“CALOUROS” DE PEDAGOGIA: QUEM SÃO E O QUE PENSAM SOBRE SEU CURSO LUCCI, Marcos Antonio1 – Estácio/Uniradial e FAENAC [email protected] Área Temática: Formação de Professores Agência Financiadora: Não contou com financiamento Resumo Formação de professores é um dos temas que vem ganhando, cada vez mais espaço na discussão sobre a qualidade do ensino em todos os seus níveis e modalidades. No ensino superior, muito se tem questionado sobre a qualidade dos cursos de formação de professores, principalmente os oferecidos em instituições particulares. Vários são os argumentos apresentados pelos especialistas em formação docente e pelas próprias instituições que tentam explicar a baixa qualidade dos cursos. Independentemente das explicações, ocorre que professores mal formados formam mal seus alunos que ingressam em cursos de formação e saem mal formados, constituindo um círculo vicioso. Entendemos que o seu rompimento deva ocorrer no ensino superior, por ser este nível de ensino que mais autonomia tem no que se refere às experiências de ensino-aprendizagem. Pensando nesse contexto é que propomos traçar um perfil do ingressante nos cursos de formação docente para subsidiar a elaboração do projeto pedagógico dos cursos. Para traçar o referido perfil, foi aplicado aos alunos ingressantes de um curso de Pedagogia, noturno, de uma instituição particular de ensino da cidade de São Paulo, um questionário intitulado “Quem é o calouro da faculdade”. Tal instrumento é composto de 30 questões agrupadas nas variáveis: pessoal, acadêmico-profissional e sócio-econômicocultural. Essas variáveis têm por objetivo caracterizar o “calouro” como sujeitos sociais, como profissionais e suas expectativas de profissionalização, o seu nível socioeconômico e cultural. Os dados foram parcialmente analisados sob a luz da teoria das Representações Sociais. Os resultados apontam que o curso representa uma segurança psicológica para os “calouros”, isto porque, eles são oriundos de um estrato social menos privilegiado e alimentam o ideário de que, para ser alguém no mundo, devem estudar e obter um diploma. Ele funciona também como uma prova de que o “calouro” é alguém diferenciado no mundo. Palavras-chave: Formação de professores; Representações Sociais; Educação. Introdução 1 Doutor em Psicologia da Educação pela PUC-SP. 382 Formação de professores é um dos temas que vem ganhando, cada vez mais, espaço na discussão sobre a qualidade do ensino brasileiro, em suas modalidades: básico (infantil, fundamental e médio) e superior (graduação e pós-graduação). No tocante ao ensino superior, muito se tem questionado sobre a qualidade dos cursos de graduação destinados à formação de professores, oferecidos, principalmente, pelas instituições particulares de ensino. Várias são as alegações, dentre elas destacamos: a) em sua maioria os cursos são muito teóricos e com pouca parte prática; b) o corpo docente dos cursos não atende o mínimo exigido pela LDB (lei de diretrizes e bases da educação nacional) de ser composto por 1/3 de mestres e doutores e 1/3 do corpo docente em tempo integral; c) os cursos se pautam nos saberes livrescos e não nos da pesquisa, ou seja, os cursos se baseiam nos saberes consagrados nos livros didáticos e não em pesquisas realizadas pelo corpo discente em instituições de ensino formais ou não formais e, d) aprovação dos alunos sem as mínimas condições acadêmicas. Os especialistas na área de formação de professores apontam que, os cursos que prescindem da prática inviabilizam a formação do docente por apresentarem aos seus alunos os modelos ideais que as teorias discutem e não a realidade encontrada nas escolas, que exige adaptações e readaptações constantes para o desenvolvimento do trabalho docente. No que se refere ao corpo docente dos cursos de formação, esses mesmos especialistas argumentam que, em geral, o corpo docente dos cursos de formação é composto por especialistas e graduados e que, portanto, os conhecimentos destes são limitados se comparados aos