194 A reflexão sobre Deus na discussão dialética do De ordine de Agostinho de Hipona Fabrício Klain Cristofoletti* RESUMO No diálogo De ordine (Da ordem) de Agostinho de Hipona, os interlocutores não procuram somente compreender a complexa ordem universal, mas também, o quanto for possível, o seu princípio único. Dada a tese de Licêncio no livro I, de que é Deus quem ‘governa tudo com ordem’ (cuncta ordine administrare), cabe a Agostinho, como interlocutor dialético, examinar cuidadosamente tal afirmação. Notam-se no livro II quatro principais questionamentos que servem para verificar essa tese. Primeiramente, deve-se decidir se Deus ‘governa a si próprio com a ordem’ (se ordine agat) ou se todas as coisas são governadas com a ordem ‘com exceção de si próprio’ (praeter eum). Em segundo lugar, passa-se a examinar se os ‘bens’ (bona) que estão ‘junto a Deus’ (apud Deum) estão na ordem ou não. Em terceiro lugar, indaga-se, pelos exemplos do céu, do sábio e do ignorante, se o que está em movimento está ‘com Deus’ (cum Deo), isto é, se está na ordem governada por Deus. E, em quarto lugar, discute-se se a ‘ignorância’ (stultitia) está ou não na ordem. Como resultado, Agostinho utiliza tais discussões para mostrar que tudo está na ordem, mas não o próprio Deus; que tudo o que está ‘junto a Deus’, portanto, está fora da ordem; que tudo o que foi e é criado está na ordem, ‘com Deus’, inclusive o que é móvel e sensível; que as coisas ‘que podem ser pensadas’ (quae possunt intellegi) estão na ordem, como o ignorante; e que não está na ordem tudo o que é impensável, como a ignorância, que nada é. PALAVRAS-CHAVE: Deus; ordem; nada; De ordine. Como o próprio título da obra indica, no De ordine os interlocutores procuram compreender a complexa ordem universal, mas isso implica, por sua vez, algum entendimento do que seja o seu princípio organizador. Porém, é somente no parágrafo 14 do primeiro livro * Aluno do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade de São Paulo. Bolsista CAPES. E-mail: [email protected]. Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011) 195 que é mencionada a relação entre a ordem e Deus. Licêncio, questionado sobre a existência de uma ordem universal, entende-a como um efeito da atividade de Deus: “Quem negaria, ó grande Deus, que governas tudo com ordem?” 1 Licêncio, porém, logo encaminha sua reflexão para o assunto da ‘adivinhação’ (diuinatio). Ainda que esse tema possa trazer consequências para a discussão, Agostinho o entende como um desvio da questão sobre a relação entre a ordem e Deus, ou seja, sobre a hipótese de ‘algo sem causa’ (aliquid sine causa; ord. I vi 15). Agostinho, então, decide expor, para incitar o apetite filosófico de Licêncio, o sério problema da relação entre a ordem e o mal: “Mas, agora, responda-me não se ocorre algo sem causa, pois já vejo que não queres responder, mas se essa ordem por ti sustentada parece ser um bem ou um mal.”2 Desse modo, a investigação sobre a relação específica entre Deus e a ordem é adiada. Mas depois, no parágrafo 20, Agostinho reconhece que Licêncio, devido a sua ‘religião’ (religio), o cristianismo da ecclesia catholica, havia dito ‘boas coisas’ (bona) acerca da ordem, inclusive do seu caráter divino. Com efeito, Agostinho retomará a questão da relação entre a ordem e Deus, mas só depois de refletir sobre a possibilidade de ordem nos casos da salmodia de Licêncio em lugar aparentemente inadequado, da preferência de Licêncio pela filosofia em detrimento da poesia, e da briga de galos (ord. I viii 21-26). É na sequência dessas análises, então, que Agostinho admite, dessa vez explicitamente, a associação