Comprometimento Organizacional em um Empreendimento Econômico Solidário: um estudo sobre as ações dos cooperados de uma cooperativa de reciclagem Autoria: Bruno Diego Alcantara Cardozo, Geraldino Carneiro de Araújo, Carlos Rodrigues da Silva Resumo: O objetivo é analisar o comprometimento organizacional em uma cooperativa de reciclagem. Na teoria são expostos os preceitos da economia solidária, características das cooperativas de reciclagem e enfoques do comprometimento organizacional. A pesquisa se caracteriza como descritiva, qualitativa e estudo de caso. Foram realizadas observações, análise documental e entrevistas, utilizou-se análise de conteúdo. O enfoque normativo não foi percebido, pois os cooperados burlam as regras e regulamentos que eles próprios elaboraram. O enfoque afetivo é notado em um pequeno grupo, envolvendo o Conselho de Administração. O enfoque instrumental foi o mais percebido, os cooperados permanecem na cooperativa por necessidade. 1 1. Introdução A economia solidária tem características fundamentais, tais como: cooperativismo, igualdade, transparência, democracia e autogestão. As cooperativas de reciclagem se inserem na categoria de empreendimento econômico solidário, uma vez que envolve a destinação correta dos resíduos sólidos, gestão inclusiva, geração de trabalho e renda. Além disso, as cooperativas de reciclagem passaram a ter mais reconhecimento com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), especificada pela Lei nº 12.305, de 02 de agosto de 2010, que estabelece políticas socioambientais, em que a destinação correta dos resíduos sólidos, ou seja, de materiais recicláveis e reaproveitáveis, deve ser adotada pelas empresas produtivas de modo obrigatório (BRASIL, 2010). Neste sentido, considera-se este programa gestionário significativo e promissor, pois norteia responsabilidades ambientais e prescreve regulamentos de ordem pública e de interesses sociais. Deste modo, os procedimentos determinados pela PNRS fornecem subsídios às cooperativas de reciclagem já que viabilizam coleta seletiva e restituição de resíduos sólidos de maneira apropriada. No ambiente de uma cooperativa de reciclagem todos os cooperados são proprietários do negócio, devem ter a mesma forma de tratamento, devem zelar pelo negócio e devem acompanhar os intrínsecos princípios da própria economia solidária, portanto, precisam se comprometer com a cooperativa. O comprometimento organizacional é aludido como uma linha equiparada de múltiplos focos organizacionais, que se dimensionam, por meio de métodos apropriados, às características dos vínculos mútuos entre organização e colaboradores (MEDEIROS et al, 2003). A teoria apresenta três enfoques: afetivo, instrumental e normativo (ALLEN; MEYER, 1990). Nesta contextualização, o problema de pesquisa é: Como os enfoques teóricos possibilitam uma melhor compreensão do comprometimento organizacional dos cooperados? Assim sendo, o objetivo deste artigo é analisar o comprometimento organizacional dos cooperados em relação a uma cooperativa de reciclagem, a partir de três diferentes enfoques teóricos. Os objetivos específicos são: 1) Traçar o perfil organizacional da cooperativa em estudo; 2) Descrever o comprometimento organizacional relatado nos documentos; 3) Descrever situações em que houve a falta de comprometimento dos cooperados; 4) Analisar o comprometimento identificado em campo, a partir dos diferentes enfoques teóricos do comprometimento organizacional. 2. Referencial Teórico São discutidos teoricamente os temas: economia solidária, cooperativa de reciclagem e comprometimento organizacional, que fundamentam a pesquisa. 2.1. Economia Solidária e Cooperativa de Reciclagem O capitalismo acomoda as composições legais e constitucionais de acordo com seus valores e interesses, o seu modo de produção elevado está constituído a partir de outros modos de produção, sejam eles de bases econômicas solidárias, pequena produção de mercadorias, produção de bens e serviços ou produção particular sem fins lucrativos (SINGER, 2002). A necessidade de planejamento de atividades, assim como a escolha estratégica de produção, são atribuições geridas pelos próprios trabalhadores, entretanto, por já terem experiência de trabalho subordinado (modo capitalista) e possuírem baixo nível de escolaridade, essas atividades surgem como barreiras e limitações que refletem diretamente no desempenho e execução das tarefas, sendo elas, por muitas vezes, capazes de impedir o desenvolvimento do empreendimento (LADEIA; CARVALHO, 2009). A economia solidária surgiu no início do capitalismo industrial, cujo período de substituição de tarefas humanas por maquinários, ferramentas, além do motor a vapor, provocou aumento das taxas de desemprego e pobreza. Desse modo, diante das necessidades e 2 controles do sistema capitalista, operários uniram-se no início do Século XIX instituindo a economia solidária. Os operários que constituíram a economia solidária e a moldaram em formas de cooperativas, conjecturam essas organizações como pontes de reestruturação e regresso de autonomia econômica, antes privada pelo modo de produção capitalista. A estruturação de cooperativas é baseada em princípios de igualdade e democracia, cujo sistema de ideias socialistas prevalece (SINGER, 2002). Entretanto, Ladeia e Carvalho (2009) asseveram que a formação de grupos alternativos, aptos a gerar trabalho e renda fundamentados nos preceitos da economia solidária, não se enquadram em uma empreitada de nível simples. Para que haja o desenvolvimento desses agrupamentos é necessário que políticas variáveis liguem-se tendo em vista um único propósito: solidificar a economia solidária. Embora o discurso a favor da economia solidária seja correto, o trabalho cooperativo em sua realidade cotidiana, apresenta demandas por ações rápidas que garantam a comercialização dos materiais. Lechat e Barcelos (2008) presumem que o poder político é uma questão intrínseca à sociedade, portanto, ele não necessita ser hierárquico. As especificidades de seres humanos nos tornam capazes de transformar tanto a nós mesmos como aquilo que nos rodeia. A economia solidária baseia-se em cooperação e democracia. Além disso, a economia solidária acusa o próprio sistema, uma vez que avalia os inegáveis indicativos de alienação do homem. A partir das possibilidades proporcionadas, pela economia solidária, o homem torna-se efetivamente capaz de governar sua própria existência e seu próprio futuro. O empreendimento solidário não segue a separação entre trabalho e detenção dos meios de produção, adotados pelos procedimentos capitalistas. Pois a divisão de trabalho é feita de modo igualitário e os elementos de produção seguem, reciprocamente, as atividades estabelecidas. Como o princípio de igualdade faz parte da consolidação de um empreendimento solidário, entende-se que todos possuem competências idênticas de tomadas de decisão sobre os processos do empreendimento. A posse de capital do empreendimento solidário é exclusivamente restringida aos integrantes que nele trabalham, assim, trabalho e capital fundem-se pelo fato de que todos atuantes nos processos de produção são proprietários da empresa. A modalidade básica da economia