Discurso da Senhora Bastonária Comemorações do Dia Internacional do Enfermeiro Pavilhão Atlântico 12 de Maio de 2006 Exmª Sr.ª Enfª Judith Oulton, Secretária-Geral do International Council of Nurses Exmº Sr.ª Enfª Marília Viterbo de Freitas e restantes elementos do FNOPE, entidade promotora das comemorações do Dia Internacional do Enfermeiro Exm.ª Drª Rosa Ribeiro, em representação do Exmº Sr. Ministério da Saúde Exmº Srs. Palestrantes Exmº Srs. Comentadores Minhas Senhoras e meus Senhores, Caros colegas, O dia que hoje se assinala é importante para os profissionais, mas sobretudo importante para os destinatários dos cuidados de Enfermagem. Digo isto porque ao falar-se hoje desta efeméride um pouco por todo o mundo e consequentemente, a sociedade poderá ter uma percepção mais clara das dificuldades que a Enfermagem enfrenta e das implicações que a escassez de recursos, sobretudo humanos, tem na prestação de cuidados. A ideia que o ICN decidiu transmitir, e a meu ver muito bem, foi a de que «Dotações Seguras Salvam Vidas» poupam recursos e contribuem para a garantia da qualidade dos cuidados de Enfermagem. 1 Apesar de não existir um único conceito para definir a ideia de dotações seguras, sabemos que, de uma forma geral, se entende como safe staffing a dotação de um determinado serviço de saúde com o número apropriado de profissionais, de modo a que as necessidades dos doentes sejam satisfeitas e que as condições de segurança no exercício sejam mantidas. Está demonstrado que a inexistência dessa dotação segura tem consequências ao nível da morbilidade e mortalidade das unidades de saúde. A ausência de dotações seguras acarreta uma sobrecarga de trabalho para os enfermeiros que continuam no activo. Conforme referiu a Enf. Judith Oulton, esses colegas têm risco acrescido de exaustão e sentem-se mais insatisfeitos com o trabalho. Como resultado, os níveis de abstenção são mais elevados entre estes profissionais, o que vem agravar ainda mais as dificuldades sentidas nos serviços. Entre as recomendações que entretanto foram surgindo sobre o modo de ultrapassarmos este problema, encontram-se questões como o desenvolvimento de sistemas de notificação de erros, legislação protectora dos profissionais que denunciam eventos adversos e o estabelecimento de padrões de desempenho defensores da segurança dos doentes. Em todas estas áreas há ainda muito trabalho a fazer e o sucesso das medidas tanto dependerá do envolvimento dos profissionais e das organizações que os representam, bem como do empenho dos governantes e responsáveis pelas unidades de saúde. E nesta matéria, Portugal não deverá ser uma excepção. A redução do número de profissionais é uma realidade que afecta países desenvolvidos e países em desenvolvimento. Estes últimos sofrem situações de carência extrema visto que, na busca por melhores condições de vida, muito dos profissionais desses países acabam por emigrar para nações economicamente mais favorecidas. Em Portugal, a escassez de enfermeiros é um problema que tem estado desde o primeiro minuto na lista de preocupações da Ordem. Desde a sua criação que temos vindo a alertar os responsáveis políticos para o impacto que este facto tem na qualidade e segurança dos cuidados prestados. Os números de que dispomos, apesar de por vezes serem contestados, não são os da Ordem. São valores que resultam de estudos efectuados por entidades independentes, de qualidade e credibilidade reconhecidas. Em 2000, a média de enfermeiros no espaço da OCDE era de 8,2 por 100 mil habitantes, enquanto que em Portugal esse valor limitava-se a 3,7 enfermeiros por 100 mil habitantes. No caso dos médicos, a média era de 2,9 clínicos por 100 mil habitantes, sendo que em Portugal essa cifra ascendia a 3,2 médicos por 100 mil habitantes. Como seria de esperar, a carência de enfermeiros em Portugal faz-se sentir de uma forma muito especial ao nível das especialidades. O número de enfermeiros especialistas em Saúde Materna e Obstétrica, por exemplo, continua muito aquém do que seria desejável. E num momento em que o encerramento de maternidades está na ordem do dia, urge esclarecer algumas situações. Dados recolhidos pela Ordem dos Enfermeiros indicam que raras são as maternidades que cumprem os requisitos definidos pela OMS no que respeita ao número de enfermeiros especialistas por turno. Segundo a OMS, por cada 1000 partos/ano, cada turno deve ser assegurado por dois enfermeiros especialistas em SMO. Actualmente a MAC, que realiza cerca de 6 mil partos por anos, tem dois enfermeiros especialistas por turno, quando, segundo a OMS, deveria ter 12. 2 Guimarães é outros dos exemplos onde o número de enfermeiros especialistas fica longe das recomendações. Com cerca de 3 mil partos/ano, aquela maternidade deveria ter seis especialistas por turno. E o que se verifica é que durante o dia existem três enfermeiros e à noite apenas dois (os bebés preferem nascer de dia). Em Braga a situação é muito idêntica à de Guimarães, e mesmo admitindo a transferência de enfermeiros oriundos de Barcelos, os critérios estabelecidos não seriam totalmente cumpridos: ficaria com quatro enfermeiros especialistas em SMO por turno, quando deveria ter oito. Assim, e apesar da concentração de recursos poder melhorar a capacidade de resposta de Braga, não está claro que as condições de segurança fiquem plenamente garantidas. Se tomarmos por referência as indicações da OMS, isso não acontecerá. De qualquer forma, e face à escassez de recursos humanos, a Ordem dos Enfermeiros entende que a concentração de recursos pode melhorar a qualidade dos cuidados. Da mesma maneira, e tendo em conta o número insuficiente de enfermeiros especialistas em SMO, consideramos que os Serviços de Urgência/Blocos de Partos devem ter pelo menos um enfermeiro especialista por cada 1000 partos/ano e que as Unidades de Internamento de grávidas de risco deverão dispor em permanência de pelo menos um enfermeiro especialista. Para a OE, estão são os critérios mínimos de segurança. As Unidades/Serviços que não os cumpram devem ser encerradas, para bem das parturientes e dos bebés. As Secções Regionais da OE irão zelar para que estes requisitos sejam observados. Caberá ao Ministério salvaguardar as condições necessárias para que estes critérios mínimos de segurança sejam devidamente cumpridos. Neste Dia Internacional do Enfermeiro devo salientar o empenho e dedicação de todos os colegas que, mesmo perante situações difíceis, não baixam os braços. Estou certa que é tentando encontrar soluções para os problemas que nos desmotivam e procurando identificar, no decorrer do nosso exercício, razões para manter o entusiasmo no nosso compromisso com os utentes, que poderemos continuar a orgulhar-nos do nosso trabalho. Muito obrigado pela vossa atenção Maria Augusta de Sousa Bastonária da Ordem dos Enfermeiros 3