TATIANA MENDONÇA DE SANTANA TIAGO BARRETO GALVÃO POR UM CONTO: CADERNO ESPECIAL SOBRE VIOLÊNCIA EM SALVADOR SALVADOR – BA JULHO DE 2005 TATIANA MENDONÇA DE SANTANA TIAGO BARRETO GALVÃO POR UM CONTO: CADERNO ESPECIAL SOBRE VIOLÊNCIA EM SALVADOR Memória do trabalho apresentado como requisito parcial à conclusão do Curso de Comunicação com habilitação em jornalismo, Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia. Orientador: Prof. Dr. Elias Machado SALVADOR – BA JULHO DE 2005 2 AGRADECIMENTOS Gostaríamos de agradecer aos nossos pais, pelo incentivo, apoio e eterno carinho; a nossas irmãs, pela compreensão e colaboração; ao nosso orientador, o professor Elias Machado, pela paciência e dedicação; e ainda aos nossos colegas e amigos, pelas generosas contribuições que tornaram possível a realização deste projeto. 3 RESUMO Por um conto é um caderno especial com reportagens sobre violência em Salvador. A violência é um dos maiores problemas das grandes cidades brasileiras, sendo responsável pela segunda causa de morte na capital baiana. Através das reportagens desta publicação, contamos histórias de vidas afetadas pelo problema e exploramos o funcionamento dos elos do sistema de Segurança Pública. Esta memória apresenta as etapas de elaboração e realização deste produto. 4 “Todas as informações são terrivelmente incompletas” Clarice Lispector 5 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO............................................................................................................ 07 O PONTO DE PARTIDA................................................................................................. 09 O PRODUTO......................................................................................................................13 A PRODUÇÃO.................................................................................................................. 18 APRENDIZADO............................................................................................................... 48 REFERÊNCIAS................................................................................................................ 51 OBRAS CONSULTADAS..................................................................................................53 ANEXOS............................................................................................................................ 56 6 APRESENTAÇÃO O nosso Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) é um caderno especial com reportagens sobre violência em Salvador, utilizando recursos do Jornalismo Literário. As razões que nos motivam a fazer este projeto se ancoram na crença de que o jornalismo tem definitivamente uma função de informar e orientar, gerando conhecimento sobre a contemporaneidade (LIMA, 1993). Essa certeza nasce da percepção de que os meios de comunicação jornalísticos são – ou deveriam ser – catalisadores capazes de nos fazer entender e, a partir daí, modificar as diversas realidades que nos cercam. Uma delas é o quadro da violência urbana no Brasil. No país, uma pessoa é assassinada a cada 12 minutos1. Por ano, são 45 mil homicídios. Este cenário se repete na cidade de Salvador, onde também estão configurados altíssimos índices de violência, vitimando quatro indivíduos por dia2. Esta memória descreve todas as etapas de criação e execução da publicação Por um conto. Na seção intitulada Ponto de partida, são comentadas as influências que deram origem ao caderno, partindo de nossa trajetória na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e experiências em estágios. Em O Produto, apresentamos as características da publicação e justificativas para as diretrizes adotadas, como os critérios para as pautas das reportagens e o estilo de texto empregado. A seção A Produção divide-se em duas partes. Primeiramente tratamos das atividades realizadas na elaboração e desenvolvimento do projeto que deu origem a este caderno. Esta etapa inclui o referencial teórico que fundamenta a publicação e a estruturação do perfil editorial e gráfico de Por um conto. Na segunda parte, destacam-se as particularidades e desafios da produção – a seleção das pautas e fontes, a redação dos textos e a diagramação da publicação. Por fim, em Aprendizado, refletimos sobre o processo de criação e realização do caderno e sobre a formação oferecida pela Facom-UFBA. O caderno especial Por um conto foi desenvolvido pelos estudantes da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Tatiana Mendonça e Tiago 1 AZEVEDO, Solange; DANTAS, Edna. Eles mataram. Revista Época, Editora Globo, 22 set. 2003 Ver SANTANA, Francisco dos Santos; KALIL, Maria Eunice Xavier; OLIVEIRA, Zenaide Calazans. O Rastro da Violência em Salvador II – Mortes de Residentes em Salvador, de 1998 a 2001, 2002. 2 7 Galvão, sob orientação do professor Elias Machado durante o período de novembro de 2004 a julho de 2005. 8 PONTO DE PARTIDA Antes mesmo de entrar na Faculdade, já havia de nossa parte a preferência pelo jornalismo impresso. Esta tendência se confirmou através de nossas experiências e escolhas na Faculdade de Comunicação da UFBA. Durante o primeiro semestre, na “Oficina de Comunicação Escrita”, ministrada pela professora Lia Seixas, desenvolvemos um jornal mural interno, exercitando diversos textos jornalísticos (editorial, matéria, perfil, artigo). No semestre seguinte, durante a disciplina “Comunicação Jornalística”, ministrada pelo professor Leandro Colling, pudemos entrar em contato com a prática da reportagem, que se firmou para nós como texto jornalístico preferencial, pelas características de aprofundamento e maior liberdade estilística. A ementa incluía a leitura e discussão de textos sobre reportagem, um trabalho teórico sobre o tema e a elaboração de duas reportagens, uma interpretativa e outra investigativa. Nesta disciplina, também ouvimos falar, pela primeira vez, do Jornalismo Literário, através de reportagens de Eliane Brum. A força do texto da jornalista nos impressionou e passamos a pesquisar sobre o assunto. No terceiro semestre, vivenciamos a produção de um jornal, através da “Oficina de Jornalismo Impresso”, ministrada pelos professores Elias Machado e Antônio Brotas. A produção do Jornal Laboratório serviu para conhecer e exercitar as etapas que cercam a produção de um jornal. A rigorosa discussão de pautas consolidou em nós a percepção sobre o que é notícia. A produção dos textos jornalísticos nos fez entrar em contato com as dificuldades práticas da profissão – adequar o fechamento da edição à disponibilidade das fontes, lidar com análise e ausência de dados, reunir e alinhar no texto todas as informações coletadas de maneira lógica e coesa. Neste período, realizamos reportagens sobre temas relacionados à Universidade Federal da Bahia. O exercício da fotografia nos orientou sobre as características do fotojornalismo. Após a produção e edição dos textos vivenciamos as etapas da revisão, diagramação e impressão, com visitas à gráfica. Nesta disciplina também foi possível aprofundar os conhecimentos teóricos em relação à prática jornalística, com a elaboração de um ensaio. O exercício da reportagem continuou no quarto semestre, na disciplina “Oficina de Radiojornalismo” ministrada pelo professor José Pacheco. Nós optamos por desenvolver um programa jornalístico chamado Olhares, com o slogan “Sua nova maneira de ouvir no 9 rádio”. Nossa proposta era realizar diversas reportagens sobre grupos discriminados em Salvador. A primeira pauta escolhida – que também se tornou a única – foi a vida dos idosos em abrigos e asilos. Na produção do texto, apesar de seguirmos as especificidades do radiojornalismo, já utilizamos recursos do Jornalismo Literário, condizente com nossa proposta de priorizar as histórias de vida dos idosos. A satisfação proporcionada pela realização desta reportagem já nos indicava a linha a ser seguida na elaboração do nosso Trabalho de Conclusão de Curso. No semestre seguinte também trabalhamos com reportagens, na disciplina “Oficina de Telejornalismo”, ministrada pela professora Simone Bortoliero. Investigamos o crescimento das faculdades privadas em Salvador, numa reportagem de quatro minutos – tempo bastante significativo para matérias veiculadas em televisão. Durante o sexto semestre nos matriculamos na disciplina optativa “Oficina de Jornalismo Impresso II”, ministrada pela professora Antoniella Devanier, na intenção de estar novamente num dos raros espaços para a prática da reportagem na Facom-UFBA. Mas o objetivo da disciplina era funcionar como uma agência de notícias sobre a produção científica da UFBA, com a elaboração de matérias e notas para o boletim Ciência Press, o que nos causou certo desapontamento. Mas foi válido conhecer, pela primeira vez em todo o curso, as especificidades do Jornalismo Científico. Foi também durante o sexto semestre, na disciplina “Elaboração de Projeto em Comunicação”, ministrada pela professora Maria Carmem Jacob, que escolhemos o objeto do nosso Trabalho de Conclusão de Curso. A idéia para este produto passou por diversas modificações. A disciplina foi um momento importante para aprofundarmos a fundamentação teórica sobre os temas com que nos propusemos a trabalhar e definir o planejamento estratégico para orientar a produção nos semestres seguintes. O interesse pelo tema da violência é decorrente das nossas trajetórias pessoais. Apesar de não termos tido contato durante o curso com a produção de textos sobre esta temática, a forma como a violência é tratada pelos jornais impressos baianos sempre foi uma questão que nos inquietou. No nosso primeiro semestre nesta Faculdade, através da disciplina “Oficina de Comunicação Escrita”, Tiago Galvão fez uma análise da maneira como os fatos violentos são representados pelos periódicos baianos A Tarde e Correio da Bahia. A partir deste estudo, atentamos para a necessidade de se reportar à violência de 10 maneira mais conseqüente e socialmente responsável. Nós também estagiamos no Movimento Estado de Paz – iniciativa de profissionais da mídia baiana para promover uma política de comunicação social de revalorização da vida3, sob supervisão da jornalista Suzana Varjão. Tatiana Mendonça estagiou por dois anos no Estado de Paz, coordenando a produção de conteúdo para o banco de dados do Movimento. Um momento de destaque foi o desenvolvimento da seção A segurança que temos, no qual foram entrevistados representantes de todos os órgãos que integram o sistema brasileiro de Segurança Pública, para posteriormente explicar o funcionamento destas instituições. Tiago Galvão estagiou na instituição durante seis meses, para aprofundar os conhecimentos sobre violência e mídia. Outros estágios realizados por nós serviram para complementar a formação acadêmica. As experiências em assessoria de imprensa e produção de mídias institucionais aprimoraram o contato com as fontes, busca e seleção de informações, redação de textos e diagramação dos produtos, além de colocar os estudantes em contato com o mercado de trabalho. Tiago Galvão estagiou durante um ano e seis meses na assessoria de comunicação da Empresa de Turismo S/A (Emtursa), sob supervisão do jornalista Rafaela Manzo. Além disso, supervisiona desde 2004 o departamento de comunicação da ONG Abrasse – Associação Baiana de Representações Artísticas Solidárias à Saúde Emocional. Tatiana Mendonça participou durante três meses da elaboração de CD institucional, contanto os trinta anos de história de um colégio de Salvador. Além das experiências em atividades práticas, soma-se o contato com pesquisa acadêmica, que complementou a formação profissional. Tiago Galvão participou durante um ano e sete meses do Programa Especial de Treinamento (PET), onde realizou pesquisas em Estudos e Críticas Culturais, sob a tutoria do professor Maurício Tavares. Os conhecimentos metodológicos adquiridos contribuíram para o refinamento do senso de observação, possibilitando maior aprofundamento nos assuntos abordados 3 O “Movimento Estado de Paz - Uma Ação pela Vida” surgiu em 13 de março de 2001, motivado pelo assassinato da colunista de teatro do jornal A Tarde Maristela Bouzas, em novembro de 2000. Formado por jornalistas, fotógrafos, radialistas, publicitários, artistas, empresários, professores e estudantes de comunicação, a iniciativa busca melhorar a cobertura jornalística sobre a violência e encontrar soluções para o problema no Estado da Bahia. Um dos princípios do Movimento, estabelecido no documento “Por uma Política de Comunicação Social de Revalorização da Vida”, é “tratar a questão da violência não como caso de polícia, mas como problema social", descriminalizando o noticiário e criando espaços para a veiculação de propostas e soluções de educação e inclusão social. O Estado de Paz está construindo um banco de dados virtual que deverá fornecer subsídios aos jornalistas da área para que desenvolvam uma cobertura mais criteriosa das ocorrências que envolvem atentados à vida (www.estadodepaz.com.br). 11 jornalisticamente. Todas as outras atividades que estiveram relacionadas, de alguma forma, com as técnicas e os métodos utilizados em reportagens e o tema da violência, segurança e direitos humanos foram essenciais para a realização deste Trabalho de Conclusão. Seminários, oficinas, cursos e palestras, ocorridos dentro e fora da Universidade, acrescentaram conhecimentos à formação dos graduandos, levantando problemas e inquietações, e ajudaram na elaboração do caderno especial Por um conto. 12 O PRODUTO Por um conto é um caderno especial de reportagens pautadas na violência urbana de Salvador, fomentando a discussão sobre o funcionamento do sistema de Segurança Pública. Nossa intenção é que o caderno seja encartado nos jornais A Tarde ou Correio da Bahia4. Dessa forma, o produto supostamente abrangeria – sem acréscimo de custo para o leitor – o mesmo público que é informado diariamente pelos jornais locais. Segundo Marta Sousa 5, analista de marketing do jornal A Tarde, as editorias mais lidas nos jornais impressos baianos são Esporte e Polícia. O alcance atingido pelas chamadas “páginas policiais” reforça nosso empenho em propor uma nova maneira de pensá-las e produzi-las. O caráter “especial” do caderno advém da dedicação a uma única temática – a violência –, de uma maior liberdade estilística e da não-periodicidade do produto. Como Trabalho de Conclusão de Curso iremos realizar uma única edição. No entanto, acreditamos que o caderno poderia ser disponibilizado quinzenalmente ao público, como suplemento regular. O formato definido para esta publicação é o tablóide, escolhido pelas características de leveza e portabilidade6 e por facilitar a anexação junto aos já citados jornais baianos. A publicação tem 24 páginas, incluindo aquelas destinadas à publicidade. Em Por um conto priorizamos a reportagem, gênero jornalístico que vai além da notícia. Como define a professora Cremilda Medina: “[Na reportagem] as linhas de tempo e espaço se enriquecem: enquanto a notícia fixa o aqui, o já, o acontecer, a grande reportagem abre um ciclo mais amplo, reconstitui o já no antes e no depois, deixa os limites do acontecer para o estar acontecer, para o estar acontecendo atemporal ou menos presente”. (MEDINA apud COIMBRA, 1993, p. 9). No entanto, é inegável que existe uma intensa demanda pela atualização contínua da informação, que vai desde as edições diárias dos jornais impressos à estratégia de plantões ininterruptos em sites noticiosos, com diferentes níveis de contextualização. Nossa opção em apostar em reportagens não se estabelece em detrimento às outras formas de 4 O jornal Tribuna da Bahia foi descartado pela incompatibilidade com a política editorial estabelecida para esta publicação. 5 SOUZA, Marta. Entrevista concedida a Tiago Galvão e Tatiana Mendonça. Salvador, 12 nov. 2004. 6 Maiores informações sobre o formato da publicação podem ser encontradas no Projeto Editorial do caderno (Anexo II). 13 representação jornalística da realidade. Apenas acreditamos que a temática pode ser melhor explorada através da verticalização da chamada reportagem dissertativa, classificada por Oswaldo Coimbra como estilo de reportar que adota um raciocínio lógico, abordando as causas e efeitos do fenômeno analisado. “Como na reportagem dissertativa a função de informar é inseparável do esforço de convencer o leitor a aceitar a informação no contexto de um raciocínio que se pretende correto, é óbvia a presença nela de argumentação”(COIMBRA, 1993, p. 13). Artifícios como a narração, descrição de detalhes e comparação de situações – seguida pela exemplificação de fatos – compõem estes textos, que servem como “documentos históricos e sociológicos, mas ainda como alegoria e reflexão mais ampla sobre a condição humana”. (Idem, Ibidem, p. 18). Na pesquisa realizada pelo professor J. S. Faro sobre o auge da revista Realidade7 – que se destacou pelo aprofundamento e qualidade do texto – Faro constatou que os temas policiais eram os que mais representavam o código narrativo do veículo. “Os repórteres da revista souberam dar aos temas policiais uma forte dimensão humanizadora que abria caminho para a plenitude dos traços essenciais da grande reportagem. [...] Nestes textos percebe-se a presença intensa dos recursos literários [...], mas sua abrangência e significado surgem com força redobrada, porque estavam vinculados a uma temática cuja natureza trágica, humana e social exigia e amplificava a sua presença” (FARO, 1999, p.258, grifo nosso) Para a cobertura de fatos violentos também apostamos na utilização de recursos estilísticos do Jornalismo Literário. A escolha por esta modalidade de jornalismo se justifica pela crise amplamente anunciada dos jornais impressos. Uma maneira de contornar esta situação, agravada pela difusão da Internet e dos jornais on-line, é o aprofundamento e revalorização do texto nos veículos impressos. Como afirma Gustavo Castro: 7 A revista Realidade, que circulou no Brasil entre 1966 e 1976, é considerada a maior representante do Jornalismo Literário no país. O código narrativo da revista se aproxima dos recursos utilizados pelo New Journalism americano, mas há controvérsias quanto à influência direta deste modelo na elaboração da publicação da Editora Abril. Sucesso de vendas – chegando a atingir a marca de 500 mil exemplares, em 1968 –, a revista revolucionou pela qualidade, verticalidade do texto e pelo tratamento arrojado dado a temas polêmicos. Com o recrudescimento da censura e a saída de seus principais repórteres e colaboradores, a revista foi perdendo o fôlego até ser substituída, em 1976, por um guia de TV (Ver FARO, Revista Realidade: Tempo de Reportagem na Imprensa Brasileira, 1999) 14 “O modelo da prática jornalística que conhecemos hoje, pelo menos o praticado em vários jornais diários do país, está agonizante. Essa mesma imprensa, inclusive, já começa a constatar a agonia e o padecimento desse modelo. [...] Uma das saídas para o jornalismo contemporâneo, ao que parece, é voltar a investir na narração, ou na velha fórmula da boa história a se contar”. (CASTRO, 2002, p.77) A pesquisadora Florence Dravet também problematiza a opção dos jornais impressos em investir em narrativas supostamente “objetivas e claras”, crendo ser esta a vontade do público. “Um leitor que quer ler notícias claras e objetivas é um leitor sem desejo, sem paixão. [...] Quero acreditar que este leitor não existe enquanto sujeito; que só pode existir no imaginário das sociedades de consumo industrial”(DRAVET apud CASTRO 2002, p. 87). A opção de elaborar um jornal impresso, e não outro suporte midiático, se justificativa por razões de interesse, competência, recursos e objetivos que se pretende alcançar. O caderno especial foi escolhido pela