1 2 As pessoas interagem com uma variedade de animais de várias maneiras. Os animais podem ser classificados em três grandes grupos, de acordo com as diferentes maneiras com que nos relacionamos com eles. Na maioria das vezes, diferentes espécies ocupam diferentes grupos de relacionamento, porém algumas espécies podem aparecer em todos os três grupos (ex.: cães de companhia, cães de guarda ou de pastoreio, cães selvagens ou ferais*). *O adjetivo feral se refere a um indivíduo membro de uma espécie animal domesticada que se reverte ao estado selvagem em um habitat não doméstico. YOUNG, M.S. “The evolution of domestic pets and companion animals”. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 15, p. 297-309, 1985. 3 Animais de companhia são mantidos em ambientes domésticos, geralmente com o propósito de fazer companhia ou desempenhar papéis sociais e emocionais. A expressão “animal de estimação” é comumente usada para se referir a uma grande variedade de animais domésticos, apesar de “animais de companhia” ser a expressão preferida por muitos pesquisadores das interações homem-animal por se referir diretamente à suposta função principal desses animais. A expressão também é usada para fugir das conotações negativas que alguns acreditam estarem implícitas no termo “animal de estimação”, de um animal como propriedade e sob o controle de uma pessoa ao invés de uma relação de igualdade e companheirismo. Nos EUA, existe um favorecimento para chamar os proprietários de animais de companhia de “guardiões”. O termo “guardião animal” talvez leve em conta o relacionamento subjetivo com o animal. Ainda, a guarda infere uma responsabilidade para cuidar de toda uma vida. No entanto, se as pessoas compram e vendem animais, eles são donos legítimos dos animais. As espécies comumente mantidas como animais de estimação ou companhia em muitos países são cães, gatos, coelhos, porquinhos-da-índia, hamsters, papagaios, periquitos, peixinhos dourados e outros peixes tropicais, insetos, aracnídeos, répteis e anfíbios. Algumas das espécies passaram por muitos anos de seleção e domesticação para se adaptar ao cativeiro (ex.: cães), enquanto outras foram tiradas da vida selvagem recentemente (ex.: camaleões) e sofrem por serem mantidos como “de estimação”. Em muitas sociedades ocidentais, a maior parte das experiências que as pessoas têm com animais se refere a animais de companhia. Gatos, cães e animais menores como coelhos, pássaros em gaiolas e peixes, são particularmente populares. 4 Animais de utilidade são animais domésticos (ou ocasionalmente animais selvagens em cativeiro, como elefantes) mantidos predominantemente para finalidades práticas. Animais de produção (bovinos, ovinos, suínos, aves, etc), animais de experimentação (camundongos, ratos, cobaias, drosófilas, diferentes primatas, etc), animais de trabalho (cavalos, burros, mulas, camelos e bois de tração, cães de caça e pastores, cães de guarda, animais terapeutas, cães de salvamento/farejadores, etc) e animais de esporte (Greyhounds, cavalos de corrida, etc.) são os principais exemplos. Nas diferentes partes do mundo se mantêm diferentes animais de utilidade. Os tipos de relacionamento emocional que as pessoas mantêm com animais de utilidade variam tremendamente. Também existem sobreposições consideráveis entre animais de utilidade e de companhia. Por exemplo, cavalos e pôneis mantidos para montaria podem ser considerados tanto animais de utilidade quanto de companhia. Animais terapeutas, como os usados em visitas a hospitais, são claramente animais de utilidade, mas sua utilidade está na companhia e no afeto que oferecem. Outros animais principalmente mantidos pela sua utilidade, como animais de experimentação, cães de guarda e de caça, às vezes também desempenham forte papel de companheiros (Arluke, 1988). ARLUKE, A.B., 1988: “Sacrificial symbolism in animal experimentation: Object or pet?” Anthrozoos, 11, 98-117. 