Sheyla Bertholasce Leite GOVERNANÇA COOPERATIVISTA: Uma visão da doutrina cooperativista Belo Horizonte Fundação UNIMED 2012 SHEYLA BERTHOLASCE LEITE GOVERNANÇA COOPERATIVISTA: Uma visão da doutrina cooperativista Trabalho apresentado ao curso de Pós-Graduação em Gestão Negócio em Saúde, ministrado pela Fundação Unimed. Coordenador: Prof. Walden Carvalho Belo Horizonte Fundação UNIMED 2012 L533g Leite, Sheyla Bertholasce. Governança cooperativista: uma visão da doutrina cooperativista. / Sheyla Bertholasce Leite. – 2012. 25 f. Orientador: Walden Carvalho. Monografia (Pós-Graduação Lato sensu) – Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais/Fundação Unimed. 1. Cooperativismo. 2. Saúde suplementar. 3. Gestão em saúde. I. Carvalho, Walden. II. Título. NLM: W 125 Dedico este trabalho a Deus, ao meu Pai (in memoriam) e à minha Mãe, por minha formação educacional e espiritual e por seu amor incondicional, responsável por meus valores e por minhas lembranças mais doces. Agradeço à Fundação Unimed, à Unimed Federação Minas e aos fraternos amigos desta jornada terrena, por nossa harmoniosa e criativa convivência, nesta dimensão de espaço e tempo, dedicados à doutrina e à gestão de cooperativas de saúde. “A criatividade de uma nação está ligada à capacidade de pensar e teorizar, o que requer uma boa educação e, daí, partir para o inventar e, depois, ir até as últimas consequências no fazer.” Cláudio de Moura Castro RESUMO O objetivo deste artigo, que está dividido em sete seções, é fazer uma análise conceitual e geral com uma explanação a partir de uma pesquisa bibliográfica acerca da adoção da governança corporativa enquanto modelo de gestão e os desafios que ela representa para as sociedades cooperativas, e em especial sobre a sua aplicabilidade nas cooperativas de trabalho médico Unimed. O texto apresentado propõe uma reflexão sobre a teoria em que se baseou e sobre as perspectivas para ampliar a consciência do Sistema Cooperativista Unimed, na busca de práticas eficientes que influenciem na percepção e gerenciamento de risco, na sustentabilidade e na perenidade nos negócios. Palavras-chave: Cooperativas. Governança Corporativa. Administração de empresas. ABSTRACT Cooperative Governance: a vision of the cooperative doctrine This paper, which is divided into seven sections, aims to conduct a conceptual and general analysis, on the adoption of corporate governance as a management model, as well as on the challenges that this governance represents to cooperative societies, and especially on its applicability in the Unimed Medical Work Cooperatives. The text presents an explanation based on a bibliographic research, and proposes a reflection upon the theory it is founded on and upon the perspectives to increase the awareness of Unimed Cooperative System in searching for efficient practices that may influence risk perception and management, sustainability and longevity in business. Key-words: Cooperatives. Corporate Governance. Business management. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ...……………..………………………...…………………..... 8 2 UMA SÍNTESE CONCEITUAL DOS ‘8 Ps’ DA GOVERNANÇA 11 3 PRINCÍPIOS BÁSICOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVA X GOVERNANÇA COOPERATIVISTA ...................................................... 14 4 COLOCANDO A GOVERNANÇA COOPERATIVISTA NA PRÁTICA ............................................................................................................. 17 4.1 O papel dos conselhos nas cooperativas ............................................................. 18 4.2 Conflitos de agência, processos eleitorais e a profissionalização nas cooperativas ........................................................................................................... 20 5 O PAPEL DA COMUNICAÇÃO ESTRATÉGICA E O INCENTIVO À PARTICIPAÇÃO DOS COOPERADOS ................................................................................................................................... 22 6 RESULTADOS: EXPERIÊNCIAS QUE DERAM CERTO .............. 25 7 CONCLUSÃO ...................................................................................................... 