dos mestres e doutores; já quanto à manutenção de 1/3 do corpo docente em tempo integral de trabalho, as instituições mantêm em seus quadros professores contratados por hora-aula e não por contratos de dedicação exclusiva a elas. Com relação à pesquisa, os especialistas lamentam que em função do perfil de muitas das instituições – faculdades, institutos ou centros universitários –, a própria legislação as desobrigam de desenvolverem pesquisas. Quanto ao quesito aprovação de alunos sem o mínimo de conhecimento acadêmico, os especialistas dizem que basta olhar para os resultados, por exemplo, das avaliações do SAEB, do ENEM, da Prova Brasil para sentir o efeito da precariedade da formação dos docentes dos alunos que são submetidos a tais avaliações. 383 As instituições, por seu lado, se defendem alegando que a qualidade de seus cursos de formação docente caiu muito em função de que os alunos que ingressam nesses cursos vêm do ensino médio sem base acadêmica alguma. Se nos detivermos na questão da aprovação dos alunos de graduação sem os conhecimentos acadêmicos mínimos para o exercício da profissão e a alegação de que os alunos ingressantes nos cursos de graduação não têm base acadêmica alguma, notamos um círculo vicioso: os professores são mal formados e, portanto, formam mal seus alunos que ingressam em cursos de formação e saem destes mal formados, alimentando, desse modo, a cadeia da má formação. Na tentativa de romper tal círculo vicioso, o governo tem promovido cursos e mais cursos de capacitação docente. Ocorre que, ao que tudo indica, esses cursos têm se mostrado inócuos. Prova disto são os resultados das avaliações externas por que passam os alunos do ensino fundamental e do médio, aqui já citadas. Entendemos que romper esse círculo vicioso não é uma tarefa fácil, mas defendemos a idéia de que ela deva começar pelo curso superior, pois este é um dos níveis de ensino que mais autonomia tem no que se refere às experiências de ensino-aprendizagem. Assim como, é a partir de um perfil do profissional que este nível de ensino pretende formar para o mercado de trabalho é que as instituições elaboram seus projetos pedagógicos. Pensando em todo esse contexto e tomando por base os cursos de formação docente, sejam eles de que instituições forem, cujo objetivo é formar profissionais que irão atuar diretamente na educação, quer como professores, quer como especialistas em educação (gestores, coordenadores, orientadores), é que este trabalho se insere e tem por pretensão investigar o perfil dos alunos ingressantes nesses cursos. O aspecto fundamental neste perfil diz respeito às Representações Sociais desenvolvidas acerca da obtenção do diploma, pois as representações constituem uma forma de conceber o mundo e, a partir dessa concepção, agir sobre ele. Entendemos que as representações constituem elementos simbólicos que os indivíduos expressam mediante o uso de palavras, de figuras, de imagens, de gestos, de sons. No caso do uso das palavras, por meio da linguagem, divulgam o que pensam, o que sentem, como percebem as situações cotidianas, quais são suas opiniões acerca de determinado fato, que expectativas têm sobre si mesmos, sobre os outros e sobre as coisas. Acreditamos que as Representações Sociais são elaborações mentais construídas socialmente a partir da relação dinâmica estabelecida entre a atividade psíquica do sujeito que co- 384 nhece e o objeto de conhecimento. Relação que ocorre na prática social e histórica da humanidade e que é generalizada pela linguagem. O objeto pensado e falado é, portanto, resultado da atividade humana, isto é, uma réplica interiorizada da ação. Ou como nos fala Leontiev, “as representações sociais são comportamentos em miniatura” (2004, p.25). Por este motivo, lhe atribuímos uma qualidade preditiva, já que, pelo que o indivíduo diz, não apenas podemos inferir sua visão de mundo, como também deduzir o que orienta suas ações. Nesse mesmo sentido, estudar o que os indivíduos elaboram e expressam sobre os