Educar para conservar
Como a educação patrimonial faz aliados para conservar a cultura material em Monte Alegre
Jimena Felipe Beltrão, Agência Museu Goeldi
A
preservação do patrimônio arqueológico tem
um componente educativo que o projeto ‘‘Arte
Rupestre em Monte Alegre’’ não esqueceu.
Inerente às ações da Arqueologia na atualidade, a
abordagem pedagógica é elemento-chave e na
iniciativa no Oeste do Pará, se dará a partir de
instrumentos como os livros infantil e adulto e o
documentário. Mariana Sampaio e Arenildo Santos
são responsáveis por contemplar públicos da zona
urbana e da zona rural. “Como a comunidade vivencia
o parque de forma mais intensa, ter esse público nas
ações educativas deve contribuir para um novo olhar
sobre o Patrimônio Arqueológico da Unidade de
Conservação”, argumenta Mariana, referindo-se ao
Parque Estadual de Monte Alegre (PEMA).
Mestre em Arquitetura e doutoranda de Antropologia
pela Universidade Federal do Pará (UFPA), a técnica
do Fórum Landi, Mariana Sampaio, tem 20 anos de
experiência em educação patrimonial. Ela se associou
ao professor da rede pública municipal de Monte
Alegre e mestrando em Arqueologia, Arenildo Santos,
na tarefa de treinar estudantes e professores para o melhor aproveitamento em médio e longo prazos do material
produzido por iniciativa do projeto. ‘‘Na medida em que a população local é incluída nas ações educativas aumentam
as chances de preservação deste legado”, diz a Coordenadora, a arqueóloga do Museu Paraense Emilio Goeldi,
Edithe Pereira.
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Janeiro de 2013
ISSN 2175 - 5485
Jussara Kishi
Informativo do Museu Paraense Emílio Goeldi
Da Terra - Filho da terra, educador, Arenildo Santos começou a trabalhar na equipe do projeto na condição de
professor local e potencial multiplicador das ações para preservação do patrimônio arqueológico no município de
Monte Alegre. Educação e cidadania caminham juntas, e, para o também bacharel em história e mestrando em
Arqueologia na Universidade Federal do Pará (UFPA), “Toda ação educativa pode resultar em comportamentos e
valores que contribuem para o desenvolvimento da cidadania”. Para o educador nascido em Monte Alegre, “O ser
humano ama e respeita o que conhece”. Ele acredita “que um conjunto de ações de Arqueologia Pública pode
contribuir para (re)construir coletivamente e/ou democratizar conhecimento que certamente sensibilizam dentro de
um processo de valorização da cultura como um todo, e neste caso em especial as pinturas rupestres do PEMA.”
Com o envolvimento da comunidade, Mariana acredita que “Os moradores de Monte Alegre passam a ter maior
conhecimento sobre a história do lugar, sobre sua própria história e principalmente sobre o Patrimônio Arqueológico do
PEMA”. Segundo a educadora, “Esse conhecimento se desdobra em sentimentos de apropriação e afeto pela história
do lugar que, certamente, contribuirão para um novo olhar sobre si mesmos e sobre Monte Alegre. Um olhar de
admiração e orgulho”.
Os mediadores treinados são instrumentais a cada oportunidade em que o tema do patrimônio for tratado na
comunidade: “Em ações futuras, este grupo será novamente requisitado”, informa a especialista em Educação
Patrimonial. “A abordagem do tema Patrimônio Arqueológico, feita junto a cada grupo, partiu da discussão do conceito
de Memória, com reflexões sobre a necessidade humana de guardar coisas e histórias para, assim, perpetuar sua
existência, desde os objetos e histórias de família até os objetos e histórias dos grupos humanos, bairros, cidades,
países”, explica Mariana.
Lançando mão de relatos de viajantes, a educadora estimula os atores a compreender da memória particular e
individual até a memória coletiva e social. A História da Ocupação da Amazônia e de Monte Alegre também são temas
de estudo. A estratégia educativa de Mariana tem “enfoque aprofundado na Pré-História da Amazônia e de Monte
Alegre, que compõe o estudo sobre a representação do homem pré-histórico dotado de um grande conhecimento
sobre a natureza, sobre os astros”.
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Cultura ancestral
nas serras de Monte
Alegre no Pará
Arqueologia do Museu Goeldi realiza pesquisa no Oeste paraense há
20 anos. Estudos se dedicam ao levantamento, registro e conservação
de inscrições rupestres no Parque Estadual de Monte Alegre, no
coração da Amazônia brasileira. O projeto ‘‘Arte Rupestre de Monte
Alegre: Difusão e Memória do Patrimônio Arqueológico’’, realizado pelo
Museu Paraense Emilio Goeldi em parceria com a Sociedade de
Arquelogia Brasileira, e patrocinado pela Petrobras e Ministério da
Cultura, apresenta resultados à população da região e estimulações de
conservação do patrimônio.
Edithe Pereira
A ideia é reforçada no argumento de Mariana Sampaio, de que “É a aliança com a comunidade que determina o
sucesso”. Para ela, “Não basta informar para assegurar a preservação do bem cultural. É necessário perceber a
relação das pessoas com seus bens culturais, desvendar os sentidos atribuídos ao lugar para desconstruí-los ou
reiterá-los, e, assim, estabelecer estratégias de apropriação desses bens”. “Partimos dos saberes dos moradores de
Monte Alegre; o que eles acreditam que são aquelas imagens? Como foram feitas? O que elas significam? Quem as
fez? E por quê?” segundo a visão de Arenildo. Ele cita um exemplo de como a percepção dos moradores interfere no
tratamento dispensado ao patrimônio. E conta: “Alguns moradores acreditam que aquelas pinturas adentram
profundamente na rocha e que se forem perfuradas, a “tinta” não apaga. Esta percepção tem colaborado para danificar
as pinturas”.
