1 FUNDAÇÃO ESCOLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO III SEMINÁRIO DE PESQUISA DA FESPSP NARRATIVAS PLÁSTICAS E AS RELAÇÕES RACIAIS E ÉTNICAS. Simone Rocha de Abreu email: [email protected] Doutora pelo PROLAM-USP Docente das Faculdades Metropolitanas Unidas, Formadora da Secretaria Municipal da Educação para a reeducação no tocante às relações étnico-raciais, Membro do Fórum Permanente sobre Arte e Cultura da América Latina. Resumo Este ensaio busca analisar, sem esgotar o tema, narrativas plásticas latino-americanas produzidas posteriormente aos anos sessenta que mobilizam elementos simbólicos específicos e ao fazê-lo, se distanciam dos parâmetros hegemônicos da arte, estabelecidos na Europa e Estados Unidos. Não se trata de desconhecer tais parâmetros, mas evidenciar a complexidade do imaginário latinoamericano. Esses elementos podem ser derivados da assunção pelo artista da multiculturalidade característica das nossas sociedades que pode assumir a citação do passado précolombiano na produção artística ou a ancestralidade africana. Palavras-chaves: ancestralidade, povos originários, multiculturalidade. Meu pensamento sempre foi resultado de uma consciência da terra, de povo. Eu venho pregando há muitos anos contra o colonialismo cultural, contra a aceitação passiva, sem nenhuma análise crítica, das fórmulas que nos vem do exterior – em revistas, bienais e etc. E a favor de um caminho voltado para as profundezas do ser brasileiro, suas raízes, seu sentir. Ruben Valetim, trecho retirado do “Manifesto Ainda Que Tardio”, jan.1976. Hacer arte de acuerdo a los cânones hegemônicos cementa La unidireccionalidad de La información, no ES uma forma más refinada y compleja de consumir. Luis Camnitzer, 1995. Este ensaio busca compreender como artistas latino-americanos selecionados produzem narrativas plásticas que mobilizam elementos simbólicos específicos e ao fazê-lo, se distanciam dos parâmetros hegemônicos da arte, estabelecidos na Europa e Estados Unidos. Não se trata de desconhecer tais parâmetros, mas evidenciar a complexidade do imaginário latinoamericano. Destacou-se produções 2 contemporâneas, produzidas posteriormente aos anos sessenta 1. Esses elementos podem ser derivados da assunção pelo artista da multiculturalidade característica das nossas sociedades que pode assumir a citação do passado pré-colombiano na produção artística, caso do artista Nadín Ospina (Colômbia, 1960) ou das raízes africanas que para muitos não são somente referências encontradas no passado, mas parte da vivência cotidiana, caso de Wilfredo Lam (Cuba, 1902-1982) e Manuel Mendive (Cuba, 1944). Uma narrativa plástica que se afirma latinoamericana é produzida pelo colombiano Nadín Ospina, como na série Críticos del High-Tech (1993, Fig.1), na qual as peças trazem a imagem de Bart Simpson, personagem mordaz de uma série de desenhos norte-americana difundida massivamente pelo cinema e pela TV. As peças apresentadas foram elaboradas com materiais e métodos iguais aos utilizados pelas culturas pré-hispânicas para fabricarem os seus objetos de culto. O artista contratou especialistas em falsear peças pré-hispânicas para elaborar as peças por ele. Fig. 1. Nadín Ospina. Visão do conjunto de obras chamado Críticos del High- Tech, 1993. Instalação com 25 peças de cerâmica (24X10X12 cm) e fórmica. Fonte: http://www.nadinospina.com/ , acesso em 10.10.2014. A série Críticos del High-Tech (1993, Fig.1) e demais esculturas assinadas por Ospina (ver Fig.2 ,2000) mesclam o passado pré-hispânico produzido por falsificadores com a cultura massiva dos personagens norte-americanos. Ao fazer tal operação, o artista se torna um atento comentador da cultura contemporânea levantando questões sobre a aceitação do simulacro ou até a preferência por este em 1 Neste ensaio é dada ênfase às produções artísticas posteriores aos anos sessenta, muito embora reações contra os parâmetros hegemônicos da arte já possam ser observadas nos modernismos dos anos 20 e 30 em diversos países da América Latina, caso, por exemplo, dos Muralistas no México, de Pedro Figari no Uruguay, de Tarsila do Amaral no Brasil entre outros. 