1 ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA CLÁUDIA LUIZ DE FREITAS MECANISMOS DE GESTÃO DA ATIVIDADE POLICIAL CIVIL VOLTADOS PARA A REDUÇÃO DE HOMICÍDIOS NO ESTADO DE PERNAMBUCO Rio de Janeiro 2012 2 CLÁUDIA LUIZ DE FREITAS MECANISMOS DE GESTÃO DA ATIVIDADE POLICIAL CIVIL VOLTADOS PARA A REDUÇÃO DE HOMICÍDIOS NO ESTADO DE PERNAMBUCO Trabalho de Conclusão de Curso - Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia. Orientador: Prof. Antonio Carlos Alonso Del Negro. Rio de Janeiro 2012 3 C2012 ESG Este trabalho, nos termos de legislação que resguarda os direitos autorais, é considerado propriedade da ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). É permitida a transcrição parcial de textos do trabalho, ou mencionálos, para comentários e citações, desde que sem propósitos comerciais e que seja feita a referência bibliográfica completa. Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do autor e não expressam qualquer orientação institucional da ESG. _______________________________ Cláudia Luiz de Freitas Biblioteca General Cordeiro de Farias Freitas, Cláudia Luiz de Mecanismos de gestão da Atividade Policial Civil voltados para a redução de homicídios no Estado de Pernambuco/Cláudia Luiz de Freitas. - Rio de Janeiro: ESG, 2012. 57 f. Orientador: Prof. Antonio Carlos Alonso Del Negro Trabalho de Conclusão de Curso – Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), 2012. 1. Políticas Públicas de Segurança. 2. Violência urbana. 3. Mecanismos de gestão. 4. Homicídios I.Título. 4 A Painho, por ter sido um pai maravilhoso, por ter sido o melhor de todos os pais. A Mainha, Thales e Rebeca, pelo amor, pela união, pelo apoio, pela compreensão, imprescindíveis na minha decisão de concluir o CAEPE 2012. À Polícia Civil de Pernambuco, que me proporcionou estudar o Brasil com representantes das Forças Armadas e dos mais diversos profissionais do nosso país. segmentos 5 AGRADECIMENTOS Aos meus amigos e colegas policiais por compreenderem que o meu afastamento, temporário, do convívio diário e das atividades profissionais, era necessário para meu crescimento e amadurecimento como pessoa e profissional. Aos estagiários do CAEPE 2012, Tuma PROANTAR-Programa Antártico Brasileiro, pelo convívio harmonioso de todas as horas, pelo apoio e carinho dispensados no momento mais difícil da minha vida. Ao Corpo Permanente da ESG pelos ensinamentos e orientações que facilitaram o estudo sobre o Brasil. 6 RESUMO Esta monografia aborda o novo modelo de gestão da Segurança Pública, implantado pelo Governo do Estado de Pernambuco, em maio de 2007. A metodologia adotada comportou uma pesquisa bibliográfica e em sites oficiais de órgãos de segurança federal e estadual. Diante da escassez de documentos doutrinários sobre o Plano de Segurança Pública de Pernambuco, também foram coletadas informações a partir de observação pessoal da autora e consulta aos planejamentos operacionais da Secretaria de Defesa Social que definem protocolos e procedimentos para as Instituições Policiais. Outro instrumento utilizado foi a consulta a Delegados de Polícia. O campo de estudo delimitou-se às atividades da Polícia Civil de Pernambuco e à redução dos índices de homicídios no período de 2007 a 2010. Além de discorrer sobre os mecanismos de gestão da atividade policial civil, procurou-se apresentar um diagnóstico da violência e criminalidade no Estado e destacar a redução dos índices de crimes de homicídios, o aumento das prisões e das apreensões de drogas, alcançados no período de 2007 a 2010. Argumenta-se também, à guisa de conclusão que, com a incorporação de mecanismos de gestão, monitoramento e avaliação, ocorreram significativas mudanças na rotina das atividades da Polícia Civil de Pernambuco, a exemplo da redução do lapso temporal entre a ocorrência do homicídio e a instauração do inquérito policial e o aumento do número de inquéritos concluídos com identificação da autoria. Palavras chave: Políticas Públicas de Segurança; Mecanismo de gestão; Sistema de Justiça Criminal; Violência urbana; Homicídio. 7 ABSTRACT This paper discusses the new model of public safety management, implemented by the Government of the Estate of Pernambuco, in May 2007. The methodology applied involved literature review and research on official websites of federal agencies and state security. Considering the lack of doctrinal documents on the Public Safety Plan of Pernambuco, it was also collected information from personal observation of the author and operational planning consultation with the Department of Social Protection, which defines protocols and procedures for the Police institutions, as well as with Chief Police Officers. The field of study was delimited to the activities of the Civil Police of Pernambuco and the reduction of homicide rates in the period 2007 to 2010. Besides discussing the mechanisms for managing the civil police activity, it is provided a diagnosis of violence and crime in the state and the reduction in rates of homicide crimes, the increase of arrests and drug seizures, achieved during the mentioned period of time is also highlighted. It also argues, by way of conclusion, that with the incorporation of mechanisms for management, monitoring and evaluation, there were significant changes in daily activities of the Civil Police of Pernambuco, such as reducing the time gap between the occurrence of the murder and the establishment of investigations and the increase of investigations concluded with identification of the criminal. Keywords: Public Safety Policies; Facility Management; Criminal Justice System; Urban Violence; Homicide. 8 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AIS Área Integrada de Segurança CIIDS Centro Integrado de Inteligência e Defesa Social CVLI Crimes Violentos Letais Intencionais CVP Crimes Violentos contra o Patrimônio DENARC Departamento de Repressão ao Narcotráfico DEPATRI Departamento de Crimes Patrimoniais DGOPJ Diretoria Geral de Operações de Polícia Judiciária DHPP Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa GACE Gerência de Análise Criminal e Estatística GPPV Gratificação Pacto Pela Vida OMS Organização Mundial de Saúde PDS Prêmio de Defesa Social PESP-PE Plano Estadual de Segurança Pública de Pernambuco PPV Pacto Pela Vida RMR Região Metropolitana do Recife SDS Secretaria de Defesa Social SENASP Secretaria Nacional de Segurança Pública 9 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 10 2 A ATRIBUIÇÃO ESTATAL DE MANUTENÇÃO DA ORDEM E SEGURANÇA PÚBLICAS .......................................................................... 12 3 VIOLÊNCIA E CRIMINALIDADE EM PERNAMBUCO: UM DIAGNÓSTICO ........................................................................................... 16 4 PLANO DE SEGURANÇA PÚBLICA DE PERNAMBUCO: “UM PACTO PELA VIDA” ............................................................................................... A CONSTRUÇÃO DO PLANO .................................................................... PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO PLANO .......................................... GESTÃO DO PLANO .................................................................................. Elemento de Poder e Liderança ............................................................... Elemento Gestor ........................................................................................ Elemento Técnico ...................................................................................... CÂMARAS SETORIAIS .............................................................................. Câmara Setorial de Defesa Social ........................................................... Câmara Setorial de Administração Prisional .......................................... Câmara Setorial de Articulação do Ministério Público e Poder Judiciário ................................................................................................... Câmara Setorial de Prevenção Social ..................................................... Câmara Setorial de Enfrentamento ao Crack ......................................... PERCEPÇÃO DOS DELEGADOS DE POLÍCIA ........................................ 4.1 4.2 4.3 4.3.1 4.3.2 4.3.3 4.4 4.4.1 4.4.2 4.4.3 4.4.4 4.4.5 4.5 5 5.1 5.2 5.3 5.4 5.5 6 6.1 6.2 6.3 6.4 MECANISMOS DE GESTÃO DA ATIVIDADE POLICIAL CIVIL VOLTADOS PARA A REDUÇÃO DOS CRIMES DE HOMICÍDIOS EM PERNAMBUCO .......................................................................................... OPERAÇÃO DE REPRESSÃO QUALIFICADA .......................................... OPERAÇÃO MALHAS DA LEI .................................................................... OPERAÇÃO AUTORIA CVLI ...................................................................... OPERAÇÃO REPRESSÃO AO CRACK ..................................................... OPERAÇÃO CONTRA-AMEAÇA ............................................................... PRINCIPAIS RESULTADOS ALCANÇADOS NO PERÍODO DE 2007 A 2010 COM A IMPLANTAÇÃO DO PACTO PELA VIDA ............................ REDUÇÃO DOS ÍNDICES DE HOMICÍDIOS ............................................. AUMENTO DAS PRISÕES ......................................................................... AUMENTO DA APREENSÃO DE DROGAS .............................................. MUDANÇA DE ROTINA DAS ATIVIDADES NA POLÍCIA CIVIL DE PERNAMBUCO ........................................................................................... 22 25 26 30 30 30 31 33 33 34 34 35 35 36 38 40 42 42 43 44 45 45 45 46 46 10 7 CONCLUSÃO ............................................................................................. 50 REFERÊNCIAS ........................................................................................... 53 APÊNDICE A .............................................................................................. 57 11 1 INTRODUÇÃO O crescimento da violência e criminalidade tem sido um dos maiores entraves ao desenvolvimento de alguns países, pois inibe investimentos na região. O Brasil é apontado, pelas pesquisas da Organização Mundial de Saúde, como um dos países de alto índice de violência urbana, principalmente no tocante ao número de homicídios. Apesar desse indicativo, tem-se observado avanços no enfrentamento do problema. A preocupação com o tema tem proporcionado discussões envolvendo diversas esferas governamentais e a sociedade civil organizada, com excelentes contribuições do ambiente acadêmico. Essa junção de esforços também tem permitido implantação e execução de ações voltadas para a redução dos índices de violência e criminalidade com resultados eficientes e eficazes. Apesar das taxas continuarem altas, até porque o enfrentamento da violência e criminalidade não é missão fácil, a junção de esforços tem repercutido na queda dos índices, inclusive em regiões tradicionalmente violentas, como é o caso do estado de Pernambuco. Além de figurar entre os estados mais violentos do país, Pernambuco vem passando por um processo de desenvolvimento crescente e, como todo desenvolvimento, além dos avanços econômicos e industriais, também traz a reboque diversos fatores que influenciam no aumento da violência e criminalidade. Este cenário repercute diretamente nas ações dos órgãos integrantes do Sistema de Justiça Criminal. Considerando a necessidade de reduzir os índices de violência e criminalidade em Pernambuco, principalmente no tocante aos crimes de homicídios, e manter os investimentos e avanços para o desenvolvimento da região, bem como melhorar a qualidade de vida da população, o governo estadual criou, no início de 2007, com participação da sociedade civil organizada, o programa estadual para a área de segurança, denominado Pacto Pela Vida. Este plano estadual tem por base, dentre outros valores, a incorporação em todos os níveis de execução das Políticas Públicas de Segurança, de mecanismos de gestão, monitoramento e avaliação. A ausência de Políticas Públicas de Segurança, pautadas exclusivamente pelo planejamento, monitoramento e controle de resultados, tem caracterizado a realidade brasileira onde poucos os estados se destacam pela execução de uma 12 Política de Segurança Pública, dentre eles, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e, mais recentemente, Pernambuco. O Programa de Pernambuco teve como meta estruturante a construção de um conjunto de ações sistêmicas de curto, médio e longo prazos. Tais ações definem e monitoram responsabilidades, buscando interromper o crescimento da violência criminosa no Estado e iniciar um processo de redução contínua e progressiva de tal violência. Quantitativamente, a meta é reduzir em 12% ao ano as taxas de mortalidade violenta intencional. Relevante destacar que os mecanismos de gestão da atividade policial, incorporados através do Pacto Pela Vida, além de estarem relacionados diretamente com a redução dos índices de crimes violentos letais intencionais, como é o caso do homicídio, também estão produzindo mudanças de rotinas na atividade policial civil. São exemplos da mudança de rotina, a repressão qualificada da criminalidade, utilização da atividade de Inteligência, redução do lapso temporal entre a ocorrência do homicídio e a instauração do inquérito policial, e o aumento do número de inquéritos concluídos com identificação da autoria. Com relação à redução dos índices de crimes violentos letais intencionais, nos quatro primeiros anos de implantação do programa estadual observou-se redução importante: em março de 2007 a taxa de homicídios no estado de Pernambuco era de 56 por 100 mil habitantes e, em dezembro de 2010, caiu para 40 por 100 mil habitantes. Uma redução de 28,57%. O presente trabalho objetiva discorrer sobre os mecanismos de gestão da atividade policial, no âmbito da Polícia Civil de Pernambuco, voltados para a redução dos crimes de homicídios, bem como sua relação na mudança de rotinas da atividade policial civil. Para isso, além de apresentar o diagnóstico da violência e criminalidade no Estado de Pernambuco, contextualizando o cenário nacional, também será analisado o Plano Estadual de Segurança Pública de Pernambuco e examinada a redução dos índices de crimes de homicídios nos quatro primeiros anos de implantação do Plano. 