possibilidade de explorar mais amplamente a reportagem enquanto gênero jornalístico. Tomando como base a observação de suplementos regulares em circulação nos jornais impressos brasileiros dirigidos a públicos diversos – como o caderno Mais da Folha de S. Paulo, o Correio Repórter do Correio da Bahia, ou ainda o caderno especial Jardim da Infâmia, sobre violência sexual contra crianças e adolescentes, publicado no jornal A Tarde – percebe-se o investimento em um jornalismo mais autoral, que se distancia do padrão recorrente nas principais editorias. Estes cadernos apresentam maior profundidade sobre o tema que se propõem a tratar, permitindo explorar recursos jornalísticos e literários que não estão presentes nos diários impressos. O formato revista foi descartado em função dos altos custos de impressão e pelo caráter temático da publicação. O rádio e a televisão não foram eleitos em função da falta de intimidade dos realizadores com estes veículos, e pela necessidade de se recorrer a equipamentos e aparatos tecnológicos disputadíssimos ou ausentes na Facom-UFBA. No entanto, não menosprezamos o imenso potencial comunicador destes veículos, num país que não cultiva o hábito de leitura e que ainda tem uma grande parcela da população nãoalfabetizada. Apesar da programação atual feita para estes veículos no Brasil ser comumente criticada pela superficialidade com que aborda as notícias, acreditamos que é possível desenvolver reportagens de profundidade e qualidade para estas mídias. Também 15 não podemos deixar de mencionar o amplo espaço que estes suportes – principalmente a televisão, em programas como Brasil Urgente8 (da Rede Bandeirantes) e Cidade Alerta (da Rede Record, que saiu do ar em junho deste ano) – vêm dando para a questão da violência nas grandes cidades brasileiras, formando opinião de maneira descontextualizada e sensacionalista. O suporte Internet foi cogitado como alternativa ao caderno impresso, por não envolver grandes custos para divulgação e pela potencial universalidade do veículo. A publicação poderia ser disponibilizada na extensão PDF ou em algum site jornalístico, utilizando as características de fragmentação, multimidialidade e hiperlinks do Jornalismo Online. No entanto, o pequeno acesso da população baiana e brasileira à internet, especialmente no que se refere à população pobre – mais atingida pela violência e um dos públicos deste caderno – foi fator decisivo para optarmos pelo jornal impresso. As pautas de Por um conto foram estabelecidas utilizando-se os critérios de atualidade, proximidade, amplitude, identificação humana, relevância social e segurança pessoal dos realizadores9 . O trabalho de investigação – intrínseco à atividade jornalística – norteou todos os textos elaborados para este caderno, mas nunca tivemos a pretensão de realizar as ditas reportagens de “denúncia”, pelo risco real que envolvem, especialmente na área de violência. No Brasil, um dos casos de maior repercussão foi a morte do jornalista Tim Lopes, assassinado em 2002 pelos traficantes da favela da Grota, no Rio de Janeiro, enquanto fazia uma reportagem para a Rede Globo sobre o tráfico de drogas e exploração sexual de crianças e adolescentes na área. Outra justificativa para esta escolha é o nosso posicionamento pessoal e profissional em não apostar num jornalismo “denuncista”, que se baseia em acusações precipitadas e inconseqüentes, condenando moralmente sujeitos que não encontram espaço para se defender na mídia e que, em função da morosidade da Justiça, demorarão muito tempo para provarem sua inocência ou serem legalmente condenados pelo Poder Judiciário. Optamos por produzir reportagens interpretativas e centradas, sempre que possível, nos diagnósticos realizados pelas crescentes pesquisas acadêmicas na área de segurança, violência e direitos 8 Sobre o Brasil Urgente, ver TEMER, Ana Carolina Rocha Pessoa. Sensacionalismo sem sangue - uma analise do telejornalismo ao vivo. Disponível em:<http://www.versoereverso.unisinos.br/index.php?e=4&s=9&a=36>. Acesso em: 30 maio 2005. 9 Para maiores informações sobre os critérios de noticiabilidade adotados por esta publicação, ver Projeto Editorial (Anexo II) 16 humanos, sem esquecer do nosso principal propósito: contar como a violência vem afetando a vida das pessoas em Salvador, através de um texto criativo, cobrando dos poderes públicos e da sociedade civil organizada suas responsabilidades frente ao problema. 17 A PRODUÇÃO Durante o período de elaboração de Por um conto, realizaram-se alguns procedimentos que foram de fundamental importância para a compreensão do processo de produção de um jornal e da realização das reportagens. Abaixo, estão descritas todas as atividades executadas durante o período da Elaboração do Projeto em Comunicação à produção do Trabalho de Conclusão de Curso: 1) Elaboração do Projeto e Desenvolvimento Orientado de Projeto O primeiro contato com o que viria a ser esta publicação se deu na disciplina obrigatória “Elaboração do Projeto em Comunicação”, período em que definimos qual seria o objeto do Trabalho de Conclusão de Curso e amadurecemos a idéia com a pesquisa em livros sobre reportagens, Jornalismo Literário, violência e a evolução da cobertura jornalística sobre o tema. O “achismo” inicial foi ganhando consistência teórica e formatação acadêmica. Estabelecemos que o Trabalho de Conclusão seria um produto (publicação impressa), mas somente na disciplina “Desenvolvimento Orientado de Projeto” é que o formato e as características editoriais e gráficas do caderno foram estruturados. Uma das primeiras recomendações da professora Linda Rubim, que ministrou a disciplina, foi que escolhêssemos o nome do professor orientador, para que ele pudesse acompanhar o desenvolvimento do Projeto, sugerindo uma bibliografia mais especializada e auxiliando na elaboração de uma “boneca” para a publicação. Escolhemos o professor Elias Machado para orientar o trabalho. O professor avaliou o Projeto e começaram, então, os encontros com o objetivo de coletar as primeiras sugestões de bibliografia complementar e assessoramento nas etapas da formatação do produto. O orientador recomendou que aprofundássemos o conhecimento sobre Jornalismo Literário, com livros dos fundadores do New Journalism, e conhecêssemos as publicações que utilizaram recursos do estilo aqui no Brasil – como foi o caso da revista Realidade. Ao conhecermos esta publicação reforçou-se a convicção da importância de se investir num texto mais rico e criativo. O vigor das reportagens da revista ainda impressiona, depois de quase trinta anos de sua extinção. 18 Outra sugestão do professor orientador foi que fizéssemos um diagnóstico mais preciso sobre as “páginas policiais” no Brasil e na Bahia. Uma das etapas previstas no Projeto para a realização do caderno era uma pesquisa nas “páginas policiais” dos jornais A Tarde, Correio da Bahia e Tribuna da Bahia, para que pudéssemos traçar de maneira mais precisa o modo como os jornais baianos reportam questões ligadas à violência. A professora de “Desenvolvimento de Projeto Orientado”, Linda Rubim, questionou a multiplicidade de propostas do Projeto e as limitações de tempo para executá-las, já que a pesquisa nestes jornais por si só configuraria um Trabalho de Conclusão de Curso. O prazo que tínhamos não era adequado para uma avaliação criteriosa, o que nos levou a procurar trabalhos que já tivessem explorado o tema. Também era indispensável, para a construção do caderno, conhecer as evoluções por que passaram as “páginas policiais” no Brasil e no mundo, sendo crucial, portanto, a leitura sobre sensacionalismo e seus ícones no país, como o jornal paulista Notícias Populares. Para finalizar, foi recomendada a leitura de livros-reportagem sobre o tema da violência, para apreensão dos estilos narrativos e dos métodos de apuração utilizados nesta cobertura. Dois livros considerados fundamentais foram Abusado, de Caco Barcellos – sobre o traficante Marcinho VP, “dono” do Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro – e Notícias de um Seqüestro, do jornalista e escritor Gabriel Garcia Márquez, que trata do seqüestro de jornalistas colombianos. Na etapa de construção da fundamentação teórica do trabalho, também entrevistamos jornalistas e analisamos outras publicações. Pretendíamos entrevistar ao menos um repórter ligado à cobertura da violência nos três principais jornais baianos, para que pudéssemos conhecer os problemas mais comuns desta editoria e analisar pelo viés dos produtores a maneira como as reportagens sobre a temática são elaboradas. Após entrevistarmos o jornalista Deodato Alcântara10, que foi repórter policial do jornal Correio da Bahia durante quatro anos e desde março de 2005 trabalha para a mesma editoria de A Tarde, percebemos que as entrevistas seriam enriquecedoras, mas dispensáveis, já que o produto final (matérias e notas diárias) elaborado por estes jornalistas era muito 10 ALCÂNTARA, Deodato. Entrevista concedida a Tiago Galvão e Tatiana Mendonça. Salvador, 18 mar. 2005. 19 diferenciado do nosso. Além disso, estávamos concentrados na execução dos projetos editorial e gráfico do caderno. Mais próximo da nossa proposta estava o Trabalho de Conclusão de Curso do jornalista Ernesto Marques11, graduado em 2004 pela Facom-UFBA. Marques realizou um jornal impresso com reportagens de caráter literário, exclusivamente voltado para a questão da violência – mais especificamente sobre as mortes ocorridas no Hospital de Custódia e Tratamento de Salvador (publicação intitulada A loucura sob custódia – crime, violência e perversão no manicômio judiciário). Conversamos com o jornalista, que expressou seu desapontamento por não ter conseguido se aprofundar nas histórias dos pacientes do HCT e satisfação por ter conseguido imprimir três mil exemplares do jornal. O projeto gráfico e a diagramação do produto não ficaram a cargo do jornalista. Outro Trabalho de Conclusão de Curso analisado por nós foi o jornal de reportagens Prosa, realizado no mesmo ano pelas estudantes Fernanda Braga, Ingrid Campos e Luize Meirelles. Também entrevistamos a diretora de marketing do jornal A Tarde, Marta Souza12, colhendo informações sobre a incidência de leitura das “páginas policiais” e averiguando a possibilidade de encartarmos o caderno naquele jornal. Para a elaboração da fundamentação teórica e do Projeto Gráfio do caderno também analisamos outras publicações, especialmente tablóides, como o jornal Província da Bahia. Uma das nossas preocupações era verificar como dispor harmonicamente grandes textos, comuns às reportagens. Os suplementos neste formato veiculados periodicamente nos jornais baianos (como o Dez!, Esporte Clube e Rural, de A Tarde) e cadernos especiais sobre o Rio São Francisco (Caminhos do Opará – A Tarde), gastronomia (Sabor e Estilo Correio da Bahia) e a África (África: um povo do sol - A Tarde ) foram algumas das publicações analisadas. Dos periódicos nacionais, nos detivemos especialmente no caderno Mais!, da Folha de S. Paulo. A diagramação inovadora presente nesta publicação, que traz extensos textos analíticos, serviu para inspirar o Projeto Gráfio de Por um conto. Durante o período de pesquisa, não foi encontrado nenhum jornal que tratasse exclusivamente do tema da violência, à exceção dos cadernos promovidos pelo prêmio Tim Lopes, da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), que financia publicações 11 12 MARQUES, Ernesto. Entrevista concedida a Tiago Galvão e Tatiana Mendonça. Salvador, 20 mar. 2005. SOUZA, Marta. Entrevista concedida a Tiago Galvão e Tatiana Mendonça. Salvador, 12 nov. 2004 20 sobre abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. Como exemplos, os jornais Jardim da Infâmia, veiculado no jornal A Tarde em 2003, e Asas Feridas, produzido por alunos da Faculdade Social da Bahia (FSBA). Apenas organizações do terceiro setor que trabalham com a temática dos direitos humanos dedicam publicações (boletins informativos e newsletters) exclusivamente voltadas à questão da violência. Apesar dos jornais impressos brasileiros oferecerem ao público uma grande quantidade de cadernos temáticos – e das páginas com notícias sobre crimes serem umas das mais lidas – nenhum jornal do país oferece uma publicação que trate de maneira mais aprofundada o tema da violência, segurança e direitos humanos. Acreditamos que algumas das causas desta situação sejam o desinteresse e a dificuldade em obter anúncios para este tipo de conteúdo, já que as empresas temem vincular sua imagem ao problema. Mas provavelmente esta explicação não é suficiente para que os jornais, agentes ativos no processo da formação das representações de uma sociedade, deixem de tratar de maneira responsável o tema, que se configura hoje como um dos maiores desafios do país. A partir da década de 1990, os principais jornais do país (como o Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo e Correio Brasiliense) abdicaram de uma editoria exclusiva para assuntos ligados à área de violência, as chamadas “páginas policiais”. As notícias que poderiam ser classificadas como “casos de polícia” passaram a ser apresentadas em cadernos ligados à cidade e ao cotidiano, sem distinção com as demais notícias que tratam de temas locais. Esta mudança pode ser considerada um avanço, por não restringir o problema da violência à polícia e tratá-lo de forma mais integrada com a dinâmica social. Apesar de, a princípio, parecer conflitante propor um suplemento que trate exclusivamente do tema, acreditamos que um produto com as características que apresentamos neste trabalho virá preencher uma lacuna e fomentar a discussão contextualizada sobre o fenômeno da violência urbana. 1.1) Fundamentação Teórica Para a realização desta publicação, foi imprescindível aprofundar o conhecimento sobre os objetos com os quais nós nos propusemos a trabalhar. Nas disciplinas “Elaboração de Projeto em Comunicação”, ministrada pela professora Maria Carmen Jacob, e 21 “Desenvolvimento Orientado de Projeto”, ministrada pela professora Linda Rubim e acompanhada pelo professor orientador Elias Machado, pôde-se refletir sobre os temas através da leitura da bibliografia básica sobre Jornalismo Literário, Violência e a cobertura sobre o tema. Jornalismo e Literatura As fronteiras entre o jornalismo e a literatura nunca foram bem definidas. Muitos foram os escritores brasileiros e estrangeiros que atuaram como jornalistas, como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Ernest Hemingway e, mais atualmente, Luis Fernando Veríssimo, Carlos Heitor Cony e Gabriel Garcia Márquez. Primordialmente, o jornalismo e a literatura têm como interseção o exercício da palavra, utilizando-a como instrumento de trabalho. Além disso, o universo humano e a realidade servem de matéria-prima para que escritores e jornalistas exerçam seus ofícios. Contudo, na literatura investe-se no imaginário, ao contrário do jornalismo, onde não existe permissão para ir além do factual. O diálogo entre os representantes desses dois campos, embora sempre existente, também se mostra tenso. O poeta e ensaísta Salvado Novo, num discurso carregado de acidez, anunciou: “não se pode alternar o santo mistério da maternidade que é a literatura com o exercício da prostituição que é o jornalismo” (NOVO apud CASTRO, 2002, p.17). É importante perceber como se deu este encontro de forma mais sistematizada. O New Journalism surgiu nos Estados Unidos na década de 1960, vinculado ao movimento hippie de contestação dos valores estabelecidos, buscando uma maneira de retratar a “realidade com mais cor, vivacidade e presença” (LIMA, 1993, p.96). O estilo nasceu, principalmente, como alternativa ao modelo da “pirâmide invertida”, surgido em 1861 no jornal The New York Times. Foram jornalistas como Tom Wolfe, Truman Capote, Gay Talese e Norman Mailer que passaram a enxergar o jornalismo sob um prisma diferente e, através de textos que apresentavam características literárias na abordagem de fatos reais, criaram o que viria a ser chamado de New Journalism. Como definiu Nicolaus Mills numa antologia do New 22 Journalism, “a who, where, when, why style of reporting could not begin to capture the anger of a black power movement or the euphoria of a Woodstock 13” (MILLS apud HELLMAN, 1981, p.3). O New Journalism pregou o uso da melhor técnica literária combinada com a melhor reportagem, concentrando-se em quatro recursos específicos: a construção cena a cena; a reprodução do diálogo das personagens; a exploração das variadas possibilidades expressivas do foco narrativo (inclusive com emprego do fluxo de consciência, como nos melhores romances psicológicos); o registro de gestos, cotidianos, hábitos, modos, e outros detalhes simbólicos para reforçar a aparência da realidade14. A busca não deve ser só pela informação, há que necessariamente passar por uma descoberta compreensiva do universo do ser humano, para que os entrevistados sirvam de “espelho das possibilidades disponíveis a toda a espécie” (LIMA, 1993, p. 90). Um dos ícones do Jornalismo Literário – A Sangue Frio, de Truman Capote – narra minuciosamente, como um romance do real, todos os acontecimentos que precederam o assassinato da família Clutter e todas suas futuras implicações. É interessante notar que o Jornalismo Literário nasce vinculado ao chamado “jornalismo policial”. “While there are a number of precedents extending back through the history of both journalism and prose fiction, the beginning of the New Journalism (...) can with some symbolic justification be dated as 1965, the year when (...) Truman Capote’s In Cold Blood was published”15. (HELLMAN, 1981, p.1) A imprensa brasileira também passou por este processo de transformação. Destacase a já citada revista Realidade, sucesso de vendas nos anos 60. As inovações também atingiram o jornalismo diário, a exemplo do vespertino Jornal da Tarde, de São Paulo, que combinou matérias de conteúdo exclusivamente informativo com reportagens que valorizavam a visão do repórter, transitando para um texto mais inventivo e literário (FARO, 1999, p. 94). 13 “O estilo ‘quem, quando, onde, porque’ de reportar não seria capaz de capturar toda a raiva do movimento negro ou a euforia de Woodstock” (Tradução nossa). 14 Ver LUIZA, A e TOYAMA, L., Um jornalismo muito humano. Disponível em: <http://www.facasper.com.br/jo/reportagens.php?tb_jo=&id_noticias=55>. Acesso em: 25 ago. 2003 15 “Embora haja um numeroso precedente tensionando a história tanto do jornalismo quanto da literatura, o início do jornalismo literário (...) pode, com alguma justificativa simbólica, ser datado em 1965, ano em que (...) A Sangue Frio, de Truman Capote, foi publicado” (Tradução nossa). 23 No entanto, nesta época o excessivo uso destes recursos caiu em descrença diante dos leitores, que não conseguiam mais identificar o que era criação e o que era realidade. Sem pretender seguir os excessos praticados pelo New Journalism, a intenção deste caderno é aliar uma narrativa de profundidade à qualidade do texto jornalístico. Afinal, “o jornalismo tem sempre, por natureza, um fim que transcende ao meio” (LIMA, 1960, p. 23). Sobre as contribuições da literatura para o jornalismo, Florence Dravet comenta: “A literatura é a esperança da comunicação, para o qual é necessário que se adéqüem não só os futuros jornalistas, mas os leitores. [...] A literatura é capaz de democratizar o conhecimento na medida em que, enquanto realidade universal e singular, pode proporcionar a descoberta do outro” (DRAVET apud CASTRO, 2002, p 88). O investimento no jornalismo literário ou autoral, como também é chamado, vem revertendo a crise do jornalismo impresso nos Estados Unidos. As revistas The Economist e The New Yorker, que dão ênfase a esta forma de reportar a realidade, dobraram nos últimos 15 anos o número de vendas e de anúncios, e atualmente garantem 80% dos seus faturamentos através de assinaturas. Os dados são da pesquisa The State of the News Media 2004: An annual report on American Journalism, do Project for Excellence in Journalism, da Universidade de Columbia.16 Acreditamos que é possível importar alguns dos recursos apresentados para subsidiar inclusive a cobertura diária do problema, tratando o texto de forma mais apurada e criativa, sem, contudo, esquecer da responsabilidade social requerida pela atividade jornalística. O problema da violência exige uma abordagem complexa que motive o leitor. Para nós, a conjunção entre as potências informativa e orientadora do jornalismo e o poder transformador da arte, através da fruição pelo texto – proporcionada pela “reestruturação cognitiva e emocional que a obra de arte oferece” (LIMA, 1993, p. 107) – poderá contribuir para o entendimento do fenômeno da violência e para diminuir suas variáveis e crescentes manifestações. 