design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial
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PRODUTOS IMPORTADOS E PREFERÊNCIAS DO CONSUMIDOR
BRASILEIRO: DIVERGÊNCIAS E INFLUÊNCIAS
“A cultura tem um efeito profundo em por que as pessoas compram. A cultura afeta os
produtos específicos que as pessoas compram, assim como a estrutura de consumo, a tomada de
decisão individual e a comunicação numa sociedade”, de acordo com Engel et al (2000, p. 397).
A cultura “é o determinante mais fundamental dos desejos e do comportamento de uma
pessoa”, segundo Kotler (1998, p. 162).
Portanto, qualquer estímulo capaz de alterá-la, seja através de novas informações, percepções
ou referências, pode modificar também os desejos e o comportamento do consumidor.
Verifica-se a inserção de uma série de produtos importados em mercados locais. Tais produtos
têm trazido novas formas de representação e significados, em termos de funções simbólicas, de uso e
técnicas dos artefatos, que têm influenciado, em certa medida, a formação de desejos e o
comportamento do consumidor brasileiro.
O setor automobilístico do Brasil tem sido marcado pela presença de corporações
multinacionais ao longo de sua história, desde a sua implantação no país.
Inicialmente importados e montados no sistema CKD, os automóveis estrangeiros têm criado,
desde então, certos desejos de consumo nos brasileiros, por representarem, paralelamente às
possibilidades de uso dos mesmos, um símbolo de status na sociedade.
Os salões de automóveis e as publicações nacionais e internacionais, como meios de
divulgação de produtos das empresas, também têm promovido, através da exibição de uma gama
variada de lançamentos e de modelos conceituais, novas fontes de desejos e influências na formação
do gosto do público consumidor brasileiro (ver Figura 563).
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FIGURA 563 - CAPA DO CATÁLOGO OFICIAL 2002 DO 22º SALÃO INTERNACIONAL DO AUTOMÓVEL 2002
(BRASIL, 2002) E CAPA DA REVISTA QUATRO RODAS ESPECIAL –CARROS 2003 (BRASIL,
2003), COM CONTEÚDO DE PUBLICIDADE E PROPAGANDA DE AUTOMÓVEIS IMPORTADOS
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Materiais de publicidade e propaganda de empresas têm também promovido a valorização de
produtos estrangeiros.
O ambiente de interface da Fiat Automóveis S.A. na Internet, com apresentação do Palio Fire e
do Novo Palio (2004), ilustra a valorização do design estrangeiro, em particular o italiano, no Brasil. Na
página intitulada “design moderno”, subtema do item “Por que comprar?”, do Palio Fire, destaca-se o
seguinte: “Assinado por um dos mais importantes car designers do mundo, Giorgetto Giugiaro” (ver
Figura 564).278
Em 1999, a Volkswagen veiculou, na Revista Quatro Rodas, um anúncio de publicidade e
propaganda do Volkswagen Golf, cujo texto em destaque sugere que o consumidor cole o adesivo com
o símbolo da Alemanha em seu Golf, a fim de confundir as pessoas e passar a idéia de que se trata de
um automóvel genuinamente alemão. Além disso, afirma-se o seguinte: “Golf. Agora produzido no
Brasil do jeitinho alemão” (ver Figura 565).
Estes e outros exemplos confirmam a valorização do produto importado pelo povo brasileiro,
conforme salienta Caldas (1997), dentre outros.
278
Disponível em: <http://www.fiat.com.br/index_site.php>. Acesso em: 05 mar. 2004.
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FIGURA 564 - PÁGINA DE INTERFACE GRÁFICA DE INTERNET DA FIAT AUTOMÓVEIS S.A., DESTACANDO
O “DESIGN MODERNO” DO PALIO FIRE (2004)
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FIGURA 565 - PÁGINA DE REVISTA BRASILEIRA SOBRE AUTOMÓVEIS, COM PROPAGANDA DO
VOLKSWAGEN GOLF, PRODUZIDO NO BRASIL (BRASIL, 1999)
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O maior desafio do setor automobilístico tem sido a adaptação às características do mercado
nacional, de acordo com Luc-Alexandre Ménard, ex-diretor da Renault para o Mercosul e atual diretor
das operações internacionais da Renault. Há diferenças mais visíveis - como o automóvel de mil
cilindradas, por exemplo, que só é vendido no Brasil, concentrando a maior participação no mercado
automobilístico - e outras menos visíveis.
Todo mundo gostaria que não houvesse diferença entre os produtos vendidos nos diversos países.
Porém, poder aquisitivo e condições de rodovias são determinantes no tipo de veículo que é
comercializado em cada local.
O carro brasileiro é mais alto que o europeu e tem sistemas de freio, suspensão e amortecedores
diferentes. Existe um atraso tecnológico. Mas as novidades chegam, ainda que algum tempo depois do
lançamento na Europa (MÉNARD, apud RIOS, 2002, p. C-8). [sem grifo no original]
Verificam-se vários casos em que, ao invés de se desenvolver veículos específicos para cada
mercado, ocorre apenas uma “tropicalização” dos mesmos. Esta consiste, por exemplo, como ocorre
comumente no caso do Brasil, em um reforço estrutural dos veículos em determinados pontos, em vista
do problema que se tem no país de estradas menos preservadas e irregulares (muitas inclusive sem
asfalto), comparativamente, por exemplo, às estradas européias, e também devido às características
ambientais, que são distintas.
É o caso, por exemplo, dos automóveis importados da Mercedes-Benz.
Nós temos essa tradição de mais de 100 anos, com uma identidade preservada que se procura manter, e esse
produto é bem quisto, haja visto que não é necessário desenvolver um produto exclusivamente para o Brasil, mas
sim tropicalizado, ou seja, que é reforçado em alguns pontos, em virtude do problema de estradas e do ambiente
daqui. Isso a gente faz com o automóvel; nós o preparamos. [...] Ocorre uma tropicalização na questão do
combustível, da suspensão, etc (JAHNKE, 2001). [sem grifo no original]
Os automóveis da Alfa Romeu, importados pela Fiat Automóveis S.A., têm sofrido algumas
alterações, sobretudo mecânicas, para o mercado brasileiro.
Eles são testados nas condições do Brasil. São testados nas condições das estradas, que são bem piores que as
européias e têm muito mais buracos, quebra-molas, lombadas, valetas... As condições são mais severas aqui no
Brasil. [...] As alterações são normalmente mecânicas, para serem mais reforçados. A própria carroceria é
mais reforçada para poder agüentar uma solicitação extra (NAKAMURA, 2001). [sem grifo no original]
As adaptações de carros importados têm sido, no entanto, bastante limitadas, em vista do
baixo volume de vendas no mercado local, e, atualmente, a superioridade dos mesmos, em termos de
nível de qualidade, comparativamente aos carros nacionais, é questionável.
