XIX ENCONTRO NACIONAL DE GEOGRAFIA AGRÁRIA, São Paulo, 2009, pp. 1-16 AGRICULTURA FAMILIAR E CAPITALISMO: DESAFIOS PARA A CONTINUIDADE DA CATEGORIA NA AMAZÔNIA FAMILY AGRICULTURE AND CAPITALISM: CHALLENGE FOR THE CONTINUITY OF THE CATEGORY IN AMAZONIA Susianne Gomes da Conceição Mestranda em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas/Bolsista FAPEAM. E-mail: [email protected] Therezinha de Jesus Pinto Fraxe Professora Adjunta do Departamento de Ciências Fundamentais e Desenvolvimento Agrícola da Universidade Federal do Amazonas. E-mail: [email protected] Tatiana Schor Professora Adjunta do Departamento de Geografia na Universidade Federal do Amazonas. E-mail: [email protected] Resumo: A agricultura familiar e sua continuidade apresentam-se como pauta de discussão entre os temas pertinentes à questão agrária brasileira. Diante da presença do capitalismo no mundo rural, essa categoria passa a ser concebida como em vias de desaparecimento. Na Amazônia a situação não é diferente: ao tomar como estudo de caso as comunidades de atuação do Projeto PIATAM, localizadas no trecho do rio Solimões, fica perceptível que a inserção da lógica de mercado na agricultura familiar interfere nos modos de produção das populações locais. Seria o fim da agricultura familiar? Essa pergunta foi o ponto de partida para discutir a problemática. Ao final foi possível constatar que a agricultura exercida pelas sociedades amazônicas ainda está centrada na família, apesar das interferências do capitalismo. Palavras-chave: trabalho familiar; rural; populações amazônicas. Abstract: Family agriculture and its continuity are presented as quarrel guideline among the pertinent subjects to the agrarian question in Brazil. Ahead of the presence of the capitalism in the agricultural world, this category passes to be conceived with in disappearance ways. In Amazonia this situation isn’t different: taking as example the communities where Project PIATAM works, located in Solimões River, it was seen the raise of market logic in family agriculture is changing the working of the local people. It would be the end of family agriculture? This question consists in our starting point to argue the problem. Finally, it was possible to evidence that the agriculture practiced for the amazonian populations still is centered in the family, although the interferences of the capitalism. Key-words: family work; agricultural; amazonian populations. 2 XIX ENGA, São Paulo, 2009 CONCEIÇÃO, S. G., FRAXE, T. J. e SCHOR, T. Introdução A questão agrária brasileira apresenta entre os tópicos de debate a continuidade (ou não) da agricultura familiar. Entendida como o tipo de agricultura que envolve gestão e trabalho realizados predominantemente pela família, a agricultura familiar representa ao mesmo tempo uma unidade de produção e consumo que possibilita a produção e a reprodução social (DENARDI, 2001). Além desses fatores, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação-FAO em conjunto com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária-INCRA acrescentam que para haver agricultura familiar é necessário que os instrumentos de trabalho pertençam à família com possibilidade de sucessão. Na verdade o conceito de agricultura familiar apresenta diferentes significações, sendo confundida em períodos anteriores com outros termos como agricultura de pequena produção, agricultura de subsistência, agricultura de pequeno porte, produção de baixa renda, entre outros (ABRAMOVAY, s/data; NEVES, 2007). No dizer de Abramovay a associação da categoria com baixa produção possibilitava ter uma visão da agricultura familiar enquanto algo sem relevância no cenário econômico e com relevância somente no aspecto social. No entanto, analisando a importância da categoria nos países capitalistas centrais fica visível o papel da produção familiar como base da potência agrícola. Em perspectiva não diferenciada, é pertinente ressaltar que a agricultura teve, inclusive, papel de destaque para o início da urbanização no mundo. Ademais, a origem das cidades está, de certo modo, relacionada ao início e ao desenvolvimento de práticas agrícolas pelo homem. Conforme nos lembra Buainain et al (2003:312) o desenvolvimento do meio urbano ocorreu a partir da “apropriação dos espaços rurais”. De outro modo, ao se reportar para a obra de Marx, Mondardo (2008) afirma que sempre ficou evidente a dialética entre campo e cidade, onde coube ao campo suprir de matéria-prima a cidade. Outra “ação” exercida no campo foi