16 PROJECT FOR EXCELLENCE IN JOURNALISM. The State of the News Media 2004: An annual report on American Journalism. Columbia University Graduate School of Journalism, 2004. Disponível em: <http://www.stateofthenewsmedia.org/2004/index.asp>. Acesso em: 10 nov. 2004 24 A violência O Brasil é um dos países mais violentos do mundo (taxa de 21,72 óbitos por 100 mil habitantes), perdendo apenas para a Venezuela (34,30/100 mil) em número de mortes por arma de fogo17. Em Salvador, segundo dados da pesquisa O Rastro da Violência, do Fórum Comunitário de Combate à Violência, são registradas quatro mortes violentas por dia, das quais duas são por homicídio18. Comumente se associa violência “a qualquer ação realizada por qualquer indivíduo ou grupo, dirigida a outro que resulte em óbito, danos físicos, psicológicos e/ou sociais” (FRANCO, 1990). Nós iremos trabalhar com a chamada “violência vermelha”, ligada às agressões físicas tipificadas como crime no nosso Código Penal, como homicídios, latrocínios, roubos, furtos, lesões corporais, crimes sexuais, seqüestros. Iremos abordar, portanto, temas que já são tratados hoje nas “páginas policiais” como matéria-prima para a construção da notícia, porém sob um outro enfoque. A violência também pode ser caracterizada como “modo de representação de vontades individuais ou de determinado grupo social” (ESPINHEIRA, 2001, p 11). Nosso trabalho está focado, portanto, neste “modo de representação de vontades” que fere fisicamente o outro indivíduo ou grupo. É importante ressaltar que a violência sempre esteve presente na vida em sociedade, variando apenas o grau e a freqüência com que as regras são desrespeitadas. O filósofo francês Yves Michaud, buscando compreender, neste processo, o lugar da cultura e dos instintos, observa que “a cultura veio completar os instintos, mas contribuiu para lhes tornar inúteis e, finalmente, perigosos” (MICHAUD apud ANGRIMANI, 1995, p. 58). O filósofo observa que há dois tipos de violência: a violência natural (animal) e a violência “humana”. “Em oposição aos animais que em sua imediaticidade e na ausência de interditos, não são nem pacíficos, nem cruéis, mas somente naturais, onde os acessos de furor não são jamais excessivos; a humanidade, em matéria de violência, complica, inventa, acrescenta e refina: transgride com uma inventividade furiosa” (Idem, Ibidem). 17 ZANINI, Fábio. Brasil é 2º em mortes por arma de fogo, segundo ranking da Unesco. Folha de S. Paulo, São Paulo, 06 maio 2005. 18 Ver SANTANA, Francisco dos Santos; KALIL, Maria Eunice Xavier; OLIVEIRA, Zenaide Calazans. O Rastro da Violência em Salvador II – Mortes de Residentes em Salvador, de 1998 a 2001, 2002. 25 Para o sociólogo baiano Gey Espinheira, as manifestações violentas podem ser explicadas em sua origem por duas principais vertentes: a violência “necessária” – vista como meio para alcançar possibilidades de consumo ou melhores condições de vida; resposta às frustrações do cotidiano; continuação de um comportamento já delinqüente, sem volta – e a violência “desnecessária” – calcada em “irrupções de intolerância”. “A marginalidade e exclusão são fontes da violência necessária, enquanto que as diferenças culturais são a inspiração da violência desnecessária” (ESPINHEIRA, 2001, p 11). Uma das maneiras de minimizar as manifestações deste fenômeno, afirma o sociólogo, é investir em políticas públicas “objetivas e próximas”, que amparem e valorizem a crescente legião de jovens de baixo poder aquisitivo e sem perspectivas – as principais vítimas da violência. “A pobreza na sociedade contemporânea não é mais virtuosa, como a reconhecia a ética cristã do catolicismo tradicional [...] hoje vive-se a desvalorização de gente do ‘tipo comum’, um ser desvalorizado que forma um contingente numeroso e inútil [...] a excessiva presença leva à desvalorização dessa gente como sujeira”. (ESPINHEIRA, 2001, p. 11) Esta desvalorização e desumanização também estão refletidas na mídia, quando condiciona a visibilidade de episódios violentos à classe social dos atores envolvidos. A violência cotidianamente vivida por populações não-organizadas e marginalizadas, estabelecidas em locais não considerados nobres, é simplesmente ignorada pela mídia, ou abordada de maneira preconceituosa e simplista. (CORDEIRO, 2000). A banalização e exploração da temática pela mídia, ao mesmo tempo em que espetaculariza o fenômeno acaba por naturalizá-lo, pela repetição com que as manifestações violentas são apresentadas e pelo modo, muitas vezes inconseqüentes, com que são tratadas. Como afirma a professora Tânia Cordeiro: “os espaços destinados não são, via de regra, considerados nobres pela mídia (...) É, pois, neste espaço não privilegiado que vem sendo tratado um dos maiores problemas da atualidade, responsável pela segunda causa de morte em Salvador”. E acrescenta: “Normalmente, as fontes não são contrastadas, as versões não são checadas, o acontecimento é tratado de modo isolado, a ponto de não se tornarem claras as responsabilidades coletivas e institucionais” (CORDEIRO, 2001, p. 19). As perguntas em torno de um episódio classificado como violento devem ir além do “onde” e “quando” o fato ocorreu, proporcionando uma discussão ampla e fundamentada, 26 gerando “sensibilização social a propósito da violência” (CORDEIRO, 2001, p. 21). A ênfase em fatos isolados impede a discussão contextualizada, gerando a saturação de emoções, a sensação de impotência e o esquecimento. Cobertura de fatos violentos O jornalismo ganhou forma se estruturando, principalmente, em torno das notícias sobre crimes. As principais matérias dos primeiros jornais franceses e americanos relatavam acontecimentos criminosos e eram caracterizadas por uma linguagem novelesca e sensacionalista. Ainda no século XIX, segundo o pesquisador Danilo Agrimani, os jornais populares mais procurados na França eram os canards, que reportavam notícias de crimes: “(...) crianças martirizadas ou violadas, parricídios, cadáveres cortados aos pedaços, queimados” (ANGRIMANI, 1995, p. 19). Com o desenvolvimento dos meios de comunicação, somado à formalização da prática jornalística, os informativos impressos passaram a explorar novas editorias, abordando, de forma mais constante, assuntos ligados à política e à economia, configurando-se como o padrão jornalístico em circulação atualmente. A cobertura sobre a temática da violência evoluiu com o New Journalism, tirando “as histórias policiais de um território de ingenuidade e pequenas charadas em que elas são confinadas ao longo de todo século XX” (FAERMAN apud FARO, 1999, p.68). Nas décadas que se seguem ao surgimento do Jornalismo Literário, as páginas policiais transitam entre o sensacionalismo (com destaque no Brasil para o extinto diário Notícias Populares19, também conhecido como o jornal “espreme que sai sangue”), a superficialidade – presente em matérias que abordam fatos isolados, baseadas na reprodução dos boletins policiais – até a produção de reportagens mais contextualizadas, presentes nos já citados Jardim da Infâmia e Asas Feridas. 19 Ver CAMPOS JR., et. al. Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares, 2002. 27 A pesquisa Mídia e Violência – Como os jornais retratam a violência e a Segurança Pública no Brasil20, divulgada em fevereiro de 2005 pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESEC), concluiu que as matérias sobre fatos isolados ainda predominam sobre as reportagens contextualizadas, apesar de não apresentarem mais um caráter sensacionalista. A grande maioria dos textos jornalísticos analisados (77%) relata acontecimentos individualizados. As forças de segurança – corporações policiais, Forças Armadas e guardas municipais – são as protagonistas do noticiário, sendo o assunto de 40,5% dos textos. Diz a pesquisa: “O fato é que os resultados levam a acreditar que os jornais tocam a seção de notícias sobre crime como se ela não estivesse relacionada às respostas que governo e sociedade terão que criar para superar a situação atual”. (RAMOS, 2005, p. 27). Apesar da maioria dos textos tratarem de fatos isolados, o estudo verificou que faltam informações sobre as vítimas e os agressores. Em mais de 85% dos casos a classe social da vítima é omitida. Para os agressores, este percentual salta para 95%. A cor, tanto das vítimas quanto dos agressores, não é mencionada em mais de 98% dos textos. A maioria dos textos analisados não fazia referência a qualquer pesquisa ou estatísticas (94,7%), não apresentava mais de uma fonte (63,6%) e não aprofundava a discussão sobre o fenômeno da violência (apenas 5,4% dos textos apresentaram causas; 7,3% soluções e 6,4% conseqüências). A violência foi tratada enquanto fenômeno sócio-cultural-político somente em 3,3% dos textos e a questão dos direitos humanos foi abordada em apenas 2,4% das matérias e notas analisadas. “Uma das críticas mais comuns à polícia é que ela corre atrás do crime, sem capacidade de preveni-lo com planejamento e inteligência. A cobertura jornalística, mesmo dos melhores jornais do país, padece, em parte, dos mesmos problemas. Corre atrás da notícia do crime já ocorrido, ou das ações policiais já executadas, mas tem pouca iniciativa e usa timidamente sua enorme capacidade para pautar um debate público consistente sobre o setor”. (Idem, Ibidem, p. 40). 20 A pesquisa analisou 2.514 textos jornalísticos veiculados nos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Agora SP, O Globo, Jornal do Brasil, O Dia, O Estado de Minas, Diário da Tarde e Hoje em Dia, ao longo de 35 dias distribuídos entre maio e setembro de 2004. Disponível em: <http://www.ucamcesec.com.br/arquivos/home/Midia_violencia_rel.zip>. Acesso em: 31 maio 2005. 28 De acordo com a pesquisadora Rosa Nívea Pedroso, o sensacionalismo perdeu espaço, mas ainda se mantém nos jornais diários ditos “populares”21, e se caracteriza pela informação apelativa, grosseira, desproporcional e não contextualizada. Elementos insignificantes, ambíguos e supérfluos são destacados, em matérias que giram em torno do sexo e da violência. De acordo com a pesquisadora, que analisou o jornal sensacionalista Luta – diário carioca que circulou com relativo sucesso de vendas na década de 1980 –, a construção do discurso sedutor nestes jornais é marcada pela apresentação do “elementar em forma espetacular e descartável”, detendo-se “na sensação que o fato pode provocar em detrimento da informação que o fato pode oferecer” (PEDROSO, 2001, p. 48). O estudo também alerta para o modo como a morte de “marginais” é tratada nestes periódicos, “configurando-se como uma solução mágica para resolver uma contradição social que não tem lógica aparentemente, porque não interessa ao jornal sensacionalista analisar o fenômeno da marginalidade” (Idem, Ibidem, p. 114, grifo nosso). Salvador Seguindo a tendência da superficialidade estão os jornais baianos A Tarde, Tribuna da Bahia e Correio da Bahia, que possuem uma editoria para tratar dos eventos ligados à violência – denominadas Polícia, nos dois primeiros e Segurança, no último. As matérias desta seção se atêm a explorar, em sua maioria, fatos específicos. Além disso, apostam numa linguagem padrão e pobre, muitas vezes se detendo na descrição dos acontecimentos criminosos – o que a nosso ver não contribui para a reflexão sobre o problema. Nos jornais A Tarde e Tribuna da Bahia, o próprio nome da editoria já revela a superficialidade com que o tema é tratado, como se a violência fosse um problema exclusivo da Polícia, além de oficializar a instituição como única fonte legítima. 21 A pesquisadora chama atenção para o fato de que a imprensa popular não existe no Brasil tal como é referida, existindo apenas um segmento popular na grande imprensa que se realiza, principalmente, na forma do jornalismo sensacionalista. O jornalismo popular só se realizaria, em termos, como segmento popular da imprensa alternativa política (PEDROSO, 2001, p. 46). Os jornais destinados à classe baixa (classe C para baixo), que se sustentam com a venda avulsa de exemplares, não estão preocupados em traduzir “as condições de vida e de cultura das classes subalternas” (Idem, Ibidem, p. 45) 29 Os pesquisadores Andréa Borges Miranda e Jean Wyllys analisaram 22 as páginas policiais dos jornais A Tarde e Correio da Bahia, respectivamente, e chegaram à mesma conclusão: constataram que a cobertura destes veículos privilegia os crimes cujas vítimas pertencem às classes média e alta, se aprofundando – na maioria dos casos – apenas nestes fatos, que geralmente geram suítes, perfis, pluralidade de fontes e investigação sobre as causas macro dos crimes. “Quando o local de consumação é um bairro pobre, periférico, o crime (...) é banalizado, tratado superficialmente. Tal banalização torna-se evidente em matérias do jornal A Tarde que aglutinam diversos crimes ocorridos em bairros diferentes das cidades, (...) negligenciando-se as particularidades de cada crime. (...) Simplesmente são divulgados os nomes dos envolvidos (quando são conhecidos) e o local da consumação da conduta delituosa, de forma descontextualizada e leviana. Não são feitos questionamentos acerca dos fatores que desencadeiam esta violência tão corriqueira, (...) o que impera é um tom de tolerância e de normalidade com relação aos crimes ocorridos”. (MIRANDA, 2003, p. 71) A pesquisadora Tânia Cordeiro corrobora com a análise: “Ao privilegiar o presente como referência temporal, libera a agenda midiática do fardo das explicações (o passado) e das especulações quanto às alternativas de solução (o futuro). Essa espécie de relógio parado reproduz um padrão discursivo autônomo, que é preenchido por um estoque de violências produzido regularmente, oferecendo garantia e baixo custo aos produtos midiáticos alimentados pela excessiva oferta de eventos violentos” (CORDEIRO, 2000, p.36) A maioria dos crimes ocorridos na cidade, portanto, não são tratados de forma adequada. Segundo o ex-jornalista de Segurança do Correio da Bahia, Mário Veronese, entrevistado por Jean Wyllys, “os repórteres só devem dar prioridade a homicídios cujas vítimas sejam moradores de áreas pobres da cidade quando o crime for chocante; quando não, eles viram nota para encher página” (WYLLYS, 2000, p. 30, grifo nosso). O único homicídio destacado na capa do Correio da Bahia durante o período pesquisado por Wyllys foi a morte de uma advogada (edição do dia 08/11/00). Nesta matéria, para o autor, se percebe “uma melhor apuração do episódio por parte do repórter 22 A pesquisa A culpa dos meios, de Andréa Borges Miranda, analisou as páginas policiais de A Tarde em setembro, outubro e novembro de 2002, documentando as “ilegalidades” cometidas pelo jornal. Jean Wyllys, na pesquisa intitulada (À) Margem da Vida: o criminoso e o lugar da prática do crime no Correio da Bahia, analisou as páginas de Segurança do Correio da Bahia em novembro de 2000, investigando a “imagem do criminoso e do lugar da prática da violência construída pelo jornal no imaginário de seus leitores”. 30 (...) e que reflete um maior empenho dos agentes de segurança pública em desvendar os mistérios que envolvem o crime e em identificar os culpados. Outro reflexo desse empenho é o fato de o caso ganhar suítes nos dias 09, 10 e 11” (Idem, Ibidem, p 30). O mesmo tratamento só foi dado a outros três casos, todos envolvendo vítimas brancas e de classe média. O assassinato do casal de adolescentes Alberto Júnior e Júlia Ferraz, mortos em Jacuípe-BA em 21/11/2000, foi um destes casos. Nesta mesma edição, dois jovens pobres e negros foram executados, um pelo roubo de uma bicicleta. Estes fatos renderam apenas notas na coluna Blitz (Idem, Ibidem, p. 40). O episódio do casal Alberto e Júlia gerou suítes até 24/11/2000. Nesta edição, o Correio da Bahia relegou à página par – menos valorizada nos jornais –, e sem o devido destaque, o assassinato de um jovem algemado, com mais de 15 tiros, em Pituaçu. O jornal nem ao menos apontou o fato do uso de algemas ser de uso exclusivo das polícias civil e militar. (Idem, Ibidem, p. 42). O autor também chama atenção para a manchete veiculada pela Tribuna da Bahia neste dia, intitulada O que merecem os assassinos dos nossos adolescentes? (Idem, Ibidem, p. 41). O pesquisador interpreta esta manchete como um incentivo à pena de morte. Para entender o porquê desta prática, Wyllys acredita na hipótese – levantada pelo psicanalista Jurandir Freire Costa – de uma certa tendência da cultura burguesa de só achar digna de sofrimento coletivo a morte de pessoas brancas, ricas e bem sucedidas. “A vida deles deve sensibilizar a todos. O sofrimento deles deve nos fazer chorar. Se algo [lhes] acontece, devemos sair às ruas indignados porque eles, os verdadeiros sujeitos morais, foram atingidos na sua vida e no seu sofrimento (...), são a encarnação da verdadeira essência da ética da humanidade” (COSTA apud WYLLYS, 1996) No entanto, a nosso ver, esta prática também pode ser explicada pela relação dos jornalistas desta editoria com os policiais, principal fonte da cobertura. Wyllys conclui em seu trabalho que “os autos de prisão em flagrante e os boletins de ocorrência contêm as principais, se não as únicas, informações que vão compor as matérias das páginas de segurança do Correio da Bahia” (Idem, Ibidem, p. 44). Como nos crimes em que vítimas pobres estão envolvidas há um menor empenho da polícia na resolução dos casos – e, num ciclo vicioso, menos cobrança da mídia e da sociedade –, os jornalistas dispõem de escassos dados para realizar as matérias. “A realidade é que a morte do pobre, marginalizado, 31 envolvido ou não em crimes, tem sempre o desinteresse da polícia, o que nos deixa sem informações. Estas ocorrências costumam ter de duas a três linhas, constando nome, endereço, a forma como foi morto e o local onde a morte aconteceu”, diz a repórter Carol Fontes, entrevistada pelo autor (Idem, Ibidem, p. 30). O jornalista Caco Barcellos, no livro Rota 66 – A Polícia que Mata, deu amplas mostras de como é perigoso crer cegamente nas versões apresentadas pela polícia. Para realizarmos este produto, entrevistamos o jornalista Deodato Alcântara23, repórter policial do jornal A Tarde. Alcântara reafirmou o maior interesse dos jornais pelos casos que envolvem pessoas de maior poder aquisitivo, relacionando o fato a um maior empenho por parte da polícia. “A prioridade é obviamente a classe média. A tendência é deixar de lado o crime menor, mais comum. Vamos imaginar que um jovem pobre foi assassinado e Bell Marques [cantor de axé] foi assaltado. Os casos estão disputando espaço no jornal. É claro que o Bell Marques vai entrar. A polícia se empenha mais em resolver os casos que envolvem famosos ou pessoas de classe média. Amanhã os assaltantes de Bell já estariam presos. Esses casos dão mais visibilidade à ação policial”. Outro ponto negativo detectado pelo pesquisador Jean Wyllys foi a naturalização da morte de suspeitos de atos criminosos, através de justificativas e explicações do jornal. Estas matérias, ainda segundo Wyllys, fazem recorrência mítica ao tipo “bandido bom é bandido morto”. “As fontes recrutadas servem apenas para inflar o papel maquiavélico das vítimas como forma de justificar o extermínio” (WYLLYS, 2000, p. 27). Outra deficiência das “páginas policiais” é a constante presença de referências pejorativas, condenando moralmente e criminalmente, de maneira precipitada, os personagens dos acontecimentos violentos. A pesquisadora Andréa Borges Miranda denomina este fenômeno24 de “Juizite Midiática”, e chama atenção para a recorrência da prática desta infração. 