Preservação de patrimônio arqueológico se revela desafio que exige criatividade
Com patrocínio da Petrobras e do Ministério da Cultura, Museu Paraense Emílio Goeldi e Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) desenvolvem projeto para aproximar dos
habitantes de Monte Alegre, no Oeste do Pará, a história ancestral traduzida em registros nas rochas desse município. “Arte Rupestre de Monte Alegre: Difusão e Memória do
Patrimônio Arqueológico” conta com uma vasta programação.
conscientização da sociedade é aspecto estratégico para evitar a destruição do patrimônio deixado pelos
nossos antepassados.” Palavras da arqueóloga Edithe Pereira, do Museu Paraense Emílio Goeldi
(MPEG), elas estão refletidas no projeto ‘‘Arte Rupestre de Monte Alegre: Difusão e Memória do
Patrimônio Arqueológico’’, realizado pelo MPEG em parceria com a Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), que
se utiliza da arte e da educação patrimonial para conscientizar os moradores de Monte Alegre, município do Oeste
paraense, sobre a importância de se preservar a arte deixada por amazônidas ancestrais nas rochas das serras, que
apresentam movimentação de placas tectônicas bastante peculiar em relação a outras regiões da Amazônia.
‘‘A
lançamento do vídeo-documentário ‘‘Imagens de
Gurupatuba’’, do diretor de cinema Fernando
Segtowick. Valendo-se da arte e da educação para
deixar as inscrições milenares ainda mais próximas da
realidade das pessoas que fizeram desse município o
próprio lar, essas criações podem ser conferidas na
mostra ‘‘Visões’’.
Seja pintura, seja gravura, a arte rupestre é um legado de povos ancestrais que na Amazônia viveram. Vestígios de
civilização e registros de formas de vida que nos precederam, esses achados se encontram no Oeste do Pará,
município de Monte Alegre. É onde se desenvolvem as ações de pesquisa arqueológica e educação patrimonial
realizadas pelo Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG). Coordenado por Edithe Pereira, o projeto conta com
patrocínio da Petrobras e do Ministério da Cultura e sua equipe buscou suporte em outras formas de divulgação –
como este jornal, exposição, vídeos, poesia e pintura – para alcançar um público maior e cativar uma audiência para a
beleza estética da arte rupestre com registros no coração da Amazônia.
Educação e arte - A preservação do patrimônio é
sempre um desafio. Para a coordenadora das
pesquisas realizadas em Monte Alegre, a arqueóloga do
Museu Goeldi, Edithe Pereira, a arte, a criatividade e a
diversidade de meios são algumas das formas mais
eficientes para esclarecer e sensibilizar a populaçãoguardiã dessa herança milenar. “Aspecto estratégico
para evitar a destruição do patrimônio deixado pelos
nossos antepassados”, a educação patrimonial,
segundo a Coordenadora, lança mão da interação com
a comunidade que vive no local onde os sítios
arqueológicos são identificados.
Visões - No dia 13 de dezembro de 2012, o Museu
Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e a Sociedade de
Arqueologia Brasileira (SAB) abriram, em Monte
Alegre, a exposição ‘‘Visões: A Arte Rupestre em
Monte Alegre’’, resultante de um trabalho de pesquisa
desenvolvido há 24 anos pela equipe de arqueólogos
da instituição sob a coordenação da Dra. Edithe
Pereira. Esses estudos são a base dos produtos
elaborados no âmbito do projeto ‘‘Arte Rupestre de
Monte Alegre: Difusão e Memória do Patrimônio
Arqueológico’’, parceria do Goedi com a SAB que visa
à ampla difusão do patrimônio arqueológico brasileiro.
Governo do Brasil
Presidente da República
Dilma Vana Rousseff
Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação
Marco Antônio Raupp
Autores de livros sobre o patrimônio arqueológico
autografam suas obras em evento em Monte Alegre
Editora
Jimena Felipe Beltrão, 728 DRT-PA
Edição Agência Museu Goeldi
Serviço de Comunicação Social do
Museu Paraense Emílio Goeldi
Museu Paraense Emílio Goeldi
Diretor
Nilson Gabas Júnior
Coordenadora de Comunicação e Extensão
Wanda Okada
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Diagramação e arte final
Amilcar de Lima Cabral Neto
Participaram desta edição
Antonio Fausto, Jimena Felipe Beltrão, Jussara Kishi
Av. Magalhães Barata, 376, 66040-170
Belém - PA – Brasil
Coordenador de Pesquisa e Pós-Graduação
Ulisses Galatti
Em campo, arqueóloga, escritor e aquarelista:
Edithe Pereira, ao centro; Juraci Siqueira, à
esquerda; e Mário Baratta, à direita.
A pesquisa é outra forma de aproximar, da população de
Monte Alegre, os resultados de estudos científicos que
determinam a importância, datam e interpretam as
inscrições nas rochas do Parque Estadual de Monte Alegre. Ciência que se aproxima da sociedade para garantir que
futuras gerações possam usufruir dos traços e da beleza que populações pretéritas deixaram como registro de sua
passagem pela região.
Jussara Kishi
A exposição está no Salão Nobre da Escola Imaculada
Conceição, defronte à Praça Matriz de Monte Alegre, e
fica aberta à visitação gratuita até o dia 15 de março. A
abertura da exposição, em dezembro passado,
integra vasta programação que inclui, também, o
lançamento de dois livros: ‘‘Arte Rupestre de Monte
Alegre’’, de Edithe Pereira, e ‘‘Itaí, a carinha pintada’’,
obra dedicada inteiramente às crianças, de autoria do
poeta Juraci Siqueira, ilustrada por aquarelas de
Mário Baratta. Em Monte Alegre, houve também o
Carlos Baia
Jimena Felipe Beltrão e Jussara Kishi
Tel.: + 55 91 3219-3312
Fotografias
Carlos Baia, Edithe Pereira, Jussara Kishi
Revisão
Antonio Fausto
Da variada programação realizada no município em dezembro passado, destacou-se também o Ciclo de Debates
‘‘Arte Rupestre de Monte Alegre – Difusão e Memória do Patrimônio Arqueológico’’, realizado no dia 14 de dezembro
de 2012, que contou com a participação da pesquisadora do MPEG Edithe Pereira; do arquiteto e aquarelista Mário
Baratta; do escritor Juraci Siqueira; e da educadora Mariana Sampaio. O debate teve lugar no Auditório da Escola
Estadual Tecnológica do Pará. No mesmo dia, os representantes do projeto ‘‘Arte Rupestre de Monte Alegre: Difusão e
Memória do Patrimônio Arqueológico’’ se reuniram para um bate-papo transmitido para a zona urbana e rural do
município pela Rádio Comunitária Gurupatuba.
