COMUNICAÇÃO DE PESQUISA CONTRIBUIÇÕES DA PERSPECTIVA EDUCACIONAL DE HELENA ANTIPOFF PARA O ENSINO DE ARTE EM MINAS GERAIS: FAZENDA DO ROSÁRIO (1940 – 1970) Marilene Oliveira Almeida/Mestranda em Educação/FaE/UFMG - Orientadora: Dra. Raquel Martins de Assis Universidade Federal de Minas Gerais Resumo: Este estudo é proveniente do Mestrado em educação em curso na Faculdade de Educação/UFMG. Tem-se como objetivo investigar a proposta de ensino de arte na Fazenda do Rosário, Ibirité, MG, entre 1940 e 1960, instituição fundada pela educadora e psicóloga russa Helena Antipoff, que chega ao Brasil em 1929 para atuar na Escola de Aperfeiçoamento. Emergindo-se da dimensão pedagógica da educadora, a investigação, ainda em estágio inicial, privilegia destacar como se deu o ensino de arte empreendido na instituição no período tratado, procurando identificar colaboradores e propostas pedagógicas adotadas por artistas educadores que ali atuaram. Fundamenta-se nas pesquisas biográficas de Helena Antipoff; nos estudos de história da psicologia da educação realizadas por Campos; nos trabalhos de história do ensino de arte realizados por Barbosa para contextualizar as fontes primárias consultadas: programas de cursos de ensino de arte, relatórios de aulas registrados pelos educadores da época; escritos em diários de Helena Antipoff e correspondências com colaboradores. Algumas questões guiam o estudo: como a educadora percebia a importância da arte na educação dos docentes e discentes e em que concepções educacionais se assentaram suas proposições. A partir de levantamentos preliminares, destacam-se: artista educador francês Jean Bercy, ceramista nordestino Jether Peixoto e Augusto Rodrigues, parceiro que fundou a Escolinha de Arte do Brasil em 1948, apoiado por Antipoff. PALAVRAS-CHAVE: Helena Antipoff; Ensino de Arte; Escolinhas de Arte do Brasil. 1. INTRODUÇÃO “Talento e inteligência não são de geração espontânea, mas precedidos de longo trabalho de gerações: quem será pintor num meio rural, onde a criança nem mesmo tem o direito de usar o lápis de cor?” (ANTIPOFF, 1992, p. 402). Este projeto de pesquisa busca investigar qual era a proposta de ensino de arte na Fazenda do Rosário, instituição educativa fundada, na década de 1940 pela educadora e psicóloga russa Helena Antipoff, na região de Ibirité, MG. Esta proposta surgiu de minhas indagações sobre a trajetória do ensino de arte na Fundação Helena Antipoff, Ibirité, MG, instituição que agrega hoje o complexo de obras fundadas por Helena Antipoff e que tem importante papel em minha formação como professora. Ao longo de minhas experiências em arte na educação, como professora de Oficinas Pedagógicas, na mesma instituição, a partir de 2007, venho me perguntando: como as contribuições das perspectivas educacionais de ensino de arte de Helena Antioff poderiam trazer para nós, educadores do novo século, novas formas de reinventar a docência em arte em consonância com o nosso tempo? Muito do que se pratica hoje nas escolas, de modo geral, parece não se comparar ao que se viveu na Fazenda do Rosário, em termos de educação em arte. Visto dessa forma, uma curiosidade acadêmica me instiga: como a memória histórica, deixada pelos escritos de Helena Antipoff, planejamentos, dúvidas, inquietações, ou seja, traços deixados pela ávida pesquisadora que era, poderia nos ajudar a congregar novos conhecimentos para a atuação em Arte1 que possa contribuir para a nossa formação e de nossos alunos? Esta pesquisa pretende contribuir para que a compreensão das experiências vividas no passado, projetadas pelos ideais de educação em arte de Helena Antipoff, possa nos ajudar a compreender nossas ações pedagógicas em arte no presente. “Na realidade, numa pesquisa histórica, o pesquisador parte de determinações presentes, a atualidade é o seu começo real” (SILVA, 2003 p. 18). Desse modo, o projeto busca investigar a perspectiva educacional de Helena Antipoff no que diz respeito a educação em arte, “disciplina” que é atualmente designada Arte e envolve quatro campos (Artes Visuais, Dança, Música e Teatro), proposta pela LDB 9394/96. A lei garantiu a continuidade da obrigatoriedade do ensino de arte na educação, incluída pela LDB 5692/71, designada, na época, Educação Artística2, com um cunho tecnicista3 e polivalente4: A nova LDB ainda muda o lugar do ensino de arte: transforma-a de atividade, com um cunho tecnicista, como era na Lei 5692/71, para componente curricular. O mesmo acontece com relação à concepção de polivalência na educação: dá lugar a um pensamento cognitivista5 da nova lei, mais adequado ao pensamento educacional da década de 1990 (ALCAIDE; SILVA, 2010, p.33). 1 Durante a apresentação do projeto duas grafias se farão presentes, arte com letra minúscula quando se refere à área de conhecimento humano e Arte,com letra maiúscula quando esta área é componente curricular. 2 Nomenclatura substituída por Ensino de Arte pelo Parecer do Conselho Nacional de Educação. No início dos anos 1970, é assinada a lei 5692/71, que introduzia a Educação Artística no currículo escolar, a partir do acordo MEC-USAID, entre o Ministério da Educação brasileiro e o estadunense. (ALCAIDE; SILVA, 2010). 3 A tendência tecnicista surge quando a educação não se apresenta suficiente como meio de profissionalização para atender a demanda do mundo tecnológico em expansão. Essa tendência pedagógica desenvolveu-se desde a segunda metade do século XX, mais intensamente nos Estados Unidos, e no Brasil, é introduzida entre 1960 e 1970. O que está em destaque é um competente planejamento para que os alunos ao saírem dos cursos possam apresentar comportamentos correspondentes aos objetivos, conteúdos, estratégias, técnicas, avaliação, estabelecidos pelos professores, em sintonia com os interesses da sociedade industrializada, essa nova modalidade de pensar a educação visava a competência da escola, incorporando o moderno e o tecnológico nos currículos, o professor passa a ser considerado um técnico da educação (FERRAZ; FUSARI, 2010). 