Piracicaba: quatro décadas de requalificação urbana e recuperação ambiental Estevam Vanale Otero Doutorando e Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU USP Diretor do Departamento de Projetos Especiais do IPPLAP – Instituto de Pesquisas e Planejamento de Piracicaba Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo do CEUNSP/Salto [email protected] Resumo: O artigo em tela apresenta e analisa as ações empreendidas no município de Piracicaba com vistas à reapropriação e à requalificação das margens do rio que lhe batiza no trecho que cruza seu centro. O estudo se detém sobre as intervenções realizadas nas últimas quatro décadas, período em que ocorreu uma inflexão nas políticas públicas voltadas à frente fluvial urbana do Piracicaba. A partir do início dos anos 1970 a municipalidade passou a construir uma série de políticas públicas e intervenções físicas, passando pela desapropriação de extensas áreas às margens do rio, com o objetivo de qualificar e abrir ao acesso da população local a frente urbana do rio Piracicaba. As premissas, objetivos, estratégias, projetos e obras para esse referido contexto são aqui expostos, sistematizados e analisados, a fim de compor um quadro das ações empreendidas e que permitiram a constituição do grande complexo de áreas públicas que hoje guarnece a várzea do rio. Palavras-chave: requalificação urbana, recuperação ambiental Abstract: This article presents and analyzes the actions realized in the city of Piracicaba aiming the appropriation and qualification of the Piracicaba river banks in the stretch that crosses its center. The paper focuses on interventions in the last four decades, period in which an inflection in public policies for Piracicaba urban riverfront happened. At the beginning of the 1970’s the local authorities started a series of public policies and physical interventions, through the expropriation of large areas on the river banks, in order to qualify and to open the urban riverfront to local people access. The premises, objectives, strategies, projects and works for this context are exposed, organized and analyzed, in order to compose a setting of actions undertaken and that allowed the constitution of the large complex of public areas at the river floodplain. Key-words: urban requalification, environmental recovery Piracicaba: quatro décadas de requalificação urbana e recuperação ambiental (1) Introdução Piracicaba, cidade que conta atualmente com cerca de 370 mil habitantes (IBGE/Censo 2010), tem sua estrutura urbana, identidade cultural e, até um passado relativamente recente, sua dinâmica econômica, intensamente vinculadas ao rio que lhe batiza e suas margens. A povoação que deu origem ao município de Piracicaba estabeleceu-se em 1767. Esse incipiente núcleo colonial foi mandado fundar pelo Morgado de Mateus na barra onde o Piracicaba deságua no rio Tietê, sendo um entreposto a dar suporte às bandeiras em busca de ouro nas minas do Mato Grosso. Decidido a buscar um sítio mais apropriado, o qual tinha ciência de ser abundante em pescados, o encarregado da expedição, Capitão Antônio Correa Barbosa, subiu o Piracicaba até estabelecer-se nas imediações do salto, dando início à ocupação portuguesa daquelas terras. Na última década do século XIX as áreas desse núcleo primitivo da ocupação já representavam a periferia da cidade; por outro lado, esses locais passaram a ser ocupados pelas camadas mais pobres da população local, sobretudo exescravos, relegadas aos limites do perímetro urbano, principalmente o Largo Santa Cruz e a Rua do Porto, lugares escolhidos para as reuniões populares nos quais a resistência às iniciativas saneadoras da administração pública se faziam mais presentes (PERECIN, 1989, p. 126, apud BILAC & TERCI, 2001, p. 98). Em princípios do século XX as margens do Piracicaba encontravam-se ocupadas por inúmeras instalações fabris, as quais tiravam proveito tanto das águas quanto do potencial hidráulico como força motriz do maquinário: à margem direita, área historicamente ocupada por engenhos, estava instalado o Engenho Central, abrigando tecnologia de ponta para a produção de açúcar e álcool. Na margem oposta estava a indústria de fiação e tecelagem Arethusina, que utilizava o potencial hidráulico para a produção de energia elétrica para seu consumo, e cujo excedente era usado na iluminação da cidade. Em 1907 ambas representavam a 4ª e a 17ª mais importantes indústrias do interior do Estado de São Paulo em valor de produção (NEGRI, 1996, p. 46). Nessa mesma margem encontravam-se inúmeras olarias, na região do atual Parque da Rua do Porto, que extraíam argila da planície aluvial para a produção de tijolos e telhas. Acompanhando esse desenvolvimento econômico a cidade assistia a uma significativa expansão urbana, afastando-se das margens em que nasceu, relegadas agora às atividades industriais. Esse crescimento urbano era reflexo de um significativo aporte populacional: de cerca de 76 mil habitantes em 1940 a cidade passou a contar com pouco mais de 152 mil em 1970, dobrando de tamanho novamente até o ano 2000, quando contava com aproximadamente 329 mil moradores. Ao passo que sua população residente multiplicou-se por quatro, seu perímetro urbano, no mesmo período, multiplicou-se aproximadamente por vinte (OTERO et al., 2007). Ao longo das desenvolvimentistas décadas de 1950 e 60 uma série de melhoramentos urbanos foi realizada, principalmente aqueles voltados ao automóvel. Nesse período se deu a abertura, ampliação ou reforma de algumas das que são as principais vias da cidade até