13 2 A ATRIBUIÇÃO ESTATAL DE MANUTENÇÃO DA ORDEM E SEGURANÇA PÚBLICAS Ao discorrer sobre a manutenção da ordem pública como bem coletivo, Sapori (2007) afirma que o Estado, além de prover saúde e educação, dentre outros serviços, deve zelar pela preservação da integridade física e do patrimônio do cidadão e, assim, o enfrentamento da criminalidade se constitui numa atribuição estatal estruturante. O autor também esclarece que a capacidade estatal de manter a ordem e proporcionar sentimento de segurança à população, repercute no grau de confiabilidade das autoridades governamentais e legitimidade de um governo. Destaca que, nas décadas de 80 e 90, o poder público passou por um processo de deterioração de sua capacidade de controlar a criminalidade e violência. Exemplifica que a taxa de homicídios, no Brasil, saltou de 12 vítimas por grupo de 100 mil habitantes, em 1980, para 27, em 2004, constatando que o aumento desse tipo de crime concentrou-se nas periferias urbanas e sociais e atingiu, principalmente, os jovens entre 15 e 29 anos de idade, vez que a consolidação do tráfico de drogas nas comunidades periféricas ensejou a inclusão crescente de jovens no ciclo de criminalidade e violência (SAPORI, 2007, p. 98-100). Para melhor entender a repercussão do aumento da taxa de homicídios no Brasil, necessário esclarecer que a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que países com índices de violência superiores a 10 homicídios por grupo de 100 mil habitantes vivenciam situação de violência que pode ser considerada epidêmica. Necessário esclarecer, também, que as taxas de homicídios por grupo de 100 mil habitantes foram a forma que se entendeu menos problemática de dimensionar a violência, e homicídio foi o crime utilizado como referência, por se tratar da lesão mais grave contra o bem mais precioso que é a vida humana, e pelo fato das mortes violentas intencionais serem os crimes com a menor subnotificação em comparação a outros delitos não letais como roubos, furtos, lesões corporais e estupros. (SAURET, 2012, p. 21 e 35). Sapori também afirma que o papel do Estado na consecução da ordem pública se dá por um fluxo de atividades concatenadas e sucessivas, realizadas por atores distintos que integram o Sistema de Justiça Criminal composto, por sua vez, pelos subsistemas policial, judicial e prisional. Os subsistemas possuem 14 características próprias e atuam de forma articulada, ou seja, com divisão de trabalho e complementariedade de funções. As atividades desse Sistema estão relacionadas à prevenção de crimes, investigação e coleta de provas, visando identificação de autoria de crimes consumados e/ou tentados, julgamento desses autores para punição dos condenados, quando considerados culpados (SAPORI, 2007, p. 43). Além dos subsistemas citados, integram, também, o Sistema de Justiça Criminal o Ministério Público e a Defensoria Pública. No Brasil o subsistema policial é composto, na esfera estadual, pela Polícia Militar e a Polícia Civil, responsáveis, respectivamente, pelas atividades de policiamento ostensivo e investigativo. Essa divisão foi institucionalizada no final da década de 1960, durante o regime militar, e não encontra semelhança nos demais países ocidentais. Na esfera federal, existem a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal, responsáveis, respectivamente, pela investigação de crimes de competência da União e pelo patrulhamento e fiscalização das rodovias federais. Relevante destacar que as Polícias Militar e Civil integram o Poder Executivo estadual, existindo em todas as unidades da federação, inclusive no Distrito Federal. O subsistema judicial é representado pelos juízes e desembargadores que, por sua vez, são responsáveis pelas principais decisões no fluxo processual penal, observando o procedimento previsto no ordenamento jurídico vigente. Já o subsistema prisional é composto pelas unidades prisionais que, no Brasil, se dividem em cadeias públicas e penitenciárias e estão vinculadas ao Poder Executivo. As cadeias devem abrigar presos provisórios, ou seja, aqueles que ainda aguardam decisão final do processo criminal que respondem. As penitenciárias devem abrigar os presos condenados, ou seja, aqueles cujos processos já tiveram termo final com sentença penal condenatória e todos os recursos judiciais já resolvidos. O Ministério Público, apesar de dotado de autonomia administrativa e financeira, possui vínculos institucionais com o Poder Executivo. No Sistema de Justiça Criminal, atua como titular da ação penal nos crimes de ação pública incondicionada, ou seja, aqueles cuja apuração independe da vontade dos envolvidos, a exemplo dos crimes que resultam em morte. Apesar de estar mais presente no momento seguinte à conclusão da investigação policial, também pode 15 atuar na fase de investigação, quer acompanhando diretamente, quer se pronunciando sobre alguma medida solicitada pelo responsável pela investigação, quer solicitando alguma diligência. A Defensoria Pública também integra o Poder Executivo e, no âmbito do Sistema de Justiça Criminal, tem por atribuição promover a defesa dos autores de crimes que não possuem condições financeiras para constituir defesa particular. O Sistema de Justiça Criminal é acionado quando do conhecimento da ocorrência de um fato criminoso. Esse conhecimento pode ocorrer com a Polícia Militar durante o policiamento ostensivo ou através do atendimento das chamadas telefônicas de emergência ou com o registro da ocorrência na Polícia Civil sendo relevante destacar que quando o conhecimento ocorrer com a Polícia Militar, esta deve comunicar o fato à Polícia Civil por ser esta a responsável pela investigação. Na atividade de investigação, a Polícia Civil busca indícios e evidências da materialidade do crime e da autoria e todo o trabalho é consubstanciado num documento denominado Inquérito Policial que, quando concluído, é remetido ao Judiciário, através do Ministério Público. Este, por sua vez, entendendo estar caracterizada a materialidade e autoria do crime, apresentará Denúncia contra o autor do crime. Ocorrendo o recebimento da Denúncia por parte do Juiz, tem início a fase processual propriamente dita, que será concluída com sentença transitada em julgado, ou seja, após analisados todos os recursos interpostos. Ocorrendo condenação do autor do crime em pena privativa de liberdade, será ele encaminhado à unidade prisional. O julgamento dos crimes no Brasil possui ritos processuais distintos que dependerão do tipo do crime; entretanto, esse aspecto, por não ser relevante para o presente trabalho monográfico, não será aprofundado, mas é importante destacar que os princípios e dispositivos legais que permeiam o Sistema de Justiça Criminal impõem um ritmo moroso ao processo de julgamento e, muitas vezes, a possibilidade de torná-lo moroso é utilizada pela defesa dos autores de crimes com objetivo de livrá-los de uma condenação. Outro obstáculo ao perfeito funcionamento do Sistema são alguns casos específicos de não articulação entre a aplicação da lei e a manutenção da ordem. Alguns limites impostos pela legislação são tão rígidos que dificultam a atuação dos agentes públicos responsáveis pela garantia da ordem pública. E o que se observa é 16 que a contenção da criminalidade e da violência torna-se socialmente legítima a partir do momento em que a atuação dos subsistemas policial, judicial e prisional respeite o direito civil da cidadania. Deve-se atingir a punição dos autores de crimes de forma legítima, ou seja, num cenário processual formalmente previsto e por autoridades atuando em suas competências também fixadas por lei. Deve-se atenuar o máximo possível o erro humano no julgamento e o arbítrio excessivo do Estado em relação ao indivíduo. (SAPORI, 2007, p. 64-67). Portanto, o bom funcionamento da engrenagem do Sistema de Justiça Criminal e um relacionamento harmonioso entre os atores envolvidos irão repercutir diretamente no enfrentamento da violência e criminalidade. Para se atingir um resultado eficiente, a Política de Segurança Pública a ser adotada pelo Executivo Estadual precisa priorizar o envolvimento de todos os atores nas ações que busquem interromper o crescimento da violência criminosa, e iniciar um processo de redução contínua e progressiva de tal violência. O relacionamento harmonioso, visando um objetivo comum, vai permitir a utilização dos recursos disponíveis de forma otimizada e a diminuição do lapso temporal entre a prática do ato criminoso e a punição do seu autor. 17 3 VIOLÊNCIA E CRIMINALIDADE EM PERNAMBUCO: UM DIAGNÓSTICO Para melhor entender a violência e criminalidade em Pernambuco, importante destacar aspectos relacionados ao número de mortes violentas e o perfil das vítimas, bem como informações sobre a realidade do Estado em aspectos sociais, econômicos e demográficos e, ainda, sobre o efetivo policial que o Estado dispõe para o enfrentamento da criminalidade violenta. A maioria dos dados aqui pontuados foi retirada do diagnóstico realizado no início de 2007, e apresentado no texto do primeiro Plano Estadual de Segurança Pública de Pernambuco (PESP-PE 2007), implantado em maio daquele mesmo ano. Com base naqueles dados, podemos afirmar que o Estado de Pernambuco tem uma extensão territorial de aproximadamente 100.000 Km² dividido em 185 municípios. Segundo dados do IBGE, em censo realizado no ano 2000, a população foi estimada para 2007 em aproximadamente 8,6 milhões de pessoas, concentrando a Região Metropolitana do Recife (RMR), que representa apenas 3% do território do estado, 42% da população. Do total da população 51,18% eram mulheres; e quase 41% possuíam até 19 anos de idade. Dados de 2004 informam que de 50% a 55% da população viviam abaixo da linha de pobreza e a maior parte delas permanecia na RMR. Quanto ao aspecto econômico, o Estado apresenta atividades diversificadas por região. Na RMR estão os empreendimentos industriais e de serviços. Na Zona da Mata ainda se destaca a cultura da cana de açúcar. No Agreste, onde predomina a pecuária de bovinos, criação de aves, cultivo de grãos e flores, vem se destacando a atividade têxtil nos municípios de Caruaru e Santa Cruz do Capibaribe. Já no Sertão encontramos o maior percentual de criação de caprinos e ovinos (80%), o pólo gesseiro do Araripe e a agricultura de irrigação com produção de uva, vinho e manga no Vale do São Francisco. A história demonstra que Pernambuco sempre figurou entre os estados mais violentos do país; entretanto, o cenário da violência e criminalidade em Pernambuco não difere muito do contexto nacional. Além de figurar entre os estados mais violentos do país, Pernambuco vem passando por um processo de desenvolvimento crescente, viabilizado por investimentos públicos e privados, resultando em grandes empreendimentos e 18 projetos, a exemplo do Porto de Suape e do Estaleiro na RMR e região da Zona da Mata Sul; do Pólo Fármaco-Químico na Zona da Mata Norte; do Pólo Têxtil no Agreste; e do Pólo Gesseiro no Sertão. Além desses empreendimentos, Pernambuco também está contando com grandes obras de engenharia que objetivam dar melhores condições para a população e o comércio local, como é o caso das obras de transposição do Rio São Francisco e da Ferrovia Transnordestina. Os grandes empreendimentos sempre trazem a reboque diversos outros empreendimentos de médio e pequeno porte que também impulsionam o processo de desenvolvimento do estado e de toda a região nordeste. Ocorre que, em consequência do processo de desenvolvimento, o Estado se depara com um quadro impactante de explosão demográfica, por força da migração de trabalhadores de diferentes qualificações, naturalidades e culturas que observam no estado uma oportunidade de melhorar