Mediação - A divulgação da importância da arte rupestre para dar a conhecer civilizações amazônidas ancestrais
incluiu, também, um componente de treinamento de estudantes e professores dos mais relevantes para a difusão
desse patrimônio arqueológico. São eles que estão atuando como mediadores para receber os visitantes da
exposição e, em ações futuras, vão replicar a experiência. Essa ação educativa é feita pela arquiteta e educadora
Mariana Sampaio e pelo historiador Arenildo Silva.
Mariana falou sobre as ações do projeto coordenadas por ela junto à rede pública de ensino do município, que incluiu a
realização do curso de “Mediadores culturais” para 16 estudantes, selecionados para informar o público visitante da
exposição ‘‘Visões’’. Além de agregar conhecimento científico, um dos focos do curso foi provocar nos alunos uma
reflexão sobre como se aproximar do público e fazer com que ele se questione por que não deve depredar as pinturas e
gravuras. “Eu já tinha visitado a Serra do Pilão e a Serra da Lua antes, mas só via desenhos ali. Depois do curso, tive
uma ideia diferente das pinturas, como arte que os povos antigos faziam para se expressar”, disse Marcos Santos
Lemos, 15 anos.
As atividades de dezembro em Monte Alegre encerraram com uma oficina, ‘‘Olhar, Perceber, Conservar’’, ministrada
pelo aquarelista Mário Baratta, com a intenção de despertar nos moradores da região, particularmente nos jovens, o
respeito e a preservação do patrimônio local, por meio de ações que envolvem o fazer, o olhar e, também, a percepção
visual. “Ninguém ama aquilo que não conhece e muito menos defende aquilo que não ama. É preciso conhecer para
amar e amar para defender”, afirma o poeta Juraci Siqueira, que escreveu para as crianças da região a obra ‘‘Itaí, a
carinha pintada’’, ilustrada com as aquarelas de Baratta.
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Lugares, formas e tema ancestrais
Na ponta do lápis e do pincel
Livro “Arte Rupestre de Monte Alegre – Pará, Amazônia, Brasil” apresenta as venturas e as preocupações
da arqueóloga Edithe Pereira com as pesquisas sobre a arte rupestre de Monte Alegre
S
ituado no estado do Pará, região do Baixo Amazonas, o município de Monte Alegre é considerado pela
comunidade científica como um dos mais antigos assentamentos populacionais da Amazônia. Frutos de uma
movimentação de placas tectônicas sem par no Norte brasileiro, serras, cavernas e cachoeiras abrigam
vestígios de populações ancestrais que habitaram a Amazônia há milhares de anos e que usaram essas formações
rochosas como suporte para a representação gráfica de aspectos importantes da sua cultura. Conhecidas como arte
rupestre, essas representações ancestrais são o foco do livro que a arqueóloga Edithe Pereira, do Museu Paraense
Emilio Goeldi (MPEG), lançou no final de 2012.
Intitulada ‘‘A Arte Rupestre de Monte Alegre – Pará, Amazônia, Brasil’’, a
obra integra o projeto ‘‘Arte Rupestre de Monte Alegre: Difusão e
Memória do Patrimônio Arqueológico’’, que a arqueóloga coordena com
o objetivo de proteger o patrimônio arqueológico do município, em
particular as pinturas e gravuras rupestres. Baseado na trajetória de
conhecimento empreendida pela arqueóloga no Oeste paraense desde
o inicio da década de 1990, o livro apresenta o estado da arte, assim
como as demandas mais recentes, das pesquisas dedicadas aos
grafismos ancestrais registrados nas rochas mundo afora para, só
então, centrar esforços nos estudos empreendidos pelo Museu Goeldi
em Monte Alegre.
Reprodução
Do tempo, das pessoas, dos sentidos – Uma das mais antigas
pinturas rupestres já registradas no país está em Monte Alegre, na área
em que, hoje, é o sítio arqueológico Gruta do Pilão (ou da Pedra
Pintada) e data de 11,2 mil anos atrás. A dedicação àquele município do
oeste paraense não impede ‘‘A Arte Rupestre de Monte Alegre – Pará,
Amazônia, Brasil’’ de mencionar, também, o Parque Nacional da Serra
da Capivara, no Piauí, onde foram registradas as pinturas rupestres
mais antigas do Brasil até então, feitas há 12 mil anos. Segundo o livro,
ainda que o Norte do país abrigue uma grande quantidade de sítios
arqueológicos – cerca de 300 são conhecidos atualmente –, é uma
região ainda carente em termos de pesquisas sobre essa arte ancestral.
A pintura é uma das técnicas que compõem o que se convencionou chamar de arte rupestre e consiste na adição de
um pigmento – então elaborado a partir de recursos ambientais como o óxido de ferro ou o carvão, por exemplo – à
superfície da rocha. Além do vermelho, predominam, nessa técnica, as cores amarela e a preta, as quais aparecem,
algumas vezes, misturadas numa única representação. Formas humanas coexistem com as representações de
animais cujos traços lembram o gavião-real, o peixe-boi, o escorpião e o lagarto, dentre outros. O desenho de círculos
também é recorrente nos sítios arqueológicos de Monte Alegre com pintura rupestre.
As gravuras rupestres compõem outra técnica para a representação de motivos nas rochas. Encontrada
principalmente nos trechos encachoeirados dos rios da Amazônia, ela consiste na retirada de parte da rocha para se
alcançar a representação desejada. Aves, quadrúpedes e peixes eram retratados pelos indígenas ancestrais com a
ajuda de ferramentas que imprimiam na rocha o efeito desejado através de incisões profundas, finas ou picoteadas.
Em Monte Alegre, as gravuras podem ser conferidas principalmente nos trechos encachoeirados do rio Maicuru,mas
só quando as águas baixam, deixando as rochas expostas.
Estado da arte das pesquisas – ‘‘A Arte Rupestre de Monte Alegre – Pará, Amazônia, Brasil’’ traz, também, a
preocupação de uma pesquisadora em dar a conhecer a localização, a cultura e os outros aspectos da vida desses
povos ancestrais a partir da arte rupestre, cuja quantidade de sítios e diversidade temática e estilística dos grafismos
constituem “fonte importantíssima para a pesquisa arqueológica”, afirma Edithe. Segundo a arqueóloga, não basta
tomar tais representações gráficas como manifestações isoladas: elas precisam ser devidamente dimensionadas
num contexto que envolve o ambiente e outros vestígios materiais presentes nesses sítios arqueológicos.
