Parque do Mirante: o (re)surgimento de um lugar na cidade de
Piracicaba
Laís Margiota Salvador (1) Dra. Eloisa R. R. Rodrigues (2)
(1) Graduanda em Arquitetura e Urbanismo, DAUUEL, Universidade Estadual de Londrina, PR.
Brasil. E-mail: [email protected]
(2) Dep. de Arquitetura e Urbanismo / DAUUEL, Universidade Estadual de Londrina, PR. Brasil. Email: [email protected]
Resumo: O presente artigo aborda a relação do rio com a cidade de Piracicaba - nas proximidades
do local em que a cidade foi fundada. Ao longo do tempo, a região surgida das margens do rio, criou
um complexo de lugares conhecido como ‘Complexo da Rua do Porto’. Este lugar apresenta grande
potencial histórico-cultural, contudo vivencia momentos de sazonalidade de acordo com o nível de
apropriação da população. O ‘Parque do Mirante’ constitui objeto de estudo principal, sendo um dos
subespaços que compõe o ‘Complexo da Rua do Porto’. Os resultados apresentados referem-se à
primeira etapa concluída do trabalho de graduação realizado na Universidade Estadual de Londrina.
Teve como objetivo analisar a relação rio-cidade e reconstituir a história de formação deste
importante espaço público da cidade através do uso de método morfológico; a metodologia inclui
também pesquisa exploratória, revisão de literatura e coletas de dados primários; como
contribuição, demonstra as transformações dos lugares públicos, até então abandonados, a partir do
investimento do setor público municipal, e reflexões sobre a qualidade dos novos usos inseridos.
Palavras-chave: paisagem urbana; parque linear; Piracicaba, Rua do Porto.
Abstract: This article approaches the relation between the river and Piracicaba city – nearby the
place where the city was founded. Over time, the region setted on the river banks, created a complex
of places known as ‘Rua do Porto' Complex. This place has great historical-cultural potential,
however experience moments of seasonality according to the level of population appropriate. The
‘Parque do Mirante’ is the main study object, being one of the subspaces that makes the ‘Rua do
Porto’ Complex. The results refer to the first part completed of the graduates work done at
‘Universidade Estadual de Londrina’. It’s aimed to analyze the relationship river-city and rebuild the
history of formation of this important public space of the city through the use of morphological
method; the methodology also includes exploratory research, literature revision and primary data
collecting; as a contribution, demonstrates the transformation of public places, until now abandoned,
from the municipal public sector investment, and the reflection about the quality of the new uses
inserted.
Key-words: urban landscape; linear park; Piracicaba, Rua do Porto.
1. INTRODUÇÃO
O espaço público na cidade contemporânea não possui uma definição concreta, uma vez que sua
conceituação e função são bastante variadas. Ao discutir esse paradigma é inevitável refletir sobre as
ações das políticas públicas e, inclusive, ações do setor privado, no sentido de ser comum tal espaço
se apresentar como mercadoria de consumo na sociedade contemporânea. Além disso, discorrer sobre
esse tema é refletir sobre o espaço simbólico que ele se torna, reestabelecendo uma interação entre
lugar e sujeito, através da subjetividade na qual estão intrínsecos os valores históricos e culturais que
ele representa para a cidade (SERPA, 2007).
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O artigo consiste na análise do processo de organização espacial da cidade de Piracicaba no que tange
sua relação direta com o rio Piracicaba e a formação dos espaços públicos adjacentes. Em função das
diversas intervenções elaboradas para a área e executados em parte ou no todo desse espaço, se faz
necessária uma leitura morfológica do espaço beira-rio organizada cronologicamente, retratando a
consolidação do lugar a partir de sua conceituação. Além disso, analisa-se mais profundamente o
nascimento, declínio e (re)surgimento do Parque do Mirante, que é o objeto da investigação, em que
se busca entender a construção do „senso de lugar‟ em seus vários momentos através da leitura, além
da morfológica, também dos projetos recentes destinados ao parque.