hoje, como é o caso das avenidas Centenário, Carlos Botelho, Armando de Salles Oliveira e Beira Rio, esta última de especial importância para nossa análise (BILAC et al., 2001, p. 106). A avenida Beira Rio, como expresso em seu próprio nome, é uma via marginal ao Piracicaba, cuja implantação teve início no começo dos anos 1960. Ela se prestaria a ser uma conexão viária das mais importantes, de mão dupla e quatro faixas de rolagem, canteiro central e estacionamento, acompanhando toda a orla fluvial, resultando numa barreira a apartar o rio e a cidade. A obra, felizmente, jamais foi executada por completo. Figura 1. Mapa da evolução da mancha urbana de Piracicaba. Em azul, o rio Piracicaba; em cinza, área ocupada pela mancha urbana em 1940, 1960, 1980 e 2000 [da esquerda para a direita, de cima para baixo]. Elaboração: IPPLAP (OTERO & SOUZA, 2011, p. 20). Esse privilégio conferido à infraestrutura voltada ao automóvel promoveu uma brutal alteração na estrutura intraurbana do município, especialmente a partir da década de 1960, quando a cidade de Piracicaba começa a se expandir de forma fragmentada e atingir áreas distantes da ocupação dos 200 anos anteriores de sua história, por intermédio da abertura de novos loteamentos públicos e privados. Este processo foi acompanhado pela extensão progressiva do perímetro urbano, viabilizando legalmente o espraiamento da malha da cidade e favorecendo a especulação imobiliária (INSTITUTO PÓLIS, 2003, p. 19). Em toda a bacia do rio Piracicaba a década de 1970 foi um período de intensa urbanização: a população residente na bacia aumentou a uma taxa de 5,1% ao ano nessa década. Para efeito de comparação, as taxas da Região Administrativa de Campinas e do estado de São Paulo foram, respectivamente, 4,4% e 3,4%. Além dos impactos decorrentes da urbanização acelerada, a intensa expansão industrial na bacia veio se somar e contribuir decisivamente ao processo de degradação da relação entre a cidade e o rio, pela degradação da qualidade das águas da bacia devido ao aumento da poluição (TERCI et al., 2005, p. 95). Em 1973 a imprensa local registrou o “espetáculo” do rio coberto de espuma, resultado dessa intensa poluição (JP, 24 de março de 1973). Cumpre ressaltar que esses processos combinados e intrinsecamente articulados de acelerada urbanização com crescimento econômico industrial, associados à ocupação contumaz das margens de rios e córregos, no mais das vezes de forma degradante e desorganizada, resultando em espaços de baixa qualidade tanto urbanística quanto ambiental constituíram-se, mais que exceção, em regra na quase totalidade dos municípios brasileiros. O município de Piracicaba, entretanto, vem empreendendo, desde meados da década de 1970, ações significativas com o objetivo de enfrentar tanto os problemas ambientais quanto urbanísticos relacionados ao contexto da frente fluvial do rio que lhe batiza e cruza seu centro. A reapropriação de dezenas de hectares, antes privados, ao domínio e dentro do interesse públicos, é resultado de quatro décadas de políticas públicas objetivando a reaproximação do cidadão local ao rio e suas margens. No presente artigo serão apresentadas essas ações e projetos ao longo desse período, procurando analisar seus resultados e de que forma foram decisivos na valorização e defesa da qualidade de suas águas e margens. Figura 2 – Em vermelho, áreas às margens do rio Piracicaba em seu trecho central que eram propriedades particulares em 1972 (aproximadamente 63 ha). Elaboração: IPPLAP. Figura 3 – Olaria Nehring, aproximadamente onde hoje está implantado o Parque da Rua do Porto. Crédito: Acervo Família Nehring (OTERO et al., 2011, p. 73). O início da reapropriação das margens do rio Piracicaba As margens dos corpos d’água desempenham uma série de funções ambientais importantíssimas, ensejando sua preservação, a saber: receptar e conter os sedimentos de toda a bacia; garantir a flutuação natural dos níveis d’água; reter as águas na microbacia; promover a estabilidade das bordas do corpo d’água; permitir as migrações laterais dos cursos d’água; e proteger a biodiversidade e as cadeias gênicas (MELLO, 2008, p. 91-94). Com vistas à preservação e garantia de realização dessas funções desde 1965 as margens de corpos d’água são protegidas pelo Código Florestal Brasileiro (Lei Federal 4.771/1965), vedando-se sua ocupação a praticamente todas as formas de uso e ocupação, exceto aquelas voltadas à (re)naturalização desses espaços, criando a figura da APP – Área de Preservação Permanente. Essa definição abrangeria não apenas frentes fluviais e lacustres, mas também topos de morro, encosta íngremes, manguezais etc. Em 1989 a aplicação dessas restrições foram estendidas às APPs localizadas em área urbanas (Lei Federal 7.803/1989), interditando a intervenção em áreas ocupadas há séculos, cuja dissociação era impossível do próprio processo de ocupação do território desde o período colonial, uma vez que os rios constituíam-se em importantes vias de penetração e comunicação, às margens dos quais um sem número de cidades foram fundadas, a exemplo da aqui analisada Piracicaba. Mello observa que o conceito de APP embute o que ela denomina de princípio da intangibilidade, uma vez que se encontram vedados todo e qualquer tipo de uso e ocupação (MELLO, 2008, p. 25). Por si só, a interdição legal não é capaz de garantir a preservação de áreas com essas características, como é sobejamente demonstrado pela ocupação de APPs na quase totalidade dos municípios brasileiros, mesmo após a promulgação da referida lei, especialmente por