mais diferentes objetos de conhecimento se torna importante, pois a partir do que expressam, podemos inferir seus atos, atitudes e comportamentos. Na nossa visão, formar profissionais não implica somente traçar um perfil do profissional desejado e, a partir dele, instrumentalizar o aluno com preceitos teóricos e práticos. Percebemos, sim, que em primeiro lugar é necessário ter claro o que representa, para o aluno ingressante, possuir tal curso, para depois equacionar o projeto pedagógico de um dado curso, visando, não somente, à formação profissional, mas também, à formação de indivíduos críticos e reflexivos que possam reafirmar e/ou re-significar suas Representações Sociais. Neste espaço estaremos apresentando o perfil de alunos ingressantes, os quais denominaremos de “calouros”, de um curso de Pedagogia, do período noturno, de instituição particular de ensino da cidade de São Paulo. A pesquisa O objetivo da presente pesquisa foi o de investigar o perfil do “calouros” do curso de Pedagogia oferecido pela instituição. Para o atingimento de tal objetivo foi aplicado aos 24 “calouros” do curso um questionário intitulado “Quem é o calouro da Faculdade”. O referido questionário é dividido em quatro blocos de perguntas – fale um pouco sobre você; fale um pouco sobre seu trabalho; fale um pouco sobre sua casa; fale um pouco sobre você e a faculdade – num total de 30, agrupadas nas seguintes variáveis: pessoal, acadêmico-profissional e sócio-econômico-cultural. Tais variáveis refletem os seguintes dados sobre os “calouros”: na variável pessoal o objetivo foi de caracterizá-los como sujeitos sociais. Com relação à variável acadêmicoprofissional, seu objetivo foi o de caracterizá-los como profissionais, bem como suas expecta- 385 tivas de profissionalização. No tocante à variável sócio-econômica-cultural, sua finalidade foi a de caracterizar o nível socioeconômico e a diversidade cultural dos “calouros”. Com relação à sua aplicação, foi explicado aos “calouros” os objetivos da pesquisa e solicitado que fossem o mais sincero possível em suas respostas, bem como, foi-lhes esclarecido que não haveria necessidade de se identificarem. Resultados Fale um pouco sobre você As questões deste bloco se referem ao sexo, a idade, ao ensino médio, local que costuma frequentar, domínio de língua estrangeira, tempo semanal de estudo fora da faculdade, principal fonte de informação, o que faz no tempo livre, conhecimento e utilização de informática e se exerce atividade remunerada. Dos “calouros” participantes, 94% são do sexo feminino e 6% do sexo masculino. A faixa etária dos mesmos concentra-se na faixa de 24 a 28 anos (39%), sendo que a menor idade é de 19 anos e a maior é de 43 anos. Com relação ao estado civil, 33% dos “calouros” são solteiros e 44%, casados e, 55,5% dizem ter filhos, o que corresponde à média de 1,11 filho por “calouro”. Quanto ao ensino médio, 94% dos “calouros” o concluíram em escola pública. Destes, 50% cursou o ensino médio regular e 44% suplência. Perguntados sobre onde costumam ir sempre, às vezes, raramente ou nunca, 39% responderam que vão ao cinema às vezes e, em igual porcentagem, raramente vão a exposições. O quadro I apresenta a síntese das respostas dadas a este quesito. Quadro I – Lugares que o “calouro” costuma frequentar. FREQUÊNCIA LOCAL sempre ás vezes Raramente nunca Teatro - - 28% 33% Cinema - 39% 33% - Museu - - 33% 33% Show 33% - 28% - Exposição - 17% 39% - Fonte: questionários respondidos – mar/2009 386 Questionados sobre o conhecimento de uma língua estrangeira, 89% disseram que não dominam uma segunda língua. Com relação ao tempo que dispõem para estudo fora da faculdade, 44% dos “calouros” responderam que possuem, semanalmente, de 1 a 4 horas e 27% de 5 a 8 horas. Indagados sobre qual é a principal fonte de informações sobre os acontecimentos nacionais e internacionais, eles responderam ser a televisão (67%). Já no quesito tempo livre, os “calouros” denunciam que o dispõem, em 78% dos casos, com atividades de