Com isso, permite-se uma reflexão em relação às possibilidades de modificações, estratégias e
expectativas que o poder público proporciona sobre o espaço beira-rio e as possíveis consequências
que tais ações que requalificam o espaço podem gerar, como atração do setor privado e transformação
ou consolidação da identidade do espaço.
2. OBJETIVO
O objetivo deste artigo consiste em comprovar a importância simbólica que os espaços e subespaços
ao longo do rio Piracicaba representam para a população, através da organização cronológica
construída por leituras históricas e atuais da cidade de Piracicaba, focando nos motivos do
afastamento e reaproximação da população em relação ao seu rio e tais lugares ao longo do tempo.
Entende-se subespaço¹ como um subconjunto de determinado espaço que contém em comum as
mesmas propriedades ou estruturas que o próprio espaço possui. A partir da importância que o espaço
simbólico representa para a população – se tornando lugares e não meros espaços – é fundamental
averiguar a relevância dada pelo poder público na criação e gestão destes lugares urbanos, analisando
as ações – ou a falta delas – e os resultados alcançados quanto a prerrogativa do poder público tem
para tornar as áreas do complexo mais qualificadas considerando tanto as ações atuais como as
passadas.
3. JUSTIFICATIVA
Independente do tamanho ou idade das cidades, ao longo das civilizações, a história nos mostrou que
sua localização está diretamente interligada com a existência da água, sendo este elemento essencial
para o desenvolvimento dos seres humanos (IPPLAP, 2011). Com o decorrer dos anos, essa interrelação rio-cidade não permanece estática ou estagnada, a valorização da água passa por momentos
oscilantes de acordo com os acontecimentos particulares das cidades (COY, 2013). Quanto mais as
cidades se afastam do rio (às vezes dando-lhes as costas), mais difícil se torna a reaproximação entre
eles. Para que essa inter-relação se mantenha satisfatória e constante é preciso adotar medidas rígidas
e eficazes, podendo surgir a partir do poder público, do setor privado e da própria população e
gerarem efeitos positivos ou negativos, dependendo da perspectiva individual que cidadãos
desenvolvem em relação ao uso e apropriação destes espaços públicos.
Em Piracicaba - localizada no interior do estado de São Paulo e cortada diagonalmente pelo rio que
deu nome e fundou a cidade – uma série de ações vem sendo adotadas, com maior ênfase na última
década. As muitas tentativas em requalificar os espaços e subespaços ao longo do rio são do poder
público municipal e se mostraram mais efetivas especialmente a partir da década de 2000, antes disso
não houve uma ação eficaz, nem mesmo do setor privado nos investimentos que fez no complexo.
________________________
¹ SUBESPAÇO. In: DICIONÁRIO do Aurélio. Disponível em: <http://dicionariodoaurelio.com/subespaco>. Acessado 24 de
set de 2015.
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Com a década 2000 concretizam-se as primeiras intervenções por parte do poder público –
especialmente com o Projeto Beira-Rio – as quais englobaram a Rua do Porto e a Avenida Beira-Rio.
O resultado é a atração da população e turistas convergida para essas duas vias – tratando-se da
margem esquerda do rio. Ocorre que os demais subespaços, que possuem valores similares, não
apresentam tanta apropriação por parte dos usuários. O Parque do Mirante aparece como um dos
menos atrativos (tabela 01), razão pela qual se faz uma investigação histórica a fim de justificar a falta
de interesse das pessoas no uso deste parque, considerando as ações atuais em curso que anunciam em
seus objetivos à reversão deste quadro de declínio.
TABELA 1 – Entretenimento do Complexo da Rua do Porto.
Fonte: Centro Abril (2013).
A importância de agir de modo homogêneo no complexo ocorre pelo fato dos subespaços que o
compõe apresentarem um vínculo em comum: nasceram das margens do rio Piracicaba, cujo marco
zero encontra-se no Engenho Central, e contém um caráter simbólico, cultural e histórico comum,
devendo serem tratados como um lugar único. Neste sentido, os resultados apresentam uma análise de
várias intervenções que ocorreram de modo disperso ao longo do rio Piracicaba e as recentes
transformações que tentam convergir de forma homogênea, ressaltando a importância do poder
público em desempenhar esta função.