27 REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 29 8 1 INTRODUÇÃO Na análise de gestão das cooperativas médicas no Brasil, seguramente, Governança Cooperativista não é um modismo a mais. Seu desenvolvimento tem fundamentação sólida. E sua adoção tem fortes razões para se disseminar. A Organização das Nações Unidas (ONU) e diversas organizações mundiais, bem como o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), veem as boas práticas de governança corporativa, inclusive aquela aplicada à doutrina cooperativista, como pilares da arquitetura econômica global e um dos instrumentos do desenvolvimento, em suas três dimensões – a econômica, a social e a ambiental. No Brasil, o IBGC, fundado em 1995, é a instituição que desenvolve e fomenta os conceitos e práticas de Governança. Possui cerca de 1.900 associados e edita o Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa. O conteúdo do Código abrange práticas relacionadas aos sócios, conselho de administração, gestão, auditoria independente, conselho fiscal, conduta e conflito de agência ou de interesses. O IBGC promove, além de palestras e publicações, os trabalhos das Comissões Setoriais, como, por exemplo, Governança em Cooperativas e Governança em Saúde, com membros do Sistema Unimed. A aplicabilidade das boas práticas da governança no Sistema Cooperativista Unimed é um tema que ganhou maior evidência há muito pouco tempo. Em 2012, a Unimed do Brasil instituiu um selo para premiar as Federações e Singulares Unimed que obtiverem a pontuação mínima necessária para obtenção do selo. Na prática, a Unimed do Brasil deseja estimular a adoção da Governança Cooperativa como um diferencial que demonstre, além das exigências legais, especialmente as exigências da 9 Lei nº 5.764, de 16 de dezembro de 1971 (BRASIL, 1971), que define a política nacional de cooperativismo, e que assegure o bom funcionamento das cooperativas. A premissa estratégica fundamental está na valorização do trabalho do médico cooperado, por meio de resultados apresentados pelas Federações e Singulares. Um grande desafio para as Cooperativas Unimed consiste na profissionalização da gestão, e não é tarefa fácil quando se trata das cooperativas, onde os conflitos de agência ou de interesse são bastante comuns. Muitos dos conflitos de agência estão ligados à assimetria de informações e à discrepância da conduta dos administradores em relação aos interesses dos demais cooperados. Fundamentada em princípios como a transparência, a equidade, a prestação de contas e a responsabilidade corporativa, o modelo tem como desafio, além da mudança cultural, a ampliação do processo de comunicação entre todos os stakeholder. O objetivo é reposicionar sua trajetória de relacionamento com seus cooperados de maneira corretiva, aumentar o valor de sua sociedade, e facilitar seu acesso ao capital, assim, contribuindo para a sua perenidade. Figura 1 - Princípios, Pilares e Práticas da Governança Corporativa, segundo o IBGC Fonte: IBGC. 10 As boas práticas de governança corporativa convertem princípios em recomendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor da organização, facilitando seu acesso a recursos e contribuindo para sua longevidade. A partir da teoria da Governança Cooperativa, respeitada a singularidade, as Cooperativas Médicas Unimed poderão usufruir dos seus benefícios, porém serão obrigadas a repensar, revisitar e reestruturar seus processos e modelos de gestão de negócios. Será preciso também atuar na reestruturação dos estatutos sociais, regimentos internos e dos modelos de negócios, com foco na relevância e na aplicabilidade das diversas dimensões dos 8 Princípios (‘8 Ps’) da Governança Cooperativista. 11 2 UMA SÍNTESE CONCEITUAL DOS ‘8 Ps’ DA GOVERNANÇA Na construção e na operação de sistemas de Governança, geralmente, estão presentes os 8Ps, explícita ou implicitamente, segundo Andrade e Rossetti (2012). Ao utilizar uma síntese conceitual, recomenda-se uma análise situacional das entidades, cujo propósito metodológico é avaliar a aderência e identificar fragilidades extremas. Na análise das questões centrais do modelo, a análise conceitual dos “Ps” deverá ser vista com grande atenção: Propriedade – A tipologia da propriedade é um dos principais elementos definidos na Governança. Um dos principais atributos que diferenciam as razões de ser e as diretrizes da