AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI - 1 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI IMPRESSÃO: Amazônia Gráfica e Editora (66) 531-6991 Av. das Itaúbas, 2062 – Jd. Botânico – Sinop MT CAPA: Sidinei Novais EDITORAÇÃO: Arte Design (66) 531-6097 E-mail: [email protected] REVISÃO: Renato Gomes Tapado Cássia Regina Tomonim REVISÃO FINAL: Maria da Paz Sabino PICOLI, Fiorelo Amazônia: do mel ao sangue - os extremos da expansão capitalista. 2 ed. Sinop: Editora Fiorelo, 2005. 125 p. 1 – Amazônia. 2 – Expansão Capitalista. 3 – Capital. 4 – Ditaduta Militar. 5 – Estado. 6 – Colonizadores. ISBN - 85-904199-1-6 / Prefixo Editorial N° 904199 Todos os Direitos Reservados. É proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio. A violação dos direitos de autor (Lei n° 5610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal. - 2 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI Este livro é dedicado a todos aqueles que lutaram pela conquista da terra na Amazônia, perdendo suas vidas no silêncio e na clandestinidade, mas sua verdadeira história nunca foi contada. - 3 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI - 4 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI ORIENTAÇÃO Prof. Dr. Nildo Domingos Ouriques Departamento de Ciências Econômicas Programa de Pós Graduação em Economia Industrial Universidade Federal de Santa Catarina Prof. Dr. José Luiz Vázquez Burguete Departamento de Direción y Economía de la Empresa Programa de Doutorado em Gestión y Comercialización Internacional de la Empresa Universidad de León, España - 5 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI - 6 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI AGRADECIMENTOS Agradeço a minha família, em especial minha querida e sempre presente mãe Sibila L. Anghinoni Picoli, que consegue reunir junto a si os filhos, os netos e os bisnetos, pois sem o apoio recebido dos familiares não seria possível realizar este trabalho. O meu sincero reconhecimento a todos os professores que ajudaram a construir esta caminhada ao longo dos tempos, principalmente aos do curso de doutorado da Universidade de León, Espanha. Agradeço a oportunidade recebida através da Universidade do Estado de Mato Grosso, por conceder licença para qualificação em dedicação exclusiva. Obrigado a Universidade Federal de Santa Catarina, pelo apoio recebido nos últimos três anos. A Universidade de León por promover o curso e ter sempre dedicado o apoio necessário. O sincero reconhecimento aos orientadores, professor Dr. Nildo. D. Ouriques, da Universidade Federal de Santa Catarina, e o professor Dr. José L. Vázquez Burguete, da Universidade de León, Espanha, que, juntos, conseguiram realizar um trabalho de qualidade, demonstrando que é possível realizar trabalhos entre duas Universidades, mesmo em centros diferentes. A minha gratidão aos professores da Universidade do Estado - 7 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI de Mato Grosso pelo apoio recebido. O meu sincero obrigado aos professores Almir Arantes, Jaqueline Pasuch, Sandro. B. Sguarez, Laudemir L. Zart, Antonio Tadeu G. de Azevedo, Aumeri C. Bampi e a jornalista Maria da Paz Sabino, destacando os professores Josivaldo C. dos Santos e Milton Luiz N. Pereira pela colaboração em pesquisa prévia, que determinou toda a trajetória dos trabalhos. Agradeço também o apoio recebido dos professores Ana Maria B. de Souza, Eliete A. Wolff, Idaleto Aved, Renato G. Tapado, Páblo Gutiérrez Rodriguez e Dalva Barreto. Também a ajuda e apoio de Maria P. Fernández, Mauro Ricardo M. Barreto, Maria das Neves Souza, Marlea A. do Nascimento, Romeu B. da Silva e Ubiratan Martins pela colaboração efetiva neste trabalho. - 8 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI SUMÁRIO AGRADECIMENTOS .................................................................. 07 PREFÁCIO ................................................................................. 11 APRESENTAÇÃO ...................................................................... 13 A EXPANSÃO CAPITALISTA NA AMAZÔNIA A Amazônia e o mercado mundial ........................................ 17 A política de colonização capitalista ..................................... 57 A EXPANSÃO E A COLONIZAÇÃO CAPITALISTAS A colonização promovida pelo Estado ................................. 69 A colonização promovida por empresas capitalistas ........... 79 A cidade planejada como centro do capital ......................... 91 RESUMO .................................................................................. 103 CONCLUSÃO ........................................................................... 111 LISTA DE ABREVIATURAS ...................................................... 115 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................... 117 - 9 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI - 10 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI PREFÁCIO A análise empreendida pelo autor nos chama a atenção por duas questões: a primeira por ser uma obra contextualizada e de fácil entendimento. Mesmo ao leigo em assuntos da Amazônia é possível o acesso. A segunda característica é a de tratar o tema pontualmente, dizendo com sinceridade a que, a quem e a quantos têm servido a abertura e a exploração da Amazônia, nos moldes e na forma predatória que tem sido desenvolvida, muitas vezes incentivada pelo poder público das mais diversas esferas. É predatória no sentido de usurpação de terras, de desastres ambientais, no sentido humano e no sentido político. Acreditamos também que é importante lembrar que o autor reflete constantemente todo este processo de ocupação da Amazônia como inserido no contexto mundial. Na Amazônia, a globalização existiu já há muito tempo. Da parte da análise sobre o aspecto humano retratado na obra é preciso entender o significado “do mel ao sangue” como uma expressão carregada de sentido de vida. Milhares e milhares de pessoas que se deslocaram para a Amazônia (migrantes) não conseguem “a terra prometida”, senão que se tornam agentes desbravadores, de abrir a mata, muitas vezes perdendo a vida ou tirando a vida, entrando em confronto com tribos indígenas, - 11 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI destruindo suas culturas e suas formas de organizações sociais, destruindo o ambiente e morrendo neste ambiente às vezes hostil ao alienígena. Nada ganham, quer sejam os povos amazônicos ou os migrantes iludidos. Ganha o capital econômico que chega posteriormente e encontra terreno fácil e aberto para ser explorado. Repete-se na Amazônia, de maneira ainda pior a exploração, a concentração de renda e terras. A violência, na terra sem lei, sem Estado, cresce de maneira trágica. Há vencedores, os poucos novos-ricos, mas há cada vez mais muitos e muitos empobrecidos numa terra tão rica e generosa. Não houve o respeito aos seus habitantes. Não podemos, diz o autor, continuar a reprodução de maneira ainda mais trágica do modelo sócio-econômico brasileiro desigual e injusto na Amazônia. A Amazônia que significava esperança de nova vida tem de continuar sendo esperança, não pavor, medo, exploração e desilusão. Tem de ser sonho do mel e não o pesadelo do sangue, pois esta última não é uma maneira sábia de construir um país, uma nação e nem muito menos de tratar um povo que busca em seu próprio território a Terra Prometida. Sinop, janeiro de 2004. Prof. Dr. Aumeri Carlos Bampi Coordenador do Campus Universitário de Sinop – MT Doutor em Filosofia e Ciências da Educação Universidade de Santiago de Compostela, Espanha. - 12 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI APRESENTAÇÃO Este livro é o primeiro de uma série de quatro volumes, resultado do estudo que concedeu-me o título de doutor em Administração e Direção de Empresas, através da Universidade de León, Espanha. A obra trata dos espaços ocupados pelas diferentes classes sociais que fazem a história da ocupação amazônica brasileira ao longo dos tempos, destacando-se, nesta trajetória, o período pós-ditadura militar iniciado em 1964. O centro das atenções são a expansão capitalista e as relações do homem e do meio ambiente. O interesse pela região começou quando miramos esta nova fronteira expansionista em 1987, passando a conviver com limitações sociais, econômicas, políticas e culturais diferentes, sem, no entanto, entendê-las na sua profundidade. Havia a necessidade de criar o espaço social, visto que este nasceu dos entrelaçamentos dos diferentes figurantes que chegaram a esta terra, ainda pouco ocupada pelos ditos “civilizados”. Ao mesmo tempo, passavam a conviver com um projeto arquitetado pelas estratégias do Estado em conjunto com o capital expansionista na região. Foi necessário adaptar-se aos novos limites geográficos da ocupação, bem como distinguir a quem interessa o movimento de ocupação. Esse projeto nasce com as vestimentas da lógica da expansão capitalista, fruto da exploração da natureza e da força de trabalho. Aos migrantes fazia-se necessário entender o novo espaço, compreender as abrangências e os limites previamente elaborados pelo sistema capitalista. Desta maneira, as classes sociais - 13 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI envolvidas na nova dinâmica da ocupação do território amazônico configuram-se em duas: uma representada por grupos econômicos que ali vão expandir seus negócios para reproduzir capitais; a outra formada, por marginalizados e despossuídos no processo histórico com sucessivas migrações ao longo de suas gerações, que fazem parte do exército industrial de reserva do País. Os despossuídos e marginalizados chegaram em busca da terra e, como não tiveram acesso, tornaram-se proletários neste novo espaço de ocupação, passando a exercer funções de suporte à lógica do sistema concentrador. Este lugar diferente nos permite questionar os movimentos destes distintos atores, assim como a interferência deste projeto de colonização capitalista e a convivência do homem com os vários ecossistemas bem definidos na região amazônica. Ao passar a fazer parte da região geográfica sinopense e também ao participar do quadro de educadores de uma das escolas públicas ligadas ao setor de transformação de madeiras, criamos as condições necessárias para o envolvimento com a classe trabalhadora deste setor industrial. Ao mesmo tempo, passamos a questionar o papel de cada ator da nova investida capitalista regional. Assim, o professor é visto como alguém que repassa conhecimentos, mas também aprende com a comunidade escolar e com o meio no qual passa a viver. Ao formar novos conceitos e ao mesmo tempo criar mais dúvidas sobre as indagações já existentes, formamos os elementos da investigação futura. Para descobrir esta problemática são necessários alguns questionamentos. Quem são estes atores, como vivem e qual o seu papel no novo espaço criado pelo capital e pelo Estado? Neste sentido, passamos a verificar como se efetiva a exploração da força de trabalho e a acumulação capitalista na expansão da Amazônia brasileira. Foi importante entender como estão posicionados os agentes sociais que fazem a história da última fronteira de colonização. Esta região passou a ter um papel importante para o modelo implantado pela ditadura de 1964 e recebeu os - 14 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI despossuídos e marginalizados do País juntamente com os grupos econômicos. Este trabalho é dividido em partes seqüenciais. Na primeira parte discorremos sobre a expansão capitalista na Amazônia brasileira. É necessário relacionar a Amazônia do extrativismo com o mercado mundial, observando as várias fases do comércio mundial e a dependência da região a este mercado. Também utilizamos os fatos econômicos, históricos e estatísticos para explicar e exemplificar a interferência do capital nacional e internacional, impondo a ordem capitalista na região. Procuramos demonstrar que a produção brasileira e a amazônica são interligadas com as estratégias do mundo do capital e, consequentemente, às necessidades do mercado mundial. Neste sentido, fez-se necessário nos fundamentarmos com bases teóricas para transpor os tempos, vistos através das várias intervenções realizadas no passado pelos grupos econômicos organizados e, assim, verificar os fatos a partir da coleta de produtos naturais e extrativistas, sendo estes proporcionados pelas riquezas minerais e oriundas das florestas. A interferência do homem tornouse mais acentuada quando o mercado mundial se tornou mais efetivo na região e proporcionou a comercialização em determinado espaço. Ao longo dos tempos a Amazônia brasileira voltou-se ao mercado nacional com pouca intensidade, mas vocacionou-se ao mercado externo de forma mais agressiva. A política de colonização promovida pelo Estado nos anos 60 fez parte da estratégia de unir os interesses da burguesia do País na Amazônia. Através da unificação dos interesses entre o capital e o Estado nasceram as estratégias de colonização sob o domínio das empresas privadas, tendo em vista a especulação imobiliária. Por outro lado, enquanto a expansão capitalista privilegiou os grandes conglomerados econômicos nacionais e internacionais, reprimiu as iniciativas da classe trabalhadora por meio da ditadura. Nesta lógica, é preciso verificar como se processou a - 15 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI concentração da terra na Amazônia. A estratégia adotada na distribuição das terras devolutas beneficiou o grande capital, ignorando os proletariados. Isto se tornou possível através dos mecanismos financeiros oferecidos pelo Estado e colocados a serviço da burguesia, efetivando-se na prática a concentração da terra em mãos de poucos grupos econômicos para expansão e acumulação do capital de forma protecionista. Nesta perspectiva, foi colocada à disposição dos grandes projetos capitalistas uma vasta região e os grupos foram apoiados pelos incentivos fiscais do Estado. Também fez-se necessário entender qual o papel exercido pela colonização espontânea, que aconteceu paralelamente à colonização do Estado e das empresas privadas, proporcionada pelas massas de marginalizados do País. Estes são os despossuídos que migraram para esta região em busca da terra e do trabalho, juntamente com os detentores do poder econômico. Foi preciso entender quem são os atores que buscaram o “mel”1 prometido nesta vasta região brasileira. No processo de ocupação da região, verificamos a necessidade de o capital planejar e implantar cidades estrategicamente, sempre obedecendo aos locais de inserção dos grupos econômicos. Estas cidades serviram para o fornecimento de toda a infra-estrutura necessária aos grupos nacionais e estrangeiros, principalmente para formação e concentração do exército industrial de reserva e toda estrutura necessária para dar suporte ao projeto. É assim que dar-se a história da Amazônia que vive a contradição dos extremos entre a riqueza e a pobreza. 1 A busca constante do “mel”, bem como o encontro com este doce dourado, é uma metáfora usada ao longo do texto para demonstrar que as pessoas se deslocaram para a Amazônia em busca de um sonho. Mesmo aos marginalizados e despossuídos no processo histórico a região apresentou-se como um novo “eldorado”, e este veio acompanhado de muito brilho e luz intensa. Assim, o “mel” representa o alimento, a riqueza e a esperança de uma nova vida a todos que chegaram com o firme propósito de ver seus sonhos realizados. - 16 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI A EXPANSÃO CAPITALISTA NA AMAZÔNIA A Amazônia e o mercado mundial Através das várias fases de sua ocupação, a Amazônia oferece seus produtos naturais para satisfazer principalmente as necessidades do mercado mundial. A região abre-se para o mundo através dos seus 50.000 km de rios navegáveis. Somente o rio Amazonas é formado por 1.100 rios afluentes até a foz. Também podem ser encontradas na região 80% das variedades de vida do planeta, constituindo-se na maior floresta tropical do mundo. Os nove Estados que compõem a Amazônia brasileira são os seguintes: Acre, Rondônia, Amazonas, Pará, Mato Grosso, Roraima, Amapá, Tocantins e a porção a Oeste do meridiano 44º W do Estado do Maranhão (PASSOS , 1998: 15). Além do grande complexo brasileiro, a Amazônia sul-americana é formada por mais oito países, compreendendo: Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Para demonstrar o potencial e a capacidade da Amazônia brasileira, BECKER (1997: 9) acrescenta sobre o potencial da região de forma ampliada1 . Há cinco séculos passados, segundo MATTOS (1980: 31), “a Amazônia foi uma descoberta espanhola e uma conquista portuguesa: ao contrário, o [rio] Prata foi uma descoberta portuguesa e uma conquista espanhola”. Assim, historicamente a ocupação da região foi no intuito de aproveitar o grande potencial de recursos - 17 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI florestais, minerais e introduzir projetos agropecuários com fins de acumulação de capitais. Contudo, a Amazônia brasileira vem sendo ocupada ao longo dos tempos pela “cobiça internacional e pela potencialidade econômica” (PASSOS, 1998: 52). Neste sentido, o mundo volta-se para a região “amazônica, a terra cobiçada desde o século dezesseis” (ESPÍRITO SANTO, 1956: 125). Com o objetivo de usufruir os seus recursos naturais, os europeus foram “os primeiros a entrar em contato com o antigo e legítimo povo da floresta” (MELLO, 1991: 26). Eles vinham atraídos pelas vantagens econômicas oferecidas pela gama de produtos da floresta. Os colonizadores da América visavam a aproveitar os recursos da natureza ali existentes. A ocupação do território amazônico iniciou-se no século XVI, sem, no entanto, apossar-se efetivamente da região. Somente no século XVII os “portugueses se instalam na foz do rio [Amazonas] em 1616, expulsando daí ingleses e holandeses, os primeiros ocupantes” (PRADO JÚNIOR, 1973: 43). Neste mesmo ano foi fundada a cidade de Belém, no Estado do Pará. A ocupação portuguesa ocorreu mais por “motivos políticos que econômicos. Sua função deu-se para afastar os holandeses e ingleses” (C HIAVENATO , 1984:152). Assim, em clima de incertezas ocorreram os primeiros povoamentos, acompanhados de disputas tumultuadas devido ao fato de a região caracterizar-se por espaço de soberania duvidosa, e também pelo fácil acesso pelos rios navegáveis da região2 . O fator que mais contribuiu com estreitas relações entre a Amazônia e a Europa no período colonial foram as técnicas do navio a vela, 1 “...vista a partir do cosmos, a Amazônia sul-americana corresponde a 1/20 da superfície terrestre, 2/5 da América do Sul, 3/5 do Brasil, contém 1/5 da disponibilidade mundial de água doce e 1/3 das reservas mundiais de florestas latifoliadas, mas somente 3,5 milésimos da população mundial. A Amazônia sul-americana com 6.500.000 km², envolve além do Brasil, sete países fronteiriços. O Brasil possui 63,4% da Amazônia sul-americana, sendo que a Amazônia brasileira corresponde a mais da metade do território nacional [59%]. Estende-se até os estados de Mato Grosso, Tocantins e parte do Maranhão. Ela não se confunde com a região Norte, que é uma divisão político-administrativa para fins censitários”. - 18 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI pois era mais prático ligar a região com a metrópole portuguesa que com a costa do Atlântico brasileiro. Neste sentido, “as condições adversas diziam respeito ao regime de correntes marítimas e também ao regime de ventos ao longo da costa” (SODRÉ, 2002: 144). Contudo, “a conquista européia e a posse da Amazônia, no decorrer dos séculos XVII e XVIII, se realizam sob um intenso processo de luta e disputa entre portugueses, espanhóis, franceses, ingleses e holandeses” (BENCHIMOL, 1992: 69). Com o final destas disputas, os “portugueses acabaram dominando o delta e a maior parte da calha central do rio Amazonas” (B ENCHIMOL , 1992: 69). Assim, impulsionados pela grande capacidade econômica desta terra, “os homens sonham em encontrar o paraíso” (GONDIM, 1994: 9). Os portugueses buscaram interferir na região através do extrativismo mineral e florestal, bem como produtos da caça e da pesca. O grande interesse na região foi provocado pelo surto das drogas do sertão e, assim, “a Amazônia substitui o Oriente como fonte de especiarias” (SODRÉ, 2002: 150). Mas é a mineração de ouro que na metade do século XVIII, quando as minas são descobertas “em Minas Gerais (último decênio do século XVII), Cuiabá, em 1719, e Goiás seis anos depois, desencadeia o movimento” (PRADO JÚNIOR, 1973: 39), e assim ocorre uma penetração na região de forma mais acentuada. Nesta perspectiva, as descobertas auríferas abriram um novo ciclo migratório europeu para o Brasil. Foi através da entrada dos extrativistas e coletores dos 2 “Abre-se para o mar pelo delta do Amazonas, desembocadura de um imenso sistema hídrico, sem paralelo no mundo, que se estende sobre uma área de 6.400.000 km² (dos quais 3.800.000 em território brasileiro) e formando cursos d’água de grande volume, em boa parte perfeitamente navegáveis até por embarcações de vulto. A penetração foi, por isso, muito fácil. É a isto aliás que a colonização luso-brasileira deveu ao domínio sobre o vasto interior do continente sul-americano que de direito cabia aos hispanoamericanos segundo os primeiros acordos ajustados entre as duas coroas ibéricas.(...) Mas se os rios da Amazônia oferecem esplêndida via de penetração e trânsito, e são altamente favoráveis ao homem, doutro lado a floresta equatorial que os envolve, densa e semi-aquática nas enchentes as águas fluviais, alagam extensões consideráveis das margens e representa grande obstáculo à instalação e progresso humano.” (PRADO JÚNIOR, 1988: 11). - 19 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI produtos da região amazônica no século XIX que nasceu a Revolução dos Cabanos, entre 1823 a 1839, e ocorreram lutas envolvendo índios, negros e brancos. No episódio, estes entraram em choque contra as opressões que foram cometidas pelo Estado brasileiro e assumiram um caráter separatista, reivindicando o “País do Amazonas” (GONÇALVES, 2001: 19). A Revolta dos Cabanos, mais conhecida como Cabanagem, resulta em um massacre, “do qual as desencontradas estatísticas chegaram a falar de 30 mil mortos entre os cabanos e 12 mil entre os que os combatiam” (GONÇALVES, 2001: 19). Para CHIAVENATO (1984: 147), “quando o estado do Pará tinha 120 mil habitantes, morreram 30 mil pessoas”. Assim, para sufocar os revoltosos pelas condições impostas, foi travada “a mais sangrenta guerra civil brasileira” (CHIAVENATO, 1984: 149). Por outro lado, é importante conhecer os movimentos da colonização do País através da interferência européia. A colonização brasileira começou a sair do espaço da costa do Atlântico, onde, a partir de 1500, concentrou-se na extração do pau-brasil – a primeira forma econômica de exploração extrativa do território brasileiro. Esta atividade se concentrava basicamente no litoral brasileiro. Conforme PRADO JÚNIOR (1988: 26), esta forma de extrativismo “não serviu em nada para fixar qualquer núcleo de povoamento no país”. A penetração e o povoamento na região amazônica aconteceram só mais tarde, principalmente através da “mineração e dispersão das fazendas de gado” (PRADO JÚNIOR, 1973:55). A colonização brasileira e o povoamento das diferentes regiões foram formados pelos marginalizados no processo histórico e se justificavam pelos interesses dos colonizadores europeus nos produtos brasileiros. Em princípio, quando o Brasil pertencia a Portugal, entraram os degredados, principalmente os vindos do país português (PRADO JÚNIOR, 1973: 87). Estes vinham para suprir as necessidades de mão-de-obra. Os povos originários em pouco contribuíram para a formação da força de trabalho na costa litorânea brasileira. Mesmo que estes não tenham se adaptado ao trabalho forçado nesta parte do País, - 20 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI na Amazônia foram muito úteis. O extrativismo fazia parte do seu dia-a-dia. Nesta região em muito contribuirão para o processo de colonização. Contudo, verificou-se uma grande “dificuldade de organizar a produção com base no escasso elemento indígena local” (FURTADO, 1999: 30-31). Assim, embora tímida a ocupação até a metade do século XX, a vida econômica era proporcionada, principalmente, pelos recursos naturais da floresta. PRADO JÚNIOR (1973: 211) diz que: encontram os colonos na floresta amazônica um grande número de gêneros naturais aproveitáveis e utilizáveis no comércio: o cravo, a canela, a castanha, a salsaparrilha e sobretudo o cacau. Sem contar a madeira e produtos abundantes do reino animal: destes últimos, são em particular a tartaruga, bem como seus ovos, e o manacuru (peixe-boi) que servirão em escala comercial. Sem estas fontes de riqueza teria sido impossível ocupar o vale. Os colonos não teriam procurado, os missionários não encontrariam base material de subsistência para manter seu trabalho de catequese dos indígenas. Desta forma, “a coleta, a caça, a pesca, já são seus recursos no estado da natureza” (PRADO JÚNIOR, 1973: 212). Mas é através da “grande propriedade monocultural que se instala no Brasil o trabalho escravo” (PRADO JÚNIOR, 1988: 34). A pouca adaptação dos povos originários ao trabalho nos canaviais dificultou a prosperidade do maior ciclo econômico da colônia portuguesa. Ao mesmo tempo, a “colonização preparava o surto do capitalismo mundial em que o País futuro iria ingressar na qualidade de nação dependente” (BOSI, 1994: 378). Para que isto acontecesse fez-se necessário iniciar o tráfico de escravos, mas “calcula-se que, em média, apenas 50% chegavam com vida ao Brasil, e destes, muitos estropiados e inutilizados” (PRADO JÚNIOR, 1988: 37). O tráfico de escravos era o mais importante comércio das importações no ciclo açucareiro e representava “mais de uma quarta parte do valor das importações” (PRADO JÚNIOR, 1988: 116) no período compreendido entre 1796-1804. Com a introdução do trabalho - 21 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI escravo importado, na “metade do século XVII o Brasil será o maior produtor mundial de açúcar” (PRADO JÚNIOR , 1988: 39). Neste período, as demais culturas alimentares ficavam restritas às necessidades de subsistência da população local, pois o objetivo maior de Portugal era a exportação de açúcar da colônia brasileira para servir ao mercado mundial. No período “de 1831 a 1856, cerca de 500.000 escravos entraram no Brasil, a maioria em navios dos Estados Unidos” (MONIZ BANDEIRA, 1978: 76). Neste período o País já havia conquistado sua independência, o interesse no tráfico negreiro era pelos altos lucros na operação e fazia parte do ramo comercial “mais importante da fase mercantil” (SODRÉ, 2002: 126). Para a classe capitalista da época, “o escravo era, no fundo, um animal de serviço e, portanto, um desvalido. Mas era ao mesmo tempo um bem, uma mercadoria, imobilização de capital” (MARTINS, 1997: 67). Também “as