PERFIL DOS ALUNOS DE PEDAGOGIA - UFPR: DESAFIOS PARA A COMPREENSÃO DO APRENDIZADO DA DOCÊNCIA KNOBLAUCH, Adriane1 - UFPR MONDARDO, Giselly Cristini2 - UFPR PEREIRA, Fernanda Martins3 - UFPR Grupo de Trabalho - Formação de professores e profissionalização docente Agência Financiadora: UFPR/TN Resumo O presente artigo caracteriza o perfil de 100 estudantes do curso de Pedagogia da UFPR ingressantes em 2012, considerando, a partir dos estudos de Pierre Bourdieu, que o perfil dos estudantes é um instrumento importante para a caracterização das facetas do habitus, que atua como filtro de leitura para futuras aprendizagens, inclusive a que ocorre durante o curso de pedagogia. A coleta de dados ocorreu por meio de aplicação de questionário com questões relativas à idade dos estudantes, gênero, escolaridade sua e de seus familiares, profissão dos familiares, renda familiar, bens de consumo e atividades culturais. A análise realizada teve base nos estudos de Bourdieu, e os dados foram cotejados com outras pesquisas que traçaram o perfil de alunos de Pedagogia de outras instituições, do país, e de demais licenciaturas do Brasil. Na UFPR, o perfil encontrado é majoritariamente feminino, grande parte dos alunos frequentou escolas públicas, cujos pais exercem ocupações subalternas no mercado de trabalho. As famílias são numerosas e sobrevivem com até seis salários mínimos, sendo que muito alunos trabalham durante o curso. Os hábitos culturais demonstram que a maioria sofre influência direta da mídia, dando preferência ao cinema e filmes comerciais. Quanto a religião, grande parte se declara católico. Desta maneira, uma análise longitudinal se faz necessária para monitorar o processo de construção da docência por esses estudantes na tentativa de desvendar quais aprendizagens foram singulares, quais saberes foram incorporados as suas ideias e o que influenciou tal singularidade, entre outras questões. Esses aspectos são fundamentais para um conhecimento mais rigoroso a respeito da formação docente. Palavras-chave: Perfil de alunos. Pedagogia. Habitus. 1 Doutora em Educação pela PUCSP e professora adjunta do Departamento de Teoria e Prática de Ensino da UFPR. E-mail: [email protected]. 2 Graduanda de Pedagogia e bolsista de Iniciação Científica da UFPR. E-mail: [email protected]. 3 Graduanda de Pedagogia e bolsista de Iniciação Científica da UFPR. E-mail: [email protected]. 11489 Introdução O presente artigo apresenta o perfil de 100 estudantes do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Paraná que ingressaram em 2012. Acredita-se que a análise do perfil dos estudantes se torna necessária para uma compreensão mais efetiva sobre o aprendizado da docência, tendo em vista que muitas pesquisas indicam que tal aprendizado, ou facetas dele, ocorre de forma individual em virtude de diferentes tipos de capitais acumulados pelo sujeito ao longo de sua trajetória de vida. A título de ilustração, é possível destacar alguns trabalhos que apontaram para a singularidade desse processo tendo em vista, por exemplo, a individualização das estratégias de ensino aprendidas durante o estágio considerando a apropriação pessoal e singular de saberes apesar da formação recebida pelos estagiários ter sido uniforme (Carrolo, 1997), o que também foi constatado por Mogone (2001) que analisou o início de carreira de 5 egressas de um mesmo centro de formação. Para a autora, essa singularidade ocorre pela aquisição de saberes junto a pares da escola e com colegas de outros locais ou com familiares, além da organização e reorganização do trabalho em função dos resultados apresentados pelos alunos; para Lelis (1996), por outro lado, formas de ensinar distintas entre as professoras são decorrentes do volume do capital cultural e dos títulos escolares adquiridos por elas e da força das escolas por quais passaram ao longo da vida profissional. Desta forma, a análise do perfil de alunos do curso de Pedagogia se justifica na medida em que tais características influenciam a forma como ocorre o aprendizado da docência, pois constituem o habitus dos graduandos. Portanto, conhecer o perfil dos estudantes pode se converter em um instrumento interessante para a caracterização de facetas do habitus que atuarão como filtro de leitura para futuras aprendizagens. Habitus está sendo entendido aqui, a