4 A reforma educacional de 1971 estabeleceu um novo conceito de ensino de arte, a prática da polivalência. Segundo essa reforma, as artes plásticas, a música e as artes cênicas (teatro e dança) deveriam ser ensinadas conjuntamente por um mesmo professor da primeira à oitava séries do primeiro grau. Em 1973 foram criados os cursos de licenciatura em educação artística com duração de dois anos (licenciatura curta) para preparar estes professores polivalentes (BARBOSA, 2008, p. 10) 5 “As transformações do fazer pedagógico em Arte, a partir da entrada da imagem e de seu processo reflexivo nas aulas, podem ser percebidas pela introdução e disseminação da Proposta Triangular (1992), por Ana Mae Barbosa, onde o ensino da arte deve ser pensado sob três eixos, como numa triangulação, não necessariamente nessa ordem sequencial: apreciar/fruir, contextulizar, fazer. A Arte passa a ser percebida como conhecimento e assim deve ser praticada nas escolas. Também as mudanças na arte contemporânea inseridas nos centros culturais mais afastados do eixo Rio-São Paulo, assim como a ampliação do desenvolvimento da formação dos professores de Arte e do mercado de livros de arte e de ensino de arte, além da comunicação com centros internacionais potencializam mudanças no pensamento da arte nas escolas (ALCAIDE; SILVA, 2010). Barbosa (2008), no texto Entre Memória e História escreve sobre os primórdios da educação em arte modernista no Brasil entre o fim da década de 1920 e início de 1930, em que as primeiras tentativas de escolas especializadas em arte para crianças e adolescentes inauguram o “fenômeno da arte como atividade extracurricular” (BARBOSA, 2008, p.2). Elenca as várias contribuições de artistas e educadores, entre eles, Helena Antipoff. Discorre sobre a criação da Escolinha de Arte do Brasil, em 1948, pelo pernambucano Augusto Rodrigues: A iniciativa de Augusto Rodrigues, (...), logo recebeu a aprovação e o incentivo de educadores envolvidos no movimento de redemocratização da educação, como Helena Antipoff e Anísio Teixeira, (...). Depois que iniciou seus cursos de formação de professores, a Escolinha de Arte do Brasil teve uma enorme influência multiplicadora. Professores, ex-alunos da Escolinha, criaram Escolinhas de Arte por todo o Brasil, (...), constituindo-se no Movimento Escolinhas de Arte (MEA). Usando principalmente argumentos psicológicos, o MEA começou a tentar convencer a escola comum da necessidade de deixar a criança se expressar livremente usando lápis, pincel, tinta, argila etc. (BARBOSA, 2008, p.7). Inserida nesse movimento, Helena Antipoff parece ter atribuído ao ensino de arte a importância de instrumento de ampliação do repertório cultural, antecipando a ideia de multi e interculturalismo e educação estética, presente nas diretrizes contemporâneas de arte educação. De acordo com Barbosa (1998) a atuação em arte pode propiciar ao educando um terreno fértil de compreensão do mundo em que vivemos “como um caminho para estimular a consciência cultural do indivíduo, começando pelo reconhecimento da cultura local” (BARBOSA, 1998, p.13). Com essa perspectiva, busca valorizar o local e promover um ensino que contemple conhecer o universal. De acordo com o Boletim Mensageiro Rural, Fundação Helena Antipoff, 1986, em texto elaborado por uma equipe da Divisão de Pedagogia da Fundação Helena Antipoff: A Educação pela arte constitui preocupação constante de Helena Antipoff em todos os setores de seu trabalho educacional e assistencial. A Ciência e a Arte (sic) estiveram sempre presentes em seus planejamentos, em seu dia a dia. (...) Já em 1937 a sua admiração pela arte e seu pendor artístico fizeram-se presentes: fora a Paris representando o Brasil no 1º Congresso Internacional de Psicologia e Psiquiatria Infantil, pouco antes de regressar ao Brasil, aprendeu com uma pessoa amiga a confeccionar flautinhas de bambu; trouxe então para o Brasil tanto a flautinha feita por ela mesma quanto a técnica para sua confecção e manejo. (...) Mas a flautinha de bambu foi apenas o marco inicial que desencadeou suas atividades e realizações em prol da arte popular e na divulgação e apreço do nosso folclore. (...) Desde 1945, tanto na Sociedade Pestalozzi do Rio de Janeiro como na Escolinha de Arte do Brasil já se faziam “descobertas” sobre tintas e cores. (...) A sua contribuição tornou-se patente quando ela convidou poetas, pintores, músicos e artistas em geral para realizar essa integração arte-educação. (...) Muitos dirão que ela trouxe professores estrangeiros para “dar arte” no Brasil mas foi Jean Bercy, francês, que disse: “façamos uma arte brasileira e não uma arte de importação, mesmo que esta seja melhor. É nas escolas, pequenas e grandes, que devemos iniciar esse trabalho. Cabe aos educadores, professores conscientes da importância do problema, difundir essa cultura...” (EMMERMACHER; GUIMARÃES; TORRES, 1986, p. 110). O valor que a educadora atribui a arte, como importante aspecto formador, parece estar fortemente relacionado a sua formação em culturas diversas, a sua peculiar história de vida. Sua perspectiva psicopedagógica apresenta-se com sábia adequação às condições locais e criatividade na atuação. Campos (2003), discute como se desenvolveu em Helena Antipoff a sensibilidade para a defesa da inclusão social por meio das contribuições da psicologia - e porque não da arte? - na busca pela democratização da sociedade no Brasil. Campos indaga: (...) em que medida sua experiência de viajante em culturas diversas, e sua formação acadêmica efetuada nas duras condições da Europa marcada pela guerra e pelas convulsões sociais teriam forjado, ao mesmo tempo, a visão positiva e humanista de uma ciência engajada na defesa do sujeito frente às determinações de uma sociedade seletiva e excludente, e a percepção de maneiras efetivas de atuar? (CAMPOS, 2003, p.210-211) Pereira (2008), no texto Ensino de Arte nos Primórdios de Belo Horizonte..., relata a contribuição de Jeanne Milde, no início do século XX, artista/professora que veio juntamente com Helena Anipoff na missão européia para atuar na Escola de Aperfeiçoamento, em decorrência da Reforma Francisco Campos, em 1929. Menciona o interesse de Helena Antipoff em aplicar os métodos da Escola Ativa na Fazenda do Rosário com as atividades planejadas a partir dos interesses das crianças: Milde considerava o trabalho manual como passo necessário para o desenvolvimento intelectual. Segundo ela, tratava-se do “trabalho das mãos [como] produto da mente”. Helena Antipoff, responsável pela área de psicologia na Escola de Aperfeiçoamento, compartilhava a mesma idéia. Não foi por acaso que, anos mais tarde, ao fundar a Fazenda do Rosário, em Ibirité, MG, Antipoff convidaria Jeanne Milde para lecionar trabalhos manuais nas oficinas ofertadas pela instituição (PEREIRA, 2008, p.128). No trecho acima citado, podemos perceber como Helena Antipoff busca referências em suas