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O pessoal fala que o carro é tropicalizado, etc. e tal, mas a tropicalização está muito mais em questões de
documentação e questões simples como a dos pneus, do que em questões mais profundas, como o tipo
de combustível, o tipo e mangueira que se está usando para determinado tipo de combustível, etc. Então,
é muito, muito, muito comum se ver esse pessoal com roda quebrada, com pneu quebrado, etc.
Os carros importados, apesar de falarem em tropicalização, não são tropicalizados. Tropicalizados mesmo
são apenas os carros fabricados no Brasil. Estes sim passam por uma revisão do projeto de suspensão,
de combustível, etc., para conseguir agüentar. Não por estarmos nos trópicos, mas por sermos um país em
desenvolvimento e não termos condições plenas em estradas, em combustível, etc.
[...] a motorização, por causa do nosso combustível, e os sistemas de suspensão, por causa das nossas
estradas - é totalmente diferente do que se tem fora do país. O nosso exige situações muito mais
específicas. Então, geralmente, isso tudo é reprojetado, quando vem para cá, quando é fabricado aqui. Por isso
é que se tem o problema do famoso "importado", porque não se reprojeta para importar 100, 200, 300
carros por mês. Não vale a pena. Simplesmente, se pega e coloca-se o importado no mercado do jeito que
está. E se quebrar, se paga. Então, essa relação de "Ah, a qualidade do importado é melhor" é questionável.
Se colocarmos os dois [o nacional e o importado] em uma estrada lisinha, pode até ser que o importado seja
melhor, mas se os colocarmos para rodar em uma estrada brasileira, eu confio mais no carro nacional.
Isso hoje, e não há dez anos atrás. Hoje em dia, eu confio muito mais no carro nacional (KRAEMER, 2001). [sem
grifo no original]
Os carros importados têm apresentado, como ressalta Kraemer, uma série de problemas
técnicos nos mercados locais.
Falam que a Mercedes é tropicalizada, mas não é. Ela pode falar que é, pode estar com a sua documentação
em dia, pode ter passado no controle de poluentes do Ministério, mas não é um carro 100% adaptado ao Brasil.
Se for ver o carro com o perfil original dele, ele é baixo, o pneu é pequeno, ele vai ter problemas com o
combustível, que é uma coisa muito, muito, muito comum aqui no país.
E o que pode acontecer com o carro? Pode-se ter corrosão de algumas peças (mangueiras, etc), pode-se ter
sujeira nos bicos injetores, o que faz o carro engasgar, ou chegar-se a uma situação, que eu enfrentava
muito com o carro importado, que é a de queimar a Sonda Lambda, que é um sensor de Rodio-Platina,
também chamado de sensor de oxigênio aquecido, que vai parafusado no cano de escape. É este sensor que fala
para a central eletrônica se o combustível está queimando direito ou não, e com isso coloca mais ou menos
combustível. Então, é uma peça que é um eletrodo feito de Rodio e Platina e que custa 500 reais cada uma. No
caso do Volvo, são quatro peças: duas antes do catalisador e duas depois. E acontece que essa peça vai se
corroendo com combustível de má qualidade. [...] Teria que se reprojetar essa peça, como acontece com os
carros nacionais, só que sairia muito caro. [...] E é por isso que eu falei que carro importado tropicalizado
simplesmente não existe. São feitas adaptações simples. Tenta-se mexer no perfil do pneu e na roda,
tenta-se usar uma suspensão mais alta, mas, mesmo assim, não é a situação ideal para o país e a pessoa
vai ter problemas. Não há outra situação, a não ser que se reprojetasse o carro. Mas o volume de
importação é tão pequeno no Brasil, que não vale a pena. Por isso é que eu falo que a melhor solução,
hoje, é comprar carro nacional. Comprar carro importado não vale a pena, sem contar o preço de peças
depois, que é tudo em dólar. Então, é complicado (KRAEMER, 2001). [sem grifo no original]
Além de problemas técnicos e de uso, os automóveis importados em geral têm manutenção
mais cara, comparativamente aos nacionais.
Os problemas dos automóveis importados destacam a importância do aprofundamento da
pesquisa e do desenvolvimento de produtos com uma abordagem de design mais direcionada ao
atendimento das necessidades e anseios das sociedades locais, considerando-se os diferentes
contextos ambientais, culturais, econômicos e sociais onde se inserem.
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Os produtos do setor moveleiro do Brasil têm se caracterizado pela incorporação de
tendências e pela prática de cópias de produtos estrangeiros, sobretudo europeus.
Países como a Itália e a Alemanha, dentre outros, têm exercido uma grande influência sobre o
design de móveis do país. Isto se deve, em parte, ao fato dos mesmos possuírem uma indústria
moveleira com base tecnológica avançada e de desenvolverem fortes estratégias organizacionais e
comerciais. Por outro lado, tal influência deve-se à repercussão dos movimentos e tendências de
design desses países, onde o design já se encontra mais consolidado e integrado ao processo de
desenvolvimento de produtos industrializados.
No Brasil, o design de móveis tem seguido tendências do móvel europeu, “principalmente
italiano”, afirma Salomão Henkin (2001), Consultor de Design da Bertolini S.A.
“... o design da Itália é o design aonde o mundo vai se inspirar, inclusive nós”, confirma
Torresan (2001).
A influência do design da Alemanha no design de móveis do Brasil também é salientada por
Rodrigues.
Desde tempos mais remotos, houve, no Brasil, a inserção de influências do design estrangeiro
de móveis. Primeiro vieram os móveis portugueses, e depois os ingleses, franceses, austríacos,
italianos, dentre outros. E a maioria das empresas que se instalaram no país acabou incorporando
tendências estrangeiras de design, sobretudo da Europa.
A Móveis Artesanal, por exemplo, fundada em 1949, desenvolveu móveis "muito próximos das
tendências européias", como afirma Loschiavo dos Santos (1995a, p. 145). Os produtos desenvolvidos
pela empresa L'Atelier também refletem as principais tendências do design europeu, com um uso
acentuado de materiais cromados e sintéticos, injetados em uma diversificada gama de modelos, que
incluem até mobiliário institucional.279
Tendências e modismos internacionais foram introduzidos no Brasil e absorvidos pela classe
média, apesar de se tratarem, muitas vezes, de alternativas adotadas em determinados mercados,
diante de problemas específicos e muitas vezes distintos, em relação à realidade dos mesmos, a
exemplo do “laqueado”, uma solução tipicamente alemã de acabamento de móveis em madeira
aglomerada, que foi lançada no Brasil pela Hobjeto e constituiu uma moda efêmera (SANTOS, 1995a,
p. 145).