5 Os animais silvestres vivem mais distantes do homem mas, ainda assim, é possível interagir com eles das mais variadas maneiras. Animais silvestres que disputam recursos como comida com os humanos e os que transmitem doenças são geralmente considerados pragas (ex.: ratos, camundongos, vários insetos). Dificilmente são vistos com carinho e muitas vezes são mortos em grande número. Pragas podem causar problemas, especialmente na agricultura, onde grandes quantidades de alimento são estocadas por muito tempo. Outros animais silvestres são caçados por esporte ou para se obter comida. Culturas que dependem da caça de subsistência têm contato considerável com animais selvagens próprios para esta finalidade. Entretanto, comunidades agrícolas ou urbanas ainda caçam, mas em nível menor. Em todas as culturas, animais silvestres aparentemente desempenham um papel importante no folclore, em contos, na criação de mitos, diversão, etc. Alguns animais, por exemplo, são reverenciados por qualidades como valentia ou lealdade, que são encorajadas e admiradas também no homem. Da mesma forma, são desprezados por preguiça ou depravação. Histórias e imagens de animais silvestres aparecem nas artes, nas tradições orais, em livros, em filmes e na televisão. 6 Por que tantas pessoas em tantas culturas mantêm animais de companhia ou de estimação? Note: a partir daqui esses termos serão usados alternadamente. Animais socialmente interativos como gatos e cães oferecem uma forte sensação de companheirismo aos seus proprietários. O comportamento afetuoso, a ligação ao proprietário e a alegria podem ser particularmente importantes para pessoas isoladas, solitárias e idosas. Muitos animais de estimação mostram características e padrões comportamentais similares aos de bebês e mantêm tais características juvenis na idade adulta. Esta conservação de traços juvenis é chamada neotenia. Um exemplo é o comportamento de brincar em cães, mostrado na foto. Neotenia aciona o gatilho do ato de prover cuidados nos proprietários humanos. O ato de cuidar (nurturance) provê cuidado emocional e físico para alguém. Como no caso dos acessórios de moda, o tipo de animal com o qual uma pessoa é vista em público indica a sua visão de si própria e sua posição na sociedade. Animais como peixes tropicais, répteis e anfíbios são mais raramente mantidos como animais individuais do tipo companhia, principalmente porque tais espécies são menos sociais que muitos mamíferos e pássaros. Entretanto, muitos proprietários desenvolvem profunda afeição e interesse por esses animais, muitas vezes colecionando grande número. 7 Animais de companhia são particularmente comuns nas sociedades modernas urbanas, em especial no mundo ocidental. Na verdade, a manutenção de animais de estimação é vista por alguns como uma indulgência das sociedades ricas e indolentes (veja Serpell, 1996, discutindo os pontos de vista contra animais de estimação). No entanto, a prática de manter animais como companheiros é na verdade um fenômeno bastante universal, ocorrendo em muitas culturas diferentes e através de toda a história. Culturas diferentes, no entanto, preferem diferentes tipos de animais como companheiros e em muitas sociedades, onde raramente se mantêm animais puramente de estimação, combinam-se relacionamentos de companhia e de utilidade. Assim sendo, talvez seja uma questão particularmente interessante o fato de que algumas pessoas em algumas culturas não mantêm animais de estimação. Voltaremos a esta questão mais tarde. 8 A foto mostra um homem em Serra Leoa, chamado Bala, que montou um santuário naturalista para chimpanzés. O santuário é chamado “Tacugama”. A maioria dos animais levados para lá é órfã, pois suas mães foram mortas pela sua carne. Por que tantos seres humanos parecem sentir essa vontade de interagir com animais, de criar relacionamentos emocionais e de companheirismo com eles? A resposta está quase certamente ligada à evolução do homem. Estamos adaptados, de forma única, à vida em grupos sociais grandes, complexos e desafiadores, nos quais o estabelecimento de laços afetivos e de alianças com outros é decisivo. Os humanos também evoluíram para formar laços intensos com seus descendentes, para guiá-los através do longo caminho até a vida adulta. Pelo fato de muitos animais, particularmente mamíferos, terem aparência e comportamentos tão parecidos com os do ser humano (e de crianças), achamos difícil não nos relacionarmos com eles como fazemos com as pessoas. Especialmente quando tivemos a oportunidade de interagir com animais de companhia desde a infância, a tendência a se comunicar e a sentir empatia com eles parece surgir automaticamente. 