Governança é a estrutura da propriedade na sociedade, bem como o regime legal de sua constituição. Princípios – São derivados de códigos de conduta, devem orientar as diretrizes e políticas cooperativistas. Os princípios são a base ética da Governança, e têm como atributo essencial a universalidade, presente nos códigos de boas práticas hoje editados em todas as partes do mundo. São aceitáveis e administráveis as diferenças na cultura, nas instituições e nos marcos regulatórios. Mas igualmente existem princípios éticos inegociáveis, que estão presentes, explícita ou implicitamente, na definição dos propósitos, nas formas de exercício de poder, no desenho e na operação dos processos, e nas práticas do dia-a-dia, que se observam no mundo dos negócios. Propósitos – O propósito fundamental da Governança é aquilo contribui para o máximo de retorno total de longo prazo dos investimentos das cooperativas. 12 Papéis – A segregação de papéis resulta das diferentes atribuições dos proprietários, conselheiros e gestores – os três principais agentes da Governança. Poder – O poder, definido pelos proprietários, será exercido pelos administradores escolhidos e responsáveis pelo direcionamento da cooperativa e pela geração de resultados. As formas como se articulam as negociações e se estabelecem as relações entre os órgãos de Governança definem a estrutura de poder no interior das cooperativas. O poder efetivamente assumido pela estrutura organizacional e pelos gestores, resultante da dispersão e da passividade dos proprietários é, em princípio, fonte de conflito e de disfunções. No exercício do poder assim constituído, decisões de alto impacto das cooperativas são necessariamente compartilhadas. Entre elas, o próprio planejamento sucessório das cooperativas de trabalho médico. Práticas – As práticas visam ao estabelecimento de canais fluidos de informação e de bom e consensual sistema para tomada de decisões e acompanhamento das ações decorrentes, com o monitoramento sistêmico dos riscos da operação. Pessoas – Qualquer que sejam as dimensões da prestação de serviços e dos negócios das cooperativas médicas, na sustentação de todo esse sistema, estão as pessoas. São, em síntese, condutoras de conjunto dos legados e dos objetivos que dão vida e continuidade às operações cooperativistas. Perpetuidade – Embora possa ser objeto de mudanças, decorrentes de novas composições da propriedade – seja por processos sucessórios, por mudanças em seu regime legal, ou ainda por fusões e aquisições negociadas ou por operações de mercado – o objetivo último das organizações, salvo em casos específicos ou excepcionais, é se manterem vivas, atuantes e com participação crescente em seus setores de atividade. A perpetuidade, fortemente dependente dos sete Ps precedentes, 13 define-se como objetivo-síntese das cooperativas, sustentada por bons resultados econômico-financeiros, sociais e ambientais. Em síntese, estes ‘8 Ps’ da Governança podem ser aplicados a quaisquer entidades, inclusive nas cooperativas de crédito, de trabalho, de saúde, de consumo e outras. Ao diagnosticar o ambiente, o sistema, os pontos fortes, as fragilidades e as situações críticas, observadas as cooperativas médicas, identificaremos os ‘hiatos’ ou adoção de métricas em relação às boas práticas de Governança. Obviamente, observados os conteúdos das questões centrais de cada um desses ‘8 Ps’, elas não são iguais em cada uma das categorias das cooperativas e variam também em função do estágio de maturidade e/ou das dimensões dos negócios assumidos pela singularidade de cada uma das cooperativas de trabalho médico que constituem o Sistema Unimed. 