lazer e, 22% com atividades religiosas. Sobre conhecimentos e utilização de informática, 83% dos “calouros” disseram que sim. Destes, 89% disseram que utilizam computador em casa, no trabalho e em Lan houses, sendo a casa o lugar de maior frequência de utilização. Já, quanto à utilização da internet, 83% dizem ter acesso a ela e a acessam em casa, no trabalho e em Lan houses. Quanto a exercerem atividade remunerada, 72% dizem que exercem. Fale um pouco sobre seu trabalho Este bloco de questões foi respondido somente pelos “calouros” que exercem atividade remunerada (17) e as questões sondam o ramo de atividade em que trabalha, situação jurídica da empresa, zona da cidade na qual a empresa está localizada, cargo ou função que exerce na empresa; renda bruta descrita em salários mínimos e a relação do curso com o trabalho. Com relação ao trabalho, 60% dos “calouros” trabalham em escolas. Já, 86% deles, dizem trabalhar em empresa privada. Quanto à localização da empresa, 71% apontam que a empresa localiza-se na zona oeste da cidade de São Paulo. O cargo exercido, em 54% dos casos, é o de professor ou auxiliar de ensino. No tocante a remuneração, 100% dos “calouros” dizem que seu salário está concentrado na faixa de 1 a 3 salários mínimos. Questionados sobre a relação existente entre o curso que fazem e o seu trabalho, 53% denunciam que a relação é parcial. Fale um pouco sobre sua casa Neste bloco foram investigadas condições da moradia, zona da cidade em que reside, quantidade de pessoas que residem na casa, se o “calouro” ajuda financeiramente nas despesas da casa e quantas pessoas mais ajudam financeiramente nas despesas. No que se refere às condições de moradia, 72% dos “calouros” possuem casa própria. Quanto à localização da moradia, sua concentração ocorre na zona oeste da cidade de São 387 Paulo (78%). As residências são habitadas pelo “calouro” e mais uma a três pessoas (72%), bem como as moradias são mantidas parcialmente pelos “calouros” em 67% dos casos, com a colaboração de mais uma pessoa (61%). Fale um pouco sobre você e a faculdade As perguntas desse bloco são aquelas que investigam diretamente quais as Representações Sociais que eles elaboram sobre o curso (diploma), elas versam sobre como tomou conhecimento da faculdade, por que escolheu faculdade que está cursando, por que escolheu o curso, a importância de ter um curso universitário e quais as expectativas com o curso escolhido. A relação dos “calouros” com a faculdade ocorre da seguinte forma: 67% dizem que tomaram conhecimento da mesma por meio da indicação de amigos. A escolha da faculdade foi motivada, em 61% dos casos, pela sua localização. Já a escolha do curso foi pensando na ascensão profissional, que ele pode proporcionar, segundo 61% dos calouros. Questionados quanto à importância de se ter curso universitário, as respostas concentram-se em: favorece a estabilidade profissional (44%) e o mercado valoriza mais quem tem curso universitário (33%). As expectativas com o curso incidem em obter rápido ingresso no mercado de trabalho, segundo 61% dos “calouros” e em aprimorar-se intelectualmente, para 33% deles. Como síntese, as características gerais dos “calouros” podem ser visualizadas no quadro II, Quadro II. Características gerais dos “calouros” QUESITO CARACTERISTICA % Sexo Feminino 94 Idade 24-28 (<19 e >43) 39 Estado civil Casado 44 Filhos Sim (média = 1,11 por “calouro”) 55,5 Conclusão do Ensino Médio Escola Pública 94 Modalidade do Ensino Médio Regular Supletivo Cinema – às vezes Exposições - raramente 50 44 39 39 Costuma ir ao Conhecimento de língua estrangeira Não Disponibilidade de horas semanais para estudos 1 a 4 horas Fonte de informações Televisão 44 67 Utilização do tempo livre 78 Atividades de lazer 89 388 Conhecimento de informática Sim 83 Utilização da informática Sim 89 Utilização da Internet Sim 83 Atividade remunerada Sim 72 Empresa em que trabalha Escola 60 Origem da empresa Privada 86 Local da empresa Zona Oeste 71 Cargo/função ocupada