C
Jimena Felipe Beltrão, Agência Museu Goeldi.
om textos de poeta e ilustrações de aquarelista, o projeto ‘‘Arte Rupestre de Monte Alegre’’ produziu o livro
infantil “Itaí, a carinha pintada”. Foram os registros arqueológicos encontrados no município de Monte
Alegre, Estado do Pará, que inspiraram o poeta Antonio Juraci Siqueira e o aquarelista Mário Baratta.
Pedra pequena é a tradução de Itaí, personagem que guia a estória inventada pelo poeta para revelar, a um
público especial, o que é pintura rupestre, patrimônio da humanidade, e sua importância como registro de
civilização antiga, habitante da Amazônia. Ilustrado com reproduções de 15 aquarelas de autoria de Mário Baratta,
o volume introduz o tema e diverte com a poesia e o colorido da arte.
“Conhecimento compartilhado sensibiliza para a importância dos vestígios e sítios arqueológicos”, diz a
Coordenadora do projeto, a arqueóloga do Museu Paraense Emilio Goeldi, Edithe Pereira, que elaborou a
proposta vencedora de edital da Sociedade Brasileira de Arqueologia (SAB). Em sintonia com a Convenção
Internacional para os Direitos das Crianças, o livro infantil é instrumento de aproximação do conhecimento
científico em particular, em iniciativas de educação patrimonial. A aliança da educação com a preservação do
patrimônio pode garantir, segundo os idealizadores do projeto e da obra, a formação de cidadãos preocupados e
capazes de proteger bens culturais como os achados arqueológicos. Para a coordenadora do projeto, Edithe
Pereira, “O livro infantil atinge um componente da população – as crianças – que é fundamental para a construção
de uma nova mentalidade em relação ao patrimônio arqueológico, em particular à arte rupestre”.
Poeta, trovador e seu personagem arqueológico
Entrevista com Juraci Siqueira, autor de ‘‘Itaí, a carinha-pintada’’
ntonio Juraci Siqueira é marajoara de Cajary, município de Afuá. Ainda menino,
descobriu a literatura através do cordel. Licenciado pleno em Filosofia pela
Universidade Federal do Pará (UFPA), Juraci pertence a várias entidades líteroculturais e atua como professor de filosofia, oficineiro de literatura, performista e
contador de histórias. O escritor contabiliza mais de 80 títulos individuais publicados,
entre folhetos de cordel, livros de poesias, contos, crônicas, literatura infantil, histórias
humorísticas e versos picantes. É também colaborador de jornais, revistas e boletins
culturais de Belém e de outras localidades, além de contar com mais de 200 premiações
literárias em vários gêneros, em âmbito nacional e local.
A
Carlos Baia
Antonio Fausto, Agência Museu Goeldi
Um patrimônio dedicado ao público infantil
Destaque Amazônia - O que o levou a aceitar proposta de trabalhar com um tema como a
arqueologia?
Juraci Siqueira – Posso enumerar vários motivos, entre os quais o desafio de encarar o diferente, o novo. Outro
foi pela importância do projeto, não só por vir de uma instituição respeitável como o Museu Paraense Emílio
Goeldi, mas, principalmente, pelo convite ter partido de pessoa competente e determinada como o é a amiga de
muitos anos, arqueóloga Edithe Pereira. Por fim, escrever para crianças é uma dívida que estou pagando aos
poucos e essa era uma bela oportunidade de fazer um pequeno, mas importante depósito nessa conta.
DA - Em que você baseou a criação do Itaí?
JS – Criei a personagem depois de minha visita aos sítios arqueológicos de Monte Alegre e constatar a presença
recorrente em praticamente todos os lugares visitados dos desenhos do rosto humano (carinhas). O nome foi
escolhido juntando dois termos tupi: ITA, que quer dizer pedra, e Í, com o sentido de pequeno. Logo, Itaí, que
literalmente seria “pedra pequena”, ficará subtendido, também, como “carinha de pedra”. Quanto ao conteúdo do
livro, foi baseado no que vi e ouvi durante a visita aos sítios arqueológicos e, principalmente, no livro de Edithe
Pereira. Um esclarecimento do porquê da criação da personagem Itaí: como as “carinhas” já se encontram por lá
há milhares de anos, ela teria mais credibilidade e “autoridade” junto às crianças para contar o que por lá se
passou, mais até do que o próprio autor (risos).
DA - De que forma o trabalho estimulará as crianças a proteger o patrimônio arqueológico?
Com apresentação de Gilson Rambelli, presidente da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), e prefácio de
Carlos Etchevarne, presidente da Associação Brasileira de Arte Rupestre, o livro ‘‘A Arte Rupestre de Monte Alegre –
Pará, Amazônia, Brasil’’ compila os resultados de pesquisas exitosas desenvolvidas pela arqueóloga do Museu
Goeldi no município paraense de Monte Alegre e, também, as angústias com esse fazer arqueológico e a
preocupação com a preservação desse patrimônio que Edithe Pereira convencionou chamar de “O Futuro do Nosso
Passado”.
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JS – Uma de minhas falas por onde quer que eu vá, seja como escritor ou como educador, é que ninguém ama o
que não conhece e nem defende o que não ama. Visitei escolas em Monte Alegre, na própria área do Ererê, em
que, quando perguntados sobre o assunto, muitos alunos confessaram nunca ter visto as pinturas rupestres de
perto, nunca entraram numa gruta. O trabalho tem como objetivo, portanto, chamar a atenção para a importância
desse patrimônio arqueológico e para a urgente necessidade de preservá-lo.
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‘’É importante para qualquer cidadão conhecer o patrimônio cultural do seu lugar’’
Na entrevista abaixo, a Dra. Edithe Pereira, arqueóloga do Museu Paraense Emílio Goeldi, fala do projeto ‘‘Arte Rupestre em Monte Alegre’’, da importância de se preservar as pinturas e gravuras ancestrais presentes nesse
município do Oeste paraense e da urgência do engajamento da população local na conservação desse patrimônio cultural
Antonio Fausto, Agência Museu Goeldi.