propostas de trabalhos em arte a partir de suas convicções educativas, baseadas na sua formação e nas idéias divididas com outras(os) educadores. Em Alguns Fundamentos Psicopedagógicos dos Trabalhos Manuais, com alunos de 12-14 anos, década de 1950, citado por Campanário (1999, p. 38), Helena Antipoff trata dos objetivos da educação e dos princípios que norteiam seus pressupostos psicopedagógicos, deixando-nos pistas de teóricos que influenciam sua formação: 1. Objetivos da educação – desenvolvimento integral da personalidade – eclosão da vida afetiva, social, da inteligência, das aptidões e orientação para a vida independente na fase adulta. Princípio geral – a lei da autonomia – satisfazendo as necessidades de cada período evolutivo. Preceito geral em educação: o essencial não é ganhar o tempo (Rousseau) e outro: educação para a vida e pela vida (Dewey) (ANTIPOFF, V. II, 1992, p.325) Neste sentido de ação, a pesquisa busca investigar a perspectiva educacional de Helena Antipoff sobre a educação em arte na época de sua atuação como psicóloga e educadora na Fazenda do Rosário, em Ibirité, onde muito se vivenciou a arte por meio de educadores trazidos por ela de regiões distintas do Brasil, assim como por artistas educadores internacionais e intelectuais que fizeram parte dessa vontade de buscar, na arte, referenciais para a vida e para a atuação educacional. Como breves apontamentos da contribuição da perspectiva de Helena Antipoff para o ensino de arte propõem-se esta pesquisa que se pautará das seguintes questões de estudo: Qual era a proposta de ensino de arte preconizada por Helena Antipoff? Como a educadora percebia a importância da arte nas propostas de ensino na Fazenda do Rosário? Que concepções embasavam a perspectiva de ensino de arte na Fazenda do Rosário para que a educadora o percebesse como importante instrumento para a formação discente e docente? 2. O ENSINO DE ARTE NA DESENVOLVIMENTO HUMANO ESCOLA E SUA CONTRIBUIÇÃO AO Segundo Lopes (2005), a arte vem sendo cada vez mais valorizada no cenário atual de educação no Brasil, como linguagem expressiva e como vasto campo de conhecimento, reconhecida assim como contribuição importante para a formação do ser humano. Célia Maria de Castro Almeida, ao discutir concepções e práticas artísticas na escola, salienta as idéias de Elliot W. Eisner para justificar a arte no ensino escolar: (...), ao realizarem atividades artísticas, as crianças desenvolvem auto-estima e autonomia, sentimento de empatia, capacidade de simbolizar, analisar e fazer julgamentos e um pensamento mais flexível; também desenvolvem o senso estético e as habilidades específicas da área artística, tornam-se capazes de expressar melhor idéias e sentimentos, passam a compreender as relações entre partes e todo e a entender que as artes são uma forma diferente de conhecer e interpretar o mundo (EISNER apud ALMEIDA, 2001, p.14). E acrescenta: “No meu entender, o motivo mais importante para incluirmos as artes no currículo da educação básica é que elas são parte do patrimônio cultural da humanidade, e uma das principais funções da escola é preservar esse patrimônio e dá-lo a conhecer” (ALMEIDA, 2001, p.15). Na continuidade do texto elabora: Mas talvez a maior de todas as contribuições das artes na educação infantil e básica para a formação dos alunos, afirma Eisner (e concordo com ele), seja que, fazendo ou apreciando artes, os alunos passam por uma experiência estética e aprendem que, com ela, o mundo pode se tornar mais agradável e mais completo. Esse aspecto da aprendizagem em artes representa o desenvolvimento de uma forma especial de se relacionar com o mundo, o cultivo do que pode ser chamado de uma atitude estética6. (ALMEIDA, 2001, p.31). De acordo com Barbosa, se mais valorizada nas escolas, a arte pode ampliar a nossa forma de conhecer o mundo, com a “leitura de palavras, gestos, ações, imagens, necessidades, desejos, expectativas, enfim, leitura de nós mesmos e do mundo em que vivemos” (BARBOSA, 1998, p. 37-38). Como observa Filho: “A leitura pode ser voltada a identificar o que está ao redor, no mundo, e interagir apontando os acertos que devem ser mantidos e quanto aos problemas, buscar as suas possíveis abordagens e facetas que devem ser resolvidas“ (Filho, 2008, p.6). Aos alunos é preciso trazer questões que veiculem diferentes visões de mundo. Entender que as culturas são produtos e produtoras da esfera sociocultural, que as sensibilidades artísticas são historicamente construídas e próprias de cada grupo cultural, que as artes são expressões de identidades e culturas e sua compreensão requer conhecimentos dos parâmetros que as regem e que transcendem o gosto pessoal (que também é histórica e socialmente construído) (ALMEIDA, 2001, p.16). A arte pode ser a porta aberta para a interdisciplinaridade nos projetos escolares, fazendo da contextualização da História da Arte (no singular e com letras maiúsculas, de visão européia, masculina e branca, enfim elitista) ou das histórias das artes (no sentido da pluralidade das culturas) um dos processos de ensino-aprendizagem (ALMEIDA, 2001). É neste sentido que a arte na educação requer um ensino mais próximo do aspecto cultural, potencializando a compreensão das imagens vinculadas cotidianamente, muitas vezes apropriações de outras imagens, assim como uma aproximação do aluno com as imagens construídas ao longo da história da arte. 6 Segundo Ormezzano (2008, p.65), educação estética é um processo de desenvolvimento e formação pessoal e coletivo que envolve atividades perceptivas, expressivas e criadoras, considerando o ser humano em sua dimensionalidade: corpo-mente-espírito-sociedade-cultura-natureza. Permite construir saberes artísticos e científicos, assim como aprofundar saberes socioculturais, ecológicos e espirituais. Para o exercício da docência é necessário vincular arte e cultura numa perspectiva de interação e diálogo, ou seja, o professor precisa criar formas alternativas de comunicação com os seus alunos, que não são apenas sujeitos escolares, mas sujeitos que trazem um repertório de vivências para a escola. Ensinar nos remete ao passado e ao futuro, para que esse passado possa fazer sentido, é preciso romper com um ensino apoiado em classificações elitistas e estanques da História da Arte (ALMEIDA, 2001). Nesta forma de pensar o ensino de arte, o professor deve criar oportunidades de socialização dos bens culturais que a mídia não oferece ao privilegiar a lei de mercado e