segmentos sociais alijados do mercado imobiliário formal (MARTINS, 2006). Por outro lado, a legislação vigente acabou por dificultar intervenções de qualificação em áreas de ocupação histórica e consolidada, ou mesmo de regularização e urbanização daquelas ocupações irregulares, gerando críticas e pressões que acabaram por resultar na Resolução Conama 369, que procura atenuar o princípio da intangibilidade de que fala Mello, ao definir parâmetros de intervenção e utilização. Esses parâmetros deveriam se pautar pelo interesse social, utilidade pública e baixo impacto social da intervenção, aplicando-se a casos excepcionais (MELLO, 2008, p. 36). Ainda assim, permanecia o conflito entre uma visão exclusivamente ambiental da questão e aquela que privilegiava unicamente os fatores urbanos do problema. Em seu estudo da questão das margens urbanas dos corpos d’água, Mello observa a estreita correlação entre a valorização dos mesmos, fator estratégico para sua proteção, e o que ela denomina urbanidade, “atributos das configurações espaciais que qualificam a vida urbana, no sentido da interação entre as pessoas e destas com os corpos d’água” (MELLO, 2011, p.172). Nesse sentido, mais importante que a interdição ao uso e ocupação era a interação e integração desses espaços à cidade e sua dinâmica. O aspecto mais relevante na constituição dessa urbanidade seria o domínio do espaço, a apropriação e uso pela população das margens dos corpos d’água, conferindo um “sentimento de pertença e o desejo de proteção do conjunto formado pelo corpo d’água e suas margens” (idem, p.176). Esse conjunto de considerações se fazem relevantes para o caso em tela, uma vez que esse foi o sentido imprimido às ações empreendidas no município de Piracicaba ao longo dos últimos 40 anos, visando à reapropriação de vasto trecho da orla do rio de mesmo nome, conformando um complexo de áreas públicas ao longo das suas margens urbanas. Apesar de reconhecido, seu potencial paisagístico, turístico e para o lazer não havia sido aproveitado até então, carecendo de ações efetivas para dotá-lo de uma necessária infraestrutura. Até os anos 1970, o único espaço franqueado ao público às margens do Piracicaba era o Parque do Mirante, com menos de 20 mil m². A reapropriação das margens teve início com a ação do poder público municipal para a desapropriação de ampla área à margem esquerda do rio, contígua ao centro da cidade. Apesar de constituir um dos primeiros pontos de ocupação do território do município no período colonial, a área havia permanecido praticamente sem urbanização até a segunda metade do século XX. Nessa região o vale do Piracicaba abre-se numa planície aluvial, ocupada pelas águas do rio a cada enchente. Figura 4 – Áreas públicas às margens do rio Piracicaba em seu trecho central em 2012. Elaboração: IPPLAP (OTERO & SOUZA, 2011, p. 39). Até essa época a área se prestava a ser depósito de entulho e areia de fundição. Na região encontravam-se instaladas algumas olarias, que tiravam partido das características do sítio para a extração de argila e, lindeiro à barranca do rio, alinhava-se um casario simples, habitado por funcionários das olarias e pescadores que tiravam seu sustento das águas do rio. Em meados dos anos 1960 foi elaborado e apresentado um projeto de loteamento desse vazio urbano, com cerca 105 hectares, e representando novos 1.575 lotes. O loteamento “Chácara Nazareth” foi aprovado em 1967, possibilitando a urbanização e ocupação de áreas localizadas no leito maior do rio, e por isso, sujeitas a seus transbordamentos. Antes da implantação do loteamento um evento natural veio demonstrar a inadequação do sítio para a urbanização: em 1970 ocorreu a maior enchente no município desde 1929, deixando submersa grande parte da área. Segundo a imprensa local “todas as casas da Rua do Porto, a partir do Clube de Regatas [ficaram] parcial ou totalmente submersas” (JP, 20 de janeiro de 1970). O relativamente reduzido número de desabrigados (236 pessoas, segundo o Jornal de Piracicaba de 24 de fevereiro de 1970) deveu-se ao fato do loteamento ainda não ter sido implantado. A COSU – Coordenadoria de Obras e Serviços Urbanos, órgão municipal, deu início em 1972 ao levantamento da área atingida pela enchente. O estudo instruiu o decreto de utilidade pública para a desapropriação da área (Decreto Municipal 1.552, de 25 de maio de 1973). O objetivo da desapropriação seria a criação do “Grande Parque Municipal”, maior área verde urbana do município, voltada ao lazer e ao turismo, além de “áreas específicas para restaurante, locais para práticas esportivas, play-ground [sic], concertos ao ar livre [...], estacionamentos e áreas de descanso” (COSU/PMP, 1972, mimeo). Além disso, seria uma maneira de enfrentar o “problema das enchentes, que vez por outra assolam toda a rua do Porto e suas imediações” (JP, 5 de abril de 1972). O decreto ainda seria retificado diversas vezes ao longo da década, com a apropriação das áreas vazias e exclusão de praticamente todos os imóveis edificados à época, como podemos ver na Figura 5. Figura 5 – Foto aérea com a sobreposição do perímetro do loteamento “Chácara Nazareth” aprovado em 1967 (em amarelo), indicadas em hachuras brancas as áreas públicas definidas no projeto aprovado. A linha contínua branca identifica o perímetro da área a ser desapropriada segundo o Decreto 1.552/73 e, em linha tracejada branca, a área efetivamente desapropriada. Elaboração: IPPLAP (OTERO et al., 2011, p. 74). O decreto de desapropriação, contudo, era vago quanto a sua destinação. Em seu artigo 