1
2
As pessoas interagem com uma variedade de animais de várias maneiras. Os
animais podem ser classificados em três grandes grupos, de acordo com as
diferentes maneiras com que nos relacionamos com eles. Na maioria das vezes,
diferentes espécies ocupam diferentes grupos de relacionamento, porém algumas
espécies podem aparecer em todos os três grupos (ex.: cães de companhia, cães
de guarda ou de pastoreio, cães selvagens ou ferais*).
*O adjetivo feral se refere a um indivíduo membro de uma espécie animal
domesticada que se reverte ao estado selvagem em um habitat não doméstico.
YOUNG, M.S. “The evolution of domestic pets and companion animals”. Veterinary
Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 15, p. 297-309, 1985.
3
Animais de companhia são mantidos em ambientes domésticos, geralmente com o
propósito de fazer companhia ou desempenhar papéis sociais e emocionais.
A expressão “animal de estimação” é comumente usada para se referir a uma
grande variedade de animais domésticos, apesar de “animais de companhia” ser a
expressão preferida por muitos pesquisadores das interações homem-animal por
se referir diretamente à suposta função principal desses animais. A expressão
também é usada para fugir das conotações negativas que alguns acreditam
estarem implícitas no termo “animal de estimação”, de um animal como
propriedade e sob o controle de uma pessoa ao invés de uma relação de igualdade
e companheirismo. Nos EUA, existe um favorecimento para chamar os
proprietários de animais de companhia de “guardiões”. O termo “guardião animal”
talvez leve em conta o relacionamento subjetivo com o animal. Ainda, a guarda
infere uma responsabilidade para cuidar de toda uma vida. No entanto, se as
pessoas compram e vendem animais, eles são donos legítimos dos animais.
As espécies comumente mantidas como animais de estimação ou companhia em
muitos países são cães, gatos, coelhos, porquinhos-da-índia, hamsters, papagaios,
periquitos, peixinhos dourados e outros peixes tropicais, insetos, aracnídeos,
répteis e anfíbios. Algumas das espécies passaram por muitos anos de seleção e
domesticação para se adaptar ao cativeiro (ex.: cães), enquanto outras foram
tiradas da vida selvagem recentemente (ex.: camaleões) e sofrem por serem
mantidos como “de estimação”.
Em muitas sociedades ocidentais, a maior parte das experiências que as pessoas
têm com animais se refere a animais de companhia. Gatos, cães e animais
menores como coelhos, pássaros em gaiolas e peixes, são particularmente
populares.
4
Animais de utilidade são animais domésticos (ou ocasionalmente animais
selvagens em cativeiro, como elefantes) mantidos predominantemente para
finalidades práticas. Animais de produção (bovinos, ovinos, suínos, aves, etc),
animais de experimentação (camundongos, ratos, cobaias, drosófilas, diferentes
primatas, etc), animais de trabalho (cavalos, burros, mulas, camelos e bois de
tração, cães de caça e pastores, cães de guarda, animais terapeutas, cães de
salvamento/farejadores, etc) e animais de esporte (Greyhounds, cavalos de corrida,
etc.) são os principais exemplos. Nas diferentes partes do mundo se mantêm
diferentes animais de utilidade.
Os tipos de relacionamento emocional que as pessoas mantêm com animais de
utilidade variam tremendamente. Também existem sobreposições consideráveis
entre animais de utilidade e de companhia. Por exemplo, cavalos e pôneis
mantidos para montaria podem ser considerados tanto animais de utilidade quanto
de companhia. Animais terapeutas, como os usados em visitas a hospitais, são
claramente animais de utilidade, mas sua utilidade está na companhia e no afeto
que oferecem. Outros animais principalmente mantidos pela sua utilidade, como
animais de experimentação, cães de guarda e de caça, às vezes também
desempenham forte papel de companheiros (Arluke, 1988).
ARLUKE, A.B., 1988: “Sacrificial symbolism in animal experimentation: Object or
pet?” Anthrozoos, 11, 98-117.
5
Os animais silvestres vivem mais distantes do homem mas, ainda assim, é possível
interagir com eles das mais variadas maneiras.
Animais silvestres que disputam recursos como comida com os humanos e os que
transmitem doenças são geralmente considerados pragas (ex.: ratos,
camundongos, vários insetos). Dificilmente são vistos com carinho e muitas vezes
são mortos em grande número. Pragas podem causar problemas, especialmente
na agricultura, onde grandes quantidades de alimento são estocadas por muito
tempo.
Outros animais silvestres são caçados por esporte ou para se obter comida.