separar os camponeses da terra e de seus instrumentos de trabalho lançando-os rumo à cidade para que servissem de força de trabalho na indústria. Discorrer sobre os processos que percorrem a relação agricultura familiar e capitalismo foi a preocupação central desse artigo. Para tanto, foram levantados inicialmente os seguintes questionamentos: Com a crescente inclusão da lógica capitalista na agricultura familiar será o fim desta categoria? Haveria alguma possibilidade de integração total ao mercado? Por meio da literatura levantada sendo Agricultura familiar e capitalismo: desafios para a continuidade da categoria na AMAZÔNIA, pp. 1-16 3 pertinente à temática ficaram registradas duas concepções sobre a questão: a primeira vê a agricultura familiar em vias de desaparecimento. Em contrapartida, o outro segmento tem a perspectiva da continuidade da categoria devido à forma como ela está organizada, não influenciando na sua caracterização. Entretanto, ao tomar como análise uma região como a Amazônia, de que forma se desencadearia tal processo? É a questão posterior, mas não menos importante, sobre a qual houve a pretensão de se investigar. Até mesmo porque não concebemos uma “agricultura familiar homogênea”, mas sim uma categoria que abranja, portanto, particularidades que fazem jus ao contexto socioespacial em que está inserida. A estrutura do artigo contempla cinco partes. A primeira sessão tem o objetivo de tecer uma breve caracterização da agricultura familiar, enfatizando os elementos que a tornam singular diante de outras tipologias de agricultura visualizadas pelos especialistas. A segunda parte apresenta como finalidade analisar a relação entre agricultura e capitalismo, onde se faz referência as duas principais correntes que se remetem em estudar qual o futuro da categoria. Posteriormente, a proposta é apresentar um breve contexto da agricultura familiar na Amazônia, discutindo sua relação com as políticas implantadas na região. Na quarta parte, será feita uma análise da relação entre agricultura familiar e capitalismo, tomando como estudo de caso as comunidades em que o Projeto de Inteligência Socioambiental Estratégica da Indústria do Petróleo na Amazônia- PIATAM desenvolve atividades de pesquisa e extensão. Por fim, na quinta sessão constam as considerações finais com base nas reflexões realizadas ao longo do artigo. Agricultura Familiar: Qual o Significado da Categoria? A agricultura familiar constitui uma categoria que vem sendo trabalhada por pesquisadores ligados a variadas áreas do conhecimento. Tal situação demonstra as diferentes concepções que envolvem seu conceito, os desafios e as perspectivas pertinentes. Em pesquisa realizada por Buainain (2003) o autor dispõe que o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – PRONAF conceitua agricultura familiar como o modelo de agricultura no qual os processos de gestão e trabalho estão ligados, sendo o proprietário (no caso a família) o responsável pelo processo produtivo, porém podendo ter o trabalho familiar complementado pelo trabalho assalariado. Neves (2007) salienta que o termo agricultura familiar pode obter diferentes significados, dependendo do contexto no qual é abordado. No campo político, a título 4 XIX ENGA, São Paulo, 2009 CONCEIÇÃO, S. G., FRAXE, T. J. e SCHOR, T. de exemplificação, o termo significaria um conjunto de produtores agregados via produção e gestão realizadas pelos membros da família. Além disso, a autora defende a idéia que o agricultor familiar se enquadra em uma “categoria socioeconômica”. Tratando sobre a questão, Dionísio (2003) ressalta que a sociedade passou a se organizar em três classes sociais a partir do surgimento do capitalismo, a saber: capitalista, proletário e proprietário fundiário. Ao estudar a relação entre agricultura e modo capitalista de produção e tomando como base a divisão em classes sociais, o autor inicia a discussão questionando qual seria a classe social na qual a agricultura familiar se enquadraria. Tal problemática foi tema de trabalho de diferentes profissionais preocupados em conhecer a agricultura familiar. Afinal, em qual classe a agricultura familiar poderia ser inserida sem correr o risco de descaracterização? O desenvolvimento da agricultura familiar no Brasil remonta a década de 1990 quando são criadas as primeiras políticas públicas voltadas para o fortalecimento da categoria, como o Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), além do revigoramento da Reforma Agrária. A criação de políticas