1º, justificou-se a ação para a “ampliação de logradouros, execução de planos de urbanização e construção de obras públicas e de saneamento”, sem detalhar, entretanto, que obras seriam essas. A opinião pública piracicabana manifestou-se à época, por meio da imprensa local, favoravelmente à intervenção com a finalidade do aproveitamento do potencial turístico oferecido pela bucólica e tradicional via pública ribeirinha, com todos seus logradouros e paisagens pictóricas, que são, inegavelmente, pontos de atração dos inúmeros visitantes que recebe a Noiva da Colina (JP, 16 de junho de 1973). No ano de 1974, concomitante ao processo de desapropriação, o primeiro Plano Diretor da Cidade estava sendo elaborado sob coordenação do arquiteto Joaquim Guedes. Esse Plano previa a utilização das áreas desocupadas para a criação de um grande parque, denominado por ele de “1º Nível”, por meio da agregação dos vazios existentes, integrando-os num “sistema de lazer e áreas abertas”, no qual seriam implantados “parques e campos de jogos” às margens do Piracicaba, além do incentivo aos esportes aquáticos (GUEDES, 1974, p. 111). Esse plano jamais foi implementado, sendo posteriormente retomado e revisado pelo CEMUPLAN – Centro Municipal de Planejamento, órgão municipal, que o revisou e preparou nova versão do Plano Diretor, aprovada em 1985 (Lei Municipal nº 2.644/85). A partir desse momento a questão ambiental agrega-se entre as demandas para a área. No artigo 8º, inciso XIII do Plano Diretor, acrescentava-se à diretriz de ampliar os espaços de lazer e recreação às margens do rio a necessidade de “manter as melhores condições do meio ambiente, dando ênfase à preservação dos recursos naturais e paisagísticos, à criação de áreas verdes, ao combate à poluição e à proteção dos mananciais hídricos”. O PD indicava como uma de suas diretrizes principais Promover a urbanização do parque da Rua do Porto e área do Engenho Central, em caráter prioritário, com vistas à sua transformação em centros de lazer e controlar a ocupação das margens do Rio Piracicaba e outros mananciais, evitando usos inadequados e ameaçadores à qualidade da água (Lei 2.644/85, Artigo 12, inciso XIV). Para realizar esse intento o Plano Diretor, em seu artigo 98, definiu uma legislação diferenciada dentro do zoneamento municipal: a ZIT – Zona Institucional, uma faixa variável entre 100 e 300 metros ao longo das margens do Piracicaba em que se deveria atender o interesse público com relação ao uso e ocupação do solo. Foi definido, ainda, que o Engenho Central deveria ser desapropriado e integrado num complexo de parques à beira-rio (Art. 172). Propostas de intervenção Após o decreto de desapropriação, já em 1973, a municipalidade contratou o arquiteto Manoel de Carvalho para o desenvolvimento do projeto urbanístico, com o objetivo de transformar a Rua do Porto em “recanto turístico”, do qual constariam lago, aquários, restaurantes e lanchonetes, museu e teatro de arena. O casario preservado seria transformado em “vila típica para turistas, com casas de ‘souvenirs’” (JP, 08 de julho de 1973). Inspirado no carioca Aterro do Flamengo foi previsto um complexo esportivo; além disso, contaria com uma série de serviços de apoio, como centros cultural e comercial, discotecas e restaurantes, dentre outros (JP, 08 de março de 1974). A reformulação do sistema viário da área era central no projeto. Foi proposta uma nova via, conectando a Avenida Beira Rio à Estrada do Bongue, à margem esquerda, configurando uma grande via estrutural marginal ao rio. A implantação desse grande parque, paradoxalmente, resultaria numa barreira a uma relação mais qualificada entre o rio e a cidade. Pouquíssimos detalhes restaram dessa proposta, limitada a registros na imprensa local. Ao longo da década de 1970 essa proposta passou a ser duramente questionada, em especial sua perspectiva rodoviarista, razão pela qual não foi implantada. A área permaneceu desocupada, tornando-se objeto de novo estudo em 1977. A proposta “O Parque do Piracicaba”, desenvolvida pelos arquitetos piracicabanos Dulcinéia Gobeth, Luiz Egídio Simoni e Luiz Gobeth Filho, partia de outra relação desejada entre a população e o rio ao definir novas diretrizes para a área, privilegiando o pedestre em detrimento à circulação dos automóveis. Para tanto a proposta propunha a divisão da orla do Piracicaba em sete setores, num trecho de aproximadamente quatro quilômetros, abarcando toda a frente urbana do rio no trecho defronte ao centro da cidade; foram estabelecidas algumas diretrizes básicas, de acordo com as caraterísticas e vocações reconhecidas em cada um dos setores. Para o parque, caracterizado como “predominantemente urbano”, foram propostos equipamentos que deveriam atender tanto os moradores do entorno (pavilhões comunitários, playgrounds, passeios para pedestres e ciclistas) quanto a população piracicabana de modo geral (anfiteatro, equipamentos esportivos, locais para piquenique, conjuntos culturais, etc). A equipe propunha, como diretriz fundamental ao projeto, repensar o modelo de intervenção urbanística ao longo dos cursos d’água, renegando a lógica da implantação de vias marginais em fundos de vale (GOBETH et al., 1977, p.6). Figura 6 - Projeto “O Parque do Piracicaba” – Proposta para o Setor 2 – Rua do Porto. Crédito: GOBETH et al., 1977 (OTERO et al., 2011, p. 80). As diretrizes genéricas estabelecidas para toda a várzea foram transformadas em propostas de intervenção mais detalhadas para o “Setor 2 – Rua do Porto” – aproximadamente o perímetro desapropriado em 1973 -, definido como