Culturas que dependem da caça de subsistência têm contato considerável com
animais selvagens próprios para esta finalidade. Entretanto, comunidades agrícolas
ou urbanas ainda caçam, mas em nível menor.
Em todas as culturas, animais silvestres aparentemente desempenham um papel
importante no folclore, em contos, na criação de mitos, diversão, etc. Alguns
animais, por exemplo, são reverenciados por qualidades como valentia ou lealdade,
que são encorajadas e admiradas também no homem. Da mesma forma, são
desprezados por preguiça ou depravação. Histórias e imagens de animais
silvestres aparecem nas artes, nas tradições orais, em livros, em filmes e na
televisão.
6
Por que tantas pessoas em tantas culturas mantêm animais de companhia ou de
estimação? Note: a partir daqui esses termos serão usados alternadamente.
Animais socialmente interativos como gatos e cães oferecem uma forte sensação
de companheirismo aos seus proprietários. O comportamento afetuoso, a ligação
ao proprietário e a alegria podem ser particularmente importantes para pessoas
isoladas, solitárias e idosas.
Muitos animais de estimação mostram características e padrões comportamentais
similares aos de bebês e mantêm tais características juvenis na idade adulta. Esta
conservação de traços juvenis é chamada neotenia. Um exemplo é o
comportamento de brincar em cães, mostrado na foto. Neotenia aciona o gatilho do
ato de prover cuidados nos proprietários humanos. O ato de cuidar (nurturance)
provê cuidado emocional e físico para alguém.
Como no caso dos acessórios de moda, o tipo de animal com o qual uma pessoa é
vista em público indica a sua visão de si própria e sua posição na sociedade.
Animais como peixes tropicais, répteis e anfíbios são mais raramente mantidos
como animais individuais do tipo companhia, principalmente porque tais espécies
são menos sociais que muitos mamíferos e pássaros. Entretanto, muitos
proprietários desenvolvem profunda afeição e interesse por esses animais, muitas
vezes colecionando grande número.
7
Animais de companhia são particularmente comuns nas sociedades modernas
urbanas, em especial no mundo ocidental. Na verdade, a manutenção de animais
de estimação é vista por alguns como uma indulgência das sociedades ricas e
indolentes (veja Serpell, 1996, discutindo os pontos de vista contra animais de
estimação). No entanto, a prática de manter animais como companheiros é na
verdade um fenômeno bastante universal, ocorrendo em muitas culturas diferentes
e através de toda a história. Culturas diferentes, no entanto, preferem diferentes
tipos de animais como companheiros e em muitas sociedades, onde raramente se
mantêm animais puramente de estimação, combinam-se relacionamentos de
companhia e de utilidade.
Assim sendo, talvez seja uma questão particularmente interessante o fato de que
algumas pessoas em algumas culturas não mantêm animais de estimação.
Voltaremos a esta questão mais tarde.
8
A foto mostra um homem em Serra Leoa, chamado Bala, que montou um santuário
naturalista para chimpanzés. O santuário é chamado “Tacugama”. A maioria dos
animais levados para lá é órfã, pois suas mães foram mortas pela sua carne.
Por que tantos seres humanos parecem sentir essa vontade de interagir com
animais, de criar relacionamentos emocionais e de companheirismo com eles?
A resposta está quase certamente ligada à evolução do homem. Estamos
adaptados, de forma única, à vida em grupos sociais grandes, complexos e
desafiadores, nos quais o estabelecimento de laços afetivos e de alianças com
outros é decisivo. Os humanos também evoluíram para formar laços intensos com
seus descendentes, para guiá-los através do longo caminho até a vida adulta.
Pelo fato de muitos animais, particularmente mamíferos, terem aparência e
comportamentos tão parecidos com os do ser humano (e de crianças), achamos
difícil não nos relacionarmos com eles como fazemos com as pessoas.
Especialmente quando tivemos a oportunidade de interagir com animais de
companhia desde a infância, a tendência a se comunicar e a sentir empatia com
eles parece surgir automaticamente.
9
Cães e gatos estão entre as espécies mais populares de animais de companhia no
mundo. Isto, principalmente, por serem espécies altamente sociais e se adaptarem
bem à sociedade humana. Mas também há razões históricas: cães e gatos há
muito têm se mostrados úteis ao homem para caçar, ficar de guarda, no pastoreio e
no controle de pragas.
Cães também são muito comuns como animais de companhia/utilidade (caça,
pastoreio) em uma variedade de culturas no mundo inteiro (ex.: cães de caça
africanos).