3 detrimento da verdade. A obra de Ospina também evidencia a complexidade da cultura latino-americana ao mesclar o passado e o presente, levantando a incerteza se o passado pré-hispânico ainda não perdura e até que ponto o faz, por fim, podemos dizer que a obra de Ospina também mescla o caráter popular, massivo e imperialista dos personagens de desenhos animados norte-americanos com o caráter elitista das obras escultóricas sob pedestal e ou superprotegidas atrás de vidros sendo apresentadas em galerias de arte, o que lhes confere um status de preciosidade. Fig.2. Nadín Ospina. Vaso trípode com efigie, 2000. Cerâmica, 35 X 21 X 22 cm. Fonte: http://www.nadinospina.com/ , acesso em 10.10.2014. Wilfredo Lam (1902-1982) é um artista notável e de singular importância para a revitalização do afrocubanismo nas artes plásticas cubanas, sem desconhecer o caráter ocidental da sua cultura, Lam reivindicou a presença de muitos elementos não ocidentais e de raiz africana. O artista afirmou: Africa no fue sólo despojada de sus hombres, sino también de su consciência. Me irritó que em Paris se vendieran las máscaras y los ídolos africanos como adornos. En éste y mis otros cuadros me propuso poner los objetos negros em función de su paisaje y su mundo propios. Mi pintura es um acto de descolonización, no física pero sí mental. En África me consideran el mejor pintor de ese continente, a pesar de que casi no lo he visitado (MOSQUERA, 1980,p.10-13). Wilfredo Lam não desconhece a pintura européia contemporânea a ele ou anterior, isso fica evidente se lembrarmos que ele estudou, em Havana, pintura e desenho na “Academia de Bellas Artes San Alejandro”, uma academia como qualquer outra da época onde se prezava o ensino pela cópia dos grandes mestres. Além disso, passou 17 anos na Europa, primeiramente em Madrid, onde estudou e visitou o Museo del Prado constantemente e depois foi em busca do já famoso Pablo Picasso em 4 Paris, artista que já colecionava esculturas africanas, Picasso se tornou seu amigo e incentivador de sua produção artística. Fugindo da segunda guerra, Lam retornou ao seu país em 1940, e recebeu o impacto de perceber a população negra na pobreza e marginalização social enquanto para os turistas sua imagem era deformada, mostrava-se para o turista o negro bom, que toca tambor, dança e demonstra grande sensualidade, esta percepção causou um incrível impacto em sua obra. Lo que encontraba a mi regresso – dice Wilfredo -parecía el infierno – e insiste -: Comerciar com la dignidade de um pueblo equivale para mí al infierno. Mi pintura no sería el equivalente de uma música pseudocubana para clubs de baile. [...] Deseaba, con todas mis fuerzas, pintar el drama de mi país, pero expressando a fondo el espíritu de los negros, la beleza de la plástica de los negros( LAM Apud CRUZ, 2009,p.39) Fig. 3. Wilfredo Lam. La jungle, 1943. Museo de Artes Visuales de Monterrey. A produção artística de Manuel Mendive (Cuba, 1944) também evidencia a presença africana na cultura cubana. O artista pratica a santería e leva para a sua produção artística os mitos yorubas. 5 Fig. 4. Manuel Mendive. Barco Negrero, 1976/2011. http://artizar.es/artistas/manuel-mendive/, acesso 10.10.2014. Serigrafia, 61 X 76 cm. Fonte: Na obra Barco Negrero Mendive retratou a desumana forma na qual foi feita a travessia do mar para o transporte das pessoas vindas da África para serem vendidas como escravos. No barco, identifica-se a bandeira do colonizador Espanhol que traz os futuros escravos. O artista contrasta o ambiente apertado, claustrofóbico, desumano do interior dos porões repleto de escravos com o céu e o mar repletos de vida, no mar existem inúmeras serpentes e no céu uma infinidades de água-vivas, inundando e unindo o mar e o céu, mostrando o elo entre as forças da natureza, tão cara à cultura ioruba. Na cosmovisão iorubá, a natureza é a própria religião. Essa imensidão de referências à vida contrasta-se com a brutalidade da escravidão. No céu, além da água-vivas, também há duas imagens que parecem irradiar vida pelas cabeças, seriam orixás? Aqui vale relembrar que o artista faz parte da religião da santeria, sendo praticante deste a sua infância, Mendive não somente pratica, mas é sacerdote na religião afro-cubana. Nesta obra um negro cai ao mar, suicídio ou forma do escravizador escapar de provas contrárias a si nos anos finais da escravidão? Não