9 Cães e gatos estão entre as espécies mais populares de animais de companhia no mundo. Isto, principalmente, por serem espécies altamente sociais e se adaptarem bem à sociedade humana. Mas também há razões históricas: cães e gatos há muito têm se mostrados úteis ao homem para caçar, ficar de guarda, no pastoreio e no controle de pragas. Cães também são muito comuns como animais de companhia/utilidade (caça, pastoreio) em uma variedade de culturas no mundo inteiro (ex.: cães de caça africanos). A popularidade de espécies distintas de animais de companhia foi quantificada de forma detalhada somente em estudos conduzidos na Europa e na América do Norte. Alguns desses estudos são de natureza acadêmica e muitos estão sendo conduzidos por fabricantes de rações para animais de estimação, com o intuito de avaliar a demanda para os seus produtos. A prevalência de posse e interação (nem todos os animais de companhia são “possuídos” no estrito sentido da palavra) com animais de companhia em outras partes do mundo ainda precisa ser estabelecida. •Serpell J (Ed) The Domestic Dog: its evolution, behaviour and interactions with people. Cambridge University Press 1995 •Turner DC & Bateson P(Eds) The Domestic Cat. The biology of its behaviour (2nd edition). Cambridge University Press 2000 10 Serpell (1986) chamou atenção para o fato de que os diferentes relacionamentos das pessoas com animais podem ser incompatíveis. Em particular, o estabelecimento de relações afetivas com animais de estimação pode estar em conflito com o desejo de matar animais para a obtenção de comida e também de roupa, controle de pragas, etc. As pessoas podem desenvolver relacionamentos positivos muito fortes com animais individuais. Do mesmo modo, milhões de animais são utilizados por carne, couro, etc. por pessoas ao redor do mundo, do mesmo modo que humanos utilizam outros recursos (naturais). Mesmo que animais de estimação não fossem mortos para servir de alimento, as similaridades entre animais “utilizados” para companhia e animais para alimentação, etc., são inegáveis. A teoria da dissonância cognitiva é essencial para o entendimento desse tipo de conflito (veja próxima projeção). SERPELL, J., 1986: In the Company of Animals: A Study of Human-Animal Relationships. Oxford: Basil Blackwell. 11 A teoria da dissonância cognitiva (Festinger, 1957) tem influenciado fortemente os estudos psicológicos dos processos através dos quais atitudes são formadas e mudadas e dos modos pelas quais influenciam o comportamento. A teoria é que as pessoas experimentam sensações emocionais desagradáveis de dissonância quando abrigam pontos de vista ou motivações incompatíveis ou conflitantes e que elas mudarão seu comportamento ou suas atitudes para superar essa dissonância. No contexto das atitudes em relação a animais, isto significa que as pessoas tendem a exibir comportamentos ou a formar atitudes/opiniões que superem ou evitem o conflito que surge da coexistência de relações de afeto e utilitaristas com animais. Para evitar este conflito interno, por exemplo, desconsideram quanto sofrem os animais de produção para que possam continuar comendo carne. Ou eles irão acreditar que utilizar animais de laboratório é um “mal necessário”, sem tomarem ciência dos estudos de avaliação sistemática científica apropriada que observam a eficácia da experimentação animal. Ou as pessoas irão dizer “é apenas uma galinha” (que significa menor nível de senciência ou inteligência). Por outro lado, outras pessoas tentam superar o conflito ao se tornarem vegetarianas, pois acreditam que as atitudes frente a um animal de companhia devem ser semelhantes àquelas diante de um animal de produção. Outro exemplo de como as pessoas tentam resolver seus conflitos internos sobre o uso de animais é quando encantadores de serpentes e caçadores em alguns países decidem se tornar guias e conservacionistas em áreas silvestres. Esta é uma resposta que ajuda os animais envolvidos diretamente, diferente do modo vegetariano de vida que não ajuda diretamente a melhorar as condições de animais de produção existentes (ainda que o sofrimento de milhares de animais seja evitado de modo geral ao se tornar vegetariano). •FESTINGER, L.A., 1957: A Theory of Cognitive Dissonance. Stanford, C.A.: Stanford University Press. 