APLICAÇÃO DA LOGÍSTICA NA MELHORIA DO PROCESSO DE EMBARQUE/DESEMBARQUE: UM ESTUDO DE CASO Florisberto Garcia dos Santos UNIP – GO - Av. T-1, 363 –Setor Bueno – Goiânia – GO Daphne Cistine Fernandes UNIP – GO – Av. T-1, 363 – Setor Bueno – Goiânia – GO Wagner Däumichen Barrella UNIP – SP – Av. Dr. Bacelar, 1212 – Sao Paulo – SP Isabel Cristina Satie Yoshida UNIP – SP – Av. Dr. Bacelar, 1212 – São Paulo – SP ABSTRACT: One of the concerns most frequent in the last years in the debates and conferences of the area is the air traffic in the majority of the airports of the world, and, as could not leave of being, Brazil does not run away to this rule. The objective of this research is to study the causes of this growth of air traffic and, mainly, its influences on the operations of arrivals and departures of the Airport of Congonhas. An analogy will go to also become enters a tool of the Engineering of Production, logistic and process of arrivals and departures of passengers in this airport, comparing it with the act of receiving process and forwarding of merchandises in a production string. KEY-WORDS: Arrival- departure, logistic applied, work and setup reduction. 1. INTRODUÇÃO: O tráfego aéreo nos principais terminais aeroportuários do mundo tem sido um problema constante nos últimos anos, principalmente após a popularização cada vez maior deste meio de transporte e o Brasil não foge a esta regra. Aqui também se sente o efeito do excessivo movimento em alguns aeroportos o que acarreta em atrasos nos processos de embarque-desembarque de passageiros. Neste artigo será feita uma análise de um em particular, o Aeroporto de Congonhas, que apresenta um dos maiores problemas aeroportuários do momento, principalmente se analisado pelo aspecto tráfego aéreo. Para isto serão utilizadas várias ferramentas da Engenharia de Produção, fazendo uma analogia entre o sistema de embarque-desembarque do aeroporto com os setores de recepção de matérias e de expedição de uma empresa, mostrando que o aeroporto sob alguns aspectos pode ser encarado como uma fábrica, cujo processo realiza centenas de operações de pousos e decolagens diariamente. Ao se conseguir otimizar o processo, ou seja pousos e decolagens, será alcançada uma melhoria não só no processo em si, mas também em vários outros pontos interligados, por exemplo, a qualidade dos serviços, a segurança de vôo, velocidade de embarque e outros. Como citado inicialmente, o Aeroporto de Congonhas pode ser comparado a uma linha de produção de uma grande fábrica, onde poderíamos comparar o passageiro que chega como a matéria-prima que deve ser processada (fazer o check-in) e em seguida ser transportado até a parte interna da aeronave. O processo de check-in consta de verificação de passagens, documentos e despacho de bagagens, podendo ser considerado um processo rápido e extensamente estudado nas teorias das filas. Já os processos de embarque-desembarque de passageiros, o transporte - acomodação ou desembarque de bagagens e carga são processos mais demorados, que, ao serem estudados, devem levar em consideração os princípios de menor e mais rápido deslocamento, buscando minimizar o tempo de preparação da aeronave. Isso significa dizer que a chegada do passageiro, a realizaçãode check-in, transporte de passageiros, bagagens e cargas ao avião e taxiamento da aeronave compõem o “setup” do serviço (transporte de passageiros-cargas à outra localidade). Em outras palavras, o presente estudo irá se preocupar com o estudo da minimização do “setup” das aeronaves. Dessa forma será demonstrado que a utilização de conceitos e premissas da Engenharia de Produção é capaz de solucionar problemas em diferentes áreas, bastando para isso que se faça uma analogia correta e criativa entre o serviço analisado e a respectiva área de estudo, seja em atividades de manufatura como em prestação de serviço. No caso em questão observa-se que os conceitos de logística são diretamente relacionados e, portanto, passíveis de aplicação. 