correntes migratórias se intensificam depois de 1850; veremos coexistir, nas lavouras de café, trabalhadores escravos e europeus livres” (PRADO JÚNIOR, 1988: 175). Com o fim da escravidão negra em 13 de maio de 1888, a força de trabalho é trazida da Europa. O crescimento da economia do açúcar e do café transforma os escravos livres e os trabalhadores vindos do continente europeu em assalariados. Neste sentido, pela emancipação política do País, em 1822, as correntes imigratórias ganharam um novo personagem e se intensificaram de forma bastante acentuada no final do século XVIII. Para SODRÉ (2002: 219), existem duas fases distintas no cenário mundial: a primeira se iniciou no século XVI, era dominantemente de capital comercial, e a classe dominante era a dos senhores feudais; a segunda ocorreu no século XVIII, quando se iniciou o processo de Independência brasileira: era dominantemente o capital industrial e a classe dominante era a burguesia. Com o País independente de Portugal, o processo imigratório para o Brasil foi fruto de sérios problemas sociais na Europa e a longa agonia do feudalismo como sistema, também pela - 22 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI necessidade de força de trabalho à disposição da produção dos cafezais e dos engenhos de açúcar, proporcionada pelo declínio gradativo do uso da mão-de-obra escrava. Além disso, no período de 1864 até 1870 o País estava mergulhado em sangrenta guerra contra o Paraguai e grande parte da mão-de-obra estava envolvida nos combates (LOBO: 1972: 139). PRADO JÚNIOR (1988: 190-191) nos demonstra a evolução imigratória: o progresso da imigração no último quartel do século será rápido. Ela começa a crescer depois de 1871, atingindo em 1886 pouco mais de 30.000 indivíduos. No ano seguinte, quando a abolição do regime servil se mostra já eminente, salta bruscamente para 50.000; e no próprio ano da abolição (decretada como vimos em maio de 1888) sobe para mais do dobro deste número (133.000). Daí por diante, até o fim do século, a imigração conservar-se-á sempre num nível médio anual largamente superior a 100.000. No processo migratório, “desde 1870, o governo imperial tomou a si as despesas de viagem, desordenando delas o senhor de terras e o imigrante” (SODRÉ, 2002: 280). Para LOBO (1972: 137), a partir de 1876 a principal corrente migratória tinha como destino o Estado de São Paulo. Também se formou próspero núcleo de colonos alemães e italianos nos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Contudo, comparado com o desenvolvimento das forças produtivas do País, a situação da Amazônia continuava estagnada. A população da região “em fins de séc. XVIII não alcançava uma centena de mil habitantes (incluindo índios domesticados)” (PRADO JÚNIOR, 1988: 72). Neste período, “a Amazônia ficou muito atrás das demais regiões ocupadas e colonizadas no território brasileiro” (PRADO JÚNIOR, 1988: 74). Este fato é proporcionado pela economia cafeeira de São Paulo, sendo que na “última parte do século XVIII começa a ser cultivado em grande escala” (PRADO JÚNIOR, 1988: 85). O ciclo cafeeiro cresceu, mas o País enfrentou graves - 23 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI problemas na formação da força de trabalho, tendo pouca disponibilidade de mão-de-obra para oxigenar a produção, principalmente com o fim do regime escravocrata. A senzala desaparece do cenário cafeeiro, pois “o trabalho livre amplia-se particularmente com a imigração” (SODRÉ, 2002: 271). Por outro lado, “a massa escrava evolui muito mais para a servidão do que para o trabalho livre. Além disso, chegando no século XIX, pode ser identificada uma maior intensificação dos interesses das multinacionais, pois o “capital estrangeiro começara a fluir para o Brasil em proporções consideráveis” (PRADO JÚNIOR, 1988: 223). Este fato criou sérios problemas em seus objetivos expansionistas, pela já existente falta de mão-de-obra no País. Contudo, em 1889, o quadro brasileiro era traçado em poucas coordenadas: o Brasil dispõe de “14 milhões de habitantes, distribuídos em 916 municípios, com 348 cidades; conta com apenas dois portos aparelhados e apenas uma usina elétrica; com 8.000 escolas, 533 jornais, 360 quilômetros de rodovias, 10.000 quilômetros de ferrovias e 18.000 linhas telegráficas” (SODRÉ, 2002: 316). Neste sentido, PRADO JÚNIOR (1988: 212) nos apresenta de forma clara como ocorreu o processo de exploração da força de trabalho brasileira no período expansionista. Tal contingência, particular de pouca disponibilidade de mão-deobra, forçará a adoção de um sistema de relações no trabalho que obrigasse o empregado, embora juridicamente livre, a conservar-se no seu lugar. O processo para chegar a este fim e que mais difundiu no Brasil será o de reter o trabalhador com dívidas. Pagando salários reduzidos, e vendendo-lhe ao mesmo tempo, por preços elevados, os gêneros necessários ao seu sustento, o empregador conseguirá com relativa facilidade manter seus trabalhadores sempre endividados e, portanto, impossibilitados de o deixarem. Este sistema tornar-se-á regra geral em muitas regiões do país; em particular na indústria da extração da borracha. Torna-se fácil estabelecê-lo por causa das distâncias que em regra separam as explorações rurais dos centros urbanos e do comércio, o que faz o proprietário, quase sempre, um fornecedor obrigatório dos gêneros consumidos por seus trabalhadores. Doutro lado, o baixo nível cultural da massa - 24 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI trabalhadora do país, tão recentemente egressa da escravidão, facilita o manejo arbitrário das contas sempre em prejuízo do empregado. Nesta nova dinâmica de capitalismo de expansão, o Brasil, por possuir a maior reserva mundial de seringueiras nativas, projetou-se ao mercado mundial através do extrativismo, e “a exportação da borracha vem em contínuo aumento desde 1827” (PRADO JÚNIOR, 1988: 236). Há notícias de que os povos originários tinham amplo conhecimento das propriedades da borracha em 1720, pois “os índios da Amazônia já conheciam a elasticidade da borracha e faziam bolas com as quais praticavam originais esportes” (FERREIRA, 1980). Através do aprendizado com os povos da floresta, a Amazônia brasileira projetou-se ao mercado mundial de forma mais acentuada a partir do ciclo da borracha 3 . Este produto amazônico, monoextrativista, aumentou sua produção a partir de 1870, estendendo-se gloriosamente até 1912. No mais acentuado período extrativista “a selva amazônica é invadida por legiões de brasileiros do Nordeste, flagelados da seca” (FERREIRA, 1980: 34). Nesta fase da investida capitalista na Amazônia, e que compreende o decênio 1901-10, as exportações da borracha atingiram o nível mais alto das exportações brasileiras. Contudo, este ciclo beneficiava “apenas as classes seringalistas, os grandes latifundiários, enquanto a mão-de-obra desse ciclo, o seringueiro, num quadro econômico escravagista, ficava à margem dessa participação” (MARTINS, 1981: 17). Na passagem do século XIX para o século XX, a produção 3 “Ciclo da Borracha. Período da história econômica do Brasil marcado pela grande atividade de extração do látex da borracha nos seringais da Amazônia, para exportação. Essa atividade atingiu seu apogeu na primeira década do século XX, quando o Brasil era o maior produtor mundial do látex, que respondia por 26% do valor das exportações nacionais. A valorização da borracha no mercado internacional decorria do desempenho da indústria automobilística na Europa e Estados Unidos, o que intensificou a procura da matéria-prima para a produção de pneus. O predomínio brasileiro na produção passou a declinar depois que os ingleses iniciaram a cultura da seringueira no oriente, sobretudo na Tailândia e em Cingapura. [com as primeiras sementes da Amazônia]. Em 1914, o Brasil respondia apenas com a metade da produção e, em 1930, contribuía somente com 3%” (SANDRONI, 1994: 50). - 25 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI da borracha nativa mundial atingiu seu auge. O látex4 era quase na sua totalidade produzido na Amazônia brasileira, principalmente nos Estados do Pará, do Amazonas e do Acre, este último na divisa com os países vizinhos, o Peru e a Bolívia. O Brasil tornou-se o “maior exportador mundial do produto, chegando a contribuir com 100% de toda a produção do mercado mundial” (MARTINS, 1981:25). A Amazônia no ciclo da borracha foi exclusivamente monoextrativista, sendo esta atividade a principal da região (IANNI, 1986: 57). A procura do produto, principalmente pelos Estados Unidos, acentuou-se a partir de 1850, proporcionada pelos interesses da indústria automobilística. A borracha era usada principalmente na “fabricação de pneumáticos, provocando a corrida para a Amazônia” (MONIZ BANDEIRA, 1978: 155), e o produto extrativo passou a fazer parte do mercado mundial. Com esta nova alternativa econômica, “os Estados Unidos, desde o século passado [XIX], se tornaram a potência estrangeira mais interessada na Amazônia brasileira” (MENDONÇA, 2000: 33). No entanto, neste período a região se apresentava como “a terra do crédito. Não há capital. O seringueiro deve ao patrão, o patrão deve à casa aviadora, a casa aviadora deve ao estrangeiro, e assim por diante” (WEINSTEIN, 1993: 38). Neste processo, pela dispersão da coleta na vasta região amazônica, “o grande número de intermediários que participavam de cada transação fragmentava os lucros e gerava uma hierarquia de endividamento” (WEINSTEIN, 1993: 298). Na época, “Belém e Manaus transformam-se em dois grandes centros do comércio exterior do Brasil” (MONIZ BANDEIRA, 4 “Látex, ou leite da seringueira, é o liquido branco que se obtém fazendo uma incisão na casca da seringueira. O nome leite – ou látex – é bem apropriado, pois a sua cor é branca como o leite. Um simples corte na casca da seringueira é suficiente para escorrer o líquido branco, leite ou látex. Deixando-se esse líquido exposto no ar, ele coagula, adquirindo consistência e elasticidade. Este produto da coagulação natural é denominado ‘sernambi’. Já não é mais látex. Coagulado em condições naturais, chama-se sernambi, que é consistente e elástico. Mas, se aquele látex é forçado a coagular sob a ação de fumaça quente, adquire consistência e uma elasticidade maior do que o sernambi e recebe o nome de borracha” (FERREIRA, 1961: 248). - 26 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI 1978: 155). Os reflexos desta fase podem ser avaliados pelo fortalecimento destas duas cidades, “que acabaram por capitalizar de modo imperial a vida política, social e econômica da região” (TOCANTINS, 1982: 106). O governo brasileiro por outro lado não conseguia um razoável controle da região, e o contrabando “desviava considerável parcela da receita que a extração da borracha produzia” (MONIZ BANDEIRA, 1978: 156). Assim, milhares de quilos da borracha eram desviados para os Estados Unidos através da aduana de Puerto Alonso, na Bolívia (MONIZ BANDEIRA, 1978: 156). Ao mesmo tempo, acentuava-se a pirataria de todos os produtos florestais e minerais desta vasta região. Fatos desta natureza eram possíveis pelo fácil acesso por seus rios navegáveis e a facilidade da saída dos produtos pelo rio Amazonas direto ao mercado mundial. Mesmo assim, o ciclo da borracha no Brasil representou um período de muita prosperidade aos grupos econômicos ali instalados. Para SOUZA (2002: 184), “a economia do látex quebrou o isolamento e buscou integrar a região ao mercado mundial”. Este fato proporcionou a entrada de grande contingente migratório de trabalhadores para oxigenar a produção extrativista da Amazônia. QUADRO EVOLUTIVO DO AUMENTO POPULACIONAL AMAZÔNICO, QUE COMPREENDE O PERÍODO ENTRE 1823 A 1920. Período Até 1823 D e 1823 até 1872 D e 1872 até 1900 D e 1900 até 1920 N úm ero de habitantes. 127.000 340.000 700.000 1.400.000 Fonte: Elaboração própria com base em Martins (1981:26), e Cardoso e Müller (1977: 25). Para a região, no período de 1870-1910, “foram trazidos entre quinhentos e trezentos mil nordestinos” (PINTO, 1980: 103). Estes migraram para a região com a finalidade de servirem de força de trabalho, principalmente na extração do látex. Concordando com os dados, GONÇALVES (2001: 86) admite que entre “300 a 500 mil - 27 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI migrantes nordestinos deslocaram-se para a Amazônia durante o período de 1860 a 1912”. Para GALEANO (1987: 98), “em 1900, 40 mil vítimas da seca abandonaram o Ceará. Tomaram o caminho habitual por esta época: a rota do Norte rumo à selva”. Contudo, a principal força de trabalho utilizada na região foi a do caboclo da floresta, por fazer parte de seu dia-a-dia o extrativismo. Para facilitar a estratégia comercial e a exportação dos produtos extrativos foi construída a Estrada de Ferro MadeiraMamoré, conhecida como “estrada do diabo”, concluída em 1912. Este foi um dos mais importantes episódios da floresta. O presidente dos Estados Unidos da América, Theodore Roosevelt, chegou a dizer na época que “as duas maiores obras realizadas até então na América eram o canal de Panamá e a Estrada de Ferro MadeiraMamoré” (MELLO, 1991: 33), na Amazônia. A construção desta estrada deixou um saldo sinistro: “mais de trinta mil operários morreram, vítimas de acidentes e de doenças tropicais” (MELLO, 1991: 34). Contudo, “mal concluída em 1912, deixou de funcionar ferida pelo fim do ciclo da borracha amazônica” (MELLO, 1991: 34). No ciclo da borracha a força de trabalho era controlada pelos barões da borracha, que faziam a conexão entre o mercado mundial e a região amazônica. Em 1912 os Estados Unidos absorviam 36% do total das exportações do Brasil. Na “mesma época 60% ou mais da borracha vendida em nova York procediam da Amazônia” (MONIZ B ANDEIRA , 1978: 190). Nesta época, a interferência dos estadunidenses não se limitava à região amazônica, ela se fazia presente em todo o território brasileiro. Assim, no começo do século XX o Brasil tornou-se área de livre acesso ao mercado mundial e a Amazônia brasileira começou a internacionalizar-se de forma mais efetiva. Entretanto, segundo F ERREIRA (1980: 35), a Amazônia perdera o seu maior tesouro, as sementes tinham sido levadas para Londres, e de lá as mudas foram transplantadas no Ceilão e depois em Cingapura e na Malásia. Em 1910, somente a Malásia estava produzindo 160.000 hectares. Para SHOUMATOFF (1990: 36), as 70 - 28 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI mil sementes do colapso foram embarcadas da Amazônia em 1876, com destino a Londres, por Henry Wickham. Apenas duas mil sementes germinaram e deram origem a milhões de hectares na Malásia. HOMMA (1999: 97) também confirma a data da saída das sementes pirateadas em 1876. Assim, “o monopólio estava quebrado por plantações racionalizadas” (S OUZA , 2002: 190). E esta “disseminação das culturas de seringueiras no Oriente marcou o brusco final das décadas de prosperidade da Amazônia” (WEINSTEIN, 1993: 301). No final da década de 30 do século XX, o empresário Henri Ford, o maior fabricante de carros do mundo, com um milhão de unidades produzidas por ano, escreveu uma nova história na Amazônia. Este norte-americano, não contente com o domínio inglês na produção do produto na Malásia, veio para a região com o intuito de criar a cultura do plantio das seringueiras. Objetivava sair da extração nativa, para introduzir projetos florestais de extrativismo na região, visto que as sementes eram originárias da própria região. Também era impulsionado pelo sucesso da produção dos seringais cultivados no continente asiático. Neste sentido, “Ford fez um acordo com o governo do Pará, e no final de 1927 iniciaram-se os arrojados trabalhos da chamada Fordlândia às margens do rio Tapajós” (MELLO, 1991: 32). Com esta atitude, o governo brasileiro passou a intensificar o processo de internacionalização da Amazônia. Segundo MONIZ BANDEIRA (1978: 213): por volta de 1926, o governo de Efigênio Sales dividiu o Estado do Amazonas em oito zonas para a exportação de minérios, das quais entregou seis à American Brasilian Co., Canadian Co. e The Amazon Co., todas pertencentes ao mesmo grupo financeiro. E em 1927, o grupo Ford obteve do Governador Dionísio Bentes a concessão de um milhão de hectares de terra na Amazônia para estabelecimento de uma ou várias empresas, que exploram a borracha nativa com apenas a obrigação de plantar 1.200 seringueiras, ou seja, uma seringueira por mil hectares. Era verdadeiramente um logro. (...) E a Ford não se obrigava a submeter à aprovação de qualquer autoridade brasileira as plantas das edificações ou construções. Gozava de - 29 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI isenção de todos os impostos existentes ou que porventura viessem a existir pelo espaço de 50 anos. Contudo, o empreendimento multinacional de interesses dúbios, “a chamada Fordlândia, projeto faraônico e mal conduzido por pessoas não adaptadas à terra terminou ingloriamente quando o governo paraense retomou às glebas doadas, após a morte de Henry Ford” (CARNEIRO, 1988: 20). As experiências (1927-1945) não deram certo, “tendo o governo brasileiro comprado todos os haveres dos norte-americanos em mais uma socialização dos prejuízos” (PASSOS, 1998: 52). O ciclo monoextrativista da borracha brasileira durou cem anos e, embora a partir de 1912 apresentasse declínio na produção e perda da hegemonia mundial sobre o produto, ele se faz presente na região até nossos dias. O declínio na procura do produto devese ao fato da substituição gradativa da borracha in natura pelos derivados de petróleo e pela concorrência mundial do produto extraído da seringa por países que passaram cultivar a planta com sementes pirateadas da Amazônia. Mas foi através da Primeira Guerra Mundial que a indústria brasileira começou a desenvolverse no País. PRADO JÚNIOR (1988: 261) demonstra de maneira clara o crescimento industrial brasileiro neste período. A Grande Guerra de 1914-18 dará grande impulso à indústria brasileira. Não somente à importação dos países beligerantes, que eram nossos habituais fornecedores de manufaturas, declina e mesmo se interrompe em muitos casos, mas a forte queda do câmbio reduz consideravelmente a concorrência estrangeira. No primeiro grande censo posterior à guerra, realizado em 1920, os estabelecimentos industriais arrolados somarão 13.336, com 1.815.156 contos de capital e 275.515 operários. Destes estabelecimentos, 5.936 tinham sido fundados no qüinqüênio 191519, o que revela claramente a influência da guerra. M ARINI (2001: 12) nos apresenta a questão da industrialização brasileira, também de forma que o Brasil tira proveito da Primeira Guerra Mundial, retratando o seguinte quadro: - 30 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI a história política brasileira apresenta, neste século, duas fases bem caracterizadas. A primeira, que vai de 1922 a 1937, é de grande agitação social, marcada por várias rebeliões e uma revolução, a de 1930. Suas causas podem ser buscadas na industrialização que se produz no país na década de 1910, graças, sobretudo, à guerra de 1914, que leva a economia brasileira a realizar um considerável esforço de substituição de importações. A crise mundial de 1929 e suas repercussões sobre o mercado internacional vão manter num nível baixo a capacidade de importação do país e acelerar assim seu processo de industrialização. Se a Primeira Guerra Mundial nos impulsionou para a industrialização, a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) nos tornou cada vez mais dependentes da interferência dos EUA. Porém, “o surto industrial ficou assinalado no contraste entre os 13 mil estabelecimentos de 1920 e os 100 mil de 1957” (SODRÉ, 2002: 392). Por outro lado, o governo dos Estados Unidos tratava os países da América Latina como um rebanho submisso, sem vontade e autonomia (MONIZ BANDEIRA, 1978: 377, e GALEANO, 1987: 167). Através do acordo militar firmado em 1952, os Estados Unidos obrigavam os brasileiros à obediência, pois vedava a venda de produtos minerais estratégicos para os países da área socialista (SODRÉ, 2002: 419). Os reflexos do domínio mundial hegemônico dos americanos devem-se ao envolvimento dos países europeus nas duas grandes guerras e à conseqüente derrota de alguns. Para SANTOS e RUESGA (1988: 42), o processo de acumulação a partir da Segunda Guerra Mundial recebeu forte influência das inovações tecnológicas. Segundo MONIZ BANDEIRA (1978: 309): a segunda guerra mundial, como continuação, pelas armas da concorrência entre os imperialistas, submeteu as nações mais fracas à hegemonia dos Estados Unidos. Ocorreu, internacionalmente, o fenômeno da concentração e centralização da riqueza, o processo pelo qual a liberdade de competição, principal mola do progresso capitalista, engendrou o sistema de monopólios. A derrota militar da Alemanha, Itália e Japão completou-se com o debilitamento econômico da Inglaterra e da França. - 31 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI Para H AMILTON (1987: 68), a Segunda Guerra Mundial demonstrou a importância crucial do petróleo. Neste sentido, no período entre as guerras (1920-1940), já em pleno declínio da borracha, as indústrias concentravam-se fora da região amazônica, e a região continuava estagnada. Enquanto isso, o extrativismo dos demais produtos nativos tinha sido praticamente interrompido com o ciclo da borracha na região, por esta ser mais lucrativa e ter melhor aceitação no mercado mundial. Porém, com o declínio crescente das exportações da borracha, a região partiu para outras atividades, como o extrativismo florestal e mineral, bem como a formação de núcleos agropecuários, com produção muito insignificante até os anos 40 do século XX. Durante a Segunda Guerra Mundial aconteceu um novo impulso na produção da borracha amazônica, pois “o Japão ocupou rapidamente os seringais cultivados da Malásia e da Birmânia” (DERICKX, 1993: 109). O então presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, deslocou-se ao Brasil para encontrar-se com o Presidente brasileiro da época Getúlio Vargas. Do acordo entre os dois estadistas resultou a alternativa de a população nordestina deslocar-se para a região Norte em busca da borracha, com o objetivo de suprir as necessidades da indústria dos EUA (DERICKX, 1993: 109). Assim, os nordestinos optam entre ir à Itália para lutar na Segunda Guerra Mundial ou deslocar-se para a região Norte e transformar-se em Soldados da Borracha. Para THOMÉ (1999: 39), “em 1942, com o estreitamento dos laços entre Brasil e Estados Unidos, se realizou a denominada ‘Batalha da Borracha’”. Com o término do conflito mundial em 1945, “poucos retornaram, muitos permaneceram trabalhando na Amazônia, milhares e milhares perderam a vida neste esforço e estão sepultados em covas anônimas nas barrancas dos rios, entre eles o Juruá” (DERICKX, 1993: 109). Em 1937, no período que antecede ao início da Segunda - 32 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI Guerra Mundial, o governo brasileiro, devido as várias crises no País, organizou a chamada “Marcha para o Oeste”, no período em que Getúlio Vargas era o presidente da República. Esta estratégia deslocou um grande contingente de pessoas para a região em busca da terra e trabalho, tanto no extrativismo, como na agropecuária. Na época a população da Amazônia continuava insignificante, mas passou a aumentar progressivamente ao longo dos anos. QUADRO EVOLUTIVO DO AUMENTO POPULACIONAL NA AMAZÔNIA, NO PERÍODO ENTRE 1920 A 1970 Período Até 1920 D e 1920 até 1950 D e 1950 até 1960 D e 1960 até 1970 N úm ero de habitantes. 