357 Apontamentos entre o conceito do eros em Platão e em Montaigne Nelson Maria Brechó da Silva * RESUMO Esta comunicação tem como objetivo explicitar o pensamento de Platão e de Montaigne acerca do eros. Primeiramente, analisa-se o diálogo platônico Banquete, principalmente a parte em que o filósofo cita o mito de Aristófanes para narrar a origem do eros. Ele demonstra, por um lado a originalidade perfeita do homem e, por outro lado, a sua divisão devido à sede insaciável na busca das realizações que remetem aos seus desejos. Por conseguinte, numa segunda parte, mostra-se a reflexão de Montaigne a respeito do eros e da philia. Para o pensador, a voracidade do eros atua no ser humano como sentimento que o leva à agitação. A philia, por sua vez, é a virtude perfeita que leva ao autoconhecimento, de modo a construir o seu retrato a partir do relacionamento fraternal adquirido pela própria experiência do autor com La Boétie. Assim, almeja-se elucidar estes conceitos para ver o que caracteriza cada um deles para os referentes pensadores. PALAVRAS-CHAVE: Eros, divisão, philia, experiência. Para Platão, primeiramente, a natureza humana era diferente daquilo que corresponde ao ser humano hoje. Ele afirma: “O que primeiro devem aprender é qual é a natureza do homem e quais foram suas provações; é que no tempo de outrora, com efeito, nossa natureza não era idêntica ao que é hoje, mas diferente” (O banquete189 d-191 d mito de Aristófanes [trad. francesa de L. Robin, ed. Belles-Lettres] apud FOLSCHEID; WUNENBURGER, 1999, p. 136. Para o estudo de Platão será utilizado esta tradução no decorrer da comunicação). Atualmente, existe, na condição humana, o gênero masculino e feminino. No entanto, anteriormente, tinha-se o andrógino, cujo gênero compreendia concomitantemente o * Mestrando em Teologia pela PUC de São Paulo. Mestre em Filosofia pela UNESP de Marília. Bolsista Adveniat (Alemanha). E-mail: [email protected]. Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011) 358 masculino e feminino. Eis o primeiro momento desse texto platônico: o quadro da natureza original do homem. Segundo Platão, o homem possui diversas características, tais como: costas redondas, flancos circulares, força e vigor. Além disso, acentua-se, também, um fator preponderante, o orgulho, que o leva a enfrentar os deuses. Zeus e as demais divindades não sabem o que fazer com os homens dessa espécie, devido ao demasiado orgulho que impera nesses homens. Por esse motivo, as divindades terão que encontrar uma solução para tal aporia. Destaca-se, agora, o segundo momento, a realização da punição divina com a divisão da natureza humana por parte de Zeus. A partir disso, flui a natureza atual como tentativa de tornar o homem mais moderado. Por esse motivo, Apolo, deus da organização, tem a função de aproximar as partes do homem, que foram divididas por Zeus. Nesse sentido, o ser natural dividido tem o ensejo de buscar a outra metade que lhe falta. A saudade toma conta do seu ser, de forma que, ao encontrar a outra parte, sucumbem-se, ao invés de conseguir uma união, porque se apresenta no âmbito do fragmentado. Zeus sente compaixão ao ver que os homens sucumbem-se. Nisso, nota-se o terceiro momento do texto: o nascimento e as funções de eros. Dessa maneira, por um lado, Zeus determina o acasalamento entre o homem e a mulher. O fruto desse relacionamento consiste na reprodução da espécie humana, a fim de que possa propagar uma nova geração. Por outro lado, o acasalamento entre um homem com outro. O resultado da relação abarca apenas a satisfação, ao passo que, quando saciada, voltam-se à ação. Assim, o trabalho é uma atividade erótica. Platão postula: “ao mesmo tempo, no encontro de um macho com um macho, que a satisfação fosse ao menos o fruto de seu comércio e que, saciados, pudessem voltar-se para a ação, interessando-se pelas demais coisas da existência” (FOLSCHEID; WUNENBURGER, 1999, p. 136-137). Vale dizer que o eros significa a tentativa de