12 Diversos estudos antropológicos mostraram que, em sociedades que caçam para sua subsistência, o ato de matar animais está muitas vezes associado a práticas de rituais. Essas práticas incluem abstinência alimentar e sexual antes da caça, rituais de purificação do caçador antes e depois da caça, falar respeitosamente e pedir desculpas à presa e tratamento e descarte cuidadosos da carcaça remanescente. Serpell e Paul (1994), em uma revisão dessa pesquisa, propuseram que esses rituais desempenhassem a função de reconhecer e agradecer a participação do animal no abate e de tornar os consumidores da carne “dignos” do presente recebido do animal. Em nível de interpretação psicológica, essas práticas podem ser vistas como tentativa de evitar a experiência desagradável da dissonância que, presumidamente, ocorre quando animais são usados, seja de modo afetuoso ou respeitoso, seja objetivamente, como fonte de comida (etc.). Basso (1973) enfatiza que povos que caçam para sua subsistência, como os kalapalos no Brasil, também têm tabus estritos contra matar animais de estimação. Matar animais de estimação, ou seja, animais individuais vistos afetuosamente como verdadeiros companheiros, resultaria nos níveis mais altos de conflito e na consequente dissonância. BASSO, C. B., 1973: The Kalapalo Indians of Central Brazil. Nova York: Holt, Rinehart and Winston. SERPELL, J. and PAUL, E., 1994: “Pets and the development of positive attitudes to animals”. In MANNING, A. e SERPELL, J. (Eds.): Animals and Human Society. Londres: Routledge. 13 Um caminho alternativo para evitar a dissonância parece ser separar os relacionamentos afetuosos dos úteis, com apenas um número pequeno de indivíduos dentro de uma sociedade encarregados do abate de animais. Assim, as pessoas que têm relacionamento afetivo com (alguns) animais não comem carne ou somente a comem se o animal foi morto e os cortes produzidos por outras pessoas. Fisher (1983) descreve uma separação sexual nos relacionamentos afetivos e utilitários em relação a porcos nas montanhas da Nova Guiné. Aqui, diz ele, homens e mulheres vivem separados em casas distintas. As mulheres criam e cuidam dos porcos, muitas vezes estabelecendo laços afetivos com eles. Os homens, não envolvidos com esse papel, matam os porcos e consomem sua carne. No Japão, o Xintoísmo Budismo é a espiritualidade tradicional e ensina a não matar animais. No entanto, a religião Xintoísta é cerimonial, não literal, e seus seguidores têm comido peixes e frutos do mar por milhares de anos; ainda, há uns 200 anos, a nação iniciou a criação de animais de produção, a qual tem crescido cada vez mais. No entanto, a tradição Xintoísta associa trabalhos de açougueiros e curtidores com a poluição da morte e, tradicionalmente, um grupo social em separado, chamado Burakumin, assumiu tais trabalhos. Permanece um certo preconceito contra os Burakumin por parte de alguns japoneses, ainda que aqueles tenham direitos legais iguais. FISHER, M. P., 1983: “Of pigs and dogs: Pets as produce in three societies”. In KATCHER, A. H. e BECK, A.M. (Eds.) New Perspectives on Our Lives with Companion Animals. Filadélfia: University of Pennsylvania Press. (p. 132-137). 14 Ver animais mais como objetos que como seres sencientes torna emocionalmente mais fácil matar e comê-los. Exemplos de tal objetificação podem ser vistos na filosofia e teologia antigas, grega e cristã. Esses tipos de visão eram proeminentes na Europa pré-industrial, onde os relacionamentos utilitários com os animais eram o padrão (economias baseadas em sistemas agropecuários para subsistência) e os relacionamentos com animais de companhia eram raros (veja Thomas, 1983). Em muitas sociedades modernas, determinados animais são vistos como objetos (ex.: animais de laboratório, animais em sistemas de produção intensiva). Diferentes indivíduos certamente objetificam (e personificam) animais em graus diferentes, porém a sociedade como um todo também tende a objetificar determinadas espécies ou tipos de animais (ex.: animais de fazendas, peixes, invertebrados) mais que outros, aparentemente estando menos preocupada com seu bem-estar e status moral. O idioma pode ajudar no processo de objetificação. Por exemplo: em inglês, os nomes de animais de fazenda comuns como porcos, gado (vacas) e carneiro são diferentes dos nomes dados às carnes que produzem. THOMAS, K., 1983: Man and the Natural World: Changing attitudes in England, 1500-1800. Londres: Allen Lane. 15 Além do conflito individual interno, explicado pela teoria da dissonância cognitiva, percebe-se um quadro de dissonância no nível da sociedade como um todo. Uma informação científica a respeito da filosofia da sociedade brasileira com relação aos animais se refere à população de Umuarama e região, noroeste do estado do Paraná. Dados preliminares mostram que essa sociedade tende, em média, a seguir uma filosofia utilitarista, em contraste com as filosofias cartesianas e