solidária é cooperativa de produção. A finalidade básica do empreendimento solidário é manter quantidade de materiais e qualidade de trabalho (SINGER, 2002). Para Ladeia e Carvalho (2009) grande parte das cooperativas nasce de maneira informal, cuja finalidade de sua atuação é de apoiar os catadores autônomos das cidades, assim como retirá-los da relação opressiva habitual, visando a melhorias de renda e condições de vida aos integrantes do grupo. Pochmann (2004) cita a aspiração pela sinergia coletiva, cuja junção das atividades de campo, mesmo que diferentes, impulsionam o desenvolvimento de produção e renda, o caso de cooperativas de coleta seletiva. Ainda, para o autor, reflexos da migração rural (êxodo), da ausência de instrução e da desqualificação da população também são manifestos na constituição de trabalho do cenário brasileiro. Portanto, tendo em vista as dificuldades alarmantes, grupos sociais unem-se com a finalidade de promover e consolidar uma economia alternativa e popular, que é o caso da economia solidária, cujo princípio da autogestão nutre a motivação dos participantes. A autogestão contribui com o desenvolvimento de qualquer empreendimento solidário. Lechat e Barcelos (2008) presumem que, por apontar distância entre as relações capitalistas e assistencialistas, além de objetivar uma democracia mais radical, a autogestão torna-se um conceito central à economia solidária brasileira. A autogestão caracteriza-se por um conjunto de políticas multidimensionais, de propriedades sociais, políticas, técnicas e econômicas, que requerem condições aptas e propícias a sua implantação. Além disso, o conceito de autogestão interpela prática com teoria, pois possui conteúdo político, dificuldades práticas, além de polissemia em seu termo, ou seja, apresenta diferentes sentidos em sua palavra, o que sujeita 3 titulação errada por parte dos empreendimentos capitalistas. É importante lembrar que a autogestão não é uma qualidade intrínseca a qualquer empreendimento, uma vez que o processo é sujeito tanto a avanços como retrocessos. Desse modo, conclui-se que a prática fiel resulta em aprendizados apropriados e esperados. Para Ladeia e Carvalho (2009) as cooperativas de catadores de materiais recicláveis se deparam com desafios como o de garantirem a promoção da sustentabilidade, assim como o de autogerarem subsídios em torno do movimento sustentável, o que repercute em sua própria sobrevivência. As demandas de natureza diversas apresentadas ao cotidiano dos grupos ligados ao sistema econômico solidário implicam no desempenho de atividades ajustadas em trabalho coletivo, democrático e autogestionário. 2.2. Comprometimento Organizacional O processo de globalização alterou impetuosamente algumas concepções em torno do cenário trabalhista; sabe-se que mudanças sociais decorrentes desses processos são evidentes, considerando críticas e discussões em torno dos desenfreados consumidores em potencial. Desse modo, as modificações das organizações resultaram na exposição e acréscimo das fragilidades dos indivíduos frente às inúmeras mudanças organizacionais, tais como a ditadura da qualificação máxima, multiplicidade de competências e o próprio comprometimento com a organização. Tais exigências relacionam-se diretamente a conceitos e estudos sobre a empregabilidade (MEDEIROS et al, 2003). As intensas mudanças em escala mundial pressionam o desenvolvimento de processos no cenário das organizações. Neste sentido, diferentes maneiras de transformação de estrutura, formas de organização do trabalho, além de métodos de gerenciamento das relações sociais interiormente compõem os principais processos de mudanças. Os desdobramentos e consequências para os trabalhadores dependem de processos de mudança, sejam estes em domínios econômico, tecnológico e cultural, o que torna o processo altamente heterogêneo. Ferramentas que propiciem o desenvolvimento da organização, assim como alta flexibilidade organizacional, através de programas como o Just in Time e Qualidade Total, têm sido usualmente utilizadas por inúmeras organizações (BASTOS; BORGES-ANDRADE, 2002). Medeiros et al (2003) expõem que a busca por qualidade e produtividade foi predominante no decorrer das mudanças organizacionais. Em 1922, já se discutia sobre a maneira ideal de atrair e, concomitantemente, manter os melhores profissionais na empresa, o que remete a uma espécie de aliança empregatícia cujos interesses da organização, em oposição ao do empregado, é assegurado. Esse ideal de profissional suscetível a vincular-se integralmente à organização atrela-se ao almejado alcance do comprometimento profissional propenso a desenvolver atividades que proporcionam benefícios organizacionais. Para Bastos e Borges-Andrade (2002) a questão chave está na flexibilidade atribuída aos modelos contemporâneos, em que o comprometimento torna-se inerentemente um pressuposto individual e basilar durante o desenvolvimento das atividades organizacionais, da mesma forma que o desígnio de transformação e sucesso atrela-se diretamente às responsabilidades individuais e da equipe. As novas arquiteturas organizacionais emergentes são relevantes perante o atual cenário organizacional, ao passo que questões que submergem o comprometimento nas relações são crucias na formação e desenvolvimento profissional. Neste sentido, alguns proveitos relacionados a práticas e conhecimentos administrativos também são apanhados (BASTOS; BORGES-ANDRADE, 2002). O comprometimento, por inúmeras vezes, foi abordado como um construto multidimensional com o desígnio de entender os vínculos da organização e seus indivíduos de modo intenso. Por outro lado, atualmente consente-se o comprometimento como um norteador de múltiplos focos organizacionais, fundamentando-se principalmente nas dimensões afetiva, normativa e instrumental (MEDEIROS et al, 2003). 4 Wiener (1982) conjectura a existência de moralismos interiores suscetíveis a condicionar transações entre o indivíduo e sua organização empregadora. Para o autor, o clima organizacional e demais características do trabalho, relacionadas a grupos e interações sociais, constroem o designado comprometimento moral, assim sendo, estes fatores também contribuem com a identificação do indivíduo com determinada empresa. Desta forma, nota-se que processos de socialização sancionam as relações organizacionais, ao passo que a interação da sociedade com a organização é de grande valia para os elementos de distintos sistemas organizacionais. Sabe-se que para uma apreensão assertiva dos indicadores dos padrões de comprometimento, necessita-se de circunspecção nos processos examinadores das organizações, considerando as evidências agregadas que são altamente relevantes. Entretanto, encontram-se diferenças relativas ao peso dos padrões entre as organizações, que destacam impactos no contexto de trabalho no comprometimento do trabalhador, mesmo com indivíduos determinados pelo individualismo (BASTOS; BORGES-ANDRADE, 2002). Meyer e Allen (1991) apresentaram o comprometimento organizacional em caráter mais aglutinado, em que o estado psicológico vincula-se a uma natureza atitudinal. Neste sentido, conjectura-se a reflexão das pessoas sobre sua relação