de Truman Capote, foi publicado” (Tradução nossa).
23
No entanto, nesta época o excessivo uso destes recursos caiu em descrença diante
dos leitores, que não conseguiam mais identificar o que era criação e o que era realidade.
Sem pretender seguir os excessos praticados pelo New Journalism, a intenção deste caderno
é aliar uma narrativa de profundidade à qualidade do texto jornalístico. Afinal, “o
jornalismo tem sempre, por natureza, um fim que transcende ao meio” (LIMA, 1960, p.
23).
Sobre as contribuições da literatura para o jornalismo, Florence Dravet comenta:
“A literatura é a esperança da comunicação, para o qual é necessário que se adéqüem
não só os futuros jornalistas, mas os leitores. [...] A literatura é capaz de democratizar o
conhecimento na medida em que, enquanto realidade universal e singular, pode
proporcionar a descoberta do outro” (DRAVET apud CASTRO, 2002, p 88).
O investimento no jornalismo literário ou autoral, como também é chamado, vem
revertendo a crise do jornalismo impresso nos Estados Unidos. As revistas The Economist e
The New Yorker, que dão ênfase a esta forma de reportar a realidade, dobraram nos últimos
15 anos o número de vendas e de anúncios, e atualmente garantem 80% dos seus
faturamentos através de assinaturas. Os dados são da pesquisa The State of the News Media
2004: An annual report on American Journalism, do Project for Excellence in Journalism,
da Universidade de Columbia.16
Acreditamos que é possível importar alguns dos recursos apresentados para
subsidiar inclusive a cobertura diária do problema, tratando o texto de forma mais apurada
e criativa, sem, contudo, esquecer da responsabilidade social requerida pela atividade
jornalística. O problema da violência exige uma abordagem complexa que motive o leitor.
Para nós, a conjunção entre as potências informativa e orientadora do jornalismo e o poder
transformador da arte, através da fruição pelo texto – proporcionada pela “reestruturação
cognitiva e emocional que a obra de arte oferece” (LIMA, 1993, p. 107) – poderá contribuir
para o entendimento do fenômeno da violência e para diminuir suas variáveis e crescentes
manifestações.
16
PROJECT FOR EXCELLENCE IN JOURNALISM. The State of the News Media 2004: An annual report
on American Journalism. Columbia University Graduate School of Journalism, 2004. Disponível em:
<http://www.stateofthenewsmedia.org/2004/index.asp>. Acesso em: 10 nov. 2004
24
A violência
O Brasil é um dos países mais violentos do mundo (taxa de 21,72 óbitos por 100 mil
habitantes), perdendo apenas para a Venezuela (34,30/100 mil) em número de mortes por
arma de fogo17. Em Salvador, segundo dados da pesquisa O Rastro da Violência, do Fórum
Comunitário de Combate à Violência, são registradas quatro mortes violentas por dia, das
quais duas são por homicídio18.
Comumente se associa violência “a qualquer ação realizada por qualquer indivíduo
ou grupo, dirigida a outro que resulte em óbito, danos físicos, psicológicos e/ou sociais”
(FRANCO, 1990). Nós iremos trabalhar com a chamada “violência vermelha”, ligada às
agressões físicas tipificadas como crime no nosso Código Penal, como homicídios,
latrocínios, roubos, furtos, lesões corporais, crimes sexuais, seqüestros. Iremos abordar,
portanto, temas que já são tratados hoje nas “páginas policiais” como matéria-prima para a
construção da notícia, porém sob um outro enfoque. A violência também pode ser
caracterizada como “modo de representação de vontades individuais ou de determinado
grupo social” (ESPINHEIRA, 2001, p 11). Nosso trabalho está focado, portanto, neste
“modo de representação de vontades” que fere fisicamente o outro indivíduo ou grupo.
É importante ressaltar que a violência sempre esteve presente na vida em sociedade,
variando apenas o grau e a freqüência com que as regras são desrespeitadas. O filósofo
francês Yves Michaud, buscando compreender, neste processo, o lugar da cultura e dos
instintos, observa que “a cultura veio completar os instintos, mas contribuiu para lhes tornar
inúteis e, finalmente, perigosos” (MICHAUD apud ANGRIMANI, 1995, p. 58). O filósofo
observa que há dois tipos de violência: a violência natural (animal) e a violência “humana”.
“Em oposição aos animais que em sua imediaticidade e na ausência de interditos, não
são nem pacíficos, nem cruéis, mas somente naturais, onde os acessos de furor não são
jamais excessivos; a humanidade, em matéria de violência, complica, inventa, acrescenta
e refina: transgride com uma inventividade furiosa” (Idem, Ibidem).
17
ZANINI, Fábio. Brasil é 2º em mortes por arma de fogo, segundo ranking da Unesco. Folha de S. Paulo,
São Paulo, 06 maio 2005.
18
Ver SANTANA, Francisco dos Santos; KALIL, Maria Eunice Xavier; OLIVEIRA, Zenaide Calazans. O
Rastro da Violência em Salvador II – Mortes de Residentes em Salvador, de 1998 a 2001, 2002.
25
Para o sociólogo baiano Gey Espinheira, as manifestações violentas podem ser
explicadas em sua origem por duas principais vertentes: a violência “necessária” – vista
como meio para alcançar possibilidades de consumo ou melhores condições de vida;
resposta às frustrações do cotidiano; continuação de um comportamento já delinqüente, sem
volta – e a violência “desnecessária” – calcada em “irrupções de intolerância”. “A
marginalidade e exclusão são fontes da violência necessária, enquanto que as diferenças
culturais são a inspiração da violência desnecessária” (ESPINHEIRA, 2001, p 11). Uma
das maneiras de minimizar as manifestações deste fenômeno, afirma o sociólogo, é investir
em políticas públicas “objetivas e próximas”, que amparem e valorizem a crescente legião
de jovens de baixo poder aquisitivo e sem perspectivas – as principais vítimas da violência.
“A pobreza na sociedade contemporânea não é mais virtuosa, como a reconhecia a ética
cristã do catolicismo tradicional [...] hoje vive-se a desvalorização de gente do ‘tipo
comum’, um ser desvalorizado que forma um contingente numeroso e inútil [...] a
excessiva presença leva à desvalorização dessa gente como sujeira”. (ESPINHEIRA,
2001, p. 11)
Esta desvalorização e desumanização também estão refletidas na mídia, quando
condiciona a visibilidade de episódios violentos à classe social dos atores envolvidos. A
violência cotidianamente vivida por populações não-organizadas e marginalizadas,
estabelecidas em locais não considerados nobres, é simplesmente ignorada pela mídia, ou
abordada de maneira preconceituosa e simplista. (CORDEIRO, 2000).
A banalização e exploração da temática pela mídia, ao mesmo tempo em que
espetaculariza o fenômeno acaba por naturalizá-lo, pela repetição com que as manifestações
violentas são apresentadas e pelo modo, muitas vezes inconseqüentes, com que são
tratadas. Como afirma a professora Tânia Cordeiro: “os espaços destinados não são, via de
regra, considerados nobres pela mídia (...) É, pois, neste espaço não privilegiado que vem
sendo tratado um dos maiores problemas da atualidade, responsável pela segunda causa de
morte em Salvador”. E acrescenta: “Normalmente, as fontes não são contrastadas, as
versões não são checadas, o acontecimento é tratado de modo isolado, a ponto de não se
tornarem claras as responsabilidades coletivas e institucionais” (CORDEIRO, 2001, p. 19).
As perguntas em torno de um episódio classificado como violento devem ir além do
“onde” e “quando” o fato ocorreu, proporcionando uma discussão ampla e fundamentada,
26
gerando “sensibilização social a propósito da violência” (CORDEIRO, 2001, p. 21). A
ênfase em fatos isolados impede a discussão contextualizada, gerando a saturação de
emoções, a sensação de impotência e o esquecimento.
Cobertura de fatos violentos
O jornalismo ganhou forma se estruturando, principalmente, em torno das notícias
sobre crimes. As principais matérias dos primeiros jornais franceses e americanos
relatavam acontecimentos criminosos e eram caracterizadas por uma linguagem novelesca e
sensacionalista. Ainda no século XIX, segundo o pesquisador Danilo Agrimani, os jornais
populares mais procurados na França eram os canards, que reportavam notícias de crimes:
“(...) crianças martirizadas ou violadas, parricídios, cadáveres cortados aos pedaços,
queimados” (ANGRIMANI, 1995, p. 19). Com o desenvolvimento dos meios de
comunicação, somado à formalização da prática jornalística, os informativos impressos
passaram a explorar novas editorias, abordando, de forma mais constante, assuntos ligados
à política e à economia, configurando-se como o padrão jornalístico em circulação
atualmente.
A cobertura sobre a temática da violência evoluiu com o New Journalism, tirando
“as histórias policiais de um território de ingenuidade e pequenas charadas em que elas são
confinadas ao longo de todo século XX” (FAERMAN apud FARO, 1999, p.68). Nas
décadas que se seguem ao surgimento do Jornalismo Literário, as páginas policiais
transitam entre o sensacionalismo (com destaque no Brasil para o extinto diário Notícias
Populares19, também conhecido como o jornal “espreme que sai sangue”), a
superficialidade – presente em matérias que abordam fatos isolados, baseadas na
reprodução dos boletins policiais – até a produção de reportagens mais contextualizadas,
presentes nos já citados Jardim da Infâmia e Asas Feridas.
19
Ver CAMPOS JR., et. al. Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias
Populares, 2002.
27
A pesquisa Mídia e Violência – Como os jornais retratam a violência e a Segurança
Pública no Brasil20, divulgada em fevereiro de 2005 pelo Centro de Estudos de Segurança e
Cidadania (CESEC), concluiu que as matérias sobre fatos isolados ainda predominam sobre
as reportagens contextualizadas, apesar de não apresentarem mais um caráter
sensacionalista. A grande maioria dos textos jornalísticos analisados (77%) relata
acontecimentos individualizados. As forças de segurança – corporações policiais, Forças
Armadas e guardas municipais – são as protagonistas do noticiário, sendo o assunto de
40,5% dos textos. Diz a pesquisa:
“O fato é que os resultados levam a acreditar que os jornais tocam a seção de notícias
sobre crime como se ela não estivesse relacionada às respostas que governo e sociedade
terão que criar para superar a situação atual”. (RAMOS, 2005, p. 27).
Apesar da maioria dos textos tratarem de fatos isolados, o estudo verificou que
faltam informações sobre as vítimas e os agressores. Em mais de 85% dos casos a classe
social da vítima é omitida. Para os agressores, este percentual salta para 95%. A cor, tanto
das vítimas quanto dos agressores, não é mencionada em mais de 98% dos textos. A
maioria dos textos analisados não fazia referência a qualquer pesquisa ou estatísticas
(94,7%), não apresentava mais de uma fonte (63,6%) e não aprofundava a discussão sobre
o fenômeno da violência (apenas 5,4% dos textos apresentaram causas; 7,3% soluções e
6,4% conseqüências). A violência foi tratada enquanto fenômeno sócio-cultural-político
somente em 3,3% dos textos e a questão dos direitos humanos foi abordada em apenas
2,4% das matérias e notas analisadas.
“Uma das críticas mais comuns à polícia é que ela corre atrás do crime, sem capacidade
de preveni-lo com planejamento e inteligência. A cobertura jornalística, mesmo dos
melhores jornais do país, padece, em parte, dos mesmos problemas. Corre atrás da
notícia do crime já ocorrido, ou das ações policiais já executadas, mas tem pouca
iniciativa e usa timidamente sua enorme capacidade para pautar um debate público
consistente sobre o setor”. (Idem, Ibidem, p. 40).
20
A pesquisa analisou 2.514 textos jornalísticos veiculados nos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S.
Paulo, Agora SP, O Globo, Jornal do Brasil, O Dia, O Estado de Minas, Diário da Tarde e Hoje em Dia, ao
longo de 35 dias distribuídos entre maio e setembro de 2004. Disponível em:
<http://www.ucamcesec.com.br/arquivos/home/Midia_violencia_rel.zip>. Acesso em: 31 maio 2005.
28
De acordo com a pesquisadora Rosa Nívea Pedroso, o sensacionalismo perdeu
espaço, mas ainda se mantém nos jornais diários ditos “populares”21, e se caracteriza pela
informação apelativa, grosseira, desproporcional e não contextualizada. Elementos
insignificantes, ambíguos e supérfluos são destacados, em matérias que giram em torno do
sexo e da violência. De acordo com a pesquisadora, que analisou o jornal sensacionalista
Luta – diário carioca que circulou com relativo sucesso de vendas na década de 1980 –, a
construção do discurso sedutor nestes jornais é marcada pela apresentação do “elementar
em forma espetacular e descartável”, detendo-se “na sensação que o fato pode provocar em
detrimento da informação que o fato pode oferecer” (PEDROSO, 2001, p. 48). O estudo
também alerta para o modo como a morte de “marginais” é tratada nestes periódicos,
“configurando-se como uma solução mágica para resolver uma contradição social que não
tem lógica aparentemente, porque não interessa ao jornal sensacionalista analisar o
fenômeno da marginalidade” (Idem, Ibidem, p. 114, grifo nosso).
Salvador
Seguindo a tendência da superficialidade estão os jornais baianos A Tarde, Tribuna
da Bahia e Correio da Bahia, que possuem uma editoria para tratar dos eventos ligados à
violência – denominadas Polícia, nos dois primeiros e Segurança, no último. As matérias
desta seção se atêm a explorar, em sua maioria, fatos específicos. Além disso, apostam
numa linguagem padrão e pobre, muitas vezes se detendo na descrição dos acontecimentos
criminosos – o que a nosso ver não contribui para a reflexão sobre o problema. Nos jornais
A Tarde e Tribuna da Bahia, o próprio nome da editoria já revela a superficialidade com
que o tema é tratado, como se a violência fosse um problema exclusivo da Polícia, além de
oficializar a instituição como única fonte legítima.