entre Deus e a ordem universal: Escuteis, se quiséreis, mas vos esforçais para querer, porque nada mais sucinto nem mais verdadeiro me parece poder ser dito em louvor da ordem. A ordem é aquela coisa que, se a temos na vida, nos conduz a Deus, e que, se não a temos na vida, não alcançaremos a Deus. Mas nós já supomos e esperamos alcançá-lo, a menos que eu não me engane sobre vosso ânimo.3 1 De ordine, I v 14. “Quis neget, Deus magne, inquit, te cuncta ordine administrare?” (SANT’AGOSTINO. L’ordine. In: IDEM. Dialoghi/1. Roma: Città Nuova, 1970, p. 262). Todas as traduções em português são nossas. 2 ord. I vi 15. “Sed responde nunc, non utrum fiat aliquid sine causa (nam id iam uideo te nolle respondere) sed ordo iste susceptus tuus bonumne quidquam an malum tibi esse uideatur.” (SANT’AGOSTINO, 1970, p. 264). 3 ord. I ix 27. “Accipite, si uultis, imo facite ut uelitis, quo neque quidquam de huius laude breuius neque ut mihi uidetur uerius dici potest. Ordo est quem si tenuerimus in uita, perducet ad Deum, et quem nisi tenuerimus in uita, non perueniemus ad Deum. Peruenturos autem nos iam, nisi me animus de uobis fallit, praesumimus et speramus.” (SANT’AGOSTINO, 1970, p. 276). Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011) 196 Mas essa associação agostiniana entre a ordem e Deus, como se nota, sustenta-se numa suposição e esperança (praesumere; sperare). Consciente disso, Agostinho prefere, então, iniciar o diálogo com Licêncio sem tal premissa, pois lhe pedirá uma ‘definição’ (definitio) de ordem (ord. I x 28). O esforço, assim, se concentra na dialética, a qual talvez possa elucidar a questão com a firmeza da necessidade.4 O curioso, porém, é que a resposta de Licêncio justamente relaciona a ordem a Deus: ‘a ordem é aquilo pelo qual são governadas todas as coisas que Deus criou’ (ordo est per quem aguntur omnia quae Deus constituit). Tal definição, é claro, revela novamente o caráter religioso de Licêncio. Contudo, não se pode duvidar que a preocupação imediata dos interlocutores seja a verificação dialética da definição, como será visto. Agostinho, na sequência, faz a seguinte pergunta: “O quê? Não te parece que o próprio Deus esteja colocado na ordem?”5 Licêncio lhe responde que isso ‘parece correto’ (prorsus uidetur). Por conseguinte, é patente a justeza da réplica que Trigécio lhe endereçará: “Portanto, Deus está colocado, disse Trigécio.” 6 De fato, se for assumido que Deus está colocado na ordem, tal passividade se revelará contraditória com a sua onipotência de criador universal. Licêncio, porém, alude a um motivo religioso contundente, o fato de Cristo, sendo Deus, ter sido colocado no mundo: O quê? Negas que Cristo seja Deus, o qual vem até nós na ordem e diz que foi enviado pelo Pai? Se, portanto, Deus nos enviou Cristo na ordem, e se não 4 “Portanto, essa questão deve ser tratada e resolvida com muita diligência entre nós. […] Mas agora, como prometi, na medida em que a situação me permite, torno-me adversário de Licêncio, o qual quase já terá concluído toda a sua causa se puder cavar uma trincheira de defesa com estabilidade e firmeza.” (ord. I ix 27). “Diligentissime igitur inter nos ista quaestio uersari debet atque dissolui. […] Sed nunc, ut promiseram, Licentio, quantum res patitur, aduersabor, qui totam causam iam pene confecit, si possit eam defensionis muro stabiliter firmeque uallare.” (SANT’AGOSTINO, 1970, p. 276, 278). No procedimento dialético, conforme se deduz da descrição agostiniana da dialética no Contra Academicos (III xiii 29), deve-se mostrar o que cada proposição (propositio), e principalmente cada ‘antecedente’ (antecedens), ‘traz necessariamente’ (trahere necessario), isto é, o que se segue’ (id quod annexum est). 