não da qualidade dos produtos que veicula. Essa forma de ensinar enseja um maior compromisso com a cultura e com a história, nela o professor tem o papel fundamental de mediar um encontro rico e sensível entre a arte e o estudante. Segundo Feldmann (2005), nos tornamos humanos pela prática social em que estamos inseridos, “humanizando-nos uns aos outros”. A autora dá o nome de “educação” a esse processo histórico e social, que se corporifica na unidade “teoria e prática”. Destaca ainda ser nessa possibilidade de se relacionar teoria e prática que reside e faz da educação um ato criador, assim como a arte, na qual o artista transforma materiais amorfos em obras únicas e singulares. Essa criação é que muda o estabelecido, que possibilita a transformação de cada sujeito e do meio social que o circunda. (...) A prática pedagógica libertadora enunciada por Paulo Freire é baseada numa racionalidade comunicativa dialógica, que pressupõe a pedagogia da autonomia da escola, do professor e de todos os atores e autores sociais que convivem em determinadas situações educativas. A pedagogia freireana pressupõe uma prática transformadora construída pelo homem que dialoga, indaga, refaz e recria a própria teoria. Nessa perspectiva, o ato de educar é sempre um ato de criação. (FELDMAN7, 2005). É aí que se estabelece a importância do saber pedagógico em Arte. O ensino de Arte, concebido sob um novo paradigma, não apenas como expressão, mas também como conhecimento, propõe um repensar sobre a prática docente, de uma teoria de como se ensina e se aprende arte. A prática pedagógica do professor é influenciada por seu posicionamento ideológico e filosófico. “A formação de cada professor traz as marcas de suas escolhas pessoais e suas afinidades teóricas” (BUORO; COSTA, 2001, p. 254). De forma dialética, a educação e a arte têm um espaço de responsabilidade no desenvolvimento da sociedade. O Arte-educador consciente de sua prática pedagógica não nasce pronto, se constrói ao longo de sua formação. “O que podemos aprender ao longo de nossas vidas está diretamente relacionado a nosso repertório de experiências” (ALMEIDA, 2001, p.16). Torna-se, uma autoformação, os saberes reelaborados nas experiências cotidianas contextualizadas (FELDMAN, 2005) Nesta perspectiva, cabe ao professor compreender sua importância no processo de desenvolvimento do aluno, fazendo com que a estruturação pedagógica de seu trabalho encaminhe-se tendo em vista a efetivação das potencialidades do educando. Essa análise poderá nos ajudar a compreender o ensino da arte nas escolas, recheado de novas exigências e conhecimentos próprios de nosso tempo. Assim, faz-se importante que os professores se permitam ensinar arte às crianças, pois somente assim possibilitarão aos seus alunos exprimir 7 FELDMANN, Marina Graziela. Formação de Professores e ensino de arte na escola brasileira In: Revista PUCVIVA. n.22, 2005.Edição on-line (texto sem paginação) Disponível em: http://www.apropucsp.org.br/revista/r22_r08.htm Acesso em 21/05/2011 o seu mundo através da arte. Segundo Barbosa (2002, p. 17) “Só um saber consciente e informado torna possível a aprendizagem em Arte”. Para tanto, conhecer o pensamento e propostas educativas da educadora Helena Antipoff se faz importante caminho para proposições de ensino de arte na instituição que dá continuidade aos seus ideais e se propõe formar tanto educandos do ensino básico, Escola Sandoval Soares de Azevedo/FHA, como educadores nas licenciaturas oferecidas pelo Instituto Superior de Educação Anísio Teixeira/FHA. Importante se faz reescrever a história do ensino da arte pela perspectiva dos que contribuíram para a efetivação de um ensino baseado em propostas originais em Minas Gerais e no Brasil, ainda pouco lembrados como a figura feminina. Ainda poder-se-ia dizer que o tema da história da arte/educação é de extrema importância, pois necessitamos consolidar a idéia de arte como conhecimento construído histórica e socialmente, que não pode ser sonegado pelo processo de educação escolar brasileiro. (...) Assim seria injusto não citar como possibilidade de pesquisa no âmbito do MEA as contribuições advindas do pensamento de Helena Antipoff e de Anísio Teixeira, ambos significativos personagens da história do MEA (AZEVEDO, 2008, p.10). 2.1. O ensino de arte na Fazenda do Rosário “O saber só tem sentido quando partilhado, quando bem comum, a educação leva o homem à descoberta de seus próprios caminhos e, quando criativa, ao conhecimento dos valores e disciplinas fundamentais à vida...” (ANTIPOFF, APUD FRANGE, 2001, p. 210-2011). Com essas ideias Helena Antipoff se encaminha para Ibirité, em 1939, quando adquire um terreno para iniciar seu novo projeto educacional, depois de muito insistir em mudar o modo de pensar da tecnocracia educacional sobre a situação da maioria das crianças que tinham a experiência do fracasso escolar como a única oportunidade escolar na época. Seus apelos, no entanto, não foram levados em consideração. Por volta dos anos 40, já um tanto desiludida com os rumos que vinha tomando o sistema de ensino público, Antipoff voltou-se mais e mais para a tarefa de criar uma espécie de demonstração de como poderia ser organizada a verdadeira escola popular no Brasil. Neste espírito, criou a Fazenda do Rosário (CAMPOS, 1995, p.63). Na Fazenda do Rosário, onde Helena Antipoff acreditava ser o local ideal para a educação dos “excepcionais sociais”8, crianças que não tinham a oportunidade de educação nos grupos escolares da capital mineira, a pedagogia ativa desenvolvida pela educadora propunha o desenvolvimento intelectual e manual com objetivo de despertar a criatividade como caminho da autonomia na vida adulta, a ênfase era na educação para a cooperação: O campo oferecia melhores oportunidades para o desenvolvimento das habilidades para o trabalho manual e intelectual em tarefas culturalmente significativas. (...), a escola da Fazenda do Rosário deveria ser uma pequena comunidade agroindustrial, gerida em regime cooperativo. As tarefas 8 Os ditos retardados (denominados por Helena Antipoff, “excepcionais”, eram os alunos que não se adequavam aos padrões dos testes de QI realizados para o ingresso nos grupos escolares), foram considerados pela educadora como educáveis, pois percebia também no resultado dos testes psicológicos variantes do contexto, “a experiência anterior do sujeito, a cultura, o ambiente social e o estado emocional”, não só os fatores biológicos. A