21
A pesquisadora chama atenção para o fato de que a imprensa popular não existe no Brasil tal como é
referida, existindo apenas um segmento popular na grande imprensa que se realiza, principalmente, na forma
do jornalismo sensacionalista. O jornalismo popular só se realizaria, em termos, como segmento popular da
imprensa alternativa política (PEDROSO, 2001, p. 46). Os jornais destinados à classe baixa (classe C para
baixo), que se sustentam com a venda avulsa de exemplares, não estão preocupados em traduzir “as condições
de vida e de cultura das classes subalternas” (Idem, Ibidem, p. 45)
29
Os pesquisadores Andréa Borges Miranda e Jean Wyllys analisaram 22 as páginas
policiais dos jornais A Tarde e Correio da Bahia, respectivamente, e chegaram à mesma
conclusão: constataram que a cobertura destes veículos privilegia os crimes cujas vítimas
pertencem às classes média e alta, se aprofundando – na maioria dos casos – apenas nestes
fatos, que geralmente geram suítes, perfis, pluralidade de fontes e investigação sobre as
causas macro dos crimes.
“Quando o local de consumação é um bairro pobre, periférico, o crime (...) é banalizado,
tratado superficialmente. Tal banalização torna-se evidente em matérias do jornal A
Tarde que aglutinam diversos crimes ocorridos em bairros diferentes das cidades, (...)
negligenciando-se as particularidades de cada crime. (...) Simplesmente são divulgados
os nomes dos envolvidos (quando são conhecidos) e o local da consumação da conduta
delituosa, de forma descontextualizada e leviana. Não são feitos questionamentos acerca
dos fatores que desencadeiam esta violência tão corriqueira, (...) o que impera é um tom
de tolerância e de normalidade com relação aos crimes ocorridos”. (MIRANDA, 2003,
p. 71)
A pesquisadora Tânia Cordeiro corrobora com a análise:
“Ao privilegiar o presente como referência temporal, libera a agenda midiática do fardo
das explicações (o passado) e das especulações quanto às alternativas de solução (o
futuro). Essa espécie de relógio parado reproduz um padrão discursivo autônomo, que é
preenchido por um estoque de violências produzido regularmente, oferecendo garantia e
baixo custo aos produtos midiáticos alimentados pela excessiva oferta de eventos
violentos” (CORDEIRO, 2000, p.36)
A maioria dos crimes ocorridos na cidade, portanto, não são tratados de forma
adequada. Segundo o ex-jornalista de Segurança do Correio da Bahia, Mário Veronese,
entrevistado por Jean Wyllys, “os repórteres só devem dar prioridade a homicídios cujas
vítimas sejam moradores de áreas pobres da cidade quando o crime for chocante; quando
não, eles viram nota para encher página” (WYLLYS, 2000, p. 30, grifo nosso).
O único homicídio destacado na capa do Correio da Bahia durante o período
pesquisado por Wyllys foi a morte de uma advogada (edição do dia 08/11/00). Nesta
matéria, para o autor, se percebe “uma melhor apuração do episódio por parte do repórter
22
A pesquisa A culpa dos meios, de Andréa Borges Miranda, analisou as páginas policiais de A Tarde em
setembro, outubro e novembro de 2002, documentando as “ilegalidades” cometidas pelo jornal. Jean Wyllys,
na pesquisa intitulada (À) Margem da Vida: o criminoso e o lugar da prática do crime no Correio da Bahia,
analisou as páginas de Segurança do Correio da Bahia em novembro de 2000, investigando a “imagem do
criminoso e do lugar da prática da violência construída pelo jornal no imaginário de seus leitores”.
30
(...) e que reflete um maior empenho dos agentes de segurança pública em desvendar os
mistérios que envolvem o crime e em identificar os culpados. Outro reflexo desse empenho
é o fato de o caso ganhar suítes nos dias 09, 10 e 11” (Idem, Ibidem, p 30). O mesmo
tratamento só foi dado a outros três casos, todos envolvendo vítimas brancas e de classe
média.
O assassinato do casal de adolescentes Alberto Júnior e Júlia Ferraz, mortos em
Jacuípe-BA em 21/11/2000, foi um destes casos. Nesta mesma edição, dois jovens pobres e
negros foram executados, um pelo roubo de uma bicicleta. Estes fatos renderam apenas
notas na coluna Blitz (Idem, Ibidem, p. 40). O episódio do casal Alberto e Júlia gerou suítes
até 24/11/2000. Nesta edição, o Correio da Bahia relegou à página par – menos valorizada
nos jornais –, e sem o devido destaque, o assassinato de um jovem algemado, com mais de
15 tiros, em Pituaçu. O jornal nem ao menos apontou o fato do uso de algemas ser de uso
exclusivo das polícias civil e militar. (Idem, Ibidem, p. 42). O autor também chama atenção
para a manchete veiculada pela Tribuna da Bahia neste dia, intitulada O que merecem os
assassinos dos nossos adolescentes? (Idem, Ibidem, p. 41). O pesquisador interpreta esta
manchete como um incentivo à pena de morte.
Para entender o porquê desta prática, Wyllys acredita na hipótese – levantada pelo
psicanalista Jurandir Freire Costa – de uma certa tendência da cultura burguesa de só achar
digna de sofrimento coletivo a morte de pessoas brancas, ricas e bem sucedidas.
“A vida deles deve sensibilizar a todos. O sofrimento deles deve nos fazer chorar. Se
algo [lhes] acontece, devemos sair às ruas indignados porque eles, os verdadeiros
sujeitos morais, foram atingidos na sua vida e no seu sofrimento (...), são a encarnação
da verdadeira essência da ética da humanidade” (COSTA apud WYLLYS, 1996)
No entanto, a nosso ver, esta prática também pode ser explicada pela relação dos
jornalistas desta editoria com os policiais, principal fonte da cobertura. Wyllys conclui em
seu trabalho que “os autos de prisão em flagrante e os boletins de ocorrência contêm as
principais, se não as únicas, informações que vão compor as matérias das páginas de
segurança do Correio da Bahia” (Idem, Ibidem, p. 44). Como nos crimes em que vítimas
pobres estão envolvidas há um menor empenho da polícia na resolução dos casos – e, num
ciclo vicioso, menos cobrança da mídia e da sociedade –, os jornalistas dispõem de escassos
dados para realizar as matérias. “A realidade é que a morte do pobre, marginalizado,
31
envolvido ou não em crimes, tem sempre o desinteresse da polícia, o que nos deixa sem
informações. Estas ocorrências costumam ter de duas a três linhas, constando nome,
endereço, a forma como foi morto e o local onde a morte aconteceu”, diz a repórter Carol
Fontes, entrevistada pelo autor (Idem, Ibidem, p. 30). O jornalista Caco Barcellos, no livro
Rota 66 – A Polícia que Mata, deu amplas mostras de como é perigoso crer cegamente nas
versões apresentadas pela polícia.
Para realizarmos este produto, entrevistamos o jornalista Deodato Alcântara23,
repórter policial do jornal A Tarde. Alcântara reafirmou o maior interesse dos jornais pelos
casos que envolvem pessoas de maior poder aquisitivo, relacionando o fato a um maior
empenho por parte da polícia.
“A prioridade é obviamente a classe média. A tendência é deixar de lado o crime menor,
mais comum. Vamos imaginar que um jovem pobre foi assassinado e Bell Marques
[cantor de axé] foi assaltado. Os casos estão disputando espaço no jornal. É claro que o
Bell Marques vai entrar. A polícia se empenha mais em resolver os casos que envolvem
famosos ou pessoas de classe média. Amanhã os assaltantes de Bell já estariam presos.
Esses casos dão mais visibilidade à ação policial”.
Outro ponto negativo detectado pelo pesquisador Jean Wyllys foi a naturalização da
morte de suspeitos de atos criminosos, através de justificativas e explicações do jornal.
Estas matérias, ainda segundo Wyllys, fazem recorrência mítica ao tipo “bandido bom é
bandido morto”. “As fontes recrutadas servem apenas para inflar o papel maquiavélico das
vítimas como forma de justificar o extermínio” (WYLLYS, 2000, p. 27).
Outra deficiência das “páginas policiais” é a constante presença de referências
pejorativas, condenando moralmente e criminalmente, de maneira precipitada, os
personagens dos acontecimentos violentos. A pesquisadora Andréa Borges Miranda
denomina este fenômeno24 de “Juizite Midiática”, e chama atenção para a recorrência da
prática desta infração.
23
ALCÂNTARA, Deodato. Entrevista concedida a Tiago Galvão e Tatiana Mendonça. Salvador, 18 mar.
2005
24
O pesquisador Danilo Angrimani, no livro Espreme que sai sangue – Um estudo do sensacionalismo na
imprensa, atribui este posicionamento “justiceiro” da mídia – principalmente dos jornais sensacionalistas – a
uma necessidade destes veículos de funcionarem como um “superego acessório”, punindo moralmente os
transgressores da ordem estabelecida.
32
“Com este tipo de conduta, a imprensa vem ocupando ilegitimamente o lugar e funções
destinadas constitucionalmente ao Ministério Público e ao Poder Judiciário (entretanto,
não o faz com imparcialidade e independência) e tornou-se a instituição que,
concomitantemente, acusa (função do Promotor de Justiça, que é um órgão do Ministério
Público), julga e condena (funções da competência dos juizes) as pessoas” (MIRANDA,
2003, p. 53)
Como conseqüência, o cenário montado pelas “páginas policiais” na mídia impressa
baiana acaba por cumprir objetivos distorcidos e equivocados, incentivando a não discussão
desta problemática. Ao se prender a fatos violentos não contextualizados, como se fosse
uma “vitrine de atrocidades”, os jornais não oferecem subsídios para pensar o problema de
forma fundamentada. Estigmatizar os atores deste tipo de acontecimentos, ou mesmo
localidades inteiras, não se reflete na diminuição da violência, além de estimular o
pensamento simplista e maniqueísta. Este modelo é exemplificado no depoimento do
repórter da editoria policial José Castelo: “O esquema clássico do noticiário policial me
pede uma narrativa reta, em que haja uma vítima, um assassino monstruoso e uma viúva
infeliz” (CASTELO, 1997). Acreditamos que é possível e necessário tratar deste tema de
modo mais conseqüente.
As fotografias publicadas também retratam o perfil editorial da imprensa baiana.
Este caderno, no caso específico das fotografias, irá abdicar, por exemplo, da exposição
gratuita de imagens chocantes que retratem cenários de crimes e cadáveres, desvinculadas
do contexto em que a foto seja um elemento importante para a apresentação e significação
das reportagens. Como aponta o pesquisador Edísio Ferreira Júnior:
“A banalização da morte pela repetição da sua presença, tornando todos os corpos
maculados como corpos objetos, torna-a desprovida do seu fenômeno gerador. Levando
a um descompromisso, excetuando-se o mercantil, entre o observador e o morto que se
consome. O corpo sentido visualmente na fotografia não deixa de ser objeto, mas a
experiência passada é desprovida do choque possível por uma expectativa de consumo.
Deixa-se de sentir a força propulsora da morte pelo medo da desordem. Assim,
adestram-se os sentidos que tornam os indivíduos dóceis à espera da imagem de mais um
corpo pasteurizado. Tornam os indivíduos sensíveis a foto una, que é servida
abruptamente aos sentidos, e insensíveis aos componentes referenciais que a
sensibilizam” (JÚNIOR, 2000).
Contudo, é importante ressaltar que a cobertura da mídia impressa baiana em
relação à esta temática vem melhorando, como detectou a pesquisa Infância na Mídia – A
33
criança e o Adolescente no olhar da imprensa brasileira25, da Agência de Notícias dos
Direitos da Infância (ANDI). Realizada em 2002-2003, a pesquisa analisa apenas as
matérias relacionadas à infância e adolescência. O jornal A Tarde, que em 2001 ocupava a
27ª posição, em 2002 subiu para a segunda melhor cobertura da temática em todo o país. O
Correio da Bahia saltou da 41ª a 32ª posição, enquanto o Tribuna da Bahia teve o menor
crescimento: passou do 44º ao 43º lugar. No entanto, é preciso esclarecer que este
incremento é apenas comparativo. O primeiro colocado na pesquisa – a Gazeta do Povo, do
Paraná – obteve a média 48,96% na análise qualitativa. Segundo a ANDI, a melhor
cobertura sobre violência, quando relacionada a crianças e adolescentes, ainda está, em
todo o país, 50% abaixo do que a Agência considera “socialmente responsável”. Uma das
causas desta avaliação é o fato da polícia continuar sendo a fonte mais ouvida pelos
jornalistas.
Diagramação
As reportagens geralmente apresentam textos extensos, o que dificulta a
diagramação. Portanto, o valor da linguagem visual contida no projeto gráfico é
indispensável para uma leitura rápida e agradável26. Como alternativa para os blocos de
textos, investimos na técnica dos espaços brancos, para estimular a leveza nas páginas.
Como afirma o pesquisador e diagramador Rafael Souza Silva:
“O preto sobre o branco exprime um efeito positivo (...) É a forma mais convencional
utilizada na reprodução das mensagens, pela suavidade de sua forma plástica,
caracterizada pelo espaço em branco na impressão tipográfica, com excelentes resultados
de legibilidade” (SILVA, 1983, p. 32).
No que se refere à disposição dos textos nas páginas, optamos pelo modelo
assimétrico, que utiliza coordenadas mistas – as colunas e blocos de texto podem ser
diagramadas de forma horizontal e vertical, “provocando grande valorização estética, com a
utilização do espaço em branco de forma adequada.” (Idem, Ibidem, p.51)
25
26
Disponível em: < http://www.andi.org.br/_pdfs/Relatorio_IM.pdf>. Acesso em: 22 set. 2004.
Ver Projeto Gráfico (Anexo II)
34
1.2) Projeto Editorial e Projeto Gráfico
Os professores Linda Rubim e Elias Machado alertaram para a necessidade de se
estabelecer as características editoriais e gráficas do produto, antecedendo a produção
propriamente dita do caderno. Os Projetos Editorial e Gráfico foram construídos
concomitantemente. No Projeto Editorial (Anexo II), estão estabelecidas a Política
Editorial; Objetivo da publicação; Características Editoriais (periodicidade, público-alvo,
tiragem, formato, linguagem, temas abordados, justificativa do nome); Organização das
Páginas (definição das editorias e número de textos jornalísticos propostos – 1 editorial, 3
reportagens, 1 entrevista, 1 coluna opinativa); o papel da foto, diagramação e infográficos;
Captação de recursos (orçamento, anunciantes, distribuição).
O primeiro nome pensado para a publicação foi Vida Por um conto, para fazer
alusão à temática da publicação (violência) e ao estilo adotado (Jornalismo Literário), já
que a proposta é contar histórias de vida entremeadas pela violência. O orientador achou
que o nome do caderno deveria ser mais aberto, conciso e suave, para não afastar os
leitores. Como a recomendação foi julgada pertinente, optamos por reduzir o nome para
Por um conto, acatado e elogiado pelo orientador.