A popularidade de espécies distintas de animais de companhia foi quantificada de
forma detalhada somente em estudos conduzidos na Europa e na América do
Norte. Alguns desses estudos são de natureza acadêmica e muitos estão sendo
conduzidos por fabricantes de rações para animais de estimação, com o intuito de
avaliar a demanda para os seus produtos. A prevalência de posse e interação (nem
todos os animais de companhia são “possuídos” no estrito sentido da palavra) com
animais de companhia em outras partes do mundo ainda precisa ser estabelecida.
•Serpell J (Ed) The Domestic Dog: its evolution, behaviour and interactions with
people. Cambridge University Press 1995
•Turner DC & Bateson P(Eds) The Domestic Cat. The biology of its behaviour (2nd
edition). Cambridge University Press 2000
10
Serpell (1986) chamou atenção para o fato de que os diferentes relacionamentos
das pessoas com animais podem ser incompatíveis. Em particular, o
estabelecimento de relações afetivas com animais de estimação pode estar em
conflito com o desejo de matar animais para a obtenção de comida e também de
roupa, controle de pragas, etc. As pessoas podem desenvolver relacionamentos
positivos muito fortes com animais individuais. Do mesmo modo, milhões de
animais são utilizados por carne, couro, etc. por pessoas ao redor do mundo, do
mesmo modo que humanos utilizam outros recursos (naturais). Mesmo que
animais de estimação não fossem mortos para servir de alimento, as similaridades
entre animais “utilizados” para companhia e animais para alimentação, etc., são
inegáveis.
A teoria da dissonância cognitiva é essencial para o entendimento desse tipo de
conflito (veja próxima projeção).
SERPELL, J., 1986: In the Company of Animals: A Study of Human-Animal
Relationships. Oxford: Basil Blackwell.
11
A teoria da dissonância cognitiva (Festinger, 1957) tem influenciado fortemente os estudos
psicológicos dos processos através dos quais atitudes são formadas e mudadas e dos
modos pelas quais influenciam o comportamento.
A teoria é que as pessoas experimentam sensações emocionais desagradáveis de
dissonância quando abrigam pontos de vista ou motivações incompatíveis ou conflitantes e
que elas mudarão seu comportamento ou suas atitudes para superar essa dissonância.
No contexto das atitudes em relação a animais, isto significa que as pessoas tendem a
exibir comportamentos ou a formar atitudes/opiniões que superem ou evitem o conflito que
surge da coexistência de relações de afeto e utilitaristas com animais. Para evitar este
conflito interno, por exemplo, desconsideram quanto sofrem os animais de produção para
que possam continuar comendo carne. Ou eles irão acreditar que utilizar animais de
laboratório é um “mal necessário”, sem tomarem ciência dos estudos de avaliação
sistemática científica apropriada que observam a eficácia da experimentação animal. Ou as
pessoas irão dizer “é apenas uma galinha” (que significa menor nível de senciência ou
inteligência).
Por outro lado, outras pessoas tentam superar o conflito ao se tornarem vegetarianas, pois
acreditam que as atitudes frente a um animal de companhia devem ser semelhantes
àquelas diante de um animal de produção. Outro exemplo de como as pessoas tentam
resolver seus conflitos internos sobre o uso de animais é quando encantadores de
serpentes e caçadores em alguns países decidem se tornar guias e conservacionistas em
áreas silvestres. Esta é uma resposta que ajuda os animais envolvidos diretamente,
diferente do modo vegetariano de vida que não ajuda diretamente a melhorar as condições
de animais de produção existentes (ainda que o sofrimento de milhares de animais seja
evitado de modo geral ao se tornar vegetariano).
•FESTINGER, L.A., 1957: A Theory of Cognitive Dissonance. Stanford, C.A.: Stanford
University Press.
12
Diversos estudos antropológicos mostraram que, em sociedades que caçam para
sua subsistência, o ato de matar animais está muitas vezes associado a práticas de
rituais. Essas práticas incluem abstinência alimentar e sexual antes da caça, rituais
de purificação do caçador antes e depois da caça, falar respeitosamente e pedir
desculpas à presa e tratamento e descarte cuidadosos da carcaça remanescente.
Serpell e Paul (1994), em uma revisão dessa pesquisa, propuseram que esses
rituais desempenhassem a função de reconhecer e agradecer a participação do
animal no abate e de tornar os consumidores da carne “dignos” do presente
recebido do animal. Em nível de interpretação psicológica, essas práticas podem
ser vistas como tentativa de evitar a experiência desagradável da dissonância que,
presumidamente, ocorre quando animais são usados, seja de modo afetuoso ou
respeitoso, seja objetivamente, como fonte de comida (etc.).