Professor ou Auxiliar de Ensino 54 Renda bruta em s.mínimo 1a3 100 Relação do curso com o trabalho Parcial Moradia Própria 53 72 Localização da moradia 78 Zona Oeste Habitantes da casa além do “calouro” 1a3 Manutenção da casa Parcialmente Quantos mais colaboram para a manutenção da casa 1 pessoa Tomou conhecimento da faculdade Indicação de amigos Escolheu a faculdade Localização Escolheu o curso por Ascensão profissional Favorece a estabilidade profissional Importância de ter o curso uni- O mercado valoriza mais quem tem curso universitário versitário Expectativas com o curso Obter rápido ingresso no mercado de trabalho Aprimoramento intelectual Fonte: questionários respondidos – mar/2009 72 67 61 67 61 61 44 33 61 33 Discussão preliminar dos resultados Os dados levantados confirmam algumas das características que o curso de Pedagogia apresenta, segundo Silva (1996) e Schwartzman (1996): ser essencialmente feminino, como é o caso dos “calouros” investigados (94%); ser frequentado por alunos com idade mais avançada, no caso em tela, os alunos estão na faixa de 24 a 28 anos (39%), sendo que a maior idade do “calouro” é de 43 anos. Outra característica dos cursos de formação de professores é que eles atraem “...estudantes de origem social menos privilegiada, que em geral não conseguem ingresso nas universidades públicas de melhor qualidade e terminam obtendo suas habilitações em 389 cursos noturnos oferecidos por estabelecimentos de qualidade duvidosa” (SCHWARTZMAN, 1994 p. 154). Ao atentarmos para os dados dos “calouros” observamos que o pontuado por Schwartzman, tende a se confirmar, pois 100% deles dizem ter renda mensal de 1 a 3 salários mínimos, o que os coloca em um patamar social não muito privilegiado. Outro indicador é o da formação no ensino médio. Os dados revelam que 94% são oriundos de escolas públicas e que 44% cursaram o ensino médio na modalidade de suplência. Como já é sabido, passamos atualmente por uma crise de qualidade do ensino público, os resultados nas avaliações institucionais – SAEB; Prova Brasil; ENEM – têm demonstrado que o desempenho dos alunos é muito baixo, o que, segundo especialistas da área, estaria intimamente ligado à qualidade do ensino oferecido pela rede pública. Se o ensino médio regular apresenta deficiências, imaginem o ensino supletivo! Ora os “calouros” são fruto desse ensino (44%) e, obviamente, há uma forte tendência de apresentarem deficiências e defasagens que os colocam em desvantagem ao concorrerem a uma vaga em universidades públicas. Outro conjunto de dados que corroboram com a afirmação de Schwartzman, é o fato de que os “calouros” declaram que sua fonte de informações é a televisão (67%). Sabemos que a mídia televisiva tem como principal meta, em função da concorrência, à audiência, e não a qualidade da informação – prevalece o sensacionalismo em detrimento da verdade dos fatos. Nesse caso, pode-se considerar que há um enviezamento de visão de mundo, de verdade e de realidade, o que dificultaria concorrer em vestibulares que cobram muito conhecimento de atualidades e análise dos fatos que a compõe, como na maioria das universidades públicas. Um dado interessante, e até contraditório, é o fato dos “calouros” declararem ter acesso à internet (83%), em suas casas na maioria dos casos, mas não entendem essa ferramenta como uma fonte de informações. Esse dado reafirma que a mídia televisiva exerce um controle muito grande sobre as pessoas, seja porque o material por ela veiculado já está pronto, não exigindo elaboração mental do telespectador, ou porque a forma de apresentação do material é mais atraente. Diante desse cenário, praticamente, a única opção que lhes resta são às instituições particulares de ensino, que muitas vezes são selecionadas, pelos mesmos, pelo preço ou, como no caso dos “calouros”, pela localização (61%). 