Da garagem para o sucesso
Começar um negócio na garagem ainda é uma alternativa viável para novos
empreendedores. Mas para garantir a longevidade da empresa é preciso muito mais do
que sorte
Por Alexandre Gonçalves
Por maior que seja a capacidade de enfrentar
riscos, todo empreendedor sempre procura uma
maneira de iniciar seu negócio com segurança.
Para muitos, como os jovens recém-saídos das
universidades, existem as incubadoras, onde
permanecem protegidos durante os primeiros
passos da empresa. Mas para quem não pode
ter acesso a uma incubadora resta uma
alternativa: começar em casa, mais
precisamente na garagem de casa. “Muitos
empreendedores fracassam porque iniciam seus
empreendimentos pela empresa, quando na
realidade o início é pelo negócio”, afirma o
consultor e professor Rogério Chèr. “Depois de
Inspiração: foto histórica da
identificadas e formatadas as necessidades de
garagem onde nasceu a hoje gigante mercado a serem atendidas por seus produtos e
HP, líder mundial em impressoras
seus serviços, aí sim é o momento de conceber
o conjunto de recursos humanos, físicos e
financeiros necessários para viabilizar aquele negócio”, sugere Chèr.
Não é por acaso que começar um negócio na garagem é algo comum e sempre
destacado na história de gigantes como HP e Apple, o que serve para dar a dimensão
do crescimento dessas empresas. Para muitos, mais do que um mito, isso é uma
grande motivação para os que optam por ocupar a garagem de casa com seu próprio
negócio. “Creio que a primeira influência positiva que isso tem na mente dos novos
empreendedores é mostrar que é possível empreender com poucos recursos e muita
criatividade”, avalia o consultor Mário Persona. “Não importa o tamanho da empresa;
saber que ela nasceu numa garagem cria uma proximidade maior com seu público”,
garante.
Para Rogério Chèr, a inspiração que os novos empreendedores encontram em
empresas que nasceram literalmente na garagem os ajuda a vencer o primeiro
obstáculo do preconceito, que o próprio empreendedor carrega, de que o dinheiro seja
condição essencial para a vitória. “Nem sempre é. Estamos assistindo todos os dias à
morte de grandes empresas cujos problemas não estavam, a princípio, na falta de
dinheiro, mas na falta de criatividade e velocidade de mudança”, analisa Persona.
“Lamentavelmente empreendedorismo tem sido confundido com ‘empregadorismo’.
Empreender não guarda semelhança com auto-emprego. Empreender enseja quebrar
uma lógica de mercado, modificar uma dinâmica até então válida e oferecer ao
mercado um negócio realmente novo. Não é por outro motivo que inovação e
criatividade andam de braços dados com o empreendedorismo”, concorda Chèr.
Já o professor João Barroso, especialista em empreendedorismo, o que está em jogo
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não é a forma ou local em que alguém inicia um empreendimento. Autores diversos,
segundo Barroso, têm apontado para um fato curioso: quem pensa muito, analisa,
estuda, planeja raramente inicia o empreendimento. “Esse paradoxo vai se dar pelo
fato de que há algo de ímpeto no ato de empreender. Ao que tudo indica, é preciso
estudar, sim, mas há um momento, divisor de águas, em que é preciso parar de
pensar e agir ou corre-se o risco de se perder uma espécie de força ou instinto fazedor
– o motor do empreendedor”, defende. “Quando olhado por este ângulo, o
‘empreendedor garageiro’ é o tipo ideal, já que ele planeja relativamente pouco e age
muito”, aponta.
Gestão na garagem
Sete dicas sobre como
administrar um “negócio
garageiro”:
1- Preocupe-se com
questões legais, como lei
de zoneamento.
2- Avalie sua
necessidade de receber
clientes, fornecedores e
outros.
3- Crie um ambiente de
trabalho com um mínimo
de conforto.
4- Procure dispor móveis
e equipamentos de
maneira inteligente, se
possível de acordo com
critérios ergonômicos.
5- Analise se sua
capacidade de produção
é compatível com suas
instalações.
6- Verifique a
proximidade logística
com seus fornecedores e
clientes e de que forma
isso afeta os custos e a
dinâmica de trabalho.
7- Separe os afazeres
domésticos das
atividades de gestão do
seu negócio.