Basso (1973) enfatiza que povos que caçam para sua subsistência, como os
kalapalos no Brasil, também têm tabus estritos contra matar animais de estimação.
Matar animais de estimação, ou seja, animais individuais vistos afetuosamente
como verdadeiros companheiros, resultaria nos níveis mais altos de conflito e na
consequente dissonância.
BASSO, C. B., 1973: The Kalapalo Indians of Central Brazil. Nova York: Holt,
Rinehart and Winston.
SERPELL, J. and PAUL, E., 1994: “Pets and the development of positive attitudes
to animals”. In MANNING, A. e SERPELL, J. (Eds.): Animals and Human Society.
Londres: Routledge.
13
Um caminho alternativo para evitar a dissonância parece ser separar os
relacionamentos afetuosos dos úteis, com apenas um número pequeno de
indivíduos dentro de uma sociedade encarregados do abate de animais. Assim, as
pessoas que têm relacionamento afetivo com (alguns) animais não comem carne
ou somente a comem se o animal foi morto e os cortes produzidos por outras
pessoas.
Fisher (1983) descreve uma separação sexual nos relacionamentos afetivos e
utilitários em relação a porcos nas montanhas da Nova Guiné. Aqui, diz ele,
homens e mulheres vivem separados em casas distintas. As mulheres criam e
cuidam dos porcos, muitas vezes estabelecendo laços afetivos com eles. Os
homens, não envolvidos com esse papel, matam os porcos e consomem sua carne.
No Japão, o Xintoísmo Budismo é a espiritualidade tradicional e ensina a não matar
animais. No entanto, a religião Xintoísta é cerimonial, não literal, e seus seguidores
têm comido peixes e frutos do mar por milhares de anos; ainda, há uns 200 anos, a
nação iniciou a criação de animais de produção, a qual tem crescido cada vez
mais. No entanto, a tradição Xintoísta associa trabalhos de açougueiros e
curtidores com a poluição da morte e, tradicionalmente, um grupo social em
separado, chamado Burakumin, assumiu tais trabalhos. Permanece um certo
preconceito contra os Burakumin por parte de alguns japoneses, ainda que aqueles
tenham direitos legais iguais.
FISHER, M. P., 1983: “Of pigs and dogs: Pets as produce in three societies”. In
KATCHER, A. H. e BECK, A.M. (Eds.) New Perspectives on Our Lives with
Companion Animals. Filadélfia: University of Pennsylvania Press. (p. 132-137).
14
Ver animais mais como objetos que como seres sencientes torna emocionalmente
mais fácil matar e comê-los. Exemplos de tal objetificação podem ser vistos na
filosofia e teologia antigas, grega e cristã. Esses tipos de visão eram proeminentes
na Europa pré-industrial, onde os relacionamentos utilitários com os animais eram
o padrão (economias baseadas em sistemas agropecuários para subsistência) e os
relacionamentos com animais de companhia eram raros (veja Thomas, 1983).
Em muitas sociedades modernas, determinados animais são vistos como objetos
(ex.: animais de laboratório, animais em sistemas de produção intensiva).
Diferentes indivíduos certamente objetificam (e personificam) animais em graus
diferentes, porém a sociedade como um todo também tende a objetificar
determinadas espécies ou tipos de animais (ex.: animais de fazendas, peixes,
invertebrados) mais que outros, aparentemente estando menos preocupada com
seu bem-estar e status moral.
O idioma pode ajudar no processo de objetificação. Por exemplo: em inglês, os
nomes de animais de fazenda comuns como porcos, gado (vacas) e carneiro são
diferentes dos nomes dados às carnes que produzem.
THOMAS, K., 1983: Man and the Natural World: Changing attitudes in England,
1500-1800. Londres: Allen Lane.
15
Além do conflito individual interno, explicado pela teoria da dissonância cognitiva,
percebe-se um quadro de dissonância no nível da sociedade como um todo.
