A AVALIAÇÃO COMO INSTRUMENTO DE PROMOÇÃO DA APRENDIZAGEM DE MATEMÁTICA EM ESCOLAS DE PONTE NOVA-MG Luiz Angelo Gariglio Vieira Curso de Especialização em Educação Matemática- UFOP [email protected] Marger da Conceição Ventura VianaProfª adjunta doutora do Departamento de Matemática/ICEB/UFOP marger@ iceb.ufop.br RESUMO O artigo baseia-se em uma monografia elaborada no Curso de Especialização em Educação Matemática (Vieira, 2006). Foram investigados processos avaliativos em Matemática em escolas do Ensino Fundamental e Médio, fundamentados na metodologia da pesquisa e literatura. Tendo como pressuposto que o processo de avaliação está arraigado na cultura, é inerente a qualquer atividade humana e conseqüentemente, à educação, julgou-se necessário conhecer suas múltiplas facetas para utilizá-lo com maior proveito no processo de ensino-aprendizagem da matemática. Com este objetivo, estudou-se a avaliação como instrumento de promoção da aprendizagem de matemática numa abordagem qualitativa. Palavras-Chave: processo de ensino/aprendizagem, avaliação, funções da avaliação. Introdução Hoje em dia está em discussão a avaliação, fruto de estudos realizados a partir de resultados obtidos pela escola. Assim algumas ponderações se fazem necessárias sobre a avaliação praticada pelos professores e pelos órgãos oficiais responsáveis pelas políticas educacionais no país. Do ponto de vista do professor, a avaliação reflete o histórico escolar dele e sofre interferência da concepção que ele tem de sua disciplina (no caso, a Matemática), Assim, devem-se fornecer ao professor momentos e subsídios para repensar a disciplina com que trabalha e, conseqüentemente, sua forma de avaliar. Do ponto de vista dos órgãos oficiais, a preocupação com a repetência tem levado a considerações sobre alternativas de organização do ensino VIEIRA, L., VIANA, M. A Avaliação como Instrumento de Promoção da Aprendizagem Matemática em Escolas de Ponte Nova – MG. In Anais do SIPEMAT. Recife, Programa de Pós-Graduação em Educação-Centro de Educação – Universidade Federal de Pernambuco, 2006, 13p. 2 (ciclos, séries e outros), porém, estas devem ser amplamente debatidas pela comunidade escolar e na sociedade em geral. Especificamente, o marco inicial deste processo em termos legais, pode ser identificado no ano de 1997. Neste, entra em vigor a Resolução Nº. 8086, da Secretaria de Estado da Educação (do Estado de Minas Gerais), que em seu artigo 1º estabelecia o regime de progressão continuada. Esta expressão causou muitas interpretações conflitantes com o paradigma que o professor já estava acostumado no desenvolver de todo o seu histórico no sistema de ensino. Uma das interpretações consistia em trocar a expressão progressão continuada por promoção automática. Isso gerou certo desconforto na classe, levando alguns professores a abolirem a avaliação com o seguinte argumento: “Se o aluno será promovido de qualquer maneira, por que avaliá-lo?” Para evitar o mal entendido, a Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais estabelece que: progressão continuada não é promoção automática. Na lógica da Escola tradicional, a promoção automática se identifica com ausência de aprendizagem. A progressão continuada supõe aprendizagem concebida na referência de que todos podem aprender, de forma progressiva (SEE/MG, 1999, pp. 13, 14). A prática avaliativa reflete até mesmo o autoritarismo da sociedade sobre o indivíduo, por isso tem um caráter de julgamento de resultado. Visto que isso ocorre naturalmente, é necessário que se conheça o processo histórico desenvolvido pelos teóricos em avaliação. Sobre este aspecto, dois pesquisadores norte-americanos se destacam: Ralph W. Tyler e Lee J. Cronbach. Os trabalhos de Tyler na década de 40 estruturaram um modelo de avaliação cuja finalidade seria propiciar elementos para uma crítica institucional e aprimoramento do programa instrucional. O enfoque dele é na cuidadosa formulação de objetivos