5 ord. I x 29. “Quid ipse Deus, inquam, non tibi uidetur agi ordine?” (SANT’AGOSTINO, 1970, p. 278). 6 ord. I x 29. “Ergo agitur Deus, ait Trygetius.” (SANT’AGOSTINO, p. 278). Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011) 197 negamos que Cristo é Deus, Deus não só coloca tudo na ordem, mas também é colocado na ordem.7 A discussão entre Licêncio e Trigécio, no entanto, transforma-se numa infantil competição, a qual Agostinho reprovará: Trigécio, hesitante, disse: ‘Não sei como aceitar isso. Pois quando dizemos o nome ‘Deus’, quase não vem à mente Cristo, mas o Pai. Mas quando dizemos o nome ‘Filho de Deus’, ele vem à mente.’ ‘Belo’, disse Licêncio. ‘Negaremos, portanto, que o Filho de Deus é Deus?’ O outro, embora lhe parecesse perigoso responder, todavia concentrou-se e disse: ‘Também ele é Deus, contudo, chamamos de Deus propriamente o Pai’. Eu lhe disse: ‘Detenha-te, pois o Filho não é chamado impropriamente de Deus’. E ele, movido pela religião, não queria que suas palavras fossem transcritas, enquanto Licêncio insistia para que fossem mantidas, costume claramente pueril, ou melhor, adulto – ó maldade! – como se, na verdade, entre nós se tratasse de glória. Quando censurei sua disposição de espírito com graves palavras, ele corou, e com sua perturbação percebi que Trigécio ria e se alegrava.8 Agostinho, por conseguinte, decide suspender a discussão sobre a relação entre a ordem e Deus, a qual só voltará no parágrafo 2 do segundo livro. No segundo livro, nota-se primeiramente o artifício de Agostinho na retomada, como novo ponto de partida, da primeira definição de Licêncio (cf. nota 1): “Pois acho que lembro que tu [, Licêncio,] disseste que a ordem é aquilo pelo qual Deus governa tudo” 9. Desse modo, Agostinho pode questionar se Deus ‘governa a si próprio na ordem’ (se ordine agat) ou se todas 7 ord. I x 29. “Quid enim, inquit, Christum Deum negas, qui et ordine ad nos uenit, et a Patre Deo missum esse se dicit? Si igitur Deus Christum ordine ad nos misit et Deum Christum esse non negamus, non solum agit omnia, sed agitur ordine etiam Deus.” (SANT’AGOSTINO, 1970, p. 278). 8 ord. I x 29. “Hic Trygetius addubitans: Nescio, inquit, quomodo istuc accipiam. Deum enim quando nominamus, non quasi mentibus ipse Christus occurrit, sed Pater. Ille autem tunc occurrit, quando Dei Filium nominamus. Bellam rem facis, inquit Licentius. Negabimus ergo Dei Filium Deum esse? Hic ille, cum ei respondere periculosum uideretur, tamen se coegit atque ait: Et hic quidem Deus est, sed tamen proprie Patrem Deum dicimus. Cui ego: Cohibe te potius, inquam; non enim Filius improprie Deus dicitur. At ille religione commotus, cum etiam uerba sua scripta esse nollet, urgebat / Licentius ut manerent, puerorum scilicet more uel potius hominum, proh nefas! pene omnium, quasi uero gloriandi causa inter nos illud ageretur. Cuius motum animi cum obiurgarem grauioribus uerbis, erubuit: qua eius perturbatione animaduerti ridentem laetantemque Trygetium.” (SANT’AGOSTINO, 1970, p. 278, 280). 9 ord. II i 2. “Nam memi/nisse me arbitror te ordinem esse dixisse per quem Deus ageret omnia.” (SANT’AGOSTINO, 1970, p. 288). Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011) 198 as coisas são governadas na ordem ‘com exceção de si próprio’ (praeter eum), pergunta que não poderia ser feita a seu aluno se fosse admitida a segunda definição de ordem, pela qual são as coisas criadas por Deus que estão na ordem (cf. ord. I x 28). Em resposta, Licêncio julga que Deus não está na ordem, pois ‘onde tudo é bom não há ordem’ (ubi omnia bona sunt ordo non est). Ademais, Deus ‘é suma igualdade, a qual não precisa de ordem’ (est summa aequalitas, quae ordinem nihil desiderat). Trata-se de uma tese que Agostinho, por sua adesão à base da filosofia platônica, aprovaria. 