sabemos, mas esse negro que se unirá às serpentes, representa a forma de escape da escravidão encontrada pelo povo africano, representa a união com o retorno aos ancestrais, retorno aos 6 outros tempos, retorno representado na imagem da serpente. Na santeria, o mar é chamado de o grande cemitério, onde estão milhares de ancestrais, portanto a solução deste homem que se joga ao mar é voltar às suas origens, voltar aos ancestrais. Esta foi e ainda é a busca e a salvação de muitos desses homens. Outra obra contemporânea onde a artista provoca o debate étnico, em específico, pensando na mulher paraguaia é a obra de Claudia Casarino (2009, Fig.5). A artista nos apresenta três vestidos brancos, pendurados no vazio, um sobre o outro, a luz reflete na alvura do tecido, espalha-se o brilho pela sala, onde também há um bilhete da artista, onde faz referência à magnífica pintura de Juan Manuel Blanes, clamada La Paraguaya ou La Patria Desolada. Nesta obra de 1879, o artista uruguaio mostra a comoção pelo desastre da guerra da Tríplice Aliança. Blanes pinta a pátria como uma mulher índia de pés descalços, ela está em pé, entre cadáveres. O céu é imenso e a paisagem não tem vida, aparecem uns urubus ao fundo, rondando as sobras do último combate. Esta índia é a mãe-terra, provedora, guerreira, fértil como a terra. Aparece também a bandeira cobrindo o rosto de um defunto em primeiro plano, quase ao lado está a constituição quase submersa na areia, como construir novamente a pátria que está tão violentada, a resposta de Blanes parece apontar para a mulher índia representante dos povos ancestrais. Mas o que busca Cláudia Casarino ao associar essas duas obras? Por certo, que o espectador aproxime as leituras dessas duas obras e perceba essa outra mulher que também esta de pé e descalça, pois pynandi significa descalça em guarani, essa mulher que Claudia propõe em sua obra que guarda a memória de três momentos diferentes: nem puta, nem deusa, nem rainha. Esta é a mulher, esta é a mãe. Claudia juntou dois tempos históricos ao associar essas obras, juntou a dor e o desalento de La Paraguya à obra Pynandi, talvez para dizer que o sofrimento e o desalento ainda são os mesmos. 7 Fig. 5. Claudia Casarino. Pynandi (ni puta, ni diosa,ni reina), 2009.Fonte: http://4.bp.blogspot.com/_PL4PDJS4l88/S7KmbUZ-x3I/AAAAAAAAAM4/FbXEw4ahkE/s1600/DSC_9952DSC_9952_baja.jpg, acesso 14.10.2004. Fig. 6. Juan Manoel Blanes. La Paraguaya ou La Patria Desolada, 1879. Óleo sobre tela, 100 X 80 cm. Fonte: site do Museo Nacional de Artes Visuales de Montevidéu, Uruguay. Fonte: http://m.mnav.gub.uy/cms.php?o=1083, acesso 14.10.2014. 8 Rosana Paulino é uma artista brasileira que desenvolve seus trabalhos a partir da discussão sobre as suas características quanto à origem étnica, características de gênero e de classe social. Sobre isso a artista declarou em seu blog O artista deve sempre trabalhar com as coisas que o tocam profundamente. Se lhe toca o azul, trabalhe, pois, com o azul. Se lhe tocam os problemas relacionados com a sua condição no mundo, trabalhe então com esses problemas. No meu caso, tocaram-me sempre as questões referentes à minha condição de mulher e negra. Olhar no espelho e me localizar em um mundo que muitas vezes se mostra preconceituoso e hostil é um desafio diário. Aceitar as regras impostas por um padrão de beleza ou de comportamento que traz muito de preconceito, velado ou não, ou discutir esses padrões, eis a questão.(...) Pensar em minha condição no mundo por intermédio de meu trabalho. Pensar sobre as questões de ser mulher, sobre as questões da minha origem, gravadas na cor da minha pele, na forma dos meus cabelos. Gritar, mesmo que por outras bocas estampadas no tecido ou outros nomes na parede. Este tem sido meu fazer, meu desafio, minha busca (PAULINO, blog da artista, 08.10.2014) Fig. 7. Rosana Paulino, Imagem da série Bastidores. Imagem transferida sobre tecido, bastidor e linha de costura. 30cm, diâmetro. 1997. Fonte: rosanapaulino.blogspot.com, acesso 08.10.2014. 