Mas João Barroso adverte que há um problema para o empreendedor de garagem:
“Uma vez iniciado seu empreendimento, o empreendedor então caminha em uma
floresta desconhecida sem mapa na mão. As surpresas que encontra pela frente
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(problemas de administração financeira, de gestão de pessoas, de prospecção e até de
gerenciamento do tempo e da rotina) são geralmente os problemas que matam os
empreendimentos. Neste sentido seria ideal que o empreendedor tivesse uma energia
gigante para iniciar o empreendimento e que na subida do vôo procurasse entender
um pouco melhor dos problemas de administração citados”. Quanto ao preconceito
contra os empreendedores de garagem, Barroso avalia que isso existe porque a
maioria das pessoas acredita que ganhar dinheiro é bom, mas trabalhar tem que ser
“coisa limpa”, sem “graxa”. “A maior parte dos empreendedores garageiros não vê o
mundo por essas lentes. Para eles, a vida é dura e o pão é ganho na labuta com as
próprias mãos”, aponta.
Espírito garageiro
Existem negócios criados em garagens para suprir uma necessidade momentânea. É
por conta dessa motivação que muitos brasileiros transformam suas garagens em
bares, bazares, lojinhas de 1,99, distribuidoras de água e gás ou centrais de prestação
de serviços. A longevidade de negócios surgidos dessa forma, atestam consultores,
nem sempre é garantida. O mesmo não se pode dizer dos casos de empresas que
começam na garagem explorando um determinado nicho de mercado não por
necessidade, mas por opção e crença de seus empreendedores, que acabam
consolidando sua posição, crescendo e alçando seus empreendimentos a vôos muito
mais altos. “No nosso caso, o motivo de a gente começar foi principalmente porque
estávamos mais motivos a começar uma empresa. Metemos a cara e começamos na
garagem”, conta John Lima, que ao lado de Daniel Dalarossa criou a Cyclades, em
1989, em São Paulo. “Não tínhamos dinheiro e era um aluguel mais barato. Na
realidade o investimento inicial da empresa foi de US$ 3 mil, e depois que saímos da
garagem fomos para uma casa com mais funcionários”, recorda-se Lima, citando que a
transição entre a garagem e a casa levou cerca de seis meses.
Com previsão de faturamento para 2003 em torno de US$ 35 milhões, a Cyclades, que
atua com tecnologia Linux, posiciona-se como uma empresa global, com presença em
12 países. O seu quartel-general encontra-se na Califórnia, onde são definidas
estratégias e tecnologias para novos produtos para data-centers. “Também temos
filiais na Alemanha, no Japão e na Austrália e mais três centros de desenvolvimento:
um nos Estados Unidos, um no Brasil e um na Alemanha”, explica Lima. “O
posicionamento global, hoje, da Cyclades é que somos uma empresa que fornece
soluções de gerenciamento de data-centers para servidores e redes de computadores
em grandes empresas”, esclarece. O maior cliente da Cyclades é o Yahoo, para quem
executa o gerenciamento de 32 mil equipamentos em todo o mundo. A lista de clientes
inclui ainda Mercedes-Benz, Daymler Crysler, BMW, Deutsch Bank, HSBC, Telefonica,
entre outros.
John Lima contabiliza fatores positivos dos tempos de garagem para a gestão atual da
empresa. “Os benefícios que eu vejo é que você passa por um processo de
aprendizagem ferrenha. Você acaba virando um generalista e resolvendo um monte de
problemas, queima etapas e acaba passando por tudo e tem bastante controle sobre a
empresa.” Da mesma forma, junto a todo o aprendizado acumulado, John Lima
acredita que o espírito empreendedor dos tempos de garagem ainda permanece na
cultura da Cyclades. Esse espírito se manifesta em duas coisas. Uma é a preocupação
com custos, ao passo que muitas empresas que possuem um bom plano de negócios
têm tudo para dar certo, mas não têm uma cultura de tomar cuidado com o dinheiro.
“Outra é a experiência de ter vencido muitas dificuldades, o que dá um pouco de
autoconfiança”, analisa o empreendedor.
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Com uma trajetória mais modesta, mas não menos vitoriosa, o empreendedor Waldick
Tavares de Souza e sua empresa, a Tecnosol Aquecedores e Hidráulica, têm muito em
comum com a Cyclades. “Começar dentro de uma garagem alugada mostra que,
mesmo sem nenhum capital, mas com muita determinação e vontade de crescer,
podemos alcançar grande sucesso”, conta Souza. Segundo ele, depois de oito meses, a
empresa saiu da garagem para um ponto comercial alugado. “Um dos obstáculos que
enfrentamos foi conseguir sair da garagem para um ponto maior onde poderíamos
crescer. A diferença é que pude desenvolver mais amor por aquilo que decidi começar,
pois você se esforça ao máximo para alcançar seus objetivos. Isto hoje me traz muita
alegria: poder olhar para trás e ver o quanto temos crescido desde a fundação da
empresa”, festeja Waldick de Souza. “É o que me dá motivação para continuar a lutar
e investir no meu sonho”, garante.