10 No prólogo do próprio De ordine, dedicatória a Zenóbio, Agostinho compara o universo a um mosaico, e Deus ao artista (ord. I i 2), o que já indica uma separação entre Deus e o que está na ordem, o universo. De qualquer modo, a resposta de Licêncio, de que as coisas boas não estão na ordem, contraria a sua própria e primeira definição de ordem. Conforme indaga Agostinho, como seria possível sustentar que todas as coisas são governadas na ordem, se as coisas boas não estão na ordem? “Acaso todas as coisas boas parecem ser um nada?” (Numquidnam… omnia bona nihil… uidentur esse?). Ora, como são coisas as coisas boas, elas deveriam, conforme a primeira definição, entrar na ordem universal. Licêncio, então, percebe que é preciso especificar que o que há na ordem são ‘simultaneamente as coisas boas e más’ (simul bona et mala): ‘Há também coisas más, pelas quais ocorre que a ordem inclua também as coisas boas’ (sunt… etiam mala, per quae factum est ut et bona ordo concludat). Desse modo, todas as coisas em simultaneidade, as quais Deus governa, são governadas na ordem’ (ut omnia simul, quae Deus administrat, ordine administrentur). Seja como for, Agostinho prefere indagar, para aperfeiçoar aquela definição de ordem, sobre o que está ou não ‘com Deus’ (cum Deo), expressão que considera sinônima de ‘na ordem’, cujo significado, portanto, difere de ‘junto a Deus’ (apud Deum). Com os exemplos do céu, do sábio e do ignorante, Agostinho procurará, portanto, aproximar-se da segunda definição de ordem, pela qual são as coisas criadas por Deus que estão na ordem. 10 No Contra Academicos (III xx 43), Agostinho declara: “Também aspiro ao que deve ser perseguido pela razão, de modo que desejo impacientemente apreender o que seja verdadeiro, não só crendo, mas também compreendendo, e confio que descobrirei entre os platônicos o que não repugne aos nossos sacramentos.” “Quod autem subtilissima ratione persequendum est – ita enim iam sum affectus, ut quid sit uerum non credendo solum sed etiam intellegendo apprehendere impatienter desiderem – apud Platonicos me interim, quod sacris nostris non repugnet, reperturum esse confido.” (AVGVSTINVS. De Academicis libri tres. Turnhout: Brepols, 1959, p. 61 (Corpus Christianorum, Series Latina, XXIX, pt. II 2). Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011) 199 No parágrafo 3, Licêncio declara que as coisas movidas não estão ‘com Deus’. Agostinho argumenta, porém, que o que não está ‘com Deus’ está ‘sem Deus’ (sine Deo), o que deixa Licêncio ‘perplexo’ (cunctabundus). Este, então, prefere declarar que ‘nada está sem Deus’ (sine Deo nihil sit), mas sem suspender sua afirmação anterior. Desse modo, Agostinho, para salientar a gravidade daquela afirmação de que as coisas em movimento não estão ‘com Deus’, propõe a análise de outro exemplo, a saber, o céu, o qual era comumente considerado algo tanto divino quanto em movimento. Para Licêncio, não é a parte móvel do céu que ‘é Deus ou está com Deus’ (quod uero aut Deus est ut cum Deo), mas aquela parte não é movida (aliquid quod non mouetur). Essa afirmação, porém, não é examinada por Agostinho, já que ele preferirá analisar o exemplolimite, o ‘sábio’ (sapiens), que é mais perfeito que o céu. Como se sabe, o sábio é capaz de movimento, mas também é perfeito e bom. Ademais, cabe lembrar que o sábio, além de executar o movimento corporal, executa um movimento espiritual, a