l i xo Recicla-me ou devoro-te O volume de lixo gerado em São Paulo cresce cinco vezes mais rápido do que a população. Os aterros sanitários estão à beira de um colapso. Saiba por que a reciclagem e a coleta seletiva são a única solução para esse oceano de detritos Fotos Texto felipe gombossy camilo vannuchi lotação esgotada O aterro São João, na Zona Leste, que recebia metade do lixo de toda a cidade, será desativado em maio março de 2009 época SãoPaulo 61 l i xo l i xo Coletores iniciam o trabalho no Campo Limpo: por dia, cada um percorre 22 km e recolhe 7 toneladas D omingo de sol em São Paulo. O dia convida para um churrasco. Numa laje no Mandaqui ou num casarão no Tatuapé, com picanha maturada ou espetinho de gato, até vegetariano aceita o convite, interessado no papo com os amigos e, principalmente, na geladeira cheia. Ali, há latinhas em profusão: verdes, vermelhas e prateadas, de cerveja ou refrigerante, estupidamente geladas. A primeira é consumida enquanto o dono da casa espalha sal grosso na carne. A segunda é esvaziada assim que o fogo é aceso. Papo vai, papo vem, há quem beba a quinta latinha antes da primeira rodada de linguiça. Terminado o rega-bofe, para onde vai tanta lata? Sujas, amassadas, algumas convertidas em cinzeiros, as latas têm destinos diversos. Uma delas é lançada à sarjeta por um jovem que, houvesse fiscalização, seria multado em R$ 500 pela Prefeitura por jogar lixo em via pública. Outra lata descansa entre folhas de alface no cesto de lixo – esse antro de promiscuidade onde materiais orgânicos e recicláveis toleram-se uns aos outros. Uma terceira latinha, de melhor sorte, vai dormir com 32 amigas em um saco, pronta para ser entregue à coleta seletiva. Na manhã seguinte, cada uma seguirá seu caminho. São muitos os caminhos percorridos pelo lixo em São Paulo. Líder nacional em geração de resíduos, a cidade produziu em 2008 o recorde de 3.437.607 toneladas de lixo domiciliar, cifra 3% maior do que as 3.329.770 toneladas coletadas em 2007 pelas duas concessionárias que dividem esse “trabalho sujo”. O aumento de 3% é cinco vezes maior do que o da população paulistana, cujo crescimento tem sido de 0,6% ao ano desde 2000, segundo a Fundação Seade. Fazendose as contas, são cerca de 10 mil toneladas ou 20 mil metros cúbicos diários de lixo domiciliar (sem contar o lixo industrial e o hospitalar), o bastante para, em uma 6 2 época SãoPaulo março de 2009 semana, cobrir os 2,8 quilômetros da Avenida Paulista – e seus 48 metros de largura – com uma camada de 1 metro de altura. Em menos de seis meses, o Masp e o Hospital Santa Catarina estariam submersos. Em um ano, a montanha esconderia um prédio de 16 andares. Esse cenário apocalíptico só não virou realidade até hoje porque todo o lixo que a cidade produz é lançado em aterros sanitários, e não jogado a esmo entre o Paraíso e a Consolação. Atualmente, há dois aterros em operação na cidade, um público e um privado. Um terceiro, também privado, está situado em Caieiras, na Grande São Paulo. Hoje, 50% dos resíduos gerados na capital são “exportados” para lá, enquanto 30% seguem para o CDR Pedreira, no Tremembé (Zona Norte), e apenas 20% são absorvidos pelo Sítio São João, o único aterro público em atividade, localizado em São Mateus (Zona Leste). até dois anos atrás, não era preciso “exportar” lixo nem recorrer a aterros privados, o que implica o pagamento de taxas substanciais aos proprietários dos terrenos e contribui para encarecer o custo do nosso serviço de coleta. A Loga– concessionária que atua nas zonas Oeste, Norte e Centro e absorve metade dos resíduos da cidade – despejava seu lixo no aterro Bandeirantes, em Perus (Zona Norte), enquanto a Ecourbis– concessionária que opera nas zonas Sul e Leste e é responsável pela outra metade dos resíduos – usava o Sítio São João. Em 2007, no entanto, o Bandeirantes teve sua capacidade esgotada e, na falta de um