que devem ser apresentados de forma a permitir quantificação. Segundo Hoffmann (2003), no Brasil há forte influência do modelo desenvolvido por Tyler em que a avaliação tinha um enfoque comportamentalista. Mesmo propostas surgidas após as dele como a de Bloom, por exemplo, mantêm o mesmo embasamento positivista. Lee J. Cronbach, no artigo Course improvement through evaluation (1963), apesar de não oferecer, especificamente um modelo de avaliação, VIEIRA, L., VIANA, M. A Avaliação como Instrumento de Promoção da Aprendizagem Matemática em Escolas de Ponte Nova – MG. In Anais do SIPEMAT. Recife, Programa de Pós-Graduação em Educação-Centro de Educação – Universidade Federal de Pernambuco, 2006, 13p. 3 influenciou trabalhos sobre avaliação desenvolvidos por outros pesquisadores como Scriven (1967) e Stake (1967). Para Cronbach (1963), apud Vianna (1989, p.33), “a avaliação pode ser definida como um processo que visa à coleta e ao uso de informações que permitam tomar decisões sobre um programa educacional”. Ele destaca um problema importante, referente aos procedimentos de medida, que variam em função do tipo de decisão a ser tomada. Os procedimentos são variados: levantamento de opiniões, relatórios, observações sistemáticas, medidas ou estudo de processo, medidas de proficiência, medidas de atitude e estudo de seguimento. Das definições elaboradas pelos precursores da pesquisa em avaliação observam-se diferentes significados para o termo. Para Tyler (1942), “avaliação é um processo de comparação entre os dados do desempenho e os objetivos instrucionais preestabelecidos”; para Stake (1967), “avaliação é uma descrição e julgamento de programas educacionais”; para Stufflebeam (1971), “avaliação é o processo de identificar e coletar informações que permitam decidir entre várias alternativas” e para Provus (1971) “avaliação é um processo de comparação entre desempenho e padrões”. Atualmente, embora haja avanços, sobretudo com a contribuição de resultados de pesquisas realizadas, principalmente no âmbito da psicologia, equívocos ainda têm sido cometidos. Por este motivo é que elegemos como objeto de estudo a avaliação como instrumento de promoção da aprendizagem de matemática. Assim, o objetivo que norteia este trabalho é investigar a avaliação como instrumento de promoção da aprendizagem de matemática. Justificativas A pesquisa se justifica por ser a avaliação inerente a qualquer atividade humana, conseqüentemente, à educação. Contudo, em situações diversas a avaliação tem significados diversos. Ademais, como o sistema educacional está calcado sobre a mensuração da aprendizagem, e entre os instrumentos utilizados, o mais comum, é a avaliação, faz-se necessário que se conheçam as suas diversas facetas, incluindo os equívocos mais comuns, para que possa ser utilizada da melhor forma possível. VIEIRA, L., VIANA, M. A Avaliação como Instrumento de Promoção da Aprendizagem Matemática em Escolas de Ponte Nova – MG. In Anais do SIPEMAT. Recife, Programa de Pós-Graduação em Educação-Centro de Educação – Universidade Federal de Pernambuco, 2006, 13p. 4 Ademais, a avaliação tem sido tratada, ao longo dos tempos, principalmente a partir da visão de uma pedagogia tecnicista, assentada sobre as bases lançadas pela psicologia behaviorista que sustenta a Escola dita tradicional que ainda domina o sistema de ensino brasileiro, embora a legislação atual não a privilegie. De fato, para Bloom et al (1975) apud Caldeira (1997, p.54), a avaliação é encarada como “uma sistemática de dados por meio da qual se determinam as mudanças de comportamento do aluno e em que medida estas mudanças ocorrem”. Nesta concepção, atribuem-se à avaliação três funções: de diagnóstico – associada à avaliação diagnóstica, é aplicada no início do processo para detectar a presença ou ausência de pré-requisitos; a de controle – associada à avaliação formativa, aplicada durante o processo para detectar dificuldades e avanços. Finalmente, a