D
estaque Amazônia -Você escreveu "Arte Rupestre na Amazônia". Por
que dedicar uma obra – e todo um projeto – a Monte Alegre?
Edithe Pereira - O livro “Arte Rupestre na Amazônia” apresenta um panorama e
um inventário da arte rupestre para todo o estado do Pará e, justamente, por ser
uma obra abrangente não havia espaço para detalhar as características da arte
rupestre de cada uma das áreas apresentadas. Além disso, de todas as áreas
com arte rupestre no Pará, a de Monte Alegre é a que está documentada de
forma mais completa e a que foi estudada em mais detalhes por mim.
DA - Em "Arte Rupestre de Monte Alegre – Pará, Amazônia, Brasil", você afirma
que "Lamentavelmente, o significado que em seu momento foi atribuído aos
motivos pintados ou gravados ficou perdido no tempo". Por que se dedicar,
então, ao estudo da arte rupestre?
EP - O estudo da arte rupestre não está restrito apenas ao significado dos
motivos representados. Como digo no livro, lamentavelmente o significado ficou
perdido no tempo, mas esses vestígios podem nos revelar várias outras
informações sobre os seus autores. Os temas escolhidos e a forma como são
representados constituem as escolhas feitas pelos integrantes de uma
determinada cultura para se apresentar e se representar socialmente perante o
seu próprio grupo e os demais. Essas escolhas estão relacionadas às tradições
culturais de determinado povo sendo, portanto, entendidas, compartilhadas e
reproduzidas no seio da cultura que as produziu. São, portanto, uma forma de
comunicação. Como cada grupo tem uma forma específica de se representar, o
estudo da arte rupestre pode nos ajudar, por exemplo, a identificar diferentes
grupos étnicos. Além disso, o avanço tecnológico permite em algumas
situações obter a datação das pinturas e relacioná-las com a história da
humanidade.
DA - Qual a importância de falar para os moradores do município sobre arte
rupestre e como eles podem se engajar na preservação desse patrimônio?
EP - É importante para qualquer cidadão conhecer o patrimônio cultural do seu
lugar. No caso dos moradores de Monte Alegre, conhecer o patrimônio
arqueológico e, em particular, a arte rupestre significa conhecer a história do
lugar onde vivem e daqueles que lá viveram no passado. Significa conhecer
uma parte da história que não foi escrita em livros, mas que ficou registrada nas
paredes das cavernas e abrigos, mas, também, em outros vestígios como
restos de vasilhames de cerâmica e artefatos em pedra. A partir do momento em
que cada cidadão entende a importância de um patrimônio que é único, que não
se renova e que lhe pertence, pois é o registro do passado da humanidade, a
preservação deste passa a ser significativa e pertinente. Uma possibilidade é a
veiculação dos conhecimentos por meio da história oral, que se faz
cotidianamente no processo de socialização das crianças e ainda por meio da
educação formal onde este conhecimento passa a ser discutido e reconhecido
como parte da vida de cada um que lá foi buscar sua formação intelectual.
Cuidar do patrimônio arqueológico de Monte Alegre é um exercício de
cidadania. É garantir às futuras gerações o direito de conhecer o legado que
deixaram os nossos antepassados.
DA - Não raro os sítios de arte rupestre têm sido alvo de vandalismo, o que
descaracteriza esses vestígios ancestrais. Qual a situação de Monte Alegre em
relação a esse vandalismo?
EP - Existem duas formas de destruição da arte rupestre. Uma é de origem
natural, provocada por diversos agentes como a presença de raízes, casas de
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insetos e escorrimento da água da chuva sobre as
pinturas. No entanto, o maior agente de destruição da
arte rupestre tem sido o homem, seja por
desconhecimento da importância do patrimônio
arqueológico, seja por puro vandalismo, e tem
danificado de diversas maneiras as pinturas
rupestres. Em Monte Alegre, infelizmente, alguns
sítios têm sido alvo de destruição intencional, o que
é lamentável. Reconhecer a importância desse
patrimônio e entendê-lo como um bem que é de
todos é a melhor forma de preservá-lo.
DA - Por que os sítios com gravuras rupestres são
encontrados próximos a cursos d'água, enquanto os
sítios com pinturas rupestres estão localizados em
serras, na maioria das vezes, afastados dos rios?
EP - Essa é a situação que encontramos hoje. Não
Arqueóloga Edithe
sabemos se no passado as pinturas também foram
realizadas nas margens dos rios. Quase sempre, asPereira, coordenadora
gravuras situadas nas margens dos rios ficam submersas das pesquisas em
por vários meses, mas pelo fato de serem gravadas nas rochas
Monte Alegre
elas resistem mais à ação das águas, o que não ocorreria com as
pinturas que são mais frágeis e certamente se diluiriam se ficassem tanto tempo
sob as águas.
DA - No livro "Arte Rupestre de Monte Alegre – Pará, Amazônia, Brasil", você
destaca também a importância de se integrar a arte rupestre aos demais
vestígios materiais nas pesquisas arqueológicas. Arte e demais vestígios ficam
no mesmo sítio? Como se dá essa integração e o que ela representa?
EP - Nem sempre é possível encontrar, em sítios com arte rupestre, outros
vestígios materiais. As gravuras que ficam nas rochas das cachoeiras, por
exemplo, são o único vestígio preservado já que o fluxo constante das águas não
permite a conservação de qualquer outro vestígio. No entanto, há muitos sítios
onde é possível encontrar arte rupestre, cerâmica e artefatos líticos, entre outros
vestígios. A integração se dá através da escavação nesses sítios e na análise de
cada vestígio encontrado. Se encontramos, por exemplo, em uma escavação,
restos do pigmento usado para pintar ou pedaços de rocha com pintura que se
desprenderam do suporte, é possível datar a camada na qual foram encontrados
e saber, aproximadamente, quando foram feitos. Outra possibilidade é a
comparação entre os motivos pintados na rocha e os motivos decorativos da
cerâmica.