educadora cria o termo de “inteligência civilizada” para o que os testes mediam. (CAMPOS, 1995) propostas aos estudantes deveriam evitar a mecanização, para encorajar o desenvolvimento de variadas habilidades. (...) O modelo proposto por Antipoff, e que foi efetivamente implantado (...) era acima de tudo um modelo democrático, e nisso diferia das escolas públicas comuns. A questão do desenvolvimento intelectual era trabalhada através da participação dos estudantes na própria gestão da Fazenda, e nas oficinas pedagógicas. (...), os mestres (de trabalhos manuais ou intelectuais) orientavam os aprendizes. Estes tinham liberdade de escolher a tarefa à qual iriam se dedicar. (CAMPOS, 1995, p. 66-68). Amarílis Coelho Coragem (2008) em sua pesquisa sobre a experiência de arte desenvolvida por Helena Antipoff , na escola rural da Fazenda do Rosário, realizada a partir de documentos do Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff/ UFMG, destaca um trecho de uma carta da educadora comentando a importância do trabalho com as mãos: Helena Antipoff julgava fundamental a inserção das artes no meio educacional destacando a importância de aspectos sensíveis, expressivos e cognitivos. De acordo com o que se lê nestas cartas, ela acredita que o aluno deve ter no ambiente escolar a oportunidade de se expressar pelas artes e de sentir o prazer em fazer sozinho, em criar e manifestar suas aptidões e desejos. A escola é então, um local de descobertas para o crescimento pessoal. “A boa escola leva o aluno a trabalhar com as próprias mãos, a sentir, a exprimir os desejos e a revelar aptidões” (p.205). Helena Antipoff via nas artes o caminho do despertar criativo e da inclusão social (CORAGEM, 2008, p.9, grifos da autora). Por meio dessa pesquisa, Coragem (2008) comunica-nos a originalidade dos ensinamentos deixados pela experiência vivida na instituição e da perspectiva de ensino de arte preconizado por Helena Antipoff, revela a importância que se dava ali à arte para o desenvolvimento de habilidades e capacidades vista no que se refere à formação de professores da escola rural, como na educação das crianças que a frequentavam. Podemos perceber pelos escritos de Silva (1984) que havia uma preocupação com a formação dos professores com relação aos fazeres artísticos nos cursos implantados na Fazenda do Rosário, a autora relata que em 13 de julho de 1948 realizara-se o primeiro Curso de Especialização de Professores Rurais, na Fazenda do Rosário. Constam do programa, organizado por Helena Antipoff: Horticultura, Cerâmica, Costura, Folclore, Literatura Infantil, Enfermagem – 1º socorros, Recreação Infantil, Teatro de Bonecos, Metodologia do ensino Rural, Ciências naturais, Carpintaria e Música. (...) Em 1956 o “1º Curso de formação de orientadores de atividades artísticas e artesanais ligadas ao ensino rural – realiza-se em 10/08 a 31/10 no ISER, sob a orientação técnica do Prof. Jean Bercy, especialista em recreação e artesanato aplicados à pedagogia moderna. Foi contratado na França sob os auspícios da CNER e da UNESCO, através da educadora Helena Antipoff” (idem, p. 144145) (SILVA, 1984, p.18). Como podemos perceber na citação acima, havia também a preocupação da educadora em trazer profissionais gabaritados em suas habilidades artísticas e docentes para a prática pedagógica na Fazenda. A vinda do talentoso ceramista pernambucano, Sr. Jether Peixoto de Oliveira, de Catende, com esposa e quatro filhos para trabalhar e morar na fazenda do Rosário, trouxe aos alunos e futuras professoras a oportunidade de trabalhar com o barro e com outros materiais: Nas mãos das crianças da Fazenda do rosário, orientadas pelo mestre ceramista, a excelente argila local se transformava milagrosamente num mundo de bonecos, de cenas de cada dia observadas à beira das estradas, nos casebres, nos festejos folclóricos, nos trabalhos do campo, nos botequins... peças de arte popular, como de utilidade doméstica (...) As meninas se dedicavam às atividades domésticas e trabalhos femininos – cozinha, limpeza, rouparia, costura, bordados, tapeçaria. Dirigidas pela especialista húngara, as meninas aprendiam a arte de tapetes Esmirna e outros. Suas amostras figuravam juntamente com os bonecos de cerâmica nas exposições artesanais da Fazenda do Rosário, na bela exposição de Belo Horizonte, no Edifício Dantés, no Ministério da Educação, nas exposições de Arte Infantil, organizadas pelo pintor Augusto Rodrigues. Alguns “bonecos” modelados, vidraçados e queimados pelos meninos nos fornos da Fazenda do Rosário tiveram a chance de figurar na Exposição Internacional de Bruxelas, no pavilhão Brasil, no Setor Educacional (SILVA, 1984, p.30-31). Consta ainda nos escritos da autora a preocupação de Helena Antipoff em trazer para a Fazenda educadores artistas capazes de envolver o alunado em práticas educativas culturalmente significativas, apontando a preocupação da educadora com o social, com as características regionais do povo brasileiro. Via-se grande variedade de atividades promovidas tanto em cursos para educadores como em tarefas destinadas aos alunos excepcionais ou não, frequentadores da instituição. Com a cooperação da Campanha Nacional de Educação Rural, foi possível trazer para a Fazenda, do Rosário, em 1953-1956 um educador francês Jean Bercy que deu ao artesanato e às atividades recreativas forte impulso e extensão. Concentrou todas essas atividades no Centro Artesanal da Fazenda do Rosário (desenho, pintura, modelagem, teatro de Fantoches, de máscaras e de marionetes, tecelagem, cestaria, trabalhos de madeira, de bambu e de cipós) e ainda juntou a prática dos Jogos Dramáticos, ao ar livre num ambiente de grande beleza natural, danças folclóricas, coro falado. Enfim, todos esses elementos da Recreação que constituem excelente meio educativo para a criança normal e excepcional, para o adolescente e adulto do meio rural e para a juventude estudantil da Escola Normal, dos Cursos de Professores e de pós-Graduação que se encontram, reunidos na mesma época, alguns dias do ano, em Festas tradicionais do Milho e da Colheita, Festa da Primavera e da Semeadura, nas Festas Natalinas e Juninas, ainda bastante tradicionais entre nós (SILVA, 1984, p.34). Diante do que foi constatado no levantamento inicial para a construção deste projeto de pesquisa, pretende-se investigar as propostas de ensino de arte na Fazenda do Rosário nas décadas de 1940 a 1970. O recorte temporal deve-se a marcos importantes que envolvem o