suas vidas. Também ocorrem mudanças significativas na vida da população sedimentada nos municípios, dentre elas o aumento da violência e criminalidade, que repercute diretamente nas ações dos órgãos integrantes do Sistema de Justiça Criminal, principalmente nos órgãos policiais. Tomando como exemplo o Porto de Suape, localizado no município do Cabo de Santo Agostinho, Região Metropolitana do Recife, pode ser observado que, com o início das atividades naquele complexo portuário, ocorreu grande oferta de empregos que, não tendo sido suprida apenas pela população das cidades circunvizinhas, ocasionaram a migração de grande quantidade de pessoas de várias localizadas do país. A diversidade de culturas e hábitos gerou conflitos de toda ordem, desde rivalidades bairristas até a prática de crimes violentos de grande potencial ofensivo, inclusive letal. Com o empreendimento, a cidade do Cabo de Santo Agostinho passou a representar a terceira maior arrecadação do estado, entretanto, não investiu em infraestrutura na proporção da arrecadação, surgindo um cenário de ocupação desordenada. Uma cidade que era procurada para lazer e descanso passou a ter destinação de habitação fixa para pessoas sem vínculo com o local, sem família, a maioria do sexo masculino impulsionando a procura de vida noturna intensa, prostituição e drogas. A migração de aproximadamente 40 mil homens, a circulação 19 de aproximadamente 50 mil veículos fez destacar a precariedade das estradas e acesso ao Porto, bem como dos serviços essenciais de água, esgoto, energia, coleta de lixo, moradia, etc., nos municípios relacionados. Nesse contexto se observou, também, o aumento dos crimes violentos letais intencionais, chegando à taxa de 104 homicídios por 100 mil habitantes e, ainda, aumento dos crimes violentos contra o patrimônio, violência doméstica contra a mulher, perturbação do sossego, abuso e exploração sexual de crianças, bem como aumento do uso de bebidas alcoólicas e da taxa de gravidez em adolescentes, que apresentou um acréscimo de 22%. Apesar de apenas pontuar as alterações ocorridas nos municípios diretamente relacionados à implantação das atividades do Porto de Suape, é relevante destacar que o processo é semelhante nos demais pólos de desenvolvimento do Estado, com algumas diferenças peculiares à própria região onde estão sedimentados. Exemplo desta afirmação, também, pode ser verificado em outras cidades, inclusive interioranas, como Serra Talhada e Araripina, no Sertão do Estado, onde as empresas responsáveis pelas obras da transposição do Rio São Francisco e da Ferrovia Transnordestina “plantaram” verdadeiras cidades, como apêndice daquelas já existentes na região. No diagnóstico apresentado no texto do PESP-PE 2007, com base em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde e do Sistema de Informações Policiais da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco, tem-se que, em 1998, a taxa de mortes por agressão alcançou os 60 por 100 mil habitantes e, em 2005, a taxa era de 53, superando a média nacional (PERNAMBUCO, 2007, p. 26-27). Importante esclarecer que o termo homicídio foi, por muito tempo, empregado para caracterizar a morte decorrente de agressões físicas, entretanto, as estatísticas oficiais da Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), alimentadas pelos boletins de ocorrência policial, consideram os homicídios dolosos (aqueles praticados com intenção de matar) como apenas uma das quatro categorias que compõem o indicador denominado Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI). As outras três categorias são os latrocínios (roubo seguido de morte), as lesões corporais seguidas de morte e as mortes suspeitas. Consta ainda do diagnóstico que, no período compreendido entre 2000 a 2004, 60% das mortes foram computadas nos 10 municípios pernambucanos com 20 mais de 100 mil habitantes, dos quais 6 pertencem à RMR, configurando assim que a criminalidade violenta, também no estado de Pernambuco, era um fenômeno dos maiores centros urbanos (PERNAMBUCO, 2007, p. 27-28). O peso demográfico do Recife contribui para sua influência na dinâmica da criminalidade no conjunto da RMR e no Estado, entretanto, alguns municípios da RMR apresentam taxas superiores às da capital, chegando a atingir a taxa de 100 por 100 mil habitantes como, por exemplo, os municípios de Olinda e Jaboatão que, em 2001, atingiram, respectivamente, a taxa de 109,1 e 96,6 por 100 mil habitantes (PERNAMBUCO, 2007, p. 29). Em 2004 Olinda apresentou taxa de 87,68 por 100 mil habitantes e, no período de 2000 a 2004, alcançou uma média de 98,44 por 100 mil habitantes. Jaboatão e Cabo de Santo Agostinho apresentaram, respectivamente, no mesmo período, taxa média de 87,63 e 84,86 por 100 mil habitantes. E apenas no ano de 2004 apresentaram 87,92 e 75,23 por 100 mil habitantes. Com relação aos números do interior (Sertão, São Francisco, Agreste e Mata), os registros policiais indicam uma média de 39,1 por 100 mil habitantes no ano de 2005 enquanto que, em 2004, foi de 35 por 100 mil habitantes. A região do São Francisco apresentava, em 1996, uma taxa de 58,3 por 100 mil habitantes que por sua vez teve grande redução em nove anos, chegando em 2004 a 37,4 por 100 mil habitantes. Já a região do Sertão que apresentava uma taxa de 30 por 100 mil habitantes em 1996, apresentou pequena redução durante o mesmo período, chegando a 2004 com 28,59 por 100 mil habitantes. Já as regiões do Agreste e Zona da Mata apresentaram aumento. A Mata pulou de 30,8 em 1996, para 44,8 em 2004. Já o Agreste passou de 33,1 em 1996, para 34 em 2004. Quanto ao perfil das vítimas, a maioria delas é do sexo masculino e de idade jovem ou adulta. Em 2004, por exemplo, os homens constituíram 93,4% das vítimas e a faixa etária predominante (considerando o universo de homens e mulheres) foi a dos 20 a 29 anos (41%), entretanto 83% das mortes masculinas e 70% das mortes femininas ocorreram na faixa etária dos 15 aos 39 anos (PERNAMBUCO, 2007, p. 42). Considerando ainda os dados de 2004, observa-se que, em Pernambuco, morreram 98 homens para cada 100 mil habitantes, contra 6,5 mulheres de cada 21 100 mil, demonstrando elevada incidência de mortalidade masculina no Estado, da ordem de 15 homens mortos por cada mulher morta. Analisando os dados por região observa-se que na RMR a taxa foi de 135,6 homens mortos por 100 mil e no interior foi de 71 por 100 mil. Já a taxa de mortes de mulheres, apesar de bem menores, também foram superiores na RMR com 8 mulheres mortas por 100 mil e no interior a taxa foi de 5,3 por 100 mil habitantes. No que diz respeito às idades por região, tem-se que, na faixa dos 20 a 29 anos, a maior incidência foi na RMR com 157,3 por 100 mil e no interior com 83,4. Da mesma forma ocorreu na faixa dos 15 aos 19 anos: 150,9 na RMR contra 38,4 no interior. Quando observada a população mais velha, os maiores índices ocorrem no interior. Na faixa dos 60 a 69 anos e 70 a 79 anos tem-se, respectivamente, 26,3 e 23,8 por 100 mil no interior contra 13,8 e 11,2 por 100 mil na RMR. Os dados da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS-PE) indicam que a maior parte dos CVLI ocorrem entre a noite da sexta-feira e a madrugada da segunda. Quanto aos instrumentos utilizados para a perpetração dos crimes, as estatísticas oficiais demonstram que em mais de 80% dos casos foi utilizada a arma de fogo. Para enfrentar as altas taxas de violência e criminalidade o Poder Executivo de Pernambuco conta com a SDS-PE integrada pela Polícia Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Polícia Técnica (peritos, médicos legistas e respectivos auxiliares técnicos). Em 2003 estas instituições somaram 26.282 profissionais, distribuídos da seguinte forma: 18.927 policiais militares (72%); 5.389 policiais civis (21%), dos quais 4.418 eram de setores administrativos e operacionais e 971 do setor técnico; e 1.966 bombeiros (7%) (PERNAMBUCO, 2007, p. 56). Quando relacionados os dados do efetivo com os dados populacionais, observa-se que, em 2003, existiam 3,2 profissionais de Defesa Social para cada 1.000 habitantes, ou seja, havia 1 profissional para cada 311 habitantes. Dado que colocava Pernambuco em situação desfavorável no cenário nacional, vez que a média nacional era de 1 profissional para cada 305 habitantes. E, quando analisado separadamente, o efetivo administrativo e operacional da Polícia Civil o desequilíbrio era maior: em 2003 no Brasil havia 1 policial civil para 1.526 habitantes e me Pernambuco existia 1 policial civil para 1.847 habitantes (PERNAMBUCO, 2007, p. 57-58). 22 Ainda com base nos dados constantes do diagnóstico apresentado no texto do PESP-PE 2007, as origens e causas dos elevados índices de criminalidade violenta em Pernambuco são de naturezas diversas, destacando-se as seguintes: “a) Fraqueza das instituições estatais, nas regiões de maior vulnerabilidade social; b) Elevado grau de desorganização social urbana; c) Modernização da atividade econômica, inclusive da atividade econômica ilegal, criando novas possibilidades de expansão da criminalidade, como o mercado de drogas; d) Observância de padrões rurais de honra e valorização da masculinidade e da virilidade na resolução privada de conflitos; e) Alta disponibilidade de armas de fogo sem controle; f) Incapacidade de formulação e execução de Políticas de Segurança Pública eficientes, transversais e integradas” (PERNAMBUCO, 2007, p. 62). É certo que, para atingir as raízes da violência no país, os governantes devem investir em Políticas Públicas para diversas áreas, objetivando superar os problemas socioeconômicos que mais atingem a sociedade. Os esforços devem ser direcionados para educação e saúde pública de qualidade, superação de problemas de má distribuição de renda, assim como para a área de Segurança Pública, mesmo que algumas políticas só apresentem resultados em longo prazo. As ações devem envolver todas as organizações do Estado e da sociedade. Mais que de Governo, a política dever ser de Estado, com projetos tanto de prevenção como de controle da criminalidade. 23 4 PLANO DE SEGURANÇA PÚBLICA DE PERNAMBUCO: UM “PACTO PELA VIDA” Consoante já destacado no capítulo 2 do presente trabalho, o Estado atua na consecução da ordem pública através de um fluxo de atividades concatenadas e sucessivas, realizadas por atores distintos que integram o Sistema de Justiça Criminal. Ocorre que o Chefe do Executivo, que é o responsável pela elaboração e implementação da Política Pública de Segurança, tem autoridade apenas sobre parte do Sistema, quais sejam: as organizações policiais; as unidades prisionais e as defensorias públicas. Não pode intervir ou determinar diretrizes para os integrantes do Ministério Público e do Judiciário (SAPORI, 2007, p. 73). Sapori (2007) explica que, apesar de serem tarefas que competem ao Estado, elas obedecem à divisão de poderes, típica dos Estados liberaldemocráticos. Afirma que essa característica se constitui num empecilho estrutural e institucional à efetivação de uma política pública que abarque todas as atividades do Sistema de Justiça Criminal. Defende que por isso, a gestão da política pública de controle da criminalidade é um exemplo típico de exercício de governança que possui sentido mais amplo que o de governo, pois considera que os serviços públicos são providos por uma network organizacional complexa. Ao discorrer sobre o tema, Sapori (2007) ensina que a governança diz respeito ao gerenciamento de redes, ao gerenciamento dos nexos e relações estabelecidas entre as organizações enquanto que o governo é apenas um dos atores que influenciam o curso dos eventos na rede. Com relação aos resultados da ação administrativa do governo, na ótica do exercício da governança, Sapori (2007) afirma que são consequência do trabalho conjunto da administração central com a network organizacional e não de uma mera implantação de regras preestabelecidas. Assim, conclui que a eficácia e a eficiência de uma política pública na área de segurança, passam necessariamente pela conjugação dos esforços da polícia, da justiça e do subsistema prisional. Outro aspecto a ser observado na construção de uma política pública para o controle da criminalidade é a combinação de estratégias preventivas e repressivas. Nesse sentido Sapori (2007) afirma que, na medida em que prevenção e repressão são concebidas como elementos opostos e excludentes, a capacidade do 24 estado de prover a ordem pública fica reduzida. Acrescenta que políticas públicas que adotam a repressão e a prevenção simultaneamente são uma raridade e cita como exemplo de bons resultados alcançados pela combinação de estratégias preventivas e repressivas, os casos dos Estados Unidos da América (década de 90) e da cidade de Bogotá (entre 1994 e 2002). Nos Estados Unidos a taxa de homicídios caiu de 9,8 por 100 mil habitantes em 1991 para 6,3 em 1998, persistindo nesse patamar nos anos seguintes, o que representou uma queda expressiva de 35%. Em Bogotá, a taxa de homicídios em 