BRUNO JULIANO GUÉRIOS ESTIMATIVA DAS PROPRIEDADES FÍSICO-QUÍMICAS DA GASOLINA UTILIZANDO UM MODELO TERMODINÂMICO Monografia apresentada como requisito à obtenção do título de especialista em petróleo e gás natural – Programa de Recursos Humanos (PRH) nº 24 da Agência Nacional de Petróleo e Gás Natural (ANP). Orientador: Prof. Dr. Luiz Fernando de Lima Luz Jr. CURITIBA 2007 SUMÁRIO RESUMO..............................................................................................................................iii LISTA DE FIGURAS..........................................................................................................iv LISTA DE TABELAS.......................................................................................................... v 1. INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 1 2. SIMULADOR TERMODINÂMICO (LANZER, 2003) ........................................... 6 2.1 SIMULAÇÃO DA CURVA DE DESTILAÇÃO .................................................. 7 2.2 PREVISÃO DA DENSIDADE E DA PRESSÃO DE VAPOR REID ...................... 17 3. OTIMIZAÇÃO DO SIMULADOR (VALT; GUÉRIOS, 2005-2006) ................... 18 3.1 ALGORITMO GENÉTICO ................................................................................. 19 3.2 RESULTADOS DA OTIMIZAÇÃO ................................................................... 26 3.2.1 Gasolina A ........................................................................................................... 26 3.2.2 Gasolina C........................................................................................................... 30 3.3 VALIDAÇÃO DO MODELO.............................................................................. 33 4. INFLUÊNCIA DOS PARÂMETROS DE INTERAÇÃO DE SUBGRUPOS DO MÉTODO UNIFAC (GUÉRIOS, 2006-2007).................................................................. 40 4.1 MÉTODO UNIFAC ................................................................................................... 40 4.2 PROGRAMA DE VERIFICAÇÃO DA INFLUÊNCIA DOS PARÂMETROS DO UNIFAC ........................................................................................................................... 42 4.3 RESULTADOS E DISCUSSÃO ............................................................................... 44 4.3.1 Variação individual dos parâmetros ................................................................... 44 4.3.2 Variação dos parâmetros em pares..................................................................... 48 5. CONCLUSÃO............................................................................................................. 53 6. SUGESTÕES PARA TRABALHOS FUTUROS .................................................... 54 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................... 55 ii RESUMO A gasolina comercial é uma mistura de mais de 400 hidrocarbonetos. Devido à alta complexidade da mistura, suas propriedades físico-químicas são de difícil previsão; tais previsões são necessárias na análise da gasolina comercial para monitoramento de sua qualidade. Em seu trabalho, LANZER utilizou um modelo termodinâmico de modo a prever a curva de destilação da gasolina a partir de sua composição, para que a adulteração de gasolinas comerciais possa ser detectada e medidas de fiscalização possam ser tomadas rapidamente. Neste trabalho, foram criados dois programas em linguagem de programação Fortran para análise de gasolinas, um para a gasolina A e um para a gasolina C, ambos baseados na otimização do simulador de LANZER. A otimização, que utiliza o método heurístico algoritmo genético, melhora os resultados da previsão termodinâmica da curva de destilação da gasolina através do agrupamento dos vários compostos da mistura em 12 pseudocomponentes representativos. Utilizando as análises cromatográficas e de destilação de uma amostra de gasolina A recebida em outubro de 2005, foi possível compilar sem erros o programa para a gasolina A; este programa apresenta boas aproximações da curva prevista em relação à experimental, exceto em temperaturas altas (no final da destilação), em que as curvas se distanciam devido à degradação dos componentes da gasolina, de difícil previsão e simulação. O programa da gasolina C também foi concluído com bons resultados, mas é de difícil execução devido a erros matemáticos aleatórios do Fortran. A partir de métodos de planejamento experimental, também foi analisada a influência do álcool anidro adicionado à gasolina comercial nas propriedades da mistura e na simulação da curva de destilação, através da variação de parâmetros termodinâmicos do modelo UNIFAC; esta influência é bastante significativa, porém a variação dos parâmetros não apresentou uma tendência, com resultados variando aleatoriamente, o que impede a validação deste estudo para qualquer amostra de gasolina. Palavras-chave: 1. Curva de destilação; 2. Pseudocomposição; 3. Algoritmo genético. iii LISTA DE FIGURAS Figura 1.1 – Destiladora automática Herzog (LACAUT ets)................................................. 2 Figura 1.2 – Gráfico de não-conformidades detectadas por ensaios, por natureza, no país – Dezembro/2006 (fonte : ANP) ....................................................................................... 3 Figura 2.1 – Algoritmo do Simulador LANZER.................................................................. 10 Figura 2.2 – Simulação utilizando PR .................................................................................. 11 Figura 2.3 – Simulação utilizando UNIFAC-GI .................................................................. 12 Figura 2.4 – Simulação utilizando PPR................................................................................ 15 Figura 2.5 – Simulações de curvas de destilação para amostras adulteradas ....................... 16 Figura 3.1 – Cruzamento (a) e mutação (b) no algoritmo genético...................................... 20 Figura 3.2 – Indivíduo do algoritmo..................................................................................... 21 Figura 3.3 – Indivíduo modificado por parâmetros.............................................................. 21 Figura 3.4 – Algoritmo genético implementado para otimização do simulador .................. 25 Figura 3.5 – Curva de destilação da amostra de gasolina A................................................. 26 Figura 3.6 – Otimização do simulador para a gasolina A .................................................... 27 Figura 3.7 – Valores da SMQ ao longo das gerações – gasolina A ..................................... 28 Figura 3.8 – Variação dos parâmetros ao longo das gerações – gasolina A......................... 29 Figura 3.9 – Otimização do simulador para a gasolina C..................................................... 31 Figura 3.10 – Valores da SMQ ao longo das gerações – gasolina C.................................... 32 Figura 3.11 – Variação dos parâmetros ao longo das gerações – gasolina C....................... 33 Figura 3.12 – Curvas simuladas de amostras de gasolina comercial, com pseudocomposições multiplicadas pelos parâmetros da tabela 3.3. (a) GC70 (comum); (b) GC71; (c) GA19 (aditivada); (d) GA20.................................................................. 34 Figura 3.13 – Simulação original e calibrada para amostra GC-223.................................... 37 Figura 3.14 – Simulação original e calibrada para amostra GC-186.................................... 37 Figura 3.15 – Simulação da gasolina C com parâmetros da gasolina A .............................. 38 Figura 4.1 – Algoritmo do programa de verificação da influência dos parâmetros do UNIFAC ....................................................................................................................... 43 Figura 4.2 – Gráficos dos mínimos em função da variação individual dos parâmetros....... 47 Figura 4.3 – Gráficos dos mínimos em função da variação dos parâmetros em pares......... 50 iv LISTA DE TABELAS Tabela 2.1 – Resultados de densidade e pressão de vapor Reid........................................... 17 Tabela 3.1 – Exemplo do cálculo da soma dos mínimos quadrados, com regressão polinomial de sexto grau .............................................................................................. 23 Tabela 3.2 – Valores dos parâmetros para a melhor pseudocomposição após 200 gerações – gasolina A ..................................................................................................................... 29 Tabela 3.3 – Valores dos parâmetros para a melhor pseudocomposição após 200 gerações – gasolina C ..................................................................................................................... 32 Tabela 3.4 – Frações volumétricas de amostras típicas de gasolina C em diferentes anos .. 35 Tabela 3.5 – Frações volumétricas de amostras típicas de gasolina C em 2006 .................. 35 Tabela 3.6 – Compostos representantes da pseudocomposição ........................................... 36 Tabela 3.7 – Soma dos mínimos quadrados para testes de calibração ................................. 38 Tabela 4.1 – Valores dos parâmetros de interação do UNIFAC retirados da literatura. ...... 44 Tabela 4.2 – Fração das execuções que causaram terminação do programa (individual).... 48 Tabela 4.3 – Fração das execuções que causaram terminação do programa (pares)............ 51 Tabela 4.4 – Resultado das combinações de parâmetros testados........................................ 