279 A L'Atelier iniciou suas atividades em 1955, com a associação de três marceneiros e Jorge Zalszupin, arquiteto polonês
radicado no Brasil em 1950. Para maiores esclarecimentos sobre este assunto, ver: SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 118-122.
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Casos como este demonstram a permeabilidade da indústria e do mercado brasileiro às
influências e tendências estrangeiras do design de móveis, e a valorização, muitas vezes exagerada,
de soluções externas.
O design de móveis tem encontrado dificuldades para inovar e desenvolver uma linguagem
própria no Brasil. Por um lado, encontra-se muito atrelado às “tendências do que os italianos estão
fazendo”, e, por outro lado, por mais que se busque atender os anseios e necessidades do mercado
interno, “as pessoas ainda estão muito presas a essa imagem que existe”, e, assim, fica-se, de certo
modo, “amarrado a conceitos e idéias que já estão no mercado”. A própria Rudnick, segundo a mesma,
encontra-se, em certa medida, presa ao que a Itália faz, observa a Entrevistada “AD” (2001).
Os avanços em tecnologia da comunicação trouxeram uma maior facilidade de acesso às
informações, através da Internet, e outros meios, tais como a televisão, as publicações nacionais e
internacionais, as instituições de ensino e as empresas, que têm promovido a incorporação de novos
valores e influenciado certas preferências de consumo das pessoas (ver Figura 566).
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FIGURA 566 - PÁGINA E CAPA DE REVISTAS BRASILEIRAS, COM DESTAQUE PARA O SALÃO DO MÓVEL
DE MILÃO DE 1984 E 1994, RESPECTIVAMENTE
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“Até mesmo com essa "Casa Cor", por exemplo, mesmo uma pessoa que tem grana, mas não
foi para o exterior, vê através de uma mostra, ou revistas, o que os arquitetos estão fazendo lá fora”,
observa Trevisan (2001).
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As pessoas envolvidas no desenvolvimento de produtos do setor moveleiro costumam
freqüentar feiras de móveis nacionais e internacionais, a fim de se atualizarem quanto às principais
tendências de design e tecnologia de produção.
... a gente pesquisa muito na Europa. A gente vai em todas as feiras de móveis, em qualquer evento de
design de expressão, que seja realmente sobre móveis, porque com isso a gente se mantém informado
no mundo. Fora isso, nós participamos de feiras de máquinas e equipamentos, que também dão uma trajetória
para os móveis. As novas tecnologias dão também uma trajetória para isso, para ficarmos mais ou menos a par.
Nós participamos também de feiras normais de móveis, mais expondo e ouvindo como Carraro do que como
visitantes. E tudo que a gente tenta buscar lá fora, a gente tenta traduzir para aqui dentro, para os móveis
brasileiros (TORRESAN, 2001). [sem grifo no original]
Rodrigues, que, em 2001, participou como aluno de um curso de design na Itália, no Instituto
Politécnico de Milão, relata que:
É claro que a gente busca, até como uma fonte de inspiração, em função dessa aproximação tecnológica,
principalmente as feiras européias, e principalmente as alemãs, que têm produtos mais funcionais, mais
racionais que as feiras como a de Milão. As feiras de Milão e Colônia são as maiores do mundo. A de Milão é mais
estética. Tem, é claro, personalidade, mas a da Alemanha é muito mais racional. E os nossos produtos até
estavam seguindo um pouco mais as características das feiras alemãs do que das italianas. Mas, isso tem que
ser muito bem dosado. Não se pode simplesmente pegar um produto que venha de lá e colocá-lo da
mesma forma aqui no Brasil. Não se trata nem de sofrer uma adaptação; trata-se de outro produto. Podemse aproveitar alguns conceitos e algumas tendências que, mais cedo ou mais tarde, acabam chegando no
Brasil. E isso, há quatro, cinco anos atrás, levava uns sete, oito anos, para chegar no Brasil. E, hoje, em dois, três
anos, já estão chegando essas tendências (RODRIGUES, 2001). [sem grifo no original]
Várias lojas especializadas em móveis e objetos, tais como a Firma Casa e a Forma, por
exemplo, têm comercializado móveis importados, sobretudo italianos280 (ver Figura 567).
As licenças para produção e comercialização de móveis com design estrangeiro, em
detrimento do desenvolvimento de produtos com um design próprio, têm contribuído significativamente
para o afunilamento do desenvolvimento do design de móveis no Brasil.
A Escriba, por exemplo, além dos produtos desenvolvidos pelos designers da empresa, tem
fabricado e comercializado alguns móveis sob licença da empresa alemã Wilkhahn (ver Figura 568).
A Firma Casa comercializa vários produtos importados, tais como os da Zanotta e Moroso, fabricantes italianas de artefatos
projetados pelos designers Carlo Mollino, Achille Castiglione, Iosa Ghini, Javier Mariscal, Giuseppe Terragni, dentre outros (Disponível
em: <http://www.firmacasa.com.br>. Acesso em: 22 out. 2003).
280
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FIGURA 567 - MESA “LEONARDO” (AUTOR: ACHILE CASTIGLIONI - ITÁLIA) E “BANCO PLANA” (AUTOR:
MASSIMO IOSA GHINI - ITÁLIA), COMERCIALIZADOS PELA FIRMA CASA
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FIGURA 568 - ASSENTOS FS WILKHAHN E LAMINA WILKHAHN, PRODUZIDOS E COMERCIALIZADOS PELA
ESCRIBA, SOB LICENÇA DA EMPRESA ALEMÃ WILKHAHN (2003)
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De acordo com Calejo (2001), a empresa iniciou a aliança com a empresa alemã Wilkhahn,
porque concluiu que seria necessário oferecer e lançar no mercado um novo programa de assento, que
estivesse de acordo não somente com as normas nacionais da ABNT, mas também com as
internacionais.
A grande maioria das empresas brasileiras produtoras de móveis de exportação têm se
limitado a adaptar projetos que já vêm prontos de fora à produção, com redução de custos, em vista da
concorrência com base em preços.
Na maioria dos casos, principalmente nos de móveis populares para a Europa e Estados Unidos, o que acontece
é praticamente uma concorrência entre empresas.