dos direitos dos animais (Molento et al., 2002, Arquivos de Ciências Veterinárias e Zoologia da UNIPAR, v. 5, n. 2, p. 324). A ligação da sociedade brasileira aos animais é forte, como exemplificado pela quantidade e qualidade do relacionamento homem-animal de estimação e pelo crescente número de organizações não-governamentais nacionais que lutam por uma melhoria na qualidade de vida dos animais. Por outro lado, existem inúmeros exemplos de ações condenáveis e até mesmo ilegais que são abertamente fomentadas por grupos nacionais. Exemplos seriam a criação e organização de eventos envolvendo rinhas de galo, rinhas de cães, a farra do boi em Santa Catarina, entre outros. Uma busca rápida na Internet sobre as rinhas, por exemplo, revela um imenso número de grupos organizados promovendo a atividade, inclusive com oferta de animais. A foto mostra uma cena doméstica de interação homem-animal e um galo de briga da raça Shamo, à venda em página nacional da Internet. 16 O processo de industrialização na Europa e no resto do mundo tirou muitas pessoas do campo e as trouxe para as cidades, separando-as muito dos relacionamentos com animais baseados na utilidade. A maioria das pessoas nessas culturas não mais cria ou abate, nem prepara os cortes de sua carne. No entanto, relacionamentos “negativos” com animais não desapareceram por completo: por exemplo, pragas, como ratos e camundongos, ainda representam um problema para muitas pessoas. Contudo, um número significativo de pessoas era e ainda é capaz de desenvolver relacionamentos afetivos com animais de companhia sem experimentar dissonância e conflito significativos. No passado, os ricos aristocratas sempre mantiveram animais de estimação. Agora, a afluência de novos moradores para as cidades também contribuiu para o fato de ter animais de estimação ter se tornado muito mais comum. Além disso, como um maior número de pessoas é criado com animais de companhia, a tradição ou o hábito de ter animais de estimação continua se expandindo. 17 A pesquisa dos relacionamentos homem-animal e, particularmente, dos efeitos que animais de companhia podem ter sobre a saúde das pessoas e sobre seu desenvolvimento sócio-psicológico cresceu consideravelmente em anos recentes. Essa pesquisa, no entanto, estava quase que inteiramente limitada aos estudos conduzidos na Europa e na América do Norte. Esse trabalho mostrou que, nessas culturas, manter animais de companhia pode ter uma série de efeitos mensuráveis sobre as pessoas (veja Podberseck et al., 2000), incluindo uma melhoria da saúde e do bem-estar percebidos (ex.: ao tocar um animal, os batimentos cardíacos das pessoas podem diminuir), apesar das zoonoses também poderem causar problemas de saúde. Os efeitos sociais da posse de animais de estimação também parecem ser importantes, oferecendo companhia e facilitando relacionamentos sociais entre humanos. Mas, quando vistos no contexto do bem-estar animal, alguns dos efeitos mais interessantes que animais de estimação podem promover são sobre as atitudes das pessoas. Existe um número de organizações utilizando animais na tentativa de melhorar a vida de pessoas doentes e deficientes, como a Delta Society, www.deltasociety.org, que atua nos EUA em prol da melhoria da saúde humana através de animais de serviço e terapia. PODBERSCEK, A. L., PAUL, E. S. e SERPELL, J. A., 2000: Companion Animals and Us: Exploring the Relationships Between Pets and People. Cambridge, UK: CUP. 18 Existem várias iniciativas brasileiras, tanto na área de terapia assistida por animais quanto na utilização de animais, para melhorar a qualidade de vida humana em situações específicas. A projeção mostra fotos do projeto “Enriquecimento da experiência escolar dos alunos da escola de educação especial Nice Braga, da APAE” (Molento et al., 2001, Arquivos de Ciências Veterinárias e Zoologia da UNIPAR, v. 4, n. 2 2001), que foi realizado em 2000 e repetido em 2002, na cidade de Umuarama, Paraná. O acompanhamento da interação das crianças com animais domésticos (bezerros, pintos, coelhos, leitões e carneiros) revelou que alunos com maior dificuldade de se expressar demonstraram comunicação verbal ativa durante o projeto e que certos conteúdos didáticos foram mais facilmente trabalhados após a interação com os animais. A médica veterinária e psicóloga Hannelore Fuchs se especializou na relação entre seres humanos e animais e em comportamento animal. Preside a ABRAZOO (Associação Brasileira de