V Congresso UFV de Administração e Contabilidade e II Mostra Científica
Os desafios do cenário econômico e internacional para a Contabilidade, a Gestão Pública e as Organizações
10 e 11 de maio de 2012 - Viçosa/MG
ANÁLISE DA VIABILIDADE DE EXPORTAÇÃO DE GADO PARA O ORIENTE MÉDIO:
UM ESTUDO DE CASO NO ESTADO DO PARÁ
VIABILITY ANALYSIS IN EXPORTATION OF CATTLE FOR THE MIDDLE EAST: A
CASE STUDY IN THE PARÁ STATE - BRAZIL
Marcia Athayde Matias
Ana Carolina Vasconcelos Colares
Área: Contabilidade
Sub Área: Contabilidade Gerencial.
RESUMO
Este trabalho foi realizado no sentido de contribuir com o mercado de exportação de boi vivo no
Brasil, mais especificamente na região do estado do Pará. Desta forma, este estudo se propôs
analisar a viabilidade técnica e financeira do negócio verificando as condições e regulamentações
da região em um estudo de caso. Através de simulações foi possível chegar aos resultados que,
infelizmente, não coincidiram com as expectativas originais. Quando analisado o VPL, só se
mostrou positivo quando utilizado o melhor preço de venda e a menor remuneração possível por
arroba aos pecuaristas, argumentos insustentáveis e sensíveis a qualquer variação de mercado.
Palavras chave: viabilidade técnica; viabilidade financeira; exportação de boi.
ABSTRACT
This study was performed to contribute to the export market for live cattle in Brazil, more
specifically in the state of Pará. Thus, this study proposes to analyze the technical and financial
viability of the business by checking the conditions and regulations in the region of the case study.
Through simulations it was possible to get the results which unfortunately did not coincide with the
original expectations. When analyzed VPL, it was positive only if used the best sale price and the
lowest possible remuneration to investors, arguments untenable and sensitive to any change in the
market.
Key-words: technical viability; financial viability; live cattle exports.
1 – INTRODUÇÃO
O mercado internacional de carne bovina tem vivenciado mudanças em seu perfil após o
início das exportações de bovinos vivos para posterior abate. Reconhecido como um dos maiores
produtores, consumidores e exportadores do produto no mundo, em 2008 o embarque de bovinos
vivos no Brasil somou US$ 370 milhões e em 2009 alcançou US$ 443,5 milhões (MAPA, 2010).
Conforme dados da Revista AgroAnalysis (FGV, 2009), o Pará começou a exportar boi vivo em
2003. De 2004 a 2006 houve um crescimento acelerado de comercialização externa, sem obrigação
de impostos e com preços vantajosos para os pecuaristas, quando comparados com os preços
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praticados pelo mercado interno. O Pará é responsável por 95% das exportações de boi vivo do
Brasil. Nesse processo de expansão das exportações, tornou-se necessário conhecer o mercado,
regulamentos e demais premissas internas e externas para se atingir um desempenho satisfatório e
em conformidade com o perfil do mercado de exportação de carne bovina, e nos primeiros anos do
desenvolvimento do negócio esse conhecimento ficou concentrado nas mãos de poucos traders que
impunham seus preços aos pecuaristas da região, os quais detinham todo o know-how necessário
para realizar as exportações.
Dessa forma, a pesquisa foi realizada pela necessidade de sistematizar informações aos
pecuaristas que estavam propensos a legitimar uma estrutura própria para realização das
exportações de gado vivo ao exterior, através de uma cooperativa que atendesse aos objetivos de
suas associações de classe. Tem-se aqui como objetivo apresentar os resultados dessa extensa
pesquisa de campo e documental realizada com vistas a proceder a uma análise de viabilidade
técnica e financeira da exportação de boi vivo do estado do Pará para o Oriente Médio através da
organização de uma cooperativa de pecuaristas.
Acredita-se que o extenso material aqui resumido neste artigo possa contribuir com
pesquisadores e demais interessados no estudo da exportação do boi vivo. Ressalta-se que essa
trajetória ascendente de exportações de bois vivos foi reduzida no ano de 2008, com queda nas
exportações associadas a fatores de embarque e de preço, obtendo recuperação a partir do ano de
2009 (FGV, 2009). A receita com as exportações do boi vivo cresceu 48% em 2010, e, em volume,
os embarques cresceram 24%, fruto do reaquecimento dos preços mundiais (ZAFALON, 2010).
Assim, foram analisados alguns aspectos importantes da cadeia, tais como: aspectos legais e
tributários, logística interna do pasto ao porto e externa até a chegada ao destino final,
