“No Rastro da Maniçoba”
Trilha interpretativa da Fazenda Jurubeba
Ana Stela de Negreiros Oliveira, Cristiane Buco, Elaine Ignácio
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“No Rastro da Maniçoba”
Trilha interpretativa da Fazenda Jurubeba
Ana Stela de Negreiros Oliveira1; Cristiane Buco2; Elaine Ignácio3
Palavras chave
Trilha histórica
Jurubeba,
Arquitetura regional,
Arqueologia
Exploração,
Maniçoba,
Casa Neco Coelho,
Pesquisa
Resumo
Este artigo apresenta os primeiros resultados de uma pesquisa histórica, integrando os
vestígios arqueológicos aos dados históricos, na região do Parque Nacional Serra da
Capivara, associada ao periodo da exploração da maniçoba no sertão piauiense. Na
trilha histórica da Jurubeba são mostrados exemplos da arquitetura regional do início do
século XX até os anos 70, incluíndo a apropriaçao histórica de espaços pré-históricos e,
uma análise preliminar dos vestígios arqueológicos associados à vida do sertanejo.
Atualmente, há novas pesquisas históricas que tiveram como base este trabalho inicial e,
um novo conjunto de dados que permitem evidenciar esta região como uma das mais
importantes para se compreender a ocupação histórica do Piauí. Com a história e a
arqueologia, está sendo possível rever dados para construir uma nova história para o
Sertão Nordestino.
As trilhas históricas “No Rastro da Maniçoba” foram
instaladas, no Parque Nacional Serra da Capivara, com
o objetivo de reconstituir a história da ocupação colonial
da região.
Uma dessas trilhas fica na Fazenda Jurubeba e,
representa o tipo de ocupação colonial do espaço, no
sertão do Piauí, que teve início a partir do século XVII,
no qual as terras eram ocupadas e exploradas
economicamente por atividades baseadas na criação de
gado. Durante muito tempo, as terras da Fazenda
Jurubeba foram utilizadas para a pecuária, a agricultura
de subsistência e a extração e cultivo da maniçoba.
A trilha interpretativa da Fazenda Jurubeba, fornece
informações sobre o meio ambiente e, a cultura do
homem do sertão nordestino. Foi instalada para que,
tanto o visitante como o morador local, conheçam e
valorizem os sítios arqueológicos, pré-históricos e
históricos e, compreendam, as diversas nuances do
patrimônio desta região.
Em 2000, foram realizadas as primeiras pesquisas com
prospecções na área e, dois anos depois, deu-se
continuidade aos trabalhos de arqueologia histórica, com
limpeza e coleta de superfície, restauro e escavação.
Em 2005, numa parceria entre FUMDHAM e IPHAN,
foram adaptados, para portadores de dificuldades
motoras1, cinco sítios arqueológicos com vestígios
históricos e pré-históricos, que levam o visitante à uma
viagem no tempo, da pré-história aos dias atuais (Fig.1).
Fig. 1 - Toca da Roça do Sítio do Brás I
Acessível a portadores de necessidades especiais
1
Nesta trilha, foram preparados 5 dos 16 sítios arqueológicos, na região do Parque Nacional Serra da Capivara, adaptados à portadores
de dificuldades motoras: Toca da Ema do Sítio do Brás II, Casa do Alexandre,Toca do Mangueiro e Tocas da Roça do Sítio do Brás I e II.
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A Pesquisa Histórica
A pesquisa contextualizou dados históricos e
arqueológicos. Inicialmente foi realizada uma pesquisa
nos Cartórios do 1º e 2º ofícios e no Arquivo da Diocese
do município de São Raimundo Nonato. Os documentos,
permitiram identificar Modesto Vaz da Costa, como um
importante proprietário de terras na região sudeste do
Piauí, no decorrer do século XIX. No inventário, com
registro de 21 de agosto de 1881, entre os bens deixados
por Modesto Vaz da Costa, estão as terras do sítio
Boqueirãozinho, onde hoje está localizada a Fazenda
Jurubeba, no valor de 1.000.000 réis. No registro de
batismo de filhos de escravos da Diocese de São
Raimundo Nonato de 1878, o mesmo aparece como
proprietário de escravos.
Na região sudeste do Piauí, a maior concentração de
árvores ficava em terras devolutas dos municípios de
São Raimundo Nonato, São João do Piauí, Caracol e
Canto do Buriti.