partir dos estudos de Pierre Bourdieu, como “um sistema de disposições socialmente constituídas” (Bourdieu, 2004, p. 191) que atua como matriz que é transferível para diferentes esferas da vida, permitindo a compreensão do mundo e impulsionando ações dos agentes. Assim, habitus é visto como: 11490 As estruturas constitutivas de um tipo particular de meio (as condições materiais de existência características de uma condição de classe), que podem ser apreendidas empiricamente sob a forma de regularidades associadas a um meio socialmente estruturado, produzem habitus, sistema de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípio gerador e estruturador das práticas e das representações que podem ser objetivamente “reguladas” e “regulares” sem ser o produto da obediência a regras, objetivamente adaptadas a seu fim sem supor a intenção consciente dos fins e o domínio expresso das operações necessárias para atingi-los e coletivamente orquestradas, sem ser o produto da ação organizadora de um regente. (BOURDIEU, 2003, p.53,54). É com o conceito de habitus, então, que Bourdieu busca compreender o engendramento das práticas. Mas, ao contrário do que alguns críticos afirmam, a análise que Bourdieu busca não é uma análise mecanicista, pois é com o conceito de habitus que Bourdieu constrói o que ele denomina de teoria da ação prática (ou conhecimento praxiológico) objetivando sair da armadilha entre o mecanicismo do pensamento objetivista que confere pouco espaço ao sujeito, e entre a fragilidade do pensamento subjetivista, que atribui amplo livre-arbítrio aos indivíduos. Para Bourdieu (2003), ao contrário, o habitus é o fruto da trajetória social dos agentes, de forma que disposições já adquiridas condicionam, como filtro de leitura, novas disposições a serem incorporadas, num processo de mediação entre condições objetivas e a singularidade das trajetórias sociais. Desta forma, o habitus não é imutável, mas é construído num processo de constante reestruturação, pois: (...) o habitus adquirido na família está no princípio da estruturação das experiências escolares (em particular, da recepção e assimilação da mensagem propriamente pedagógica), o habitus transformado pela ação escolar, que é diversificada, por sua vez está no princípio da estruturação de todas as experiências ulteriores (como a recepção e assimilação das mensagens produzidas e difundidas pela indústria cultural, ou experiências profissionais) e assim por diante, de reestruturação em reestruturação. (BOURDIEU, 2003, p.72). A partir do conceito de habitus como produto das condições materiais de existência por meio da apreensão prática e vivência cultural como condicionantes de um modelo social, nossa pesquisa dedicou-se à construção de um perfil dos estudantes ingressantes no curso de Pedagogia, refletindo sobre as relações e peculiaridades dos tipos de habitus vigentes, sobre a identidade dos sujeitos em questão e o futuro na vida profissional docente. O curso de Pedagogia da UFPR comporta, anualmente, 170 vagas. Em 2012, segundo dados cedidos a esta equipe através do Núcleo de Concursos da referida universidade, houve aprovação inicial de 146 candidatos. Os questionários foram aplicados neste mesmo ano, e 11491 respondidos pelos estudantes presentes em sala de aula naquele momento, sendo coletados um total de 100 questionários. Tendo em vista os limites deste artigo, a caracterização apresentada aqui trará dados relacionados à idade dos estudantes, gênero, sua escolaridade e de seus familiares, profissão dos familiares, atividades culturais, e por fim, renda familiar e bens de consumo. A análise será feita a partir dos estudos de Bourdieu e os dados serão cotejados com outras pesquisas que traçaram o perfil dos alunos de Pedagogia de outras instituições (GUTIERRES et al, 2012; LORDÊLO e VERHINE, 2001; BRAÚNA, 2009) ou do curso de Pedagogia e demais licenciaturas no Brasil (GATTI, 2010; GATTI & BARRETO, 2009). Idade Através de questionários aplicados em um primeiro momento, constatamos que quanto à faixa etária, 71% possuem 21 anos ou menos, enquanto 18% correspondem à faixa de 22 a 29 anos, e apenas 11% possuem 30 anos ou mais. A figura 1 apresenta de forma mais detalhada este demonstrativo. Figura 1: faixa etária dos discentes de Pedagogia ingressantes em 2012. Tais dados diferem do