PERFIL DOS ALUNOS DE PEDAGOGIA - UFPR: DESAFIOS PARA A
COMPREENSÃO DO APRENDIZADO DA DOCÊNCIA
KNOBLAUCH, Adriane1 - UFPR
MONDARDO, Giselly Cristini2 - UFPR
PEREIRA, Fernanda Martins3 - UFPR
Grupo de Trabalho - Formação de professores e profissionalização docente
Agência Financiadora: UFPR/TN
Resumo
O presente artigo caracteriza o perfil de 100 estudantes do curso de Pedagogia da UFPR
ingressantes em 2012, considerando, a partir dos estudos de Pierre Bourdieu, que o perfil dos
estudantes é um instrumento importante para a caracterização das facetas do habitus, que atua
como filtro de leitura para futuras aprendizagens, inclusive a que ocorre durante o curso de
pedagogia. A coleta de dados ocorreu por meio de aplicação de questionário com questões
relativas à idade dos estudantes, gênero, escolaridade sua e de seus familiares, profissão dos
familiares, renda familiar, bens de consumo e atividades culturais. A análise realizada teve
base nos estudos de Bourdieu, e os dados foram cotejados com outras pesquisas que traçaram
o perfil de alunos de Pedagogia de outras instituições, do país, e de demais licenciaturas do
Brasil. Na UFPR, o perfil encontrado é majoritariamente feminino, grande parte dos alunos
frequentou escolas públicas, cujos pais exercem ocupações subalternas no mercado de
trabalho. As famílias são numerosas e sobrevivem com até seis salários mínimos, sendo que
muito alunos trabalham durante o curso. Os hábitos culturais demonstram que a maioria sofre
influência direta da mídia, dando preferência ao cinema e filmes comerciais. Quanto a
religião, grande parte se declara católico. Desta maneira, uma análise longitudinal se faz
necessária para monitorar o processo de construção da docência por esses estudantes na
tentativa de desvendar quais aprendizagens foram singulares, quais saberes foram
incorporados as suas ideias e o que influenciou tal singularidade, entre outras questões. Esses
aspectos são fundamentais para um conhecimento mais rigoroso a respeito da formação
docente.
Palavras-chave: Perfil de alunos. Pedagogia. Habitus.
1
Doutora em Educação pela PUCSP e professora adjunta do Departamento de Teoria e Prática de Ensino da
UFPR. E-mail: [email protected].
2 Graduanda de Pedagogia e bolsista de Iniciação Científica da UFPR. E-mail: [email protected].
3 Graduanda de Pedagogia e bolsista de Iniciação Científica da UFPR. E-mail: [email protected].
11489
Introdução
O presente artigo apresenta o perfil de 100 estudantes do curso de Pedagogia da
Universidade Federal do Paraná que ingressaram em 2012. Acredita-se que a análise do perfil
dos estudantes se torna necessária para uma compreensão mais efetiva sobre o aprendizado da
docência, tendo em vista que muitas pesquisas indicam que tal aprendizado, ou facetas dele,
ocorre de forma individual em virtude de diferentes tipos de capitais acumulados pelo sujeito
ao longo de sua trajetória de vida.
A título de ilustração, é possível destacar alguns trabalhos que apontaram para a
singularidade desse processo tendo em vista, por exemplo, a individualização das estratégias
de ensino aprendidas durante o estágio considerando a apropriação pessoal e singular de
saberes apesar da formação recebida pelos estagiários ter sido uniforme (Carrolo, 1997), o que
também foi constatado por Mogone (2001) que analisou o início de carreira de 5 egressas de
um mesmo centro de formação. Para a autora, essa singularidade ocorre pela aquisição de
saberes junto a pares da escola e com colegas de outros locais ou com familiares, além da
organização e reorganização do trabalho em função dos resultados apresentados pelos alunos;
para Lelis (1996), por outro lado, formas de ensinar distintas entre as professoras são
decorrentes do volume do capital cultural e dos títulos escolares adquiridos por elas e da força
das escolas por quais passaram ao longo da vida profissional.
Desta forma, a análise do perfil de alunos do curso de Pedagogia se justifica na medida
em que tais características influenciam a forma como ocorre o aprendizado da docência, pois
constituem o habitus dos graduandos. Portanto, conhecer o perfil dos estudantes pode se
converter em um instrumento interessante para a caracterização de facetas do habitus que
atuarão como filtro de leitura para futuras aprendizagens.