51 v 1. INTRODUÇÃO A gasolina é uma mistura de mais de quatrocentos hidrocarbonetos, na faixa de 3 a 15 carbonos, sendo que a maior parte possui entre 5 e 8 carbonos. Inflamável e volátil, é altamente utilizada como combustível automotivo. É produzida no refino do petróleo, em sua maioria no processo de craqueamento catalítico. Apesar de, em sua grande maioria, se localizarem da faixa de 3 a 15 carbonos, os compostos variam conforme o petróleo utilizado na produção e as condições do processo de refino. Por isso, é muito difícil caracterizar e determinar a qualidade de uma amostra pela composição química; além disso, a determinação da composição é um processo custoso, tanto em termos de tempo quanto financeiramente, o que impede a utilização de métodos cromatográficos para tais fins. Desta forma, para a fiscalização da qualidade da gasolina, são utilizadas propriedades físico-químicas mais simples de medir, como a curva de destilação, densidade, volatilidade, pressão de vapor Reid e índice antidetonante (IAD). Essas propriedades permitem a caracterização da gasolina de forma rápida e barata, permitindo que um grande número de amostras seja analisado em um tempo reduzido. Com base nessa capacidade de análise, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) criou, no segundo semestre de 1999, o programa de monitoramento da qualidade de combustíveis líquidos. O programa apresenta como objetivo avaliar permanentemente a qualidade dos combustíveis líquidos (gasolina, óleo diesel, biodiesel e álcool), comercializados no país, do produtor ao consumidor final; e mapear problemas de não-conformidades para direcionar as ações de fiscalização da ANP, tornando-as mais eficazes e dinâmicas (ANP, 2005). Devido à grande quantidade de postos de combustíveis no Brasil, é impossível centralizar as análises laboratoriais em apenas uma localização. Para solucionar este problema, a ANP criou convênios com universidades e institutos de pesquisa em vários pontos do país, para que cada instituição fosse encarregada de analisar amostras da sua região. No estado do Paraná, o órgão encarregado das análises é o Laboratório de Análises de Combustíveis Automotivos (LACAUT ets), localizado no campus Centro Politécnico da 1 Universidade Federal do Paraná. Suas instalações permitem que sejam analisadas até 1980 amostras por mês (LACAUT, 2007). O laboratório era responsável pelo monitoramento da qualidade dos combustíveis de 2597 postos em dezembro de 2006 (ANP, 2006), número que tem aumentado ao longo dos anos. Os ensaios padrão realizados pelo LACAUT incluem a determinação do MON (Motor Octane number) e do RON (Research Octane Number), cuja média determina o IAD, e a fração de benzeno na amostra; esses ensaios são feitos utilizando correlações matemáticas aplicadas em um aparelho infravermelho portátil, visto que os testes experimentais dessas propriedades são muito caros, demorados e de difícil execução. Outros testes são: a determinação da fração de etanol na gasolina (teste também oferecido pelos distribuidores ao consumidor), densidade (em um densímetro digital), pressão de vapor Reid e destilação. A destilação é o ensaio que mais demanda tempo e energia. Em uma destiladora automática, é colocado um balão volumétrico com 100 mL da amostra de gasolina. O balão é então aquecido e a gasolina é destilada, mantendo uma taxa de destilação média de 4,5 mL/min e monitorando-se a temperatura durante o processo, enquanto o volume de destilado é acompanhado por um leitor acoplado a uma proveta. Obtém-se, ao final do teste, um gráfico da temperatura em função da fração do volume de destilado. A figura 1.1 mostra o equipamento utilizado pelo laboratório, um destilador automático Herzog modelo HDA628. Figura 1.1 – Destiladora automática Herzog (LACAUT ets) 2 A partir do gráfico resultante, analisa-se então se determinadas temperaturas estão entre os limites estabelecidos pela portaria nº309, de 27 de dezembro de 2001, da ANP: • T10: é a temperatura em que 10% da amostra foram destilados. Está relacionada com a volatilidade da gasolina, que determina se a mistura de combustível e ar é explosiva. É importante para a partida do motor a frio. O limite máximo estabelecido pela portaria é de 65ºC. • T50: temperatura em que 50% da amostra foram destilados. Relacionada com o aquecimento e a temperatura ótima de operação do motor. Os hidrocarbonetos médios, que são destilados nesta faixa, têm mais poder calorífico que os leves, ainda sendo voláteis o suficiente pra formar uma mistura explosiva com o ar. O limite máximo estabelecido é 80ºC. • T90: temperatura em que 90% da amostra foram destilados. Está relacionada com a economia e o desempenho do motor. Os hidrocarbonetos pesados fornecem grande quantidade de energia, mas são pouco voláteis; se estiverem em excesso, permanecem tempo demais no motor, podendo diluir o lubrificante. A portaria estabelece um limite mínimo de 145ºC, para coibir a presença de contaminantes leves na mistura, e um limite máximo de 190ºC para evitar excesso de hidrocarbonetos pesados. O ensaio de destilação detecta uma grande fração das não-conformidades apresentadas pela ANP, como mostrado na figura 1.2. Esta fração varia bastante em diferentes períodos; porém, os ensaios de destilação e álcool, desde a implementação do programa de monitoramento, sempre foram os principais detectores de adulteração. Figura 1.2 – Gráfico de não-conformidades detectadas por ensaios, por natureza, no país – Dezembro/2006 (fonte : ANP) 3 A adulteração é realizada como forma de sonegação de impostos. O infrator preenche os tanques com uma parte de combustível e outra parte de um líquido mais barato, geralmente etanol ou solventes. Ele vende a mistura pelo preço do combustível, prejudicando os consumidores e impedindo a arrecadação correta dos impostos devidos ao estado. O boletim de qualidade fornecido pela ANP indica que, no ano de 2006, foram detectadas 227 amostras irregulares dentre as 5795 testadas, uma fração que corresponde a 3,92% das amostras totais. Visto que o LACAUT ets analisa as amostras de todos os postos do estado, existe um problema de logística no transporte das amostras: o transporte de uma amostra de um posto de combustíveis ao laboratório demanda tempo. O tempo para a amostra ser analisada no laboratório, desde sua retirada no posto até a obtenção dos resultados, é de dois a três dias. Durante o transporte, podem ocorrer os seguintes problemas: se houver o manuseio e lacre incorretos das amostras, elas podem ser alteradas por volatilização, fazendo com que a gasolina analisada no laboratório seja diferente da retirada na bomba; além disso, se a gasolina estiver fora dos padrões estabelecidos pela ANP, as medidas corretivas de selagem das bombas e ações punitivas ao distribuidor só poderão ser executadas após a detecção da não-conformidade. Nesse tempo, a gasolina adulterada ainda estará sendo vendida, prejudicando consumidores e seus veículos. Faz-se necessário então outro método de análise, que reduza a demanda de tempo para determinação da não conformidade de amostras, se possível fazendo a análise in loco, com medidas corretivas imediatas em caso de necessidade. Esta foi a motivação para LANZER realizar seu trabalho, um simulador baseado em métodos termodinâmicos para previsão das propriedades da gasolina. Como será abordado no próximo capítulo, o simulador prevê a curva de destilação, a densidade e a pressão de vapor Reid da gasolina a partir da pseudocomposição, que agrupa os inúmeros componentes da gasolina em conjuntos que representem a mistura. O presente trabalho visa a otimização do simulador e a análise da influência de parâmetros do método termodinâmico utilizado, para que o programa forneça resultados mais próximos aos experimentais. 4 Com um simulador otimizado eficiente, pode-se utilizar um equipamento portátil baseado em infravermelho próximo (NIR) ou um refractômetro que determine a pseudocomposição da amostra, que servirá como dado de entrada do programa. Isto possibilitaria uma obtenção mais rápida dos resultados necessários, diminuindo a sonegação de impostos e os danos ao consumidor. 5 2. SIMULADOR TERMODINÂMICO (LANZER, 2003) Grande parte dos trabalhos que visam prever as propriedades físico-químicas da gasolina baseia-se em modelos estatísticos, que apesar de terem implementação rápida, necessitam de um grande número de dados experimentais para realizar sua validação, que levam um longo período de tempo para serem obtidos (IOB et. al., 1995; ANDRADE et. al., 1997 in LANZER, 2003). Por esta razão, LANZER optou por utilizar um modelo termodinâmico, pois possibilita a obtenção das propriedades a partir da composição química. A composição química das gasolinas foi obtida por cromatografia gasosa, em um equipamento situado no LACAUT – UFPR. Através do software DHA (Detailed Hydrocarbon Analysis), é possível identificar e classificar os compostos de uma amostra. A proposta inicial do trabalho de LANZER era trabalhar com misturas semicontínuas, cujas composições são descritas por funções de distribuição contínuas de algumas propriedades macroscópicas, aliadas a valores discretos que representem a concentração de alguns componentes. Estas funções, para a gasolina, são: a distribuição dos pesos moleculares, das temperaturas normais de ebulição e das densidades. O software DHA, em seu relatório detalhado de componentes, somente fornece as frações molares dos componentes, faltando as temperaturas e densidades. A alternativa encontrada foi utilizar o relatório de componentes agrupados por número de carbono, em vez do relatório detalhado; esse relatório fornece as frações, densidades relativas e peso molecular médio dos grupos de componentes, permitindo a utilização de pseudocomponentes para representar a mistura. O DHA só fornecia parte dos pseudocomponentes (compostos puros representativos de frações da mistura), havendo a necessidade de buscá-los manualmente. Desta forma, LANZER buscou, no banco de dados do simulador ASPEN PLUS, componentes que tivessem valores de peso molecular e temperatura normal de ebulição próximos aos valores fornecidos para os pseudocomponentes, assim especificando componentes puros que representassem aqueles não especificados pelo DHA. Foi então escolhida uma equação de estado para o cálculo do equilíbrio de fases. A equação selecionada foi a de Peng-Robinson, por apresentar bons resultados para cálculos de propriedades da fase líquida. A regra de mistura escolhida foi a de van der Waals, por 6 ser a mais utilizada e ser apropriada para calcular o comportamento de fases para misturas apolares e pouco polares. Correlações adicionais foram utilizadas para determinar o valor da temperatura crítica, pressão crítica e fator acêntrico de Pitzer dos pseudocomponentes escolhidos, valores necessários para utilizar as equações de estado termodinâmicas, além do calor específico e do fator de Watson (K). Os valores dessas propriedades em relação ao etanol foram retirados da literatura (REID; PRAUSNITZ; POLING, 1987). Depois de escolhidos o método de análise da composição e a aproximação termodinâmica, foi elaborado o algoritmo de destilação. 