saber, quando percebe, rememora ou conhece. Contudo, para Licêncio, não está com Deus aquilo que o sábio conhece pelos sentidos corporais (quidquid sensu isto corporis nouit non est cum Deo), mas aquilo que conhece com o espírito (sed illud quod animo percipit; ord. II ii 5). Ora, esse parecer gera novamente o mesmo problema anterior, pois se poderia perguntar se existe no sábio algo ‘sem Deus’. E Agostinho, de fato, argumentará no parágrafo 6, após ter esmiuçado as relações entre sensação, conhecimento, intelecto e espírito, que a sensação e o corpo presentes no sábio não podem estar sem Deus. Se apenas o conhecimento intelectivo do sábio estivesse com Deus, a sensação e o corpo seriam apenas ilusões. No entanto, negar a existência verdadeira de tais coisas seria próprio ‘de um louco’ (dementis; ord. II ii 6). Licêncio, então, percebe o problema de sua tese quanto à relação entre o sábio e Deus, e passa a sustentar que estão com Deus as partes do espírito do sábio (sensação e memória), mas só quando ‘submetidas’ (subiecta) ao intelecto ‘purificado’ (mundus), ‘aquela única parte que convém ser chamada de sábia’ (quam solam sapientem nominari decet). E nesse ponto, quanto ao modo como a alma do sábio figura na ordem estabelecida por Deus, Agostinho parece concordar com Licêncio, embora certamente não pressuponha, como faz Licêncio, que Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011) 200 apenas o sábio esteja com Deus, mas não o ignorante. Agostinho relata sua ‘admiração’ (admiratio) ao escutar a argumentação de Licêncio, e lembra que uma vez havia dito brevemente a mesma coisa com ele a ouvi-lo (recordatus sum idipsum aliquando me breuiter illo audiente dixisse; ord. II ii 7). Assim, parece haver um consenso mínimo nesse ponto, a saber, que o espírito inteiro do sábio está com Deus segundo uma ‘lei’ (lex) ou ordem específica, de modo que as partes inferiores da alma estejam submetidas ao intelecto purificado. De qualquer modo, ainda resta explicar como o corpo do sábio não pode estar ‘sem Deus’, assim como o ignorante. Na sequência, porém, é examinado dialeticamente apenas o caso da ignorância em si mesma (stultitia; ord. II iii 8). Se parece que o sábio ‘não pode fugir da ignorância’ (nec stultitiam effugure potest), ‘a não ser que a tenha conhecido’ (nisi intellectam), ‘essa praga também está com Deus, o que é ímpio dizer’ (erit etiam, quod dictu nefas est, pestis illa cum Deo). O momento da colocação do problema coincide com a chegada de Alípio, que é convidado a entrar na discussão. Para ele, o sábio não só escapa à ignorância, mas é sábio por não possuir nem conhecer a ignorância. Assim, a ignorância não está com Deus, pois ela não pode sequer estar entre as coisas que o sábio conhece: […] antes que alguém evite a ignorância, não se deve dar a ele o nome de sábio. Também foi dito que as coisas que são conhecidas pelo sábio estão com Deus. Portanto, quando alguém, precisamente para evitar a ignorância, conhece a própria ignorância, ainda não é sábio. Quando, porém, ele o for, a ignorância não deve ser enumerada entre aquelas coisas que ele conhece. Por isso, já que aquelas coisas que o sábio conhece estão reunidas com Deus, a ignorância é corretamente separada de Deus.11 11 ord. II iii 8. “[…] antequam stultitiam quisque uitet sapientis eum nomine non esse censendum. Et dictum est a sapiente intellecta esse cum Deo. Cum igitur euitandae stultitiae / gratia eamdem stultitiam quisque intellegit, nondum est sapiens. Cum autem fuerit, non inter ea quae ille intellegit stultitia numeranda est. Quamobrem quoniam ea coniuncta sunt Deo, quae iam sapiens intellegit, recte a Deo stultitia secernitur.” (SANT’AGOSTINO, 1970, p. 300). Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011) 201 Assim, negando uma daquelas premissas (a de que o sábio não pode fugir da ignorância), procedimento típico da dialética, que de fato é um método negativo, Alípio pretende resolver a contradição. E Agostinho, ainda que aponte a dificuldade da questão, acata a tese de Alípio, mas a torna mais radical. A ignorância será entendida como ‘destruição para a mente’ (menti pernicies), e como o que ‘não pode ser conhecido’ (intellegi non posse): Embora muito me agite o que pensa Alípio, a saber, como alguém possa ensinar o que é algo que não conhece, e quanta destruição leva à mente o que ele não vê com a mente (já que, atentando especialmente a isso que tu disseste, é mais verdadeiro dizer que esse pensamento é de teu conhecimento por meio dos livros dos doutos), considerando, porém, o próprio sentido corporal […], tendo a dizer que ninguém pode ver as trevas. Por isso, se conhecer é para a mente o que ver é para o sentido [corporal], e se é justo que alguém com olhos abertos, saudáveis e puros não possa ver as trevas, não é absurdo dizer que a ignorância não pode ser conhecida, pois com nada diferente denominamos as trevas da mente.12 Assim, a ignorância não está com Deus porque não é um conhecimento que se encontra na mente, já que é apenas a sua negação (destruição, aniquilação, treva). A ignorância, pois, nada é. É essa a conclusão que se deve aceitar uma vez assumida aquela segunda definição de ordem e admitidas algumas premissas acima mencionadas. A relação específica entre Deus e o mal ainda será investigada dialeticamente pelos interlocutores (ord. II vii 21-3), segundo a mesma noção de ordem divina, mas a discussão, ela própria desordenada, não chega a nenhuma conclusão. Agostinho, por conseguinte, prefere terminar o livro com um longo discurso sobre a importância do aprendizado, da dialética, e das demais disciplinas liberais. De qualquer modo, pela disputa dialética foi possível alcançar alguns conhecimentos relativos a Deus. Primeiramente, tudo está na ordem, mas não o próprio Deus. 12 ord. II iii 10. “Quamuis enim me multum moueat, quod sentiat Alypius, quomodo recte possit quisque docere qualis sit res quam non intellegit quantamque menti afferat perniciem quod mente non uidet (nam id utique attendens, quod tu dixisti dicere est ueritus, cum ei sit ista etiam de doctorum libris nota sententia) tamen sensum ipsum considerans corporis […] adducor ut dicam neminem posse uidere tenebras. Quamobrem, si menti hoc est intellegere, quod sensui uidere, et licet quisque oculis apertis sanis purisque sit, uidere tamen tenebras non potest, non absurde dicitur intellegi non posse stultitiam: nam nullas alias mentis tenebras nominamus.” (SANT’AGOSTINO, 1970, p. 302). Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011) 202 Em segundo lugar, tudo o que está ‘junto a Deus’ (apud Deum) também está fora da ordem, mas tudo o que foi e é criado está ‘com Deus’ (cum Deo), na ordem, inclusive o que é móvel e sensível. E, por último, tudo o que não pode ser conhecido não está ‘com Deus’, assim como a própria ignorância, que nada é. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AVGVSTINVS (SANCTVS AVRELIVS AVGVSTINVS). De Academicis libri Brepols, 1959 (Corpus Christianorum, Series Latina, XXIX, pt. II tres. Turnhout: 2). SANT’AGOSTINO. L’ordine. In: IDEM. Dialoghi/1. Roma: Città Nuova, 1970. SANTO AGOSTINHO. Contra os académicos: diálogo em três livros. Coimbra: Atlântida, 1957. Tradução e prefácio de Vieira de Almeida. Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011)