públicas voltadas para a agricultura familiar e a Reforma Agrária resultou de reivindicações advindas de trabalhadores rurais e de grupos sociais organizados ligados à causa. Além disso, tais políticas tiveram como fundamento a base conceitual da comunidade acadêmica nacional e os modelos desenvolvidos por agências multilaterais, como a Food and Agriculture Organization (FAO), o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) e o Banco Mundial (DENARDI, 2001). Ao fazer um panorama da agricultura familiar a nível nacional fica perceptível a dimensão da produção agrícola familiar. De acordo com Buainain (2003) 85,2% do total de estabelecimentos agrícolas no país são de agricultores familiares, ocupando 30,5% da área total. Sua contribuição na produção agropecuária fica entorno de 37,9% do valor bruto. Em relação ao valor da renda total agropecuária do país, os estabelecimentos familiares respondem por 50,9% do total de R$ 22 bilhões. Os dados revelam-se contrários a concepções ainda existentes de que a agricultura familiar não apresenta importância no cenário econômico nacional. Pelo que consta os agricultores pertecentes a esse modelo de agricultura fazem uso mais eficiente dos recursos produtivos se comparado aos agricultores patronais. Apesar de deterem menor parcela de terra e financiamento, a agricultura familiar dispõe quantitativo maior de produção e empregabilidade, sendo base para o desenvolvimento econômico (BUAINAIN, 2003). Agricultura familiar e capitalismo: desafios para a continuidade da categoria na AMAZÔNIA, pp. 1-16 5 A forma de trabalho desenvolvido pela agricultura familiar pode ser o aliado para alcançar tais propósitos. No trabalho familiar cada membro desempenha um papel importante, possibilitando uma divisão técnica do trabalho no interior da família. Vale ressaltar que quando a família não consegue suprir sua necessidade de trabalho, este é complementado pela relação de produção denominada de ajuda mútua (a exemplo do mutirão e a da parceria), a qual fortalece a organização comunitária entre os agricultores. Além disso, nas técnicas utilizadas pelo agricultor familiar há a preocupação de manter em equilíbrio os recursos que sustentam a produção. A propriedade da terra apresenta-se como outro aspecto significativo de análise dentro da categoria. Diferente do que ocorre na propriedade capitalista, a característica da propriedade familiar é o de servir como instrumento de trabalho ao proprietário/trabalhador. Assim, a propriedade familiar não explora trabalho alheio (OLIVEIRA, 1996). Por outro lado, a jornada de trabalho não está centrada na rigidez da produção capitalista, sendo o ritmo conforme a época do ano e os produtos cultivados. A jornada de trabalho ainda tem a preocupação de resguardar a biodiversidade da área onde ocorrem as atividades produtivas, sendo comum evitar o empobrecimento do solo e de demais recursos naturais. Entretanto, com as mudanças advindas da influência do capitalismo no rural, inclusive nas práticas agrícolas, o futuro da agricultura familiar emerge como um fato passível de questionamento. Fala-se constantemente em “novo mundo rural”, onde as atividades rurais estão revestidas de modernas tecnologias e com novos modos de organização do trabalho. Pressionada pela lógica capitalista, haveria modificações na estrutura da agricultura familiar? Segundo Denardi (2001) a valorização e o desenvolvimento da área rural constituíram-se em motivos para que o Ministério do Desenvolvimento Agropecuário – MDA elaborasse projetos destinados à agricultura familiar, entre os quais se destacam as atividades agroindustriais de característica familiar. O papel da agroindústria merece destaque nesse projeto, porque ficaria sob sua responsabilidade o beneficiamento e/ou transformação de produtos rurais, abrangendo desde processos mais simples até os mais complexos, incluindo o artesanato no meio rural. O projeto de autoria do MDA deixa clara que a proposta seria integrar a categoria à indústria. Na realidade parte da produção agrícola proveniente do trabalho familiar destinase ao consumo do produtor, enquanto a outra parcela tem como destino a comercialização em forma de mercadoria. Sobre o assunto Oliveira (1996) à luz do 6 XIX ENGA, São Paulo, 2009 CONCEIÇÃO, S. G., FRAXE, T. J. e SCHOR, T. marxismo explica que a distinção entre a produção agrícola familiar e a produção capitalista está no movimento de circulação. Na produção capitalista o movimento obedece a lógica dinheiro-mercadoria-dinheiro, ou