1.400.000 1.850.000 2.600.000 3.600.000 Fonte: Elaboração própria com base em Cardoso e Müller (1977: 53). Aliado ao aumento populacional e ao desenvolvimento amazônico, o restante do País também evoluiu no campo da agropecuária e indústria. Em 1953 o cultivo do café brasileiro encontrava-se extremamente favorecido pela aceitação no mercado mundial, e as exportações do produto forneceram “divisas (na proporção de 60 a 70% na ocasião)” (PRADO JÚNIOR, 1988:312). Por outro lado, também o rebanho bovino brasileiro passou “de 44,6 milhões de cabeças em 1940 para 90 milhões em 1966” (PRADO JÚNIOR, 1988: 339). O desenvolvimento econômico brasileiro, nas várias fases do comércio mundial, limitou-se ao papel de fornecedor de produtos primários aos países importadores. Este fato se evidencia a partir da metade do século XX, quando realmente se efetiva a dependência e a subordinação da economia brasileira pelos “centros financeiros do sistema: as matrizes dos velhos trustes conhecidos hoje pela eufêmica designação de multinacionais” (PRADO JÚNIOR: 1988: 346). MONIZ BANDEIRA (1978: 392) afirma que: - 33 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI Em 1958, de 1.650 grupos estrangeiros, que tinham investimentos no Brasil, 591 firmas (pouco mais de 1/3) pertenciam aos Estados Unidos. Nessa mesma época, 552 firmas (num total de 1.353 registradas como brasileiras, mas com participação direta de capitais estrangeiros) eram americanas, sem contar aquelas (cerca de 76) onde havia triangulações. Neste sentido, a economia capitalista mundial, historicamente, necessita de um centro de gravidade através de um Estado hegemônico. Este deve exercer “funções de liderança e governo sobre um sistema de nações” (ARRIGHI, 1997: 27). Nesta trajetória, “um período sucede o outro, mas não podemos esquecer que os períodos são, também, antecedidos e sucedidos por crises” (SANTOS, 2001: 33). Em nossos dias é um pouco diferente, “o processo da crise é permanente, o que temos são crises sucessivas” (SANTOS, 2001: 35). Mesmo em crise cíclicas permanentes de forma não homogêneas, o centro do capital é determinado pelo poder superior dos estadunidenses. Historicamente, as crises podem determinar a transferência de comando do capital mundial, mas este deslocamento é apenas geográfico, pois as estruturas são determinadas pela vontade capitalista mundial, independentemente do local de comando. É nesta perspectiva que, no final da terceira década do século XX, os Estados Unidos assumiram a representação capitalista mundial. O papel de país central o qualificava para interferir nas decisões dos países periféricos, sempre que necessário, para restabelecer a ordem capitalista. As hegemonias são representadas por pólos controladores e centros do capital ao longo da história. Assim, BRAUDEL (1987: 69) determina que: uma economia-mundo aceita sempre um pólo, um centro, representado por uma cidade dominante, outrora uma cidade-Estado, hoje uma capital, entende-se, uma capital econômica (nos Estados Unidos, Nova Iorque, não Washington). Aliás, podem existir, inclusive de modo prolongado, dois centros simultâneos numa mesma economia-mundo. Roma e Alexandria ao tempo de Augusto, Antônio - 34 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI e Cleópatra (1378-1381; Londres e Amsterdam no século XVIII, antes da eliminação definitiva da Holanda. Pois um desses dois centros acaba sempre por ser eliminado. Em 1929, o centro do mundo, com um pouco de hesitação, passou assim, sem ambigüidade, de Londres para Nova Iorque. W ALLERSTEIN (2001: 51) classifica de forma um pouco diferente, mas concorda com o deslocamento do centro hegemônico capitalista mundial e acrescenta que cada período foi selado por uma guerra mundial. Assim, a “hegemonia das Províncias Unidas (Holanda) em meados do século XII, da Grã-Bretanha em meados do século XIX e dos Estados Unidos em meados do século XX” (WALLERSTEIN, 2001: 51). Estamos saindo de uma era hegemônica dos Estados Unidos (1945-1990) e ingressamos numa era póshegemônica (W ALLERSTEIN , 2002: 19). Mesmo assim, o fim da hegemonia não significa que os Estados Unidos não estejam na frente do centro mundial do capital. Entretanto, enquanto o atual centro mundial capitalista desmonta lentamente, apresentam-se de forma clara três centros: os Estados Unidos, a Europa Ocidental e o Japão (WALLERSTEIN, 2002: 39). Possivelmente, nas próximas décadas, se sucederão acontecimentos que vão determinar novos rumos para a economia capitalista. Para PÉREZ (1996: 185), na atualidade existe uma crise do modelo do Estado. Assim, faz-se necessário entender o sistema social histórico, para que possamos entender a interferência do capitalismo nos países periféricos hoje. Foi o que aconteceu na América Latina, principalmente na década de 70. A ditadura brasileira ocorrida por ocasião do golpe militar em 1964 foi o reflexo da interferência dos EUA para manter a ordem do sistema na região. O sistema capitalista estava ameaçado, pois “na América Latina estava em marcha uma revolução política, impulsionada sobretudo pelo triunfo do Movimento 26 de julho em Cuba em 1958” (WALLERSTEIN, 2002: 23). O país centro da hegemonia capitalista mundial visava a - 35 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI manter a lógica imperialista mundial, enquanto que a introdução de ditaduras foi a marca da última metade do século XX na América Latina. O “capitalismo norte-americano consiste em manter e reproduzir as relações de produção capitalista, onde os agentes asseguram a hegemonia entre capitalistas” (TRAGTENBERG, 1980: 186). Assim, o Brasil, a partir dos governos da ditadura, escreveu uma nova história através da expansão capitalista, principalmente na Amazônia brasileira. MARINI (1980: 26) nos explica como foi o golpe promovido pelas forças armadas. El golpe militar que depuso al presidente constitucional de Brasil, João Goulart, en abril de 1964, fue presentado por los militares brasileños como una revolución, y definido, un año después, por uno de sus voceros, como una “contrarrevolución preventiva”. Por sus repercusiones internacionales, sobre todo en América Latina, y ante las concesiones económicas que tuvo para los capitales norteamericanos, muchos lo consideraron sencillamente como una intervención disfrazada de Estados Unidos. Assim, “o imperialismo norte-americano, àquela altura, já estava convencido de que lhe impunha a tarefa de expelir Goulart, como contingência da contra-revolução para conter as massas e o transbordamento da democracia” (MONIZ BANDEIRA, 1978: 450). Os estadunidenses, ao determinar um estado de ditadura no Brasil e na América Latina, não controlaram somente as massas, mas determinaram e estabeleceram a ordem do sistema capitalista na região. Nesta perspectiva, “os agentes da CIA estabelecem no Brasil extensa rede, com apoio de latifundiários, comerciantes e industriais, amatilhando os radicais da direita, para atos de terror, sabotagem e lutas de guerrilha” (MONIZ BANDEIRA, 1978). O que levou os Estados Unidos a exigirem um golpe de Estado brasileiro foi a campanha contra o comunismo e a manutenção das estruturas do grande capital. É nesta lógica que se movimentou “a própria condição do imperialismo, que reside na exploração dos países dependentes” (SPILIMBERGO, 2002: 16). As - 36 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI estratégias e táticas na ação política se pautam em dois elementos básicos: “seu caráter premeditado e sua intencionalidade planejada” (D REIFUSS , 1986: 23). Nesta ótica, as elites orgânicas se responsabilizam pelo “discurso político-pedagógico para o conjunto das classes dominantes, apresentando não só como de interesse coletivo do capital, mas até da própria nação” (DREIFUSS, 1986: 26). Nesta perspectiva, os vários setores da sociedade se envolveram nesta operação. Para MONIZ BANDEIRA (1978: 471): a oposição pedia o impeachment de Goulart. As organizações de direita, tendo à frente a Campanha da Mulher Democrática (CAMDE), articulam a realização em todo o país das chamadas Marchas da Família, com Deus, pela liberdade, a fim de açular a fúria anticomunista nas classes médias. O tom e a cadência mostravam que existia um regente invisível, orquestrando a campanha, dentro do quadro dos conflitos internos e das lutas de classe, que se aguçavam e das quais o imperialismo norte-americano também participava como empresário. A grande meta desta regência invisível na América Latina foi no sentido de orientar as táticas conservadoras, bem como “homogeneizar a integração do continente no processo produtivo capitalista, através da transnacionalização política, econômica, militar e cultural de cada país” (DREIFUSS , 1986: 119). As estratégias empregadas na dominação dos países de economia dependente, principalmente os do Cone Sul, ocorreram através do sepultamento da soberania, pois não passava de um pacto de cooperação das diplomacias contra o comunismo e atingiram seu auge em 1976 e 1977 através da Operação Condor5 (PROCÓPIO, 1999: 98). A estratégia dos estadunidenses pautava-se no apoio ideológico aos regimes autoritários, vindo a introduzir na prática sua política de dominação fora do território americano (HUGGINS, 1998: 135). Neste sentido, brasileiros, argentinos, chilenos, paraguaios e uruguaios realizaram esquemas conjuntos de terror. A operação tinha como alvo “caça aos militares de esquerda, - 37 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI rotulados de terroristas em uma estratégia diplomático-policial que resultou em um saldo de centenas e mais centenas de desaparecidos no continente” (PROCÓPIO, 1999: 99). Para MONIZ BANDEIRA (1983: 126), os agentes da CIA teceram toda a rede de conspiração contra as massas. Ao mesmo tempo, aglutinavam forças colaborando com os militares brasileiros, os latifundiários, os comerciantes e os industriais com a finalidade de sabotar as forças organizacionais da população, controlando as forças produtivas e consolidando o projeto proposto pela burguesia. Neste processo foi necessário intervir “nos sindicatos e demais órgãos de classe, dissolvendo agrupamentos políticos de esquerda e calando a imprensa, prendendo e assassinando líderes operários e camponeses, promulgando uma lei de greve que obstruiu o exercício desse direito laboral” (MARINI, 2000: 94). O esforço das elites “latino-americanas visava à projeção de um conjunto de interpelações ideológicas como ‘senso comum’, buscando a formação de consenso no interior das próprias classes dominantes” (D REIFUSS , 1986: 119). Através desta estrutura planejada e arquitetada, a sanha capitalista promoveu o terror e a ditadura, conseguindo mudar a correlação das forças políticas do País. A conseqüência imediata para a classe trabalhadora foi a 5 A Operação Condor foi um conjunto de repressão política aos cidadãos do Cone Sul e foi firmado entre os países que impunham ditaduras militares em cadeia. Foi idealizada pelo Coronel Manuel Contreras, chefe da DINA (Dirección de Inteligencia Nacional). A aliança de cooperação mútua foi realizada no final de 1975 em Santiago através dos principais órgãos de inteligência da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai e tinha a DINA como sede no Chile. O pacto dava total liberdade de ação aos países membros e tinha como principal objetivo a criação de um banco de dados sobre pessoas e organizações envolvidas em atividades políticas de oposição aos governos da ditadura. Tinha como objetivo criar uma simular da Interpool na América do Sul, porém voltada ao combate à subversão. Através do acordo mútuo dos países, era possível identificar revolucionários, criar códigos de informações secretas, trocar prisioneiros, criar táticas de tortura, execuções de prisioneiros e liberdade no combate aos inimigos entre os países membros. A operação “Mercosul do Terror”, como ficou conhecida, teve seu auge nos anos de 1976 e 1977. O serviço de inteligência repressivo só foi possível graças à ausência de fronteiras ideológicas e ao fato de ter elegido o comunismo como adversário, além da conivência e do apoio dos americanos, pois tinham interesses por estarem no auge do envolvimento com a Guerra Fria. - 38 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI “fixação do salário real debaixo do valor da força de trabalho” (MARINI, 2000: 215). Neste sentido, MARINI (1980: 97-98) afirma que o aspecto mais evidente da ditadura. ha sido la contención por la fuerza del movimiento reivindicativo de las masas. Interviniendo en los sindicatos y demás órganos de clase, disolviendo las agrupaciones políticas de izquierda, y acallando su prensa, encarcelando y asesinando líderes obreros y campesinos, promulgando una ley de huelga que obstaculiza el ejercicio de ese derecho laboral, la dictadura logró promover, por el terror, un nuevo equilibrio entre las fuerzas productivas. Se dictaron normas fijando límites a los reajustes salariales y reglamentando rígidamente las negociaciones colectivas entre sindicatos y empresarios, que acarrearon una redución sensible en el valor de los salários. Faz-se necessário entender as estratégias do centro do capital, bem como o papel dos militares na ditadura brasileira. O governo militar, após efetivo controle das forças de oposição, transformou a região amazônica em área de expansão capitalista para grupos capitalistas nacionais e internacionais, mesmo que esta tivesse que “se basear em uma maior exploração das massas trabalhadoras” (MARINI, 2000: 71). Nesta perspectiva é necessário não perder os reais objetivos do capital global em implantar as ditaduras em cadeia nos anos 60 e 70 na América Latina. O modo ditatorial de o Estado conduzir o processo político e econômico foi a forma de interferência mais acentuada na expansão do capital internacional na região. Esta foi a maneira encontrada para preservar a hegemonia capitalista mundial, na América Latina e no Brasil. Na Amazônia acentuou-se a expansão de grandes conglomerados econômicos internacionais, vindo a estabeleceremse no Brasil com a finalidade da acumulação através da imposição militar. As modalidades de ações táticas foram puramente ofensivas, e as mais conhecidas foram as de: “doutrinação geral e específica; ação ideológico-social; pressão e penetração política; guerra psicológica geral e seletiva, pressão paramilitar e ação direta” (DREIFUSS, 1986: 120). - 39 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI Para efetivar-se a estratégia de dominação, “a doutrinação geral e específica visava a formação de quadros das classes dominantes e a incorporação das lideranças das classes subalternas” (D REIFUSS , 1986: 120). Através da doutrinação, viabilizaram-se “as ações cívicas e comunitárias que funcionam como uma espécie de tática de freio à politização, foram desenvolvidas sob o título genérico de função social do capital” (DREIFUSS, 1986: 122). Estas ações táticas se formavam através do cunho cívico-comunitário, e nasceram com o objetivo de demonstrar alta visibilidade e impacto condicionante. Uma das bandeiras mais importantes das elites foi a reforma agrária capitalista. A intenção podia ser a de “aumentar a produtividade e os lucros, de abrir novos espaços à penetração do complexo agroindustrial de maquinário e fertilizante, ou simplesmente a fixação do camponês na sua área, para esvaziar problemas decorrentes da migração aos centros urbanos” (DREIFUSS, 1986: 125). Através desta perspectiva, ocorreu uma nova dinâmica no tratamento da Amazônia brasileira, principalmente a partir dos anos 60 do último século, via expansão capitalista. Neste sentido, “as ações de pressão e penetração política tinham como alvos e arenas de luta a mídia, o Congresso, as Forças Armadas, a burocracia do Estado, os partidos, a igreja, o governo etc.” (DREIFUSS, 1986: 126). Para atingir a mídia era relativamente fácil, pois esta pertencia à elite capitalista distribuída nos vários setores da economia, e assim penetrava nos demais órgãos e instituições-alvo. Depois de efetivar as ações de pressão e penetração política, “as atividades de guerra psicológica consistiam na persuasão geral (propaganda, informação e desinformação, manipulação, etc.)” (DREIFUSS, 1986: 128). No último estágio, a atuação tática das elites orgânicas era através de atividades de guerra psicológica, e esta visava à mobilização política, fornecendo subsídios e orquestração às campanhas eleitorais, apoio econômico e político a militantes, bem - 40 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI como formação de grupos para militares. Neste nível, a interferência foi do “amedrontamento de sindicalistas, o apoio aos fura greve, a provocação e atos de terrorismo, até a desestatização completa do regime e a sua derrubada por golpe de Estado” (DREIFUSS, 1986: 131). A América Latina foi transformada em um laboratório da desestabilização, pois o objetivo principal era preservar o sistema capitalista mundial. Fazia-se necessário usar as táticas mais avançadas para preservar o sistema, mesmo que fosse através da interferência das forças militares, dotando os países periféricos com estratégias de submissão e violência com as massas para assegurar a expansão do sistema capitalista mundial das elites. Todas estas táticas visavam restabelecer a lógica sistêmica e abrir caminhos para a entrada dos sobrinhos do “Tio Sam” na América Latina. Através da estratégia elaborada e engenhada por interesses alémpátria, o Estado brasileiro passou a beneficiar os grandes projetos econômicos, dotando-os de estrutura financeira e do controle das massas pela ditadura. Os militares no comando do Estado brasileiro, através do golpe de Estado, serviram de instrumento para fixação de grandes capitais na região amazônica, bem como a concentração da propriedade privada e expropriação dos povos da floresta. O real motivo da tomada do poder por meio da ditadura foi beneficiar os grupos econômicos, e estes passavam a controlar os movimentos políticos e econômicos do País. Os projetos “Sudam e Basa criados em 1966 marcam o início de uma nova fase de desenvolvimento extensivo do capitalismo na Amazônia” (IANNI, 1986: 67). Assim, “o Estado é o penhor das condições, das relações sociais, do capitalismo, e o protetor da distribuição cada vez mais desigual da propriedade que esse sistema enseja” (BRAVERMAN, 1981: 242). Efetuou-se a estratégia de internacionalização da Amazônia, ocorrendo na prática a expansão capitalista com recursos provenientes do Estado brasileiro através dos incentivos fiscais. Ao mesmo tempo, a forma expansionista criada na região tornou- 41 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI se dependente do Estado brasileiro. Nesta perspectiva, criaram-se as condições necessárias para dar início a uma fase mais acelerada “das relações de produção e as forças produtivas no extrativismo, agricultura e pecuária da região” (IANNI, 1986: 66). A proposta de ocupação da região, através da oferta de vastas áreas e condições para expansão, veio acompanhada dos mecanismos necessários para as empresas passarem a usufruir os recursos minerais e florestais abundantes na região. O Estado brasileiro colocou-se a serviço dos grandes conglomerados capitalistas nacionais e internacionais, visto ser a ditadura fruto de uma investida internacional de dominação econômica, militar, política e territorial. O controle efetivou-se através do comando da hegemonia capitalista mundial, representada e controlada pelos Estados Unidos, pois o plano tinha objetivos claros: expandir o capital central nos países do Terceiro Mundo, bem como fortalecer o sistema de dominação capitalista mundial através das forças militares. Neste aspecto, efetivara-se na Amazônia brasileira a instalação de forma mais agressiva dos três fatores produtivos, “o capital, a terra e o trabalho” (ROSDOLSKY, 2001: 41). No período pós-1964, o Estado brasileiro, sob domínio estrangeiro, através das estratégias mundiais, passou a servir aos “ianques” intensivamente, submetendo-se às metas do plano global capitalista. Os produtos da região amazônica, que já serviam ao mercado mundial, passavam a se fazer cada vez mais presentes na região, mas agora a investida econômica pôde ser com recursos da nação brasileira em detrimento dos povos nacionais e os da floresta tropical. Os seringueiros passaram à condição de posseiros ou fornecedores de força de trabalho na região. O governo federal, via Incra6 , em 1970, contestou o domínio de propriedade em grande parte das áreas de extrativismo, promovendo a expansão de grupos econômicos. Neste sentido, é bom lembrar, que com o quase extinto ciclo da borracha nos anos 70, “é inegável que o extrativismo - 42 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI continua um setor econômico importante na economia da Amazônia. Continuam importantes o setor extrativo e o comércio de borracha, castanha, babaçu, madeira, peles, etc., na região do Brasil e no exterior” (IANNI, 1986: 57-58). Por outro lado, os capitalistas nacionais e internacionais, sempre atentos às riquezas minerais e florestais desta região, bem antes do início do ciclo da borracha, transformaram a Amazônia em fornecedora de produtos ao mercado mundial, mesmo não se instalando definitivamente nesta região, mas interferindo na área dentro da lógica do sistema. Conforme SANTOS (2001: 123), é esta lógica que determina os movimentos, pois as “populações em seus diferentes níveis, os pobres e os que vivem longe dos grandes mercados obrigam a combinações de formas e níveis do capitalismo”. A região recebeu um grande contingente de empresas nacionais e multinacionais, com fins de constituírem seus negócios voltados para a concentração individual de capitais. O Estado brasileiro facilitou a expansão capitalista na região, tendo como estratégia os incentivos fiscais e o crédito. Segundo Marx7 , a sua definição nos orienta sobre a lógica do crédito e as relações Estado/ capital. Os conceitos podem ser vistos na obra O capital8 . A análise histórica revela que “a reprodução do capital, em escala internacional, não se efetiva nem se desenvolve sem algum tipo de participação do Estado do país dependente” (IANNI, 1988; 118). Na última fronteira de ocupação brasileira, desde que foi instalada a ditadura militar brasileira, a penetração de forma capitalista foi intensificada com ampla organização do poder do Estado. O poder público, com a finalidade de dar “segurança” à 6 Incra – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Órgão do governo federal, que teve sua criação através do Decreto Lei n. º 1.110, de nove de julho de 1970. Tinha como finalidade o levantamento cadastral das propriedades e a demarcação das terras, bem como a implantação de políticas de colonização no território brasileiro. Tendo sido extinto em 1987, e substituído pelo Mirad, Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário. No Mato Grosso, o órgão limitou-se à tarefa de regularizar títulos de posse e aprovar projetos de colonização da iniciativa privada, pois os governos militares davam toda atenção ao projeto particular de colonização. - 43 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI sociedade burguesa, desencadeou um processo de “controle e repressão de toda a organização e atividades políticas das classes assalariadas, para que o capital monopolista tenha as mãos livres para desenvolver a acumulação” (IANNI, 1981: 9). As várias formas de atuação e estratégias da ditadura ficam acentuadas em IANNI (1981: 22): a ditadura passou a atuar, de forma presente, sistemática, profunda e generalizada, na questão da terra, na Amazônia Legal, na política educacional, na indústria cultural, nas relações de produção, nas forças produtivas. O poder estatal passou a expressar, de forma cada vez mais aberta, as exigências da economia política da reprodução monopolista. Ao mesmo tempo em que se desenvolvia a superexploração do proletariado e do campesinato, desenvolviase o poder estatal, como máquina de violência concentrada e organizada. As mesmas relações e estruturas de apropriação econômica, determinadas pela reprodução do capital, desenvolviam e apoiavam-se nas relações e estruturas de dominação política. Em conjunto, conformava-se um Estado de cunho fascista. Para facilitar e concretizar a realização dos objetivos dos capitalistas, o Estado adotou como estratégias a criação de órgãos facilitadores, para legalizar a estrutura necessária e a transferência de capitalistas para a região Amazônica. Desta forma, o Estado 7 “Se o sistema de crédito é o propulsor principal da super produção e da especulação excessiva no comércio, é só porque o processo de reprodução, elástico por natureza, se distende até o limite extremo, o que sucede em virtude de grande parte do capital social ser aplicada por não proprietários dele, que empreendem de maneira bem diversa do proprietário que opera considerando receosos os limites de seu capital. (...). Assim este acelera o desenvolvimento material das forças produtivas e a formação do mercado mundial, e levar até certo nível esses fatores, bases materiais da nova forma de produção, é a tarefa histórica do modo capitalista de produção.(...) O sistema de crédito, pela natureza dúplice que lhe é inerente, de um lado, desenvolve a força motriz da produção capitalista, o enriquecimento pela exploração do trabalho alheio, levando a um sistema puro e gigantesco de especulação e jogo, e limita cada vez mais o número dos poucos que exploram a riqueza social; constitui a força de passagem para o novo modo de produção” (MARX, 1981: 510). 8 O capital: crítica da Economia Política. É considerada a obra mais importante de Karl Marx, e foi publicada em 1867 a primeira parte dos estudos, três anos após sua morte. A obra se constitui em três livros divididos em seis tomos e foi traduzida para a língua portuguesa por Reginaldo Sant’ Anna pela Editora Civilização Brasileira. - 44 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI criou mecanismos que ofereciam as condições necessárias para a apropriação de terras devolutas, passando ao domínio de empresas nacionais e internacionais. Conforme PORTELA E OLIVEIRA (1991: 17), terras devolutas – oficialmente não possuem dono. Trata-se de terras vagas ou desocupadas do ponto de vista jurídico, ou seja, sem titulação de propriedade. Terras tribais – ocupadas por sociedades indígenas e garantidas pelo governo federal. Não são terras tituladas, porque as leis do Brasil garantem aos índios apenas a posse da terra, pois é a União que detém a propriedade delas. Terras griladas – o “proprietário” possui títulos. Ou, então, são áreas não cobertas por títulos legais, cujos “proprietários” – pessoas ou empresas – reivindicam extensões maiores do que as cobertas pelos títulos. Terras Tituladas – o proprietário possui o título emitido pelo governo e registrado em cartório, que é o título legal de propriedade. As empresas, sendo possuidoras de capital, ou com a falta deste, mas com capacidade organizacional e poder político para instalarem-se na região, passaram a ter livre acesso aos benefícios oferecidos pelo Estado. Este exigia como troca dos grupos econômicos beneficiados apoio para fortalecer-se politicamente no País e manter a forma repressiva de governo. As terras devolutas de comunidades indígenas e griladas passaram à condição de terras tituladas nas mãos de grupos organizados. A ditadura de 1964 planejou a expansão do capital nacional e internacional na Amazônia, tornando a última fronteira muito mais integrada ao mercado mundial e pouco ao mercado interno. Assim, “a expansão capitalista na mais recente fronteira do Brasil processa-se mediante a criação de empresas sob o incentivo e a direção do Estado Autoritário” (CARDOSO e MÜLLER, 1977: 8). Através desta perspectiva, foi colocado o “Estado em favor do capital monopolista” (SODRÉ, 1975:17). A tônica da “política econômica governamental concentra-se sobre o processo de acumulação de capital, que é selecionado como fulcro do desenvolvimento” (IANNI, 1989: 12). Neste sentido, “o Estado moderno e a ordem reprodutiva sociometabólica do capital são mutuamente correspondentes” (MÉSZÁROS, 2002: 127). IANNI (1986: 55) diz que: - 45 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI o que ocorreu na Amazônia, nos anos 1964-78, foi principalmente um desenvolvimento extensivo do capitalismo. No extrativismo, na agricultura e na pecuária, desenvolveram-se as relações capitalistas de produção, juntamente com as forças produtivas. Este foi o quadro geral no qual se integrou a política estatal de ocupação, inclusive a colonização dirigida, oficial e particular. A rigor a expansão da empresa de extrativismo, agropecuária e mineração, da mesma forma que a demarcação e titulação de terras devolutas, tribais e ocupadas, ao lado da colonização dirigida, tudo isso expressa o processo mais ou menos amplo e intenso de expansão das relações capitalistas na região. O Estado é decisivo, surge como mediador para facilitar a acumulação capitalista na região. Desta forma, “à medida que se acelera a concentração de capital, desenvolve-se a centralização” (IANNI, 1989: 19). Os diversos capitais transformam-se em um só através da centralização, mas “a concentração é um processo que consiste no aumento do capital das unidades empresariais, pela capitalização da mais-valia ali produzida” (I ANNI, 1989: 18). O conceito sobre acumulação foi desenvolvido por MARX9 . O processo capitalista desencadeia na região formas de sujeição dos posseiros, dos indígenas e dos colonos ali residentes, ou os recém-chegados. O controle passa a efetivar-se “através do binômio clássico, ou seja, monopólio da terra e controle do trabalho” (P ROCÓPIO , 1992: 19). Desta maneira, a região passa de uma economia completamente dominada pelo setor primário à “uma economia de setor secundário, modificam-se os instrumentos e a política econômica do governo. Como mediação num sistema de 9 “com a acumulação do capital, desenvolve-se o modo de produção especificamente capitalista, e, com o modo de produção especificamente capitalista, a acumulação do capital (...). Todo o capital individual é uma concentração maior ou menor dos meios de produção, com o comando correspondente sobre um exército maior de trabalhadores. Cada acumulação se torna meio de nova acumulação. Ao ampliar-se a massa de riqueza que funciona como capital, a acumulação aumenta a concentração dessa riqueza nas mãos de capitalistas individuais e, em conseqüência, a base da produção em grande escala e dos métodos de produção especificamente capitalistas. O crescimento do capital social realiza-se através do crescimento de muitos capitais individuais e, com eles, a concentração dos meios de produção aumentam enquanto o capital social cresce.” (MARX, 1998: 729). - 46 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI relações de classes sociais, o poder público adquire relevância especial na formação do capitalismo industrial” (IANNI, 1989: 46). Com a criação de órgãos como Sudam e Basa 10 concretizaram-se mudanças em todos os setores da economia local. A partir da criação destes dois órgãos financiadores, com finalidade de incentivar e atrair capitalistas para esta vasta região, iniciou-se uma nova fase para o desenvolvimento extensivo do capitalismo dependente do Estado brasileiro. Neste sentido, a “política dos incentivos fiscais foi o instrumento que o Estado brasileiro beneficiou os monopólios estrangeiros instalados no país” (SODRÉ, 1975: 153). Portanto, efetivaram-se duas vias de integração: no primeiro estágio vinculou-se a região ao mercado mundial via exportação, e no segundo a internacionalização dos produtos através da produção. IANNI (1986: 61-62) enfatiza as estratégias do capital na Amazônia: em primeiro lugar, dinamizaram-se e diversificaram-se as atividades produtivas. Em segundo lugar, desenvolveu-se bastante o sistema de crédito, público e privado. Em terceiro, desenvolveu-se e ampliouse a administração pública federal da região. Em quarto, desenvolveuse e agravou-se a luta pela terra, luta essa que envolve, entre outros elementos: o poder público (federal, estadual, territorial e municipal); grandes e médias empresas agropecuárias e de mineração; posseiros, ou antigos sitiantes e grupos indígenas. Em quinto, recolocou-se a secular problemática indígena, seja quanto à defesa da sua cultura e terra, seja no que se refere à proletarização da sua mão-de-obra. Em sexto, criaram-se núcleos coloniais, com a finalidade de construir reservas de mão-de-obra para empreendimentos públicos e privados. Em sétimo lugar, reformouse amplamente a significação geopolítica da região amazônica, tanto no que diz respeito à “defesa nacional”, como no que se refere aos problemas da “segurança interna”. 