DA - Na mesma obra, você explica que alguns autores discordam do uso do
termo "arte" alegando que ele restringe as pinturas e gravuras apenas à
dimensão estética. Esses autores defendem o uso de registro ou grafismo
rupestre. E você, como se posiciona nesse debate? O que acha dessa
discussão?
EP - Eu continuo usando arte rupestre porque é um termo consagrado
mundialmente. Entendo “arte” no sentido de domínio de uma técnica, e nesse
sentido os povos pré-históricos detinham as técnicas de pintar e gravar nas
rochas. Pintar, por exemplo, implica em conhecer a matéria-prima apropriada
para confeccionar e produzir os pigmentos para, finalmente, pintar sobre a
rocha. Independentemente do termo que se use – arte ou registro rupestre – o
importante é o sentido que se dá a esses vestígios do passado.
Fotos: Carlos Baia
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‘’Visões’’ da arte rupestre de
Monte Alegre em exposição
Aquarelista registra patrimônio arqueológico
Realizada pelo Museu Goeldi em parceria com a Sociedade de Arqueologia Brasileira, a exposição “Visões:
Arte Rupestre em Monte Alegre” aborda as pinturas e gravuras ancestrais sob olhares filtrados pela
ciência, mas também pela arte. Com visitação gratuita, a mostra fica aberta até 15 de março de 2013 em
Monte Alegre, no Oeste do Pará.
Jimena Felipe Beltrão, Agência Museu Goeldi.
Antonio Fausto, Agência Museu Goeldi.
Carlos Baia
E
ntrevista com Mário Baratta, arquiteto e aquarelista. O autor das aquarelas
produzidas nas serras de Monte Alegre, no Pará, também é professor do Instituto
de Ciências da Arte, da Universidade Federal do Pará (UFPA). Seu pincel ilustra
o livro infantil “Itaí, a carinha pintada” assim como as quinze aquarelas compõem a
exposição sobre patrimônio arqueológico, ambos produtos do projeto “Arte Rupestre
em Monte Alegre: Difusão e Memória do Patrimônio Arqueológico”.
Mário Baratta é também o coordenador da oficina “Olhar, Perceber, Conservar”,
ofertada aos moradores da região de Monte Alegre com objetivo de despertar o respeito
e o sentido de preservação do patrimônio local.
Destaque Amazônia - O que o levou a aceitar proposta de trabalhar com um tema como a
arqueologia?
Mário Baratta: arte a serviço da
Mario Baratta - Arqueologia é uma temática que sempre gostei, tive oportunidade de
educação patrimonial
estudar sobre esse assunto durante o mestrado. Apesar de ser um tema, aparentemente,
distante da trajetória profissional que escolhi, a sua essência é praticamente a mesma.
Quando a Dra. Edithe me mostrou o projeto de Monte Alegre, percebi uma relação muito forte com o trabalho que
realizo. Além disso, é uma oportunidade rara para divulgar a pintura rupestre na Amazônia, por meio de uma
linguagem não acadêmica, como no caso do livro infantil e da exposição de aquarelas pintadas nas serras de Monte
Alegre.
Reprodução
DA - Em que medida produzir aquarelas acerca do
patrimônio arqueológico no interior do Estado se relaciona à
sua produção de monumentos e paisagens urbanas?
MB - A relação do homem com o lugar que habita sempre
chamou minha atenção. Isso vale para os projetos de
arquitetura, de literatura ilustrada, assim como para as
aquarelas e livros que crio. As pinturas que pude ver nos
cinco dias em que fiquei no alto da Serra da Lua possuem
uma força expressiva bem impactante, que vai além do
seu conteúdo plástico. A relação que aquelas imagens
têm com o lugar em que foram pintadas é muito forte. Por
Aquarelas do artista conta disso, em termos conceituais, as pinturas rupestres
ilustram o livro ‘’Itaí’’ e as paisagens urbanas são similares, quase iguais, pois
acredito que elas expressam a mesma vontade humana
de criar. A motivação pode ser diferente, mas as duas
dialogam e transformam a paisagem, assim como indicam a ocupação do lugar. Confesso que não tinha noção disso
até subir a Serra da Lua e poder ver e conviver com as pinturas e a paisagem onde estão inseridas. O silêncio e a vista
do Rio Amazonas do alto da Serra são impressionantes, fez perceber o quanto a relação das pinturas com a paisagem
é forte. É difícil afirmar, mas creio que os povos que por ali passaram não escolheram aleatoriamente os lugares para
pintar, da mesma forma como, hoje, os projetos de arquitetura que formam as paisagens urbanas não são obras do
acaso.
DA - De que maneira as imagens captadas pelo seu pincel e reproduzidas no livro ajudarão as crianças – e mesmo
adultos que por ventura entrem em contato com a obra – a entender e proteger o patrimônio arqueológico?
O público da exposição pode conhecer mais da arte rupestre de Monte Alegre graças à convergência de visões de
uma pesquisadora, de um poeta, de um aquarelista e de um diretor de cinema sobre as pinturas e gravuras deixadas
como herança por amazônidas ancestrais. Daí o plural no título escolhido para a exposição. Montada em salão
defronte à Praça Matriz de Monte Alegre, a mostra conta com 15 reproduções de aquarelas do artista Mário Baratta;
trechos de escritos do poeta Juraci Siqueira; monitor para apresentar o vídeo ‘‘Imagens de Gurupatuba’’, do diretor
de cinema Fernando Segtowick; e textos explicativos acerca da arte rupestre e do trabalho arqueológico. Uma
imagem panorâmica do Parque Estadual de Monte Alegre, onde estão vários sítios arqueológicos com os vestígios
dessa arte milenar, completa a ambiência de ‘‘Visões’’.
Segundo Edithe, o Parque foi
criado em novembro de 2001,
por uma lei estadual, como uma
Unidade de Conservação
Integral, gerenciada pela
Secretaria de Estado de Meio
Ambiente (Sema). Mas isso não
basta para a preservação dessa
herança, explica a
pesquisadora. “São necessárias
estruturas para viabilizar o
funcionamento do Parque, de
modo a garantir a proteção do
patrimônio arqueológico”,
argumenta. A conservação
desse patrimônio tem estado em
xeque nos últimos anos, devido
à dinâmica da natureza, como
os efeitos do sol, do vento e da
Público local prestigia a exposição no dia da abertura. Grandes painéis e c h u v a , m a s , t a m b é m e
reproduções das aquarelas compõem mostra montada em Monte Alegre principalmente, devido à ação
humana, que o destrói por meio
da pichação. O público-visitante da exposição ‘‘Visões’’ pode saber mais sobre essa depredação graças aos textos
elaborados para a mostra pela Coordenação de Museologia do MPEG.