que foi encontrado por Gatti e Barreto (2009). Segundo as autoras, ao analisarem dados do perfil socioeconômico obtidos por meio do ENADE de 2005, é possível fazer uma distinção entre os estudantes de Pedagogia e os alunos das demais licenciaturas, considerando que os primeiros tendem a ser mais velhos. Na ocasião da sua pesquisa, menos da metade dos estudantes de Pedagogia estava na faixa etária ideal, de 18 a 11492 24 anos (35%), dado relativamente baixo e não esperado pelas pesquisadoras; entre 25 a 29 anos situavam-se pouco mais de 20% deles e 26% estava na faixa dos 30 a 39 anos. A pesquisa de Gutierres et al (2012), que analisou o perfil dos alunos de Pedagogia da FURG, aproxima-se dos dados de Gatti e Barreto (2009): pouco mais de 54% representa a faixa etária de até 25 anos. Entretanto, os autores consideram que este é um público bastante jovem, e que de acordo com a UNESCO, esse fato se daria pela renovação de quadros docentes, a introdução de novas tendências pedagógicas, entre outros fatores. Na avaliação de Gatti e Barretto (2009), esse perfil etário do curso de Pedagogia devese ao fato de que, até 1996, a exigência legal para a docência nos anos iniciais do Ensino Fundamental era a obtida em nível médio. Assim, era habitual parte dos ingressantes já atuarem como docente há alguns anos para, então, buscarem o nível superior. A outra razão, de ordem mais subjetiva, é que, apesar dos baixos salários, a profissão de professor representa uma via de ascensão social para alguns grupos sociais de níveis econômicos mais baixos. A diferença encontrada nessas pesquisas em relação aos dados por nós coletados pode ser explicada tendo em vista o momento da coleta de dados e a forma como o sistema público municipal encarou as exigências de nível superior para a docência após a promulgação da LDB 9394/96. Gatti e Barreto (2009) analisaram dados de concluintes em 2005; Gutierres et al (2012) analisaram uma amostra de alunos dos 4 anos do curso, portanto, também com concluintes. Nossa amostra concentra-se apenas em ingressantes de 2012. Algum tempo passou entre os dados coletados pelas pesquisas referenciadas e a nossa pesquisa em questão, de modo que muitos dos professores com habilitação em nível médio já buscaram sua qualificação em nível superior. No caso específico de Curitiba, a Secretaria Municipal de Educação elaborou, em convênio com Universidades Estaduais, um curso próprio para qualificar em nível superior seus professores com formação de nível médio, o que pode ter contribuído para nossos ingressantes serem mais jovens que o encontrado nas demais pesquisas. Gênero O curso de Pedagogia da Universidade Federal do Paraná prevê 170 novas vagas a cada ano. Entretanto, segundo o questionário Socioeducacional, aplicado no momento da inscrição do vestibular, apenas 146 pessoas foram aprovadas. Destas 146 pessoas, 137 são mulheres, totalizando 93,8%, e apenas 9 são homens, totalizando 6,16% das vagas 11493 preenchidas. Esta diferença, sentida há tempos, também fica clara em outros trabalhos. Na pesquisa de Gutierres et al (2012), já citada anteriormente, 95% dos alunos de pedagogia são mulheres. Lordêlo e Verhine (2001) ao apresentarem dados relativos aos alunos de Pedagogia da UFBA, entre os anos de 1993 a 1997, afirmam que o número chega 89,8% de mulheres. Na pesquisa de Braúna (2009) também sobre o perfil dos discentes do curso de Pedagogia de uma instituição de Minas Gerais, entre os anos de 1998 a 2007, as mulheres chegam a 83%. Embora oscilem nas diferentes pesquisas, dificilmente a porcentagem seria menor que 80% atualmente. Ainda, as vagas nos cursos de licenciatura no Brasil, segundo a Gatti e Barretto (2009), são ocupadas em 75,4% por mulheres, confirmando a clara predominância da presença feminina nos cursos voltados a docência. O processo de feminização do magistério surgiu com grande força no Ocidente, em meados do século XIX, difundindo-se majoritariamente durante o século XX. Sousa et al (1996), apontam que no período de democratização do ensino para as massas no Brasil, o número de professores necessário era grande, assim, o salário, e consequentemente a formação dos mesmos, precisou ser barateado. Para que todo esse processo pudesse funcionar, foi difundido o discurso de que não bastava para a docência apenas o saber: era necessário