23 ALCÂNTARA, Deodato. Entrevista concedida a Tiago Galvão e Tatiana Mendonça. Salvador, 18 mar. 2005 24 O pesquisador Danilo Angrimani, no livro Espreme que sai sangue – Um estudo do sensacionalismo na imprensa, atribui este posicionamento “justiceiro” da mídia – principalmente dos jornais sensacionalistas – a uma necessidade destes veículos de funcionarem como um “superego acessório”, punindo moralmente os transgressores da ordem estabelecida. 32 “Com este tipo de conduta, a imprensa vem ocupando ilegitimamente o lugar e funções destinadas constitucionalmente ao Ministério Público e ao Poder Judiciário (entretanto, não o faz com imparcialidade e independência) e tornou-se a instituição que, concomitantemente, acusa (função do Promotor de Justiça, que é um órgão do Ministério Público), julga e condena (funções da competência dos juizes) as pessoas” (MIRANDA, 2003, p. 53) Como conseqüência, o cenário montado pelas “páginas policiais” na mídia impressa baiana acaba por cumprir objetivos distorcidos e equivocados, incentivando a não discussão desta problemática. Ao se prender a fatos violentos não contextualizados, como se fosse uma “vitrine de atrocidades”, os jornais não oferecem subsídios para pensar o problema de forma fundamentada. Estigmatizar os atores deste tipo de acontecimentos, ou mesmo localidades inteiras, não se reflete na diminuição da violência, além de estimular o pensamento simplista e maniqueísta. Este modelo é exemplificado no depoimento do repórter da editoria policial José Castelo: “O esquema clássico do noticiário policial me pede uma narrativa reta, em que haja uma vítima, um assassino monstruoso e uma viúva infeliz” (CASTELO, 1997). Acreditamos que é possível e necessário tratar deste tema de modo mais conseqüente. As fotografias publicadas também retratam o perfil editorial da imprensa baiana. Este caderno, no caso específico das fotografias, irá abdicar, por exemplo, da exposição gratuita de imagens chocantes que retratem cenários de crimes e cadáveres, desvinculadas do contexto em que a foto seja um elemento importante para a apresentação e significação das reportagens. Como aponta o pesquisador Edísio Ferreira Júnior: “A banalização da morte pela repetição da sua presença, tornando todos os corpos maculados como corpos objetos, torna-a desprovida do seu fenômeno gerador. Levando a um descompromisso, excetuando-se o mercantil, entre o observador e o morto que se consome. O corpo sentido visualmente na fotografia não deixa de ser objeto, mas a experiência passada é desprovida do choque possível por uma expectativa de consumo. Deixa-se de sentir a força propulsora da morte pelo medo da desordem. Assim, adestram-se os sentidos que tornam os indivíduos dóceis à espera da imagem de mais um corpo pasteurizado. Tornam os indivíduos sensíveis a foto una, que é servida abruptamente aos sentidos, e insensíveis aos componentes referenciais que a sensibilizam” (JÚNIOR, 2000). Contudo, é importante ressaltar que a cobertura da mídia impressa baiana em relação à esta temática vem melhorando, como detectou a pesquisa Infância na Mídia – A 33 criança e o Adolescente no olhar da imprensa brasileira25, da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI). Realizada em 2002-2003, a pesquisa analisa apenas as matérias relacionadas à infância e adolescência. O jornal A Tarde, que em 2001 ocupava a 27ª posição, em 2002 subiu para a segunda melhor cobertura da temática em todo o país. O Correio da Bahia saltou da 41ª a 32ª posição, enquanto o Tribuna da Bahia teve o menor crescimento: passou do 44º ao 43º lugar. No entanto, é preciso esclarecer que este incremento é apenas comparativo. O primeiro colocado na pesquisa – a Gazeta do Povo, do Paraná – obteve a média 48,96% na análise qualitativa. Segundo a ANDI, a melhor cobertura sobre violência, quando relacionada a crianças e adolescentes, ainda está, em todo o país, 50% abaixo do que a Agência considera “socialmente responsável”. Uma das causas desta avaliação é o fato da polícia continuar sendo a fonte mais ouvida pelos jornalistas. Diagramação As reportagens geralmente apresentam textos extensos, o que dificulta a diagramação. Portanto, o valor da linguagem visual contida no projeto gráfico é indispensável para uma leitura rápida e agradável26. Como alternativa para os blocos de textos, investimos na técnica dos espaços brancos, para estimular a leveza nas páginas. Como afirma o pesquisador e diagramador Rafael Souza Silva: “O preto sobre o branco exprime um efeito positivo (...) É a forma mais convencional utilizada na reprodução das mensagens, pela suavidade de sua forma plástica, caracterizada pelo espaço em branco na impressão tipográfica, com excelentes resultados de legibilidade” (SILVA, 1983, p. 32). No que se refere à disposição dos textos nas páginas, optamos pelo modelo assimétrico, que utiliza coordenadas mistas – as colunas e blocos de texto podem ser diagramadas de forma horizontal e vertical, “provocando grande valorização estética, com a utilização do espaço em branco de forma adequada.” (Idem, Ibidem, p.51) 25 26 Disponível em: < http://www.andi.org.br/_pdfs/Relatorio_IM.pdf>. Acesso em: 22 set. 2004. Ver Projeto Gráfico (Anexo II) 34 1.2) Projeto Editorial e Projeto Gráfico Os professores Linda Rubim e Elias Machado alertaram para a necessidade de se estabelecer as características editoriais e gráficas do produto, antecedendo a produção propriamente dita do caderno. Os Projetos Editorial e Gráfico foram construídos concomitantemente. No Projeto Editorial (Anexo II), estão estabelecidas a Política Editorial; Objetivo da publicação; Características Editoriais (periodicidade, público-alvo, tiragem, formato, linguagem, temas abordados, justificativa do nome); Organização das Páginas (definição das editorias e número de textos jornalísticos propostos – 1 editorial, 3 reportagens, 1 entrevista, 1 coluna opinativa); o papel da foto, diagramação e infográficos; Captação de recursos (orçamento, anunciantes, distribuição). O primeiro nome pensado para a publicação foi Vida Por um conto, para fazer alusão à temática da publicação (violência) e ao estilo adotado (Jornalismo Literário), já que a proposta é contar histórias de vida entremeadas pela violência. O orientador achou que o nome do caderno deveria ser mais aberto, conciso e suave, para não afastar os leitores. Como a recomendação foi julgada pertinente, optamos por reduzir o nome para Por um conto, acatado e elogiado pelo orientador. No Projeto Gráfico (Anexo II) estão definidos: o formato do caderno (com especificações sobre as margens das páginas); as cores privilegiadas na publicação; tipologia utilizada; formatação da capa, box, coluna e contra-capa. No primeiro esboço do Projeto Gráfico, apenas uma página estava diagramada. O orientador sugeriu que diagramássemos todas as páginas da publicação, que deveria ser impressa em tamanho tablóide ou reduzido, para que o Projeto fosse melhor avaliado. No total foram impressas três versões do Projeto Gráfico, com todas as páginas diagramadas, seguindo as sugestões de ajuste dadas pelo orientador. As recomendações foram analisadas e consideradas pertinentes, pela evidente melhora que proporcionaram à organização das páginas. Na primeira versão (arquivo Versão1.pdf, em CD), o orientador sugeriu que: déssemos mais destaque ao nome da publicação na capa, aumentássemos o número de chamadas e o contraste entre a manchete e a foto; reorganizássemos a página 2, para que houvesse mais harmonia entre os elementos; suavizássemos a página da entrevista; 35 aumentássemos o tamanho das fotos, que passaram a ocupar até três colunas; diminuíssemos e suavizássemos a moldura das fotos; reduzíssemos os olhos; inseríssemos elementos como olhos e imagens a cada duas colunas de texto, para dinamizar a página; suavizássemos os filetes dos boxes e colunas; determinássemos o formato das matérias conjugadas e refizéssemos a contra-capa. Na segunda versão (arquivo Versão2.pdf, em CD), outras mudanças foram aconselhadas, tais como: explorar melhor o título da manchete dando maior mobilidade à capa e adicionar mais uma chamada, mantendo três destaques nesta página; utilizar os subtítulos em todas as reportagens – o que nos forçou a re-configurar a posição de alguns títulos. Mais especificamente, a página de opinião foi sensivelmente modificada depois de ser criticada pela falta de movimento. A solução que encontramos foi abrir mão do poema que iria compor esta página, expandir o editorial e reorganizar o índice com fotos de tamanhos diferentes que passaram a descer pela lateral direita, perdendo assim a monotonia linear da seqüência fotográfica. O expediente também foi reestruturado para abarcar um conteúdo maior, sem “pesar” a página, uma vez que optamos por usar uma retícula laranja determinando a seção. A página da entrevista também sofreu modificações, com o objetivo de torná-la ainda mais dinâmica: a foto foi centrada dentro do texto, fazendo com que a apresentação do entrevistado ocupasse quatro colunas. Outra modificação importante se refere aos infográficos que deram mais movimento às páginas. A coluna presente na página 11 ganhou créditos e uma foto do colunista. Além disso, uma das matérias conjugadas da página 10 foi re-diagramada para que o texto ocupasse as quatro colunas na base da página, favorecendo um formato assimétrico. Algumas fotos foram deslocadas para não concorrerem com as que estavam na página seguinte. A contra-capa se tornou um desafio, já que novamente não foi aprovada pelo orientador, que questionou a finalidade da seção. Mudamos radicalmente a página, investindo em quadros azuis assimétricos que demarcam o local das imagens e das frases, estabelecendo finalmente uma harmonia para a contracapa. Na terceira e última versão (arquivo Versão3.pdf, em CD), os ajustes finais foram estritamente de revisão: estabelecer um tamanho padrão para os olhos das reportagens, criar mais espaços brancos entre infográficos e texto, além de torna-los mais inventivos; repensar o tamanho das legendas; e dar mais destaque aos créditos das fotos, sem comprometer a 36 imagem. Nesta etapa, em que definimos as características editoriais e gráficas do produto, tivemos que trabalhar com duas possibilidades: a de que o jornal fosse encartado em um diário de Salvador (Correio da Bahia, A Tarde), ou que o caderno fosse impresso com o auxílio de patrocínio. 2) Elaboração das pautas e reportagens A produção de conteúdo para o caderno começou com a elaboração das pautas. Os realizadores sugeriram temas para cada texto jornalístico previsto no caderno. Para as reportagens foram definidas três pautas: a reinserção social de egressos do sistema penitenciário de Salvador; o treinamento de policiais militares e civis na Bahia; o funcionamento do Núcleo de Apoio Abrace a Vida, do Fórum Comunitário de Combate à Violência. As pautas seguem uma lógica que só foi vislumbrada posteriormente por nós: falamos do treinamento de policiais, fundamentais para a prevenção da violência; do funcionamento do Núcleo Abrace a Vida, que trabalha com vítimas de violência; e a situação dos presos e egressos, agressores punidos pelo sistema prisional do país. As pautas foram consideradas boas pelo orientador, com a recomendação de que não deveríamos deixar a “vida passar ao largo do caderno”. O professor também sugeriu que a reportagem sobre os egressos incluísse a vida dos presos nas penitenciárias da Bahia - recomendação que foi aceita pela dupla. Para a entrevista, foram sugeridas as seguintes personalidades: Edson Sá Rocha, secretário de Segurança Pública; Isabel Alice, titular da Delegacia de Atendimento à Mulher; Norma Angélica Cavalcanti, promotora da área criminal do Ministério Público; Gey Espinheira, sociólogo e pesquisador na área de violência. O orientador disse que trazer na entrevista que abre o caderno uma fonte oficial, como o secretário Edson Rocha, sinalizaria que o jornal é independente, e por isso não vê problemas em abrir as portas para as posições do Governo. No entanto, a escolha poderia ser mal vista por vítimas da violência policial, por exemplo, associando a publicação ao chamado “jornalismo chapabranca”. A segunda sugestão (a delegada Isabel Alice) foi considerada “politicamente correta” pelo orientador, mas como sendo uma pauta de baixa repercussão. A sugestão de entrevista com a promotora Norma Angélica foi considerada como uma pauta de médio 37 impacto, que seria bem vista pelas organizações não-governamentais e pelas vítimas da violência em Salvador, e que sinalizaria uma maior independência por parte do jornal. A entrevista com o sociólogo Gey Espinheira foi desaconselhada, por ser uma personalidade que já encontra muito espaço na mídia baiana. Analisando as recomendações, optamos por entrevistar a promotora Norma Angélica, para promover pluralidade ao caderno e dar voz a todos os órgãos que compõem o sistema de Segurança Pública, já que nas reportagens falamos sobre o treinamento de policiais (responsabilidade do Poder Executivo) e Reinserção social de presos e egressos (vinculada, através da Vara de Execuções Penais, ao Poder Judiciário). Para a coluna opinativa do jornal, foram sugeridos os nomes do jornalista Caco Barcellos, para falar sobre mídia e violência; Ruy Pavan, representante da Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) na Bahia, para falar sobre violência contra crianças e adolescentes; Ana Penido, diretora da ONG Cipó Comunicação Interativa, para falar sobre a prevenção da violência através da arte-educação. As pautas foram consideradas boas pelo orientador, que sugeriu que priorizássemos o contato com Caco Barcellos. Através da intermediação de uma ex-jornalista da Rede Globo, entramos em contato por carta, na qual solicitamos a colaboração do jornalista, que aceitou escrever a coluna. A contra-capa da publicação, intitulada Fragmentos, não teve nenhuma pauta definida. Nossa intenção era reunir neste espaço fotos e pequenas notas obtidas na produção das outras reportagens. Somente uma das pautas teve que ser redirecionada. Pretendíamos falar sobre o funcionamento do Núcleo de Apoio Abrace a Vida, do Fórum Comunitário de Combate à Violência, que apóia familiares de vítimas de violência nas comunidades do Alto das Pombas, Calabar, Engenho Velho da Federação, Nordeste de Amaralina. Nosso propósito era contar, através do trabalho do Núcleo, as histórias das vítimas de violência em Salvador, abordando o fato dos jovens serem a parcela da população mais atingida pelo problema. O trabalho do Grupo pela Vida, do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Yves de Roussan (CEDECA) – que reúne pais de jovens assassinados – também seria retratado. Por fim, trataríamos do modo como os pais educam seus filhos em bairros violentos, lidando com as variadas tentações e escassas oportunidades. Visitando o 38 Núcleo da região do Nordeste de Amaralina, percebemos que não seria possível centrar a reportagem na instituição, que ainda estava num estado incipiente de funcionamento, sem promover atendimento sistemático às vítimas. Optamos por redirecionar a pauta para um dos aspectos que já queríamos tratar: o modo como mães criam seus filhos em bairros violentos. Para realizar esta reportagem, conversamos com mães moradoras do Nordeste de Amaralina e Engenho Velho da Federação, dois dos bairros que registram os maiores índices de homicídios em Salvador. Na visita aos dois locais, percebemos que os principais problemas de bairros pobres e violentos são comuns. Pesquisas mostram que em regiões onde há maior desigualdade social – como é o caso destas regiões, que estão localizados entre áreas nobres de Salvador – a violência se manifesta de maneira mais intensa. Optamos por não visitar bairros mais distantes (periféricos) por não ter qualquer contato com as associações de moradores destes locais e por inferir, através dos relatos, que os problemas mais graves tendem a se repetir, apesar de possuírem suas particularidades. No Nordeste de Amaralina e Engenho Velho da Federação, conversamos com as mães nas associações de moradores dos bairros, o que foi bastante enriquecedor, já que algumas das mulheres entrevistadas eram líderes comunitárias e tinham, portanto, uma visão mais aprofundada sobre as dificuldades comuns da criação de crianças e adolescentes. Depois que reunimos as entrevistas das mães, resolvemos conversar também com os adolescentes, para saber como é ser criado em áreas violentas. Reunimos 15 jovens, de 13 a 21 anos, na Associação de Moradores de Amaralina, num sábado. Eles participavam de uma aula de teatro na Associação e gentilmente se dispuseram a conversar conosco, ocupando o horário do curso. A reportagem esteve sujeita a algumas limitações, já que era impossível transitar livremente pelos bairros, escolhendo aleatoriamente mães para serem entrevistadas. Existe nestas regiões uma demarcação invisível para quem vem de fora – as ruas têm “dono”, sendo dominadas por traficantes rivais. Além disso, é grande o medo dos moradores em falar sobre a violência, temendo represálias. A maioria das pessoas que entrevistamos participavam de alguma atividade na Associação de Moradores. Depois de finalizadas as entrevistas, reunimos material sobre o contexto social e econômico dos bairros e passamos à etapa de redigir a reportagem. O grande volume de informação e depoimentos tornou trabalhosa a organização do texto. O 39 primeiro formato da reportagem – mosaico de textos separados contando a experiência de diversas mães, com os depoimentos dos adolescentes ao fim – não foi aceito pelo orientador, que sugeriu que as histórias fossem reunidas pelas suas proximidades, e que a reportagem fosse estruturada concentrando as diferentes estratégias usadas pelas mães. A disposição do texto foi modificada e aprovada pelo orientador. Como já tínhamos iniciado as conversas com o CEDECA, que mantém o Grupo pela Vida, decidimos fazer outra reportagem contando as histórias dos pais que fazem parte do Grupo e alertando para o fato dos jovens serem as principais vítimas de homicídios na cidade. No entanto, não houve tempo hábil para que a instituição nos fornecesse dados sobre o número de pais que freqüentam o grupo, perfil das vítimas, perfil dos agressores, número de casos que já tinham sido julgados pela Justiça. Fomos a uma manifestação destes pais em frente ao Fórum Rui Barbosa, no centro de Salvador, onde conversamos com alguns deles. Para manter a pluralidade do caderno, com o tempo de que dispúnhamos, optamos por investir nas pautas que já tinham sido previamente estabelecidas. As entrevistas com os participantes do Grupo pela Vida foram utilizadas na reportagem sobre a criação de filhos em bairros violentos, já que o medo de que seus filhos morram precocemente acaba influenciando na criação e é um fato com que estes pais têm que lidar de maneira muito mais concreta do que aqueles que moram em bairros nobres