2003 chegou a 22 por 100 mil habitantes, contrastando fortemente como o pico de 80 por 100 mil habitantes ocorrido em 1993 (SAPORI, 2007, p. 86 a 89). Em Nova York, em meados da década de 90, com a política de tolerância zero, adotou-se um conjunto complexo de ações que se pautou, principalmente, pela redução dos níveis de impunidade aos comportamentos criminosos de menor gravidade e uma inovadora metodologia de gestão por resultados cuja principal característica era fomentar uma polícia proativa capaz de se antecipar ao crime, e não meramente reagir ao fato consumado (SAPORI, 2007, p. 76). Em Bogotá foi implantada uma Política de Segurança Pública que combinava estratégias diversas, no âmbito tanto da prevenção social quanto da repressão. Dentre as estratégias estavam: o fortalecimento da polícia (renovação e ampliação da frota de viaturas, modernização do sistema de comunicações para recepção de chamadas telefônicas e posterior despacho de viaturas, construção e adequação de unidades policiais, capacitação de policiais em direitos humanos e policiamento comunitário); a ampliação do sistema prisional; as iniciativas de mudança cultural que defendiam o respeito à vida e a autorregulação de condutas cidadãs; as intervenções em espaços urbanos deteriorados; controle do consumo de bebidas alcoólicas e do porte de arma de fogo; além da criação de órgãos colegiados, a exemplo do Conselho Distrital de Segurança, constituído pelo Prefeito, o Subsecretário de Segurança e os Comandantes de Polícia com jurisdição na cidade, além de representantes do Ministério Público, que se reuniam mensalmente e era a principal instância de tomada de decisões, cabendo a Subsecretaria de Segurança executar o que era decidido nas reuniões. Outro exemplo de órgão colegiado era o Comitê de Vigilância Epidemiológica de Lesões por Causas Externas, com atribuição de analisar o comportamento das mortes violentas na cidade e propor ações preventivas (SAPORI, 2007, p. 89-92). 25 Com relação ao padrão de atuação gerencial dos governos, Sapori (2001) afirma que a prevalência do gerenciamento de crises norteou as políticas federal e estadual de Segurança Pública no Brasil nos últimos 20 anos e que a questão da criminalidade foi incluída no debate política brasileiro de modo mais incisivo muito recentemente (SAPORI, 2007, p. 107). [...] Planejamento, monitoramento, avalição de resultados, gasto eficiente dos recursos financeiros não têm sido procedimentos usuais nas ações de combate à criminalidade, seja no Executivo federal, seja nos executivos estaduais [...] a história das políticas de segurança pública na sociedade brasileira nas duas últimas décadas se resume a uma série de intervenções governamentais espasmódicas, meramente reativas, voltadas para a solução imediata de crises que assolam periodicamente a ordem pública [...] (SAPORI, 2007, p. 109). Sapori (2007) explica que utiliza a denominação crises para se referir a quaisquer eventos na dinâmica do fenômeno criminoso ou do aparato de Justiça Criminal, publicamente percebidos como problemas e assim também definidos pelos meios de comunicação de massa e por isso merecem respostas imediatas por parte das autoridades do Estado. Exemplifica com a ocorrência de um crime violento que provoca grande clamor popular; denúncia pública de atos de arbitrariedade e corrupção policial; desafios explícitos às instituições estatais por parte de grupos criminosos organizados em moldes empresariais. O primeiro Plano Nacional de Segurança Pública foi formulado em 2001, logo após a comoção do caso do ônibus 173, no Rio de Janeiro. E em 2003 foi apresentado o “Projeto de segurança pública para o Brasil”, considerado um documento mais elaborado e consistente que o plano de 2001(SAPORI, 2007, p. 111). O Plano de 2003 abordava de forma mais abrangente a questão da Segurança Pública e reconhecia que os problemas mais graves não estavam no arcabouço legal, mas sim na gestão dos arranjos institucionais existentes. As propostas contemplavam, entre outros, a reforma do sistema policial; controle externo das policiais; prevenção da violência; controle do uso de armas de fogo; reforma do sistema prisional; violência contra a mulher; maior integração entre as organizações policiais estaduais e destas com as instituições federais, além do Ministério Público e Judiciário (SAPORI, 2007, p. 111 e 112). Utilizando os parâmetros nacionais definidos pelo Governo Federal para as ações de segurança pública nas unidades da federação brasileira e seguindo as orientações mais modernas de atuação no enfrentamento à violência e 26 criminalidade, o Governo de Pernambuco, numa junção de esforços, construiu seu Plano Estadual de Segurança Pública, detalhado nos subitens que seguem. Importante esclarecer que como são poucos os documentos doutrinários sobre o PESP-PE 2007, a maior parte das informações contidas nos subitens e capítulo que seguem foram coletadas através de instrumentos diversos e em momentos distintos, quais sejam: observação pessoal da autora ao participar de reuniões de monitoramento e avaliação das ações previstas no PESP-PE 2007; consulta a legislação estadual (lei, decreto e portaria); consulta aos planejamentos operacionais da Secretaria de Defesa Social que define diversos protocolos e procedimentos para as Polícias Civil e Militar; e consulta as informações e notícias constantes do site oficial do PESP-PE. 4.1 A CONSTRUÇÃO DO PLANO O Governo do Estado de Pernambuco iniciou o ano de 2007 coordenando diversas ações com o objetivo de reduzir a violência no Estado, com ênfase na diminuição dos crimes contra a vida. Foram promovidos debates entre especialistas, acadêmicos, militantes de organizações da sociedade civil que atuavam em setores específicos na área de Segurança Pública, além de gestores públicos das esferas federal, estadual e municipal. A essa grande concertação de ações e esforços deu-se o nome de Pacto Pela Vida. O material produzido nos debates articulados, que ocorreram nas reuniões do Fórum Estadual de Segurança Pública nos meses de março e abril de 2007, foi sistematizado e deu origem ao texto do Plano Estadual de Segurança Pública de Pernambuco, denominado Pacto Pela Vida (PPV), cuja elaboração foi considerada como a primeira atividade de formulação estratégica resultante das reuniões do Fórum. Mais precisamente nos dias 24 e 25 de março de 2007 ocorreram as reuniões das Câmaras Técnicas, com realização dos debates articulados, que produziram mais de uma centena de projetos com estabelecimento de objetivos, metas, ações, gestores, parceiros e prazos para início da implementação e vigência das ações. E no dia 21 de abril de 2007 ocorreu a Plenária com objetivo de avaliar, propor modificações, aperfeiçoar e aprovar a versão final do PESP-PE 2007. A 27 plenária foi presidida pelo Governador do Estado e composta por 13 Secretários de Estado e 15 representantes da sociedade civil organizada que, por sua vez, foram indicados através de Fóruns e Redes de alta representatividade social em Pernambuco (PERNAMBUCO, 2007, p. 13-14). Três dias antes da realização da Plenária, uma versão preliminar do PESPPE 2007, produzida a partir do resultado dos debates articulados das Câmaras Técnicas, foi entregue a todos os 28 participantes que, após análise, enviaram propostas de alteração do texto ou inclusão de novos projetos à Coordenação Executiva do Fórum, através de meio eletrônico. A Coordenação Executiva organizou e sistematizou o texto que foi aprovado na Plenária (PERNAMBUCO, 2007, p. 15). Ficou ainda estabelecido na Plenária que o Governador definiria o formato da instância responsável pelo monitoramento da execução do PESP-PE 2007 e que sua atualização ocorreria na I Conferência Estadual de Segurança Pública prevista para o ano de 2008, ocasião em que ocorreria o aperfeiçoamento das ações e projetos estabelecidos no texto inicial (PERNAMBUCO, 2007, p. 15). Pode-se dizer que o PESP-PE 2007 é a primeira experiência estruturada de forma racional e técnica, implantada no Estado de Pernambuco, na busca do enfrentamento da criminalidade de um modo geral, principalmente da criminalidade letal e intencional. Talvez a ênfase de natureza técnica dada ao enfrentamento da criminalidade seja o principal vetor do sucesso das ações preconizadas no Plano. 4.2 PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO PLANO A formulação do PESP-PE 2007 tomou por referência a Segurança Pública alicerçada nos seguintes valores: articulação entre Segurança Pública e Direitos Humanos, tendo como meta principal o direito à vida; compatibilização da dimensão repressiva e coercitiva da criminalidade violenta, com ênfase sobre os aspectos da prevenção social e específica; transversalidade e integralidade das ações de Segurança Pública, com envolvimento de todas as Secretarias de Estado; incorporação, em todos os níveis de execução das Políticas Públicas de Segurança, de mecanismos de gestão, monitoramento e avaliação; participação e controle social, tanto na formulação como na execução das ações de Segurança Pública (PERNAMBUCO, 2007, p. 13) (grifo nosso). 28 Além da observância dos valores referidos, o PESP-PE 2007 possui seis linhas de ações estruturadoras que estão em sintonia com as orientações mais modernas das Políticas de Segurança Pública, no Brasil e no mundo, quais sejam: repressão qualificada; aperfeiçoamento institucional; informação e gestão de conhecimento; formação e capacitação; prevenção social do crime e da violência; e gestão democrática. O PESP-PE 2007 teve, como meta estruturante, a construção de um conjunto de ações sistêmicas de curto, médio e longo prazos, que definindo e monitorando responsabilidades, busca interromper o crescimento da violência criminosa em Pernambuco e iniciar um processo de redução contínua e progressiva de tal violência, especialmente dos crimes contra a vida. “Quantitativamente, a meta básica é reduzir em 12% ao ano as taxas de mortalidade violenta intencional em Pernambuco, a partir de maio de 2007” (PERNAMBUCO, 2007, p. 15). Para estabelecer a meta de 12% de redução ao ano, foi realizado um estudo da curva de crescimento de homicídios em Pernambuco nas décadas de 80, 90 e nos primeiros anos do século XXI, sendo verificado que a variação estava sempre entre 7 e 16%, o que permitia que os valores médios de redução também se colocassem nesses patamares (LUCENA, 2010). Grande parte dos estudos resultou no diagnóstico apresentado no texto do PESP-PE 2007. Outra característica que precisa ser destacada é a decisão de, a partir de 2007, com a implantação do Plano, considerar o indicador CVLI para monitorar a mortalidade violenta intencional, incluindo nas estatísticas todos os casos que se enquadram nas definições legais dos crimes previstos no referido indicador, inclusive os homicídios praticados em legítima defesa própria ou de terceiros; casos de estrito cumprimento de dever legal (confronto policial); e homicídios/latrocínios praticados por adolescentes. Quanto à contagem dos crimes, foi adotado o critério de número de vítimas e não o número de ocorrências, ou seja, quando da ocorrência de um duplo homicídio (duas vítimas letais) são contabilizados dois CVLI. A adoção desses critérios precisa ser esclarecida, pois não são os mesmos adotados pelos demais Estados brasileiros. Sauret (2012), em artigo intitulado Políticas de contagem de homicídios no Brasil: os casos de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco, esclarece que a OMS aponta como homicídio todos os casos de morte por agressão heteroinfligida e, na contagem dos crimes, contabiliza o número de vítimas e não o 29 número de ocorrências pois suas fontes são as Declarações de Óbito. Esclarece, também, que a SENASP propôs a criação do indicador agregado de Crimes Violentos Letais Intencionais, o CVLI, que reúne sob a mesma denominação os homicídios dolosos (com intenção de matar), os latrocínios (roubos seguidos de morte) e as lesões corporais seguidas de morte, na tentativa de contornar o problema dos diferentes critérios utilizados pelos Estados brasileiros. No mesmo artigo Sauret (2012) afirma que, no Brasil, cada Estado da Federação monitora a violência segundo critérios que avaliam como mais acertados. Informa que São Paulo só leva em conta as mortes que se enquadram no artigo 121 do Código Penal Brasileiro (homicídios dolosos), excluindo, assim, do indicador oficial de violência os casos de latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes ocorridas em confronto com as Polícias Civil e Militar. Acrescenta que, além disso, São Paulo utiliza o critério de contar as ocorrências e não o número de vítimas e com isso um duplo homicídio (duas vítimas) contará como uma única ocorrência, não sendo contabilizado o montante de vítimas no índice geral de homicídios. Informa ainda que o Rio de Janeiro, a partir de 2011, passou a considerar a “Letalidade Violenta” (aí incluídos a soma das vítimas de homicídios dolosos, lesão corporal seguida de morte, latrocínio e