Em entrevistas com antigos moradores, foram obtidas
informações sobre a segunda família proprietária da área,
que a ocupou durante mais de 50 anos. A pesquisa
conduziu à família Coelho, na pessoa do seu patriarca
Manoel Coelho, avô de Nivaldo Coelho, um dos
primeiros guias dos pesquisadores da Fundação
Museu do Homem Americano.
Na maniçoba plantada na Fazenda Jurubeba, utilizavase o sistema de barracão. O produto era comprado por
preço inferior ao do mercado. O extrativismo da
maniçoba, trouxe a São Raimundo Nonato trabalhadores
rurais de alguns estados nordestinos, em especial da
Bahia, Alagoas, Ceará e Pernambuco. Mas foi de
Pernambuco que partiu o maior contingente de
trabalhadores que chegou à região sudeste do Piauí, tanto
na primeira fase de desenvolvimento da maniçoba, que
corresponde ao final do século XIX até 1913, como
também nos anos 40, que representou um novo período
de desenvolvimento do produto.
No final do século XIX, o sudeste do Piauí viveu o apogeu
da extração e cultivo da maniçoba. A maniçoba, além de
nativa, foi também plantada em algumas propriedades
da região, destacando-se as fazendas Serra e Jurubeba,
localizadas ao sul da área que hoje forma o Parque
Nacional Serra da Capivara. A produção da região era
transportada para a Bahia e, de lá, exportada para
Inglaterra e França, até 1913, e para os Estados Unidos,
nos anos 1940. A maior concentração de árvores
encontrava-se em terras devolutas, que hoje estão
dentro e no entorno do Parque Nacional Serra da
Capivara (Oliveira, 2001).
As árvores de maniçoba (Fig.2) produziam um tipo de
borracha, bastante conhecido comercialmente, cuja
importância ficava atrás, apenas, da produção das
seringueiras na região norte do país. Sua produção,
estava vinculada ao desenvolvimento da indústria
automobilística, no exterior.
A árvore da maniçoba pertence ao gênero botânico
Manihot, da família das Euforbiáceas. São árvores
resistentes à seca, que guardam reservas nas raízes e
nos caules. Na vegetação do Parque e áreas adjacentes,
especialmente em áreas de chapada, são encontradas
seis espécies de maniçoba: Manihot caerulescens
ssp., Manihot catingae, Manihot glaziovii, Manihot
heptaphylla, Manihot spp. e Manihot dichotoma. (Plano
de Manejo do Parna, 1991)
No início do século XX, chegou a São Raimundo Nonato,
provavelmente vindo de Pernambuco, Manoel Coelho
Cavalcante (Neco) com sua esposa Ana e os filhos. Ele
trabalhou, inicialmente, como escrivão na fazenda Serra
dos Gringos, que pertencia ao industrial americano
(segundo alguns informantes, seria um inglês) Adolpho
Hirchs. Relatos de médicos do Instituto Oswaldo Cruz,
que passaram pela região em 1912 e visitaram a fazenda
Serra dos Gringos, citam a presença de mais de 400
trabalhadores no que foi considerado, o maior
empreendimento da região (Pena e Neiva, 1916). Neco
Coelho adquiriu, posteriormente, outras propriedades,
dentre elas a fazenda Jurubeba, onde plantou cana de
açúcar, árvores frutíferas e maniçoba.
A Fazenda Jurubeba possuía dois engenhos, um para
fabricação de aguardente e outro para rapadura, este
movido por tração animal. Havia também uma casa de
farinha e grande quantidade de árvores frutíferas, cuja
produção era comercializada em São Raimundo Nonato
e municípios vizinhos. A fazenda era conhecida pela
qualidade das laranjas, mangas, bananas e abacaxis
colhidos na Quinta da Lagoa, localizada a nordeste da
casa de Neco Coelho. Além de produtos fabricados
na região, a rapadura e a farinha eram e, ainda são,
fundamentais por fazerem parte da dieta alimentar do
sertanejo e, poderem ser armazenadas durante um
longo período.
Fig. 2 - Árvore da maniçoba
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Componentes da Trilha Interpretativa da Jurubeba
A Trilha da Jurubeba é inicialmente apreciada pela beleza
natural da Serra da Capivara, sua flora e fauna e seus
“caldeirões”, que se transformam em belíssimas lagoas
na época das chuvas e saciam, por um bom tempo, a
sede dos animais desta área. Culturalmente, ela começa
na Toca do Alexandre, utilizada, em meados do século XX,
como moradia, pelo maniçobeiro Alexandre e sua família,
que,durante 30 anos, utilizaram o abrigo rochoso como
espaço arquitetônico e, mais especificamente, como teto
natural, completado por paredes de taipa. Alexandre
também era artesão e trabalhava com caroá (Fig.3).