função de classificação – à qual se associa a avaliação somativa e é aplicada no final do processo. Para os que concebem a Educação como algo institucional e final, a avaliação se transforma num objeto que serve exclusivamente para categorizar os alunos. Para estes, o tipo de avaliação mais comum é aquele que ocorre no final de um processo com fins de detectar quanto o aluno assimilou do conteúdo ministrado (avaliação somativa). Às vezes, ocorre uma avaliação no início do processo, sem finalidade de aferir escores, denominada avaliação prognóstica. Porém, a avaliação que ocorre de forma contínua durante o processo, não é praticada. Ou melhor, não é reconhecida como instrumento de avaliação. Isso porque, grosso modo, ocorre sob a forma de exercícios feitos em sala de aula ou em casa e depois corrigidos no quadro pelo professor (ou pelo aluno). Ao aluno, em geral, compete papel passivo no processo: verificar sua resolução, conferi-la com a do quadro e, se diferentes, apagar a que fez e copiar a que está no quadro, sem questionar as causas de seu “erro”. Neste contexto, é importante frisar que se tem procurado algum avanço, quer por parte de professores isoladamente, quer por parte do corpo docente, pedagógico e administrativo da Escola. Um exemplo são as chamadas “recuperações paralelas” que, via de regra, ocorrem no final do período considerado (bimestre, trimestre ou semestre) e que consta de uma lista de atividades a serem resolvidas em sala de aula, com data marcada. Se o aluno consegue obter uma média superior à que VIEIRA, L., VIANA, M. A Avaliação como Instrumento de Promoção da Aprendizagem Matemática em Escolas de Ponte Nova – MG. In Anais do SIPEMAT. Recife, Programa de Pós-Graduação em Educação-Centro de Educação – Universidade Federal de Pernambuco, 2006, 13p. 5 conseguira anteriormente, seu escore é modificado; caso não, permanece o escore maior. Cabe ressaltar que a intenção é louvável, mas nos compete questionar: isto é uma “recuperação paralela”? Recuperação de quê? Quanto a estes aspectos, Hoffmann (2001) se manifesta de maneira apropriada. Segundo essa autora, a aplicação de provas no final de uma etapa, apenas para possibilitar a recuperação de notas é uma falácia. É muito mais proveitoso fornecer atividades complementares (não especificamente exercícios), durante todo o processo, para que o aluno possa superar suas dificuldades. Outro equívoco passível de ocorrer são os testes contínuos, intermitentes. Este recurso consiste no seguinte: dividem-se as disciplinas ministradas em dois blocos. Cada semana um bloco aplica atividades de avaliação somativa. Assim, crê-se estar aplicando avaliação contínua, formativa. Quanto a este quadro, Jorba & Sanmartí (2003, p.43) fazem a pergunta: “Por que não pensar em atividades de avaliação integradas totalmente no processo de aprendizagem e, em troca, evitar confundir avaliação com exame e menos avaliação contínua com exames contínuos?” Para os que concebem a Educação como algo dinâmico, a avaliação passa a ter outra concepção epistemológica que não apenas a de confrontar os objetivos propostos e os alcançados, em outras palavras, não apenas examinar. Estes percebem que o ato de avaliar é inerente ao ser humano e tem, subjacente a ele, a intenção de progredir. Para Saul (1999, p. 25), a avaliação, em seu sentido amplo, apresenta-se como atividade associada à experiência cotidiana do ser humano. Freqüentemente nos deparamos analisando e julgando a nossa atuação e dos nossos semelhantes, os fatos de nosso ambiente e as situações das quais participamos. Também alguns termos empregados no estudo de avaliações apresentam equívocos quanto à terminologia, especificamente quanto ao significado de testar e de medir. Listemos alguns equívocos: a expressão medida, em Educação, adquiriu uma conotação ampla e difusa; o termo conceito assume, na escola, significado de medida; a medida assume muitas vezes papel absoluto nas decisões