de Salvador. A reportagem sobre a ressocialização dos egressos do sistema prisional baiano foi a primeira a ser finalizada. Iniciamos as entrevistas com o antropólogo Milton Júlio de Carvalho Filho, que no ano passado concluiu a pesquisa Depois dos Cárceres: Tentativas de Emancipação. O pesquisador falou sobre as principais conclusões da tese e recomendou diversas fontes e órgãos que poderíamos contatar para enriquecer a reportagem. Também se prontificou a intermediar entrevistas com egressos de São Paulo, que responde por 40% do total de presos no país. Depois fomos à sede do Conselho Penitenciário, onde funciona o Patronato de Presos e Egressos. Assistimos a uma reunião do Conselho sobre indulto, comutação e denúncia de corrupção e violência nas prisões. Também conversamos com a diretora do Patronato, Mônica Alves. Ela se ofereceu para nos acompanhar em uma visita a Colônia Lafayete Coutinho e Penitenciária Lemos Brito, para acompanharmos o trabalho desenvolvido pelos estagiários do Patronato. Na Colônia, conversamos com alguns presos e visitamos a escola e o local onde alguns deles trabalham. A visita prevista à Penitencia 40 Lemos Brito não foi concretizada, por mudanças de planos nas atividades do Patronato. Como a visita sem a intermediação dos membros do órgão não foi julgada produtiva, decidimos priorizar as entrevistas com os egressos, que são o foco da reportagem. Através do padre Philip Cromheecke, da Pastoral Carcerária, entramos em contato com alguns deles. Apenas dois se propuseram a dar entrevista para o jornal. A desconfiança e o medo de serem reconhecidos ou sofrerem discriminação foram algumas das causas de recusa. Também conversamos com Celina Mattos, responsável pelo programa de ressocialização de presos do governo estadual. Outro problema enfrentado na realização desta reportagem foi a dificuldade em se conseguir dados. Queríamos saber quantas pessoas saíam diariamente das prisões baianas. A Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Estado da Bahia (SJDH), responsável pela administração das unidades prisionais, alegou não ter os dados. Para conseguir a informação, nos dirigimos à Vara de Execuções Penais, responsável pelo acompanhamento dos liberados condicionais. Os dados não são informatizados e tivemos que somar o número de presos que tinham sido liberados durante todas audiências realizadas entre 2004 e 2005. Outra informação bastante solicitada por nós foi o custo mensal dos presos na Bahia. A resistência para divulgar a informação foi grande e tivemos que ir pessoalmente à sede da SJDH, no Centro Administrativo da Bahia, para conseguir este único dado. A reportagem foi finalizada e entregue ao orientador, que aprovou o texto e a organização das informações. O professor alertou para o fato de que a reportagem estava muito centrada nas contribuições do pesquisador Milton Júlio e pediu para que conversássemos com mais expresos. Em relação ao texto, o orientador fez pequenas modificações. Entrevistamos mais dois egressos para que a reportagem não ficasse tão voltada à tese do antropólogo. A reportagem sobre os cursos de formação de policiais civis e militares foi de longe a que apresentou maiores problemas para a execução. Basearíamos a reportagem sobre o treinamento de PMs numa pesquisa da psicóloga Conceição Casulari, divulgada em 2002, intitulada Policiamento e Violência Urbana. Na pauta, o orientador já tinha alertado para o fato da pesquisa ser antiga, sendo necessário, portanto, avaliar o que havia mudado no treinamento de PMs nestes três anos. O primeiro passo foi procurar a Assessoria de Comunicação da PM. A corporação é rigidamente hierarquizada e é preciso que haja a intermediação da ASCOM para que outros órgãos (como a Academia de Polícia Militar) ou 41 policiais falem em nome da Corporação. Durante um mês solicitamos, insistentemente, uma entrevista com o Coronel Sigfried Frazão, responsável pelo Departamento de Comunicação Social da PM. Por fim, o assessor do Coronel pediu para que enviássemos as perguntas por e-mail, para serem “despachadas”. Argumentamos que a entrevista não deveria ser realizada nestas condições, porque impedia a réplica por parte dos repórteres, mas, por fim, aceitamos a situação. Procuramos então a Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Praças, com a intermediação da ASCOM. O diretor da Escola, Cel Péricles de Oliveira, disse que não era a melhor pessoa para falar sobre a formação dos policiais e pediu que procurássemos o responsável pela Unidade de Desenvolvimento Educacional, Capitão Moraes. Logo no começo da entrevista, o Capitão disse que havia perguntas relacionadas a outros setores da Escola e que seria melhor que fizéssemos um ofício com o questionário em anexo, para que cada setor respondesse por escrito. Novamente argumentamos com o Capitão, que se negou inclusive a responder às perguntas relativas à sua “área”. Para tirar fotos da Escola, também era necessário fazer a requisição por escrito. Na falta de dados mais recentes e ausência de respostas por parte das autoridades militares em tempo hábil, optamos por falar nesta edição exclusivamente sobre o treinamento de policiais civis. A reportagem relacionada aos policiais militares será finalizada e deverá integrar, hipoteticamente, uma futura edição do caderno. Não houve resistência em entrevistar os responsáveis pela formação de policiais civis. Arriscamos uma visita à Academia de Polícia Civil da Bahia (Acadepol), sem ter realizado nenhum contato prévio por telefone, e fomos recebidos prontamente pelo diretor da instituição, Antônio Medrado, e pela coordenadora pedagógica da entidade, Eliena Cidade. Como não encontramos nenhuma pesquisa sobre a formação de policiais civis, nem especialistas que pudessem falar sobre a qualidade destes cursos, tivemos que procurar as grades curriculares e a carga horária de outras academias de polícia civil do país, para ter um critério “material” de comparação. Esta foi uma etapa trabalhosa do processo de pesquisa, já que os currículos das academias do país não são padronizados e nem todas possuem páginas virtuais com informações sobre os cursos de formação que oferecem. A pesquisa na Internet também foi utilizada para conseguirmos a informação de quantos estados disponibilizam cursos integrados para policiais militares e civis. Para confirmar os dados obtidos na web, entramos em contato com a Secretaria Nacional de Segurança 42 Pública (Senasp), por e-mail, mas não obtivemos resposta. A checagem da relação dos estados que oferecem formação unificada foi obtida por intermédio da jornalista Fernanda Argolo, que procurou pessoalmente a assessoria de Comunicação da Senasp. Para fundamentar a reportagem, também era necessário conversar com policiais civis, que avaliariam as qualidades e deficiências dos cursos de formação. O primeiro passo foi entrevistar o diretor de Comunicação do Sindicato dos Policiais Civis, entidade representativa da classe, Moisés Almeida. Era preciso também falar com outros policiais – investigadores e delegados. Um dos policiais entrevistados, coincidentemente, ensina “Investigação e Criminalística” na Acadepol há mais de 10 anos. Como as declarações dos investigadores e delegados foram bastante contraditórias, especialmente em relação ao treinamento com armas, decidimos entrevistar mais policiais civis e instrutores de tiro da Acadepol. Um problema em relação à reportagem, principalmente no que se refere às fotos, foi o fato de que não havia cursos na Academia durante o período em que realizamos a reportagem. Quando estávamos finalizando o caderno, ligamos para a Acadepol e soubemos que um curso para agentes policiais havia começado. Apenas uma única turma estava em aula, da qual fizemos as fotos. A opção por entrevistar a promotora Norma Angélica se consolidou quando soubemos que ela havia sido eleita para presidir a Associação de Promotores do Ministério Público. A promotora coordenou, durante os últimos três anos, o Centro de Apoio às Promotorias Criminais (Caocrim), além de atuar na Vara de Tóxicos e Entorpecentes. A entrevista foi realizada de maneira um pouco conturbada, porque a promotora não foi avisada pela assessoria de imprensa do caráter do encontro, pensando que as “três ou quatro” perguntas se refeririam apenas à posse na Associação de Promotores. Ela estava atrasada para um compromisso, mas, ainda assim, nos atendeu de maneira satisfatória, pedindo para que retornássemos se houvesse alguma dúvida, o que não foi preciso. A coluna, idealizada como um espaço de pluralidade para a publicação, se tornou um dos entraves para o término deste trabalho. Até o último momento, esperamos o retorno do jornalista Caco Barcellos, com quem entramos em contato desde abril de 2005, tendo confirmado sua colaboração no início de junho. Como não recebemos o texto, solicitamos às jornalistas Suzana Varjão e Tânia Cordeiro que contribuíssem, em caráter de urgência, com o caderno especial. Elas estudam a relação entre mídia e violência e fazem parte do 43 Fórum Comunitário de Combate à Violência. Tânia Cordeiro, que é mestra em comunicação, foi a primeira a responder, produzindo um artigo intitulado A construção de endereços embaraçantes. A princípio o texto nos pareceu impróprio para a divulgação em jornal, por seu caráter acadêmico, mas optamos por editá-lo e publicá-lo. Com isso, o texto ganhou mais leveza, se adequando ao formato do caderno. Além disso, o assunto da coluna – localizada na última página da reportagem de capa – está intimamente ligado ao conteúdo da reportagem, endossando o espaço dedicado a ela. A contribuição de Tânia Cordeiro também abre a discussão sobre a responsabilidade do jornalismo na criação de estigmas. Nossa intenção em Por um conto foi oferecer uma nova forma de tratar a violência, sem reforçar rótulos ou até mesmo criá-los. No entanto, lendo o texto da pesquisadora nos perguntamos em que medida nossa reportagem de capa – que classifica determinadas localidades como regiões ‘violentas’ – não acaba por reforçar uma imagem negativa do local e de seus habitantes. Nossa conduta jornalística foi sustentada pelos altos índices de criminalidade registrados nestas áreas, mas sabemos que estamos fatalmente alimentando rótulos. Com a coluna, pretendemos fomentar esta discussão, para gerar alternativas que inibam o preconceito gerado pela cobertura da violência, mesmo que pretensamente ‘responsável’, nestas regiões. A seção Fragmentos, que ocupa a contracapa, além de nos desafiar em relação à diagramação, teve o conteúdo amplamente debatido por nós. Inicialmente, determinamos que a página deveria trazer imagens e notas configurando uma denúncia, um movimento social contra a violência, a cobertura de um evento e alguma estatística ligada a temática. A proposta se modificou no fechamento dos textos. Nas nossas visitas ao Nordeste de Amaralina coletamos muitas informações a respeito das organizações sociais existentes no bairro, mas não cabia abordar as ações destes projetos na reportagem de capa, para não fugir à pauta. Dessa forma, decidimos dar visibilidade ao trabalho destas instituições na seção Fragmentos, mesmo porque, nas entrevistas, uma das reclamações dos moradores foi o fato de que a impressa só cobre “as coisas ruins” do bairro. De maneira geral, os principais problemas encontrados para a realização das reportagens foram a falta de dados sistematizados e acessíveis sobre o assunto, o medo das pessoas em falar sobre o tema e a dificuldade de coletar informações em instituições extremamente burocráticas, como a Polícia Militar, o que de certa forma nos ajudou a 44 entender as limitações a que estão sujeitos diariamente os repórteres que alimentam as “páginas policiais” dos jornais baianos. Na realização deste projeto estivemos muitas vezes diante da falta de dados para contextualizar nossas reportagens, o que revela o despreparo das instituições públicas a organizarem e fornecerem informações de maneira ágil à imprensa. Entendemos que o combate à violência também se faz através de um diagnóstico transparente da situação. No entanto, acreditamos que a falta de dados também é reflexo da pequena procura da imprensa por estas informações. É preciso que os veículos de comunicação se interessem e pressionem com freqüência estes órgãos para que os números sejam disponibilizados de maneira sistemática e democrática. O medo das pessoas em falar sobre suas experiências também foi um fator limitador, mas bastante compreensível. Uma preocupação constante de nossa parte foi ocultar, sempre que preciso ou solicitado, os nomes ou características das pessoas que se dispuseram a conversar conosco, para não expô-las a qualquer espécie de risco em função das informações que nos prestaram. Mas também acreditamos que a partir do momento em que a mídia se comprometer a realizar um trabalho mais responsável em relação à temática da violência, assumindo um papel pró-ativo na diminuição do problema, o medo e recusa das fontes provavelmente diminuirá. Essa atitude mudaria o fato de que muitos enxergam os jornalistas como “urubus à caça da miséria alheia”, que geralmente aparecem nas comunidades mais pobres acompanhados da polícia, tantas vezes vista como inimiga. Gostaríamos de ter entrevistado mais fontes para enriquecer as reportagens – principalmente egressos, familiares, pais e policiais – mas o medo e desconfiança foram fatores limitadores. Ao mesmo tempo, uma das propostas do nosso jornal é contar e aprofundar histórias de vida através do Jornalismo Literário, que pressupõe um maior contato com as fontes. Portanto, mais vale a qualidade e o aprofundamento das histórias contadas do que o número de declarações colhidas. Durante a elaboração das reportagens, também nos preocupamos com a extensão dos textos. O orientador chamou atenção para a necessidade das reportagens serem mais concisas, incentivando a leitura e auxiliando no momento da diagramação. Outro direcionamento foi em relação ao estilo a ser adotado, para não tangenciar o “pieguismo” ou sensacionalismo. A opção por trabalhar com os recursos do Jornalismo Literário e com histórias de vida trazia implícito este desafio, que julgamos haver contornado de maneira 45 satisfatória. O orientador recomendou que tivéssemos cuidado em não transferir para a construção jornalística do texto o “bom mocismo” decorrente de nossa experiência com organizações do terceiro setor, evitando o politicamente correto que não encontra respaldo na sociedade. Quanto às fotografias da publicação, as noções básicas de fotojornalismo aprendidas na Facom-UFBA não foram suficientes para alcançar um nível de qualidade que julgássemos satisfatório. Nossa experiência com fotojornalismo se resumiu à elaboração do Jornal Laboratório, no terceiro semestre. Faltou-nos embasamento teórico e principalmente técnico para fazer fotos melhores. Os equipamentos de que dispúnhamos - uma câmera Canon EOS3000 com uma objetiva de 35-80mm, sem flash, e uma câmera digital Sony P41, com memória de 16 MB – em muitos momentos estiveram aquém de nossas necessidades, principalmente nas situações que não permitiam a aproximação do objeto registrado. Mesmo utilizando cinco filmes coloridos com 36 poses (ISO 200) durante a realização das reportagens, não contamos com muitas opções para o fechamento do caderno. Nossas limitações com as ferramentas de editoração eletrônica também impediram o ajuste de algumas fotografias para a utilização. Além disso, não conseguimos fazer fotos diversificadas, uma vez que lidamos com pautas que, de antemão, fizeram com que alguns personagens evitassem ser fotografados, como o policial civil que criticou a instituição ou os egressos do sistema penitenciário que temiam ser alvos de preconceito. Com a experiência, foi possível constatar que o desprendimento e criatividade, indispensável ao ofício jornalístico, precisam ser ainda mais marcantes para o repórter fotográfico. Outra dificuldade, ainda em relação às fotografias, diz respeito ao cumprimento das diretrizes do Projeto Gráfico. Embora a “boneca” do caderno já delimitasse o formato de cada imagem – vertical ou horizontal – durante o processo de realização das fotos não estivemos atentos a essas especificações. Exemplo disso foi a re-diagramação da capa. A fotografia escolhida para a primeira página foi captada em plano paisagem, o que nos forçou a repensar a disposição das chamadas e da manchete. No entanto, é preciso destacar a importância do Projeto Gráfico na elaboração do caderno, que proporcionou uma considerável economia de tempo. Seria praticamente impossível, neste momento final, construir as diretrizes a serem seguidas. 46 A diagramação trouxe o desafio de se trabalhar com textos extensos. As reportagens ocuparam de seis a oito laudas. Tivemos que aumentar o número de páginas do jornal, de 16 para 24 páginas, mantendo os espaços destinados à publicidade. Além disso, a pouca experiência em diagramação nos fez cometer erros primários – como esquecer de hifenizar o texto –, o que nos forçou a reestruturar as páginas diversas vezes. Por fim, tivemos que reposicionar todas as reportagens do caderno, já que ao revisar a publicação percebemos que o destaque da edição não estava localizado nas páginas 12 e 13 (meio do caderno). Assim, dois textos extensos (a reportagem sobre os egressos do sistema penitenciário e a reportagem de capa) tiveram que ser dispostos consecutivamente, após a entrevista, sem nenhuma página de publicidade funcionando como intervalo. Como não foi possível reordenar as reportagens de outra maneira, já que o destaque deveria ocupar necessariamente o centro do caderno, e não tínhamos tempo para interferir bruscamente na diagramação, as duas páginas de publicidade acabaram se concentrando entre o começo e o fim da reportagem sobre a formação policial. Para a harmonia do caderno e em consonância com o mercado, o ideal seria que houvesse mais 6 páginas de publicidade – numa proporção aceitável, deveríamos ter ao menos 1/3 de páginas de publicidade. Como a publicação precisa ter um número de páginas que seja múltiplo de quatro, seguir este padrão nos forçaria a ter um caderno com 32 páginas, o que prejudicaria a leveza, uma das características mais atraentes do tablóide. Somando-se a isto, verificamos que publicações que apresentam o mesmo caráter especial de Por um conto normalmente não possuem qualquer publicidade, a exemplo dos já citados Jardim da Infâmia e África. São publicações bancadas como projetos independentes, na maior parte das vezes patrocinados ou bancados pelo próprio jornal, que espera retorno em imagem27. 27 SOUZA, Marta. Entrevista concedida a Tiago Galvão e Tatiana Mendonça. Salvador, 12 nov. 2004. 