Em outras áreas do Parque, em especial na Serra
Branca, encontramos diversos abrigos que também
foram utilizados como moradia pelos maniçobeiros.
Alguns desses sítios, foram restaurados pela equipe
da FUMDHAM1.
Fig. 3 - Casa do Alexandre
A partir da toca, na direção oeste, encontra-se a Casa
Velha da Jurubeba, que é a mais recente das trilhas.
Esteve abandonada durante muito tempo, com as
paredes caídas e sem as telhas. O proprietário da casa
não chegou a ocupá-la, pois migrou para Brasília. Para
conservá-la, foram feitos limpeza, contenção nas paredes
e restauro do fogão. Hoje, podemos apenas observar os
restos de uma casa, como tantas outras da caatinga
nordestina, que documentam a constante migração do
homem do campo (Fig.4).
Ainda na trilha, localiza-se a Casa de Nilton Coelho, neto
de Neco Coelho. Esta casa foi construída em 1957 e
também ficou abandonada por cerca de 12 anos. Foi a
única que apresentou condições de restauro, realizado
pela equipe da Fundação Museu do Homem Americano.
Também foi feita uma coleta de superfície, a limpeza e o
restauro do fogão. Em frente à casa, localizamos um
engenho de cana movido à tração animal – que
funcionou por pouco tempo –, a chaminé de um antigo
forno de rapadura e, no quintal, uma engenhoca de
madeira, que servia para moer mandioca, além de um
forno de farinha (Fig.5).
Fig. 4 - Casa Velha da Jurubeba
Continuando a trilha, encontram-se as ruínas da casa
de João Coelho, sobrinho de Neco Coelho, que se casou
com Josina, filha de seu tio, que, por sua vez, ficou viúvo
e casou-se com a outra filha de Neco Coelho, Francisca.
A casa foi abandonada, pois a família migrou para São
Paulo. Foi realizada a limpeza do local.
Finalmente, chega-se à mais imponente das casas da
trilha “No Rastro da Maniçoba”: a Casa do Neco Coelho.
Depoimentos de familiares permitiram reconstituir o
cotidiano da família Coelho que, durante a primeira
metade do século XX, utilizou a casa como moradia.
1
Fig. 5 - Casa de Nilton Coelho
Caso dos sítios arqueológicos: Toca do João Sabino e Toca do Juazeiro da Serra Branca.
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Foram realizados a limpeza, a escavação e o
restauro da chaminé1 (Fig.6 e Fig.7) .
Alguns metros à frente, fica a Casa de Isaías Silva
– uma construção simples, feita de taipa, que foi
habitada durante algum tempo, pelo vaqueiro
Domingos e, logo após, pelo pequeno-agricultor
Nezinho. Foram feitas a restauração da casa,
limpeza e coleta de superfície. No local, foram
encontrados fragmentos de louças, objetos
cerâmicos, pedras de amolar e telhas.
Bem mais antigo que a casa simples, de campo,
é o denominado Muro Histórico, que está sendo
estudado e, segundo depoimentos de antigos
moradores, foi construído por escravos, no século
XIX, quando a fazenda se chamava Boqueirãozinho
e o proprietário era Modesto Vaz da Costa. Ali,
foram realizadas a limpeza e uma sondagem e,
encontrados, materiais líticos e cerâmicos. São,
na verdade, dois muros de alvenaria de pedra
argamassada com barro e cal (Fig.8).
Fig. 6 - Casa do Neco Coelho - 2002
Continuando o trajeto pela trilha, próximo ao
Muro Histórico, há um lajedo com gravuras préhistóricas e históricas. Neste local, foi feita uma
sondagem e encontrados materiais líticos e
cerâmicos. Também foi construída uma
passarela para permitir aos visitantes a
aproximação sem danificar as gravuras (Fig.9).
Fig. 7 - Casa do Neco Coelho - 2009
Fig. 8 - Muro Histórico
Fig. 9- Lajedo com gravuras pré-históricas e históricas
1
Este artigo retrata as primeiras análises desse sítio arqueológico referente ao período de 2000 e 2002, ano da implantação da trilha
histórica. Em 2009 foi instalada uma estrutura de proteção ao sítio e vitrines expondo os principais vestígios históricos encontrados
na Casa do Neco Coelho.
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A escavação
Casa do Neco Coelho
No dia 2 de março de 2002, iniciou-se a escavação do local onde era a casa do Neco Coelho. A equipe de escavação
esteve sob a responsabilidade da arqueóloga Profa. Dra. Niède Guidon, com assessoria da arquiteta Elaine Ignácio
e da historiadora Ana Stela de Negreiros Oliveira.