Assim como John Lima, da Cyclades, Waldick de Souza também faz questão de manter
o espírito garageiro na cultura da Tecnosol. “Com certeza, ainda hoje faço questão de
ter contato com os clientes para sanar quaisquer dúvidas em relação aos nossos
aquecedores solares, reforçando um dos pontos principais para o crescimento de nossa
empresa, que é o pós-venda”, afirma Souza. A Tecnosol atua há 14 anos no mercado
de energia solar, com dezenas de revendas em todo o Brasil. “O mercado está em
pleno crescimento, e estamos trocando para uma sede própria bem maior para atender
à demanda”, comemora.
Custo é o benefício
PERSONA:
terceirização ajuda
a crescer na
garagem
O simples fato de começar na garagem não é a garantia de
sucesso. Exemplos como os citados acima não aconteceram por
acaso nem foram resultado de um golpe de sorte. É preciso um
processo de maturação para saber se vale mesmo a pena investir
no próprio negócio. E começar na garagem é uma maneira de
evitar grandes investimentos com a instalação física da empresa,
eliminando custos e direcionando recursos para outras
prioridades. “Num país sem crédito e com altas taxas de juros, é
sempre uma atitude prudente evitar custos fixos, despesas com
instalações físicas, etc.”, aponta Chèr. “Assim, iniciar seu negócio
na garagem ou em casa pode realmente ser útil na maior
absorção de custos”, ensina.
E quando o risco é pequeno fica mais fácil ousar, restando ao
empreendedor aproveitar-se de sua condição de empreendedor
garageiro e saber explorar as vantagens que isso pode trazer
para o presente e o futuro do seu negócio. “É a velha história do empreendedor que
fez porque não sabia que era impossível fazer”, avalia Mário Persona. “A vantagem que
o novo empreendedor tem hoje é que, embora ainda não encontre dinheiro crescendo
em árvores, pode achar muita informação de marketing e estratégia de negócios em
livros, revistas ou na internet”, atesta.
“Eu não diria que um pequeno profissional liberal ou empreendedor esteja no ramo
certo se começar seu negócio comprando ou alugando um espaço físico”, desafia
Persona. “A menos que seu negócio dependa disso e não exista alternativa, ele deve
começar pensando em conquistar clientes, em vender primeiro para entregar depois.
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Diria que ele deve fugir dos custos a todo custo”, aconselha. Para ele, o problema é o
apego que alguns novos empreendedores têm ao que ele chama de “sistema arcaico
de empresa”. “Eles pegam o pouco capital que possuem e saem logo gastando em
instalações físicas, estoques, máquinas e funcionários, para depois ficarem na porta do
estabelecimento esperando por algum cliente que nem sempre vem.”
De saída
O que fazer quando
chegar a hora de decidir
sair da garagem para
uma “sede de verdade”:
1- Administre a transição
com cautela para que
não ocorra de forma
preciptada.
2- Tenha a certeza de
que o negócio está
consolidado o suficiente
para justificar a
mudança.
3- Avalie até que ponto a
mudança é uma
necessidade real ou se
não é simplesmente uma
vaidade sua.
4- Cuide para não fazer
um investimento
indevido a ponto de
colocar seu negócio a
perder.
5- Comente sobre a
mudança com seus
clientes e fornecedores e
capte a opinião deles a
respeito.
6- Compare sua posição
com seus concorrentes
para ter uma idéia do
tipo de nova sede de que
sua empresa necessita e
que seu bolso comporta.
Nesse sentido, o consultor Luiz Fernando Garcia lista uma série de vantagens que um
empreendedor possui ao iniciar o negócio na garagem, entre as quais ele destaca a
capacidade de percepção. “Uma empresa mais modesta percebe demandas no meio
ambiente com mais facilidade e agilidade”, afirma Garcia. “Esses empreendedores têm
uma condição de superar desafios e de visualizar oportunidades com muito mais
rapidez. E ainda se arriscam com mais agilidade”, aponta.