390 Ainda com relação ao perfil do “calouro”, chama também a atenção o fato de que grande parte deles trabalha em escolas (60%), exercem a função de professor ou auxiliar de ensino (54%), mas entendem que há apenas uma relação parcial (53%) entre o seu curso e o trabalho que exercem. Tal ocorrência nos leva a levantar algumas hipóteses: a) eles não compreendem o que significa estabelecer uma relação, ou seja, não entenderam a pergunta; b) como a maioria já trabalha na educação, partem do pressuposto de que conhecem tudo e o que está sendo abordado no curso não corresponde à realidade por eles encontrada na sua escola; c) como o primeiro módulo do curso é muito teórico, não conseguem visualizar nenhuma relação com o que desempenham no trabalho. Com relação à Representação Social do curso escolhido (diploma), temos que ele é visto como um trampolim para a ascensão profissional (61%) e rápido ingresso no mercado de trabalho (61%). Já quanto a sua importância, é entendido como um meio de favorecer a estabilidade profissional (44%) e que é uma forma de ser valorizado, pois entendem que o mercado valoriza mais quem tem curso universitário (33%). Considerações finais O conjunto de dados dos “calouros” reafirma o que apontam os estudos de Silva (1996) e Schwartzman (1994) sobre a composição dos cursos superiores ligados à área de educação: são cursos em que há predominância feminina; a faixa etária dos seus alunos é elevada; os alunos são oriundos das camadas menos privilegiadas socialmente. Com relação ao curso escolhido, as expectativas e a importância do mesmo, os dados caminham no mesmo sentido do que afirma Silva (1996) em seus estudos sobre a escolha profissional. A autora afirma que a representação sobre a profissão está vinculada à posição social que o indivíduo ocupa na sociedade. Em outras palavras, está vinculada ao extrato social do indivíduo e, evidentemente, ao modo como ele percebe os demais extratos, no sentido de pertencer ou não a eles. Transpondo o que afirma Silva para os nossos dados, percebemos que tal afirmativa reforça ainda mais a idéia de que o diploma representa, acima de tudo, segurança psicológica para os nossos “calouros”. Isto porque, sendo eles oriundos de extrato social menos privilegiado, alimenta o ideário de que, para ser alguém no mundo, devem estudar e obter um diploma – o mercado de trabalho valoriza mais quem tem curso universitário. Em última análise, este funcionará também como uma prova cabal de que ele é alguém diferenciado no 391 mundo – o diploma favorece a ascensão e a estabilidade profissional, e até o aprimoramento intelectual. Em síntese, a partir dos dados coletados e da análise preliminar realizada, podemos considerar que, para os sujeitos pesquisados, o diploma assume um papel de grande importância, variando entre ascensão, valorização e estabilidade profissional, passando pelo aprimoramento intelectual. Os dados também reafirmam o que nos aponta Moscovici (1978) sobre as Representações Sociais, que elas são construídas a partir da cultura, das determinações sociais e econômicas dela decorrentes e são propagadas pela tradição, pela mídia em suas diversas formas de expressão, pela educação e pela comunicação. Observando os dados coletados, verifica-se que os “calouros” residem, trabalham e estudam na mesma região, utilizam a televisão como fonte de informação, formação e entretenimento, situam-se na mesma faixa de rendimento financeiro, tomaram ciência da existência da faculdade pela indicação de amigos. Reiterando o que foi afirmado anteriormente, a análise dos dados foi parcial e, portanto, as considerações apresentadas neste espaço merecem o seu devido aprofundamento. REFERÊNCIAS LEONTIEV, A. N. Desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Stampa, 1978. MOSCOVICI, S. A representação social da psicanálise. RJ: Zahar, 1978. SCHWARTZMAN, S. O futuro da educação superior no Brasil. In PAIVA,V. & WARDE, M. J. (orgs.). Dilemas do ensino superior na América Latina. Campinas, SP: Papirus, 1994, p. 143-175, (Coleção Educação e Transformação). SILVA, L. B. A escolha da profissão: uma abordagem psicossocial. SP: UNIMARCO, 1996. (Coleção Ciência em Devir).