Inicialmente, foram realizadas a limpeza do terreno e a coleta do material de superfície. Nessa fase, foram
encontrados pedaços de um relógio de sol que, de acordo com relatos, estaria na cancela de entrada, na parte
sudeste do terreno.
A casa estava caída e todas as telhas haviam sido deslocadas para outros locais da fazenda. Além disto, havia sido
construída com a técnica rústica da taipa de mão e, conseqüentemente, sofrido com as intempéries. Assim, o que
restou da casa foram o piso de lajota, a divisão dos cômodos bem marcada, assim como vestígios da taipa, de um
forno de farinha e de rapadura e marcas, no chão, feitas pelos bois no lado oeste da casa, local da moagem da
cana-de-açúcar.
A casa era grande para os padrões locais. À nordeste ficava uma grande sala de jantar, onde foi encontrada uma
“banca de pote”1, tradição da região que, diferente das atuais feitas de madeira, era de barro, revestida de cacos de
telha e coberta com cal batido.
A Casa de Neco Coelho
A antiga entrada da casa era voltada para o sudeste, e
a fachada, a sudoeste
Encostado ao seu escritório, como se pode visualizar
na planta baixa, há o quarto do casal
Logo na entrada há uma varanda
e o “quarto do pote”, localizado no centro da casa, sem
nenhuma comunicação ou abertura para o exterior: era
uma alcova utilizada para guardar o pote de água, que
todos os dias a empregada da casa ia buscar em uma
nascente da Serra e que, apenas Neco Coelho,
consumia.
que dava acesso ao escritório do Sr. Neco Coelho
e, a noroeste, ficava o quarto de farinha
Um pequeno corredor
Antes do escritório há uma ante-sala ocupada pelo
secretário do proprietário
dá acesso à sala de jantar
1
Estrutura muito comum no sertão nordestino, utilizada para guardar as vasilha de cerâmica nas quais se armazena a água para o
consumo diário.
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que também possuía uma eira feita do próprio material
da casa, onde se guardava a farinha.
local onde se encontrava a “banca
de pote”. Lá havia também um
armário utilizado para guardar
as louças (Fig.10).
Do outro lado, a sudoeste, ficava o depósito de
aguardente e sal.
Fig. 10- Banca de pote
A sudoeste da copa há mais um pequeno quarto de chão
batido. Pela posição na casa, pode-se notar que era a
alcova de uma de suas filhas, a última, que ficou solteira.
A noroeste está localizado o “quarto do caixão”, termo
usado para designar uma grande caixa de madeira,
utilizada para armazenar a rapadura, mas onde também
se guardavam as frutas vindas da Quinta e os vidros da
aguardente ali produzida.
A nordeste ficava a cozinha.
continuando, a noroeste fica uma grande sala e a
despensa,
que dá acesso para o quarto utilizado para banho,
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Nos fundos da casa, localizam-se os fornos de farinha
e de rapadura, a moenda e a prensa de farinha
Para resgatar a memória local e complementar os
achados arqueológicos, procuramos, por meio de
depoimentos dos netos de Neco Coelho – entender um
pouco mais o cotidiano da família.
Dentre os detalhes, merece destaque o “quarto do pote”,
já citado, onde ficava guardado, a sete chaves, um pote
de água. A fazenda, localizada em região de caatinga,
integra-se ao sertão nordestino, de clima semi-árido,
com períodos de secas prolongadas, chuvas escassas
concentradas nos meses de outubro a março.
Portanto, a água potável, de boa qualidade, era um
produto cobiçado.
Além dos depoimentos, o estudo dos vestígios
arqueológicos encontrados na escavação – no caso,
moedas –, algumas bem próximas e outras dentro do
quarto, levou a crer que a restrição ao quarto, não ocorria
apenas por causa do pote de água. Segundo um dos
relatos, entre tantos que ainda estão sendo recolhidos,
só se conseguia conversar com o proprietário passando
por seu secretário.
O acervo encontrado nesta pesquisa históricoarqueológica, constituído por diversos vestígios históricos,
documentos fotográficos, fílmicos e depoimentos,
encontra-se na Fundação Museu do Homem Americano
e algumas peças estão em exposição no Museu do
Homem Americano.
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Os vestígios da cultura imaterial
À medida que o sedimento foi sendo retirado, foram encontrados
muitos vestígios da cultura material dispersos. Como o material
é muito diversificado, há necessidade de uma análise mais
detalhada, à longo prazo.