14 3 PRINCÍPIOS BÁSICOS DA GOVERNANÇA CORPORATIVA X GOVERNANÇA COOPERATIVISTA A estruturação e organização do pensamento da Governança apresentam conceitos precisos e claros contidos em seus princípios básicos: Transparência: Mais do que o desejo de informar é o desejo de disponibilizar, para as partes interessadas as informações que sejam de seu interesse e não apenas impostas por disposições de leis ou regulamentos. A adequada transparência resulta em um clima de confiança, tanto internamente quanto nas relações da empresa com terceiros. Não deve restringir-se ao desempenho econômico-financeiro, contemplando também os demais fatores (inclusive intangíveis) que norteiam a ação gerencial e que conduzem a criação de valor. (INSTITUTO BRASILEIRO DE GOVERNANÇA CORPORATIVA, 2009, p. 19). Equidade: Caracteriza-se pelo tratamento justo de todos os sócios e demais partes interessadas (stakeholders). Atitudes ou políticas discriminatórias, sob qualquer pretexto, são totalmente inaceitáveis. (INSTITUTO BRASILEIRO DE GOVERNANÇA CORPORATIVA, 2009, p. 19). Prestação de Contas: Os agentes de Governança – que são os sócios, administradores (conselheiros de administração e executivos/gestores), conselheiros fiscais e auditores – devem prestar contas de sua atuação, assumindo integralmente as consequências de seus atos e omissões. (INSTITUTO BRASILEIRO DE GOVERNANÇA CORPORATIVA, 2009, p. 19). Responsabilidade Corporativa: Os agentes de Governança devem zelar pela sustentabilidade das organizações, visando à sua longevidade, incorporando 15 considerações de ordem social e ambiental na definição dos negócios e operações (INSTITUTO BRASILEIRO DE GOVERNANÇA CORPORATIVA, 2009, p. 19). O IBGC dissemina que governança corporativa no Brasil define: “é o sistema pelo qual as organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre proprietários, conselho de administração, diretoria e órgãos de controle. As boas práticas de governança corporativa convertem princípios em recomendações objetivas, alinhando interesses, com a finalidade de preservar e otimizar o valor da organização, facilitando seu acesso ao capital e contribuindo para a sua longevidade" (INSTITUTO BRASILEIRO DE GOVERNANÇA CORPORATIVA, 2009, p. 19). Curioso é que, ao se observar o termo Governança Corporativa, ele nos leva ao entendimento de corporações de capital aberto e assemelhadas. No caso das cooperativas, ainda segundo o IBGC, elas apresentam ainda as seguintes características específicas: "variabilidade ou dispensa de capital social; voto independente do capital (unitário por cooperado); indivisibilidade do fundo de reserva" (SEIDL, 2012). Entretanto, ainda precisamos considerar os ajustes propostos pela Unimed do Brasil: "ingresso de associado, sem limite máximo; distribuição de resultados às operações (produção) do cooperado com a cooperativa e não do capital" (UNIMED DO BRASIL, 2012, p. 19). Cabe ainda esclarecer que boa parte das práticas de governança já se encontra presente nos princípios cooperativistas e na Lei 5.764 (BRASIL, 1971). Segundo Pádula (2008), os princípios cooperativistas podem subsidiar as boas práticas de governança. Eles se encontram alinhados aos conceitos da boa prática, como a ética, 16 a transparência, a democracia e o compromisso com o desenvolvimento econômico, social e humano. Além disto, as cooperativas médicas do Sistema Unimed possuem a vantagem de estar habituadas a realizar assembleias gerais para eleger os seus representantes, para aprovação das demonstrações de resultado do exercício e para deliberar sobre assuntos de interesse de seus médicos cooperados. Embora existam obstáculos, a governança corporativa não se mostra incompatível com estas cooperativas médicas Unimed. Figura 2 - Princípios cooperativos e básicos da governança corporativa, segundo o IBGC Adesão livre e voluntária Equidade Interesse pela comunidade Gestão democrática Transparência Prestação de Contas Responsabilização pelos resultados Princípios Cooperativistas Participação econômica dos membros Intercooperação Educação, f ormação e inf ormação Fonte: Dados da pesquisadora. Autonomia e independência Princípios básicos de Governança Parte das práticas de governança já se encontram presentes na Lei 5764 17 4 COLOCANDO A GOVERNANÇA COOPERATIVISTA NA PRÁTICA As “estruturas de governança” da Lei 5.764 (BRASIL, 1971) parecem defasadas após o surgimento das regras de boas práticas de Governança. Sem dúvida, esta é uma reflexão sobremaneira importante, pois as estruturas existentes na maioria das cooperativas médicas foram embasadas na legislação editada em 1971, e até então vigente, e não têm a idêntica função de um Conselho de Administração, como é proposto pelas normas de governança. Em geral, os estatutos sociais e regimentos internos tratam a respeito dos conselhos de administração e fiscal e da assembleia geral, porém, existem lacunas se comparados