auto de resistência) como um dos três indicadores estratégicos para aferição de metas, resultando num indicador equivalente ao CVLI proposto pela SENASP. Os outros dois indicadores utilizados pela Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro são o “Roubo de Veículo” e o “Roubo de Rua” (SAURET, 2012, p. 36). Outro aspecto que foi imprescindível para execução das ações previstas no PESP-PE 2007 foi a compatibilização das áreas de atuação das Polícias Civil e Militar. Referida compatibilização permitiria obter a máxima efetividade nas operações desencadeadas em uma mesma área de responsabilidade; melhorar a avaliação de desempenho, com estabelecimento conjunto de metas e indicadores; direcionar o conhecimento estatístico da realidade criminal da área de atuação conjunta; conhecer as dificuldades logísticas e operacionais de cada Instituição Policial; e facilitar o intercâmbio de informações. Assim, o Governo de Pernambuco, através do Decreto Estadual n° 26.868, de 30 de junho de 2004, delimitou circunscrições únicas de atuação para as polícias, visando a compatibilização dos espaços organizacionais e do planejamento operacional. As delimitações e compatibilizações de áreas foram, posteriormente, 30 regulamentadas através de Portaria do Secretário de Defesa Social, a exemplo da Portaria SDS n° 1.197, de 11 de junho de 2010, publicada no Diário Oficial do Estado de 15 de julho de 2010. A compatibilização contemplou a sobreposição da área de atuação das Instituições Policiais em três níveis: estratégico – representado pelas Gerências de Territórios da Capital, da Região Metropolitana, da Zona da Mata Norte, da Zona da Mata Sul, do Agreste I, do Agreste II, do Sertão I e do Sertão II; tático – representado pelas Áreas Integradas de Segurança (AIS), formadas pelo Delegado Seccional de Polícia Civil e pelo Comandante de Batalhão da Polícia Militar; e operacional – representado pelas Delegacias de Polícia e Companhias, Pelotão ou Destacamento da Polícia Militar. As circunscrições operacionais da Polícia Civil são em número de 217 em todo o Estado. As táticas são em número de 26. E as estratégicas são em número de 8. Os chefes das AIS e os gestores de Territórios do Interior (Zona da Mata Norte, Zona da Mata Sul, Agreste I, Agreste II, Sertão I e Sertão II) foram, gradualmente, instalados em unidades prediais integradas. Esse tipo de acomodação visava facilitar a efetiva integração entre os policiais de cada área e também facilitar a implementação de uma metodologia de planejamento operacional integrado. O esforço de delimitação de áreas compatibilizadas de atuação foi acompanhado de investimentos em alocação de efetivo policial; construção e reforma de imóveis para implantação das unidades integradas; e aquisição de equipamentos policiais (viaturas, coletes balísticos, armamento, mobiliário, microcomputadores, etc.). Investimentos que também foram estendidos para as Unidades Especializadas, diretamente envolvidas nas ações previstas no PESP-PE 2007, quais sejam, Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Departamento de Repressão ao Narcotráfico (DENARC) e Departamento de Crimes Patrimoniais (DEPATRI). Há ainda que ser destacada, como outra característica importante do PESPPE, a política de bonificação. Inicialmente foi implantado, através da Lei n° 14.024, de 26 de março de 2010, o Prêmio de Defesa Social (PDS), com objetivo de efetuar pagamento de prêmio em dinheiro para reconhecer o mérito dos policiais pelo atingimento da meta 31 anual de redução de 12% dos índices de CVLI no Estado. Quando a redução atinge os 12% no Estado, todos os profissionais de Segurança Pública são premiados. É uma premiação por resultado, paga uma vez por ano, considerando a redução dos CVLI do ano anterior ao do respectivo pagamento. Para fins de concessão do PDS, além da redução do CVLI, são consideradas a lotação do Policial Civil ou Militar. A lei prevê cinco categorias de PDS com valores distintos. Em um segundo momento, foi instituída, através da Lei n° 14.320, de 27 de julho de 2011, posteriormente regulamentada pelo Decreto n° 36.898, de 02 de agosto de 2011, a Gratificação Pacto Pela Vida (GPPV), que passou a premiar financeiramente os policiais civis e militares que atingem as metas estipuladas nas Operações Repressão ao Crack, Malhas da Lei, e Mandados. Essas Operações estão descritas no capítulo cinco desta monografia. Para o pagamento da citada gratificação toma-se como indicadores a produtividade dos policiais nas referidas modalidades de ações, todas previstas no PESP-PE 2007. 4.3 GESTÃO DO PLANO Com a formulação do PESP-PE 2007, surge, em Pernambuco, um novo modelo de gestão da política pública de segurança. A gestão é formada por três elementos distintos: o elemento de poder e liderança; o elemento gestor; e o elemento técnico. 4.3.1 Elemento de Poder e Liderança O elemento de poder e liderança, denominado Comitê de Governança, foi criado pelo Decreto Estadual n° 30.569, de 29 de junho de 2007, é presidido pelo Governador do Estado e integrado por representantes dos seguintes órgãos: Secretaria Chefe da Assessoria Especial do Governador, cujo representante atua como Secretário Executivo do Comitê de Governança; Secretaria de Defesa Social; Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos; Secretaria de Educação; Secretaria da Fazenda; Secretaria de Planejamento e Gestão; Secretaria Especial de Articulação Social; Secretaria Especial de Juventude e Emprego; Secretaria 32 Especial de Cultura; Secretaria Especial da Mulher; Secretaria Especial da Casa Militar; Secretaria Executiva de Direitos Humanos; Secretaria Executiva de Ressocialização; Polícia Civil; Polícia Militar; e Conselho Estadual da Criança e do Adolescente. O Comitê de Governança é um órgão deliberativo e de supervisão superior, responsável pela definição das diretrizes estratégicas e acompanhamento das ações que objetivam a progressiva e contínua redução das taxas de criminalidade no Estado de Pernambuco, em especial aquelas relacionadas ao CVLI. O Poder Judiciário, o Ministério Público, a Assembleia Legislativa, o Exército e o Departamento da Polícia Federal são convidados permanentes para integrarem o Comitê de Governança que se reúne mensalmente, sempre na última quinta-feira do mês. 4.3.2 Elemento Gestor O elemento gestor, denominado Comitê Gestor Executivo, é integrado pelos seguintes atores: o Secretário Estadual de Planejamento e Gestão, que o preside; o Secretário Estadual de Defesa Social; o Secretário Estadual Executivo de Defesa Social; o Secretário Estadual Executivo de Ressocialização; um Juiz representante do Tribunal de Justiça; um Promotor de Justiça representante do Ministério Público; um Defensor Público; o Chefe da Polícia Civil; o Comandante Geral da Polícia Militar; o Comandante Geral do Corpo de Bombeiros; e o Gestor da Polícia Científica. As reuniões ocorrem semanalmente, com intervalo de sete dias, entretanto, se necessário, o intervalo pode ser reduzido. A última reunião do mês ocorre em conjunto com a do Comitê de Governança. O Comitê Gestor Executivo é um órgão consultivo, deliberativo e de supervisão superior, que tem por finalidade promover a articulação entre os processos de formulação, implantação, monitoramento e avalição das ações previstas no PESP-PE 2007. 4.3.3 Elemento Técnico O elemento técnico é representado pelas Câmaras Setoriais de Defesa Social, de Administração Prisional, de Articulação do Ministério Público e Poder 33 Judiciário, de Prevenção Social e Enfrentamento ao Crack. Também realizam reuniões semanais e no final de mês integram a reunião do Comitê de Governança. As Câmaras Setoriais integram o Comitê Gestor Executivo e têm por finalidade propor e definir diretrizes e políticas setoriais que contribuam para a redução do CVLI, nas suas respectivas áreas de atuação. Durante as reuniões do Comitê Gestor Executivo são realizadas as seguintes atividades: estabelecimento de metas territorializadas a partir do diagnóstico apresentado; definição de ações; acompanhamento dos projetos estruturantes; avaliação dos indicadores de resultados; e adoção de medidas corretivas. Inicialmente ocorre a apresentação de diagnóstico por área, realizado a partir da compatibilização das informações dos sistemas das Polícias Civil e Militar e análise criminal, referenciada nas bases territoriais delimitadas. Em sequência é apresentada a projeção dos índices para o mês e ano em andamento fazendo um comparativo com os números de anos anteriores. São, então, discutidas ações para evitar aumento dos índices e manter a redução necessária para atingimento da meta estabelecida para o período atual. Na medida em que os assuntos são discutidos e as ações para solução dos problemas são sugeridas, o Comitê Gestor Executivo decide pela aprovação ou não das sugestões e os encaminhamentos aprovados são incluídos em ata. Na ata elaborada durante a reunião, além da descrição do encaminhamento aprovado, também fica registrado o gestor responsável por garantir a execução da ação, bem como o nome de todos os presentes na reunião. Em algumas reuniões, ainda podem ser apresentadas justificativas, por parte do Presidente do Comitê Executivo, com relação às demandas de responsabilidade do próprio Comitê Executivo que não puderam ser atendidas, apesar do compromisso assumido em reuniões anteriores. Com a regularidade das reuniões semanais e a presença do Governador do Estado, a tomada de decisões torna-se mais ágil e o acompanhamento dos trabalhos ocorre de forma contínua. É comum ocorrer, tanto nas reuniões do Comitê Gestor Executivo como do Comitê de Governança, a convocação de Delegados e Comandantes de AIS para apresentarem a dinâmica da criminalidade e os problemas identificados na área; as ações planejadas e implementadas; os resultados alcançados; e a efetividade da 34 ação na prevenção e controle do crime. A convocação pode ocorrer pela constatação do aumento da taxa de CVLI na área ou para apresentação de ação que esteja apresentando bons resultados. Além dos chefes das unidades de atuação integrada também podem ser convocados para esclarecimentos durante a reunião, os gestores dos Departamentos Especializados que têm atuação nas áreas integradas dos Territórios da Capital e Região Metropolitana que são: DHPP; DENARC; e DEPATRI. Esses Departamentos da Polícia Civil, que possuem Núcleos de Inteligência próprios, além de atuarem objetivando redução dos índices de CVLI, priorizam a investigação de grupos criminosos organizados, com foco em repressão qualificada. 4.4 CÂMARAS SETORIAIS Como já citado no item anterior, as Câmaras Setoriais representam o elemento técnico do novo modelo de gestão da Política Pública de Segurança de Pernambuco e integram o Comitê Gestor Executivo. Têm por finalidade propor e definir diretrizes e políticas setoriais que contribuam para a redução do CVLI, nas suas respectivas áreas de atuação, quais sejam: Defesa Social; Administração Prisional; Articulação com Ministério Público e Poder Judiciário; Prevenção Social; e Enfrentamento ao Crack. 4.4.1 Câmara Setorial de Defesa Social A Câmara Setorial de Defesa Social, além de propor ações, sempre de acordo com o projeto maior do Estado, ou seja, o PESP-PE 2007, e em harmonia com as ações das demais Câmaras Setoriais, também as executa. Dentre os integrantes da Câmara Setorial de Defesa Social, estão o Secretário de Defesa Social; o Secretário Executivo de Defesa Social; Gerente de Inteligência da SDS; o Chefe da Polícia Civil; o Comandante Geral da Polícia Militar; o Comandante Geral do Corpo de Bombeiros; os Diretores Gerais de Operações das Polícias Civil e Militar; os gestores dos Departamentos Especializados; os gestores dos Territórios. 35 4.4.2 Câmara Setorial de Administração Prisional A Câmara Setorial de Administração Prisional analisa os principais problemas do Sistema Prisional e propõe ações para solucioná-los, também com vistas a atingir a meta de redução dos índices de CVLI. Dentre os seus integrantes estão o Secretário Executivo de Ressocialização; Juízes das Varas de Execuções Penais; Promotor de Justiça com atuação na Vara de Execuções Penais; Presidente do Conselho Penitenciário do Estado; Representante da Ordem dos Advogados do Brasil; Representante da Secretaria de Defesa Social; representante da Gerência de Inteligência da SDS. O funcionamento da Câmara Setorial de Administração Prisional viabilizou a sistematização das liberações de presos; a construção de mais uma unidade prisional para diminuir o déficit de vagas; o monitoramento dos presos de regime semi-aberto, com tornozeleira eletrônica, reduzindo o índice de fuga. 4.4.3 Câmara Setorial de Articulação do Ministério Público e Poder Judiciário A Câmara Setorial de Articulação do Ministério Público e Poder Judiciário possibilita maior integração entre esses dois órgãos e da Defensoria Pública com as Polícias, o que traz benefícios tanto para cada organização, quanto para o Sistema de Justiça Criminal. A partir do funcionamento da citada Câmara foi possível adotar procedimentos simplificados de comunicação entre a Administração do Sistema Prisional, a Polícia Militar e o Judiciário, para apresentação de réus presos em dia de audiência; designar juiz especial para acompanhar representações feitas pela Polícia junto às Varas do Tribunal do Júri; elaborar cronograma de saída dos reeducandos do regime semi-aberto, no Natal e no Ano Novo de 2008 o que contribui para o menor índice de evasão dos anos anteriores; e compartilhar informações e procedimentos entre Polícia Civil, Ministério Público e Tribunal de Justiça na construção de operações policiais de desbaratamento de grupos de extermínio. 