um complexo cultural, esportivo e de lazer, baseado nos seguintes princípios: Afastamento de marginal para a criação do espaço contínuo do parque; conservação e restauração do casario existente para preservação das tradições histórico-culturais do ambiente peculiar da rua do Porto, atribuindo-lhe novas funções; manutenção do lago em execução; criação de um sistema de circulação exclusivo para pedestres e ciclistas; formação de bosques; e estacionamento ao longo de toda a marginal proposta (GOBETH et al., 1977, p.11). Como pode ser visto na Figura 6, para a área em questão identificou-se vocação ao lazer e ao turismo. Foi proposto um parque de caráter urbano, valendo-se do casario existente para a implantação de infraestrutura e equipamentos de apoio. Para a área próxima à cabeceira da Ponte do Morato propunha-se uma série de equipamentos esportivos. As duas áreas correspondem, grosso modo, aos atuais Parque da Rua do Porto e Área de Lazer do Trabalhador, tendo obedecido, de modo geral, às diretrizes estabelecidas nessa proposta. O ponto central dessa proposta é sua diretriz viária: em contraposição ao projeto do arquiteto Manoel de Carvalho, esta propõe o afastamento do sistema viário das margens do Piracicaba para os limites externos do parque, garantindo a integração e o contato do cidadão a pé com a barranca do rio. Atendendo a essa premissa foi executada, em fins dos anos 1970, a abertura da rua Antonio Correa Barbosa, localizada a cerca de 300 metros de distância da margem do rio, e que passou a ser uma das principais conexões viárias entre o centro e a região oeste do município, conectando a Estrada do Bongue ao sistema viário principal. Além de não constituir uma barreira entre o rio e o novo parque, esta via acabou por desviar o fluxo da avenida Beira Rio, impedindo definitivamente sua configuração como via estrutural, relegando-a a uma verdadeira “via parque”. Outra ação consoante ao projeto foi a implantação da Área de Lazer do Trabalhador, complexo esportivo inaugurado em 1978, contando com quadras poliesportivas, campo de futebol e sanitários públicos, resultando na primeira área pública à margem esquerda do rio. Quanto à área do Parque da Rua do Porto propriamente dito foi conformado o lago em sua configuração atual. Foi realizado, ainda, um plantio de espécies arbóreas, praticamente todo perdido em função de uma feira agropecuária que aí teve lugar no começo dos anos 1980. Porém, como se vê na Figura 7, a infraestrutura no local era praticamente inexistente em 1982, o que ainda perduraria por alguns anos. Permaneciam o complexo esportivo da Área de Lazer do Trabalhador, o lago e o novo sistema viário. E esses elementos, sobretudo o último, tornaram-se fundamentais na direção que tomou a reapropriação da orla, uma vez que passaram a condicionar a sequência das ações em benefício da aproximação cada vez maior entre o cidadão e o rio (OTERO et al., 2011). Figura 7 – Parque da Rua do Porto em março de 1982; à direita, Av. Alidor Pecorari. Crédito: Sinval Sarto (OTERO et al., 2011, p. 84). Figura 8 - Vista área do Parque da Rua do Porto, 2011. Crédito: Justino Lucente (OTERO et al., 2011, p. 88). O processo de ocupação e qualificação da área tomou impulso ao final dos anos 1980 devido à decisão do poder público local de transferir a sede do Poder Executivo Municipal para a região. O projeto tanto do novo Centro Cívico quanto do Parque da Rua do Porto foi elaborado pelo escritório PROPLASA – Projetos e Planejamento S.A., concentrando num edifício de 14 andares de frente para o parque as secretarias antes dispersas no centro da cidade (2). O projeto do parque consistiu na implantação de pistas de caminhada em torno do lago e em meio ao bosque existentes. O projeto ainda contava com sanitários públicos, anfiteatro ao ar livre, espelho d’água e brinquedos infantis. A circulação de veículos pela Rua do Porto foi proibida, convertendo-o num calçadão, tendo sido criados bolsões de estacionamento ao longo da avenida Alidor Pecorari. Esses fatos concorreram para consolidar a vocação gastronômica da região da Rua do Porto. As obras foram executadas no ano de 1988. Uma das grandes dificuldades da implantação do parque consistiu na definição de espécies arbóreas adequadas às condições específicas do sítio, saturado de água longos períodos do ano e sujeito a recorrentes inundações. À época essas dificuldades não se restringiam apenas a sua especificação, mas também a encontrar essas espécies em quantidade – e qualidade – suficientes à implantação. Logo no início de 1989, divergências sobre a quem caberia a responsabilidade pela manutenção do espaço, se à Secretaria de Turismo ou à extinta Secretaria de Serviços Públicos, levou ao fechamento do parque. A ausência de manutenção comprometeu parte do plantio recém-executado. Outro ponto de conflito dizia respeito ao próprio caráter do espaço público, com o choque entre grupos que consideravam que este deveria ser um importante espaço de lazer da cidade, e aqueles que apenas enxergavam a condição de APP, o que implicaria em seu isolamento. O caráter de parque público, por fim, trinfou, e este se consolidou como um dos principais espaços de lazer da sociedade piracicabana. A reapropriação da margem direita A margem esquerda do rio Piracicaba em seu trecho central, onde se encontra o Engenho Central, também enfrentou um longo processo até ser incorporada ao patrimônio público. Desde a primeira metade do século XIX há indícios de que a área já era ocupada por engenhos de açúcar e álcool. O Engenho Central, aí fundado em fins do