[...] grande parte da exportação brasileira de móveis é feita na madeira de pinus, e o que acontece é que vêm
projetos prontos, e os traders levam os projetos para duas ou três empresas que conhecem e com quem têm
contatos, e pedem uma amostra. E o que geralmente acontece é uma competição por preço e qualidade, para ver
quem vai pegar o trabalho. Hoje, a maioria das empresas está fazendo esse trabalho (HENKIN, 2001). [sem grifo
no original]
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A Carraro, por exemplo, têm produzido alguns móveis para empresas dos Estados Unidos e
Europa, com design estrangeiro.
A empresa paga royalties ao arquiteto norte-americano Michael Graves, para a produção de
uma linha de móveis de jardim, de sua autoria.
Estes móveis destinam-se, basicamente, à exportação. Suas proporções são maiores,
comparativamente às dos móveis brasileiros. No entanto, percebem-se influências significativas dos
mesmos no design desenvolvido pela Carraro, como se pode observar em um outro conjunto de mesa
e cadeiras, desenvolvido posteriormente pelos designers da empresa (ver Figura 569).
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FIGURA 569 - “SPRING LAKE TABLE” (AUTOR: MICHAEL GRAVES – EUA)* E CONJUNTO DE MESA E
CADEIRAS PARA JARDIM DA CARRARO (BRASIL, 2001)
NOTA:
* Produzido, sob licença, pela Carraro
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Confirma-se, portanto, a visão de Caldas (1997) sobre a característica de permeabilidade do
povo brasileiro a influências estrangeiras, e ressalta-se a importância de um maior aprofundamento da
pesquisa sobre a questão da diversidade cultural no âmbito do ensino e da prática do design industrial
no Brasil, com vistas ao desenvolvimento de um design de móveis autêntico e de qualidade, que
atenda mais amplamente os requisitos simbólicos, de uso e técnicos dos indivíduos e grupos sociais
locais.
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No setor de eletrodomésticos do Brasil, verifica-se a inserção de uma série de produtos
importados (fogões, fornos, coifas, side by side, eletroportáteis, dentre outros), através de várias
empresas que atuam no país, incluindo-se a Electrolux do Brasil e a Multibrás. Tais produtos têm
trazido, assim como o design conceitual, novas representações e significados. Embora apresentem
divergências significativas, em termos de requisitos simbólicos, de uso e técnicos, para as sociedades
locais, influenciam, em certa medida, as preferências do consumidor brasileiro.
Com a abertura de suas fronteiras comerciais, na década de 1990, o Brasil deparou-se com a
realidade de uma competição comercial acirrada, protagonizada por grandes corporações
multinacionais. Em tal contexto, “o maior acesso aos produtos e serviços vindos do exterior tornou o
brasileiro mais exigente”, buscando não só produtos nacionais - que, tradicionalmente, vinham sendo
desenvolvidos com base em políticas de redução de custos das empresas (para aumentar a
competitividade das mesmas no mercado e ampliar seus lucros) – mas também produtos estrangeiros
inovadores e de qualidade, como observa Bertola (1998; 2001).
Notadamente a partir de 1998, a Electrolux do Brasil passou a importar vários produtos, e,
segundo o Entrevistado “E” (1998), o objetivo da área de Marketing, com isso, tem sido “alavancar a
marca”, “mostrar que a Electrolux tem poder” (“É aquela coisa: uma pessoa vê uma locomotiva da
General Electric, e compra um ventilador”) e “levantar o que eles chamam de nível de share” da marca.
Tais produtos são “de altíssimo nível e qualidade, sofisticados”, e “reforçam a marca com uma
imagem forte”. Eles complementam a linha nacional com refrigeradores, secadoras de roupa, coifas,
fogões, dentre outros produtos, e se destinam a um “público sofisticado”, segundo Bertola (1998; 2001).
“... são direcionados para uma classe ‘mais alta’ (classe A e tal), e essa classe se preocupa
mais em ter um produto importado, um produto novo, com milhões de features que eles nem sabem
para que servem, e acabam não se preocupando muito com o aspecto de design. Pelo fato de ser
importado, o design dele é maravilhoso, é lindo, é belo, é...!”. No entanto, a diferença desses produtos,
em termos de características, “é muito grande”, em relação aos da linha nacional, ressalta o
Entrevistado “D” (1998).
Bertola (1998; 2001) relata que os produtos que têm sido importados pela Electrolux do Brasil
“têm vários estilos”, predominando aqueles com configuração retilínea. Acrescenta que, no caso dos
fogões, “em relação ao índice de solidez, essa linha atua no esquema ‘quanto maior melhor’, para dar a
conotação de que é uma cozinha não para amadores, mas para profissionais”, à altura de um “chef”,
como a de “grandes hotéis”.
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Os fogões da linha Professional Series, importados pela Electrolux do Brasil, atingem, segundo
a Entrevistada “A” (1998), “um mercado muito específico no Brasil, que são os homens que cozinham e
que, quando o fazem, investem pesado; querem a melhor panela, querem o melhor fogão, querem o
melhor não sei o quê... “ e que, além disso, são capazes de investir um alto preço nos produtos e, por
exemplo, “comprar um fogão que custa, digamos, três, cinco, ...sete mil reais”.
Estes fogões, segundo Bertola (1998; 2001), apresentam, dentre outras características,
“grelhas de ferro fundido, resistência, botões grandes...”, robustez, “materiais nobres, para durar a
vinda inteira”, fabricação “em pequena escala, como se fosse para as cozinhas industriais”. Em sua
opinião, dever-se-ia seguir este conceito de construção, em termos de qualidade, na linha normal da
empresa (ver Figura 570).
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FIGURA 570 - FOGÃO ELECTROLUX “FGN90”, IMPORTADO DA ITÁLIA PELA ELECTROLUX DO BRASIL S.A.
(2003)
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Os produtos importados são destinados “especificamente a um nicho [de mercado], que se
sabe que é muito pequeno”, e para quem não vale a pena produzir no Brasil, observa a Entrevistada
“A” (1998).
Verifica-se a valorização do produto importado por parte dos brasileiros e a sua associação à
questão de status social.
Trata-se de “um sonho de consumo de muita gente”. O consumidor que tem um poder
aquisitivo mais elevado quer comprar este tipo de produto, “porque é importado, ou porque tem uma
aparência mais refinada, ou porque é mais sofisticado, e nem interessa o preço que ele vai pagar”,
afirma o Entrevistado “J” (1998).
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Os produtos que a Electrolux do Brasil tem importado, embora apresentem características de
design distintas, em relação aos produtos desenvolvidos especificamente para o mercado brasileiro,
“vão conseguir se enquadrar. [...] tudo é uma questão de preço. Tem muita gente que paga o valor e
que diz ‘isso aqui é uma coisa boa’, porque eles estão trazendo coisa muito boa”, afirma a Entrevistada
“H” (1998).