10 Sudam – Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia, órgão criado em 27 de outubro de 1966, pela Lei n.º 5.173, sendo considerado o principal instrumento nas mãos do capital nacional e estrangeiro, tendo como função criar incentivos fiscais e financeiros, com planos de valoração, atraindo assim investidores privados. Os incentivos fiscais eram direcionados aos empreendimentos agropecuária, indústria e mineração. Basa – Banco de Crédito da Amazônia S.A, criado em 28 de outubro de 1966, conforme Lei n.º 5.122, sendo que os dois órgãos passaram a atuar de forma articulada na região amazônica. - 47 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI Na região ocorreram grandes transformações econômicas, sociais e ambientais. O poder público adotou como estratégia do Estado contemplar as empresas privadas com grandes áreas de terras, vindo a beneficiar grandes conglomerados nacionais e internacionais. Isto foi possível por meio dos incentivos fiscais, pois o Projeto Sudam e o Basa canalizavam para a região uma nova proposta de ocupação, “com a finalidade de levar a empresa privada a participar do desenvolvimento da Amazônia” (CARDOSO e MÜLLER, 1977: 104) Assim, o binômio Estado-empresas privadas, nacionais e internacionais, conseguiu fazer a parceria certa com a finalidade de internacionalizar a Amazônia brasileira, bem como garantir a sobrevivência do sistema capitalista através do Estado ditatorial. Desta ocupação criaram-se grandes monopólios e uma nova fase da história da expropriação dos recursos naturais da região se desencadeou. O então ministro da Justiça, Delfim Neto, um dos mentores do projeto econômico militar, não cansava de repetir a seguinte frase: “exportar é o que importa”. A filosofia de entrega do patrimônio brasileiro e a internacionalização dos espaços deixaram grandes sinais de “expropriação dos recursos naturais, minerais, florestais, dos solos, do suor dos trabalhadores e das nações indígenas” (OLIVEIRA, 1997: 15). HEGEMANN (1996: 61) acrescenta que: na década de 70, a Amazônia atraía inúmeras empresas brasileiras e internacionais que desejavam adquirir propriedades a preços baixos; fazer especulações rentáveis; utilizar subvenções do Estado ou conquistar partes do mercado e vantagens competitivas. Entre os atores, nem sempre sérios, estavam – além de várias empresas brasileiras e firmas fantasmas – algumas empresas estrangeiras como a Volkswagem, a Liquigás, a Nixdorf e até o Banco do Vaticano. O Banco Mundial também estava à frente em vários casos, concedendo empréstimos ou como investidor. Através das facilidades oferecidas pela ditadura, empresas nacionais e multinacionais instalaram-se nesta região, inclusive obtendo recursos financeiros para estruturação. Várias empresas usufruíram dos recursos promovidos por mecanismos de incentivos fiscais, trazendo pouco retorno para a nação e quase nenhum para a região Amazônica, cenário dos projetos. Alguns destes nasceram - 48 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI apenas com a finalidade de especulação imobiliária da terra. É o caso das empresas de colonização privada, ou para extração dos recursos minerais, florestais e da agropecuária. Podemos destacar alguns dos projetos gigantescos surgidos nesta época, com grande quantidade de hectares de terra11 . GRANDES EMPRESAS INSTALADAS NA AMAZÔNIA BRASILEIRA NO PERÍODO DA DITADURA MILITAR ENTRE 1964 E 1985. N om e das em presas Projeto JariS.A Suiá-M issu C odeara G eorgia Pacific Bruynzeel R obim M ac G lolm Toyam nka Volksw agen Tam anho das áreas em hectares 1.500.000 678.000 600.000 500.000 500.000 400.000 300.000 140.000 Fonte: Elaboração própria com base em Becker (1997: 26), Cardoso e Müller (1977: 161) e Pinto (1980: 215). Além dos projetos mencionados, outros grupos econômicos foram beneficiados com grandes quantidades de terras na região. Entre estes grupos estão: Bradesco, Atlântica-Boa Vista, Bamerindus, Swift, Supergasbrás e outros. Estes são apenas alguns dos exemplos de grandes áreas distribuídas aos grupos capitalistas na Amazônia. No período da ditadura, com aval do próprio governo e “usando slogans nacionalistas, mais de seiscentas empresas transnacionais passaram a investir maciçamente na região” (GONÇALVES, 2001: 14-15). Com posse de grande quantidade de terra desmataram em ritmo crescente a Amazônia, utilizando o “trabalho assalariado, que possibilita rápido desmatamento, e nas operações seguintes de aviões que espalham desfolhantes e sementes de capim que em três dias realizam uma operação equivalente a um ano de trabalho vivo” (BECKER, 1997: 26). Para SHOUMATOFF (1990: 72), os aviões tornaram-se um verdadeiro achado. “Podia-se jogar agente laranja - 49 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI ou bombas de napalm com eles, livrando-se das recalcitrantes culturas que habitavam a selva – índios, seringueiros e caboclos – e fazer o que precisava ser feito, sacrificando algumas milhares de pessoas pelos elevados propósitos do progresso”. Os desfolhantes são proibidos nos países de origem das multinacionais, mas utilizados na nova fronteira de colonização de forma extensiva. Este fato pode ser comprovado no “caso do rio Miranda – MS –, onde foi usado maciçamente o Tordon, o Dowchemical, o Agente Branco da guerra do Vietnã nas fazendas de cerrado para dessecar as florestas e capoeiras da região do Pantanal” (PINHEIRO et al., 1998: 49). A estratégia capitalista para a região não ficou somente em desfolhar as florestas para posterior penetração. Nesta estratégia “o uso destes desfolhantes, mais que destruir a floresta, visa, muitas vezes, a destruir tribos indígenas; como são poderosos abortivos, provocam um verdadeiro genocídio” (PINHEIRO et al., 1998: 75). Além disso, a região amazônica, por ser pouco habitada, serve de experimento científico em testes para posterior liberação destes agrotóxicos por parte dos grupos econômicos internacionais. Usavam os países periféricos como experimento para avaliar a capacidade dos produtos tóxicos, pois “eles queriam que fóssemos cobaias, para terem maiores lucros” (PINHEIRO et al., 1998: 109). Fatos desta natureza só acontecem quando o Estado é omisso e conivente. No caso brasileiro, o governo passou a ser colaborador, colocando-se sempre na retaguarda do sistema imperialista e protetor dos grandes conglomerados internacionais. Assim, quando necessário, interferiu em nome do capital, mesmo que fosse através da repressão e submissão das massas, bem como financiador da destruição do meio ambiente. Além de incentivos fiscais e empréstimos em dinheiro, o governo cumpriu sua parte com estruturação de estradas, abastecimento de energia, 11 Hectare (ha), unidade de medida agrária com 10.000 m² cada unidade, ou o equivalente a um hectômetro. Esta unidade de medida é a mais usada dentro do território amazônico e serve de referência para informar as medidas de área. - 50 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI construção de aeroportos, proporcionando a entrada e a saída das pessoas e o escoamento da produção na região. As estradas federais serviram de propaganda para o governo atrair empresas e pessoas para a região, bem como sinônimo de estrutura. Figuram-se como os corredores mais importantes as rodovias Cuiabá-Santarém, Cuiabá-Porto Velho, Belém-Brasília e Transamazônica12 . Estes são exemplos de integração proporcionados pelo Estado para a abertura desta vasta região. Além dos esforços do governo da ditadura para contribuir com o já avançado processo de destruição, países centrais com interesse capitalista foram oportunos e decisivos no tocante à devastação e ao enxugamento das riquezas naturais da região. HAGEMANN (1996: 61) certifica que: a cooperação internacional para o desenvolvimento e, principalmente, o Banco Mundial são parte dos principais causadores da destruição das florestas tropicais da Amazônia. Na Amazônia Oriental, o Banco Mundial, a Comunidade Européia e também financiadores bilaterais, como o Instituto de Crédito para Reconstrução da Alemanha na área de mineração e infra-estrutura, são co-responsáveis por desmatamentos de muitos milhões de hectares e pelas conseqüentes violações de direitos humanos na ampla região de influência de Carajás. As novas oportunidades para o capital, através das “grandes corporações multinacionais, quando operam em áreas subdesenvolvidas, desnacionalizam essencialmente. O chamado 12 Foram construídas as rodovias federais, como estratégia de penetração na Amazônia. A rodovia Transamazônica, com projeto inicial de aproximadamente 5.500 quilômetros de extensão, nasceu no Nordeste no Estado da Paraíba e penetra em sentido horizontal até a Estado do Amazonas, ao norte. No projeto inicial, pretendia ser a ligação entre o Oceano Atlântico brasileiro e o Oceano Pacífico no Peru. A rodovia Belém-Brasília nasceu na capital do País, em Brasília, e penetra em sentido diagonal até Belém (PA). A rodovia Perimetral Norte tem 2.450 quilômetros de extensão. A rodovia Cuiabá-Santarém, com 1.320 quilômetros, começa em Cuiabá, no Estado de Mato Grosso e penetra na horizontal, até a cidade Santarém, no Estado do Pará. Esta rodovia tem início no extremo oeste do Estado de Santa Catarina, no sul do País. Além de uma dezena de outras rodovias, com menor extensão. - 51 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI ‘modelo brasileiro de desenvolvimento’ é criação específica da estrutura da fase do capitalismo monopolista do Estado, que deforma as estruturas econômicas, quando as explora” (SODRÉ, 1975: 181). Transformar o Estado em um formador das estruturas econômicas, a serviço da elite dominante, proporciona “a pauperização da maioria do povo; vai mais longe, porque impõe as formas autoritárias de Estado” (SODRÉ, 1975: 181). Em países periféricos, semelhantes ao Brasil, “a dependência da situação de subdesenvolvimento implica socialmente uma forma de dominação” (CARDOSO e FOLETTO, 1970: 26). Por conseqüência, “a política de incentivos fiscais significou não apenas o robustecimento da iniciativa privada na Amazônia, mas também atuou como uma medida ativadora da acumulação financeira no sul do país” (CARDOSO e MÜLLER, 1977: 165-66). Assim, os incentivos fiscais, através dos projetos não realizados na região, serviam para transferir recursos para outras partes do País, vindo a beneficiar os capitalistas. O projeto de colonização da última fronteira brasileira, elaborado pela ditadura militar, não teve como objetivo assistir o caboclo da região, os problemas da seca do Nordeste, os problemas sociais do sul do País, muito menos beneficiar a grande maioria da população brasileira marginalizada e despossuída. Este projeto foi elaborado para beneficiar principalmente as grandes empresas nacionais e internacionais. Nasceu com a finalidade de colocar os produtos da Amazônia no mercado mundial e, por intermédio dos militares, internacionalizar a região com a expansão de grandes conglomerados capitalistas. Neste sentido, “o binômio Estado-empresa privada produziu resultados cada vez mais notáveis, em tempos de dinamização das forças produtivas ou expansão do capitalismo na região” (IANNI, 1986:75). Na concepção histórica, as mudanças são de tempo, mas o tratamento efetuado pelo Estado reflete os antagonismos no modo de tratar as classes. O conceito de Estado é amplamente tratado por Engels13 . - 52 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI As várias formas que o capital encontra para tirar proveito para si, sempre apoiado pelo Estado, torna a população marginalizada. O Estado, de forma repressiva, “atuando a níveis diversos, termina por encontrar-se na senda batida da acumulação rápida através da espoliação dos trabalhadores” (CARDOSO e MÜLLER, 1977: 202). Através desta concordância, ocorre “a acumulação privada beneficiada pelos incentivos do Estado e pela exploração de uma mão-de-obra carente de quase todas as condições capazes de fazer dela algo mais que o velho e sofrido instrumentum vocalis dos tempos da escravidão” (CARDOSO e MÜLLER, 1977: 205). O projeto econômico militar implantado no Brasil em 1964 foi a concretização do plano capitalista mundial de expansão e acumulação. A região Amazônica foi usada pelas esferas econômica, militar e política, transformando-se, assim, em área de livre movimento dos projetos econômicos com o objetivo de acumular riqueza, bem como atingir o mercado mundial através da produção. Neste sentido, a expansão capitalista teve como finalidade expandir seus interesses globais para atender ao mercado internacional. IANNI (1986: 79) escreve que: estava em curso um amplo e intenso processo de formação de latifúndios, fazendas e empresas de extrativismo, agricultura e pecuária, agroindústria e outras atividades, por meio do qual a terra se transforma em propriedade privada, mercadoria, em conformidade com as exigências do desenvolvimento extensivo do capitalismo na Amazônia. Essa foi a forma pela qual o poder estatal foi levado a 13 “Como o Estado nasceu da necessidade de conter o antagonismo das classes, e como, ao mesmo tempo, nasceu em meio ao conflito delas, é, por regra geral, o Estado da classe mais poderosa, da classe economicamente dominante, classe que, por intermédio dele, se converte também em classe politicamente dominante e adquire novos meios para a repressão e exploração da classe oprimida. Assim, o Estado antigo foi, sobretudo, o Estado dos senhores de escravos para manter os escravos subjugados; o Estado feudal foi o órgão de que se valeu a nobreza para manter a sujeição dos servos e camponeses dependentes; e o moderno Estado representativo é o instrumento de que se serve o capital para explorar o trabalho assalariado.” (ENGELS, 1987: 193). A origem da família, da propriedade privada e do Estado é obra de Friedrich Engels. Os escritos foram publicados pela primeira vez em 1884 e traduzidos para a língua portuguesa por Leandro Konder. - 53 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI reativar, diversificar e desenvolver o vasto enclave econômico da Amazônia, para servir à acumulação capitalista nos centros dominantes, no Centro-Sul e no Exterior. O Estado passou a favorecer e a proteger grupos econômicos e políticos, a grilagem, o latifúndio e a formação da grande empresa agropecuária, de extrativismo agroindustrial ou industrial. “É neste sentido que se colocam as atuações da SUDAM, BASA, INCRA e FUNAI14 , entre outros órgãos do poder público federal, estadual e municipal” (IANNI, 1986: 83). Impulsionada por esta estrutura protecionista, em toda a Amazônia ocorreu uma acentuada concentração da propriedade privada. Mesmo o Estado tendo distribuído algumas poucas terras para colonos, ou reservado parte para os povos originários, a grande maioria das terras foi para grupos econômicos do Centro-Sul do País e para os estrangeiros. Nesta região, largas quantidades de terras foram compradas, griladas ou ocupadas por latifúndios, grileiros, fazendeiros e empresários. Se, por um lado, predominou a grande concentração fundiária, “ocorre progressiva proletarização de indígenas, caboclos amazonenses e posseiros, recém-chegados ou antigos no lugar” (IANNI, 1986: 86). Esta era a grande meta do capital, expropriar os povos originários e os posseiros, deslocar as populações, tornandoas proletárias para servirem ao sistema ali implantado. Assim, duas tendências se revelaram na Amazônia no período militar, iniciado em 1964; primeiro modificou-se “rapidamente, e de forma violenta, o sistema de posse da terra. Segundo, tem sido reduzida a capacidade de absorção de trabalhadores rurais pelas fazendas e empresas de pecuárias” (IANNI, 1986:86). A projeção da Amazônia brasileira ao mercado mundial, através da introdução de capitais públicos e privados, conseguiu 14 Funai – Fundação Nacional do Índio, criada pela Lei n.º 5.371, de 5 de dezembro de 1967, tendo como papel fundamental proteger os interesses dos povos originários, servindo de ministério para esses povos. - 54 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI integrar mais a região com o mercado exterior e pouco com o mercado brasileiro. Isto se tornou mais evidente com a ditadura, pois esta ajudou a projetar a região e integrá-la aos mercados externos, bem como estimulou a monopolização da propriedade privada na região. Esta estratégia governamental, com fins de favorecer os grupos econômicos, “implica na expulsão, ou subordinação, de índios, sitiantes, caboclos, posseiros e colonos” (IANNI, 1986: 98). O deslocamento de grupos capitalistas teve como finalidade única concentrar e centralizar capitais, para atuar nas metas capitalistas de acumulação na região. A escolha da Amazônia para realizar a expansão capitalista não pode fugir dos princípios que o sistema lhe concebe. O processo histórico capitalista é amplamente tratado por Braudel15 . Para WALLERSTEIN (2001: 18), “o capitalismo histórico é o locus concreto - integrado e delimitado no tempo e no espaço – de atividades produtivas cujo objetivo econômico tem sido a acumulação incessante de capital”. Assim, a região amazônica, dentro do processo histórico, tornou-se gradativamente espaço de capitais nacionais e internacionais. Foi a estratégia política e militar “sobre o manto de um discurso nacionalista que, inclusive, dizia ‘integrar para não entregar’, que mais se fez presente o capital estrangeiro na Amazônia. Nunca a Amazônia foi tão internacionalizada” (GONÇALVES, 2001: 15). Estes espaços passaram a fazer parte do mercado mundial, dentro das perspectivas capitalistas de reprodução para acumulação. 15 “Só se disciplinará, só se definirá a palavra capitalismo, para colocá-lo a serviço exclusivo da explicação histórica, se a enquadrarmos seriamente entre as duas palavras que se submetem e lhe conferem seu sentido: capital e capitalista. O capital, realidade tangível, massa de meios facilmente identificáveis, permanentemente em ação; capitalista, o homem que preside ou procura presidir a inserção do capital no processo incessante de produção a que todas as sociedades estão condenadas; o capitalismo é grosso modo (mas só grosso modo), a forma como se conduz, para fins usualmente pouco altruístas, esses jogos constante de inserção.” (BRAUDEL: 1987: 43). A dinâmica do capitalismo, obra de Fernand Braudel. É um dos mais importantes historiadores contemporâneos, e sua obra foi traduzida para a língua portuguesa por Álvaro Cabral. - 55 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI Para PIGOU (1982: 73), quando a propriedade privada e seu controle estão unidos nas mesmas mãos, existe maior liberdade de ação. Assim, a Amazônia é hoje o retrato da expansão de capitais, tendo como objetivo maior a formação da concentração individual para, no processo final, poder atingir a centralização de capitais de forma socializada. Os recursos naturais, tanto os florestais quanto os minerais e os projetos agropecuários, servem de alavanca para empresas capitalistas se instalarem nesta vasta região, sempre com a finalidade de agregar valor aos produtos e acumular riqueza. Neste sentido, a região, ao abrir-se ao mercado de grandes capitais internacionais, automaticamente fecha-se ao mercado interno de pequenos capitais e à população brasileira de forma geral. Interiormente a Amazônia faz parte do mercado mundial e se enquadra na lógica do capital expansionista para acumulação. ***** - 56 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI A política de colonização capitalista O processo de ocupação da última fronteira brasileira tornou-se mais evidente a partir da década de 70 do século XX. Porém, “as primeiras experiências de colonização oficial no Norte e no Centro-Oeste ocorrem no Estado Novo. Em 1941, foi criada a Colônia Agrícola de Goiás (GO) e, em 1943, a Colônia Agrícola de Dourado, no município de Dourados (MS)” (PASSOS, 1998: 53-54). No entanto, através da ditadura instalada em 1964 é que a região foi colocada à disposição dos grupos econômicos nacionais e internacionais. O Estado utilizou como estratégia de ocupação a criação dos incentivos fiscais, via encontrada para favorecer a elite capitalista nacional e internacional. Para tal, foram criados órgãos específicos com a finalidade de assistir os grupos organizados, tais como: Sudam, Basa, Incra, Pin1 e Funai. Estes órgãos tinham por objetivo fornecer a estrutura necessária para implantação e instalação dos projetos econômicos que buscavam a expansão na região. Esta estrutura foi possível, graças às ações dos militares e da “Doutrina de Segurança Nacional que tomou o poder após o golpe que derruba João Goulart em março de 1964” (SABATINI, 1998: 56). A partir da tomada do poder pelos militares, “há uma redefinição capitalista que se caracteriza por uma dinâmica de reprodução de capitais em bases políticas e institucionais bem definidas e expressa claramente nos planos de desenvolvimento” (PASSOS, 1999: 61). Beneficiadas pelos militares no comando, “as corporações multinacionais utilizam diretamente o Estado para acumular, multiplicar e concentrar capitais...” (GALEANO, 1987: 245). É desta forma que nasceram as rodovias de integração da Amazônia com o restante do País, oferecendo as condições 1 Pin – Plano de Integração Nacional, criado por Decreto-Lei n.