seja, seu objetivo é o valor de troca. Em contrapartida, a produção familiar apresenta como movimento a fórmula mercadoria-dinheiro-mercadoria, tendo no valor de uso seu objetivo central. O esforço da produção na agricultura familiar é determinado conforme a necessidade da família. Portanto, não há perspectiva de lucro na produção familiar, diferenciando-se da empresa nos moldes capitalistas. Na agricultura familiar cada membro exerce um papel importante na produção. Conforme mencionado a produção da agricultura familiar visa o atendimento das necessidades do trabalhador e de sua família. Em outras palavras os níveis de produção são determinados pelas necessidades, pois a tendência produtiva da agricultura familiar será proporcional ao tamanho da distância dos objetivos estabelecidos pela família. A obtenção de dinheiro representa meio e não uma finalidade na agricultura familiar haja vista que a conversão da mercadoria em dinheiro se destina a compra de novas mercadorias. Em outras palavras, o objetivo é vender para comprar e assim satisfazer as necessidades do grupo. Todavia, com as transformações que se dá no meio rural, dando-lhe uma nova roupagem, a satisfação do agricultor familiar poderia incluir outros anseios além do suprimento das necessidades básicas. Para Lamarche (1998:62) a existência do agricultor familiar está condicionada a fatores como o “apego a valores tradicionais, o projeto que ele tem para si e para a família e as limitações ligadas ao ambiente imediato”. As dependências tecnológica, financeira e de mercado influenciam na sua relação com a economia de mercado e revelam o grau de autonomia ou dependência da organização da produção agrícola. Friedland (2002) apud Veiga (2006) afirma que definir agricultura hoje apresenta o mesmo teor de dificuldade quanto definir rural, visto que a determinação do fenômeno rural é dependente da atividade produtiva. Entretanto, pelo fato da agricultura está se tornando cada vez mais industrial, o rural torna-se apenas um resquício que abriga o restante de agricultura ainda persistente. Chegaria então um momento em que o rural deixaria de se fazer presente. O surgimento do denominado “novo mundo rural” levanta a idéia para alguns de que a agricultura familiar virá a desaparecer. Preocupado com a problemática, Buainain (2003) formula a seguinte questão de estudo: Ainda há espaço para agricultura familiar no Brasil? O autor aponta alguns desafios enfrentados pela agricultura familiar entre os quais se destacam a escassez de recursos para exploração familiar; problemas com Agricultura familiar e capitalismo: desafios para a continuidade da categoria na AMAZÔNIA, pp. 1-16 7 disponibilidade capital para investimento; restrições de acesso ao mercado de serviços em geral; problemas de mão-de-obra; baixa produtividade; e instabilidade do mercado e dos preços. Quando se faz um diagnóstico da situação vivenciada pelos agricultores familiares fica claro que a categoria enfrenta uma série de dificuldades. E o mais agravante é o fato disso não acontecer de forma isolada, estando presente em todas as regiões brasileiras. As demandas de maior freqüência incluem a disponibilidade de capital de giro e recursos para investimentos. Ademais, ficam registrados os custos elevados com equipamentos e instalações para auxiliar na produção; fato que revela a presença mais constante de sistemas produtivos modernos com uso intensivo de insumos adquiridos no mercado pela agricultura familiar. Por outro lado, Buainain (2003) também relata que a agricultura familiar apresenta potencialidades que, em sua maioria, advém da própria natureza da produção familiar, como por exemplo, a diversificação da produção que constitui uma estratégia de redução de riscos e incertezas. Outro caso de “trunfo” utilizado pela agricultura familiar diz respeito ao baixo nível de capitalização e de uso de insumos industriais, possibilitando a redução da dependência de insumos e serviços de difícil acesso aos agricultores nos mercados locais. Nessa perspectiva, para que haja fortalecimento da agricultura familiar torna-se imprescindível ter uma visão global do problema no sentido em que as demandas não são resolvidas com políticas e ações de caráter isolado. As ações incluem uma estratégia de desenvolvimento nacional, políticas macroeconômicas que visem o crescimento econômico com equidade social, geração de empregos urbanos e rurais, entre muitas outras a serem colocadas em prática (BUAINAIN, 2003). Agricultura Familiar e