1 Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento II.1. Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento 1.1. Configuração geral da Serra A Serra de Montemuro apresenta-se, do ponto de vista morfológico geral, como um imponente maciço com vertentes abruptas, constituindo um relevo vigoroso, quase intransponível, e com uma forma grosseiramente triangular, dissimétrica. Características como os declives acentuados, o carácter rochoso dos solos, a dificuldade de acessibilidade e o facto de se encontrar afastada dos eixos principais de circulação de pessoas e bens, terão condicionado a própria ocupação humana, tornando-a uma área com fraca densidade populacional, sofrendo de isolamento, e ainda hoje merecedora da designação atribuída por Amorim Girão, em 1940, de «a mais desconhecida Serra de Portugal» (p. 22). Mas, voltando à analise das suas características físicas, constata-se que a dissimetria presente se deve não só aos factores estruturais, decorrentes da evolução do maciço, sua deformação, magmatismo e fracturação, mas também à acção dos agentes da geodinâmica externa (sendo o clima um dos grandes responsáveis pela modelação do relevo e pela intensidade de actuação dos restantes agentes da geodinâmica externa). A referida dissimetria observa-se quer na direcção N-S, mais acentuada, quer na direcção W-E. A vertente Sul é bastante íngreme (Figura 6), registando-se uma descida abrupta desde os mais de 1300 metros, nos níveis superiores da Serra, a cerca de 300 metros, no vale do Paiva (por exemplo, entre o v. g. de Montemuro, localizado a 1381 metros de altitude, e o Rio Paiva, junto a Ester, a cerca de 270 metros de altitude, verifica-se um declive médio de 15,6%). Quanto à vertente Norte, voltada para o vale do Douro, apresenta um declive geral menos acentuado (entre o v. g. de Montemuro e o Rio Douro, junto a Oliveira do Douro, observa-se um declive médio de 9,7%), embora alguns sectores, junto a este Rio, apresentem declives bastante acentuados (por exemplo, a vertente Norte da Serra do Poio apresenta declives da ordem dos 26,8%). Poderemos tentar explicar a razão desta assimetria através da diferente constituição litológica: a vertente Sul e SW é constituída, essencialmente, por rochas metassedimentares, pertencentes ao Complexo Xisto-Grauváquico, enquanto que praticamente toda a vertente Norte se desenvolve em granitóides. 62 II.1. Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento Figura 6. Corte geológico esquemático da vertente Sul da Serra de Montemuro. 1 – Granito de Montemuro; 2 – Xistos e grauvaques do Complexo Xisto-Grauváquico; 3 – Corneanas e xistos mosqueados do Complexo Xisto-Grauváquico; 4 – Contactos litológicos. Verifica-se também que a vertente Norte se apresenta bastante afectada por falhas e fracturas de orientação NW-SE e NNE-SSW, que terão contribuído, de forma significativa, para a sua degradação, segundo estas linhas de fragilidade tectónica, para o interior do maciço (como se pode constatar no caso do Rio Bestança). A intensa dissecação levada a cabo pelas linhas de água, acentuada pelo nível de base local do Douro a cotas da ordem dos 15-20 metros (na confluência do Rio Paiva) e por volta dos 50 metros (a montante da Barragem do Carrapatelo), terá também contribuído para esta dissimetria. A degradação que estas duas vertentes experimentaram é, aliás, atestada pela quase ausência de vestígios de superfícies de aplanamento (principalmente na vertente Sul/SW), que apresentam um razoável desenvolvimento na vertente oriental e na superfície culminante da Serra. 63 II.1. Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento Ao analisarmos as vertentes Oeste e Este (Figura 7), verificamos a existência de uma dissimetria menos notável. Porém, apesar do maior declive observado na vertente ocidental (Figura 8 ), constata-se que ambas se encontram condicionadas pela presença de acidentes tectónicos, que provocaram o aparecimento de escarpas de falha evidentes, como se referiu no capítulo I: na vertente ocidental, a passagem do nível da Gia para o nível de Castro Daire, e na vertente oriental, a própria vertente Este da Serra de Bigorne, por exemplo. Figura 7. Corte geológico esquemático da vertente Oriental da Serra de Montemuro. 