º 1.106 em junho de 1970, tendo como finalidade financiar obras de infra-estrutura nas áreas de atuação da Sudene e Sudam, promovendo a integração nacional. - 57 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI necessárias para penetração dos capitalistas, dos colonos, dos desempregados e de todos os despossuídos e marginalizados do País. O acesso de empresas e pessoas à região aconteceu de três formas: com a colonização espontânea, com a dirigida pelo governo e com a promovida por empresas privadas2 . Antes da construção da rodovia Belém-Brasília, em 1956-60, a penetração na Amazônia brasileira era feita quase exclusivamente por via fluvial. Mas o processo de deslocamento mais acentuado e amplo aconteceu “a partir de 1970 quando se intensificou e generalizou a migração para o Sul do Pará, o norte do Mato Grosso, para o Amapá, Acre, Roraima e Rondônia” (IANNI, 1979: 12). Na região, a maior taxa de crescimento ocorreu entre 1980 e 1990. Neste período, “o movimento pioneiro se fez em direção do Pará, Rondônia, e Mato Grosso” (PASSOS, 1998: 59). O Incra foi criado com a finalidade de realizar a reforma agrária no Brasil. O órgão orienta a colonização particular e a colonização oficial, tendo como função principal organizar e aprovar projetos de ocupação. Mas somente a partir de “abril de 1971 foi possível à iniciativa privada a implantação de projetos de colonização em áreas consideradas prioritárias para a reforma agrária e nas terras devolutas da união na Amazônia” (CARDOSO e MÜLLER, 1977). Esta era uma exigência dos grupos econômicos, e o Estado cedeu, uma vez que o controle das massas pelos militares se processava através do sufocamento e da repressão da classe trabalhadora no País. Assim, os capitalistas fizeram das várias áreas de terras da 2 Colonização espontânea: esta forma de ocupação ocorre sem a interferência do Estado e da burocracia. É realizada por agricultores, camponeses e posseiros semterra, forma encontrada para realizar a reforma agrária de fato. Buscam terras devolutas ou sem reivindicação de seus proprietários legalmente constituídos. Realizam o assentamento na terra através da posse da propriedade. A colonização dirigida oficialmente é realizada via Incra e criada com objetivo de conter o fluxo natural dos sem-terra. Esta política de colonização esteve presente na Amazônia brasileira até 1973. Desta data em diante ficou a cargo do Estado apenas a colonização quando de interesse da ditadura. A colonização particular ocorre principalmente a partir de 1974 através da especulação imobiliária, representada por pessoa física ou jurídica, sendo realizada por grupos de empresários e cooperativas, recebendo incentivos do Estado para estrutura e viabilização dos projetos. - 58 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI Amazônia brasileira objeto de especulação imobiliária ou reserva de valor. O projeto de ocupação amazônica promovido pelo governo efetivou na prática a expansão capitalista na última fronteira brasileira com fins de acumulação. A expansão foi feita através das rodovias federais e da estrutura oferecida pelo Estado. O governo organizou a distribuição das terras, mas os “sem-terra”, “os posseiros” em “muitos casos, chegam antes dos latifundiários, fazendeiros ou empresários nacionais e estrangeiros” (IANNI, 1979: 11). Assim, deslocou-se para esta região um grande contingente de desempregados, ou subempregados de todas as regiões do Brasil, surpreendendo as expectativas governamentais. Podemos afirmar que na Amazônia estava “em curso uma reforma agrária espontânea, ou de fato, sem a interferência de governantes, burocratas ou técnicos” (IANNI, 1979: 14). Na região, em pouco espaço de tempo “havia um tremendo fluxo de migrantes pobres à procura de terra e trabalho” (SHOUMATOFF, 1990: 79). Tornou-se cotidiana a chegada de posseiros, conjuntamente “com a chegada de peões, vaqueiros, gatos, grileiros, latifundiários, fazendeiros, empresários, gerentes, técnicos, comerciantes, funcionários e outros” (IANNI, 1979: 16). A necessidade de novas opções para as classes oprimidas e marginalizadas do País transformou a Amazônia em uma nova alternativa para esta parte da população brasileira. A colonização espontânea e a dirigida serviram para tirar excedentes populacionais do Nordeste, do Sul e de outras áreas do País, sendo consideradas uma nova alternativa para minimizar os problemas sociais (CARDOSO e MÜLLER, 1977: 141; IANNI, 1979: 18). Além disso, foram colocadas à disposição dos grupos econômicos na região as reservas de mãode-obra ociosa do País. Contudo, “o homem sem terra que migra para a Amazônia vai geralmente pensando que finalmente será dono do que nunca teve na vida” (PROCÓPIO, 1992: 21), a terra. Neste sentido, enfatiza IANNI (1986: 141): - 59 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI sob vários aspectos, a colonização espontânea, ou as migrações espontâneas de trabalhadores rurais para a Amazônia, configuram uma espécie de reforma agrária de fato. Desde o término da construção da Belém-Brasília, em 1960, a criação da Sudam e a Basa, em 1966, a criação do Incra, em 1970, e a construção das rodovias Transamazônica, Cuiabá-Santarém e outras, em 1970-78, acelerou-se e estendeu-se a expansão do capitalismo na Amazônia. Ao mesmo tempo acentuou-se e generalizou-se a migração espontânea de trabalhadores rurais, e seus familiares, para as áreas de terras, devolutas e indígenas. Desenvolveu-se uma corrida à terra, tanto por parte de grileiros, latifundiários, fazendeiros ou empresários, como por parte de camponeses e operários do campo. Estes, os camponeses e operários do campo, em muitos lugares estavam na prática realizando uma reforma agrária espontânea, de fato. A terra da Amazônia representava uma nova alternativa para os povos marginalizados e despossuídos de todo o País. Assim, ocorreu uma corrida desenfreada para a região, proporcionada pela busca de uma nova opção de subsistência, principalmente das secas do Nordeste brasileiro. Nesta busca de novas oportunidades, chegavam os trabalhadores “desempregados, subempregados ou superexplorados, no Nordeste, Sul, Sudeste, Centro-Oeste e do próprio Norte, em busca de terras e emprego” (IANNI, 1979: 22). Neste episódio “o primeiro a ser expropriado é o índio; e o segundo é o posseiro” (IANNI, 1979:23). No processo de ocupação, os grandes articuladores da terra foram os grileiros, os latifundiários e os empresários, tanto nos projetos nacionais como multinacionais. Nesta investida capitalista os verdadeiros representantes do capital venceram os caboclos, os indígenas, os posseiros e os sitiantes. A tática fundamentou-se no poder econômico, político e militar, bem como pela burocracia e pela violência conjunta entre o capital e o Estado. Estes grupos econômicos tinham interesse em procurar as condições favoráveis para desenvolver a expansão capitalista na Amazônia com auxílio do Estado. Foram adotadas as mais variadas formas de expropriação dos posseiros e dos povos originários, sempre apoiadas pelo Estado via golpe militar, impondo a ditadura. - 60 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI Os grupos econômicos nacionais e internacionais procuravam “preferencialmente terras de boa qualidade, para pastagens ou lavouras; melhor ainda quando eram terras já desmatadas por indígenas e posseiros” (IANNI, 1979: 34). Além de detentores de poder econômico, os grupos capitalistas foram incentivados e protegidos pelo poder público, com isenção de impostos, incentivos fiscais, juros simbólicos ou negativos, tendo à disposição órgãos do governo como Sudam, Basa, entre outros. Neste sentido, “a política de incentivos fiscais foi a pílula dourada“ (OLIVEIRA, 1997: 67), Por outro lado, os conflitos sociais em outras regiões do Brasil passaram a preocupar o governo militar. Assim, IANNI (1979: 38-39) afirma que: ao descobrir que as contradições sociais no Nordeste podiam tornarse explosivas, pelo elevado índice de desemprego, subemprego e pauperismo, o governo do General Médici (1969-74) decide criar e forçar as condições para que os excedentes populacionais do Nordeste sejam encaminhados para a Amazônia. Ao mesmo tempo, ao descobrir que a luta dos posseiros pela terra poderia ser base de movimentos políticos organizados, fortes e combativos, trata de reprimir os focos guerrilheiros nascentes e devolver uma política de regularização das ocupações ou poses (...). A partir de setembro de 1974, no entanto, com a criação do programa de Desenvolvimento Agropecuário e Agrominerais da Amazônia (Polamazônia), é a colonização oficial que passa a um segundo plano, ao passo que a colonização particular ganha maior dinamismo. A ditadura, para proteger-se dos possíveis movimentos dos descontentes com a situação repressiva imposta pelos militares no comando da nação, passou a agir. “As ligas, os sindicatos foram postos sob intervenção. Ao mesmo tempo, os líderes das ligas camponesas foram presos, tiveram que esconder-se, ou saírem do país” (IANNI, 1979: 42). O novo panorama imposto pelos militares no poder “representou um ponto de ruptura na história política do país” (SINGER, 1985: 77). Os grileiros, fazendeiros, latifundiários, pistoleiros e jagunços - 61 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI realizaram em terras dos povos originários, bem como dos posseiros uma série de desmandos, praticando terror e violência na região. Estes episódios, além de deixarem sérias conseqüências, geralmente terminaram por expropriar com violência posseiros e indígenas. Neste clima de terror, o projeto “político governamental de colonização oficial e particular concretizou-se como uma contrareforma agrária” (IANNI, 1979: 44). O processo de ocupação da Amazônia realizou-se através de uma revolução preventiva por parte da burguesia e do Estado, em detrimento dos interesses da classe trabalhadora do País, que buscava a terra. O projeto de expansão capitalista para a região, estabelecido em 1964 pela ditadura, estava repleto de grandes conflitos. No grande projeto de colonização era impossível contemplar os interesses da maioria da população brasileira, caracterizando-se como área de conflito social. Os posseiros, os colonos e os povos originários foram expropriados das terras e começaram a se organizar, mas esta atitude voltou a preocupar o governo e, consequentemente, os interesses capitalistas. É o que aconteceu no Araguaia, na região amazônica, onde se instalou a famosa guerrilha dirigida pelos descontentes, com a finalidade de se contrapor ao projeto militar. O governo – por meio da repressão – conseguiu conter os descontentes através da força do exército, eliminando todas as iniciativas que viessem a se contrapor ao grande projeto capitalista, que contemplava a internacionalização do capital na Amazônia, onde houve em dois anos a “mobilização de 10 a 20 mil soldados para combater 69 guerrilheiros” (MARTINS, 1995: 134). Nesta região o que aconteceu na verdade foi “um foco de aspiração de liberdade e de trabalho” (MARTINS, 1995: 135) por parte dos descontentes que organizaram a guerrilha. Assim, “em 1974, a guerrilha estava esmagada e quase todos os seus componentes mortos, na verdade assassinados após a rendição” (SOUZA, 2002: 214). Neste período, do golpe da “democracia” imposto pelos Estados Unidos, “temos notícias hoje de 90.000 desaparecidos - 62 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI políticos em toda a América Latina, dos quais 30.000 apenas na Argentina” (RIBEIRO, 2000: 27). O episódio brasileiro tinha como objetivo promover a ditadura através do Estado, sempre no propósito de manter a lógica capitalista mundial, e assim fazia “a reabilitação moral por meio da violência” (HUGGINS, 1998:141). O Estado dotava os grupos econômicos de toda a estrutura produtiva e, assim, os detentores de posse e do poder recebiam todos os benefícios para garantir a acumulação, em detrimento das massas, e promoviam a asfixia dos demais agentes sociais. Para CHIAVENATO (1984: 156), referindo-se aos movimento das massas, o que acontece, mais uma vez, é que as classes dominantes, quando derrotam os revoltos populares, vencem duas vezes. Primeiro, por sufocar movimentos de massa que as ameaçam. Segundo – e não menos importante –, ao mitificar a história, negando ao povo a experiência dos que morreram lutando pela liberdade, produzindo documentos que alteram a realidade e condicionam-se ideologicamente como ferramentas futuras para o poder político e econômico continuar sua dominação. Para O URIQUES (2000: 102), “entre os instrumentos de domínio político sistematicamente utilizados pelas classes dominantes em nosso país, inscreve-se aquele que nega aos oprimidos o direito a contar sua própria história, ou mais precisamente a história de suas lutas”. Assim, a história contada é aquela que interessa aos domínios do grande capital em conjunto com o Estado, ou seja, a história que interessa aos vencedores. Ao calar os movimentos sociais, que buscavam alternativas para se contrapor às imposições arquitetadas pelo sistema capitalista de expansão, e assim frustrar as tentativas de respostas aos anseios das massas despossuídas e marginalizadas do País, o Estado intensificou o projeto de colonização na Amazônia. As táticas de ocupação foram intensificadas e acompanhadas de instrumentos estratégicos que viessem a conter os ânimos da população, bem como dar segurança ao projeto capitalista dos - 63 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI grandes conglomerados nacionais e internacionais na região. Para melhor controle e intervenção, instalaram “a base militar do Cachimbo, que fica no Sul do Pará, próximo da divisa com o Mato Grosso, no trecho da rodovia da Cuiabá-Santarém” (OLIVEIRA, 1997: 126). Esta base repressiva nasceu para sufocar as iniciativas contra a ditadura, vindo a transformar o Estado e o capital como bem sucedidos no seu projeto. Os resultados da intervenção militar foram vistos negativamente pela população brasileira, tanto os grandes projetos capitalistas, como o Estado com suas estratégias repressivas, proporcionando o desgaste de ambos perante a opinião pública nacional e internacional. A derrota da guerrilha coloca em xeque, “contraditoriamente, o vencedor, aprofunda, revelando mais abertamente os limites, os compromissos e os impasses do regime. É provável que a forma assumida pela vitória militar no espaço da guerra seja também, ao mesmo tempo, uma derrota política no espaço do país” (MARTINS, 1991: 127). Este fato vem aliado à crise econômica do País em 1974, bem como as vitórias políticas eleitorais do MDB – Movimento Democrático Brasileiro. O projeto da ditadura foi perdendo o controle no País, e começaram a abertura e os protestos operários, principalmente a partir de 1980, através do PT – Partido dos Trabalhadores, e da CUT – Central Única dos Trabalhadores. O Estado continuou em seu propósito de expansão e controle das massas e, consequentemente, de proteção dos interesses da elite, criando também o projeto Calha Norte na Amazônia brasileira, como forma de militarização da política de ocupação da região. O projeto situou-se entre as calhas dos rios Solimões e do Amazonas, ao “longo das fronteiras com Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, correspondendo a 14% do território nacional” (B ECKER , 1997: 80-81). Trata-se de um projeto que objetivava vasculhar a região, com aparato tecnológico, com a finalidade de manter “o controle sócio-econômico-militar da região, apaziguar conflitos e acelerar a produção hidroelétrica” (BECKER, - 64 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI 1997: 82). O verdadeiro objetivo da criação deste projeto, segundo PROCÓPIO (1992: 255), pode ser visto da seguinte forma: o governo Sarney [o primeiro presidente da república após a ditadura militar] criou, no primeiro semestre de 1985, o projeto Calha Norte. É bom repetir que, através dele, menos de meia centena de quartéis e pelotões de selva foram distribuídos na extensa parte setentrional da Amazônia, pouco importando se em terras indígenas ou em terras de missões católicas ou protestantes. A finalidade era deter grupos guerrilheiros, que seriam “apoiados por Cuba”, e com a capacidade de penetração através do Suriname (...). O projeto Calha Norte seria para combater o narcotráfico, montando toda uma infra-estrutura logística para deter ação de grupos revolucionários colombianos, dispostos a agir nas fronteiras do Brasil. Deveria também o Calha Norte combater o contrabando de ouro. O governo passava à nação a imagem de preocupação com o problema da “segurança nacional”. A construção de grandes rodovias, como a Transamazônica e a Cuiabá-Santarém, foi uma forma de garantir ao Estado duas coisas ao mesmo tempo, “terra e segurança interna” (I ANNI , 1979: 47). Também “melhorar as condições de vida do caboclo e do nordestino; atender à segurança nacional” (CARDOSO e MÜLLER, 1977: 173). A abertura de estradas, projetadas para cortar a Amazônia na horizontal, na vertical e na diagonal, facilitava a entrada dos migrantes, vindos das demais regiões do Brasil. O grande projeto expansionista transmitia a sensação de bem-estar, pois o governo passava à nação que, ao intensificar a colonização na Amazônia, estaria proporcionando oportunidades a todos os que realmente desejassem um pedaço de terra e, ao mesmo tempo, demonstrava que a região estava sendo protegida de possíveis invasores. Com isto, posseiros e colonos já expropriados das terras da região, ou vindos de outras, instalavamse e penetravam na mata, principalmente através das rodovias federais, bem como as rodovias estaduais e municipais secundárias. Neste processo, os colonos, os posseiros e os povos originários - 65 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI serviram na sua grande maioria de amansadores da terra, visto que quem chegava depois eram os capitalistas, com a documentação das terras, algumas vezes legal, outras forjada. As possíveis irregularidades na documentação das áreas eram oriundas da indústria da falsificação promovida pela grilagem da terra. Para algumas regiões brasileiras, a abertura destas rodovias era imprescindível. “Em 1970 o Nordeste se revelava, de novo, uma região com problemas sociais insolúveis. E a solução mais cômoda para o governo nacional e as classes dominantes no Nordeste era transferir para a Amazônia as populações famintas, angustiadas, desassistidas e flageladas” (IANNI, 1979: 48). Ao mesmo tempo em que se construíam as rodovias, objetivando a colonização de suas margens, também se instalavam grandes latifúndios, com empresas de extrativismo e agropecuária, através da grilagem, ou incentivadas pelos órgãos governamentais. A construção destas rodovias, ao mesmo tempo em que concretiza o plano de expansão capitalista, de forma acumulativa e originária, também deslocava grande quantidade de força de trabalho para esses grandes projetos. Ao dominar as massas por meio da repressão, o Estado calava toda e qualquer iniciativa que fosse contrária aos interesses do grande projeto ali instalado. Assim, tornava-se perfeito para conseguir os objetivos do Estado e do capital em conjunto na região. As metas se concretizavam e a expansão capitalista na Amazônia tornava-se real e bem-sucedida dentro da lógica da concentração, pois era vista apenas como estratégia do sistema capitalista global acumulador. Através do Estado, o Brasil tornou-se “um país em que se pode falar em democracia, mas não se pode, de fato, falar em cidadania” (MARTINS, 1997: 95). Contudo, “a expansão extensiva do capitalismo na Amazônia era um modo de preservar intactas as estruturas de apropriação econômica e dominação política no Nordeste e no Centro-Sul, para beneficiar a acumulação capitalista acelerada” (IANNI, 1979: 53). À medida que avançava a expansão dos grandes conglomerados - 66 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI nacionais e internacionais na região amazônica, percebia-se que a construção das rodovias se dava pela questão do aproveitamento econômico da terra e segurança nacional, e também para passar a imagem de grandeza como nação e potência emergente. O Programa Nacional de Integração, “que envolve a Transamazônica e outras estradas, não é senão um ambicioso e efetivo programa de contra-reforma agrária na Amazônia, no Nordeste e nas outras partes do Brasil”. (IANNI, 1979: 54). No início dos anos 80, segundo MARTINS (1981: 81): “o êxodo em massa para a Amazônia, determinado pelos projetos de colonização adotados pelo Estado brasileiro a partir de 1964, tem-se revelado o mais desastroso e incompetente [para as classes oprimidas] de que se tem notícia em toda a história da região”. De forma mais contundente, IANNI (1979: 81) avalia desta forma a situação: distribuir alguma terra, para não distribuir terras, esse acabou sendo o lema de fato da política governamental de colonização dirigida. Por isso, foi com bastante facilidade que o próprio governo estimulou a formação de empresas ou cooperativas de colonização. Tratava-se de ceder às pressões dos interesses do capital privado e, ao mesmo tempo, obter a ajuda deste na política de contra-reforma agrária, mesmo porque esta política deveria servir (como de fato serviu e está servindo) aos interesses do capital privado, nacional e estrangeiro. ***** - 67 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI - 68 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI A EXPANSÃO E A COLONIZAÇÃO CAPITALISTA A colonização promovida pelo Estado Faz-se necessário conhecer certas peculiaridades do processo de colonização ocorrido no período pós-ditadura de 1964 na Amazônia. Neste sentido, após o entendimento de forma mais ampla da região, passaremos a conhecer mais especificamente casos de colonização do Estado de Mato Grosso, pois este faz parte da Amazônia Legal brasileira. Sempre nos atendo à Amazônia de forma geral, o processo de colonização foi semelhante em todos os Estados da região. Através da distribuição de terras promovida pelo governo da ditadura, e também com auxílio de empresas de especulação imobiliária, efetivou-se a expansão capitalista na região através da junção entre o Estado e o capital. Por outro lado, enquanto se processou a colonização através do Estado e empresas de colonização privadas, a colonização espontânea aconteceu em toda a Amazônia. Na região era comum a chegada dos marginalizados e dos despossuídos do País em busca de terra e trabalho, e estes passavam a usufruir o novo espaço juntamente com os grupos econômicos nacionais e internacionais. Para PASSOS (1998: 145), “o processo de colonização dirigida tanto pelos poderes públicos como pela iniciativa privada, se dá à custa da marginalização dos pequenos proprietários e, - 69 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI sobretudo, dos trabalhadores sem terra”. SANTOS (1993: 48) afirma: um complexo sistema de colonização foi proposto da seguinte maneira: as áreas de colonização; os órgãos responsáveis, oficiais ou particulares, no último caso empresas ou cooperativas; o financiamento das operações de venda dos lotes pelo crédito rural; a organização de espaços em núcleos de colonização, formados por lotes rurais e urbanos; enfim os mecanismos de seleção e de preferência dos colonos parceleiros. Para efetivar-se o grande projeto planejado pelo Estado e o capital em conjunto, foram necessários planos estruturais para a expansão. Nos projetos do norte do Estado mato-grossense, região foco de nossa pesquisa, foi fundamental a construção da rodovia federal Cuiabá-Santarém − BR-163 − pois era o corredor geral de entrada e saída. Mesmo assim, antes do surgimento deste corredor de penetração, os grandes projetos já tinham nascido, pois o governo militar distribuía as terras para grupos econômicos instalarem empresas nos setores da agropecuária, indústria e mineração, bem como de empresas de colonização com fins de especulação imobiliária. Os núcleos de colonização objetivavam atender aos interesses capitalistas, tornando a terra uma forma apenas especulativa, nas mãos de verdadeiros barões da terra na região. Em contrapartida, o Estado recebia em troca apoio político para sustentar o projeto econômico da burguesia na região. Segundo PIAIA (1999:35-36) e OLIVEIRA (1997: 108-109), entre os projetos governamentais mais importantes podemos destacar os seguintes: Projeto Peixoto de Azevedo, Projeto Braço do Sul – Norte do Estado de Mato Grosso, Projeto Assentamento Ranchão – Nobres, Projeto Carlinda – Alta Floresta, Projeto Lucas do Rio Verde, Projeto Canaã – Nova Canaã, Projeto Telles Pires – Colíder, Projeto Cerro Azul – Pontes Lacerda, Projeto Sete de Setembro – Aripuanã. Os projetos de colonização promovidos por empresas particulares foram em número superior a cinqüenta, sendo que, nestes, se fixaram a maior parte dos migrantes. Entre os - 70 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI projetos de colonização privada e cooperativas de colonização, podemos destacar os seguintes: Porto dos Gaúchos – Colonizadora Conamali, Canarana – Colonizadora Cooperativa 31 de Março Ltda., Água Boa – Colonizadora Conagro, Nova Xavantina – Colonizadora Conagro, Vila Rica – Colonizadora Vila Rica, Nova Mutum – Colonizadora Nova Mutum S.A. Sorriso – Colonizadora Sorriso, Sinop e Vera – Colonizadora Sinop, Marcelândia – Colonizadora Maiká, Alta Floresta, Paranaita e Apiacás – Colonizadora Indeco, Nova Bandeirantes – Colonizadora Bandeirantes, Colíder – Colonizadora Colíder, Terra Nova – Colonizadora Coopercana, Terra Nova – Colonizadora Coopercool, Juara e Novo Horizonte – Colonizadora Zé Paraná, Tapurah e Eldorado – Colonizadora Tapurah, São José do Rio Claro – Colonizadora Incol, Brasnorte – Colonizadora Gravari, Juruena e Cotriguaçu – Colonizadora Cooperativa Paraná. Estes projetos de colonização foram contemplados com vastas áreas de terras, e em poucos anos foram criados vários novos municípios em cada projeto. Exemplo neste sentido é o caso da Colonizadora Sinop S.A., que deu origem aos municípios de Sinop, Vera, Cláudia, Santa Carmem, União do Sul e Feliz Natal. Para O LIVEIRA (2001: 144), na década de 70, aproximadamente 90% dos projetos com empresas privadas de colonização foram realizados no Estado de Mato Grosso, e o Estado recebeu 57% dos migrantes. Nos projetos de colonização promovidos pelo governo através do Incra os colonos “eram fundamentalmente homens e mulheres marginalizados no processo histórico” (ZART, 1998: 130). Para estes núcleos ou cidades foi encaminhada uma grande quantidade de lavradores expulsos de outras regiões por latifúndios do País, em busca da terra e do trabalho. Deste modo, a “sociedade capitalista desenraíza, exclui, para incluir, incluir de outro modo, segundo suas próprias regras, segundo sua própria lógica” (MARTINS , 1997: 32). A Amazônia representava a busca do “mel”, e migrar era transformar-se em beija-flor e voar para a terra prometida. - 71 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI A nova fronteira de colonização amazônica significava o “mel” para o colono sulista e nordestino. Era sinônimo de fartura, pois ele era a esperança de adoçar e alimentar suas vidas. Seus projetos de vida sempre foram represados por meio das condições de trabalho e moradia, da vida simples e difícil por seguidas gerações. O processo de concentração fundiária fez do “campesinato um excluído que jamais parou de tentar reingressar na terra” (RIBEIRO, 2000: 27). Para os que migraram esta nova frente de expansão “seria uma das poucas ou inevitáveis estratégias de sobrevivência básica e para garantir sua posição na estrutura social” (ZANNUZZI, 2000: 5). Por outro lado, “a condição de migrantes de geração em geração demonstrava a necessidade dos grupos sociais, formados essencialmente por trabalhadores braçais, de fugir por meio da locomoção, de situações que intensificassem a exploração e a dominação” (ZART, 1998: 130). Zart refere-se ao projeto de assentamento de colonização da gleba Lucas do Rio Verde, realizado em 1976, ao longo da Cuiabá-Santarém, próximo à BR-163, distante 355 km de Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso. Trata-se de um bom exemplo de colonização promovido pelo Estado. Este projeto nasceu com a finalidade principal de produzir produtos agropecuários, tendo uma área de 270.000 ha, conseguindo assentar 203 famílias de colonos provenientes de Encruzilhada Natalina, no Rio Grande do Sul, em parte da área. Os problemas encontrados para os novos colonos1 assentados, conforme ZART (1998: 135) nos demonstra, não foram menores: para explicação desta problemática pode-se apontar três variáveis explicativas. A primeira corresponde ao fenômeno da migração de colonos do Sul do Brasil para o cerrado, deparando-se com um ambiente biofísico estranho que precisava ser decifrado (...). A segunda diz respeito aos técnicos agrícolas e agrônomos que exerciam suas atividades profissionais, prestando serviços aos parceleiros. Estes tinham formação científica e técnica adquirida nas instituições de ensino em Universidades nas regiões Sul e Sudeste - 72 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI do Brasil (...) A terceira situação refere-se ao processo de produção e difusão do conhecimento científico. Tem-se colocado nesta problemática dois momentos diferentes. Por um lado, os órgãos de pesquisas voltados para o cerrado que proporcionavam respostas às diversas problemáticas específicas para desenvolvimento agropecuário desta região. Por outro lado, o saber que os órgãos de pesquisa detinham não havia sido popularizado, isto é, a ciência sobre o cerrado, neste caso, continuava presa ao órgão pesquisador. Portanto, a difusão e a socialização não haviam ocorrido, criando problemas tanto para os técnicos quanto para os parceleiros recém assentados. Neste projeto em pouco tempo o sonho da terra virava pesadelo. A falta de conhecimento a respeito do solo e do clima transformava em dilema a vida dos assentados. Para o projeto da ditadura bastava facilitar a aquisição da terra para os assentados, já que oferecer estrutura para fixação do homem na terra não se fazia necessário. Assim podemos entender “qual foi então o fator predominante que, das 203 famílias que saíram da Encruzilhada Natalina – RS, somente 14 permaneceram em Lucas do Rio Verde, e as demais 189, [igual a] 93,10% dos parceleiros, abandonaram seu lote” (ZART, 1998: 162). Este é apenas um exemplo de colonização promovida pelos militares, mas outros semelhantes ocorreram em Terra Nova do Norte e Canarana, também no Estado de Mato Grosso e outras dezenas na região amazônica. Nos