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“Se o negócio tiver investimento modesto, a maior vantagem competitiva do novo
empreendedor é levantar barreiras de entrada (dificultar a entrada de outros) via laços
de relacionamento.” A frase do professor João Barroso sugere a postura que o novo
empreendedor deve ter ao entrar no mercado e indica a importância de se buscar um
foco de atuação e explorar todas as possibilidades que isso gerar. “É importante
lembrar que em mercados imaturos, em que a concorrência se dá pelo preço, não é a
qualidade a maior vantagem competitiva, mas sim a força emocional dos
relacionamentos”, ensina. Barroso explica que, se o empreendedor tiver um produto
de qualidade, deverá, nesse mercado imaturo, proteger seu produto ou serviço para
que ninguém o copie e concorra com ele. A proteção deve durar algum tempo até que
o empreendedor possa abandonar essa barreira e criar outras de tal modo a galgar
fatias cada vez maiores do mercado. Ele deve fazer isso até que se estabeleça no
mercado.
Garagem apertada
Pelos depoimentos dos consultores, fica claro que sair da garagem para uma sede “de
verdade” não deve ser, necessariamente, a prioridade do empreendedor ao iniciar o
negócio. Essa mudança deve estar entre as metas da empresa, mas é preciso
administrar com cautela a transição para que não ocorra de forma precipitada num
momento em que o negócio ainda não está consolidado. “Uma empresa incubada na
sua garagem pode, depois de algum tempo, ser transferida para uma sede externa. A
variável-chave para essa decisão é o mercado”, afirma Rogério Chèr. Segundo o
professor, tudo dependerá do seu maior ou menor êxito diante do mercado-alvo. Se as
respostas à sua ação empreendedora forem positivas, é sinal de que o empreendedor
acertou na formatação do negócio. “Se as respostas vierem, pode ser que o
empreendedor tenha o excelente problema de rever sua estrutura de espaço e
recursos humanos, momento em que a garagem começa a ficar apertada”, atesta.
Ao ser questionado sobre como e quando ocorre a transição da empresa para uma
sede “de verdade”, o consultor Luiz Fernando Garcia é categórico em afirmar que
quase a totalidade é “empurrada” para fora da garagem. “Diferente do que aquele que
idealiza, pensa, monta e prepara tudo antes de ganhar, o outro – da garagem – vai
ganhando e sendo pressionado a se preparar melhor. O caminho é inverso”, ressalta.
Quanto à possibilidade de ocorrer algum tipo de precipitação nesse processo de
transição, Garcia avalia que o que conta é o perfil empreendedor do indivíduo. Se for
baixo, diz Garcia, ele se precipita mais do que os demais, idealiza mais e gasta antes
de ter. Do contrário, se o empreendedor for, antes de tudo, um “brigador”, ele aceita
se sentir pressionado para depois crescer, garante o consultor.
“O ideal seria que a chamada sede de verdade viesse a existir muito tardiamente.
Muitos empreendedores constroem ou compram sua sede pela sede de aparecer”,
ironiza Barroso. Ele diz que o empreendedor que toma esse caminho não percebe que,
muitas vezes, está fazendo um investimento indevido, que está com uma sede maior
do que o tamanho do retorno do seu negócio. “É como você comprar um apartamento
luxuoso e depois não conseguir pagar o condomínio”, compara. “O empreendedor só
deve investir em sede (ou seja, sair da garagem) quando o negócio estiver altamente
consolidado, com retornos infinitamente superiores ao esperado e com demanda
crescente. Se a demanda ficar estável durante a fase da garagem, é melhor continuar
na garagem até que sinais de crescimento da demanda surjam”, aconselha.
Outro aspecto destacado por Barroso é que um negócio de garagem não deve ser
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iniciado apenas porque o empreendedor tem três ou quatro amigos que comprariam
dele. É preciso, sim, usar os amigos, parentes e conhecidos para se sustentar nos
primeiros passos, mas o negócio precisa ter potencial de mercado, e a estratégia de
busca de novos clientes tem que ser pensada antes de se jogar com tudo no
empreendimento. “É importante que o empreendedor pense, antes de mais nada,
quem serão os clientes, onde eles estão, como chegar a eles, como vender a eles, se
eles têm dinheiro, como se fazer conhecer de modo a trazer mais e mais clientes,
como economizar para divulgar o negócio, como fazer com que a transação completa
custe pouco”, afirma.