Uma informação científica a respeito da filosofia da sociedade brasileira com
relação aos animais se refere à população de Umuarama e região, noroeste do
estado do Paraná. Dados preliminares mostram que essa sociedade tende, em
média, a seguir uma filosofia utilitarista, em contraste com as filosofias cartesianas
e dos direitos dos animais (Molento et al., 2002, Arquivos de Ciências Veterinárias
e Zoologia da UNIPAR, v. 5, n. 2, p. 324). A ligação da sociedade brasileira aos
animais é forte, como exemplificado pela quantidade e qualidade do
relacionamento homem-animal de estimação e pelo crescente número de
organizações não-governamentais nacionais que lutam por uma melhoria na
qualidade de vida dos animais. Por outro lado, existem inúmeros exemplos de
ações condenáveis e até mesmo ilegais que são abertamente fomentadas por
grupos nacionais. Exemplos seriam a criação e organização de eventos envolvendo
rinhas de galo, rinhas de cães, a farra do boi em Santa Catarina, entre outros. Uma
busca rápida na Internet sobre as rinhas, por exemplo, revela um imenso número
de grupos organizados promovendo a atividade, inclusive com oferta de animais.
A foto mostra uma cena doméstica de interação homem-animal e um galo de briga
da raça Shamo, à venda em página nacional da Internet.
16
O processo de industrialização na Europa e no resto do mundo tirou muitas
pessoas do campo e as trouxe para as cidades, separando-as muito dos
relacionamentos com animais baseados na utilidade. A maioria das pessoas
nessas culturas não mais cria ou abate, nem prepara os cortes de sua carne. No
entanto, relacionamentos “negativos” com animais não desapareceram por
completo: por exemplo, pragas, como ratos e camundongos, ainda representam um
problema para muitas pessoas. Contudo, um número significativo de pessoas era e
ainda é capaz de desenvolver relacionamentos afetivos com animais de companhia
sem experimentar dissonância e conflito significativos.
No passado, os ricos aristocratas sempre mantiveram animais de estimação.
Agora, a afluência de novos moradores para as cidades também contribuiu para o
fato de ter animais de estimação ter se tornado muito mais comum. Além disso,
como um maior número de pessoas é criado com animais de companhia, a tradição
ou o hábito de ter animais de estimação continua se expandindo.
17
A pesquisa dos relacionamentos homem-animal e, particularmente, dos efeitos que
animais de companhia podem ter sobre a saúde das pessoas e sobre seu
desenvolvimento sócio-psicológico cresceu consideravelmente em anos recentes.
Essa pesquisa, no entanto, estava quase que inteiramente limitada aos estudos
conduzidos na Europa e na América do Norte. Esse trabalho mostrou que, nessas
culturas, manter animais de companhia pode ter uma série de efeitos mensuráveis
sobre as pessoas (veja Podberseck et al., 2000), incluindo uma melhoria da saúde
e do bem-estar percebidos (ex.: ao tocar um animal, os batimentos cardíacos das
pessoas podem diminuir), apesar das zoonoses também poderem causar
problemas de saúde. Os efeitos sociais da posse de animais de estimação também
parecem ser importantes, oferecendo companhia e facilitando relacionamentos
sociais entre humanos. Mas, quando vistos no contexto do bem-estar animal,
alguns dos efeitos mais interessantes que animais de estimação podem promover
são sobre as atitudes das pessoas.
Existe um número de organizações utilizando animais na tentativa de melhorar a
vida de pessoas doentes e deficientes, como a Delta Society, www.deltasociety.org,
que atua nos EUA em prol da melhoria da saúde humana através de animais de
serviço e terapia.
PODBERSCEK, A. L., PAUL, E. S. e SERPELL, J. A., 2000: Companion Animals
and Us: Exploring the Relationships Between Pets and People. Cambridge, UK:
CUP.
18
Existem várias iniciativas brasileiras, tanto na área de terapia assistida por animais
quanto na utilização de animais, para melhorar a qualidade de vida humana em
situações específicas. A projeção mostra fotos do projeto “Enriquecimento da
experiência escolar dos alunos da escola de educação especial Nice Braga, da
APAE” (Molento et al., 2001, Arquivos de Ciências Veterinárias e Zoologia da
UNIPAR, v. 4, n. 2 2001), que foi realizado em 2000 e repetido em 2002, na
cidade de Umuarama, Paraná. O acompanhamento da interação das crianças
com animais domésticos (bezerros, pintos, coelhos, leitões e carneiros) revelou
que alunos com maior dificuldade de se expressar demonstraram comunicação
verbal ativa durante o projeto e que certos conteúdos didáticos foram mais
facilmente trabalhados após a interação com os animais.
A médica veterinária e psicóloga Hannelore Fuchs se especializou na relação entre
seres humanos e animais e em comportamento animal. Preside a ABRAZOO
(Associação Brasileira de Zooterapia) e foi presidente da primeira Comissão de
Interação Homem-Animal do Conselho Regional de Medicina Veterinária do
Estado de São Paulo. É fundadora e coordenadora geral do Projeto Petsmile.