36 4.4.4 Câmara Setorial de Prevenção Social Já a Câmara de Prevenção Social sugere implantação de programas que atuam para evitar que o crime aconteça, alterando as condições sociais ou institucionais que podem influenciar a atividade criminosa. É integrada por diversos órgãos, a exemplo da Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos; Secretaria de Educação; Secretaria da Fazenda; Secretaria de Planejamento e Gestão; Secretaria Especial de Articulação Social; Secretaria Especial de Juventude e Emprego. Tem como principal programa o Governo Presente, que vem sendo implantado, gradualmente, nos bairros da capital que apresentavam os maiores índices de violência e criminalidade. O programa Governo Presente proporciona ações esportivas, culturais, de qualificação profissional e de resgate da cidadania para crianças e adolescentes. 4.4.5 Câmara Setorial de Enfrentamento ao Crack A Câmara de Enfrentamento ao Crack é composta por representantes da SDS, a exemplo do Gestor do DENARC e representantes das Secretarias de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos; Secretaria de Educação; Secretaria de Saúde; Secretaria Especial de Articulação Social; Secretaria Especial de Juventude e Emprego, dentre outros. Além de ações para repressão do tráfico de drogas, a Câmara de Enfrentamento ao Crack também trata de ações que ofereçam um conjunto de serviços direcionados para a prevenção e o atendimento aos usuários de álcool, crack e outras drogas, em busca da redução da violência e criminalidade geradas pelo consumo de drogas. Nesse contexto, traça diagnóstico, identifica áreas vulneráveis e define os agentes públicos responsáveis pelas atividades a serem desenvolvidas. Um dos principais resultados das ações da Câmara Setorial de Enfrentamento ao Crack foi o Programa ATITUDE - Atenção Integral aos Usuários de Drogas e seus Familiares, que proporciona acolhimento e apoio para usuários e familiares e intervenção psicossocial e socioassistencial em espaços como praças, escolas, bares, ruas e comunidades. 37 4.5 PERCEPÇÃO DOS DELEGADOS DE POLÍCIA Objetivando conhecer a percepção dos Delegados de Polícia Civil com relação aos mecanismos de gestão da atividade policial civil, optou-se pela aplicação de um questionário (Apêndice A) contendo perguntas simples sobre o cargo/função exercido pelo Delegado; sobre quais características do PESP-PE 2007 ele entendia como relevantes para atingir a meta de redução dos CVLI; quais aspectos da atuação da Polícia Civil estariam relacionados na redução dos CVLI; e se identificava algum outro resultado no âmbito da Instituição Policial Civil, além da redução dos CVLI, a partir da implantação do PESP-PE. O questionário foi enviado, através de endereço eletrônico, para 20 Delegados com atuação em Unidades envolvidas no cumprimento das metas de redução dos índices de CVLI. Dos 20 questionários enviados, apenas foram recebidas respostas de três Delegados. Apesar do quantitativo de respostas não ser suficiente para representar a opinião de uma amostragem significativa do universo de Delegados da Instituição, decidiu-se pela inclusão das respostas nesta monografia, vez que os três Delegados que responderam ao questionário, exercem ou exerceram cargos importantes na escala de comando da Instituição e no cumprimento das metas do PESP-PE, quais sejam: Chefe e Subchefe da Polícia Civil; Diretor da DGOPJ; Chefe do Centro Integrado de Inteligência e Defesa Social da SDS; Gestor do DHPP; Chefe de Território do interior; e Chefe de Área Integrada no interior e na capital. Dentre as respostas, os Delegados destacaram como mais relevantes para atingir a meta de 12% de redução dos CVLI: o modelo de gestão; o planejamento; a condução do processo pelo Governador do Estado (resposta de dois Delegados); integração entre os órgãos do Sistema de Justiça Criminal; foco no resultado; e atuação integrada dos órgãos operativos de defesa social (Polícia Civil, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros). Destacaram como aspectos da atuação da Polícia Civil relacionados diretamente na redução dos CVLI: 80% de resolutibilidade dos inquéritos de homicídios com indicação de autoria (resposta de três Delegados); investimento em Recursos Humanos com nomeação de Delegados, Agentes e Escrivães; cumprimento das ações previstas no Planejamento Operacional da SDS; enfrentamento a organizações criminosas; e prisão de autores de homicídios. 38 Sobre outros resultados, no âmbito da Polícia Civil, decorrente da implantação do PESP-PE 2007, informaram: melhoria na qualidade/quantidade dos inquéritos policiais; investimentos/melhoria na estrutura dos Departamentos e Delegacias (respostas de dois Delegados); meritocracia (resposta de dois Delegados); melhoria na gestão da Instituição; intercâmbio de informações entre os profissionais; e interesse dos profissionais por capacitação. Analisando as respostas, pode-se observar que ocorreu coincidência de indicação para os seguintes aspectos: a condução do processo pelo Governador do Estado; 80% de resolutibilidade dos inquéritos de homicídios com indicação de autoria; investimento/melhoria na estrutura dos Departamentos e Delegacias; e meritocracia. As respostas que se repetiram dizem respeito a investimento; valorização do profissional por mérito; quantidade e qualidade do resultado; e elemento de poder e liderança da gestão. Aspectos de crucial importância para o sucesso de toda e qualquer política pública. 39 5 MECANISMOS DE GESTÃO DA ATIVIDADE POLICIAL CIVIL VOLTADOS PARA A REDUÇÃO DOS CRIMES DE HOMICÍDIOS EM PERNAMBUCO Como já destacado na presente monografia, com a implantação do PESPPE 2007, intitulado Pacto Pela Vida, no plano do Executivo Estadual, foram definidos princípios e valores gerais para regular o trabalho das Polícias e estabelecido como prioridade a redução dos índices de CVLI. No que diz respeito à Polícia Civil, a prioridade foi para a concentração de esforços na investigação do crime de homicídio. É certo que para se atingir o ideal de eficiência e efetividade, além da profissionalização das Instituições e o constante aperfeiçoamento/capacitação dos servidores torna-se primordial, instituir mecanismos de gestão que garantam o monitoramento das ações e os resultados almejados. No âmbito do PESP-PE uma das principais preocupações foi com a incorporação, em todos os níveis de execução das Políticas Públicas de Segurança, de mecanismos de gestão, monitoramento e avalição. Ratton, Torres e Bastos (2011) apontam como mecanismo de gestão eficiente da atividade policial civil em Pernambuco, o funcionamento permanente do Comitê Gestor do Pacto Pela Vida, no plano macro, e da DGOPJ e da Coordenação do DHPP, nos planos meso e micro. Ainda referindo sobre os mecanismos de gestão, os autores destacam que o Gestor do DHPP acompanha e controla a produção de cada uma das sete delegacias que integram o departamento e seus respectivos delegados. Explicam que o citado Gestor coloca delegacias lado a lado e estimula a competição entre delegados, esclarecendo que o aumento das taxas de elucidação dos crimes de homicídio constituem os objetivos finais do Departamento e, consequentemente, das delegacias que o integram (RATTON; TORRES; BASTOS, 2011, p. 51). Constatam que o foco na produtividade repercute consideravelmente no cotidiano das delegacias do DHPP. Cada delegacia procura concluir o maior número de inquéritos e tende a priorizar a investigação de crimes de maior potencial ofensivo por representarem maior risco para a sociedade, dentre eles as ocorrências envolvendo grupos de extermínio e outras formas de crime organizado, bem como a ação de homicidas contumazes (RATTON; TORRES; BASTOS, 2011, p. 42-43). 40 Sob a ótica dos mecanismos de gestão incorporados com o PESP-PE 2007, sabe-se que o mesmo acompanhamento e controle que o gestor do DHPP realiza sobre as delegacias e delegados integrantes do departamento, para instauração e conclusão dos inquéritos de homicídios com identificação de autoria, também é realizado pelos Gestores de Territórios da RMR e do Interior (Zona da Mata Norte, Zona da Mata Sul, Agreste I, Agreste II, Sertão I e Sertão II) com seus respectivos chefes de AIS e delegados das circunscrições. Já o impacto do PESP-PE 2007 e seu modelo de gestão foi bem menor nas delegacias da capital que, a partir de 2008, deixaram de investigar crimes de homicídios (RATTON; TORRES; BASTOS, 2011, p. 52). Entretanto, da mesma forma que as demais delegacias das circunscrições da RMR e do interior, as delegacias da capital também tiveram aumentada a demanda por investigação de crimes de ameaça, sendo priorizada a intimação e ouvida do autor da ameaça, tão logo registrado o boletim de ocorrência pela vítima. Relevante destacar que a gestão e o controle das atividades da Polícia Civil de Pernambuco são orientados pelas ações de polícia judiciária estabelecidas no PESP-PE 2007, cujo acompanhamento é aprimorado através do Planejamento Operacional da SDS. Citado planejamento é editado anualmente, e sempre prioriza as metas principais quanto à redução dos índices de CVLI, que são: Meta Esforço e Meta Qualis. No Planejamento Operacional da SDS estão descritas as propostas de ações preventivas e repressivas a cargo das polícias e bombeiros. A Meta Esforço (plano operacional) tem por objetivo alcançar a redução de 12% do CVLI no Estado e nas AIS, com base no nível de criminalidade. É uma meta estabelecida mensalmente por média, objetivando facilitar a divulgação para os policiais e reduzir as distorções nas AIS com baixa criminalidade. A Meta Qualis (plano estratégico) tem, basicamente, dois objetivos: demonstrar o nível criminal do Estado e de cada AIS, com foco em alcançar a taxa de homicídios do Brasil que é de 26 por 100 mil habitantes; e criar parâmetros para as AIS com nível de criminalidade inferior ao do Brasil, com foco em alcançar a taxa da OMS que é de 10 por 100 mil habitantes. Para atingir as metas principais, o Planejamento Operacional da SDS estabelece diversas ações, intituladas de operações, a serem executadas pelas Polícias Civil, Militar e Corpo de Bombeiros. Algumas ações são de execução 41 conjunta e outras específicas para cada instituição. Com relação às ações de atribuição da Polícia Civil, destacam-se as seguintes: Operação de Repressão Qualificada; Operação Malhas da Lei; Operação Autoria CVLI; Operação de Repressão ao Crack; e Operação Contra-Ameaça. 5.1 OPERAÇÃO DE REPRESSÃO QUALIFICADA Consiste na realização de operações de repressão qualificada em todo o Estado, com apoio da Gerência de Inteligência da SDS e participação da Agência Central de Inteligência da Polícia Civil e dos Núcleos de Inteligência dos Departamentos e Delegacias Especializadas. A meta é realizar, no mínimo, 12 operações por semestre. É uma ação de execução exclusiva da Polícia Civil. Segundo Mansur (2007), repressão qualificada pode ser entendida como um método de enfrentamento da violência que tem como premissa focalizar os criminosos de maior periculosidade para a sociedade e, no menor espaço de tempo, investigá-los, processá-los e condená-los, visando estabelecer na comunidade a sensação de segurança que ela tanto almeja. Está baseado no gerenciamento das informações que caso sejam precedentes e pertinentes, serão materializadas através de um trabalho investigativo feito pelas polícias judiciárias. Essa metodologia, de acordo com o autor, só terá êxito se contar com uma participação conjunta e comprometida dos demais órgãos integrantes do Sistema de Justiça Criminal, Ministério Público e Poder Judiciário. Nesse diapasão, Lima e Silva (2009) entende que, para que haja realmente a repressão qualificada à violência, é necessário que também haja uma preparação qualificada do profissional de Segurança Pública, através de uma capacitação continuada. A autora ainda ressalta, em seu artigo, que há três aspectos a abordar nessa repressão qualificada: a tecnicalidade representada pela qualidade da prova, com amparo científico; a estrita observância aos direitos humanos, sob pena de nulidade do processo; e a busca incessante da paz social. 