2.1 SIMULAÇÃO DA CURVA DE DESTILAÇÃO A destilação foi simulada a partir de sucessivos flashes não-isotérmicos, cada um deles recebendo uma pequena quantidade de calor, dependendo do volume de vapor gerado. Esta quantidade de calor (QC), definida arbitrariamente, foi de 100 Joules por mol na primeira iteração do algoritmo, sendo suficiente para destilar aproximadamente 0,1 ml de líquido. À medida que a destilação ocorre, a quantidade de vapor gerada com a mesma carga térmica diminui. Isto se deve à concentração de frações menos voláteis fase líquida. A fim de evitar um número crescente de iterações e, conseqüentemente, um tempo muito longo de simulações, o valor de QC é acrescido em 1% toda vez que o volume destilado é menor do que o volume destilado inicial. Os flashes são realizados até que a fração volumétrica do destilado atinja um valor pré-determinado, definido como 90% do volume inicial. O algoritmo foi escrito em linguagem de programação Fortran, utilizando a subrotina de convergência SNSQE. Esta sub-rotina é uma modificação do método híbrido de Powell, que utiliza uma combinação entre o método de Newton e um método similar ao método das cordas, a fim de evitar mínimos locais. A fim de evitar problemas de convergência observados quando a fração molar de etanol no vapor se aproxima de 1%, todas as variáveis relevantes são arquivadas e o programa é reiniciado, continuando a partir do ponto de interrupção. Os problemas de convergência devem estar associados ao histórico de cálculo, ou seja, alguma variável do 7 programa deve estar armazenando valores que conduzem a convergência para mínimos locais. Desta maneira, o programa deve ser executado duas vezes para que a simulação se complete. O algoritmo do flash consiste em um balanço de massa por componentes, equação 2.1, um balanço de energia, equação 2.2, e o equilíbrio de fases (líquido-vapor), equação 2.3. As frações molares foram deixadas livres nas equações de balanço, sendo necessárias, portanto, as restrições adicionais de que o somatório das frações molares deve ser igual a um, conforme as equações 2.4 e 2.5. z i - (xL.x i + xV.y i ) = 0 (2.1) para i = 1,2,3,...,nc onde: yi = fração molar do componente i na fase vapor zi = fração molar do componente i na fase líquida, na corrente de alimentação do flash xL = fração de líquido no flash xV = fração de vapor no flash HF + QC - xL.HL - xV.HV = 0 (2.2) onde: HF = entalpia da fase líquida, na corrente de alimentação do flash HL = entalpia da fase líquida do flash HV = entalpia da fase vapor do flash QC = carga térmica fornecida ao sistema f iv − f il = 0 (2.3) para i = 1,2,3,...,nc onde: f i l = fugacidade do componente i na fase líquida f i v = fugacidade do componente i na fase vapor nc 1 − ∑ xi = 0 (2.4) i =1 nc 1 − ∑ yi = 0 (2.5) i =1 8 O algoritmo utilizado na destilação realiza sucessivos flashes, até que a fração volumétrica do destilado atinja um valor pré-determinado. Ele calcula também a densidade da gasolina a 20oC. O diagrama de blocos que representa o algoritmo é mostrado na figura 2.1. 9 Leitura das informações de entrada: T, P, nc, Volume de líquido, QC, xL, xV, zi, MWi, SGi, critério de parada e dados do etanol. Cálculo das correlações para Tb, Tc, Pc, K, ω e dos valores de a, b e c para o Cp. Estimativa inicial para xi e yi. Definição do estado de referência: T = T da alimentação e P = 0 (gás ideal). Cálculo de HF a partir de HLr utilizando a regra de mistura de van der Waals. Primeira vez que o algoritmo está sendo executado? Não Sim Cálculo do número de moles na alimentação. Cálculo da densidade a 20ºC. Cálculo do flash: cálculo das propriedades da fase líquida e da fase vapor. Resolução dos balanços de massa, energia e equilíbrio de fases. Verificação interna de convergência. z i = xi T = T do flash Cálculo do volume total destilado (Vtot) Vtot é maior do que o critério de parada? Não Sim Impressão dos resultados. Figura 2.1 – Algoritmo do Simulador LANZER 10 Utilizando a equação de Peng-Robinson com a regra de mistura de van der Waals, LANZER obteve a curva simulada da figura 2.2 utilizando o algoritmo apresentado. 220 Experimental Calculado - PR Temperatura (oC) 180 140 100 60 20 0% 20% 40% 60% Volume destilado 80% 100% Figura 2.2 – Simulação utilizando PR Nota-se que os maiores desvios em relação à curva experimental estão próximos aos 70% de destilado, região em que o etanol é destilado. Isso pode ser justificado pelo fato de a equação de Peng-Robinson ser apropriada apenas para misturas apolares ou pouco polares. Para representar melhor a destilação do etanol, foi utilizado um modelo de energia de Gibbs de excesso, que considera a influência do grupo hidroxila (OH) na mistura. O modelo de contribuição de grupos UNIFAC foi utilizado, pois representa bem o equilíbrio líquido-vapor para misturas multicomponentes contendo compostos apolares. Admitiu-se a fase vapor como gás ideal, visto que a pressão no flash não atinge valores altos. A curva para o UNIFAC-GI é apresentada na figura 2.3. 11 220 Experimental Calculado - UNIFAC-GI Temperatura (oC) 180 140 100 60 20 0% 20% 40% 60% Volume destilado 80% 100% Figura 2.3 – Simulação utilizando UNIFAC-GI A simulação utilizando o modelo UNIFAC-GI teve ótima concordância com os resultados experimentais, porém o modelo não foi capaz de realizar os cálculos a partir de 70% do destilado. Isso ocorre porque a abordagem γ − φ , em que o UNIFAC é baseado, requer os valores da pressões de saturação dos pseudocomponentes; a partir de 150ºC, os componentes mais leves tornam-se supercríticos, e o valor da pressão de saturação passa a não ser mais condizente com a realidade física. Para obter a simulação da curva completa, o modelo não pode ser baseado na abordagem γ − φ . LANZER revisou a biblioteca de modelos do ASPEN PLUS, à busca de um modelo de equações de estado cúbicas combinadas com modelos de energia de Gibbs de excesso. Foram então testadas as equações de Peng-Robinson com a regra de mistura de Wong-Sandler (PRWS), Soave-Redlich-Kwong (SRK) e Soave-Redlich-Kwong Preditivo (PSRK), este último composto por HOLDERBAUM e GMEHLING em 1991. O PSRK combina a equação de estado de SRK com a regra de mistura determinada pelos autores mencionados. Após testar os modelos em um flash adiabático, LANZER concluiu que os modelos PR (testado anteriormente) e SRK tiveram resultados idênticos. Além disso, o modelo 12 PSRK foi o que mais se aproximou do UNIFAC-GI, mostrando sua capacidade em simular o comportamento do etanol. As simulações com o PSRK apresentaram resultados semelhantes aos do UNIFACGI para a destilação, porém a densidade relativa calculada (0,63761) ficou muito inferior à experimental (0,75969). Tendo em vista que os resultados dos modelos SRK e PR foram idênticos, e que o PR representa bem as propriedades da fase líquida, LANZER teve a idéia de substituir a equação SRK pela PR no modelo, criando o PPR (Preditivo de PengRobinson). O modelo PPR resultou na melhor simulação das propriedades da gasolina dentre os modelos testados, sem ter o problema do cálculo da pressão de saturação que impede o uso da abordagem γ − φ . A equação de estado utilizada foi a de Peng-Robinson: Z= V a (T , ω )V − V − b RT V 2 + 2Vb − b 2 ( ) (2.6) onde: Z = fator de compressibilidade V = volume T = temperatura R = constante universal dos gases a = parâmetro do modelo - é uma medida das forças atrativas entre as moléculas b = parâmetro do modelo - é uma medida do volume físico ocupado pelas moléculas R 2Tc 2 a (T ,ω ) = 0,45724 Pc 0 ,5 T 1 + m 1 − Tc m = 0 ,37464 + 1,5422ω − 0,26922ω 2 b = 0 ,07780 2 (2.7) RTc Pc onde: Tc = temperatura crítica Pc = pressão crítica O modelo proposto por HOLDERBAUM e GMEHLING utiliza a seguinte regra de mistura: 13 nc b G oE + RT ∑ x i ln nc a bi i =1 a = b ∑ xi i + 1 .1 bi ln i =1 2 .1 (2.8) nc b = ∑ xi bi (2.9) i =1 G E = RT ∑ xi ln γ i (2.10) i para i = 1,2,3,..., número de componentes onde: GE = energia de Gibbs de excesso γi = coeficiente de atividade do componente i O coeficiente de atividade ( γ i ) é obtido através da utilização do modelo UNIFAC. HOLDERBAUM e GMEHLING afirmam que sua regra de mistura tem a vantagem de prever o equilíbrio líquido-vapor de um grande número de sistemas sem que seja necessária a introdução de novos parâmetros para o modelo, os quais precisariam ser ajustados por dados de equilíbrio líquido-vapor experimentais. Outras vantagens são de que o modelo pode ser aplicado sobre uma faixa mais ampla de temperaturas e pressões que a abordagem γ − φ do UNIFAC, e pode ser estendido para componentes supercríticos. Os resultados da utilização do modelo PPR são mostrados na figura 2.4. 