No Projeto Gráfico (Anexo II) estão definidos: o formato do caderno (com
especificações sobre as margens das páginas); as cores privilegiadas na publicação;
tipologia utilizada; formatação da capa, box, coluna e contra-capa.
No primeiro esboço do Projeto Gráfico, apenas uma página estava diagramada. O
orientador sugeriu que diagramássemos todas as páginas da publicação, que deveria ser
impressa em tamanho tablóide ou reduzido, para que o Projeto fosse melhor avaliado. No
total foram impressas três versões do Projeto Gráfico, com todas as páginas diagramadas,
seguindo as sugestões de ajuste dadas pelo orientador. As recomendações foram analisadas
e consideradas pertinentes, pela evidente melhora que proporcionaram à organização das
páginas.
Na primeira versão (arquivo Versão1.pdf, em CD), o orientador sugeriu que:
déssemos mais destaque ao nome da publicação na capa, aumentássemos o número de
chamadas e o contraste entre a manchete e a foto; reorganizássemos a página 2, para que
houvesse mais harmonia entre os elementos; suavizássemos a página da entrevista;
35
aumentássemos o tamanho das fotos, que passaram a ocupar até três colunas;
diminuíssemos e suavizássemos a moldura das fotos; reduzíssemos os olhos; inseríssemos
elementos como olhos e imagens a cada duas colunas de texto, para dinamizar a página;
suavizássemos os filetes dos boxes e colunas; determinássemos o formato das matérias
conjugadas e refizéssemos a contra-capa.
Na segunda versão (arquivo Versão2.pdf, em CD), outras mudanças foram
aconselhadas, tais como: explorar melhor o título da manchete dando maior mobilidade à
capa e adicionar mais uma chamada, mantendo três destaques nesta página; utilizar os
subtítulos em todas as reportagens – o que nos forçou a re-configurar a posição de alguns
títulos. Mais especificamente, a página de opinião foi sensivelmente modificada depois de
ser criticada pela falta de movimento. A solução que encontramos foi abrir mão do poema
que iria compor esta página, expandir o editorial e reorganizar o índice com fotos de
tamanhos diferentes que passaram a descer pela lateral direita, perdendo assim a monotonia
linear da seqüência fotográfica. O expediente também foi reestruturado para abarcar um
conteúdo maior, sem “pesar” a página, uma vez que optamos por usar uma retícula laranja
determinando a seção. A página da entrevista também sofreu modificações, com o objetivo
de torná-la ainda mais dinâmica: a foto foi centrada dentro do texto, fazendo com que a
apresentação do entrevistado ocupasse quatro colunas. Outra modificação importante se
refere aos infográficos que deram mais movimento às páginas. A coluna presente na página
11 ganhou créditos e uma foto do colunista. Além disso, uma das matérias conjugadas da
página 10 foi re-diagramada para que o texto ocupasse as quatro colunas na base da página,
favorecendo um formato assimétrico. Algumas fotos foram deslocadas para não
concorrerem com as que estavam na página seguinte. A contra-capa se tornou um desafio,
já que novamente não foi aprovada pelo orientador, que questionou a finalidade da seção.
Mudamos radicalmente a página, investindo em quadros azuis assimétricos que demarcam
o local das imagens e das frases, estabelecendo finalmente uma harmonia para a contracapa.
Na terceira e última versão (arquivo Versão3.pdf, em CD), os ajustes finais foram
estritamente de revisão: estabelecer um tamanho padrão para os olhos das reportagens, criar
mais espaços brancos entre infográficos e texto, além de torna-los mais inventivos; repensar
o tamanho das legendas; e dar mais destaque aos créditos das fotos, sem comprometer a
36
imagem. Nesta etapa, em que definimos as características editoriais e gráficas do produto,
tivemos que trabalhar com duas possibilidades: a de que o jornal fosse encartado em um
diário de Salvador (Correio da Bahia, A Tarde), ou que o caderno fosse impresso com o
auxílio de patrocínio.
2) Elaboração das pautas e reportagens
A produção de conteúdo para o caderno começou com a elaboração das pautas. Os
realizadores sugeriram temas para cada texto jornalístico previsto no caderno. Para as
reportagens foram definidas três pautas: a reinserção social de egressos do sistema
penitenciário de Salvador; o treinamento de policiais militares e civis na Bahia; o
funcionamento do Núcleo de Apoio Abrace a Vida, do Fórum Comunitário de Combate à
Violência. As pautas seguem uma lógica que só foi vislumbrada posteriormente por nós:
falamos do treinamento de policiais, fundamentais para a prevenção da violência; do
funcionamento do Núcleo Abrace a Vida, que trabalha com vítimas de violência; e a
situação dos presos e egressos, agressores punidos pelo sistema prisional do país. As pautas
foram consideradas boas pelo orientador, com a recomendação de que não deveríamos
deixar a “vida passar ao largo do caderno”. O professor também sugeriu que a reportagem
sobre os egressos incluísse a vida dos presos nas penitenciárias da Bahia - recomendação
que foi aceita pela dupla.
Para a entrevista, foram sugeridas as seguintes personalidades: Edson Sá Rocha,
secretário de Segurança Pública; Isabel Alice, titular da Delegacia de Atendimento à
Mulher; Norma Angélica Cavalcanti, promotora da área criminal do Ministério Público;
Gey Espinheira, sociólogo e pesquisador na área de violência. O orientador disse que trazer
na entrevista que abre o caderno uma fonte oficial, como o secretário Edson Rocha,
sinalizaria que o jornal é independente, e por isso não vê problemas em abrir as portas para
as posições do Governo. No entanto, a escolha poderia ser mal vista por vítimas da
violência policial, por exemplo, associando a publicação ao chamado “jornalismo chapabranca”. A segunda sugestão (a delegada Isabel Alice) foi considerada “politicamente
correta” pelo orientador, mas como sendo uma pauta de baixa repercussão. A sugestão de
entrevista com a promotora Norma Angélica foi considerada como uma pauta de médio
37
impacto, que seria bem vista pelas organizações não-governamentais e pelas vítimas da
violência em Salvador, e que sinalizaria uma maior independência por parte do jornal. A
entrevista com o sociólogo Gey Espinheira foi desaconselhada, por ser uma personalidade
que já encontra muito espaço na mídia baiana. Analisando as recomendações, optamos por
entrevistar a promotora Norma Angélica, para promover pluralidade ao caderno e dar voz a
todos os órgãos que compõem o sistema de Segurança Pública, já que nas reportagens
falamos sobre o treinamento de policiais (responsabilidade do Poder Executivo) e
Reinserção social de presos e egressos (vinculada, através da Vara de Execuções Penais, ao
Poder Judiciário).
Para a coluna opinativa do jornal, foram sugeridos os nomes do jornalista Caco
Barcellos, para falar sobre mídia e violência; Ruy Pavan, representante da Fundo das
Nações Unidas para a Infância (UNICEF) na Bahia, para falar sobre violência contra
crianças e adolescentes; Ana Penido, diretora da ONG Cipó Comunicação Interativa, para
falar sobre a prevenção da violência através da arte-educação. As pautas foram
consideradas boas pelo orientador, que sugeriu que priorizássemos o contato com Caco
Barcellos. Através da intermediação de uma ex-jornalista da Rede Globo, entramos em
contato por carta, na qual solicitamos a colaboração do jornalista, que aceitou escrever a
coluna.
A contra-capa da publicação, intitulada Fragmentos, não teve nenhuma pauta
definida. Nossa intenção era reunir neste espaço fotos e pequenas notas obtidas na produção
das outras reportagens.
Somente uma das pautas teve que ser redirecionada. Pretendíamos falar sobre o
funcionamento do Núcleo de Apoio Abrace a Vida, do Fórum Comunitário de Combate à
Violência, que apóia familiares de vítimas de violência nas comunidades do Alto das
Pombas, Calabar, Engenho Velho da Federação, Nordeste de Amaralina. Nosso propósito
era contar, através do trabalho do Núcleo, as histórias das vítimas de violência em
Salvador, abordando o fato dos jovens serem a parcela da população mais atingida pelo
problema. O trabalho do Grupo pela Vida, do Centro de Defesa da Criança e do
Adolescente Yves de Roussan (CEDECA) – que reúne pais de jovens assassinados –
também seria retratado. Por fim, trataríamos do modo como os pais educam seus filhos em
bairros violentos, lidando com as variadas tentações e escassas oportunidades. Visitando o
38
Núcleo da região do Nordeste de Amaralina, percebemos que não seria possível centrar a
reportagem na instituição, que ainda estava num estado incipiente de funcionamento, sem
promover atendimento sistemático às vítimas. Optamos por redirecionar a pauta para um
dos aspectos que já queríamos tratar: o modo como mães criam seus filhos em bairros
violentos.
Para realizar esta reportagem, conversamos com mães moradoras do Nordeste de
Amaralina e Engenho Velho da Federação, dois dos bairros que registram os maiores
índices de homicídios em Salvador. Na visita aos dois locais, percebemos que os principais
problemas de bairros pobres e violentos são comuns. Pesquisas mostram que em regiões
onde há maior desigualdade social – como é o caso destas regiões, que estão localizados
entre áreas nobres de Salvador – a violência se manifesta de maneira mais intensa. Optamos
por não visitar bairros mais distantes (periféricos) por não ter qualquer contato com as
associações de moradores destes locais e por inferir, através dos relatos, que os problemas
mais graves tendem a se repetir, apesar de possuírem suas particularidades. No Nordeste de
Amaralina e Engenho Velho da Federação, conversamos com as mães nas associações de
moradores dos bairros, o que foi bastante enriquecedor, já que algumas das mulheres
entrevistadas eram líderes comunitárias e tinham, portanto, uma visão mais aprofundada
sobre as dificuldades comuns da criação de crianças e adolescentes. Depois que reunimos
as entrevistas das mães, resolvemos conversar também com os adolescentes, para saber
como é ser criado em áreas violentas. Reunimos 15 jovens, de 13 a 21 anos, na Associação
de Moradores de Amaralina, num sábado. Eles participavam de uma aula de teatro na
Associação e gentilmente se dispuseram a conversar conosco, ocupando o horário do curso.
A reportagem esteve sujeita a algumas limitações, já que era impossível transitar
livremente pelos bairros, escolhendo aleatoriamente mães para serem entrevistadas. Existe
nestas regiões uma demarcação invisível para quem vem de fora – as ruas têm “dono”,
sendo dominadas por traficantes rivais. Além disso, é grande o medo dos moradores em
falar sobre a violência, temendo represálias.
A maioria das pessoas que entrevistamos participavam de alguma atividade na
Associação de Moradores. Depois de finalizadas as entrevistas, reunimos material sobre o
contexto social e econômico dos bairros e passamos à etapa de redigir a reportagem. O
grande volume de informação e depoimentos tornou trabalhosa a organização do texto. O
39
primeiro formato da reportagem – mosaico de textos separados contando a experiência de
diversas mães, com os depoimentos dos adolescentes ao fim – não foi aceito pelo
orientador, que sugeriu que as histórias fossem reunidas pelas suas proximidades, e que a
reportagem fosse estruturada concentrando as diferentes estratégias usadas pelas mães. A
disposição do texto foi modificada e aprovada pelo orientador.
Como já tínhamos iniciado as conversas com o CEDECA, que mantém o Grupo
pela Vida, decidimos fazer outra reportagem contando as histórias dos pais que fazem parte
do Grupo e alertando para o fato dos jovens serem as principais vítimas de homicídios na
cidade. No entanto, não houve tempo hábil para que a instituição nos fornecesse dados
sobre o número de pais que freqüentam o grupo, perfil das vítimas, perfil dos agressores,
número de casos que já tinham sido julgados pela Justiça. Fomos a uma manifestação
destes pais em frente ao Fórum Rui Barbosa, no centro de Salvador, onde conversamos com
alguns deles. Para manter a pluralidade do caderno, com o tempo de que dispúnhamos,
optamos por investir nas pautas que já tinham sido previamente estabelecidas. As
entrevistas com os participantes do Grupo pela Vida foram utilizadas na reportagem sobre a
criação de filhos em bairros violentos, já que o medo de que seus filhos morram
precocemente acaba influenciando na criação e é um fato com que estes pais têm que lidar
de maneira muito mais concreta do que aqueles que moram em bairros nobres de Salvador.
A reportagem sobre a ressocialização dos egressos do sistema prisional baiano foi a
primeira a ser finalizada. Iniciamos as entrevistas com o antropólogo Milton Júlio de
Carvalho Filho, que no ano passado concluiu a pesquisa Depois dos Cárceres: Tentativas
de Emancipação. O pesquisador falou sobre as principais conclusões da tese e recomendou
diversas fontes e órgãos que poderíamos contatar para enriquecer a reportagem. Também se
prontificou a intermediar entrevistas com egressos de São Paulo, que responde por 40% do
total de presos no país. Depois fomos à sede do Conselho Penitenciário, onde funciona o
Patronato de Presos e Egressos. Assistimos a uma reunião do Conselho sobre indulto,
comutação e denúncia de corrupção e violência nas prisões. Também conversamos com a
diretora do Patronato, Mônica Alves. Ela se ofereceu para nos acompanhar em uma visita a
Colônia Lafayete Coutinho e Penitenciária Lemos Brito, para acompanharmos o trabalho
desenvolvido pelos estagiários do Patronato. Na Colônia, conversamos com alguns presos e
visitamos a escola e o local onde alguns deles trabalham. A visita prevista à Penitencia
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Lemos Brito não foi concretizada, por mudanças de planos nas atividades do Patronato.
Como a visita sem a intermediação dos membros do órgão não foi julgada produtiva,
decidimos priorizar as entrevistas com os egressos, que são o foco da reportagem. Através
do padre Philip Cromheecke, da Pastoral Carcerária, entramos em contato com alguns
deles. Apenas dois se propuseram a dar entrevista para o jornal. A desconfiança e o medo
de serem reconhecidos ou sofrerem discriminação foram algumas das causas de recusa.
Também conversamos com Celina Mattos, responsável pelo programa de ressocialização
de presos do governo estadual.
Outro problema enfrentado na realização desta reportagem foi a dificuldade em se
conseguir dados. Queríamos saber quantas pessoas saíam diariamente das prisões baianas.
A Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Estado da Bahia (SJDH), responsável pela
administração das unidades prisionais, alegou não ter os dados. Para conseguir a
informação, nos dirigimos à Vara de Execuções Penais, responsável pelo acompanhamento
dos liberados condicionais. Os dados não são informatizados e tivemos que somar o
número de presos que tinham sido liberados durante todas audiências realizadas entre 2004
e 2005. Outra informação bastante solicitada por nós foi o custo mensal dos presos na
Bahia. A resistência para divulgar a informação foi grande e tivemos que ir pessoalmente à
sede da SJDH, no Centro Administrativo da Bahia, para conseguir este único dado. A
reportagem foi finalizada e entregue ao orientador, que aprovou o texto e a organização das
informações. O professor alertou para o fato de que a reportagem estava muito centrada nas
contribuições do pesquisador Milton Júlio e pediu para que conversássemos com mais expresos. Em relação ao texto, o orientador fez pequenas modificações. Entrevistamos mais
dois egressos para que a reportagem não ficasse tão voltada à tese do antropólogo.
A reportagem sobre os cursos de formação de policiais civis e militares foi de longe
a que apresentou maiores problemas para a execução. Basearíamos a reportagem sobre o
treinamento de PMs numa pesquisa da psicóloga Conceição Casulari, divulgada em 2002,
intitulada Policiamento e Violência Urbana. Na pauta, o orientador já tinha alertado para o
fato da pesquisa ser antiga, sendo necessário, portanto, avaliar o que havia mudado no
treinamento de PMs nestes três anos. O primeiro passo foi procurar a Assessoria de
Comunicação da PM. A corporação é rigidamente hierarquizada e é preciso que haja a
intermediação da ASCOM para que outros órgãos (como a Academia de Polícia Militar) ou
41
policiais falem em nome da Corporação. Durante um mês solicitamos, insistentemente, uma
entrevista com o Coronel Sigfried Frazão, responsável pelo Departamento de Comunicação
Social da PM. Por fim, o assessor do Coronel pediu para que enviássemos as perguntas por
e-mail, para serem “despachadas”. Argumentamos que a entrevista não deveria ser
realizada nestas condições, porque impedia a réplica por parte dos repórteres, mas, por fim,
aceitamos a situação. Procuramos então a Escola de Formação e Aperfeiçoamento de
Praças, com a intermediação da ASCOM. O diretor da Escola, Cel Péricles de Oliveira,
disse que não era a melhor pessoa para falar sobre a formação dos policiais e pediu que
procurássemos o responsável pela Unidade de Desenvolvimento Educacional, Capitão
Moraes. Logo no começo da entrevista, o Capitão disse que havia perguntas relacionadas a
outros setores da Escola e que seria melhor que fizéssemos um ofício com o questionário
em anexo, para que cada setor respondesse por escrito. Novamente argumentamos com o
Capitão, que se negou inclusive a responder às perguntas relativas à sua “área”. Para tirar
fotos da Escola, também era necessário fazer a requisição por escrito. Na falta de dados
mais recentes e ausência de respostas por parte das autoridades militares em tempo hábil,
optamos por falar nesta edição exclusivamente sobre o treinamento de policiais civis. A
reportagem relacionada aos policiais militares será finalizada e deverá integrar,
hipoteticamente, uma futura edição do caderno.
Não houve resistência em entrevistar os responsáveis pela formação de policiais
civis. Arriscamos uma visita à Academia de Polícia Civil da Bahia (Acadepol), sem ter
realizado nenhum contato prévio por telefone, e fomos recebidos prontamente pelo diretor
da instituição, Antônio Medrado, e pela coordenadora pedagógica da entidade, Eliena
Cidade. Como não encontramos nenhuma pesquisa sobre a formação de policiais civis, nem
especialistas que pudessem falar sobre a qualidade destes cursos, tivemos que procurar as
grades curriculares e a carga horária de outras academias de polícia civil do país, para ter
um critério “material” de comparação. Esta foi uma etapa trabalhosa do processo de
pesquisa, já que os currículos das academias do país não são padronizados e nem todas
possuem páginas virtuais com informações sobre os cursos de formação que oferecem. A
pesquisa na Internet também foi utilizada para conseguirmos a informação de quantos
estados disponibilizam cursos integrados para policiais militares e civis. Para confirmar os
dados obtidos na web, entramos em contato com a Secretaria Nacional de Segurança
42
Pública (Senasp), por e-mail, mas não obtivemos resposta. A checagem da relação dos
estados que oferecem formação unificada foi obtida por intermédio da jornalista Fernanda
Argolo, que procurou pessoalmente a assessoria de Comunicação da Senasp.
Para fundamentar a reportagem, também era necessário conversar com policiais
civis, que avaliariam as qualidades e deficiências dos cursos de formação. O primeiro passo
foi entrevistar o diretor de Comunicação do Sindicato dos Policiais Civis, entidade
representativa da classe, Moisés Almeida. Era preciso também falar com outros policiais –
investigadores e delegados. Um dos policiais entrevistados, coincidentemente, ensina
“Investigação e Criminalística” na Acadepol há mais de 10 anos. Como as declarações dos
investigadores e delegados foram bastante contraditórias, especialmente em relação ao
treinamento com armas, decidimos entrevistar mais policiais civis e instrutores de tiro da
Acadepol. Um problema em relação à reportagem, principalmente no que se refere às fotos,
foi o fato de que não havia cursos na Academia durante o período em que realizamos a
reportagem. Quando estávamos finalizando o caderno, ligamos para a Acadepol e
soubemos que um curso para agentes policiais havia começado. Apenas uma única turma
estava em aula, da qual fizemos as fotos.
A opção por entrevistar a promotora Norma Angélica se consolidou quando
soubemos que ela havia sido eleita para presidir a Associação de Promotores do Ministério
Público. A promotora coordenou, durante os últimos três anos, o Centro de Apoio às
Promotorias Criminais (Caocrim), além de atuar na Vara de Tóxicos e Entorpecentes. A
entrevista foi realizada de maneira um pouco conturbada, porque a promotora não foi
avisada pela assessoria de imprensa do caráter do encontro, pensando que as “três ou
quatro” perguntas se refeririam apenas à posse na Associação de Promotores. Ela estava
atrasada para um compromisso, mas, ainda assim, nos atendeu de maneira satisfatória,
pedindo para que retornássemos se houvesse alguma dúvida, o que não foi preciso.
A coluna, idealizada como um espaço de pluralidade para a publicação, se tornou
um dos entraves para o término deste trabalho. Até o último momento, esperamos o retorno
do jornalista Caco Barcellos, com quem entramos em contato desde abril de 2005, tendo
confirmado sua colaboração no início de junho. Como não recebemos o texto, solicitamos
às jornalistas Suzana Varjão e Tânia Cordeiro que contribuíssem, em caráter de urgência,
com o caderno especial. Elas estudam a relação entre mídia e violência e fazem parte do
43
Fórum Comunitário de Combate à Violência. Tânia Cordeiro, que é mestra em
comunicação, foi a primeira a responder, produzindo um artigo intitulado A construção de
endereços embaraçantes. A princípio o texto nos pareceu impróprio para a divulgação em
jornal, por seu caráter acadêmico, mas optamos por editá-lo e publicá-lo. Com isso, o texto
ganhou mais leveza, se adequando ao formato do caderno. Além disso, o assunto da coluna
– localizada na última página da reportagem de capa – está intimamente ligado ao conteúdo
da reportagem, endossando o espaço dedicado a ela. A contribuição de Tânia Cordeiro
também abre a discussão sobre a responsabilidade do jornalismo na criação de estigmas.
Nossa intenção em Por um conto foi oferecer uma nova forma de tratar a violência, sem
reforçar rótulos ou até mesmo criá-los. No entanto, lendo o texto da pesquisadora nos
perguntamos em que medida nossa reportagem de capa – que classifica determinadas
localidades como regiões ‘violentas’ – não acaba por reforçar uma imagem negativa do
local e de seus habitantes. Nossa conduta jornalística foi sustentada pelos altos índices de
criminalidade registrados nestas áreas, mas sabemos que estamos fatalmente alimentando
rótulos. Com a coluna, pretendemos fomentar esta discussão, para gerar alternativas que
inibam o preconceito gerado pela cobertura da violência, mesmo que pretensamente
‘responsável’, nestas regiões.
A seção Fragmentos, que ocupa a contracapa, além de nos desafiar em relação à
diagramação, teve o conteúdo amplamente debatido por nós. Inicialmente, determinamos
que a página deveria trazer imagens e notas configurando uma denúncia, um movimento
social contra a violência, a cobertura de um evento e alguma estatística ligada a temática. A
proposta se modificou no fechamento dos textos. Nas nossas visitas ao Nordeste de
Amaralina coletamos muitas informações a respeito das organizações sociais existentes no
bairro, mas não cabia abordar as ações destes projetos na reportagem de capa, para não
fugir à pauta. Dessa forma, decidimos dar visibilidade ao trabalho destas instituições na
seção Fragmentos, mesmo porque, nas entrevistas, uma das reclamações dos moradores foi
o fato de que a impressa só cobre “as coisas ruins” do bairro.
De maneira geral, os principais problemas encontrados para a realização das
reportagens foram a falta de dados sistematizados e acessíveis sobre o assunto, o medo das
pessoas em falar sobre o tema e a dificuldade de coletar informações em instituições
extremamente burocráticas, como a Polícia Militar, o que de certa forma nos ajudou a
44
entender as limitações a que estão sujeitos diariamente os repórteres que alimentam as
“páginas policiais” dos jornais baianos. Na realização deste projeto estivemos muitas vezes
diante da falta de dados para contextualizar nossas reportagens, o que revela o despreparo
das instituições públicas a organizarem e fornecerem informações de maneira ágil à
imprensa. Entendemos que o combate à violência também se faz através de um diagnóstico
transparente da situação. No entanto, acreditamos que a falta de dados também é reflexo da
pequena procura da imprensa por estas informações. É preciso que os veículos de
comunicação se interessem e pressionem com freqüência estes órgãos para que os números
sejam disponibilizados de maneira sistemática e democrática.
O medo das pessoas em falar sobre suas experiências também foi um fator
limitador, mas bastante compreensível. Uma preocupação constante de nossa parte foi
ocultar, sempre que preciso ou solicitado, os nomes ou características das pessoas que se
dispuseram a conversar conosco, para não expô-las a qualquer espécie de risco em função
das informações que nos prestaram. Mas também acreditamos que a partir do momento em
que a mídia se comprometer a realizar um trabalho mais responsável em relação à temática
da violência, assumindo um papel pró-ativo na diminuição do problema, o medo e recusa
das fontes provavelmente diminuirá. Essa atitude mudaria o fato de que muitos enxergam
os jornalistas como “urubus à caça da miséria alheia”, que geralmente aparecem nas
comunidades mais pobres acompanhados da polícia, tantas vezes vista como inimiga.
Gostaríamos de ter entrevistado mais fontes para enriquecer as reportagens –
principalmente egressos, familiares, pais e policiais – mas o medo e desconfiança foram
fatores limitadores. Ao mesmo tempo, uma das propostas do nosso jornal é contar e
aprofundar histórias de vida através do Jornalismo Literário, que pressupõe um maior
contato com as fontes. Portanto, mais vale a qualidade e o aprofundamento das histórias
contadas do que o número de declarações colhidas.
Durante a elaboração das reportagens, também nos preocupamos com a extensão
dos textos. O orientador chamou atenção para a necessidade das reportagens serem mais
concisas, incentivando a leitura e auxiliando no momento da diagramação.
Outro
direcionamento foi em relação ao estilo a ser adotado, para não tangenciar o “pieguismo”
ou sensacionalismo. A opção por trabalhar com os recursos do Jornalismo Literário e com
histórias de vida trazia implícito este desafio, que julgamos haver contornado de maneira
45
satisfatória. O orientador recomendou que tivéssemos cuidado em não transferir para a
construção jornalística do texto o “bom mocismo” decorrente de nossa experiência com
organizações do terceiro setor, evitando o politicamente correto que não encontra respaldo
na sociedade.
Quanto às fotografias da publicação, as noções básicas de fotojornalismo aprendidas
na Facom-UFBA não foram suficientes para alcançar um nível de qualidade que
julgássemos satisfatório. Nossa experiência com fotojornalismo se resumiu à elaboração do
Jornal Laboratório, no terceiro semestre. Faltou-nos embasamento teórico e principalmente
técnico para fazer fotos melhores. Os equipamentos de que dispúnhamos - uma câmera
Canon EOS3000 com uma objetiva de 35-80mm, sem flash, e uma câmera digital Sony
P41, com memória de 16 MB – em muitos momentos estiveram aquém de nossas
necessidades, principalmente nas situações que não permitiam a aproximação do objeto
registrado. Mesmo utilizando cinco filmes coloridos com 36 poses (ISO 200) durante a
realização das reportagens, não contamos com muitas opções para o fechamento do
caderno. Nossas limitações com as ferramentas de editoração eletrônica também impediram
o ajuste de algumas fotografias para a utilização. Além disso, não conseguimos fazer fotos
diversificadas, uma vez que lidamos com pautas que, de antemão, fizeram com que alguns
personagens evitassem ser fotografados, como o policial civil que criticou a instituição ou
os egressos do sistema penitenciário que temiam ser alvos de preconceito. Com a
experiência, foi possível constatar que o desprendimento e criatividade, indispensável ao
ofício jornalístico, precisam ser ainda mais marcantes para o repórter fotográfico.
Outra dificuldade, ainda em relação às fotografias, diz respeito ao cumprimento das
diretrizes do Projeto Gráfico. Embora a “boneca” do caderno já delimitasse o formato de
cada imagem – vertical ou horizontal – durante o processo de realização das fotos não
estivemos atentos a essas especificações. Exemplo disso foi a re-diagramação da capa. A
fotografia escolhida para a primeira página foi captada em plano paisagem, o que nos
forçou a repensar a disposição das chamadas e da manchete. No entanto, é preciso destacar
a importância do Projeto Gráfico na elaboração do caderno, que proporcionou uma
considerável economia de tempo. Seria praticamente impossível, neste momento final,
construir as diretrizes a serem seguidas.