9 Na série de obras intituladas Bastidores (1997), a artista utilizou imagens de mulheres negras, são mulheres de sua família, transferidas do registro fotográfico para tecidos, que a artista coloca em bastidores, lançando mão do universo feminino do bordado, na medida que o bastidor é um objeto quase exclusivamente utilizado por mulheres. Sobre as imagens femininas Paulino acrescentou a linha que ao interferir na imagem, acrescenta novos significados, transformando a imagem em uma cena de violência. A linha puxa, costura, boca de uma mulher (ver fig. 7), em outra fecha os olhos. A cena de violência e repressão, não permite que a mulher negra grite, não permite que a mulher negra perceba o mundo e a sua condição neste. Outra obra onde Rosana Paulino trabalha a sua condição no mundo, de mulher e negra, é a instalação intitulada “O Baile” (2004, Acervo do Museu Afro Brasil, São Paulo, SP). Os temas são os ritos de beleza da mulher e a inadequação de ritos com a sua origem étnica. Novamente o processo criativo desta artista incluiu a apropriação de imagens previamente prontas, como a silueta do casal de príncipes, imagem retirada da cultura de massas, amplamente difundida pelos filmes da Disney , este casal baila, remetendo-nos a ideia da realização do título da obra por este casal. A artista ressignifica a imagem, ao trabalhar as silhuetas somente na cor negra, com isso não vemos detalhes da imagem. A instalação também apresenta inúmeros objetos relacionados aos ritos de beleza da mulher dispostos em três prateleiras de vidro, são frascos de perfume, de esmalte para as unhas, todos esses objetos são ressignificados pela artista, em alguns ela inseriu flores em outros fotografias de uma mulher negra, todos ela adicionou a subjetividade, o que nos remete ao universo de sua história de vida. A disposição desses espelhos lembra uma penteadeira, móvel comum em quartos femininos, onde se coloca produtos para o embelezamento feminino. Amóvel sempre propõe um espelho, mas na instalação de Paulino o espelho está ausente e em seu lugar está a imagem fixa de um ideal de beleza expresso pelo casal de conto de fadas. O que a mulher negra que utiliza esses produtos de beleza pode ver nesse espelho falso¿ Somente uma padrão de beleza, inatingível para muitos e em especial para a mulher negra bastante distante das princesas loiras e brancas dos contos de fadas. 10 Fig. 8. Rosana Paulino. O Baile, 2004, instalação. Fonte: Museu Afro Brasil. Um Conceito em Perspectiva, p.285. Fig. 9. Rosana Paulino. Amas de Leite. Instalação com garrafas, fitas brancas e pinturas em tecido. Foto da autora. Galeria de Arte Nello Nuno. 11 Fig. 10. Rosana Paulino. Detalhe da instalação Amas de Leite. Fig. 11. Rosana Paulino. Detalhe da instalação Amas de Leite Fig. 12. Rosana Paulino. Detalhe da instalação Amas de Leite.Fotos da autora. 12 Na instalação Amas de Leite, Rosana evoca imagens de amas de leite, mulheres negras que amamentaram os filhos de seus senhores no Brasil, durante a escravidão. Assim como fez em algumas imagens de mulheres negras da série Bastidores, Paulino cegou essas mulheres ao desenhá-las sem olhos, tirando delas a possibilidade de ver os seus lugares no mundo. As imagens estão pintadas em tecidos, os seios dessas mulheres as unem a garrafas que sugam a produção de leite, a união é feita por fitas brancas, o branco tira o leite dessas mulheres, provavelmente deixando seus próprios filhos sem o provimento do aleitamento materno suficiente, uma condição imposta pela escravidão. Rubem Valentim é um artista das belas formas, sempre alusivas a ancestralidade africana, o tema é sempre o sagrado, a cosmologia. Valentim foi um artista bastante consciente da mestiçagem cultural do povo brasileiro e explicitou as suas idéias em seu “Manifesto ainda que tardio”, do qual destaco o seguinte trecho: A iconologia afro-ameríndia-nordestina-brasileira está viva. É uma imensa fonte – tão grande quanto o Brasil – e devemos nela beber com lucidez e grande amor. Porque perigos existem: como o modismo; as atitudes inconseqüentes, inautênticas; os diluidores com mais ou menos talento, mais ou menos honestidade, pouca ou muita habilidade, sendo que os mais habilidosos e vazios são os mais danosos porque são geradores de equívocos; as violentações caricatas do folclore e do genuíno, as famigueradas “estilizações” provincianas e o fácil pitoresco que levam a um sub-kitsch tropicalizado e ao enfeitismo subdesenvolvido No trecho acima Valentim deixa claro que percebe