42 Como uma das linhas de ação do PESP-PE 2007, a repressão qualificada está calcada em quatro pilares: inteligência; informação; tecnologia e gestão. Nessa perspectiva foi criado o Sistema Estadual de Inteligência de Segurança Pública do Estado de Pernambuco (SEINSP), através da Lei Estadual n° 13.241, de 29 de maio de 2007, posteriormente regulamentada pelo Decreto Estadual n° 30.847, de 01 de outubro de 2007. Integrando o SEINSP está o Subsistema de Inteligência da Polícia Civil (SISPPOC), composto por uma agência central, subordinada administrativamente ao Chefe de Polícia Civil e pelos núcleos de inteligência do DHPP, DENARC, DEPATRI, de algumas Delegacias Especializadas e dos Territórios do Interior. Destes, apenas foram implantados e estão funcionando os núcleos do Agreste I e Sertão I. O trabalho de Polícia Judiciária, principalmente na repressão qualificada de crimes envolvendo grupos criminosos organizados, depende da utilização de técnicas de investigação mais aprimoradas, que permitam o monitoramento dos integrantes do grupo criminoso, objetivando mapear os crimes praticados, bem como realizar a total identificação dos envolvidos, estabelecendo a atuação e o nível hierárquico de cada integrante no grupo. Essas técnicas, na maioria das vezes, necessitam de autorização judicial com manifestação ou acompanhamento do Ministério Público, e são provocadas por Representação do Delegado de Polícia responsável pela investigação. Muitas vezes são deferidas por período determinado e exíguo para a conclusão da investigação e, por isso, na grande maioria das vezes, precisam ser renovadas com urgência. Assim, se não houver perfeita comunicação e coordenação entre os integrantes do Sistema de Justiça Criminal, pode-se perder a oportunidade de resolução dos crimes. Na Polícia Civil de Pernambuco a repressão qualificada da criminalidade possui três momentos: a investigação, que demanda da coleta de prova da ocorrência do crime, identificação da autoria e obtenção dos respectivos mandados de prisão e de busca e apreensão; o planejamento (previsão de meios, convocação das equipes, etc.), para o cumprimento dos mandados judiciais que deve ocorrer de forma simultânea objetivando garantir a efetividade do cumprimento; e a deflagração da operação para cumprimento dos citados mandados. O primeiro momento é de responsabilidade do Delegado de Polícia que preside a investigação e tem autonomia para realizá-la, contando com o apoio e suporte da atividade de inteligência. O segundo é de responsabilidade do Delegado 43 de Polícia Planejador, designado e supervisionado pelo Diretor da DGOPJ. E o terceiro é de responsabilidade e coordenação do Diretor da DGOPJ. Segundo dados da DGOPJ, como resultado das ações implementadas no âmbito da SDS, no período compreendido entre os anos de 2007 a 2010, com observância das dimensões e programas previstos no PESP-PE 2007, foram deflagradas 58 operações de repressão qualificada, envolvendo atuação de Policiais Civis e Militares no cumprimento de mandados de prisão e mandados de busca e apreensão, resultando num total de 1.077 presos, com destaque para o excelente trabalho de inteligência e do planejamento operacional que possibilitou a realização das prisões, sem que tivesse ocorrido um único disparo de arma de fogo. Das 58 operações de repressão qualificada, 26 foram direcionadas ao enfrentamento de grupos de extermínio. Antes de 2007 essa modalidade de investigação não era realizada no Estado de Pernambuco. 5.2 OPERAÇÃO MALHAS DA LEI Consiste na designação de policiais civis e militares com objetivo de cumprir mandados de prisão. A meta mensal é cumprir, no mínimo, três mandados de CVLI consumado e tentado e dois mandados de demais crimes hediondos, tráfico de drogas ou crimes violentos contra o patrimônio (CVP). Implica no monitoramento dos criminosos mais perigosos para a sociedade. Os mandados são selecionados a partir de uma lista de pessoas procuradas, quer decorrentes de livramento condicional irregular ou por serem consideradas prioritárias para a AIS. A elaboração da lista de pessoas procuradas é de responsabilidade do Centro Integrado de Inteligência e Defesa Social (CIIDS) da SDS. Cada uma das 26 AIS possui uma equipe de policiais civis e militares responsável pelo cumprimento dos mandados de prisão. 5.3 OPERAÇÃO AUTORIA CVLI Consiste na resolução prioritária dos inquéritos policiais de CVLI consumado e tentado, concluindo com autoria de 50% a 80% da quantidade de ocorrências do 44 mesmo mês do ano anterior. A meta de 50% é determinada para as AIS e a de 80% para o DHPP. É uma ação de execução exclusiva da Polícia Civil. Como já destacado no presente trabalho, a Polícia Civil em sua atividade de investigação, busca indícios e evidências da materialidade e da autoria do crime. O resultado dessa busca é consubstanciado num documento denominado inquérito policial que, quando concluído, é remetido ao Judiciário, através do Ministério Público. Somente com a prova da materialidade e a identificação da autoria torna-se possível processar, julgar e condenar o autor do crime e viabilizar o cumprimento da pena atribuída com a condenação. Ratton, Torres e Bastos (2011) evidenciam que, durante o período em que a Polícia Civil de Pernambuco não possuía mecanismos de controle e acompanhamento das investigações de homicídios, as delegacias, tanto as das circunscrições da capital quanto a especializada em homicídios, não eram capazes de investigar e elucidar a autoria que correspondesse a 10% do total de homicídios ocorridos no Recife. Também constatando a mudança da rotina das atividades da Polícia Civil de Pernambuco, Nóbrega Júnior (2010) afirma que, após a implantação do novo modelo de gestão no DHPP, ocorreu um importante incremento na conclusão de inquérito policial. Informa que, entre setembro de 2008 e julho de 2009, o incremento foi da ordem de 430%. 5.4 OPERAÇÃO REPRESSÃO AO CRACK Consiste no enfrentamento permanente ao crack, à pasta base de cocaína e à cocaína, com observação para a prisão em flagrante. Possui duas etapas: debelar pontos de venda de drogas; e, após debelar o ponto de venda de droga, manter o policiamento ostensivo no local por, no mínimo, dez dias. São contabilizados para a produtividade das equipes policiais a quantidade de pontos debelados e a quantidade de droga apreendida. É uma ação que também contribui para a redução dos índices de CVLI. A disputa por pontos de vendas de drogas e a as dívidas decorrentes do consumo destas são apontados como motivação para uma considerável parcela dos crimes de homicídios. 45 Nesse sentido Nóbrega Júnior (2010) informa que, segundo dados do DHPP, dos inquéritos policiais remetidos por aquele Departamento no período de outubro de 2008 a maio de 2009, 31,92% apontavam para motivação relacionada ao tráfico de drogas. Já Sauret (2012), numa proposta de classificação da motivação do homicídio por macrocategorias conceituais, incluiu os homicídios relacionados ao tráfico de drogas no grupo de atividades criminais, junto com grupo de extermínio, acerto de contas entre criminosos, disputa de gangues, corrupção, interesse financeiro, pistolagem, queima de arquivo e rixa. E, ao analisar, na perspectiva de macrocategorias, os casos de homicídios ocorridos nos sete primeiros meses de 2009 que já estavam com a motivação definida na conclusão do inquérito (51,01% dos 2.456 homicídios), diagnosticou a predominância de homicídios vinculados a atividades criminosas em 498, o que representa 20,3% do universo pesquisado. 5.5 OPERAÇÃO CONTRA-AMEAÇA Consiste intimação do autor dos crimes de ameaça contra a vida registrados pelas delegacias circunscricionais e realização de oitiva do autor. A meta é a intimação com oitiva de 100% das ameaças do mês anterior. Também é uma ação de execução exclusiva da Polícia Civil. Apesar de definido como crime de menor potencial ofensivo, a ameaça pode se desenvolver para o crime mais grave, o homicídio. Segundo Sauret (2012), em Pernambuco, há indício de que a intimação sistemática de pessoas denunciadas por ameaça, para prestar declarações, pode ter contribuído para a redução significativa dos números de homicídios de mulheres durante o ano de 2010. 46 6 PRINCIPAIS RESULTADOS ALCANÇADOS NO PERÍODO DE 2007 A 2010 COM A IMPLANTAÇÃO DO PACTO PELA VIDA 6.1 REDUÇÃO DOS ÍNDICES DE HOMICÍDIOS No primeiro ano de implantação do Pacto Pela Vida, o Estado não conseguiu atingir a redução pretendida; entretanto a meta de 12% foi mantida e foi destacada a implementação de 73% das 138 ações previstas no plano, dentre elas o fortalecimento do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa. O atingimento da meta somente foi alcançado nos anos de 2009 e 2010. Consoante dados da Gerência de Análise Criminal e Estatística da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco, com base nos números contabilizados até o mês de dezembro de cada ano, foi verificada no ano de 2007 uma redução de 2% e no ano de 2008 uma redução de 2,4%. Já nos anos de 2009 e 2010 a redução pretendida foi alcançada. Foi observada, respectivamente, uma redução de 12,3% e 14%. Com essa redução, o Estado de Pernambuco saiu do segundo para o quarto lugar no ranking nacional da violência, divulgado no quinto anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2011), que apresentou dados dos anos de 2009 e 2010, repassados pelas Secretarias de 17 Unidades da Federação à Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP). Comparado aos estados da Região Nordeste que forneceram dados para a SENASP em 2009 e 2010 (Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Sergipe), Pernambuco foi o único que registrou redução na taxa de CVLI, pois em Alagoas foi verificado um aumento de 42,63% e na Paraíba e Sergipe, respectivamente, um incremento de 20,87% e 39,11%. 6.2 AUMENTO DAS PRISÕES A prioridade estabelecida pelo PESP-PE 2007 para cumprimento de mandados de prisão é decorrente da necessidade de retirar do convívio social os autores de crimes e, assim, evitar que eles continuem na prática delituosa, incidindo para o aumento da violência e criminalidade. Também tem por finalidade diminuir a sensação de impunidade que existe na sociedade. 47 Com o início da Operação Malhas da Lei, ocorreu significativo aumento no quantitativo de mandados de prisão cumpridos tanto pela Polícia Civil quanto pela Polícia Militar. Dados da Gerência de Análise Criminal e Estatística (GACE) da SDS revelam que o número de prisões feitas no Estado teve um aumento de 92%. Em 2009 foram cumpridos 2.835 mandados de prisão e em 2010 esse número aumentou para 5.447 mandados cumpridos (PERNAMBUCO, 2011). 6.3 AUMENTO DA APREENSÃO DE DROGAS Durante apresentação do PESP-PE 2007 na Assembleia Legislativa de Pernambuco, em 25 de novembro de 2009, foram apresentados os resultados atingidos na esfera do enfrentamento do tráfico de drogas pelo DENARC, no período de janeiro a setembro de 2009, fazendo um comparativo com os dados de 2008. Na ocasião foi demonstrado que, mensalmente, durante o ano de 2008, foram realizadas, em média, 40 prisões e remetidos à Justiça, 33 inquéritos policiais, enquanto que, durante o ano de 2009 (de janeiro a setembro), foram, mensalmente, realizadas 82 prisões e remetidos à Justiça 67 inquéritos policiais. As prisões realizadas no ano de 2009 resultaram na apreensão de 54 Kg de cocaína e crack e 615Kg de maconha. Com relação ao ano de 2010, consta de matéria publicada no Diário de Pernambuco de autoria de Dolores (2011), que foram apreendidos 25Kg de crack e 85Kg de pasta-base de cocaína. Os números demonstram que, a cada ano, ocorre um considerável aumento na quantidade de apreensões realizadas pelo DENARC, uma das Unidades da Polícia Civil responsáveis pela execução das ações previstas no PESP-PE 2007, principalmente as metas constantes das Operações de Repressão Qualificada e Repressão ao Crack. 