com a organização, por meio de três dimensões: comprometimento afetivo (affective); comprometimento instrumental (continuance); e comprometimento moral ou normativo (normative). Para Jafri (2010), de modo modelar, estas dimensões prevalecem em estudos com esta temática, e são discutidos a seguir: Enfoque Afetivo: Para Porter e Smith (1970) comprometimento é uma relação intensa entre um indivíduo envolvido com uma organização, e tais relações remetem características que são manifestadas através de sua disposição em desempenhar funções em benefício da organização, também considerando seu elevado crédito e fidelidade aos valores, objetivos e metas da organização, assim como o intenso anseio por sua manutenção como membro da organização. Segundo Mowdayt, Porter e Steers (1982) o comprometimento, em uma perspectiva comportamental, nada mais é que a existência e obstinação desta, em que o indivíduo leva-se por seus próprios atos e, em consequência destas próprias ações, acredita que eles alimentam seu envolvimento; neste sentido, os mitos são sustentados pelas ações e ações são sustentadas pelos mitos. Enfoque Instrumental: Estudos em torno do comprometimento organizacional com enfoque instrumental fundamentam-se nos estudos de Becker (1960). Segundo o autor, o comprometimento instrumental tende tornar o indivíduo engajado a linhas inconsistentes de atividade. Esse comprometimento também é denominado como side bet, que embora seja traduzido de diversas formas, em suma, é rotulado como trocas laterais. Já Bastos (1994) assinala esse conceito conforme o termo continnuance, continuação ou calculativo. As referidas trocas laterais podem estar atreladas aos benefícios da saída do indivíduo, rompendo seu vínculo empregatício, atribuídos por meio de sua permanência na empresa. Becker (1960, p. 34) sugere discussões sociológicas em torno do comprometimento, considerando o importante papel dos sociólogos em tornar vivo o engajamento nas atividades em torno das distintas linhas de atividades. Além disso, o autor argumenta sobre as formas de ações características de cada pessoa, refletidas a partir de seus próprios níveis de comprometimento. Para Hrebiniak e Alutto (1972) o comprometimento nada mais é que um fenômeno estrutural decorrente das ações de indivíduo-organização, assim como as alterações de benefícios conseguidos a partir de seus próprios investimentos no trabalho (o caso dos side bet) no decorrer do tempo. Neste sentido, a noção de linha inconsistente de atividades remete esta perspectiva argumentativa. Evidências empíricas são encontradas em inúmeros trabalhos relacionados ao comprometimento instrumental, como indicadores que despontam investimentos realizados pelos trabalhadores e suas próprias alternativas de trabalho. Allen e 5 Meyer (1990) alegam que relações canônicas pautadas em investimentos realizados pelos empregados, planos de aposentadoria e, sobretudo, comprometimento organizacional, correlacionam-se entre si. Enfoque Normativo: McGee e Ford (1987) conjecturam três fatores fundamentais do enfoque normativo, em que o primeiro forma-se a partir de indicantes de escala afetiva, o segundo forma-se a partir de apontadores que denotam a escassa alternativa de emprego para os trabalhadores, já o terceiro fator estabelece representações de comprometimento fundamentado em esforço pessoal, considerando a possibilidade de desligar-se da organização. A materialização desses três fatores contribuiu com a literatura do comprometimento, tornando-se um verdadeiro marco para a operacionalização do comprometimento. Wiener (1982) conjectura o comprometimento como a soma das internalizações normativas, adjacente as suas próprias pressões, que atuam em buscas por objetivos e interesses organizacionais. Além disso, segundo o autor, atitudes de aceitação de valores e objetivos da organização operam como maneiras controladoras para atingir as ações das pessoas, nomeando o controle normativo instrumental. O comprometimento de um indivíduo é representado por seu comportamento, já que conceitos éticos e morais norteiam suas principais ações. Há um perfil exemplificador dos indivíduos em cada uma das dimensões da seguinte maneira: empregados com comprometimento afetivo elevado ficam na organização por vontade própria; os com comprometimento instrumental permanecem, porque necessitam; e aqueles com comprometimento normativo permanecem na organização, pois se sentem obrigados (MEYER; ALLEN; SMITH, 1993). Para Meyer e Allen (1991), de maneira mais específica, a dimensão afetiva do comprometimento centraliza forças emocionais, sociais e de identidades entre indivíduo e organização. Para os autores, a dimensão instrumental relacionase com o intuito de fazer parte da organização e dar seguimento as atividades, contudo, ao mesmo tempo, considerando os custos agregados a sua saída, que podem ser distinguidos de maneira diferente entre as pessoas. Neste sentido, comparações relacionadas a vantagens (benefícios) na continuação de sua participação na organização ocorrem da mesma forma que as desvantagens atreladas à desistência destes consideráveis benefícios. Objetivos e interesses norteiam as atividades organizacionais, que concomitantemente procedem em distintas pressões normativas. Nesta mesma perspectiva, a dimensão moral, normalmente internalizada nas organizações, guiam as atitudes dos trabalhadores. Portanto, o comprometimento é considerado fruto de uma impetuosa obrigação (MACIEL; CAMARGO, 2011). 3. Metodologia Quanto ao tipo de pesquisa, optou-se pelo descritivo, neste sentido, Gil (2011) conjectura que a pesquisa descritiva consiste na exposição e estudo de características distintas de determinados grupos. Para Collis e Hussey (2005) o desígnio da pesquisa descritiva é literalmente descrever processos, assim como conseguir informações mais particularizadas sobre determinados fenômenos ou problemáticas. O presente trabalho descreve o comprometimento organizacional dos cooperados em relação ao empreendimento econômico solidário. Utilizou-se uma abordagem qualitativa, para Creswell (2010) tal abordagem utiliza desde concepções filosóficas, estratégias de investigação a métodos de coleta e análises de interpretação particulares. Em contrapartida, para Dias (2010) o método qualitativo é realizado por meio de observações do ser humano e seu ambiente, também se utiliza de questionários, entrevistas, documentos diversos, no intuito de caracterizar habilidades humanas e facilitar a compreensão dos públicos alvo em seus distintos contextos. A abordagem qualitativa foi utilizada visando um aprofundamento sobre os dados coletados. Escolheu-se o estudo de caso como procedimento técnico. Yin (2010) expõe que o estudo de caso é uma investigação empírica de fenômenos relacionados à realidade, sem 6 definição clara de limites e contextos. Gil (2011) aborda como um estudo profundo de determinado objeto, assim como sua exploração extensa, são características do estudo de caso. Selecionou-se a COOREPA – Cooperativa Recicla Paranaíba. Escolheu-se este caso por se tratar de uma cooperativa de destaque estadual, única no estado de Mato Grosso do Sul que está registrada junto a OCB/MS – Organização das Cooperativas