14 220 Experimental Calculado PPR Calculado UNIFAC-GI Temperatura (oC) 180 140 100 60 20 0% 20% 40% 60% Volume destilado 80% 100% Figura 2.4 – Simulação utilizando PPR Na curva de destilação resultante, figura 2.4, percebe-se que os maiores desvios se encontram na região dos 70% de destilado e no final da curva, onde há aumento da temperatura. Em torno dos 70%, o etanol é destilado e há uma grande perturbação no sistema, que inclusive muda a taxa de aquecimento do destilador automático e conseqüentemente a taxa de destilação; essas mudanças fazem com que o sistema se distancie do equilíbrio termodinâmico, sendo assim de difícil previsão e cálculo. O aumento da temperatura ao final da curva, que não é seguido pelo modelo termodinâmico, sugere que há uma mudança de composição da gasolina ao final do ensaio. A mudança de composição da gasolina ao final do ensaio de destilação foi comprovada por LANZER, que interrompeu o ensaio durante sua execução para análise cromatográfica da composição da amostra. O relatório do DHA mostrou um aumento da fração de hidrocarbonetos pesados na gasolina, supostamente causado pela polimerização de olefinas a altas temperaturas. Esta mudança na composição não pode ser detectada pelo método termodinâmico na simulação; desta forma, por melhor que o modelo representasse a destilação, o aumento da temperatura não poderia ser simulado. 15 Ao final de seu trabalho, LANZER analisou gasolinas adulteradas deliberadamente para testar se permaneceriam dentro das especificações impostas pela portaria da ANP. Os resultados para adição de solventes alifáticos podem ser visualizados na figura 2.5. 220 Referência Aromático 10% Aromático 30% Portaria ANP 220 190 Temperatura (°C) 180 140 145 100 80 65 60 20 0% 20% 40% 60% Volume destilado 80% 100% Figura 2.5 – Simulações de curvas de destilação para amostras adulteradas Pode-se perceber que, apesar de adulteradas, as gasolinas ainda permanecem dentro das especificações. Isso ocorre porque os solventes têm composição semelhante à da gasolina, não sendo detectados como substâncias estranhas, e mostra a necessidade de limites mais rigorosos na fiscalização. Visto que as temperaturas de destilação das amostras adulteradas ficaram bem próximas dos limites da ANP, existe também a necessidade de diminuir os desvios da curva simulada em relação à experimental, para que decisões errôneas não sejam tomadas ao se utilizar o simulador termodinâmico. Com este intuito, foi feita uma otimização do método termodinâmico com parâmetros associados aos pseudocomponentes, a fim de realizar simulações mais confiáveis. Este trabalho foi realizado em conjunto com VALT em sua tese de mestrado, sendo apresentado no capítulo a seguir. 16 2.2 PREVISÃO DA DENSIDADE E DA PRESSÃO DE VAPOR REID A densidade da gasolina é calculada pela equação de estado termodinâmica, juntamente com a simulação da curva de destilação. A pressão de vapor Reid é determinada pela seguinte equação empírica (MINIVAP, 2001, in LANZER, 2003): PVAP = 0,965 Ptotal − 3,78 (2.11) onde: PVAP = Pressão de vapor Reid (kPa) Ptotal = Pressão de vapor da amostra saturada de ar a 37,8ºC (kPa) O algoritmo para o cálculo da pressão de vapor Reid é um algoritmo de pressão de bolha, e utiliza somente a equação das fugacidades, equação 2.3, e a restrição adicional de que o somatório das frações molares da fase vapor deve ser igual a um, conforme a equação 2.5. O modelo calcula a pressão de vapor da amostra contendo ar a 37,8ºC (Ptotal) a partir da equação PPR, admitindo que a amostra contém 0,07 ppm (em massa) de ar na fase líquida. Esta quantidade de ar representa uma pressão parcial de aproximadamente 3,3 kPa, valor muito próximo do valor médio observado em laboratório. O valor calculado da densidade é muito próximo do valor experimental (como pode ser visto na tabela 2.1), sem haver necessidade de otimização do cálculo. O valor calculado da pressão de vapor Reid tem um desvio um pouco maior, porém a portaria ANP determina que seu valor deve estar abaixo de 69 kPa, que está muito acima de todas as amostras testadas, adulteradas ou não; conclui-se que sua previsão também não precisa ser otimizada. Tabela 2.1 – Resultados de densidade e pressão de vapor Reid Densidade experimental (g/cm3) 0,75969 PVAP experimental (kPa) 52,1 Densidade calculada (g/cm3) 0,75642 PVAP calculada (kPa) 53,5 Desvio (%) 0,432 Desvio (%) 2,65 17 3. OTIMIZAÇÃO DO SIMULADOR (VALT; GUÉRIOS, 2005-2006) A minimização dos desvios da curva de destilação calculada em relação à curva experimental é um problema de otimização. Os métodos de otimização se dividem em métodos determinísticos, quando a partir de uma estimativa inicial chega-se ao mesmo resultado, não importando quantas vezes são realizadas as otimizações da função objetivo; e métodos estocásticos, em que são utilizados números aleatórios e a cada execução as respostas diferem. São ditos diretos, quando a otimização baseia-se na comparação do resultado da função objetivo para vários valoresteste das incógnitas envolvidas; ou indiretos, em que os valores da função não precisam ser comparados durante as iterações e a tendência da função objetivo é analisada usando-se derivadas. Os métodos diretos requerem maior esforço computacional que os indiretos, porém sua implementação é mais simples. Os métodos heurísticos de otimização são métodos diretos, definidos como regras práticas derivadas da experiência. Esses métodos não apresentam garantia de encontrar o melhor valor para uma função, mas são uma maneira de organizar os testes de valores associados às incógnitas, permitindo um menor esforço computacional para encontrar soluções aceitáveis. Podem ser tanto determinísticos quanto estocásticos, dependendo do uso de números aleatórios em sua execução. Os métodos heurísticos com bases estocásticas se inspiram em fenômenos naturais. Exemplos de métodos de otimização natural são: o recozimento simulado, que simula o processo de reorganização cristalina durante o resfriamento de um metal fundido, em estruturas de mínima energia; enxame de partículas, baseado no comportamento social de grupos de animais, como enxames de abelhas ou cardume de peixes, em que cada indivíduo apresenta decisões próprias, mas baseadas de alguma forma na experiência do grupo; e o algoritmo genético, que otimiza a função objetivo através da analogia com a evolução das espécies e o crescimento de populações. Dentre os métodos de otimização, foi escolhido um método heurístico estocástico para otimizar o simulador termodinâmico desenvolvido por LANZER, devido à sua baixa estabilidade em relação à variação dos dados de entrada. Outras vantagens dos métodos heurísticos estocásticos que influem nessa decisão são: o fato de tais métodos não 18 requererem o cálculo de derivadas da função objetivo; de poderem ser usados quando a função objetivo não pode ser representada por uma função matemática, ou quando o problema é muito complexo, envolvendo muitas variáveis; e de não perderem sua eficiência na presença de mínimos locais ou descontinuidades na função objetivo. Sendo métodos diretos, requerem maior esforço computacional para serem executados, porém com o avanço da informática este problema tende a diminuir. Foi escolhido o método algoritmo genético, pois sua eficácia foi comprovada para problemas relacionados à engenharia química nos trabalhos de FRIESE (1998), GEYER (1999), GROSS (2000) e RUBINI (2006) (VALT, 2007). O algoritmo foi implementado na linguagem computacional Fortran, por sua confiabilidade em relação aos cálculos e por ser a mesma linguagem utilizada por LANZER em seu simulador, facilitando a interface entre os programas. 3.1 ALGORITMO GENÉTICO Basicamente, o algoritmo genético considera um grupo de dados como sendo um indivíduo, e as variáveis como genes. Primeiramente ele cria uma população inicial a partir do indivíduo original, executando operações com números aleatórios. O conjunto de indivíduos é chamado de geração; o primeiro grupo é a geração inicial. Cada indivíduo pode ser classificado pela sua aptidão. Indivíduos com melhor aptidão são aqueles que possuem os melhores valores para a função objetivo; fazendo uma analogia com a evolução das espécies, os indivíduos mais adaptados ao ambiente tendem a sobreviver, em detrimento dos indivíduos menos aptos, que tendem a desaparecer. Criada uma população, é feita uma seleção de indivíduos para a evolução. Existem dois métodos para seleção: roleta e torneio. No método da roleta, os indivíduos são selecionados conforme sua aptidão; indivíduos com melhores valores para a função objetivo possuem uma fatia maior da roleta, e portanto sua chance de serem selecionados é maior. A roleta é “rodada” utilizando números aleatórios, que selecionam um par de indivíduos a serem reproduzidos. No método do torneio, selecionam-se aleatoriamente pares de indivíduos, e aqueles que se destacam dentro de cada par são selecionados para a reprodução. 