Capitalismo: Fim da Categoria? O sistema capitalista de produção volta cada vez mais sua atenção para o rural, vendo-o como um espaço de oportunidades para sua expansão. Sabe-se que as cidades representam o centro do sistema capitalista e abrigam os aparatos que permitem sua reprodução. Entretanto, é visível na atualidade a expansão da lógica capitalista no meio rural, incluindo os processos que constituem a agricultura familiar. Vale ressaltar também que o rural vem passando por profundas modificações tendo em vista a expansão urbana com inserção da lógica capitalista na produção familiar. O fim do mundo rural seria uma realidade segundo alguns autores. Lefebvre (1999) argumenta que o tecido urbano corrói os resíduos da vida agrária objetivando a 8 XIX ENGA, São Paulo, 2009 CONCEIÇÃO, S. G., FRAXE, T. J. e SCHOR, T. urbanização completa da sociedade. Na medida em que se generalizam as relações sociais capitalistas, a sociedade perde seu lado agrário para o urbano. Por outro lado, há estudiosos como Kayser que defendem a possibilidade de uma reconquista do rural por meio da chamada recomposição das sociedades rurais, se contrapondo à hipótese anterior. Sobre o assunto Abramovay (1992: 33) apresenta a seguinte colocação: “o desenvolvimento do capitalismo nada mais é que a submissão de todas as esferas da vida social a esta condição atomizada”. Com pensamento semelhante, Oliveira (1996) ressalta que no campo o desenvolvimento do capitalismo pode acontecer através da sujeição da terra ao capital em dois sentidos: por meio da compra da terra para compra/venda; ou via subordinação da produção familiar à lógica do capital. Ao tomar como base de análise a teoria marxista fica registrada a concepção de Karl Marx que a tendência da agricultura familiar é o desaparecimento com o decorrer do tempo, pelo fato da categoria não ter capacidade de competir com a dinâmica do capitalismo. Na realidade, na teoria marxista não fica claro qual o papel da produção familiar no processo econômico de desenvolvimento das nações. Ademais, com o estabelecimento das classes sociais haveria uma tendência de excluir a categoria (DIONISIO, 2003). Segundo o pensamento marxista a penetração do capitalismo no campo é resultado da subordinação da agricultura ao setor industrial. A indústria tem a função revolucionária de extinguir o trabalhador familiar, substituindo-o pelo trabalhador assalariado. Nesse contexto, as modificações que se dão na agricultura familiar inserem as atividades agrícolas no movimento de valorização do capital, atingindo a forma de propriedade da terra, as relações de trabalho e a própria produção agrícola (CORAZZA & MARTINELLI JUNIOR, 2002). Inserido no sistema capitalista o agricultor familiar perde a propriedade dos meios de produção tornando-se num assalariado cuja função é servir a lógica de capital (DIONISIO, 2003). A expropriação a qual o agricultor é submetido, sendo obrigado a se desfazer de suas terras e demais elementos que lhe pertenciam, revela-se na base de todo o processo. Entretanto, é relevante ressaltar que as condições impostas ao agricultor familiar via lógica capitalista não acontecem de forma passiva, haja vista a relação emergir em meio a processos contraditórios. Em pesquisas que retratam a inserção de tecnologias na agricultura familiar, Tschiedel e Ferreira (2002) afirmam que a agricultura não pode ser alheia à economia globalizada. Do mesmo modo como acontece em todos os setores da economia, a Agricultura familiar e capitalismo: desafios para a continuidade da categoria na AMAZÔNIA, pp. 1-16 9 agricultura precisa aumentar sua eficiência e assim tornar-se competitiva. A criação de tecnologias cada vez mais modernas para as áreas da informática, de geoprocessamento, de sistemas de posicionamento global, entre outras disponíveis no mercado, possibilita ao setor agrícola a criação de novas formas de organização do trabalho e influencia na estrutura por completo da categoria. As modificações na agricultura familiar decorrentes da implantação de novas tecnologias e de diferentes formas produtivas estariam tornando o agricultor em empresário rural. A hipótese de eliminação da agricultura com produção familiar foi levantada por autores como Marx, Lênin, Kautsky, Chayanov. A sustentação para tal idéia consiste na passagem da agricultura de sobrevivência para uma agricultura capitalista. A produção deixaria de ter valor de uso, ou seja, não ficaria restrita ao suprimento das necessidades da família. Pelo contrário, com a dominação