47 APRENDIZADO A elaboração de Por um conto, além de uma tentativa de diversificação na forma de se reportar a violência em Salvador, reforçando a necessidade de se tratar do tema de maneira mais aprofundada e conseqüente, ocasionou nosso crescimento pessoal e profissional. A execução das pautas propostas nos levou a consolidar nosso conhecimento sobre temas a que nunca tínhamos parado para pensar. A volta dos egressos para casa – e o fato de cruzarmos com eles nas ruas em tantos momentos, sem nos darmos conta; o treinamento de policiais – que pareciam ter nascido assim; o modo como as mães criam seus filhos em bairros violentos, sofrendo inúmeras preocupações e restrições, há alguns poucos quilômetros do lugar onde moramos confortavelmente. Hoje vemos tudo isso de uma maneira diferente, sentindo na pele a força transformadora do jornalismo que preza o contexto. A realização da publicação também foi um momento privilegiado para que refletíssemos sobre as etapas e mecanismos da concepção e construção de um jornal impresso, desde a definição do Projeto Editorial e Gráfico à escolha das pautas, apuração das informações, redação das reportagens, edição, seleção das fotos, diagramação. Fomos ambiciosos – e porque não dizer pretensiosos – ao optar por participar de todas as etapas desta publicação, mesmo que não dominássemos algumas ferramentas indispensáveis para conseguir o melhor resultado técnico, como foi o caso das fotografias, da diagramação e até mesmo na redação e edição dos textos. Em diversos momentos, nos perguntamos se de fato colocamos em prática nossa proposta de trabalhar com o Jornalismo Literário, dando vida aos textos. Diversos fatores contribuíram para que os recursos propostos não fossem bem explorados: nossa inexperiência ou falta de coragem para ultrapassar os padrões e investir em novas formas de narrar a realidade; pouco tempo de observação e convivência com as fontes; a escassez de reportagens sobre violência que se aproximassem do modelo idealizado por este caderno. No entanto, para além das limitações estilísticas ou técnicas, foi enriquecedor conhecer e contar a vida de pessoas afetadas diretamente pela violência. Continuamos acreditando que o Jornalismo Literário é um caminho a ser seguido na cobertura de fatos violentos pelos veículos que se comprometerem a contribuir com a diminuição dos índices de 48 criminalidade no nosso país. Temos a certeza de que Por um conto cumpre satisfatoriamente as metas de informar com qualidade e responsabilidade social. De todo modo, nunca pretendemos que a forma narrativa dos textos jornalísticos se sobrepusesse aos contextos políticos, econômicos, sociais e culturais dos problemas apresentados. Finalizadas todas estas etapas, cabem algumas considerações sobre o tempo em que passamos na Faculdade de Comunicação da UFBA. A elaboração do caderno também nos fez sentir as deficiências da nossa formação. A Facom oferece aos estudantes ótimas disciplinas teóricas, decorrente da elevada qualificação dos professores que as ministram – especialistas em suas respectivas áreas. Estas disciplinas inseriram e qualificaram os estudantes em importantes debates sobre as teorias da comunicação e do jornalismo, semiótica, estética, tecnologia, política, ética, cultura contemporânea. No entanto, acreditamos que é preciso fortalecer a relação entre a teoria e a prática jornalística na Faculdade. A impressão é que os alunos freqüentam dois cursos distintos, sem que haja muito diálogo entre o pensar e o fazer. Alguns temas relevantes, como a Lei de Imprensa, administração de empresas jornalísticas, literatura, direito, economia, filosofia e sociologia foram pouco abordados no curso. É claro que estas lacunas podem ser preenchidas pelos estudantes, através de disciplinas eletivas, mas a distribuição geográfica dos campi e a pequena oferta destas matérias para alunos da Facom inibem este processo. Os estágios profissionais, no entanto, são etapas importantes para complementar a formação. A experiência no Movimento Estado de Paz foi fundamental para que nos aprofundássemos sobre alguns destes temas. Sem ter noções sobre a Lei de Imprensa; Direito Constitucional e Penal; Organização dos Poderes e Sociologia da Violência, os contatos com as fontes e a realização das reportagens seriam prejudicados ou demandariam um tempo maior de pesquisa. A oferta das disciplinas práticas (oficinas), no entanto, não mantêm o padrão das aulas teóricas. A maioria das oficinas foi ministrada por professores substitutos, que eram profissionais da comunicação – o que era positivo de um lado, pela experiência prática que tinham, mas que deixavam a desejar em termos de didática e especialização nas áreas em questão. Nossa percepção é de estas disciplinas foram bem pensadas para o currículo, mas são mal aproveitadas na prática. Para nós, cada oficina deveria sustentar-se na elaboração de um produto previamente estabelecido, estruturado pelos professores responsáveis e 49 submetido à aprovação do Colegiado. Obviamente deve existir espaço para que os estudantes opinem e aperfeiçoem o projeto semestralmente. No entanto, o que inviabiliza o bom andamento das oficinas estabelecidas pela grade curricular é que se gaste a maior parte do tempo a ler textos teóricos e a pensar coletivamente qual será a formatação do produto a ser executado – o que, algumas vezes, nem acontece, ou realiza-se apenas uma única edição, perdendo-se a chance de aprender com as experiências anteriores. Disciplinas optativas práticas, voltadas para a produção de reportagens, fotojornalismo e diagramação também representam falhas na formação. Na elaboração do caderno sentimos diariamente o peso da inexperiência, seja no contato com as fontes, na realização e edição das fotografias e textos jornalísticos, na diagramação. Aprendemos errando a melhor maneira para contornar a desconfiança das fontes; planejar entrevistas; redirecionar pautas; organizar grande quantidade de informações de maneira lógica, clara e atrativa; rever ângulos para fotos jornalísticas; tornar mais leve a diagramação das páginas. Para diminuir estes problemas, espera-se que a Faculdade siga aperfeiçoando a ementa das disciplinas e a grade curricular do curso de Jornalismo, e continue promovendo debates, seminários, cursos de extensão e atividades de pesquisa, fundamentais para uma formação universitária abrangente. 50 REFERÊNCIAS ANGRIMANI, Danilo Sobrinho. Espreme que sai sangue: um estudo do sensacionalismo na imprensa. São Paulo: Summus, 1995. BARCELLOS, Caco. Rota 66: A história da polícia que mata. São Paulo: Globo, 1992. _________________. Abusado: O dono do morro Dona Marta. Rio de Janeiro: Editora Record, 9ª edição, 2004. CAMPOS JR., Celso de; MOREIRA, Denis; LEPIANI, Giancarlo; LIMA, Maik Rene. Nada mais que a verdade: a extraordinária história do jornal Notícias Populares. São Paulo: Carrenho Editorial, 2002 CAPOTE, Truman. A Sangue Frio. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. CASTELO, José de. O repórter de três cabeças. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 05/08/97. CASTRO, Gustavo de; GALENO, Alex (orgs.). Jornalismo e Literatura – A Sedução da Palavra. São Paulo: Escrituras, 2002. COIMBRA, Oswaldo. O texto da reportagem impressa - um curso sobre sua estrutura. São Paulo: Ática, 1993. CORDEIRO, Tânia; SAMPEDRO, Victor. Violência e Mídia: uma questão de responsabilidade social. In Bahia Análise e Dados, v.1 (1991- ). Salvador: Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia, 2001. ____________. Violência: imagens singulares de um drama social. In: A outra face da moeda. Organizada por OLIVEIRA, Nelson de, et.al. Salvador, 2000. ____________. Os sem-mídia, 2000 ESPINHEIRA, Gey. Sociabilidade e violência na vida cotidiana em Salvador. Bahia Análise e Dados. Salvador: Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia, 2001. FARO, J.S. Revista Realidade 1966-1968: Tempo de reportagem na imprensa brasileira. Canoas: Editora da Ulbra/AGE, 1999. FRANCO, SA. A violência: um problema de saúde pública que se agrava na região. Boletim Epidemiológico OPS 1990 HELLMAN, John (org.) The New Journalism as New Fiction: Fables of Fact. Illinois: University of Illinois Press, 1981 51 JÚNIOR, Edísio Ferreira. Fotojornalismo policial: o corpo morto. In: Revista CAOS, n°1, abril de 2000 LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas: O livro-reportagem como extensão do jornalismo e da Literatura. Campinas: Editora da Unicamp, 1993. LUIZA, Aline e TOYAMA, Lucas. Um jornalismo muito humano. Disponível em: < http://www.facasper.com.br/jo/reportagens.php?tb_jo=&id_noticias=55>. Acesso em: 16 set. 2004. MÁRQUEZ, Gabriel García. Notícia de um seqüestro; tradução de Eric Nepomuceno. – Rio de Janeiro: Record, 1996 MIRANDA, Andréa Borges. A culpa dos meios: um estudo da conduta midiática a partir da ótica do direito. Fevereiro de 2003 PEDROSO, Rosa Nívea. A construção do discurso de sedução em jornal sensacionalista. Rio de Janeiro: Editora Anna Blume, 2001. PROJECT FOR EXCELLENCE IN JOURNALISM. The State of the News Media 2004: An annual report on American Journalism. Columbia University Graduate School of Journalism, 2004. Disponível em: <http://www.stateofthenewsmedia.org/2004/index.asp>. Acesso em: 10 nov. 2004 RAMOS, Sílvia; PAIVA, Anabela. Mídia e Violência: como os jornais retratam a violência e a segurança pública no Brasil. Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, 2005. Disponível em: <http://www.ucamcesec.com.br/arquivos/home/Midia_violencia_rel.zip>. Acesso em: 31 maio 2005. SANTANA, Francisco dos Santos; KALIL, Maria Eunice Xavier; OLIVEIRA, Zenaide Calazans. O Rastro da Violência em Salvador II – Mortes de Residentes em Salvador, de 1998 a 2001. Fórum Comunitário de Combate à Violência, dezembro de 2002. SILVA, Rafael Souza. Diagramação: O planejamento visual gráfico na comunicação impressa. 3 ed. São Paulo: Summus Editorial, 1985. TEMER, Ana Carolina Rocha Pessoa. Sensacionalismo sem sangue - uma analise do telejornalismo ao vivo. Disponível em: <http://www.versoereverso.unisinos.br/index.php?e=4&s=9&a=36> . Acesso em: 30 maio 2005. WYLLYS, Jean. (À) Margem da Vida: o criminoso e o lugar da prática do crime no Correio da Bahia. Janeiro de 2001. ZANINI, Fábio. Brasil é 2º em mortes por arma de fogo, segundo ranking da Unesco, Folha de S. Paulo. São Paulo, 06 maio 2005. 52 OBRAS CONSULTADAS 1. Livros COLLARO, Antonio Celso. Projeto Gráfico: teoria e prática de diagramação. São Paulo. Summus, 1987. KOTSCHO, Ricardo. A Prática da Reportagem. São Paulo: Ática, 1995. LIMA, A. O jornalismo como gênero literário. Rio de Janeiro: Agir, 1960. MEDINA, Cremilda. Entrevista: o diálogo possível. São Paulo: Ática, 1990 (Série Princípios). NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. Trad. Paulo César Souza. São Paulo: Brasiliense, 1988. NOBLAT, R. A arte de fazer um jornal diário. 3. ed., São Paulo: Contexto, 2003. 2. Livros-Reportagem ARRUDA, R. Dias: Uma história verídica de assassinatos autorizados. São Paulo: Globo, 2001. MORAIS, Fernando. Corações Sujos. São Paulo, Companhia das Letras, 2000. ________________. A Ilha: um repórter brasileiro no país de Fidel Castro. 30. ed., 3. reimp, São Paulo: Companhia das Letras, 2001. VENTURA, Zuenir. Cidade Partida. São Paulo: Companhia das Letras, 2001 (1a edição 1994) 3. Monografias, Teses ou Dissertações CAMPOS, Pedro Celso. A entrevista no Jornalismo Literário avançado. Disponível em: < http://planeta.terra.com.br/educacao/pedrocampos/AEntrevistanoJLA.htm> Acesso em: 16 set. 2004 4. Artigos BECKER, Howard. Métodos de Pesquisa em Ciências Sociais: Estudo de praticantes de crimes e delitos. São Paulo: Editora Hucitec, 1994 53 BORGES, Wilson. Mídia impressa e violência: (Re)construção do espaço público. Trabalho apresentado no Núcleo de Jornalismo, XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação, Belo Horizonte/MG, 02 a 06 de setembro de 2003. CHAPARRO, Manuel. A violência viceja na mentira da mídia. Disponível em: <http://www.comunique-se.com.br/conteudo/newsshow.asp?editoria=343&idnot=17124>. Acesso em: 3 out. 2004. ____________. Temática da violência precisa ser ampliada. Disponível em: <http://www.comunique-se.com.br/conteudo/newsshow.asp?editoria=343&idnot=17251>. Acesso em: 3 out. 2004. FAERMAN, Marcos. As palavras aprisionadas. Disponível em: <http://www.emcrise.com.br/nao-pereciveis/npfaerman.htm>. Acesso em: 16 set. 2004. ZANETIC, André. O crime na mídia: Mitos e Realidades. Disponível em: <http://www.brasiliano.com.br/revista/crime_midia.htm>. Acesso em: 28 set. 2004 5. Publicações analisadas A TARDE. Caminhos do Opará, 26/10/2004. Dez!, 10/02/2005, 17/02/2005. Rural,8/11/2004. Esporte Clube, 12/03/2005, África, 20/11/2004. Jardim da Infâmia, 17/05/2003 A VERDADE. A loucura sob custódia – crime, violência e perversão no manicômio judiciário (Trabalho de Conclusão do curso de jornalismo da Universidade Federal da Bahia). MARQUES, ERNESTO. Maio de 2004. ASAS FERIDAS. Agência Baiana de Notícias – Faculdade Social da Bahia. Novembro 2004. Disponível em: <http://www.agenciabaiana.com.br/premiotimlopes2004.html>. Acesso em: 14 jun. 2005. BEIRA DO RIO. Setembro/2004 Boletins Informativos da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI), Estatuto Aqui – Instituto Latino Americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente (ILANUD) e Instituto Sou da Paz - Dezembro 2004, Janeiro 2005, Fevereiro 2005. CORREIO DA BAHIA. Correio Repórter,3/06/2000, 21/12/2004 27/01/2002. Sabor e Estilo, FOLHA DE S. PAULO. Mais!, 22/06/2003. 6/07/2003, 7/ 12/2003, 4/ 01/2004, 18/01/2004. Folha Teen, 12/05/2003, 19/05/2003. 54 NÚMERO G. Maio/Junho 2005 PROSA: Jornal Mensal de Reportagem (Trabalho de Conclusão do curso de jornalismo da Universidade Federal da Bahia). ARAÚJO, Fernanda; CAMPOS, Ingrid; MEIRELLES, Luize. Maio de 2004. PROVINCIA DA BAHIA, 30/12/2003, 04/05/2003, 19/07/2003. SEMIOSFERA, Revista de Comunicação e Cultura – Comunicação, Cultura e Violência Urbana – Ano 3 – Número Especial – Dezembro de 2003. Disponível em:: <http://www.eco.ufrj.br/semiosfera/especial2003/index.html> Acesso em: 22 set. 2004. TRIBUNA DA BAHIA, 28/01/2005, 11/02/2005. 6. Legislação CÓDIGO PENAL BRASILEIRO, 7 de dezembro de 1940. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL, 1988. LEI DE IMPRENSA, 9 de fevereiro de 1967. 7. Sites Associação Nacional de Jornais www.anj.org.br Observatório da Imprensa www.observatoriodaimprensa.com.br Texto Vivo – Narrativas do Real. www.textovivo.com.br 55 ANEXOS 56 ANEXO I CRONOGRAMA DE ATIVIDADES Período Outubro/2004 Procedimentos Realização do Projeto Editorial e Gráfico do caderno (Anexo II) Levantamento de cadernos especiais sobre violência publicados na Novembro/2004 Bahia e no Brasil / Contato com jornalistas que trabalham nas editorias de Polícia e Segurança dos jornais baianos. Dezembro/2004 Reunião do banco de dados com fontes, temas e pesquisas na área de violência/ Proposta inicial de pautas. Elaboração das pautas (definição de temas e fontes, pesquisa de Janeiro/2005 documentos e dados)/ Início da realização de entrevistas, fotografias/ Pesquisa em documentos e reunião de dados sobre os sub-temas das reportagens. Fevereiro/2005 Realização de entrevistas e fotografias/ Pesquisa em documentos e reunião de dados sobre os sub-temas/ Produção de texto. Realização de entrevistas e pesquisa / Produção dos textos Março/2005 Abril a Maio/2005 Junho/2005 Produção de Texto/ Edição/ Revisão/ Início da produção da Memória Diagramação/ Revisão/ Impressão do Caderno/ Revisão da Memória. 57 ORÇAMENTO Serviço/Produto Preço unitário Quantidade Preço total Filme ISO 400 R$14,00 2 R$28,00 Filme ISO 100 R$11,00 3 R$33,00 Revelação (copião) R$10,00 5 R$50,00 Revelação (por foto) R$0,80 (10x15) 16 R$9,60 Fita mini-cassete R$6,00 1 R$48,00 Gasolina R$110 (tanque) 1 R$110,00 Pilha R$4,20(4 pilhas) 2 R$8,40 Cartucho p&b R$25,00 1 R$25,00 Resma de papel almaço R$19,20 1 R$19,20 Impressão A4 Colorida R$2,70 75 R$202,50 Impressão A3 Colorida R$3,90 44 R$171,90 Cópia p&b R$ 0,10 240 R$24,00 Cópia colorida R$1,50 50 R$75,00 Encadernação R$3,00 3 R$9,00 Total: R$816,60 * O Dólar comercial neste período foi cotado a R$2,412 58 ANEXO II PROJETOS EDITORIAL E GRÁFICO DO CADERNO ESPECIAL POR UM CONTO 59 TATIANA MENDONÇA DE SANTANA TIAGO BARRETO GALVÃO POR UM CONTO PROJETO EDITORIAL E GRÁFICO SALVADOR - BA 2004 60 TATIANA MENDONÇA DE SANTANA TIAGO BARRETO GALVÃO POR UM CONTO PROJETO EDITORIAL E GRÁFICO Projeto do Trabalho de Conclusão de Curso de Comunicação com habilitação em Jornalismo, Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia. SALVADOR - BA 2004 61 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO..............................................................................................................63 POLÍTICA EDITORIAL.................................................................................................. 64 OBJETIVO..........................................................................................................................66 CARACTERÍSTICAS DA PUBLICAÇÃO.....................................................................67 ORGANIZAÇÃO DAS PÁGINAS....................................................................................74 O PAPEL DA FOTO, DIAGRAMAÇÃO E INFOGRÁFICOS.....................................76 CAPTAÇÃO DE RECURSOS...........................................................................................77 CORES.................................................................................................................................80 TIPOLOGIA........................................................................................................................81 ELEMENTOS DO CADERNO.........................................................................................84 REFERÊNCIAS..................................................................................................................87 62 APRESENTAÇÃO Esta seção refere-se aos Projetos Editorial e Gráfico desenvolvidos para o caderno especial Por um Conto, resultado do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) realizado pelos estudantes Tatiana Mendonça e Tiago Galvão, apresentado no semestre de 2004.2, como requisito para a conclusão do curso de Comunicação com habilitação em Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Durante o processo de elaboração desse projeto, os estudantes foram orientados pelo professor Elias Machado e realizaram consultas à bibliografia especializada nas áreas de jornalismo impresso e editoração eletrônica, além da análise de publicações com o mesmo perfil e formato do produto idealizado, inspirando o resultado final de Por um Conto. As experiências ao longo dos quatro anos em que deram encaminhamento à formação de jornalistas foram de fundamental importância para estabelecer os projetos editorial e gráfico desta publicação. 63 POLÍTICA EDITORIAL O que vai conduzir a construção do caderno especial Por um conto é o nosso compromisso com o bom jornalismo, aquele que está sempre atento à exploração do contexto. Acreditamos que o tema deste produto – a violência vermelha em Salvador – exige um estilo próprio e diferenciado. Dessa forma, este caderno traz consigo o pacto com a responsabilidade social, na medida em que investe e acredita na ambiciosa missão de contribuir com a diminuição dos índices de violência na capital baiana. Entendemos que o Jornalismo é agente ativo no processo da formação das representações de uma sociedade. Portanto, nosso projeto está sustentado no desafio de propor uma nova forma de tratar jornalisticamente a problemática da violência urbana em nossa cidade. O conteúdo veiculado em Por um conto será identificado com um Jornalismo humanizado, no qual a vida dos personagens abordados nas reportagens nos ajude a entender e enfrentar o problema. Para tanto, iremos trabalhar com o Jornalismo Literário, também conhecido como New Journalism. Pretendemos, assim, unir a força política do jornalismo - que possibilita o conhecimento das interações políticas e sociais - com o poder sedutor da literatura - preocupada, primordialmente, em investigar a condição humana. Reportagens serão priorizadas nesta publicação, que também abrirá espaço para uma entrevista e a contribuição de colunistas com seus pontos de vista acerca da temática. Um outro pilar importante que direciona a linha editorial desta publicação é a adoção de uma postura atenta ao que determina a Lei de Imprensa e o Código de Ética da profissão. Esta atitude é uma alternativa que confronta o modelo empregado pelo jornalismo diário baiano adepto da “juizite midiática” (MIRANDA, 2003), julgando e condenado suspeitos e acusados nas chamadas “páginas policiais”. Nossa proposta é que este caderno especial seja encartado a algum dos jornais baianos. No entanto, pretendemos manter as orientações editoriais e gráficas previstas no projeto, não havendo mudanças substanciais em sua política editorial, estilo, formato ou conteúdo apresentado. Dessa forma, possíveis anunciantes devem estar condizentes com o modelo de jornalismo empregado por este caderno, fazendo com que a publicação mantenha sua independência no que se refere ao que deve ou não estar veiculado no caderno, bem como a apresentação deste conteúdo. 