Nesse projeto tive a felicidade de conhecer o Juraci Siqueira, que escreveu um texto muito bom e agradável de ler. Isso
facilitou o meu trabalho, de dar mais sabor ao livro através das imagens. Tentamos passar nas imagens a sensação do
lugar em que foram realizadas as pinturas, assim como sua riqueza plástica, para que o leitor perceba o quanto é
valioso preservar.
“Essas informações são apresentadas de forma clara e objetiva, para serem apreendidas com facilidade pelo
público”, informa Edithe. Além disso, os visitantes são guiados por alunos de Monte Alegre, monitores da mostra.
Tudo para deixá-la ainda mais próxima da população do município, guardiã desse patrimônio que são as inscrições
rupestres deixadas pelos homens e mulheres, que habitaram a Amazônia há milênios, nas rochas dessa tão rica
quanto peculiar cidade do Oeste paraense. Ao final da exposição, a Escola Imaculada Conceição, cujo Salão Nobre
abriga ‘‘Visões – A Arte Rupestre de Monte Alegre’’, vai receber, como doação do Museu Goeldi, a TV e o aparelho de
DVD utilizados no evento. A Secretaria de Educação do município receberá a exposição para dar continuidade à sua
divulgação.
Esse livro vai ajudar, também, a divulgar esse patrimônio e fazer com que as pessoas que não podem ir até lá
entendam a importância do acervo, já que dificilmente iremos encontrar referências a essas pinturas rupestres da
Amazônia em livros de História da Arte, o que é uma pena.
Serviço: Exposição ‘‘Visões - A Arte Rupestre de Monte Alegre’’ aberta à visitação até 15 de março de 2013, de
segunda a sexta-feira, das 9h às 12h e das 15h às 18h, no Salão Nobre da Escola Imaculada Conceição, à Rua Rui
Barbosa, nº 210, Cidade Alta, Monte Alegre, Pará. Entrada gratuita.
MB - Acredito que as imagens são mágicas e têm a capacidade de encantar, despertar e transformar, principalmente o
público infantil. Pode parecer uma visão romântica sobre os livros infantis, mas acredito nisso.
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‘‘S
ão três olhares sobre um mesmo tema”. Assim, a arqueóloga Edithe Pereira, da Coordenação de
Ciências Humanas do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), define a exposição ‘‘Visões: Arte
Rupestre em Monte Alegre’’, aberta para visitação até o dia 15 de março de 2013 no Salão Nobre da Escola
Imaculada Conceição, em Monte Alegre, no Oeste do Pará. Aberta em dezembro passado, a mostra integra a
programação do projeto ‘‘Arte Rupestre de Monte Alegre: Difusão e Memória do Patrimônio Arqueológico’’, realizado
pelo Museu Goeldi em parceria com a Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), sob a coordenação de Edithe
Pereira, e reúne pinturas, poesias, vídeo-documentário e fotografias para conscientizar a população montealegrense acerca da importância da arte rupestre presente no município.
Destaque Amazônia
Ano 29
N° 60
Janeiro de 2013
ISSN 2175 - 5485
ISSN 2175 - 5485
Janeiro de 2013
N° 60
Ano 29
Destaque Amazônia
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Conhecimento compartilhado
e debate na comunidade
Envolver a população local em ações que despertem para a importância de preservar o patrimônio
material arqueológico foi o objetivo específico de workshop realizado em Monte Alegre
Produção ilimitada
Série de produtos resulta da transformação do conhecimento científico em manancial de acesso fácil
ao público em geral. Ao mesmo tempo, a Arqueologia ganha espaço junto à comunidade graças à
realização de workshop e ciclo de palestras, além de visitação à exposição sobre o patrimônio da
região de Monte Alegre
Jimena Felipe Beltrão e Antonio Fausto, Agência Museu Goeldi.
Jimena Felipe Beltrão, Agência Museu Goeldi.
ois livros, um voltado para o público adulto e
outro para o público infantil; uma exposição com
montagens em Monte Alegre e Belém; um ciclo
de palestras; um workshop; um vídeodocumentário e um hotsite para disponibilizar a versão
eletrônica de cada produto. Esse é o resultado do
projeto ‘‘Arte Rupestre em Monte Alegre’’, de autoria de
Edithe Pereira, que envolve uma equipe de
profissionais das mais diversas formações engajados
na ampla divulgação do patrimônio arqueológico na
forma de pinturas e gravuras na pedra.
A
O grupo é responsável pelo agendamento de visitas, por
conduzir o visitante através da exposição e por aplicar
atividades que servirão de material de avaliação da apreensão
da exposição ‘‘Visões’’ pelo público. Em ações futuras, este
grupo será novamente requisitado.
Já os professores participaram de curso de 24 horas para
abordar temas como patrimônio arqueológico e o homem e
paisagem no passado e no presente, o que os preparou para
potencializar o uso didático do vídeo e das publicações O olhar como instrumento de conscientização
resultantes da iniciativa em sala de aula, por meio de um banco
e preservação
de atividades sugeridas.
Como parte das atividades do projeto ‘’Arte Rupestre em Monte Alegre’’, um workshop denominado ‘’Olhar, Perceber e
Conservar’’ foi ministrado pelo autor das aquarelas e das ilustrações do livro infantil “Itá”, o artista Mário Baratta. Para
estimular jovens a respeitar e a preservar o patrimônio local, através do fazer e do olhar, se apresentou o workshop,
como uma oportunidade de compartilhar com a comunidade maneiras de perceber o patrimônio da região.
Com tiragem limitada, mas ampla disponibilização por
meio eletrônico, os produtos, aí incluído este jornal,
estão dedicados a promover a divulgação do
patrimônio arqueológico de Monte Alegre, no Pará,
especificamente aquele relacionado à arte rupestre.