1 – Granito de Lamego; 2 – Xistos Silúricos; 3 – Falhas (F: confirmada; F?: provável); 4 – Contactos litológicos. É neste sector oriental que testemunhamos a existência de retalhos aplanados, razoavelmente conservados, a altitudes que nos permitem estabelecer um paralelismo com as superfícies de aplanamento presentes no Norte da Beira, evidenciados por Brum Ferreira (1978). O sector mais elevado da Serra de Montemuro corresponde a um nível aplanado que se desenvolve a cerca de 1350 metros de altitude, apresentando o ponto mais elevado do v.g. de Montemuro, 1381 metros. Deste nível superior irradiam duas linhas de alturas (Anexo 2): uma para NW, inicialmente descendo até às Portas de Montemuro com direcção WSW (a 1299 metros de altitude), subindo depois com orientação NW, até aos pontos altos da Lameira (1332 metros), do Perneval (1276 metros), 64 II.1. Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento prolongando-se depois para a Serra de S. Pedro (1178 metros) e Pedra Posta (1222 metros); outra para NE, seguindo em direcção à Lagoa de D. João, onde pontuam as elevações de Alto do Cotelo, Ladário 3º (1216 metros), Donas (1184 metros), prolongando-se pelo Alto de Vila Lobos (altitudes acima dos 1000 metros) e Serra do Poio ou das Meadas (1122 metros na Fonte da Mesa). Figura 8. Corte geológico esquemático da vertente Ocidental da Serra de Montemuro. 1 – Granito de Souselo/Moimenta; 2 – Granito de Montemuro; 3 – Corneanas e xistos mosqueados do Complexo Xisto-Grauváquico; 4 – Filão de quartzo; 5 – Falhas (F?: provável); 6 – Contactos litológicos. É de referir, ainda, a Serra de Bigorne (1210 metros, no Penedo do Nuno), localizada a Este de Montemuro, à qual se liga pelo nível de Cruz de Rossão. A área compreendida entre as duas referidas linhas de alturas de direcção NESW e NW-SE encontra-se desmantelada por linhas de água, das quais a mais importante, o Rio Bestança, se encontra condicionado por uma linha de fragilidade tectónica que lhe proporcionou um desenvolvimento preferencial, no sentido NNWSSE. 65 II.1. Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento A Norte de Montemuro, entre o vale de fractura do Rio Bestança (que esventra a Serra de Montemuro a Norte) e o Rio Cabrum, encontramos outra linha de pontos elevados, de menor importância altitudinal, constituída pelo Alto do Talefe (1315 metros), Campo de Déle (1239 metros), Alto da Teixosa (1200 metros), Serra da Gralheira, Castelo D’Alrete (1063 metros), Montado (1018 metros) e S. Pedro (1025 metros). Um último elemento morfológico a referir é a presença de um afloramento ordovícico que dá origem a uma crista. No sector NE, na extremidade da Serra do Poio ou das Meadas, a referida crista é devida à presença de quartzitos, corneanas e xistos bastante metamorfizados, que lhe conferem uma grande resistência à erosão, constituindo um relevo saliente (Fot. 5). Esta crista encontra prolongamento na margem direita do Douro, embora se encontre deslocada, para SSW, por acção de uma falha, de direcção NNE-SSW. Fotografia 5. Aspecto da crista quartzítica (sector Nordeste da Serra) Também é de referir a crista ordovícico-silúrica de Magueija-Meijinhos (Fot. 6), que imprime, de igual forma, uma presença vincada na paisagem e se apresenta, também, deslocada pelo acidente tardi-hercínico Verín-Penacova, dando origem a 66 II.1. Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento escarpas de falha vigorosas e que obriga o Rio Balsemão a correr apertado entre estas e os granitos. Fotografia 6. Crista quartzítica de Magueija/Meijinhos e vale do Rio Balsemão. A Serra apresenta-se bastante dissecada por inúmeras linhas de água, em muitos casos de traçado rectilíneo provocado pela intensa fracturação do maciço granítico e condicionadas pelos rios principais para os quais drenam: o Douro e o Paiva, que correm em vales apertados e sinuosos. Trata-se de um problema clássico da Geomorfologia, o dos vales de fractura em granitos, já tratado, para o caso do território português, por Feio e Brito (1949). Neste ponto vamos analisar os diversos aspectos relacionados com a morfologia da Serra de Montemuro, nomeadamente as superfícies de aplanamento, a rede de drenagem, os vales de fractura e, por fim, e dada a constituição litológica preferencial da Serra, os aspectos ligados à morfologia granítica, propriamente dita. 1.2. Níveis de aplanamento A presença de retalhos aplanados, por vezes relativamente extensos, é frequente no sector ocidental da Serra de Montemuro. A análise destes níveis aplanados realizada por Ferreira, em 1978, conduziu ao estabelecimento de um paralelismo com as superfícies de aplanamento presentes no Norte da Beira, mais concretamente com aqueles que se desenvolvem nos Planaltos 67 II.1. Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento Centrais: a “superfície fundamental” (ob. cit., pág. 89) e a superfície culminante dos Planaltos Centrais. Através da leitura atenta das fotografias aéreas, bem como do minucioso trabalho de campo, foi-nos possível definir as principais superfícies aplanadas da serra de Montemuro (Figura 10), com vista ao seu escalonamento e posterior confronto com os níveis propostos por outros autores para a área em estudo e áreas circundantes (Ferreira, 1978; Pedrosa, 1993). Como anteriormente referimos, o sector oriental empresta, a este trabalho de análise de níveis aplanados, uma maior riqueza, mas, de igual modo, maior complexidade. Aqui encontrámos diversos retalhos aplanados, a várias altitudes, passíveis de ser individualizados como níveis de aplanamento. Também no sector mais elevado da Serra nos foi possível observar superfícies aplanadas, localizadas a altitudes superiores. No sector Ocidental os retalhos aplanados são exíguos e, na generalidade, apresentam-se a baixa altitude, relacionados possivelmente com a dinâmica fluvial recente. A esquematização dos níveis de aplanamento proposta por Ferreira (1978) para a área em estudo, refere para as áreas mais elevadas da Serra de Montemuro, uma série de retalhos aplanados que se desenvolvem a altitudes diversas, escalonando-se entre os 1350 e os 1150 metros. Dentre os vários níveis (Figura 10), o mais elevado e talvez melhor conservado, desenvolve-se a uma altitude de 1350 metros, ocupando uma área substancial (estendese por mais de 4 Km²). Dela levantam-se alguns relevos residuais dos quais destacamos o do v.g. de Montemuro (1381 metros), o ponto mais elevado da Serra e também de todo o Norte da Beira. Imediatamente a Norte encontra-se outro retalho aplanado, na Lagoa Pequena, que se desenvolve em torno dos 1300 metros. Este nível apresenta-se representado mais a ocidente, por um retalho mal conservado, onde se localiza o v.g. Lameira. O nível seguidamente considerado está representado por dois retalhos: um, o de Campo de Déle, localizado a norte da Lagoa Pequena, desenvolvido em torno dos 1240 metros; outro, mais a ocidente, onde pontua o v.g. Perneval, a cotas idênticas mas mais degradado. 68 II.1. Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento Figura 10. niveis de aplanamento 69 II.1. Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento Em torno dos 1150 metros desenvolve-se o outro nível que se encontra melhor representado, localizado a NE e Este da área mais elevada da Serra (até agora analisada): dois retalhos desenvolvidos a essa altitude encontram-se a sul da povoação da Gralheira, desenvolvendo-se um terceiro mais para norte, a oeste da localidade de Feirão. Relacionam-se com este nível os retalhos aplanados na Serra de Bigorne, a qual se liga ao sector mais elevado da Serra de Montemuro através do nível de Cruz de Rossão, que se desenvolve, também, em torno dos 1150 metros de altitude. Os diversos níveis acima descritos desenvolvem-se, do ponto de vista litológico, em diversos tipos de granitos, essencialmente granitos biotítico-moscovíticos, porfiróides, de grão médio (Granito de Montemuro), granitos biotítico-moscovíticos, porfiróides, de grão grosseiro (Granito de Feirão), granitos biotítico-moscovíticos, não porfiróides, de grão fino (Granito de Rossão), entre outros. No que diz respeito a estes níveis, Ferreira refere, inicialmente, a possibilidade de se tratar de «uma mesma superfície deslocada por falhas ou, então, de níveis de erosão distintos, relacionados com um levantamento intermitente» (ob. cit., pág. 243), acabando por colocar a hipótese de «uma deformação em cúpula de uma superfície plana inicial, tendo o material rígido cedido localmente, originando falhas» (ob. cit., pág. 245). Não nos parece que esta hipótese esteja incorrecta, uma vez que, apesar de não nos ser possível evidenciar claramente a ocorrência de falhas, se verifica a existência de degraus bem nítidos entre os retalhos situados a 1350, 1300 e 1240 metros, no sector mais elevado da Serra, o que indiciará a acção da fracturação (Figura 11). A altitude inferior aos níveis anteriormente referidos, desenvolvem-se vários retalhos correspondentes a dois conjuntos de altitudes que se podem considerar de grande interesse. Trata-se do nível dos 1050-1100 metros e do nível que se desenvolve em torno dos 950 metros. Brum Ferreira (ob. cit.) refere o aparente embutimento do primeiro nível relativamente aos superiores, considerando-os, portanto, níveis de aplanamento diferentes. 70 II.1. Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento Figura 11. Corte geológico esquemático dos níveis de aplanamento superiores. I – Nível dos 1350 metros; II - Nível dos 1300 metros; III - Nível dos 1240 metros; 1 – Granito de Montemuro; 2 – Granito de Moura Morta; 3 –Contactos litológicos. No entanto, observemos os retalhos referentes a esse nível (1050-1100 metros). O retalho mais bem conservado diz respeito à área da Lagoa de D. João (Anexo 2), que, como referiremos adiante (ponto 3 deste capítulo), se enquadra dentro dos critérios definidos para as formas alveolares graníticas. Este retalho desenvolve-se a uma altitude de cerca de 1110-1120 metros e é limitado a Sul por um retalho também aplanado, um pouco degradado pelas linhas de água, que apontámos como pertencente ao nível dos 1150 metros. A nordeste encontramos retalhos pertencentes a esse mesmo nível, também rasgado por linhas de água. Apesar de se prefigurar o referido «embutimento entre superfícies de aplanamento distintas», apontado por Brum Ferreira (1978, pág. 245), não nos parece, neste caso, corresponder à realidade. No nosso ponto de vista, este retalho corresponderá à mesma superfície de erosão, que terá sofrido, posteriormente, um abaixamento em relação aos retalhos circundantes, ou por acção do processo de desenvolvimento alveolar (elaboração de mantos de altreração e posterior evacuação de detritos de forma espasmódica), ou, como refere também Brum Ferreira «podendo tratar-se apenas de um retoque erosivo, consecutivo a deslocações tectónicas» (ob. cit., pág. 245). 71 II.1. Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento A Norte desta área, outro retalho se desenvolve a cerca de 1070 metros, sucedendo-lhe a Sudeste um nível a 1150 metros. Julgamos, também aqui, estar perante o mesmo nível de aplanamento, podendo-se apontar duas razões para esta diferença de altitudes: a ocorrência de retoques erosivos, como referimos para o caso anterior, ou o desnivelamento destes retalhos por acção da tectónica, hipótese adiantada em virtude da vertente entre os dois retalhos, com uma direcção NNE-SSW, se mostrar bastante rectilínea e abrupta. Quanto aos retalhos que se estendem desde Nordeste de Feirão até à Fonte da Mesa (Serra do Poio), a altitudes entre os 1040 e os 1110 metros, poderão ser considerados como