FIGURA 01 – Espaços ao longo do rio (ou Complexo da Rua do Porto). Fonte: Google (2015); org. pela autora.
4. METODOLOGIA
O estudo é realizado através de técnicas de pesquisa exploratória, enfocando aspectos históricos e
atuais, organizados cronologicamente através de uma linha do tempo que tem como principal
referência dados disponibilizados pelo IPPLAP (Instituto de Planejamento e Pesquisa de Piracicaba);
revisão de literatura especialmente a respeito dos diferentes significados designados para espaço
público e da diferença conceitual entre lugar e “não-lugar”; coletas de dados primários, através de
entrevistas, aplicação de questionários e levantamento iconográfico necessários para classificar as
atividades consolidadas e os usos fornecidos no Complexo da Rua do Porto, com maior
direcionamento para o Parque do Mirante; reflexão e discussão sobre como o conjunto de
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intervenções feitas pelo poder público local contribuíram para resgatar o verdadeiro significado do
rio como espaço público democrático e qualificado.
5. RESULTADOS OBTIDOS
5.1. O RIO E A CIDADE DE PIRACICABA
5.1.1. Da origem da cidade e da ocupação das margens do rio Piracicaba
O desenvolvimento de qualquer povoação está relacionado diretamente com a relação que o rio tem
com o lugar, visto que o elemento água se torna fundamental para que haja o desenvolvimento
urbano. Além de promover água para a população e a agricultura, o rio também foi e continua sendo
responsável pela ligação entre diferentes espaços, constituindo uma sociedade na qual toda sua cultura
e história esta contida na importância que o rio apresenta para a cidade, elegendo-o como parte de sua
paisagem urbana (COY, 2013).
Com Piracicaba não foi diferente: a cidade atraiu colonizadores especialmente devido à abundância da
água do rio, cujas margens possuíam solos férteis e mata nativa. Desde o princípio, a economia era
agrícola – voltada para a cana-de-açúcar – que com o passar do tempo evoluiu para agroindustrial,
abrangendo toda a margem do rio Piracicaba, uma vez que a água é um fator que influencia a
localização das indústrias. Ao contrário do comum, o fato de haver instalações industriais nas
margens da cidade de Piracicaba, proporcionou uma aproximação entre as margens do rio e a
economia, ressaltando a importância da preservação da mata nativa e provocando o surgimento de
parques e praças públicos – surgindo nesse contexto o Parque do Mirante. Entre o século XIX e XX,
Piracicaba contava com dois importantes centros industriais que utilizavam o potencial hidráulico da
região: o Engenho de Açúcar, ocupando a margem direita do rio, e a Fábrica de Tecidos Santa
Francisca de Luiz de Queiroz (atualmente conhecida como Fábrica Boyes), que ocupava a margem
esquerda do rio (IPPLAP, 2011).
5.1.2. O sistema de espaço e subespaços ao longo do rio
A relação do rio com a fundação da cidade propiciou a consolidação de regiões que apresentam um
grande potencial histórico-cultural para a cidade, especialmente a região central, e que agora formam
um conjunto de concepção da paisagem urbana rio-cidade, até mesmo o Centro Cívico se localiza
próximo a esse complexo (figura 01). Essas regiões são o próprio Parque do Mirante, o Engenho
Central, a Rua do Porto, a Avenida Beira-Rio, o Parque da Rua do Porto, o Parque da Área de Lazer
do Trabalhador e a Fábrica Boyes; com exceção desta última, todos são espaços públicos. A linha do
tempo proposta (anexo 01) mostra resumidamente os eventos históricos dessas áreas em ordem
cronológica.