Para os autores da proposta submetida à Sociedade
Brasileira de Arqueologia e premiada em edital público,
“o conhecimento compartilhado sensibiliza para a importância dos vestígios e sítios arqueológicos encontrados em
Monte Alegre, tornando-os um bem comum”. Diz a coordenadora do projeto, a arqueóloga Edithe Pereira, que essas
medidas têm caráter “estratégico para evitar a destruição do patrimônio deixado pelos nossos antepassados”.
Reprodução
D
través de um concurso de redação, dez estudantes do
ensino fundamental e médio participaram de curso de
36 horas, para poder apresentar a exposição
abordando temas como o patrimônio arqueológico, o
homem e paisagem no presente e no passado como
instrumento para “discutir o futuro do lugar”.
Confira os produtos
Os participantes confeccionaram caderno de anotações e realizaram exercícios de registros visuais no próprio
caderno. Algumas das referências patrimoniais da cidade foram retratadas nesse caderno com o uso de técnicas de
desenho e aquarela. Para o ministrante do workshop, “O ato de olhar para em seguida retratar, provoca uma ação
interna de perceber o patrimônio com mais calma e detalhe, possibilitando o despertar para preservação do patrimônio
histórico e artístico do local”.
“A intenção do trabalho é despertar o olhar para o lugar em que os participantes vivem, no caso a cidade de Monte
Alegre e arredores”, conta Mário Baratta. O importante não é ensinar, mas “mostrar que o olhar rotineiro pode ser
viciante”. Mas o local, mesmo sendo olhado ou visto todos os dias, “não deixa de ter um valor especial”. Na concepção
do workshop e como abordagem das artes visuais, “olhar é diferente de ver”. O resultado é de “que podemos ver o
nosso lugar de diversas maneiras, por fotos, por reportagens, na web, ou simplesmente retratando com desenhos ou
palavras”, ensina o ministrante. Para ele, “Conhecer um pouco mais o que se tem para compreender e decidir o que é
importante manter” é a principal meta.
Dinâmica do workshop - Num roteiro de interação e produção, Mário Baratta conduziu os participantes num
exercício de aproximação e redescoberta do patrimônio local. De início, cada participante confeccionou um caderno
de anotações e em seguida foi mostrado como representar coisas através da técnica de pintura em aquarela. Como no
trabalho de pesquisa, anotações podem ser “úteis para a aula de desenho ao ar livre”, explica o artista e ministrante do
workshop.
Para Mário, o trabalho ao ar livre permite um olhar mais detalhado, bem como fortalece a relação com o que será
retratado. “O compromisso não é o produto estético em si, e, sim, o despertar de possibilidades para a percepção do
lugar a partir do desenho e da pintura em aquarela”, esclarece. Em uma rota de locais selecionados, os participantes
fizeram anotações. Ao fim, foi feita uma avaliação do trabalho para saber como se deu a relação de cada participante
com o que desenhou e pintou. Cada participante escolheu um dos trabalhos para ser refeito na sala com possibilidade
de usar outros elementos e técnicas.
A produção de todos os participantes compõe mostra disponível no site dos Urban Sketchers
(http://www.urbansketchers.org/). Como membro do movimento, Mário Baratta registrou o workshop com fotos e
textos. Mesmo sendo um canal pouco específico, há interessados e participantes no mundo todo, que poderão
acompanhar o trabalho realizado em Monte Alegre.
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Destaque Amazônia
Ano 29
N° 60
Janeiro de 2013
ISSN 2175 - 5485
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Um vídeo-documentário, com duração de 15 minutos em cor e legendas em inglês, francês e espanhol, com
tiragem de mil exemplares para exibição em eventos culturais e acadêmicos, e versão digital livre para ampla
divulgação. Segundo Edithe Pereira, trata-se de “abordagem contemporânea, mesclando as informações científicas
com linguagem de divulgação e associando as referências e memórias das comunidades do entorno do parque que
abriga as pinturas, com as informações acadêmicas, as aquarelas produzidas pelo projeto e vídeo-arte”. O
documentário será inscrito em festivais e mostras de cinema e vídeos-documentários, tanto no Brasil como no exterior.
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Esta edição especial do jornal do Museu Paraense Emilio Goeldi, o Destaque Amazônia, com tiragem de 5 mil
exemplares e versão digital livre para ampla divulgação.
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Quinze
aquarelas sobre o tema do
patrimônio arqueológico de Monte Alegre, que
compõem exposição.
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Exposição ‘‘Visões’’ em Monte Alegre sobre
o patrimônio arqueológico do município. Uma versão
virtual dessa exposição está disponível no portal do
Museu Goeldi para ampla divulgação. Uma versão
expandida da mostra será apresentada ao público
em maio de 2013 durante a Semana Nacional de
Museus.
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Ciclo de Palestras sobre o patrimônio
arqueológico de Monte Alegre.
·
Hotsite sobre o assunto, que disponibiliza
gratuitamente na web versões digitais dos livros, da
edição especial do jornal Destaque Amazônia, da
exposição e do vídeo-documentário, utilizando
softwares livres. O hotsite também disponibilizará um
banco de atividades de Educação Patrimonial para
que os professores apliquem em sala de aula.
ISSN 2175 - 5485
Redes sociais
Na divulgação da importância do patrimônio arqueológico
de Monte Alegre, o projeto ‘‘Arte Rupestre de Monte Alegre
– Difusão e Memória do Patrimônio Arqueológico’’ lança
mão também de estratégias multimídias, por meio de
hotsite, exposição virtual, flipbooks, booktrailers, vídeos de
bolso e campanhas nas redes sociais: tudo para levar
informações sobre arte rupestre para quem não é
especialista no assunto. O hotsite do projeto, www.museugoeldi.br/arqueologiamontealegre, por exemplo, permite
um passeio virtual pela exposição ‘‘Visões: A Arte Rupestre
em Monte Alegre’’, além de abrigar pequenos vídeos
apresentado o conteúdo e as imagens dos livros ‘‘Arte
Rupestre de Monte Alegre’’ e ‘‘Itaí, a carinha pintada’’, de
autoria de Edithe Pereira e Juraci Siqueira com Mário
Baratta, respectivamente
/museugoeldi
@museugoeldi
/museugoeldi
museu-goeldi.br/
arqueologiamontealegre
Janeiro de 2013
N° 60
Ano 29
Destaque Amazônia
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