especificações técnicas, concluindo-se com a projeção de um fluxo de caixa, possível através da
estimativa de investimentos, custos e preço de venda.
2 – REVISÃO DE LITERATURA
Por ser um grande produtor e consumidor mundial, o Brasil possui grande foco de pesquisas
sobre a negociação do boi vivo dentre os temas relacionados ao agronegócio. Esse enfoque se deve
à relevante participação do negócio na economia brasileira, movimentando indicadores de
exportação, financeiros, econômicos e sociais, já que tem potencial para geração de emprego.
Em se tratando de discutir as barreiras encontradas sobre as exportações brasileiras de carne
bovina, tem se discutido principalmente sobre as questões geográficas, comerciais e barreiras não
tarifárias impostas pela União Européia (EU). Sobre essa questão, o estudo de Almeida e Cunha
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Filho (2009) tratou dos impactos econômicos em virtude do banimento de importações de carne
bovina originárias do Brasil para a EU e verificaram uma redução de 6,4% no emprego do setor;
redução de 5,78% no retorno bruto do capital e queda de 2,66% da produção.
Com o intuito de verificar se as barreiras não tarifárias referentes às questões técnicas ou
sanitárias interferem nas vendas externas de carne bovina no Brasil, Miranda (2001) buscou testar
esta hipótese mediante a criação de um modelo estatístico, e verificou que as intervenções
relacionadas a eventos sanitários não se mostraram significativas ou não apresentaram resultados
conclusivos.
Já o trabalho de Schwantes, Campos e Lírio (2010) buscou tratar dos impactos das barreiras
comerciais, tarifárias e não tarifárias, e das barreiras geográficas sobre as vendas brasileiras de
carne bovina ao exterior e encontraram resultados que apontam para a sensibilidade das exportações
brasileiras de carne bovina à renda interna e à renda externa, bem como à distância e ausência de
litoral nos países importadores.
Por outro lado, Cruz e Braga (2009) procuraram analisar o poder de mercado do Brasil nas
suas exportações de carne bovina in natura para a União Européia, mais especificamente, para o
Reino Unido. Os pesquisadores encontraram que a melhoria dos índices produtivos, sanidade do
rebanho e desvalorização do cambio contribuem fortemente para o desempenho favorável das
vendas externas do Brasil. Por outro lado, o diagnóstico de enfermidades pode causar embargos
comerciais e afetar o desempenho do setor, gerando prejuízos e comprometendo o posicionamento
do Brasil como principal exportador de carne bovina mundial, impedindo a expansão para mercados
importantes, tal como se define o mercado exportador dos estados Unidos, maior importador
mundial de carne bovina.
Corroborando com os autores, Gründling et al (2009) também constataram que as barreiras
comerciais e os casos de febre aftosa no Brasil e de BSE (conhecido por mal da vaca louca) na
Europa e nos estados Unidos são fatores que afetam de forma negativa o comércio internacional de
carne bovina.
Mais especificamente relacionado à logística da exportação de carne bovina, Silva Neto e
Caixeta Filho (2009) buscaram identificar possíveis reduções de custos logísticos para o processo
de exportação de carne bovina na cidade de Campo Grande (MS). Nesta mesma intenção de
analisar melhores formas e efeitos econômicos na produção e exportação de carne bovina, Silveira
et al (2010) buscaram verificar os efeitos da Taxa Real de Câmbio nas exportações agropecuárias
no período pós-Real, identificando reais efeitos nas exportações dos agronegócios.
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Já Silva et al (2009), procuraram verificar o comportamento da demanda por carne bovina in
natura produzida no estado de Rondônia, em observância às questões sanitárias, cambiais e de
comércio internacional, bem como estimar prejuízos financeiros por estes causados. Os resultados
mostraram a forte dependência das exportações quanto a questões cambiais e econômicas, e que
eventos dessas naturezas são os principais condicionantes da demanda externa por carne bovina in
natura oriunda de Rondônia.
Ressalta-se artigo publicado por Castanheira (2008), que enfatizou que, entre 2004 e 2007,
as exportações de bois vivos saltaram de US$ 3,8 milhões para US$ 260 milhões, no qual ressalta
que as vendas externas do chamado gado em pé não agrega divisas para o país exportador,
enfatizando que nos últimos anos o Brasil sofreu um duro retrocesso em sua pauta de exportações,
voltando a ser um país exportador de produtos primários com nenhum ou baixo valor agregado, que
em 2008 correspondeu a mais de 60% das vendas externas.