Conforme salienta o Entrevistado “J” (1998), não se pode pensar em vender somente para a
“classe A”, pois é necessário se oferecer qualidade a um preço acessível. Desta forma, a empresa não
pode ficar limitada aos produtos importados.
As influências dos produtos importados nas preferências do consumidor são significativas. O
volume de importação não é grande, mas, “em termos de satisfação, de criar conceitos, ele é muito
poderoso”, pois “aquilo que é consumido pelo ‘topo’ acaba criando objetos de desejo nas classes
inferiores”, sustenta a Entrevistada “A” (1998).
Um produto qualquer, quando vem para cá, já traz um conceito de país, de uma marca; [...] vem uma
cultura. [...] no caso do CD-Player do Japão, [por exemplo,] vê-se que está embutido ali o que o Japão é. Quando
a pessoa vai comprar um aparelho de som, a pessoa quer que seja meio japonês, ou que tenha algo que já tenha
visto em algum produto importado. Por quê? Porque isso já foi se aculturando (BERTOLA, 1998; 2001).
Destaca-se a facilidade do brasileiro em absorver influências estrangeiras e inovações, em
função do processo de formação da sociedade no Brasil, que compreende muitas influências e uma
intensa miscigenação. “... tem produtos também que vêm dos Estados Unidos, que tem outra imagem
de país, outro conceito de produto, mas que a gente vai aceitando”, observa Bertola (1998; 2001).
Muitos brasileiros poderiam ser caracterizados como consumidores “seguidores, que vão para
onde a maré está levando. [...] o povo brasileiro é muito suscetível aos formadores de opinião de
carterinha”, afirma o Entrevistado “F” (1998).
Identifica-se também um fenômeno de desvalorização dos países da América do Sul em
relação ao que é “sul-americano”.
Bertola (1998; 2001) relata que “o produto brasileiro é bastante rejeitado na Argentina; acham
que é de má qualidade,...”, o que faz com que vendam lá as lavadoras de roupa da Electrolux do Brasil
como se fossem fabricadas nos Estados Unidos. Isto porque a imagem deste país, “em toda a América
Latina, que sempre foi colonizada, é boa”.
Tais considerações convergem com a visão de Caldas (1997) sobre a supervalorização do que
vem do estrangeiro, por parte do povo brasileiro, o que o torna mais receptivo às influências de
produtos importados e de conceitos vindos “de fora”.
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Casos de parcerias entre empresas para o desenvolvimento de produtos salientam, por um
lado, divergências de requisitos simbólicos, de uso e técnicos entre determinados mercados, e, por
outro, influências do design estrangeiro no design local.
Um exemplo é a experiência de parceria ocorrida, ao final da década de 1990, entre a empresa
coreana LG e a Electrolux do Brasil, para o desenvolvimento de um forno de microondas. Conforme
relata a Entrevistada “A” (1998), “esse produto existia lá [na Coréia], branco, com um grafismo bem
para eles; extremamente oriental”. Em sua opinião, em termos volumétricos, era “interessante”, mas,
graficamente, não o era. E, apesar da resistência do gerente de produto da LG, em relação às
alterações propostas, o Centro de Design da América do Sul conseguiu “dar personalidade” e
diferenciá-lo do outro aparelho. O produto foi, então, lançado em três cores no Brasil: amarelo, azul e
vermelho goiaba. E houve alterações também na parte gráfica e de comandos (ver Figuras 571 e 572).
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FIGURA 571 – FORNO DE MICROONDAS LG E PAINEL DE COMANDOS (CORÉIA, 1998)
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FIGURA 572 - FORNOS DE MICROONDAS ELECTROLUX DA “LINHA COLORS”, DESENVOLVIDOS PELA
ELECTROLUX DO BRASIL, EM PARCERIA COM A LG (1998)
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Os meios de comunicação, tais como os materiais de publicidade e propaganda, têm
contribuído para promover a valorização de produtos estrangeiros, sobretudo italianos, no Brasil (ver
Figura 573).
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FIGURA 573 - PÁGINA DE PUBLICIDADE E PROPAGANDA DE FOGÕES ITALIANOS LOFRA, IMPORTADOS
PELA SUBSIDIÁRIA BRASILEIRA LOFRA SUD AMÉRICA LTDA (2004)
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No caso da Electrolux do Brasil, os produtos que estão sendo importados têm influenciado o
desenvolvimento de novos produtos da empresa, de acordo com o Entrevistado “D” (1998).
O uso de cores nos fornos de microondas Electrolux da “Linha Colours”, por exemplo, lançada
pela Electrolux do Brasil em 1998, resultou, basicamente, de influências do design da Itália. Incluíam-se
nesta linha outros eletrodomésticos, inclusive importados da Itália (fogões, fornos, coifas) (ver Figura
574).
A Linha Colours permaneceu durante pouco tempo no mercado brasileiro, em vista do baixo
nível de aceitação da mesma pelo público consumidor, cuja maioria prefere eletrodomésticos de cor
branca (ver Capítulo 8, p. 767-768).
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FIGURA 574 - AMBIENTE COM ELETRODOMÉSTICOS ELECTROLUX DA “LINHA COLOURS” (BRASIL, 1998)
NOTA:
Fogão, forno e coifa, importados da Itália, e system (refrigerador e freezer vertical), desenvolvido
pela Electrolux do Brasil
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Ilustram também a incorporação de influências estrangeiras os refrigeradores recentemente
desenvolvidos e lançados pela Electrolux do Brasil e pela Multibrás, com “dispenser de água externo”,
dispositivo já anteriormente encontrado em refrigeradores importados por estas e outras empresas
atuantes no Brasil (ver Figuras 575 a 577).
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FIGURA 575 - SIDE BY SIDE E REFRIGERADOR ELECTROLUX “DB580”, COM DISPENSER DE ÁGUA
EXTERNO, IMPORTADOS PELA ELECTROLUX DO BRASIL (2004)
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FIGURA 576 - SIDE BY SIDE BRASTEMP “700”, COM DISPENSER DE ÁGUA E GELO EXTERNO,
IMPORTADO PELA MULTIBRÁS (2001)
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FIGURA 577 - REFRIGERADORES BRASTEMP “BRX48D” E ELECTROLUX “DFW45”, COM DISPENSER DE
ÁGUA EXTERNO (BRASIL, 2004)
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Com a entrada de importados, entraram também novas referências de qualidade, promovendo
certas mudanças de valores. Entretanto, como salienta o Entrevistado “K” (1998), no Brasil, atualmente,
“a pessoa tem a opção de obter um produto de boa qualidade, de ter a diferença clara do hábito de uso
dela, de olhar e se identificar com o produto...”, e mesmo de identificar que o estereótipo dos produtos
importados, como sendo “melhores” que os produtos locais, nem sempre corresponde à realidade. Às
vezes “compra-se um produto importado pensando que é o melhor do mundo”, quando, na realidade,
não o é. Deste modo, a partir de experiências de inadequação de um produto importado às suas
necessidades, a pessoa passa a ter “um senso crítico maior nas compras seguintes que ela vai fazer”.