2. SITUAÇÃO ATUAL DO AEROPORTO DE CONGONHAS: A atual situação do Aeroporto de Congonhas é complicada, uma vez que o mesmo se encontra na área central da cidade de São Paulo e, em função dessa localização, possui uma procura crescente de usuários. Movimento de embarque e desembarque no Aeroporto de Congonhas 10.000.000 Nº DE PASSAGEIROS 9.000.000 8.000.000 7.000.000 6.000.000 5.000.000 4.000.000 3.000.000 2.000.000 1.000.000 0 1950 1960 1970 1980 1990 1999 ANOS Figura 1 – Gráfico mostrando a evolução do movimento de embarquedesembarque no Aeroporto de Congonhas Fonte (INFRAERO) Além disso, a maior parte das atividades acontece simultaneamente e, praticamente no mesmo lugar, o que prejudica o processo de embarque-desembarque. A área reservada às aeronaves comerciais no pátio do Aeroporto de Congonhas é de 57.447 m2, com 24 boxes para estacionamento de aeronaves. O terminal de passageiros tem 37.311 m2, com 5 salas de embarque 45 balcões de check-in e três esteiras para transporte de bagagens. Estas instalações, que já são pequenas em dias normais de operação ficam ainda mais congestionadas em algumas das seguintes situações: a) às segundas e às sextas, devido ao grande movimento de empresários, políticos ou pessoas ligadas à política, que se deslocam de e para as suas cidades de origem; b) problemas climáticos, o que faz com que o aeroporto feche para operações de pouso e decolagens, fazendo com que as áreas do terminal de passageiros e de check-in fiquem congestionadas. Muitas vezes os problemas climáticos ocorrem em outros aeroportos, mas mesmo assim prejudicam o bom andamento do Aeroporto de Congonhas. Por exemplo, se o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro estiver fechado, o controle de operações do Aeroporto de Congonhas não poderá liberar a aeronave para decolagem, mesmo tendo condições boas de tempo em Congonhas; c) Quando ocorre algum evento de caráter nacional na cidade de São Paulo, como eventos ou feiras, o que faz com que o movimento neste aeroporto aumente consideravelmente. Embarque / Desembarque Av dos Bandeirantes PISTAS Av Washington Luiz Figura 2 – Aeroporto de Congonhas Fonte (Revista Flap Internacional) Outra característica do Aeroporto de Congonhas é que o pátio de estacionamento não é dividido em área de embarque-desembarque, ou seja, a área onde o produto é registrado é a mesma onde ele é embalado e despachado. Outro aspecto observado é a presença de passageiros e funcionários deslocando-se nos pátios do aeroporto. Com isso, vários ônibus ficam circulando no pátio, pondo em risco a vida dos passageiros, inclusive. É como se a matéria-prima ficasse espalhada pelo chão e os funcionários de um modo geral tivessem que ficar desviando da mesma para não danificá-la. Isso sem falar no tempo necessário para o ônibus ir desde o terminal até o avião, ou viceversa, pois como os ônibus têm que dividir espaço com os passageiros (que muitas vezes não se utilizam deste meio de transporte para se locomover, devido à proximidade de seu avião ao terminal de passageiros). Além disso, deve-se destacar que o passageiro tem a preferência, os ônibus quase que invariavelmente têm que ficar esperando longas filas de passageiros que estão embarcando ou desembarcando a pé, fazendo com que a viagem do terminal de passageiros até o avião seja alongada mais ainda. 3. IDENTIFICAÇÃO DOS PROBLEMAS As notícias sobre o aumento de tráfego aéreo no Brasil têm sido freqüentes nos telejornais, tem sido motivo de preocupação e estudos logísticos, conforme se observa em Ballou (1995). Isso tem como conseqüência inevitável, a aplicação de diversos conceitos inerentes à logística, em setores de prestação de serviço que atuam no transporte e deslocamento de cargas e passageiros. Dessa forma, as figuras dos sistemas de embarque-desembarque e do setor de expedição de uma empresa estão muito próximas. Suas funções operacionais sugerem a realização de uma analogia direta entre elas. Assim, o que é considerado fator de medição de desempenho no setor de expedição de uma empresa, também pode ser considerado um fator de medição no sistema aeroportuário, por exemplo: custo de serviço, tempo para entrega e perdas e danos. (Ballou, 1995). Entenda-se por custo de serviço como sendo a somatória dos custos relativos a custo de combustível, custo de estadia e permanência, custo de mão-de-obra. Por sua vez, tempo para entrega, deve incluir o tempo de check-in, a espera para embarquedesembarque, o taxiamento da aeronave, despacho de bagagem, reabastecimento de combustível, a colocação da carga na aeronave e o tempo da viagem propriamente dita. A ausência dos fingers (túneis articulados que levam o passageiro desde o avião até a sala de desembarque ou vice-versa) ocasiona atrasos nos vôos e conseqüentemente, aumento de custos, pois muitas vezes o passageiro tem que ficar aguardando o ônibus para embarcar ou desembarcar da aeronave. Por fim, como indica o nome, perdas e danos referem-se diretamente aos prejuízos ocorridos com as cargas, bagagens e até mesmo passageiros, durante o processo de embarque-desembarque e viagem. Utilizando os conceitos citados por Dias (1996), a redução de custos, melhoria na circulação de materiais, mínima distância, mínima manipulação, segurança e outros, contribuem diretamente com a qualidade e desempenho da movimentação de materiais (cargas e passageiros). No caso de um aeroporto essas condições podem ser alcançadas através das várias ações específicas para determinados processos e/ou de abrangência geral. 