de eliminação; o teste é entendido como instrumento de constatação e mensuração e não de investigação. VIEIRA, L., VIANA, M. A Avaliação como Instrumento de Promoção da Aprendizagem Matemática em Escolas de Ponte Nova – MG. In Anais do SIPEMAT. Recife, Programa de Pós-Graduação em Educação-Centro de Educação – Universidade Federal de Pernambuco, 2006, 13p. 6 Apesar dos equívocos comentados, na teoria, a avaliação é vista como suporte para identificar as potencialidades do aluno e dar-lhe oportunidade de melhorar o seu aprendizado, fornecendo-lhe retorno do seu desempenho. De posse das informações dadas pela avaliação, o professor deve planejar medidas para sanar as dificuldades dos alunos e, junto com os mesmos, analisar a causa das dificuldades encontradas. Nisso consiste a natureza participativa da avaliação. Dessa forma, alguns autores têm considerado a avaliação como integrante do processo de ensino aprendizagem (Luchesi, 1995; Viana, 2002 e 2004; SEEMG, 2005). É dentro desta perspectiva que se optou por pesquisar a avaliação como instrumento de promoção da aprendizagem de matemática tendo em vista interpretações das orientações curriculares, dificuldades de implementação e formação inicial dos professores. Metodologia Optou-se por uma pesquisa de cunho qualitativo, devido à natureza do problema. Era necessário ouvir os atores do processo (professores e alunos) sobre a questão em estudo. Dessa forma foi necessário selecionar o local, níveis e redes de ensino. Como professores do Ensino Fundamental e Médio com experiência em todas as séries escolares, optamos por esses níveis de ensino. Por residirmos em Ponte Nova-MG, esta cidade foi selecionada a realização da pesquisa. Inicialmente, com o objetivo de obter dados completos de toda a rede escolar, para conclusões mais seguras, embora não generalizáveis, devido ao enfoque da pesquisa, pretendia-se pesquisar todo o universo de escolas da cidade, que contivessem os dois níveis de ensino, para realizar comparações e verificar se havia diferenças nas concepções dos participantes dos dois segmentos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio sobre a avaliação. Todas as (seis) escolas da cidade, com o perfil considerado foram convidadas a participar, e apenas uma não se dispôs. Por ser uma das escolas local de trabalho do pesquisador, único professor do Ensino Médio da escola, julgou-se mais adequado não realizar a pesquisa na mesma, pois haveria coincidência de pesquisador com pesquisado. VIEIRA, L., VIANA, M. A Avaliação como Instrumento de Promoção da Aprendizagem Matemática em Escolas de Ponte Nova – MG. In Anais do SIPEMAT. Recife, Programa de Pós-Graduação em Educação-Centro de Educação – Universidade Federal de Pernambuco, 2006, 13p. 7 Assim, o estudo foi realizado no segundo semestre de 2005, em quatro escolas do Ensino Fundamental e Médio da cidade de Ponte Nova, duas da rede particular, e duas da estadual após a elaboração do projeto inicial, que foi elaborado depois de haver sido realizada uma pesquisa bibliográfica referente à literatura pertinente, em publicações tais como livros, periódicos, anais de congressos, dissertações e teses, legislação e documentos acessíveis. Para a coleta de dados, foram elaborados dois questionários – um para ser respondido por professores de Matemática e outro para ser respondido por alunos. Cada um continha oito questões sobre o processo de ensino/aprendizagem e sistema de avaliação da aprendizagem de Matemática, para obtenção de informações sobre a questão de pesquisa. As perguntas basicamente se referiam à periodicidade com que se avaliava a aprendizagem de Matemática dos alunos, sobre os instrumentos utilizados para avaliar e procedimentos de correção, sobre tarefas para fazer em casa, auto-avaliação, recuperação, e se o sistema de avaliação adotado contribuía para auxiliar o processo de ensino-aprendizagem de Matemática. Devido à diferenciação de funções dos respondentes (professor e aluno) as perguntas não eram exatamente as mesmas, mas foram elaboradas de forma que podiam ser contrastadas. As do aluno com as do professor e por níveis de ensino. O que foi feito para confirmar as informações. Os questionários foram aplicados a professores e alunos de uma escola que não participaria da pesquisa, a fim de verificar a adequação dos mesmos e procederem-se alguns ajustes que se fizessem necessários. Ajustados os instrumentos, estabeleceu-se contato com as escolas que viriam a participar da pesquisa. Foi entregue à direção da escola uma carta na qual se especificavam os objetivos da mesma. Juntamente com esta foi mostrado ao diretor e ao supervisor o questionário que seria aplicado aos professores e o que seria aplicado aos alunos. Combinaram-se o dia e a hora para sua aplicação. Foram aplicados 29 questionários de professor (22 do Ensino Fundamental e 7 do Ensino Médio) e 94 questionários de aluno (65 do Ensino Fundamental e29 do Ensino Médio). De posse das respostas dos professores e dos alunos, foi feita a tabulação dos dados, calculando-se as freqüências absoluta e relativa. A análise qualitativa dos dados foi realizada considerando-se todas as respostas dos professores e dos alunos a cada uma das perguntas dos questionários, VIEIRA, L., VIANA, M. A Avaliação como Instrumento de Promoção da Aprendizagem Matemática em Escolas de Ponte Nova – MG. In Anais do SIPEMAT. Recife, Programa de Pós-Graduação em Educação-Centro de Educação – Universidade Federal de Pernambuco, 2006, 13p. 8 usando o procedimento de análise de codificação aberta de Strauss e Corbin (1990), da qual resultaram descrições categóricas das concepções dos professores e alunos sobre a avaliação da aprendizagem de matemática. Desta forma as respostas discursivas foram categorizadas e contabilizadas. As freqüências relativas das categorias de respostas dadas foram expressas em porcentagens e em alguns casos foram construídas tabelas para facilitar a visualização dos dados. Compararam-se as respostas dos alunos e dos professores segundo os níveis de ensino a que pertenciam: Fundamental (séries iniciais e séries finais) e Ensino Médio, procedeundo-se à análise dos resultados (qualitativa e quantitativa). Alguns resultados obtidos Quando se iniciou a pesquisa de campo, existiam algumas expectativas. Os resultados, em alguns aspectos, foram surpreendentes: uma parcela considerável de alunos compreende a avaliação como instrumento de aprendizagem; a utilização de portfólio por uma quantidade razoável de professores (este instrumento não era muito divulgado até recentemente. Isto torna a sua utilização um fato memorável); os alunos nas séries iniciais do Ensino Fundamental cumprem mais com o dever de aluno quanto a fazer tarefas de casa do que os colegas dos níveis mais avançados. Observando as respostas dos professores, percebe-se que poucos são os que reconhecem o sistema de avaliação adotado como um instrumento de aprendizagem. Quando afirmam que o sistema oferece muitas oportunidades aos alunos, tem-se em conta o número de “recuperação paralela” (provas) que o aluno pode fazer, bem como o regime de dependência a que o aluno podia ser submetido. Quanto às respostas dos alunos, percebe-se que existem os que realmente compreendem a avaliação como instrumento para a aprendizagem, pois marcaram as opções “para verificar quem sabe e quem não sabe” ou “para o aluno tomar conhecimento do que sabe e do que não sabe”. As duas opções de resposta, embora semelhantes, trazem consigo diferenças epistemológicas. Verificar quem sabem e quem não sabe, não implica, necessariamente, que aquele que não sabe está identificando exatamente o que não sabe e procurando aprender. Já o aluno tomar conhecimento do que sabe e do que VIEIRA, L., VIANA, M. A Avaliação como Instrumento de Promoção da Aprendizagem Matemática em Escolas de Ponte Nova – MG. In Anais do SIPEMAT. Recife, Programa de Pós-Graduação em Educação-Centro