19 Os indivíduos selecionados têm uma chance de sofrer mutação, em que um de seus genes pode ser modificado aleatoriamente dentro de limites pré-estabelecidos. O cruzamento é então efetuado. É feito um corte em cada um dos indivíduos selecionados, em uma posição aleatória, entre seus genes. É criado um novo par de indivíduos (descendentes) a partir da combinação dos genes dos pais: as partes delimitadas pelo corte são trocadas entre os indivíduos, e as duas novas conformações de genes passam a caracterizar os descendentes. Assim como no desenvolvimento de populações reais, deve existir uma possibilidade de não ocorrer cruzamento. Essa possibilidade é testada antes da reprodução acontecer, a partir de um número aleatório. A ocorrência ou não da mutação também é testada, com uma probabilidade bem menor que o cruzamento, para não causar a perda de informações da população pela mudança excessiva dos genes. Tanto o cruzamento quanto a mutação podem ser visualizados na figura 3.1 para melhor entendimento de seu conceito. Cada gene é representado por uma letra. Figura 3.1 – Cruzamento (a) e mutação (b) no algoritmo genético Após a reprodução, o descendente é qualificado conforme o valor da função objetivo, e sua aptidão é comparada com a dos pais. Se for mais apto, o descendente 20 substitui o pai menos apto. Se ambos os descendentes forem melhores, ambos os pais são substituídos. A nova geração será composta pelos indivíduos que não foram selecionados, pelos pais mais aptos que seus descendentes e pelos descendentes mais aptos que seus pais. Segue-se selecionando e cruzando os indivíduos, até que algum critério de parada seja satisfeito. Os critérios de parada podem ser atingir um certo número de gerações, ou alcançar um dado valor para a função objetivo. Aplicando-se o algoritmo genético como método de otimização do simulador termodinâmico, uma amostra de gasolina torna-se um indivíduo, e sua pseudocomposição se torna o conjunto de genes. A partir dos relatórios do DHA, a composição da gasolina foi dividida, segundo o número de carbonos (de 3 a 14), em doze grupos de compostos, que foram então considerados os genes do algoritmo. O indivíduo e seus genes podem ser representados pela figura 3.2. X3 X4 X5 X6 X7 X8 X9 X10 X11 X12 X13 X14 Figura 3.2 – Indivíduo do algoritmo A primeira geração então é criada, modificando-se a composição da gasolina através de sua multiplicação por um parâmetro aleatório k. Os novos indivíduos da população ficam como mostrado na figura 3.3. x3*k3 x4*k4 x5*k5 x6*k6 x7*k7 x8*k8 x9*k9 x10*k10 x11*k11 x12*k12 x13*k13 x14*k14 Figura 3.3 – Indivíduo modificado por parâmetros A cada fração (gene) é permitida uma mudança máxima de ±10% a cada geração, para que a composição não sofra mudanças bruscas e as informações da gasolina original não sejam perdidas. Desta forma, o parâmetro k deve estar entre 0,9 e 1,1, e seu cálculo é determinado pela equação 3.1. k j = Limite min imo + ( Limite max imo − Limite min imo ) * n° aleatório (3.1) para limite mínimo de 0,9 e limite máximo de 1,1; limites diferentes também podem ser estabelecidos. O número aleatório é um número entre 0 e 1, uniformemente distribuído. Depois de o novo indivíduo ser criado, sua composição é normalizada, para manter a soma das frações dos pseudocomponentes igual a um (equação 2.4). 21 Através da equação 3.1, são então criados indivíduos modificados que, juntamente com o original, compõem a geração inicial. Neste programa cada geração é composta por 25 indivíduos. Cada indivíduo, que é uma composição diferente, é testado no simulador, e sua aptidão é determinada pelo desvio da curva simulada em relação à experimental. Cada fração de destilado calculada é adaptada à fração experimental, visto que o simulador não fornece os mesmos dados de fração que as destiladoras automáticas. Esta adaptação é feita utilizando-se uma regressão polinomial, calculada através de uma subrotina padrão do Fortran. Regressões polinomiais de primeiro a nono grau foram testadas para representar as curvas de destilação simuladas; notou-se que a partir do sexto grau a melhoria das representações era ínfima. Utilizou-se então o polinômio de sexto grau, equação 3.2. Tsimi = axi + bx i2 + cxi3 + dxi4 + exi5 + fxi6 (3.2) onde a, b, c, d, e, f são coeficientes determinados pela subrotina. O desvio é determinado pela soma dos mínimos quadrados, equação 3.3. Os erros da curva calculada em relação à experimental são elevados ao quadrado, pois eles podem ser positivos ou negativos, e se cancelariam se não fossem modificados; esta operação faz com que os erros grandes tenham mais importância que os pequenos, pois são elevados ao quadrado. SMQ = n ∑ (T exp − Tsim ) i i 2 ∴ i = % destilado (3.3) i =12 Um exemplo do cálculo da soma dos mínimos quadrados é apresentado na tabela 3.1, para a composição de uma amostra de gasolina. 22 Tabela 3.1 – Exemplo do cálculo da soma dos mínimos quadrados, com regressão polinomial de sexto grau Dados Experimentais Fração Temperatura Volumétrica (ºC) (%) 0,05 0,10 0,15 0,20 0,30 0,40 0,50 0,60 0,70 0,80 0,85 0,90 0,95 - 54,00 57,70 60,50 62,70 66,90 70,10 72,80 74,80 86,30 131,80 146,60 165,90 187,60 - Resposta do simulador Fração Temperatura Volumétrica (ºC) (%) 0,05055 0,10097 0,15004 0,20127 0,25008 0,30189 0,35235 0,40071 0,45005 0,50014 0,55366 0,60177 0,65103 0,70170 0,75138 0,80878 0,85980 0,90933 0,95912 54,51 56,34 58,00 59,62 61,12 62,70 64,37 66,11 68,14 70,44 73,61 77,99 85,34 97,11 110,25 128,32 138,48 150,86 166,39 Regressão Polinomial Fração Temperatura Volumétrica (ºC) (%) 0,05 0,10 0,15 0,20 0,30 0,40 0,50 0,60 0,70 0,80 0,85 0,90 0,95 - Desvio quadrado 55,04 55,47 57,51 59,88 63,39 65,47 69,38 79,11 97,07 122,52 136,74 150,72 163,24 - 1,07 4,98 8,94 7,93 12,28 21,40 11,70 18,54 115,93 86,13 97,27 230,40 593,61 - SMQ 1210,19 - - Continuando o algoritmo, os indivíduos são selecionados pelo método da roleta e pelo método do torneio; utilizaram-se ambos os métodos para evitar que o programa ficasse viciado e somente selecionasse os melhores indivíduos. Um número aleatório determina o método de seleção: se for menor que 0,5, é feita a roleta, e se for maior que 0,5, o torneio. Neste programa, são selecionados doze pares de indivíduos para a reprodução, a cada geração. Depois de selecionados, os indivíduos têm uma possibilidade de 8% de mutação, e uma possibilidade de 80% de se reproduzirem, dependendo de números aleatórios. O corte nos genes também é feito por um número aleatório, e novos indivíduos são criados pela mistura dos genes. Depois de combinados os genes, é feita a normalização da composição, para que a soma das frações molares seja sempre igual à unidade (respeitando a equação 2.4). 23 A soma dos mínimos quadrados para os descendentes é comparada ao seu valor para os pais. Dentre os pais e seus filhos, são escolhidos os dois melhores indivíduos, que são mantidos na geração seguinte. Os piores indivíduos são descartados. Da geração seguinte, formada pelas composições que não são selecionadas e pelas composições com menor SMQ que participaram da reprodução, são novamente selecionados pares de indivíduos para a reprodução, e o algoritmo é repetido até que um número de gerações pré-estabelecido seja atingido. O algoritmo utilizado para o programa pode ser visualizado no diagrama de blocos da figura 3.4, tanto para a gasolina A (sem álcool) quanto para a gasolina comercial. 24 LER DADOS EXPERIMENTAIS E DADOS DE PSEUDOCOMPOSIÇÃO CRIAR GERAÇÃO INICIAL EXECUTAR MODELO PPR GRAVAR ARQUIVOS DE PSEUDOCOMPOSIÇÃO LER DADOS DE FRAÇÃO VERSUS TEMPERATURA DESTILOU 100% ? não AJUSTAR AO sim POLINÔMIO CALCULAR APTIDÃO DO INDIVÍDUO (SMQ) ENQUANTO geração > geração_máxima sim não FIM DO PROGRAMA AG SELECIONAR INDIVÍDUOS PARA EVOLUÇÃO sim n° aleatório > 0,5 não SELEÇÃO POR SELEÇÃO POR ROLETA TORNEIO SE n° aleatório < 0,8 CRUZAR INDIVÍDUOS SE n° aleatório < 0,08 MUTAR INDIVÍDUOS EXECUTAR MODELO PPR GRAVAR ARQUIVOS DE LER DADOS DE FRAÇÃO VERSUS PSEUDOCOMPOSIÇÃO TEMPERATURA não DESTILOU 100% ? AJUSTAR AO sim POLINÔMIO CALCULAR APTIDÃO DO DESCENDENTE (SMQ) SE SMQ_pai < SMQ_filho filho pai Figura 3.4 – Algoritmo genético implementado para otimização do simulador 25 3.2 RESULTADOS DA OTIMIZAÇÃO 3.2.1 Gasolina A Primeiramente, foi feita uma simulação da curva de destilação da gasolina A, que não havia sido analisada por LANZER em seu trabalho, de modo a quantificar a influência do etanol nos desvios da simulação através da comparação entre as curvas da gasolina A e da gasolina C. Uma amostra de gasolina A foi então solicitada à Refinaria Presidente Getúlio Vargas (REPAR), visto que a gasolina sem álcool não é disponível comercialmente, e foi obtida em outubro de 2005. qualidade, além da A amostra foi então submetida aos ensaios padrão de cromatografia gasosa para identificação das frações dos pseudocomponentes. Estas frações foram utilizadas como dados de entrada para o simulador termodinâmico, e a curva apresentada na figura 3.5 foi obtida. 250 Temperatura (°C) Simulador Dados experimentais 200 150 100 50 0 0 0,2 0,4 0,6 0,8 1 Fração destilada Figura 3.5 – Curva de destilação da amostra de gasolina A Como esperado, a simulação apresentou bons resultados, exceto pela parte final da curva, em que ocorre a degradação da gasolina (polimerização de compostos) com aumento não simulado da temperatura. Foi então implementado o algoritmo genético para associar 26 parâmetros aleatórios à pseudocomposição da amostra, na tentativa de simular a degradação e otimizar o simulador. O algoritmo genético faz a pseudocomposição variar de maneira inteiramente aleatória, fazendo a seleção das melhores composições modificadas, para encontrar um conjunto de parâmetros que possa ser aplicado a qualquer amostra com o fim de otimizar a simulação. O algoritmo foi implementado com 25 indivíduos de 12 genes, e executado até 200 gerações. Nesta execução, o programa rodou o modelo PPR 5.866 vezes, demorando em média 6,7 segundos para cada execução do modelo e 8,4 segundos para reprodução e mutação dos indivíduos, totalizando 11 horas para rodar as 200 gerações. O resultado da otimização pode ser visto na figura 3.6. 