3 – PROCEDER METODOLÓGICO
Quanto aos objetivos, o estudo se caracteriza por ser exploratório e descritivo. De acordo
com Gil (2006, p.43), a pesquisa exploratória é utilizada quando o tema é pouco explorado, e possui
o objetivo principal de “[...] desenvolver conceitos e idéias para a formulação de problemas mais
precisos e hipóteses pesquisáveis em estudos posteriores”. O tema deste trabalho ainda é
considerado pouco explorado diante da relevância econômica em que se constitui. Através da
investigação exploratória, a presente pesquisa tem por finalidade analisar e, assim, proporcionar
maiores informações sobre a viabilidade técnica e financeira da exportação de boi vivo no Brasil.
Desta forma, a pesquisa descritiva também é uma característica do enfoque dos objetivos deste
estudo, podendo ser definida por descrever, narrar e classificar características de uma situação,
estabelecendo conexões entre base teórico-conceitual existente ou de outros trabalhos já realizados
sobre o tema (CHAROUX, 2006).
Em relação aos procedimentos da pesquisa, o presente trabalho é considerado como um
estudo de caso, definido por Cervo, Bervian e Silva (2007, p.62) como “[...] a pesquisa sobre
determinado indivíduo, família, grupo ou comunidade que seja representativo de seu universo”. O
estudo de caso procura o aprofundamento de uma realidade específica, basicamente realizada por
meio da observação direta das atividades do grupo estudado, de entrevistas ou de aplicação de
questionário junto aos informantes para captar as explicações e interpretações do que ocorre
naquela realidade. Os dados foram coletados por meio de entrevistas e premissas econômicas
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conhecidas e foram utilizados para delinear as estimativas de custos e receitas referentes à
viabilidade do negócio objeto de estudo.
Por fim, de posse de todas as informações qualitativas e quantitativas, foi estruturado e
projetado o fluxo de caixa do projeto de investimento, o qual teve sua viabilidade medida através da
utilização da técnica de cálculo do valor presente líquido – VPL por ser metodologia amplamente
aceita pelo mercado financeiro (WOILER; MATIAS, 1996).
4 – ESTUDO DE CASO
Nesta seção são apresentados os resultados dos levantamentos necessários para a realização
da análise de viabilidade técnica e financeira para exportação de bois vivos do estado do Pará para o
Oriente Médio, com enfoque nos aspectos de logística e detalhamento de custos, investimentos e
aspectos mercadológicos.
4.1 – CARACTERIZAÇÃO DO RAMO DO NEGÓCIO NO ESTADO DO PARÁ
Os Animais escolhidos para este tipo de exportação são da raça Zebuína (70%), Taurina
(10%) e Cruzados (20%). Não é sempre essa relação, mas a predominância são os zebuínos. O gado
nelore é melhor para exportação, pois atende todos os requisitos do importador, como: rusticidade,
o ganho de peso rapidamente e o animal é dócil, entre outras qualidades.
Existem dois tipos de gados escolhidos para exportação no estado do Pará:
 Cruzamento industrial: Europeu x Nelore, com peso de fazenda entre 470 kg a 500 kg.
 Comum: Mistura, com peso de fazenda entre 500 a 530 kg.
Por estimativas pode-se inferir que a raça Nelore (B. Indicus - Zebus) representa 80% da
força produtiva da indústria da carne no país. As características da raça como produtora de carne
vem apresentando índices de desempenho econômicos notáveis (RURAL PECUÁRIA, 2011).
O estado do Pará possui o 2º maior rebanho bovino criado em pastagem natural do país, com
cerca de 20 milhões de cabeças em 2009. Em crescimento acelerado, apresenta uma pecuária de
corte baseada em pastagens cultivadas de boa produtividade, principalmente nas regiões do sul e
sudeste do Pará.
As condições climáticas do estado do Pará, com temperaturas estáveis, elevada radiação
solar em termos anuais e umidade durante todo o ano criam condições favoráveis para o
crescimento de espécies tropicais. As diversidades de espécies forrageiras tropicais selecionadas e
liberadas pela pesquisa permitem a implantação de pastagens de alta produtividade e de boa
qualidade (EMBRAPA, 2006).
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As projeções levam a crer que o crescimento da pecuária no estado é irreversível e será
insensato tentar contê-la em face da estabilização ou redução dos rebanhos das outras regiões, dois
são os fatores principais: estima-se um provável aumento da demanda face a melhoria do poder
aquisitivo das classes de menor renda e a crescente demanda do mercado externo, notadamente pelo
gado vivo (EMBRAPA, 2006).
4.2 – MERCADO EXTERNO
