Por ano, brasileiro passa um mês inteiro no
carro
Ter, 15 de Julho de 2008 14:46
O brasileiro gasta, em média, um mês por ano no trânsito.
Está é a conclusão a que se chega com base nos dados apresentados por um relatório elaborado pelo
Citigroup intitulado Off the Beaten Path, algo como Longe do Caminho Batido, em português. O estudo
mostra que o brasileiro passa 2 horas e 36 minutos por dia no trânsito. Se este valor for multiplicado por
20 dias úteis e por doze meses, o resultado é 26 dias por ano dentro do carro.
Se o mesmo número for multiplicado por 30 dias e por doze meses, tem-se nada menos do que 39 dias.
Em países desenvolvidos, a média diária despendida no trânsito é de uma hora.
Os motivos para um trânsito caótico no país, segundo o estudo, são vários: o contingente de carros e
motocicletas não pára de crescer, o investimento em transporte público está longe de ser suficiente, a
população urbana continua a aumentar, o número de pessoas por casa diminui e a migração dos
moradores para áreas suburbanas aumenta a distância entre o lar e o trabalho.
Junto a tudo isso, uma atitude de indiferença dos governos só faz com que o problema se torne ainda
mais crônico, a ponto de afetar a economia.
O estudo mostra que, no Brasil, o congestionamento de automóveis reduz a produtividade do trabalhador
em 5%, o equivalente a US$ 919,5.
Extensão da casa e do escritório
A representante comercial Lyan Regina Ferreira do Amaral, 54 anos, passa nada menos do que cinco
horas por dia dentro do seu carro. Como trabalha de segunda a sexta-feira, é como se Lyan passasse 50
dias por ano no trânsito. A bancária Luciana de Melo Lucas, 31 anos, não passa tanto tempo no carro,
mas sofre os efeitos do trânsito também. “É um tempo perdido”, opina.
Luciana leva, normalmente, 50 minutos para percorrer o caminho entre o Boa Vista, onde mora, e a
Cidade Industrial, onde trabalha. O caminho de volta é mais rápido – 20 minutos. Para isso, Luciana
espera passar o horário de pico para voltar para casa, programando seu retorno para as 22 horas. “Prefiro
ficar mais tempo no trabalho a pegar trânsito. Uma vez sai às 17 horas e cheguei em casa às 20h30”,
conta.
“Especialista no assunto por ocasião”, Lyan diz que o trânsito de Curitiba se deteriorou de quatro a cinco
anos para cá. Tanto que, antigamente, ela conseguia atender de 15 a 20 clientes por dia. Além disso,
antes, Lyan saia às 7 horas de casa e retornava, por volta, das 18h30. Para fugir do trânsito
congestionado, passou a sair 6h30 de casa. Mesmo assim, em alguns dias, volta só às 20 horas. O
trânsito ruim chegou, inclusive, a influenciar nos seus rendimentos. “Hoje eu ganho 20% a menos por
causa do trânsito”, afirma.
Como tempo é dinheiro para Lyan, ela sai de casa se arrumando. “Eu penteio o cabelo no carro, ponho
brinco, faço a maquiagem”, conta. No caminho, sintoniza nas rádios que transmitem notícias e dão
informações sobre o trânsito.
Com tanto tempo passado no trânsito, Lyan transformou seu carro em escritório e em uma extensão de
sua casa.“Eu coloquei uma mini-geladeira para carregar água e chá. Tenho no carro também frutas,
barras de cereais, roupas no porta-mala, dois celulares, minha agenda eletrônica, agenda de papel, bloco
de notas, meu arquivo de clientes e, claro, a mercadoria”, conta. Com o carro adaptado, só há problema
mesmo quando Lyan precisa ir ao banheiro. “Ainda não inventaram um jeito de adaptar o banheiro no
carro”, brinca. (TC)
O problema, que já afeta 20,5% da população, não é exclusivo do Brasil, mas comum à América Latina.