200 Dados da melhor curva até 50 gerações Dados da melhor curva até 100 gerações Temperatura °C 160 Dados da melhor curva até 200 gerações Dados experimentos 120 Modelo PPR 80 40 0 0 0,25 0,5 Fração Destilada 0,75 1 Figura 3.6 – Otimização do simulador para a gasolina A É visível no gráfico a aproximação da curva simulada em relação à experimental, comprovando a eficácia do algoritmo ao encontrar as pseudocomposições modificadas que melhoram o valor da SMQ. A variação do valor da SMQ ao longo das gerações é mostrada na figura 3.7. Nesta figura, nota-se uma queda brusca para o valor da soma dos mínimos nas primeiras gerações; isso se deve ao alto valor da SMQ para a amostra original, e à presença de um 27 grande número de amostras modificadas com valor menor que o original no domínio em estudo. Depois de um tempo, as melhores amostras se destacam, não sendo modificadas; apenas as modificações que simulam a degradação da gasolina, ao final da curva de destilação, fazem com que melhores indivíduos sejam encontrados. Soma do Quadrado dos Desvíos 6.000 5.000 Valores do melhor indivíduo da geração Valores do pior indivíduo da geração 4.000 Média dos mínimos dos indivíduos da geração 3.000 2.000 1.000 0 1 25 50 94 119 144 174 199 Geração Figura 3.7 – Valores da SMQ ao longo das gerações – gasolina A O valor dos parâmetros da melhor amostra ao final da ducentésima geração, tabela 3.2, mostra que os melhores resultados foram obtidos para modificações que aumentam a fração de pesados da amostra. Este fato também pode ser ilustrado pela figura 3.8, em que os parâmetros foram distribuídos em grupos de três, segundo o pseudocomponente que modificam, para melhor visualização gráfica; nota-se que ao final da otimização, os parâmetros de componentes pesados são maiores que 1, e dos componentes leves são menores que 1. 28 Tabela 3.2 – Valores dos parâmetros para a melhor pseudocomposição após 200 gerações – gasolina A Pseudocomponente 3 4 5 6 7 8 Parâmetro 0,99402 1,16859 0,89751 0,78886 0,56974 1,10120 Pseudocomponente 9 10 11 12 13 14 Parâmetro Pseudocomponente C3 C4 C5 Pseudocomponente C6 C7 C8 Pseudocomponente C9 C10 C11 Pseudocomponente C12 C13 C14 1,8 1,6 Parâmetros 1,93255 1,51013 1,89020 1,40387 1,66296 1,53520 1,4 1,2 1,0 0,8 0 50 100 Gerações 150 200 Figura 3.8 – Variação dos parâmetros ao longo das gerações – gasolina A A figura 3.8 mostra a evolução dos parâmetros agrupados através das gerações. Ela indica que os pseudocomponentes mais pesados (C12-C14) têm valores de parâmetros menores que o grupo C9-C11, ao final da execução. Por ter uma fração molar menos significativa, o grupo C12-C14 não influi muito na SMQ dos indivíduos, e seu valor tem menos importância para a evolução. O mesmo ocorre com o grupo dos mais leves (C3-C5), cujo valor é pouco modificado durante a execução do programa. A soma do quadrado dos desvios, para a amostra original, era de 4.169,0. Após 200 gerações, obteve-se uma pseudocomposição com SMQ de 665,7, tendo-se atingido o objetivo de otimizar a amostra em questão. 29 3.2.2 Gasolina C Para fazer a otimização do simulador utilizando a gasolina C, seria necessário comparar-se os resultados da simulação com dados experimentais de uma amostra de gasolina C. Porém, amostras comerciais não são confiáveis, visto que, mesmo estando dentro dos limites estabelecidos pela portaria da ANP, podem estar adulteradas (vide figura 2.5). Optou-se então por adicionar 25% de etanol anidro (quantidade de etanol a adicionar na gasolina, estabelecida por lei em janeiro de 2006) à amostra recebida de gasolina A, obtendo-se uma amostra de gasolina C. Esta amostra foi submetida aos ensaios padrão do LACAUT e utilizada como objeto do estudo. Ao aplicar-se o algoritmo para a simulação da curva de destilação da gasolina C, encontra-se uma dificuldade maior, devido à presença do etanol na mistura. No ensaio experimental, o etanol causa variações bruscas na taxa de destilação quando começa a ser destilado, e a curva de destilação também sofre grandes desvios. O programa tem dificuldades de simular o comportamento da curva, o que resulta em erros freqüentes que cessam sua execução. A necessidade de executar o programa duas vezes também torna o esforço computacional maior. A quantidade de etanol adicionado à gasolina mudou mais de uma vez nos últimos anos, na faixa entre 20 e 25% da gasolina. Este fato, porém, não causa problemas na otimização nem na modelagem termodinâmica, visto que o etanol não participa desta como pseudocomponente, possuindo assim propriedades mais confiáveis, obtidas em literatura. Assim como na simulação da curva da gasolina A, os parâmetros são variados de forma totalmente aleatória, e as pseudocomposições que são selecionadas como mais adaptadas tendem naturalmente a simular a degradação da gasolina ao final da curva. O algoritmo foi executado até 200 gerações, tendo cada geração 25 indivíduos de 12 genes (pseudocomponentes) mais o etanol (não alterado, somente normalizado). O modelo PPR foi chamado 7.985 vezes, sendo que a primeira execução do modelo leva 6,1 segundos e a segunda 3,8 segundos, em média. O tempo total para a otimização foi de 22 horas. A curva simulada resultante para a gasolina C é apresentada na figura 3.9. 30 200 Dados Experimentais Temperatura °C 160 Modelo PPR Dados da melhor curva até 50 gerações 120 Dados da melhor curva até 100 gerações Dados da melhor curva até 200 gerações 80 40 0 0 0,25 0,5 Fração destilada 0,75 1 Figura 3.9 – Otimização do simulador para a gasolina C Percebe-se que na região de 70% de destilado, onde há influência do etanol, o método de otimização não apresenta melhoras significativas em relação ao simulador original, sugerindo que somente a mudança da pseudocomposição não é capaz de simular a presença do etanol na mistura. O algoritmo apresenta-se eficaz na simulação da degradação da gasolina a altas temperaturas, com uma mudança no sentido de aumentar a fração de pesados na amostra, como ocorreu com a gasolina A. Análises da soma dos mínimos quadrados e dos parâmetros também foram realizadas com a gasolina C. A figura 3.10 mostra a evolução dos indivíduos ao longo das gerações. Assim como ocorreu com a gasolina sem álcool, no início das gerações melhores indivíduos são encontrados rapidamente; após algumas gerações, apenas as mudanças que simulam a polimerização de compostos da gasolina fazem com que indivíduos melhores sejam criados. 31 Soma dos quadrados dos desvios 2.500 Valores do melhor indivíduo da geração Valores do pior indivíduo da geração 2.000 Média dos mínimos dos indivíduos na geração 1.500 1.000 500 1 25 49 74 97 120 164 186 Gerações Figura 3.10 – Valores da SMQ ao longo das gerações – gasolina C A tabela 3.3, que mostra os parâmetros do melhor indivíduo após 200 gerações, e a figura 3.11, que apresenta a variação dos parâmetros, mostra que os melhores indivíduos são aqueles com maior fração de pseudocomponentes pesados. Tabela 3.3 – Valores dos parâmetros para a melhor pseudocomposição após 200 gerações – gasolina C Pseudocomponente 3 4 5 6 7 8 Parâmetro 1,09236 0,98664 1,11009 0,99924 0,69902 0,89948 Pseudocomponente 9 10 11 12 13 14 Parâmetro 1,11767 1,50862 1,35721 1,05831 1,06880 1,01603 32 Variação dos Parâmetros 1,3 Pseudocom ponentes P seudocom ponentes P seudocom ponentes P seudocom ponentes 1,2 C3 C 4 C 5 C6 C7 C8 C 9 C 10 C11 C 12 C 13 C14 1,1 1,0 0,9 0,8 0 50 100 150 200 Gerações Figura 3.11 – Variação dos parâmetros ao longo das gerações – gasolina C Na figura acima, os parâmetros mais leves e mais pesados têm pouca influência frente aos intermediários, por terem frações molares pouco significativas; sua variação não influi no valor final da soma dos mínimos quadrados. A SMQ, para a amostra original, era de 936,7. Para a geração número 200, o valor otimizado ficou em 583,6, comprovando a eficácia do algoritmo genético para a amostra. 3.3 VALIDAÇÃO DO MODELO Para validar o modelo, foi tomado o conjunto de parâmetros apresentado na tabela 3.3 e aplicado a outras amostras de gasolina comercial. Multiplicando os parâmetros pela pseudocomposição das amostras e rodando o simulador, obtiveram-se as curvas de destilação das figuras (3.12a) a (3.12d). 33 a) b) Experimentos Modelo PPR 200 150 Temperatura °C Temperatura °C 200 100 50 150 100 50 0 0 0,25 0,5 0,75 % Fração Molar 1 0 0,25 0,5 0,75 % Fração Molar 1 0 0,25 0,5 0,75 % Fração Molar 1 d) 200 200 150 150 Temperatura °C Temperatura °C c) 0 100 50 0 100 50 0 0 0,25 0,5 0,75 % Fração Molar 1 Figura 3.12 – Curvas simuladas de amostras de gasolina comercial, com pseudocomposições multiplicadas pelos parâmetros da tabela 3.3. (a) GC70 (comum); (b) GC71; (c) GA19 (aditivada); (d) GA20. Analisando os gráficos, as curvas visivelmente se distanciaram dos dados experimentais, apresentando resultados ainda piores que os das amostras sem modificação de parâmetros. Para encontrar a causa das distorções utilizando-se parâmetros otimizados, foram estudadas as simulações de LANZER em 2003, tendo em vista procurar um motivo que impedisse o uso de amostras atuais com o simulador. Foram comparadas as composições das amostras usadas em 2003 com as das amostras atuais. A tabela 3.4 mostra uma comparação das frações volumétricas dos componentes de amostras típicas de gasolina C, ao longo dos anos. Vale salientar que as frações de amostras de uma mesma época não têm variação muito significativa de composição entre si, com diferenças de até 2% nas frações volumétricas de cada componente, como apresentado na tabela 3.5. 34 Tabela 3.4 – Frações volumétricas de amostras típicas de gasolina C em diferentes anos 2002 2003 2004 2005 2006 C2 (etanol) 21,469 23,785 24,191 23,004 25,823 C3 0,311 0,590 0,035 2,660 C4 6,301 1,619 8,384 7,245 14,702 C5 12,228 16,365 14,482 13,481 22,815 C6 14,506 15,707 14,122 16,215 17,167 C7 14,467 12,966 11,933 15,597 6,914 C8 10,632 11,762 9,137 9,525 3,603 C9 7,291 8,424 6,067 5,581 2,796 C10 4,802 4,544 4,093 3,336 1,863 C11 4,510 2,503 4,173 3,184 1,030 C12 2,962 1,873 2,474 1,469 0,438 C13 0,515 0,377 0,292 0,337 0,016 C14 0,022 0,349 0,004 C15 0,053 0,229 C16 0,035 Tabela 3.5 – Frações volumétricas de amostras típicas de gasolina C em 2006 GA19 GA20 GC70 GC71 C3 0,181 0,184 0,128 0,141 C4 1,442 1,466 1,263 1,421 C5 21,880 21,764 19,765 20,922 C6 19,392 19,523 19,921 19,144 C7 18,082 18,497 18,918 18,356 C8 17,045 15,848 16,247 16,109 C9 7,464 8,452 9,090 9,097 C10 9,114 8,943 8,589 8,735 C11 3,897 3,955 4,291 4,348 C12 1,429 1,288 1,683 1,677 C13 0,052 0,054 0,083 0,051 C14 0,023 0,025 0,024 0,000 Nota-se na tabela 3.4 que, além de haver grande variação nas frações de cada componente ao longo dos anos (pode-se tomar como exemplo a variação da fração de C5), houve mudanças na presença de componentes mais pesados com fração significativa. Isso se deve às diferentes condições de refino das refinarias, adaptadas conforme as mudanças na carga de petróleo processado, cuja fração de petróleo nacional tem aumentado recentemente. 