século XIX, manteve-se em operação até 1974, ano de encerramento de suas atividades. Desde seu fechamento, diversas propostas de intervenção, uso e ocupação foram se sucedendo, variando muito tanto em relação ao programa de necessidades, quanto às definições entre a preservação do conjunto edificado existente e a propositura de novas edificações no Engenho Central. O primeiro projeto para a área trata-se de uma encomenda da Prefeitura ao arquiteto Oscar Niemeyer, em 1982, para a implantação do Centro Cívico. Contudo o Engenho Central ainda era propriedade privada à época. A proposta previa a demolição de inúmeros edifícios, preservando-se apenas os blocos da refinaria e da fábrica, de maiores proporções, além da sede administrativa. Os diversos órgãos da administração municipal seriam abrigados em novos edifícios de feição moderna. Propunha-se, ainda, a construção de uma nova ponte conectando as duas margens. A fim de garantir o acesso público a esse importante patrimônio e às margens do rio, a Prefeitura deu início, em 1989, às ações para a desapropriação do complexo. O primeiro ato da administração com essa finalidade foi decretar o tombamento do conjunto (Decreto Municipal 5.036, de 11 de agosto de 1989) e a utilidade pública da área de mais de sete hectares, além dos quase 12 mil m² de área construída (Decreto Municipal 5.054, de 29 de setembro de 1989). O antigo proprietário questionou judicialmente o valor pago pela Prefeitura, e o imbróglio jurídico desenrolou-se ao longo das duas décadas seguintes. A despeito da ocupação precária, o complexo do Engenho Central converteu-se num dos mais importantes espaços de lazer e cultura do município. Figura 9 – Vista aérea geral do Complexo do Engenho Central. Crédito: Christiano Diehl Neto (FERRAZ, 2011, p. 97). Estas ações atendiam às determinações do Plano Diretor aprovado em 1985, e que previam a implantação de parque público no local (Lei Municipal 2.641/85, Artigo 172, §2º). Em 1992, após a realização de reformas e adaptações em prédios do complexo, a SEMAC – Secretaria Municipal de Ação Cultural foi para lá transferida. Além disso, o Engenho se consolidou como parque público, tornando-se palco de inúmeros eventos da cidade, a exemplo do tradicional Salão Internacional do Humor e, mais recentemente, de feiras como o SIMTEC – Simpósio Internacional e Mostra de Tecnologia e Energia Canavieira. Um dos acontecimentos decisivos para a apropriação pela cidade desse espaço foi a implantação, em 1992, da Passarela Pênsil, estabelecendo uma nova conexão exclusiva para pedestres entre o complexo e a área central. A Passarela foi encomendada pela Prefeitura ao LAMEM – Laboratório de Madeiras e Estruturas de Madeiras da USP São Carlos. Esse novo acesso, além de ampliar as possibilidades de circulação e acesso, converteu-se num marco na paisagem. Além da nova passarela, no ano de 1992 foi elaborado o primeiro estudo destinado a identificar a vocação do complexo agora de posse do poder público, realizado pelo escritório Battagliesi & Carvalho Arquitetos Associados. O “Programa Básico de Ocupação e Uso do Engenho Central” partiu de uma caracterização histórica, econômica, geográfica, arquitetônica e urbanística da cidade e da região detendo-se, especialmente, sobre as características espaciais específicas do espaço. Complementadas com uma série de entrevistas e com a aplicação de questionários, o referido estudo identificou o Engenho Central em sua vocação como “espaço privilegiado de encontro da comunidade de Piracicaba”, além de polo turístico de alcance regional. Os equipamentos recreativos, culturais e de lazer previstos pelo estudo procuravam garantir a sustentabilidade econômico-financeira de toda a intervenção. Para tanto, propunham-se equipamentos de três naturezas distintas: 1) aqueles a serem administrados pela Prefeitura, como o setor administrativo, um museu da cana, as praças de eventos e oficinas, biblioteca e arquivo públicos; 2) aqueles a serem administrados por instituições de fomento cultural ou de lazer, como cinemas, teatro, academia de esportes etc; 3) aqueles a serem explorados comercialmente pela iniciativa privada com fins lucrativos, como hotel, restaurante, centro de convenções e escritórios (CARVALHO & BATAGLIESI, 1992, p.99). A implantação e administração do complexo caberia a uma fundação a ser criada especificamente para esse fim; esse estudo, entretanto, não chegou a ser posto em prática. No ano seguinte a UNIMEP – Universidade Metodista de Piracicaba realizou grande debate com o intuito de discutir a vocação do complexo, enfatizando-se seu valor simbólico para os cidadãos do município e suas possibilidades enquanto espaço público (AZEVEDO, 1994). Em 1995 um novo estudo denominado “Projeto Engenho de Piracicaba”, de autoria do arquiteto Carlos Bratke, propunha o aproveitamento das edificações históricas para a constituição de um complexo de convenções e exposições, valendo-se das áreas vazias para a implantação de um centro empresarial dotado de centros comerciais e edifícios de escritórios (BRATKE, 1995, p.152). Para que o empreendimento se viabilizasse financeiramente propunha-se uma parceria público-privada, por meio da exploração comercial da área desocupada (BANCO DE IDEIAS, 1994, p. 3). Esta proposta também não foi levada adiante. Deve-se ao imbróglio jurídico em torno da desapropriação, resolvido apenas em 2009 e que havia se arrastado ao longo das décadas de 1990 e 2000, o fato de poucas ações terem sido empreendidas. No começo da década seguinte desenvolveu-se novo estudo, desta vez para a