também que o profissional atuasse de forma a transmitir valores considerados essencialmente femininos, como abnegação, dedicação e altruísmo. Historicamente, as mulheres foram incumbidas a desempenharem papéis relacionados ao cuidado do lar e da família. Bourdieu (2007) afirma que família, igreja e escola são instituições que contribuem para o processo de dominação masculina na sociedade. Acrescenta, ainda, que o Estado também participa desse processo de distintas maneiras, conforme o período histórico. Mas, foram, sobretudo, os Estados Modernos que veicularam uma visão androcêntrica para a família, que pode ser observada nas regras que regulamentam o estado civil de cada cidadão. Por essas formas, então, é que são veiculados modos de ver, de ser e de perceber-se distintos para homens e mulheres de modo que os primeiros masculinizam-se e as segundas feminizam-se no que se refere aos modos de pensar, de vestir, de comer, de falar etc. Entretanto, algumas das pesquisas indicadas anteriormente, como a de Gutierres et al (2012), apontam para o fato de que o número de homens presentes no curso de pedagogia de sua localidade vem aumentado a cada ano. Esta tendência precisa ser verificada em pesquisas futuras, no que se refere ao curso de Pedagogia da UFPR, tendo em vista que o aprendizado 11494 da docência pode ser diferente para homens e mulheres, que socialmente aprendem a se tornarem diferentes, por meio de um lento e difuso processo de socialização. Escolaridade De acordo com nossos questionários, 57% dos entrevistados cursaram o ensino fundamental integralmente em escola pública, subindo esse número para 59% no ensino médio. Apenas cerca de 20% cursaram os respectivos níveis de ensino integralmente em escola particular. Gatti e Barreto (2009), ao traçarem o perfil dos alunos de licenciatura do Brasil, por meio dos dados socioeconômicos do ENADE de 2005, nos revela que a proporção de alunos oriundos da escola pública que possuímos em nossa amostra é relativamente pequeno, já que segundo a sua pesquisa, 71,1% dos alunos de Pedagogia do Brasil cursaram o Ensino Médio integralmente na mesma. Entretanto, a pesquisa de Lordêlo e Verhine (2001) traz um elemento importante a ser considerado: por meio de uma sondagem relativa ao tipo de estabelecimento no qual o ensino médio fora cursado, dos que afirmaram ser integralmente em instituição particular, 63% dos alunos cursaram em escolas de baixo prestígio no mercado. Esse dado não foi contemplado em nosso instrumento de coleta de dados, mas pela sua importância, merece ser melhor analisado em pesquisas futuras. Penna (2007), com base nos estudos de Bourdieu, discorre que ao adquirir pontos de vista determinados e diferenciar-se de outros indivíduos, os agentes posicionam-se no espaço social. As posições no espaço social são caracterizadas por determinados pontos de vista e definidos em relação aos demais ocupantes deste espaço. Assim, ao perceber as distinções e estratégias que utilizam para se dispor de forma favorável no espaço social, os agentes agirão de acordo com as possibilidades e anseios da determinada do grupo ou classe social que integram. Para Bourdieu (2003), o habitus sofre reestruturações durante toda a vida. Entretanto, o habitus familiar constitui um contato intenso, que sofre influência direta da fração de classe da qual faz parte. Diante disso, para entendermos melhor o perfil dos alunos de Pedagogia, se faz necessário conhecer o passado de seus antecedentes. Além disso, concordamos com Gatti (2010) ao apontar que a escolaridade dos pais pode ser tomada como um indicador importante da bagagem cultural das famílias de que provêm os estudantes. Assim, segundo os dados coletados, muitos avôs e avós maternos não possuíam escolarização (26% das avós maternas e 14% dos avôs) ou, no máximo, possuíam ensino 11495 fundamental incompleto (35% das avós e 29% dos avôs), e, em alguns casos, 30% não souberam informar a escolaridade dos avós maternos. Já quanto aos avôs e avós paternos, o número foi parecido no que se refere à falta de escolarização (9% dos avôs paternos e 10% das avós sem escolarização; 28% das avôs e 32% dos avôs com ensino fundamental incompleto), e mais de 40% não souberam responder. Estes resultados assemelham-se aos os dados encontrados na pesquisa de Penna (2007), em que mais de