aos padrões internacionalmente recomendados de governança corporativa. Em publicação do ano de 2009 do Banco Central do Brasil a respeito das diretrizes de governança (FONTES FILHO; SOARES; VENTURA, 2009), afirma-se que é menos comum uma separação entre decisão estratégica e a execução nas cooperativas. O documento também propõe, aos interessados pelo modelo, que o Conselho seja preferencialmente constituído por um número ímpar de elementos. Tais medidas têm como objetivo um maior controle e aumento da transparência. Como primeira ação para que a Governança possa ser instituída, torna-se necessário que a cooperativa estabeleça, de forma objetiva e clara, a distinção entre o Conselho de Administração e a Diretoria Executiva em seus documentos constitutivos. O Conselho Fiscal, por sua vez, precisa ser totalmente independente, de maneira que os princípios da Governança sejam assegurados. Por esse prisma, faz-se necessária uma previsão de requisitos legais no estatuto social e no regimento interno de uma cooperativa de trabalho médico, alinhados 18 aos princípios de Governança, no sentido de atribuir e responsabilizar os conselheiros pelos bons e maus resultados. Seguindo esta mesma lógica, as cooperativas de trabalho médico poderão instituir, de forma clara e objetiva, em seus documentos legais, um programa de profissionalização como o programa de formação de dirigentes e conselheiros, por exemplo: Capacitação em Governança Cooperativa, formação administrativa e experiência mínima em Gestão de Cooperativa. Assim, será possível proporcionar uma escolha assertiva dos conselheiros, verificando se eles possuem as qualificações e habilidades adequadas ao exercício do cargo eletivo. 4.1 O papel dos conselhos nas cooperativas Existem diretrizes do Banco Central do Brasil1 para as cooperativas de crédito que apontam para a necessidade de estabelecimento de normativos que assegurem a não vinculação econômica ou funcional entre os membros do Conselho Fiscal e da Administração. Além disto, defendem a desvinculação da eleição de ambos os Conselhos. Para a entidade, uma eleição deve eleger pessoas e não chapas. O Conselho de Administração é fundamental no modelo de Governança, pois é ele que estabelece o elo entre propriedade e gestão, orientando e supervisionando a relação da gestão com as partes interessadas. O IBGC o coloca como o guardião do objeto social e do sistema de Governança. Um obstáculo importante para uma boa gestão decorre do processo eleitoral do Conselho de Administração com tarefas operacionais e de uma Diretoria Executiva pouco profissionalizada. 1 FONTES FILHO; SOARES; VENTURA, 2009. 19 Aos conselheiros de administração, compete deliberar sobre as questões relacionadas ao gerenciamento de risco e sobre as estratégicas: orçamento, alternativas de crescimento, fusões e aquisições, estrutura de capital, política de investimentos e de resultados, gestão da marca, responsabilidade cooperativista. Não menos importante que as anteriores, competem também, aos conselheiros de administração, as questões sobre capital humano, quais sejam: estabelecer política de recrutamento e seleção, orientação, avaliação e remuneração; planejamento sucessório; política de atração, desenvolvimento e retenção de talentos; clima organizacional; estilos de comportamento da liderança; gestão de conhecimento. Para desempenhar satisfatoriamente suas atribuições e responsabilidades, o conselheiro deve ter, no mínimo, alinhamento com os valores da organização e seu Código de Conduta; disponibilidade de tempo e motivação. Além de habilidades e conhecimento complementares, é desejável o comprometimento em trabalho em equipe. A participação de conselheiros independentes no dia-a-dia das cooperativas também pode facilitar as tomadas de decisão. Para apoiar as análises do Conselho de Administração, a publicação do Banco Central do Brasil (FONTES FILHO; SOARES; VENTURA, 2009) indica que sejam criados “comitês operacionais, tais como comitê de estratégia, comitê de pessoas, comitê de auditoria e riscos e comitê de governança”. Tais ações podem evitar a concentração de poder nas mãos do executivo principal. 