A Venezuela configura-se como o principal comprador de gado em pé do País, seguido dos
países do médio oriente, entre os quais destacam-se o Líbano, a Jordânia e o Egito, com ênfase ao
Líbano. Os países árabes são tradicionais importadores de gado em pé. O Líbano era tradicional
cliente da União Européia, com a redução da produção do bloco passou a buscar alternativas a partir
do ano de 2003.
Os motivos religiosos são os principais estimuladores dessas importações, o ritual de abate e
a necessidade de animais inteiros sem mutilação (não castrados), é essencial ao cumprimento destas
determinações religiosas (UFSM, 2005). A demanda por carne fresca dos consumidores locais e as
rigorosas exigências religiosas cobradas pelos islâmicos está fazendo com que o Brasil amplie as
negociações de animais vivos para abate no país de destino.
Dados da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) (FGV, 2009) indicam que o
mercado internacional de animais vivos movimentou em 2009 US$ 2 bilhões, dos quais o Brasil
participa com 13%, sendo que internamente as vendas de animal vivo representam 0,26% do
rebanho nacional e 1,02% dos abates do País. Oriente Médio representou 35% dessa demanda.
Da análise mercadológica inicial, a qual consistiu na realização de entrevista com traders já
instalados no estado, foi levantada a primeira premissa fundamental do projeto: necessidade de
firmar um relacionamento próspero, baseado em confiança e se possível contratos de longo-prazo
com os importadores mundiais. As negociações são longas, e a primeira pode chegar até seis meses
de trabalho até que o primeiro embarque seja realizado. É fundamental a contratação de um
profissional de confiança para realizar as negociações. O idioma é uma barreira e a distância física
também. São necessárias viagens à França e ao Líbano, para realizar contatos e conhecer
pessoalmente os compradores.
Sobre os preços de exportação, estes variam conforme o mercado mundial (boi é
considerado uma commodity), fazendo com que nem sempre se negociem os melhores preços. Outra
questão é a paridade do dólar: corre-se o risco de se negociar por um preço (estimativa em real) e
receber outro valor, em função da variação do dólar. O trabalho dos compradores de boi é muito
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grande, pois somente podem ser embarcados bois que atendam perfeitamente as especificações
internacionais exigidas. De um modo geral, para desenvolver know how no negócio leva algum
tempo.
4.3 – LOGÍSTICA INTERNA
Os compradores vão às várias fazendas para selecionar o gado vacinado e de acordo com as
especificações do cliente, que receberá um brinco com uma seqüência de identificação, a mesma
que será utilizada para o embarque. O gado então é pesado na fazenda para efeito de pagamento ao
produtor rural, e na sequência embarcado para o entreposto, o qual deve se localizar o mais perto
possível do porto, para melhorar a logística de embarque.
O gado sai das fazendas do interior do estado do Pará dentro de caminhão boiadeiro com
cerca de 20 a 20 animais, ou em carretas boiadeiras que levam cerca de 30 a 40 animais. Neste
trajeto das fazendas até o porto escolhido, o animal sofre uma perda no peso de 7% em média. A
distância média, para efeito desta análise, considerando que todo o gado embarcado sairá do sul e
sudeste do Pará, é de 700 km, do pasto ao entreposto e aproximadamente de 100 km, do entreposto
ao porto.
Em 2010 o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) através da
Instrução Normativa n. 13 regulamentou os procedimentos de embarque e pré-embarque.
4.4 – LOGÍSTICA EXTERNA
O navio de bandeira estrangeira chega ao estado do Pará pela Baía do Marajó, neste
momento a praticagem da barra é acionada para que possa levá-lo até o porto Barcarena. O serviço
de carregamento leva em média dois dias, quando não existem atrasos de caminhão, condições de
maré e outros fatores alheios, que podem fazer com que o período se estenda até cinco dias. Descida
a rampa do navio, é feito um ajuste de um corredor cercado e estreito (embarcador) que servirá de
passagem do animal até o interior do navio. A bordo os animais são acomodados em baias pela
tripulação do navio-curral. Também ocorre paralelamente, o carregamento de ração, feno e de água.
No percurso da viagem a cada três dias os bretes (baias) são lavados e o material orgânico jogado
ao mar. A cadeia logística se encerra com o embarque e envio dos bois através de frete marítimo
internacional para o Oriente Médio. Alguns importadores possuem seus próprios navios, enquanto
para outros é necessário agenciar um navio boiadeiro no mercado internacional.