período a ser estudado. A Fazenda do Rosário, em Ibirité, foi fundada em 1940, mas foram encontrados escritos que evidenciam que o seu interesse pela arte como promoção da educação tem raízes anteriores, mas que puderam ser mais intensamente implementadas, sob sua orientação, na experiência rosariana de educação. Em Belo Horizonte, a Sociedade Pestalozzi tem seus trabalhos iniciados em 1932, fundada por Antipoff e colaboradores, com a missão de promover o cuidado das crianças excepcionais e assessorar as professoras das classes especiais criadas pelos grupos escolares (Campos, 2003). Com a Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais nasce o Instituto Pestalozzi de Belo Horizonte, em 1935, “dedicado ao exame, educação e tratamento de crianças com deficiências, em regime de semi-internato. (...) As crianças mais novas freqüentavam as classes de reeducação, as mais velhas já tinham treinamento vocacional” (Campos, 2010, p.186). Segundo a autora, a instituição funcionava também como centro de pesquisa sobre anormalidade mental e como centro de formação e treinamento de professores para o ensino especial. É então no final dos anos 1930 que a Sociedade Pestalozzi amplia sua atuação, com a aquisição da Fazenda do Rosário, em Ibirité, MG, com a ajuda de colaboradores por meio de campanha realizada por empresa nacional de comunicação, os Diários Associados. De acordo com Campos (2010), a finalidade da pedagogia rosariana era proporcionar aos “excepcionais” a experiência escolar necessária ao desenvolvimento humano, ou seja, educação integral, em termos acadêmicos e práticos, e integrar a escola à comunidade rural adjacente, por meio de práticas pedagógicas que pudessem colaborar para a autonomia na vida adulta, e as oficinas pedagógicas era uma das estratégias para esse fim. Para isso se utilizavam processos que integrassem atividades manuais e intelectuais, associando teoria e prática, e promovendo o desenvolvimento da sociabilidade e dos talentos especiais. Em vários momentos Helena Antipoff lembrava que os indivíduos considerados “excepcionais”, com dificuldades escolares, poderiam apresentar grande talento para as artes plásticas, música ou artesanato, e procurava desenvolver esses talentos nas oficinas pedagógicas (CAMPOS, 2010, p.212). Na mesma década de fundação da instituição, o governo de Minas Gerais se recusa a renovar o contrato de Helena Antipoff, a psicóloga recebe então proposta de trabalho para atuar no Rio de Janeiro (1944-1948) onde amplia seu universo relacional e colabora com o Ministério da Saúde na institucionalização do Departamento Nacional da Criança e criação da Sociedade Pestalozzi do Brasil (1945). Na década de 1940, acumula então a coordenação dos trabalhos da Fazenda do Rosário e o trabalho no Rio de Janeiro, com a ajuda de colaboradores. Em 1948, participa da fundação da Escolinha de Arte do Brasil, juntamente com Augusto Rodrigues, parceiro que contribui fortemente com seu projeto de educação em arte na Fazenda do Rosário. “A preocupação com talentos artísticos propiciou a associação com o artista Augusto Rodrigues que, junto com a educadora Zoé Chagas Freitas, havia fundado a Escolinha de Arte do Brasil, no Rio de Janeiro (FREITAS, 1984 apud CAMPOS, 2010, p. 212). Assim, investigar a perspectiva de ensino de arte de Helena Antipoff iniciando-se pela década de 1940 se justifica por ser esta a década de criação da instituição, marcando a implantação das estratégias e dos seus planejamentos educacionais. As décadas de 1950/60 registram a vinda de artistas educadores importantes na atuação da pedagogia rosariana, o que pode nos ajudar a compreender a dimensão do que foi desenvolvido na Fazenda do Rosário. O envolvimento com a Escolinha de Arte do Brasil parece ter proporcionado um intenso movimento de cursos para professores que aconteciam tanto no Rio de Janeiro como nas dependências da Fazenda do Rosário, gerando um trânsito de experiências de formação em arte, aplicadas também aos planejamentos educacionais no atendimento dos educandos. A década de 1970 é marcada pela iniciativa dos trabalhos de Helena Antipoff com a formação dos bem dotados, com a criação da Associação Milton Campos para Desenvolvimento e Assistência de Vocações de Bem Dotados – ADAV9, em 1972, entidade em prol do desenvolvimento das potencialidades dos jovens talentosos, projeto que privilegiou fortemente a presença da arte, mas que não será contemplado nesta investigação (ANTIPOFF, C., 2010)10. 9 Um estudo sobre a ADAV foi feito pela pesquisadora Cecília Antipoff, bisneta de Helena Antipoff, em dissertação de mestrado. “A expressão bem dotado caracteriza o indivíduo que possui capacidade e potencial superior, em relação à média da população nas variadas áreas e características humanas (artes, ciências, esportes...)” (ANTIPOFF, C., 2010, p.8). 10 Neste estudo, ao dizer apenas Antipoff, a referência estará sendo feita à Helena Antipoff, quando a referência for a outros autores com o mesmo sobrenome, a grafia será seguida da letra do primeiro nome do referido autor em maiúscula abreviada, como neste caso, Antipoff, C. O estudo busca investigar a perspectiva de ensino de arte defendida por Helena Antipoff, no período de 1940 a 1970, na Fazenda do Rosário.Propõe-se a identificar e descrever as propostas de ensino desenvolvidas na Fazenda do Rosário pelos professores de arte e colaboradores atuantes no período de 1940 a 1970, sob a orientação da educadora. Identificar e analisar as concepções teóricas que fundamentaram a perspectiva de Helena Antipoff sobre a presença da arte na formação humana e acadêmica dos sujeitos. Ainda relacionar as práticas educativas desenvolvidas na instituição entre 1940 a 1970 com a perspectiva de ensino de arte preconizado por Helena Antipoff. 3. REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO O trabalho aqui proposto caracteriza-se como pesquisa histórica, especificamente no campo temático da historiografia da educação brasileira. Pretende trazer contribuições para o campo de estudo em história da psicologia e história do ensino da arte. O método de investigação fundamentar-se-á nas pesquisas realizadas por Regina Helena de Freitas Campos, especialista da história da psicologia da educação brasileira, que estuda, desde 1979, a vida e obra de Helena Antipoff. Também será unidade de análise a vida e obra da educadora apresentada sob o olhar das escritas de Daniel Antipoff, seu filho, biografia (1975), “que apresenta sua vida particular, destacando o que ela fez e disse através do tempo, em variadas circunstâncias” (RAFANTE & LOPES, 2011, p.33). As escritas da própria educadora, ora em reflexões sobre a educação, ora sobre si, em anotações em diários e/ou cadernetas pessoais, além de depoimentos e homenagens de pessoas ligadas à educadora. Importante registrar que a vida e obra de Helena Antipoff foi tema de estudo da proponente do projeto aqui delineado no ano de 2008, em monografia apresentada em Licenciatura em Artes Plásticas, na Escola Guignard/UEMG. Essa pesquisa intitulada “Um Olhar Autopoiético sobre A Vida e Obra de Helena Antipoff” constituiu-se em uma investigação pautada pela autopoiesis, conceito de reflexão sobre a trajetória pessoal na educação fundamentado por Marutana e Varella, que será objeto de análise da vida de Helena Antipoff também neste estudo. Assim, já não é novidade, hoje, a utilização do termo história dos intelectuais preferencialmente ao de história intelectual, como forma de indicar não só uma opção metodológica, mas o objeto mesmo de investigação. Falar de história dos intelectuais é, na verdade, uma forma de nos distanciarmos de uma história cujo interesse nuclear está nas idéias e nas correntes de pensamento, em geral desconectadas dos eventos sociais e também das subjetividades dos seus produtores, e indicarmos, de maneira mais evidente, um interesse pelo sujeito “produtor” dessas idéias e sua trajetória de vida. (...) Nesta abordagem, a localização do sujeito intelectual e seus deslocamentos no espaço social são tomados como elementos centrais na investigação. Elementos de uma mesma operação, o sujeito e o espaço social que ele ocupa são criados e recriados a todo momento, sendo o resultado do percurso, das escolhas, das experiências vividas, das relações estabelecidas e não seu ponto de partida (FARIA FILHO; CHAMON; INÁCIO, 2009, p.7). Para Nóvoa (2000), a história de vida ou a abordagem experiencial é um recurso muito utilizado para estudar um acontecimento, instituição ou personalidade, a partir do relato de vida das pessoas que têm envolvimento com o objeto pesquisado. Nela, o objeto de estudo e o investigado se misturam, o que possibilita compreender o “como” o informante vivencia a situação problema. Ao se tomar a trajetória de um intelectual como marco inicial de um estudo, importante se faz compreender que ”a história não se elabora simplesmente pela existência dos documentos, mas por escolhas, delimitações e pela forma como se concebe um determinado tema, uma vez que os documentos não falam por si” (RAFANTE & LOPES, 2011, p.32). Neste estudo histórico, se pretende investigar a perspectiva educacional de Helena Antipoff para o ensino de arte na fazenda do Rosário, no período delimitado, a partir das experiências vividas no tempo sócio-histórico. Experiências essas que são constitutivas desses sujeitos, que são produtoras de identidades, experiências que são também plasmadas por grupos de pertencimento, por redes de relações concretas, o que demanda do historiador a realização de uma espécie de arqueologia das redes de sociabilidade e de pertencimento nas quais esses intelectuais estão envolvidos, não apenas para captar o funcionamento e a engrenagem de um grupo, mas inventariar as “solidariedades de origem”, as “genealogias de influência” (SIRINELLLI, 2003 apud FARIA FILHO; CHAMON; INÁCIO, 2009, p.8). A partir de levantamentos preliminares no Memorial Helena Antipoff/CDPHA, observa-se um cenário que se configura a partir de algumas figuras presentes na rede de colaboradores para implantação do ensino de arte, coordenado por Helena Antipoff, no tempo e local delimitados. São alguns deles: o artista educador francês Jean Bercy, o ceramista nordestino Jether Peixoto e Augusto Rodrigues, parceiro que fundou a Escolinha de Arte do Brasil em 1948, apoiado por Antipoff. Além das pesquisas realizadas por Campos, para um estudo panorâmico do primórdios do ensino da arte no Brasil serão utilizados os levantamentos historiográficos de Ana Mae Barbosa, entre outros autores, em um diálogo produtivo com o campo da história da psicologia da educação brasileira para que possamos melhor compreender aspectos importantes da arte-educação e suas ligações com as perspectivas educacionais de Helena Antipoff, na Fazenda do Rosário, nos anos de 1940 a 1970. Para responder às questões que motivaram este estudo, as condutas metodológicas adotadas pautam-se de diferentes fontes de evidências como documentos (fontes primárias e secundárias) e entrevistas para que a pesquisa possa ser conduzida no sentido de se estabelecer uma triangulação dos dados obtidos, buscando-se viabilizar uma maior validação do estudo. “O estudo de caso qualitativo constitui uma investigação de uma unidade específica, situada em seu contexto, selecionada segundo critérios predeterminados e, utilizando múltiplas fontes de dados, que se propõe a oferecer uma visão holística do fenômeno estudado” (ALVES-MAZZOTTI, 2006, p.650). Buscará delinear-se a partir da análise documental, privilegiando-se as fontes primárias, interrogando-as, “pois os textos ou os documentos arqueológicos (...) não falam senão quando sabemos interrogálo” (p. 79) sendo que, para ele, esse encaminhamento é “a primeira necessidade de qualquer pesquisa histórica bem conduzida” (p.78), uma vez que o passado bem interrogado nos permite “saber sobre ele muito mais do que ele julgara sensato nos dar a conhecer” (p.78) (MARC BLOCH (1949/2002) apud RAFANTE & LOPES, 2011, p.32). Poderão ser feitas entrevistas com pessoas que tiveram contato direto com a educadora e com as práticas educativas de arte no período pesquisado, com finalidade de combinar meios comunicativos com a coleta de dados feita a partir de fontes primárias e secundárias (YIN, 2005). Além disso, a entrevista combinada com os dados coletados poderá ajudar na compreensão das lacunas que porventura o estudo documental não conseguir contemplar, não restringindo-se a “uma única forma única e exclusiva de buscar a compreensão de uma realidade” (ANTIPOFF, C., 2010, p.77). 4. REFERÊNCIAS ALCAIDE, Dolores Díaz; SILVA, Maria Cristina da Rosa Fonseca da. Formação de Professores de Arte: Um Recorte Brasiil e Espanha. In: Proposições Interativas: Arte, Pesquisa e Ensino. Noeli Klix Freitas; Sandra Regina Ramalho e Oliveira (Orgs.). Florianópolis: Ed. da UDESC, 2010. ALMEIDA, Célia Maria de Castro. Concepções e Práticas Artísticas na Escola. In: O Ensino das Artes: construindo caminhos. Sueli Ferreira (Org.). Campinas, SP: Papirus, 2001. cap. p. 11-38 ALMEIDA, Marilene Oliveira. Um Olhar Autopoiético Sobre a vida e Obra de Helena Antipoff. 