20 4.2 Conflitos de agência, processos eleitorais e a profissionalização nas cooperativas No cooperativismo brasileiro, propriedade e gestão se sobrepõem. Assim, os conflitos de agência aparecem de maneira peculiar para o administrador da cooperativa: ora ele é um gestor racional e objetivo, ora ele se guia por seus valores pessoais enquanto cooperado. A literatura geral sobre o tema, em geral, aponta para a necessidade de separação entre a propriedade e a gestão, de maneira que haja isenção em relação aos conflitos de interesse. É neste sentido que o estabelecimento de um Conselho de Administração qualificado assume um importante papel, pois ele é capaz de minimizar os conflitos decorrentes desta sobreposição. Quando o Conselho de Administração possui um caráter de gestão efetivo, ele pode trabalhar satisfatoriamente para a cooperativa, funcionando como um importante canal onde propriedade e gestão podem coexistir de maneira mais harmônica. Muitas experiências com a governança nas cooperativas têm se mostrado interessantes na preservação do interesse maior: a rentabilidade da cooperativa. A decisão pela adoção da governança está fundamentada na capacitação profissional da gestão. Também pressupõe que a identidade da cooperativa esteja bem determinada, assim como deve estar clara a definição de sua missão, visão e valores e a pessoa responsável por tomar as decisões estratégicas. Outro obstáculo para as cooperativas que optam por este caminho relaciona-se à estagnação estratégica. Os mandatos de seus gestores podem ser demasiadamente curtos ou longos, o que pode gerar problemas, como a aceitação de baixos desempenhos. Em um sistema de 21 governança, os papéis e responsabilidades precisam estar bem definidos em prol da sustentabilidade da empresa e dos interesses de acionistas ou sócios cooperados. A inclusão de conselheiros e de auditores independentes na condução da implantação deste processo garante accountability2. As experiências no campo da administração mostram que o investimento nas melhores práticas de governança retorna satisfatoriamente às cooperativas, seja na eficiência ou no acesso aos recursos de investidores externos. Em se tratando dos processos eleitorais nas cooperativas, este também é um momento em que a adoção de uma gestão profissionalizada é a grande saída, uma vez que essas entidades ganham a oportunidade de serem menos dependentes das mudanças políticas e de suas turbulências. Além do paradigma da cultura organizacional das sociedades cooperativas, uma grande dificuldade na implantação do modelo de governança nas cooperativas está ligada ao fator político, uma vez que ele exerce grande influência sobre a gestão. O modelo estratégico proposto não dará espaço ao “sentimento de empresa familiar”, tão característico no atual modelo de negócios das cooperativas. Ele exige uma gestão moderna, capaz de propiciar competitividade à cooperativa. É difícil tornar os administradores conscientes de que o novo modelo de gestão é participativo e descentralizado, assim como as responsabilidades. 2 O termo accountability pode ser entendido como a obrigação de prestar contas que os membros de uma organização têm para com os seus representados. Pode ser traduzido como responsabilização. 22 5 O PAPEL DA COMUNICAÇÃO ESTRATÉGICA INCENTIVO À PARTICIPAÇÃO DOS COOPERADOS E O A existência de uma assimetria de informações entre os membros das cooperativas médicas é uma realidade na grande maioria delas. As experiências bem sucedidas de relacionamento com os cooperados nos mostram que a comunicação estratégica é uma ferramenta fundamental para uma cultura de mudanças. Por se configurarem como sociedades de pessoas, as cooperativas devem dispor de mecanismos que favoreçam a participação dos diferentes grupos que compõem o seu quadro social (composto por uma pluralidade de interesses). Os vínculos cooperativistas devem ser fortalecidos, de maneira a enfatizar o fato de que os cooperados são proprietários que possuem direitos e deveres. Corroborando com esta ideia, Morgan e Hunt (1994) afirmam que a base para a construção e sustentação de um relacionamento de sucesso é o comprometimento e a confiança entre as partes envolvidas. A adoção da governança cooperativista propõe o estímulo à participação de seus cooperados na definição de estratégias. Os processos organizacionais precisam estar estruturados, padronizados, e