64 A intenção é formatar um jornal leve e de leitura instigante, sem tender para a superficialidade ou sensacionalismo - características a que o tema da violência tantas vezes esteve vinculado. Com isso, Por um conto tem a saudável pretensão de contribuir com a concretização de outras possibilidades na maneira de retratar os fatos violentos. Paralelo a todos estes aspectos, nosso trabalho tem em sua base um pedido urgente por indignação. Os idealizadores deste produto acreditam na necessidade da mudança deste cenário no qual, na maioria das vezes, os crimes contra a vida só ganham destaque e importância quando são “chocantes” ou quando atingem diretamente a classe média baiana. Este caderno é a tentativa de reascender o poder da indignação que foi sendo minado aos poucos, à medida que as mortes violentas foram se tornando corriqueiras e assustadoramente normais. 65 OBJETIVO O objetivo deste caderno especial é fornecer ao leitor uma compreensão mais ampla do fenômeno da violência urbana em Salvador, diferenciando-se das notícias relatadas diariamente nas “páginas policiais” dos jornais baianos. Em Salvador, não há publicação impressa dedicada exclusivamente a este tema, privilegiando as reportagens. Este trabalho, vem, portanto, explorar essa lacuna, além de pretender estimular o caráter experimental de novos formatos e estilos. O crítico de mídia da revista americana New Yorker, Jon Katz, acredita no investimento em reportagens como um novo horizonte para o jornalismo impresso: “... eles (os jornais) deveriam finalmente aceitar que não há muito de real significância que eles possam informar em primeira mão. Deveriam parar de esconder este fato e tirar proveito dele. O que podem fazer é explicar a notícia, analisa-la, mergulhar nos detalhes, captar pessoas e matérias vividamente, com muito mais profundidade do que qualquer outra mídia” (KATZ apud VAIA, 1996). Outro objetivo deste caderno é promover a formação de um público consciente da problemática abordada, abrindo espaço para a discussão do tema de forma mais fundamentada. Assim, nosso trabalho também pretende estimular a formação do leitor enquanto cidadão, oferecendo uma narrativa que possa envolver e sensibilizar o público, estimulando-o e movendo-o à ação. No que se refere à formação profissional dos idealizadores deste trabalho, a produção de Por um conto foi uma oportunidade valiosa para exercitarmos a reportagem e investirmos num texto mais criativo e autoral, além de vivenciarmos a produção gráfica do produto. 66 CARACTERÍSTICAS DA PUBLICAÇÃO Periodicidade Por um Conto é um caderno especial tendo, portanto, uma única edição. No entanto, este trabalho é também uma proposta de que esta publicação se torne um suplemento regular, distribuído quinzenalmente ao público. Optamos por este prazo por julgá-lo condizente com o investimento que a elaboração de reportagens requer – como um maior tempo para se ter acesso a variadas fontes de pesquisas – e para que os repórteres e editores tenham um cuidado mais rigoroso e criativo com a elaboração dos textos, seguindo nossa proposta de trabalhar com o jornalismo literário e autoral. Esta periodicidade também nos parece apropriada para estabelecer vínculo com os leitores, além de estimular e orientar o pensamento contextualizado sobre os fatos violentos. A quantidade de veículos com esta periodicidade tem crescido. De acordo com dados de 2004 da Associação Nacional de Jornais (ANJ), existem no Brasil 395 jornais quinzenais, número superior ao registrado em 2001 (249). Dos 57 jornais baianos registrados na ANJ, 15 são quinzenais. Público-alvo A violência é um problema que atinge a todas as camadas da sociedade, embora se apresente com freqüência e características diferenciadas nos bairros de Salvador28. A princípio, nosso público-alvo é formado por aqueles que lêem diariamente as “páginas policiais” dos jornais baianos. Nosso desafio é justamente atingir este público, sem perder a qualidade e profundidade do nosso caderno. De acordo com Marta Souza29, analista de marketing do jornal A Tarde, as “páginas policiais” são as mais lidas pela população. O público deste jornal, de 835 mil leitores, é formado, em sua maioria, por homens (57%), com idade entre 20 a 49 anos (68%). As classes A e B correspondem a 46% dos leitores, 28 Ver SANTANA, et. al. O Rastro da Violência em Salvador II – Mortes de Residentes em Salvador, de 1998 a 2001, 2002. 29 SOUZA, Marta. Entrevista concedida a Tiago Galvão e Tatiana Mendonça. Salvador, 12 nov. 2004. 67 enquanto a classe C representa 36% e as classes D e E apenas 18%. Em Salvador e Região Metropolitana, o jornal A Tarde é preferido por nove entre 10 leitores. No entanto, pretendemos atingir também aqueles que não lêem habitualmente esta editoria e que, de imediato, rejeitam o tema da violência, afastados pela forma como o problema é representado hoje nas “páginas policiais”. Para tanto, lançaremos mão do jornalismo literário como forma de atrair este público, na intenção de que encontre no estilo do texto a escolha pelo consumo desta publicação. É importante ressaltar que a delimitação do público-alvo de qualquer produto comunicativo está intrinsecamente ligada ao discurso a ser adotado pelos realizadores. Apesar de pretendermos atingir um público amplo, nosso caderno especial não irá utilizar uma linguagem sensacionalista – marca dos jornais ditos “populares”. Pela extensão e pelo aprofundamento dos textos, é possível que este produto só vá interessar àqueles que tiveram um maior acesso à educação e costumam enxergar os problemas sociais de maneira mais contextualizada, como os formadores de opinião. Tiragem Como material encartado, Por um conto seguiria a tiragem do jornal que apoiasse a nossa proposta (no caso de A Tarde, 50 a 55 mil durante a semana e Correio da Bahia, 20 a 25 mil exemplares). O diário Tribuna da Bahia foi desde já excluído das nossas futuras negociações, por apresentar um projeto editorial incompatível com a proposta que pretendemos desenvolver, já que privilegia o sensacionalismo na cobertura de fatos violentos. Caso o caderno não seja anexado, buscaremos uma parceria com instituições que trabalham com a temática dos direitos humanos, para imprimirmos uma tiragem de 5 mil exemplares. Consideramos que esse é o número mínimo de exemplares, dada a proporção do trabalho, para se ter retorno significativo na capital baiana. De acordo com a Associação Mundial de Jornais, um jornal é lido por uma média de cinco pessoas, o que nos proporciona atingir 25 mil leitores30. 30 A população de Salvador é de os 2,6 milhões de habitantes, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – IBGE. De acordo com o Censo Demográfico de 2000, a taxa de alfabetização entre 68 Formato Nosso caderno especial será um tablóide. Apesar deste formato estar associado a uma tradição sensacionalista e superficial – caracterizada pela dedicação a escândalos, utilização de fotos chocantes e design berrante –, há uma tendência mundial pela adoção deste modelo. É o que apontada a pesquisa Tamanho é importante para os jornais?, da International Newspaper Marketing Association (INMA), divulgada em março de 200431. De acordo com a pesquisa, o tablóide aproxima o jornal dos leitores pelas características de leveza, empatia, portabilidade e leitura rápida. Ainda segundo a INMA, dois importantes jornais ingleses, o tradicional The Times e o The Independent, lançaram em 2003 suas versões tablóide (chamadas de “re-packaged compact edition”), sem alterar significativamente a temática e o design destas edições. Nos países nórdicos, a maioria dos jornais diários reduziu o formato e este fenômeno também é visível nos Estados Unidos e Canadá, embora em menor proporção. A venda destes jornais aumentou significativamente, com raras exceções. A INMA concluiu que os leitores preferem formatos mais compactos e que há uma propensão a dissociar o tablóide do “antigo estilo sensacionalista em termos de jornalismo e de design”. No Brasil, três entre os dez jornais de maior circulação são tablóides. O Correio do Povo, Zero Hora e Diário Gaúcho, do Rio Grande do Sul, não são jornais sensacionalistas e ocupam, desde 2001, a sexta, sétima e oitava posição no ranking, respectivamente. Iremos, portanto, apostar numa linguagem que será, necessariamente, mais concisa, sem, contudo, perder o aprofundamento, a contextualização e o uso de recursos literários. As características de leveza, empatia, portabilidade e leitura rápida do formato tablóide foram os fatores que balizaram esta escolha. O formato e dimensões propostos para este caderno também se adéquam ao projeto de encartar o produto em um jornal de grande circulação de Salvador. Como trabalharemos com grandes reportagens, iremos contrapor a extensão dos textos com o uso de manchas brancas, estimulando a leveza e a aceitação do produto pelos leitores. a população com dez anos ou mais é de 93% (das 2.028.377 pessoas nesta faixa etária, 1.902.532 são alfabetizadas). 31 BRITO, Eduardo. Tendência para formato menor. Disponível em: <www.anj.org.br>. Acesso em: 20 mar. 2004. 69 Dimensões A publicação Por um conto será impressa em papel jornal 45g, em formato tablóide (320 X 290mm), perfazendo um total de 24 páginas (duas delas referentes à publicidade, que terão a diagramação elaborada pela empresa anunciante). As páginas – com exceção da capa, contracapa e página 16 (que traz a coluna opinativa) – serão divididas em quatro colunas de 57mm, com o espaçamento entre elas no valor de 5mm. A margem lateral externa terá 22mm e a margem lateral interna 15mm. Já a margem superior terá 15mm e a inferior 18mm. De maneira padrão, os textos estarão dispostos nas páginas dentro desses limites. No entanto, a diagramação das fotos não seguirá necessariamente estas delimitações, sendo possível a publicação de uma foto entre duas páginas. Reportagens que precisem ser dispostas em mais de duas páginas também estarão sujeitas a diagramações distintas, uma vez que as margens laterais internas poderão ser vazadas. Linguagem Nosso objetivo é nos aproximar, neste caderno, dos recursos utilizados pelo Jornalismo Literário. Este modo de fazer jornalismo, também conhecido como New Journalism, surgiu nos anos 1960, nos Estados Unidos, em meio à contestação geral de valores desencadeada pelo movimento hippie. Em oposição ao modelo da pirâmide invertida, o New Journalism prega o uso da técnica literária combinada com a reportagem, concentrando-se em quatro recursos específicos: a construção cena a cena; a reprodução do diálogo das personagens; a exploração das variadas possibilidades expressivas do foco narrativo (inclusive com emprego do fluxo de consciência, como nos melhores romances psicológicos); o registro de gestos, cotidianos, hábitos, modos, e outros detalhes simbólicos para reforçar a aparência da realidade32. Pretendemos, assim, investir na apuração dos casos, na narrativa de profundidade e na qualidade do texto jornalístico. A revista 32 Ver LUIZA, A e TOYAMA, L. “Um jornalismo muito humano”. Disponível <http://www.facasper.com.br/jo/reportagens.php?tb_jo=&id_noticias=55>. Acesso em: 25 ago. 2003 em: 70 Realidade, sucesso de crítica e público na década de 1960, é considerada a maior representante do Jornalismo Literário no Brasil33. Termos chulos e estigmatizantes – associados à linguagem sensacionalista dos chamados jornais populares – não serão empregados. Como já foi dito anteriormente na apresentação deste projeto, também estaremos atentos à não utilização de termos que possam condenar previamente suspeitos de crimes. Justificativa do nome Por um conto é o nome escolhido para a nossa publicação. Esta opção está sustentada nas duas idéias centrais evocadas por esta expressão, que imediatamente remete ao caráter literário do nosso caderno, ao mesmo tempo em que delimita a temática de que trata a publicação: a violência vermelha. Contar histórias de vida e suas implicações com o fenômeno da violência urbana em Salvador é a principal meta deste caderno especial sem, contudo, perder de vista o contexto social no qual estas pessoas estão inseridas e o contexto no qual a violência ocorre. A denominação do caderno especial também traz em si uma crítica ao elevado número de homicídios praticados no Brasil, que faz do país o campeão mundial em número de assassinatos34. A referência a esta certa naturalização das mortes por assassinato ocorridas no Brasil e em Salvador está expressa na constatação de que a população está sujeita a perder a vida por motivos banais. Ao recorrermos à expressão popular “Isso não vale nenhum conto!”, pretendemos questionar o valor da vida dentro da nossa sociedade. O homicídio é certamente a face mais cruel da violência, por ir de encontro ao direito básico da vida, e por isso esta infração foi escolhida para nomear o caderno, embora a publicação não vá se limitar a tratar deste aspecto do problema. Além de fazer referência aos homicídios, a expressão “por um conto” ainda se relaciona à causa dos crimes contra o patrimônio, da exploração sexual infanto-juvenil, da corrupção e da violência policial. 33 34 Ver FARO, 1999. AZEVEDO, Solange; DANTAS, Edna. Eles mataram. Revista Época, Editora Globo, 22 set. 2003. 71 Temas Abordados Nossa temática é a violência vermelha em Salvador, caracterizada pelas agressões físicas tipificadas como crime no nosso Código Penal. Como as principais vítimas deste fenômeno na cidade são jovens negros, representantes da classe D e E35, estaremos preocupados em representar este grupo no nosso caderno. No entanto, fatos violentos que atinjam outros segmentos e classes sociais também serão abordados, como a violência contra a mulher, contra homossexuais, crianças e adolescentes, policiais e jornalistas. Por fatos violentos nos referimos às agressões e mortes por causas externas, como homicídios, violência policial, violência sexual, tortura, acidentes de trânsito e suicídio. A escolha final pelas sub-temáticas e grupos que serão abordados pelo caderno se dará na seleção das pautas para cada edição, guiando-se prioritariamente pelos critérios de relevância social e atualidade. Pautas Os critérios de noticiabilidade se complementam e não se restringem as características do fato a ser noticiado. Os aspectos relativos à disponibilidade do material apresentado, ao público e à concorrência também interferem na transformação de um acontecimento em notícia (WOLF, 1995). Os valores-notícia utilizados na nossa publicação serão a atualidade, amplitude, identificação humana, proximidade, relevância social e segurança pessoal dos realizadores. Uma das particularidades do chamado “jornalismo policial” é o fato dos repórteres geralmente se pautarem pela ronda diária nas delegacias, postos policiais, Instituto Médico Legal e Corpo de Bombeiros, ao contrário das tradicionais reuniões de pauta com o editor (WYLLYS, 2000). Os repórteres são orientados a optarem pelas histórias que atinjam 35 Ver SANTANA, et. al. O Rastro da Violência em Salvador II – Mortes de Residentes em Salvador, de 1998 a 2001, 2002. 72 pessoas da classe média ou que sejam caracterizadas como “crimes chocantes”, envolvendo pessoas pobres e moradores da periferia (Idem, ibidem, p. 21). Em entrevista ao documentário Luto ou três formas de morrer36, o editor de Segurança do Correio da Bahia, Erival Guimarães, afirma que o destaque para os crimes que envolvam pessoas de classe média é “natural”, já que fatos violentos envolvendo jovens negros e pobres são corriqueiros. Estes acontecimentos, na visão de Guimarães, perderiam o atributo da novidade, tão caro à notícia. Na sistematização dos fatores culturais que influenciam a transformação de um fato em matéria jornalística, Johan Galtung e Holmboe Ruge, no clássico estudo sobre os critérios de noticiabilidade, apontavam que “quanto mais um acontecimento diga respeito às pessoas de elite, mais provável será a sua transformação em notícia” (GALTUNG; RUGE, 1965). Nesta publicação, iremos priorizar a relevância social dos acontecimentos relatados. A classe social dos atores envolvidos será mencionada para a contextualização das reportagens. Entendemos que não se deve compactuar com a naturalização destas mortes, cabendo às organizações jornalísticas denunciarem sempre as violações aos direitos humanos e à nossa Constituição. Como afirma o jornalista Ricardo Kotscho: "Sinal de uma época, o drama social em que todos acabam sendo vítimas, de tanto se repetir acaba deixando muitos jornalistas insensíveis. Cabe ao repórter colocar esta realidade - para que ela possa ser mudada, e não camuflada - todos os dias nos jornais. Seja qual for a pauta, esta realidade fica sempre no caminho de quem tem olhos pra ver e coração pra sentir - e entende que sua missão é contar" (KOTSCHO, 1986) Assim, para o caderno especial, estão programadas a realização de reportagens que contextualizem casos específicos – notícias pautadas pela ronda diária – e a produção de pautas que estejam além da ocorrência do fato criminoso, a exemplo da observação do diaa-dia de comunidades consideradas violentas, da análise do processo histórico de crescimento da violência e das conseqüências para aqueles que foram diretamente afetados por esse problema. Estas reportagens, no entanto, devem estar estritamente ligadas ao tema da violência urbana, do funcionamento do sistema de Segurança Pública e da efetivação dos direitos humanos. 36 Documentário que trata da atuação de grupos de extermínio em Salvador. Produzido pelo Núcleo de Mídia e Cidadania das Faculdades Jorge Amado, 2004. 73 ORGANIZAÇÃO DAS PÁGINAS Nosso caderno especial não terá editorias fixas, uma vez que a idéia é apresentar reportagens dissertativas relacionadas ao tema da violência. Desta forma, só terão nome fixo a coluna opinativa, intitulada Diálogo, e a contracapa, intitulada Fragmentos. Além destas seções, o caderno terá três reportagens, uma entrevista, um editorial e duas páginas de publicidade, assim estabelecidas: Página 1: A capa deverá dar destaque à matéria principal e fornecer chamadas para outras reportagens. Página 2: Será reservada para o índice, o editorial e o expediente. Página 3 a 5: Estas páginas serão destinas à entrevista com alguma personalidade relacionada à temática, a exemplo de vítimas que simbolizem o enfrentamento de alguma situação de violência ou ainda profissionais do sistema de Segurança Pública e representantes de movimentos sociais que atuam no combate e na prevenção do problema. Página 6 a 11: Trará a primeira reportagem do caderno, com tema a ser definido. Página 12 a 17: A reportagem de capa e a coluna opinativa estarão posicionadas nesta seis páginas. Página 19 a 22: Serão reservadas a mais uma reportagem, também sem tema previamente definido. Página 24: Nesta página estarão expostas fotos, frases e dados que deverão compor um retrato do cotidiano da violência urbana em Salvador. Esta página será intitulada Fragmentos Páginas 18 e 23: Serão destinadas à veiculação de publicidade de anunciantes. 