35 Levando em consideração o fato de os componentes representantes dos pseudocomponentes terem sido manualmente escolhidos por LANZER (como mencionado anteriormente), apresentou-se a necessidade de calibração do simulador termodinâmico. Esta calibração seria feita através da busca de novos componentes no banco de dados do Aspen Plus, que melhor representassem os pseudocomponentes das amostras atuais. As alterações das moléculas escolhidas foram então feitas no simulador de LANZER, tanto para os dados de entrada quanto para os parâmetros tabelados do método UNIFAC. Os componentes foram escolhidos segundo seu ponto normal de ebulição e sua massa molecular, e estão apresentados na tabela 3.6. Tabela 3.6 – Compostos representantes da pseudocomposição Dados DHA PseudocomMassa ponente Molecular C2 46,070 C3 39,896 C4 57,360 C5 71,092 Originais Componente Fórmula Lanzer Etanol C2H6O N-Butano C4H10 2-metil-1-buteno C5H10 Atualizados Massa Molecular 46,069 58,123 70,134 C6 83,865 2-etil-1-buteno C6H12 84,161 C7 C8 C9 C10 C11 98,192 111,009 125,445 137,503 153,300 C7H14 C8H16 C9H18 C10H20 C11H22 98,188 112,215 126,242 140,269 154,296 C12 167,833 C12H18 162,275 1-dodeceno C12H24 168,323 C13 184,143 2-hepteno 4-octeno 1-noneno 2-metil-1-noneno 1-undeceno mdiisopropilbenzeno 1-trideceno Componente novo Etanol Propadieno N-Butano N-Pentano 2-etil-1buteno 2-hepteno 1-octino 1-noneno 1-decino 1-undeceno C13H26 182,349 n-tridecano C13H28 184,365 C14H22 190,329 - - C14 190,330 n-tetradecano C14H30 198,392 noctilbenzeno C15 - 1-pentadeceno C15H30 210,403 - C2H6O C3H4 C4H10 C5H12 Massa Molecular 46,069 40,065 58,123 72,150 C6H12 84,161 C7H14 C8H14 C9H18 C10H18 C11H22 98,188 110,200 126,242 138,253 154,296 Fórmula Foram então realizadas as simulações para duas amostras atuais de gasolina C, comparando os resultados do simulador original e do calibrado. As curvas simuladas estão nas figuras 3.13 e 3.14. 36 destilado programa programa corrigido Temperatura (°C) 200 160 120 80 40 0 0 0,2 0,4 0,6 0,8 1 Fração destilada Figura 3.13 – Simulação original e calibrada para amostra GC-223 destilado Temperatura (°C) 200 programa programa corrigido 160 120 80 40 0 0 0,2 0,4 0,6 0,8 1 Fração destilada Figura 3.14 – Simulação original e calibrada para amostra GC-186 Os valores das somas mínimos quadrados relativos aos testes de calibração podem ser vistos na tabela 3.7. 37 Tabela 3.7 – Soma dos mínimos quadrados para testes de calibração Amostra SMQ original SMQ calibrado GC-223 1662,624 1762,573 GC-186 1192,133 1617,488 Um resultado inesperado foi atingido para a calibração: a soma dos mínimos quadrados para o simulador calibrado ficou maior que para o simulador original, demonstrando a presença de desvios maiores. Este fato sugere a presença de mais aspectos no simulador termodinâmico que podem precisar de ajustes relacionados à mudança de composição da gasolina. Outro teste realizado foi o de aplicar os parâmetros de otimização da gasolina A, tabela 3.2, à pseudocomposição da gasolina C. A curva de destilação resultante para a Temperatura °C amostra GC70 está na figura 3.15. 200 Dados Experimentais 150 Modelo PPR - Gasolina C com parâmetros da gasolina A Modelo PPR - Gasolina C Modelo PPR - Gasolina C após otimização 100 50 0 0 0,2 0,4 0,6 Fração destilada 0,8 1 Figura 3.15 – Simulação da gasolina C com parâmetros da gasolina A O gráfico acima mostra que os dados para a gasolina C, quando multiplicada pelos parâmetros de otimização obtidos com a gasolina A, fazem com que o comportamento da curva seja pouco linear a partir dos 70%, região em que o etanol é destilado. As frações de cada pseudocomponente para a gasolina C são menores que as frações da gasolina A, em 38 virtude da presença de cerca de 25% de etanol, e os parâmetros da gasolina A não levam em consideração este fato. Isto determina que os valores dos parâmetros não são suficientemente altos para aumentar a fração de pesados, de forma a minimizar os desvios em relação à curva experimental. Pode-se então afirmar que não é possível otimizar a simulação da curva da gasolina C usando parâmetros da gasolina A. O conjunto de parâmetros obtidos para otimização da gasolina C não melhora a simulação da curva de destilação de qualquer amostra, portanto a validação da aplicação do algoritmo genético utilizando-se parâmetros não pôde ser concluída. Uma análise mais profunda do simulador em sua forma original pode revelar os ajustes necessários à aplicação eficiente do simulador às amostras atuais, o que é uma sugestão para trabalhos futuros. 39 4. INFLUÊNCIA DOS PARÂMETROS DE INTERAÇÃO DE SUBGRUPOS DO MÉTODO UNIFAC (GUÉRIOS, 2006-2007) 4.1 MÉTODO UNIFAC Uma das maiores dificuldades para a análise da gasolina é a impossibilidade de mapear todos os seus componentes através da cromatografia. Uma amostra do combustível contém cerca de 8% de picos não identificáveis em um cromatograma. Outra dificuldade é a quantidade de compostos, que ultrapassa 400. Trabalhar com pseudocomponentes reduz a gravidade desses problemas, considerando moléculas representantes para grupos de compostos. Em um estudo de equilíbrio termodinâmico de uma mistura, é necessário considerar as propriedades de cada componente integrante da mesma. Ao trabalhar-se com a pseudocomposição, são necessárias as propriedades termodinâmicas das moléculas escolhidas para representar a amostra de gasolina. Isso se torna um problema, pois além de muitas vezes as propriedades não estarem disponíveis na literatura para tais moléculas, sua alteração para melhor representar outras amostras se torna muito complexa, com a necessidade de um extenso banco de dados das propriedades de inúmeras moléculas. A idéia de um método de contribuição de grupos é justamente usar dados existentes de equilíbrio para predizer propriedades de sistemas para os quais não há dados. Métodos desse tipo consideram a influência dos subgrupos que compõem as moléculas. Principalmente para hidrocarbonetos, uma infinidade de moléculas pode ser “montada” a partir de um número reduzido de subgrupos como CH2 e C=C. O UNIFAC foi o método de contribuição de grupos escolhido para calcular o coeficiente de atividade γ da equação 2.10, necessário para a determinação da energia de Gibbs de excesso utilizada nas equações de equilíbrio líquido-vapor do algoritmo do simulador. Neste método, a infinidade de moléculas que poderiam formar as diferentes pseudocomposições de cada amostra foram divididas em 5 grupos e 14 subgrupos de moléculas. 40 Para o UNIFAC, o coeficiente de atividade é calculado pela soma de uma fração combinatória, que considera o tamanho e forma das moléculas, e uma fração residual, que considera as interações entre os vários subgrupos: ln γ i = ln γ icomb + ln γ ires (4.1) A parte combinatória pode ser calculada pelas equações (REID et al., 2004): J J ln γ icomb = 1 − J i + ln J i − 5qi 1 − i + ln i Li Li Ji = ri ∑r x j (4.2) (4.3) j j Li = qi ∑q (4.4) jxj j ri = ∑ν (i ) k Rk (4.5) k qi = ∑ν (i ) k Qk (4.6) k em que xi é a fração molar do componente i, ri corresponde à medida do volume molecular e qi à medida da área superficial molecular. Os valores de ri e qi podem ser obtidos na literatura para cada subgrupo. A parte residual, por sua vez, é determinada por: ln γ ires = q i 1 − k ∑x q e = ∑x q i θk β ik ∑ θ k sk − e ki ln β ik s k (4.7) i ki i j (4.8) j j β ik = ∑ e miτ mk (4.9) m sk = ∑θ τ (4.10) ν k( i ) Qk (4.11) m mk m e ki = qi τ mk = exp − a mk T (4.12) 41 em que amk mede a energia de interação entre os grupos m e k, valor tabelado assim como ri e qi . Ao estudar o simulador termodinâmico, percebeu-se que a inclusão do etanol na mistura causou grande parte dos desvios entre as curvas simulada e experimental. A alteração da pseudocomposição (através da otimização por algoritmo genético) também não foi capaz de diminuir os desvios na região central da curva. Conclui-se que o programa tem dificuldades de simular a influência do etanol na mistura. A influência do etanol na mistura é apresentada, no método termodinâmico, como a energia de interação entre o grupo hidroxila (OH) e os outros grupos. Surgiu então a proposta de alterar os parâmetros de interação amk relacionados ao etanol, a fim de encontrar valores que resultassem numa melhor representação do fenômeno pelo método termodinâmico e aumentassem a eficiência da simulação. 4.2 PROGRAMA DE VERIFICAÇÃO DA INFLUÊNCIA DOS PARÂMETROS DO UNIFAC Os parâmetros de interação do método UNIFAC retirados da literatura foram supridos por LANZER em seu simulador, como parte do programa principal. Para modificá-los e verificar a influência de sua variação sobre a eficiência do simulador, a programação do simulador foi alterada, de forma que os parâmetros passassem a ser lidos em um arquivo externo. A seguir, foi criado um programa, também em linguagem Fortran, para modificar os parâmetros e testar os resultados no simulador, segundo o algoritmo apresentado na figura 4.1. 42 Leitura e gravação dos parâmetros de literatura “originais” Especificação dos parâmetros a serem modificados, limites superior e inferior e intervalos de variação Modificação do arquivo de parâmetros Execução do simulador termodinâmico Cálculo e impressão da SMQ entre curva simulada e curva experimental Todos os valores especificados foram testados? Não Sim Fim do programa Figura 4.1 – Algoritmo do programa de verificação da influência dos parâmetros do UNIFAC 43 Os parâmetros obtidos da literatura, originalmente incluídos no simulador por LANZER, são apresentados na tabela 4.1, a título de comparação com os resultados mostrados nos gráficos das subseções a seguir. Apenas os valores que foram testados (os que envolvem o grupo hidroxila do etanol) estão na tabela. Tabela 4.1 – Valores dos parâmetros de interação do UNIFAC retirados da literatura. a(1,5) a(2,5) a(3,5) a(4,5) a(5,1) a(5,2) a(5,3) a(5,4) 986,5 524,1 636,1 803,2 156,4 457,0 89,60 25,82 *Grupos: 1. CH3; 2. C=CH2; 3.ACH; 4.ACCH; 5.OH; em que A representa um carbono aromático. 