46
A diagramação trouxe o desafio de se trabalhar com textos extensos. As reportagens
ocuparam de seis a oito laudas. Tivemos que aumentar o número de páginas do jornal, de
16 para 24 páginas, mantendo os espaços destinados à publicidade. Além disso, a pouca
experiência em diagramação nos fez cometer erros primários – como esquecer de hifenizar
o texto –, o que nos forçou a reestruturar as páginas diversas vezes. Por fim, tivemos que
reposicionar todas as reportagens do caderno, já que ao revisar a publicação percebemos
que o destaque da edição não estava localizado nas páginas 12 e 13 (meio do caderno).
Assim, dois textos extensos (a reportagem sobre os egressos do sistema penitenciário e a
reportagem de capa) tiveram que ser dispostos consecutivamente, após a entrevista, sem
nenhuma página de publicidade funcionando como intervalo. Como não foi possível
reordenar as reportagens de outra maneira, já que o destaque deveria ocupar
necessariamente o centro do caderno, e não tínhamos tempo para interferir bruscamente na
diagramação, as duas páginas de publicidade acabaram se concentrando entre o começo e o
fim da reportagem sobre a formação policial.
Para a harmonia do caderno e em consonância com o mercado, o ideal seria que
houvesse mais 6 páginas de publicidade – numa proporção aceitável, deveríamos ter ao
menos 1/3 de páginas de publicidade. Como a publicação precisa ter um número de páginas
que seja múltiplo de quatro, seguir este padrão nos forçaria a ter um caderno com 32
páginas, o que prejudicaria a leveza, uma das características mais atraentes do tablóide.
Somando-se a isto, verificamos que publicações que apresentam o mesmo caráter especial
de Por um conto normalmente não possuem qualquer publicidade, a exemplo dos já citados
Jardim da Infâmia e África. São publicações bancadas como projetos independentes, na
maior parte das vezes patrocinados ou bancados pelo próprio jornal, que espera retorno em
imagem27.
27
SOUZA, Marta. Entrevista concedida a Tiago Galvão e Tatiana Mendonça. Salvador, 12 nov. 2004.
47
APRENDIZADO
A elaboração de Por um conto, além de uma tentativa de diversificação na forma de
se reportar a violência em Salvador, reforçando a necessidade de se tratar do tema de
maneira mais aprofundada e conseqüente, ocasionou nosso crescimento pessoal e
profissional. A execução das pautas propostas nos levou a consolidar nosso conhecimento
sobre temas a que nunca tínhamos parado para pensar. A volta dos egressos para casa – e o
fato de cruzarmos com eles nas ruas em tantos momentos, sem nos darmos conta; o
treinamento de policiais – que pareciam ter nascido assim; o modo como as mães criam
seus filhos em bairros violentos, sofrendo inúmeras preocupações e restrições, há alguns
poucos quilômetros do lugar onde moramos confortavelmente. Hoje vemos tudo isso de
uma maneira diferente, sentindo na pele a força transformadora do jornalismo que preza o
contexto.
A realização da publicação também foi um momento privilegiado para que
refletíssemos sobre as etapas e mecanismos da concepção e construção de um jornal
impresso, desde a definição do Projeto Editorial e Gráfico à escolha das pautas, apuração
das informações, redação das reportagens, edição, seleção das fotos, diagramação. Fomos
ambiciosos – e porque não dizer pretensiosos – ao optar por participar de todas as etapas
desta publicação, mesmo que não dominássemos algumas ferramentas indispensáveis para
conseguir o melhor resultado técnico, como foi o caso das fotografias, da diagramação e até
mesmo na redação e edição dos textos.
Em diversos momentos, nos perguntamos se de fato colocamos em prática nossa
proposta de trabalhar com o Jornalismo Literário, dando vida aos textos. Diversos fatores
contribuíram para que os recursos propostos não fossem bem explorados: nossa
inexperiência ou falta de coragem para ultrapassar os padrões e investir em novas formas de
narrar a realidade; pouco tempo de observação e convivência com as fontes; a escassez de
reportagens sobre violência que se aproximassem do modelo idealizado por este caderno.
No entanto, para além das limitações estilísticas ou técnicas, foi enriquecedor conhecer e
contar a vida de pessoas afetadas diretamente pela violência. Continuamos acreditando que
o Jornalismo Literário é um caminho a ser seguido na cobertura de fatos violentos pelos
veículos que se comprometerem a contribuir com a diminuição dos índices de
48
criminalidade no nosso país. Temos a certeza de que Por um conto cumpre
satisfatoriamente as metas de informar com qualidade e responsabilidade social. De todo
modo, nunca pretendemos que a forma narrativa dos textos jornalísticos se sobrepusesse
aos contextos políticos, econômicos, sociais e culturais dos problemas apresentados.
Finalizadas todas estas etapas, cabem algumas considerações sobre o tempo em que
passamos na Faculdade de Comunicação da UFBA. A elaboração do caderno também nos
fez sentir as deficiências da nossa formação. A Facom oferece aos estudantes ótimas
disciplinas teóricas, decorrente da elevada qualificação dos professores que as ministram –
especialistas em suas respectivas áreas. Estas disciplinas inseriram e qualificaram os
estudantes em importantes debates sobre as teorias da comunicação e do jornalismo,
semiótica, estética, tecnologia, política, ética, cultura contemporânea. No entanto,
acreditamos que é preciso fortalecer a relação entre a teoria e a prática jornalística na
Faculdade. A impressão é que os alunos freqüentam dois cursos distintos, sem que haja
muito diálogo entre o pensar e o fazer.
Alguns temas relevantes, como a Lei de Imprensa, administração de empresas
jornalísticas, literatura, direito, economia, filosofia e sociologia foram pouco abordados no
curso. É claro que estas lacunas podem ser preenchidas pelos estudantes, através de
disciplinas eletivas, mas a distribuição geográfica dos campi e a pequena oferta destas
matérias para alunos da Facom inibem este processo. Os estágios profissionais, no entanto,
são etapas importantes para complementar a formação. A experiência no Movimento
Estado de Paz foi fundamental para que nos aprofundássemos sobre alguns destes temas.
Sem ter noções sobre a Lei de Imprensa; Direito Constitucional e Penal; Organização dos
Poderes e Sociologia da Violência, os contatos com as fontes e a realização das reportagens
seriam prejudicados ou demandariam um tempo maior de pesquisa.
A oferta das disciplinas práticas (oficinas), no entanto, não mantêm o padrão das
aulas teóricas. A maioria das oficinas foi ministrada por professores substitutos, que eram
profissionais da comunicação – o que era positivo de um lado, pela experiência prática que
tinham, mas que deixavam a desejar em termos de didática e especialização nas áreas em
questão. Nossa percepção é de estas disciplinas foram bem pensadas para o currículo, mas
são mal aproveitadas na prática. Para nós, cada oficina deveria sustentar-se na elaboração
de um produto previamente estabelecido, estruturado pelos professores responsáveis e
49
submetido à aprovação do Colegiado. Obviamente deve existir espaço para que os
estudantes opinem e aperfeiçoem o projeto semestralmente. No entanto, o que inviabiliza o
bom andamento das oficinas estabelecidas pela grade curricular é que se gaste a maior parte
do tempo a ler textos teóricos e a pensar coletivamente qual será a formatação do produto a
ser executado – o que, algumas vezes, nem acontece, ou realiza-se apenas uma única
edição, perdendo-se a chance de aprender com as experiências anteriores.
Disciplinas optativas práticas, voltadas para a produção de reportagens,
fotojornalismo e diagramação também representam falhas na formação. Na elaboração do
caderno sentimos diariamente o peso da inexperiência, seja no contato com as fontes, na
realização e edição das fotografias e textos jornalísticos, na diagramação. Aprendemos
errando a melhor maneira para contornar a desconfiança das fontes; planejar entrevistas;
redirecionar pautas; organizar grande quantidade de informações de maneira lógica, clara e
atrativa; rever ângulos para fotos jornalísticas; tornar mais leve a diagramação das páginas.
Para diminuir estes problemas, espera-se que a Faculdade siga aperfeiçoando a
ementa das disciplinas e a grade curricular do curso de Jornalismo, e continue promovendo
debates, seminários, cursos de extensão e atividades de pesquisa, fundamentais para uma
formação universitária abrangente.
50
REFERÊNCIAS
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na imprensa. São Paulo: Summus, 1995.
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Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares. São
Paulo: Carrenho Editorial, 2002
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05/08/97.
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Palavra. São Paulo: Escrituras, 2002.
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Paulo: Ática, 1993.
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responsabilidade social. In Bahia Análise e Dados, v.1 (1991- ). Salvador:
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52
OBRAS CONSULTADAS
1. Livros
COLLARO, Antonio Celso. Projeto Gráfico: teoria e prática de diagramação. São Paulo.
Summus, 1987.
KOTSCHO, Ricardo. A Prática da Reportagem. São Paulo: Ática, 1995.
LIMA, A. O jornalismo como gênero literário. Rio de Janeiro: Agir, 1960.
MEDINA, Cremilda. Entrevista: o diálogo possível. São Paulo: Ática, 1990 (Série
Princípios).
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. Trad. Paulo César Souza. São Paulo:
Brasiliense, 1988.
NOBLAT, R. A arte de fazer um jornal diário. 3. ed., São Paulo: Contexto, 2003.
2. Livros-Reportagem
ARRUDA, R. Dias: Uma história verídica de assassinatos autorizados. São Paulo: Globo,
2001.
MORAIS, Fernando. Corações Sujos. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.
________________. A Ilha: um repórter brasileiro no país de Fidel Castro. 30. ed., 3.
reimp, São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
VENTURA, Zuenir. Cidade Partida. São Paulo: Companhia das Letras, 2001 (1a edição
1994)
3. Monografias, Teses ou Dissertações
CAMPOS, Pedro Celso. A entrevista no Jornalismo Literário avançado. Disponível em: <
http://planeta.terra.com.br/educacao/pedrocampos/AEntrevistanoJLA.htm> Acesso em: 16
set. 2004
4. Artigos
BECKER, Howard. Métodos de Pesquisa em Ciências Sociais: Estudo de praticantes de
crimes e delitos. São Paulo: Editora Hucitec, 1994
53
BORGES, Wilson. Mídia impressa e violência: (Re)construção do espaço público.
Trabalho apresentado no Núcleo de Jornalismo, XXVI Congresso Anual em Ciência da
Comunicação, Belo Horizonte/MG, 02 a 06 de setembro de 2003.
CHAPARRO, Manuel. A violência viceja na mentira da mídia. Disponível em:
<http://www.comunique-se.com.br/conteudo/newsshow.asp?editoria=343&idnot=17124>.
Acesso em: 3 out. 2004.
____________. Temática da violência precisa ser ampliada. Disponível em:
<http://www.comunique-se.com.br/conteudo/newsshow.asp?editoria=343&idnot=17251>.
Acesso em: 3 out. 2004.
FAERMAN,
Marcos.
As
palavras
aprisionadas.
Disponível
em:
<http://www.emcrise.com.br/nao-pereciveis/npfaerman.htm>. Acesso em: 16 set. 2004.
ZANETIC, André. O crime na mídia: Mitos e Realidades. Disponível em:
<http://www.brasiliano.com.br/revista/crime_midia.htm>. Acesso em: 28 set. 2004
5. Publicações analisadas
A TARDE. Caminhos do Opará, 26/10/2004. Dez!, 10/02/2005, 17/02/2005.
Rural,8/11/2004. Esporte Clube, 12/03/2005, África, 20/11/2004. Jardim da Infâmia,
17/05/2003
A VERDADE. A loucura sob custódia – crime, violência e perversão no manicômio
judiciário (Trabalho de Conclusão do curso de jornalismo da Universidade Federal da
Bahia). MARQUES, ERNESTO. Maio de 2004.
ASAS FERIDAS. Agência Baiana de Notícias – Faculdade Social da Bahia. Novembro
2004. Disponível em: <http://www.agenciabaiana.com.br/premiotimlopes2004.html>.
Acesso em: 14 jun. 2005.
BEIRA DO RIO. Setembro/2004
Boletins Informativos da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI), Estatuto
Aqui – Instituto Latino Americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e
Tratamento do Delinqüente (ILANUD) e Instituto Sou da Paz - Dezembro 2004, Janeiro
2005, Fevereiro 2005.
CORREIO DA BAHIA. Correio Repórter,3/06/2000,
21/12/2004
27/01/2002. Sabor e Estilo,
FOLHA DE S. PAULO. Mais!, 22/06/2003. 6/07/2003, 7/ 12/2003, 4/ 01/2004,
18/01/2004. Folha Teen, 12/05/2003, 19/05/2003.
54
NÚMERO G. Maio/Junho 2005
PROSA: Jornal Mensal de Reportagem (Trabalho de Conclusão do curso de jornalismo da
Universidade Federal da Bahia). ARAÚJO, Fernanda; CAMPOS, Ingrid; MEIRELLES,
Luize. Maio de 2004.
PROVINCIA DA BAHIA, 30/12/2003, 04/05/2003, 19/07/2003.
SEMIOSFERA, Revista de Comunicação e Cultura – Comunicação, Cultura e Violência
Urbana – Ano 3 – Número Especial – Dezembro de 2003. Disponível em::
<http://www.eco.ufrj.br/semiosfera/especial2003/index.html> Acesso em: 22 set. 2004.
TRIBUNA DA BAHIA, 28/01/2005, 11/02/2005.
6. Legislação
CÓDIGO PENAL BRASILEIRO, 7 de dezembro de 1940.
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL, 1988.
LEI DE IMPRENSA, 9 de fevereiro de 1967.
7. Sites
Associação Nacional de Jornais www.anj.org.br
Observatório da Imprensa www.observatoriodaimprensa.com.br
Texto Vivo – Narrativas do Real. www.textovivo.com.br
55
ANEXOS
56
ANEXO I
CRONOGRAMA DE ATIVIDADES
Período
Outubro/2004
Procedimentos
Realização do Projeto Editorial e Gráfico do caderno (Anexo II)
Levantamento de cadernos especiais sobre violência publicados na
Novembro/2004 Bahia e no Brasil / Contato com jornalistas que trabalham nas editorias
de Polícia e Segurança dos jornais baianos.
Dezembro/2004 Reunião do banco de dados com fontes, temas e pesquisas na área de
violência/ Proposta inicial de pautas.
Elaboração das pautas (definição de temas e fontes, pesquisa de
Janeiro/2005 documentos e dados)/ Início da realização de entrevistas, fotografias/
Pesquisa em documentos e reunião de dados sobre os sub-temas das
reportagens.