de Educação – Universidade Federal de Pernambuco, 2006, 13p. 9 não sabe possibilita um mecanismo mais fácil para que ele (aluno) procure aprender o que ainda não sabe, pois isto foi identificado por ele. Considerações finais Tendo em vista o resultado da pesquisa de campo desenvolvida, e a revisão da literatura realizada, pôde-se perceber que o discurso sobre avaliação é bem conhecido pelos professores. Termos como “avaliação contínua”, “avaliação diagnóstica” são empregados de acordo com a sintaxe do discurso disseminado pelos veículos de informação a que os professores têm acesso (informativos que chegam às escolas, algumas revistas pedagógicas, etc.), mas quanto à semântica do discurso há uma confusão de termos. Exemplo disto é o fato de que não se percebe uma compreensão de que as tarefas de casa são avaliações da aprendizagem (no caso específico desta pesquisa, aprendizagem de Matemática). Por parte do professor, também existe uma distorção semântica do termo “avaliação contínua”, pois se verificou que há um momento estanque para se aplicarem testes com o intuito de verificar a aprendizagem e estabelecerem um escore. Apenas uma pequena porcentagem (3,44 %) de professores aplica testes ao término de cada assunto, portanto, em momentos variáveis. Uma forma de melhorar esta situação seria através de uma definição de termos de forma clara e objetiva, conforme sugerido por Popham (1977) e por Mediano (1987). Consequentemente, a partir desta clara percepção de papéis, o professor terá disponível uma ampla gama de instrumentos para verificar a aprendizagem do aluno, não ficando restrito aos testes (escritos ou orais). Um fato que irá contribuir muito para que o professor assim possa agir é o conhecimento dos resultados de pesquisas recentes em Psicologia Cognitiva, especificamente as pesquisas de Howard Gardner sobre as inteligências múltiplas. Num prosseguimento lógico de procedimentos, surge a correção da avaliação. Pelo que foi constatado, os alunos reconhecem como correção das avaliações apenas aquela que é feita pelo professor e que traz consigo um escore. As que eles fazem não são reconhecidas como tal uma vez que não estabelecem escores. Neste aspecto, também, o professor tem deixado passar um importante passo para que o aluno solidifique o conhecimento e processe a aprendizagem. VIEIRA, L., VIANA, M. A Avaliação como Instrumento de Promoção da Aprendizagem Matemática em Escolas de Ponte Nova – MG. In Anais do SIPEMAT. Recife, Programa de Pós-Graduação em Educação-Centro de Educação – Universidade Federal de Pernambuco, 2006, 13p. 10 Quanto à avaliação como instrumento da aprendizagem, objeto desta pesquisa percebe-se que ainda há um caminho razoável a ser percorrido, tanto pelos professores (principalmente) quanto pelos alunos. É possível pontuar dois aspectos para que o professor possa considerar a avaliação como instrumento da aprendizagem: i)conhecer os resultados das pesquisas. Isso traz ao palco do ensino a figura do professor-estudante. É impossível conhecer o que se produz de novo em termos de Educação se não ler, estudar. ii) apreender novos paradigmas, analisar posturas epistemológicas. Isso traz ao palco a figura do professor reflexivo, que tem por hábito refletir sobre sua prática, que busca mudança consciente, com embasamento teórico sólido e boa disposição para adotar novos métodos e novas práticas. Os alunos também necessitam de uma postura positiva frente aos processos de aprendizagem. Uma alternativa interessante para que eles se tornem efetivamente estudantes e não meros alunos seria o estabelecimento de um contrato didático. Assim, no início de cada ano letivo, os professores estabeleceriam um contrato didático em que o aluno tivesse participação ativa, assumisse compromissos compatíveis com o seu nível de escolaridade e de responsabilidade. Desta forma, acredita-se, a avaliação se tornaria um processo contínuo de verificação do que já se aprendeu e do