pertencentes a este nível, estando numa situação de interfluvio sujeito, portanto, a uma maior degradação. Um último retalho relacionável com este nível encontra-se a Oriente, onde se localiza o v.g. Testos (1080 metros). Este retalho apresenta-se desenvolvido à volta dos 1050 metros de altitude, correlacionando-o Brum Ferreira (ob. cit., pág. 245) com a superfície culminante dos planaltos centrais. Na nossa opinião, a diferença altitudinal existente entre este e os retalhos referidos anteriormente poderá dever-se, em parte, ao relativo soerguimento sofrido pela Serra de Montemuro, pela acção da tectónica ao longo do acidente tardi-hercínico Verín-Penacova. Assim sendo, os retalhos aplanados compreendidos entre os 1050 e os 1150 metros poderiam corresponder a uma única superfície de aplanamento, retocados, quer pela acção da tectónica, quer por retoques erosivos posteriores, correspondendo, grosso modo, à superfície culminante dos planaltos centrais, referida por Brum Ferreira (ob. cit.). Quanto aos retalhos desenvolvidos a cotas em torno dos 950 metros, são relativamente mais extensos, nomeadamente no sector Oriental, sendo também mais evidentes. A sua generalização é igualmente importante para a individualização como nível de erosão. Este nível é designado por Ferreira como «superfície fundamental dos planaltos centrais» (ob. cit.), encontrando-se, na Serra de Montemuro, desenvolvidas entre os 850 metros e os 1000 metros. Sobre este nível, achamos necessário tecer algumas considerações, que vão, certamente ao encontro das ideias veiculadas por Ferreira (ob. cit.). O referido nível está bem desenvolvido, como se mencionou anteriormente, no sector Oriental da Serra, proporcionando, de certa forma, a continuidade morfológica 72 II.1. Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento desta superfície para Ocidente dos planaltos centrais. Esta continuidade permite conjecturar a uniformidade morfológica então existente. Os níveis melhor conservados são os de Monteiras e Moura Morta. No entanto, verifica-se aqui um basculamento da superfície para SSW, ocasionando, consequentemente, o decréscimo das altitudes nesse sentido. Assim, o nível de Monteiras apresenta um desenvolvimento entre os 930 metros e os 880 metros(a SSW). Os níveis junto a Moura Morta, desenvolvem-se a cotas inferiores, em torno dos 840880 metros. Parece haver uma certa continuidade do nível de Monteiras para o de Moura Morta, apenas interrompida pelo curso do Rio Paivô. O basculamento desta superfície de Monteiras/Moura Morta terá sido proporcionado, possivelmente, pelo rejogo do acidente tardi-hercínico Verín-Penacova. Para ocidente, os retalhos correspondentes a este nível entre Picão e Eiriz, encontram-se a altitudes superiores a 900 metros, reforçando, assim, esta ideia. Também para Norte de Moura Morta e Monteiras, os retalhos aplanados parecem desenvolver-se a altitudes ligeiramente superiores, entre os 950 e os 1000 metros, como são exemplo o nível de Bigorne (950 metros), o do alto vale do Rio Balsemão, entre Rossão e Pretarouca (920 a 970 metros), e os níveis desenvolvidos nos metassedimentos Ordovícico-siluricos do afloramento de Magueija-Meijinhos (930 a 970 metros). Para Ocidente os retalhos aplanados correspondentes a este nível são menos extensos e bastante degradados, dificultando o seu possivel relacionamento. De qualquer forma, encontramos um nível relativamente extenso mas degradado, em Chão de Madeira, desenvolvendo-se em torno dos 950 metros. Apesar da raridade dos níveis aplanados neste sector Ocidental da Serra, é aqui que encontramos uma situação pertinente. A presença de uma falha de direcção NNESSW (falha do Carrapatelo) desnivela dois blocos. No bloco Oriental, mais elevado, a superfície superior encontra-se ligeiramente aplanada, embora pouco extensa, em torno dos 1000 metros. Quanto ao bloco inferior e Ocidental, identifica-se um nível aplanado, mais perfeito (v.g. Castro Daire), a 770 metros de altitude. Corresponderão estes dois retalhos a uma superfície, desnivelada pela falha? Ou representarão diferentes superfícies de aplanamento? Na nossa opinião seria bastante provável a correspondência entre estes dois retalhos, embora não nos tenha sido possível encontrar elementos comprovativos desta hipótese. Brum Ferreira aponta este acidente como o «responsável pelo desnível de 73 II.1. Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento cerca de 300 metros que separa o patamar de Nabais da superfície em que assenta o vértice Pico Queimado (859 m)» (1978, pág. 228). Abaixo deste nível vamos encontrar uma série de retalhos relacionados com o encaixe recente da rede de drenagem, principalmente com o Rio Douro. Estes retalhos e rechãs desenvolvem-se a altitudes que vão dos 700 aos 250 metros, sendo dificil o seu escalonamento em superfícies específicas, quer pela sua exíguidade, quer pela própria intervenção dos factores estruturais, fracturação e litologia. A. Pedrosa (1993) estabelece, para os níveis inferiores da Serra do Marão, duas classes, uma a 450-550 metros e outra a 250-300 metros, relacionando-os com a evolução da rede de drenagem. Estes dois níveis altitudinais estão representados, também na Serra de Montemuro, sendo que o inferior se encontra a cotas ligeiramente superiores (250-350 metros). No entanto, encontramos retalhos a níveis superiores (em torno dos 600 e dos 700 metros) que não terão ligação directa com os anteriores, mas que poderão estar igualmente relacionados com a evolução da drenagem. Brum Ferreira refere que estas «rechãs mais baixas, que aparecem sobretudo em Rezende, na margem oriental do Rio Cabrum, ao longo do vale do Bestança e em Cinfães, já estão nitidamente ligadas ao encaixe do Douro» (ob. cit., pág. 246). Em suma, podemos estabelecer um escalonamento de cinco níveis de aplanamento diferentes, ainda que apoiados em indícios que não nos garantem certezas, quer pelo facto de não existirem depósitos correlativos que permitam determinar a sua idade, quer pelo facto dos dados altitudinais utilizados poderem ter sofrido a interferência litológica e fundamentalmente tectónica, complicando esse mesmo escalonamento. Analisando os referidos níveis e tentando correlacioná-los com os trabalhos realizados nas proximidades, consideramos a existência de níveis aplanados entre os 850 e os 1000 metros, que, de uma forma geral, corresponderão a uma superfície de aplanamento, de idade pontiana, considerada como “peneplanície fundamental” do relevo do Norte da Beira, por Brum Ferreira (1978). Verifica-se que, tal como havia sido referido por Brum Ferreira, há continuidade da «superfície fundamental dos planaltos centrais» na área em estudo, nomeadamente 74 II.1. Configuração geral da Serra e níveis de aplanamento pelos níveis de Monteiras e Moura Morta (ligeiramente basculados para SSW), de Bigorne e alto vale do Balsemão. Acima deste nível, Brum Ferreira (ob. cit.) apontou o desenvolvimento de retalhos aplanados equivalentes à superfície culminante dos planaltos centrais, desenvolvidos em torno dos 1050-1100 metros. No nosso entender, este nível altitudinal deve ser alargado até aos 1150 metros, pois não nos parece verificar-se aqui um embutimento de duas superfícies de aplanamento distintas, mas sim a acção de um retoque erosivo que terá estado na origem das diferenças altitudinais. Quanto aos níveis que se encontram acima destes, concordamos com a ideia de que se trata de uma única superfície de erosão, deslocada por falhas, que é, consequentemente de génese anterior, logo, mais antiga. No que diz respeito aos níveis inferiores, torna-se difícil o seu escalonamento, como se referiu anteriormente. Porém, os diversos retalhos e rechãs, de génese posterior à elaboração da superfície fundamental, estão, segundo os diversos autores (Ferreira, 1978; Pedrosa, 1993), relacionados com a evolução da rede de drenagem, verificandose, muitas vezes, a influência da neotectónica sobre eles. 75