projetos implantados pelo Estado “os colonos instalados pelos poderes públicos ou a partir de movimentos organizados recebem pouca ou nenhuma assistência técnicofinanceira” (PASSOS, 1999: 122). Segundo o estudo apresentado por Zart, devido às dificuldades encontradas e a falta de apoio por parte do Incra, alguns dos assentados voltaram para sua terra natal, outros se transferiram para outras regiões, alguns ficaram para formar a força de trabalho 1 “Os colonos são pequenos agricultores ou trabalhadores de certos projetos agropecuários. Vieram para a Amazônia normalmente do sul do país, levados por empresas particulares ou estatais” (PORTELA e OLIVEIRA, 1991: 15). - 73 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI nas novas cidades recém-criadas ou em outros projetos da região. Nestas condições vão formar e suprir a necessidade de força de trabalho para as empresas que objetivam agregar valor com seu trabalho, sejam elas de produção agropecuária, sejam de prestação de serviços, dos garimpos, ou das indústrias de transformação de madeiras. Para muitos restava a informalidade, a forma encontrada para sua subsistência e de seus familiares. O processo que envolve a terra, o trabalho e o sistema capitalista pode ser visto de forma mais contundente em Marx2 . No processo de ocupação amazônica existiu semelhança com o movimento histórico mundial caracterizado pelo grande pensador Marx. Nesta região o governo assentou os colonos na terra esperando que a tornassem produtiva, ainda que sem estrutura para tal. No entanto, transformá-la em terra fértil e permanecer na área sem as condições mínimas necessárias era o grande desafio. Ao fracassar em suas tentativas, os colonos passaram a ser inimigos da própria classe trabalhadora, visto que a ditadura realizava poucos assentamentos, e estes tinham origem na pressão popular do “Movimento Sem-Terra”. O fracasso dos colonos era a forma ideal para desmobilizar os movimentos que buscavam a terra através da reforma agrária. Com isto, desmoralizava-se o já forte movimento do sul do País 2 “A exploração da massa do povo, que fica assim sem terra, forma a base do modo capitalista de produção. Uma colônia livre se caracteriza por serem comuns grandes extensões de seus territórios, podendo cada colonizador transformar um pedaço de terra em sua propriedade e meio individual da produção, sem impedir o que vem depois de fazer a mesma coisa. Este é o segredo tanto do florescimento das colônias quanto do mal que as devora, sua resistência à colonização ao capital (...). A grande beleza da produção capitalista reside não só em reproduzir constantemente o assalariado como assalariado, mas também em produzir uma superpopulação relativa de assalariados, isto é, em relação à acumulação de capital. Assim, a lei da oferta e da procura de trabalho fica mantida nos trilhos certos; a oscilação salarial, confinada dentro dos limites convenientes à exploração capitalista; e, finalmente, garantida a imprescindível dependência social do trabalhador para com o capitalista, uma relação de dependência absoluta, que o economista político em casa, na mãe-pátria, pode metamorfosear em relação contratual entre comprador e vendedor, entre dois possuidores igualmente independentes de mercadorias, o detentor da mercadoria capital e o detentor da mercadoria trabalho” (MARX, 1998: 884). - 74 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI que, na década de 70, pedia mais agilidade por parte do governo para colocar à disposição mais terras para o assentamento dos colonos. Desta forma, a movimentação dos descontentes deixava o governo militar intranqüilo e preocupado com o projeto capitalista em andamento no País. Ao mesmo tempo em que beneficiava os grandes conglomerados econômicos, tentava desvalorizar os acampamentos dos “sem-terra”, principalmente nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, onde o movimento era mais forte. Por outro lado, os colonos fracassados voltavam estrategicamente, no ponto de vista do Estado e do capital, como derrotados, incompetentes e sem vontade de trabalhar. Assim, a história que devia ser contada à população era a de sucesso daqueles que ascenderam econômica, política e socialmente. Não pôde ser contada a história dos demais, daqueles que foram calados e marginalizados, ou até mesmo dos milhares de trabalhadores e suas famílias que perderam suas vidas e não estão na história oficial. Os militares no poder necessitavam passar para a opinião pública histórias de sucesso, já que neste período detinham o controle das informações dos meios de comunicação. Nos 21 anos da ditadura, só se veiculavam informações de interesse do próprio governo, que, por razões do projeto capitalista nacional, protegia as elites dominantes. Nesta lógica, na região Norte mato-grossense “palavras como progresso, prosperidade, trabalho, união eram, repetidas seguidamente marcando fundo na mente da população” (SOUZA, 2001: 213). Chegar à mitificação das pessoas, através do imaginário, utilizando a fantasia como elemento de sujeição, era o propósito e o fim almejado pela elite dominante, representada pelo Estado e o capital em conjunto. Ocorreu a criação do mito, e este exerceu “inegável influência sobre a mente dos homens que se empenham em compreender a realidade social” (F URTADO , 1974: 15). Nesta perspectiva, “o mito congrega um conjunto de hipóteses que não podem ser testadas” (FURTADO, 1974: 15). Esta lógica passa a - 75 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI nortear a vida dos migrantes e estabelecer regras condicionadas à comunidade. Na verdade, a fabricação do consenso é a forma ideal para condicionar as pessoas e a forma certa para produzir a bestialização do homem com a finalidade de criar padrões dentro dos interesses dos grupos organizados, que objetivam a acumulação na região às custas do trabalho alheio. Por outro lado, agravou-se a situação pelo fato de que o governo recebia forte pressão por parte da elite capitalista. Tais grupos econômicos exigiam que o Estado não realizasse assentamentos, pois entendiam que a função de distribuir terras deveria dar-se através da iniciativa privada. Esta vontade dos grupos organizados demonstra que o projeto instalado na região era fruto apenas de interesses políticos e econômicos. Estes projetos não contemplavam a população do País, que reivindicava novas oportunidades, deixando claro que o Estado, em suas ações, beneficiava apenas a elite dominante. O Estado, através dos militares, objetivava implantar uma agropecuária moderna na região. ZART (1998: 175-76) diz que: com base na Doutrina de Segurança Nacional, não estabelecia relação de diálogo com os seus oponentes, não aceitava a reivindicação e a proposição do projeto de reforma agrária, que se tornou uma exigência dos agricultores que estavam à margem do processo produtivo e que não tinham acesso à terra. (...) Espalhar o medo, o terror e as desavenças entre os acampados, foram as estratégias aplicadas pelo Estado que tinha no Major Curió seu representante mais expressivo e que com sua ação conseguiu “convencer” 203 famílias do acampamento da Encruzilhada Natalina e transferi-los para o Mato Grosso. Por intermédio do Serviço Nacional de Informação (SNI), o “Major Curió” faz o papel de agente secreto (BECKER, 1997: 78; SCHAEFER, 1985: 89). O Major Curió fazia parte do grupo de elite dos militares, tendo como função política estabelecer a ordem do Estado em regiões de conflitos sociais, bem como tornar viável o - 76 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI projeto capitalista no País. O projeto capitalista, para “se autoreproduzir, oculta as reais condições de vida da população, como problemas de saúde, meio ambiente e trabalho, sendo esta realidade camuflada pelo discurso ufanista do progresso para todos” (SOUZA, 2001: 20-21). A tática implementada pela ditadura na região foi a de proteger e expandir o capital, e também condicionar as massas por meio do autoritarismo. Mesmo com as táticas repressivas, os projetos de colonização promovidos pelo Estado na região nasceram por pressões dos movimentos de colonos despossuídos e marginalizados no processo histórico do País. A abertura da nova fronteira e “o deslocamento progressivo das frentes de expansão têm sido, na verdade, um dos modos pelos quais se dá o processo de reprodução ampliada do capital, o da sua expansão territorial” (MARTINS, 1997:27). Neste caso, o interesse maior do Estado era contemplar o capital nacional e internacional, como forma de expandi-lo dentro dos ditames da estrutura capitalista mundial, e assim sujeitar os demais componentes da sociedade apenas como força de trabalho à disposição dos grupos organizados. Este era o grande projeto para a região. De um lado os acumuladores de capital representados pelas elites dominantes e, por outro lado, os proletários representados pelos marginalizados e despossuídos. Neste sentido, o Incra transformou-se em órgão a serviço dos interesses da classe dominante e apresentava-se como centro de manobra para realização dos objetivos políticos e econômicos da burguesia. E era visto como omisso e incompetente pelos colonos, dada a conivência com os interesses econômicos e os vários problemas criados nos assentamentos e projetos por ele promovidos. Problemas criados por falta de gerenciamento, corrupção, políticas ineficientes e favorecimentos políticos e econômicos. Além disso, “durante os seus 30 anos de existência, o Incra assentou menos de 7% das famílias rurais sem-terra, 331.276 dentre 4 milhões” (PETRAS e VELTMEYER, 2001: 143). Com o desgaste do órgão perante a opinião pública, a partir - 77 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI do início da década de 70, ficou de responsabilidade do Estado apenas a realização de projetos oficiais, quando de interesse e segurança nacional. Os capitalistas apoiados pelo Estado conseguiram dois feitos ao mesmo tempo: o primeiro era caracterizar o colono como preguiçoso e incapaz de ser dono de seu negócio; o segundo era desqualificar o Incra, órgão encarregado de organizar a distribuição da terra, demonstrando que este era incompetente. Nesta nova perspectiva criada e engenhada pela elite econômica, política e militar do País, desqualificaram o órgão e determinaram que quem devia distribuir terras era a iniciativa privada através de empresas de especulação imobiliária. Foram criados 15 pólos de colonização em 1974, podendo ser identificados como o Programa de Pólos Agropecuário Minerais da Amazônia – Polamazônia: Xingu-Araguaia, Carajás, AraguaiaTocantins, Trombetas, Altamira, Pré-Amazônia Maranhense, Rondônia, Acre, Juruá-Solimões, Roraima, Tapajós, Amapá, Juruena, Aripuanã e Marajó (I ANNI , 1979: 89). Assim, o processo de colonização governamental, ainda não consolidado na região, passou para as mãos de empresas de propriedade privada na forma de pessoas físicas, jurídicas ou cooperativas. A lógica dos sistema capitalista mundial se preservava e o Estado realizava sua verdadeira função pela sua concepção de existir, pois as leis e distorções do mercado fundiário se caracterizam de forma protecionista. Como o PONTIFÍCIO CONSELHO “Justiça e Paz” (1998: 11-12) define: entre estas distorções, merecem ser recordadas: uma distribuição das terras realizada muitas vezes com métodos arbitrários e exclusivamente em favor de membros dos grupos dominantes e das classes abastadas; constituição de reservas para as populações indígenas, muitas vezes em áreas pouco férteis ou situadas longe do mercado ou pobres em infra-estruturas (...). Adoção de sistema fiscal diferenciado em benefício de grandes proprietários. (...). A constituição de organização de mercado e a adoção de sistemas de preços tendentes a privilegiar os produtos das grandes propriedades. - 78 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI A colonização promovida por empresas capitalistas Após uma breve passagem pelos projetos de colonização promovidos pelo Estado, veremos agora outros exemplos de colonização: aquelas promovidas por empresas de colonização particular1 , beneficiadas por incentivos governamentais, estrutura gratuita e pagamento das áreas com valor simbólico, bem como através da apropriação indevida (grilagem). No intuito de preencher “os chamados ‘espaços vazios’, que na verdade eram povoados por índios, posseiros e garimpeiros, são loteados em mapas e vendidos aos barbatões pelo mundo afora” (KOWARICK, 1995: 31). É exatamente o que aconteceu com “Tucuruí, com um lago de 2.430 km², que desapropriou 4.300 famílias, na sua grande maioria de pequenos proprietários rurais, posseiros, castanheiros; destas, 1.000 famílias foram ‘remanejadas’ para os vilarejos e para a ‘cidade planejada’, 1.800 para áreas rurais e 1.500 famílias ficaram desabrigadas” (KOWARICK, 1995: 246). Com o propósito de beneficiar os grupos econômicos, “a partir dos anos 70, a situação transformou-se de maneira radical, como resultado da aplicação, por parte do governo federal, de políticas que objetivavam incorporar novas áreas ao processo produtivo do país” (ABREX JR. e OLIC, 1996: 36). No processo de desapropriação das áreas para beneficiar os capitalistas, os posseiros e os indígenas ficaram abandonados, pois estes não sabiam para onde ir, se para novos locais de posse, formando os cinturões de pobreza nas cidades planejadas, ou servir de força de trabalho ao capital nos vários projetos de expansão na região. O Estado, através da doutrina da ocupação dos espaços vazios, denominada “de doutrina de esvaziamento dos espaços ocupados” (MARTINS, 1995: 136), transferiu boa parte das terras da 1 “Empresa particular de colonização é a pessoa física ou jurídica de direito privado, que tenha por finalidade promover o acesso à propriedade privada da terra e o seu aproveitamento econômico, por meio da divisão em propriedades adequadas à região considerada, ou no sistema cooperativo” (IANNI, 1979: 86). - 79 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI região para as mãos dos grandes conglomerados nacionais e internacionais. Através dos projetos agropecuários, estabeleceu a “doutrina de expulsão do homem para colocação do boi” (MARTINS, 1995: 136). A aquisição de terras por empresas de especulação imobiliária realizou-se de maneira que veio beneficiar os interesses dos grandes projetos econômicos. Assim, a aquisição das áreas ocorreu de três formas: a primeira através da compra das áreas de antigos posseiros ou proprietários; geralmente as ofertas eram feitas em dinheiro e à vista; a segunda através da aquisição diretamente do governo federal e estadual, geralmente com conivência de funcionários do departamento de terras, que forneciam a quantidade de lotes dentro das limitações constitucionais até cobrir toda a área cobiçada pelo projeto econômico; a terceira, através da indústria da grilagem, via crime organizado, que atuava na região impunemente, com um aparato que envolvia várias modalidades de fraudes, forjando escrituras e formando um verdadeiro aparato de documentos fraudulentos. Estes realizaram a falsificação dos documentos com datas antigas, com poderes ao novo comprador para legalizar a área (PROCÓPIO, 1992: 131-32). Um fato que chama a atenção nesta análise é que nas transações de propriedade geralmente a empresa não comprava as áreas diretamente do Estado. Na maioria das transações imobiliárias foram usados intermediários para burlar a legislação vigente e facilitar a legalização da propriedade. Esta estratégia explica as vastas áreas que passaram às mãos dos latifundiários, bem como a forma de burlar a legislação e a conivência do próprio departamento de terras. É neste contexto que, em 1972, nasceu no município de Sinop, no Estado de Mato Grosso, o projeto da Colonizadora Sinop S.A. – Sociedade Imobiliária do Noroeste do Paraná, com sede em Maringá e escritórios em São Paulo, Curitiba, Cuiabá e Sinop. O projeto se localiza a 505 km de Cuiabá, na BR-163, que liga Cuiabá - 80 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI a Santarém, com uma área de 3.142.06 km², tendo à frente do projeto o comendador Enio Pepino. O empreendimento obedecia a lógica da concentração da terra para especulação imobiliária. Assim, o município de “Sinop é um exemplo de colonização numa área de fronteira de ocupação recente na Amazônia, estabelecida sob o manto do autoritarismo militar e da expansão do capitalismo hegemônico no Centro-Sul do país” (SOUZA, 2001: 194). O outro projeto, da Colonizadora Indeco, criado em 1973, tendo como beneficiário o Sr. Ariosto da Riva, “nos municípios de Alta Floresta (Alta Floresta e Apiacás) e Paranaita, situava-se em terras dos índios Apiaká, hoje na reserva próxima ao rio dos Peixes, em Juruena. Este projeto de colonização teve no garimpo de ouro a sua base de sustentação” (PIAIA, 1999: 36). O Sr. Riva traçou uma trajetória semelhante a do colonizador Enio Pepino, pois fundou as cidades de Naviraí, Carapó e Gloria de Dourados no extremo sul de Mato Grosso do Sul e a fazenda Suiá-Missú, com 560 mil hectares, próxima de Aripuanã, no extremo norte de Mato Grosso, que foi mais tarde vendida à multinacional italiana Liquifarm, representada no Brasil pela Liquigás (SCHAEFER, 1985: 74). A Colonizadora Indeco, na região de Alta Floresta, também se apropriou das terras através da expropriação do território dos índios Xavantes (OLIVEIRA, 1997: 71). A Colonizadora “adquiriu 400 mil hectares no extremo norte de Mato Grosso” (SOUZA, 2001: 69). Para O LIVEIRA (2001: 147), a empresa adquiriu um milhão de hectares. Usaremos estes dois projetos de colonização como exemplo de distribuição de terras promovida por empresas de especulação imobiliária. Os projetos da Colonizadora Sinop S.A e da Colonizadora Indeco na região norte mato-grossense nasceram da perspectiva de ocupação militar. A Colonizadora Sinop S.A. atuava “desde 1938 em vendas de terras para a colonização no Noroeste do Paraná” (SOUZA, 2001: 109). O empresário colocou na cidade o mesmo nome da empresa de colonização e, através de experiência em especulação imobiliária da terra, foi autorizado a desenvolver o projeto, pois já “colonizou e - 81 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI fundou 18 cidades nos últimos vinte anos” (SCHAEFER, 1985: 60). Além das várias criadas posteriormente a 1985, outras vieram em conseqüência desta colonização. Nos projetos de colonização no norte de Mato Grosso “a propriedade da terra perdeu sua função principal de meio de produção para se transformar em meio de especulação” (MARTINS, 1997: 51). Este representante do capital, também amigo pessoal do então presidente da República, o general João Batista Figueiredo, acompanhava as comitivas governamentais e recebeu a visita presidencial no dia 03/07/1980, para que fosse verificado o projeto de colonização sinopense e, consequentemente, dar credibilidade ao empresário. A visita presidencial facilitou-se a estrutura para a nova cidade com energia elétrica, bancos, usina de álcool, serviços telefônicos, rádio e TV (SCHAEFER, 1985: 66-67). Os dois projetos que estamos usando como exemplo foram contemplados com extensas áreas de terras. Também é o que aconteceu na “maioria dos projetos de colonização que se localizam no Mato Grosso, principalmente na área da rodovia CuiabáSantarém. As áreas da Indeco e da Sinop constituem mini-estados sob domínio dos colonizadores, que se assemelham a feudais, fiéis, contudo, ao governo federal” (BECKER, 1996: 37). Por serem fiéis, foram contemplados com todos os favores para dar a estrutura necessária aos projetos de especulação imobiliária, pois estes faziam a ponte expansionista entre a terra e o capital. SCHAEFER (1985: 6061) afirma que: a área total da Gleba Celeste é de 5.344 km², área que compreende cerca de 400 mil hectares, ou 534.450, segundo outros, ou ainda 600 mil hectares segundo versões de terceiros. Provavelmente todas as colonizadoras se apossem de áreas não discriminadas, incorporando-as posteriormente ao projeto, daí a dificuldade em se saber exatamente a área de um projeto de colonização (...). A firma Sinop S/A procurou sensibilizar colonos dos três Estados do ExtremoSul, com boa tradição agrícola. Cerca de 50% dos colonos são lusobrasileiros e os restantes são de origem alemã, italiana, polonesa e japonesa etc. [conforme levantamento de 1985]. Cerca de 35% da - 82 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI população é proveniente do Paraná, 30% de Santa Catarina, 20% do Rio Grande do Sul, 12% de São Paulo e os restantes 3% provêm de outros Estados. Para O LIVEIRA (2001: 149), a Colonizadora Sinop S.A. implantou a “gleba Celeste com 650 mil hectares no eixo da CuiabáSantarém”. O que chama a atenção é a grande quantidade de terras que as empresas de especulação imobiliária conseguiram legalizar, pois, na verdade, não existem dados que certifiquem a quantidade exata, e assim fica difícil apurar a veracidade dos fatos. Nesta lógica, a Constituição Federal do Brasil impede a venda sem prévia autorização do Senado de área superior a dez mil hectares (1946), três mil hectares (1967) e dois mil e quinhentos hectares (1988). No entanto, com a autorização do Estado, ou sem ela, vastas áreas passaram a pertencer aos grupos organizados com a finalidade de especulação imobiliária, e desta forma tinham a necessidade de burlar a legislação vigente. Na implantação do projeto, para facilitar a especulação imobiliária da terra, a Colonizadora Sinop S.A. tentou atrair os migrantes através do plantio de café. Porém, este plano não deu resultados, pois o terreno é muito ácido, agravado por desconhecimentos técnicos a respeito do solo. Outros fatores que contribuíram para que os moradores não obtivessem bons resultados foram a falta de tecnologia adequada e os poucos recursos financeiros por parte dos assentados. Por outro lado, as colonizadoras e o Estado não tinham interesse algum em colocar técnicos para orientação, muito menos produzir estudos sobre a região. O objetivo maior era a especulação imobiliária 2 pelas empresas e o domínio político por parte do Estado, para consolidar 2 Sinop – Sociedade Imobiliária do Noroeste do Paraná, constituída por um grupo econômico de origem paranaense. Seu maior acionista é o empresário Enio Pepino. O grupo possui seis empresas associadas, a saber: Colonizadora Sinop S.A.; Sinop Terras S.A.; Sinop Agroquímica S.A.; Imobiliária e Construção Maringá S.A.; Agropastoril Celeste Ltda. Beker Consultoria de Empreendimentos Industriais Ltda (OLIVEIRA, 1983: 85). - 83 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI o projeto de ocupação do grande capital na região. Neste sentido, outro fator que chama a atenção é que, nos espaços de colonização privada, “a compra do lote urbano está ligada à compra do lote rural. A cidade é geralmente gerada pela sociedade de colonização. Os colonos não vivem, pois, sobre suas terras” (PASSOS, 1998: 76). Assim, a colonizadora, através da concentração capitalista, atuava em nome do Estado, fazendo crescer o domínio político e econômico nas ações locais. OLIVEIRA (1983: 77-78) enfatiza que: a colonizadora, como empresa representante do capital no campo, vai acumular as funções de vendedora de terras, a de intermediária entre o banco e o produtor ou ainda vai criar mecanismos em que ela poderá atuar controlando e dirigindo a produção, a circulação dos frutos do trabalho camponês, mais de perto, isto é, além de já extorquir o pequeno produtor com a venda de terras ela vai transformálo numa espécie de seu assalariado, expondo-o sobre outras vias e condições. Assim, o colono se reduz como tal com o mínimo necessário para repor a sua força de trabalho e a de sua família, pois que o sobre trabalho não se reverterá para si. (...) É dentro desse contexto que se concedeu o estudo de caso sobre a colonizadora Sinop S. A., embora em Mato Grosso estejam 71,1% das colonizadoras instaladas no país [1983]. Com o intuito de impedir o retorno dos pioneiros às suas terras de origem ou mudarem para outros locais de colonização, os colonizadores instalaram uma usina de álcool de amido de mandioca através do programa Pró-Álcool na região sinopense. Para implantação de tal usina eles utilizaram recursos da Sudam3 . O projeto implementado pelo grupo da Sinop Agroquímica S.A. também não decolou pelas mesmas dificuldades encontradas no plantio do café (SCHAEFER, 1985: 60-62). 