FIGURA 02 –Engenho Central / 03 – Residências e calçadão da Rua do Porto. Fontes: Acervo Pessoal.
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Diante das últimas ações do poder público destacam-se as revitalizações constantes no Parque do
Engenho Central, a criação do concurso público para o Parque do Mirante e o desenvolvimento de
projetos como o Projeto Beira-Rio e o Projeto Urbanístico de Mobilidade do Complexo da Rua do
Porto. O primeiro é responsável por intervir na margem esquerda do rio e sua concepção na fase
inicial – chamada de diagnóstico – traçou características específicas da população da cidade de
Piracicaba, referentes à memória, perspectivas e sinestesias dos moradores, tendo o rio de Piracicaba
como elemento principal, contendo níveis de intervenção em diferentes escalas, iniciou sua
intervenção numa escala pontual, abrangendo a Rua do Porto e Avenida Beira-Rio. O projeto possui
algumas etapas cumpridas, porém depende de uma série de fatores para que haja continuidade, tais
como a existência de recursos financeiros e corpo técnico (IPPLAP, 2011). Quanto ao Projeto
Urbanístico de Mobilidade do Complexo da Rua do Porto, de acordo com o SETUR (Secretária de
Turismo de Piracicaba), o objetivo é promover a estruturação do espaço urbano, ambiental e de
mobilidade focando na inserção ou readequação de parques lineares às margens do rio Piracicaba,
abrangendo, por exemplo, a via que tange o Parque da Rua do Porto João Hermann, a Avenida BeiraRio, a Rua do Porto, o Parque da Área de Lazer do Trabalhador e o Parque do Mirante, o projeto deste
último está em fase de implantação e foi elaborado através de concurso público.
5.1.3. O „não-lugar‟ ao longo do rio: abandono, transformações e (re)surgimento
A relação do rio-cidade não se apresenta de modo linear e também não se estagna, depende de uma
série de contra pontos como aspectos econômicos e políticos, postura dos habitantes da cidade e
direcionamento da expansão urbana (COY, 2013). Ao longo do tempo, o rio de Piracicaba também
teve épocas de popularidade e impopularidade.
O século XX, período em que a cidade opta pela monocultura da cana-de-açúcar e que de fato
Piracicaba se urbaniza, é caracterizado pela destruição dos espaços verdes – considerados vazios pelo
poder público – com isso a região central perde seu caráter. As áreas envoltas do rio são privatizadas e
destino de importantes vias, fazendo com que a qualidade e quantidade da água do rio se tornassem
motivo de preocupação por conta da poluição e enchente. Esses fatores contribuíram para o
afastamento – não totalmente – da população das margens do rio em que nasceu e foi motivo de
preocupação quanto à revalorização do rio e suas margens. O Plano Diretor de 1985 obtém êxito ao
propor a desapropriação das residências que beiravam o rio e o afastamento da via que tangenciava
sua margem (Avenida Beira-Rio). Juntamente com outras providencias – como o tratamento total do
esgoto desde 1992 e a criação de projetos como o Projeto Beira-Rio, já citado – a área vai sendo
resgatada e reconstruída gradativamente (IPPLAP, 2011).
A partir do momento em que as ações do poder público se mostram benéficas para o complexo do rio,
visto que volta a gerar vida no local, a Fábrica Boyes de propriedade privada reaparece com a
divulgação da construção de centro de compras e hotel na área. Algumas consequências são a atração
ainda maior de pessoas no local; o investimento financeiro em revitalizar algumas construções do
terreno como a pequena usina hidrelétrica; a descaracterização da paisagem, perdendo a identidade
local, visto que o projeto consiste na construção de alto edifício com características estéticas que não
condizem com o existente na área; além de inserir novos usos que podem ou não se caracterizar como
apropriado para o local.