Segue uma classificação preliminar do material:
Fragmentos diversos de cerâmica, principalmente partes de
potes e panelas (Fig.11 e Fig.12), inclusive com decoração
nas bordas, encontrados e restaurados. Uma cuscuzeira de
barro5 (Fig.13) foi completamente restaurada e está exposta
no Museu do Homem Americano.
Pequenos fragmentos de louça branca e louça decorada foram
evidenciados, inclusive a de beira azul, também conhecida
como blue edged, faiança inglesa, uma louça usual no Brasil
até o final do séc. XIX. Em alguns casos, no sertão, ela foi
substituída por uma variação pintada imitando a original, estes
fragmentos também foram encontrados neste sítio e em
outros no entorno do Parque Nacional Serra da Capivara1.
Fig. 11 - Pote de água
Fig. 12 - Panela
Foram catalogados vidros de perfume, bálsamos e remédios
(Fig.14) , com inscrições em alto relevo e tampas trabalhadas.
Em alguns deles, foi possível indicar sua procedência
francesa. Os netos do Sr. Neco Coelho contam que todas as
filhas faleceram de tuberculose, o que explica a grande
quantidade de vidros de remédios coletada.
Chaves, balas de revólver datadas de 1914 , moedas do final
do século XIX e início do século XX e peças utilizadas na
fabricação da rapadura, fazem parte do conjunto dos
materiais de ferro e outros metais encontrados na
escavação (Fig. 15 e Fig.16).
No meio do barro, misturada à restos de edificação, foi
localizada uma vértebra de uma preguiça gigante. Segundo
os netos do Sr. Neco Coelho, ossos encontrados no povoado
do Garrincho, localidade próxima à Fazenda Jurubeba, eram
constantemente mostrados pela população local, indicando
uma possível procedência. Eles também se lembram, da
existência de um relógio de sol, de madeira, que havia sido
feito pelo avô e ficava na porteira da fazenda. Partes do relógio
foram encontradas e estão em exposição no Museu do
Homem Americano.
Fig. 13 - Cuscuzeira de barro
Fig. 15 - Chaves
Fig. 14 - Vidros de perfume, bálsamos e remédios
Fig. 16 - Bala de revólver e peça de metal
1
A cuscuzeira é um recipiente para fazer o cuscuz, obtido pelo cozimento da semolina de milho ao vapor. A palavra é de origem árabe
e, o cuscuz, continua sendo consumido até hoje no café da manhã dos sertanejos.
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Considerações
A prospecção, a escavação e os depoimentos dos descendentes do Sr. Neco Coelho, possibilitaram a reconstituição
espacial da fazenda Jurubeba. De acordo com a pesquisa histórico-arqueológica, pode-se concluir que ela foi um
dos grandes empreendimentos agroindustriais da região, na primeira metade do século XX. A casa era relativamente
grande e suntuosa para os padrões da época, apesar de ter sido construída com taipa de mão.
A variedade de vestígios da cultura material demonstra que a relação com o meio ambiente foi fundamental para a
utilização dos recursos oferecidos pela natureza e, assim, melhorar as condições de vida.
Esta pesquisa ajudou a compreender parcialmente o contexto sócio-econômico da época, sendo o início de uma
pesquisa territorial mais abrangente, associando arqueologia, história, arquitetura e comunidade na reconstrução
da memória e identidade do Sertão.
1
Doutora em História pela UFPE, Chefe do Escritório Técnico I do IPHAN em São Raimundo Nonato - Piauí e
pesquisadora da Fundação Museu do Homem Americano, São Raimundo, Brasil.
2
Doutoranda em Quaternário – Materiais e Cultura, pela UTAD / Portugal, Bolsista de Doutorado Pleno no Exterior
pela CAPES – Ministério da Educação /Brasil, pesquisadora do ITM – Instituto Terra e Memória / Portugal e da
Fundação Museu do Homem Americano, São Raimundo, Brasil; E-mail: [email protected]
3
Mestre em Arqueologia, Professora l da UNIVASF, pesquisadora do ITM – Instituto Terra e Memória / Portugal e
Fundação Museu do Homem Americano, São Raimundo, Brasil; E-mail:[email protected]
Referências Bibliográficas
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PENA, B., NEIVA, A. 1916 “Viagem Científica pelo Norte da Bahia, Sudoeste de Pernambuco, Sul do Piauí e de
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QUEIRÓZ, T de J.M. 1994 A Importância da Borracha de Maniçoba na Economia do Piauí: 1900 – 1920.
Teresina, UFPI – APL.
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