3 A empresa Sinop Agroquímica S.A. é fruto da crise internacional do petróleo na década de 70. O projeto nasceu com fins de receber recursos do Pró-Álcool. A empresa recebeu incentivos para implantação do projeto através da Sudam, com aprovação do empreendimento em maio de 1976. A usina possui capacidade produtiva para 150.000 litros/dia, utilizando como matéria-prima a mandioca pelo fato de ser pouco exigente quanto à capacidade do solo e do clima propício na região. Este projeto deixa dúvidas - 84 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI A falta de estrutura dos recém-chegados, aliada ao desconhecimento do solo e do clima foram elementos fundamentais para que a produção da mandioca, do café e de outros produtos agrícolas não prosperasse e, assim, as culturas fracassarem. O objetivo maior destes grandes empreendimentos era usufruir dos recursos do Estado através de projetos fornecidos pelos órgãos incumbidos para este fim, bem como dominar e tirar proveito dos recursos naturais abundantes na região, além da venda da especulação imobiliária da terra. Através dos incentivos oferecidos pela Sudam, as empresas se beneficiaram para instalarem principalmente a agropecuária e a indústria de transformação de madeiras na região. Assim, a atividade madeireira deu um novo impulso ao projeto, e representava nos anos 80 a base econômica de Sinop e região – como aliás continua sendo até hoje. Esta nova alternativa econômica explora os recursos florestais e vem aliada a uma agropecuária em franco desenvolvimento, proporcionando um novo rumo na economia local, vindo a projetar a cidade e a região no cenário nacional de forma ascendente. A indústria do setor madeireiro sinopense é responsável “pelo aproveitamento da matéria-prima é extraída da floresta e tem demonstrado que a ocupação do Norte mato-grossense criou condições, não somente para a produção de cereais, como também para a exploração e industrialização da madeira” (SOUZA, 1999: 38). O desenvolvimento da região deve-se à farta área de florestas naturais, com árvores exuberantes e madeira nobre, o que proporciona aos madeireiros altas taxas de lucratividade através da comercialização. Além disso, poderiam ainda contar com incentivos fiscais do Estado para instalarem os grandes projetos extrativistas. quanto aos reais objetivos de sua criação. Podemos deduzir que nasceu da estratégia em obter recursos do Estado e com a finalidade de atrair colonos para o plantio da mandioca e venda das terras. No início da década de 90, a usina fechou as portas e encontra-se sem operação até hoje, engrossando as estatísticas dos projetos criados sem resultados na Amazônia, pois servem apenas de manobras com a finalidade de receber recursos do Estado. - 85 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI Sinop tornou-se uma cidade em franco desenvolvimento capitalista e passou a ser um pólo na região norte do Estado matogrossense, com várias indústrias, destacando-se no setor de transformação de madeireiras, e tendo ainda um forte comércio. A educação também é destaque em Sinop, posto que atualmente abriga três universidades em funcionamento, sendo duas públicas (Unemat e UFMT) e uma privada, Unic – Universidade de Cuiabá, e mais duas privadas estão se instalando na cidade. Apesar das vantagens que a cidade oferecia, até metade de 2001 a população não era atendida por hospital público, pois ainda se encontrava em construção um pequeno pronto-socorro no município. Embora a cidade seja uma das mais desenvolvidas em termos de saúde, contando com quatro hospitais e várias clínicas particulares, Sinop se destaca em prestação de serviços em vários setores. Atualmente está entre as quatro maiores cidades do Estado de Mato Grosso, sendo a maior do norte do Estado. A região norte mato-grossense hoje reivindica a criação de um novo Estado, o “Estado do Araguaia”. DADOS REFERENTES AO AUMENTO POPULACIONAL E À TAXA DE CRESCIMENTO DAS CIDADES DE SINOP E ALTA FLORESTA NO ÚLTIMO QÜINQÜÊNIO (1996 A 2001). C idades Sinop Alta Floresta H abitantes em 1996 H abitantes em 2001 C rescim ento anual 54.306 42.852 74.761 46.956 8,32% 2,31% Fonte: Elaboração própria com base no IBGE (2001). As cidades foram criadas há apenas duas décadas e meia, mas ambas se destacaram em seu desenvolvimento. De acordo com dados do IBGE, Sinop em 1980 tinha uma população de 14.784 habitantes, tendo sua economia com base no extrativismo florestal, enquanto que Alta Floresta, no extrativismo mineral. Qual a explicação para diferentes taxas de crescimento anual nos últimos cinco anos? A explicação é simples, o garimpo de ouro quase se exauriu, enquanto a extração florestal continua sendo a mola - 86 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI propulsora da economia sinopense. O norte mato-grossense, por ser uma região nova, apresenta uma cultura em formação. Desta forma, para estes novos centros planejados vieram empresários, trabalhadores e prestadores de serviços. Assim, “esses migrantes que chegaram à região há pouco tempo criaram uma sociedade nova, com padrões bem diferenciados daqueles existentes em Mato Grosso” (ABREX JR. e OLIC, 1996: 40), muitas vezes impondo costumes, introduzindo na região o CTG – Centro de Tradição Gaúcha, aos moldes do Rio Grande do Sul4 , exigindo dos seus freqüentadores, inclusive, uso de trajes típicos. Ocorre ainda a festa do chope, ao estilo da Ocktoberfest, realizada em Blumenau – Santa Catarina. A nova ocupação conseguiu importar costumes, misturados com os já existentes na região, criou uma nova formação cultural, estando em constante transformação e ainda não definida. Nestas cidades, a grande maioria das pessoas pouco conhecem das músicas e das danças típicas do nativo mato-grossense, nem a grande variedade de pratos típicos da cozinha deste vasto Estado. Caracterizam-se por impor à região novos costumes, tendo agregado muito pouco das tradições do Estado onde passaram a viver. É possível que este seja um dos motivos da exigência da separação do Estado, via criação do Estado do Araguaia, aliado aos interesses econômicos e políticos, mas principalmente pelo preconceito com os povos da região. Por outro lado, mesmo com o fato de o governo delegar a responsabilidade dos projetos de ocupação da última fronteira para empresas particulares, desistindo da colonização oficial, não deixou de existir a colonização espontânea através do fluxo natural das pessoas na região. Nesta busca desesperada estão as populações 4 Segundo KAISER (1999: 52), citando Olivem: “Em 1980, havia em torno de 900.000 gaúchos vivendo fora do Rio Grande do Sul, equivalente a 11,5% da população do estado. Mais de 50.000 deles estavam estabelecidos no Mato Grosso, indicando nova frente de expansão agrícola”. - 87 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI rurais desempregadas, subempregadas, ou superexploradas do Centro-Sul, do Nordeste e outras regiões à procura de terras devolutas ou de comunidades indígenas na Amazônia (IANNI, 1979: 85). O Estado, além de bloquear a reforma agrária no País e não atender aos pequenos agricultores, delegou esta função e controle para empresas de especulação na colonização. Nesta perspectiva, para beneficiar grandes propriedades, o Brasil é o único país de tradição agrícola que não fez uma substancial reforma agrária ao longo de sua história (MARTINS, 1997: 52). IANNI (1979: 91) afirma: nesta orientação, foram e continuam a ser preferencialmente favorecidos os interesses dos grandes grileiros, latifundiários, fazendeiros ou empresários, em detrimento dos interesses dos indígenas e posseiros. A aliança entre o capital privado, nacional e estrangeiro, com poder estatal é, ao mesmo tempo, produção e condição da forma pela qual está ocorrendo na Amazônia o desenvolvimento extensivo do capitalismo. Esse tem sido o contexto econômico e político no qual os indígenas e posseiros, sitiantes e colonos, têm sido obrigados a abandonar as suas terras ou a proletarizarem-se. A empresa de colonização particular atingiu poucos trabalhadores rurais, pois ela organizou a distribuição da terra pelo poder de compra dos pretendentes. Na sua grande maioria foram oriundos do sul do País, por serem possuidores de alguns recursos financeiros, enquadrando-se nas exigências dos empreendimentos. Assim, a fronteira se fechou aos pequenos agricultores e aos posseiros, fortalecendo a ditadura por meio da política de colonização promovido por empresas privadas. Aos despossuídos restou-lhes como única alternativa continuar flutuando, ou transformar-se em força de trabalho para os empreendimentos capitalistas e formar o exército industrial de reserva à disposição dos grupos econômicos. Se, para muitos dos despossuídos, o “mel” não pôde ser conquistado através do acesso à terra, restou-lhes a alternativa de observá-lo através de sua proletarização. - 88 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI Na Amazônia não se realizou, portanto, nenhuma reforma agrária 5 , o que ocorreu é “que a política de colonização é apresentada como política de reforma agrária” (IANNI, 1979: 125). No entanto, com a concentração da terra e da riqueza na região, os trabalhadores foram reduzidos “à condição de sem-terra, de semteto, dos sem-emprego, dos sem-escola, dos sem-saúde, dos semtransporte, dos que moram nas favelas” (GONÇALVES, 2001: 53). Desta forma, ocorreu a expansão das grandes empresas voltadas “à agricultura, pecuária, agropecuária, extrativismo, mineração, agroindústria e outras atividades” (IANNI, 1979: 125). De um lado, “os grupos empresariais, como o nacional Bradesco, o alemão Volkswagen, a italiana Liquifarm, entre outros, descobriram sua vocação pecuária e, com incentivos fiscais, se estabeleceram na região” (GONÇALVES, 2001: 53). A promessa do governo federal em assentar “100 mil famílias ao longo dos 100 quilômetros de cada lado das rodovias postos sob jurisdição federal não conseguiu atingir mais de 10 mil famílias” (GONÇALVES, 2001: 54). A política de reforma agrária colocada em prática naqueles 21 anos da ditadura não passou de uma política de contra-reforma agrária, que era praticada de forma arbitrária. No Brasil apenas 1% dos proprietários detêm 44% das terras, ou um único proprietário detém sozinho 10 milhões de hectares na Amazônia brasileira (GONÇALVES, 2001: 75). As leis destinadas à desapropriação de áreas para reforma agrária ofereceram todas as garantias aos latifundiários em caso de desapropriação, contemplavam estes com altas indenizações e dificultaram a distribuição das terras no País. IANNI (1979: 137) conclui que: 5 “A reforma agrária visa a estabelecer um sistema de relações entre o homem, a propriedade e o uso da terra, capaz de promover a justiça social, o progresso e o bemestar do trabalhador rural e o desenvolvimento econômico do país, com a gradual extinção do minifúndio e do latifúndio.” (IANNI, 1979: 133). - 89 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI desse modo, o Estado impediu que houvesse qualquer reforma agrária no Nordeste, no Sul, ou em outras regiões; e, inclusive, impediu que a Amazônia fosse o campo de uma reforma agrária efetiva. Ao contrário, na Amazônia o Estado foi levado a atuar de maneira a reduzir ao mínimo a distribuição de terras, a fim de preservar as maiores proporções das terras aos latifundiários, fazendas e empresas. Em síntese, ao distribuir alguma terra na Amazônia, o Estado brasileiro foi levado a não distribuir as terras do Nordeste, do Sul, de outras regiões e nem da própria Amazônia. Ao longo dos anos 1964-78, ele distribuiu alguma terra para não distribuir terras, conforme os próprios camponeses e operários rurais, das várias regiões do país, estavam realizando por seus próprios meios. No campo, a contrapartida do apoio dado pela burguesia rural ao Golpe de Estado de 1964 foi a contra-reforma agrária, apresentando e executada a colonização dirigida. O verdadeiro papel do Estado brasileiro na expansão mais acentuada do capitalismo na região amazônica, nos anos 60-80 do século XX, consistiu em proteger o capital e garantir a concentração da riqueza. Para Marx e Engels6 , o Estado desempenha papel determinante na sociedade capitalista. ***** 6 “O Estado só existe por causa da propriedade privada, de tal forma que isto também passou para a consciência comum. Assim, os indivíduos de uma classe dominante fazem valer seus interesses comuns e na qual se resume toda a sociedade civil de uma época” (MARX e ENGELS, 1999: 98). A ideologia alemã, foi escrita por Karl Marx e Friedrich Engels em 1846. Esta obra foi traduzida para a língua portuguesa por José Carlos Bruni e Marcos Aurélio Nogueira. - 90 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI A cidade planejada como centro do capital Para entender o processo migratório da Amazônia, bem como a formação das cidades do norte mato-grossense, faz-se necessário conhecer o processo evolutivo da formação das cidades como centros do capital mundial. A urbanização faz parte do contexto histórico da forma capitalista e da concentração da riqueza. Na história da humanidade, “para muitas nações conquistadoras, a construção de cidades foi o mais decisivo instrumento de dominação que conheceram” (HOLANDA, 1991: 61). É no processo de formação das cidades que se desenvolve e organiza a reprodução do sistema capitalista. LEFEBVRE (1999 a: 157-58) enfatiza que: o urbano não produz à maneira da agricultura e da indústria. Entretanto, como ato que reúne e destrói, ele cria. Assim como antigamente a manufatura converte-se em força produtiva e em categoria econômica apenas por reunir os trabalhadores e ferramentas (técnicas) antes dispersos. É assim que o fenômeno urbano contém uma práxis (prática urbana). Sua forma, enquanto tal, manifesta-se irredutível às formas (não isomorfo às outras formas e estruturas). Não obstante, ela as retoma; as transforma. As diferentes fases do desenvolvimento, seja na Antigüidade, seja na Idade Média, nos feudos urbanos, ou nas cidades fabricadas1 da Amazônia, retratam um processo evolutivo que se aperfeiçoa dentro das necessidades da aglomeração de pessoas. Neste sentido, a “industrialização e a urbanização têm aparecido sempre associadas, como se tratasse de um duplo processo, ou de um processo com duas facetas” (SPOSITO, 2000: 42). Nesta perspectiva, “o melhor exemplo da urbanização foi, sem dúvida, o da Inglaterra, primeiro espaço de desenvolvimento 1 Cidades fabricadas – Conceito construído por PASUCH (2000) em dissertação de mestrado intitulada Entrelaçamento de vozes num mundo analfabetizado: o contexto da Amazônia, UFRG – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. - 91 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI pleno do capitalismo industrial” (SPOSITO, 2000: 49). Os reflexos disso são que “no começo do século XIX a proporção de pessoas nas cidades de mais de cem mil habitantes era na ordem de 10%, sendo que quarenta anos depois era 20%” (SPOSITO, 2000: 49). SPOSITO (2000: 50) adverte: a expressão da urbanização via industrialização não deve ser tomada apenas pelo elevado número de pessoas que passam a viver em cidades, mas sobretudo porque o desenvolvimento do capitalismo industrial provocou fortes transformações nos moldes da urbanização, no que se refere ao papel desempenhado pelas cidades, e na estrutura interna destas cidades (...). Assim, não devemos apenas enxergar na urbanização que se dá via industrialização uma acentuação da proporção de pessoas da predominância da produção artesanal para a predominância da produção industrial (entendido aqui, no sentido mais restrito, pósRevolução Industrial), ou seja, da passagem do capitalismo comercial e bancário para o capitalismo industrial ou concorrencial. A necessidade de criar cidades na Amazônia pode ser comparada em alguma medida com o período da industrialização da Inglaterra. Para MARX e ENGELS (1999: 77), “a maior divisão entre o trabalho material e o intelectual é a separação entre a cidade e o campo”. São espaços criados para o capital se reproduzir e concentrar o exército industrial de reserva. Assim, com o desenvolvimento do modo capitalista de produção “a rede urbana foi se constituindo hierarquicamente, tendo à formação de grandes aglomerados urbanos - as metrópoles – espaços de concentração de capital, de meios de produção” (SPOSITO, 2000: 54). Mas o espaço entre o urbano e o campo “compreende uma totalidade, com uma articulação intensa entre estes dois espaços” (SPOSITO, 2000: 64). LEFEBVRE (1999: 49) afirma que: o campo, em oposição à cidade, é a dispersão e o isolamento. A cidade, por outro lado, concentra não só a população, mas os instrumentos de produção, o capital, as necessidades, os prazeres (...). Não há a menor dúvida de que a separação entre a cidade e o - 92 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI campo mutila e bloqueia a totalidade social; (...). Nesta separação, compete ao campo o trabalho material desprovido de inteligência; à cidade pertence o trabalho enriquecido e desenvolvido pelo intelecto, compreendendo as funções de administração e comando. Para que os agropecuaristas e as empresas de extrativismo do norte mato-grossense pudessem se expandir e reproduzir capitais, organizaram-se em centros administrativos, ou cidades fabricadas. Embora a terra seja considerada “o suporte material da sociedade” (LEFEBVRE, 1999 b: 85), a cidade é o centro do capital. Desta forma, “a cidade se torna, em lugar da terra, o grande laboratório das forças sociais” (L EFEBVRE b, 1999: 86). Neste contexto, a terra faz parte das forças produtivas, “a cidade representa uma força produtiva (mas não um meio de produção, um instrumento” (LEFEBVRE b, 1999: 91) e suporte do aparelho produtivo. Estas forças são guiadas pelo processo capitalista, conduzidas de forma global, através do entrelaçamento das necessidades do capital, nas diferentes fases de seu desenvolvimento. Com base neste enfoque, a “cidade é a sede do poder político que garante o poder econômico do capital que protege a propriedade (burguesa) dos meios de produção e organiza-o proibindo os excessos e a violência” (LEFEBVRE b, 110). No mesmo diapasão, SPOSITO (2000: 64) afirma que: a cidade é, particularmente, o lugar onde se reúnem as melhores condições para desenvolvimento do capitalismo. O seu caráter de concentração, de densidade, viabiliza a relação com maior rapidez do ciclo do capital, ou seja, diminui o tempo entre o primeiro investimento necessário à realização de uma determinada produção e o consumo do produto. A cidade reúne qualitativa e quantitativamente as condições necessárias ao desenvolvimento do capitalismo, e por isso ocupa o papel de comando na divisão social do trabalho (...). A cidade é o lugar onde se concentra a força de trabalho e os meios necessários à produção em larga escala – a industrial –, e, portanto, é o lugar da gestão, das decisões que orientam o desenvolvimento do próprio modo de produção, comandando a - 93 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI divisão territorial do trabalho, e articula a ligação entre as cidades da rede urbana e entre as cidades e o campo. Determina o papel do campo neste processo e estimula a constituição da rede urbana. Neste sentido, o “acentuado crescimento populacional urbano e a super concentração de capital nacional e internacional nas metrópoles para criação de infra-estrutura necessária à reprodução capitalista proveram um aumento crescente da população não empregada” (SPOSITO, 2000: 70). Nesta dinâmica, a cidade de Sinop nasceu da finalidade de servir ao sistema como centro e sede do capital, bem como local de concentração da força de trabalho ou depósito do exército industrial de reserva à disposição dos projetos econômicos. Esta força de trabalho, empregada ou não, de alguma forma foi marginalizada socialmente pelo modelo de expansão ali organizado pelo Estado e o capital em conjunto. Assim, “o poder público escolhe para seus investimentos em bens e serviços coletivos exatamente os lugares da cidade onde estão os segmentos populacionais de maior poder aquisitivo” (SPOSITO, 2000: 74). Por outro lado, a classe trabalhadora da região amazônica foi colocada na periferia das cidades e vista pelo poder público apenas como componente do processo produtivo, sendo peça necessária e fundamental para expansão e concentração de capitais. Nesta lógica, ao lado de grandes projetos econômicos nacionais e internacionais, “os espaços urbanos são acelerados e caoticamente ocupados e disputados. Formam-se as favelas e palafitas da Amazônia, com inúmeros cinturões de miséria e pobreza absoluta ao lado de grandes projetos econômicos” (KOWARICK, 1995: 152). Esta foi a forma de expansão da Amazônia brasileira. No processo da formação capitalista foram necessários núcleos de moradia para oxigenar o aparelho produtivo e apurar o processo de acumulação. Esta estratégia foi usada para organizar a produção e regular a força de trabalho ao longo da história, “tanto nos países de industrialização pioneira quanto nos países de desenvolvimento - 94 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI industrial tardio como o Brasil” (PIQUET, 1998: 3). Esta também foi a tática usada na nova fronteira de expansão amazônica. Em alguns pontos estratégicos de formação capitalista fez-se necessário o surgimento da cidade-empresa que não pôde ser “dissociada do processo social em curso, pois o comportamento empresarial é determinado pelo conjunto das relações sociais de um dado momento histórico e pelas condições gerais da produção” (PIQUET, 1998: 4). Nesta perspectiva, o “domínio exercido pela empresa subordina os moradores à sua influência e ao seu controle” (PIQUET,1998: 37). Além de empregadora, ela é proprietária dos equipamentos coletivos e das moradias. Com esta tática, o capitalista controla a força de trabalho e assim passa a oprimir e explorar com mais eficácia, “determinando as regras a serem cumpridas, tanto no trabalho como fora dele” (PIQUET, 1998: 37). Exemplos desta natureza são vistos nas madeireiras de Sinop e região, onde foram criados núcleos de moradias subordinados ao setor produtivo que vive próximo ao local de trabalho. Este espaço controlado serve para concentrar a força de trabalho e facilita a proletarização que oxigena o processo produtivo na indústria de transformação de madeiras. No Brasil podemos citar como exemplo clássico de cidadeempresa Volta Redonda, criada pela Companhia Siderúrgica Nacional. Também, o espaço urbano em Carajás, na “região ao sul do estado do Pará, [na Amazônia] por possuir uma das províncias geológicas mais ricas do mundo em minério metálico, a partir dos anos 70 torna-se palco de um intenso processo de ocupação” (PIQUET, 1998: 129). São locais nos quais a força de trabalho é “marcada por cerceamento à liberdade pessoal, como os namoros que eram vigiados pelos prepostos da empresa. Após as dez da noite as pessoas eram levadas pelos vigias de volta para suas casas”2 (LEONELLI, 2000: 196). Estes são casos em que o poder público, além de dotar o local de toda a infra-estrutura, “passa a aquinhoar, através da - 95 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI doação ou venda simbólica de terras, sua clientela política, empresas construtoras e empresários amigos” (PIQUET, 1998: 129). Assim, nasceram cidades protegidas e criadas por empresas particulares de colonização na região da Amazônia brasileira, nos moldes do que ocorreu em Alta Floresta e Sinop, no norte do Estado de Mato Grosso. Neste sentido, “a cidade de Sinop exemplifica um espaço urbano decorrente da expansão da fronteira capitalista do Estado que o viabilizou enquanto projeto originário de colonização” (SOUZA, 2001: 14). Nasceu de forma planejada e com urbanização com técnicas avançadas na organização, obedecendo a fins de especulação imobiliária. Segundo PIQUET (1998: 144) há: ...isenção do Imposto de Renda e dos adicionais restituíveis pelo prazo de 10 (dez) anos; isenção dos impostos de Importação e sobre Produtos Industrializados incidentes sobre importação de máquinas, de equipamentos e de instrumentos, sem similar nacional, a serem destinados à implantação do projeto; isenção de IPI, bem como manutenção do crédito do mesmo imposto referente a matéria-prima, e a produtos intermediários nas aquisições de máquinas e equipamentos nacionais. Os reflexos destes grandes empreendimentos, que constituíram o aprimoramento do espaço urbano e não urbano para reprodução capitalista em grande escala, foram traduzidos de forma global dentro das perspectivas capitalistas de expansão. O Estado, por outro lado, preocupou-se em fornecer toda a infra-estrutura necessária ao desenvolvimento capitalista ali instalado. Assim, evidenciam-se dois lados, dois pólos distintos, um de privilegiados, e outro de marginalizados e despossuídos. Esta condição é demonstrada por PIQUET (1998: 151-52): 2 DOMINGOS LEONELLI, em seu livro Uma sustentável revolução na floresta, refere-se à Icomi Empresa de mineração do Estado do Amapá, no extremo norte do Brasil. A empresa situava-se na Serra do Navio e explorava o manganês, jazida hoje totalmente esgotada. Na vila da Serra do Navio as pessoas eram cerceadas da liberdade pessoal, sendo controladas e organizadas pela empresa. - 96 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI a fragilidade das populações locais frente ao poder econômico e político das grandes empresas, associadas ao descompromisso do poder público em relação às grandes massas de despossuídos, não permite o alcance de ganhos sociais significativos (...).No caso brasileiro, o crescimento econômico mostrou-se perfeitamente compatível com níveis crescentes da miséria. As políticas sociais compensatórias, ainda que não refletissem a superação desse quadro de desigualdades, poderiam atenuá-lo. Permanecem, contudo, ao nível do discurso político. Todos os recursos públicos e da Lei continuam sendo usados para perpetuar uma ordem social nitidamente concentradora e excludente. Esta região reflete os problemas econômicos e sociais gerados noutras regiões do país. Os fluxos migratórios que recebe são ínfimos se comparados com os que se destinam aos maiores centros urbanos do Centro-Sul. No entanto, esta fronteira riquíssima em terras e minérios virou sinônimo de super população e miséria. A cidade-empresa do passado não serve como exemplo de “paz, harmonia, dentro das classes sociais, nem vista nostalgicamente como um paraíso perdido. As construídas posteriormente apenas retratam o processo de modernização excludente no nosso país” (PIQUET, 1998: 158-59). As relações entre capital e trabalho sofrem constantes alterações no sentido de beneficiar os grupos organizados, pois as mudanças ocorrem conforme a necessidade sistêmica, e estas mudanças determinam os níveis de acumulação no processo produtivo. PIQUET (1998: 15960) afirma: a nova “filosofia” é não criar cidade-empresa, mesmo quando o empreendimento se localiza em regiões ínvias. O argumento é de que a permanência de empregados e seus familiares nas proximidades das instalações industriais obrigaria a implantação de uma infra-estrutura complexa, onerosa e de difícil administração. Assim, as propostas recentes são no sentido de que se reveze no regime de 21 dias de trabalho na fábrica (sendo garantida a folga semanal), por sete dias de repouso, fora da área. Com isso, as populações permanentes nas instalações industriais ficam reduzidas em cerca de 1/3 daquelas que seriam, caso fossem implantadas vilas residenciais. - 97 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI Foi também para alcançar esta perspectiva que se efetuou a passagem da responsabilidade dos projetos de colonização para empresas privadas. No processo de colonização dos militares criouse uma forma diferente de fabricar cidades e desenvolver locais para reprodução capitalista. Na Amazônia, a urbanização passou a sustentar-se em “três papéis fundamentais exercidos pelos núcleos urbanos: a atração dos fluxos migratórios, a organização do mercado de trabalho e o controle social, que atribui à urbanização um novo significado” (BECKER, 1996: 52). Os núcleos dos quais fala Berker surgiram da necessidade do processo produtivo que ali reproduz a formação e “concentração de mão-de-obra para abertura de matas, garimpos ou de apoio direto à circulação – canteiro de obras, postos de gasolina –, e freqüentemente, desaparecem com a extinção das frentes de trabalho” (BECKER, 1996: 54). Os indicadores sociais desta região são os piores do Brasil. Somente 4% da população amazônica é servida por serviços de esgotamento sanitário. Os serviços de abastecimento de água atendem apenas 70% da população urbana da região (GONÇALVES, 2001: 112). Além disso, “mais de 60% da população estão abaixo da linha da pobreza 3 , e a taxa de analfabetismo alcança 24%” (VIANA, 2001: 277). Na Amazônia brasileira o crescimento urbano foi muito significativo nas últimas décadas do século XX, vindo a caracterizar um alto grau de urbanização na região. Desta forma, “entre 1950 a 1970 a taxa de urbanização da região elevou-se de 26% a 41%” (CARDOSO e MÜLLER, 1977: 55). Neste mesmo ritmo de crescimento, no período compreendido “entre 1970 e 1980, a população urbana passou de 37,7% para 51,8% da população total, e isso sem considerar os núcleos pioneiros não computados como urbanos nas estatísticas” (BECKER, 1996: 55). Comprovando os dados, “antes 3 Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas, no início de 2002, dos 169 milhões de brasileiros, 53 milhões viviam abaixo da linha da pobreza, e desses, mais de 20 milhões em estado de miséria absoluta. - 98 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI do fluxo migração oficialmente incentivada, em 1960, a taxa