Habitus está sendo entendido aqui, a partir dos estudos de Pierre Bourdieu, como “um
sistema de disposições socialmente constituídas” (Bourdieu, 2004, p. 191) que atua como
matriz que é transferível para diferentes esferas da vida, permitindo a compreensão do mundo
e impulsionando ações dos agentes. Assim, habitus é visto como:
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As estruturas constitutivas de um tipo particular de meio (as condições materiais de
existência características de uma condição de classe), que podem ser apreendidas
empiricamente sob a forma de regularidades associadas a um meio socialmente
estruturado, produzem habitus, sistema de disposições duráveis, estruturas
estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como
princípio gerador e estruturador das práticas e das representações que podem ser
objetivamente “reguladas” e “regulares” sem ser o produto da obediência a regras,
objetivamente adaptadas a seu fim sem supor a intenção consciente dos fins e o
domínio expresso das operações necessárias para atingi-los e coletivamente
orquestradas, sem ser o produto da ação organizadora de um regente. (BOURDIEU,
2003, p.53,54).
É com o conceito de habitus, então, que Bourdieu busca compreender o
engendramento das práticas. Mas, ao contrário do que alguns críticos afirmam, a análise que
Bourdieu busca não é uma análise mecanicista, pois é com o conceito de habitus que
Bourdieu constrói o que ele denomina de teoria da ação prática (ou conhecimento
praxiológico) objetivando sair da armadilha entre o mecanicismo do pensamento objetivista
que confere pouco espaço ao sujeito, e entre a fragilidade do pensamento subjetivista, que
atribui amplo livre-arbítrio aos indivíduos. Para Bourdieu (2003), ao contrário, o habitus é o
fruto da trajetória social dos agentes, de forma que disposições já adquiridas condicionam,
como filtro de leitura, novas disposições a serem incorporadas, num processo de mediação
entre condições objetivas e a singularidade das trajetórias sociais. Desta forma, o habitus não
é imutável, mas é construído num processo de constante reestruturação, pois:
(...) o habitus adquirido na família está no princípio da estruturação das experiências
escolares (em particular, da recepção e assimilação da mensagem propriamente
pedagógica), o habitus transformado pela ação escolar, que é diversificada, por sua
vez está no princípio da estruturação de todas as experiências ulteriores (como a
recepção e assimilação das mensagens produzidas e difundidas pela indústria
cultural, ou experiências profissionais) e assim por diante, de reestruturação em
reestruturação. (BOURDIEU, 2003, p.72).
A partir do conceito de habitus como produto das condições materiais de existência
por meio da apreensão prática e vivência cultural como condicionantes de um modelo social,
nossa pesquisa dedicou-se à construção de um perfil dos estudantes ingressantes no curso de
Pedagogia, refletindo sobre as relações e peculiaridades dos tipos de habitus vigentes, sobre a
identidade dos sujeitos em questão e o futuro na vida profissional docente.
O curso de Pedagogia da UFPR comporta, anualmente, 170 vagas. Em 2012, segundo
dados cedidos a esta equipe através do Núcleo de Concursos da referida universidade, houve
aprovação inicial de 146 candidatos. Os questionários foram aplicados neste mesmo ano, e
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respondidos pelos estudantes presentes em sala de aula naquele momento, sendo coletados um
total de 100 questionários.
Tendo em vista os limites deste artigo, a caracterização apresentada aqui trará dados
relacionados à idade dos estudantes, gênero, sua escolaridade e de seus familiares, profissão
dos familiares, atividades culturais, e por fim, renda familiar e bens de consumo. A análise
será feita a partir dos estudos de Bourdieu e os dados serão cotejados com outras pesquisas
que traçaram o perfil dos alunos de Pedagogia de outras instituições (GUTIERRES et al,
2012; LORDÊLO e VERHINE, 2001; BRAÚNA, 2009) ou do curso de Pedagogia e demais
licenciaturas no Brasil (GATTI, 2010; GATTI & BARRETO, 2009).