Portanto os projetos de iniciativa do poder público, no sentido de resgatar as épocas de popularidade
do rio, tiveram totais excito e tem como uma das implicações atrair turistas e investimento do setor
privado, podendo ou não ser considerado um fator positivo. Sobre o turismo, Serpa (2007) diz se
tratar do principal paradigma que a atualidade propõe em busca do desenvolvimento urbano
(consumismo cultural): a cidade – revalorizada em nome do passado – vai sendo transformada em
cidade máquina, cuja principal produção é o lucro concentrado nas mãos de poucos, empregando a
população local em funções subalternas e o discurso sobre a aliança entre poder público e setor
privado passa a ser geração de emprego e planejamento estratégico.
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Sobre o espaço público, Serpa (2007) diz que ele se torna de fato público ao compreender uma
acessibilidade além de física, simbólica, tornando-se público no sentido de ser democratizado.
Castello (2007) propõe que cenários revitalizados e shoppings são exemplos de lugares autênticos e
não-artificiais que estão sendo modificados geneticamente – abordando temas de cunho mais popular
e comercial – e onde se encontram diferentes camadas sociais, comprovando a democratização do
espaço, independente do local ser caracterizado como público ou privado. Augé (apud Rieth, 1995)
vai contra essa linha de pensamento: classifica shoppings, aeroportos e outros espaços que também
são frutos do excesso de ambientes que a sociedade urbana cria, como efêmeros elegendo-os “nãolugares”, já que servem apenas de passagem. Quanto à perda da identidade do local – gerada através
da diversidade arquitetônica – não é necessariamente um fator ruim: pode promover heterogeneidade
a partir de uma vizinhança diversificada (JACOBS, 2009). Nesse sentido, os efeitos gerados pelo
reaparecimento da Fábrica Boyes pode vir a ser considerado positivo sob o aspecto de que espaço
público está relacionado com a acessibilidade que deseja atingir e também pela quebra da identidade
do local poder integrar as diferentes classes sociais.
5.2. VIDA E MORTE DO PARQUE DO MIRANTE
5.2.1. Início, surgimento e declínio
A linha do tempo (anexo 01) organiza os principais fatos que aconteceram com o Parque do Mirante
ao longo das décadas. A primeira informação que se tem a seu respeito foi encontrada no diário da
Princesa Isabel em 1884, no qual ela se refere a uma visita ao quiosque do salto do rio, passeio o qual
gostou muito. O parque era uma área verde privada, cujo belvedere era a única construção existente, e
foi desapropriado pela prefeitura em 1890, antes disso o proprietário Barão de Rezende já permitia o
acesso do público ao local. No início do século XX, o parque já atraia os turistas para caminhadas e
piqueniques e era motivo de orgulho para os piracicabanos devido sua beleza, em especial sua vista
para salto do rio Piracicaba. A reforma em 1960 é uma das mais importantes para o parque e a
tipologia determinada por esse projeto de concepção moderna permanece. Uma importante inserção
de uso durante esta reforma foi a construção do „Restaurante do Mirante‟, que mais tarde foi ampliado
devido a alta demanda, porém sua localização dificultou a continuação de atividades comuns da época
(IPPLAP, 2011).
FIGURA 04 – Parque do Mirante após reforma, 1962. Fonte: IPPLAP, 2011 / 05 – Parque do Mirante, 2015.
Fonte: Acervo Pessoal.
A grande decaída se dá com a desativação do engenho, pois um estava interligado com o outro, e
posteriormente a reabertura do engenho como possibilidade de lazer acaba por substituir a função do
Parque do Mirante. As enchentes e poluição da água do rio com a urbanização da cidade contribuíram
para o afastamento das pessoas em relação às margens do rio e para o abandono do parque. A partir
disso, é notada uma série de intervenções públicas pontuais no parque – como a criação de plano de
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embelezamento o – porém nenhuma ação conseguiu recuperar a identidade que o Parque do Mirante
possuiu um dia (IPPLAP, 2011). No século XXI ele passa a ser considerado Patrimônio Municipal –
por meio do Decreto Municipal 10.020, de 13 de setembro de 2002, 20 anos após a abertura do
processo de tombamento pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Piracicaba – e também
Patrimônio Estadual por estar inserido no perímetro de delimitação da área tombada do Engenho
Central. Em 2008 um dos blocos que continha o restaurante foi desapropriado pela prefeitura e o local
foi destinado para um órgão público municipal (NEA – Núcleo de Educação Ambiental). No outro
bloco do antigo restaurante foi construído o Aquário Municipal com a promoção de atividades
pedagógicas.