de urbanização era de 30,5%, em 1996, atingiu a 61%” (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 1998: 163). Em 2001, conforme dados do IBGE, a população dos nove Estados da Amazônia brasileira era de 72,23% vivendo nas cidades. A população brasileira neste mesmo período atingiu 169.799.170 habitantes e, deste total, 81,25% era urbana. Neste sentido, Cuiabá, a capital do Estado mato-grossense, cresceu entre 1970 e 1980, aproximadamente, 100%, e as cidades de Rondonópolis e Várzea Grande, acima de 150% (BECKER, 1996: 57). Estes pólos de transferência de força de trabalho, no último qüinqüênio, se estabilizaram. DADOS REFERENTES AO AUMENTO POPULACIONAL E À TAXA DE CRESCIMENTO DAS CIDADES DE CUIABÁ, RONDONÓPOLIS E VÁRZEA GRANDE NO ÚLTIMO QÜINQÜÊNIO (1996 A 2001) C idades C uiabá R ondonópolis Várzea G rande H abitantes em 1996 H abitantes em 2001 C rescim ento anual 433.355 142.524 193.401 482.498 150.049 214.842 2,72% 1,29% 2,66% Fonte: Elaboração própria com base no IBGE (2001) DADOS REFERENTES AO AUMENTO POPULACIONAL E À TAXA DE CRESCIMENTO DOS NOVE ESTADOS QUE FORMAM A AMAZÔNIA LEGAL BRASILEIRA E DO ESTADO DE MATO GROSSO NO ÚLTIMO QÜINQÜÊNIO (1996 A 2001). R egião/Estado H abitantes em 1996 H abitantes em 2001 C rescim ento anual Am azônia 2,46% 18.748.490 21.056.480 Legal M ato G rosso 2.235.832 2.498.150 2,85% Fonte: Elaboração própria com base no IBGE (2001). O crescimento populacional nos nove Estados não foi - 99 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI homogêneo, em alguns deles o aumento populacional foi maior neste último qüinqüênio. Conforme dados do IBGE (2001), Roraima obteve um crescimento anual de 7,02%; Amapá - 5,82%; e Amazonas 4,42%. Os três formam o grupo de Estados amazônicos que mais cresceram. As cidades amazônicas nasceram de um projeto que estruturou os limites e marcou os espaços do capital e do proletariado, e este foi definido através da formação das classes sociais. Aos proletários foram reservados os cinturões de pobreza, locais onde a violência, a exclusão social e a fome estão sempre presentes. Este é o retrato de algumas das capitais amazônicas como Cuiabá, Belém e Manaus. A exemplo da Revolução Industrial, as grandes cidades possuem hoje bairros de má reputação, locais esses onde se concentram os operários. É certo que a pobreza mora em vielas escondidas, bem perto dos ricos, mas “em geral designaram-lhe um lugar à parte, onde ao abrigo dos olhares das classes mais felizes, tem de se safar sozinha, melhor ou pior” (ENGELS4 , 1988: 38). Isto não aconteceu por acaso, foi um projeto arquitetado, dados a separação e o controle exercidos pela elite dominante. Esta estabeleceu as relações de desigualdade e definiu as classes sociais nos diferentes locais, nas diferentes épocas, nas diferentes fases e níveis da produção. O processo de acumulação foi – e ainda é hoje – arquitetado pelos limites da lógica capitalista. As populações marginalizadas no processo histórico foram sempre transferidas para lugares onde existia a necessidade de oxigenar a produção capitalista. Na Amazônia brasileira não aconteceu de forma diferente, pois para lá deslocou-se a força de trabalho até então ociosa em outros pólos do País. Da mesma forma que se reproduz o capital, também se reproduz a marginalização 4 FRIEDRICH ENGELS, em 1945, produziu um extenso estudo sobre a força de trabalho na Inglaterra, com o título A condição da classe trabalhadora na Inglaterra, que foi traduzido para a língua portuguesa por Rosa Camargo Artigas e Reginaldo Forti. - 100 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI das classes oprimidas, pois uma é conseqüência da outra nesta trajetória. Os problemas mais graves da marginalização social de pontos diferentes do País se refletiram na nova fronteira de ocupação, visto ser uma nova opção para reproduzir a classe trabalhadora e a alternativa momentânea para subsistência. As cidades se tornaram depósito do exército industrial, ou o prolongamento da exploração e marginalização dos que buscam realizar um sonho ainda distante. Mesmo assim, as classes oprimidas não cessam a busca do “mel” prometido. Se o acesso à terra lhes é negado, então o alimento doce pode ser encontrado nas frentes de trabalho. Se não é possível encontrá-lo nestes locais, resta a alternativa de buscá-lo nas cidades fabricadas. Mas o “mel” existe, pensam, ele deve estar em algum lugar da Amazônia brasileira, basta procurá-lo. Assim, a luta desesperada dos povos amazônicos que lá vivem, ou os recém-chegados, é no firme propósito de encontrar o “mel” e poder fazer dos seus sonhos a realidade. ***** - 101 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI - 102 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI RESUMO A busca constante do “mel”, bem como o encontro com este doce dourado, é uma metáfora usada ao longo do livro para demonstrar que as pessoas se deslocaram para a Amazônia em busca de um sonho. Mesmo aos marginalizados e despossuídos no processo histórico, a região apresentou-se como um novo “eldorado”, e este veio acompanhado de muito brilho e luz intensa. Assim, o “mel” representa o alimento, a riqueza e a esperança de uma nova vida a todos que chegaram com o firme propósito de ver seus sonhos realizados. Neste sentido, faz-se necessário conhecer o desenrolar da história da Amazônia e assim entender a sua ocupação, por meio do processo de expansão ocorrido na virada do milênio. No processo de colonização brasileira, através da interferência dos colonizadores europeus na Amazônia Legal, se iniciou a intervenção do processo capitalista mundial na região, e este nasceu com a finalidade de fornecer seus produtos extrativistas para servirem o mercado mundial. Nesta trajetória, após o descobrimento do País ocorrido em 1500, a grande região amazônica passou a fornecer seus produtos da coleta florestal, da caça e da pesca. Esta estratégia de integração aconteceu através do comércio mundial, e assim ocorreu a princípio a inserção do trabalho dos povos originários, pois fazia parte de sua cultura tradicional. Os silvícolas no primeiro período da interferência européia serviram de mão-de-obra forçada e escravizada no trabalho. Mais tarde transformaram-se em proletários depois de terem os primeiros - 103 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI contatos com os colonos e os padres jesuítas. Tornaram-se mãode-obra no processo produtivo dos empreendimentos direcionados à produção e comercialização de mercadorias para servir ao mercado europeu e às estratégias do mercantilismo da primeira fase capitalista. No século XVI, a região começava a receber os primeiros colonos europeus e era território ainda não definido, porém após grandes conflitos ficou sobre domínio e posse de Portugal. Nesta trajetória, a região obedeceu às diferentes fases na integração capitalista do País. No entanto, somente no início do século XVIII a colonização conseguiu sair da costa do Atlântico brasileiro através da penetração mais efetiva no centro do seu território e foi impulsionada pela mineração aurífera. Até o início do ciclo da borracha a região pouco representava em termos econômicos. No período de 1850-1912 passou a representar a base econômica regional por meio deste produto extraído dos seringais nativos e a receber um grande contingente de pessoas em busca de trabalho e terra. A borracha foi o principal produto extrativista da região, servindo para a indústria mundial de pneus, principalmente aos norte-americanos que detinham o processo da industrialização automobilística. Neste sentido, a procura da borracha nos seringais dessa vasta região se transformou em importante produto da economia, pois em 1900 a borracha representava 25% das exportações do País. A população Amazônica de 1500 até 1823 pouco cresceu e era formada por 127.000 habitantes distribuídos nos nove Estados que formam a região. Na Amazônia encontram-se 59% da área do País. Com a grande quantidade de pessoas pobres concentradas na região Nordeste brasileira, estas foram transferidas para a região Norte em busca de novas oportunidades, e em 1872 a população passa para 340.000 de habitantes na região, e chegando em 1900 a 700.000 de habitantes. O declínio da borracha ocorre com as sementes pirateadas pelos ingleses, que passam a cultivar o produto na Malásia e conseguem deter o monopólio deste mercado. Ocorre ainda, gradativamente, a substituição da borracha pelos derivados - 104 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI do petróleo. A região amazônica sofre um profundo impacto ao perder este comércio. Em 1920 a população regional passou a 1.400.000 de habitantes. Com a Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 19141918, e a Segunda Guerra Mundial, entre 1939-1945, a região ficou estagnada, porém o restante do país neste período se desenvolveu de forma gigantesca através da agropecuária e da industrialização. O extrativismo, a agropecuária e a mineração não pararam de existir na Amazônia. A região sempre voltou sua produção ao mercado capitalista mundial e, a partir da inserção do homem na região, voltou-se ao mercado externo mais do que ao interno. A intervenção mais contundente neste novo espaço de expansão capitalista foi a dos grandes grupos econômicos no período de 1964-1985, transformando a região na grande fronteira dos projetos expansionistas nacionais e multinacionais. Os norteamericanos, com a finalidade de preservar as estruturas capitalistas, passaram a incentivar formas de governo via ditadura militar na América Latina e fizeram isso por intermédio da Operação Condor, um conjunto de repressão política aos cidadãos do Cone Sul, firmado entre os países que impunham ditaduras militares em cadeia. A repressão em cadeia foi idealizada pelo Coronel Manuel Contreras, chefe da Dirección de Inteligencia Nacional do Chile DINA. A aliança de cooperação mútua foi realizada no final de 1975 em Santiago através dos principais órgãos de inteligência da Argentina, da Bolívia, do Brasil, do Chile, do Paraguai e do Uruguai, e a DINA, com sede no Chile. O pacto dava total liberdade de ação aos países membros e tinha como principal objetivo a criação de um banco de dados sobre pessoas e organizações envolvidas em atividades políticas de oposição aos governos da ditadura. O objetivo desse pacto era criar uma simular da Interpool na América do Sul, voltada ao combate à subversão. Através do acordo mútuo dos países, era possível identificar revolucionários, criar códigos de informações secretas, trocar prisioneiros, criar táticas de tortura, execuções de prisioneiros e liberdade no combate - 105 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI aos inimigos entre os países membros. O serviço de inteligência repressivo só foi possível graças a ausência de fronteiras ideológicas e ao fato de ter elegido o comunismo como adversário, além da conivência e do apoio dos estadunidenses, pois esses tinham interesses por estarem no auge do envolvimento com a Guerra Fria. Através das massas controladas, a ditadura brasileira transformou a Amazônia em modelo expansionista dos grandes conglomerados nacionais e internacionais. Assim, com o processo repressivo foi possível conter os anseios dos despossuídos e marginalizados do País e passar proteger os grupos econômicos de forma direcionada. Neste período, grandes áreas de terras passaram a pertencer às empresas nacionais e internacionais de grande porte, entre as quais o Projeto Jari S.A., que recebeu 1.500.000 hectares de terras; a Suiá-Missu contemplada com 678.000 ha; a Codeara com 600.000 hectares; a Georgia Pacific obteve 500.000 ha; e a Bruynzeel 500.000 hectares. Além destas, outras receberam grandes áreas, como: a Robim Mac Glolm, a Toyamnka, a Volkswagen, a Liquigás, a Nixdorf, o Banco Bradesco e o Banco do Vaticano, entre outras. Esta nova investida ocorreu por intermédio dos grandes conglomerados e foi viabilizada pelo poder público brasileiro. A estratégia foi aplicada para facilitar a concentração econômica através do extrativismo mineral e vegetal e da agropecuária extensiva. Com esta lógica movimentaram-se grandes projetos capitalistas na região, com a finalidade de usufruir os recursos fiscais oferecidos pela nação brasileira, bem como de toda a estrutura fornecida pelo Estado de forma protecionista. Neste período da ditadura foram criados vários órgãos com o objetivo de manter e proteger os interesses dos grupos econômicos, tais como o Projeto Sudam, o Banco Basa, o Incra, a Funai, entre outros. Esses órgãos foram de fundamental importância para a assistência aos grandes conglomerados, pois ofereciam os incentivos fiscais para empresas interessadas em se expandirem na região. É muito importante entender o processo de expansão - 106 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI capitalista ocorrido através da ditadura, e assim entender a Amazônia de hoje. No período da ditadura de 1964-1985, a grande massa de marginalizados e despossuídos no processo histórico brasileiro também rumou para esta região em busca de novas alternativas de subsistência. Suas expectativas se fundamentavam no acesso à terra e na inserção ao trabalho nos grandes projetos econômicos ali instalados. Seguindo esta lógica, muitos foram servir como força de trabalho nas estruturas das cidades, centros do capital regional. Até o início dos anos 70 os projetos de colonização foram realizados pelo INCRA. A partir desta data o Estado delegou tal função aos grupos econômicos organizados. A expansão e a colonização deixaram de ser função somente do Estado e passaram a ser feitas por empresas de especulação imobiliária. A grande estratégia deste período foi abrir grandes rodovias de acesso à região. Dessa forma nasceram a Transamazônica, que corta a região na parte horizontal; a Cuiabá– Santarém, que corta a região no seu centro na vertical; e também a rodovia Belém–Brasília, que corta a região na diagonal. O Estado se comprometeu em fornecer toda a estrutura necessária para viabilizar a entrada dos grandes conglomerados na região, além de vários órgãos para assistir financeiramente estes grupos. Assim, implantaram-se muitos projetos voltados para a agropecuária, para a mineração e para a indústria extrativista. Os poucos projetos voltados às pessoas de baixa renda, promovidos pelo Estado, não tiveram êxito entre os colonos, pois estes não receberam as mesmas estruturas necessárias para implantar os pequenos projetos na agropecuária. Além da dificuldade financeira e a falta de conhecimentos técnicos da formação do solo, havia restrição de benefícios para os colonos. O Estado da ditadura tinha como meta o grande capital, que era amparado e tinha todos os benefícios necessários ao seu desenvolvimento expansionista. O capital se desenvolveu na região em detrimento dos pequenos agropecuaristas. Os projetos promovidos por empresas de especulação imobiliária conseguiram maior sucesso, pois, nestes, somente tinham - 107 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI acesso às terras as pessoas e empresas com certa quantidade de dinheiro para comprar as áreas pretendidas. Podemos citar os projetos de colonização promovidos pelas colonizadoras Sinop S.A., com aproximadamente 600.000 hectares, e a Indeco, com 400.000 hectares, somente na região norte do Estado mato-grossense, visto que ambas as empresas têm tradição em criar cidades na Amazônia através da especulação imobiliária. A cidade de Sinop, que leva o mesmo nome da empresa de colonização, foi criada em 1972 em plena selva amazônica. Contava em 2001 com 74.761 habitantes. A colonizadora criou também mais seis novas cidades na região, numa tradição empreendedora, pois já foram criadas mais de 20 por meio dessa mesma empresa de colonização no Brasil. A cidade de Alta Floresta, criada pela colonizadora Indeco, em 1973, contava em 2001 com 46.956 habitantes. Essa empresa também tem tradição em criar cidades através da especulação imobiliária. Atualmente, as cidades de Sinop e Alta Floresta são as maiores do norte mato-grossense. Dentro da estrutura capitalista, estes dois projetos que nasceram da iniciativa privada deram certo. Além destas duas empresas de colonização, outras centenas se instalaram na região amazônica, principalmente ao longo das rodovias de acesso. As empresas de especulação imobiliária da Amazônia, ao receberem a titulação das terras com procedência regular ou duvidosa, passaram necessariamente a criar centros urbanos com a finalidade de concentrar a força de trabalho, que vai servir de suporte às necessidades dos projetos ali instalados. Os primeiros moradores que chegavam à região recebiam terrenos urbanos com a finalidade de oxigenar os serviços da cidade como as escolas, o comércio, os bancos, os projetos na agropecuária, na mineração e na indústria de transformação de madeiras. Através da articulação entre o Estado e o capital em conjunto, a Amazônia transformou-se em urbana, pois em 2001, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 72,23% da população da Amazônia vivia nas cidades. O crescimento populacional da região também é muito significativo, já que sua - 108 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI população atual é de 21.056.460 habitantes. O desenvolvimento da região, através da lógica capitalista, foi planejado e articulado para expandir capitais de outras regiões do Brasil e do exterior. A finalidade dos grandes conglomerados econômicos era transferir capitais para a região, por meio dos recursos oferecidos pelo Estado em forma de incentivos fiscais. A urbanização é fator fundamental para o desenvolvimento e organização do sistema capitalista. Podemos usar como exemplo o ocorrido na Inglaterra, principalmente no século XIX, primeiro espaço de desenvolvimento do capitalismo industrial. Neste sentido, a grande região da Amazônia cumpre seu ritual capitalista de criar cidades para servir aos grandes projetos ali instalados. Estes núcleos surgem da necessidade produtiva dos empreendimentos e objetivam a organização de mão-de-obra para instalação por meio do desenvolvimento dos projetos econômicos, que visam a concentração de capitais através da expansão. No processo de ocupação da Amazônia, o principal objetivo entre o Estado e o capital foi instalar os projetos econômicos para concentrar capitais. Mesmo que estes projetos ofereçam aos marginalizados e aos despossuídos do País apenas a alternativa de servirem como força de trabalho aos empreendimentos, o homem pobre também busca a terra. O Estado organiza a distribuição de terras em conjunto com as empresas de especulação imobiliária. Enquanto isso, os sem terra, os sem teto, os sem emprego e os sem esperança ou perspectiva alguma chegam à região em busca de alternativa de subsistência e reprodução da espécie, mas as estratégias capitalistas lhes negam esta possibilidade, tirando-lhes o direito de sonhar e viver dignamente. ***** - 109 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI - 110 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI CONCLUSÃO DO ESTUDO REALIZADO Ao concluir a exposição sobre o processo de expansão capitalista na Amazônia brasileira, faz-se necessário entendê-lo como parte do movimento de acumulação capitalista mundial. Os movimentos ali realizados são determinados pelo comércio mundial através das diferentes fases da ocupação e dos interesses do complexo capitalista mundial. A ocupação da Amazônia está aliada aos propósitos expansionistas para produzir excedentes aos grandes conglomerados nacionais/internacionais. A internacionalização da região deve-se ao leque de alternativas disponíveis para os empreendimentos econômicos, através do extrativismo mineral e florestal, por meio da inserção dos projetos agropecuários para atender a elite política e econômica. As diferentes fases de ocupação da região, por meio da instalação dos grupos econômicos, estão determinadas pelos interesses do capital e apoiadas pelo Estado brasileiro. Este fato fica evidente a partir do golpe militar ocorrido em 1964, quando a ditadura passou a coordenar e orientar as ações de ocupação. Com os militares no poder, intensificou-se a ocupação dos “espaços vazios”, amparada na disciplina de “segurança nacional”. As terras da região amazônica foram distribuídas arbitrariamente aos grupos econômicos nacionais e internacionais, em detrimento da grande massa de despossuídos e marginalizados do País. Assim, os interesses econômicos de expansão, apoiados pelo Estado por meio da ditadura passaram a formar o conjunto das estratégias de - 111 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI ocupação do novo espaço territorial. A ditadura – frente dos interesses burgueses – negou o direito dos cidadãos marginalizados, no processo histórico, de acesso à terra, proporcionando a concentração nas mãos de poucos grupos organizados. Os despossuídos que buscavam a terra foram conduzidos por determinações e influências dos grupos econômicos, nos quais o capital monopolista estabeleceu as relações de exclusão social. O plano de ocupação capitalista atingiu altos níveis de organização e a efetivação dos objetivos propostos pela burguesia, pois o Estado é colocado a serviço dos grupos capitalistas. Nesta dinâmica, o Estado e o capital passaram a determinar em conjunto as organizações coletivas, utilizando-se de métodos autoritários e da violência contra as massas. A ditadura forneceu incentivos fiscais aos grupos econômicos, colocando à sua disposição uma leva de benefícios para estruturar e viabilizar os projetos ali instalados. Isto se tornou possível graças ao projeto Sudam e outros órgãos do governo a serviço do capital monopolista. A estratégia sistêmica entre o capital e o Estado objetivava asfixiar a luta da classe trabalhadora, prendendo e torturando os descontentes, o que permitiu aumentar a taxa de mais-valia coletiva. Além destes benefícios, foram oferecidos outros favores, tais como: terras a preços baixos; grilagem de terras da União, terras indígenas e terras dos posseiros; abundância de recursos naturais e sonegação de impostos. Assim, canalizou-se a estrutura necessária para transformar a região em área de interesse dos grupos econômicos, sendo estes de origem nacional e internacional. A região transformou-se em área de livre acesso dos grupos econômicos, que adquiriram vastas áreas de terra para transformar em produção, ou para valorização e especulação imobiliária. Conforme a CÂMARA DOS DEPUTADOS (1998), entre 1960 e 1996 a população da região cresceu 229%, passando para 18.748.490 habitantes. Para o IBGE, em 2001 a população da Amazônia Legal chegou a 21.056.480 de habitantes. O fenômeno - 112 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI proporcionado pelo aumento populacional denuncia a concentração da terra, pois, conforme MARTINS (1995: 97), em 1975, em plena ditadura no País, apenas 0,2% das terras da região amazônica foram para estabelecimentos com menos de 100 hectares, e 99,8% para estabelecimentos com mais de 100 hectares, e destes, 75% para estabelecimentos com mais de 1.000 hectares. As terras foram distribuídas de três formas: pelo Incra; por empresas de especulação imobiliária e por posse espontânea. Das terras fornecidas via Incra poucas foram aos pequenos agropecuaristas e, dentre os contemplados com pequenas áreas, muitos tiveram que abandoná-la por falta de estrutura, pois recebiam tratamento diferenciado dos grupos econômicos. Os assentamentos realizados por empresas privadas contemplavam os que tinham alguma posse financeira, visto necessitarem de certa quantia em dinheiro para adquirir a área. O acesso à terra por via espontânea também acabou não produzindo os efeitos esperados, pois seus proprietários foram vítimas da violência generalizada por parte dos grupos organizados, sendo sempre apoiados pelo Estado ditatorial para expulsá-los da terra. ***** - 113 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI - 114 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI LISTA DE ABREVIATURAS ADA – Agência de Desenvolvimento da Amazônia. BASA – Banco de Crédito da Amazônia S. A. CAMDE – Companhia da Mulher Democrática. CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito. CPT – Comissão Pastoral da Terra. CUT – Central Única dos Trabalhadores. CVRD – Companhia Vale do Rio Doce. DIEESE – Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos. DINA – Dirección de Inteligencia Nacional. GEBAM – Grupo Executivo para a Região do Baixo Amazonas. FEMA – Fundação Nacional do Meio Ambiente. FGV – Fundação Getúlio Vargas. FUNAI – Fundação Nacional do Índio. GETAT – Grupo Executivo de Terras do Araguaia. IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. IBDF – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. ICOMI – Indústria e Comércio de Minérios S.A. - 115 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. INSS – Instituto Nacional de Seguridade Social. IPI – Imposto Sobre Produtos Industrializados. MDB – Movimento Democrático Brasileiro. MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. MIRAD – Ministério da Reforma e Desenvolvimento Agrário. NASA – National Aeronautics And Space Administration. PGC – Programa Grande Carajás. PCN – Projeto Calha Norte. PC do B – Partido Comunista do Brasil. PIN – Programa de Integração Nacional. PND – Plano Nacional de Desenvolvimento. PROÁLCOOL – Programa Nacional do Álcool. PROTERRA – Programa de Redistribuição de Terras. POLAMAZÔNIA – Programa de Pólos Agropecuários e Agrominerais da Amazônia. POLONOROESTE – Programa Integrado de Desenvolvimento Rural do Noroeste do Brasil. PT – Partido dos Trabalhadores. SNI – Serviço Nacional de Informações. SPVEA – Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia. SUDAM – Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia. SUDECO – Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste. SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. SUFRAMA – Superintendência da Zona Franca de Manaus. SIVAM – Sistema de Vigilância da Amazônia. UDR – União Democrática Ruralista. - 116 - AMAZÔNIA: DO MEL AO SANGUE - FIORELO PICOLI BIBLIOGRAFIA ARBEX JR, J. e OLIC, N. B. Rumo ao Centro-Oeste. O Brasil em regiões. 2 ed. São Paulo: Moderna, 1996. ARRIGHI, G. O longo século XX. Dinheiro, poder e as origens de nosso tempo. Trad. Vera Ribeiro. São Paulo: Unesp, 1997. BECKER, B. K. (1997): Amazônia. 5 ed. São Paulo: Ática, 1997. BENCHIMOL, S. Amazônia: a guerra na floresta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992. BOSI, A. Dialética da colonização. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. BRAUDEL, F. A dinâmica do capitalismo. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987. BRAUDEL, F. O tempo e o mundo. Civilização material, economia e capitalismo, séculos XV – XVIII. Trad. Telma Costa. São Paulo: Martins Fontes, 1998. BRAVERMAN, H. Trabalho e capital monopolista. A degradação do trabalho no século XX. Trad. Nathanael C. Caixeiro. 3 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. CARDOSO, F. 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