4. PROPOSTAS PARA A MELHORIA DO PROCESSO A melhor proposta para o Aeroporto de Congonhas seria a da ampliação do espaço físico do mesmo, porém esta é uma hipótese inviável, já que este aeroporto se encontra cercado pela zona residencial definida pelos bairros do Jabaquara e Campo Belo, o que impossibilita uma eventual expansão. Dessa forma, a única alternativa restringe-se a possibilidade da otimização do espaço físico atual. Para conseguir a otimização do espaço atual são feitas várias sugestões, entre as quais destacam as seguintes propostas como sendo as mais indicadas: • Aproximação da aeronave do local de embarque/cargas/reabastecimento, • Instalação de fingers, • Aumento da área de taxiamento na pista, • Colocação de esteiras para movimentação de cargas, • Divisão da área do aeroporto em área de embarque-desembarque. Essas sugestões são alcançadas através das seguintes ações: a) Remanejamento do hangar da VARIG do local atual para uma outra área mais distante do local de embarque, possibilitando, com isso um ganho de área considerável no pátio. b) Outra proposta seria a da colocação dos fingers citados anteriormente (seta vermelha na figura 3), o que deve reduzir bastante o número de ônibus e de passageiros circulando nos pátios. Essa medida não só agilizaria o processo de embarque-desembarque dos passageiros, mas também faria com que as aeronaves fiquem menos tempo no pátio, possibilitando a realização de novos vôos, ou reduzindo a fila de espera para o pouso. Essa alternativa também diminuiria drasticamente o risco de acidente com os passageiros, pois eles não precisariam mais caminhariam pelo pátio. Ainda para a colocação dos fingers seria necessária a definição de uma área somente para embarque e outra somente para desembarque no pátio, pois hoje o passageiro pode embarcar ou desembarcar em qualquer lugar dessa área, sendo obrigado a se locomover até a aeronave a pé ou de ônibus. c) Poderia-se construir um andar adicional no terminal de passageiros e definir um andar como área de embarque e outro andar como área de desembarque de passageiros. Com isso as aeronaves poderiam estacionar em qualquer parte do pátio, facilitando ainda mais o deslocamento do passageiro. Isso faria com que as empresas pudessem usar sempre os mesmos fingers, que estariam próximo de um portão de embarque ou desembarque e, por sua vez, próximo ao seu balcão de check-in, criando uma rotina conhecida para os funcionários dessas empresas e seus passageiros habituais. d) Construção de uma nova área de embarque-desembarque (setas amarelas) ampliando a atual capacidade em cerca de 30%. Essa construção seria realizada no exato local onde atualmente encontra-se o hangar da VARIG. e) Ampliação das pistas de taxiamento das aeronaves em aproximadamente 50 metros, facilitando a realização de manobras e, conseqüentemente, economizando combustível e tempo. f) Instalação de instrumentos de ILS (Instrument Landing System) também agilizaria a operação de pousos e decolagens, uma vez que os vôos não precisariam ser transferidos para outros aeroportos quando as condições meteorológicas não fossem favoráveis. Essa melhoria reflete diretamente no processo global (aterrissagem, desembarque, despacho de cargas e bagagens, reabastecimento, embarque de passageiros, bagagens e cargas e decolagem da aeronave). O ILS existe hoje em Congonhas só na cabeceira 17R (pista principal em Congonhas, com numeração determinada em relação ao norte magnético, aproximadamente 170 graus e R de Right – direita). A instalação de um ILS na cabeceira 35L seria bastante interessante, já que esta é normalmente a cabeceira utilizada quando as condições climáticas não estão favoráveis (aumentando o tempo de espera e taxiamento das aeronaves). Essas sugestões com certeza não irão resolver a totalidade dos problemas