Zooterapia) e foi presidente da primeira Comissão de Interação Homem-Animal do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo. É fundadora e coordenadora geral do Projeto Petsmile. Esse projeto assistencial, auto-sustentado, tem como proposta a utilização do animal como agente terapêutico junto a indivíduos com necessidades especiais. O animal exerce papel relevante na humanização de ambientes hospitalares, escolares e institucionais. O projeto, desde sua fundação, em 1997, até 2003, já atendeu a mais de 5.400 pessoas. Uma área também desenvolvida no Brasil é a fisioterapia assistida por cavalos. Uma breve busca na literatura produziu 3.400 páginas de assuntos ligados ao termo equoterapia. Alguns exemplos: 1. http://www.equoterapia.com.br/ 2. http://www.equoterapia.org.br/ Um livro sobre o assunto, que se encontra no Brasil: Equoterapia: Bases e Fundamentos, por Mylena Medeiros e Emília Dias. 19 Serpell entrevistou 120 ingleses adultos, perguntando se tiveram animais de estimação na infância. Também perguntou se tinham algum animal de estimação atualmente ou se gostariam de ter no futuro. Pessoas que tiveram animais de estimação durante a infância eram significativamente mais inclinadas a ter animais de estimação ou gostariam de tê-los no futuro, se as circunstâncias permitirem. Serpell (1981) também descobriu que proprietários de cães na infância estavam mais inclinados a possuir/querer cães como adultos, enquanto proprietários de gatos na infância estavam mais inclinados a possuir/querer gatos. SERPELL, J. A., 1981: “Childhood pets and their influence on adults’ attitudes”. Psychological Reports, 49, 651-654. 20 Paul e Serpell (1993) fizeram uma pesquisa, através da aplicação de um questionário a 385 estudantes universitários britânicos, para investigar se o fato de ter sido proprietário de um animal de estimação na infância estava relacionado com suas atitudes para com animais e em relação a questões de bem-estar animal como jovens. O número de indivíduos membros de organizações sem fins lucrativos voltadas para o bem-estar animal que informaram ter tido animais de estimação foi significativamente maior que o de indivíduos que não eram membros de tais organizações. PAUL, E.S. e SERPELL, J. A., 1993: “Childhood pet keeping and humane attitudes in young adulthood”. Animal Welfare, 2, 321-337. 21 A teoria da transferência é a base da educação humanitária: a ideia é que ensinar as crianças a cuidar e a ter compaixão por animais de estimação levará a maior compaixão e a atitudes mais humanitárias em relação a todas as espécies, inclusive aos humanos. A posse de animais de estimação na infância parece estar associada a um mais alto grau de compaixão com animais (não somente de estimação), porém não está claro se essa compaixão maior também se estende aos humanos (Paul e Serpell, 1993; Paul, 2000). Também não está claro como essa aparente “transferência” acontece, exceto pela possibilidade de um simples processo de generalização de um estímulo, isto é, animais que não são de estimação lembram os de estimação e assim provocam respostas emocionais semelhantes. Uma explicação mais simples pode ser que pessoas que tiveram um relacionamento com um animal de companhia aprendem sobre esses animais e entendem que têm personalidades. Essas pessoas irão generalizar a idéia para outros animais, isto é, entenderão que outros animais têm personalidades e são seres com sentimentos. PAUL, E. S.e SERPELL, J. A., 1993: “Childhood pet keeping and humane attitudes in young adulthood”. Animal Welfare, 2, 321-337. PAUL, E. S., 2000: “Empathy with animals and with humans: Are they linked?” Anthrozoos, 14, 194-202. 22 Nos Estados Unidos e no RU, as leis contra a crueldade com crianças e animais estão ligadas historicamente: a lei contra a crueldade com animais precedeu uma lei semelhante em relação a crianças e a primeira acusação por crueldade com uma criança se baseou na legislação de crueldade com animais, argumentando que a criança era um animal humano e, portanto, não deveria ser prejudicada. A Fundação Latham para a Promoção da Educação Humanitária, fundada em 1918, foi pioneira na pesquisa na área da relação entre violência contra humanos e animais (veja www.latham.org.). Hoje diversas sociedades humanitárias de proteção aos animais estão particularmente interessadas na idéia de que pessoas que prejudicam animais podem também prejudicar outras pessoas (crianças e adultos). Isto envolve