São Paulo é a segunda cidade “mais devagar” entre as pesquisadas, com uma velocidade média no
trânsito de 24 quilômetros por hora. Cidade do México é a que tem a pior média: 22,5 quilômetros por
hora.
Dentro do país
Embora o estudo faça um raio X de como o trânsito ruim afeta a economia de países latino-americanos de
uma forma geral, não faz uma análise das diferenças existentes dentro de um mesmo país. Os dados
brasileiros citados no estudo, por exemplo, são principalmente relacionados a São Paulo. Para a
coordenadora do Núcleo de Psicologia do Trânsito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Iara
Thielen, apesar de alguns horários em que o trânsito de Curitiba fica “difícil”, a capital paranaense ainda
tem alguns anos de fôlego. “São Paulo não é a média do trânsito do país”, adverte.
Contudo, segundo Iara, Curitiba caminha na direção do modelo de São Paulo. Um indício de que a
afirmação de Iara está correta é que o estudo do Citigroup mostrou que a velocidade média no trânsito de
São Paulo é de 24 quilômetros por hora.
A última medição feita pela Urbanização de Curitiba S/A (Urbs), em 2006, em uma das vias mais
problemáticas da capital, a Avenida Visconde de Guarapuava, mostrou que a velocidade média, num
trecho de 2,8 quilômetros, foi de 24,44 quilômetros por hora – valor semelhante ao de São Paulo. A
Gazeta do Povo fez o mesmo percurso, na sexta-feira passada, no mesmo horário, em 10 minutos e 21
segundos, numa velocidade média de 16 quilômetros por hora.
Claro que esta não é a média para toda a cidade, mas o resultado mostra que algumas vias de Curitiba
têm o trânsito comparável ao de São Paulo. No último Desafio Intermodal promovido pela Bicicletada
Curitiba e pelo Programa Ciclovida da UFPR, no dia 29 de maio, por exemplo, o percurso de 7
quilômetros foi percorrido pelo automóvel, em horário de pico, em uma velocidade média de 12,96
quilômetros por hora, em Curitiba.
“É um tempo que a pessoa acaba perdendo. Embora ela não esteja fazendo nada, se não encontra uma
atividade, acaba tendo desgaste emocional, uma sensação de tempo perdido”, explica Iara.
O resultado disso, segundo a psicóloga, é stress e agressividade. “Acaba descontando no próximo ou na
buzina.”
Para não ser engolido por este turbilhão de emoções negativas, a dica é tentar tornar útil o tempo gasto
no trânsito. “Este tempo perdido no trânsito é aquele mesmo que a pessoa usa como desculpa para não
fazer exercício físico. Dá para utilizar este tempo para exercitar braços, cabeça”, sugere Iara. Para o
especialista em gerenciamento de tempo e produtividade pessoal e empresarial, Christian Barbosa, o
período que se passa no trânsito pode ser bem aproveitado. “Dá para ouvir um CD de línguas
estrangeiras e aproveitar o tempo para praticar. Outra idéia é instalar um bluetooth no som do carro e
fazer ligações ou pensar em projetos e registrar em um gravador de voz”, diz.
Outra possibilidade é negociar com a empresa horários alternativos para a entrada e saída do trabalho.
“As empresas têm de entender que o trânsito é um problema e têm de ter um programa para ajudar, com
flexibilidade no horário. Chegando mais tarde e saindo mais tarde, o dia-a-dia flui melhor”, opina Barbosa.
Para o especialista no gerenciamento do tempo, só se sente mal quem não faz um planejamento correto.
“As pessoas reclamam quando estão correndo, mas reclamam também quando estão paradas. Tem de
usar o tempo no trânsito de forma produtiva, a seu favor”, diz. Tudo tem limite, claro. “Só não dá para
fazer atividades que distraiam com risco de perder o bonde”, adverte Iara
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