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Questão 3
Observe a reprodução do quadro “Flag” (1954-1955), de Jasper Johns e, em seguida, responda ao que se pede.
“Flag” (1954-1955) — Jasper Johns. Encaustic, oil and collage on fabric mounted on plywood (three panels), 107.3 × 154 cm.
MoMA, New York.
O crítico e historiador da arte G. C. Argan, que situa essa obra de Jasper Johns nas origens da Pop Art, emite
sobre esse fenômeno artístico a seguinte consideração: [embora o termo “pop” proceda de “popular”], “a Pop
Art expressa não a criatividade do povo, e sim a não-criatividade da massa.”* Como essa característica da Pop
Art se manifesta no quadro de J. Johns aqui reproduzido? Explique sucintamente.
* Argan, G. C. Arte moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 575.
Resolução
A Pop Art foi um movimento artístico surgido nos Estados Unidos, nos anos 1960. A principal fonte de
inspiração para os artistas dessa tendência eram imagens relacionadas à sociedade de consumo: latas de
cerveja, latas de sopa, fotos de artistas de cinema, histórias em quadrinhos etc. Essas imagens eram
trabalhadas de modo a deformar o objeto original, a fim de provocar estranhamento no observador. Com isso,
buscava-se propor a reflexão crítica tanto sobre a sociedade quanto sobre os limites da noção de arte. Jasper
Johns foi um dos pioneiros desse movimento, produzindo, ainda nos anos 1950, uma série de pinturas
baseadas em imagens facilmente identificadas pelo americano médio. Um exemplo contundente dessa prática
é exatamente a obra “Flag” [Bandeira].
A “não-criatividade” afirmada por G. C. Argan no trecho transcrito refere-se à explicitação do caráter
uniformizador da bandeira americana, vista como um símbolo unívoco, anulador da pluralidade social. Sob
essa imagem, o povo, organismo produtor de uma cultura original, fica reduzido à condição de massa,
entendida como entidade homogênea, sem nuanças, sem diferenças. A primeira reação do observador do
quadro de J. Johns é não ver nele nenhuma criatividade, já que aparece como reprodução de algo já
conhecido. Com isso, para usar as palavras de Argan, o artista “expressa [...] a não-criatividade da massa”.
A ideia de uma “não-criatividade” também se relaciona à integração no universo artístico de um produto
que é, em princípio, externo a ele (no caso, a bandeira norte-americana). Assim, a arte, terreno da criação por
excelência, é invadida por um objeto que não é criado pelo artista. Ao se apropriar de um símbolo nacional,
o artista põe em evidência a apropriação que a massa faz desse mesmo símbolo.
“Flag” é uma obra representativa da Pop Art também por apresentar, sob a máscara de um aparente
nacionalismo, uma reflexão sobre a representação da nacionalidade, isto é, da imagem que um povo faz de
si mesmo. Mas é preciso destacar alguns efeitos da obra. Ao apresentar a bandeira nacional norte-americana
como obra de arte, o quadro busca desautomatizar o ponto de vista usual. A “Bandeira” de J. Johns parece
uma simples reprodução da original, mas apresenta evidentes distorções, como a disposição alinhada das
estrelas e as manchas, que acabam por “sujar” o quadro, fazendo com que ele deixe de representar o objeto
bandeira para evidenciar seu caráter de intervenção sobre esse mesmo objeto, e, por extensão, sobre a própria
imagem que ele simboliza.
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