a metade dos investigados (professoras em exercício) não obtinham essa informação. A autora aponta que a falta de informação sobre a família está relacionada ao fato de o grupo ser oriundo de camadas populares, onde não há um passado que se deseja recordar com orgulho, mas sim, com afastamento daquela realidade. As profissões dos avôs e avós relatadas por nossa amostra são, em sua grande maioria de trabalhos manuais, com grande número de agricultores e com serviços relacionados a tarefas domésticas. A geração seguinte aos avós, as mães e os pais, ainda que com pouca escolarização, representam claramente um avanço na escolaridade, visto que apenas 45% das mães possuem escolaridade menor que o ensino médio completo. As que possuem graduação contabilizam 21%, e destes há de se destacar que 16% realizaram na área de humanas, sendo que 10% delas dedicaram-se a licenciaturas, e 8% exercem ou exerceram as respectivas funções. Contudo, a maioria das mães exercem profissões subalternas, como empregada doméstica, cabeleireira, vendedora, entre outras. As características dos pais quanto à escolaridade são ligeiramente semelhantes a das mães: 43% possuem menos que o ensino médio completo, e 19% possuem graduação. Porém, ao contrário das mães, a maioria dos pais possui graduação na área de exatas, contabilizando 18%. As profissões subalternas permanecem, como pedreiro, motorista e trabalhador rural. Assim, é possível afirmar que os(as) alunos(as) do curso de Pedagogia são, em grande parte, oriundos de família com baixa escolaridade e que ocupam posições subalternas no mercado de trabalho. Há que se destacar, entretanto, uma ligeira ascensão no que se refere ao grau de escolaridade das diferentes gerações de seus familiares, sem contudo, representar a totalidade, ou grande parte de nossa amostra. 11496 Atividades culturais No que diz respeito às atividades culturais realizadas pelos alunos, foi possível verificar que a grande maioria participa de atividades culturais de cunho popular. Este fato pode ser verificado quando 87% afirmam ir ao cinema, mas apenas 22% asseguram o hábito de frequentar teatro, ao passo que 78% afirmaram não ter o hábito de ir ao teatro. Além disso, 65% afirmaram já terem ido a algum show musical. Esses dados revelam que as atividades culturais de nossos estudantes parecem sofrer maior influência das pressões midiáticas. Tal fato pode ser melhor compreendido quando nos voltamos para os filmes, peças e artistas assistidos: são, na expressiva maioria, produtos constantemente propagandeados pela mídia, com destaque para o filme Amanhecer, da saga Crepúsculo, e de shows de música Gospel. Nossos dados parecem ser ligeiramente superiores aos apresentados por Gatti e Barreto (2009). Segundo as autoras, a preferência indicada pelos estudantes de Pedagogia do país é: 40% para cinema; 21% para shows musicais e 18% para teatro. O fato da nossa amostra se limitar a dados de uma capital, em que o acesso a essas atividades culturais é mais facilitado, pode explicar tais diferenças. No que se refere à religião na composição do perfil do estudante de Pedagogia da UFPR, a maioria de 52% declara-se católica e 29% declaram-se adeptos de religiões evangélicas, sendo destes 64% praticantes desde o nascimento. Sobre este aspecto, notamos a ausência de dados em pesquisas sobre o perfil docente, o que não nos impede de reafirmar o relevante papel da trajetória cultural na constituição das identidades profissionais dos professores, destacando, no entanto, os processos de socialização vivenciados pelos diferentes grupos, incluindo práticas religiosas, como elementos que compõem essas identidades. Nesse sentido, eleva-se a importância da construção do perfil sócio cultural dos estudantes bem como seu histórico social para fins de melhor compreender a construção da identidade profissional e superação de desafios. Renda e bens de consumo Tendo como base o salário mínimo do ano de 2012, no valor de R$622,00 (BRASIL, 2011) questionamos aos ingressantes quanto à renda familiar e pessoal. Embora 77% das famílias possuam três integrantes ou mais, 82% vivem com até seis salários mínimos, ou seja, R$3732,00. Esta característica também está presente na pesquisa de Gatti (2010) e Gatti e 11497 Barretto (2009), em que 91% dos alunos de Pedagogia do Brasil vivem com até 10 