Em resumo, o que se pode dizer é que começar na garagem e focar sua atuação no
negócio e não no tamanho físico da empresa abre possibilidades mais amplas de que
novos empreendedores possam seguir em frente, dando um passo de cada vez. “Se
puder começar apenas com o cérebro, melhor. Se for necessário cérebro e outras
pessoas se relacionando dentro de um ambiente virtual, comece assim”, sugere Mário
Persona. “Terceirizar aquilo que não é o cerne do negócio deve ser uma decisão vital
para o sucesso em alguns casos”, explica.
Há algo, porém, ressalta o consultor, que deve estar presente em todo o processo de
criação e manutenção de um empreendimento, seja ele de garagem ou não: a
criatividade, que é elemento essencial para se criar um negócio diferente e sair na
frente dos competidores. “Depois, se o sucesso teve origem em uma garagem, a
empresa terá algo mais para explorar. Falo do emocional, excelente campo a ser
explorado principalmente numa época em que o ‘feito em casa’ ou ‘sob medida’ volta
ser valorizado”, conclui Persona. E nesse ponto o negócio de garagem tem tudo para
ser um negócio de futuro.
Trajetória premiada
Depois de iniciar em uma garagem, a Sofhar soube aproveitar as oportunidades e
agora, com 17 anos de mercado, festeja o reconhecimento do seu trabalho por parte
de gigantes como a Microsoft e a Intel
Atuando no mercado de serviços e soluções
tecnológicas integradas, a Sofhar, de Curitiba, é
mais um exemplo de empresa nascida na
garagem que cresce e se transforma em um
grande empreendimento. Tanto é assim que, se
ainda funcionasse em uma garagem, a Sofhar
teria um sério problema de espaço para colocar
todos os certificados e prêmios que já
conquistou. O último, recebido em agosto,
destacou a Sofhar como uma das empresas na
América Latina que mais replicaram soluções da
Reconhecimento: para Miashiro e
Intel. “O segredo de tudo é muito
Luchetta, os prêmios valorizam a
planejamento, mas principalmente muito
filosofia de trabalho da Sofhar
investimento. Tudo o que se ganhava era
reinvestido na empresa. Uma por acreditar no
mercado e outra por não ter como fazer diferente. Se não reinvestir, fecha no dia
seguinte”, afirma Luís Mário Luchetta, diretor-geral.
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Com uma carteira de clientes com mais de 5 mil empresas privadas e públicas e um
time de cerca de 150 funcionários, a Sofhar iniciou sua trajetória de sucesso em 1986.
Naquele ano, Luchetta fundou a empresa juntamente com seu cunhado Flávio
Miashiro, mas atendendo um outro ramo de negócios: o de telecomunicações. Na
época Miashiro trabalhava como técnico na área de reparos da antiga Telepar (hoje
incorporada à Brasil Telecom). Conversa vai, conversa vem, eles acabaram
identificando que havia uma demanda muito grande na área de prestação de serviços
para as operadoras de telecomunicações. E como já estavam atuando no segmento,
decidiram atender também o mercado privado.
De 1986 a 1989, ficaram na garagem fazendo manutenção de equipamentos. Na
seqüência, mais uma vez de olho na demanda, partiram para o varejo a fim de atender
o mercado de telefonia celular, que engatinhava na época. Com uma boa presença de
mercado, Luchetta e Miashiro, aproveitando-se das boas relações que mantinham com
a Motorola, agregaram um novo produto ao perfil da empresa: a informática. “Sempre
tivemos uma parceria muito forte com a Motorola e, quando eles lançaram servidores
de alta perfomance em 1994, precisaram de revendedores e aí entramos nesse
segmento de distribuição”, esclarece Luchetta.
A dinâmica Sofhar
Para seguir seu slogan
Gestão, Integração e
Resultado, a Sofhar divide
sua estrutura em dois
tipos de unidade.
UNIDADES DE NEGÓCIO
- Tecnologia e Projetos
- TI Serviços
- GED – Gerenciamento
Eletrônico de Documentos
- Treinamento
- Consultoria
- Infra-Estrutura
- Licenciamento
- Alianças Estratégicas
- Lojas
UNIDADES DE SERVIÇO
Administrativo/Financeiro
- Editais e RFP
- Marketing
- SAC
- Call Center
- Relacionamento –
Governo e Corporações
No final de 1995, Luchetta e Miashiro já vendiam softwares, notebooks e
microcomputadores na loja que, não por acaso, tinha Telemática na razão social.
“Ficamos no varejo de celular de 1992 a 1998 e não tem um cliente que ficou para
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trás. Tanto que até hoje nosso nome ainda está vinculado ao mercado de telefonia.
Deixamos uma marca enorme”, orgulha-se.