substituto local, todo o lixo recolhido pela Logapassou a ser levado para Caieiras. Um ano mais tarde, o São João, administrado pela Ecourbis, entrou em estado de alerta por também beirar seu limite e, em julho de 2008, passou a receber só 40% do volume que recebia. O restante equivale a 30% do lixo paulistano e segue, hoje, para o CDR Pedreira, que, segundo a Ecourbis, cobra R$ 4 milhões por mês pelo serviço. O dinheiro, é claro, sai do bolso do contribuinte. Em maio próximo, o aterro São João deixará de operar, repetindo o que aconteceu com o Bandeirantes em 2007. O lixo produzido a cada semana na cidade seria suficiente para cobrir a Avenida Paulista com uma camada de 1 metro Até lá, um novo aterro público deve ser instalado em um terreno vizinho, já desapropriado pela Prefeitura. Os diretores da Ecourbis, que têm a atribuição contratual de conduzir os estudos para a viabilização da área, aguardam a licença de instalação para dar início às obras. O processo segue emperrado nos corredores da Cetesb, órgão de tecnologia e saneamento ligado à Secretaria do Meio Ambiente do Estado. “Já obtivemos a licença ambiental, mas precisamos da licença de instalação para março de 2009 época SãoPaulo 63 e ln isxa oi o l i xo Antes de seguir para o aterro, parte do lixo da Zona Sul passa pelo transbordo de Vergueiro mexer no local”, diz Leonardo Tavares, superintendente de aterros da concessionária. As obras, depois de iniciadas, devem levar cerca de quatro meses. “Infelizmente, é provável que o novo aterro ainda não esteja pronto quando o São João for fechado”, afirma. Prorrogar o prazo de desativação do aterro seria a melhor saída, não fosse esta uma opção inexequível. Após 16 anos de atividade, o São João é hoje uma espécie de enorme pirâmide maia com 35 taludes (os degraus), 450 mil metros quadrados de base e 150 metros de altura – na qual não há mais onde enfiar resíduos. Antes de chegar ali, o lixo cumpre um longo roteiro, que tem início na coleta residencial. Um caminhão compactador comporta pouco mais de 10 toneladas de lixo e costuma ficar cheio após três horas de uso. Em um turno normal, as equipes enchem o caminhão duas vezes. Do Campo Limpo (Zona Sul), onde atua, Rogério Nascimento segue até a estação de transbordo de Santo Amaro (Zona Sul), onde o veículo é esvaziado para retomar o giro pelas ruas. Estações de transbordo são entrepostos do lixo, locais onde os resíduos são despejados pelos caminhões que operam longe demais dos aterros. Numa cidade congestionada como São Paulo, se todas as equipes tivessem de seguir até um dos aterros para esvaziar o veículo, perderiam mais tempo no trânsito do que na lida. Em razão disso, o lixo proveniente da Zona Sul é despejado no transbordo de Santo Amaro a saga das latinhas 1: Logo cedo, quando a faxineira leva o saco de lixo para fora, um calafrio percorre a superfície metálica da primeira lata, que passou a noite imer- e no transbordo de Vergueiro. Depois, sa em resíduos orgânicos. Triste sina, a dela. Jogar uma latinha no mesmo cativeiro que segue dali para os aterros em carresobras de churrasco é condená-la a um futuro cruel, sem perspectivas. Na calçada, cada tas com capacidade para transportar segundo se estende por séculos. Em meia hora, um tropel faz-se ouvir e três rapazes de ma- 25 toneladas, otimizando o tempo de cacão passam correndo. O saco é levantado às pressas e despenca em um buraco escuro. trabalho. Na Zona Norte, um transborA realidade fede no caminhão. Presa entre tufos de papel higiênico e cascas de banana, a do na Ponte Pequena recebe parte do latinha pressente seu destino e tenta se desvencilhar. Mas não consegue. Passará o resto lixo destinado a Caieiras. A temporada do lixo nos transbordos dura poucos de seus dias em um aterro, até se decompor por completo, daqui a 200 anos. minutos. Tão logo ele é despejado em Em São Paulo, 2.500 coletores, 700 motoristas e 350 