Brasileiras, além de ter sido reconhecida pelo “Prêmio Santander Universidades” e na “Gincana Impacto Zero – SWU”, ambos em 2011. Quanto ao plano de coleta de dados optado para a pesquisa foi utilizada a observação in loco com registros em diário de campo, análise documental e entrevistas semiestruturadas. Para Yin (2010) a observação direta, utilizada nesta pesquisa, é uma fonte de evidência no estudo de caso. Deste modo, por presumir que os diversos fenômenos de interesse não consistem tão somente em dados históricos, muitas condutas e condições relevantes do próprio ambiente serão disponibilizadas ao pesquisador. Esta evidência observacional, sobretudo, proporciona formações adicionais no estudo de caso. Utilizou-se entrevista na coleta de dados. Deste modo, Severino (2009) afirma que o roteiro de entrevista determina ao pesquisador, informações sobre pensamentos e conhecimentos do entrevistado. Bertucci (2009) afirma que o roteiro de entrevista define informações com respeito de ideais, em seus distintos aspectos, por meio de debates entre o entrevistado e o pesquisador. Nesta pesquisa foram feitas entrevistas com os membros do Conselho de Administração da COOREPA, em especial, com a atual Diretora Presidente. Desta forma, fizeram-se investigações em torno da antiga gestão, em embate com a atual, através de um roteiro de entrevista semiestruturadas, realizada sem formalidades, analisando acontecimentos que remetem ao enfoque deste trabalho: comprometimento organizacional. Complementarmente foram analisados documentos da COOREPA. Optou-se pela pesquisa documental para análise de dados. Neste sentido, a pesquisa documental acrescenta documentos distintos, com finalidades diversas, para que sejam consultados e auxiliem nos procedimentos da pesquisa, ao passo que pode ser utilizada por ciências sociais distintas, assim sendo, consultam-se estas fontes documentais no intento de proporcionarem algum evento (GIL, 2010). Para Severino (2009) este método de pesquisa consiste na utilização de uma matéria-prima, sem nenhuma submissão indutiva, em regra caracterizada como documentos em geral. Os documentos analisados foram: Estatuto Social, Regimento Interno e Atas de Reuniões e Assembleias da cooperativa. O tratamento de dados dessa pesquisa foi feito por meio da análise de conteúdo. Desse modo, os dados foram sistematicamente analisados com a finalidade de abranger a realidade do objeto em estudo, assim como presumir determinadas possibilidades estratégicas que interfiram positivamente na realidade da COOREPA. Silverman (2009) aponta que na análise de conteúdo um conjunto de categorias é estabelecido pelos pesquisadores que, posteriormente, contam às vezes em que há uma incidência em cada uma destas categorias. Para Selltiz et al (1964) a análise de conteúdo apresenta atenções particulares concernentes à confiabilidade de suas medidas, da mesma forma que a validade de seus achados. Os dados primários, provenientes das entrevistas e das observações, e os dados secundários, dos registros e documentos, serão trabalhados com base na análise de conteúdo, elencando categorias, comentando-as e confrontando com a teoria. 4. Análise dos Resultados Neste tópico são apresentados os resultados da pesquisa. 4.1. COOREPA – Cooperativa Recicla Paranaíba As atividades da COOREPA – Cooperativa Recicla Paranaíba iniciaram-se no mês de junho do ano de 2010, por meio de sociedades entre o Banco do Brasil, a Prefeitura Municipal 7 e a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul / Campus de Paranaíba (UFMS/CPAR). Neste sentido, sabe-se que o principal desígnio de uma cooperativa de reciclagem é atenuar os impactos decorrentes do acúmulo de resíduos sólidos, fomentar trabalho e renda para pessoas que estão à margem da sociedade, atuando sobre a inclusão social, assim como estabelecer soluções referentes à destinação correta dos resíduos sólidos reutilizáveis. Por ser um empreendimento econômico solidário em que todos são donos e, teoricamente, fazem parte das tomadas de decisões, a COOREPA passou por diversas mudanças no transcorrer de suas atividades que, por sua vez, consistiram em avanços e retrocessos. Inicialmente o Conselho de Administração contava com uma Diretora Financeira que acumulava cargos de outros colaboradores, tal como o da Diretora Presidente, deste modo, concentrava muitas das atividades em si só. Este fato impactou diretamente no desenvolvimento da cooperativa, já que cooperados sentiam-se reprimidos e, praticamente, não participavam das atividades de decisão em grupo. Neste sentido, algumas ações eram ocultadas aos cooperados, da mesma maneira que muitas decisões, de interesse e importância do grupo, também eram tomadas por ela. Entretanto, em 2012 uma nova diretoria assumiu promovendo mudanças significativas na gestão da cooperativa. 4.2. Comprometimento Organizacional nos Documentos da COOREPA A COOREPA é regida por um Estatuto Social e por um Regimento Interno, além de Resoluções deliberadas pelo Conselho de Administração. Nestes documentos estão as normas, regras, direitos e deveres. Entende-se que os cooperados ao tomarem conhecimento destes documentos conhecem o funcionamento da COOREPA e, implicitamente, passam a se comprometer com a cooperativa. Para a constituição da COOREPA, cooperados e parceiros se reuniram para a elaboração do Estatuto Social da cooperativa, este documento está sujeito a sofrer alterações mediante Assembleia Geral, em que os cooperados decidem ou não pelas alterações. O Estatuto Social define o objeto, o funcionamento e a estrutura do empreendimento, disciplina os relacionamentos e atribui uma identidade ao empreendimento. Em suas cláusulas são identificadas: denominação social; prazo de duração; sede: município; objeto social; capital social; ações; diretores; conselho fiscal; término do exercício social, fixando a data (BRASIL, 1971; ANTONIALLI, 2000). Foi consultada a última versão do Estatuto Social, de 13 de agosto de 2012. No artigo 9° do Estatuto Social da COOREPA são expressos os deveres e obrigações de todos os cooperados, destacam-se dois: c) Contribuir na realização das atividades e objetivos sociais da Cooperativa; e) Ter zelo pelos materiais, patrimônio e atividades da Cooperativa. Estes aspectos referenciam a irrestrita influência dos colaboradores com o empreendimento, já que se relacionam com o desenvolvimento das atividades organizacionais e os cuidados necessários com o patrimônio da cooperativa, deste modo, estes artigos indicam fatores de comprometimento. O Regimento Interno foi elaborado pelos membros do Conselho de Administração e por parceiros, e também foi aprovado em Assembleia Geral (06 de abril de 2011). Regimento interno é documento que congrega as regras estabelecidas por um grupo de pessoas para regulamentar os seus relacionamentos e funcionamento (BUSNARDO, 2006). As obrigações dos cooperados são expostas no Regimento Interno, mais especificamente no artigo 18°. Foram selecionados alguns itens que se relacionam com o comprometimento dos cooperados: Cumprir as normas do Estatuto Social e do Regimento Interno em vigor; Ser leal para com os objetivos da cooperativa e colegas de trabalho; Cumprir os compromissos expressamente