questões importantes como a interação entre organizações voltadas à proteção de crianças e de animais e a condenação de perpetradores de abusos de animais convictos. Para ter um exemplo, veja a Sociedade Humanitária dos Estados Unidos (HSUS), campanha “First Strike”, www.hsus.org. Para mais informações, veja o Módulo 31. Infelizmente não são raros os casos de desentendimento entre seres humanos em que pessoas descontroladas extravasam nos animais seus sentimentos negativos acumulados. Exemplos brasileiros seriam o caso da esposa abandonada que pôs álcool e fogo no cão do ex-marido (Clínica Veterinária, Ano V, n. 28, p. 10, 2000) e o caso dos cinco cães mortos violentamente a facadas pelo genro da proprietária dos animais, em Santa Maria, RS, em novembro de 2003. Segundo o jornal local, o criminoso foi procurar a esposa e a sogra, porém encontrou somente os cães. Exemplos de livros que tratam da relação entre a crueldade com animais e com seres humanos: Lockwood, R.; Ascione, F. R. Cruelty to Animals na Interpersonal Violence – 23 É improvável que exista somente uma única forma de conexão entre crueldade com crianças e animais. Deve existir uma série de tipos diferentes de associações. Dois tipos principais de conexão vêm sendo considerados em detalhes: • A primeira é a chamada “hipótese da graduação”. Ela se baseia na ideia de que se a uma criança é permitido (ou até encorajado) ser cruel com animais, essa criança desenvolverá pouca empatia e aumentará o gosto por abuso e pela violência que, mais tarde, irá progredir em direção à crueldade com humanos (violência interpessoal). • A segunda é a ideia de que, em famílias nas quais o abuso ou a negligência de animais é costumeiro, existe uma tendência maior para o abuso de crianças ou negligência/abuso do parceiro. Esse abuso pode ser cometido pelo mesmo indivíduo dentro da família (um dos pais), ou uma criança que sofreu abuso pode, por sua vez, abusar de animais. A criança que sofreu abusos poderá se tornar insegura e ter muito baixa autoestima. Ao abusar de um ser ainda mais fraco que ela própria (isto é, um animal), a criança pode ganhar algum “controle” e sentir-se melhor sobre si mesma. 24 A pesquisa nessa área utilizou diversos métodos, mas se baseia principalmente em entrevistas com pessoas sobre suas experiências passadas de infligir ou testemunhar crueldade com animais. Esses estudos forneceram algumas informações úteis, mas não são ideais. Criminosos agressivos podem querer parecer rudes e perigosos e assim exagerar o seu passado abusivo. Às vezes, eles simplesmente procuram confirmar as hipóteses dos pesquisadores. Ao contrário, não-criminosos ou criminosos presos por crimes não violentos costumam estar bem conscientes do desgosto da sociedade em relação à crueldade com animais e, por isso, podem negar qualquer abuso de animais durante a infância. 25 Kellert e Felthous (1985) observaram que 25% dos criminosos agressivos, 5,8% dos criminosos não agressivos e 0% dos não criminosos por eles estudados relataram ter abusado de animais cinco ou mais vezes durante a infância (veja também Módulos 30 – O Papel da Profissão Veterinária, e 31 – Educação Humanitária). Recentemente, apesar de alguns estudos retrospectivos não terem evidenciado correlação entre crueldade com animais e comportamento agressivo, um número de outros estudos encontrou evidências disso (Arluke et al., 1999). A hipótese da graduação é difícil de se provar porque as correlações entre crueldade com animais na infância e crueldade com humanos na vida adulta não provam que ser cruel com animais na infância realmente cause uma desintegração moral que, no adulto, se desenvolva para agressão contra outras pessoas. No entanto, é amplamente aceito que crianças extremamente agressivas podem prejudicar não somente animais mas também humanos, sendo o abuso de animais reconhecido como componente no diagnóstico da desordem de conduta (um precursor potencial da psicopatia adulta, Associação Psiquiátrica Americana, 1994) AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 1994: Diagnostic and Statistical Manual, vol. 4. ARLUKE, A., LEVIN, J., LUKE, C.e ASCIONE, F., 1999: “The relationship of animal abuse to violence and other forms of antisocial behaviour”. Journal of Interpersonal Violence, 14, 963-975. KELLERT, S. AND FELTHOUS, A., 1985: “Childhood cruelty toward animals among criminals and non-criminals”. Human Relations, 18, 113-1129. 