E com esta percepção mais clara sobre a qualidade dos produtos, “a pessoa acaba tendo valores mais
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legítimos, e, assim, a gente sempre tem que alinhar o produto para que ela se identifique também com
ele, com essa legitimidade que ela trabalhou para si...”.
É preciso considerar-se as características, necessidades e anseios dos usuários na importação
de produtos, pois “não adianta se trazer coisas maravilhosas, fantásticas, que o consumidor brasileiro
não valorize, ou não queira, ou que tenha aspectos que acabem comprometendo o funcionamento
produto. Então, se traz um elefante branco, e a pessoa acaba não usando”, como ressalta o
Entrevistado “D” (1998).
“... não é tão simples de se introduzir produtos importados no Brasil, por exemplo, pois estes
nem sempre se identificam com este mercado”, afirma o Entrevistado “F” (1998). Assim como no caso
de fogões, a importação de Small Appliances também tem encontrado barreiras culturais, em termos de
aceitação, pois, nem sempre o que vem de fora “tem a cara” do que se tem no Brasil.
Os usuários têm vivenciado problemas com determinados produtos importados, cujo design se
mostra inadequado aos requisitos simbólicos, de uso e técnicos locais.
[...] a gente percebe, quando a gente analisa um consumidor que vai a um ponto de venda para comprar produtos
Side by Side, que nós temos na linha. São produtos nossos americanos, que são importados para completar a
linha, porque existe um nicho que quer comprar esses produtos, às vezes por status, ou porque são
pessoas que valorizam essa coisa ("Não, produto americano que é bom!"). E, então, as pessoas chegam e
acham aquilo maravilhoso, porque é enorme e tudo mais, mas o fato é que, depois, quando esse produto
chega em casa, o primeiro problema é que não entra na porta, e, depois, no dia a dia, a pessoa vai ter um
monte de problemas, porque tudo, nos produtos americanos, é desenvolvido para o tipo de consumo
deles. [...] existe uma série de diferenças, e a pessoa vai ter uma série de dificuldades no uso, porque o
produto não é perfeitamente adequado. Ele não foi desenvolvido para esse mercado (GAMA JÚNIOR,
2001). [sem grifo no original]
É necessário, portanto, se ter muito cuidado ao trazer features de produtos importados, sobre
os quais não se tenha domínio e controle, pois estes podem ser inadequados às condições locais e
comprometer o uso do produto. “... não tem como se comparar condições climáticas e de temperatura,
por exemplo, dentro do Brasil, que tem uma diversidade muito grande de temperatura e de clima, com
o mercado americano que já tem um clima com uma temperatura mais homogênea, mais uniforme”.
Assim, “tem que se tomar muito cuidado até com a questão da ‘tropicalização’ dos produtos, porque
existem produtos que funcionam bem aqui no Brasil, que não servem para o mercado americano, e
vice e versa”, adverte o Entrevistado “D” (1998).
Na importação de produtos, como no caso dos Side by Side, por exemplo, têm ocorrido
problemas envolvendo funções técnicas, devido à diversidade das construções locais. Este tipo de
refrigerador necessita que haja, na cozinha, encanamento de água e tomada que chegue até a posição
de instalação do mesmo. Entretanto, no Brasil, “normalmente encanamento d’água na cozinha só vai
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até a pia”. Desta forma, a instalação deste tipo de produto nas residências torna-se “complicado”,
conforme relata a Entrevistada “A” (1998).
Os Side by Side, importados dos Estados Unidos pela Multibrás, “têm adaptação no sistema de
entrada de água para a formação de gelo”, devido à necessidade de se ter uma pressão exata para tal,
relata o Entrevistado “K” (1998).
Ocorrem também problemas de inadequação do Side by Side ao clima de regiões mais
quentes281, e esta é uma das razões pelas quais a Electrolux do Brasil tem restringido sua
comercialização às regiões Sul e Sudeste do Brasil. No entanto, como pondera a Entrevistada “A”
(1998), isto por si só não resolve todos os problemas, pois “isso não impede que um cidadão, lá do
Nordeste ou de Brasília, [por exemplo,] o compre em São Paulo, bote-o em um caminhão e leve-o
embora”. E é preciso prestar assistência técnica a todos.
O grafismo dos Side by Side importados pela Electrolux do Brasil e Multibrás não tem sido
adaptado para o mercado brasileiro, dificultando a compreensão das funções e o uso dos botões de
comandos pelos usuários (ver Figura 578).
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FIGURA 578 - DETALHE DO PAINEL DE COMANDOS DO SIDE BY SIDE BRASTEMP “700”, IMPORTADO
DOS ESTADOS UNIDOS PELA MULTIBRÁS (2002)
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Os produtos importados divergem, também, em termos de requisitos simbólicos, em relação
aos produtos nacionais.
281 De acordo com a Entrevistada “A” (1998), “[...] o grande problema é o compartimento ‘refrigerador’, que, se é aberto muitas
vezes e a umidade relativa daquela região está muito alta, começa a condensar os vapores por dentro e acaba escorrendo água dentro e
por fora (se a vedação não é suficiente)... Ou, então, tudo isso ocorre, se a gente, colocando a regulagem na situação mais fria possível,
ele ainda assim não gela a cerveja, por exemplo”.
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A secadora SE18 e a lavadora/secadora Laundry Center LC18, por exemplo, que vinham
sendo importadas dos Estados Unidos pela Electrolux do Brasil, possuem formas e linhas mais rígidas,
que destoam muito da maioria dos produtos da linha de lavadoras brasileiras, cuja configuração é mais
suave. Além disso, por terem vindo em lote reduzido, inviabilizou-se a adaptação do grafismo original
para o mercado local, mantendo-se, inclusive, o texto em inglês (ver Figura 579).282
Em termos de processos produtivos, a Multibrás tem adotado um conceito de fábricas
dedicadas a famílias homogêneas de produtos, com o intuito de aumentar a produtividade. Não há,
entretanto, uma harmonia, em termos de design, entre todos os produtos da marca Brastemp,
principalmente em virtude da inserção de produtos importados. A composição formal da lavadora
“Super Capacidade” e da secadora “Super Capacidade a Gás” (ver Figura 581), por exemplo, destoa,
assim como no caso das lavadoras de roupa importadas pela Electrolux do Brasil, das lavadoras de
roupa desenvolvidas no Brasil, sobretudo daquelas de a partir da década de 1990 (ver Figuras 581 e
582).