salários mínimos, ou seja: a maioria dos discentes do curso, tanto desta universidade, quanto de todo o Brasil, vivem com renda familiar máxima em pouco mais de seis mil reais (baseado no salário mínimo do ano de 2012), o que, a depender da quantidade de pessoas que compõe a família, configura uma situação econômica bastante precária. Quanto à renda pessoal, 26% de nossa amostra exerce atividade como servidor público ou contrato e 45% realiza estágio extracurricular, sendo que 25% do total da amostra confirmam que contribuem para a renda familiar, embora apenas 4% ganhe mais de 2 e até 4 salários mínimos. Indicadores de bens e consumo podem adicionar maior detalhamento a esta análise. Dessa forma, selecionamos algumas questões sobre tais assuntos em nosso questionário. Os dados obtidos através destas perguntas revelam que a grande maioria possui móveis e eletrodomésticos tradicionais. Quanto à eletrodomésticos mais luxuosos, como secadora de roupas, lavadora de louças, home teather e ar condicionado, 40% afirmaram que não possuem nenhum deles. Apenas 26% possuem computador de marcas renomadas. Apesar de 80% das famílias possuírem carro, apenas 6% tem carro próprio pessoal, e cerca de 90% destes carros são populares. Assim como observado por Penna (2007), ainda que algumas famílias possuam alguns bens de consumo que não caracterizem a classe social a que estão inseridos, há de se observar que atualmente, a aquisição a esses bens foi facilitada devido a formas de parcelamento ofertadas a população. Considerações Finais Através dos dados coletados por nós, e os comparativos realizados entre outras pesquisas, é possível perceber que o curso de Pedagogia desta universidade e de todo o Brasil, possui características bastante similares, ainda que com algumas singularidades. O curso da UFPR é majoritariamente feminino, jovem, oriundos grande parte da escola pública, de famílias com ligeira ascensão nos níveis de escolaridade, mas com ocupações subalternas no mercado de trabalho. Em relação à renda, a maioria é de família numerosa que sobrevive com até 6 salários mínimos e muitos trabalham enquanto cursam Pedagogia. Em relação aos hábitos culturais, sofrem influência da mídia nas suas escolhas e 11498 dão preferência ao cinema e à filmes comerciais. Quase a totalidade (81%) declararam seguir uma religião, com predominância da católica. Dentre esses dados e o que foi possível cotejar com outras pesquisas, nossos(as) alunos(as) são mais jovens e frequentaram ensino médio público em menor número do que demais alunos(as) de Pedagogia do país. O restante da nossa caracterização foi bastante análogo com outras pesquisas. Assim, constitui um desafio para futuras pesquisas compreender de que modo esse perfil, que pode trazer pistas sobre facetas do habitus dos estudantes, condiciona as aprendizagens ocorridas durante o curso e em que medida tais aprendizagens influenciam alterações em alguns aspectos, sobretudo aqueles que dizem respeito aos hábitos culturais. Desta forma, uma análise longitudinal se faz necessária, para acompanhar o processo de construção da docência por esses estudantes e tentar complexificar a análise de modo a desvendar quais aprendizagens foram singulares, quais saberes foram aprendidos de forma pessoal e o que influenciou tal singularidade, entre outras questões. Esses aspectos são fundamentais para um conhecimento mais rigoroso a respeito da formação docente. REFERÊNCIAS BRASIL. Decreto nº 7.655, de 23 de dezembro de 2011. Regulamenta a Lei no 12.382, de 25 de fevereiro de 2011, que dispõe sobre o valor do salário mínimo e a sua política de valorização de longo prazo. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 23 dez. 2011. Seção 1, p. 5. BRAÚNA, Rita de Cássia de A. A construção de identidades profissionais de estudantes de Pedagogia. In: Anais da 32ª Reunião Anual da ANPED. Caxambu, 2009. Disponível em: <http://www.anped.org.br/reunioes/32ra/arquivos/posteres/GT08-5280--Int.pdf>. Acesso em: 29 abr. 2013. BOURDIEU, Pierre. Esboço de uma teoria da prática. In: ORTIZ, R. (org.) A sociologia de Pierre Bourdieu. Tradução: Paula Montero e Alicia Auzmendi. São Paulo: Olho d’água, 2003. p. 39-72. ________________. Campo do poder, campo intelectual e habitus de classe. In: BOURDIEU, P. 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