unir aquilo que se encontra separado. O desejo de retornar à natureza primeira. Por essa razão, eros denota a falta, a lacuna e a insatisfação da espécie humana que deseja unir aquilo que está dividido. Acrescenta-se, inclusive, que eros compreende, segundo a interpretação de Folscheid e Wunenburger a Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011) 359 aspiração à totalidade do ser humano (cf. FOLSCHEID; WUNENBURGER, 1999, p. 139). Contudo, somente ultrapassará este mundo, envolvido pela ação, quando aspirar à beleza em si, que se encontra no mundo Inteligível. Platão explicita acerca do eros: “Portanto, é seguramente desde esse tempo remoto que no coração dos homens se implantou o amor de uns pelos outros, amor pelo qual é reunida nossa natureza primeira, amor cuja ambição é fazer, de dois seres, um só, e assim curar a natureza humana” (FOLSCHEID; WUNENBURGER, 1999, p. 137). Para o intérprete Batista Mondin, este “é o vértice da ciência do amor” (MONDIN, p. 71), porque a beleza é a razão primeira, que, segundo Thonnard, proporciona a verdadeira felicidade inerente à imortalidade do Bem, no desejo de amar e de se completar naquilo que se realiza no contato com o outro (Tradução nossa do francês. Cf. THONNARD, 1946, p. 76). A esta altura da apresentação, vale apresentar o pensamento de Montaigne. Para ele, a afeição pelas mulheres não é comparável à amizade e muito menos pode substituí-la: “Nossa afeição pelas mulheres, embora proveniente de nossa escolha, não poderia comparar-se à amizade nem substituí-la” (Entre colchetes a edição francesa. MONTAIGNE; I, 28, 1946, p. 64 [1984, p. 92]). Fato curioso aqui é que o pensador usa o termo “afeição” para as mulheres. Isso indica que a afeição não se restringe somente à amizade. Todavia, a afeição relacionada às mulheres não contém a mesma essência da amizade. Não obstante, a afeição a elas é orientada pela escolha do homem. Uma escolha diferente da amizade, porque é realizada pelo interesse e movida pelo prazer. Já amizade é uma escolha em vista da igualdade e movida pela virtude, ou seja, pela força de crescer fraternalmente. Quando o autor fala no tocante à mulher, ele faz uma análise fundamentada em Catulo, 57 a 84 a.C., poeta latino e lírico da Roma Antiga (Catulle, Épigrammes, LXVIII, 17 apud MONTAIGNE; I, 28, 1946, p. 64-65 [1984, p. 92]). Em seguida, descreve as características da mulher, de tal forma que acentua o fato de que ela só prende o homem por uma parte, porque ela é sujeita a “interrupções de temperatura”. Além do mais, a mulher é representada como “chama temerária e volúvel”, de maneira que não promove a constância, ou seja, a firmeza de ânimo. A atitude temerária caracteriza a ação com heroísmo exagerado; imprudência; irresponsabilidade e audácia irresponsável. Ser volúvel significa girar facilmente, que muda, Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011) 360 inconstante e instável. Assim, o amor a uma mulher não pode ser equiparado à amizade pela inconstância. Em contrapartida, a amizade apresenta um calor que abarca totalmente o homem, de modo que: “o calor da amizade estende-se a todo o nosso ser; é geral e igual; temperada e serena; soberanamente suave e delicada, nada tendo de áspero nem de excessivo” (MONTAIGNE; I, 28, 1946, p. 64-65 [1984, p. 92]). O calor proporcionado pela amizade é indicado pela expressão “temperada e serena”. Isto reflete o sentido da amizade como completude, onde um completa o outro numa perfeita harmonia. A amizade tem uma função “suave e delicada”, que incita holisticamente o homem. Acrescenta-se que o calor é igual e, aqui, tem-se outro elemento importante para a explicação da amizade. Ela só é possível entre pessoas que desejam vivenciar a vida com o pressuposto da igualdade. Montaigne tece a reflexão da amizade a partir de sua experiência com La Boétie. Uma amistosa amizade que dura pouco tempo, pois o amigo morre e leva parte de Montaigne. O retrato de si mesmo, edificado pelo relacionamento