assumidos com a COOREPA, com zelo, atenção e competência profissional; Obedecer às ordens e instruções emanadas de superiores hierárquicos; Zelar pela ordem e asseio no local de trabalho; 8 Zelar pela boa conservação das instalações, equipamentos e máquinas, comunicando as anormalidades notadas; Prestar toda colaboração à cooperativa e aos colegas, cultivando o espírito de comunhão e mútua fidelidade na realização do serviço em prol dos objetivos da cooperativa; Exibir o cartão de identificação e os volumes ou pacotes portados; Responder por prejuízos causados à Empresa quer por dolo ou culpa (negligência, imperícia ou imprudência), caracterizando-se a responsabilidade por: - Sonegação de valores e objetos confiados; - Danos e avarias em materiais sob sua guarda ou sujeitos à sua fiscalização; - Erro doloso de cálculo contra a cooperativa. No artigo 30º, ainda do Regimento Interno, são expostos os motivos de advertência e/ou eliminação de cooperados: Vier a exercer qualquer atividade considerada prejudicial à Cooperativa ou que colida com seus objetivos; Cometer furto ou roubo; Deixar de cumprir dispositivos da lei, do Estatuto Social, do Regimento Interno e deliberações da cooperativa; Desviar material coletado da coleta em seu beneficio constituindo-se como furto, tudo que for coletado pertence à cooperativa e não do cooperado. Os cooperados participaram do processo de elaboração do Estatuto Social e do Regimento Interno da COOREPA, portanto todos conhecem o conteúdo de tais documentos. Mediante a esta situação entende-se que os cooperados, ao aceitarem democraticamente as cláusulas do Estatuto Social e do Regimento Interno concordam em se comprometeram para a sua efetivação. As resoluções são definidas pelo Conselho de Administração e são amplamente divulgadas na cooperativa, destacamos duas resoluções. Na Resolução 01, de 15 de outubro de 2012, o artigo 4° expõe, dentre outras coisas, que o cooperado deve satisfazer pontualmente seus compromissos para com a COOREPA. Na Resolução 05, de 15 de outubro de 2012, são listadas ações expressamente proibidas, recortam-se três itens: utilizar equipamentos da COOREPA para tratar de assuntos particulares durante o período de trabalho; deslocar-se do setor de trabalho sem necessidade e levar material que se encontra nas instalações da COOREPA. Percebe-se que os documentos da COOREPA expõem claramente quais são os deveres, direitos, normas e regras a serem seguidas. A participação na elaboração destes documentos demonstra o envolvimento dos cooperados para a definição de aspectos importantes para o funcionamento da cooperativa. Assim, o comprometimento com os artigos dos documentos é entendido como o comprometimento com a cooperativa. 4.3. Falta de Comprometimento dos Cooperados Uma vez apresentado o comprometimento organizacional relatado nos documentos da COOREPA, são apresentadas, a seguir, situações em que houve falta de comprometimento dos cooperados. Tais situações foram agrupadas em seis categorias: má gestão do empreendimento econômico solidário; apropriação de materiais; depredação do patrimônio; patrimonialismo; infrações no trabalho; e alternativas para o comprometimento. a) Má gestão do empreendimento econômico solidário: no início das atividades da cooperativa, a Diretora Financeira (que assumiu as atividades da Diretora Presidente, como exposto anteriormente) realizou ações que não condiziam com os preceitos de uma cooperativa: 9 A antiga Diretora Financeira resistia a colocar pessoas no Conselho de Administração, considerando que estas poderiam informar-se sobre os registros e ações contábeis da cooperativa, como não havia transparência, frente à necessidade de colocar alguém em determinada posição persistia em falar: “não podemos colocá-lo aqui, senão ele saberá de tudo”. Embora os cooperados atentassem-se aos problemas determinados pela antiga diretoria, resistiam em contestar em prol de melhorias, devido ao medo de comprometer a COOREPA e seu próprio desenvolvimento. A diretoria parecia exercer, mesmo que de maneira camuflada, um poder coercitivo sobre os colaboradores. A COOREPA recebeu dois caminhões repletos de materiais recicláveis que configurariam valores consideráveis para o valor do montante produtivo, no entanto, este veículo foi encaminhado para a casa da Diretora Financeira que, de maneira independente, adotou a decisão. Desta forma, este ato gerou desconforto e instabilidade no grupo, já que os cooperados foram excluídos do processo de decisão da destinação destes materiais, ao passo que também não souberam quais eram os exatos materiais recebidos. Neste contexto, nota-se que os princípios da economia solidária são pouco apontados, considerando que a antiga diretoria, em termos democráticos, não contribuía efetivamente com a economia solidária. Princípios de igualdade e democracia, distinguido pela prevalência de ideias socialistas, configura a ideal estruturação de cooperativas de reciclagem (SINGER, 2002). Desta forma, o descarte da opinião dos demais colaboradores nas tomadas de decisões, assim como a resistência em elucidar a real situação da cooperativa, também denota o não atendimento de preceitos solidários. Estas características embatem na questão da autogestão, em que os limites entre as relações assistencialistas com as capitalistas, requerem efetiva solidificação de princípios democráticos, já que são fatores predominadores em um empreendimento solidário (LECHAT; BARCELOS, 2008). Em contrapartida, atualmente a COOREPA possui um novo Conselho de Administração, que procura extinguir os vestígios do formato gestionário da antiga Diretora Presidente. Assim, neste novo ambiente, é incentivado que todos opinem nas relações do grupo, por meio de reuniões periódicas e informais, que em longo prazo, suscitam benefícios à cooperativa em distintos aspectos ditados pela própria teoria, tais como: democracia, cooperativismo, transparência e autogestão (isto fica mais evidente na discussão do item f). b) Apropriação de materiais: a COOREPA recebe doações voluntárias de pessoas, empresas e instituições. Todo o material coletado ou doado ou entregue na cooperativa deve ser comercializado e o valor desta transação compõe o montante a ser rateado entre os cooperados, entretanto ocorreram algumas situações: A COOREPA, além de coletar resíduos sólidos reutilizáveis, também recebe donativos inesperados da população, tais como: móveis (cadeira, mesa, armário, fogão etc.), eletroeletrônicos, dentre outros. Esses materiais passam a ser domínio da cooperativa, já que podem ser vendidos e contribuir com o saldo mensal. Entretanto, os cooperados não compreendem e, por vezes, levam para casa alguns destes materiais sem informar os demais colaboradores e, tão pouco, os gestores. A Diretora Presidente menciona que eles não conversam uns com os outros sobre esta questão, pois, na verdade, “tapam os olhos”. Como a cooperativa guarda alimentos, de consumo comum, em suas instalações, notou-se no decorrer do tempo um decréscimo na quantidade dos alimentos. Descobriu-se que alguns cooperados levavam sacos de arroz, açúcar, café, chá, dentre 10 outros perecíveis, sem autorização. Assim, foi necessário colocar uma chave para controlar