FIGURA 06 – Restaurante do Mirante durante época de funcionamento (à esquerda). Fonte: Oriva Martins.
Disponível em: <http://www.orizamartins.com/seresta-piracicaba-imagens.html>. Acesso: 13 de agosto de 2015
/ 07 – Situação atual mesmo local. Fonte: Acervo Pessoal.
5.2.2. Resgatando o sentido de lugar através de um concurso
Nos últimos anos há uma revalorização da relação rio-cidade por parte do poder público e da
população. Percebe-se o rio como elemento que caracteriza a paisagem da cidade, assim suas margens
urbanas passam a ser resgatadas e recebem novos usos (COY, 2013). Em outubro de 2014, a
prefeitura de Piracicaba em parceira com o IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil) promoveu um
concurso público nacional, de coordenadoria do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, para selecionar um
projeto de arquitetura para a requalificação do Parque do Mirante. O objetivo do projeto era estimular
a preservação do patrimônio histórico e natural englobando usos como lazer, cultura, esporte,
educação ambiental, entretenimento e atividades pedagógicas e também de criar uma conexão entre o
Parque do Mirante e o Parque do Engenho Central. A comissão julgadora foi formada por cinco
pessoas nas quais avaliaram os 54 projetos inscritos (com 75 pessoas participando) em dezembro de
2014. Os três primeiros lugares foram premiados, um projeto foi classificado com menção honrosa e
três como destaque (IAB, 2014).
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FIGURA 08 – Perspectivas ilustrando o projeto 22 / 09 – Perspectiva ilustrando o projeto 16. Fonte: IAB, 2014.
Disponível em: <http://iabsp.org.br/?concursos=concurso-parque-do-mirante>. Acessado em: 22 de janeiro de
2015.
Dentre os três melhores projetos, a comissão julgadora posiciona o projeto de número 09 em terceiro
lugar, pelo fato de, diferentemente dos dois primeiros colocados, não resolveu os fluxos longitudinais,
especialmente em relação à conexão entre o Parque do Mirante e o Engenho Central. A disputa entre
os projetos de número 22 e 16 foi bastante competitiva, visto que o posicionado em segundo lugar
propunha usos mais diversificados e a falta de usos proporcionada pelo parque atualmente é uma de
suas maiores falhas. Porém, o vencedor se destaca ao resolver suas estruturas propostas de modo
bastante claro e se diferencia ao mudar o local do aquário existente, aumentando a visibilidade interna
do parque. Para melhor entendimento das propostas dos projetos foi feita uma tabela analisando os
três projetos premiados (tabela 02) (IAB, 2014).
TABELA 02 – Análise dos Projetos Premiados do Concurso do Parque do Mirante de 2014
Fonte: Acervo Pessoal
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Uma vez que o trabalho de graduação encontra-se em andamento, a finalização dessa etapa de
compreensão dos aspectos morfológico ao longo do rio, assim como a formação dos subespaços e seu
caráter atual (apresentados no artigo), constituiu etapa necessária à compreensão da inter-relação rioPiracicaba. As políticas públicas locais se mostraram, desde o início da fundação da cidade,
preocupadas em intervir nos espaços públicos ao longo do rio, com maior ênfase na região central do
Complexo da Rua do Porto – berço da cidade – tendo a época de maior urbanização da cidade como
período de grande agravante em sua relação com o rio. Resgatar o sentido do lugar no Parque do
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Mirante tem-se mostrado difícil pela percepção dos momentos de sazonalidade na relação da cidade
com o lugar. É preciso que as intervenções abranjam uma escala ampla, menos pontual, considerando
os valores simbólicos e histórico-culturais do parque juntamente com o restante das áreas localizadas
nas margens do rio, cujo potencial está subutilizado.