grandes valas, uma garra gigante guiada por um técnicaminhões compactadores circulam todos os dias pe- co transfere os resíduos para as carretas. De uma forma las ruas e, em poucos minutos, fazem desaparecer das ou de outra, o destino é sempre o aterro: essa pirâmide calçadas os milhares de sacos deixados por nós. Cole- repleta de cascas de banana, tufos de papel higiênico, tores caminham, em média, 22 quilômetros por dia e potes de iogurte, vidros de requeijão e... latinhas. jogam para dentro do caminhão mais de 20 toneladas de lixo em um turno de oito horas. Cada equipe é for- estima-se que quase um terço do lixo paumada por um motorista e três lixeiros (ops, coletores!), listano seja formado por materiais que não precisariam de forma que, grosso modo, cada um levanta 7 tone- estar ali, como alumínio, plástico e papel. Na falta crôladas diárias no muque. Maratonistas e halterofilistas nica de áreas para descarte, para evitar o colapso anunde ocasião, eles enfrentam não apenas o mau cheiro e ciado da destinação do lixo, é necessário reduzir o desa habitual impaciência dos paulistanos – em especial perdício, reaproveitar e, principalmente, reciclar o que quando o caminhão atravanca o tráfego –, mas tam- for possível. “O país ainda não faz um aproveitamento bém cães e cacos de vidro. “Facilitaria se as pessoas eficiente da maioria dos produtos recicláveis, mas, no enrolassem em jornal tudo o que é cortante e man- segmento das latinhas, é campeão mundial pelo sexto tivessem os cachorros presos”, diz o coletor Rogério ano consecutivo”, diz o coordenador da Comissão de Honorato do Nascimento, de 38 anos, que já levou três Reciclagem da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), mordidas em 14 anos de profissão. Latinhas, ele diz, é Heniode Nicola. “Hoje, 96,5% delas são recicladas”, afirraro encontrar, uma vez que muita gente já aprendeu ma, apoiando-se em estatísticas oficiais do setor. Um relatório publicado no ano passado pela Organia vendê-las para centrais de reciclagem. Em época de Réveillonou Carnaval, no entanto, ele descobre muitas zação Internacional do Trabalho mostra que as diferentes etapas da coleta seletiva empregam 500 mil pessodelas misturadas ao lixo. 6 4 época SãoPaulo março de 2009 março de 2009 época SãoPaulo 65 l i xo as no Brasil, das quais 170 mil atuam a saga das latinhas 2: A segunda lata, jogada na sarjeta, quase não prega o na reciclagem de alumínio. A despei- olho durante a noite. Seu sono é agitado. Latinha-camaleão, vira bola de futebol quando to do que acontece com outros mate- passa criança pela rua e se transforma em navio quando há enxurrada. De manhã, a seriais, a cultura do reaproveitamento gunda latinha é mais uma vez arrastada, dessa vez por uma vassoura. Mas ninguém a das latas vem se disseminando forte- pega. Os mesmos garis que recolhem toneladas de folhas secas e bitucas de cigarro fingem mente na população paulistana. Tan- que não é com eles quando cruzam com a latinha. Humilhada, desenxabida, largada ao to que, aqui, os garis estão proibidos relento, a lata não inspira compaixão sequer no gari, esse soldado da limpeza pública. Seu de recolhê-las. “Se um catador perce- destino é esperar, até que um catador se comova com sua desgraça. be que tem uma latinha no saco de lixo, ele rasga”, afirma o varredor Francisco de Assis Como os urubus e os garis, catadores são aves de rapiPereira, de 52 anos, 20 deles como varredor. Das 6h às na disciplinadas que fazem desaparecer o que não que14h, entre a Praça Ramos e a Praça da Bandeira, ele per- remos ver amontoado diante de nossas casas. Há pelo corre os calçadões do Centro e, na companhia de um menos 35 mil carroceiros em atividade na capital e uma colega, com quem se reveza na condução do carrinho, porção de cooperativas especializadas em receber esse enche mais de dez sacos de lixo por dia – e abandona material e encaminhá-lo para a