os sumiços de alimentos. A Diretora Presidente recebeu o pedido da proprietária de uma lanchonete para buscarem materiais reutilizáveis, assim como seis potes de óleo para os cooperados utilizarem na fabricação de sabão. Em seguida, a Diretora informou o motorista sobre a especificidade da solicitação e voltou-se a outras atividades, deste modo, não conversaram mais sobre o assunto. Em um momento fora do expediente de trabalho, a Diretora decidiu ir à casa do motorista a fim de buscar sacos de mandioca oferecidos por ele, entretanto, ao entrar no quintal, observou alguns potes de óleo no canto do muro, assim sendo, naquele exato momento, lembrou-se do pedido da proprietária da lanchonete. Contudo, ela assumiu uma postura mais contida, como se não tivesse notado. “Só que eu não comentei nada” assinala a Diretora sobre o fato ocorrido. Ainda em relação à questão dos alimentos conservados na COOREPA, encontram-se relatos de cooperados que ultrapassaram os limites estabelecidos pelo Conselho de Administração, desta vez, relacionado à fechadura da despensa, em que uma cooperada arrombou a porta para usufruir dos mantimentos, que seriam destinados aos demais cooperados. Neste tópico destaca-se a apropriação indevida de materiais da cooperativa. Desse modo, tais ações denotam a falta de comprometimento com os donativos da cooperativa, também geradores de renda. Percebe-se, contudo, que os colaboradores não compreendem que estas ações influenciam diretamente nos resultados financeiros do empreendimento, e em sua renda mensal. “Tapar os olhos” diante de comportamentos impróprios é bastante comum na cooperativa, neste sentido, os colaboradores notam os problemas e, concomitantemente, esquece-os, já que acreditam que tal ação não comprometerá a si mesmo, tampouco os demais – o mesmo ocorre no caso dos que praticam estas imprudências. Nota-se, também, que as metas do empreendimento solidário são deixadas de lado, ponderando que os colaboradores não envolvem os comportamentos apontados nos documentos da cooperativa. É importante ressaltar que o Artigo 30° do Regimento Interno aponta que é passível de advertência e/ou eliminação cooperados que cometerem furto ou roubo, bem como aqueles que desviarem material da cooperativa em seu benefício próprio. Assim, destaca-se a falta de compromisso dos cooperados para com o Estatuto Interno, Regimento e Resoluções, visto que os colaboradores não compreendem a validade e legalidade destes regulamentos. Deste modo, as finalidades desses documentos elaborados por eles próprios, não são efetivamente alcançadas, entretanto, por muitas vezes são altamente transgredidas (estas condutas sobressaem-se na discussão do item c). c) Depredação do patrimônio da cooperativa: os bens patrimoniais da cooperativa devem ser geridos de forma a não necessitarem de serem trocados ou consertados, ou que estes sejam extraviados ou furtados. Todos os cooperados devem ser gestores dos bens patrimoniais, no entanto, pôde se perceber: Ausência de cuidados com a carroceria e campana do caminhão é comum por parte de alguns cooperados. Neste sentido, destacam-se descuidos quando jogam algo que merece cautela, manuseiam com desleixo ou batem sem calcular a fragilidade. Manobrar um caminhão é uma tarefa que exige atenção e cuidados múltiplos. Neste sentido, verificou-se que na cooperativa o motorista provocava constantes quebras de peças do caminhão, devido ao uso incorreto ou por não ter habilidade com a direção de veículos. Afirma a Diretora Presidente: “acho que ele aprendeu a dirigir aqui na COOREPA”. Duas pessoas entraram na COOREPA e furtaram a bateria do caminhão. O furto foi observado por um vizinho que notou quando os indivíduos levaram a bateria. Além 11 disso, outra pessoa, em uma conversa com a Diretora Presidente, relatou que uma destas pessoas era um cooperado. Assim, a Diretora conversou com o cooperado sobre o contexto, contudo, ele demonstrou surpresa diante do assunto. É relevante destacar que o Artigo 9° do Estatuto Social aponta que é necessário ter zelo com os bens da COOREPA, isto é reforçado no Artigo 18° do Regimento Interno, que cita o zelo pela conservação das instalações, equipamentos e máquinas e que os cooperados devem responder por danos e avarias. Bem como se trata do gerenciamento de bens da cooperativa, em que todos os cooperados são detentores, importâncias pautadas em impessoalidade, transparência e regras que se estendem a todos, merecem ser propagadas (ALMEIDA, 2007). Nesta vertente, a característica democrática de empreendimentos solidários, em especial da COOREPA, não está estabilizada, considerando a negligência dos colaboradores com as atividades, descuido com os materiais e patrimônios, além da preterição com documentos e condicionamentos organizacionais. Tais situações apresentadas são passíveis de advertência e/ou eliminação, uma vez que tais atividades são consideradas prejudiciais à COOREPA (Artigo 30° do Regimento Interno). d) Patrimonialismo: os bens materiais e patrimoniais são de propriedade da COOREPA e não de um cooperado específico, nem mesmo de um grupo de cooperados, entretanto houve uma circunstância em que isto não ficou evidente: A Diretora Presidente identificou que uma antiga cooperada assumia uma postura patrimonialista, uma vez que, no contexto de um trabalho cooperativista os patrimônios são coletivos, desta maneira, falas individualistas como: “mas essa máquina é minha”, ao referir-se de um maquinário da produção, denota a falta de acordo com os demais. “Ela carregava muita coisa”, relatou a atual Diretora Presidente sobre a específica colaboradora. Almeida (2007) apresenta o patrimonialismo como uma apropriação do que é público, ou de bem comum. Em uma cooperativa os equipamentos, materiais e tudo aquilo que compõem o seu patrimônio não pertence a um cooperado, nem mesmo à diretoria, mas sim à própria cooperativa. Neste sentido, a situação apresentada expõe um comportamento antagônico aos princípios da economia solidária, visto que a colaboradora não abrange o cooperativismo, tampouco o conceito de equidade em relação ao patrimônio. e) Infrações no trabalho: as atividades dos colaboradores da COOREPA são importantes para as atividades cotidianas e para ampliação do empreendimento, entretanto, elas devem ser feitas de maneira correta, sem ocasionar custos inesperados. Neste sentido, algumas infrações expressivas do trabalho do motorista foram evidenciadas: O motorista da cooperativa manobrou incorretamente o caminhão durante a coleta seletiva, amassando o portão e o muro de uma residência, além do próprio veículo. “Não vi no retrovisor”, relatou. Para amenizar os custos desta negligência outro cooperado fez consertos, de sua maneira, no portão e em partes do caminhão. Outro problema gerado pelo motorista ocorreu por sua dispersão ao dirigir o caminhão, desta vez, estava de ré e não observou a proximidade com uma placa – que delimitava o espaço para o estacionamento de motocicletas. Assim, acertou a placa estragando-a por completo, gerando outros custos para a COOREPA. Espera-se dos cooperados um comprometimento com as atividades que desenvolvem dentro da cooperativa, as infrações citadas foram ocasionadas por um motorista