Esse projeto assistencial, auto-sustentado, tem como proposta a utilização do
animal como agente terapêutico junto a indivíduos com necessidades especiais.
O animal exerce papel relevante na humanização de ambientes hospitalares,
escolares e institucionais. O projeto, desde sua fundação, em 1997, até 2003, já
atendeu a mais de 5.400 pessoas.
Uma área também desenvolvida no Brasil é a fisioterapia assistida por cavalos.
Uma breve busca na literatura produziu 3.400 páginas de assuntos ligados ao
termo equoterapia. Alguns exemplos:
1. http://www.equoterapia.com.br/
2. http://www.equoterapia.org.br/
Um livro sobre o assunto, que se encontra no Brasil: Equoterapia: Bases e
Fundamentos, por Mylena Medeiros e Emília Dias.
19
Serpell entrevistou 120 ingleses adultos, perguntando se tiveram animais de
estimação na infância. Também perguntou se tinham algum animal de estimação
atualmente ou se gostariam de ter no futuro. Pessoas que tiveram animais de
estimação durante a infância eram significativamente mais inclinadas a ter animais
de estimação ou gostariam de tê-los no futuro, se as circunstâncias permitirem.
Serpell (1981) também descobriu que proprietários de cães na infância estavam
mais inclinados a possuir/querer cães como adultos, enquanto proprietários de
gatos na infância estavam mais inclinados a possuir/querer gatos.
SERPELL, J. A., 1981: “Childhood pets and their influence on adults’ attitudes”.
Psychological Reports, 49, 651-654.
20
Paul e Serpell (1993) fizeram uma pesquisa, através da aplicação de um
questionário a 385 estudantes universitários britânicos, para investigar se o fato de
ter sido proprietário de um animal de estimação na infância estava relacionado com
suas atitudes para com animais e em relação a questões de bem-estar animal
como jovens. O número de indivíduos membros de organizações sem fins
lucrativos voltadas para o bem-estar animal que informaram ter tido animais de
estimação foi significativamente maior que o de indivíduos que não eram membros
de tais organizações.
PAUL, E.S. e SERPELL, J. A., 1993: “Childhood pet keeping and humane attitudes
in young adulthood”. Animal Welfare, 2, 321-337.
21
A teoria da transferência é a base da educação humanitária: a ideia é que ensinar
as crianças a cuidar e a ter compaixão por animais de estimação levará a maior
compaixão e a atitudes mais humanitárias em relação a todas as espécies,
inclusive aos humanos. A posse de animais de estimação na infância parece estar
associada a um mais alto grau de compaixão com animais (não somente de
estimação), porém não está claro se essa compaixão maior também se estende
aos humanos (Paul e Serpell, 1993; Paul, 2000). Também não está claro como
essa aparente “transferência” acontece, exceto pela possibilidade de um simples
processo de generalização de um estímulo, isto é, animais que não são de
estimação lembram os de estimação e assim provocam respostas emocionais
semelhantes. Uma explicação mais simples pode ser que pessoas que tiveram um
relacionamento com um animal de companhia aprendem sobre esses animais e
entendem que têm personalidades. Essas pessoas irão generalizar a idéia para
outros animais, isto é, entenderão que outros animais têm personalidades e são
seres com sentimentos.
PAUL, E. S.e SERPELL, J. A., 1993: “Childhood pet keeping and humane attitudes
in young adulthood”. Animal Welfare, 2, 321-337.
PAUL, E. S., 2000: “Empathy with animals and with humans: Are they linked?”
Anthrozoos, 14, 194-202.
22
Nos Estados Unidos e no RU, as leis contra a crueldade com crianças e animais
estão ligadas historicamente: a lei contra a crueldade com animais precedeu uma
lei semelhante em relação a crianças e a primeira acusação por crueldade com
uma criança se baseou na legislação de crueldade com animais, argumentando
que a criança era um animal humano e, portanto, não deveria ser prejudicada.
A Fundação Latham para a Promoção da Educação Humanitária, fundada em
1918, foi pioneira na pesquisa na área da relação entre violência contra humanos e
animais (veja www.latham.org.).