A viagem do Pará até o porto de Beirute (Líbano) dura aproximadamente entre 17 a 22 dias
dependendo das condições climáticas e do navio. Um ciclo completo, portanto (ida e volta), leva em
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torno de 35 dias. Esta análise é importante para avaliar que é necessário o agenciamento de dois
navios simultaneamente para que seja possível manter uma constância de pelo menos um embarque
mensal.
A contratação de navios boiadeiros no mercado internacional também é um ponto sensível
na análise de viabilidade do negócio em virtude da escassez deste tipo de embarcação, que é
específica.
4.5 – OPERAÇÃO PORTUÁRIA
A operação portuária abrange os serviços de carga e descarga de navios, que inclui a
movimentação das cargas nos terminais portuários, a contratação e supervisão da estiva, de
materiais de estiva e equipamentos especiais de carga, descarga e o controle da transferência da
carga entre navios e armazéns. Os serviços de estiva compreendem as atividades realizadas pelos
operários estivadores exercidas na orla marítima (dentro do porto) referentes às atividades de
movimentação de mercadorias nos conveses ou porões das embarcações principais ou auxiliares,
carregamento e descarga das mesmas, quando realizadas com equipamentos de bordo, e mantidos
os serviços de estiva a bordo quando operados com equipamento de terra, nas operações de
carregamento e descarga de embarcações.
Capatazia, despesas portuárias ocorridas desde o momento em que a carga passa pelo portão
do terminal até o momento em que é colocada ao lado do navio para embarque. Esse trabalho é
realizado pelo operador portuário e, de um modo geral é de responsabilidade do armador e não dos
donos da carga.
Os procedimentos de embarque começam com a chegada dos caminhões boiadeiros no porto
e devem ser realizados pelos estivadores, que são coordenados pelo operador portuário, com a
presença de vaqueiros do exportador.
4.6 – DESPACHO ADUANEIRO
É o procedimento fiscal pelo qual se processa o desembaraço aduaneiro da mercadoria
destinada ao exterior. Após entrevistas com escritórios especializados no assunto, obteve-se a
informação de que uma vez constituída a cooperativa, é necessário realizar o cadastramento desta
na Receita Federal, nomeando o despachante responsável junto a esse órgão. Também é necessário
solicitar junto à Fazenda Estadual a isenção do ICMS sobre exportação, visto que esta não é
automática, tais quais os impostos federais.
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O trabalho do despachante começa com o recebimento da listagem contendo a numeração
dos bois, conforme os brincos colocados, com a especificação da origem (qual propriedade), com
pelo menos 72 horas de antecedência do momento do embarque juntamente com os comprovantes
de vacina dos animais. Com esta listagem o despachante solicita autorização ao MAPA, para obter
a licença de embarque.
O desembaraço junto à Receita Federal se dá a posteriori, um tipo de procedimento
específico para cargas vivas, no qual a carga é liberada mediante compromisso de finalizar o
procedimento de despacho após sua saída. A documentação para exportação é importante tanto
para a negociação do produto como para o ingresso do produto no mercado para o qual se esta
exportando, existindo a padronização de alguns documentos, porém com modelos diferentes
conforme o país importador.
4.7 – COOPERATIVA DE PRODUTORES RURAIS
A estrutura mínima da cooperativa exige 20 cooperados, com constituição de Conselho
Fiscal e Conselho de Administração. A contratação de profissional de mercado para gerenciar é
aconselhado, mas este não pode ter relações de parentesco com os Conselhos Fiscal ou de
Administração.
Sobre os encargos sociais, a cooperativa recolhe para seus funcionários não cotistas
percentuais de encargos iguais às empresas com fins lucrativos. Em relação à questão tributária, de
modo geral está isenta de Imposto de Renda e Contribuição Social Sobre o Lucro por não ter fins
lucrativos. Os demais impostos incidem com algumas particularidades. Nesta análise não serão
considerados impostos, pois se trata de exportação.
Para atendimento as necessidades, a estrutura poderia ser composta por dois escritórios,
sendo a matriz em município a definir no sul do Pará, um escritório-dormitório próximo ao porto de
embarque, além do entreposto. Uma estrutura relativamente simples, uma vez que as atividades de
negociação, operação portuária e despacho aduaneiro são terceirizadas.
4.8 – PREMISSAS, CUSTOS E INVESTIMENTOS NECESSÁRIOS ASSUMIDOS PARA O
PROJETO