relapso com sua função. Sabe-se que acidentes acontecem, entretanto, a Diretora Presidente apontou que eram muito comuns problemas com este motorista, o que não acontecia com motoristas anteriores (uma observação: essa é a função que mais apresenta rotatividade). O motorista citado foi desligado da cooperativa (por decisão dele próprio e não por infringir as regras do 12 Estatuto Social e do Regimento Interno) não se notou mais custos recorrentes como neste sentido. Assim, nota-se que o comprometimento demanda junção de atividades de múltiplos campos. Além disto, estas diferenças exigem ações simultâneas e, por conseguinte, resultam em renda e produção almejada (POCHMANN, 2004). f) Alternativas para o comprometimento: diante das dificuldades relacionadas ao comprometimento dos cooperados, a atual gestão da COOREPA procurou desenvolvimento por meio de alternativas em grupo, apesar disto, destacam-se efeitos insatisfatórios: Em consequência de conflitos internos, o grupo de cooperados realizou uma reunião em que se discutiu a respeito da compra de produtos pelos próprios cooperados, em que os de menores valores poderiam ser comprados. Esta decisão atrela-se ao problema usualmente estabelecido na cooperativa, em que o colaborador levava os materiais sem verificar a possibilidade, tampouco informar aos gestores e demais integrantes. Nessa reunião também se decidiu que, mesmo com valores baixos, todos os materiais reutilizáveis presentes na cooperativa deveriam ser precificados. Atualmente são definidos todos os produtos comprados. Embora tivessem realizado uma reunião com o intuito de melhorar os problemas de seleção de materiais e conflitos relacionados à compra de materiais, controvérsias foram identificadas após a reunião. Há uma elevada resistência dos cooperados quando se trata da efetividade dos acordos e responsabilidades. Ressalta-se a fala de uns cooperados dias após uma reunião: “o que se acha no lixo não pode ser cobrado”. Para alguns deles, o “lixo” continua “sem dono” mesmo após ter sido coletado por eles para COOREPA. Outra característica dos cooperados fundamenta-se na credibilidade para com o outro. Nesta perspectiva, relata uma cooperada que, na antiga diretoria, eles eram literalmente obrigados a “mostrar a sacola” após a separação de alguns materiais, considerando a possibilidade de terem pegado algo de importância comum. A percepção de que as alternativas democráticas, propostas pela Diretora Presidente, e supostamente aceita por todo o grupo, não surtiram efeitos, uma vez que os cooperados não cumprem com os acordos. Isto também prejudica o desenvolvimento da produção, assim como o envolvimento do grupo para com o verdadeiro desígnio de um empreendimento econômico solidário. A realidade do trabalho cooperativo demanda ações rápidas (LADEIA; CARVALHO, 2009). Princípios de igualdade e democracia baseados em ideias socialistas; uma democracia mais radical é objetivada pela autogestão (SINGER, 2002; LECHAT; BARCELOS, 2008). Nota-se um esforço da Diretora Presidente em gerir a COOREPA fundamentada pelos princípios da economia solidária, de modo a resolver a falta de comprometimento dos cooperados. 4.4 Análise A COOREPA tem como características as três dimensões de comprometimento apresentadas como enfoque deste trabalho: afetivo, instrumental e normativo (ALLEN; MEYER, 1990). Em contrapartida, observa-se que as atividades sofreram diferentes alterações no decorrer das mudanças gestionárias do empreendimento, neste sentido, consequentemente as formas de comprometimento também foram alteradas. O enfoque normativo na COOREPA é evidenciado por meio de documentos, Estatuto Interno, Regimento Interno e Resoluções que ratificam condutas e normas a serem seguidas pelos colaboradores. Porém, por sua vez, devido aos colaboradores não se comprometerem, tampouco seguirem as propostas perpetradas por eles mesmos, essas condutas não se enquadram com o comprometimento normativo. Nesta vertente, as ações normativas, por carregarem pressões próprias, devem ser adotadas, considerando o escopo em alcançar os 13 interesses da organização (WIENER, 1982). Portanto, se os cooperados não desenvolvem as atividades de acordo com as cláusulas pré-dispostas, seu comportamento não é representado com base em conceitos éticos. Entende-se que as cooperativas de reciclagem são regidas por preceitos normativos, contudo, seu público tem dificuldades em efetivar tais regulamentos, talvez, isto ocorra devido a uma característica da economia solidária, inclusão social. Comumente, as cooperativas de reciclagem são compostas por catadores, desempregados, pessoas com baixa escolaridade. O enfoque afetivo na COOREPA é percebido em alguns cooperados, principalmente naqueles que fazem parte do Conselho de Administração, são pessoas que estão dispostas a desempenhar suas funções em prol da cooperativa (PORTER; SMITH, 1970). Isto é notado na ação da Diretora Presidente que se preocupa com as atividades da cooperativa, relacionando valores, objetivos e metas. Desta forma, perceberam-se ações da Diretora: reuniões com soluções democráticas, estabelecimento de resoluções que deixem mais claros o Estatuto Social e o Regimento Interno, além de uma busca constante pela profissionalização da cooperativa e o aumento da renda dos cooperados. Nos membros do Conselho de Administração e em alguns poucos cooperados, notou-se uma identidade com a cooperativa, pois demostraram estarem emocional e socialmente envolvidos com a COOREPA (MEYER; ALLEN, 1991). O enfoque instrumental é vislumbrado na maioria dos cooperados. Entende-se que no enfoque instrumental o empenho do indivíduo com a organização se dá pelo interesse de benefícios (HREBINIAK; ALUTTO, 1972). Os benefícios de uma cooperativa de reciclagem são coletivos, sem distinção entre os cooperados (SINGER, 2002). Entretanto, muitos cooperados têm dificuldades em compreender tal dinâmica, e desta forma agem individualmente. Apesar disto permanecem na cooperativa pela necessidade de uma fonte de renda (MEYER; ALLEN; SMITH, 1993). 5. Considerações Finais O objetivo deste estudo foi apresentar uma análise sobre o comprometimento organizacional dos cooperados em relação à COOREPA, que é um empreendimento solidário fundamentado em preceitos: igualdade, transparência, cooperativismo, democracia e autogestão e foi fundada em 2010 no município de Paranaíba-MS. Este artigo partiu do pressuposto que os cooperados se comprometem com a cooperativa em suas normas e regulamentos, traçados por meio da interação dos cooperados na elaboração do Estatuto Social e do Regimento Interno. Entretanto, não se confirmou tal pressuposto, observadas as situações citadas no texto: na antiga gestão a Diretora Financeira centralizava atividades e comprometia a transparência; os cooperados se apropriam dos materiais indevidamente não entendendo o senso de coletividade; não zelam pelos patrimônios da cooperativa, acarretando em custos não previstos; não entendem a gestão patrimonial de uma cooperativa, gerando patrimonialismo; cometem infrações nas atividades, como o caso do motorista, causando manutenções constantes no caminhão; mediante a isto a Diretora Presidente propôs soluções que efetivamente não