da agricultura pelo modo capitalista de produção, o trabalho familiar passa a adquirir uma finalidade de valor de troca (fórmula dinheiro-mercadoria-dinheiro). A mudança de papel do trabalhador se constitui em outro fator inevitável, pois integrariam as necessidades do sistema então vigente (DIONISIO, 2003; CORAZZA & MARTINELLI JUNIOR, 2002). Atrelado a tal problemática está o fato da agricultura familiar apresentar uma série de demandas as quais de certo modo inviabilizam o fortalecimento da categoria. Além disso, é necessário ter o entendimento de que as políticas públicas voltadas a atender a agricultura familiar ainda mostram-se insuficientes. De modo geral, tais políticas são direcionadas para atender parcialmente as demandas além de terem características homogeneizantes, não tratando das particularidades de cada região do país. Entretanto, a situação de subordinação ao capital com desaparecimento da categoria pode ser revertida quando os agricultores familiares obtêm apoio suficiente. A importância da obtenção de renda exterior à unidade familiar, por exemplo, fica reduzida se o agricultor for amparado por ações que facilitem sua manutenção no campo. Segundo Buainain (2003) quando o produtor familiar recebe apoio suficiente sua produção excede ao custo de oportunidade de trabalho, oferecendo possibilidades de ir além do autoconsumo. 10 XIX ENGA, São Paulo, 2009 CONCEIÇÃO, S. G., FRAXE, T. J. e SCHOR, T. Políticas na Amazônia e Agricultura Familiar No sentido de trazer a discussão um exemplo que demonstre a gravidade da situação, será feito a seguir uma breve análise da relação entre agricultura familiar e capitalismo na Amazônia. A região amazônica é conhecida internacionalmente por abrigar uma diversidade não só biológica, mas também social. Nela vivem populações humanas que têm uma interação direta com o ambiente e, por isso, sabem a importância da conservação de seus recursos sendo suas práticas direcionadas para a sustentabilidade da região. Entretanto, analisando o histórico de políticas implantadas na Amazônia fica claro perceber que a realidade atual vista na região advém de intervenções realizadas sob o comando do Estado Nacional Brasileiro desde os anos 60 do século XX (STEINBERGER e ALENCAR, 2004). De modo geral, as políticas foram (e ainda são) direcionadas para expansão do capitalismo que, por sua vez, dá pouca ou nenhuma importância para as especificidades dos grupos sociais e do ambiente no qual estão inseridos. Para Alves (1999) com a implantação dos Planos Nacionais de Desenvolvimento há maior expansão do capitalismo na Amazônia através do fortalecimento da aliança entre Estado e empresa privada. As políticas de desenvolvimento adotadas pelo Estado resultaram em degradação ambiental e conflitos pela posse de terra. Com a implantação de políticas desenvolvimentistas na região, a relação homem-natureza teve como determinante a degradação do homem e da natureza. De acordo com os autores, além de afetarem as formas de exploração dos recursos naturais, os impactos provenientes das ações governamentais na Amazônia provocaram uma explosão urbana com o surgimento de núcleos que, por sua vez, servem de base para explorar os recursos da floresta e constroem novas relações com o mundo rural (STEINBERGER e ALENCAR, 2004). Nesse sentido, para o desenvolvimento da agricultura familiar na região é necessário entender que as políticas e demais ações devem levar em conta as peculiaridades pertinentes ao estilo de vida das populações locais, integrando os saberes já construídos. Isso significa dizer que a inserção de novas tecnologias na Amazônia deve ter como objetivo facilitar a relação entre homem e natureza, no qual o conhecimento tradicional passa a ser valorizado no intuito de promover práticas sustentáveis na região, inclusive no que tange à agricultura. As atividades produtivas desenvolvidas pelas populações tradicionais têm como aliada a natureza. Dessa forma, o trabalho realizado através da produção familiar na região está carregado pela preocupação com Agricultura familiar e capitalismo: desafios para a continuidade da categoria na AMAZÔNIA, pp. 1-16 11 o equilíbrio dos elementos relativos ao ambiente. Entretanto, diante das políticas aliadas à expansão do capital torna-se desafiador realizar uma agricultura que envolva ao mesmo tempo sustentabilidade ecológica e desenvolvimento econômico. Vale ressaltar também que não é recente a questão sobre como aliar crescimento econômico e ambiente sem oferecimento de perdas