Limite temporal: o fluxo de caixa foi estruturado para cinco anos, a partir do ano de 2007.

Taxa de desconto: taxa anual de 15%, considerando o custo de oportunidade do capital
investido (representado pela SELIC) acrescido de um plus para captura do risco do negócio.
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
Moeda de análise e paridade: utilizado o dólar americano, com paridade utilizada: USD = 2,15
Real.

Impostos e encargos: calculado ICMS sobre frete e encargos sociais sobre os empregados da
cooperativa. Foram calculados encargos sociais de 60% sobre mão-de-obra contratada.

Produção e receita: embarque a cada 20 dias de 2.200 cabeças de boi com 520 quilos em média
cada, sendo o valor praticado de USD 950/ton pesada no porto do país de destino, considerando
perda de peso no transporte internacional de 7% .O primeiro embarque foi estimado para o
sexto mês de operação.

Custos envolvidos no transporte dos bois da área rural até o entreposto: frete, R$ 1,50 por km
rodado (1.400km ida e volta) dos caminhões boiadeiros, sendo ICMS sobre frete 17%. Emissão
de duas Guias de Transporte de Animais - GTA, sendo uma do campo ao entreposto e outra do
entreposto ao porto. R$ 2,00/cabeça de animal cada.

Investimentos necessários para o entreposto: foram calculadas benfeitorias tais como melhorias
no terreno, bebedouro, cerca elétrica e outras, totalizando R$100.000. Além das benfeitorias,
gastos operacionais foram considerados para a manutenção e funcionamento do entreposto tais
como o aluguel do pasto com 500 hectares por cerca de R$10.000 mensais, e a manutenção
geral incluindo adubação, manejo e conservação do pasto, custos com pessoal e produtos
químicos, na ordem de R$ 20.000/mês. Valores obtidos através de entrevistas com pecuaristas.

Custos envolvidos no transporte marítimo: Haja vista que o custo do frete marítimo
internacional é do importador, foram considerados somente os custos com ração e feno. A ração
pode ser comprada em Belém em indústrias que a produzem localmente. O consumo estimado é
de 3kg por dia por cabeça de animal, a um custo original de R$15,23 a saca com 25kg. Em
relação ao feno, é importado principalmente de Minas Gerais. Consumo de aproximadamente
10 quilos por animal por dia (1,8%/PV - peso vivo/dia) custo de R$ 0,15 por kg e frete estimado
em 5% do valor da carga.

Custos de operação portuária: a principal modalidade de cobrança da operação é através de taxa
de administração sobre os custos totais do embarque no percentual de 25%. Sendo que os
principais custos são a mão-de-obra, paga ao Órgão Gestor de Mão-de-Obra (OGMO), e as
tarifas portuárias (pagas a CDP).