fraternal de união das almas é corrompido pela ação do tempo. Por essa razão, o autor continua a pintar o seu retrato a partir da escrita de suas principais experiências que permitem novas reflexões. A perda do amigo coloca o autor diante de uma aniquilação da subjetividade ou de um vazio do eu. A morte do amigo implica uma perda parcial de si mesmo, pois o amigo não se encontra mais presente fisicamente. Ela deve ser compreendida como o momento, não de uma aniquilação de si mesmo, mas como a própria condição de sua expressão, na medida em que os ensaios surgem como um lugar substituto de relação de si a si. Assim, os ensaios atuam como exercício de reflexão, na recordação do amigo e na pintura de si mesmo. A verdadeira imagem, levada por La Boétie, está aquém ou além da linguagem, como a própria amizade – elas a dispensam, prescindem dela. A experiência da amizade é exatamente o que dispensa o eu de dizer-se, de construir-se, pois aí ele existe em sua plenitude. Quanto ao amor, procedente da palavra eros, entendido como paixão erótica, é, conforme o filósofo, um desejo violento daquilo que escapa ao homem. Nisto, Montaigne cita a passagem de Ariosto, 1474 a 1533, poeta italiano que ridiculariza a nobreza feudal em decadência, ao mesmo tempo que prenuncia o novo homem da Renascença. Na passagem de Ariosto assinalada por Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011) 361 Montaigne (cf. (Arioste, Roland furieux, X apud MONTAIGNE; I, 28, 1946, p. 65 [1984, p. 92]), ele menciona o caçador que só tem desejo pela lebre enquanto a persegue. Vê-se, neste sentido, o desejo de posse que está muito aquém do ideal da amizade, visto que, ao pegar a lebre, o desejo passa, enquanto a amizade permanece igual, independente da aproximação ou do distanciamento do amado, uma vez que a amizade é um sentimento revestido pela temperança e serenidade. Em relação ao amor e à concordância das vontades, vale dizer que à medida que o amor assume os modos da amizade, ele perde a sua densidade, posto que ocorre uma concordância das vontades. Mas, o que se entende por concordância? Compreende-se o ato de pôr-se de acordo em relação a algo que seja comum entre amigos. Este gesto acontece à proporção que se aplica a conversa na qual os amigos se interagem reciprocamente. Aliada à concordância, acrescenta-se também a vontade de cada participante da amizade. A vontade é a afeição que incita a pessoa a tomar uma atitude, visto que cada um tem a capacidade livre de escolha, de decisão, de firmeza e ânimo. Além do mais, o amor eros tem como objetivo ser carnal e a saciedade proveniente do seu estado levam a extingui-lo. A expressão “carnal” diz tocante ao sensual e lascivo. A saciedade, por sua vez, compreende o tédio e aborrecimento, porque designa o sentimento volúvel. Assim, ocorre a extinção do eros, pois tem caráter superficial inerente ao gozo, que é meramente momentâneo. Diferentemente do amor, a amizade cresce com a aspiração que o homem tem dela: crescer mutuamente. Disto, oriunda o crescimento mútuo da amizade. O verbo “crescer” indica que a amizade abarca a duração, a força e a estatura recíproca. Deste modo, no ato da frequentação, ou seja, da convivência com o amigo, elucida-se que a amizade se eleva, porque se coloca em plano superior, uma vez que a amizade é o maior sentimento que pode existir no ser humano. Além disso, desenvolve-se e se amplia, torna-se mais vasto, visto que tem cunho espiritual e a forma de praticá-la apura a alma. Por que a amizade é de essência espiritual? A amizade, como afeição maior que existe, tem uma noção vinculada ao espiritual pelo fato de que ela completa aquilo que falta no âmago do homem. Na interpretação de Merleau-Ponty, o Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011) 362 homem apresenta uma mistura da alma com o corpo: “A mistura da alma com o corpo é, ao contrário, o campo de Montaigne, ele só se interessa pela nossa condição de fato, e seu livro descreve sem cessar