Hoje diversas sociedades humanitárias de proteção aos animais estão
particularmente interessadas na idéia de que pessoas que prejudicam animais
podem também prejudicar outras pessoas (crianças e adultos). Isto envolve
questões importantes como a interação entre organizações voltadas à proteção de
crianças e de animais e a condenação de perpetradores de abusos de animais
convictos. Para ter um exemplo, veja a Sociedade Humanitária dos Estados Unidos
(HSUS), campanha “First Strike”, www.hsus.org. Para mais informações, veja o
Módulo 31.
Infelizmente não são raros os casos de desentendimento entre seres humanos em
que pessoas descontroladas extravasam nos animais seus sentimentos negativos
acumulados. Exemplos brasileiros seriam o caso da esposa abandonada que pôs
álcool e fogo no cão do ex-marido (Clínica Veterinária, Ano V, n. 28, p. 10, 2000) e
o caso dos cinco cães mortos violentamente a facadas pelo genro da proprietária
dos animais, em Santa Maria, RS, em novembro de 2003. Segundo o jornal local, o
criminoso foi procurar a esposa e a sogra, porém encontrou somente os cães.
Exemplos de livros que tratam da relação entre a crueldade com animais e com
seres humanos:
Lockwood, R.; Ascione, F. R. Cruelty to Animals na Interpersonal Violence –
23
É improvável que exista somente uma única forma de conexão entre crueldade
com crianças e animais. Deve existir uma série de tipos diferentes de associações.
Dois tipos principais de conexão vêm sendo considerados em detalhes:
• A primeira é a chamada “hipótese da graduação”. Ela se baseia na ideia de que
se a uma criança é permitido (ou até encorajado) ser cruel com animais, essa
criança desenvolverá pouca empatia e aumentará o gosto por abuso e pela
violência que, mais tarde, irá progredir em direção à crueldade com humanos
(violência interpessoal).
• A segunda é a ideia de que, em famílias nas quais o abuso ou a negligência de
animais é costumeiro, existe uma tendência maior para o abuso de crianças ou
negligência/abuso do parceiro. Esse abuso pode ser cometido pelo mesmo
indivíduo dentro da família (um dos pais), ou uma criança que sofreu abuso pode,
por sua vez, abusar de animais. A criança que sofreu abusos poderá se tornar
insegura e ter muito baixa autoestima. Ao abusar de um ser ainda mais fraco que
ela própria (isto é, um animal), a criança pode ganhar algum “controle” e sentir-se
melhor sobre si mesma.
24
A pesquisa nessa área utilizou diversos métodos, mas se baseia principalmente em
entrevistas com pessoas sobre suas experiências passadas de infligir ou
testemunhar crueldade com animais.
Esses estudos forneceram algumas informações úteis, mas não são ideais.
Criminosos agressivos podem querer parecer rudes e perigosos e assim exagerar
o seu passado abusivo. Às vezes, eles simplesmente procuram confirmar as
hipóteses dos pesquisadores. Ao contrário, não-criminosos ou criminosos presos
por crimes não violentos costumam estar bem conscientes do desgosto da
sociedade em relação à crueldade com animais e, por isso, podem negar qualquer
abuso de animais durante a infância.
25
Kellert e Felthous (1985) observaram que 25% dos criminosos agressivos, 5,8%
dos criminosos não agressivos e 0% dos não criminosos por eles estudados
relataram ter abusado de animais cinco ou mais vezes durante a infância (veja
também Módulos 30 – O Papel da Profissão Veterinária, e 31 – Educação
Humanitária).
Recentemente, apesar de alguns estudos retrospectivos não terem evidenciado
correlação entre crueldade com animais e comportamento agressivo, um número
de outros estudos encontrou evidências disso (Arluke et al., 1999).
A hipótese da graduação é difícil de se provar porque as correlações entre
crueldade com animais na infância e crueldade com humanos na vida adulta não
provam que ser cruel com animais na infância realmente cause uma desintegração
moral que, no adulto, se desenvolva para agressão contra outras pessoas. No
entanto, é amplamente aceito que crianças extremamente agressivas podem
prejudicar não somente animais mas também humanos, sendo o abuso de animais
reconhecido como componente no diagnóstico da desordem de conduta (um
precursor potencial da psicopatia adulta, Associação Psiquiátrica Americana, 1994)
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 1994: Diagnostic and Statistical
Manual, vol. 4.
ARLUKE, A., LEVIN, J., LUKE, C.e ASCIONE, F., 1999: “The relationship of animal
abuse to violence and other forms of antisocial behaviour”. Journal of Interpersonal
Violence, 14, 963-975.
KELLERT, S. AND FELTHOUS, A., 1985: “Childhood cruelty toward animals among
criminals and non-criminals”. Human Relations, 18, 113-1129.