implantação de um Museu de Ciência e Tecnologia. No ano de 2004 este foi detalhado, sob a forma do denominado “Anteprojeto de Arquitetura e Plano de Uso e Ocupação do Complexo Engenho Central e Parque do Mirante”, pelo escritório Brasil Arquitetura, em que se definiu um caráter de complexo cultural e parque de eventos para o Engenho Central, tendo por equipamento central o Museu de Ciência e Tecnologia, incorporando os usos e atividades préexistentes e consolidados e acrescentando outros, sempre tendo por objetivo garantir a viabilidade financeira tanto da implantação quanto da gestão do espaço. O Museu de Ciência e Tecnologia seria instalado nos maiores e mais imponentes edifícios do conjunto, conformando com o Museu do Papel e Artes Gráficas um complexo cultural. A administração seria instalada num outro edifício do complexo, especialmente adaptado para esse fim; uma vasta infraestrutura deveria ser executada de modo a dar suporte aos usos e eventos consolidados, como o Salão Internacional do Humor, a Paixão de Cristo, a Festa das Nações e o SIMTEC, além de shows e exposições variados (FANUCCI & FERRAZ, 2004, p. 1-3). A sustentabilidade econômico-financeira foi objeto de um estudo específico, desenvolvido pela Barbara Consultoria, em que se buscava “propor usos que possibilitem um desenvolvimento sustentável, sem tirar o brilho de seus propósitos originais”. (BARBARA et al., 2004, p. 34). Esta proposta acabou por ter o mesmo destino das anteriores, não tendo sido levada a cabo; contudo, parte da proposta serviu de base ao desenvolvimento, pelo mesmo escritório Brasil Arquitetura, do projeto do Novo Teatro do Engenho Central, grande equipamento municipal o qual atualmente encontrase em obras, devendo se inaugurado em 2012. Esta será o primeiro grande equipamento a ser implantado na área, 23 anos após sua desapropriação. No ano de 2006 foi a vez do arquiteto Paulo Mendes da Rocha e do escritório Piratininga Arquitetos Associados desenvolverem proposta para o complexo, contratados pela Raízen, multinacional do setor sucroalcooleiro, que o doou à Prefeitura. O projeto tinha por programa básico a implantação de um espaço para feiras, exposições e convenções, com toda uma infraestrutura executada para esse fim. Para isso propunha uma série de equipamentos a que denominava “estruturadores”: o novo Restaurante do Mirante, o Grande Teatro, Administração, Exposições, Restaurante da Esplanada, Centro de Convenções (reciclando os edifícios existentes), Hotel e Grande Pavilhão de Exposições (ambos em novas edificações). O programa e sua concepção projetual não foram levados adiante, a despeito de suas diretrizes e propostas de infraestrutura terem servido de base às recentes obras na área. O acordo pondo fim à pendência jurídica relativa à desapropriação foi firmado entre a Prefeitura e o antigo proprietário em agosto de 2009, estabelecendo-se valores e prazo de pagamento, definindo a propriedade da área e eliminando os últimos entraves à sua efetiva apropriação. Projeto Beira-Rio: uma abordagem sistêmica da relação rio-cidade As inúmeras ações e propostas para trechos das margens do Piracicaba, que vimos anteriormente, apesar de importantes para promover a reaproximação do cidadão piracicabano ao rio, careciam de um olhar abrangente e sistêmico, que englobassem ambas as margens numa reflexão integrada. Apenas em 2001 surgiu uma iniciativa nesse sentido, procurando instituir um processo de reflexão e proposição com vistas à qualificação permanente da relação entre o rio e a cidade: o Projeto Beira-Rio. O Beira-Rio teve início com a constituição de uma equipe multidisciplinar que deveria produzir um diagnóstico “espacial, social e cultural destinado a identificar as características, problemas e potencialidades presentes na relação entre a cidade e o rio” (OTERO et al., 2007, p. 5). Neste início identificou-se que a qualificação da relação entre a cidade e o rio deveria ser mais que um projeto meramente paisagístico, definindo ações integradas e abrangentes. Uma vez que o rio é indissociável da identidade local, Arlindo Stéfani, coordenador do Diagnóstico, identificou que a “cultura está no centro da revitalização do rio” (STÉFANI, 2001, p. 50). A partir das premissas e conclusões do diagnóstico, foi constituída equipe que tinha por atribuição principal elaborar o PAE – Plano de Ação Estruturador, definindo as diretrizes para as intervenções públicas e particulares às margens do Piracicaba, tendo por base “a preservação do patrimônio cultural, considerado como a integração entre o natural e o construído” (OTERO et al., 2007, p. 7). Dentre as diretrizes estabelecidas pelo PAE estão: 1) a prevalência do pedestre; 2) o tratamento da margem como espaço público; 3) a preservação e a valorização do patrimônio cultural (comportando o natural e o construído); 4) a manutenção dos usos consolidados; 5) a integração com o entorno e a re-vegetação da mata ciliar. Um estudo voltado à recuperação da vegetação nativa às margens do rio Piracicaba fazia parte do PAE, tendo sido desenvolvido pelo LERFESALQ/USP - Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a “Proposta de Adequação Ambiental e Paisagística de trecho urbano do rio Piracicaba e entorno”. Neste estudo buscaram-se definir diretrizes e técnicas apropriadas ao plantio e manejo, subsidiando os projetos de intervenção, as espécies nativas a serem plantadas bem como as árvores a serem suprimidos por inadequadas ao ambiente ribeirinho. Figura 10 – Escala Urbana do Projeto Beira-Rio. Crédito: PMP, 2003. Uma das principais propostas do