26 A hipótese da co-ocorrência vem sendo sustentada por uma série de estudos que descobriram conexões entre o abuso de crianças e o abuso de animais (veja Duncan e Miller, 2002). Atenção especial, entretanto, tem sido dispensada à ideia de que crianças que sofrem abuso abusam de animais. Mais pesquisas serão necessárias para estabelecer a relação entre o abuso/negligência de animais e o abuso/negligência de crianças. Parece provável que estejam relacionados com famílias violentas e mal adaptadas à rotina. Isto, no entanto, não significa que os dois sempre andarão juntos. Diferentes indivíduos, diferentes tipos de ambiente familiar e diferentes dificuldades sociais e emocionais podem muito bem levar a diferentes padrões de abuso. Organizações voltadas para o bem-estar das crianças e dos animais estão preocupadas com as questões práticas levantadas pelo resultado desse tipo de pesquisa. Elas esperam conscientizar o público e propõem vigilância aumentada (ex.: entre profissionais como médicos veterinários), particularmente em relação ao abuso de animais, assim como mais contatos entre organizações relevantes. A Sociedade Humanitária dos Estados Unidos (HSUS): Campanha “First Strike”, disponibiliza, entre outros, apoio em investigações, testemunho de peritos e informação sobre a conexão entre crueldade com animais e com humanos para promotores em casos de crueldade com animais (veja www.hsus.org). No RU, a Sociedade Nacional para a Prevenção de Crueldade contra Crianças tem um panfleto para profissionais que descreve as conexões entre abuso animal e violência doméstica. O panfleto está disponível online. O Povo para o Tratamento Ético de Animais também tem um livreto para profissionais do direito. •DUNCAN, A. MILLER, C., 2002: The impact of an abusive family context on childhood animal cruelty and adult violence. Aggression and Violent Behaviour, 7, 365-383. •Sociedade Nacional para a Prevenção de Crueldade contra Crianças. As conexões entre abuso animal e violência doméstica. Informações para profissionais. http://www.nspcc.org.uk/Inform/Research/Findings/UnderstandingTheLinks_asp_ife ga26207.htmlformation for professionals •People for the Ethical Treatment of Animals. Information for Prosecutors, Police Officers, Magistrates and Judges. PETA Research and Education Foundation, 27 O estado psicológico do infrator é essencial na avaliação da possível relação entre crueldade dirigida a pessoas e a animais. Em particular, as pessoas mais perigosas são provavelmente aquelas que agem fora das normas éticas da sociedade como um todo. Algumas sociedades, por exemplo, não dispensam a certos animais qualquer tipo de status moral parecido com o humano, vendo-os mais parecidos com objetos que com pessoas. No entanto, em um contexto desse tipo é possível ocorrer grande crueldade com animais, enquanto a crueldade com outros humanos não tenderá a aumentar necessariamente na mesma proporção. Da mesma forma, uma pessoa que mata animais de maneira socialmente sancionada (ex.: no abatedouro) não é considerada um perigo para humanos, mas alguém que faz exatamente o mesmo no íntimo de sua própria casa estaria, e com razão, sob suspeita. Mesmo adolescentes que maltratam um animal para impressionar uns aos outros estão sancionando seus atos socialmente e, a longo prazo, podem ser menos perigosos para humanos que adolescentes individuais que cometem atos de crueldade para sua própria diversão. Existe um grande número de interações positivas entre homens e animais. Existe uma semente em todas as sociedades para ser desenvolvida no sentido de uma relação que respeite e melhore a qualidade de vida de todos, seres humanos e animais. Os médicos veterinários devem trabalhar ativamente para este propósito, em qualquer área de atuação. A interação homem-animal é muito mais proveitosa quando é feita de uma forma segura, saudável e prazerosa. Para garantir isto, é fundamental uma boa assistência médico veterinária, que garanta, além de saúde, educação sanitária e ambiental. Acreditando neste papel de formador de opinião do médico veterinário, a revista Clínica Veterinária, na edição n. 33, jul/ago, 2001, publicou como encarte da revista o pôster educativo "Não atire o pau no gato". A canção é uma tentativa de contornar o que se ensina desde cedo às crianças brasileiras com a tradicional e infeliz canção infantil "Atirei o pau no gato". O pôster "Não atire o pau no gato" encontra-se disponível para download através do endereço: 28 29 30 31 32 33 34