2008, 57 f. Monografia. Escola Guignard. Universidade do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2008. ALVES-MAZZOTTI, Alda Judith. USOS E ABUSOS DOS ESTUDOS DE CASO. In: Cadernos de Pesquisa, v. 36, n. 129, set./dez. 2006. p. 637-651 ANTIPOFF, Cecília Andrade. Uma Proposta Original na Educação de Bem-Dotados: ADAV – Associação Milton Campos para Desenvolvimento e Assistência De Vocações de Bem Dotados em sua primeira década de funcionamento: 1973-1983, 2010, 241 f. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010. ANTIPOFF, Helena. Pensamentos de Helena Antipoff. In: Coletânea das Obras Escritas de Helena Antipoff. Org. pelo Centro de Documentação Helena Antipoff, CDPHA – Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1992. 4V. p. 401-403 AZEVEDO, Fernando Antônio Gonçalves. Movimento Escolinhas de Arte: em cena memórias de Noêmia Varela e Ana Mae Barbosa. In: BARBOSA. Ana Mae. (org.) Ensino da Arte: Memória e História. São Paulo: Perspectiva, 2008. p.217-257. BARBOSA. Ana Mae. (org.) Inquietações e mudanças no ensino da arte. São Paulo: Cortez, 2002. BARBOSA. Ana Mae. (org.) Ensino da Arte: Memória e História. São Paulo: Perspectiva, 2008. ______. Teoria e prática da Educação Artística. São Paulo: Cultrix, 1995. ______. Tópicos utópicos. Belo Horizonte: C/ARTE, 1998. CAMPANÁRIO, Luciana Santoro. O Estado Próprio de Todo Ser Vivo: A Liberdade em Helena Antipoff, 1999, 220 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal Ed Minas Gerais, Belo Horizonte, 1999. CAMPELLO, Sheila Maria Conde Rocha. A educação em arte em uma perspectiva pósmoderna. In: Arteduca: Arte, Educação e Tecnologias Contemporâneas, Brasília: UnB, 2008. CAMPOS, Regina Helena de Freitas. Helena Antipoff (1892-1974) e a Perspectiva Sociocultural em Psicologia e Educação, 2010. 269 f. Tese Professora Titular – Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010. ______. A Fascinante História de uma Educadora Popular no Brasil. In: Revista Presença Pedagógica. Ed. Dimensão. Belo Horizonte: nº. 3. Maio/Junho 1995. p.57-73 Conferir ______. Helena Antipoff: razão e sensibilidade na psicologia e na educação. Estud. av., São Paulo, v. 17, n. 49, dez. 2003. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010340142003000300013&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 20 maio 2011. doi: 10.1590/S010340142003000300013. CORAGEM, Amarílis Coelho. Relatório de Pesquisa. Eixo Temático 1.3 – Arte como mediação formadora na vida e na escola. Belo Horizonte, UFMG, 2008. EMMERMACHER, Benedita Gomes; GUIMARÃES, Cleusa Telles; TORRES, Vicente de Oliveira. ARTE E EDUCAÇÃO, aspecto fundamental da pedagogia de Helena Antipoff. In: Boletim Mensageiro Rural. Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais. Fundação Helena Antipoff: Ibirité, 1986. p.109-113 FARIA FILHO, Luciano Mendes de; CHAMON, Carla Simone; INÁCIO, Marcilaine Soares. Apresentação. In: FARIA FILHO, Luciano Mendes de; INÁCIO, Marcilaine Soares (orgs.) Políticos, Literatos, Professoras, Intelectuais: o debate público sobre educação em Minas Gerais. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2009. p. 7-20 FRANÇA, Júnia Lessa et. al. Manual para normalização de publicações técnico científicas. 8º Ed. Versão ampl. – Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007. FELDMANN, Marina Graziela. Formação de Professores e ensino de arte na escola brasileira In: Revista PUCVIVA. n.22, 2005.Edição on-line (texto sem paginação) Disponível em: http://www.apropucsp.org.br/revista/r22_r08.htm Acesso em 21/05/2011 FERRAZ, Maria Heloísa Corrêa de Toledo; FUSARI, Maria Felisminda de Resende e. Arte na Educação Escolar. 4ª Ed. São Paulo: Cortez, 2010. FILHO, Antonio Biancho. A ampliação das possibilidades de leituras das obras de arte. In: Arteduca: Arte, Educação e Tecnologias Contemporâneas, Brasília: UnB, 2008. FRANGE, Lucimar Bello Pereira. Noêmia Varela e a arte. Belo Horizonte: C/Arte, 2001. HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990. IAVELBERG, Rosa. Para gostar de aprender arte: sala de aula e formação de professores. Porto Alegre: Artmed, 2003. LOPES, Ana Elisabete Rodrigues de Carvalho. Olhares compartilhados: o ato fotográfico como experiência alteritária e dialógica. Rio de Janeiro: PUC-Rio, Departamento de Psicologia, 2005. LÜDKE, Menga; ANDRÉ, Marli E. A. Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativas. São Paulo: EPU, 1986. MARTINS, Mirian Celeste Ferreira Dias; PICOSQUE, Gisa; GUERRA, Terezinha Telles. Didática do ensino da arte: poetizar, fruir e conhecer arte. São Paulo: FTD, 1998. MATOS, Adalgisa Helena Gomes de. A arte na formação da docência. In: Presença Pedagógica. Belo Horizonte: Dimensão, nº 64, p.32-39, jul./ago. 2005. MINAYO, Maria Cecília de Souza (org.). Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 2003. NÓVOA, António (org.). Vidas de Professores. Porto: Porto Editora, 2000. ORMEZZANO, Graciela. Educação Estética. In: REVISTA PRESENÇA PEDAGÓGICA. Belo Horizonte. v.14. n. 80. mar./abr. 2008. PEREIRA, Patrícia de Paula. Ensino de Arte nos Primórdios de Belo Horizonte: a contribuição de Jeanne Milde no início do século XX. In: Ensino da Arte: Memória e História. Ana Mae Barbosa (org.). São Paulo: Perspectiva, 2008. Cap. 5, p. 117-134. Rafante, H. C. & Lopes, R. E. (2011). Helena Antipoff, seus pressupostos teóricometodológicos e suas ações na educação dos “excepcionais” no Brasil. Memorandum, 20, 3157. Acesso em 17/06/2011 Disponível em: http://www.fafich.ufmg.br/memorandum/a20/rafantelopes01 RICHTER, Ivone Mendes. Interculturalidade e estética do Cotidiano no Ensino das Artes Visuais. Campinas: Mercado das Letras, 2003. ROCHA, Adriana Conde; CAMPELLO, Sheila Maria Conde Rocha. Unidade 3: autopoiese, construcionismo, construtivismo ou co-construcionismo? In: Arteduca: Arte, Educação e Tecnologias Contemporâneas, Brasília: UnB, 2008. SILVA, Maria Betânea e. A Inserção da Arte no Currículo Escolar. (Pernambuco, 19501980). 2003, 192 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2003. SILVA, Léa Valverde da. Diretrizes Didático Filosóficas de Helena Antipoff na Formação de Recursos Humanos para a Formação da Criança Desamparada. Rio de Janeiro, 1984. YIN, Robert K. Estudo de Caso: planejamento e métodos. Trad. Daniel Grassi. 3. Ed. Porto Alegre: Bookman, 2005.