Idade
Através de questionários aplicados em um primeiro momento, constatamos que quanto
à faixa etária, 71% possuem 21 anos ou menos, enquanto 18% correspondem à faixa de 22 a
29 anos, e apenas 11% possuem 30 anos ou mais. A figura 1 apresenta de forma mais
detalhada este demonstrativo.
Figura 1: faixa etária dos discentes de Pedagogia ingressantes em 2012.
Tais dados diferem do que foi encontrado por Gatti e Barreto (2009). Segundo as
autoras, ao analisarem dados do perfil socioeconômico obtidos por meio do ENADE de 2005,
é possível fazer uma distinção entre os estudantes de Pedagogia e os alunos das demais
licenciaturas, considerando que os primeiros tendem a ser mais velhos. Na ocasião da sua
pesquisa, menos da metade dos estudantes de Pedagogia estava na faixa etária ideal, de 18 a
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24 anos (35%), dado relativamente baixo e não esperado pelas pesquisadoras; entre 25 a 29
anos situavam-se pouco mais de 20% deles e 26% estava na faixa dos 30 a 39 anos.
A pesquisa de Gutierres et al (2012), que analisou o perfil dos alunos de Pedagogia da
FURG, aproxima-se dos dados de Gatti e Barreto (2009): pouco mais de 54% representa a
faixa etária de até 25 anos. Entretanto, os autores consideram que este é um público bastante
jovem, e que de acordo com a UNESCO, esse fato se daria pela renovação de quadros
docentes, a introdução de novas tendências pedagógicas, entre outros fatores.
Na avaliação de Gatti e Barretto (2009), esse perfil etário do curso de Pedagogia devese ao fato de que, até 1996, a exigência legal para a docência nos anos iniciais do Ensino
Fundamental era a obtida em nível médio. Assim, era habitual parte dos ingressantes já
atuarem como docente há alguns anos para, então, buscarem o nível superior. A outra razão,
de ordem mais subjetiva, é que, apesar dos baixos salários, a profissão de professor representa
uma via de ascensão social para alguns grupos sociais de níveis econômicos mais baixos.
A diferença encontrada nessas pesquisas em relação aos dados por nós coletados pode
ser explicada tendo em vista o momento da coleta de dados e a forma como o sistema público
municipal encarou as exigências de nível superior para a docência após a promulgação da
LDB 9394/96. Gatti e Barreto (2009) analisaram dados de concluintes em 2005; Gutierres et
al (2012) analisaram uma amostra de alunos dos 4 anos do curso, portanto, também com
concluintes. Nossa amostra concentra-se apenas em ingressantes de 2012. Algum tempo
passou entre os dados coletados pelas pesquisas referenciadas e a nossa pesquisa em questão,
de modo que muitos dos professores com habilitação em nível médio já buscaram sua
qualificação em nível superior. No caso específico de Curitiba, a Secretaria Municipal de
Educação elaborou, em convênio com Universidades Estaduais, um curso próprio para
qualificar em nível superior seus professores com formação de nível médio, o que pode ter
contribuído para nossos ingressantes serem mais jovens que o encontrado nas demais
pesquisas.
Gênero
O curso de Pedagogia da Universidade Federal do Paraná prevê 170 novas vagas a
cada ano. Entretanto, segundo o questionário Socioeducacional, aplicado no momento da
inscrição do vestibular, apenas 146 pessoas foram aprovadas. Destas 146 pessoas, 137 são
mulheres, totalizando 93,8%, e apenas 9 são homens, totalizando 6,16% das vagas
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preenchidas. Esta diferença, sentida há tempos, também fica clara em outros trabalhos. Na
pesquisa de Gutierres et al (2012), já citada anteriormente, 95% dos alunos de pedagogia são
mulheres. Lordêlo e Verhine (2001) ao apresentarem dados relativos aos alunos de Pedagogia
da UFBA, entre os anos de 1993 a 1997, afirmam que o número chega 89,8% de mulheres.
Na pesquisa de Braúna (2009) também sobre o perfil dos discentes do curso de Pedagogia de
uma instituição de Minas Gerais, entre os anos de 1998 a 2007, as mulheres chegam a 83%.
Embora oscilem nas diferentes pesquisas, dificilmente a porcentagem seria menor que 80%
atualmente. Ainda, as vagas nos cursos de licenciatura no Brasil, segundo a Gatti e Barretto
(2009), são ocupadas em 75,4% por mulheres, confirmando a clara predominância da
presença feminina nos cursos voltados a docência.