para uma das partes. Segundo Carmo (2006), na Amazônia brasileira a prática da agricultura apresentou maior expressividade com a crise da borracha, porém ainda incipiente. Com as políticas desenvolvimentistas nas décadas de 60 e 70, a região passa por transformações aderindo a uma nova organização espacial. Desse modo, a implantação de projetos voltados para o povoamento, a indústria e a agropecuária propicia o crescimento das atividades agrícolas com maior nível de desenvolvimento técnico e de investimentos. Decorre daí a tecnificação da agricultura na Amazônia, principalmente no sentido Sul da região. Entretanto, a expansão da agricultura na Amazônia não foi de forma homogênea. Semelhantemente ao que ocorreu nas outras regiões brasileiras, os projetos implantados para o incentivo da agropecuária atingiram apenas a minoria detentora do capital. Projeto PIATAM: Um Estudo de Caso O Projeto de Inteligência Socioambiental Estratégica da Produção do Petróleo na Amazônia - PIATAM foi criado em 2000, sendo um projeto de pesquisa socioambiental visando monitorar as atividades de produção e transporte de petróleo e gás natural oriundos de Urucu, uma das maiores províncias petrolífera terrestre brasileira, localizada na floresta Amazônica. De início, o projeto contou com o apoio financeiro do Fundo Setorial de Petróleo e Gás Natural – CT Petro e partir de 2002 passou a obter financiamento da PETROBRAS. Periodicamente, o PIATAM promove excursões para coleta de dados ao longo do trecho do rio Solimões, mais especificamente entre os municípios de Coari e Manaus. Ao total, o PIATAM desenvolve atividades em nove comunidades localizadas na área de abrangência do projeto. Além disso, é importante salientar que o PIATAM concentra suas pesquisas em treze áreas de conhecimento: comunicação, design e multimídia; doenças tropicais; modelagem; limnologia; história do homem; tecnologia da informação; gestão; ictiofauna; solos; flora; macrófitas; entomologia; e socioeconomia. Essa última área de pesquisa atua no PIATAM caracterizando a produção, consumo e uso dos ambientes das comunidades ao longo do trecho de 12 XIX ENGA, São Paulo, 2009 CONCEIÇÃO, S. G., FRAXE, T. J. e SCHOR, T. atuação, além de difundir técnicas de processamento da produção agropecuária e pesqueira das comunidades. No que se refere às práticas agrícolas, fica visível que o sistema produtivo desenvolvido por agricultores familiares são voltados para a sua sobrevivência posto que a produção destina-se essencialmente ao consumo familiar, tendo o excedente comercializado nos mercados próximos. No caso das comunidades localizadas no estado do Amazonas, mais especificamente aquelas onde o PIATAM vem desenvolvendo atividades em parceria com diferentes instituições de pesquisa, foram levantadas como foco de investigação as tendências para a relação entre agricultura familiar e capitalismo. Se anteriormente as atividades caracterizavam-se pela organização comunitária; agora a divisão do trabalho segundo uma lógica de mercado torna-se mais freqüente. Conforme o relato de Fraxe et al (2007) a agricultura familiar nas comunidades delimitadas sobressai pelas práticas de sociabilidade e utiliza técnicas tradicionais que são transmitidas a cada nova geração. Além disso, não se pode esquecer que o trabalho do homem amazônico está intimamente aliado à apropriação dos recursos naturais presentes na região. Ressalta-se ainda que o uso dos recursos ocorre de forma harmoniosa, pois as populações têm o entendimento que os espaços naturais são de uso comum e, portanto, devem ser conservados para o bem da coletividade. De acordo com Noda et al. (2001) o produtor familiar tem o hábito de valorizar os recursos naturais existentes, respeitando seus limites de reprodutividade e exploração haja vista ele deter poucos insumos externos. No que tange às formas de organização social voltadas para o trabalho estão inclusas, além da mão-de-obra familiar, outras práticas comunitárias tais como o multirão, a troca-de-dia e a parceria. No entanto, apesar das formas de ajuda mútua serem correntes na área de estudo, foi constatado a perca gradual da capacidade de mobilização das comunidades locais nos últimos anos devido as demandas impostas pelo mercado. Fica cada vez mais constante a dedicação do trabalhador rural a sua produção individual e com caráter especificado; o que inviabiliza de participar da ajuda mútua dentro da comunidade. A gravidade da situação aumentará na medida em que a divisão do trabalho for mais