identificados, mas há uma estimativa inicial que serão solucionados ou otimizados cerca de 80% das atividades do processo de embarque-desembarque. A redução no nível de problemas ou melhoria no processo citado, implica numa economia de tempo e de dinheiro para as companhias aéreas. fingers Nova área embarque / desembarque Figura 3 – Planta do aeroporto após implantação das sugestões Fonte (Livro No Ar) A figura 3 mostra a nova configuração do aeroporto após a implementação das mudanças propostas nesse trabalho. As setas amarelas indicam a nova área a ser criada no aeroporto para as operações de embarque-desembarque. Com esse novo layout, acredita-se que o Aeroporto de Congonhas possa atender até 15.000.000 de passageiros por ano, o que representa um aumento de aproximadamente 80% em sua capacidade atual. A aplicação das modificações anteriormente citadas, estão baseadas nos conceitos de melhoria e desempenho do setor logístico desenvolvidos por Ballou (1995) e Dias (1993), conforme se observa na tabela abaixo. Teorias – (Ballou e Dias) Aplicação no aeroporto Custo de serviço Custo de combustível, custo de estadia e permanência, custo de mão-de-obra. Tempo para a entrega Tempo p/ o check-in, a espera p/ embarquedesembarque, o táxi da aeronave, o despacho da bagagem, reabastecimento do avião, colocação de carga no avião e o tempo da viagem. Prejuízos ocorridos com as cargas, bagagens e até mesmo passageiros, durante o processo Perdas e danos de embarque-desembarque. Tabela 1 - Relação das teorias de Ballou e a aplicação no Aeroporto de Congonhas. Também é importante destacar que o desempenho do sistema logístico está direta ou indiretamente associado a outros critérios de desempenho, por exemplo: custos, qualidade, data de atendimento, inovação tecnológica e pós-venda. Um estudo mais profundo poderá estabelecer uma relação mais profunda das diversas visões sobre o assunto e o objeto de estudo (Aeroporto de Congonhas), tornando possível uma ponderação dos elementos e até mesmo uma análise de valores monetários, que justificariam a realização dessas propostas. 5. OBSERVAÇÕES FINAIS Conforme citado no início do trabalho, a comparação entre o setor de expedição de uma empresa e o setor de embarque-desembarque, parece mais claro após os comentários da área de logística relativos ao ganho de tempo e redução de operações no processo. Além disso, a presente pesquisa nos leva a inúmeras considerações relevantes, entre as quais pode-se dizer que a mais significativa é a certeza de que ainda há alternativas para a otimização do Aeroporto de Congonhas. É importante lembrar que muitas das propostas, aqui feitas, podem ser aplicadas em outros aeroportos que sofram problemas semelhantes aos encontrados no Aeroporto de Congonhas. Como pode ser observado na Tabela 1, as teorias da logística, que normalmente são aplicadas ao setor manufatureiro, podem ser aplicadas com poucas adaptações ao setor de prestação de serviços, como por exemplo, o Aeroporto de Congonhas. As teorias a que se referem na Tabela 1, são de Ballou, e corroboram os casos práticos que podem ser aplicados neste aeroporto, como por exemplo a teoria de Ballou que cita os custos de serviço, onde pode-se fazer uma analogia com os custos com combustível, com a estadia e permanência de aeronaves e com o custo de mão-de-obra. Com isso observamos, mais uma vez, que pode-se utilizar as ferramentas da Engenharia de Produção para solucionar problemas que envolvem o setor de prestação de serviços, como no caso do setor de embarque-desembarque do Aeroporto de Congonhas. É interessante destacar que as sugestões ora colocadas, não podem ser avaliadas de forma experimental, mas que, por uma questão de lógica e observação imparcial, acredita-se que se forem realmente aplicadas, podem resultar em grandes melhorias, não só no processo de embarque-desembarque, como também na segurança no deslocamento dos passageiros. 6. BIBLIOGRAFIA BALLOU, R. H. Logística empresarial: transportes, administração de materiais e distribuição física. São Paulo, 1993. BEIGUELMAN, G. LIVRO NO AR. São Paulo. Melhoramentos, 1996. DIAS, M. A. P. Administração de Materiais: uma abordagem logística. 4ª ed. São Paulo. Atlas, 1993. Revista Aero Magazine, nº 53, outubro de 1998 – Ed. Nova Cultural. Revista Flap internacional, nº 292 A, São Paulo, 2ª quinzena de dezembro de 1989/1ª quinzena de janeiro de 1990. http://members.nbci.com/_XMCM/Congonhas/decolagem.htm