Embarque de bois e feno: em função da variação grande de custos, foram trabalhados valores
fixos para embarque de bois e feno e ração, correspondentes aos valores médios finais que
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estavam sendo praticados pelo operador portuário à época. Embarque de gado: R$ 35,60 /ton.
embarcada e o embarque de feno e ração: R$ 13,50 /ton. embarcada.

Custos de despacho aduaneiro e trading: custo do despacho aduaneiro por processo: R$
5.800,00 (obtido com o escritório despachante) e custo de negociação: 3% do valor das vendas
negociadas.

Custos de abertura, legalização e manutenção da cooperativa: custos com assessoria,
treinamento e emolumentos necessários para a constituição R$ 5.980,00 (obtido com o
escritório de contabilidade especializado).

Estrutura e custos do escritório geral no sul do Pará (mensal): foram considerados: aluguel,
compradores de boi, pesadores de boi, secretárias, gerente, despesas de energia elétrica e água,
telefone e internet, combustível e manutenção e contador. Estrutura e custos do escritório
dormitório (mensal): aluguel, secretária, despesas de energia elétrica e água, telefone e internet
e veículo.
Resumo das premissas apresentado abaixo.
Benfeitorias e constituição

Benfeitorias no entreposto: ....................................R$ 100.000

Benfeitorias nos escritórios Belém e sul do Pará: ....R$ 21.000

Veículo: .................................................................R$ 60.000

Assessoria para constituição cooperativa: .............. R$ 5.980

Despesas de mobilização de cooperados: ............... R$ 5.000

Outras despesas iniciais: ........................................ R$ 5.000

Investimento em Capital de giro para seis meses

Manutenção do escritório Sul do Pará: .. R$ 121.320

Manutenção escritório Belém: ............... R$ 14.520

Manutenção do entreposto:.................... R$ 120.000
 Total de investimentos iniciais: ............................ R$ 452.820
Custos fixos
 Manutenção anual do escritório Sul do Pará ........... R$ 242.640
 Manutenção anual escritório Belém ........................ R$ 29.040
 Manutenção anual do entreposto ............................. R$ 25.000
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Custos variáveis
 Trader.....................................................................3% sobre receita
 Despachante ........................................................... R$ 5.800 por processo
 Frete interno ........................................................... R$ 1,50/km x 1400 km -entreposto
 Frete interno ........................................................... R$ 1,50/km x 200 km -porto
 ICMS s/ frete .......................................................... 17%
 GTA ....................................................................... R$ 1,00 x 2 por animal
 Feno ......................................................................R$0,15 kg x 10kg/dia
 Frete s/ feno............................................................ 5% do valor bruto
 Ração .....................................................................3 kg/dia x R$ 0,61/kg
Receitas
 Peso estimado por animal na chegada ao destino ....483,6kg
 Receita por ton. ...................................................... US$ 950
 Quantidade anual de animais embarcados ............... 18 embarques x 2.200 animais
Demais premissas
 Taxa de desconto .................................................... 15%
 Paridade considerada. ............................................. R$ 2,15/ US$ 1,00
 Taxa de crescimento. .............................................. 10% ao ano
 Período considerado. .............................................. 5 anos.
5 – RESULTADOS ENCONTRADOS
5.1 – CÁLCULO DO VALOR PRESENTE LÍQUIDO – VPL
Pela característica do empreendimento o cálculo do VPL foi obtido pela diferença entre as
receitas previstas e os custos previstos e assim o valor obtido foi rateado entre as unidades de
animais exportados para análise do resultado por animal. Essa análise é interessante, dividir o
resultado pela estimativa do número de bois exportados, pois o resultado será rateado pelos
cooperados, chegando-se a uma remuneração média dos bois por arroba.
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Portanto, o valor de corte que indica se o projeto é bom é o valor de R$ 48,00 a arroba, valor
praticado pelos compradores de boi à época da análise, seguem as projeções conforme apresentado
na Tabela 1 e 2:
1- Simulação original: com base nas premissas descritas no projeto:
Tabela 1: Remuneração final em Reais por arroba.
ANO 1
ANO 2
ANO 3
ANO 4
ANO 5
40,08
40,14
40,20
40,26
40,31
Fonte: elaboração propria.
Interpretação: projeto não atraente do ponto de vista financeiro.
2- Simulação otimista considerando o melhor preço de negociação US$ 1.050 por tonelada
embarcada. Mantendo as premissas de custos originais.
Tabela 2: Remuneração final em Reais por arroba.
ANO 1
ANO 2
ANO 3
ANO 4
ANO 5
45,85
45,92
45,96
46,03
46,03
Fonte: elaboração propria.
Interpretação: projeto não atraente do ponto de vista financeiro.
3- Simulação considerando o menor valor de remuneração possível por arroba embarcada,
neste estudo de caso em R$ 43,00. Mantendo as demais premissas de custos originais.
Haja vista que com base nas premissas originais o valor final encontrado por arroba foi
inferior a R$ 48, que no momento T 0 era o valor ja praticado no mercado exportador, como última
análise foi levantado um VPL com uma outra ótica. Ao invés de confrontar receitas e despesas do
projeto e divivido o valor final obtido pelo número de bois exportados para encontrar o valor
líquido por arroba ser pago para o cooperado, foi estabelecido o valor do preço praticado no
mercado interno para abate local, R$ 43, como ponto de corte para que fosse possível calcular o
lucro e o VPL do projeto. Dessa forma, o valor de R$ 43/@ foi incluído como um custo do projeto
para fins de cálculo.
Resultados atingidos
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
Simulação original:

VPL : US$ (3.708.593)

Simulação com melhor preço de venda:

VPL : US$ 3.619.226
Interpretação: quando analisado o preço mínimo aceitável por arroba confrontado com o
preço médio praticado no mercado de exportação, o VPL se mostrou negativo. Quando analisado o
preço mínimo aceitável por arroba confrontado com o melhor preço praticado no mercado de
exportação, o VPL positivou.
Sob o ponto de vista do risco associado ao projeto, não se mostrou viável.
6 – CONCLUSÕES
No sentido de contribuir com o mercado de exportação de carne bovina no Brasil, mais
especificamente na região do estado do Pará, este estudo se propôs analisar a viabilidade técnica e
financeira do negócio considerando as condições da região do estudo de caso. Neste sentido, a
pesquisa buscou atingir os objetivos propostos ao evidenciar esta realidade sem vieses de otimismo
ou pessimismo, para formação do juízo geral necessário à tomada de decisão por parte dos
interessados.
Através de simulações foi possível chegar aos resultados quanto ao valor da remuneração da
arroba e ao VPL do projeto, uma vez que todos os aspectos quantitativos foram baseados em
premissas qualitativas, estudadas e estruturadas. Nesse sentido, os resultados financeiros não
coincidiram com as expectativas originais, tendo a remuneração da arroba na situação mais
favorável sido de R$ 45,85 quando trabalhada a estrutura própria versus a remuneração já praticada
pelo mercado de R$ 48,00. Quando analisado o VPL, só se mostrou positivo quando utilizado o
melhor preço de venda e a menor remuneração possível aos pecuaristas, argumentos insustentáveis
e sensíveis a qualquer variação de mercado.
Dessa forma, frente ao risco de iniciar um negócio no qual os pecuaristas não detinham o
know-how, com extrema dependência de terceiros para conduzir o negócio, e ao resultado
financeiro nada otimista, a decisão final foi pela não implantação do negócio.
Um ponto que se observou foi que as empresas que já estavam neste ramo de negócio
possuíam a exportação de boi como renda secundária, recente, após anos de experiência com outras
atividades industriais e de exportação. Isso significa que toda estrutura fixa destas empresas já
estava absorvida por outras atividades, sendo a exportação de bois um custo marginal.
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7 – REFERÊNCIAS
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Sociologia Rural. Porto Alegre-RS, 2009.
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Contabilidade – Teoria e Prática. 3 ed. São Paulo: Atlas, 2008.
CASTANHEIRA, Joaquim. É hora de tirar o boi da linha. Revista Istoé Dinheiro, ed. 549,
09/04/2008.
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Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007.
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3ª Ed. São Paulo: DVS Editora, 2006.
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Brasileiras de carne bovina no período 1996-2006. Anais do 47º Congresso SOBER. Sociedade
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análise da viabilidade de exportação de gado para o oriente