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FIGURA 579 - LAVADORA / SECADORA DE ROUPA ELECTROLUX “LAUNDRY CENTER LC18” E SECADORA
DE ROUPA ELECTROLUX “SE18”, IMPORTADAS DOS ESTADOS UNIDOS PELA
ELECTROLUX DO BRASIL (1998)
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282 Foram
retiradas do mercado ao final do ano de 1998.
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FIGURA 580 - LAVADORA E SECADORA DE ROUPA BRASTEMP, IMPORTADAS DOS ESTADOS UNIDOS
PELA MULTIBRÁS (2004)
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FIGURA 581 - LAVADORA DE ROUPA BRASTEMP “INTELLIGENT 7 KG TIRA-MANCHAS” E SECADORA DE
ROUPA BRASTEMP “INTELLIGENT 10 KG - DE PISO” (BRASIL, 2004)
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FIGURA 582 - LAVADORA DE ROUPA ELECTROLUX “TOP6S” E “TOP8S” (BRASIL, 2004)
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Os fogões da linha Professional Series, importados da Itália pela Electrolux do Brasil, têm a
“aparência de robustez, densidade, durabilidade, de material nobre, em todos os componentes”,
contrastando-se com os produtos nacionais, conforme observa a Entrevistada “A” (1998). Estes fogões
caracterizam-se pelo predomínio de “linhas retas, com tudo certinho”, acrescenta a Entrevistada “G”
(1998) (ver Figura 570).
Verifica-se, portanto, que, apesar da valorização de produtos importados no mercado brasileiro,
os mesmos apresentam divergências significativas, em termos de funções simbólicas, de uso e
técnicas, com relação aos produtos desenvolvidos no país.
Há aqueles que “fazem sucesso”, e há outros que “são um fracasso total (não têm nenhuma
aceitação, apesar de serem bons produtos)”. Em vista disso, os designers deveriam ter uma maior
participação na seleção283 dos mesmos, por conhecer melhor o mercado local e saber que produtos
combinariam mais com a linha que se tem localmente, argumenta o Entrevistado “I” (1998).
As diferenças de requisitos dos produtos não são facilmente compreendidas por pessoas de
culturas distintas, porque, geralmente, para cada uma delas, o que é melhor para si parece ser o
melhor para o outro.
[...] Quando eles [, os norte-americanos,] vinham querendo trazer produtos Side by Side no Brasil, aqueles
“monstrinhos”, a gente dizia: "não, brasileiro não gosta disso". Ou, então, eles diziam "então, está bem, com uma
porta", e traziam uns “monstros”, com um design super ultrapassado. E havia, na época, um grupo de norteamericanos trabalhando na área de Marketing, que colocava em pesquisa esses produtos, e os
consumidores brasileiros criticavam e achavam horríveis esses produtos, e eles ficavam “chocadíssimos”
com os resultados. E a gente virava e dizia: "Mas é claro, esse produto é horrível mesmo!". E eles diziam: "Não
é, esse produto é uma maravilha!". Eles não entendiam e achavam a gente muito burro, porque a gente não
gostava daquilo (GAMA JÚNIOR, 2001). [sem grifo no original]
As divergências e influências do design de produtos importados, com relação ao design
industrial, verificadas através dos estudos de casos, salientam a importância do desenvolvimento do
design de produtos para mercados locais por designers locais, considerando-se que estes se
encontram mais diretamente vinculados e familiarizados com essas realidades, o que contribui na
identificação e interpretação dos requisitos simbólicos, de uso e técnicos.
O design conceitual também merece especial atenção por parte dos designers, empresas e
instituições de ensino e pesquisa, na medida em que ele traz novas referências simbólicas, de uso e
técnicas, exercendo influências significativas sobre o desenvolvimento de produtos para a sociedade.
283 Atualmente, a seleção de produtos a serem importados tem sido feita pela Área de Marketing, que “às vezes escolhe uma
gama muito grande de produtos”, segundo o Entrevistado “I” (1998).
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“O design hoje em evidência é o conceitual; não é o design do dia a dia...” O Grupo Electrolux
desenvolve concept design284 no Centro de Design da Suécia. O mesmo é “desenvolvido por um
grupo285 da empresa que faz a projeção, por exemplo, de como será o refrigerador daqui a cinco, dez
anos... Eles ficam criando os “dream design” de uso e também de estilo”. Este grupo sempre fornece
inputs para a área comercial, “que precisa de toda essa criatividade, porque, tradicionalmente, o
pessoal de marketing se baseia no que existe; não tem a capacidade de imaginar como poderia ser
melhor”, segundo Bertola (1998; 2001).
Outro centro de design da corporação Electrolux que desenvolve “design conceitual” é o da
Zanussi, da Itália, que já industrializa parte das propostas, a exemplo do refrigerador “Oz”. Este foi
concebido não mais “para ser escondido nos armários das cozinhas, mas sim [como] um objeto com
forte apelo estético e semiótico que demonstra todo o cuidado que este aparelho terá com seus
alimentos”. A configuração da porta deste produto lembra a silhueta de uma “mulher grávida”,
associando o produto à imagem de “proteção”. Outra característica inovadora deste produto é que ele
“tem o sistema de refrigeração todo embaixo”, junto com o compressor, enquanto que os refrigeradores
convencionais normalmente têm a parte de refrigeração em cima, relata Bertola (1998; 2001) (ver
Figura 583).
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FIGURA 583 - REFRIGERADOR ZANUSSI “OZ” (ITÁLIA, 2003)
NOTA:
Design conceitual
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Termo inglês que se refere ao design “conceitual”, ou seja, ao design de produto que traz inovações significativas, em
termos de conceito, não se destinando, necessariamente, à produção industrial.
284
285 De acordo com Bertola (1998; 2001), trata-se de um grupo formado por “pessoas jovens de todo o mundo (do Canadá, da
Inglaterra (bastante gente de lá), da Alemanha, etc.”.