esse fato paradoxal que somos” (MERLEAU-PONTY, 1991, p. 225). Por isso, a amizade refina e humaniza devido ao fato de ela apurar a alma. Aí surge outra pergunta: Por que, ao praticar a amizade, tal proeza apura a alma? À proporção que os amigos se frequentam num relacionamento, mais se conhece do outrem e se toma, inclusive, consciência de si mesmo, de modo a propagar a experiência do ser amigo. Montaigne diz que experimenta em si mesmo duas paixões: amizade e amor. O que significa paixão? Para ele, paixão significa o sentimento que contagia o interior do homem, que acarretam duas vias: amizade, que se mantém nas regiões elevadas por ser a virtude mais perfeita da qual o ser humano pode alcançar; e o amor, entendido no sentido puramente erótico, de modo que num nível mais baixo do que a amizade. Montaigne admite existencialmente as duas paixões e mais: não promove competição entre elas. Fato curioso a ser analisado concerne à amizade, porque ela “olha desdenhosamente”, em outras palavras, tem desprezo com orgulho, ausência de apreço no que diz equivalente ao amor fugaz. Desse modo, nota-se que a amizade é insubstituível porque concilia totalmente o ser humano. Logo, não é comparável às mulheres e tampouco ao amor compreendido como paixão. Conforme Birchal, o amor como paixão tem o mesmo princípio do amor da amizade: a capacidade de livre escolha, no entanto, é inferior à amizade: “Em relação ao amor erótico que, como ela, é fruto de uma escolha livre, a amizade mostra sua superioridade inequívoca” (BIRCHAL, 2000, p. 292). A amizade é superior, porque ela é a maior virtude que o homem pode alcançar. Aquele que deseja ser virtuoso precisa construir a amizade. Tomar a consciência de que é humano corresponde à tarefa central do homem. Ter amizade indica ter a sua experiência, num exercício constante para que se constitua a afeição pelo outro. Nota-se, enfim, que Platão narra, com o mito de Aristófanes, a origem do eros. O homem busca, por intermédio do trabalho, a sua realização. Com efeito, o trabalho tem uma função erótica, pois não realiza o homem por completo. O homem precisa contemplar o Belo que chega parcialmente à sua essência, uma vez que dividido, ele se encontra na esfera da existência. Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011) 363 Pode-se dizer que o eros ocorre pela livre escolha e na atração física pelo outro em Montaigne. Nisto, assemelha-se à philia, porque esta também é formada pela livre escolha. Contudo, ambas possuem uma diferença fundamental quanto à finalidade. Para o primeiro, a finalidade é carnal e para a segunda é virtude perfeita. Montaigne experimenta com La Boétie aquilo que há de mais belo no ser humano: a amizade como virtude perfeita. De acordo com os dados analisados, constata-se que o pensamento platônico vai à linha da origem do amor erótico; ao passo que Montaigne acentua o plano da experiência de sua amizade com La Boétie. Por essa razão, nesse mundo hodierno, pensar sobre o eros e a philia se torna algo de suma importância para que se possa distinguir aquilo que corresponde às relações momentâneas e aquelas que perduram no âmbito da existência humana. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BIRCHAL, T. Montaigne e seus duplos: elementos para uma história da subjetividade. 2000. Tese (Doutorado) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000. FOLSCHEID, D.; WUNENBURGER, J. Metodologia filosófica. 2ed. São Paulo: Martis Fontes, 1999. p. 136-139. MERLEAU-PONTY, M. Leitura de Montaigne. In: ______. Signos. São Paulo: Martins Fontes, 1991. p. 221-235. MONDIN, B. Curso de Filosofia. Os filósofos do Ocidente. 3ed. São Paulo: Paulinas, 1985. p. 5580. v.1. MONTAIGNE, M. Essais. Paris: Les Belles Lettres, 1946. ______. Os ensaios. Tradução Sérgio Milliet. São Paulo: Abril Cultural, 1984. (Os PENSADORES). THONNARD, F. J. Précis d’histoire de la Philosophie. Paris: Desclée, 1946. p. 46-82. Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011)