surtiram efeitos. Quanto aos enfoques do comprometimento organizacional, pode-se afirmar que: a) normativo, embora seja exposto pelas normas, que são muito difundidas na cooperativa, não se notou este enfoque, uma vez que os cooperados burlam as cláusulas; b) afetivo, visualizado em um grupo de cooperados, que se envolvem social e emocionalmente com a COOREPA; c) instrumental, percebeu-se que os benefícios relacionados à continuação no trabalho fazem com que os cooperados permaneçam em suas atividades. As limitações da pesquisa repousam principalmente por se tratar de um estudo de caso, em que as considerações não podem ser generalizadas para todas as cooperativas de reciclagem. Para estudos futuros sugerem-se pesquisas mais aprofundadas de temas 14 específicos, tais como o comprometimento com os materiais da cooperativa e o comprometimento com o volume de produção, seria interessante ainda um estudo sobre o comprometimento afetivo dos cooperados, visto que este enfoque, no caso de cooperativas de reciclagem, parece demonstrar uma contribuição interessante para a teoria. Referências ALLEN, N. J.; MEYER, J. P. The measurement and antecedents of affective, continuance and normative commitment to the organization. Journal of Occupational Psychology, v. 63, p. 1-18, 1990. ALMEIDA, A. C. A cabeça do brasileiro. Rio de Janeiro: Record, 2007. ANTONIALLI, L. M. Influência da mudança de gestão nas estratégias de uma cooperativa agropecuária. Rev. adm. contemp., Curitiba, v. 4, n. 1, Apr. 2000 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141565552000000100008&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 4 jan. 2013. BASTOS, A. V. B. Comprometimento organizacional: a estrutura dos vínculos do trabalhador com a organização, a carreira e o sindicato. Brasília, 1994. Tese (Doutorado) Universidade de Brasília. BASTOS, A. V. B.; BORGES-ANDRADE, J. E. Comprometimento com o trabalho: padrões em diferentes contextos organizacionais. Rev. adm. empres. [online], v.42, n.2, p. 1-11, 2002. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rae/v42n2/v42n2a03.pdf >. Acesso em 12 mar. 2013. BECKER, H. S. Notes on the concept of commitment. American Journal of Sociology, 66, 32-42, 1960 BERTUCCI, J. L. O. Metodologia básica para elaboração de trabalhos de conclusão de cursos (TCC): Ênfase na Elaboração de TCC de Pós-Graduação Lato Sensu. 1 ed. São Paulo: Atlas, 2009. BRASIL, Lei nº 5.764, de 16 de dezembro de 1971. Define a Política Nacional de Cooperativismo, institui o regime jurídico das sociedades cooperativas, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L5764.htm>. Acesso em: 04 jan. 2013. BRASIL. Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; altera a Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998; e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12305.htm>. Acesso em: 30 jan. 2013. BUSNARDO, E. A.. Autogestão em construção: uma cooperativa de construção civil do Rio de Janeiro. Cad. psicol. soc. trab., São Paulo, v. 9, n. 1, jun. 2006 . Disponível em <http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S151637172006000100005&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 4 jan. 2013. COLLIS, J.; HUSSEY, R. Pesquisa em Administração: um guia prático para alunos e graduação e pós-graduação. 2 ed. Porto Alegre: Bookman, 2005. CRESWELL, J. W. Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto. Tradução Magda Lopes. 3 ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. DIAS, D. S.; SILVA, M. F. Como escrever uma monografia: manual de elaboração com exemplos e exercícios. São Paulo: Atlas, 2010. GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 5 ed. São Paulo: Atlas, 2010. GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6 ed. São Paulo: Atlas, 2011. HREBINIAK, L. G.; ALUTTO, J. A. Personal and role-related factors in the development of organizational commitment. Administrative Science Quarterly, 17, p. 555-573, 1972. JAFRI, M. H. Organizational commitment and employee's innovative behavior: a study in retail sector. Journal of Management Research,10(1), p. 62-68, 2010. 15 LADEIA, C. R.; CARVALHO, A. M. R.; FARIA, P. B. Planejamento estratégico: ferramenta para o desenvolvimento dos empreendimentos econômicos solidários. In: ZANIN, M.; GUTIERREZ, R. F. (orgs.). Economia Solidária: tecnologias em reciclagem de resíduos para geração de trabalho e renda. v. 1. São Carlos: Claraluz, 2009. LECHAT, N. M. P.; BARCELOS, E. S. Autogestão: desafios políticos e metodológicos na incubação de empreendimentos econômicos solidários. Revista Katalysis, v. 11, p. 96-104, 2008 MACIEL, C. O.; CAMARGO, C. Comprometimento, satisfação e cooperação no trabalho: evidências da primazia dos aspectos morais e das normas de reciprocidade sobre o comportamento. Rev. adm. contemp. [online], v.15, n.3, p. 433-453, 2011. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552011000300005. MCGEE, G. W.; FORD, R. C. Two (or more?) dimensions of organizational commitment: reexamination of the affective and continuance commitment scales. Journal of Applied Psychology, v. 72, n. 4, p. 638-641, 1987. MEDEIROS, C. A. F.; ALBUQUERQUE, L. G.; SIQUEIRA, M.; MARQUES, G. M. Comprometimento organizacional: o estado da arte da pesquisa no Brasil. Rev. adm. contemp. v.7, n.4, p. 187-209, 2003. MEYER, J. P.; ALLEN, N. J. A three-component conceptualization of organizational commitment. Human Resource Management Review,1(1), p 61-89, 1991. MEYER, J. P.; ALLEN, N. J. Organizational commitment: Toward a three-component model. Research Bulletin No. 660. The University of Western Ontario, Department of Psychology, London, 1987. MEYER, J. P.; ALLEN, N. J.; SMITH, C. A. Commitment to organizations and occupations: extension and test of a three-component conceptualization. Journal of Applied Psychology,78(4), p. 538-551, 1993. MOWDAY, R. T.; STEERS, R. M.; PORTER, L. W. The measurement of organizational commitment. Journal of Vocational Behavior, v. 14, p. 224-247, 1979. POCHMANN, M. Economia solidária no Brasil: possibilidades e limites. Boletim de Mercado de Trabalho - Conjuntura e Análise, n. 24, Ago. 2004. Disponível em: <http://agencia.ipea.gov.br/images/stories/PDFs/mercadodetrabalho/mt_24g.pdf>. Acesso em: 17 jun. 2012. PORTER, L. W.; CRAMPON, W. J.; SMITH, F. J. Organizational commitment and managerial turnover. Organizational Behavior and Human Performance, 15, p. 87-98, 1976. SELLTIZ, C.; JAHODA, M.; DEUTSCH, M; COOK, S. Research Methods in Social Relations. New York: Holt, Rinehart e Winston, 1964. SEVERINO, A. J. Metodologia do Trabalho Científico. 23 ed. São Paulo: Ed. Cortez, 2009. SILVERMAN, D. Interpretação de dados qualitativos: métodos para análise de entrevistas, textos e interações. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009. SINGER, P. I. A recente ressurreição da economia solidária no Brasil. In: SANTOS, B. S. (org.). Produzir para viver: os caminhos da produção não capitalista. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. WIENER, Y. Commitment in organizations: a normative view. Academy of Management Review, v. 7, n. 3, p. 418-428, 1982. YIN, R. K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 4 ed. Porto Alegre: Bookman, 2010. 16