mecanismos de monitoramento e incentivos precisam ser criados. Os interesses dos cooperados precisam estar alinhados ao comportamento dos administradores. O incentivo à participação ativa dos cooperados pode ser auxiliado a partir de consultas prévias aos membros sobre propostas de temas a serem pautas de assembleias futuras. O aspecto da transparência constitui uma alternativa interessante à adoção de procedimentos de contagem unitária de votos, em 23 vez de votos por aclamação. Estas opções oferecem um esforço ao sentimento de participação, de pertencimento e de propriedade dos sócios. A introjeção de valores de pertencimento desperta nos cooperados o interesse pela participação, pelo controle e pela administração da cooperativa. Um membro consciente de seu papel pode exercer uma influência positiva na construção de uma organização sólida e capaz de atender aos seus anseios. De modo geral, as cooperativas médicas precisam estabelecer políticas de relacionamento e de comunicação estratégica com seus cooperados e demais públicos, que contemplem uma administração participativa, transparente, compondo um processo de comunicação ágil, de maneira que a visão e a integração de propósitos estejam claras para todos. Os conflitos podem ser minimizados quando os membros possuem e compartilham da mesma visão, missão e valores. Esta ação também evita o desperdício de tempo nas reuniões com discussões improdutivas. As funções e responsabilidades administrativas precisam estar bem definidas e serem de conhecimento compartilhado. O objetivo é que a cooperativa funcione de maneira harmoniosa e interdependente, com a divulgação do acompanhamento rigoroso de suas metas e resultados, visando ao sucesso da organização. O nivelamento de conceitos e aprimoramento organizacional são prérequisitos para a implantação com sucesso da governança nas cooperativas médicas. Igualmente, são pré-requisitos a identificação das regras de negócios, dos macroprocessos, da cadeia de valor, mapeamento de processos produtivos com foco na qualidade de prestação de serviços aos clientes até a adequação dos controles e gerenciamento de riscos, bem como aperfeiçoamento dos sistemas de gestão. Todos 24 esses componentes são muito importantes para a imagem da cooperativa perante a dinâmica do mercado de saúde suplementar. Como consequência, a postura de transparência, com a abertura das informações para cooperados e sociedade, implica na melhora da avaliação e do gerenciamento dos riscos de uma cooperativa, e reflete no custo do capital social. 25 6 RESULTADOS: EXPERIÊNCIAS QUE DERAM CERTO A Cooperativa Central de Crédito de Minas Gerais (SICOOB CREDIMINAS) exerce, permanentemente, diferentes ações relacionadas às boas práticas de governança, como a publicação das demonstrações financeiras validadas por auditoria independente, prestação de contas através de relatórios técnico-descritivos elaborados por suas gerências, e reuniões regulares nas regionais para discussão e elaboração de estratégias. Outro exemplo muito interessante é o do Sistema de Crédito Cooperativo (SICREDI) da Região dos Vales no estado do Rio Grande do Sul. A cooperativa vivia uma situação limítrofe de sua liquidação. A Diretoria precisou mobilizar os cooperados, a partir da ideia de que a cooperativa possui a finalidade de somar esforços para atingir objetivos comuns que beneficiam a todos. Uma de suas ações foi buscar, inicialmente, recursos externos para atender às demandas dos cooperados, tendo como contrapartida o acordo de que os cooperados reinvestiriam as suas sobras na cooperativa, de maneira a melhorar gradativamente a capacidade de empréstimo da sociedade. A experiência do SICREDI em investir na política de relacionamento com seus cooperados, despertando o senso de propriedade, parece ter sido essencial para a implantação de um novo modelo de gestão baseado na governança. O bom desempenho foi possível a partir do momento em que os cooperados perceberam que eram donos e beneficiários do negócio simultaneamente. 