que precisa aprender, tornando-se, assim, um efetivo instrumento para a aprendizagem. Um mecanismo interessante para verificar o progresso do aluno é proporcionar-lhe oportunidades de auto-avaliação. Não como objetivo de aferição de notas, mas com o objetivo de fazer o aluno refletir sobre a sua postura em face da busca do conhecimento e das conquistas realizadas e do reconhecimento do que precisa fazer para dirimir as dúvidas. Um modo simples de fazê-la é estruturando-a em tópicos: aspectos relacionados ao conteúdo e aspectos relacionados ao método de estudo. Um mecanismo prático para elaborar a primeira parte é fazê-la a partir dos objetivos propostos para o conteúdo: transformam-se os objetivos em itens a serem assinalados como “já sou capaz de”. A segunda parte é elaborada abordando os seguintes aspectos: 1-Tempo gasto em estudar o conteúdo; 2 Cumprimento de deveres; 3 - Atenção em sala de aula; 4 - Participação em sala de aula; 5 - Consulta a outras fontes bibliográficas; VIEIRA, L., VIANA, M. A Avaliação como Instrumento de Promoção da Aprendizagem Matemática em Escolas de Ponte Nova – MG. In Anais do SIPEMAT. Recife, Programa de Pós-Graduação em Educação-Centro de Educação – Universidade Federal de Pernambuco, 2006, 13p. 11 6 - Propostas para melhorar o desempenho - em vista da discussão realizada: a) os professores precisam se preparar para a prática avaliativa que não é tão simples quanto possa parecer; b) a escola precisa definir de maneira bem clara a sua política educacional, com base nas pesquisas que ora vêm sendo desenvolvidas no campo da psicologia cognitiva e da didática; c) a equipe pedagógica da escola precisa estar junto com os professores na elaboração e análise das avaliações; d) deve-se ouvir o professor, pois a realidade da sala de aula é vivida por ele e o sucesso de novas propostas pedagógicas depende do engajamento do professor. e) elaboração de um programa que contemple a definição dos objetivos, decisão sobre padrões a serem seguidos e os critérios a serem utilizados no julgamento dos desempenhos. Em suma, estamos inseridos num contexto histórico que não comporta imobilismo pedagógico (manter as mesmas técnicas e procedimentos de antes), mas que exige dos professores uma postura crítica para detectar o que há de positivo nos métodos anteriores e vigor pedagógico para empreender as mudanças que os tempos atuais exigem. Tudo isso, claro, sem perder de vista a qualidade e o nível do conhecimento fornecido, conforme destacado pelo professor Paulo Freire: “[...] gostaria de enfatizar este ponto porque me parece urgente e fundamental, entre nós, testemunhar contra duas associações equivocadas que vêm sendo feitas, embora nem sempre claramente explicitadas – a que reduz os procedimentos democráticos a práticas puramente espontaneístas, a afrouxamento, e a que identifica rigorosidade com autoritarismo” Freire apud Saul (1999 p. 141). Limitações da pesquisa Não solicitamos outras informações sobre a avaliação da aprendizagem de matemática aos dirigentes das escolas onde o estudo foi conduzido, para contrastá-las com as dos professores e dos alunos. Bibliografia CALDEIRA, A.M.S. Avaliação e processo de ensino-aprendizagem. Presença Pedagógica, v.3 n.17, set/out.1997, p.53 – 61. VIEIRA, L., VIANA, M. A Avaliação como Instrumento de Promoção da Aprendizagem Matemática em Escolas de Ponte Nova – MG. In Anais do SIPEMAT. Recife, Programa de Pós-Graduação em Educação-Centro de Educação – Universidade Federal de Pernambuco, 2006, 13p. 12 CRONBACH, L. J. Course Improvement through evaluation. Teachers College Record, 64 In: VIANNA, H.M. Introdução à avaliação educacional. São Paulo: IBRASA, 1989. 211p. HOFFMANN, J.M.L. Avaliar para promover as setas do caminho. Porto Alegre: Mediação, 2001. 144 p. JORBA, J. & SANMARTÍ, N. A função Pedagógica da Avaliação In: BALLESTER et al. Avaliação como apoio à aprendizagem. Trad. 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