O processo de feminização do magistério surgiu com grande força no Ocidente, em
meados do século XIX, difundindo-se majoritariamente durante o século XX. Sousa et al
(1996), apontam que no período de democratização do ensino para as massas no Brasil, o
número de professores necessário era grande, assim, o salário, e consequentemente a
formação dos mesmos, precisou ser barateado. Para que todo esse processo pudesse
funcionar, foi difundido o discurso de que não bastava para a docência apenas o saber: era
necessário também que o profissional atuasse de forma a transmitir valores considerados
essencialmente femininos, como abnegação, dedicação e altruísmo.
Historicamente, as mulheres foram incumbidas a desempenharem papéis relacionados
ao cuidado do lar e da família. Bourdieu (2007) afirma que família, igreja e escola são
instituições que contribuem para o processo de dominação masculina na sociedade.
Acrescenta, ainda, que o Estado também participa desse processo de distintas maneiras,
conforme o período histórico. Mas, foram, sobretudo, os Estados Modernos que veicularam
uma visão androcêntrica para a família, que pode ser observada nas regras que regulamentam
o estado civil de cada cidadão. Por essas formas, então, é que são veiculados modos de ver, de
ser e de perceber-se distintos para homens e mulheres de modo que os primeiros
masculinizam-se e as segundas feminizam-se no que se refere aos modos de pensar, de vestir,
de comer, de falar etc.
Entretanto, algumas das pesquisas indicadas anteriormente, como a de Gutierres et al
(2012), apontam para o fato de que o número de homens presentes no curso de pedagogia de
sua localidade vem aumentado a cada ano. Esta tendência precisa ser verificada em pesquisas
futuras, no que se refere ao curso de Pedagogia da UFPR, tendo em vista que o aprendizado
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da docência pode ser diferente para homens e mulheres, que socialmente aprendem a se
tornarem diferentes, por meio de um lento e difuso processo de socialização.
Escolaridade
De acordo com nossos questionários, 57% dos entrevistados cursaram o ensino
fundamental integralmente em escola pública, subindo esse número para 59% no ensino
médio. Apenas cerca de 20% cursaram os respectivos níveis de ensino integralmente em
escola particular. Gatti e Barreto (2009), ao traçarem o perfil dos alunos de licenciatura do
Brasil, por meio dos dados socioeconômicos do ENADE de 2005, nos revela que a proporção
de alunos oriundos da escola pública que possuímos em nossa amostra é relativamente
pequeno, já que segundo a sua pesquisa, 71,1% dos alunos de Pedagogia do Brasil cursaram o
Ensino Médio integralmente na mesma. Entretanto, a pesquisa de Lordêlo e Verhine (2001)
traz um elemento importante a ser considerado: por meio de uma sondagem relativa ao tipo de
estabelecimento no qual o ensino médio fora cursado, dos que afirmaram ser integralmente
em instituição particular, 63% dos alunos cursaram em escolas de baixo prestígio no mercado.
Esse dado não foi contemplado em nosso instrumento de coleta de dados, mas pela sua
importância, merece ser melhor analisado em pesquisas futuras.
Penna (2007), com base nos estudos de Bourdieu, discorre que ao adquirir pontos de
vista determinados e diferenciar-se de outros indivíduos, os agentes posicionam-se no espaço
social. As posições no espaço social são caracterizadas por determinados pontos de vista e
definidos em relação aos demais ocupantes deste espaço. Assim, ao perceber as distinções e
estratégias que utilizam para se dispor de forma favorável no espaço social, os agentes agirão
de acordo com as possibilidades e anseios da determinada do grupo ou classe social que
integram.
Para Bourdieu (2003), o habitus sofre reestruturações durante toda a vida. Entretanto,
o habitus familiar constitui um contato intenso, que sofre influência direta da fração de classe
da qual faz parte. Diante disso, para entendermos melhor o perfil dos alunos de Pedagogia, se
faz necessário conhecer o passado de seus antecedentes. Além disso, concordamos com Gatti
(2010) ao apontar que a escolaridade dos pais pode ser tomada como um indicador importante
da bagagem cultural das famílias de que provêm os estudantes.