um Brasil mestiço e é nesta realidade que trabalha admitindo as ancestralidades africanas e indígenas, clama aos artistas que também o façam porque desta forma se evitaria a cópia dos modismos eurocêntricos. O que Valentim propõe para todos é que se apropriem da mescla de culturas que caracteriza a formação do nosso país, sendo também verdade para os demais países da América Latina. Valentim trabalha com os elementos da liturgia africana, une as formas dessa liturgia, justapõe de maneira quase obsessiva, transfigura nas obras que cria, mas as composições abstratas não perdem o caráter sagrado, principalmente se forem apresentadas mais de uma ao mesmo tempo. 13 Fig. 13. Rubem Valetim, Sem Título, Brasília, 87/88, 70 X 50 cm. Acrílico sobre tela. Fonte: Rubem Valentim. O artista da Luz, p. 167 14 Fig. 14. Rubem Valentim. Tupan X Mamon. São Paulo, 1990. Obra realizada para a exposição Armadilhas Indígenas / MASP. 70 X 50 cm. Acrílico sobre madeira com colagem. Acervo do Museu de Arte de Brasília – DF. Fonte: Fonte: Rubem Valentim. O artista da Luz, p. 185. Sobre a obra Tupan X Mamon, Valentim declarou “Tupã é o deus da natureza, dos ecologistas, dos indígenas, da harmonia e da beleza. Mamon é o deus da iniquidade, da avareza, da ambição, é o deus dos madeireiros e dos garimpeiros” (VALENTIM Apud Araujo, 2006, p.184). A consciência da mestiçagem brasileira, e por extensão latino-americana, expressa por Valetim no seu “Manifesto ainda que tardio” é também o que encontramos no poema “Foi Mudando, Mudando” de Jorge de Lima, poema constante dos Poemas Negros. FOI MUDANDO, MUDANDO Tempos e tempos passaram por sobre teu ser. Da era cristã de 1500 até estes tempos severos de hoje, 15 quem foi que formou de novo teu ventre, teus olhos, tua alma? Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão? Os modos de rir, o jeito de andar, pele, gozo, coração... Negro, índio ou cristão? Quem foi que te deu esta sabedoria, mais dengo e alvura, cabelo escorrido, tristeza do mundo, desgosto da vida, orgulho de branco, algemas, resgates, alforrias? Foi negro, foi índio ou foi cristão? Quem foi que mudou teu leite, teu sangue, teus pés, teu modo de amar, teus santos, teus ódios, teu fogo, teu suor, tua espuma, tua saliva, teus abraços, teus suspiros, tuas comidas, tua língua? Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão? Jorge de Lima em “Poemas Negros” Jorge de Lima fez poesia com as palavras, enquanto Belmonte em 1930 o fez com as tintas na obra “As três raças”, o índio, o negro e o branco europeu representado pela caravela, se pode observar como a questão da mestiçagem brasileira é vista de forma adocicada e romanceada nos anos trinta. Belmonte produziu uma imagem potente, repleta de curvas recorrentes característica do movimento Art Deco tão difundido entre os modernistas brasileiros dos anos vinte e trinta, que soube ser pendular entre o internacionalismo e a busca pelas características próprias do país. 16 Benedito Bastos Barreto, conhecido como Belmonte (SP, 1897 – SP, 1947). As três raças, c. 1930. Grafite e guache sobre papel, 44 X 34 cm. Vimos diversos artistas que articulam questões formais, políticas, questões étnicas, artísticas e culturais, cada um a sua maneira. São obras que buscam revelar algo do autor ou de toda a nação do autor, podemos, então, dizer que são obras identitárias do autor ou do corpo social. Vimos artistas que trabalham a sua ancestralidade, que trabalham a questão de serem mestiços, uma característica singular e de muita significância aos latino-americanos, esses artistas caminham entre o trabalho formalista, trazendo índices formais da cultura ancestral, mas também debatem questões sócio-econômicas de um grupo étnico presentes na obra. Em alguns artistas se opta pela primeira opção, caso de Rubem Valetim, em outros casos a segunda opção é bastante evidente, caso das obras de Rosana Paulino, aqui 17 analisadas. Mas os artistas podem associar as duas formas, como a instalação Ama de Leite de Paulino e a série Críticos del High-Tech de Nadin Ospina. Referências ARAUJO, Emanoel (org.). Museu Afro Brasil. Um Conceito em Perspectiva. Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial; Instituto Florestan Fernandes. 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