Fevereiro/2005 Realização de entrevistas e fotografias/ Pesquisa em documentos e
reunião de dados sobre os sub-temas/ Produção de texto.
Realização de entrevistas e pesquisa / Produção dos textos
Março/2005
Abril a
Maio/2005
Junho/2005
Produção de Texto/ Edição/ Revisão/ Início da produção da Memória
Diagramação/ Revisão/ Impressão do Caderno/ Revisão da Memória.
57
ORÇAMENTO
Serviço/Produto
Preço unitário
Quantidade
Preço total
Filme ISO 400
R$14,00
2
R$28,00
Filme ISO 100
R$11,00
3
R$33,00
Revelação (copião)
R$10,00
5
R$50,00
Revelação (por foto)
R$0,80 (10x15)
16
R$9,60
Fita mini-cassete
R$6,00
1
R$48,00
Gasolina
R$110 (tanque)
1
R$110,00
Pilha
R$4,20(4 pilhas)
2
R$8,40
Cartucho p&b
R$25,00
1
R$25,00
Resma de papel almaço
R$19,20
1
R$19,20
Impressão A4 Colorida
R$2,70
75
R$202,50
Impressão A3 Colorida
R$3,90
44
R$171,90
Cópia p&b
R$ 0,10
240
R$24,00
Cópia colorida
R$1,50
50
R$75,00
Encadernação
R$3,00
3
R$9,00
Total: R$816,60
* O Dólar comercial neste período foi cotado a R$2,412
58
ANEXO II
PROJETOS EDITORIAL E GRÁFICO DO
CADERNO ESPECIAL POR UM CONTO
59
TATIANA MENDONÇA DE SANTANA
TIAGO BARRETO GALVÃO
POR UM CONTO
PROJETO EDITORIAL E GRÁFICO
SALVADOR - BA
2004
60
TATIANA MENDONÇA DE SANTANA
TIAGO BARRETO GALVÃO
POR UM CONTO
PROJETO EDITORIAL E GRÁFICO
Projeto do Trabalho de Conclusão de Curso
de Comunicação com habilitação em
Jornalismo, Faculdade de Comunicação,
Universidade Federal da Bahia.
SALVADOR - BA
2004
61
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO..............................................................................................................63
POLÍTICA EDITORIAL.................................................................................................. 64
OBJETIVO..........................................................................................................................66
CARACTERÍSTICAS DA PUBLICAÇÃO.....................................................................67
ORGANIZAÇÃO DAS PÁGINAS....................................................................................74
O PAPEL DA FOTO, DIAGRAMAÇÃO E INFOGRÁFICOS.....................................76
CAPTAÇÃO DE RECURSOS...........................................................................................77
CORES.................................................................................................................................80
TIPOLOGIA........................................................................................................................81
ELEMENTOS DO CADERNO.........................................................................................84
REFERÊNCIAS..................................................................................................................87
62
APRESENTAÇÃO
Esta seção refere-se aos Projetos Editorial e Gráfico desenvolvidos para o caderno
especial Por um Conto, resultado do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) realizado
pelos estudantes Tatiana Mendonça e Tiago Galvão, apresentado no semestre de 2004.2,
como requisito para a conclusão do curso de Comunicação com habilitação em Jornalismo
da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia.
Durante o processo de elaboração desse projeto, os estudantes foram orientados pelo
professor Elias Machado e realizaram consultas à bibliografia especializada nas áreas de
jornalismo impresso e editoração eletrônica, além da análise de publicações com o mesmo
perfil e formato do produto idealizado, inspirando o resultado final de Por um Conto. As
experiências ao longo dos quatro anos em que deram encaminhamento à formação de
jornalistas foram de fundamental importância para estabelecer os projetos editorial e
gráfico desta publicação.
63
POLÍTICA EDITORIAL
O que vai conduzir a construção do caderno especial Por um conto é o nosso
compromisso com o bom jornalismo, aquele que está sempre atento à exploração do
contexto. Acreditamos que o tema deste produto – a violência vermelha em Salvador –
exige um estilo próprio e diferenciado. Dessa forma, este caderno traz consigo o pacto com
a responsabilidade social, na medida em que investe e acredita na ambiciosa missão de
contribuir com a diminuição dos índices de violência na capital baiana. Entendemos que o
Jornalismo é agente ativo no processo da formação das representações de uma sociedade.
Portanto, nosso projeto está sustentado no desafio de propor uma nova forma de tratar
jornalisticamente a problemática da violência urbana em nossa cidade.
O conteúdo veiculado em Por um conto será identificado com um Jornalismo
humanizado, no qual a vida dos personagens abordados nas reportagens nos ajude a
entender e enfrentar o problema. Para tanto, iremos trabalhar com o Jornalismo Literário,
também conhecido como New Journalism. Pretendemos, assim, unir a força política do
jornalismo - que possibilita o conhecimento das interações políticas e sociais - com o poder
sedutor da literatura - preocupada, primordialmente, em investigar a condição humana.
Reportagens serão priorizadas nesta publicação, que também abrirá espaço para uma
entrevista e a contribuição de colunistas com seus pontos de vista acerca da temática.
Um outro pilar importante que direciona a linha editorial desta publicação é a
adoção de uma postura atenta ao que determina a Lei de Imprensa e o Código de Ética da
profissão. Esta atitude é uma alternativa que confronta o modelo empregado pelo
jornalismo diário baiano adepto da “juizite midiática” (MIRANDA, 2003), julgando e
condenado suspeitos e acusados nas chamadas “páginas policiais”.
Nossa proposta é que este caderno especial seja encartado a algum dos jornais
baianos. No entanto, pretendemos manter as orientações editoriais e gráficas previstas no
projeto, não havendo mudanças substanciais em sua política editorial, estilo, formato ou
conteúdo apresentado. Dessa forma, possíveis anunciantes devem estar condizentes com o
modelo de jornalismo empregado por este caderno, fazendo com que a publicação
mantenha sua independência no que se refere ao que deve ou não estar veiculado no
caderno, bem como a apresentação deste conteúdo.
64
A intenção é formatar um jornal leve e de leitura instigante, sem tender para a
superficialidade ou sensacionalismo - características a que o tema da violência tantas vezes
esteve vinculado. Com isso, Por um conto tem a saudável pretensão de contribuir com a
concretização de outras possibilidades na maneira de retratar os fatos violentos.
Paralelo a todos estes aspectos, nosso trabalho tem em sua base um pedido urgente
por indignação. Os idealizadores deste produto acreditam na necessidade da mudança deste
cenário no qual, na maioria das vezes, os crimes contra a vida só ganham destaque e
importância quando são “chocantes” ou quando atingem diretamente a classe média baiana.
Este caderno é a tentativa de reascender o poder da indignação que foi sendo minado aos
poucos, à medida que as mortes violentas foram se tornando corriqueiras e
assustadoramente normais.
65
OBJETIVO
O objetivo deste caderno especial é fornecer ao leitor uma compreensão mais ampla
do fenômeno da violência urbana em Salvador, diferenciando-se das notícias relatadas
diariamente nas “páginas policiais” dos jornais baianos. Em Salvador, não há publicação
impressa dedicada exclusivamente a este tema, privilegiando as reportagens. Este trabalho,
vem, portanto, explorar essa lacuna, além de pretender estimular o caráter experimental de
novos formatos e estilos.
O crítico de mídia da revista americana New Yorker, Jon Katz, acredita no
investimento em reportagens como um novo horizonte para o jornalismo impresso:
“... eles (os jornais) deveriam finalmente aceitar que não há muito de real significância
que eles possam informar em primeira mão. Deveriam parar de esconder este fato e tirar
proveito dele. O que podem fazer é explicar a notícia, analisa-la, mergulhar nos detalhes,
captar pessoas e matérias vividamente, com muito mais profundidade do que qualquer
outra mídia” (KATZ apud VAIA, 1996).
Outro objetivo deste caderno é promover a formação de um público consciente da
problemática abordada, abrindo espaço para a discussão do tema de forma mais
fundamentada. Assim, nosso trabalho também pretende estimular a formação do leitor
enquanto cidadão, oferecendo uma narrativa que possa envolver e sensibilizar o público,
estimulando-o e movendo-o à ação.
No que se refere à formação profissional dos idealizadores deste trabalho, a
produção de Por um conto foi uma oportunidade valiosa para exercitarmos a reportagem e
investirmos num texto mais criativo e autoral, além de vivenciarmos a produção gráfica do
produto.
66
CARACTERÍSTICAS DA PUBLICAÇÃO
Periodicidade
Por um Conto é um caderno especial tendo, portanto, uma única edição. No entanto,
este trabalho é também uma proposta de que esta publicação se torne um suplemento
regular, distribuído quinzenalmente ao público. Optamos por este prazo por julgá-lo
condizente com o investimento que a elaboração de reportagens requer – como um maior
tempo para se ter acesso a variadas fontes de pesquisas – e para que os repórteres e editores
tenham um cuidado mais rigoroso e criativo com a elaboração dos textos, seguindo nossa
proposta de trabalhar com o jornalismo literário e autoral. Esta periodicidade também nos
parece apropriada para estabelecer vínculo com os leitores, além de estimular e orientar o
pensamento contextualizado sobre os fatos violentos.
A quantidade de veículos com esta periodicidade tem crescido. De acordo com
dados de 2004 da Associação Nacional de Jornais (ANJ), existem no Brasil 395 jornais
quinzenais, número superior ao registrado em 2001 (249). Dos 57 jornais baianos
registrados na ANJ, 15 são quinzenais.
Público-alvo
A violência é um problema que atinge a todas as camadas da sociedade, embora se
apresente com freqüência e características diferenciadas nos bairros de Salvador28. A
princípio, nosso público-alvo é formado por aqueles que lêem diariamente as “páginas
policiais” dos jornais baianos. Nosso desafio é justamente atingir este público, sem perder a
qualidade e profundidade do nosso caderno. De acordo com Marta Souza29, analista de
marketing do jornal A Tarde, as “páginas policiais” são as mais lidas pela população. O
público deste jornal, de 835 mil leitores, é formado, em sua maioria, por homens (57%),
com idade entre 20 a 49 anos (68%). As classes A e B correspondem a 46% dos leitores,
28
Ver SANTANA, et. al. O Rastro da Violência em Salvador II – Mortes de Residentes em Salvador, de
1998 a 2001, 2002.
29
SOUZA, Marta. Entrevista concedida a Tiago Galvão e Tatiana Mendonça. Salvador, 12 nov. 2004.
67
enquanto a classe C representa 36% e as classes D e E apenas 18%. Em Salvador e Região
Metropolitana, o jornal A Tarde é preferido por nove entre 10 leitores.
No entanto, pretendemos atingir também aqueles que não lêem habitualmente esta
editoria e que, de imediato, rejeitam o tema da violência, afastados pela forma como o
problema é representado hoje nas “páginas policiais”. Para tanto, lançaremos mão do
jornalismo literário como forma de atrair este público, na intenção de que encontre no estilo
do texto a escolha pelo consumo desta publicação.
É importante ressaltar que a delimitação do público-alvo de qualquer produto
comunicativo está intrinsecamente ligada ao discurso a ser adotado pelos realizadores.
Apesar de pretendermos atingir um público amplo, nosso caderno especial não irá utilizar
uma linguagem sensacionalista – marca dos jornais ditos “populares”. Pela extensão e pelo
aprofundamento dos textos, é possível que este produto só vá interessar àqueles que tiveram
um maior acesso à educação e costumam enxergar os problemas sociais de maneira mais
contextualizada, como os formadores de opinião.
Tiragem
Como material encartado, Por um conto seguiria a tiragem do jornal que apoiasse a
nossa proposta (no caso de A Tarde, 50 a 55 mil durante a semana e Correio da Bahia, 20 a
25 mil exemplares). O diário Tribuna da Bahia foi desde já excluído das nossas futuras
negociações, por apresentar um projeto editorial incompatível com a proposta que
pretendemos desenvolver, já que privilegia o sensacionalismo na cobertura de fatos
violentos.
Caso o caderno não seja anexado, buscaremos uma parceria com instituições que
trabalham com a temática dos direitos humanos, para imprimirmos uma tiragem de 5 mil
exemplares. Consideramos que esse é o número mínimo de exemplares, dada a proporção
do trabalho, para se ter retorno significativo na capital baiana. De acordo com a Associação
Mundial de Jornais, um jornal é lido por uma média de cinco pessoas, o que nos
proporciona atingir 25 mil leitores30.
30
A população de Salvador é de os 2,6 milhões de habitantes, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatísticas – IBGE. De acordo com o Censo Demográfico de 2000, a taxa de alfabetização entre
68
Formato
Nosso caderno especial será um tablóide. Apesar deste formato estar associado a
uma tradição sensacionalista e superficial – caracterizada pela dedicação a escândalos,
utilização de fotos chocantes e design berrante –, há uma tendência mundial pela adoção
deste modelo. É o que apontada a pesquisa Tamanho é importante para os jornais?, da
International Newspaper Marketing Association (INMA), divulgada em março de 200431.
De acordo com a pesquisa, o tablóide aproxima o jornal dos leitores pelas características de
leveza, empatia, portabilidade e leitura rápida.
Ainda segundo a INMA, dois importantes jornais ingleses, o tradicional The Times e
o The Independent, lançaram em 2003 suas versões tablóide (chamadas de “re-packaged
compact edition”), sem alterar significativamente a temática e o design destas edições. Nos
países nórdicos, a maioria dos jornais diários reduziu o formato e este fenômeno também é
visível nos Estados Unidos e Canadá, embora em menor proporção. A venda destes jornais
aumentou significativamente, com raras exceções. A INMA concluiu que os leitores
preferem formatos mais compactos e que há uma propensão a dissociar o tablóide do
“antigo estilo sensacionalista em termos de jornalismo e de design”.
No Brasil, três entre os dez jornais de maior circulação são tablóides. O Correio do
Povo, Zero Hora e Diário Gaúcho, do Rio Grande do Sul, não são jornais sensacionalistas
e ocupam, desde 2001, a sexta, sétima e oitava posição no ranking, respectivamente.
Iremos, portanto, apostar numa linguagem que será, necessariamente, mais concisa,
sem, contudo, perder o aprofundamento, a contextualização e o uso de recursos literários.