Filosofia e demanda
A transição para o atual perfil da
empresa, voltado para as soluções
tecnológicas, não chegou a ser
turbulenta. “Sempre tivemos em mente
que deveríamos ter know-how, domínio
de alguma coisa. É por isso que a gente
entrou no mix de telecomunicações e
informática”, explica Luchetta, hoje
diretor-geral da empresa, enquanto
Flávio Miashiro cuida das finanças.
Patrimônio: empresa preocupa-se em
Luchetta conta que a dupla seguiu a
manter “time” sempre atualizado
filosofia de desenvolver a empresa
sempre com base em tecnologia na área
técnica. Por isso, quando a convergência entre telecomunicações e tecnologia abriu
uma nova demanda no mercado, Luchetta e Miashiro, antes de partir para trabalhar
com a Microsoft, há cerca de dez anos, optaram por, mais uma vez, adotar a velha
filosofia. “A gente pensou e decidiu: vamos montar um time com certificado Microsoft,
e daí um dia eles vão enxergar a gente”, lembra Luchetta. Não é por acaso que as
premiações da Microsoft estão em grande maioria nas paredes da empresa.
A estratégia dos dois teve ainda uma observação precisa do mercado, a fim de
oferecer um diferencial capaz de atrair clientes, mas também de agradar à empresa de
Bill Gates. “Não basta ser representante. Aí quando vem uma pergunta técnica de um
cliente você não tem o que responder. Vai ligar para a Microsoft. E aí morreu a
representação”, diz Luchetta. “E como a Sofhar poderia representar e ter essas
respostas técnicas, isso se tornou e sempre foi o nosso grande atrativo”, garante.
Segundo Wilmar Prochmann, diretor-superintendente, o que mantém a Sofhar bem no
mercado é que a empresa nunca perdeu a visibilidade, nunca deixou de estar antenada
25 horas por dia. “Isso faz a diferença”, atesta. “Hoje, quando você fala em tecnologia,
tem de pensar em negócios, regras, processos, soluções, cultura, pessoas”, analisa
Prochmann, justificando a importância dessa visão no trabalho da Sofhar. “Por isso que
nosso slogan é Gestão, Integração e Resultado”, diz.
Essa filosofia explica boa parte do sucesso das soluções SmartBuy, Compras Gov e
Quali. As duas primeiras são soluções para gerenciamento de compras e a terceira
para implementação e manutenção de programas de qualidade. Outro fator
determinante é que a empresa procura firmar parcerias com empresas de ponta, como
a Intel e a própria Microsoft, não por mera vaidade. “Alianças estratégicas com
parceiros fortes, agregando valor na visibilidade, mas principalmente na competência,
no know-how”, afirma Prochmann.
O diretor-superintendente costuma dizer que qualquer relacionamento com o cliente
começa com uma folha em branco. “Enquanto eu não entender suas dores, como é
que eu posso propor qualquer tecnologia”, explica. “A gente investe um tempo no
processo de relacionamento e de diagnóstico. Aí sim vamos discutir tecnologia.” Como
a sua carteira de clientes é formada por empresas do setor público e do setor privado,
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a Sofhar mantém equipes especializadas para atender cada um dos setores, o que já é
um facilitador no processo de interação com toda a gestão do cliente.
A preocupação em manter o nível de atualização dos profissionais da Sofhar faz com
que a empresa mantenha um determinado número de colaboradores fora do país
aprendendo, estudando e conhecendo novas tecnologias. “O nosso grande patrimônio
é o nosso time. Tem concorrente com muito mais ‘bala’ para investimentos, mas a
Sofhar está sempre firme. Isso é resultado da sinergia de um time que acredita no que
faz”, justifica Luís Mário Luchetta.
Para os próximos anos, a perspectiva da Sofhar, de acordo com ele, é melhorar a
cobertura das atuais sedes de Curitiba, São Paulo, Joinville e Florianópolis,
estabelecendo-se em Brasília e Porto Alegre. “Enquanto não tiver um negócio que
sustente uma estrutura, fica-se atendendo aqui de Curitiba ou das três filiais”, aponta
Luchetta, lembrando mais uma vez que a empresa cresce e investe conforme a
demanda. E quando perguntado se seria possível começar a empresa da mesma
forma, é enfático: “Sem dúvida. Qualquer coisa que você se propõe a fazer, bem feito,
tem espaço”.
Revista Empreendedor. Disponível em: http://www.empreendedor.com.br
Matéria de Capa, Setembro 2003
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