ESTRATIGRAFIA DE DEPÓSITOS CENOZÓICOS DA PORÇÃO CENTROOESTE DA BACIA DO AMAZONAS CENOZOIC STRATIGRAPHY OF THE CENTRAL-WESTERN AMAZONAS BASIN Humberto D. Abinader1([email protected]) Afonso C. R. Nogueira1,2([email protected]) Russell W. Mapes3([email protected]), Drew S. Coleman3([email protected]) 1 Universidade Federal do Amazonas - Programa de Pós-Graduação em Geologia Regional e Ambiental, Departamento de Geociências. 2 Universidade Federal do Pará – Centro de Geociências . Campus Universitário do Guamá. 3 University of North Caroline at Chapel Hill – Department of Geological Sciences, Mitchell Hall. INTRUDUÇÃO: A história geológica do Cenozóico na Bacia do Amazonas ainda é pouco conhecida. Após a idade cretácea ter sido estendida também para os depósitos mais jovens da Bacia do Amazonas, somente a partir do início deste século depósitos cenozóicos foram descritos localmente nos terraços dos rios Solimões e Amazonas (Rozo et al. 2005). A análise estratigráfica da região centro-oeste da Bacia do Amazonas, entre as cidades de Manacapuru e Itacoatiara, Estado do Amazonas (Fig. 1), permitiu individualizar duas unidades cenozóicas, as formações Iranduba e Novo Remanso, que registram a história miocena-pleistocena do sistema fluvial Amazonas. Ambas as unidades sobrepõem-se aos depósitos siliciclásticos cretáceos da Formação Alter do Chão (Superfície 1 - S1), são separadas por paleossolos lateríticos (Superfícies 2 e 3 - S2, S3) e recobertas por sedimentos quaternários. Figura 1. Mapa de Localização da área de estudo e a correlação entre os perfis ao longo dos rios Solimões e Amazonas. UNIDADES ESTRATIGRAFICAS: A Formação Iranduba é caracterizada por arenitos médios a grossos, mal selecionados, de coloração avermelhada, com estratificações cruzadas acanalada, tabular e estratificação inclinada longitudinal, bem como intercalações de pelito. Traços endicniais (Taenidium) e marcas de raízes ocorrem nos topos de ciclos granodecrescentes ascendentes. A Formação Novo Remanso, com seção tipo na localidade Novo Remanso (Rozo et al., 2005), caracteriza-se por camadas de arenitos ferruginosos grossos e arenitos finos a médios com estratificação cruzada incipiente, e pelitos subordinados. Na localidade de Pedral, esta unidade se encontra melhor preservada e exibe estratificação inclinada heterolítica com níveis de argila cinza, rica em detritos orgânicos e palinomorfos do Mioceno Médio a Superior (presença de Grinsdalea magnaclavata; Dino et al., 2006). Lenhos fossilizados por goetita ou como moldes ferruginizados ocorrem localmente. Em geral, a Formação Novo Remanso encontra-se intemperizada, com coloração esbranquiçada, aspecto predominantemente maciço, caulinizada e ferruginizada, sendo delimitada na base e no topo por crostas lateríticas (Fig. 2). Estas unidades são interpretadas como produtos de planície de inundação e canais fluviais relacionados a um sistema fluvial meandrante. Figura 2. (A) Arenito maciço esbranquiçado da Formação Novo Remanso; (B) Crosta laterítica separando a Formação Iranduba e Novo Remanso (Superfície S1). GEOCRONOLOGIA: As datações de zircões detríticos, usando 61 grãos para Formação Iranduba e 41 grãos para Formação Novo Remanso revelam a predominância de idades transamazônicas (1465 ± 51 Ma, 1343 ± 49 Ma –Formação Iranduba e 1904 ± 7 Ma, 1.910 ± 7 Ma – Formação Novo Remanso). Essas idades são tipicamente da Província Ventuari-Tapajós do Cráton Amazônico e não de fontes andinas (Fig. 3; Mapes et al., 2006). Esta interpretação corrobora com a interpretação de que Arco do Purus era uma barreira geográfica, impedindo que sedimentos provenientes dos Andes atingissem a Bacia do Amazonas (Vega et al., neste simpósio). Em contraste, idades de zircões da Formação Alter do Chão de 2088 ± 7 Ma e 1648 ± 77 Ma sugerem origem do embasamento Maroni-Itacaúinas, na porção mais oriental do Cráton Amazônico. Figura 3. Diagramas das datações feitas por Mapes et al. (2006) em zircões da Formação Iranduba (Red05-01) e Formação Novo Remanso (White05-02). CORRELAÇÃO REGIONAL: A integração de dados estratigráficos (superfícies-chave), geocronológicos e paleontológicos permitiu correlacionar as unidades cenozóicas da Bacia do Amazonas com aquelas conhecidas da Plataforma Bragantina e Bacia de São Luis (ver Rossetti, 2001). Enquanto a Formação Iranduba, que recobre os depósitos cretáceos da Formação Alter do Chão, é correlata à sucessão inferior da Formação Barreiras, a Formação Novo Remanso se relaciona com a parte média a superior da Formação Barreiras (Fig. 4). Figura 4. Quadro estratigráfico mostrando a correlação da sucessão sedimentar da Bacia do Amazonas com a Bacia de São Luis (a leste). * Datação feita por Dino et al. (2006). REFERÊNCIAS: DINO, R., SOARES, E. A. A., RICCOMINI, C., ANTONIOLI, L., NOGUEIRA, A. C. R. . 2006. Caracterização Palinoestratigráfica de Depósitos Miocênicos na Bacia do Amazonas, região de Manacapuru, AM.. In: 7 Simpósio do Cretáceo do Brasil e 1 Simpósio do Terciário do Brasil, Serra Negra. Rio Claro : UNESP, v. 1. p. 43. MAPES, R. W., NOGUEIRA, A. C. R., COLEMAN, D. S., VEGA, A. M. L. 2006. Evidence for a continental scale drainage inversion in the Amazon Basin since the Late Cretaceous. Geological Society of America Abstract with Program, vol. 38, No. 7, p. 518. ROSSETTI, D. F. 2001. Late Cenozoic sedimentary evolution in northeastern Pará, Brazil, within the context of sea level changes. Journal of South American Earth Sciences 14, 77-89. ROZO, J. M. G., NOGEUIRA, A. C. R., HORBE, A. M. C., CARVALHO, A. S. 2005. Depósitos Neógenos da Bacia do Amazonas. Contribuições à Geologia da Amazônia vol. 4, 201-207. VEGA, A. M. L., NOGUEIRA, A. C. R., MAPES, R. W., COLEMAN, D. S.. 2006. O delta-lacustre Mioceno do leste da Bacia do Solimões: implicações na história evolutiva do Rio Amazonas. Neste simpósio.