individualizada através da racionalidade de mercado. Isso acarretará consequentemente no comprometimento da organização da comunidade, assim como dos recursos naturais (FRAXE et al, 2007). Conforme dito, as consequências incluem Agricultura familiar e capitalismo: desafios para a continuidade da categoria na AMAZÔNIA, pp. 1-16 13 ainda o aumento do trabalho assalariado e de desequilíbrios no ambiente em que habitam. Todavia, é pertinente salientar que a intensidade desses fatores varia de comunidade para comunidade e do tipo de atividade predominante em cada uma delas. Ademais, registramos a existência de uma série de dificuldades enfrentadas pelo agricultor local se comparado a outras regiões do país. A primeira demanda que podemos citar trata-se da dificuldade de locomoção, interferindo no escoamento da produção agrícola. Em publicações anteriores mencionamos que tal dificuldade mantém o agricultor dependente das antigas relações de trabalho e troca com o patrão. Por conseguinte, pelo fato da relação trabalhador-patrão impedir a autonomia do agricultor, este se sente obrigado a buscar uma nova atividade que o retire da precária condição. Outro problema ocorrente nas comunidades é relativo aos sistemas de comercialização, o qual se faz presente em todas as atividades desenvolvidas pelos moradores do interior do Amazonas. Entre os tipos de demandas estão o transporte e a venda dos produtos. Entretanto, frisamos que o escoamento é a etapa do processo produtivo de maior dificuldade, que influencia o produtor a aceitar as imposições de outras pessoas. Considerações Finais Diante do contexto aqui explícito, ficaram evidentes as interferências que o sistema capitalista de produção exerce sobre a agricultura familiar no Brasil. Apesar de existir diferentes pontos de vista sobre a problemática, um aspecto no qual os envolvidos concordam é que independente da dimensão com que o capitalismo vem atingindo a produção familiar, tal relação se dá através de contradições oriundas do próprio sistema. Em outras palavras, torna-se pertinente mencionar que é meio a lutas entre as classes sociais envolvidas que a história da agricultura familiar vai sendo construída. Nos países capitalistas centrais o desenvolvimento da categoria foi significativo para o crescimento econômico, contribuindo também para a expansão urbana no mundo. Nos países tidos como “subdesenvolvidos” ou em “desenvolvimento” a promoção da agricultura familiar, inclusive no ambiente urbano, representa uma alternativa para o suprimento alimentar em muitas cidades e povoados. Além disso, situar o papel da agricultura familiar foi fundamental para entender que a relevância da categoria para a manutenção das famílias rurais amazônicas, visto 14 XIX ENGA, São Paulo, 2009 CONCEIÇÃO, S. G., FRAXE, T. J. e SCHOR, T. que essa prática garante a sustentabilidade agrícola, econômica e social. Portanto, constitui-se em tema a ser debatido pelos diferentes segmentos da sociedade, inclusive objetivando o alcance do desenvolvimento regional sustentável. Apesar de existir uma série de dificuldades enfrentadas pelos agricultores amazônicos, compreendemos que ainda é sólida a forma de organização produtiva entorno de práticas tradicionais locais. Ao tomar como exemplo a Amazônia, especificamente o caso das comunidades aonde o Projeto PIATAM vem desenvolvendo atividades em conjunto com as populações locais, notamos que a agricultura familiar representa o tipo de agricultura predominante na região. Entretanto, à medida que o trabalho passa a obedecer uma lógica de mercado, há tendência de enfraquecimento das ações comunitárias e aumento das práticas produtivas individuais. Agricultura familiar e capitalismo: desafios para a continuidade da categoria na AMAZÔNIA, pp. 1-16 15 Referências ABRAMOVAY, Ricardo. Agricultura familiar e uso do solo. In: São Paulo em Perspectiva, v.11, n.02, p.73-78, abril/jun. ALVES, Cláudia. Formação do espaço amazônico e relações fronteiriças. Boa Vista: UFRR, 1999. BUAINAIN, Antônio Márcio; ROMEIRO, Ademar R.; GUANZIROU, Carlos. Agricultura familiar e o novo mundo rural. In: Sociologias, Porto Alegre, ano 5, n. 10, jul/dez de 2003, p.312-347. CARMO, Lúcio Flávio Zancanela do. Agricultura urbana na cidade de Rio Branco, Acre: caracterização, espacialização e subsídios ao planejamento urbano. Viçosa: Programa de Pós-Graduação em Solos e Nutrição de Plantas, 2006. (Dissertação de mestrado) CORAZZA, Gentil; MARTINELLI JUNIOR, Orlando. 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