indústria. Contribui para na calçada todas as latinhas que encontra. a redução do volume de lixo – como os catadores e os Francisco de Assis Pereira é um dos 800 varredores urubus – o morador que separa os materiais recicláveis contratados pela Construfert, uma das cinco empresas e os entrega às cooperativas. Em 80% de varrição que atuam em São Paulo. Em toda a cidade, da cidade, não é preciso sequer sair de são 3,5 mil varredores, que trabalham 24 horas por dia, casa para fazer sua parte. Basta separar em três turnos, e recolhem 200 toneladas diárias de re- o lixo seco do lixo úmido e entregar síduos – a maioria jogada por boçais, de gravata, chine- tudo o que não é orgânico ao serviço lo ou salto alto, que não se comovem com o avanço do de coleta seletiva da Prefeitura. lixo sobre São Paulo. O resultado de todo esse trabalho Desde 2003, 15 centrais de triagem segue para o CDR Pedreira, o mesmo aterro que divi- selecionadas pelo Departamento de de com o São João o lixo coletado nas zonas Sul e Leste. Limpeza Urbana (Limpurb) atuam de Nesses sacos, no entanto, não há latinhas. Abandonadas modo a receber o lixo seco e separar nas ruas, as latinhas são recolhidas pelos catadores. os resíduos de acordo com o material de que é feito. Tanto a Loga quanto a Ecourbis dedicam parte de sua frota a esse serviço, feito uma vez por semana em cada bairro e estendido a 74 distritos de São Paulo – falta chegar a 22 para atender todos os 96 distritos do município. Outros 50 caminhões, doados pela Prefeitura, são operados pelas 15 cooperativas em suas respectivas regiões. “Até o fim do ano, outras oito cooperativas serão incluídas no programa, que receberá recursos do PAC”, afirma o diretor da Limpurb, WeberCiloni, referindo-se ao Progra- ma de Aceleração do Crescimento do Governo Federal. “Até 2014, serão 17 novas centrais de triagem”, diz. por enquanto, apenas 35 mil toneladas de material reciclável são recuperadas por ano pelo serviço municipal de coleta seletiva. Isso representa apenas 1% de todo o lixo domiciliar recolhido na cidade – um índice capaz de constranger as autoridades acostumadas a lidar com o assunto, principalmente quando se sabe que 30% de tudo o que é jogado nos aterros poderia ser reciclado. “Falta conscientizar e envolver a população”, diz Flávio Leandro de Souza, presidente da cooperativa Sem Fronteiras, uma das 15 centrais de triagem que atuam na cidade. Instalada num galpão no Jaçanã (Zona Norte), a Sem Fronteiras recebe 230 toneladas mensais de resíduos, que são dispostos em uma esteira e triados por 85 cooperados. Na concepção de Souza, são 85 “agentes ambientais”. “O pessoal que trabalha com reciclagem desempenha uma atividade de ecologista. É pena que muitos se sintam constrangidos com a profissão e prefiram mudar de emprego quando surge uma oportunidade. Isso não aconteceria se eles entendessem que essa montanha não é feita de lixo, mas de matérias-primas reutilizáveis”, diz. Toda essa matéria-prima reunida no galpão da cooperativa Sem Fronteiras é comprada por empresas que a utilizam na fabricação de produtos novos. A Suzano, por exemplo, é a maior compradora de papel, enquanto funcionários da Tetrapack visitam o galpão com frequência para adquirir caixinhas de leite e suco. Garrafas PET e latinhas de alumínio vão para empresas que as revendem à indústria, entre elas a Aleris, a maior fabricante de alumínio reciclado do Brasil. O lucro é totalmente revertido à cooperativa. Embora 30% do lixo seja composto por materiais recicláveis, apenas 1% é recuperado pela coleta seletiva da Prefeitura Varredores em ação no Anhangabaú: São Paulo tem um “exército” de 3,5 mil homens nessa função 6 6 época SãoPaulo março de 2009 março de 2009 época SãoPaulo 67 l i xo l i xo O Brasil recicla 96,5% das latas de alumínio. Falta fazer o mesmo com o plástico, o vidro, o papel... A central de coleta do Parque Novo Mundo paga R$ 2 por quilo