6.4 MUDANÇA DE ROTINA DAS ATIVIDADES NA POLÍCIA CIVIL DE PERNAMBUCO Existe um efeito funil na dinâmica do Sistema de Justiça Criminal que é explicado pela diferença entre o número de crimes cometidos e o número de crimes 48 cujos autores são condenados a uma pena privativa de liberdade. A diferença implica no nível de efetividade do Sistema (SAPORI, 2007, p. 103). Por não existir dados consistentes desse efeito funil no Brasil como um todo, Sapori (2007) exemplifica, apresentado dados dos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, a partir de estudos realizados, respectivamente, por Gontijo, Kahn e Agostini (SAPORI, 2007, p.103). Em Minas Gerais, no período de 1995 a 1999, de cada 100 crimes registrados anualmente pela Polícia Militar, apenas 13 foram investigados através de inquérito policial e somente 8 resultaram em sentenças. Em São Paulo, somente 6,4% de todos os crimes ocorridos se transformam em inquérito. E no Rio Grande do Sul, no período de 1995 a 2000, de uma média anual de 750 mil ocorrências registradas pela Brigada Militar, cerca de 65% são ocorrências criminais e destas, aproximadamente 15% tem inquérito instaurado e 25% dos inquéritos têm elaboração de Denúncia pelo Ministério Público (SAPORI, 2007, p. 103-104). Especificamente com relação aos crimes de homicídio, os dados apontam para uma taxa de esclarecimento (inquérito policial encaminhado ao Judiciário com indicação de provável culpado) que varia entre 10% a 40% em fins da década de 1990, dependendo do estado brasileiro (SAPORI, 2007, p. 104). Em artigo que apresentam e analisam os resultados de pesquisa realizada em Pernambuco sobre inquérito policial relativo a homicídio, Ratton, Torres e Bastos (2011) opinam que as causas mais prováveis para o excesso de tempo transcorrido entre a ocorrência do crime de homicídio e a instauração do inquérito policial eram o grande volume de casos e a inexistência e mecanismos de gestão e de definição de prioridades. Constataram que, em 2007, quando a estrutura e dinâmica interna da Polícia Civil impediam uma resposta mais rápida para as ocorrências de homicídios, o lapso temporal citado era, em média, de 88 dias. E, depois de instaurado o inquérito policial até a remessa para o Ministério Público, a média de dias era bastante alta, 199 dias. Evidenciam ainda que, durante o período em que a Polícia Civil de Pernambuco não possuía mecanismos de controle e acompanhamento das investigações de homicídios, tanto as delegacias das circunscrições da capital e interior quanto a especializada em homicídios, não eram capazes de investigar e elucidar a autoria que correspondesse a 10% do total de homicídios ocorridos no Recife (RATTON; TORRES; BASTOS, 2011, p. 52). 49 Observaram mudança nessa realidade com o fortalecimento, em setembro de 2008, do DHPP, cujas equipes passaram a instaurar o inquérito policial logo que registrada a ocorrência do homicídio. Com o fortalecimento do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), em 2008, a estrutura da investigação de homicídios em Recife foi alterada substancialmente, permitindo um aumento significativo na capacidade de elucidação de autoria da Polícia Civil pernambucana. Em setembro do referido ano, o DHPP passou a ser constituído por sete delegacias, com 16 delegados, 16 escrivães e 109 agentes exclusivamente dedicados à investigação de homicídios em todo o estado. [...] (RATTON; TORRES; BASTOS, 2011, p. 52). Constatam, também, que, atualmente, diferente do que ocorria no passado, todos os homicídios transformam-se imediatamente em inquéritos policiais, cujo desenvolvimento é pessoal e cotidianamente acompanhado pelo gestor do DHPP (RATTON; TORRES; BASTOS, 2011, p. 45). Essa constatação foi confirmada durante apresentação do PESP-PE 2007 na Assembleia Legislativa de Pernambuco, em 25 de novembro de 2009. Além das principais características do Plano, foram informados os resultados do cumprimento das ações destinadas a atingir a redução dos índices de CVLI. Dentre os resultados, estava a produção do DHPP durante o ano de 2008 e os sete primeiros meses de 2009. Os resultados demonstraram um aumento expressivo da remessa de inquéritos policiais para a Justiça a partir do fortalecimento do DHPP, ocorrido em setembro de 2008. Os dados apresentados informam que aquele Departamento, no período de janeiro a setembro de 2008, remeteu à Justiça, mensalmente, uma média de 14,88 inquéritos policiais. E, no período de outubro de 2008 a julho de 2009, a média de remessa mensal foi de 90,66 inquéritos policiais. Essa informação também é destacada por Nóbrega Júnior (2010). Na ocasião também foi destacado que, em outubro de 2008, mês seguinte ao fortalecimento do DHPP, foram remetidos 51 inquéritos policiais e o mês de julho de 2009 teve a maior produção do período que foi de 126 inquéritos remetidos à Justiça. Por fim, Ratton, Torres e Bastos (2011) constatam que variáveis externas podem afetar o trabalho policial e, dentre essas variáveis, apontam a existência de Política de Segurança Pública na esfera do Poder Executivo Estadual e o estabelecimento de prioridade para a investigação de homicídios, combinada com os mecanismos de gestão eficiente da atividade policial. 50 Constatação que é corroborada por Nóbrega Júnior (2010) ao afirmar que, após a implantação do novo modelo de gestão no DHPP, ocorreu um importante incremento na conclusão de inquérito policial. Informa que, entre setembro de 2008 e julho de 2009, o incremento foi da ordem de 430%. A performance do DHPP é reflexo da execução das ações previstas no PESP-PE 2007, principalmente o atingimento das metas constantes das Operações de Repressão Qualificada e de Autoria CVLI e o investimento em estruturação física, efetivo e equipamentos. 51 7 CONCLUSÃO Ao discorrer sobre a atribuição estatal de manutenção da Ordem e Segurança Públicas, este trabalho procurou destacar que, na preservação da integridade física e do patrimônio do cidadão, o enfrentamento da criminalidade se constitui numa atribuição estatal estruturante. Destacou-se, também, que, para alcançar um resultado efetivo e eficiente no enfrentamento da criminalidade, torna-se imprescindível o bom funcionamento da engrenagem do Sistema de Justiça Criminal. Da mesma forma imprescindível um relacionamento harmonioso entre os integrantes dos subsistemas policial, judicial e prisional, dos integrantes do Ministério Público e da Defensoria Pública, de forma a otimizar os recursos disponíveis e diminuir o lapso temporal entre a prática do ato criminoso e a punição do seu autor. Nesse sentido, a Política de Segurança Pública a ser adotada pelo Executivo Estadual precisava priorizar o envolvimento de todos os atores nas ações que buscassem interromper o crescimento da violência e criminalidade e iniciar um processo de redução contínua e progressiva de tal violência. A necessidade de priorizar o envolvimento de todos os atores do Sistema de Justiça Criminal é justificada pelo fato do Chefe do Executivo, que é o responsável pela elaboração e implementação da política pública, ter autoridade apenas sobre as organizações policiais, as unidades prisionais e a Defensoria Pública, ou seja, apenas sobre parte do Sistema. Ao analisar as experiências nacionais e estrangeiras exitosas no enfrentamento da violência e criminalidade, verificou-se a necessidade de combinar estratégias de prevenção e repressão; fortalecer os organismos policiais, realizando investimentos estruturais e de pessoal; elaborar um plano de ação; e estabelecer um modelo de gestão por resultado. O diagnóstico da violência e criminalidade em Pernambuco, apresentado nesta monografia, permitiu visualizar que os índices de crimes violentos letais intencionais no Estado estavam muito elevados quando comparados à média nacional (26 por 100 mil habitantes) e mundial (10 por 100 mil habitantes). Também permitiu visualizar que as origens e causas dos elevados índices de criminalidade violenta em Pernambuco são de naturezas diversas. Algumas relacionadas à questão social, econômica e cultura e outras relacionadas às Instituições 52 responsáveis pelo enfrentamento do problema, como, por exemplo; fraqueza das instituições estatais, nas regiões de maior vulnerabilidade social; alta disponibilidade de armas de fogo sem controle; e incapacidade de formulação e execução de Políticas de Segurança Pública eficientes, transversais e integradas. Diante do problema, o Governo do Estado de Pernambuco, no início de 2007, numa junção de esforços dos órgãos estatais e da sociedade civil organizada, implantou seu programa estadual para a área de Segurança Pública, intitulado Pacto Pela Vida, seguindo as orientações mais modernas de atuação no enfrentamento da violência e criminalidade, e incorporando, em todos os níveis de execução da política pública, mecanismos de gestão, monitoramento e avaliação. Priorizou o enfrentamento dos Crimes Violentos Letais Intencionais, aí incluídos os homicídios dolosos, os latrocínios e as lesões corporais seguidas de morte, e estabeleceu a meta anual de 12% de redução. No que diz respeito à Polícia Civil, a prioridade foi para a concentração de esforços na investigação do crime de homicídio. Com relação aos mecanismos de gestão da atividade policial civil, destacam-se o funcionamento permanente do Comitê Gestor do Pacto Pela Vida; da Diretoria Geral de Operações de Polícia Judiciária; e da Coordenação do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa e demais Gestores de Território. Todos realizando atividades de acompanhamento e controle da produção de cada uma das Delegacias existentes no Estado e esclarecendo que o aumento das taxas de elucidação dos crimes de homicídio constituem os objetivos finais da Polícia Civil para atingir a meta anual de redução de 12% dos CVLI. A combinação de prioridades na investigação de homicídios com mecanismos de gestão eficiente da atividade policial permite identificar que as práticas policiais sofrem alterações e os resultados pretendidos são alcançados. Analisando os quatro primeiros anos de implantação do Plano, tem-se que, no ano de 2007, ocorreu apenas uma redução de 2% no índice de CVLI e no ano de 2008 uma redução de 2,4%. Já nos anos de 2009 e 2010 a redução pretendida foi alcançada. Foi observada, respectivamente, uma redução de 12,3% e 14%. Com essa redução, o Estado de Pernambuco saiu do segundo para o quarto lugar no ranking nacional da violência, consoante divulgado no quinto anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2011). Entretanto não é apenas essa combinação de prioridades com gestão eficiente que vai garantir a permanência das mudanças, dos bons resultados. 53 Para garantir a permanência das mudanças, se faz necessário incorporar, de forma generalizada, no cotidiano da ação policial, os valores e princípios que orientaram a reforma institucional e a continuidade dos procedimentos de governança da Política Estadual de Segurança Pública. E para isso, imprescindível a legitimidade da autoridade política no plano do Executivo Estadual. O posicionamento firme por parte do Comitê Gestor da Política de Segurança Pública de Pernambuco e da Secretaria de Defesa Social permitiu consolidar o entendimento de que a gestão da Segurança Pública moldada no gerenciamento das atividades de polícia calcado na gestão do conhecimento e uso intensivo de informações, era um modelo que não teria volta. O Pacto Pela Vida em Pernambuco é uma Política Pública de Segurança de construção permanente e caminha ouvindo a sociedade, a academia, os órgãos estaduais, federais e municipais, bem como procura conhecer e trocar experiências com os modelos que deram certo no Brasil e no Mundo. Pelos resultados que vem apresentando e pela incorporação do novo modelo de gestão no dia a dia das instituições, trata-se, realmente, de uma política de Estado. 54 REFERÊNCIAS BEATO, Claudio et al. Integração e Gestão Pública de Segurança Pública: uma solução viável e eficiente na execução da política pública de segurança. Informativo, Minas Gerais: CRISP/UFMG, ano 5, n.7, 2007. Disponível em: <http://www.crisp.ufmg.br/arquivos/informativos/informativo-07.pdf>. Acesso em: 11 Abr. 2012. BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. A Reforma do Estado nos anos 90: lógica e mecanismo de controle. Lua Nova. Revista de Cultura e Política, n. 45, p. 49-95. 1998. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ln/n45/a04n45.pdf>. 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TORRES, Marcelo Douglas de Figueiredo. Estado, democracia e administração pública no Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2004. 58 APÊNDICE A - QUESTIONÁRIO SOBRE PLANO DE SEGURANÇA PÚBLICA DE PERNAMBUCO IMPLANTADO EM MAIO DE 2007. Justificativa: o presente questionário é destinado a Delegados de Polícia integrantes do quadro da Polícia Civil de Pernambuco que atuam no cumprimento das metas previstas no Plano de Segurança Pública de Pernambuco, denominado Pacto Pela Vida. Tem por objetivo coletar informações sobre os mecanismos de gestão da atividade policial civil voltados para redução dos índices de homicídios no estado. As informações coletadas serão analisadas pela Delegada de Polícia Cláudia Luiz de Freitas no trabalho de conclusão do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia da Escola Superior de Guerra. 1. Você exerce ou já exerceu cargo/função na Polícia Civil de Pernambuco com atuação no cumprimento da meta de redução dos índices de crimes violentos letais intencionais prevista no Pacto Pela Vida? Qual o cargo e o tempo de exercício? 2. Como você define o Pacto Pela Vida? 3. Que aspecto/característica do Pacto Pela Vida você destacaria como mais relevante para atingir a redução dos índices de crimes violentos letais intencionais? Justifique 4. Com a implantação do Pacto Pela Vida tem-se observado significativa redução dos índices de crimes violentos letais intencionais, principalmente dos crimes de homicídios. Que aspectos da atuação da Polícia Civil, em sua opinião, estariam relacionados diretamente na redução das taxas de homicídios em Pernambuco? (indicar no máximo três) 5. Além da redução dos índices de crimes violentos letais intencionais, você observa algum outro resultado, no âmbito da instituição que integra, que seja decorrente da implantação do Pacto Pela Vida? (indicar no máximo três)