26 Figura 3 – Caso SICREDI/ Região dos Vales do RS Política de Relacionamento • Estabeleceu padrões de conduta para funcionários, incentivando o atendimento diferenciado • A relação a ser regulada não era só entre propriedade e gestão, envolveu todos os stakeholders • Mais do que pela valorização das idéias cooperativistas, Alinhamento entre estratégia incentivou a idéia de somatório de interesses individuais. Assim e ideologia desenvolveu um senso de propriedade nos cooperados Incentivos financeiros Fonte: Sistema de Crédito Cooperativo (SICREDI). • Cotas capitais passaram a ser remuneradas em 1 p.p. acima da poupança • Lembrou que na cooperativa de crédito a principal fonte de recurso é a poupança. Só assim ela poderia crescer 27 7 CONCLUSÃO O despertar dos conceitos, dos princípios, dos fundamentos e das perspectivas da governança para aplicabilidade nas cooperativas médicas decorrem de um movimento crescente de conscientização, participação, informação e pertencimento dos seus cooperados. As experiências brasileiras, em especial as das cooperativas de crédito, demostram a importância do gerenciamento de riscos diante a tomada de decisão, e que significativamente são reduzidos quando o modelo é adotado. Conectados às mudanças contemporâneas, além de um melhor alinhamento de interesses, as estruturas organizacionais das cooperativas médicas Unimed vigentes necessitam de adequação visando oferecer uma excelente oportunidade de aproveitar ainda melhor seu potencial de atuação no cenário da saúde suplementar, já que o Sistema Unimed é composto por 367 cooperativas médicas presente em 4.623 municípios brasileiros, o que equivale a 83% do território nacional (UNIMED DO BRASIL, 2012). É preciso compreender que, no momento atual, o mercado está comprometido com a exigência de um nível de transparência que proporcione avaliação do desempenho de uma cooperativa operadora de planos de saúde. Nesse sentido, a Governança Cooperativista vem sanar exatamente isso. Além de minimizar os conflitos de agência, traz a possibilidade de um melhor gerenciamento dos riscos econômicos e financeiros e de perenidade da sociedade. Diversas são as dificuldades encontradas pelas cooperativas que optam pelo modelo de Governança Cooperativista, seja na cultura organizacional, nas decisões estratégicas ou na resolução dos conflitos de interesse. Ao que parece, o desafio maior 28 para estas sociedades de pessoas é enfocar a gestão profissionalizada dos administradores - proprietários, conselheiros e gestores. É preciso desenvolver e potencializar as habilidades pessoais, intelectuais e relacionais dos colaboradores da cooperativa, que ajudarão a encarar e a minimizar os conflitos de agência, ampliando a conscientização dos cooperados sobre a participação regular nas estratégicas dos negócios e da mudança da cultura organizacional. A busca da eficiência e da maior geração de riquezas e de valor, através das boas práticas de governança, já são presentes nas cooperativas de crédito, especialmente porque congregam um grande número de cooperados. Estas cooperativas têm enxergado a governança como uma oportunidade de aumentar o valor de sua sociedade, de facilitar seu acesso ao capital e, assim, contribuir para a sua perenidade. O grande desafio das Cooperativas de Saúde Unimed reside no ajustamento aos padrões internacionais estabelecidos e na modelagem do conjunto de mecanismos e controle propostos pelas boas práticas de Governança. No caso brasileiro, espera-se das cooperativas de trabalho médico uma elevada adesão ao código do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. 29 REFERÊNCIAS ANDRADE, Adriana; ROSSETTI, José Pascoal. Governança corporativa: fundamentos, desenvolvimentos e tendências. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2012. BRASIL. Lei Federal nº 5.764, de 16 de dezembro de 1971. Define a Política Nacional de Cooperativismo, institui o regime jurídico das sociedades cooperativas, e dá outras providências. Disponível em: <www.planalto.gov.br>. Acesso em: 15 set. 2011. BORGES, Carlos E.; VASCONCELOS, Rui de Assis. Governança Corporativa nas cooperativas de crédito. O caso do SICOOB Central Crediminas. Disponível em: <http://www.administradores.com.br/informe-se/producao-academica/governancacorporativa-na-gestao-das-cooperativas-de-credito-o-caso-do-sicoob-centralcrediminas/307/download/>. Acesso em: 20 abr. 2012. CHIAMULERA, Clécio. Governança Corporativa em uma Cooperativa. 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