As características de leveza, empatia, portabilidade e leitura rápida do formato tablóide
foram os fatores que balizaram esta escolha. O formato e dimensões propostos para este
caderno também se adéquam ao projeto de encartar o produto em um jornal de grande
circulação de Salvador. Como trabalharemos com grandes reportagens, iremos contrapor a
extensão dos textos com o uso de manchas brancas, estimulando a leveza e a aceitação do
produto pelos leitores.
a população com dez anos ou mais é de 93% (das 2.028.377 pessoas nesta faixa etária, 1.902.532 são
alfabetizadas).
31
BRITO, Eduardo. Tendência para formato menor. Disponível em: <www.anj.org.br>. Acesso em: 20 mar.
2004.
69
Dimensões
A publicação Por um conto será impressa em papel jornal 45g, em formato tablóide
(320 X 290mm), perfazendo um total de 24 páginas (duas delas referentes à publicidade,
que terão a diagramação elaborada pela empresa anunciante). As páginas – com exceção da
capa, contracapa e página 16 (que traz a coluna opinativa) – serão divididas em quatro
colunas de 57mm, com o espaçamento entre elas no valor de 5mm.
A margem lateral externa terá 22mm e a margem lateral interna 15mm. Já a margem
superior terá 15mm e a inferior 18mm. De maneira padrão, os textos estarão dispostos nas
páginas dentro desses limites. No entanto, a diagramação das fotos não seguirá
necessariamente estas delimitações, sendo possível a publicação de uma foto entre duas
páginas. Reportagens que precisem ser dispostas em mais de duas páginas também estarão
sujeitas a diagramações distintas, uma vez que as margens laterais internas poderão ser
vazadas.
Linguagem
Nosso objetivo é nos aproximar, neste caderno, dos recursos utilizados pelo
Jornalismo Literário. Este modo de fazer jornalismo, também conhecido como New
Journalism, surgiu nos anos 1960, nos Estados Unidos, em meio à contestação geral de
valores desencadeada pelo movimento hippie. Em oposição ao modelo da pirâmide
invertida, o New Journalism prega o uso da técnica literária combinada com a reportagem,
concentrando-se em quatro recursos específicos: a construção cena a cena; a reprodução do
diálogo das personagens; a exploração das variadas possibilidades expressivas do foco
narrativo (inclusive com emprego do fluxo de consciência, como nos melhores romances
psicológicos); o registro de gestos, cotidianos, hábitos, modos, e outros detalhes simbólicos
para reforçar a aparência da realidade32. Pretendemos, assim, investir na apuração dos
casos, na narrativa de profundidade e na qualidade do texto jornalístico. A revista
32
Ver LUIZA, A e TOYAMA, L. “Um jornalismo muito humano”. Disponível
<http://www.facasper.com.br/jo/reportagens.php?tb_jo=&id_noticias=55>. Acesso em: 25 ago. 2003
em:
70
Realidade, sucesso de crítica e público na década de 1960, é considerada a maior
representante do Jornalismo Literário no Brasil33.
Termos chulos e estigmatizantes – associados à linguagem sensacionalista dos
chamados jornais populares – não serão empregados. Como já foi dito anteriormente na
apresentação deste projeto, também estaremos atentos à não utilização de termos que
possam condenar previamente suspeitos de crimes.
Justificativa do nome
Por um conto é o nome escolhido para a nossa publicação. Esta opção está
sustentada nas duas idéias centrais evocadas por esta expressão, que imediatamente remete
ao caráter literário do nosso caderno, ao mesmo tempo em que delimita a temática de que
trata a publicação: a violência vermelha. Contar histórias de vida e suas implicações com o
fenômeno da violência urbana em Salvador é a principal meta deste caderno especial sem,
contudo, perder de vista o contexto social no qual estas pessoas estão inseridas e o contexto
no qual a violência ocorre.
A denominação do caderno especial também traz em si uma crítica ao elevado
número de homicídios praticados no Brasil, que faz do país o campeão mundial em número
de assassinatos34. A referência a esta certa naturalização das mortes por assassinato
ocorridas no Brasil e em Salvador está expressa na constatação de que a população está
sujeita a perder a vida por motivos banais. Ao recorrermos à expressão popular “Isso não
vale nenhum conto!”, pretendemos questionar o valor da vida dentro da nossa sociedade. O
homicídio é certamente a face mais cruel da violência, por ir de encontro ao direito básico
da vida, e por isso esta infração foi escolhida para nomear o caderno, embora a publicação
não vá se limitar a tratar deste aspecto do problema. Além de fazer referência aos
homicídios, a expressão “por um conto” ainda se relaciona à causa dos crimes contra o
patrimônio, da exploração sexual infanto-juvenil, da corrupção e da violência policial.
33
34
Ver FARO, 1999.
AZEVEDO, Solange; DANTAS, Edna. Eles mataram. Revista Época, Editora Globo, 22 set. 2003.
71
Temas Abordados
Nossa temática é a violência vermelha em Salvador, caracterizada pelas agressões
físicas tipificadas como crime no nosso Código Penal. Como as principais vítimas deste
fenômeno na cidade são jovens negros, representantes da classe D e E35, estaremos
preocupados em representar este grupo no nosso caderno. No entanto, fatos violentos que
atinjam outros segmentos e classes sociais também serão abordados, como a violência
contra a mulher, contra homossexuais, crianças e adolescentes, policiais e jornalistas.
Por fatos violentos nos referimos às agressões e mortes por causas externas, como
homicídios, violência policial, violência sexual, tortura, acidentes de trânsito e suicídio. A
escolha final pelas sub-temáticas e grupos que serão abordados pelo caderno se dará na
seleção das pautas para cada edição, guiando-se prioritariamente pelos critérios de
relevância social e atualidade.
Pautas
Os critérios de noticiabilidade se complementam e não se restringem as
características do fato a ser noticiado. Os aspectos relativos à disponibilidade do material
apresentado, ao público e à concorrência também interferem na transformação de um
acontecimento em notícia (WOLF, 1995). Os valores-notícia utilizados na nossa publicação
serão a atualidade, amplitude, identificação humana, proximidade, relevância social e
segurança pessoal dos realizadores.
Uma das particularidades do chamado “jornalismo policial” é o fato dos repórteres
geralmente se pautarem pela ronda diária nas delegacias, postos policiais, Instituto Médico
Legal e Corpo de Bombeiros, ao contrário das tradicionais reuniões de pauta com o editor
(WYLLYS, 2000). Os repórteres são orientados a optarem pelas histórias que atinjam
35
Ver SANTANA, et. al. O Rastro da Violência em Salvador II – Mortes de Residentes em Salvador, de
1998 a 2001, 2002.
72
pessoas da classe média ou que sejam caracterizadas como “crimes chocantes”, envolvendo
pessoas pobres e moradores da periferia (Idem, ibidem, p. 21).
Em entrevista ao documentário Luto ou três formas de morrer36, o editor de
Segurança do Correio da Bahia, Erival Guimarães, afirma que o destaque para os crimes
que envolvam pessoas de classe média é “natural”, já que fatos violentos envolvendo
jovens negros e pobres são corriqueiros. Estes acontecimentos, na visão de Guimarães,
perderiam o atributo da novidade, tão caro à notícia. Na sistematização dos fatores culturais
que influenciam a transformação de um fato em matéria jornalística, Johan Galtung e
Holmboe Ruge, no clássico estudo sobre os critérios de noticiabilidade, apontavam que
“quanto mais um acontecimento diga respeito às pessoas de elite, mais provável será a sua
transformação em notícia” (GALTUNG; RUGE, 1965). Nesta publicação, iremos priorizar
a relevância social dos acontecimentos relatados. A classe social dos atores envolvidos será
mencionada para a contextualização das reportagens. Entendemos que não se deve
compactuar com a naturalização destas mortes, cabendo às organizações jornalísticas
denunciarem sempre as violações aos direitos humanos e à nossa Constituição. Como
afirma o jornalista Ricardo Kotscho:
"Sinal de uma época, o drama social em que todos acabam sendo vítimas, de tanto se
repetir acaba deixando muitos jornalistas insensíveis. Cabe ao repórter colocar esta
realidade - para que ela possa ser mudada, e não camuflada - todos os dias nos jornais.
Seja qual for a pauta, esta realidade fica sempre no caminho de quem tem olhos pra ver
e coração pra sentir - e entende que sua missão é contar" (KOTSCHO, 1986)
Assim, para o caderno especial, estão programadas a realização de reportagens que
contextualizem casos específicos – notícias pautadas pela ronda diária – e a produção de
pautas que estejam além da ocorrência do fato criminoso, a exemplo da observação do diaa-dia de comunidades consideradas violentas, da análise do processo histórico de
crescimento da violência e das conseqüências para aqueles que foram diretamente afetados
por esse problema. Estas reportagens, no entanto, devem estar estritamente ligadas ao tema
da violência urbana, do funcionamento do sistema de Segurança Pública e da efetivação dos
direitos humanos.
36
Documentário que trata da atuação de grupos de extermínio em Salvador. Produzido pelo Núcleo de Mídia
e Cidadania das Faculdades Jorge Amado, 2004.
73
ORGANIZAÇÃO DAS PÁGINAS
Nosso caderno especial não terá editorias fixas, uma vez que a idéia é apresentar
reportagens dissertativas relacionadas ao tema da violência. Desta forma, só terão nome
fixo a coluna opinativa, intitulada Diálogo, e a contracapa, intitulada Fragmentos. Além
destas seções, o caderno terá três reportagens, uma entrevista, um editorial e duas páginas
de publicidade, assim estabelecidas:
Página 1: A capa deverá dar destaque à matéria principal e fornecer chamadas para
outras reportagens.
Página 2: Será reservada para o índice, o editorial e o expediente.
Página 3 a 5: Estas páginas serão destinas à entrevista com alguma personalidade
relacionada à temática, a exemplo de vítimas que simbolizem o enfrentamento de alguma
situação de violência ou ainda profissionais do sistema de Segurança Pública e
representantes de movimentos sociais que atuam no combate e na prevenção do problema.
Página 6 a 11: Trará a primeira reportagem do caderno, com tema a ser definido.
Página 12 a 17: A reportagem de capa e a coluna opinativa estarão posicionadas
nesta seis páginas.
Página 19 a 22: Serão reservadas a mais uma reportagem, também sem tema
previamente definido.
Página 24: Nesta página estarão expostas fotos, frases e dados que deverão compor
um retrato do cotidiano da violência urbana em Salvador. Esta página será intitulada
Fragmentos
Páginas 18 e 23: Serão destinadas à veiculação de publicidade de anunciantes.
74
Coluna
Nosso caderno especial irá contar com uma coluna por edição. O texto será
elaborado por um colaborador – sem nenhuma contrapartida financeira – cumprindo os
requisitos mínimos de pertencerem ao gênero opinativo e estarem de acordo com nossa
política editorial. Os colaboradores serão profissionais da segurança pública, pesquisadores
ligados à temática ou membros de entidades que trabalhem com o enfrentamento e
prevenção da violência. A princípio, a coluna estará localizada na página 16 e será batizada
de Diálogo – referência direta ao caráter literário do nosso caderno e a um espaço opinativo
e democrático.
75
O PAPEL DA FOTO, DIAGRAMAÇÃO E INFOGRÁFICOS
No nosso caderno especial, iremos trabalhar com o conceito de fotografianotícia, quando o fotógrafo registra a “faceta privilegiada de um fato”, dispensando a
legenda (MELLO, 1994). Eventuais legendas poderão ser utilizadas para destacar
alguma informação relevante dentro da reportagem, ao invés de descrever a fotografia.
Dentro da proposta editorial do nosso caderno, investiremos também na desconstrução
da prática de utilizar imagens chocantes, descontextualizadas, como chamariz das
matérias “policiais” (ANGRIMANI, 1995).
As fotos também constituem um ponto de força e atração visual dentro de uma
publicação impressa. O contraste de uma página é conseguido com a utilização de
fotografias de boa qualidade e posicionamento da imagem de forma harmoniosa dentro
da diagramação de uma matéria (COLLARO, 1987). As fotografias, de forma prática,
servirão como contraposição aos blocos de texto, favorecendo uma diagramação leve e
harmoniosa, apostando nos espaços brancos (SILVA, 1985).
No que diz respeito à utilização dos infográficos, esta será outra alternativa para
a quebra dos blocos de texto. Na busca pela contextualização, apresentaremos resultados
de pesquisas e índices que embasem as reportagens.
76
CAPTAÇÃO DE RECURSOS
Nossa proposta inicial é que nosso caderno especial seja encartado aos impressos
baianos A Tarde ou Correio da Bahia. Dessa forma, Por um Conto se adequaria ao
mecanismo de vendagem de publicidade e circulação destes jornais. Estas empresas estão,
de fato, abertas a novas propostas de publicações cujo perfil editorial favoreça a
credibilidade destas instituições e reitere o compromisso de responsabilidade social que
estes jornais assumem diante da sociedade – a exemplo da publicação do caderno especial
Jardins da Infâmia, encartado no jornal A Tarde em 17/05/2003, e do caderno
Responsabilidade Social, veiculado pelo Correio da Bahia em 05/06/2003 (este impresso
em papel reciclado).
É importante esclarecer que estes jornais mantêm setores específicos relacionados
ao departamento de Marketing e captação de recursos para a realização de projetos
especiais. Algumas publicações são elaboradas com o apoio prévio de determinados
clientes e anunciantes, a exemplo do caderno Caminhos do Opará, patrocinado pela
Petrobrás e veiculado por A Tarde em 26/10/2004 e Sabor e Estilo, patrocinado por
restaurantes de Salvador e encartado ao Correio da Bahia em 21/12/004. Outros, no
entanto, são produzidos independente de serem capitalizados com anunciantes ou
patrocinadores. É o caso do caderno África, povo do sol distribuído por A Tarde em
20/11/2004 em comemoração ao dia da consciência negra.
A segunda alternativa para veiculação deste caderno especial é a captação de
recursos junto a organizações não-governamentais que trabalhem na área da promoção dos
direitos humanos e instituições privadas que estejam vinculadas a uma política de
responsabilidade social, para imprimirmos a tiragem mínima de cinco mil exemplares.
77
Anunciantes
De acordo com Paulo Fraga, diretor comercial do jornal carioca O Dia, os anúncios
publicitários representam, em média, 60% a 65% do faturamento dos jornais brasileiros37.