de lata e envia 600 t por mês à indústria a saga das latinhas 3: A terceira lata – que após o churrasco foi deitar com outras 32 latas – dormiu feito pedra. Em alguns momentos, parecia que ela estava em um acampamento de férias, cercada de amigas. De manhã, um caminhão da coleta seletiva veio buscá-las e, como se fosse um ônibus de excursão, levou todas para um parque de diversões chamado “central de triagem”. Ali, as latas vivem um dia de festa. A pilha de recicláveis se transforma em tobogã e a esteira vira pista de patinação no gelo. Após experimentar todos os brinquedos, as latas são levadas à empresa de reciclagem, onde a terceira latinha, já exausta, encontra uma velha conhecida – a mesma que, na véspera, havia sido abandonada no meio-fio. Latas de sorte, em breve elas voltarão a ser latas. A Aleris processa 9 mil toneladas de alumínio por mês a partir de 10,3 mil toneladas de latinhas recuperadas: um aproveitamento de 88%. A empresa tem hoje dez centros de coleta, de Recife a Curitiba. No maior deles, localizado no Parque Novo Mundo (Zona Norte), é possível trocar 1 quilo de latinhas por uma cédula de R$ 2. “Recebemos 600 toneladas de material por mês e o transformamos em grandes fardos de alumínio com- pactado antes de encaminhá-lo às duas plantas industriais mantidas pela empresa em Pindamonhangaba”, diz Eduardo Fiaschi, coordenador do centro de coleta. Nas plantas industriais, os fardos são retalhados e os fragmentos de metal passam por uma peneira, em que canudinhos e outras impurezas são eliminados. Dali, o metal segue para um forno, no qual a tinta é dissolvida e, finalmente, é fundido a 870ºC. O alumínio é en- caminhado ainda líquido à Novelis, a única fabricante de lâminas para a produção de latas da América Latina, também em Pindamonhangaba. Estima-se que a Aleris seja responsável por 60 mil das 172 mil toneladas de alumínio recuperado que foram utilizadas no Brasil em 2008. O país nunca produziu tanta lata. No ano passado, o setor acusou um crescimento de 8,5% sobre 2007, abastecendo o mercado com 13,3 bilhões de latinhas, 1 bi- lhão a mais do que em 2007, segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade. Uma das causas desse aumento é a mudança de comportamento desencadeada pela Lei Seca. O recrudescimento da fiscalização e das leis que proíbem a condução de veículo motorizado após a ingestão de álcool tem estimulado a população a comprar mais cerveja (em lata) no supermercado para tomar em casa. O aumento do poder aquisitivo do brasileiro também tem contribuído para o crescimento a saga das latinhas 4: O sonho de toda lata é ser lata de novo. Enquanto al- do consumo de latinhas – e, de magumas jazem no triste e escuro aterro sanitário, consumidas pouco a pouco até se desin- neira geral, de todo tipo de produto tegrar e desaparecer por completo, há as bem-aventuradas que celebram a caminho da (o que promove um crescimento do reciclagem. Em breve, elas voltarão às prateleiras, novamente jovens, côncavas e belas, descarte não apenas de alumínio, mas cheias de viço e graça. Reencarnarão donzelas, como se lhes devolvessem o sopro, ávidas também de papel, plástico, papelão e por mãos sedentas que lhes arrebatem novamente o desejo e as consumam outra vez em outras embalagens). A festa do consurepetido sacrifício. As latas cumprem, dessa forma, sua inesgotável saga de alumínio. Res- mo, infelizmente, estimula o desperdício e mascara o que é matéria-prisurreição de material reciclado é milagre rotineiro e factível. A cidade precisa disso. ma sob a forma de resíduos sólidos, atingindo em cheio o meio ambiente e o futuro da cidade. É preciso reciclar, Na cooperativa Sem Fronteiras, no Jaçanã, 85 antes que São Paulo seja engolida pelo “agentes ambientais” fazem a triagem do lixo lixo e se transforme em um grande – e faminto – aterro sanitário. 6 8 época SãoPaulo março de 2009 março de 2009 época SãoPaulo 69