74 Coluna Nosso caderno especial irá contar com uma coluna por edição. O texto será elaborado por um colaborador – sem nenhuma contrapartida financeira – cumprindo os requisitos mínimos de pertencerem ao gênero opinativo e estarem de acordo com nossa política editorial. Os colaboradores serão profissionais da segurança pública, pesquisadores ligados à temática ou membros de entidades que trabalhem com o enfrentamento e prevenção da violência. A princípio, a coluna estará localizada na página 16 e será batizada de Diálogo – referência direta ao caráter literário do nosso caderno e a um espaço opinativo e democrático. 75 O PAPEL DA FOTO, DIAGRAMAÇÃO E INFOGRÁFICOS No nosso caderno especial, iremos trabalhar com o conceito de fotografianotícia, quando o fotógrafo registra a “faceta privilegiada de um fato”, dispensando a legenda (MELLO, 1994). Eventuais legendas poderão ser utilizadas para destacar alguma informação relevante dentro da reportagem, ao invés de descrever a fotografia. Dentro da proposta editorial do nosso caderno, investiremos também na desconstrução da prática de utilizar imagens chocantes, descontextualizadas, como chamariz das matérias “policiais” (ANGRIMANI, 1995). As fotos também constituem um ponto de força e atração visual dentro de uma publicação impressa. O contraste de uma página é conseguido com a utilização de fotografias de boa qualidade e posicionamento da imagem de forma harmoniosa dentro da diagramação de uma matéria (COLLARO, 1987). As fotografias, de forma prática, servirão como contraposição aos blocos de texto, favorecendo uma diagramação leve e harmoniosa, apostando nos espaços brancos (SILVA, 1985). No que diz respeito à utilização dos infográficos, esta será outra alternativa para a quebra dos blocos de texto. Na busca pela contextualização, apresentaremos resultados de pesquisas e índices que embasem as reportagens. 76 CAPTAÇÃO DE RECURSOS Nossa proposta inicial é que nosso caderno especial seja encartado aos impressos baianos A Tarde ou Correio da Bahia. Dessa forma, Por um Conto se adequaria ao mecanismo de vendagem de publicidade e circulação destes jornais. Estas empresas estão, de fato, abertas a novas propostas de publicações cujo perfil editorial favoreça a credibilidade destas instituições e reitere o compromisso de responsabilidade social que estes jornais assumem diante da sociedade – a exemplo da publicação do caderno especial Jardins da Infâmia, encartado no jornal A Tarde em 17/05/2003, e do caderno Responsabilidade Social, veiculado pelo Correio da Bahia em 05/06/2003 (este impresso em papel reciclado). É importante esclarecer que estes jornais mantêm setores específicos relacionados ao departamento de Marketing e captação de recursos para a realização de projetos especiais. Algumas publicações são elaboradas com o apoio prévio de determinados clientes e anunciantes, a exemplo do caderno Caminhos do Opará, patrocinado pela Petrobrás e veiculado por A Tarde em 26/10/2004 e Sabor e Estilo, patrocinado por restaurantes de Salvador e encartado ao Correio da Bahia em 21/12/004. Outros, no entanto, são produzidos independente de serem capitalizados com anunciantes ou patrocinadores. É o caso do caderno África, povo do sol distribuído por A Tarde em 20/11/2004 em comemoração ao dia da consciência negra. A segunda alternativa para veiculação deste caderno especial é a captação de recursos junto a organizações não-governamentais que trabalhem na área da promoção dos direitos humanos e instituições privadas que estejam vinculadas a uma política de responsabilidade social, para imprimirmos a tiragem mínima de cinco mil exemplares. 77 Anunciantes De acordo com Paulo Fraga, diretor comercial do jornal carioca O Dia, os anúncios publicitários representam, em média, 60% a 65% do faturamento dos jornais brasileiros37. No nosso caderno especial, os anúncios ocuparão duas páginas inteiras da publicação (p. 18 e 23). Como o vínculo com o tema da violência não é bem-visto pela maioria das empresas privadas, os anunciantes potenciais do caderno especial são órgãos do Governo Federal (Secretaria Especial de Direitos Humanos, Ministério da Justiça); Governo Estadual (Secretaria de Segurança Pública / Secretaria de Justiça e Direitos Humanos); Prefeitura municipal; Organizações não-governamentais que trabalham com esta temática (Agência Nacional dos Direitos da Infância - ANDI, Fundo das Nações Unidas pela Infância UNICEF, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Cultura e a Ciência – UNESCO, Fundação Avina, Movimento Estado de Paz, Fórum Comunitário de Combate à Violência, Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Yves de Roussan - CEDECA-Ba, dentre outras); e Organizações da sociedade civil baiana (Ordem dos Advogados do Brasil, secção Bahia – OAB-BA, Associação Baiana de Imprensa – ABI, Sindicato dos Jornalistas da Bahia – Sinjorba-Ba). Outros anunciantes potenciais são empresas de segurança privada. De acordo com o Sindicato das Empresas de Segurança Privada do Estado da Bahia, existem 31 empreendimentos que trabalham neste ramo no estado. Orçamento O custo de impressão do caderno para ser encartado nos jornais A Tarde ou Correio da Bahia ainda não foi estipulado, pela variação de tiragem desses dois periódicos. O valor médio de um anúncio na página policial do jornal A Tarde é de R$ 130 cm/coluna, de acordo com o preço de mercado de 2004. O anúncio colorido tem um acréscimo de 30%. Estimamos que o valor médio da publicidade de página inteira no nosso caderno, se encartado nos jornais A Tarde ou Correio da Bahia, custaria R$ 3.000. Os 37 SEMINÁRIO DE COMUNICAÇÃO BANCO DO BRASIL, 10., 2004, Salvador. 78 preços variam de acordo com o dia da semana e número de leitores. Portanto, se o caderno for veiculado aos domingos, por exemplo, quando a venda dos jornais aumenta, é provável que o valor do anúncio interno na nossa publicação possa subir, em média, para R$ 6.000. Para se ter uma idéia, o preço do anúncio interno de página inteira no caderno de Esporte aos domingos é de R$ 14.268. O preço da mesma publicidade para o caderno de TV, também aos domingos, é de R$ 8.241, por ser menos lido. No caso da parceria com estes jornais não ser firmada, o custo de impressão dos cinco mil exemplares do caderno está orçado em R$ 3.450 pela gráfica A Tarde Serviços Gráficos. Neste caso, os preços dos anúncios diminuirão significativamente, por se tratar de uma publicação desconhecida pelos leitores e pela redução do número de exemplares (tiragem). Assim, o valor dos anúncios será negociado com as empresas/organizações que apoiarem o projeto, seguindo os preços do mercado publicitário baiano. Os custos da produção deste caderno (como filmes fotográficos, revelações, CDs, disquetes, fitas cassetes, impressões para testes e transporte) foram financiados pelos realizadores. Distribuição No caso do caderno ser anexado ao jornal A Tarde ou Correio da Bahia, seguiremos o mapa de circulação/divulgação destes periódicos. O leitor não desembolsará nenhum valor adicional por este caderno. Se a parceria com estes jornais não for firmada, distribuiremos os cinco mil exemplares também gratuitamente, em locais a serem definidos numa etapa posterior deste projeto. De antemão, iremos priorizar as associações de bairro da capital, organizações que trabalham na área da defesa dos direitos humanos, delegacias, presídios, os principais veículos de comunicação do Brasil e de Salvador (através da mala-direta), e faculdades de comunicação do estado, dentre outras instituições. 79 CORES A proposta é que a publicação seja colorida em todas as páginas. Além das fotografias em cores, utilizaremos os recursos das cores laranja e azul para dinamizar a leitura do caderno. Optamos por buscar cores que remetessem a uma harmonia contrastante, por serem tonalidades complementares. Como afirma o pesquisador Meira da Rocha: “Quando uma cor é colocada lado a lado com sua complementar, elas se intensificam pelo contraste simultâneo. No círculo cromático a cor complementar é a que está diametralmente oposta, isto é, traçando um diâmetro, a que está do lado oposto. Do mesmo modo, como o positivo e o negativo, o branco e o preto também são complementares. Os opostos se completam” (ROCHA, 2000). As escolhas também se justificam pela possibilidade de se utilizar uma cor considerada quente como o laranja – amplamente utilizada em destaques de títulos e realces nas peças publicitárias atuais – em combinação com uma cor considerada fria como o azul marinho. Esta cor será utilizada nos olhos das reportagens, por possuir um forte poder de atração em contraste com o fundo branco, favorecendo o destaque de textos específicos dentro das reportagens. A cor cinza deve ser utilizada nas linhas e retas que estejam dispostas na publicação. Esta cor tende a não concorrer com o texto por ser neutra e discreta. 80 TIPOLOGIA Para se estabelecer a identidade visual do caderno foram escolhidas três fontes pertencentes a três famílias tipográficas distintas: Palatino, Arial e Lucida. A mistura estilos foi adotada para aproveitar as principais qualidades de cada fonte, além de dinamizar as páginas. Para o conteúdo do texto das reportagens, optamos por adotar a fonte Palatino Linotype, que é serifada. As serifas são amplamente utilizadas nos periódicos diários e favorecem a legilibilidade dos textos, porque acentuam o fluxo horizontal da leitura ao longo da linha. Esta fonte é pertencente ao “estilo antigo”38 e é inspirada nos registros dos escribas que datam dos séculos XV a XVIII. As fontes desta família e deste estilo possuem uma aparência elegante e sóbria e são utilizadas principalmente para a publicação de livros e de textos muito longos. A seleção desta fonte também está associada ao perfil literário deste caderno especial. Os textos das reportagens e colunas serão apresentados, portanto, na fonte Palatino Linotype tamanho 10, com alinhamento justificado. As reportagens estarão dispostas dentro dos limites das colunas já estabelecidos anteriormente. A primeira letra do início do texto deverá vir em caixa alta, ocupando duas linhas, com corpo de 28,5 e na cor laranja. O espaçamento no início do parágrafo será equivalente a 0,3 polegada. No que se refere aos títulos, entretítulos e olhos, optamos por adotar fontes sem serifa e que permitem investir num formato impactante. Segundo o professor Meira da Rocha, “a preferência para textos cuja função é criar impacto é pelas fontes sem serifa. Talvez porque esse estilo possua uma maior variedade de fontes encorpadas e de peso” 39. A fonte selecionada foi a Lucida Sans Unicode, por ser de fácil legibilidade e ter um aspecto moderno, contrastando com o estilo antigo da Palatino Linotype. Ainda de acordo com Meira da Rocha, “contraste de peso é uma excelente técnica para conduzir a leitura, além de criar referências ou pontos-chave para o leitor”. 38 As fontes podem ser classificadas nos estilos antigo, moderno, clássico e ornamental. Ver COLLARO, Projeto Gráfico: teoria e prática de diagramação, 1987. 39 ROCHA, José Meira da “Aula de planejamento gráfico”, capítulo 2. Disponível em: <http://www.comunica.unisinos.br/~meira/disciplinas/planejamento-grafico/2_elementos_basicos.pdf>. Acesso em: 16 nov. 2004 81 Dessa forma, o título das reportagens virá em fonte Lucida Sans Unicode, com corpo de no mínimo 36, proporcional aos textos e às páginas. Não será utilizado o recurso do negrito (bold) nos títulos, uma vez que nenhuma reportagem irá concorrer com outra na mesma página. As palavras de maior impacto dos títulos estarão na cor laranja, trazendo dinamismo à página e reforçando o destaque do título. A fonte Lucida Sans Unicode também será utilizada no recurso dos olhos - textos em destaque no interior da reportagem. Os olhos terão tamanho 12,5, entrelinha 20, com alinhamento à esquerda ou centralizado a depender de sua localização na página. Eles devem ocupar até 5 linhas. Os olhos serão apresentados na cor azul marinho e serão dispostos ao longo das reportagens. Não haverá linhas ou qualquer preenchimento de cor pra delimitar o espaço dos olhos. Iremos investir em manchas brancas para proporcionar leveza às páginas. Os entretítulos estarão em tamanho 10, com alinhamento centralizado e em negrito. Para os créditos, a fonte escolhida foi a Arial. Também em estilo moderno, esta fonte se assemelha à Lucida Sans Unicode, mas possui bordas menos arredondadas e um menor espaçamento entre as letras – ideal para os créditos, que devem apresentar um corpo mínimo para a leitura. No que diz respeito aos créditos relativos ao autor das fotos e imagens, estarão situados nos limites externos das fotografias, em tamanho 7. Quanto ao crédito da autoria das reportagens, optou-se pela mesma fonte, com corpo 10 e em negrito. Existirá uma linha cinza separando o nome e a identificação de repórter ou colaborador. A linha irá ocupar toda a extensão horizontal da primeira coluna e terá espessura hairline. A identificação do autor será apresentada em caixa baixa e corpo 10. No que se refere às legendas das fotografias e imagens, iremos utilizá-las para destacar alguma informação relevante dentro da reportagem e identificar personagens nas fotografias. Para enfatizar dados presentes nos textos, as legendas estarão posicionados no interior das fotografias ou a 5 mm das imagens, também na fonte Arial, tamanho 11, em até quatro linhas. O alinhamento pode ser à direita ou à esquerda, a depender de sua localização. Para identificar personagens, a proposta é que a diagramação utilize legendas de uma linha, na fonte Arial, corpo de texto 8. 82 Exemplo das três variações utilizadas 8 Arial Palatino Linotype Lucida Sans Unicode 9 Arial Palatino Linotype Lucida Sans Unicode 10 Arial Palatino Linotype Lucida Sans Unicode 11 Arial Palatino Linotype Lucida Sans Unicode 12 Arial Palatino Linotype Lucida Sans Unicode 14 Arial Palatino Linotype Lucida Sans Unicode 16 Arial Palatino Linotype Lucida Sans Unicode 20 Arial Palatino Lucida Sans Unicode 24 Arial Palatino Lucida Sans Unicode 32 Arial Palatino Lucida Sans 83 ELEMENTOS DO CADERNO Box Os boxes serão demarcados por uma retícula de cor azul claro ou laranja – coerente com a programação visual do caderno – e ocuparão ¼ da página. No topo de cada box haverá um filete horizontal com dois milímetros de largura, nas tonalidades azul ou laranja, mais escuras que a retícula, para separar o texto do box do conteúdo da reportagem. Este padrão facilita a legibilidade e dá dinamismo à página. O título do box irá acima do texto, acompanhando a cor utilizada para a retícula e filete. Para os títulos, a fonte utilizada será a Lúcida Sans Unicode, tamanho 18, alinhamento centralizado. Quanto ao texto, ele será apresentado na fonte Palatino Linotype, tamanho 11, espaçamento 12,5 e estará disposto em 4 colunas, com as mesmas dimensões que delimitam as reportagens. Coluna A coluna ocupará meia página, fechando a reportagem de capa, e será caracterizada por um retângulo vertical laranja – que estará localizado à esquerda do texto – e por uma linha horizontal de dois milímetros, da mesma cor da caixa, fechando um ângulo de 90°. Dentro do retângulo, centralizado, estará escrito o nome da coluna – Diálogo – também na vertical, grafado com a fonte Arial na cor branca e corpo de texto tamanho 40, realçando o destaque dado à coluna. Seguindo o padrão da publicação, o texto da coluna também estará na fonte Palatino Linotype (tamanho 10,5, espaçamento 13) e estará disposto em dois blocos de texto com 4,2 polegadas cada um. Para o título, utilizaremos a fonte Lucida Sans Unicode, corpo 24, na cor laranja, alinhamento centralizado. Para quebrar a monotonia, um olho – com a mesma formatação prevista neste projeto – será colocado no meio da coluna, entre os dois blocos paralelos. No que diz respeito ao crédito de autoria, ele estará localizado abaixo do título da coluna, centralizado, e seguirá a formatação dos outros conteúdos apresentados no caderno. 84 Capa A capa terá uma foto colorida – que ocupará cerca de 2/3 da página – e uma coluna na cor azul, onde estarão a logomarca do caderno, uma manchete e duas chamadas. As chamadas serão na fonte Arial, tamanho 14, na cor branca. As páginas correspondentes às reportagens em destaque serão na cor laranja. A logomarca do caderno estará no topo direito da página, na fonte Addict. A palavra “conto” estará na cor laranja, tamanho 52, enquanto “por um” estará em branco, tamanho 48. Logo abaixo estarão dispostas as três chamadas, em cor branca. O título corrente virá logo abaixo da logomarca, em fonte Arial tamanho 11. A manchete principal será localizada na parte inferior do caderno, transitando entre a foto e a coluna. Utilizaremos a fonte Lucida Sans Unicode na cor branca, tamanho 40, em negrito. O subtítulo estará localizado no canto inferior direito e deverá ocupar cinco linhas. A fonte utilizada para o subtítulo será a mesma das outras chamadas (Arial), tamanho 24, na cor branca. A página correspondente também aparecerá em destaque na cor laranja. Contracapa A contracapa traz uma seção especial do caderno intitulada Fragmentos. O nome desta seção deverá estar posicionado na vertical, na lateral superior esquerda da página, com tamanho 60 e na cor azul. Estarão dispostas nesta página fotos que integrarão as três sessões da contracapa (Educação, Enfrentamento, Estatística), que, por sua vez, estarão demarcadas por retângulos azuis assimétricos. Junto com as fotos, estarão dispostas pequenas notas que deverão estar na fonte Arial, tamanho 11, na cor cinza. Este último padrão também será utilizado para as legendas das fotos. Quanto aos créditos de autoria das fotografias, deverão estar localizados dentro das imagens em fonte Arial, na cor branca e 85 tamanho 7. No limite inferior da página, estará escrita uma frase na cor laranja, fonte Lucida Sans Unicode e tamanho 30, com alinhamento centralizado. 86 REFERÊNCIAS ANGRIMANI, Danilo Sobrinho. Espreme que sai sangue: um estudo do sensacionalismo na imprensa. São Paulo: Summus, 1995. BRITO, Eduardo. Tendência para formato menor. Disponível em: <www.anj.org.br>. Acesso em: 20 mar. 2004. COLLARO, Antônio Celso. Projeto Gráfico teoria e prática de diagramação. São Paulo: Summus, 1987. FARO, J.S. Revista Realidade 1966-1968: Tempo de reportagem na imprensa brasileira. Canoas: Editora da Ulbra/AGE, 1999. GALTUNG, Johan e RUGE, Mari. A estrutura do noticiário estrangeiro: A apresentação das crises do Congo, Cuba e Chipre em quatro jornais estrangeiros. In: TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. 2ª edição. Lisboa: Vega, 1999. KOTSCHO, Ricardo. Prática da reportagem. São Paulo: Ática, 1986. LUIZA, A e TOYAMA, L. Um jornalismo muito humano. Disponível em: <http://www.facasper.com.br/jo/reportagens.php?tb_jo=&id_noticias=55>. Acesso em: 25 ago. 2003 LUTO ou três formas de morrer. CESAR, Amaranta; WYLLYS, Jean; TEIXEIRA, Ismael. Núcleo de Mídia e Cidadania, Cursos de Comunicação das Faculdades Jorge Amado, 2004. 1 filme (16 min): son., color. MELLO, José Marques. A opinião no jornalismo brasileiro. Petrópolis, Vozes, 1994. MIRANDA, Andréa Borges.A culpa dos meios: um estudo da conduta midiática a partir da ótica do direito, 2003 ROCHA, José Meira da. Aula de planejamento gráfico. <http://www.comunica.unisinos.br/~meira/disciplinas/planejamentografico/2_elementos_basicos.pdf>. Acesso em: 16 nov.2004 Disponível em: SANTANA, Francisco dos Santos; KALIL, Maria Eunice Xavier; OLIVEIRA, Zenaide Calazans. O Rastro da Violência em Salvador II – Mortes de Residentes em Salvador, de 1998 a 2001, 2002. SILVA, Rafael Souza. Diagramação: O planejamento visual gráfico na comunicação impressa. 3 ed. São Paulo: Summus Editorial, 1985. 87 VAIA, Sandro. Vícios e virtudes do jornalismo brasileiro. <http://www.igutenberg.org/analis10.html>. Acesso em: 23 out. 2004 Disponível em: WYLLYS, Jean. (À) Margem da Vida: o criminoso e o lugar da prática do crime no Correio da Bahia, 2001 WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Lisboa: Editorial Presença,1995 88