Assim, segundo os dados coletados, muitos avôs e avós maternos não possuíam
escolarização (26% das avós maternas e 14% dos avôs) ou, no máximo, possuíam ensino
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fundamental incompleto (35% das avós e 29% dos avôs), e, em alguns casos, 30% não
souberam informar a escolaridade dos avós maternos. Já quanto aos avôs e avós paternos, o
número foi parecido no que se refere à falta de escolarização (9% dos avôs paternos e 10%
das avós sem escolarização; 28% das avôs e 32% dos avôs com ensino fundamental
incompleto), e mais de 40% não souberam responder. Estes resultados assemelham-se aos os
dados encontrados na pesquisa de Penna (2007), em que mais de a metade dos investigados
(professoras em exercício) não obtinham essa informação. A autora aponta que a falta de
informação sobre a família está relacionada ao fato de o grupo ser oriundo de camadas
populares, onde não há um passado que se deseja recordar com orgulho, mas sim, com
afastamento daquela realidade.
As profissões dos avôs e avós relatadas por nossa amostra são, em sua grande maioria
de trabalhos manuais, com grande número de agricultores e com serviços relacionados a
tarefas domésticas.
A geração seguinte aos avós, as mães e os pais, ainda que com pouca escolarização,
representam claramente um avanço na escolaridade, visto que apenas 45% das mães possuem
escolaridade menor que o ensino médio completo. As que possuem graduação contabilizam
21%, e destes há de se destacar que 16% realizaram na área de humanas, sendo que 10% delas
dedicaram-se a licenciaturas, e 8% exercem ou exerceram as respectivas funções. Contudo, a
maioria das mães exercem profissões subalternas, como empregada doméstica, cabeleireira,
vendedora, entre outras.
As características dos pais quanto à escolaridade são ligeiramente semelhantes a das
mães: 43% possuem menos que o ensino médio completo, e 19% possuem graduação. Porém,
ao contrário das mães, a maioria dos pais possui graduação na área de exatas, contabilizando
18%. As profissões subalternas permanecem, como pedreiro, motorista e trabalhador rural.
Assim, é possível afirmar que os(as) alunos(as) do curso de Pedagogia são, em grande
parte, oriundos de família com baixa escolaridade e que ocupam posições subalternas no
mercado de trabalho. Há que se destacar, entretanto, uma ligeira ascensão no que se refere ao
grau de escolaridade das diferentes gerações de seus familiares, sem contudo, representar a
totalidade, ou grande parte de nossa amostra.
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Atividades culturais
No que diz respeito às atividades culturais realizadas pelos alunos, foi possível
verificar que a grande maioria participa de atividades culturais de cunho popular. Este fato
pode ser verificado quando 87% afirmam ir ao cinema, mas apenas 22% asseguram o hábito
de frequentar teatro, ao passo que 78% afirmaram não ter o hábito de ir ao teatro. Além disso,
65% afirmaram já terem ido a algum show musical. Esses dados revelam que as atividades
culturais de nossos estudantes parecem sofrer maior influência das pressões midiáticas. Tal
fato pode ser melhor compreendido quando nos voltamos para os filmes, peças e artistas
assistidos: são, na expressiva maioria, produtos constantemente propagandeados pela mídia,
com destaque para o filme Amanhecer, da saga Crepúsculo, e de shows de música Gospel.
Nossos dados parecem ser ligeiramente superiores aos apresentados por Gatti e
Barreto (2009). Segundo as autoras, a preferência indicada pelos estudantes de Pedagogia do
país é: 40% para cinema; 21% para shows musicais e 18% para teatro. O fato da nossa
amostra se limitar a dados de uma capital, em que o acesso a essas atividades culturais é mais
facilitado, pode explicar tais diferenças.
No que se refere à religião na composição do perfil do estudante de Pedagogia da
UFPR, a maioria de 52% declara-se católica e 29% declaram-se adeptos de religiões
evangélicas, sendo destes 64% praticantes desde o nascimento. Sobre este aspecto, notamos a
ausência de dados em pesquisas sobre o perfil docente, o que não nos impede de reafirmar o
relevante papel da trajetória cultural na constituição das identidades profissionais dos
professores, destacando, no entanto, os processos de socialização vivenciados pelos diferentes
grupos, incluindo práticas religiosas, como elementos que compõem essas identidades.