PAE foi a divisão da orla urbana do Piracicaba em oito trechos, cada um contando com diferentes diretrizes e propostas, de acordo com suas características específicas. O Trecho 1/Central, representado por ambas as margens entre as pontes do Mirante e do Morato, foi escolhido como primeira área objeto das intervenções. Em 2004 o Calçadão da Rua do Porto passou por uma grande intervenção para sua requalificação, adotando como diretrizes de projeto a preferência ao pedestre no espaço público, a cultura como elemento central, a recuperação dos patrimônios natural e construído, a manutenção dos usos consolidados e ampliação e melhoria do acesso físico e visual dos cidadãos ao rio e suas margens. A partir de 2006 as obras tiveram sequência, em área contígua à rua do Porto, ao longo da avenida Beira Rio, tendo observado as mesmas diretrizes de intervenção. Isto vem sendo traduzido sob a forma do desmonte de parte da via marginal ao rio, com redução das faixas de rodagem, sua conversão em via de mão única e significativa ampliação das calçadas, com melhorias no acesso a diversos equipamentos públicos aí localizados, como a Casa do Povoador (tombada pelo CONDEPHAAT), a Passarela Pênsil e o Museu da Água (espaço cultural implantado na antiga estação de captação e tratamento de água municipal do século XIX). Ao longo de 2012 serão realizadas novas intervenções ao longo da Avenida Beira Rio. Todas as etapas de intervenção contaram com apoio e suporte financeiro, parcial ou integral, da Petrobras. Figuras 11 – Rua do Porto antes das obras de requalificação. Crédito: Sabrina Bologna (LEME et al., 2011, p. 124). Figura 12 - Rua do Porto com as obras recém-concluídas em 2004. Crédito: Eduardo Martini (LEME et al., 2011, p. 127). Ao tempo do desenvolvimento do Projeto Beira-Rio foi dada sequência às ações destinadas a tratar a totalidade dos efluentes da cidade. Foi firmado um TAC – Termo de Ajustamento de Conduta entre a Prefeitura Municipal e o Ministério Público Estadual, com previsão de conclusão das obras para o ano de 2012. Considerações finais A experiência piracicabana de recuperação e requalificação das margens do rio que lhe empresta o nome é significativa, pois demonstra que uma relação mais qualificada entre ambientes urbanos e corpos d’água é possível, além de viável. A importância do processo estabelecido em Piracicaba há cerca de 40 anos faz-se importante, sobretudo, pelo contexto de alta degradação ambiental e ocupação privada das margens, cuja recuperação demandou um grande esforço da cidade desde então. Não se tratavam, como observado no texto, de áreas remanescentes, mas de trechos que passaram por significativa ocupação e exploração ao longo da história do município. Reverter esse quadro, estabelecendo uma outra relação mais qualificada entre a cidade e o rio foi uma decisão da sociedade local que, por meio de seu poder público, converteu a reapropriação e requalificação das margens como uma das prioridades de ação local. O fato de o processo ter-se desencadeado em princípios dos anos 1970, momento em que a cidade contava com pouco mais de 150 mil habitantes, e a questão ambiental ainda não constava na pauta das administrações públicas, denota uma rara visão de futuro com relação à qualidade de vida urbana. Muito desse pioneirismo local deve-se, certamente, ao forte vínculo cultural entre a população local e o rio Piracicaba, contribuindo para esse desejo de requalificação. Mas, mesmo com esse suporte social, o esforço empreendido de modo continuado pela municipalidade, atravessando distintas gestões de orientações político-ideológicas as mais diversas, permanece admirável. No caso em tela pode-se observar que as intervenções, em graus variados, procuraram conjugar ações de melhoria urbanística, ampliando o acesso e a utilização dessas áreas pela população, ao mesmo tempo em que procuravam ser coerentes com as características ambientalmente sensíveis desse sítio, o que foi, de certa maneira, bem sucedido. Nesse sentido, as ações implementadas em Piracicaba ao longo das últimas décadas parecem corroborar a premissa estabelecida por Mello (2011, 2008). Ao ampliar as possibilidades e a qualidade da interação entre a população e o corpo d’água, reforçaram-se os vínculos culturais que os ligavam, com a consequente ampliação do desejo de preservação. Notas (1) (2) O presente artigo origina-se da pesquisa empreendida para a elaboração do livro “Piracicaba, o rio e a cidade: ações de reaproximação”, organizado pelo autor em conjunto com a jornalista Sabrina Rodrigues Bologna e a engenheira civil Maria Beatriz S. D. Souza. Os temas aqui desenvolvidos foram trabalhados em dois artigos presentes no referido livro: “A Reconquista das Margens do Rio Piracicaba: uma reconstrução histórica à guisa de introdução” de autoria de Estevam Vanale Otero e Maria Beatriz S. D. Souza; e “Parque da Rua do Porto e Área de Lazer do Trabalhador: gênese da reaproximação com o rio”, de autoria de Estevam Vanale Otero, Sabrina Rodrigues Bologna e Arlet Maria de Almeida. O Centro Cívico encontra-se implantado em área definida como Sistema de Lazer do Loteamento Chácara Nazareth, aprovado em 1967. Referências Bibliográficas AZEVEDO, Israel Belo (Coord.). “Produzindo o Engenho Central”. Piracicaba: UNIMEP, 1994. barbara. “Projeto Parque de Piracicaba”. São Paulo, 1994. BARBARA, Hani Ricardo; BARBARA, Fábio; BARBARA, André. “Complexo Engenho Central e Parque do Mirante: Consultoria de Viabilidade Econômica”. São Paulo: Barbara Consultoria, 2004. 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