No nosso caderno especial, os anúncios ocuparão duas páginas inteiras da publicação (p. 18
e 23). Como o vínculo com o tema da violência não é bem-visto pela maioria das empresas
privadas, os anunciantes potenciais do caderno especial são órgãos do Governo Federal
(Secretaria Especial de Direitos Humanos, Ministério da Justiça); Governo Estadual
(Secretaria de Segurança Pública / Secretaria de Justiça e Direitos Humanos); Prefeitura
municipal; Organizações não-governamentais que trabalham com esta temática (Agência
Nacional dos Direitos da Infância - ANDI, Fundo das Nações Unidas pela Infância UNICEF, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Cultura e a Ciência –
UNESCO, Fundação Avina, Movimento Estado de Paz, Fórum Comunitário de Combate à
Violência, Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Yves de Roussan - CEDECA-Ba,
dentre outras); e Organizações da sociedade civil baiana (Ordem dos Advogados do Brasil,
secção Bahia – OAB-BA, Associação Baiana de Imprensa – ABI, Sindicato dos Jornalistas
da Bahia – Sinjorba-Ba).
Outros anunciantes potenciais são empresas de segurança privada. De acordo com o
Sindicato das Empresas de Segurança Privada do Estado da Bahia, existem 31
empreendimentos que trabalham neste ramo no estado.
Orçamento
O custo de impressão do caderno para ser encartado nos jornais A Tarde ou Correio
da Bahia ainda não foi estipulado, pela variação de tiragem desses dois periódicos.
O valor médio de um anúncio na página policial do jornal A Tarde é de R$ 130
cm/coluna, de acordo com o preço de mercado de 2004. O anúncio colorido tem um
acréscimo de 30%. Estimamos que o valor médio da publicidade de página inteira no nosso
caderno, se encartado nos jornais A Tarde ou Correio da Bahia, custaria R$ 3.000. Os
37
SEMINÁRIO DE COMUNICAÇÃO BANCO DO BRASIL, 10., 2004, Salvador.
78
preços variam de acordo com o dia da semana e número de leitores. Portanto, se o caderno
for veiculado aos domingos, por exemplo, quando a venda dos jornais aumenta, é provável
que o valor do anúncio interno na nossa publicação possa subir, em média, para R$ 6.000.
Para se ter uma idéia, o preço do anúncio interno de página inteira no caderno de Esporte
aos domingos é de R$ 14.268. O preço da mesma publicidade para o caderno de TV,
também aos domingos, é de R$ 8.241, por ser menos lido.
No caso da parceria com estes jornais não ser firmada, o custo de impressão dos
cinco mil exemplares do caderno está orçado em R$ 3.450 pela gráfica A Tarde Serviços
Gráficos. Neste caso, os preços dos anúncios diminuirão significativamente, por se tratar de
uma publicação desconhecida pelos leitores e pela redução do número de exemplares
(tiragem). Assim, o valor dos anúncios será negociado com as empresas/organizações que
apoiarem o projeto, seguindo os preços do mercado publicitário baiano.
Os custos da produção deste caderno (como filmes fotográficos, revelações, CDs,
disquetes, fitas cassetes, impressões para testes e transporte) foram financiados pelos
realizadores.
Distribuição
No caso do caderno ser anexado ao jornal A Tarde ou Correio da Bahia, seguiremos
o mapa de circulação/divulgação destes periódicos. O leitor não desembolsará nenhum
valor adicional por este caderno.
Se a parceria com estes jornais não for firmada, distribuiremos os cinco mil
exemplares também gratuitamente, em locais a serem definidos numa etapa posterior deste
projeto. De antemão, iremos priorizar as associações de bairro da capital, organizações que
trabalham na área da defesa dos direitos humanos, delegacias, presídios, os principais
veículos de comunicação do Brasil e de Salvador (através da mala-direta), e faculdades de
comunicação do estado, dentre outras instituições.
79
CORES
A proposta é que a publicação seja colorida em todas as páginas. Além das
fotografias em cores, utilizaremos os recursos das cores laranja e azul para dinamizar a
leitura do caderno. Optamos por buscar cores que remetessem a uma harmonia contrastante,
por serem tonalidades complementares. Como afirma o pesquisador Meira da Rocha:
“Quando uma cor é colocada lado a lado com sua complementar, elas se intensificam
pelo contraste simultâneo. No círculo cromático a cor complementar é a que está
diametralmente oposta, isto é, traçando um diâmetro, a que está do lado oposto. Do
mesmo modo, como o positivo e o negativo, o branco e o preto também são
complementares. Os opostos se completam” (ROCHA, 2000).
As escolhas também se justificam pela possibilidade de se utilizar uma cor
considerada quente como o laranja – amplamente utilizada em destaques de títulos e realces
nas peças publicitárias atuais – em combinação com uma cor considerada fria como o azul
marinho. Esta cor será utilizada nos olhos das reportagens, por possuir um forte poder de
atração em contraste com o fundo branco, favorecendo o destaque de textos específicos
dentro das reportagens.
A cor cinza deve ser utilizada nas linhas e retas que estejam dispostas na publicação.
Esta cor tende a não concorrer com o texto por ser neutra e discreta.
80
TIPOLOGIA
Para se estabelecer a identidade visual do caderno foram escolhidas três fontes
pertencentes a três famílias tipográficas distintas: Palatino, Arial e Lucida. A mistura
estilos foi adotada para aproveitar as principais qualidades de cada fonte, além de dinamizar
as páginas.
Para o conteúdo do texto das reportagens, optamos por adotar a fonte Palatino
Linotype, que é serifada. As serifas são amplamente utilizadas nos periódicos diários e
favorecem a legilibilidade dos textos, porque acentuam o fluxo horizontal da leitura ao
longo da linha. Esta fonte é pertencente ao “estilo antigo”38 e é inspirada nos registros dos
escribas que datam dos séculos XV a XVIII. As fontes desta família e deste estilo possuem
uma aparência elegante e sóbria e são utilizadas principalmente para a publicação de livros
e de textos muito longos. A seleção desta fonte também está associada ao perfil literário
deste caderno especial.
Os textos das reportagens e colunas serão apresentados, portanto, na fonte Palatino
Linotype tamanho 10, com alinhamento justificado. As reportagens estarão dispostas dentro
dos limites das colunas já estabelecidos anteriormente. A primeira letra do início do texto
deverá vir em caixa alta, ocupando duas linhas, com corpo de 28,5 e na cor laranja. O
espaçamento no início do parágrafo será equivalente a 0,3 polegada.
No que se refere aos títulos, entretítulos e olhos, optamos por adotar fontes sem
serifa e que permitem investir num formato impactante. Segundo o professor Meira da
Rocha, “a preferência para textos cuja função é criar impacto é pelas fontes sem serifa.
Talvez porque esse estilo possua uma maior variedade de fontes encorpadas e de peso” 39. A
fonte selecionada foi a Lucida Sans Unicode, por ser de fácil legibilidade e ter um aspecto
moderno, contrastando com o estilo antigo da Palatino Linotype. Ainda de acordo com
Meira da Rocha, “contraste de peso é uma excelente técnica para conduzir a leitura, além
de criar referências ou pontos-chave para o leitor”.
38
As fontes podem ser classificadas nos estilos antigo, moderno, clássico e ornamental. Ver COLLARO,
Projeto Gráfico: teoria e prática de diagramação, 1987.
39
ROCHA, José Meira da
“Aula de planejamento gráfico”,
capítulo 2. Disponível em:
<http://www.comunica.unisinos.br/~meira/disciplinas/planejamento-grafico/2_elementos_basicos.pdf>.
Acesso em: 16 nov. 2004
81
Dessa forma, o título das reportagens virá em fonte Lucida Sans Unicode, com
corpo de no mínimo 36, proporcional aos textos e às páginas. Não será utilizado o recurso
do negrito (bold) nos títulos, uma vez que nenhuma reportagem irá concorrer com outra na
mesma página. As palavras de maior impacto dos títulos estarão na cor laranja, trazendo
dinamismo à página e reforçando o destaque do título.
A fonte Lucida Sans Unicode também será utilizada no recurso dos olhos - textos
em destaque no interior da reportagem. Os olhos terão tamanho 12,5, entrelinha 20, com
alinhamento à esquerda ou centralizado a depender de sua localização na página. Eles
devem ocupar até 5 linhas. Os olhos serão apresentados na cor azul marinho e serão
dispostos ao longo das reportagens. Não haverá linhas ou qualquer preenchimento de cor
pra delimitar o espaço dos olhos. Iremos investir em manchas brancas para proporcionar
leveza às páginas. Os entretítulos estarão em tamanho 10, com alinhamento centralizado e
em negrito.
Para os créditos, a fonte escolhida foi a Arial. Também em estilo moderno, esta
fonte se assemelha à Lucida Sans Unicode, mas possui bordas menos arredondadas e um
menor espaçamento entre as letras – ideal para os créditos, que devem apresentar um corpo
mínimo para a leitura. No que diz respeito aos créditos relativos ao autor das fotos e
imagens, estarão situados nos limites externos das fotografias, em tamanho 7. Quanto ao
crédito da autoria das reportagens, optou-se pela mesma fonte, com corpo 10 e em negrito.
Existirá uma linha cinza separando o nome e a identificação de repórter ou colaborador. A
linha irá ocupar toda a extensão horizontal da primeira coluna e terá espessura hairline. A
identificação do autor será apresentada em caixa baixa e corpo 10.
No que se refere às legendas das fotografias e imagens, iremos utilizá-las para
destacar alguma informação relevante dentro da reportagem e identificar personagens nas
fotografias. Para enfatizar dados presentes nos textos, as legendas estarão posicionados no
interior das fotografias ou a 5 mm das imagens, também na fonte Arial, tamanho 11, em até
quatro linhas. O alinhamento pode ser à direita ou à esquerda, a depender de sua
localização. Para identificar personagens, a proposta é que a diagramação utilize legendas
de uma linha, na fonte Arial, corpo de texto 8.
82
Exemplo das três variações utilizadas
8
Arial
Palatino Linotype
Lucida Sans Unicode
9
Arial
Palatino Linotype
Lucida Sans Unicode
10
Arial
Palatino Linotype
Lucida Sans Unicode
11
Arial
Palatino Linotype
Lucida Sans Unicode
12
Arial
Palatino Linotype
Lucida Sans Unicode
14
Arial
Palatino Linotype
Lucida Sans Unicode
16
Arial
Palatino Linotype
Lucida Sans Unicode
20
Arial
Palatino
Lucida Sans Unicode
24
Arial
Palatino
Lucida Sans Unicode
32
Arial
Palatino
Lucida Sans
83
ELEMENTOS DO CADERNO
Box
Os boxes serão demarcados por uma retícula de cor azul claro ou laranja – coerente
com a programação visual do caderno – e ocuparão ¼ da página. No topo de cada box
haverá um filete horizontal com dois milímetros de largura, nas tonalidades azul ou laranja,
mais escuras que a retícula, para separar o texto do box do conteúdo da reportagem. Este
padrão facilita a legibilidade e dá dinamismo à página. O título do box irá acima do texto,
acompanhando a cor utilizada para a retícula e filete. Para os títulos, a fonte utilizada será a
Lúcida Sans Unicode, tamanho 18, alinhamento centralizado. Quanto ao texto, ele será
apresentado na fonte Palatino Linotype, tamanho 11, espaçamento 12,5 e estará disposto
em 4 colunas, com as mesmas dimensões que delimitam as reportagens.
Coluna
A coluna ocupará meia página, fechando a reportagem de capa, e será caracterizada
por um retângulo vertical laranja – que estará localizado à esquerda do texto – e por uma
linha horizontal de dois milímetros, da mesma cor da caixa, fechando um ângulo de 90°.
Dentro do retângulo, centralizado, estará escrito o nome da coluna – Diálogo – também na
vertical, grafado com a fonte Arial na cor branca e corpo de texto tamanho 40, realçando o
destaque dado à coluna.
Seguindo o padrão da publicação, o texto da coluna também estará na fonte Palatino
Linotype (tamanho 10,5, espaçamento 13) e estará disposto em dois blocos de texto com 4,2
polegadas cada um. Para o título, utilizaremos a fonte Lucida Sans Unicode, corpo 24, na
cor laranja, alinhamento centralizado. Para quebrar a monotonia, um olho – com a mesma
formatação prevista neste projeto – será colocado no meio da coluna, entre os dois blocos
paralelos. No que diz respeito ao crédito de autoria, ele estará localizado abaixo do título da
coluna, centralizado, e seguirá a formatação dos outros conteúdos apresentados no caderno.
84
Capa
A capa terá uma foto colorida – que ocupará cerca de 2/3 da página – e uma coluna na
cor azul, onde estarão a logomarca do caderno, uma manchete e duas chamadas. As
chamadas serão na fonte Arial, tamanho 14, na cor branca. As páginas correspondentes às
reportagens em destaque serão na cor laranja.
A logomarca do caderno estará no topo direito da página, na fonte Addict. A palavra
“conto” estará na cor laranja, tamanho 52, enquanto “por um” estará em branco, tamanho
48. Logo abaixo estarão dispostas as três chamadas, em cor branca. O título corrente virá
logo abaixo da logomarca, em fonte Arial tamanho 11.
A manchete principal será localizada na parte inferior do caderno, transitando entre a
foto e a coluna. Utilizaremos a fonte Lucida Sans Unicode na cor branca, tamanho 40, em
negrito. O subtítulo estará localizado no canto inferior direito e deverá ocupar cinco linhas.
A fonte utilizada para o subtítulo será a mesma das outras chamadas (Arial), tamanho 24,
na cor branca. A página correspondente também aparecerá em destaque na cor laranja.
Contracapa
A contracapa traz uma seção especial do caderno intitulada Fragmentos. O nome
desta seção deverá estar posicionado na vertical, na lateral superior esquerda da página,
com tamanho 60 e na cor azul. Estarão dispostas nesta página fotos que integrarão as três
sessões da contracapa (Educação, Enfrentamento, Estatística), que, por sua vez, estarão
demarcadas por retângulos azuis assimétricos. Junto com as fotos, estarão dispostas
pequenas notas que deverão estar na fonte Arial, tamanho 11, na cor cinza. Este último
padrão também será utilizado para as legendas das fotos. Quanto aos créditos de autoria das
fotografias, deverão estar localizados dentro das imagens em fonte Arial, na cor branca e
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tamanho 7. No limite inferior da página, estará escrita uma frase na cor laranja, fonte
Lucida Sans Unicode e tamanho 30, com alinhamento centralizado.
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REFERÊNCIAS
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Antes mesmo de entrar na faculdade já havia por parte dos