Nesse sentido, eleva-se a importância da construção do perfil sócio cultural dos
estudantes bem como seu histórico social para fins de melhor compreender a construção da
identidade profissional e superação de desafios.
Renda e bens de consumo
Tendo como base o salário mínimo do ano de 2012, no valor de R$622,00 (BRASIL,
2011) questionamos aos ingressantes quanto à renda familiar e pessoal. Embora 77% das
famílias possuam três integrantes ou mais, 82% vivem com até seis salários mínimos, ou seja,
R$3732,00. Esta característica também está presente na pesquisa de Gatti (2010) e Gatti e
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Barretto (2009), em que 91% dos alunos de Pedagogia do Brasil vivem com até 10 salários
mínimos, ou seja: a maioria dos discentes do curso, tanto desta universidade, quanto de todo o
Brasil, vivem com renda familiar máxima em pouco mais de seis mil reais (baseado no salário
mínimo do ano de 2012), o que, a depender da quantidade de pessoas que compõe a família,
configura uma situação econômica bastante precária.
Quanto à renda pessoal, 26% de nossa amostra exerce atividade como servidor público
ou contrato e 45% realiza estágio extracurricular, sendo que 25% do total da amostra
confirmam que contribuem para a renda familiar, embora apenas 4% ganhe mais de 2 e até 4
salários mínimos.
Indicadores de bens e consumo podem adicionar maior detalhamento a esta análise.
Dessa forma, selecionamos algumas questões sobre tais assuntos em nosso questionário. Os
dados obtidos através destas perguntas revelam que a grande maioria possui móveis e
eletrodomésticos tradicionais. Quanto à eletrodomésticos mais luxuosos, como secadora de
roupas, lavadora de louças, home teather e ar condicionado, 40% afirmaram que não possuem
nenhum deles. Apenas 26% possuem computador de marcas renomadas. Apesar de 80% das
famílias possuírem carro, apenas 6% tem carro próprio pessoal, e cerca de 90% destes carros
são populares.
Assim como observado por Penna (2007), ainda que algumas famílias possuam alguns
bens de consumo que não caracterizem a classe social a que estão inseridos, há de se observar
que atualmente, a aquisição a esses bens foi facilitada devido a formas de parcelamento
ofertadas a população.
Considerações Finais
Através dos dados coletados por nós, e os comparativos realizados entre outras
pesquisas, é possível perceber que o curso de Pedagogia desta universidade e de todo o Brasil,
possui características bastante similares, ainda que com algumas singularidades.
O curso da UFPR é majoritariamente feminino, jovem, oriundos grande parte da
escola pública, de famílias com ligeira ascensão nos níveis de escolaridade, mas com
ocupações subalternas no mercado de trabalho. Em relação à renda, a maioria é de família
numerosa que sobrevive com até 6 salários mínimos e muitos trabalham enquanto cursam
Pedagogia. Em relação aos hábitos culturais, sofrem influência da mídia nas suas escolhas e
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dão preferência ao cinema e à filmes comerciais. Quase a totalidade (81%) declararam seguir
uma religião, com predominância da católica.
Dentre esses dados e o que foi possível cotejar com outras pesquisas, nossos(as)
alunos(as) são mais jovens e frequentaram ensino médio público em menor número do que
demais alunos(as) de Pedagogia do país. O restante da nossa caracterização foi bastante
análogo com outras pesquisas.
Assim, constitui um desafio para futuras pesquisas compreender de que modo esse
perfil, que pode trazer pistas sobre facetas do habitus dos estudantes, condiciona as
aprendizagens ocorridas durante o curso e em que medida tais aprendizagens influenciam
alterações em alguns aspectos, sobretudo aqueles que dizem respeito aos hábitos culturais.
Desta forma, uma análise longitudinal se faz necessária, para acompanhar o processo de
construção da docência por esses estudantes e tentar complexificar a análise de modo a
desvendar quais aprendizagens foram singulares, quais saberes foram aprendidos de forma
pessoal e o que influenciou tal singularidade, entre outras questões. Esses aspectos são
fundamentais para um conhecimento mais rigoroso a respeito da formação docente.
REFERÊNCIAS
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