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Outros exemplos de design conceitual da Zanussi são: o fogão Teo – que possui botões de
comando que se aproximam da área de cozimento (em vidro cerâmico), facilitando a regulagem dos
pontos de aquecimento. “Bastante semiótico”, este produto traz visualmente a “idéia de vulcão, que dá
a impressão de que realmente vai assar”; e a lavadora de roupa Zo - cujo painel de controle possui
apenas dois botões, “com uma tecnologia adaptável, isto é, onde se utilizando duas ou três vezes de
uma forma, ela se autoprograma para continuar funcionando”, simplificando o uso (ver Figura 584).
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FIGURA 584 - FOGÃO ZANUSSI “TEO” E LAVADORA DE ROUPA ZANUSSI “ZO” (ITÁLIA, 1997)
NOTA:
Design conceitual
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Um produto conceitual, como o refrigerador Oz, por exemplo, se fosse produzido no mercado
brasileiro, seria um produto muito específico, “direcionado mais para decorador, escritório de
arquitetura, cozinhas planejadas...”, por ser o brasileiro “um pouco conservador”, com relação a essas
coisas, observa o Entrevistado “D” (1998).
Apesar do povo brasileiro apresentar certa resistência a novos conceitos, há aspectos destes
que vão sendo gradativamente assimiladas pelo universo cultural das pessoas. É o caso, por exemplo,
do Ford Ka286, produto conceitual lançado em 1997. “A princípio, as pessoas, que realmente acharam
maravilhoso o carro, eram pessoas que tinham relação, por exemplo, com a atividade de design, e já
tinham um conceito de design formado nas suas cabeças; não era um consumidor puro e simples”,
observa o Entrevistado “D” (1998). Entretanto, percebe-se, atualmente, que o brasileiro já está
aceitando melhor o mesmo, embora continue gerando polêmica, com relação à sua estética.
As indústrias automobilísticas, que têm influenciado consideravelmente as preferências dos
consumidores, têm investido bastante em design conceitual, o qual tem sido desenvolvido com base
286
Design de autoria do designer francês Claude Lobo.
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em prospecções acerca do perfil dos consumidores, sobre o que as pessoas estarão fazendo no futuro
e que tipo de coisas poderão ser produzidas (ENTREVISTADO “J”, 1998).
De acordo com o Entrevistado “D” (1998), não tem se desenvolvido muito design conceitual no
Brasil, e, quando isto ocorre, é em longo prazo, em função da “limitação em relação a investimentos e à
capacidade produtiva desses produtos”.
Bertola (1998; 2001) destaca a natureza e objetivo do produto de design conceitual, que
consiste em “um objeto do desejo”, cujo design não tem como prioridade o uso do produto. Quando
produzido em série, direciona-se a colecionadores. “Não tem o objetivo de vender e de dar lucro, mas
de alavancar a imagem da marca. A idéia é fazer um produto tão avançado formalmente e também
tecnologicamente, que desperte o desejo das pessoas para o terem, mesmo sacrificando outras coisas;
mesmo não tendo o aproveitamento ideal de espaço, não tendo a ergonomia ideal...”. Acaba-se
tendendo ao design “exclusivo”, de “griffe”, como acontece, por exemplo, no próprio Grupo Electrolux,
com o design da Zanussi, cujos produtos são sempre associados ao designer Roberto Pezzetta, Diretor
do Centro de Design da Zanussi, apesar da empresa trabalhar com uma equipe de designers, por ele
coordenada.
Roberto Pezzetta salienta que o design de produtos tem que causar “emoção” (2000).
O fator “emoção” constitui um diferencial, no contexto da maior aproximação técnica entre
produtos de empresas diversas.
... os carros, cada vez mais, ficam mais iguais, mecanicamente, porque matemática e física todo mundo sabe,
tem túnel de vento para fazer análise de aerodinâmica e resistência ao ar, o comprador negocia e os custos são
parecidos, a manufatura está para todos, o pessoal elimina todos os cantos... O diferencial que leva o sujeito a
comprar, se não for modismo, é ter o produto que ele quer, que imagina, que ele sonha, ou que nós o
incitamos a comprar, e o design, propriamente dito, que diferencia uma marca da outra. Então, é com isso
que nós estamos preocupados. Queremos que a pessoa prefira um Volkswagen, em relação ao concorrente (tem
que ser amor à primeira vista; é olhar e gostar), e se disserem "Ah, me falaram que ele gasta muito combustível",
que a pessoa diga: "Não estou nem aí, eu quero ter aquele carro". Então, é emoção (BARONE, 2001).
Os designs conceituais muitas vezes ficam no “plano do marketing, dos meios de
comunicação”, para um dia serem aproveitados em algum lugar. “São fragmentos de conceitos para
serem aplicados no dia a dia, ou até o dia em que a tecnologia permita, até o dia em que as matériasprimas deixem-na ser competitiva, ou coisa parecida”. Desta forma, “o [design] conceitual tem muito
mais o objetivo de elevar o fabricante à postura de inovador que o de vir a de ser produzido”, afirma a
Entrevistada “A” (1998). O produto com design conceitual “nunca vai ter a função de produção em
massa [...]. É bonito, é legal, e tem gente que compra e está satisfeita com isso, mas não é qualquer
um que vai comprar”, acrescenta Bertola (1998; 2001).
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É preciso considerar-se os desejos dos consumidores, que, muitas vezes, se sobrepõem às
próprias características e necessidades, projetando-se nas de outros grupos tomados como modelos. A
Entrevistada “A” (1998) observa que “se pode estar trabalhando em um refrigerador para a classe C,
pesquisá-la e fazê-lo para ela, e, depois, não conseguir vendê-lo para ela (ninguém gosta de ser
pobre)...” Afirma que é preciso fazer para o consumidor “algo que, pelo menos, tenha a aparência de
que é para uma outra classe, [...] algo que demonstre que ele está ascendendo. [...] O design tem que
dar mais condição a ele”.
Tal visão, no entanto, reforça o caráter de distinção social, apesar de criar a ilusão de uma
aproximação entre as classes.
É fundamental que o desenvolvimento de design vá além da aparência dos artefatos,
contribuindo verdadeiramente para o bem estar das pessoas e para a melhoria da qualidade de vida da
sociedade como um todo.
Os estudos de casos desenvolvidos nesta tese salientam divergências e influências de
produtos importados e conceituais no desenvolvimento de produtos para a sociedade, uma vez que
atuam, em certa medida, como formadores de opinião, junto aos indivíduos e grupos sociais, e como
referências na construção de valores e desejos, apesar do acesso restrito aos mesmos no mercado de
consumo.
Destaca-se, portanto, a responsabilidade social dos designers industriais, levando-se em conta
as implicações do design de artefatos nas relações entre os indivíduos e os grupos sociais, nos modos
de vida e no desenvolvimento da sociedade.
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