4.3 RESULTADOS E DISCUSSÃO A execução do programa foi realizada com os dados da amostra típica de gasolina GC70, utilizando o simulador original composto em 2003. A reprodutibilidade dos resultados foi testada e é válida. 4.3.1 Variação individual dos parâmetros Inicialmente, os parâmetros foram variados individualmente. Alguns foram variados com grandes intervalos entre os pontos, para que a amplitude do domínio testado fosse grande; outros com intervalos menores, na tentativa de revelar a presença de mínimos locais. Para todos os valores, porém, o comportamento das curvas da SMQ em função da variação dos parâmetros foi semelhante. As curvas são apresentadas abaixo, nas figuras (4.2a) a (4.2h). O ponto fora das curvas representa o valor da SMQ com os parâmetros originais. 44 (a) SMQ 4500 3500 2500 1500 500 750 1000 1250 1500 a(1,5) (b) 5000 SMQ 4000 3000 2000 300 400 500 600 700 800 a(2,5) (c) 5000 SMQ 4000 3000 2000 300 450 600 750 900 a(3,5) 45 (d) 5000 SMQ 4000 3000 2000 400 550 700 850 1000 1150 a(4,5) (e) 5000 SMQ 4000 3000 2000 50 100 150 200 250 300 a(5,1) (f) 5000 SMQ 4000 3000 2000 150 250 350 450 550 650 750 a(5,2) 46 (g) 5000 SMQ 4000 3000 2000 35 60 85 110 135 160 185 210 235 a(5,3) (h) 5000 SMQ 4000 3000 2000 10 40 70 100 130 160 190 220 250 a(5,4) Figura 4.2 – Gráficos dos mínimos em função da variação individual dos parâmetros Pode-se afirmar que a variação individual dos parâmetros não segue uma linha de tendência, fornecendo como resultado gráficos totalmente oscilatórios. Observa-se que, para cada parâmetro, poucos valores de SMQ menores que o original foram atingidos, e os valores atingidos não diferem significativamente do original. A diferença da influência de cada parâmetro sobre a soma dos mínimos não pôde ser notada, com comportamento semelhante de todos os gráficos. A execução do programa para cada parâmetro individual durou, em média, 15 minutos. O simulador foi cessado para alguns valores, devido a erros de iteração 47 matemática, razão pela qual alguns parâmetros têm menos pontos em seus gráficos. A quantidade de execuções que resultaram em terminação do simulador é significativa, como mostrado na tabela 4.2. Tabela 4.2 – Fração das execuções que causaram terminação do programa (individual) a(1,5) a(2,5) a(3,5) a(4,5) a(5,1) a(5,2) a(5,3) a(5,4) 14% 14% 23% 12% 16% 13% 30% 18% 4.3.2 Variação dos parâmetros em pares Utilizando a mesma faixa de valores para cada parâmetro, o programa foi modificado de forma que a etapa de alteração dos valores fosse feita para pares. Mantendo um dos parâmetros escolhidos fixo, eram feitas execuções para vários valores de um segundo parâmetro; a seguir era mudado o valor do parâmetro fixo, e repetidas as execuções com variação do segundo parâmetro. Os pares considerados foram classificados como conjugados ou não conjugados. Os pares conjugados consideram apenas as interações energéticas entre dois grupos, sendo um deles o etanol; por exemplo, a(1,5) e a(5,1). Pares não conjugados levam em consideração a influência do etanol sobre dois compostos; um exemplo seria a(2,5) e a(4,5). O processo de modificação resultou em malhas (ou matrizes) de valores para cada par de parâmetros, que podem ser visualizados da melhor forma possível em gráficos 3D. Nestes, o eixo Z representa o valor da SMQ, e os eixos das abscissas e das ordenadas os valores dos parâmetros variados. Tais gráficos são mostrados a seguir, figuras (4.3a) a (4.3d). Apesar de todas as combinações de pares envolvendo a hidroxila (grupo 5) terem sido testadas, totalizando 28 pares, aqui somente são apresentados os gráficos de pares conjugados entre si, representando a resposta do programa à variação da interação entre eles. 48 49 Figura 4.3 – Gráficos dos mínimos em função da variação dos parâmetros em pares 50 O comportamento de todos os gráficos, inclusive os correspondentes a pares não mostrados na figura 4.3, foi semelhante, com os valores de SMQ variando de forma aparentemente aleatória com os valores dos parâmetros. Valores para a soma dos desvios elevados ao quadrado melhores que o original foram encontrados, mas de forma semelhante à análise anterior, a melhora não foi muito expressiva. Quando executado com variação de pares de parâmetros, o simulador apresentou novamente vários casos de terminação anormal, deixando de responder ao não convergir suas iterações matemáticas de cálculo de flash. A tabela 4.3 mostra a fração de execuções que causaram terminação do simulador. Tabela 4.3 – Fração das execuções que causaram terminação do programa (pares) P1\P2 a(1,5) a(2,5) a(3,5) a(4,5) a(5,1) a(5,2) a(5,3) a(5,4) a(1,5) 21% 14% 19% 22% 20% 14% 18% a(2,5) 17% 18% 15% 17% 18% 17% a(3,5) 15% 15% 21% 19% 10% a(4,5) 14% 21% 13% 16% a(5,1) 22% 14% 18% a(5,2) 25% 22% a(5,3) 15% Dentre os valores testados, foram selecionados os de menor SMQ para serem combinados, na tentativa de encontrar melhores resultados. A combinação de parâmetros foi feita de várias formas, mostradas na tabela 4.4. ] Tabela 4.4 – Resultado das combinações de parâmetros testados Combinação a(1,5) a(2,5) a(3,5) a(4,5) a(5,1) A(5,2) a(5,3) a(5,4) SMQ (a) 1200 650 750 500 60 600 210 50 Erro (b) 1330 720 400 580 270 200 170 25,82 3489,96 (c) 1330 720 400 580 270 200 170 25,82 2404,48 (d) 1000 650 400 750 20 200 70 50 2301,86 (a) (b) (c) (d) Combinação dos melhores valores da variação individual de parâmetros. Combinação dos melhores valores para pares conjugados. Combinação do melhor par com os melhores valores individuais. Combinação dos melhores pares não-conjugados. 51 Pode-se afirmar, a partir da tabela, que nenhuma combinação de parâmetros resultou em melhores valores para a soma dos mínimos quadrados, e os parâmetros da literatura permaneceram como sendo a melhor opção para o modelo termodinâmico. 52 5. CONCLUSÃO Foi realizada uma análise do simulador termodinâmico modelado por LANZER. O objetivo do simulador é predizer a curva de destilação da gasolina comercial a partir de dados de composição. Para isso, utiliza o modelo PPR (preditivo de Peng-Robinson), derivado pelo autor a partir do estudo realizado por HOLDERBAUM e GMEHLING, com regra de mistura baseada no modelo de contribuição de grupos UNIFAC. O simulador apresenta bons resultados, mas possui desvios significativos na região da destilação do etanol e ao final da curva, onde há degradação dos compostos da gasolina. Para melhorar a eficiência do simulador, foi desenvolvido um algoritmo de otimização em conjunto com VALT (VALT,2007) . Este se baseia no método heurístico algoritmo genético, com parâmetros associados à pseudocomposição da gasolina. Foram criados dois programas, um para a gasolina A (sem álcool) e outro para a gasolina comercial. Ambos foram capazes de melhorar a previsão da curva de destilação das amostras estudadas, com redução significativa da soma dos desvios quadrados (SMQ) entre a curva simulada e a experimental. Porém, a validação do algoritmo não pôde ser feita para outras amostras de gasolina, cujas curvas se distanciaram da experimental após aplicação dos parâmetros otimizados. Foi também realizada a calibração do simulador, feita através da correção dos dados dos pseudocomponentes relativos à amostra estudada; nesta etapa o comportamento da curva foi inesperado, se afastando dos valores experimentais após a calibração. A influência dos parâmetros de interação molecular do método UNIFAC sobre a simulação foi verificada, através da variação sistemática destes parâmetros. Pode-se afirmar que a variação dos parâmetros do UNIFAC não é um método válido de otimização da eficiência do simulador termodinâmico. Os valores de SMQ variaram aleatoriamente conforme o valor dos parâmetros, sem apresentar tendências de minimização para região alguma dos gráficos. A combinação de parâmetros também não foi capaz de obter melhores resultados, e o valor da SMQ para os parâmetros obtidos da literatura é menor que a grande maioria dos pontos testados. 53 6. SUGESTÕES PARA TRABALHOS FUTUROS A maior dificuldade encontrada durante este trabalho foi a validação do algoritmo genético para otimização do simulador termodinâmico. Sugere-se uma análise mais profunda do simulador, verificando outras necessidades de calibração na programação para melhorar a eficiência da execução de amostras atuais de combustível. Sugere-se também a análise de outras propriedades físico-químicas da gasolina como a distribuição de pesos moleculares, que possam ser obtidas em laboratório e levem a melhores previsões de adulteração da gasolina. Outro estudo que poderia ser realizado é o da influência da adição de solventes na gasolina, conforme a mudança das propriedades físico-químicas das amostras deliberadamente adulteradas e analisadas em laboratório. É necessária a revisão dos limites impostos pela portaria da ANP, visto que a adição de certas quantidades de solventes não é detectada pelas análises padronizadas no Brasil. 54 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO E GÁS NATURAL (ANP). Portaria nº 309, de 27/12/01. Disponível em http://www.anp.gov.br . Acesso em 04/12/2006. CHATTERJEE, S. et. al. Genetic algorithms and their statistical applications: an introduction. Computational Statistics and Data Analysis 22 (1996), pp. 633-651. EDGAR, T.F.; HIMMELBLAU, D.M. 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Dissertação de mestrado em engenharia. Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2007. 55