26
A hipótese da co-ocorrência vem sendo sustentada por uma série de estudos que
descobriram conexões entre o abuso de crianças e o abuso de animais (veja
Duncan e Miller, 2002). Atenção especial, entretanto, tem sido dispensada à ideia
de que crianças que sofrem abuso abusam de animais. Mais pesquisas serão
necessárias para estabelecer a relação entre o abuso/negligência de animais e o
abuso/negligência de crianças. Parece provável que estejam relacionados com
famílias violentas e mal adaptadas à rotina. Isto, no entanto, não significa que os
dois sempre andarão juntos. Diferentes indivíduos, diferentes tipos de ambiente
familiar e diferentes dificuldades sociais e emocionais podem muito bem levar a
diferentes padrões de abuso.
Organizações voltadas para o bem-estar das crianças e dos animais estão
preocupadas com as questões práticas levantadas pelo resultado desse tipo de
pesquisa. Elas esperam conscientizar o público e propõem vigilância aumentada
(ex.: entre profissionais como médicos veterinários), particularmente em relação ao
abuso de animais, assim como mais contatos entre organizações relevantes. A
Sociedade Humanitária dos Estados Unidos (HSUS): Campanha “First Strike”,
disponibiliza, entre outros, apoio em investigações, testemunho de peritos e
informação sobre a conexão entre crueldade com animais e com humanos para
promotores em casos de crueldade com animais (veja www.hsus.org). No RU, a
Sociedade Nacional para a Prevenção de Crueldade contra Crianças tem um
panfleto para profissionais que descreve as conexões entre abuso animal e
violência doméstica. O panfleto está disponível online. O Povo para o Tratamento
Ético de Animais também tem um livreto para profissionais do direito.
•DUNCAN, A. MILLER, C., 2002: The impact of an abusive family context on
childhood animal cruelty and adult violence. Aggression and Violent Behaviour, 7,
365-383.
•Sociedade Nacional para a Prevenção de Crueldade contra Crianças. As
conexões entre abuso animal e violência doméstica. Informações para
profissionais.
http://www.nspcc.org.uk/Inform/Research/Findings/UnderstandingTheLinks_asp_ife
ga26207.htmlformation for professionals
•People for the Ethical Treatment of Animals. Information for Prosecutors, Police
Officers, Magistrates and Judges. PETA Research and Education Foundation,
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O estado psicológico do infrator é essencial na avaliação da possível relação entre
crueldade dirigida a pessoas e a animais. Em particular, as pessoas mais perigosas
são provavelmente aquelas que agem fora das normas éticas da sociedade como
um todo.
Algumas sociedades, por exemplo, não dispensam a certos animais qualquer tipo
de status moral parecido com o humano, vendo-os mais parecidos com objetos que
com pessoas. No entanto, em um contexto desse tipo é possível ocorrer grande
crueldade com animais, enquanto a crueldade com outros humanos não tenderá a
aumentar necessariamente na mesma proporção. Da mesma forma, uma pessoa
que mata animais de maneira socialmente sancionada (ex.: no abatedouro) não é
considerada um perigo para humanos, mas alguém que faz exatamente o mesmo
no íntimo de sua própria casa estaria, e com razão, sob suspeita. Mesmo
adolescentes que maltratam um animal para impressionar uns aos outros estão
sancionando seus atos socialmente e, a longo prazo, podem ser menos perigosos
para humanos que adolescentes individuais que cometem atos de crueldade para
sua própria diversão.
Existe um grande número de interações positivas entre homens e animais. Existe
uma semente em todas as sociedades para ser desenvolvida no sentido de uma
relação que respeite e melhore a qualidade de vida de todos, seres humanos e
animais. Os médicos veterinários devem trabalhar ativamente para este propósito,
em qualquer área de atuação.
A interação homem-animal é muito mais proveitosa quando é feita de uma forma
segura, saudável e prazerosa. Para garantir isto, é fundamental uma boa
assistência médico veterinária, que garanta, além de saúde, educação sanitária e
ambiental. Acreditando neste papel de formador de opinião do médico veterinário, a
revista Clínica Veterinária, na edição n. 33, jul/ago, 2001, publicou como encarte da
revista o pôster educativo "Não atire o pau no gato". A canção é uma tentativa de
contornar o que se ensina desde cedo às crianças brasileiras com a tradicional e
infeliz canção infantil "Atirei o pau no gato". O pôster "Não atire o pau no gato"
encontra-se disponível para download através do endereço:
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Download

Interações homem-animal