A partir da leitura morfológica, a história e transformações dos lugares ao longo do rio permitiram
identificar as fraquezas no sistema de planejamento e gestão de espaços públicos, fatores que
colaboraram para o declínio da qualidade dos lugares que compõe o complexo. Também foi possível
perceber o vínculo que o lugar possui com a população e com o poder público, já que o rio Piracicaba
– elemento de elo na paisagem da cidade – consegue promover a unidade do local. Desta forma,
identifica-se, em especial nos últimos anos, que o poder público acerta ao criar projetos que abrangem
os diferentes subespaços gerados pelo rio como um único lugar, passando a projetar de maneira
homogênea, promovendo a integração entre eles e não mais agindo de modo pontual.
O auge da discussão ocorre em função das ações atuais vindas por parte do setor privado quanto ao
uso e ocupação dos subespaços ao longo do rio. O poder público não possui recursos suficientes para
executar algumas obras que o setor privado faria com muita facilidade, nesse sentido a vantagem é o
setor privado investir financeiramente em determinadas situações que, talvez, jamais o poder público
tivesse condições de realizar. Esse é o caso da hidrelétrica de pequeno porte construída por Luiz de
Queiroz (figura histórica da cidade), localizada no terreno da Fábrica Boyes, cuja recuperação teve
um custo de 6 milhões de reais. Além disso, a inserção de novos usos – no caso centro de compras e
hotel – pode vir a ser um fator positivo, tanto para gerar vida no local e democratização do espaço,
pois a diversidade de usos atrai diferentes classes sociais em diferentes dias e horários, como para
gerar movimento na economia da cidade pelo fato de também atrair turistas.
A maior preocupação ocorre com a descaracterização da estética do local, visto que a paisagem da
cidade de Piracicaba é formada pelo rio e construções que acompanham sua simplicidade – seja o
Engenho Central com seus tijolos aparentes, o Parque do Mirante com a vista para o salto do rio ou as
humildes residências e comércios que compõe a Rua do Porto. Desse modo, deve-se atentar quanto ao
gabarito de altura proposto pelos novos usos, por exemplo, a verticalidade do hotel proposto na antiga
Fábrica Boyes (afim de não gerar barreiras visuais) e se preocupar em não modernizar a região a
ponto de transformar o caráter de sua paisagem. Neste sentido, a perda da identidade do lugar não se
demonstraria como fator positivo, pois ela apresenta-se como memória para a população piracicabana,
a subjetividade que o caráter da paisagem apresenta diz quem é aquela cidade e da onde sua
população veio; sua perda descaracterizaria a paisagem do lugar e comprometeria a história e cultura
de um povo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTELLO, Lineu. A Percepção de Lugar. Editora PROPAR-UFRGS. Porto Alegre, 2007.
COY, Martin. A interação rio-cidade e a revitalização urbana: experiências europeias e perspectivas para a
América Latina. Disponível em:<http://confins.revues.org/8384>. 2013. Acesso 03 de agosto de 2015.
IAB, Instituto de Arquitetos do Brasil. Concurso Parque do Mirante. 2014. Disponível em
<http://iabsp.org.br/?concursos=concurso-parque-do-mirante>. Acesso 21 de janeiro de 2015.
IPPLAP, Instituto de Planejamento e Pesquisa de Piracicaba. Piracicaba, o Rio e a Cidade: Ações de
Reaproximação. Piracicaba, 2011.
JACOBS, Jane. Morte e Vida de Grandes Cidades. Editora WMF Martins Fontes. São Paulo, 2009. [1961]
RIETH, Flávia. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 1, n. 2, p. 270-271, jul./set. 1995.
SERPA, Ângelo. O Espaço Público na Cidade Contemporânea. Editora Contexto. São Paulo, 2007
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ANEXO 01
- LINHA DO TEMPO
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